Elisabeth Roudinesco
     Michel Plon




DICIONRIO DE
PSICANLISE
            TRADUO:

           Vera Ribeiro
             psicanalista
         Lucy Magalhes
          letras neolatinas


 SUPERVISO DA EDIO BRASILEIRA:
 Marco Antonio Coutinho Jorge
       psiquiatra e psicanalista
                          Ttulo original:
                  Dictionnaire de la psychanalyse

          Traduo autorizada da primeira edio francesa
         publicada em 1997 por Librairie Arthme Fayard,
                         de Paris, Frana

            Copyright  1997, Libraire Arthme Fayard

        Copyright da edio em lngua portuguesa  1998:
                     Jorge Zahar Editor Ltda.
                     rua Mxico 31 sobreloja
                   20031-144 Rio de Janeiro, RJ
           tel.: (21) 2108-0808 / fax: (21) 2108-0800
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                  Todos os direitos reservados.
    A reproduo no-autorizada desta publicao, no todo
ou em parte, constitui violao de direitos autorais (Lei 9.610/98)

   Este livro, publicado no mbito do programa de auxlio  publicao,
    contou com o apoio do Ministrio francs das Relaes Exteriores,
da Embaixada da Frana no Brasil e da Maison franaise do Rio de Janeiro.

                 Reviso de texto: Andr Telles
              Reviso tipogrfica: Lincoln Natal Jr.
           Preparao de bibliografia: Marcela Boechat
                Preparao de ndice: Nelly Telles
                         Capa: Carol S


                 CIP-Brasil. Catalogao-na fonte
           Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
            Roudinesco, Elisabeth, 1944 --
R765d          Dicionrio de psicanlise/Elisabeth Roudinesco,
            Michel Plon; traduo Vera Ribeiro, Lucy Magalhes;
            superviso da edio brasileira Marco Antonio Couti-
            nho Jorge. -- Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
                Traduo de: Dictionnaire de la psychanalyse
                Inclui bibliografia
                ISBN 978-85-7110-444-0
                1. Psicanlise -- Dicionrios. I. Plon, Michel. II.
            Ttulo.
                                                CDD: 150.19503
98-1608                                         CDU: 159.964.2(038)
     SUMRIO




Prefcio vii
Sobre os autores x
Agradecimentos xi
Nota  edio brasileira xiii
Abreviaturas bibliogrficas xiii
VERBETES -- A-Z 1
Cronologia 795
ndice onomstico 831
ndice dos verbetes 865
                                    PREFCIO



O primeiro dicionrio de psicanlise, intitulado Handwrterbuch der Psychoana-
lyse, foi elaborado por Richard Sterba, entre 1931 e 1938. Foram publicados cinco
fascculos, at o momento em que a ocupao da ustria pelos nazistas ps fim ao
empreendimento. A inteno era compor um lxico geral dos termos freudianos,
um vocabulrio mais do que um recenseamento dos conceitos: "No desconheo,
escreveu Freud em uma carta a seu discpulo, que o caminho que parte da letra A
e passa por todo o alfabeto  muito longo, e que percorr-lo significaria para voc
uma enorme carga de trabalho. Assim, no o faa, a menos que se sinta interna-
mente levado a isso. Apenas sob o efeito desse impulso, mas certamente no a
partir de uma incitao externa!"1
    Sem dvida, Freud sabia melhor que ningum que um dicionrio pode respon-
der a um impulso interno, a um desejo, a uma pulso. Em sua famosa anlise do
caso Dora (Ida Bauer), ele frisava que um dicionrio  sempre objeto de um prazer
solitrio e proibido, no qual a criana descobre,  revelia dos adultos, a verdade
das palavras, a histria do mundo ou a geografia do sexo.2
    Obrigado a se exilar nos Estados Unidos, como a quase totalidade dos psicana-
listas europeus de lngua alem, Sterba interrompeu a redao do seu Handwr-
terbuch na letra L, e a impresso do ltimo volume na palavra Grssenwahn: "No
sei, declarou vinte anos depois em uma carta a Daniel Lagache, se esse termo se
refere  minha megalomania ou  de Hitler."
    De qualquer forma, o Handwrterbuch inacabado serviu de modelo para as
obras do gnero, todas publicadas na mesma data (1967-1968), em uma poca em
que o movimento psicanaltico internacional, envolvido em rupturas e dvidas,
experimentava a necessidade de fazer um balano e recompor, atravs de um saber
comum, a sua unidade perdida. Diversas denominaes foram utilizadas: glossrio,
dicionrio, enciclopdia, vocabulrio.
    O Glossary of Psychoanalytic Terms and Concepts (180 verbetes, 70 colabora-
dores), obra coletiva publicada sob a gide da poderosa American Psychoanalytic
Association (APsaA), expressava a ortodoxia de um freudismo pragmtico e
medicalizado. Na mesma perspectiva, a Encyclopedia of Psychoanalysis -- rea-
lizada sob a direo de Ludwig Eidelberg (1898-1970), psicanalista americano
nascido na parte polonesa do antigo Imprio Austro-Hngaro e radicado em Nova
York depois de escapar do nazismo -- se mostrava mais ambiciosa, ampliando a

 1. Sigmund Freud, "Prefcio ao Dicionrio de psicanlise, de Richard Sterba" (1936), ESB,
XXIII, 309; OC, XIX, 287-9; GW, Nachtragsband, 761; SE, XXII, 253. Richard Sterba, Han-
dwrterbuch der Psychoanalyse, 5 vols., Viena, Intern. Psychoanalytischer Verlag, 1936-1938.
 2. Sigmund Freud, "Fragmento da anlise de um caso de histeria" (1905), ESB, VII, 5-128.

                                            vii
lista dos verbetes e eliminando a noo de colaborador, em proveito de um
organograma de realizadores (640 verbetes e 40 editors assistentes ou associados).
    Em contrapartida, o Critical Dictionary of Psychoanalysis (600 verbetes) do
psicanalista ingls Charles Rycroft, claro, conciso e racional, tinha a vantagem de
no ser uma obra coletiva. Da a sua coerncia e legibilidade. Rycroft foi tambm
o primeiro a pensar o freudismo sem com isso deixar de considerar a terminologia
ps-freudiana (especialmente a de Melanie Klein e de Donald Woods Winnicott).
 medida que revia o trabalho, incluiu de modo sucinto as correntes da psicanlise
moderna (Heinz Kohut, Jacques Lacan, Self Psychology), com um esprito de
abertura distante de qualquer dogmatismo. A obra de Rycroft serviria de modelo
para alguns empreendimentos do mesmo gnero, na Frana e em outros pases.
    Quanto ao clebre Vocabulrio da psicanlise (417 verbetes) de Jean Laplanche
e Jean-Bertrand Pontalis, foi o primeiro e nico a estabelecer os conceitos da
psicanlise encontrando as "palavras" para traduzi-los, segundo uma perspectiva
estrutural aplicada  obra de Freud. Composto de verdadeiros artigos (de 20 linhas
a 15 pginas), e no de curtas notas tcnicas, como os precedentes, inaugurou um
novo estilo, optando por analisar "o aparelho nocional da psicanlise", isto , os con-
ceitos elaborados por esta para "explicar suas descobertas especficas". Marcados pelo
ensino de Lacan e pela tradio francesa da histria das cincias, os autores conse-
guiram a proeza de realizar uma escrita a duas vozes, impulsionada por um vigor
terico ausente nas outras obras.  a essas qualidades que ela deve seu sucesso.3
    Os insucessos teraputicos, a invaso dos jarges e das lendas hagiogrficas
levaram a uma fragmentao generalizada do movimento freudiano, deixando livre
curso  ofensiva fin de sicle das tcnicas corporais. Relegada entre a magia e o
cientificismo, entre o irracionalismo e a farmacologia, a psicanlise logo tomou o
aspecto de uma respeitvel velha senhora perdida em seus devaneios acadmicos.
O universalismo freudiano teve ento o seu crepsculo, mergulhando seus adeptos
na nostalgia das origens hericas.
    Foi nesse contexto dos anos 1985-1990 que surgiu uma segunda gerao de
dicionrios, muito diferente da dos anos 60. Por um lado, surgiram obras de escola,
nas quais os conceitos eram recenseados em funo de um dogma, e portanto
recortados uns dos outros. Por outro lado, apareceram monstros polimorfos, com
entradas anrquicas e profusas, nas quais a lista dos verbetes, artigos e autores
estendia-se infinitamente, pretendendo esgotar o saber do mundo, sob o risco de
mergulhar as boas contribuies em um terrvel caos. Em resumo, de um lado, o
brevirio; de outro, Bouvard et Pcuchet.4

  3. Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo,
Martins Fontes, 1991, 2 ed. Charles Rycroft, A Critical Dictionary of Psychoanalysis, N. York,
Basic Books, 1968. E. Burness, M.D. Moore e D. Bernard Fine, A Glossary of Psychoanalytic
Terms and Concepts (APsaA), Library of Congress, 1968. Encyclopedia of Psychoanalysis,
Ludwig Eidelberg (org.), N. York, Free Press, e Londres, Macmillan, 1968.
  4.  uma exceo o notvel lxico biogrfico realizado por Elke Mhlleitner para o perodo de
1902 a 1938 sobre os pioneiros da Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras e da Sociedade
Psicanaltica Vienense (WPV). Ver Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psychoana-
lyse. Die Mitglieder der psychologischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener psychoanalyti-
schen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992.

                                              viii
   O presente Dicionrio se ope a essas duas tendncias sem retomar a idia do
Vocabulrio, o que equivaleria a uma parfrase intil. Portanto, ele no  nem um
lxico nem um glossrio, e tampouco  centrado exclusivamente na descoberta
freudiana. Prope um recenseamento e uma classificao de todos os elementos
do sistema de pensamento da psicanlise e apresenta a maneira pela qual esta
construiu, ao longo do ltimo sculo, um saber singular atravs de uma conceitua-
lidade, uma histria, uma doutrina original (a obra de Freud) permanentemente
reinterpretada, uma genealogia de mestres e discpulos e uma poltica.
   Nessa perspectiva,  tambm o primeiro e nico a levar em conta ao mesmo
tempo: os conceitos; os pases de implantao (23); a biografia dos atores (do nas-
cimento  morte); as entidades psicopatolgicas que a psicanlise criou ou trans-
formou; as disciplinas para que contribuiu ou em que se inspirou (psiquiatria, an-
tropologia etc.); os casos princeps (ou tratamentos prottipos) sobre os quais
construiu o seu mtodo clnico; as tcnicas de cura e os fenmenos psquicos sobre
os quais se apoiou, inventou ou que nela se inspiraram; os discursos e comporta-
mentos que modificou em relao ao nascimento,  famlia,  morte, ao sexo e 
loucura, ou que se construram a partir dela; as instituies fundadoras; o prprio
freudismo, suas diferentes escolas e sua historiografia; assim como a incidncia
contraditria de suas descobertas sobre outros movimentos intelectuais, polticos
ou religiosos.
   Foram includos, enfim, os membros da famlia de Sigmund Freud, seus mestres
diretos, os escritores e artistas com os quais ele manteve correspondncia impor-
tante ou contato pessoal determinante, e os 23 livros por ele publicados entre 1891
e 1938, inclusive o segundo, escrito com Josef Breuer (Estudos sobre a histeria),
e o ltimo, inacabado e publicado a ttulo pstumo (Esboo de psicanlise). Foi
acrescentada uma outra obra pstuma, O presidente Thomas Woodrow Wilson, da
qual Freud redigiu apenas o prefcio, mas  qual deu contribuio essencial como
co-autor ao lado de William Bullitt.
   Para esclarecer cada conceito ou entidade clnica e certas disciplinas, m-
todos, objetos de estudo ou comportamentos, cujas denominaes foram criadas
por um autor preciso ou em circunstncias particulares, h no incio desses
verbetes uma definio com caracteres em negrito. Quando estritamente necess-
rio, conservamos o termo em sua lngua original, fornecendo sempre uma expli-
cao adequada.
   Cada verbete comporta seja uma bibliografia dos melhores ttulos, documentos
ou arquivos que permitiram a redao do artigo, seja uma ou vrias remisses a
outros verbetes, onde essas fontes so indicadas, ou ambos.
   No que se refere s 24 obras de Freud, indicamos a data e o local da primeira
publicao em lngua alem, assim como as diversas tradues inglesas e france-
sas, indicando os nomes dos tradutores.
   Uma cronologia foi acrescentada ao final da obra. Encontram-se nela os fatos
marcantes da histria da psicanlise no mundo, desde suas origens.

                                                                       E.R. e M.P.




                                        ix
                        SOBRE OS AUTORES




ELISABETH ROUDINESCO  historiadora, doutora em letras, directeur de recherches
na Universidade de Paris-VII, vice-presidente da Sociedade Internacional de
Histria da Psiquiatria e da Psicanlise, e psicanalista. De sua autoria destacam-se
Histria da psicanlise na Frana (2 vols.), Jacques Lacan: esboo de uma vida,
histria de um sistema de pensamento, e Genealogias -- todos com tradues
publicadas no Brasil.


MICHEL PLON  directeur de recherches no Centre National de Recherches
Scientifiques (CNRS), membro do Centre de Recherche Universitaire Psychana-
lyse et Pratiques Sociales de la Sant (CNRS/Universidade da Picardia), e psica-
nalista.  autor de La Thorie des jeux: une politique imaginaire.




                                         x
                         AGRADECIMENTOS




Este dicionrio no teria se realizado sem a colaborao de diversos pesquisadores
franceses e estrangeiros, que nos ajudaram ou nos deram acesso a seus trabalhos,
muitas vezes inditos.
    Agradecemos a Yann Diener, que consultou revistas e obras em lngua inglesa
e preparou fichas que possibilitaram a redao de vinte verbetes consagrados aos
psicanalistas americanos.
    Expressamos nossa gratido a Per Magnus Johansson, que nos apresentou seus
trabalhos, em preparao, sobre a histria da psicanlise nos pases escandinavos
e redigiu especialmente para este dicionrio textos, comentrios e indicaes sobre
os quais nos baseamos, referentes aos psicanalistas nrdicos (Dinamarca, Finln-
dia, Noruega, Sucia). Alm disso, tambm contribuiu para o verbete "Chistes e
sua relao com o inconsciente, Os".
    Agradecemos a Julia Borossa, que nos esclareceu constantemente sobre a
histria da psicanlise na Gr-Bretanha e sobre os problemas do colonialismo
britnico. Tambm redigiu cinco textos que nos foram preciosos: Girndrashekhar
Bose, Masud Khan, ndia, Wulf Sachs, Donald Woods Winnicott.
    Nossa gratido a Franoise Vergs, que nos confiou seus artigos inditos sobre
Frantz Fanon e a psiquiatria colonialista.
    Somos gratos a todos os que deram sua contribuio  histria da psicanlise
no Canad: lisabeth Bigras, Herv Bouchereau, Jean-Baptiste Boulanger, Mona
Gauthier, Mireille Lafortune, e tambm a Monique Landry e Doug Robinson, que
nos permitiram consultar os impressos da Biblioteca Nacional de Ottawa.
    Agradecemos a Didier Cromphout, que redigiu para este dicionrio textos sobre
a psicanlise na Blgica e nos Pases Baixos.
    Nossa gratido a Mireille Cifali, que nos confiou muitas notas inditas sobre a
psicanlise na Sua, e a Mario Cifali, que nos esclareceu com seus arquivos, seus
comentrios e sua documentao.
    Nossa profunda gratido a Gheorghe Bratescu, que redigiu para este dicionrio
trs textos, extrados de seus trabalhos publicados em lngua romena, sobre a
psicanlise na Romnia.
    Agradecemos tambm a Teodoro Lecman que, durante um ano, fez numerosas
pesquisas bibliogrficas sobre a histria da psicanlise na Argentina, alm de
trabalhos de campo. Agradecemos a Raul Giordano, que nos confiou sua tese sobre
o mesmo tema.
    Agradecemos ainda a Hugo Vezzetti, cujos trabalhos sobre a psicanlise na
Argentina, j publicados ou em preparao, nos foram indispensveis.
    Agradecemos tambm a todos aqueles que nos forneceram informaes ou
documentos para a redao dos artigos sobre a psicanlise no Brasil: Durval

                                        xi
Checchinato, Cludia Fernandes, Ana Maria Gageiro, Catarina Kolta, Leopold
Nosek, Manoel Tosta Berlinck, Walter Evangelista e Lcia Valladares.
    Nossa gratido a Chaim Samuel Katz, que redigiu dois textos, um sobre Ana
Katrin Kemper e outro sobre Hlio Pellegrino, e tambm a Luiz Alberto Pinheiro
de Freitas, que nos ajudou a redigir o verbete sobre Iracy Doyle.
    Agradecemos a Kao Jung-Hsi e a Oscar Zambrano, que pesquisaram obras em
lngua inglesa sobre a psicanlise no Japo.
    Nossa gratido a Tanja Sattler-Rommel por suas tradues do alemo e sua
participao na redao do verbete sobre Alexander Mitscherlich.
    Somos gratos a Vincent Kaufmann, que nos permitiu trabalhar na biblioteca da
Universidade de Berkeley, na Califrnia.
    Agradecemos a Olivier Btourn e a Cline Geoffroy por seu trabalho com o
manuscrito.
    Expressamos enfim nossa gratido a todos aqueles que, de perto ou de longe,
nos ajudaram respondendo s nossas perguntas ou confiando-nos generosamente
artigos, obras, fontes inditas e teses de difcil obteno: Anna Maria Accerboni,
Eleni Atzina, Franco Baldini, Raphael Brossart, Michel Coddens, Marco Conci,
Raffaello Cortina, Alain Delrieu, Horacio Etchegoyen, Ernst Falzeder, Ignacio
Garate Martinez, Toby Gelfand, Nadine Gleyen, Ilse Grubrich-Simitis, Claude
Halmos, Andr Haynal, Albrecht Hirschmller, Norton Godinho Leo, Jacques Le
Rider, Patrick Mahony, Ren Major, Michael Molnar, Juan-David Nasio, Angli-
que Pcheux, Antonello Picciau, August Rhus, Rgine Robin, Emilio Rodrigu,
Peter Schttler, Harry Stroeken, Pablo Troanovski, Fernando O. Ulloa, Fernando
Uribarri.




                                       xii
                 NOTA  EDIO BRASILEIRA



Para estabelecer a verso em portugus deste Dicionrio, foram levados em conta
-- alm de dicionrios, vocabulrios e glossrios j publicados anteriormente
(muitos deles por esta mesma editora) -- o estudo cada vez mais aprofundado da
terminologia psicanaltica no Brasil e a prpria sedimentao e evoluo do uso
dessa terminologia pela comunidade psicanaltica.
   Assim, ao termo em portugus adotado para traduzir determinados verbetes
conceituais, acrescentamos verses alternativas de uso corrente. Por exemplo, no
esclarecimento introdutrio, com caracteres em negrito, do histrico do termo
"fantasia" (Phantasie em alemo, fantasme em francs), encontra-se o registro da
verso "fantasma", tambm muito difundida no Brasil.
   Agradecemos a colaborao do psicanalista Eduardo Vidal que, para os verbetes
conceituais, nos forneceu a verso em espanhol que fizemos constar ao lado das
correspondentes em alemo, francs e ingls, j presentes na edio original.
   Agradecemos tambm s editoras brasileiras que enviaram os dados biblio-
grficos solicitados, para que o leitor deste Dicionrio pudesse ter acesso -- nas
bibliografias ao final de cada verbete -- s edies e tradues publicadas no
Brasil.
   O uso de um asterisco (*) aps um nome, termo ou expresso, ou sua grafia em
caracteres maisculos (VERSALETES), indica remisso a esses verbetes.



                        ABREVIATURAS BIBLIOGRFICAS
ESB Sigmund Freud, Edio Standard Brasileira das obras psicolgicas completas
    de Sigmund Freud, 24 vols., Rio de Janeiro, Imago, 1977
GW Sigmund Freud, Gesammelte Werke, 17 vols., Frankfurt, Fischer, 1960-1988
IZP   Internationale rztlische Zeitschrift fr Psychoanalyse
IJP   International Journal of Psycho-Analysis
OC    Sigmund Freud, Oeuvres compltes, 21 vols., Paris, PUF, em preparao desde
      1989
SE    The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud,
      org. James Strachey, 24 vols., Londres, Hogarth Press, 1953-1974




                                        xiii
                                                A
Aberastury, Arminda (1910-1972)                               Com a idade de 62 anos, atingida por uma
psicanalista argentina                                    doena de pele que a desfigurou, Arminda Abe-
    Pioneira do movimento psicanaltico argen-            rastury decidiu dar fim aos seus dias. Seu suic-
tino, Arminda Aberastury nasceu em Buenos                 dio*, como vrios outros na histria da psicanlise*,
Aires, em uma famlia de comerciantes pelo la-            suscitou relatos contraditrios e foi considerado
do paterno, e de intelectuais pelo lado materno.          uma "morte trgica" pela historiografia* oficial.
Seu tio, Maximiliano Aberastury, era um mdi-              Arminda Aberastury, Psicanlise da criana -- teoria
co de renome e seu irmo, Frederico, estudou              e tcnica (B. Aires, 1962), P. Alegre, Artes Mdicas,
psiquiatria com Enrique Pichon-Rivire*, cujos            1992  Antonio Cucurullo, Hayde Faimberg e Leonar-
pais se radicaram na Argentina* em 1911 e que             do Wender, "La Psychanalyse en Argentine", in Roland
                                                          Jaccard (org.), Histoire de la psychanalyse, vol.2, Pa-
se tornou o seu amigo mais prximo. Frederico             ris, Hachette, 1982, 395-444  Elfriede S.L. de Ferrer,
sofria de psicose* e teve, por vrias vezes, surtos       "Profesora Arminda Aberastury", Revista de Psicoan-
delirantes. Sofrendo de melancolia desde a ju-            lisis, 4, t.XXIX, outubro-dezembro de 1972, 679-82 
ventude, sua irm Arminda era uma mulher de               Jorge Baln, Cuntame tu vida. Una biografa colectiva
                                                          del psicoanlisis argentino, B. Aires, Planeta, 1991 
grande beleza. Atravs de Frederico, ficou co-            lisabeth Roudinesco, entrevista com Emilio Rodrigu,
nhecendo Pichon-Rivire, com quem se casou                12 de outubro de 1995, e com Cludia Fernandes, 27
em 1937. Como este, desejava oferecer  psica-            de maro de 1996.
nlise uma nova terra prometida, a fim de sal-
v-la do fascismo que assolava a Europa.                   ESTDIO ; KLEINISMO; MELANCOLIA.
    Assim, integrou-se ao grupo formado em
Buenos Aires por Arnaldo Rascovsky*, Angel
Garma*, Marie Langer* e Celes Crcamo*. Cin-              Abraham, Karl (1877-1925)
co anos depois, fez sua formao didtica com             psiquiatra e psicanalista alemo
Garma e tornou-se uma das principais figuras                 O nome de Karl Abraham  indissocivel da
da Asociacin Psicoanalitica Argentina (APA).             histria da grande saga freudiana. Membro da
Na linha do ensino de Melanie Klein* (de quem             gerao* dos discpulos do fundador, desempe-
foi a primeira tradutora em lngua espanhola) e           nhou um papel pioneiro no desenvolvimento da
inspirando-se nos mtodos de Sophie Morgen-               psicanlise* em Berlim. Implantou a clnica
stern*, desenvolveu a psicanlise de crianas*.           freudiana no campo do saber psiquitrico,
Entre 1948 e 1952, dirigiu, no quadro do Ins-             transformando assim o tratamento das psi-
tituto de Psicanlise da APA, um seminrio                coses*: esquizofrenia* e psicose manaco-de-
sobre esse tema. Formaria uma gerao* de                 pressiva* (melancolia*). Elaborou tambm uma
analistas de crianas. No congresso de 1957 da            teoria dos estdios* da organizao sexual, na
International Psychoanalytical Association*               qual se inspirou Melanie Klein*, que foi sua
(IPA), em Paris, apresentou uma comunicao               aluna. Formou muitos analistas, entre os quais
notvel sobre a sucesso dos "estdios" durante           Helene Deutsch*, Edward Glover*, Karen Hor-
os primeiros anos de vida, definindo uma "fase            ney* Sandor Rado*, Ernst Simmel*.
genital primitiva" anterior, no desenvolvimento              Nascido em Bremen, a 3 de maio de 1877,
libidinal,  fase anal.                                   em uma famlia de comerciantes judeus es-
                                                      1
2     Abraham, Nicolas

tabelecidos no norte da Alemanha desde o s-        tre. Mais clnico do que terico, Abraham escre-
culo XVIII, Abraham era um homem afvel,            veu artigos claros e breves, nos quais domina a
caloroso, inventivo, eloqente e poliglota. Fa-     observao concreta. Devem-se distinguir trs
lava oito lnguas. Durante toda a vida, foi um      pocas. Entre 1907 e 1910, dedicou-se a uma
ortodoxo da doutrina psicanaltica, uma "rocha      comparao entre a histeria* e a demncia pre-
de bronze", nas palavras de Sigmund Freud*.         coce (que ainda no era chamada esquizofrenia)
Foi na Clnica do Hospital Burghlzli, onde foi     e  significao do trauma sexual na infncia.
assistente de Eugen Bleuler* com Carl Gustav        Durante os dez anos seguintes, estudou a psico-
Jung*, que comeou a familiarizar-se com os         se manaco-depressiva, o complexo de castra-
textos vienenses. Em 1906, casou-se com Hed-        o* na mulher e as relaes do sonho* com os
wig Brgner. Tiveram dois filhos. Abraham           mitos. Em 1911, publicou um importante estu-
analisou sua filha Hilda (1906-1971), descre-       do sobre o pintor Giovanni Segantini (1859-
vendo o caso em um artigo de 1913, intitulado       1899), atingido por distrbios melanclicos.
"A pequena Hilda, devaneios e sintomas em           Em 1912, redigiu um artigo sobre o culto mo-
uma menina de 7 anos". Hilda Abraham se             notesta de Aton, do qual Freud se serviria em
tornaria psicanalista e redigiria uma biografia     Moiss e o monotesmo*, esquecendo de cit-lo.
inacabada do pai.                                   Enfim, durante o terceiro perodo, descreveu os
    No tendo nenhuma possibilidade de fazer        trs estdios* da libido*: anal, oral, genital.
carreira na Sua*, Abraham instalou-se em              Doente de enfisema, Karl Abraham morreu
Berlim em 1907. No dia 15 de dezembro, foi a        aos 48 anos, em 25 de dezembro de 1925, de
Viena* para fazer a sua primeira visita a Freud.    uma septicemia consecutiva a um abscesso pul-
Foi o incio de uma bela amizade e de uma longa     monar provavelmente causado por um cncer.
correspondncia -- 500 cartas entre 1907 e          Essa morte prematura foi sentida como um
1925 -- da qual s se conhece uma parte.            verdadeiro desastre para o movimento freudia-
Publicada em 1965 por Ernst Freud* e por Hil-       no, e principalmente por Freud, que assistiu
da, infelizmente essa correspondncia foi am-       impotente  evoluo da infeco, no hesitan-
putada de muitas peas, sobretudo dos comen-        do em escrever-lhe: "Sachs me informou com
trios sobre os sonhos de Hilda, sobre os confli-   surpresa e pesar que a sua doena ainda no
tos com Otto Rank* no Comit Secreto* e sobre       terminou. Isso no concorda com a imagem que
as discordncias entre ambos.                       tenho de voc. Quero imagin-lo trabalhando
    Em 1908, Abraham criou com Magnus Hir-          sempre, infalivelmente. Sinto sua doena como
schfeld*, Ivan Bloch (1872-1922), Heinrich          uma espcie de concorrncia desleal, e peo-lhe
                                                    que pare logo com isso. Espero notcias suas
Krber e Otto Juliusburger* um primeiro crcu-
                                                    atravs de seus amigos."
lo, que se tornaria, em maro de 1910, a Socie-
dade Psicanaltica de Berlim. Seria seu presi-       Karl Abraham, Oeuvres compltes, 2 vols. (1965),
dente at a morte. Em 1909, Max Eitingon*           Paris, Payot, 1989  Sigmund Freud e Karl Abraham,
reuniu-se a ele e foi assim que se iniciou, com     Correspondance, 1907-1926 (Frankfurt, 1965), Paris,
a criao do Berliner Psychoanalytisches Ins-       Gallimard, 1969  Hilda Abraham, Karl Abraham, bio-
                                                    graphie inacheve, Paris, PUF, 1976  Guy Rosolato e
titut*, a histria do movimento psicanaltico       Daniel Widlcher, "Karl Abraham: lecture de son oeu-
alemo, que, como se sabe, foi dizimado pelo        vre", La Psychanalyse, 4, Paris, PUF, 1958, 153-78 
nazismo* a partir de 1933.                          Ernst Falzeder, "Whose Freud is it? Some reflections
    Durante a Primeira Guerra Mundial, depois       on editing Freud's correspondance", International Fo-
                                                    rum of Psychoanalysis, em preparao.
de ter sido membro do Comit Secreto, Abra-
ham dirigiu a International Psychoanalytical
Association* (IPA), da qual foi secretrio em
1922 e presidente em 1924. Assim, foi um dos        Abraham, Nicolas (1919-1977)
grandes militantes do movimento, tanto como         psicanalista francs
clnico quanto como organizador e professor.           De origem judeu-hngara, Nicolas Abraham
    A obra desse fiel discpulo de Freud se cons-   nasceu em Kecskemet e emigrou para Paris em
truiu em funo dos progressos da obra do mes-      1938. Teve uma formao filosfica marcada
                                                                                          ab-reao       3

pela fenomenologia de Husserl. Falava vrias             e Sigmund Freud, dedicada ao estudo do meca-
lnguas. Depois do primeiro casamento em                 nismo psquico atuante nos fenmenos hist-
1946, do qual teve dois filhos, tomou como               ricos.
companheira Maria Torok, tambm de origem                    Nesse texto pioneiro, os autores anunciam
hngara. Analisado, como ela, por Bela Grun-             desde logo o sentido de seu procedimento: con-
berger, no seio da Sociedade Psicanaltica de            seguir, tomando como ponto de partida as for-
Paris (SPP), logo revelou-se como dissidente e           mas de que os sintomas se revestem, identificar
seu tratamento didtico no foi homologado.              o acontecimento que, a princpio e amide num
Nunca se tornou membro da SPP, limitando-se              passado distante, provocou o fenmeno his-
a ser filiado. Em 1959, iniciou com o filsofo           trico. O estabelecimento dessa gnese esbarra
Jacques Derrida uma slida amizade, fundada              em diversos obstculos oriundos do paciente,
na paixo pela filosofia e em uma certa maneira          aos quais Freud posteriormente chamaria de
de analisar os textos freudianos.                        resistncias*, e que somente o recurso  hipno-
   Foi com a publicao, em 1976, do Verbier             se* permite superar.
de l'Homme aux loups, redigido com Maria                     Na maioria das vezes, o sujeito afetado por
Torok e prefaciado por Derrida, que se tornou            um acontecimento reage a ele, voluntariamente
clebre. Depois de Muriel Gardiner*, comentou            ou no, de modo reflexo: assim, o afeto ligado
o caso do Homem dos Lobos, mostrando o                   ao acontecimento  evacuado, por menos que
poliglotismo inerente a toda essa histria. Ao           essa reao seja suficientemente intensa. Nos
russo, ou lngua materna, ao alemo, ou lngua           casos em que a reao no ocorre ou no  forte
do tratamento, e ao ingls, ou lngua da ama do          o bastante, o afeto permanece ligado  lembran-
paciente, os autores acrescentaram uma quarta            a do acontecimento traumtico, e  essa lem-
lngua, o francs, que lhes permitia sublinhar           brana -- e no o evento em si -- que  o agente
que o eu* clivado do paciente comportava uma             dos distrbios histricos. Breuer e Freud so
"cripta", lugar de todos os seus segredos in-            muito precisos a esse respeito: "...  sobretudo
conscientes. Essa teoria da cripta enfatizava o          de reminiscncias que sofre o histrico." En-
delrio do Homem dos Lobos e o carter neces-            contramos a mesma preciso no que concerne
sariamente delirante e polissmico da prpria             adequao da reao do sujeito: quer ela seja
teoria clnica.                                          imediata, voluntria ou no, quer seja adiada e
 Nicolas Abraham e Maria Torok, Cryptonymie. Le         provocada no mbito de uma psicoterapia, sob
Verbier de l'Homme aux loups, precedido de Fors, por     a forma de rememoraes e associaes, ela
Jacques Derrida, Paris, Aubier-Flammarion, 1976         tem que manter uma relao de intensidade ou
Ren Major, L'Agonie du jour, Paris, Aubier-Montaigne,   proporo com o acontecimento incitador para
1979  lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise
na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge
                                                         surtir um efeito catrtico*, isto , liberador.  o
Zahar, 1988.                                             caso da vingana como resposta a uma ofensa,
                                                         a qual, no sendo proporcional ou ajustada 
 FRANA; PANKEJEFF, SERGUEI CONSTANTINO-                 ofensa, deixa aberta a ferida ocasionada por
VITCH.                                                   esta.
                                                             Desde essa poca, Breuer e Freud sublinham
                                                         como  importante que o ato possa ser subs-
ab-reao                                                titudo pela linguagem, "graas  qual o afeto
al. Abreagieren; esp. abreaccin; fr. abraction;        pode ser ab-reagido quase da mesma maneira".
ing. abreaction                                          Eles acrescentam que, em alguns casos de quei-
Termo introduzido por Sigmund Freud* e Josef             xa ou confisso, somente as palavras cons-
Breuer* em 1893, para definir um processo de             tituem "o reflexo adequado".
descarga emocional que, liberando o afeto ligado             Se o termo ab-reao permanece ligado ao
 lembrana de um trauma, anula seus efeitos             trabalho com Breuer e  utilizao do mtodo
patognicos.                                             catrtico, nem por isso a instaurao do mtodo
   O termo ab-reao aparece pela primeira vez           psicanaltico e o emprego, em 1896, do termo
na "Comunicao preliminar" de Josef Breuer              "psico-anlise" significam o desaparecimento
4      abstinncia, regra de

do termo ab-reao, e isso por duas razes,                 (1925), ESB, XX, 17-88; GW, XIV, 33-96; SE, XX, 7-70;
                                                            Paris, Gallimard, 1984; "As pulses e suas vicissitudes"
como deixam claro os autores do Vocabulrio
                                                            (1915), ESB, XIV, 137-68; GW, X, 209-32; SE, XIV,
da psicanlise: uma razo factual, de um lado,              109-40; OC, XIII, 161-85; O eu e o isso (1923), ESB,
na medida em que, seja qual for o mtodo, a                 XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX, 1-59; in Essais
anlise continua sendo, sobretudo para alguns               de psychanalyse, Paris, Payot, 1981, 219-52  Georges
pacientes, um lugar de fortes reaes emocio-               Canguilhem, "Le Concept de rflexe au XIXe sicle", in
                                                            tudes d'histoire et de philosophie des sciences, Paris,
nais; e uma terica, de outro, uma vez que a                Vrin, 1968  Marcel Gauchet, L'Inconscient crebral,
conceituao da anlise recorre  rememora-                 Paris, Seuil, 1992  Jean Laplanche e Jean-Bertrand
o* e  repetio*, formas paralelas de ab-rea-            Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.
o.                                                        Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Jean Starobinski,
                                                            "Sur le mot abraction" (1994), in Andr Haynal (org.),
     Por que Breuer e Freud empregaram essa                 La Psychanalyse: cent ans dj, Genebra, Georg,
palavra, que este ltimo no renegaria ao evocar            1996, 49-62.
o mtodo catrtico em sua autobiografia?
     Como neologismo, o termo ab-reao                      CATARSE; ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; HIPNO-
                                                            SE; HISTERIA; PULSO; RESISTNCIA; SUGESTO.
compe-se do prefixo alemo ab- e da palavra
reao, constituda, por sua vez, do prefixo re-
e da palavra ao. A primeira razo dessa dupli-
                                                            abstinncia, regra de
cao parece ser o cuidado dos autores de repe-
                                                            al. Grundsatz der Abstinenz; esp. regla de abs-
lir o carter excessivamente genrico da palavra
                                                            tinencia; fr. rgle d'abstinence; ing. rule of abs-
reao. Alm disso, porm, a palavra remete ao
                                                            tinence
procedimento da fisiologia do sculo XIX, em
cujo seio ela funciona como sinnima de re-                 Corolrio da regra fundamental*, a regra de abs-
                                                            tinncia designa o conjunto dos meios e atitudes
flexo, termo pelo qual se designa o elemento de
                                                            empregados pelo analista para que o analisando
uma relao que tem a forma de um arco linear
                                                            fique impossibilitado de recorrer a formas de satis-
-- o arco reflexo -- que relaciona, termo a
                                                            fao substitutas, em condies de lhe poupar os
termo, um estmulo pontual e uma resposta                   sofrimentos que constituem o motor do trabalho
muscular. Essa referncia constitua para Freud,            analtico.
nos anos de 1892-1895, uma espcie de garantia
                                                                 em 1915, ao se interrogar sobre qual deve
de cientificidade, consoante com sua esperana
                                                            ser a atitude do psicanalista confrontado com as
de inscrever a abordagem dos fenmenos his-
                                                            manifestaes da transferncia amorosa, que
tricos numa continuidade com a fisiologia dos
                                                            Sigmund Freud* fala pela primeira vez da regra
mecanismos cerebrais. Como sublinhou Jean
                                                            de abstinncia. Esclarece que no pretende evo-
Starobinski em 1994, a referncia ao modelo do
                                                            car apenas a abstinncia fsica do analista em
arco reflexo sobreviveria  utilizao dessa pa-
                                                            relao  demanda amorosa da paciente, mas o
lavra, j que Freud se refere explicitamente a ela
                                                            que deve ser a atitude do analista para que
em seu texto sobre o destino das pulses*, onde
                                                            subsistam no analisando as necessidades e de-
distingue as excitaes externas, que provocam
                                                            sejos insatisfeitos que constituem o motor da
respostas no estilo do arco reflexo, das exci-
                                                            anlise.
taes internas, cujos efeitos so da ordem de
                                                                Para ilustrar o carter de tapeao de que se
uma reao.
                                                            revestiria uma anlise em que o analista aten-
     Mais tarde, Freud utilizaria o termo reao            desse s demandas de seus pacientes, Freud
num sentido radicalmente diferente: em vez de               evoca a anedota do padre que vai dar os ltimos
designar uma descarga liberadora, ele seria em-             sacramentos a um corretor de seguros descren-
pregado para evocar um processo de bloqueio                 te: ao final da conversa no quarto do moribundo,
ou conteno, a formao reativa.                           o ateu no parece haver se convertido, mas o
                                                            padre contratou um seguro.
 Sigmund Freud e Josef Breuer, "Sobre o mecanismo              No apenas, escreve Freud, " proibido ao
psquico dos fenmenos histricos: Comunicao pre-
liminar" (1893), in Estudos sobre a histeria (1895), ESB,
                                                            analista ceder", como tambm este deve levar o
II, 43-62; GW, I, 77-312; SE, II, 1-17; Paris, PUF, 1956,   paciente a vencer o princpio de prazer* e a
1-13  Sigmund Freud, Um estudo autobiogrfico              renunciar s satisfaes imediatas em favor de
                                                                                                acting out       5

uma outra, mais distante, e sobre a qual se                Fontes, 1992, 357-68; "Prolongamentos da `tcnica
                                                           ativa' em psicanlise" (1921), in Psicanlise III, Obras
esclarece, no entanto, que "tambm pode ser
                                                           completas, 1919-1926, S. Paulo, Martins Fontes, 1993
menos certeira".                                            Jacques Lacan, Escritos, (Paris, 1966), Rio de Janei-
     no mbito do V Congresso de Psicanlise,             ro, Jorge Zahar, 1998; O Seminrio, livro 7, A tica da
realizado em Budapeste em 1918, que Freud                  psicanlise (1959-1960) (Paris, 1986), Rio de Janeiro,
                                                           Jorge Zahar, 1988  Jean Laplanche e Jean-Bertrand
volta a essa questo, aps uma interveno de
                                                           Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.
Sandor Ferenczi*, centrada na atividade do                 Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.
analista e nos meios a que ele deve recorrer para
afugentar e proibir todas as formas de satisfao           CONTRATRANSFERNCIA; REGRA FUNDAMEN-
substituta que o paciente possa buscar no mbi-            TAL; TCNICA PSICANALTICA; TRANSFERNCIA.
to do tratamento, bem como fora desse quadro.
Em essncia, Freud assinala sua concordncia
com Ferenczi. Sublinha que o tratamento psi-               acting out
canaltico deve, "tanto quanto possvel, efetuar-          al. Agieren; esp. pasar al acto; fr. passage  l'acte;
se num estado de frustrao* e abstinncia".               ing. acting out
Mas deixa claro que no se trata de proibir tudo           Noo criada pelos psicanalistas de lngua inglesa
ao paciente e que a abstinncia deve ser articu-           e depois retomada tal e qual em francs, para
lada com a dinmica especfica de cada anlise.            traduzir o que Sigmund Freud* denomina de colo-
    Este ltimo esclarecimento foi progres-                cao em prtica ou em ato, segundo o verbo
sivamente perdido de vista, assim como se es-              alemo agieren. O termo remete  tcnica psicana-
queceu a nfase depositada por Freud no carter            ltica* e designa a maneira como um sujeito* passa
                                                           inconscientemente ao ato, fora ou dentro do trata-
incerto da satisfao a longo prazo. O surgi-
                                                           mento psicanaltico, ao mesmo tempo para evitar
mento de uma concepo pedaggica e ortop-
                                                           a verbalizao da lembrana recalcada e para se
dica do tratamento psicanaltico contribuiu para
                                                           furtar  transferncia*. No Brasil tambm se usa
a transformao da regra de abstinncia em um              "atuao".
conjunto de medidas ativas e repressivas, que
                                                               Foi em 1914 que Freud props a palavra
visam fornecer uma imagem da posio do
                                                           Agieren (pouco corrente em alemo) para de-
analista em termos de autoridade e poder.
                                                           signar o mecanismo pelo qual um sujeito pe
    Em seu seminrio de 1959-1960, dedicado                em prtica pulses*, fantasias* e desejos*.
 tica da psicanlise, assim como em textos               Alis, convm relacionar essa noo com a de
anteriores que versavam sobre as possveis va-             ab-reao* (Abreagieren). O mecanismo est
riaes do "tratamento-padro" e da direo do             associado  rememorao,  repetio* e  ela-
tratamento, Jacques Lacan* voltou  noo de               borao* (ou perlaborao). O paciente "traduz
neutralidade analtica, que situou numa pers-              em atos" aquilo que esqueceu: " de se esperar,
pectiva tica. Se Freud se mostrava prudente               portanto", diz Freud, "que ele ceda ao automa-
quanto  possvel obteno de uma satisfao               tismo de repetio que substituiu a compulso
posterior pelo paciente, fruto de sua renncia a            lembrana, e no apenas em suas relaes
um prazer imediato, Lacan pretendeu-se mais                pessoais com o mdico, mas tambm em todas
radical, questionando a fantasia de um "bem                as suas outras ocupaes e relaes atuais, bem
supremo" cuja realizao marcaria o fim da                 como quando, por exemplo, lhe sucede apaixo-
anlise.                                                   nar-se durante o tratamento."
                                                               Para responder a esse mecanismo, Freud
 Sigmund Freud, "Observaes sobre o amor transfe-        preconiza duas solues: (1) fazer o paciente
rencial" (1915), ESB, XII, 208-21; GW, X, 306-21; SE,
XII, 157-71; Paris, PUF, 1953, 116-30; "Linhas de          prometer, enquanto se desenrola o tratamento,
progresso na terapia psicanaltica" (1919), ESB, XVII,     no tomar nenhuma deciso grave (casamento,
201-16; GW, XII, 183-94; SE, XVII, 157-68; in La           escolha amorosa definitiva, profisso) antes de
Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953, 131-41        estar curado; (2) substituir a neurose* comum
 Sigmund Freud e Sandor Ferenczi, Correspondance,
1914-1919, Paris, Calmann-Lvy, 1996  Sandor Fe-
                                                           por uma neurose de transferncia*, da qual o
renczi, "A tcnica psicanaltica" (1919), in Psicanlise   trabalho teraputico o curar. Em 1938, no
II, Obras completas, 1913-1919, S. Paulo, Martins          Esboo de psicanlise, Freud sublinha que 
6     Adler, Alfred

desejvel que o paciente manifeste suas reaes     ou rejeitado de qualquer quadro simblico. O
dentro da transferncia*.                           suicdio, para Lacan, situa-se na vertente da
    Os psicanalistas de lngua inglesa distin-      passagem ao ato, como atesta a prpria maneira
guem o acting in do acting out propriamente         de morrer, saindo de cena por uma morte vio-
dito. O acting in designa a substituio da ver-    lenta: salto no vazio, defenestrao etc.
balizao por um agir no interior da sesso
psicanaltica (mudana da posio do corpo ou        Sigmund Freud, "Fragmento da anlise de um caso
                                                    de histeria" (1905), ESB, VII, 5-128; GW, V, 163-286;
surgimento de emoes), enquanto o acting out       SE, VII, 1-122; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,
caracteriza o mesmo fenmeno fora da sesso.        1970; "Recordar, repetir e elaborar" (1914), ESB, XII,
Os kleinianos insistem no aspecto transferen-       193-207; GW, X, 126-36; SE, XII, 126-36; in La Techni-
cial do acting in e na necessidade de analis-lo,   que psychanalytique, Paris, PUF, 1970; "A psicog-
                                                    nese de um caso de homossexualidade numa mulher"
sobretudo nos bordelines*.                          (1920), ESB, XVIII, 185-216; GW, XII, 271-302; SE
    Por outro lado, em 1967, o psicanalista fran-   XVIII, 145-72; in Nvrose, psychose et perversion,
cs Michel de M'Uzan props distinguir o ac-        Paris, PUF, 1973; Esboo de psicanlise (1938), ESB,
ting out direto (ato simples, sem relao com a     XXIII, 168-223; GW, XVII, 67-138; SE, XXIII, 139-207;
                                                    Paris, PUF, 1967  Jacques Lacan, Le Sminaire, livre
transferncia) do acting out indireto (ato ligado   X, L'Angoisse, (1962-1963), indito  Jean Laplanche e
a uma organizao simblica relacionada com         Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise
uma neurose de transferncia).                      (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed. 
    No vocabulrio psiquitrico francs, a ex-      Ludwig Eidelberg (org.), Encyclopedia of Psychoana-
                                                    lysis, N. York, The Free Press, e Londres, Collier Mac-
presso "passagem ao ato" evidencia a violn-       millan Ltd., 1968  Michel de M'Uzan, De l'art  la mort,
cia da conduta mediante a qual o sujeito se         Paris, Gallimard, 1977  R.D. Hinshelwood, Dicionrio
precipita numa ao que o ultrapassa: suicdio*,    do pensamento kleiniano, (Londres, 1991), P. Alegre,
delito, agresso.                                   Artes Mdicas, 1992.
    Foi partindo dessa definio que Jacques
Lacan*, em 1962-1963, em seu seminrio sobre
A angstia, instaurou uma distino entre ato,      Adler, Alfred (1870-1937)
acting out e passagem ao ato. No contexto de        mdico austraco, fundador da escola de psicologia
sua concepo do outro* e da relao de obje-       individual
to*, e a partir de um comentrio de duas obser-         Adler, primeiro grande dissidente da histria
vaes clnicas de Freud (o caso Dora* e "Psi-      do movimento psicanaltico, nasceu em Ru-
cognese de um caso de homossexualidade nu-         dolfsheim, subrbio de Viena*, em 7 de feverei-
ma mulher"), Lacan estabeleceu, com efeito,         ro de 1870. Na verdade, nunca aderiu s teses
uma hierarquia em trs patamares. Segundo ele,      de Sigmund Freud,* de quem se afastou em
o ato  sempre um ato significante, que permite     1911, sem ter sido, como Carl Gustav Jung*, seu
ao sujeito transformar-se a posteriori*. O acting   discpulo privilegiado. Quatorze anos mais no-
out, ao contrrio, no  um ato, mas uma deman-     vo do que o mestre, no procurou reconhec-lo
da de simbolizao que se dirige a um outro.       como uma autoridade paterna. Atribuiu-lhe, an-
um disparate destinado a evitar a angstia. No      tes, o lugar de um irmo mais velho e no
tratamento, o acting out  o sinal de que a         manteve com ele relaes epistolares ntimas.
anlise se encontra num impasse em que se           Ambos eram judeus e vienenses, ambos provi-
revela a incapacidade do psicanalista. Ele no      nham de famlias de comerciantes que nunca
pode ser interpretado, mas se modifica quando       conheceram realmente o sucesso social. Adler
o analista o entende e muda de posio transfe-     freqentou o mesmo Gymnasium que Freud e
rencial.                                            fez estudos de medicina mais ou menos idnti-
    Quanto  passagem ao ato, trata-se, para        cos aos seus. Entretanto, originrio de uma co-
Lacan, de um "agir inconsciente", de um ato no     munidade de Burgenland, era hngaro, o que
simbolizvel pelo qual o sujeito descamba para      fazia dele cidado de um pas cuja lngua no
uma situao de ruptura integral, de alienao      falava. Tornou-se austraco em 1911 e nunca
radical. Ele se identifica ento com o objeto       teve a impresso de pertencer a uma minoria ou
(pequeno) a*, isto , com um objeto excludo        de ser vtima do anti-semitismo.
                                                                                   Adler, Alfred    7

    Segundo de seis filhos, tinha sade frgil,      culo freudiano durante nove anos e dedicou sua
era raqutico e sujeito a crises de falta de ar.     primeira comunicao, no dia 7 de novembro
Alm disso, tinha cime do irmo mais velho,         de 1906, ao seguinte tema: "As bases orgnicas
que se chamava Sigmund, e com quem teve              da neurose". No ano seguinte, apresentou um
uma relao de rivalidade permanente, como a         caso clnico, depois, em 1908 uma contribuio
que teria mais tarde com Freud. Protegido pelo       para a questo da parania*, e em 1909, ainda
pai, rejeitado pela me e sofrendo por no ser o     outra, "A unidade das neuroses". Foi nessa data
primognito, sempre deu mais importncia aos         que comearam a se manifestar divergncias
laos de grupo e de fraternidade do que  relao    fundamentais entre suas posies e as de Freud
entre pais e filhos. Em sua opinio, a famlia era   e seus partidrios. Elas constam das Minutas da
menos o lugar de expresso de uma situao           Sociedade, transcritas por Otto Rank* e edita-
edipiana do que um modelo de sociedade. Da          das por Hermann Nunberg*.
o interesse que dedicou  anlise marxista.              Em fevereiro de 1910, Adler fez uma confe-
    Em 1897, casou-se com Raissa Epstein, fi-        rncia na Sociedade sobre o hermafroditismo
lha de um comerciante judeu originrio da Rs-       psquico. Afirmava que os neurticos qualifica-
sia*. A jovem pertencia aos crculos da intelli-     vam de "feminino" o que era "inferior", e situa-
gentsia e propalava opinies de esquerda que a       va a disposio da neurose* em um sentimento
afastavam do modo de vida da burguesia vie-          de inferioridade recalcado desde a primeira re-
nense, em que a mulher devia ser antes de tudo       lao da criana com a sexualidade*. O surgi-
me e esposa. Atravs dela, Adler freqentou         mento da neurose era, segundo ele, a conse-
Lon Trotski (1879-1940) e depois, em 1908,          qncia de um fracasso do "protesto masculi-
foi terapeuta de Adolf Abramovitch Ioffe             no". Do mesmo modo, as formaes neurticas
(1883-1927), futuro colaborador deste no jornal      derivariam da luta entre o feminino e o mascu-
Pravda.                                              lino.
    Em 1898, publicou sua primeira obra, Ma-             Freud comeou ento a criticar o conjunto
nual de higiene para a corporao dos al-            das posies de Adler, acusando-o de se apegar
faiates. Nela, traava um quadro sombrio da          a um ponto de vista biolgico, de utilizar a
situao social e econmica desse ofcio no fim      diferena dos sexos* em um sentido estritamen-
do sculo: condies de vida deplorveis,            te social e, enfim, de valorizar excessivamente
causando escolioses e doenas diversas ligadas       a noo de inferioridade. Hoje, encontra-se a
ao uso de tinturas, salrios miserveis etc.         concepo adleriana da diferena dos sexos
    Como enfatiza o escritor Mans Sperber, seu      entre os tericos do gnero* (gender).
notvel bigrafo e discpulo durante algum               No dia 1 de fevereiro de 1911, Adler voltou
tempo, Adler no teve a mesma concepo que           carga, em uma comunicao sobre o protesto
Freud da sua judeidade*. Ainda que no fosse         masculino, questionando as noes freudianas
movido, como Karl Kraus* e Otto Weininger*,          de recalque* e de libido*, julgadas pouco ade-
por um sentimento de "dio de si judeu", pre-        quadas para explicar a "psique desviante e ir-
feriu escapar  sua condio. Em 1904, conver-       ritada" do eu* nos primeiros anos da vida. Efe-
teu-se ao protestantismo com as duas filhas.         tivamente, Adler estava edificando uma psico-
Essa passagem para o cristianismo no o impe-        logia do eu, da relao social, da adaptao, sem
diu de continuar sendo, durante toda a vida, um      inconsciente* nem determinao pela sexuali-
livre-pensador, adepto do socialismo reformis-       dade. Assim, distanciava-se do sistema de pen-
ta. Observe-se que ele no tinha nenhum lao         samento freudiano. Baseava-se nas concepes
de parentesco com Viktor Adler (1852-1918),          desenvolvidas em sua obra de 1907, A compen-
fundador do Partido Social-Democrata Aus-            sao psquica do estado de inferioridade dos
traco.                                              rgos.
    Em 1902, depois de ficar conhecendo Freud,           A noo de rgo inferior j existia na his-
comeou a freqentar as reunies da Sociedade        tria da medicina, em que muitos clnicos ob-
Psicolgica das Quarta-Feiras, fazendo ami-          servaram que um rgo de menor resistncia
zade com Wilhelm Stekel*. Permaneceu no cr-         sempre podia ser o centro de uma infeco.
8    Adler, Ida

Adler transpunha essa concepo para a psico-      regularmente, para conferncias e permann-
logia, fazendo da inferioridade deste ou daquele   cias prolongadas.
rgo em um indivduo a causa de uma neurose           Em 1930, recebeu o ttulo de cidado de
transmissvel por predisposio hereditria. Se-   Viena, mas quatro anos depois, pressentindo
gundo ele, era assim que apareciam doenas do      que o nazismo* dominaria a Europa inteira,
ouvido em famlias de msicos ou doenas dos       pensou em emigrar para os Estados Unidos. Foi
olhos em famlias de pintores etc.                 durante uma viagem de conferncias na Europa,
    A ruptura entre Freud e Adler foi de uma       quando se encontrava em Aberdeen, na Esccia,
violncia extrema, como mostram as crticas        que caiu na rua, vtima de uma crise cardaca.
recprocas que trocaram trinta e cinco anos de-    Morreu na ambulncia que o conduzia ao hos-
pois. A um interlocutor americano que o ques-      pital, a 28 de maio de 1937. Seu corpo foi
tionava sobre Freud, Adler afirmou, em 1937,       cremado no cemitrio de Warriston, em Edim-
que "aquele de quem nunca fora discpulo era       burgo, onde foi celebrada uma cerimnia reli-
um escroque astuto e intrigante". Por sua vez,     giosa.
informado da morte de seu compatriota, Freud        Alfred Adler, La Compensation psychique de l'tat
escreveu estas palavras terrveis em uma cle-     d'infriorit des organes (1898), Paris, Payot, 1956; Le
bre carta a Arnold Zweig*: "Para um rapaz          Temprament nerveux: lments d'une psychologie
judeu de um subrbio vienense, uma morte em        individuelle et applications  la thrapeutique (1907),
                                                   Paris, Payot, 1970  Les Premiers psychanalystes,
Aberdeen  por si s uma carreira pouco comum
                                                   Minutes de la Socit Psychanalytique de Vienne,
e uma prova de seu progresso. Realmente, o         1906-1918, 4 vols. (1962-1975), Paris, Gallimard,
mundo o recompensou com generosidade pelo          1976-1983  Mans Sperber, Alfred Adler et la psycho-
servio que ele lhe prestou ao opor-se  psica-    logie individuelle (1970), Paris, Gallimard, 1972  Henri
                                                   F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'incons-
nlise." Em "A histria do movimento psicana-
                                                   cient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974),
ltico" (1914), Freud contou de maneira parcial    Paris, Fayard, 1994  Paul E. Stepansky, Adler dans
a histria dessa ruptura. Seus partidrios humi-   l'ombre de Freud (1983), Paris, PUF, 1992.
lharam os adlerianos, e estes arrasaram os freu-
dianos. Foi preciso esperar pelos trabalhos da      CISO; COMUNISMO; FREUDO-MARXISMO; HIS-
                                                   TORIOGRAFIA; NEOFREUDISMO; PSICOTERAPIA;
historiografia* erudita, principalmente os de
                                                   RSSIA.
Henri F. Ellenberger* e os de Paul E. Stepansky,
para se formar uma idia mais exata da reali-
dade dessa dissidncia.                            Adler, Ida
    Em 1911, Adler demitiu-se da Sociedade das
                                                    BAUER, IDA (CASO DORA).
Quarta-Feiras, da qual era presidente desde
1910, e deixou a Zentralblatt fr Psychoana-
lyse*, que dirigia com Stekel. Em 1912, publi-     afnise
cou O temperamento nervoso, em que exps o         Termo derivado do grego (aphanisis: fazer desapa-
essencial da sua doutrina, e um ano depois         recer), introduzido por Ernest Jones* em 1927 para
fundou a Associao para uma Psicologia In-        designar o desaparecimento do desejo* e o medo
dividual, com ex-membros do crculo freudia-       desse desaparecimento, tanto no homem quanto
no, entre os quais Carl Furtmuller (1880-1951)     na mulher.
e David Ernst Oppenheim (1881-1943).                  Foi em seu artigo de 1927 sobre a sexuali-
    Depois de combater na Grande Guerra,           dade feminina*, apresentado no congresso da
Adler voltou a Viena, onde ps suas idias em      International Psychoanalytical Association*
prtica, fundando instituies mdico-psicol-     (IPA) e intitulado "A fase precoce do desenvol-
gicas. Reformista, condenou o bolchevismo,         vimento da sexualidade feminina", que Ernest
mas sem militar pela social-democracia. Em         Jones explicou que o medo da castrao* no
1926, seu movimento adquiriu dimenso inter-       homem assumia, na mulher, a forma de um
nacional, notadamente nos Estados Unidos*,         medo da separao ou do abandono. Chamou
nico pas em que teve uma verdadeira implan-      ento de afnise ao que existe em comum em
tao. Adler comeou ento a visitar esse pas     ambos os sexos quanto a esse medo fundamen-
                                                                                    Ajase, complexo de           9

tal, que decorre, segundo ele, de uma angstia                Em 1925, publicou um livro pioneiro sobre
ligada  abolio do desejo ou da capacidade de           adolescentes, Juventude abandonada, para o
desejar.                                                  qual Freud redigiu um prefcio em que se l: "A
    Em 1963, Jacques Lacan* criticou essa no-             criana se tornou o objeto principal da pesquisa
o, para situar a abolio na vertente de um             psicanaltica. Tomou assim o lugar do neurti-
esvaecimento (ou fading) do sujeito*.                     co, primeiro objeto dessa pesquisa." Aichhorn
                                                          mostrava que o comportamento anti-social era
 Ernest Jones, Thorie et pratique de la psychanalyse,   anlogo aos sintomas neurticos e situava suas
Paris, Payot, 1969  Jacques Lacan, O Seminrio, livro
                                                          causas primeiras em "laos libidinais anor-
11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanlise
(1964) (Paris, 1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,        mais" da primeira infncia. Militava pela utili-
1979.                                                     zao, por parte dos educadores, da tcnica
                                                          psicanaltica*, defendendo a idia de que o pe-
 CLIVAGEM (DO EU); OBJETO, RELAO DE; OBJE-              dagogo podia tornar-se, para a criana, um pai
TO (PEQUENO) a.                                           substituto, no seio de uma transferncia* posi-
                                                          tiva. Em 1932, aposentou-se para trabalhar par-
                                                          ticularmente. Em 1938, no deixou Viena, co-
frica                                                    mo a maioria dos colegas, porque seu filho fora
 ANTROPOLOGIA; COLLOMB, HENRI; ETNOPSICA-                 preso pelos nazistas e deportado como prisio-
NLISE; FANON, FRANTZ; HISTRIA DA PSICAN-               neiro poltico para o campo de concentrao de
LISE; LAFORGUE, REN; MANNONI, OCTAVE;                    Dachau.
SACHS, WULF.                                                  Foi por essa razo que aceitou dirigir, entre
                                                          1938 e 1944, como "psiclogo clnico", a for-
                                                          mao psicanaltica do Instituto Alemo de Pes-
Aichhorn, August (1878-1949)                              quisas Psicolgicas e Psicoteraputicas de Ber-
                                                          lim, criado por Matthias Heinrich Gring*. De-
psicanalista austraco
                                                          pois da Segunda Guerra Mundial, participou,
    Nascido em Viena*, August Aichhorn era                com a ajuda de Anna Freud, da reconstruo da
filho de um banqueiro cristo e socialista. Es-           WPV e foi nomeado diretor do International
tudou construo mecnica, que abandonou pa-              Journal of Psycho-Analysis* (IJP).
ra ser professor primrio e consagrar-se  peda-
gogia e aos problemas da delinqncia infantil             August Aichhorn, Jeunesse  l'abandon (Viena,
e juvenil. Em 1918, tornou-se diretor da ins-             1925), Toulouse, Privat, 1973  Sigmund Freud, "Pre-
                                                          fcio a Juventude abandonada, de Aichhorn" (1925),
tituio de Ober-Hollabrunn, situada a noroeste
                                                          ESB, XIX, 341-8; GW, XIV, 565-7; SE, XIX, 273-5; OC,
de Viena, e em 1920 de outra, antes de trabalhar          XVII, 161-3  Kurt Eissler, "August Aichhorn: a biogra-
com a municipalidade da cidade. Analisado por             phical outline", in Searchlights on Delinquency, New
Paul Federn*, aderiu  Wiener Psychoanaly-                Psychoanalytic Studies, N. York, International Univer-
tische Vereinigung (WPV) em 1922 e formou                 sities Press, IX-XIII  Geoffrey Cocks, La Psychothra-
                                                          pie sous le IIIe Reich (1985), Paris, Les Belles Lettres,
um pequeno crculo de estudos sobre a delin-              1987  lisabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma bio-
qncia com Siegfried Bernfeld* e Wilhelm                 grafia (1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992.
(Willi) Hoffer (1897-1967).
    Personagem no-conformista, corpulento,                ALEMANHA; ANNAFREUDISMO; NAZISMO; PSICA-
sempre vestido de preto, uma piteira nos lbios,          NLISE DE CRIANAS; SOCIEDADE PSICOLGICA
tinha tal respeito por Sigmund Freud* que nun-            DAS QUARTAS-FEIRAS.
ca ousava tomar a palavra nas reunies da WPV.
Durante longos anos, ningum suspeitou de que
estava apaixonado por Anna Freud, filha do                Aime, caso
mestre. S revelou a esta o seu segredo s                 ANZIEU, MARGUERITE.
vsperas de sua morte. De qualquer forma, foi
graas a ele que, durante sua juventude em
Viena, ela descobriu o mundo dos marginais e              Ajase, complexo de
dos excludos.                                             JAPO (KOSAWA HEISAKU).
10     Alemanha

Alemanha                                             XIX, essa cincia da alma que florescera na
                                                     esteira do romantismo e de que se nutriam os
    Sem o advento do nazismo*, que a esvaziou
                                                     trabalhos freudianos. Thomas Mann* seria um
da quase totalidade de seus intelectuais e erudi-
                                                     dos poucos a reconhecer o valor cientfico desse
tos, a Alemanha teria sido o mais poderoso pas
de implantao da psicanlise*. Se fosse neces-      freudismo julgado excessivamente literrio pe-
srio comprovar essa afirmao, bastariam os         los psiclogos universitrios.
nomes de seus prestigiosos fundadores, que se            No campo da filosofia, a psicanlise passava
naturalizaram americanos, quando no morre-          por ser aquele "psicologismo" denunciado por
ram antes de poder emigrar: Karl Abraham*,           Edmund Husserl desde seus primeiros traba-
Max Eitingon*, Otto Fenichel*, Ernst Simmel*,        lhos. Assim, ela foi criticada em 1913 por Karl
Otto Gross*, Georg Groddeck*, Wilhelm                Jaspers (1883-1969) em uma obra monumental,
Reich*, Erich Fromm*, Karen Horney*.                 Psicopatologia geral, que teve um grande papel
                                                     na gnese de uma psiquiatria fenomenolgica,
    Como em quase todos os pases do mundo,
as teses freudianas foram consideradas, na Ale-      principalmente na Frana*, em torno de Eugne
manha, como um pansexualismo*, uma "porca-           Minkowski*, de Daniel Lagache* e do jovem
ria sexual", uma "epidemia psquica". Tratada        Jacques Lacan*. Em 1937, Alexander Mitscher-
de "psiquiatria de dona de casa" pelos meios da      lisch* tentou convencer Jaspers a modificar a
medicina acadmica, a psicanlise foi mal acei-      sua opinio, mas chocou-se com a hostilidade
ta pelos grandes nomes do saber psiquitrico, e      do filsofo, que manteve-se surdo aos seus ar-
principalmente por Emil Kraepelin*. Reprova-         gumentos.
vam o seu estilo literrio e a sua metapsicolo-          Segundo Ernest Jones*, o ano de 1907 mar-
gia*, embora Freud tivesse assimilado em seus        cou o incio do progresso internacional da psi-
trabalhos uma parte importante da nosologia          canlise e o fim do "esplndido isolamento" de
kraepeliniana. Entretanto, foi mesmo no campo        Freud. Ora, nesse ano, dois assistentes de Eugen
do saber psiquitrico que ela acabou por ser         Bleuler* na Clnica do Hospital Burghlzli se
reconhecida, graas  ao de alguns pioneiros.      juntaram a ele: Max Eitingon e Karl Abraham,
Na virada do sculo XX, eles comearam a             futuro organizador do movimento berlinense:
descobrir a obra freudiana, praticando a hipno-      "Tenho a inteno de deixar Zurique dentro de
se* ou interessando-se pela sexologia*; entre        um ms, escreveu-lhe em 10 de outubro de
eles, Arthur Muthmann (1875-1957). Es-               1907. Com isso, abandono a minha atividade
timulado por Sigmund Freud* e Carl Gustav            anterior [...]. Na Alemanha como judeu, na Su-
Jung* a desenvolver atividades psicanalticas,       a como no-suo, no consegui ir alm de um
no se afastou do mtodo catrtico e rompeu          posto de assistente. Agora, vou tentar trabalhar
com o freudismo* em 1909. Por sua vez, Her-          em Berlim como especialista em doenas ner-
mann Oppenheim (1858-1918), neurologista             vosas e psquicas." Sempre  procura, desde o
judeu berlinense, recebeu favoravelmente os          fim de sua amizade com Wilhelm Fliess*, de
trabalhos clnicos da psicanlise, antes de criti-   uma renovao do poder alemo, Freud lhe
c-los duramente, como alis Theodor Ziehen          respondeu: "No  mau para um jovem como
(1862-1950), inventor da noo de complexo*          voc ser empurrado violentamente para a `vida
e titular da ctedra de psiquiatria de Berlim.       ao ar livre', e sua condio de judeu, aumentan-
    No nvel universitrio, a resistncia se ma-     do as dificuldades, ter, como para todos ns, o
nifestou de modo mais determinado. Como su-          efeito de manifestar plenamente as suas capaci-
blinha Jacques Le Rider, "a psicologia alem         dades [...]. Se minha amizade com o doutor W.
construra a sua reputao sobre a pesquisa em       Fliess ainda subsistisse, o caminho estaria aber-
laboratrio, sobre um mtodo cientfico do qual      to para voc; infelizmente, esse caminho est
a fsica e a qumica eram o modelo ideal, e cujo     agora totalmente fechado."
esprito positivo pretendia banir qualquer es-           Depois da Sua*, a Alemanha tornou-se
peculao, reconhecendo apenas um saber sin-         assim a segunda "terra prometida" da psican-
ttico: a biologia". A escola alem de psicologia    lise. No ano seguinte, foi a vez dos Estados
reagiu contra a Naturphilosophie do sculo           Unidos*.
                                                                                   Alemanha       11

    Desde a sua chegada, Abraham comeou a          sem recebido uma formao psicanaltica e que
organizar o movimento. No dia 27 de agosto de       acolhessem gratuitamente pacientes de baixa
1908, fundou a Associao Psicanaltica de          renda.
Berlim, com Otto Juliusburger*, Ivan Bloch,             Ativado por Simmel e Eitingon, sob a dire-
Magnus Hirschfeld*, Heinrich Krber. Esse           o de Abraham, esse programa recebeu o apoio
grupo assumiu uma importncia crescente. Trs       das autoridades governamentais e dos meios
congressos se realizaram em cidades alems:         acadmicos. Ernst Freud* preparou locais na
Nuremberg em 1910, onde foi criada a Interna-       Potsdamer Strasse, e a famosa Policlnica abriu
tional Psychoanalytical Association* (IPA),         suas portas a 14 de fevereiro de 1920, ao mesmo
Weimar em 1911, do qual participaram 116            tempo que o Berliner Psychoanalytisches Ins-
congressistas, Munique em 1913, quando se           titut* (BPI).
consumou a partida de Jung e seus partidrios.          Esse Instituto no s permitiria aperfeioar
Um ano depois, Freud pediu a Abraham que            os princpios da anlise didtica* e formar a
sucedesse a Jung na direo da IPA.                 maioria dos grandes terapeutas do movimento
    A derrota dos imprios centrais modificou o     freudiano, mas tambm serviria de modelo para
destino da psicanlise. Se a Sociedade Psicana-     todos os institutos criados pela IPA no mundo.
ltica Vienense (WPV) continuou ativa, em ra-       Quanto  Policlnica, esta foi um verdadeiro
zo da presena de Freud e do afluxo dos ame-       laboratrio para a elaborao de novas tcnicas
ricanos, perdeu toda a sua influncia em bene-      de tratamento. Em 1930, no seu "Relatrio
fcio do grupo berlinense. Arruinados, os ana-      original sobre os dez anos de atividade do BPI",
listas austracos emigraram para a Alemanha a       Eitingon exps um balano detalhado da expe-
fim de restabelecer suas finanas, seguidos pe-     rincia: 94 terapeutas em atividade, 1.955 con-
los hngaros, obrigados a fugir do regime dita-     sultas, 721 tratamentos psicanalticos, entre os
torial do almirante Horthy, depois do fracasso      quais 363 tratamentos terminados e 111 casos
da Comuna de Budapeste. Vencida sem ser             de cura, 205 de melhora e apenas 47 fracassos.
destruda, a Alemanha podia assim reconquistar      A esse sucesso, acrescentavam-se as atividades
um poder intelectual que o antigo reino dos         de Wilhelm Reich e Georg Groddeck, que con-
Habsburgo perdera. Berlim tornou-se pois, se-       triburam tambm para a difuso do freudismo
gundo as palavras de Ernest Jones, o "corao       na Alemanha.
de todo o movimento psicanaltico internacio-           Centro da divulgao clnica, Berlim conti-
nal", isto , um plo de divulgao das teses       nuava sendo pioneira de um certo conservado-
freudianas to importante quanto fora Zurique       rismo poltico e doutrinrio. E foi Frankfurt que
no comeo do sculo.                                se tornou o lugar da reflexo intelectual, dando
    Em 1918, Simmel reuniu-se a Abraham e a         origem  corrente da "esquerda freudiana", sob
Eitingon, seguido dois anos depois por Hanns        a influncia de Otto Fenichel, e  instituio do
Sachs*. A Associao Berlinense se vinculara        Frankfurter Psychoanalytisches Institut.
ento  IPA, sob o nome de Deutsche Psychoa-            Criado em 1929 por Karl Landauer* e Hein-
nalytische Gesellschaft (DPG). Estava aberto o      rich Meng*, esse instituto se distinguia do de
caminho para a criao de institutos que permi-     Berlim por sua colaborao intensa com o Ins-
tissem simultaneamente formar terapeutas ("re-      titut fr Sozialforschung, em cujos locais se
produzir a espcie analtica" como dizia Eitin-     instalara, e onde trabalharam notadamente
gon), e enraizar os tratamentos psicanalticos      Erich Fromm*, Herbert Marcuse*, Theodor
em um terreno social. Desde o incio da Socie-      Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895-
dade Psicolgica das Quarta-Feiras*, j existia     1973). Ncleo fundador da futura Escola de
a idia de uma psicanlise de massa, capaz de       Frankfurt, esse instituto de pesquisas sociais
tratar dos pobres e despertar as conscincias. No   fundado em 1923 originou a elaborao da
Congresso de Budapeste em 1918, Freud esti-         teoria crtica, doutrina sociolgica e filosfica
mulara esse projeto de transformar ao mesmo         que se apoiava simultaneamente na psicanlise,
tempo o mundo e as almas. Pensava em criar          na fenomenologia e no marxismo, para refletir
clnicas dirigidas por mdicos que tives-           sobre as condies de produo da cultura no
12     Alemanha

seio de uma sociedade dominada pela raciona-            Em 1930, a DPG tinha 90 membros, na
lidade tecnolgica.                                 maioria judeus. J em 1933, estes tomaram o
    Em 1942, em uma carta iluminada a Leo           caminho do exlio. Em 1935, um tero dos
Lowenthal, Horkheimer explicou claramente a         membros da DPG ainda residia na Alemanha,
dvida da Escola de Frankfurt para com a teoria     entre os quais nove judeus. Tornando-se se-
freudiana: "Seu pensamento  uma das Bild-          nhores desse grupo, alijado de seus melhores
ungsmchte [pedras angulares] sem as quais a        elementos, Boehm e Mller-Braunschweig fun-
nossa prpria filosofia no seria o que . Nestas   daram o seu colaboracionismo sobre a seguinte
ltimas semanas, mais uma vez, tenho cons-          tese: para no dar aos nazistas um pretexto
cincia da sua grandeza. Muito se disse, como       qualquer para proibir a psicanlise, bastava an-
sabemos, que o seu mtodo original correspon-       tecipar as suas ordens, excluindo os judeus da
dia essencialmente  natureza da burguesia          DPG, disfarando essa excluso de demisso
muito refinada de Viena, na poca em que ele        voluntria. Deu-se a essa operao o nome de
foi concebido. Claro que isso  totalmente falso    "salvamento da psicanlise".
em geral, mas mesmo que houvesse um gro de             Ernest Jones, presidente da IPA, aceitou essa
verdade, isso em nada invalidaria a obra de         poltica, e em 1935, presidiu oficialmente a
Freud. Quanto maior for uma obra, mais estar       sesso da DPG durante a qual os nove membros
enraizada em uma situao histrica concreta."      judeus foram obrigados a se demitir. Um nico
    nica instituio alem a difundir cursos na    no-judeu recusou essa poltica: chamava-se
universidade, o Instituto Psicanaltico de Frank-   Bernhard Kamm e deixou a Sociedade em soli-
furt teria um belo futuro. No formando didatas,    dariedade aos excludos. Originrio de Praga,
                                                    acabava de aderir  DPG. Tomando imediata-
mostrou-se mais aberto aos debates tericos do
                                                    mente o caminho do exlio, instalou-se em To-
que seu anlogo berlinense.
                                                    peka, no Kansas, com Karl Menninger*.
    Em 1930, graas  interveno do escritor
                                                        Como afirmou muito bem Regine Lockot
Alfons Paquet (1881-1944), a cidade concedeu
                                                    em um artigo de 1995, Freud qualificou de
a Freud o prmio Goethe. Em seu discurso, lido
                                                    "triste debate" todo esse caso. Mas, em uma
por sua filha Anna, Freud prestou homenagem
                                                    carta a Eitingon, de 21 de maro de 1933,
 Naturphilosophie, smbolo do lao espiritual      mostrou-se mais preocupado com os "inimigos
que unia a Alemanha  ustria, e  beleza da        internos" da psicanlise, notadamente os adle-
obra de Goethe, segundo ele prxima do eros         rianos e Wilhelm Reich. Assim, concentrou to-
platnico encerrado no mago da psicanlise.        dos os seus ataques contra Harald Schultz-
    Depois da ascenso de Hitler ao poder, Mat-     Hencke, julgado mais perigoso por suas po-
thias Gring, primo do marechal, decidido a         sies adlerianas do que por seu engajamento
depurar a doutrina freudiana de seu "esprito       pr-nazista. Esse erro de apreciao foi expres-
judaico", ps em prtica o programa de "ariani-     so com toda a liberdade no relato que Boehm
zao da psicanlise", que previa a excluso dos    fez, em agosto de 1934, de uma visita a Freud:
judeus e a transformao do vocabulrio. Rapi-      "Antes de nos separarmos, Freud expressou
damente, conquistou as boas graas de alguns        dois desejos relativamente  direo da Socie-
freudianos, dispostos a se lanarem nessa aven-     dade [DPG]: primeiro, Schultz-Hencke nunca
tura, como Felix Boehm* e Carl Mller-Braun-        deveria ser eleito para o comit diretor da nossa
schweig*, aos quais se reuniram depois Harald       Sociedade. Eu lhe dei minha palavra no sentido
Schultz-Hencke* e Werner Kemper*. Nenhum            de jamais participar de uma sesso com ele.
deles estava engajado na causa do nazismo.          Segundo: `Livrem-me de W. Reich.'"
Membros da DPG e do BPI, um freudiano                   Em 1936, Gring realizou enfim o seu so-
ortodoxo, o segundo adleriano e o terceiro neu-     nho. Criou o Deutsche Institut fr Psycholo-
tro, simplesmente tinham cime de seus colegas      gische Forschung (Instituto Alemo de Pesqui-
judeus. Assim, o advento do nacional-socialis-      sa Psicolgica e Psicoterapia), logo chamado de
mo foi para eles uma boa oportunidade de fazer      Gring Institut, no qual se reuniram freudianos,
carreira.                                           junguianos e independentes.
                                                                                  Alemanha       13

    Longe de se contentar com essa forma de        Leonardo Conti (1900-1945), primeiro presi-
colaborao, Felix Boehm foi a Viena, em           dente dos mdicos do Reich, depois de todas as
1938, para convencer Freud da necessidade do       organizaes de sade do partido e do Estado,
"salvamento" da psicanlise na Alemanha. De-       das quais, alis, dependia o Gring Institut. Em
pois de escut-lo durante um longo tempo, o        outubro de 1939, ocorreu o recenseamento dos
mestre, furioso, levantou-se e saiu do recinto.    hospcios e asilos, que foram classificados em
Desaprovava a tese do pretenso "salvamento",       trs grupos. Alguns meses depois, em janeiro
e desprezava a baixeza de seus partidrios. To-    de 1940, em Berlim, na antiga priso de Bran-
davia, recusou-se a usar sua autoridade junto a    denburg-Havel, os especialistas em "eutansia"
Jones e no interveio para evitar que a IPA        comearam a exterminar esses doentes usando
entrasse na engrenagem da colaborao. Era         um gs, o monxido de carbono.
tarde demais, pensava ele. Jones aplicara a sua        Depois da vitria dos Aliados, o Instituto
poltica a partir de uma posio, inicialmente     Gring e o BPI foram reduzidos a cinzas. Sem-
compartilhada por Freud, que consistia em pri-     pre presidente da IPA e gozando do apoio de
vilegiar a defesa de um freudismo nu e cru         John Rickman*, Jones ajudou os colaboracio-
(contra os "desvios" adleriano ou reichiano),      nistas a reintegrar-se  IPA. A Mller-Braun-
em detrimento de uma recusa absoluta de qual-      schweig e a Boehm, confiou a reconstruo da
quer colaborao nas condies oferecidas por      antiga DPG, e a Kemper a misso de desenvol-
Boehm e Mller-Braunschweig.                       ver o freudismo no Brasil*. Como em 1933,
    Ao longo de toda a guerra, cerca de 20         mostrou-se mais preocupado em restaurar a
freudianos prosseguiram suas atividades tera-      ortodoxia em matria de anlise didtica do que
puticas sob a gide do Instituto Gring, con-     em proceder  excluso de antigos colaboracio-
tribuindo assim para destruir a psicanlise, da    nistas. Assim, validou posteriormente a tese do
qual se tinham tornado donos. Trataram de pa-      suposto "salvamento", oferecendo  gerao*
cientes comuns, provenientes de todas as clas-     seguinte uma viso apologtica do passado.
ses sociais e atingidos por simples neuroses* ou   Mas como a Alemanha devia ser punida pelos
por doenas mentais: psicoses*, epilepsias, re-    seus erros, foi posta em quarentena pela IPA at
tardos -- com a exceo dos judeus, excludos      1985, data em que alguns historiadores come-
de qualquer tratamento e enviados imediata-        aram a publicar trabalhos crticos, mostrando
mente para campos de concentrao. Boehm           as conseqncias desastrosas da poltica de Jo-
encarregou-se pessoalmente da "percia" dos        nes e revelando o passado dos cinco principais
homossexuais e Kemper da "seleo" dos neu-        responsveis pela "arianizao" da psicanlise.
rticos de guerra. Johannes Schultz* "experi-          Em 1950, acreditando escapar ao oprbrio
mentou" nesse quadro os princpios de seu trei-    que pesava sobre a DPG, Mller-Braunschweig
namento autgeno.                                  se separou de Boehm para criar uma nova so-
    Nas fileiras da extinta DPG, John Rittmeis-    ciedade, a Deutsche Psychoanalytische Verein-
ter*, August Watermann*, Karl Landauer* e Sa-      igung (DPV). Esta foi integrada  IPA no ano
lomea Kempner* foram assassinados pelos na-        seguinte (a DPG nunca conseguiu isso), en-
zistas, como tambm vrios outros terapeutas       quanto Schultz-Hencke desenvolvia a sua pr-
hngaros ou austracos que no conseguiram         pria doutrina: a neopsicanlise. A DPG e a DPV
exilar-se.                                         continuaram a propagar a mesma idealizao
    Enquanto se desenrolavam os "tratamentos"      do passado, a fim de justificar a antiga poltica
do Instituto Gring, a direo do Ministrio da    de colaborao.
Sade do Reich se encarregava de aplicar aos           A partir de 1947, s Alexander Mitscherlich
doentes mentais "medidas de eutansia". Aps       conseguiu salvar a honra do freudismo alemo
o episdio da substituio de Ernst Kretschmer*    e da DPV, criando a revista Psyche, fundando
por Carl Gustav Jung  frente do Allgemeine        em Frankfurt o Instituto Freud e obrigando as
rtzliche Gesellschaft fr Psychotherapie          novas geraes a um imenso trabalho de reme-
(AAGP), a psiquiatria alem sofrera a mesma        morao e lembrana. Desterrada de sua antiga
arianizao que a psicanlise, sob a direo de    capital, a psicanlise pde renascer na Repbli-
14      Alexander, Franz

ca Federal, ao passo que, na Alemanha Oriental,             nes brunes. La Psychanalyse sous le IIIe Reich, textos
                                                            traduzidos e apresentados por Jean-Luc Evard, Paris,
era condenada como "cincia burguesa".
                                                            Confrontation, 1984  On forme des psychanalystes.
    Assim, a cidade de Frankfurt esteve na van-             Rapport original sur les dix ans de l'Institut Psychana-
guarda do movimento psicanaltico alemo du-                lytique de Berlin, apresentao de Fanny Colonomos,
rante a segunda metade do sculo. Voltando a                Paris, Denol, 1985  Chaim S. Katz (org.), Psicanlise
                                                            e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus, 1985  Geoffrey
dar vida  sua escola, Adorno e Horkheimer
                                                            Cocks, La Psychothrapie sous le IIIe Reich (Oxford,
desempenharam um grande papel, com Mit-                     1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987  Regine Lockot,
scherlich, nesse desenvolvimento, do qual                   Erinnern und Durcharbeiten, Frankfurt, Fischer, 1985;
emergiu uma nova reflexo clnica e poltica                "Msusage, disqualification et division au lieu d'expia-
sobre a sociedade alem do ps-nazismo, assim               tion", Topique, 57, 1995, 245-57  Ici la vie continue de
                                                            manire surprenante, seleo de textos traduzidos por
como trabalhos eruditos: os de Ilse Grubrich-Si-            Alain de Mijolla, Paris, Association Internationale d'His-
mitis, por exemplo, a melhor especialista em                toire de la Psychanalyse (AIHP), 1987.
manuscritos de Freud. Com doze institutos de
formao, distribudos pelas principais cidades              COMUNISMO; ESCANDINVIA; FREUDO-MARXIS-
(Hamburgo, Freiburg, Tbingen, Colnia etc.)                MO; HUNGRIA; ITLIA; JUDEIDADE; LAFORGUE, RE-
e cerca de 800 membros, a DPV  hoje uma                    N; MAUCO, GEORGES.
poderosa organizao freudiana.
    Entretanto, desde 1970, como por toda a
parte, o surgimento de mltiplas escolas de                 Alexander, Franz (1891-1964)
psicoterapia* contribuiu para fender as posies            mdico e psicanalista americano
da psicanlise. Alm disso, asfixiada por um
                                                                De origem hngara, Franz Alexander emi-
sistema mdico que permitia s caixas de assis-
                                                            grou para Berlim em 1920, quando o regime do
tncia mdica reembolsarem os tratamentos,
                                                            almirante Horthy obrigou a maioria dos psica-
sob condio de uma "percia" prvia dos casos,
                                                            nalistas a deixar o pas. Conhecia bem a Alema-
ela se banalizou e tornou-se uma prtica como
                                                            nha*, onde se iniciara na filosofia, seguindo os
as outras, pragmtica, esclerosada, rotineira e
                                                            ensinamentos de Husserl. Em Budapeste, es-
limitada a um ideal tcnico de cura rpida.
                                                            tudou medicina e com Hanns Sachs*, vindo de
Nessa data, Mitscherlich pensou que ela estava
                                                            Viena*, fez a sua anlise didtica*, tendo sido o
desaparecendo na Alemanha.
                                                            primeiro aluno do prestigioso Instituto Psicana-
    Alguns anos depois, a obra de Lacan, im-                ltico de Berlim (Berliner Psychoanalytisches
pregnada de hegelianismo e de heideggerianis-               Institut*). Tornando-se professor, formaria, co-
mo, apareceu no cenrio universitrio alemo,               mo didata ou supervisor, muitos representantes
essencialmente nos departamentos de filosofia.              da histria do freudismo*, entre os quais Charles
No plano clnico, o lacanismo* nunca conseguiu              Odier*, Raymond de Saussure*, Marianne
implantar-se, a no ser em pequenos grupos                  Kris*. Seria tambm, no incio dos anos 30, o
marginais, compostos de no-mdicos e sem                   analista de Oliver Freud*, filho de Sigmund
relao com os grandes institutos da IPA.                   Freud*.
                                                                Logo de sada, aceitou a segunda tpica*,
 Sigmund Freud, "A histria do movimento psicanalti-
co" (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV,
                                                            assim como a noo de pulso de morte* e
7-66; Paris, Gallimard, 1991  Sigmund Freud e Karl         sempre manifestou grande interesse pela crimi-
Abraham, Correspondance, 1907-1926 (Frankfurt,              nologia*. Tinha a habilidade de "encenar" os
1965), Paris, Gallimard, 1969  Martin Jay, L'Imagina-      conceitos freudianos, como na sua comunica-
tion dialectique. Histoire de l'cole de Francfort, 1923-   o de 1924, no congresso da International Psy-
1950 (Boston, 1973), Paris, Payot, 1977  Hannah
Decker, Sigmund Freud in Germany. Revolution and            choanalytical Association* (IPA) de Salzburgo,
Reaction in Science, 1893-1907, N. York, New York           na qual explicou o problema da neurose* em
International Universities Press, 1977  Jacques Le         termos de "fronteira". Comparou o recalque* da
Rider, "La Psychanalyse en Allemagne" in Roland Jac-        pulso* proveniente do isso* a uma mercadoria
card (org.), Histoire de la psychanalyse, vol.2, Paris,
Hachette, 1982, 107-43  Eugen Kogon, Hermann
                                                            proibida e barrada na fronteira de um Estado: o
Langbein, Adalbert Rukerl, Les Chambres  gaz, secret       pas do eu*. O supereu* era representado com
d'tat (Frankfurt, 1983), Paris, Minuit, 1984  Les An-     os traos de um fiscal aduaneiro pouco inteli-
                                                                                  Allendy, Ren         15

gente e corruptvel, e o sintoma neurtico era      diana e a questionar a durao cannica dos
assimilado a um contrabandista que subornava        tratamentos e das sesses, o que lhe valeu
o fiscal para atravessar a fronteira.               conflitos com a American Psychoanalytic As-
    Essa evocao no deixava de ter uma rela-      sociation (APsaA). Em 1956, participou, com
o com o destino do prprio Alexander, ho-         Roy Grinker, da criao da American Academy
mem dinmico, adepto das mudanas e das tra-        of Psychoanalysis (AAP), mais aberta do que a
vessias de territrios. Viajante incansvel, logo   APsaA a todas as novidades teraputicas.
pensou em emigrar para os Estados Unidos*.              Em 1950, no primeiro congresso da As-
Depois de uma primeira permanncia e de uma         sociao Mundial de Psiquiatria, organizado
passagem por Boston, instalou-se definitiva-        por Henri Ey* em Paris, declarou: "A psican-
mente em Chicago, entre 1931 e 1932, enquan-        lise pertence a um passado em que ela teve que
to Freud, com quem manteve uma correspon-           lutar contra os preconceitos de um mundo pou-
dncia (ainda no publicada), procurava ret-lo     co preparado para receb-la [...]. Hoje, pode-
na Europa, mesmo desconfiando dele: "Gosta-         mos permitir-nos divergir entre ns, porque a
ria de ter uma confiana inabalvel em Alexan-      pesquisa e o progresso s so possveis em um
der, escreveu a Max Eitingon* em julho de 1932,     clima de liberdade."
mas no consigo. Sua simplicidade real ou si-        Franz Alexander, The Scope of Psychoanalysis. Se-
mulada o afasta de mim, ou ento no superei        lected Papers, 1921-1961, N. York, Basic Books, 1961;
minha desconfiana em relao  Amrica."           Medicina psicossomtica (Paris, 1967), P. Alegre, Artes
    Em Chicago, Alexander criou um instituto        Mdicas, 1989  Franz Alexander, Samuel Eisenstein
                                                    e Martin Grotjahn (orgs.), A histria da psicanlise
de psicanlise (Chicago Institute for Psychoa-      atravs de seus pioneiros (N. York, 1956), Rio de
nalysis), to dinmico quanto o de Berlim, e        Janeiro, Imago, 1981  Lon J. Saul, "Franz Alexander,
animou-o at o fim de seus dias. A psicanlise*,    1891-1964", Psychoanalytic Quarterly, vol.XXXIII,
pela qual nutria verdadeira paixo, foi a princi-   1964, 420-3.
pal atividade de sua vida. Curioso a respeito de
                                                     BETTELHEIM, BRUNO; CRIMINOLOGIA; KOHUT,
tudo, filosofia, fsica, teatro e literatura, foi   HEINZ; LANGER, MARIE; MITSCHERLICH, ALEXAN-
assim o iniciador de uma das principais cor-        DER; PSICOSSOMTICA, MEDICINA; TCNICA PSICA-
rentes do freudismo americano, conhecida sob        NALTICA.
o nome de Escola de Chicago.
    Essa corrente, onde se encontrava a inspira-
o ferencziana da tcnica ativa, visava trans-     alfa, funo
formar o tratamento clssico em uma terapu-         BION, WILFRED RUPRECHT.
tica da personalidade global. Dedicando-se ao
problema da lcera gastro-duodenal, Alexander
ficara impressionado com o seu freqente apa-       Allendy, Ren (1889-1942)
recimento nas pessoas ativas. A partir da, mos-    mdico e psicanalista francs
trou que na origem da doena encontra-se uma            A obra escrita desse mdico, que foi em
necessidade de ternura nascida na infncia, que     1926 um dos doze fundadores da Sociedade
se ope ao eu e se traduz pela emergncia de        Psicanaltica de Paris (SPP),  to considervel
uma intensa agressividade. Em suma, quanto          quanto a sua personalidade  estranha e at
mais a atividade  importante, mais o sentimen-     esquecida. Assinou cerca de 200 artigos e 20
to infantil inconsciente se desenvolve. Este se     obras sobre temas to diversos quanto a influn-
traduz por uma demanda de alimento, que acar-       cia astral, os querubins e as esfinges, a teoria
reta uma secreo gstrica excessiva, seguida       dos quatro temperamentos, a grande obra dos
de lcera. Diante desses sintomas, Alexander        alquimistas, as modalidades atmosfricas, a t-
preconizou a associao de duas teraputicas:       bua de esmeralda de Hermes Trismegisto, o
uma ligava-se  explorao do inconsciente e        tratamento da tuberculose pulmonar, a lycosa
privilegiava a palavra; outra, orgnica, tratava    tarentula, o sonho* etc.
da lcera. Essa posio o levou a inventar uma          Defendeu sua tese de medicina em novem-
medicina psicossomtica* de inspirao freu-        bro de 1912, oito dias antes de se casar com
16     Ambulatorium

Yvonne Nel Dumouchel, de quem o poeta An-             Ren Allendy, Journal d'un mdecin malade, ou six
                                                     mois de lutte contre la mort, Paris, Denol e Steele,
tonin Artaud faria, em sua correspondncia,          1944  lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise
uma de suas "cinco mes adotivas". Atingido          na Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge
por gases de combate durante a Primeira Guerra       Zahar, 1989  Deirdre Bair, Anas Nin. Biographie (N.
Mundial, reconhecido depois como tuberculo-          York, 1995), Paris, Stock, 1996.
so, Allendy decidiu curar-se por conta prpria.
                                                      FRANA.
Em 1920, tornou-se membro titular da Socie-
dade Francesa de Homeopatia e, trs anos de-
pois, ficou conhecendo Ren Laforgue*, com           Ambulatorium
quem fez sua anlise didtica*. Este o introduziu
                                                      HITSCHMANN, EDUARD.
no servio do professor Henri Claude* no Hos-
pital Sainte-Anne.
    Allendy praticamente no formou analistas        Amrica
no seio da SPP, mas seu consultrio e seu pala-
                                                      AMERICAN PSYCHOANALYTIC ASSOCIATION;
cete do XVI arrondissement de Paris foram            ANNAFREUDISMO; ARGENTINA; ASSOCIAO BRA-
freqentados por escritores e artistas, em es-       SILEIRA DE PSICANLISE; ASSOCIATION MONDIALE
pecial Ren Crevel (1900-1935) e Anas Nin           DE PSYCHANALYSE; BRASIL; CANAD; EGO PSY-
(1903-1977), de quem foi amante. Esta contou         CHOLOGY; ESTADOS UNIDOS; FEDERAO PSICA-
em seu Dirio apenas alguns fragmentos desse         NALTICA DA AMRICA LATINA; FREUDISMO; HIS-
incrvel tratamento psicanaltico que durou um       TRIA DA PSICANLISE; HISTORIOGRAFIA; IGREJA;
ano, em 1932-1933, em condies particular-          KLEINISMO; LACANISMO; SELF PSYCHOLOGY.
mente transgressoras. E s em 1995 a verdade
foi conhecida, graas a Deirdre Bair, sua bi-
grafa, que reconstituiu detalhadamente o que foi     American Psychoanalytic
essa relao.                                        Association (APsaA)
    Se Allendy foi seduzido por essa mulher, que     (Associao Psicanaltica Americana)
exibia os seios durante as sesses, beijou-a le-         Fundada por Ernest Jones* em 1911, a Ame-
vemente nas faces quando ela decidiu inter-          rican Psychoanalytic Association (APsaA)  a
romper o tratamento, provocando o seu furor.         nica associao regional (regional as-
Assim, ela retornou e a anlise se transformou       sociation) da International Psychoanalytical
ento em sesses de masturbao comparti-            Association* (IPA). Rene sociedades psicana-
lhada, antes que, em um hotel, Allendy se en-        lticas ditas "filiadas" (affiliate societies), das
tregasse com ela a prticas sadomasoquistas.         quais dependem os institutos de formao (trai-
                                                     ning institutes). Essas sociedades so reco-
    Foi depois dessa "anlise" que Anas Nin
                                                     nhecidas pela IPA atravs de sua filiao 
deitou-se com o pai, Joaquin Nin, que excla-
                                                     APsaA. Somam um total de quarenta, havendo
mou, no momento do ato sexual: "Tragam aqui
                                                     entre elas cinco grupos de estudos (study
Freud e todos os psicanalistas. O que diriam         groups). A elas se juntam 19 institutos dis-
disto?" Quando ela contou a cena a Allendy,          tribudos pelas principais cidades dos Estados
este ficou horrorizado e lhe relatou todo tipo de    Unidos* e quatro sociedades norte-americanas
histrias de incesto* que terminaram em trag-       provisrias, que no fazem parte da APsaA mas
dia. Concluiu a sesso dizendo  sua "paciente"      esto diretamente ligadas  IPA: o Institute for
que ela era "um ser contra a natureza". Ela          Psychoanalytic Training and Research, o Los
respondeu orgulhosamente que o sentimento            Angeles Institute and Society for Psychoanaly-
que tinha pelo pai era um amor "natural". De-        tic Studies, The New York Freudian Society e o
pois dessa farsa sinistra, Anas Nin foi consultar   Psychoanalytic Center of California.
Otto Rank*.                                              Decorridos setenta anos desde sua fundao,
    No fim da vida, Allendy contou sua prpria       a APsaA continua a ser a maior potncia freu-
agonia, de modo comovedor, no Dirio de um           diana da IPA, com cerca de 3.500 psicanalistas
mdico doente, obra pstuma.                         para 263 milhes de habitantes, isto , pouco
                                                                                   anlise didtica       17

mais de um tero do efetivo global da IPA, ou          anlise didtica
uma densidade de 13 psicanalistas por milho           al. Lehranalyse ou didaktische Analyse; esp. an-
de habitantes. A eles se somam os psicanalistas        lisis didctico; fr. analyse didactique; ing. training
norte-americanos de todas as tendncias que            analysis
no fazem parte da IPA, e que so aproximada-
                                                       Termo empregado a partir de 1922 e adotado, em
mente oito a nove mil.
                                                       1925, pela International Psychoanalytical Associa-
   Alm da APsaA, existem outras duas gran-            tion* (IPA), para designar a psicanlise* de quem
des organizaes que no tm o estatuto de             se destina  profisso de psicanalista. Trata-se de
associaes regionais: a Federao Europia de         uma formao obrigatria.
Psicanlise* (FEP), que vem progredindo gra-
                                                           Foi Carl Gustav Jung* quem primeiro teve
as  reconstruo da psicanlise, depois de
                                                       a idia, trabalhando com Eugen Bleuler* na
1989, nos antigos pases comunistas, e a Fede-
                                                       Clnica do Burghlzli, de "tratar os alunos co-
rao Psicanaltica da Amrica Latina (FE-
                                                       mo pacientes", e foi tambm ele, como sublinha
PAL), ainda em expanso, cada qual composta
                                                       Sigmund Freud* num artigo de 1912, quem
por cerca de trs mil membros.
                                                       "ressaltou a necessidade de que toda pessoa que
 Roster. The International Psychoanalytical As-       quisesse praticar a anlise se submetesse antes
sociation Trust, 1996-1997.                            a essa experincia, ela mesma, com um analista
                                                       qualificado".
 ASSOCIAO BRASILEIRA DE PSICANLISE; AS-
                                                           No comeo do sculo, Freud adquiriu o
SOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE; AUS-
                                                       hbito de tratar atravs da psicanlise alguns de
TRLIA; CANAD; FREUDISMO; HISTRIA DA PSICA-
NLISE; NDIA; JAPO; KLEINISMO.
                                                       seus discpulos que apresentavam distrbios
                                                       psquicos, como Wilhelm Stekel*, por exem-
                                                       plo. Jung fez o mesmo na clnica de Zurique,
amor de transferncia                                  onde alguns internos que tinham ido tratar-se
 TRANSFERNCIA.
                                                       adotaram posteriormente o mtodo de trata-
                                                       mento que os havia "curado", preocupados em
                                                       ajudar seus semelhantes. Por outro lado, vrios
anacltica, depresso                                  dos grandes pioneiros da psicanlise, de Poul
al. Anlehnungsdepression; esp. depressin anacl-
                                                       Bjerre* a Victor Tausk*, passando por Hermine
tica; fr. dpression anaclitique; ing. anaclitic de-   von Hug-Hellmuth* e at Mlanie Klein*, eram
pression                                               afetados pelos mesmos males psquicos que
                                                       seus pacientes e, tal como Freud com sua auto-
Termo criado por Ren Spitz* em 1945, para desig-
                                                       anlise*, experimentaram os princpios da in-
nar uma sndrome depressiva que afeta a criana
privada da me depois de ter tido uma relao
                                                       vestigao do inconsciente*. Nesse sentido,
normal com ela durante os primeiros meses de           Henri F. Ellenberger* teve razo em observar
vida.                                                  que a anlise didtica derivou, simultaneamen-
    A depresso anacltica distingue-se do hos-        te, da "doena inicitica" que confere ao xam
pitalismo*, outro termo cunhado por Spitz para         seu poder de cura e da "neurose criadora", tal
designar, dessa vez, a separao duradoura en-         como a vivenciaram e descreveram os grandes
tre a me e o filho, gerada por uma estada             pioneiros da descoberta do inconsciente.
prolongada deste ltimo no meio hospitalar, e              O princpio da anlise didtica enraizou-se
que acarreta distrbios profundos, s vezes ir-        espontaneamente no cerne da Sociedade Psico-
reversveis ou de natureza psictica. A depres-        lgica das Quartas-Feiras*, e depois foi sendo
so anacltica pode desaparecer quando a crian-        elaborado conforme as reflexes do movimento
a se reencontra com a me.                            sobre a contratransferncia*. No havendo ne-
    Na literatura psicanaltica inglesa e norte-       nhuma regra estabelecida, Freud e seus discpu-
americana, o adjetivo "anacltico"  equiva-           los no hesitavam em aceitar em anlise as
lente ao apoio*.                                       pessoas ntimas (amigos, amantes, concubinas)
                                                       ou os membros de uma mesma famlia (mu-
 APOIO.                                                lheres, filhos, sobrinhos) e em misturar estrei-
18     anlise didtica

tamente as relaes amorosas e profissionais.             Essa crise da formao psicanaltica marcou
Foi assim que Jung tornou-se amante de Sabina         todos os debates da segunda metade do sculo
Spielrein*, Freud analisou sua prpria filha e se     XX e esteve na origem de numerosos conflitos
viu implicado num incrvel imbrglio com Ruth         dentro do movimento freudiano, desde as Gran-
Mack-Brunswick*, Sandor Ferenczi* foi ana-            des Controvrsias*, ao longo das quais se opu-
lista de sua mulher e da filha desta, por quem se     seram kleinianos e annafreudianos, at a ciso*
apaixonou, e Erich Fromm* tornou-se terapeuta         francesa de 1963, que levou Jacques Lacan* a
da filha de Karen Horney*, de quem tinha sido         deixar a IPA.
companheiro.                                              No interior da legitimidade freudiana, tanto
    Em 1919, no congresso da IPA em Budapes-          nos Estados Unidos* quanto na Gr-Bretanha*
te, Hermann Nunberg* props pela primeira             ou na Argentina*, inmeros psicanalistas con-
vez que uma das condies exigidas para o             testaram a rigidez burocrtica das regras da an-
tornar-se analista fosse ter feito anlise. Mas       lise didtica, dentre eles Siegfried Bernfeld*,
Otto Rank*, apoiado por Ferenczi, ops-se a           Donald Woods Winnicott*, Masud Khan*, Ma-
que a moo fosse votada. Entretanto, a idia         rie Langer* etc.
seguiu seu curso e, em 1920, a criao do famo-
so Berliner Psychoanalytisches Institut* (Ins-         Sigmund Freud, "As perspectivas futuras da terapia
tituto Psicanaltico de Berlim, ou BPI), integra-     psicanaltica" (1910), ESB, XI, 127-40; GW, VIII, 104-
do  Policlnica do mesmo nome, desempenhou           15; SE, XI, 139-51; in La Technique psychanalytique,
                                                      Paris, PUF, 1953, 23-42; "Recomendaes aos mdi-
um papel decisivo na instaurao dos princpios       cos que exercem a psicanlise" (1912), ESB, XII, 149-
da anlise didtica no seio da IPA. Assim, em         63; GW, VIII, 376-87; SE, XII, 109-20; ibid., 61-71,
1925, no Congresso de Bad-Homburg, ela foi            "Anlise terminvel e interminvel" (1937), ESB, XXIII,
tornada obrigatria por Max Eitingon* para            247-90; GW, XVI, 59-99; SE, XXIII, 209-53; in Rsul-
                                                      tats, ides, problmes, II, Paris, PUF, 1985, 231-69 
todas as sociedades psicanalticas, juntamente
                                                      On forme des psychanalystes. Rapport original sur les
com a superviso*.                                    dix ans de l'Institut Psychanalytique de Berlin, apresen-
    A partir dessa data, comearam a ser enca-        tao de Fanny Colonomos, Paris, Denol, 1985  Max
rados como transgresses os costumes anrqui-         Eitingon, "Allocution au IXe Congrs Psychanalytique"
cos da poca anterior. Aos olhos dos dirigentes       (1925), in Moustapha Safouan, Philippe Julien e Chris-
                                                      tian Hoffmann, Malaise dans l'institution, Estrasburgo,
da IPA, a instaurao de regras padronizadas          Arcanes, 1995, 105-13  Sandor Ferenczi, "Elastici-
deveria permitir que se socializassem as rela-        dade da tcnica psicanaltica" (1928), in Psicanlise IV,
es entre professor e aluno e que fossem afas-       Obras completas, 1927-1933 (Paris, 1982), S. Paulo,
tadas as prticas de idolatria e imitao de          Martins Fontes, 1994, 25-34; "O processo da formao
Freud. Ora, ao longo dos anos, a IPA se havia         psicanaltica" (1928), ibid., 209-14; "O problema do fim
                                                      da anlise" (1928), ibid., 15-24  Michael Balint, "A
transformado num vasto aparelho atormentado           propos du systme de formation psychanalytique"
pelo culto da personalidade. Em 1948, Michael         (1948), in Amour primaire et technique psychanalyti-
Balint* comparou o sistema de formao anal-         que, Paris, Payot, 1972, 285-308  Siegfried Bernfeld,
tica s cerimnias iniciticas: "Sabemos que o        "On psychoanalytic training", The Psychoanalytic
                                                      Quarterly, 31, 1962, 453-82  Edward D. Joseph e
objetivo geral de todos os ritos de iniciao 
                                                      Daniel Widlcher (orgs.), L'Identit du psychanalyste,
forar o candidato a se identificar com seu ini-      Paris, PUF 1979  Serge Lebovici e Albert J. Solnit
ciador, a introjetar o iniciador e seus ideais, e a   (orgs.), La Formation du psychanalyste, Paris, PUF,
construir, a partir de suas identificaes*, um       1982  lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise
supereu* forte que o domine pela vida afora."         na Frana, 2 vols. (Paris, 1982, 1986), Rio de Janeiro,
                                                      Jorge Zahar, 1989, 1988; Jacques Lacan. Esboo de
    Reencontrou-se assim, na anlise didtica, o      uma vida, histria de um sistema de pensamento (Pa-
poder de sugesto* que Freud havia banido da          ris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994 
prtica da psicanlise. Em conseqncia disso,        Moustapha Safouan, Jacques Lacan et la question de
seus herdeiros passaram a correr o risco de se        la formation des analystes, Paris, Seuil, 1983; Le Trans-
transformar em discpulos devotos de mestres          fert et le dsir de l'analyste, Paris, Seuil, 1988  Ernst
                                                      Falzeder, "Filiations psychanalytiques: la psychanalyse
medocres, quer por se tomarem por novos pro-         prend effet", in Andr Haynal (org.), La Psychanalyse:
fetas, quer por aceitarem em silncio a esclerose     cent ans dj (Londres, 1994), Genebra, Georg, 1996,
institucional.                                        255-89.
                                                                                     anlise existencial          19

 ALEMANHA; COLE FREUDIENNE DE PARIS;                     Sren Kierkegaard (1813-1855) e do antigo
PASSE; SACHS, HANNS; TCNICA DA PSICANLISE;              tratamento anmico valorizado pelos pastores
TRANSFERNCIA.                                            protestantes, considera a neurose* um "mundo
                                                          inautntico", do qual o doente deve conscienti-
                                                          zar-se atravs do encontro com um terapeuta. A
anlise direta                                            segunda, inventada por Ludwig Binswanger a
al. Direkte Analyse; esp. anlisis directo; fr. analyse   partir das teses de Edmund Husserl (1859-
directe; ing. direct analysis
                                                          1938) e Martin Heidegger (1889-1976), toma
Mtodo de psicoterapia* de inspirao kleiniana,          por objeto a estrutura da existncia individual
inventado pelo psiquiatra norte-americano John            na neurose e na psicose*, a fim de estudar o
Rosen para o tratamento das psicoses*.
                                                          devir do tempo, do espao e da representao
    Foi no contexto da evoluo da tcnica psi-           em cada sujeito.
canaltica*, e em seguida a grandes inovaes                 Entre os adeptos franceses da anlise exis-
propostas pelos diferentes discpulos de Sig-             tencial encontramos Eugne Minkowski*, o
mund Freud*, que se criou esse mtodo "ativo",            Jean-Paul Sartre de O ser e o nada e o jovem
pelo qual o analista intervm de maneira direti-
                                                          Michel Foucault (at 1954). Quanto a Jacques
va, e s vezes violenta, para fazer interpretaes
                                                          Lacan*, se no adotou a anlise existencial,
ao paciente, ocupando na transferncia* a posi-
                                                          efetivamente passou pela fenomenologia no en-
o de uma me idealizada ou de uma "boa
                                                          tre-guerras, antes de refundir filosoficamente a
me". Trata-se de compensar o eu* fraco do
                                                          obra freudiana com base em outros postulados.
sujeito* atravs de um ambiente linguageiro
que remeta  situao pr-natal, a fim de superar             Na ustria,  a teoria personalista de Igor
as deficincias e carncias da relao arcaica            Caruso*, baseada na idia da "psicologia pro-
com a me.                                                funda", que melhor representa a corrente da
                                                          psicoterapia existencial. A ela vem somar-se a
 John Rosen, L'Analyse directe (N. York, 1953), Paris,   logoterapia (terapia pela vontade de sentido) do
PUF, 1960.                                                psiquiatra austraco Viktor Frankl, que rejeita a
 BION, WILFRED RUPRECHT; BORDERLINE; ES-
                                                          doutrina freudiana da pulso* e do isso*, pri-
QUIZOFRENIA; INVEJA; OBJETO (BOM E MAU); PO-
                                                          vilegiando um inconsciente* espiritual ou exis-
SIO DEPRESSIVA/POSIO ESQUIZO-PARA-                    tencial, isto , a chamada parte "nobre" do
NIDE; SELF PSYCHOLOGY.                                   psiquismo (o eu*, o consciente*). Na Gr-Bre-
                                                          tanha*,  essencialmente em Ronald Laing*
                                                          que encontramos a temtica existencial.
anlise existencial (Daseinanalyse)
Termo cunhado na lngua alem em 1924, pelo                Jean-Paul Sartre, O ser e o nada (Paris, 1943),
psiquiatra Jakob Wyrsch, para designar o mtodo           Petrpolis, Vozes, 1997  Ludwig Binswanger, Le Rve
                                                          et l'existence (Zurique, 1930), Paris, Descle de Brou-
teraputico proposto por Ludwig Binswanger*. Es-
                                                          wer, 1954; Discours, parcours et Freud (Berna, 1947),
te mistura a psicanlise freudiana com a fenome-          Paris, Gallimard, 1970  Viktor Frankl, La Psychothra-
nologia heideggeriana e toma por objeto a exis-           pie et son image de l'homme, Paris, Resma, 1970 
tncia do sujeito*, segundo a trplice dimenso do        Jean-Baptiste Fags, Histoire de la psychanalyse
tempo, do espao e de sua relao com o mundo.            aprs Freud (Toulouse, 1976), Paris, Odile Jacob, 1966
Por extenso, a anlise existencial acabaria por           Michel Foucault, "Introduction" (1954), in Dits et crits,
abranger todas as correntes fenomenolgicas de            vol.1, Paris, Gallimard, 1994  Henri F. Ellenberger, La
psicoterapia*.                                            Psychiatrie suisse, srie de artigos publicados de 1951
                                                          a 1953 em L'volution Psychiatrique, Aurillac, s/d.;
    Na Frana, na Sua e na ustria desenvol-            Mdecines de l'me. Essais d'histoire de la folie et des
veu-se uma escola de psicoterapia marcada pela            gurisons psychiques, Paris, Fayard, 1995.
dupla corrente filosfica da fenomenologia e do
existencialismo. Duas formas de prtica esto              ANLISE DIRETA; ESQUIZOFRENIA; GESTALT-
ligadas a ela: a psicoterapia existencial e a             TERAPIA; MELANCOLIA; NEOFREUDISMO; REICH,
Daseinanalyse (Dasein: ser-a, existncia) ou             WILHELM; SELF PSYCHOLOGY; TERAPIA DE FAM-
anlise existencial. A primeira, derivada de              LIA.
20      anlise leiga (ou profana)

anlise leiga (ou profana)                              cadeado em 1926 pelo prprio Sigmund
al. Laienanalyse; esp. anlisis profano; fr. analyse    Freud*, com a publicao de A questo da
profane; ing. lay-analysis                              anlise leiga*.
Chama-se anlise leiga ou anlise profana, ou ain-
                                                            Ferrenho defensor da anlise leiga e da pr-
da psicanlise* leiga ou profana,  psicanlise pra-
                                                        tica da psicanlise por no-mdicos, Freud foi
ticada por no-mdicos. Os dois adjetivos (leiga e      muito duramente combatido por seus prprios
profana) significam tambm que a psicanlise, na        discpulos, sobretudo Abraham Arden Brill*, e
tica freudiana,  uma disciplina perfeitamente dis-    pelos membros da poderosssima American
tinta de todos os tratamentos da alma e de todas        Psychoanalytic Association (APsaA), que pre-
as formas de confisses teraputicas ligadas s         tendiam restringir aos mdicos a prtica da
diversas religies. Por conseguinte, ela deve cons-     psicanlise.
truir seus prprios critrios de formao profis-           Em virtude da emigrao macia de psica-
sional, sem se subordinar nem  medicina (da qual       nalistas europeus para os Estados Unidos*, em
a psiquiatria faz parte) nem a qualquer Igreja*, seja   conseqncia do nazismo*, Freud e seus parti-
esta ligada ao protestantismo, ao catolicismo, ao       drios perderam a batalha da anlise leiga du-
judasmo, ao islamismo ou ao budismo, nem tam-          rante o entre-guerras. Na Europa, nesse perodo,
pouco s religies animistas ou s seitas.              foi nos Pases Baixos* que os conflitos entre os
    Sob esse aspecto, a nica formao aceitvel        defensores e os adversrios da anlise leiga
para um psicanalista, sejam quais forem seu             assumiram um toque dramtico, tingido de anti-
grau universitrio e sua religio,  submeter-se        semitismo e xenofobia.
a uma anlise didtica* e, em seguida, a uma                A partir de 1945, com o desenvolvimento
superviso*, de acordo com as regras ditadas            considervel da psicologia e de seu ensino uni-
pela International Psychoanalytical Associa-            versitrio nos grandes pases democrticos, a
tion* (IPA) a partir de 1925. Essas regras, alis,      questo da anlise leiga colocou-se em novos
com algumas variaes, so aceitas pela totali-         termos. Maciamente, a psicanlise passou en-
dade dos praticantes que reivindicam o freudis-         to a ser praticada, com efeito, no mais apenas
mo* no mundo, quer sejam ou no membros da              por mdicos ou psiquiatras, mas por psicotera-
IPA, pertenam ou no a suas diversas correntes         peutas que haviam recebido formao como
-- lacanismo*, Self Psychology* etc.                    psiclogos, em geral na universidade. Depois
    Como a psicanlise se inscreve na histria          de ter sido engolida pela psiquiatria, ela corria
da medicina, na medida em que  um dos gran-            o risco de ser tragada pela psicologia e confun-
des componentes da psiquiatria dinmica*, ela           dida com as diferentes psicoterapias*. Por isso,
foi implantada na maioria dos pases por inter-         os psicanalistas reafirmaram vigorosamente a
mdio da medicina e da psiquiatra. Por conse-           existncia de suas prprias instituies, as ni-
guinte, foi essencialmente praticada, desde sua         cas capazes de definir os critrios da formao
origem, por homens e mulheres que receberam             psicanaltica: anlise didtica e superviso.
formao mdica ou psiquitrica, conforme as             Sigmund Freud, A questo da anlise leiga (1926),
regras de transmisso do saber prprias de cada         ESB, XX, 211-84; GW, XIV, 209-86; SE, XX, 183-258;
pas. Alis, paradoxalmente,  isso que lhe as-         OC, XVIII, 1-92.
segura sua laicidade, j que a medicina est mais
                                                         HISTRIA DA PSICANLISE; LAGACHE, DANIEL;
ligada  cincia do que  religio. Nos pases em       PSICOLOGIA CLNICA; PSICOTERAPIA INSTITUCIO-
que a psiquiatria no se desenvolveu e onde a           NAL; REIK, THEODOR.
loucura*  tida como um fenmeno de origem
divina ou demonaca, a psicanlise no foi im-
plantada.                                               anlise mtua
    Todavia, h uma contradio entre a autono-          FERENCZI, SANDOR; TCNICA PSICANALTICA.
mia necessria da psicanlise e os critrios de
sua prtica profissional, quando esta decorre do
ofcio de psiquiatra ou mdico. Foi essa tenso         anlise originria
que esteve na origem do grande conflito desen-           AUTO-ANLISE.
                                                                                  Andersson, Ola       21

anlise profana                                         em Estocolmo. O pai, Carl Andersson, era fun-
 ANLISE LEIGA.                                         cionrio e, como inspetor das escolas primrias
                                                        durante o perodo entre as duas guerras, foi
                                                        temido por uma gerao de professores, por
anlise selvagem                                        causa da severidade de seus julgamentos.
 GRODDECK, GEORG; INTERPRETAO.                            Foi em Lund que Ola Andersson estudou
                                                        letras antes de abraar a carreira de professor. A
                                                        partir de 1947, exerceu sua profisso em dife-
anlise transacional                                    rentes instituies, primeiro em um centro de
al. Vermittelnd Analyse; esp. anlisis transacional;    formao para trabalhadores sociais, filiado 
fr. analyse transactionnelle; ing. transactional ana-   Igreja sueca, depois em uma escola de psicote-
lysis                                                   rapia de inspirao religiosa, e enfim no depar-
Mtodo de psicoterapia* inventado pelo psicana-         tamento de pedagogia na Universidade de Es-
lista norte-americano Eric Berne (1910-1970), cen-      tocolmo.
trado na anlise do eu* em suas relaes com o              Com a idade de 20 anos, interessou-se pela
outro.                                                  psicanlise. Em 1948, fez contato com um dos
   Nascido em Montreal e havendo depois                 pioneiros da Sociedade Psicanaltica Sueca,
emigrado para os Estados Unidos*, Eric Berne            que o enviou a Ren De Monchy*, recentemen-
afastou-se do freudismo* clssico ao se instalar        te estabelecido na Sucia, com quem fez uma
em So Francisco, aps a Segunda Guerra Mun-            anlise didtica de cinco anos. Comeou depois
dial. Foi ali que aperfeioou o mtodo que o            outro perodo de anlise com Lajos Szkely
tornou clebre. Prximo da terapia de famlia*,         (1904-1995), emigrado da Hungria* e tambm
este consistia em restabelecer a comunicao            ele analisando de De Monchy.
ou "transao" entre os membros de uma mes-                 Fugindo dos conflitos internos na Sociedade
ma famlia ou grupo social dados, a partir de           Psicanaltica Sueca, que ocorreram depois do
uma anlise das relaes do eu com seu crculo.         retorno de De Monchy aos Pases Baixos*, An-
                                                        dersson decidiu dedicar-se essencialmente ao
 Eric Berne, Des jeux et des hommes. Psychologie       ensino,  pesquisa histrica e  traduo da obra
des relations humaines (1964), Paris, Stock, 1966.
                                                        freudiana. E, se foi membro titular da Socie-
 ANLISE EXISTENCIAL; GESTALT-TERAPIA; NEO-             dade, desempenhou nela apenas um papel se-
FREUDISMO; SCHULTZ, JOHANNES; TCNICA PSI-              cundrio.
CANALTICA; TERAPIA DE FAMLIA.                             Em dezembro de 1962, defendeu uma tese
                                                        sobre as origens do freudismo, o que lhe valeu
                                                        o ttulo prestigioso de Dozent. Publicou-a ime-
Andersson, Ola (1919-1990)                              diatamente e, assim, graas a esse trabalho ma-
psicanalista sueco                                      gistral, pde relacionar-se com Henri F. Ellen-
    Pioneiro da historiografia* erudita, Ola An-        berger* que, por sua vez, comeava a "revisar"
dersson teve um destino curioso no movimento            a historiografia oficial do freudismo na perspec-
freudiano. O nico livro que escreveu, publica-         tiva da constituio de uma histria erudita. No
do em 1962 com o ttulo de Studies in the               seu prprio trabalho, Andersson empreendeu
Prehistory of Psychoanalysis. The Etiology of           ento a primeira grande reviso de um caso prin-
Psychoneuroses (1886-1896), foi completa-               ceps dos Estudos sobre a histeria*: o caso "Em-
mente ignorado na Sucia nos meios psicanal-           my von N.". Descobriu seu nome verdadeiro,
ticos, embora seu autor ocupasse funes aca-           Fanny Moser*, exps a sua histria no congres-
dmicas importantes e fosse responsvel pela            so da International Psychoanalytical Associa-
traduo sueca das obras de Sigmund Freud*.             tion* (IPA) de Amsterdam em 1965, e esperou
    Nascido no norte do pas, em Lulea, Ola             14 anos para publicar um artigo sobre esse tema
Andersson era de uma famlia de proprietrios           na The Scandinavian Psychoanalytic Review.
rurais protestantes e puritanos, que levavam                Alis, Andersson renovou completamente o
uma vida itinerante antes de se estabelecerem           estudo das relaes de Sigmund Freud com
22      Andreas-Salom, Lou

Jean Martin Charcot*, Hippolyte Bernheim* e               Peters, seu melhor bigrafo, que seus argumen-
Josef Breuer*. Evidenciou tambm as fontes do             tos em favor de um casamento que permitisse a
pensamento freudiano, em especial os emprs-              cada parceiro a liberdade regeneradora de fes-
timos feitos aos trabalhos de Johann Friedrich            tins de amor peridicos eram bastante fantasio-
Herbart*. Entretanto, ao contrrio de Ellenber-           sos, no s porque contrariavam mandamentos
ger, continuou apegado, como membro da IPA,               morais da maioria das religies, mas tambm
 ortodoxia oriunda de Ernest Jones*, cujo                porque eram incompatveis com o poderoso
trabalho biogrfico admirava, o que o impediu             instinto possessivo, profundamente enraizado
de empenhar-se mais na histria erudita. Sofreu           no homem."
muito com seu isolamento no seio da Sociedade                 Entretanto, durante toda a vida, ela no dei-
Psicanaltica Sueca, a ponto de pedir a Ellenber-         xou de pr em prtica esse conflito, mesmo
ger, em 1976, que o ajudasse a emigrar para os            fazendo crer (erroneamente) que era um mons-
Estados Unidos*. Mas nunca realizou essa in-              tro de narcisismo* e de amoralidade. Ironizava
teno.                                                   as invectivas, os boatos e os escndalos, decidi-
    Andersson deixou instrues para que, de-             da a no se dobrar s imposies sociais. Depois
pois de morto, seu corpo fosse cremado e suas             de Nietzsche (1844-1900) e de Rilke (1875-
cinzas dispersadas. Seus dois filhos mudaram              1926), Freud ficou deslumbrado por essa mu-
de sobrenome, preferindo usar o da me, como              lher, a quem amou ternamente e que revolucio-
permite a lei sueca. O nome desse psicanalista,           nou a sua existncia. Efetivamente, eles se pa-
ao mesmo tempo integrado e marginal, foi real-            reciam: mesmo orgulho, mesma beleza, mes-
mente apagado da histria intelectual de seu              mos excessos, mesma energia, mesma cora-
pas, a ponto de no figurar na Enciclopdia              gem, mesma maneira de amar e possuir febril-
nacional sueca, ele que havia escrito tantos              mente os objetos de eleio. Um escolhera a
artigos em diversas enciclopdias suecas.                 abstinncia sexual com a mesma fora e a mes-
 Ola Andersson, Freud avant Freud. La Prhistoire de     ma vontade que levavam a outra a satisfazer os
la psychanalyse (Estocolmo, 1962), Paris, Synthlabo,     seus desejos. Tinham em comum a intransign-
col. "Les empcheurs de penser en rond", 1997  Henri     cia, a certeza de que jamais a amizade deveria
F. Ellenberger, Mdecins de l'me. Essais d'histoire de   mascarar as divergncias, nem limitar a liber-
la folie et des gurisons psychiques, Paris, Fayard,
1995.                                                     dade de cada um.
                                                              Nascida em So Petersburgo, em uma fam-
                                                          lia da aristocracia alem, Lou Salom era filha
Andreas-Salom, Lou, ne Lelia                            de um general do exrcito dos Romanov. Com
(Louise) von Salom (1861-1937)                           a idade de 17 anos, recusando-se a ser confir-
intelectual e psicanalista alem                          mada pelo pastor da Igreja evanglica reforma-
    Mais por sua vida do que por suas obras, Lou          da,  qual pertencia sua famlia, colocou-se sob
Andreas-Salom teve um destino excepcional                a direo de outro pastor, Hendrik Gillot, dndi
na histria do sculo XX. Figura emblemtica              brilhante e culto, que se apaixonou por ela logo
da feminilidade narcsica, concebia o amor se-            que a iniciou na leitura dos grandes filsofos.
xual como uma paixo fsica que se esgotava               Lou recusou o casamento, ficou doente e deixou
logo que o desejo* fosse saciado. S o amor               a Rssia*. Instalando-se em Zurique com a me,
intelectual, fundado na mais absoluta fideli-             procurou na teologia, na arte e na religio um
dade, era capaz, dizia ela, de resistir ao tempo.         meio de acesso ao mundo intelectual com que
    Em seu pequeno opsculo sobre o erotismo,             sonhava.
publicado um ano antes de seu encontro com                    Graas a Malwida von Meysenburg (1816-
Sigmund Freud*, Lou comentou um dos gran-                 1903), grande dama do feminismo alemo, fi-
des temas da literatura -- de Madame Bovary a             cou conhecendo o escritor Paul Re (1849-
Ana Karenina -- segundo o qual o conflito                 1901), que lhe apresentou Nietzsche. Persuadi-
entre a loucura* amorosa e a quietude conjugal,           do de que encontrara a nica mulher capaz de
quase sempre impossvel de superar, deve ser              compreend-lo, este lhe fez um pedido solene
plenamente vivido. "Lou sabia, escreveu H.G.              de casamento. Lou recusou-se. A esses dois
                                                                       Andreas-Salom, Lou          23

homens, profundamente apaixonados por ela,          como uma criana: "O tempo suavizara os seus
props ento constiturem uma espcie de trin-      traos, escreveu H.G. Peters, e ela acrescentava
dade intelectual, e em maio de 1882, para selar     a isso uma certa feminilidade, usando peles
o pacto, fizeram-se fotografar juntos, diante de    macias, xales e adornos de plumas sobre as
um cenrio de papelo: Nietzsche e Re atrela-      espduas [...]. Sua beleza fsica era igualada,
dos a uma charrete, Lou segurando as rdeas.        seno superada, pela vivacidade do seu esprito,
Essa foto faria escndalo. Desesperado, Nietz-      pela sua alegria de viver, sua inteligncia e sua
sche escreveu no Zaratustra esta frase famosa:      calorosa humanidade."
"Vais encontrar as mulheres? No esqueas o             Freud no se enganou. Compreendeu logo
chicote."                                           que Lou desejava verdadeiramente dedicar-se 
     Foi a adeso ao narcisismo nietzschiano, e     psicanlise e que nada a deteria. Assim, admi-
de modo mais geral o culto do ego, caracters-      tiu-a entre os membros da Wiener Psychoana-
tico da Lebensphilosophie (filosofia da vida) fin   lytische Vereinigung (WPV). Sua presena mu-
de sicle, que preparou o encontro de Lou com       da mostrava aos olhos de todos uma continui-
a psicanlise*. Em todos os seus textos, como       dade entre Nietzsche e Freud, entre Viena* e a
observou Jacques Le Rider, ela procurava en-        cultura alem, entre a literatura e a psicanlise.
contrar um eros cosmognico, capaz de com-          Evidentemente, Freud estava apaixonado por
pensar a perda irreparvel do sentimento de         ela e por isso sempre enfatizaria, como que para
Deus.                                               se defender do que sentia, que esse apego era
     Em junho de 1887, Lou casou-se com o           estranho a qualquer atrao sexual. Em seu
orientalista alemo Friedrich-Carl Andreas, que     artigo de 1914 sobre o narcisismo, era nela que
ensinava na Universidade de Gttingen. O ca-        pensava quando descreveu os traos to parti-
samento no foi consumado, e Georg Lede-            culares dessas mulheres, que se assemelham a
bourg, fundador do Partido Social-Democrata         grandes animais solitrios mergulhados na
alemo tornou-se seu primeiro amante, algum         contemplao de si mesmos.
tempo antes de Friedrich Pineles, mdico vie-           Instalando-se em Viena em 1912, Lou assis-
nense. Essa segunda ligao terminou com um         tiu ao mesmo tempo s reunies do crculo
aborto e uma trgica renncia  maternidade.        freudiano e s de Alfred Adler*. Enciumado
Lou instalou-se ento em Munique, onde ficou        mas respeitoso, Freud a deixava livre, sem
conhecendo o jovem poeta Rainer Maria Rilke:        deixar de fazer algumas maldades. Uma noite,
"Fui tua mulher durante anos, escreveria ela em     sentindo sua ausncia, escreveu-lhe: "Senti sua
Minha vida, porque foste a primeira realidade,      falta ontem  noite na sesso, e fico feliz por
em que o homem e o corpo so indiscernveis         saber que sua visita ao campo do protesto mas-
um do outro, fato incontestvel da prpria vida     culino  estranha  sua ausncia. Tomei o mau
[...]. ramos irmo e irm, mas como naquele        hbito de dirigir sempre minha conferncia a
passado longnquo, antes que o casamento entre      uma certa pessoa do meu crculo de ouvintes, e
irmo e irm se tornasse um sacrilgio."            ontem no parei de fixar, como que fascinado,
     A ruptura com Rilke no ps fim ao amor        o lugar vazio reservado para voc."
que os unia, e como diria Freud em 1937, "ela           Logo ela abraou exclusivamente a causa do
foi ao mesmo tempo a musa e a me zelosa do         freudismo*. Foi ento que se apaixonou por
grande poeta [...] que era to infeliz diante da    Viktor Tausk*, o homem mais belo e mais me-
vida".                                              lanclico do crculo freudiano. Tornou-se sua
     Foi em 1911, em Weimar, no congresso da        amante. Ele tinha quase vinte anos menos que
International Psychoanalytical Association*         ela. A seu lado, ela iniciou-se na prtica analti-
(IPA), que ela se encontrou com Freud pela          ca, visitou hospitais, observou casos que lhe
primeira vez, graas a Poul Bjerre*. Pediu-lhe      interessavam, encontrou-se com intelectuais
imediatamente que a "iniciasse" na psicanlise.     vienenses. Com ele e com Freud, reconstituiu
Freud comeou a rir: "Acha que eu sou o Papai       um trio semelhante ao que formara com Nietz-
Noel?", disse ele. Embora ela tivesse apenas        sche e Re. Mais uma vez, a histria acabaria
cinco anos a menos que ele, comportava-se           em tragdia.
24     Andreas-Salom, Lou

    Introduzida no crculo da Berggasse, tornou-          Para comemorar o seu 75 aniversrio, Lou
se familiar da casa e apegou-se particularmente       decidiu dedicar a Freud um livro, para expressar
a Anna Freud*. Depois das reunies das quar-          sua gratido e alguns desacordos. Criticava
tas-feiras, Freud a conduzia a seu hotel; depois      principalmente os erros cometidos pela psica-
de cada jantar, a cumulava de flores.                 nlise a respeito da criao esttica, reduzida
    A iniciao de Lou na psicanlise passou          abusivamente, dizia ela, a um caso de recalque.
tambm por uma longa correspondncia com              Freud aceitou sem reservas a argumentao,
Freud. Progressivamente, ela abandonou a lite-        mas tentou conseguir que ela mudasse o ttulo
ratura romanesca pela prtica do tratamento,          da obra (Minha gratido a Freud). Ela no
que lhe proporcionava uma satisfao desco-           cedeu. "Pela primeira vez, escreveu ele, fiquei
nhecida. Em Knigsberg, onde passou seis me-          impressionado com o que existe de refinada-
ses em 1923, analisou cinco mdicos e seus            mente feminino no seu trabalho intelectual.
pacientes. Em Gttingen, na sua casa, traba-          Quando, irritado pela eterna ambivalncia, eu
lhava s vezes durante dez horas, a tal ponto que     desejaria deixar tudo em desordem, voc inter-
Freud a advertiu em uma carta de agosto de            veio, classificou, organizou e demonstrou que
1923: "Fiquei sabendo com temor -- e pela             assim as coisas tambm poderiam ser agrad-
melhor fonte -- que todos os dias voc dedica         veis."
at dez horas  psicanlise. Naturalmente,                A partir de 1933, Lou assistiu com horror 
considero isso uma tentativa de suicdio mal          instaurao do regime nazista. Conhecia o dio
dissimulada, o que muito me surpreende, pois,         que lhe consagrava Elisabeth Forster (1846-
que eu saiba, voc tem muito poucos sentimen-         1935), irm de Nietzsche, que se tornara adepta
tos de culpa neurtica. Portanto, insisto que pare    fervorosa do hitlerismo. Conhecia os desvios
e de preferncia aumente o preo de suas con-         que esta impusera  filosofia do homem de
                                                      quem fora to prxima e que tanto admirava.
sultas em um quarto ou na metade, segundo as
                                                      No ignorava que os burgueses de Gttingen a
flutuaes da queda do marco. Parece que a arte
                                                      chamavam A Feiticeira. Mas decidiu no fugir
de contar foi esquecida pela multido de fadas
                                                      da Alemanha. Alguns dias depois de sua morte,
que se reuniram em torno do seu bero quando
                                                      um funcionrio da Gestapo foi  sua casa para
voc nasceu. Por favor, no jogue pela janela
                                                      confiscar a biblioteca, que seria jogada nos
este meu aviso."
                                                      pores da prefeitura: "Apresentou-se como ra-
    Empobrecida pela inflao que assolava a          zo para esse confisco, escreveu Peters, que Lou
Alemanha* e obrigada a manter os membros de           fora psicanalista e praticara aquilo que os nazis-
sua famlia arruinados pela Revoluo de Ou-          tas chamavam de cincia judaica, que ela fora
tubro, Lou no conseguia suprir suas neces-           colaboradora e amiga ntima de Sigmund Freud
sidades. Embora nunca pedisse nada, Freud lhe         e que a sua biblioteca estava apinhada de
enviava somas generosas e dividia com ela,            autores judeus."
como dizia, a sua "fortuna recentemente adqui-
rida". Convidou-a para sua casa em Viena, onde         Lou Andreas-Salom, Fenitschka (Stuttgart, 1898),
passaram juntos dias "cheios de riqueza". Freud       Paris, Des Femmes, 1985; "rotisme" (Frankfurt, 1910,
                                                      Munique, 1979), in Eros, Paris, Minuit, 1984; Rainer
deu-lhe, como sinal de fidelidade, um dos anis       Maria Rilke (Leipzig, 1928), Paris, Marendell, 1989; Ma
reservados aos membros do Comit Secreto*.            gratitude envers Freud (Viena, 1931, Paris, 1983),
Chamava-a "carssima Lou" e lhe confiava os           Seuil, col. "Points", 1987, traduzido com o ttulo Lettre
seus pensamentos mais ntimos, principalmente         ouverte  Freud; Ma vie (Zurique, 1951, Frankfurt
                                                      1977), Paris, PUF, 1977; L'Amour du narcissisme, Pa-
a respeito de sua filha Anna, cuja anlise se fazia   ris, Gallimard, 1980; Carnets intimes des dernires
em condies difceis. Lou tornou-se confi-           annes (Frankfurt, 1982), Paris, Hachette, 1983; En
dente da filha de Freud e at sua segunda analis-     Russie avec Rilke, 1900. Journal indit, Paris, Seuil,
ta, quando isso se tornou necessrio. Ao longo        1992  Freud/Lou Andras-Salom: correspondncia
                                                      completa (Frankfurt, 1966), Rio de Janeiro, Imago,
da correspondncia, pode-se ver como Freud e          1975  Nietzsche, Re, Salom, Correspondance
ela evoluem para a velhice e conservam ambos          (Frankfurt, 1970), Paris, PUF, 1979  Sigmund Freud,
uma coragem exemplar diante da doena.                "Lou Andreas-Salom" (1937), ESB, XXIII, 333-4; GW,
                                                                                           antipsiquiatria       25

XVI, 270; SE, XXIII, 297-8  H.F. Peter, Lou: minha irm,       Tal como o kleinismo e a Ego Psychology*,
minha esposa (N. York, 1962), Rio de Janeiro, Jorge
                                                            da qual se aproxima, a corrente annafreudiana
Zahar, 1986  Rudolph Binion, Frau Lou, Nietzsche's
Wayward Disciple, Princeton, Princeton University           desenvolveu-se no interior da International
Press, 1968  Angela Livingstone, Lou Andreas-Salo-         Psychoanalytical Association* (IPA), essen-
m (Londres, 1984), Paris, PUF, 1990.                       cialmente na Gr-Bretanha* e nos Estados Uni-
                                                            dos*, onde os vienenses emigrados, muito liga-
 BERNAYS, MINNA; BONAPARTE, MARIE; FREUD,
                                                            dos  famlia de Freud, esforaram-se por de-
MARTHA; JUDEIDADE; NAZISMO; RSSIA; SEXUALI-
                                                            fend-lo, numa espcie de vnculo de identi-
DADE FEMININA.
                                                            dade que se somava s vicissitudes do exlio.
                                                                O annafreudismo e o kleinismo fazem parte,
                                                            tal como o lacanismo* e diversas outras cor-
androginia                                                  rentes externas  IPA, do chamado freudismo*,
 BISSEXUALIDADE.                                            na medida em que todos se reconhecem, afora
                                                            suas divergncias, na doutrina fundada por
                                                            Freud, e em que se distinguem claramente das
angstia                                                    outras escolas de psicoterapia* pela adeso 
 FOBIA; INIBIES, SINTOMAS E ANGSTIA.                     psicanlise*, isto , ao tratamento pela fala,
                                                            como nico ponto de referncia do tratamento
                                                            psquico, e aos conceitos freudianos fundamen-
                                                            tais: o inconsciente*, a sexualidade*, a transfe-
annafreudismo
                                                            rncia*, o recalque* e a pulso*.
al. Annafreudianismus; esp. annafreudismo; fr. an-
nafreudisme; ing. Anna-Freudianism                           Anna Freud, O ego e os mecanismos de defesa
    Na histria do movimento psicanaltico,                 (Londres, 1936), Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira,
                                                            1982, 6 ed.  Joseph Sandler, L'Analyse de dfense.
deu-se o nome de annafreudismo, em oposio                 Entretiens avec Anna Freud (N. York, 1985), Paris,
ao kleinismo*, a uma corrente representada                  PUF, 1989.
pelos diversos partidrios de Anna Freud*. Foi
depois do perodo das Grandes Controvrsias*                 GERAO; INDEPENDENTES, GRUPO DOS; LA-
-- que levou, em 1945, a uma clivagem entre                 CANISMO; SELF PSYCHOLOGY.
trs tendncias no interior da British Psychoa-
nalytical Society (BPS) -- que esse termo se
imps, para designar uma espcie de clas-                   Anna O., caso
sicismo psicanaltico ps-freudiano, encarnado               PAPPENHEIM, BERTHA.
pela filha de Sigmund Freud* e que remetia, ao
mesmo tempo,  origem vienense da doutrina
freudiana e a um certo modo de praticar a                   ansiedade
anlise, privilegiando conceitos como os de eu*              ANGSTIA.
e de mecanismos de defesa*. A diviso entre o
kleinismo* e o annafreudismo, que se superpe
 diviso entre psicose* e neurose*, passa pela             antipsiquiatria
questo da psicanlise de crianas*. Foi a cor-             al. Antipsychiatrie; esp. antipsiquiatra; fr. antipsy-
rente kleiniana e ps-kleiniana, com efeito, que            chiatrie; ing. antipsychiatry
estendeu o tratamento psicanaltico, centrado                   Embora o termo antipsiquiatria tenha sido
na neurose e no complexo de dipo*, s crian-               inventado por David Cooper* num contexto
as pequenas, aos borderlines e  relao arcai-            muito preciso, ele serviu para designar um mo-
ca com a me, enquanto os annafreudianos                    vimento poltico de contestao radical do sa-
concebiam o tratamento das psicoses a partir do             ber psiquitrico, desenvolvido entre 1955 e
das neuroses, introduzindo nele uma dimenso                1975 na maioria dos grandes pases em que se
social e profiltica que est ausente da doutrina           haviam implantado a psiquiatria e a psican-
kleiniana, a qual s leva em conta a realidade              lise*: na Gr-Bretanha*, com Ronald Laing* e
psquica* ou o imaginrio* do sujeito*.                     David Cooper*; na Itlia*, com Franco Basa-
26     antropologia

glia*; e, nos Estados Unidos*, com as comuni-        participantes da comuna de 1871, que haviam
dades teraputicas, os trabalhos de Thomas           atirado nos relgios para acabar com "o tempo
Szasz e a Escola de Palo Alto, de Gregory            dos outros, o dos opressores, e assim reinventar
Bateson*. Sob certos aspectos, a antipsiquiatria     seu prprio tempo".
foi a seqncia lgica e o desfecho da psicote-          Na Frana*, no houve nenhuma verdadeira
rapia institucional*. Se esta havia tentado refor-   corrente antipsiquitrica, de um lado porque a
mar os manicmios e transformar as relaes          esquerda lacaniana ocupou parcialmente o ter-
entre os que prestavam e os que recebiam cui-        reno da revolta contra a ordem psiquitrica,
dados, no sentido de uma ampla abertura para         atravs da corrente da psicoterapia institucio-
o mundo da loucura*, a antipsiquiatria visou a       nal, e de outro, em funo de Michel Foucault
extinguir os manicmios e eliminar a prpria         (1924-1984) e Gilles Deleuze (1925-1995), cu-
idia de doena mental.                              jos trabalhos cristalizaram a contestao "anti-
    Nunca houve uma verdadeira unidade nesse         psiquitrica" a uma dupla ortodoxia, freudiana
movimento e, embora Cooper tenha sido seu            e lacaniana.
principal iniciador, os itinerrios de cada um de
                                                      Michel Foucault, Histria da loucura na idade clssica
seus protagonistas devem ser estudados em se-        (Paris, 1961), S. Paulo, Perspectiva, 1978  David
parado. Alm disso, foi justamente por ter sido      Cooper, Psiquiatria e antipsiquiatria (Londres, 1967),
uma revolta que a antipsiquiatria teve, ao mes-      S. Paulo, Perspectiva  Mary Barnes e Joseph Berke,
mo tempo, uma durao efmera e um impacto           Mary Barnes. Un voyage  travers la folie (Londres,
                                                     1971), Paris, Seuil, 1973  Gilles Deleuze e Flix Guat-
considervel no mundo inteiro. Ela foi uma           tari, O anti-dipo -- Capitalismo e esquizofrenia (Paris,
espcie de utopia: a da possvel transformao       1972), Rio de Janeiro, Imago, 1976  Octave Manonni,
da loucura num estilo de vida, numa viagem,          "Le(s) mouvement(s) antipsychiatrique(s)", Revue In-
num modo de ser diferente e de estar do outro        ternationale de Sciences Sociales, XXV, 4, 1973, 538-
                                                     52  Maud Mannoni, Educao impossvel, (Paris,
lado da razo, como a haviam definido Arthur         Seuil, 1973), Rio de Janeiro, Francisco Alves  Thomas
Rimbaud (1854-1891) e, depois dele, o movi-          Szasz, Le Mythe de la maladie mentale (N. York, 1974),
mento surrealista. Por isso  que se interessou      Paris, Payot, 1975; A fabricao da loucura (Londres,
essencialmente pela esquizofrenia*, isto , por      1971), Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
essa grande forma de loucura que havia fasci-
                                                      CRIMINOLOGIA; CULTURALISMO; DIFERENA SE-
nado o sculo inteiro, desde Eugen Bleuler* at      XUAL; DUPLO VNCULO; FREUDO-MARXISMO; GUAT-
a Self Psychology*, passando pelo kleinismo*.        TARI, FLIX; MANNONI, OCTAVE; SECHEHAYE,
    Assim como o movimento psicanaltico ha-         MARGUERITE; SULLIVAN, HARRY STACK; SURREA-
via fabricado sua lenda das origens atravs da       LISMO.
histria de Anna O. (Bertha Pappenheim*), a
antipsiquiatria tambm reivindicou a aventura
de uma mulher: Mary Barnes. Essa ex-enfer-           antropologia
meira, reconhecida como esquizofrnica e in-             O debate entre os antroplogos e os psica-
curvel, tinha cerca de 40 anos ao ingressar no      nalistas comeou aps a publicao, em 1912-
Hospital de Kingsley Hall, onde Joseph Berke         1913, do livro Totem e tabu*, de Sigmund
a deixou regredir durante cinco anos. Atravs        Freud*, e deu origem a uma nova disciplina, a
dessa descida aos infernos e de uma espcie de       etnopsicanlise*, cujos dois grandes represen-
morte simblica, ela pde renascer para a vida,      tantes foram Geza Roheim* e Georges Deve-
tornar-se pintora e, mais tarde, redigir sua "via-   reux*. Seu principal contexto geogrfico inicial
gem".                                                foi a Melansia, isto , a Austrlia*, onde ainda
    Como utopia, a exploso da antipsiquiatria       viviam aborgines que, no final do sculo, eram
foi radical, e Cooper sublinhou isso ao discursar    considerados o povo mais "primitivo" do pla-
em Londres, na tribuna do congresso mundial          neta, e as ilhas situadas a sudoeste do oceano
de 1967, o qual almejava inscrever a antipsi-        Pacfico (Trobriand e Normanby), habitadas pe-
quiatria no quadro de um movimento geral de          los melansios propriamente ditos e pelos poli-
libertao dos povos oprimidos. Com efeito,          nsios. Posteriormente, o campo de eleio foi
Cooper prestou uma vibrante homenagem aos            o dos ndios da Amrica do Norte.
                                                                                antropologia      27

    Com exceo da experincia de Henri Col-        sobre o tabu. Ele se empenhou na redao de
lomb* em Dacar, dos debates sobre a coloniza-       Totem e tabu para descobrir a origem histrico-
o francesa entre Frantz Fanon* e Octave           biolgica (e j no apenas individual) do com-
Mannoni* e,  claro, do papel singular de Wulf      plexo de dipo*, da proibio do incesto* e da
Sachs na frica do Sul, o continente africano       religio.
quase no se fez presente nos trabalhos de et-          O pensamento darwinista deu origem a uma
nopsicanlise e antropologia psicanaltica.         nova organizao da etnografia como discipli-
    Derivada do grego (ethnos: povo, e logos:       na, evoluindo sua terminologia de maneira ra-
pensamento), a palavra etnologia s veio a sur-     dicalmente diferente nos mundos anglfono e
gir no sculo XIX. Todavia, o estudo compara-       francfono.
tivo dos povos remonta a Herdoto. Se, de               Na Frana*, a palavra ethnologie, etnologia,
acordo com os antigos, o mundo estava es-           surgiu em 1838, para designar o estudo compa-
taticamente dividido entre a civilizao e a        rativo dos chamados costumes e instituies
barbrie (externa  cidade), a questo colocou-     "primitivos". Dezessete anos depois, foi su-
se de outra maneira na era crist. Os mission-     plantada pelo termo antropologia, ao qual o
rios e conquistadores se indagaram, com efeito,     mdico Paul Broca (1824-1881) associou seu
se os indgenas tinham alma ou no.                 nome, ao fazer dela uma disciplina fsica e
    No sculo XVIII, a etnografia incumbiu-se       anatmica que logo desembocou, no contexto
da tarefa de pesquisar em campo o fundamento        da teoria da hereditariedade-degenerescncia*,
das diferenas entre as culturas. Tratava-se, pa-   no estudo das "raas" e das "etnias", concebidas
ra a filosofia do Iluminismo, no mais de dividir   como espcies zoolgicas.
o mundo entre a barbrie e a civilizao, entre         No mundo anglfono, ao contrrio (na Gr-
uma humanidade sem Deus e uma humanidade            Bretanha* e, depois, nos Estados Unidos*), a
habitada pela conscincia de sua espiritualida-     palavra ethnology cobriu o campo da antropo-
de, mas de estudar o fato humano em sua diver-      logia fsica (no sentido francs), enquanto se
sidade,  luz do princpio do progresso. Da a      cunhou, em 1908, o termo social anthropology,
idia de uma possvel evoluo do estado de         para designar a ctedra de antropologia de Fra-
selvageria para o de civilizao.                   zer na Universidade de Liverpool. Foi nesse
    No sculo XIX, essa viso progressista da       contexto puramente anglfono, e atravs dos
evoluo humana assumiu uma feio biolgi-         debates entre a antropologia funcionalista de
ca, sob a influncia do pensamento darwiniano.      Bronislaw Malinowski*, o kleinismo univer-
 antiga idia de que o retorno  animalidade       salista de Geza Roheim* e a ortodoxia de Ernest
seria a origem de todas as falhas morais do         Jones*, que se discutiram as teses enunciadas
esprito humano, Charles Darwin (1809-1882)         por Freud em Totem e tabu. Observe-se que
ops a tese da continuidade. No apenas o           Charles Seligman (1873-1940) e William Ri-
homem j no estava, por essncia ou por natu-      vers (1864-1922), dois antroplogos de forma-
reza, excludo do mundo animal, como tambm         o mdica, foram os primeiros a tornar co-
ele prprio se tornava um animal evoludo, um       nhecidos no meio acadmico da antropologia
mamfero superior. Do ponto de vista etnolgi-      inglesa os trabalhos freudianos sobre o sonho*,
co (no sentido moderno do termo), o evolucio-       a hipnose* e a histeria*. Mais tarde, esse traba-
nismo darwiniano consistiu, portanto, em im-        lho teve seguimento atravs da escola cultura-
putar as semelhanas reconhecidas em culturas       lista norte-americana, desde Margaret Mead*
distintas e geograficamente afastadas a um de-      at Ruth Benedict (1887-1948), passando por
senvolvimento independente mas idntico das         Abram Kardiner* e pelo neofreudismo*.
civilizaes. Da nasceu a tese de que o primi-         Assim, tanto na Gr-Bretanha quanto nos
tivo se assemelha  criana, que se assemelha       Estados Unidos, as teses freudianas foram as-
ao neurtico. Foi nesse darwinismo que Freud        similadas pela antropologia, ao mesmo tempo
se inspirou, atravs dos trabalhos de James         que eram contestadas por sua ancoragem num
George Frazer (1854-1941) sobre o totemismo         modelo biolgico obsoleto e j abandonado.
e de William Robertson Smith (1846-1894)            Nesses dois pases, com efeito, o saber antropo-
28     antropologia

lgico moderno construiu-se, na passagem para      sentido francs, desenvolveu-se com a criao
o sculo XX, rompendo com o darwinismo e           em Paris, em 1927, por Marcel Mauss, Paul
com o evolucionismo: atravs do ensino de          Rivet (1876-1958) e Lucien Lvy-Bruhl (1857-
Franz Boas (1858-1942), por um lado, verda-        1939), do Instituto de Etnologia, que realizou
deiro pai fundador da escola norte-americana,      pesquisas lingsticas, descries de dados fsi-
que criticou todas as teses relativas  oposio   cos, estudos sobre os costumes e as instituies
entre o primitivo e o civilizado, o selvagem e a   e, por fim, trabalhos sobre a religio e o sagrado.
criana, o animal e o humano etc., e por outro,    Esse instituto, portanto, englobava o que os
do de Malinowski, Rivers e Seligman, que re-       anglfonos chamavam de ethnology e social
nunciaram aos quadros do evolucionismo de          anthropology. Dentro dessa mesma viso, Paul
Frazer em prol do funcionalismo ou do difusio-     Rivet criou o Museu do Homem, que abriu suas
nismo.                                             portas em 1935 no Palcio de Chaillot, assim
    Desse modo se constituiu, pouco a pouco,       substituindo o velho museu etnogrfico do Tro-
uma corrente de antropologia psicanaltica, li-    cadro, com seu jeito colonial, inaugurado por
mitada, no plano cientfico, ao mundo anglo-       Broca em 1878. Os grandes fundadores da et-
americano, e, do ponto de vista geogrfico, a      nologia francesa do entre-guerras seriam mili-
experincias de campo conduzidas na regio         tantes de esquerda, antes de se tornarem heris
norte do continente norte-americano e na Me-       da Resistncia. Quanto  antiga escola de antro-
lansia.                                           pologia, ela evoluiria para o racismo, o anti-se-
    Na Frana, apenas Marie Bonaparte* apai-       mitismo e o colaboracionismo, em especial sob
xonou-se, em carter pessoal, pelas questes       a influncia de Georges Montandon, ex-mdico
antropolgicas. Alis, deu apoio tanto a Mali-     e adepto das teses do padre Wilhelm Schmidt
nowski quanto a Roheim. Quanto aos etnlo-         (1868-1954). Fundador da Escola Etnolgica
gos, eles no travaram nenhum debate a prop-      de Viena e diretor, em 1927, do museu etnogr-
sito das teses freudianas durante o entre-guer-    fico pontifical de Roma, Schmidt acusaria
ras, tendo elas sido ignoradas, em especial por    Freud de querer destruir a famlia ocidental.
Marcel Mauss (1872-1951), fundador e mais          Quanto a Montandon, ele participaria do exter-
ilustre representante da escola francesa. Como     mnio dos judeus durante o regime de Vichy e
numerosos eruditos de sua gerao, e muito         seria amigo do psicanalista e demgrafo
embora abordasse todos os temas prprios da        Georges Mauco*.
psicanlise (o mito, o sexo, o corpo, a morte, o       Foi preciso esperar pela segunda metade do
simblico etc.), ele desconfiava de Freud e de     sculo XX para que fosse introduzida na Fran-
seu sistema interpretativo. Nesse campo, prefe-    a, atravs de Claude Lvi-Strauss, a termino-
riu apoiar-se nos trabalhos, amide antifreudia-   logia anglfona. Em 1954, ele livrou o termo
nos, dos psiquiatras e psiclogos acadmicos:      "antropologia" de todas as antigas imagens da
Pierre Janet*, Thodule Ribot (1839-1916) e        hereditariedade-degenerescncia, a fim de defi-
Georges Dumas (1866-1946). No obstante,           nir uma nova disciplina que abarcasse, ao mes-
mostrou-se prudente em seu comentrio de To-       mo tempo, a etnografia, como primeira etapa de
tem e tabu, sublinhando que "essas idias tm      um trabalho de campo, e a etnologia, designada
uma imensa capacidade de desenvolvimento e         como segunda etapa e primeira reflexo sint-
persistncia". Nesses anos, alguns escritores se   tica. Segundo essa nova organizao, a antro-
interessaram pelo aspecto antropolgico da         pologia tinha um papel confederativo: na ver-
obra freudiana; dentre eles, Michel Leiris         dade, tomava por ponto de partida as anlises
(1901-1990) e Georges Bataille (1897-1962)         produzidas pelos outros campos do saber e deles
valorizaram a noo do sagrado e criticaram        pretendia extrair concluses vlidas para o
violentamente os princpios da psiquiatria colo-   conjunto das sociedades humanas. Nesse con-
nial, sem contudo originar uma corrente de et-     texto, Lvi-Strauss foi o primeiro antroplogo
nopsicanlise ou de antropologia psicanaltica.    de lngua francesa a ler e comentar a obra de
    Enquanto a anthropology, no sentido ingls,    Freud, numa poca em que j fazia mais de
tornou-se uma cincia social, a ethnologie, no     trinta anos que ela estava integrada nos traba-
                                                                                    antropologia        29

lhos da antropologia anglo-americana. Note-se           Foi dentro dessa orientao que ele estabe-
que Georges Devereux, cuja obra foi essencial-      leceu uma analogia entre a tcnica de cura
mente redigida em lngua inglesa, orientou-se       xamanista e o tratamento psicanaltico. Na pri-
para a psicanlise no fim da Segunda Guerra         meira, dizia, o feiticeiro fala e provoca a ab-rea-
Mundial.                                            o*, isto , a liberao dos afetos do enfermo,
    Se Marcel Mauss, sobrinho de mile Durk-        ao passo que, na segunda, esse papel cabe ao
heim, havia desvinculado a etnologia da socio-      mdico que escuta, no bojo de uma relao na
logia durkheimiana, embora se inspirasse em         qual  o doente quem fala. Alm dessa compa-
seus modelos, Claude Lvi-Strauss passou da         rao, Lvi-Strauss mostrou que, nas socie-
etnologia para a antropologia, unificando os        dades ocidentais, tendia a constituir-se uma
dois campos (anglfono e francfono) em torno       "mitologia psicanaltica" que fizesse as vezes
de trs grandes eixos: o parentesco (em vez da      de sistema de interpretao* coletivo: "Assim,
famlia e do patriarcado*), o universalismo re-     vemos despontar um perigo considervel: o de
lativista (em vez do culturalismo*) e o incesto.    que o tratamento, longe de levar  resoluo de
Situou-se prontamente como contemporneo            um distrbio preciso, sempre respeitando o con-
da obra freudiana,  qual se referiu, como ao       texto, reduza-se  reorganizao do universo do
Curso de lingstica geral de Ferdinand de          paciente em funo das interpretaes psicana-
Saussure (1857-1913), sublinhando, em Tristes       lticas." Se a cura, portanto, sobrevm atravs
trpicos, o que ela lhe havia trazido: "... [essa   da adeso a um mito, agindo este como uma
obra] me revelou que [...] so as condutas apa-     organizao estrutural, isso significa que esse
rentemente mais afetivas, as operaes menos        sistema  dominado por uma eficcia simbli-
racionais e as manifestaes declaradas pr-l-     ca. Da a idia, proposta j em 1947 na "Intro-
gicas que so, ao mesmo tempo, as mais signi-       duo  obra de Marcel Mauss", de que o cha-
ficativas."                                         mado inconsciente* no seria outra coisa seno
    Foi em contato com ndios do Brasil* (ca-       um lugar vazio onde se consumaria uma auto-
diueus, bororos, nhambiquaras) que ele se tor-      nomia da funo simblica.
nou etnlogo, entre 1935 e 1939. Mas, ao con-           A partir de 1949, sobretudo em As estruturas
trrio de Marcel Mauss, por um lado, que no        elementares do parentesco, Lvi-Strauss deu 
teve nenhuma experincia direta de campo, e de      famosa questo da proibio do incesto um
Malinowski, por outro, cujo contato com o           novo esclarecimento. Em vez de buscar a g-
trabalho de campo teve um efeito de revelao,      nese da cultura numa hipottica renncia dos
Lvi-Strauss foi, sem sombra de dvida, o pri-      homens  prtica do incesto, como tinham feito
meiro etnlogo a teorizar a viagem etnolgica       Freud e seus herdeiros, ou, ao contrrio, de opor
segundo o modelo de uma estrutura melancli-        a essa origem o florilgio da diversidade cultu-
ca: todo etnlogo redige uma autobiografia ou       ral (desde Malinowski at os culturalistas), ele
escreve confisses, diria ele, em essncia, por-    contornou essa bipolarizao para mostrar que
que tem que passar pelo eu* para se desligar do     a proibio realizava a passagem da natureza 
eu. Por isso ele proporia comparar a experincia    cultura.
de campo com uma anlise didtica*. Exilado             Essa nova expresso da dualidade nature-
em Nova York durante a Segunda Guerra Mun-          za/cultura reativou o debate sobre o universa-
dial, ali deparou com um novo "campo": o das        lismo, sem no entanto dar origem a uma cor-
diferentes teorias dos etnlogos e lingistas       rente francesa de antropologia psicanaltica. E
norte-americanos (Roman Jakobson, Franz             foi Jacques Lacan* quem se inspirou na concei-
Boas etc.) nas quais se iria inspirar para cons-    tuao lvi-straussiana para elaborar, em espe-
truir uma abordagem estrutural da antropolo-        cial, sua teoria do significante* e do simblico.
gia. Sob esse aspecto, Lvi-Strauss transfor-
mou-se numa espcie de etnlogo dos etnlo-          Pierre Bonte e Michel Izard, Dictionnaire de l'ethno-
                                                    logie et de l'anthropologie, Paris, PUF, 1992  Marcel
gos, a ponto de considerar as teorias antropol-    Fournier, Marcel Mauss, Paris, Fayard, 1994  Jean
gicas como mitologias comparveis aos mitos         Jamin, "L'Anthropologie et ses acteurs", in Les Enjeux
elaborados pelo pensamento selvagem.                philosophiques des annes 50, Paris, Centre Georges-
30      Anzieu, Marguerite

Pompidou, 1989, 99-115  Ernest Jones, Essais de             mo modo que os mdicos que os tratam, so
psychanalyse applique, vol. II (Londres, 1951), Paris,
                                                             atores de uma aventura sempre dramtica, na
Payot, 1973  Claude Lvi-Strauss, "Introduction 
l'oeuvre de Marcel Mauss" (1947), in Marcel Mauss,           qual se tecem laos genealgicos de natureza
Sociologie et anthropologie (Paris, 1950), Paris, PUF,       inconsciente.
1968, IX-LII; As estruturas elementares do parentesco            Marguerite Pantaine provinha de uma fam-
(Paris, 1949), Petrpolis, Vozes, 1976; "O feiticeiro e
                                                             lia catlica e interiorana do centro da Frana*.
sua magia" (1949), in Antropologia estrutural (Paris,
1958), Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975, 193-          Criada por uma me que sofria de sintomas
213; Race et histoire (Paris, 1952), Paris, Gonthier,        persecutrios, sonhou desde muito cedo,  ma-
1967; Tristes trpicos (Paris, 1955), S. Paulo, Compa-       neira de Emma Bovary, sair de sua situao e se
nhia das Letras; Le Totmisme aujourd'hui, Paris, PUF,       tornar uma intelectual. Em 1910, ingressou na
1962  Claude Lvi-Strauss e Didier Eribon, De prs et
de loin, Paris, Odile Jacob, 1988  R. Lowie, Histoire de    administrao dos correios e, sete anos depois,
l'ethnologie classique (N. York, 1937), Paris, Payot,        casou-se com Ren Anzieu, tambm funcion-
1971  Marcel Mauss, "Rapports rels et pratiques de         rio pblico. Em 1921, quando grvida de seu
la psychologie et de la sociologie" (1924), in Sociologie    filho Didier, comeou a ter um comportamento
et anthropologie (Paris, 1950), Paris, PUF, 1968, 281-
310  Werner Muensterberger (org.), L'Anthropologie          estranho: mania de perseguio, estados de-
psychanalytique depuis Totem et tabou (Londres,              pressivos. Aps o nascimento do filho, instalou-
1969), Paris, Payot, 1976  Jean Poirier, Histoire de        se numa vida dupla: de um lado, o universo
l'ethnologie, Paris, PUF, 1974  Bertrand Pulman, "Aux       cotidiano das atividades de funcionria dos cor-
origines du dbat anthropologie et psychanalyse:
W.H.R. Rivers (1864-1922)", L'Homme, 100, outubro-           reios, de outro, uma vida imaginria, feita de
dezembro de 1986, 119-41; "Aux origines du dbat             delrios. Em 1930, redigiu de enfiada dois ro-
anthropologie et psychanalyse: Seligman (1873-               mances que quis mandar publicar, e logo se
1940)", Gradhiva, 6, vero de 1989, 35-49; "Les anthro-      convenceu de estar sendo vtima de uma tenta-
pologues face  la psychanalyse", Revue Internatio-
nale d'Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991, 425-47;         tiva de perseguio por parte de Hughette Du-
"Ernest Jones et l'anthropologie", ibid., 493-521  lisa-   flos, uma clebre atriz do teatro parisiense dos
beth Roudinesco, Jacques Lacan. Esboo de uma                anos 30. Em abril de 1931, tentou mat-la com
vida, histria de um sistema de pensamento (Paris,           uma facada, mas a atriz se esquivou do golpe e
1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994.
                                                             Marguerite foi internada no Hospital Sainte-
 ANTIPSIQUIATRIA; AUSTRLIA; ELLENBERGER,                    Anne, onde foi confiada a Jacques Lacan, que
HENRI F.; FANON, FRANTZ; IGREJA; NDIA; ITLIA;              fez dela um caso de erotomania e de parania*
JAPO; JUDEIDADE; LANZER, ERNST; MANNONI,                    de autopunio.
OCTAVE; REAL; SACHS, WULF; SAUSSURE, RAY-                        A continuao da histria de Marguerite An-
MOND DE; SULLIVAN, HARRY STACK.                              zieu  um verdadeiro romance. Em 1949, seu
                                                             filho Didier, havendo concludo seus estudos de
                                                             filosofia, resolveu tornar-se analista. Fez sua
Anzieu, Marguerite, ne Pantaine                             formao didtica no div de Lacan, enquanto
(1892-1981), caso Aime                                      preparava uma tese sobre a auto-anlise* de
   A histria do caso Aime, narrada por Jac-                Freud sob a orientao de Daniel Lagache*,
ques Lacan em sua tese de medicina de 1932,                  sem saber que sua me tinha sido o famoso caso
Da psicose paranica em suas relaes com a                  Aime. Lacan no reconheceu nesse homem o
personalidade, ocupa na gnese do lacanismo*                 filho de sua ex-paciente, e Anzieu soube da
um lugar quase idntico ao do caso Anna O.                   verdade pela boca da me, quando esta, por um
(Bertha Pappenheim*) na construo da saga                   acaso extraordinrio, empregou-se como go-
freudiana. Foi lisabeth Roudinesco quem re-                 vernanta na casa de Alfred Lacan (1873-1960),
velou pela primeira vez, em 1986, a verdadeira               pai de Jacques. Os conflitos entre Didier Anzieu
identidade dessa mulher, e depois reconstruiu,               e seu analista foram to violentos quanto os que
em 1993, a quase totalidade de sua biografia, a              opuseram Marguerite a seu psiquiatra. De fato,
partir do testemunho de Didier Anzieu e dos                  ela acusava Lacan de hav-la tratado como um
membros de sua famlia. Sob esse aspecto, a                  "caso", e no como um ser humano, mas cen-
histria desse grande caso princeps ilustra es-              surava-o sobretudo por nunca lhe ter devolvido
plendidamente o quanto os "doentes", do mes-                 os manuscritos que ela lhe confiara no passado,
                                                                                             apoio      31

quando de sua internao no Hospital Sainte-                 Esse processo se repete em relao a todas
Anne.                                                    as funes corporais a que correspondem as
                                                         pulses de autoconservao, com a constituio
 Jacques Lacan, Da psicose paranica em suas re-        de zonas ergenas correspondentes, anal, geni-
laes com a personalidade (Paris, 1932), Rio de         tal etc. No decorrer desse processo de diferen-
Janeiro, Forense Universitria, 1987  Didier Anzieu,
Une peau pour les penses. Entretiens avec Gilbert       ciao, a pulso sexual abandona o objeto ex-
Tarrab, Paris, Clancier-Guenaud, 1986  lisabeth        terno e passa progressivamente a funcionar de
Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana, vol. 2    modo auto-ertico.
(Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jac-       Na ltima parte de seus Trs ensaios sobre
ques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um
sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,           a teoria da sexualidade, Freud vai alm dessa
Companhia das Letras, 1994; Genealogias (Paris           simples conceituao e descreve a instaurao
1994), Rio de Janeiro, Relume Dumar, 1995  Jean        do modelo original de escolha de objeto. Num
Allouch, Marguerite ou a Aime de Lacan (Paris, 1990),   primeiro tempo, o objeto da pulso sexual 
Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 1997.
                                                         "externo ao prprio corpo". Mais tarde, quando
                                                         "se torna possvel para a criana formar a repre-
                                                         sentao global da pessoa a quem pertence o
apoio                                                    rgo que lhe proporcionava satisfao", a pul-
                                                         so sexual perde esse objeto e se torna auto-er-
al. Anlehnung; esp. apuntalamiento; fr. tayage;
ing. anaclisis
                                                         tica, "e  somente depois de ultrapassado o
                                                         perodo de latncia que se restabelece a relao
Termo adotado (de preferncia a anacltico) para         original [...]. A descoberta do objeto, para dizer
traduzir o conceito de Anlehnung, utilizado por
                                                         a verdade,  uma redescoberta."
Sigmund Freud*, que designa a relao original
                                                             Em 1914, em seu artigo "Sobre o narcisis-
entre as pulses* sexuais e as pulses de autocon-
servao, s vindo aquelas a se tornar indepen-
                                                         mo: uma introduo", Freud modifica sua con-
dentes depois de se haverem apoiado nestas. 
                                                         cepo do dualismo pulsional e distingue dois
esse mesmo processo de apoio que se prolonga,            tipos de escolha de objeto. O primeiro, j des-
no correr do desenvolvimento psicossexual, na            crito desde 1905, no  modificado, mas passa
fase da escolha do objeto de amor, que Freud             a ser chamado de escolha objetal por apoio.
esclarece falando de um tipo de escolha objetal por      Essa escolha se efetua,  claro, segundo o mo-
apoio.                                                   delo do apoio da pulso sexual: "Tal apoio",
    Desde a primeira verso de seus Trs ensaios         escreve Freud, "continua a se revelar no fato de
sobre a teoria da sexualidade*, Freud definiu a          que as pessoas que tm a ver com a alimentao,
funo de apoio, ou, literalmente, de apoiar-se          a higiene e a proteo da criana tornam-se os
em, para esclarecer o processo de diferenciao          primeiros objetos sexuais." O segundo tipo de
que se efetua entre as pulses sexuais e as              escolha objetal, chamado escolha narcsica de
pulses de autoconservao baseadas nas fun-             objeto, efetua-se no  maneira da busca de uma
es corporais.                                          relao com um objeto externo, mas segundo a
    O primeiro exemplo observado  o da ativi-           busca da relao do indivduo consigo mesmo.
dade oral do lactente. No prprio curso da sa-               Jean-Bertrand Pontalis e Jean Laplanche sa-
tisfao orgnica da necessidade nutricional,            lientam que o conceito de apoio, no entanto,
obtida mediante a suco do seio materno, o              nem sempre recebeu a ateno que sua impor-
seio, objeto primrio, torna-se fonte de prazer          tncia requer na doutrina freudiana. Pensando
sexual, zona ergena. Efetua-se uma dissocia-            nisso, sublinham que a essncia do processo de
o da qual nasce um prazer ertico, irredutvel         apoio decorre da simultaneidade de uma opera-
quele que  obtido unicamente pela satisfao           o dupla, "(...) uma relao e uma oposio
da necessidade. Nesse momento aparece uma                entre as pulses sexuais e as pulses de auto-
necessidade de repetir a atividade de suco,            conservao". Mais tarde, Jean Laplanche tor-
apesar de a satisfao orgnica ter sido alcan-          naria a esclarecer a importncia e o sentido
ada, necessidade esta que vai se tornando auto-         desse conceito: "O que  descrito por Freud 
nomamente pulsional.                                     um fenmeno de apoio da pulso*, o fato de que
32      a posteriori

a sexualidade nascente apia-se num outro pro-            Argentina
cesso, ao mesmo tempo similar e profunda-
                                                              Em 1914, em seu artigo sobre a histria do
mente divergente: a pulso sexual apia-se nu-
                                                          movimento psicanaltico, Sigmund Freud* es-
ma funo no sexual, vital (...)."
                                                          creveu: "Um mdico, provavelmente alemo,
                                                          vindo do Chile, declarou-se a favor da exis-
 Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da sexua-
lidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145; SE,      tncia da sexualidade infantil no Congresso
VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; "Um tipo especial   Internacional de Buenos Aires (1910) e elogiou
de escolha de objeto feita pelos homens" (1910), ESB,     os sucessos obtidos pela terapia psicanaltica no
XI, 149-62; GW, VIII, 66-77; SE, XI, 165-75; OC, X,       tratamento dos sintomas obsessivos." Esse m-
187-200; "Sobre o narcisismo: uma introduo" (1914),
ESB, XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV, 67-102; in
                                                          dico chileno se chamava Germn Greve. Dele-
La vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 81-105  Jean La-      gado pelo seu governo a esse congresso de
planche, Vida e morte em psicanlise, (Paris, 1970) P.    medicina, mostrou-se entusiasmado com as te-
Alegre, Artes Mdicas, 1985  Jean Laplanche e Jean-      ses freudianas, expondo-as sem deform-las
Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris,
1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.
                                                          muito. Entretanto, sua conferncia no teve ne-
                                                          nhuma repercusso entre os especialistas argen-
                                                          tinos em doenas nervosas e mentais.
 ANACLTICA, DEPRESSO; ESTDIO; NARCISIS-
MO; OBJETO, RELAO DE; OUTRO; SEXUALIDADE.                   Nessa poca, como em todos os pases do
                                                          mundo, a psicanlise* suscitava na Argentina
                                                          muitas resistncias, sintoma de seu progresso
                                                          atuante. E foi atravs de polmicas e combates
a posteriori                                              que ela encontrou o caminho de uma implanta-
al. Nachtrglichkeit, Nachtrglich; esp. posteriori-      o bem-sucedida.
dad, con posterioridad; fr. aprs-coup; ing. deferred         Independente desde 1816, depois de ter-se
action, deferred                                          submetido  colonizao espanhola, a Argenti-
Palavra introduzida por Sigmund Freud*, em 1896,          na viveu sob o reino dos caudilhos durante todo
para designar um processo de reorganizao ou             o sculo XIX. A partir de 1860, a cidade de
reinscrio pelo qual os acontecimentos traumti-         Buenos Aires, sob a influncia da sua classe
cos adquirem significao para o sujeito* apenas          dominante, os portenhos, esteve na liderana da
num a posteriori, isto , num contexto histrico e        revoluo industrial e da construo de um
subjetivo posterior, que lhes confere uma nova            Estado moderno. Em 1880, realizou-se a uni-
significao. No Brasil tambm se usa "s-de-             dade entre as diferentes provncias e a cidade
pois".                                                    porturia se tornou a capital federal do pas. Em
   Esse termo resume o conjunto da concepo              cinqenta anos (1880-1930), a Argentina aco-
freudiana da temporalidade, segundo a qual o              lheu seis milhes de imigrantes, italianos ou
sujeito constitui seu passado, reconstruindo-o            espanhis na maioria; trs vezes o volume de
em funo de um futuro ou de um projeto.                  sua populao inicial. Fugindo dos pogroms, os
   Na histria do freudismo*, foi Jacques La-             judeus da Europa central e oriental se mis-
can* quem deu a esse termo, em 1953, sua                  turaram a esse movimento migratrio e se ins-
maior extenso, no contexto de sua teoria do              talaram em Buenos Aires, fazendo da capital o
significante* e de uma concepo da anlise               centro de um cosmopolitismo aberto a todas as
baseada no "tempo para compreender".                      idias novas.
                                                              Com a revoluo industrial e a instaurao
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse          de um Estado moderno, constituiu-se ento,
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956  Jacques Lacan,        contra a tradio dos curandeiros, uma medici-
Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
1998  Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vo-
                                                          na baseada nos princpios da cincia positiva
cabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Mar-    importada da Europa, e mais particularmente
tins Fontes, 1991, 2 ed.                                 dos pases latinos: Frana* e Itlia*. Fundador
                                                          do asilo argentino, Lucio Melendez repetiu no
 CENA PRIMRIA; PANKEJEFF, SERGUEI             CONS-      seu pas o gesto de Philippe Pinel*, criando uma
TANTINOVITCH; SEDUO, TEORIA DA.                         organizao de sade mental dotada de uma
                                                                                   Argentina      33

rede de hospitais psiquitricos e edificando uma       Professor de psicologia e de medicina legal,
nosografia inspirada em Esquirol. Domingo          Beltrn publicou duas obras, uma sobre a con-
Cabred, seu sucessor, prosseguiu a obra, adap-     tribuio da psicanlise para a criminologia,
tando a clnica da loucura* aos princpios da      outra sobre os seus fundamentos, nas quais
hereditariedade-degenerescncia*. Na mesma         apresentava a doutrina freudiana de modo po-
poca, comearam a afirmar-se as pesquisas em      sitivo, mas sob o aspecto de uma moral natura-
criminologia* e em sexologia*, enquanto o en-      lista, da qual devia ser eliminado todo vestgio
sino da psicologia, em todas as suas tendncias,   de pansexualismo*. Quanto a Honorio Delgado,
tomava uma extenso considervel, com a cria-      psiquiatra e mdico higienista peruano, mais
o, em 1896, de uma primeira ctedra univer-      adleriano que freudiano, desempenhou a partir
sitria em Buenos Aires.                           de 1915 um papel importante na difuso da
    Assim, o terreno estava pronto para receber    psicanlise na Amrica Latina. Trocou algumas
o pensamento freudiano, mas tambm todas as        cartas com Freud, redigiu a sua primeira biogra-
escolas de psicoterapias* fundadas na hipnose*,    fia e tornou-se membro da International Psy-
na histeria*, na sugesto*. E houve um interesse   choanalytical Association* (IPA) por uma filia-
indiferenciado pelos trabalhos de Freud, de        o  British Psychoanalytical Society (BPS),
Pierre Janet*, de Jean Martin Charcot* e de        antes de se afastar do movimento e afirmar que
Hippolyte Bernheim*.                               fora "o primeiro freudiano" do continente sul-
    Em 1904, Jos Ingenieros, psiquiatra e cri-    americano.
minologista, publicou o primeiro artigo que            A partir de 1930, a Argentina sofreu os re-
mencionava o nome de Freud. Depois, durante        flexos dos acontecimentos na Europa. A classe
os anos 1920, vrios autores apresentaram a        poltica foi dividida entre partidrios e advers-
psicanlise ora como uma moda ou uma epide-        rios do fascismo, ao passo que, nos debates
mia (Anibal Ponce), ora como uma etapa da          intelectuais, freudismo e marxismo cristaliza-
histria da psicologia (Enrique Mouchet). Em       vam o sonho de liberdade. Nessa sociedade
1930, Jorge Thnon afirmou que ela era exces-      construda como espelho da Europa, e na qual
sivamente metapsicolgica, sem com isso ne-        a partir de ento os filhos dos imigrantes subiam
gar o seu interesse.                               ao poder, a psicanlise parecia ser capaz de
    Curiosamente, enquanto uma notvel tradu-      proporcionar a cada indivduo um conhecimen-
o espanhola das obras de Freud estava em         to de si, de suas razes, de sua origem, uma
preparao em Madri, sob a direo de Jos         genealogia. Nesse sentido, ela foi menos uma
Ortega y Gasset*, os autores argentinos se refe-   medicina da normalizao, reservada aos ver-
riam a verses francesas. Do mesmo modo,           dadeiros doentes, do que uma terapia de massa,
importavam as polmicas parisienses, s quais      a servio de uma utopia comunitria. Da o seu
acrescentavam -- imposio da latinidade --        sucesso, nico no mundo, junto a todas as clas-
as crticas italianas. Assim, os argumentos de     ses mdias urbanizadas. Da tambm a sua ex-
Enrico Morselli (1852-1929) tiveram uma re-        traordinria liberdade, a sua riqueza, a sua ge-
percusso favorvel, enquanto o temvel            nerosidade e a sua distncia em relao aos
Charles Blondel tinha um franco sucesso ao         dogmas.
declarar, por ocasio da sua viagem de confe-          Enrique Pichon-Rivire* e Arnaldo Rasco-
rncias em 1927, que Henri Bergson (1859-          vsky, ambos psiquiatras e filhos de imigrantes,
1941) era o verdadeiro descobridor do incons-      um de cultura catlica, outro de famlia judaica,
ciente* e Freud uma espcie de Balzac fracas-      se entusiasmaram pelo freudismo no perodo
sado.                                              entre as duas guerras. Como o escritor Xavier
    Em reao a essa confuso, desenhou-se         Bveda, que convidou Freud a exilar-se em
uma outra orientao, com as publicaes e as      Buenos Aires, sonhavam salvar a psicanlise do
intervenes menos crticas de Luis Merzba-        perigo fascista, oferecendo-lhe uma nova terra
cher em 1914, de Honorio Delgado em 1918,          prometida. Em 1938, reuniram um crculo de
de Gonzalo Lafora* em 1923 e de Juan Beltrn       eleitos, que formou o ncleo fundador do freu-
entre 1923 e 1928.                                 dismo argentino: Luis Rascovsky, irmo de Ar-
34     Argentina

naldo, Matilde Wencelblat, sua mulher, Simon        rem "sem muito drama de conscincia", das
Wencelblat, irmo desta, Arminda Aberastury*        vantagens da profissionalizao. Foi a poca
e enfim Guillermo Ferrari Hardoy e Luisa Gam-       das grandes migraes, no interior do conti-
bier Alvarez de Toledo. Restava apenas esperar      nente latino-americano, facilitadas pelo desen-
a chegada dos imigrantes, Angel Garma* e Ma-        volvimento da aviao civil. Tendo adquirido
rie Langer*, e a volta de Celes Ernesto Crca-      uma tradio clnica e uma verdadeira identi-
mo*.                                                dade freudiana, os argentinos formaram ento,
    Formados segundo as regras clssicas da         pela anlise didtica, seja em Buenos Aires, seja
anlise didtica*, os trs tiveram como primeira    em seus prprios pases, a maioria dos terapeu-
tarefa, no seio do jovem grupo argentino, ser os    tas dos pases de lngua espanhola que, por sua
didatas e supervisores de seus colegas. Da uma     vez, se integrariam  IPA, constituindo grupos
situao muito peculiar, que determinou certa-      ou sociedades: Uruguai, Colmbia, Venezuela.
mente a vivacidade prpria a essa nova acade-           Depois de 1968, o movimento de revolta
mia de intelectuais portenhos. Longe de repro-      estudantil atingiu as sociedades psicanalticas
duzir a hierarquia dos institutos europeus e nor-   da IPA. Apoiados pelos didatas, os alunos em
te-americanos, em que dominava a relao pro-       formao entraram em rebelio para impor uma
fessor/aluno, os pioneiros argentinos formaram,     transformao radical dos currculos, a abolio
antes, uma "repblica de iguais".                   do mandarinato dos titulares e a abertura da
    Fundada em 1942 por cinco homens e uma          psicanlise s questes sociais. No congresso de
mulher (Pichon-Rivire, Rascovsky, Ferrari          Roma, em julho de 1969, enquanto a contes-
Hardoy, Crcamo, Garma, Langer), a Asocia-          tao se organizava em torno de Elvio Fachinel-
cin Psicoanaltica Argentina (APA) foi reco-       li*, um grupo argentino assumiu o nome de
nhecida no ano seguinte pela IPA, no momento        Plataforma. Sob a gide de Marie Langer e
em que era publicada a sua revista oficial: Re-     Fernando Ulloa, adotou como objetivo estender
vista de Psicoanlisis. Posteriormente, Ferrari     a revolta a todas as instituies psicanalticas do
Hardoy emigrou para os Estados Unidos*.             mundo. Unido  Federao Argentina de Psica-
    Esses pioneiros argentinos pertenciam  ter-    nlise (FAP), sob a direo de Emilio Rodrigu,
ceira gerao* psicanaltica mundial, muito         outra figura eminente da escola argentina, o
afastada do freudismo* clssico e aberta a todas    grupo Plataforma prosseguiu as suas atividades
as novas correntes. A escola argentina nunca se     durante dois anos. No congresso da IPA em
limitaria a uma nica doutrina. Acolheria todas     Viena, em julho de 1971, o grupo se separou da
com um esprito de ecletismo, inscrevendo-as        APA para continuar a luta fora da instituio.
quase sempre em um quadro social e poltico:        Outro crculo assumiu ento o nome de Docu-
marxista, socialista ou reformista. Ao longo dos    mento. Seus membros apresentaram um projeto
anos e atravs de suas diversas filiaes*, ela     (um documento) de reformulao dos procedi-
conservaria o aspecto de uma grande famlia e       mentos da anlise didtica na APA. Mas, no fim
saberia organizar suas rupturas sem criar cliva-    do ano, diante da impossibilidade de qualquer
gens irreversveis entre os membros de suas         dilogo, 30 psicanalistas se demitiram, em com-
mltiplas instituies.                             panhia de 20 candidatos, criando assim a pri-
    Durante o perodo de grande desenvolvi-         meira ciso* na histria do movimento psicana-
mento da psicanlise (1950-1970), surgiram          ltico argentino. Nunca se reintegrariam  APA.
fortes atividades literrias e intelectuais, en-        Essa ruptura teve como efeito cindir a APA
quanto o populismo reformista de Juan Pern         em duas tendncias rivais, que se enfrentaram
(1895-1974) e as polticas conservadoras dos        durante seis anos, antes de encontrar um modus
regimes militares instauravam um clima de re-       vivendi. Em um primeiro tempo, a 20 de janeiro
presso e incerteza, que punha constantemente       de 1975, um grupo separatista assumiu o nome
 prova os frgeis princpios de uma democracia     de Ateneo Psicoanaltico, no para deixar a
sempre ameaada. Nesse contexto, era impos-         APA, mas para fazer-se admitir, segundo um
svel para os psicanalistas da APA, como obser-     procedimento legal, como sociedade provisria
vou Nancy Caro Hollander, no se aproveita-         da IPA. Diante da velha sociedade ecltica, que
                                                                                   Argentina      35

no modificara os seus mtodos, o Ateneo que-       foram assassinadas e torturadas, sob o rtulo de
ria promover uma reflexo sobre a anlise di-       desaparecidos.
dtica amplamente apoiada nos princpios do             Instalado com o fim de exterminar todos os
kleinismo e do ps-kleinismo, a fim de res-         oponentes  livre dominao do capitalismo de
ponsabilizar a instituio. Em julho de 1977, no    mercado, o terrorismo estatal atingiu primeira-
congresso de Jerusalm, o grupo obteve a sua        mente as massas populares e seus represen-
filiao, sob o nome de Asociacin de Psicoa-       tantes organizados. E foi em nome da defesa de
nlisis de Buenos Aires (APdeBA). Depois,           um "ocidente cristo" e da segurana nacional
esta manteria relaes cordiais com a APA.          que as foras armadas decidiram erradicar o
    Nessa data, a Amrica Latina estava a ponto     freudismo e o marxismo, julgados responsveis
de tornar-se o continente freudiano mais pode-      pela "degenerao" da humanidade. Ao contr-
roso do mundo, sob a gide da COPAL (futura         rio dos nazistas, no erigiram um instituto como
FEPAL*) e em ligao com os grupos brasilei-        o de Matthias Heinrich Gring* e no aboliram
ros, capaz de rivalizar com a American Psy-         a liberdade de associao. A perseguio foi
choanalytic Association* (APsaA) e a Federa-        silenciosa, annima, penetrando no corao da
o Europia de Psicanlise* (FEP).                 subjetividade.
    Presidida por Serge Lebovici, a direo da          Confrontados com o terror e a planificao
IPA constatou essa nova diviso do mundo e          dessa estratgia de torturas, os psicanalistas
props um estranho recorte em trs zonas: 1)        reagiram de modo diverso: seja utilizando o
tudo o que se encontra ao norte da fronteira        quadro do tratamento para ajudar os militantes
mexicana; 2) tudo o que se encontra ao sul da       e testemunhar as atrocidades, seja pela emigra-
                                                    o pura e simples, seja pelo exlio interno e a
mesma fronteira; 3) o resto do mundo.
                                                    retirada para uma prtica privada, cada vez mais
    As duas cises se produziram no momento
                                                    vergonhosa e culpabilizante.
em que a Argentina saa de um regime militar
                                                        Marxista e veterana das Brigadas Interna-
clssico, fundado no populismo e herdado do
                                                    cionais, Marie Langer encontrou-se, desde o
velho caudilhismo, para um sistema de terror
                                                    seu exlio no Mxico, na vanguarda dos com-
estatal. Ora, se o primeiro feria as liberdades
                                                    bates, arrastando consigo todos os psicanalistas
polticas, no limitava a liberdade profissional    politizados do pas. Foi nessa poca que os
e associativa, da qual dependia o funcionamen-      argentinos, como outrora os judeus europeus,
to das instituies psicanalticas. O segundo, ao   emigraram em grande nmero para os quatro
contrrio, visava erradicar todas as formas de      cantos do mundo, a fim de formar novos grupos
liberdade individual e coletiva. Por conseguin-     freudianos ou integrar-se aos que j existiam na
te, poderia destruir a psicanlise, como fizera     Sucia*, na Austrlia*, na Espanha*, nos Es-
outrora o nazismo*.                                 tados Unidos, na Frana.
    Em 1973, quando Pern voltou ao poder,              Quanto  direo da IPA, decidiu ficar "neu-
nomeou Isabelita, sua nova esposa, para o posto     tra", a fim de no dar pretexto ao regime para
de vice-presidente e fez de seu secretrio Jos     destruir as suas instituies. E quando foi pres-
Lopez Rega o ministro dos assuntos sociais do       sionada a intervir em casos de analistas "desa-
pas. Este apressou-se a criar a Trplice A         parecidos", os representantes oficiais de suas
(Aliana Argentina Anticomunista), conhecida        sociedades componentes lhe pediram que no
por seus esquadres da morte, que serviram de       fizesse nada, para evitar represlias. Depois de
fora suplementar para o exrcito, em suas ope-     trs anos de debates, por iniciativa da Sociedade
raes de controle da sociedade civil. Um ano       australiana, a violao dos direitos humanos na
depois, Pern morreu e Isabelita assumiu a sua      Argentina foi condenada em votao aberta no
sucesso, sendo substituda em maro de 1976        congresso da IPA em Nova York, em 1979, a
pelo general Jorge Videla, que instaurou du-        despeito da posio do presidente em exerccio,
rante nove anos um dos regimes mais sangren-        Edward Joseph, que no hesitou em qualificar
tos do continente latino-americano, com o do        de "boatos" os crimes cometidos pelo regime
general Pinochet no Chile: trinta mil pessoas       do general Videla.
36     Argentina

    Na Frana, Ren Major, membro da Socie-        grupo: a Escuela Freudiana Argentina (EFA).
dade Psicanaltica de Paris (SPP), decidiu rea-    Depois de sua morte, ocorrida alguns meses
gir. Em fevereiro de 1981, organizou um encon-     mais tarde, a EFA teve uma vida turbulenta, pois
tro franco-latino-americano, durante o qual Jac-   a fragmentao da antiga EFP conduziu a uma
ques Derrida tomou a palavra para denunciar a      reorganizao mundial do campo lacaniano.
maneira pela qual a direo da IPA recortava o     Nesse contexto, a EFA deu origem, por cises
mundo, esquecendo "o mapa situado sob o ma-        sucessivas, a uma florao de pequenos grupos
pa", a "quarta zona", a da tortura: "O que se      representativos das mltiplas tendncias do la-
chamar doravante Amrica Latina da psican-       canismo e do ps-lacanismo. Estes se reorgani-
lise  a nica zona no mundo em que coexistem,     zariam mais uma vez depois da queda de Videla.
enfrentando-se ou no, uma forte sociedade             Durante todo o perodo de terror estatal
psicanaltica e uma sociedade (civil ou estatal)   (1976-1985), o interesse pelo pensamento de
praticando em grande escala uma tortura que        Lacan progrediu na Argentina de maneira cu-
no se limita mais a formas brutalmente cls-      riosa. Recebido como uma contracultura sub-
sicas e facilmente identificveis."                versiva e de aspecto esotrico, a doutrina do
    Onze anos depois, em um artigo de 1992,        mestre permitia aos que a faziam frutificar mer-
Leon Grinberg, exilado na Espanha, descreveu       gulhar em debates sofisticados sobre o passe*,
as conseqncias atrozes desse perodo, apre-      o matema* e a lgica, e esquecer, ou mesmo
sentando testemunhos assustadores.                 ignorar, a sangrenta ditadura instaurada pelo
    A partir de 1964, o lacanismo comeou a        regime. Como seus colegas politizados da IPA,
implantar-se, depois que Pichon-Rivire convi-     os lacanianos marxistas e militantes se exilaram
dou Oscar Masotta*, jovem filsofo sartriano, a    ou resistiram ao terror. Quanto aos outros, fo-
fazer uma conferncia no seu Instituto de Psi-     ram alvo de muitas crticas posteriores. Foram
cologia Social. Mencionada pela primeira vez       acusados de no ter combatido a opresso e
em 1936, em um artigo do psiquiatra Emilio         acomodar-se, assim como fez a direo da IPA.
Pizarro Crespo, a obra de Jacques Lacan* no           A partir de 1985, com o restabelecimento da
era conhecida, 30 anos depois, nos meios psica-    democracia, todas as sociedades psicanalticas
nalticos argentinos. Mas ento a situao es-     argentinas tiveram uma expanso considervel:
tava madura para que fosse acolhida, nesse pas    trs sociedades componentes da IPA e um grupo
aberto s vanguardas europias, uma forma de       de estudos (APA, ABdeBA, Asociacin Psicoa-
renovao do pensamento freudiano. Em 1967,        naltica de Mendoza, Crculo de Crdoba), reu-
um psicanalista da APA, Cesar Liendo, citou        nindo mais de mil membros para uma popula-
pela primeira vez os trabalhos de Lacan e de       o de 34 milhes e meio de habitantes, ou seja
seus discpulos na Revista de Psicoanlisis.       uma densidade (apenas para a IPA) de 29 psica-
Depois, Willy Baranger* e David Liberman           nalistas por milho de habitantes, uma das taxas
continuaram no mesmo caminho. Analistas da         mais elevadas do mundo.
APA organizaram encontros com Octave Man-              A obra de Lacan foi ensinada em todas as
noni*, Maud Mannoni e Serge Leclaire*, que         universidades pelos departamentos de psicolo-
tambm deram seu apoio a Masotta.                  gia e serviu de doutrina de referncia para psi-
    Em 1974, dezenove psicanalistas fundaram       clogos clnicos que desejavam ter acesso 
a Escuela Freudiana de Buenos Aires (EFBA),        profisso de psicanalista atravs da anlise lei-
a partir do modelo da cole Freudienne de          ga*. O movimento se dividiu em cerca de ses-
Paris*. Entre eles estavam Isidoro Vegh e Ger-     senta grupos, em vrias cidades, perfazendo um
mn Leopold Garcia. Essa iniciativa, a primeira    total de aproximadamente mil terapeutas. No
do gnero, assinalou o incio de uma formidvel    fim dos anos 1990, o nmero de psicanalistas
expanso do lacanismo na Argentina, enquanto       de todas as tendncias se elevava pois a 2.500,
Masotta se exilara na Espanha. Cinco anos de-      ou seja 57 por milho de habitantes, um pouco
pois, uma ciso irrompeu. De Barcelona, Ma-        menos do que na Frana.
sotta lanou o antema contra seus antigos ami-        Diante do cisionismo em cadeia e da perda
gos da EFBA e anunciou a criao de um novo        da casa-me, que no garantia mais a unidade
                                                                Associao Brasileira de Psicanlise              37

da doutrina depois da morte de Lacan, os anti-              rest of the world" (1981), in Psych, Paris, Galile,
                                                            1987, 327-53  Ral Giordano, Notice historique du
gos fundadores da EFBA, aliados a muitos ou-
                                                            mouvement psychanalytique en Argentine, monografia
tros latino-americanos do Uruguai, da Venezue-              para o CES de psiquiatria, sob a direo de Georges
la, do Brasil* etc., tomaram a iniciativa de rom-           Lantri-Laura, Universidade de Paris-XII, s/d.  Lon
per com o espelho parisiense. Assumiram o                   Grinberg, "La Mmoire accuse: des psychanalystes
                                                            sous les rgimes totalitaires", Revue Internationale
nome de Lacano-Americanos. Sob essa apela-
                                                            d'Histoire de la Psychanalyse, 5, 1992, 445-72  Nancy
o, federalizou-se um movimento que cobria                 Caro Hollander "Psychanalyse et terreur d'tat en Ar-
o conjunto do continente americano, que des-                gentine", ibid., 473-516  Alain Rouqui, L'tat militaire
confiava de toda rigidez institucional e se preo-           en Amrique Latine, Paris, Seuil, 1986  Enrique Torres,
                                                            "Psicoanlisis de provincia", conferncia indita pro-
cupava em iniciar um processo de "descoloni-
                                                            nunciada em Buenos Aires em outubro de 1994  Hugo
zao", de emancipao de Paris. Por sua vez,               Vezzetti, La locura en la Argentina (1983), B. Aires,
a APA integrou o ensino de Lacan aos seus                   Paidos, 1985; "Psychanalyse et psychiatrie  Buenos
programas de formao e aceitou em suas filei-              Aires", L'Information Psychiatrique, 4, abril de 1989,
ras clnicos lacanianos que respeitassem as re-             398-411; "Freud en langue espagnole", Revue Interna-
                                                            tionale d'Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991, 189-
gras de durao impostas pelos padres da IPA.              205; Aventuras de Freud en el pais de los argentinos,
    Sob a influncia de Jacques-Alain Miller,               B. Aires, Paidos, 1996; (org.), Freud en Buenos Aires
abriu-se outro caminho, contrrio ao dos Laca-              (1910-1939), B. Aires, Punto Sur, 1989.
no-Americanos, com a criao, em 1992, da
                                                             ASSOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE;
Escuela de la Orientacin del Campo Freudiano               BLEGER, JOS; BRASIL.
(EOL), visando integrar o lacanismo argentino
e latino-americano a uma estrutura centraliza-
da: a Association Mondiale de Psychanalyse*.                Arpad, o homenzinho-galo (caso)
Mas, a despeito de um real poder, a EOL conti-               TOTEM E TABU.
nuou minoritria, certamente por causa do seu
sectarismo.
    Em 1991, pela primeira vez desde a sua                  Arquivos Freud ou Sigmund Freud
criao, a IPA realizou o seu congresso anual               Archives (SFA)
em Buenos Aires. Nessa ocasio, Horacio Et-                  BIBLIOTECA DO CONGRESSO.
chegoyen foi eleito presidente. Tcnico do tra-
tamento de tendncia kleiniana, analisado por
Heinrich Racker* e membro da ABdeBA, foi o                  sia
primeiro presidente de lngua espanhola do mo-               ANTROPOLOGIA; ETNOPSICANLISE; HISTRIA
vimento freudiano. Na grande tradio do freu-              DA PSICANLISE; NDIA; JAPO; WULFF, MOSHE.
dismo argentino, promoveu durante o seu man-
dato uma poltica liberal, aberta a todas as cor-
rentes.                                                     Associao Brasileira de
                                                            Psicanlise (ABP)
 Analitica del Litoral, 5, dossi "La entrada del pensa-
miento de Jacques Lacan en lengua espaola (1)",
                                                               Criada em maio de 1967 por Mario Martins,
Santa F, 1995  Asociacin Psicoanaltica Argentina        e depois presidida por Durval Marcondes*, a
(1942-1982), documentos publicados pelo departa-            Associao Brasileira de Psicanlise (ABP) 
mento de histria da psicanlise da APA, B. Aires,          uma federao reconhecida pela International
1982; Asociacin Psicoanaltica Argentina (1942-            Psychoanalytical Association* (IPA). Trinta
1992), documentos publicados pelo comit diretor da
APA, B. Aires, 1992  "Lettres de Sigmund Freud 
                                                            anos aps sua criao, acabaria congregando
Honorio Delgado (1919-1934)", apresentadas por Al-          seis sociedades da IPA no Brasil*: duas no Rio
varo Rey de Castro, Revue Internationale d'Histoire de      de Janeiro (SPRJ e SBPRJ), uma em So Paulo
la Psychanalyse, 6, 1993, 401-27  Jorge Baln, Cun-       (SBPSP), uma em Porto Alegre (SPPA), uma
tame tu vida. Una biografa colectiva del psicoanlisis     em Pelotas (SPP) e uma em Recife (SPR). A
argentino, B. Aires, Planeta, 1991  Mariano Ben Plot-
kin, "Freud, politics and the `Porteos': The reception
                                                            estas juntam-se trs grupos de estudos: Porto
of psychoanalysis in Buenos Aires (1910-1943)", indi-      Alegre (GEPdePA), Ribeiro Preto (GEPRP) e
to, 1996  Jacques Derrida, "Gopsychanalyse and the        Braslia (GEPB). Esses nove grupos elevam a
38      associao livre, regra da

1.456 o nmero de psicanalistas brasileiros que          apoiaria nela para fundar um mtodo radical-
so membros da IPA. Como tal, a ABP no                 mente novo de explorao do inconsciente: a
membro da Federacin Psicoanalitica de Ame-              associao livre* ou livre associao.
rica Latina* (FEPAL), que rene todas as socie-              Inventado por Francis Galton (1822-1911),
dades do continente latino-americano, embora             esse teste foi empregado por Wilhelm Wundt
no tenha, como a American Psychoanalytical              (1832-1920) e Emil Kraepelin*, antes de ser
Association (APsaA)*, o estatuto de associao           introduzido por Eugen Bleuler* na Clnica do
regional.                                                Burghlzli, onde Jung o usou em larga esca-
                                                         la em experimentos que tinham por objetivo
 Anurio Brasileiro de Psicanlise. Ensaios, publica-
es, calendrio, resenhas, artigos, Rio de Janeiro,
                                                         definir uma nova teoria do complexo. Ele dis-
Relume Dumar, 1991  Roster, The International Psy-     tinguia as associaes internas ou semnticas,
choanalytical Association Trust, 1996-1997.              caractersticas da introverso*, de outras, cha-
                                                         madas externas ou verbais, mais relacionadas
                                                         com a extroverso (exteriorizao de si). De-
associao livre, regra da                               pois de aplicar abundantemente o teste, Jung
 REGRA FUNDAMENTAL.                                      desistiu, em parte sob a influncia de Freud.
                                                         Mas nunca o renegou. Atualmente, o teste 
                                                         utilizado pelos representantes da escola de psi-
Associao Mundial de Psicanlise                        cologia analtica.
 ASSOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE
(AMP).                                                    Carl Gustav Jung, "Diagnostische Assoziationsstu-
                                                         dien" (Leipzig, 1906, 1909), Gesammelte Werke, II,
                                                         Zurique, Rascher Verlag  Freud/Jung: correspondn-
                                                         cia completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1982
Associao Psicanaltica                                  Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de
Internacional (API)                                      l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
                                                         1974), Paris, Fayard, 1994.
 INTERNATIONAL       PSYCHOANALYTICAL ASSOCI-
ATION.
                                                          REGRA FUNDAMENTAL;            RORSCHACH, HER-
                                                         MANN.

associao verbal, teste de
al. Assoziationsexperiment; esp. test de associa-
cin verbal; fr. test d'association verbale; ing. as-    Association Mondiale de
sociative experiment                                     Psychanalyse (AMP)
                                                         (Associao Mundial de Psicanlise)
Tcnica experimental usada por Carl Gustav Jung*,
a partir de 1906, para detectar os complexos* e              Fundada em fevereiro de 1992 por Jacques-
isolar as sndromes especficas de cada doena           Alain Miller, genro de Jacques Lacan*, a Asso-
mental. Consiste em pronunciar diante do sujeito*        ciation Mondiale de Psychanalyse (AMP) fun-
uma srie de palavras, cuidadosamente escolhi-           damenta-se num texto a que seus fundadores
das, pedindo-lhe que responda com a primeira             deram o nome de pacto de Paris. Rene cinco
palavra que lhe vier  cabea e medindo seu tempo        instituies que tomam por referncia a cole
de reao.                                               Freudienne de Paris* (EFP), mas nenhuma de-
   Historicamente, essa tcnica est ligada             las foi criada por Lacan: a cole de la Cause
noo de associao de idias, j utilizada por          Freudienne (ECF, Frana*, 1981), a Escuela del
Aristteles, que definira seus trs grandes prin-        Campo Freudiano de Caracas (ECFC, Venezue-
cpios: a contigidade, a semelhana e o                 la, 1986), a cole Europenne de Psychanalyse
contraste. No sculo XIX, a psicologia intros-           (EEP, Frana, 1990), a Escuela de la Orienta-
pectiva e a filosofia empirista conferiram-lhe           cin Lacaniana (EOL, Argentina, 1992) e a Es-
tamanha importncia que o associacionismo                cola Brasileira de Psicanlise (EBP, Brasil*,
transformou-se numa verdadeira doutrina, na              1995).
qual se inspirariam todas as correntes da psico-             Trs outras estruturas esto ligadas  AMP:
logia e, em especial, Sigmund Freud*, que se             a Association de la Fondation du Champ Freu-
                                                                               ateno flutuante          39

dien (AFCF), que coordena grupos de muitos         filiadas  International Psychoanalytical As-
pases que no entram no quadro das cinco          sociation* (IPA).
escolas; a Fdration Internationale des Biblio-        A AMP, alm disso,  a nica instituio
thques du Champ Freudien, que congrega di-        lacaniana do mundo que se atribui a tarefa de
versos organismos encarregados da difuso do       exportar para qualquer pas um modelo de en-
pensamento lacaniano, e o Institut du Champ        sino e de formao dos terapeutas que obedece
Freudien, rgo de formao psicanaltica que      a uma doutrina nica. Portanto, ela  diferente
se divide em sees conforme os diferentes         da IPA, que tem por modelo uma associao
pases. Esse conjunto agrupa cerca de 1.800        centralizada, sem dvida, mas que aceita as
membros (dentre os quais 350 encontram-se na       tendncias e o debate e que procede a eleies
Frana, 318 no Brasil, 200 na Argentina e cerca    conformes aos regulamentos associativos.
de 100 na Espanha*). Centralizada e governada           Ainda diversamente da IPA, a qual,  claro,
a partir de Paris por seu presidente (Jacques-     encarna a legitimidade freudiana, uma vez que
Alain Miller), a quem so delegados todos os       Freud foi seu fundador, a AMP retira seu poder,
poderes, sem controle nem elegibilidade, a         antes de mais nada, da transmisso dos bens e
AMP  uma instituio de vocao globali-          do direito moral legados por Lacan a sua fam-
zante, mais hispanfona do que francfona e        lia.
mais latino-americana do que realmente inter-           Se a AMP no admite nenhuma divergncia
nacionalista. Seus membros, em nmero majo-        doutrinria, por outro lado no impe nenhuma
ritrio, so psiclogos que se beneficiaram da     regra tcnica: da a generalizao da durao
expanso da anlise leiga* decorrente do desen-    cada vez mais curta das sesses e, acima de
volvimento dos estudos de psicologia na maio-      tudo, a atribuio de um poder ilimitado ao
ria das universidades do mundo, aps a Segun-      analista, que pode impor ao paciente suas pr-
da Guerra Mundial.                                 prias regras ou at seu compromisso com uma
    A AMP  um aparelho institucional que tem      causa.
por objetivo centralizar filiais, coorden-las e
control-las, a partir da aplicao de um dogma.    Annuaire et textes statutaires, cole de la Cause
Assim, em nome da teoria do objeto (pequeno)       Freudienne, ACF, Paris, 1995  Escola Brasileira de
                                                   Psicanlise, Paris, 1995  Os poderes da palavra,
a*, a AMP aboliu em suas instituies a prpria    textos reunidos pela Association Mondiale de Psycha-
idia de autoria: os livros publicados sob sua     nalyse, com uma "Nota preliminar" de Jacques-Alain
responsabilidade so, essencialmente, manifes-     Miller e um "Prefcio" de Judith Miller (Paris, 1996), Rio
tos coletivos no assinados, porm acompa-         de Janeiro, Jorge Zahar, 1996.
nhados de uma longa lista de nomes reunidos
em cartis, sees e subgrupos, aos quais se        ANLISE DIDTICA; HISTRIA DA PSICANLISE;
acrescentam prefcios redigidos por Jacques-       SOCIEDADE PSICOLGICA DAS QUARTAS-FEIRAS;
Alain Miller e Judith Miller, sua esposa.          SUPERVISO; TCNICA PSICANALTICA.
    Das 23 sociedades psicanalticas oriundas
da dissoluo da EFP em 1981, quatro anuncia-
ram um projeto de tipo federativo, com vocao
europia ou internacional: a Association Freu-     ateno flutuante
dienne (AF), fundada em 1981 e que se tornou       al. Gleichschwebende Aufmerksamkeit; esp. aten-
internacional em 1992 (AFI), o Inter-Associatif    cin (parejamente) flotante; fr. attention flottante;
de Psychanalyse (I-Ap), a Fondation Euro-          ing. suspended attention
penne pour la Psychanalyse (FepP), ambas          Termo criado por Sigmund Freud*, em 1912, para
criadas em 1991, e, por ltimo, a Association      designar a regra tcnica segundo a qual o psi-
Mondiale de Psychanalyse (AMP). Nenhuma            canalista deve escutar seu paciente sem privilegiar
dessas sociedades continua a aplicar os princ-    nenhum elemento do discurso deste e deixando
pios de formao didtica prprios da EFP e a      que sua prpria atividade inconsciente entre em
maioria delas adotou um modelo institucional       ao.
de tipo associativo, prximo do das sociedades      REGRA FUNDAMENTAL.
40      ato falho

ato falho                                                Aubry, Jenny, ne Weiss (1903-1987)
al. Fehlleistung; esp. acto fallido; fr. acte manqu;    psiquiatra e psicanalista francesa
ing. parapraxis                                              Nascida em uma famlia da grande burgue-
Ato pelo qual o sujeito*, a despeito de si mesmo,        sia parisiense, Jenny Aubry era neta de mile
substitui um projeto ao qual visa deliberadamente        Javal, inventor do oftalmmetro. Sua irm,
por uma ao ou uma conduta imprevistas.                 Louise Weiss (1893-1983) foi uma clebre su-
    Tal como em relao ao lapso*, Sigmund               fragista. Estimulada pela me, fez estudos m-
Freud* foi o primeiro, a partir de A interpreta-         dicos, de neurologia e de psiquiatria infantil,
o dos sonhos*, a atribuir uma verdadeira               antes de casar-se com Alexandre Roudinesco
significao ao ato falho, mostrando que  pre-          (1883-1974), mdico de origem romena, de
ciso relacion-lo aos motivos inconscientes de           quem se divorciou em 1952. Teve como profes-
quem o comete. O ato falho ou acidental torna-           sores Clovis Vincent, ele prprio aluno de Jo-
se equivalente a um sintoma, na medida em que            seph Babinski*, e Georges Heuyer (1884-
 um compromisso entre a inteno consciente             1917), um dos primeiros mdicos franceses a
do sujeito e seu desejo* inconsciente.                   acolher a psicanlise* em seu servio. Foi ali
    Foi em 1901, em A psicopatologia da vida             que ela conheceu Sophie Morgenstern*. Nas
cotidiana*, que Freud deu, com grande senso              vsperas da guerra, foi nomeada mdecin des
de humor, os melhores exemplos de atos falhos,           hpitaux, tornando-se assim a segunda mulher
utilizando inmeras histrias fornecidas por             a obter esse ttulo na Frana.
seus discpulos, tais como esta, contada por                 Hostil, desde junho de 1940, ao governo de
Hanns Sachs*: num jantar conjugal, a mulher              Vichy, entrou para uma rede da Resistncia.
se engana e, em vez da mostarda pedida pelo              Utilizando seus conhecimentos, protegeu crian-
marido, coloca junto ao assado um frasco do              as judias colocando-as no colgio de Annel, no
qual costuma servir-se para tratar de suas dores         Loiret, onde trabalhava com Solange Cassel, e
de estmago. Os vienenses sempre tiveram                 no Hospcio de Brvannes, onde exercia as
acentuada predileo pelos interminveis rela-           funes de chefe de servio. Em 1943 e 1944,
tos de lapsos e atos falhos, os quais transforma-        no Hpital des Enfants Malades, redigiu falsos
vam em histrias engraadas.                             certificados, para desviar os jovens recrutas do
    Nesse campo, dando-lhes seguimento, Jac-             Servio de Trabalho Obrigatrio (STO).
ques Lacan* se revelaria um dos melhores co-                 Em 1948, comeou a se interessar pela pre-
mentadores de Freud. Em 1953, especialmente,             veno das psicoses infantis e pelas experin-
em "Funo e campo da fala e da linguagem em             cias de Ren Spitz* e da escola inglesa, princi-
psicanlise", ele daria a seguinte definio do          palmente as de John Bowlby*. Depois de um
ato falho: "Quanto  psicopatologia da vida              encontro decisivo com Anna Freud* e uma via-
cotidiana, outro campo consagrado por uma                gem aos Estados Unidos*, orientou-se para a
outra obra de Freud, est claro que todo ato             psicanlise. Realizou sua anlise didtica com
falho  um discurso bem-sucedido, ou at es-             Sacha Nacht* e fez uma superviso* com Jac-
pirituosamente formulado (...)."                         ques Lacan*, que ela acompanhou na Sociedade
                                                         Francesa de Psicanlise (SFP) e depois na cole
 Sigmund Freud, A psicopatologia da vida cotidiana      Freudienne de Paris* (EFP). Foi com o sobre-
(1901), ESB, VI; GW, IV; SE, VI; Paris, Payot, 1973     nome do segundo marido (Pierre Aubry), que
Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,
                                                         publicou seus trabalhos depois de 1953.
Jorge Zahar, 1998.
                                                             A partir de 1946, desenvolveu uma expe-
 CHISTES E SUA RELAO COM O INCONSCIENTE,               rincia pioneira na Frana*, implantando no
OS.                                                      quadro hospitalar no-psiquitrico a prtica e a
                                                         teoria psicanalticas. Na Fundao Parent-de-
                                                         Rosan, ligada ao Hospital Ambroise-Par, fez
                                                         um filme sobre crianas doentes de hospita-
atuao                                                  lismo*. Depois, em 1953, publicou um livro
 ACTING OUT.                                             coletivo, vrias vezes reeditado. Nele, relatou a
                                                                                               Austrlia        41

experincia de sua equipe, mostrando os resul-           critores e poetas. Em 1928, Andr Breton
tados inditos obtidos pela psicanlise na pre-          (1896-1966) e Louis Aragon (1897-1982) a
veno e no tratamento das psicoses* no meio             imortalizaram em sua celebrao do cinqente-
hospitalar.                                              nrio da histeria de Jean Martin Charcot*, opon-
   Na policlnica do Boulevard Ney, ligada ao            do-se assim  reviso de Joseph Babinski*:
Hospital Bichat, estendeu seu trabalho de pre-           "Ns, surrealistas, fazemos questo de celebrar
veno ao campo dos atrasos escolares, desen-            o cinqentenrio da histeria, a maior descoberta
volvendo uma teraputica de massa nas escolas            potica do fim do sculo, e isso no mesmo
maternais. Enfim, entre 1964 e 1968, criou um            momento em que o desmembramento do con-
servio de clnica psicanaltica (a primeira na          ceito de histeria parece fato consumado."
Frana) no Hpital des Enfants Malades. Atra-
                                                          Iconographie photographique de la Salptrire, edi-
vs de todas as suas atividades, Jenny Aubry
                                                         tada por Dsir-Magloire Bourneville e Paul Regnard,
procurava, ao mesmo tempo, provar a origem               Paris, Bureaux du Progrs Mdical, Delahaye e Le-
psquica das carncias afetivas nas crianas             crosnier, I, 1876-1877, II, 1878, III, 1879-1880  La
abandonadas ou perturbadas por internaes               Rvolution surraliste, 9-10, 1927, Paris, Jean-Michel
em instituies e trat-las pela psicanlise.            Place, 1980.
   Por seu trabalho com lactentes ou crianas             ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; FRANA; HIPNO-
pequenas, Jenny Aubry formou, como Fran-                 SE.
oise Dolto*, mas de maneira diferente, uma
gerao de psiquiatras hospitalares de crianas,
que prosseguiriam no caminho traado. A partir           Aulagnier, Piera (1923-1990)
de 1969, instalada em Aix-en-Provence, for-              psiquiatra e psicanalista francesa
mou novamente muitos alunos, contribuindo                    De origem milanesa, Piera Aulagnier viveu
assim para uma forte expanso da psicanlise             no Egito durante a Segunda Guerra Mundial,
nessa regio mediterrnea, que durante muitos            antes de estudar medicina em Roma. Instalou-
anos fora o campo de Angelo Hesnard*.                    se em Paris, onde fez sua anlise didtica com
 Jenny Aubry, Enfance abandonne (1953), Paris,         Jacques Lacan*. Participou da fundao da
Scarabe-Mtaili, 1983  Jenny Aubry, H.P. Klotz,       cole Freudienne de Paris* (EFP), que deixaria
Jacques Lacan, Ginette Raimbault, P. Royer, "La Place    em 1969, em razo de uma discordncia sobre
de la psychanalyse dans la mdecine" (1966), Le          o passe*, para criar em 1969, com Franois
Bloc-Notes de la Psychanalyse, 7, 1987, 9-38  lisa-
beth Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana,
                                                         Perrier* e Jean-Paul Valabrega, a Organizao
vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988   Psicanaltica de Lngua Francesa (OPLF), tam-
 Marcelle Geber, "Jenny Aubry", artigo indito.         bm chamada Quarto Grupo. Especialista em
                                                         clnica das psicoses e representante da terceira
 PSICANLISE DE CRIANAS.                                gerao* francesa, fundou a revista Topique.
                                                          Piera Aulagnier, La Violence de l'interprtation, Paris,
                                                         PUF, 1975  lisabeth Roudinesco, Histria da psica-
Augustine                                                nlise na Frana, vol. 2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro,
   Na Iconografia fotogrfica da Salptrire,            Jorge Zahar, 1988.
editada por Dsir-Magloire Bourneville
(1840-1909) entre 1876 e 1880, Augustine, uma
das figuras mais clebres da histeria* no fim do         Austrlia
sculo XIX francs, foi representada, no longe             Terra de emigrao onde os aborgines fo-
de Rosalie Leroux e da famosa Blanche Witt-              ram exterminados pelo fogo cruzado dos colo-
mann, que se v no quadro do pintor Andr                nos e dos desterrados, eles prprios vtimas da
Brouillet (1857-1920) intitulado Uma lio cl-          barbrie penitenciria, a Austrlia foi ao mesmo
nica na Salptrire, exposto no Salo dos In-            tempo um membro desprezado do Imprio Bri-
dependentes de 1887.                                     tnico e um dos continentes de eleio da an-
   Fotografada muitas vezes em atitudes pas-             tropologia* moderna. A implantao do freudis-
sionais, Augustine suscitou comentrios de es-           mo* se fez de duas maneiras distintas: por um
42     Austrlia

lado, atravs das expedies etnolgicas du-        refgio. S Clara Lazar-Geroe (1900-1980),
rante as quais foram debatidas as teses freudia-    proveniente de Budapeste, aceitou instalar-se
nas de Totem e tabu* -- de Bronislaw Malinow-       em Melbourne em 1940, tornando-se assim a
ski* a Geza Roheim* --; por outro lado, pela        primeira didata do pas reconhecida apta pela
instalao de um movimento psicanaltico sub-       IPA para formar alunos. Analisada por Michael
metido ao esprito colonial ingls, e que sempre    Balint*, ela criou em 1952, com Roy Winn e
permaneceu limitado a um pequeno grupo de           dois outros clnicos hngaros vindos de Lon-
homens. Nem fundadores, nem chefes de esco-         dres, Vera Roboz e Andrew Peto, a Sociedade
la, esses pioneiros, autctones ou imigrantes, se   Australiana de Psicanalistas, que foi ligada 
instalaram na dependncia em relao  Inter-       BPS at 1967. Nessa data, no congresso da IPA
national Psychoanalytical Association* (IPA),       em Copenhague, a Sociedade foi admitida co-
preocupados principalmente em assemelhar-se         mo grupo de estudos. Enfim, em 1973, no con-
a seus colegas europeus.                            gresso de Paris, foi recebida como sociedade
    Em 1909, Donald Cameron, ex-pastor da           componente, sob o nome de Australian Psy-
Igreja presbiteriana que se tornara mdico, or-     choanalytical Society (APS), dispondo imedia-
ganizou em Sydney um pequeno grupo de lei-          tamente de trs ramos (Sydney, Melbourne,
tura dos textos freudianos. Fez vrias confern-    Adelaide) para organizar um nmero muito res-
cias, que suscitaram reaes hostis. Dois anos      trito de membros: apenas 62 em meados dos
depois, Andrew Davidson, mdico, convidou           anos 1990, para uma populao de dezoito mi-
Sigmund Freud* a pronunciar uma conferncia         lhes de habitantes.
no Congresso mdico australiano de Sydney,              Como muitas outras regies do mundo (Es-
em companhia de Carl Gustav Jung* e de Ha-          candinvia*, Canad* etc.), a Austrlia foi, a
velock Ellis*. Os trs no compareceram, mas        partir dos anos 1960, o centro de um desenvol-
enviaram textos que foram lidos. A comunica-        vimento de todas as teorias originrias da escola
o de Freud, redigida em ingls, tinha como        inglesa ou da escola americana: kleinismo*
tema a psicanlise*, e foi a ocasio de um novo     (Ronald Fairbairn*), ps-kleinismo (Wilfred
ataque contra as teses de Pierre Janet*. Com        Ruprecht Bion*), independentes* (Michael Ba-
uma extrema conciso, Freud lembrava que a          lint, Donald Woods Winnicott*), Self Psycholo-
psicanlise permitira isolar a histeria* de toda    gy*.
etiologia hereditria, atribuindo-lhe como cau-         Quinze anos depois, a entrada em cena do
sa primeira um conflito psquico ligado a uma       lacanismo*, importado da Argentina* por Oscar
dissociao (clivagem*), tendo por origem o         Zentner, modificou o panorama psicanaltico
recalque*.                                          australiano. Em 1977, Zentner fundou a Freu-
    Depois da Primeira Guerra Mundial, come-        dian School of Melbourne, a partir do modelo
ou o processo de imigrao e intercmbio entre     da Escuela Freudiana de Buenos Aires (EFBA),
Londres e Sydney. Foi assim que Roy Coupland        criada em 1974 por Oscar Masotta*, que por sua
Winn (1890-1963) voltou  Austrlia, depois de      vez seguia o modelo da cole Freudienne de
se formar na British Psychoanalytic Society         Paris*. Como em todos os pases de lngua
(BPS). Foi o primeiro mdico australiano a          inglesa, a doutrina lacaniana foi ento ensinada
praticar a psicanlise e a introduzi-la nos meios   na universidade, nos departamentos de literatu-
hospitalares. Durante o perodo entre as duas       ra e de filosofia, e tambm por grupos feminis-
guerras, vrios artigos, publicados em revistas     tas. No plano clnico, ela conseguiu desenvol-
especializadas, foram dedicados  sexualidade*      ver-se, como na Argentina e no Brasil*, no
infantil e  importncia do freudismo para a        campo das psicoterapias* e da psicologia, isto
psiquiatria e a medicina.                           , fora dos circuitos clssicos da medicina, nos
    Apesar dos apelos de Ernest Jones*, sempre      quais, sob a influncia da poltica de Jones, o
preocupado em difundir um freudismo de ins-         freudismo se instalara amplamente. Nesse as-
pirao mdica e positivista no Imprio Brit-      pecto, o lacanismo favoreceu na Austrlia,
nico, os clnicos da Europa, perseguidos pelo       contra uma IPA medicalizada, o progresso da
nazismo*, no escolheram a Austrlia como           anlise leiga*.
                                                                                           autismo      43

 Sigmund Freud, "Sobre a psicanlise" (1913), ESB,       precoce. Kanner descreveu um quadro clnico
XII, 265-76; SE, XII, 205-11  Ernest Jones, A vida e a
                                                          diferente do da esquizofrenia infantil e encarou
obra de Sigmund Freud, vol.2, (N. York, 1955), Rio de
Janeiro, Imago, 1989  F.W. Graham, "Obituary Clara       o autismo como uma afeco psicognica, ca-
Lazar-Geroe (1900-1980)", International Review of         racterizada por uma incapacidade da criana,
Psycho-Analysis, vol.7, parte 4, 1980, 522-3  Jacquy     desde o nascimento, de estabelecer contato com
Chemouni, Histria do movimento psicanaltico (Paris,
                                                          seu meio. Cinco grandes sinais clnicos permi-
1990), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991  Reginald T.
Martin, "Australia", in Psychoanalysis International. A   tiriam, segundo ele, reconhecer a psicose* au-
Guide to Psychoanalysis Throughout the World, vol.2,      tstica: o surgimento precoce dos distrbios (lo-
Peter Kutter (org.), Frankfurt, Frommann Verlag, 1995,    go nos dois primeiros anos de vida), o extremo
27-40.                                                    isolamento, a necessidade de imobilidade, as
                                                          estereotipias gestuais e, por fim, os distrbios
                                                          da linguagem (ou a criana no fala nunca, ou
ustria
                                                          emite um jargo desprovido de significao,
 VIENA.
                                                          incapaz de distinguir qualquer alteridade).
                                                              Depois de postular uma origem psicognica
autismo                                                   para o autismo e afastar a questo do aspecto
al. Autismus; esp. autismo; fr. autisme; ing. autism      dos distrbios precoces, e portanto, das psicoses
                                                          infantis, Kanner evoluiu para um organicismo
Termo criado em 1907 por Eugen Bleuler* e deriva-
                                                          que o levou a encetar uma polmica com o
do do grego autos (o si mesmo), para designar o
ensimesmamento psictico do sujeito* em seu
                                                          maior especialista norte-americano no trata-
mundo interno e a ausncia de qualquer contato            mento de crianas autistas, Bruno Bettelheim*.
com o exterior, que pode chegar inclusive ao mu-              Alm de Bettelheim, foram a corrente anna-
tismo.                                                    freudiana, por um lado, com os trabalhos de
    Designa-se pelo adjetivo "autista" a pessoa           Margaret Mahler* sobre a psicose simbitica, e
afetada pelo autismo, e pelo adjetivo "autstico"         a corrente kleiniana, por outro, que melhor es-
tudo aquilo que caracteriza o autismo. Por exem-          tudaram e trataram o autismo, amide com
plo, um delrio autstico, uma criana autista.           sucesso, com a ajuda dos instrumentos forneci-
     numa carta de Carl Gustav Jung* a Sig-              dos pela psicanlise*. Nesse contexto, Frances
mund Freud*, datada de 13 de maio de 1907,                Tustin trouxe uma nova viso sobre essa ques-
que descobrimos como Bleuler cunhou o termo               to na dcada de 1970, ao propor uma clas-
autismo. Ele se recusava a empregar a palavra             sificao do autismo em trs grupos: o autismo
auto-erotismo*, introduzida por Havelock El-              primrio anormal, resultante de uma carncia
lis* e retomada por Freud, por considerar seu             afetiva primordial e caracterizado por uma in-
contedo por demais sexual. Por isso, fazendo             diferenciao entre o corpo da criana e o da
uma contrao de auto com erotismo, adotou a              me; o autismo secundrio, de carapaa, que
palavra autismo, depois de ter pensado em ip-             corresponde em linhas gerais  definio de
sismo, derivada do latim. Posteriormente,                 Kanner; e o autismo secundrio regressivo, que
Freud conservou o termo auto-erotismo para                seria uma forma de esquizofrenia sustentada
designar esse mesmo fenmeno, enquanto Jung               por uma identificao projetiva*.
adotou o termo introverso*.                                  A partir de 1980, e apesar da evoluo da
    Em 1911, em seu principal livro, Dementia             psiquiatria para o biologismo, o cognitivismo e
praecox ou grupo das esquizofrenias, Bleuler              a gentica, nenhum trabalho de pesquisa conse-
designou por esse termo um distrbio tpico da            guiu comprovar (como de resto no o fez em
esquizofrenia* e caracterstico dos adultos.              relao  esquizofrenia e  psicose manaco-
    Em 1943, o psiquiatra norte-americano Leo             depressiva) que o autismo verdadeiro (quando
Kanner (1894-1981), emigrado judeu e origin-             no existe nenhuma leso neurolgica anterior)
rio do antigo Imprio Austro-Hngaro, trans-              seja de origem puramente orgnica. Por conse-
formou a abordagem do autismo ao fazer a                  guinte, somente a doutrina psicanaltica (em
primeira descrio, a partir de onze observa-             qualquer de suas tendncias) foi capaz, nesse
es, do que denominava de autismo infantil               campo, sem excluir a priori a eventualidade de
44      auto-anlise

causas mltiplas, de explicar a dimenso psqui-           altera o conhecimento que temos da histria do
ca dessa doena e, acima de tudo, de romper                campo em questo (a mecnica, a biologia),
com o niilismo teraputico dos adeptos do or-              sem modificar o campo em si, ao passo que no
ganicismo, assim permitindo cuidar das crian-              outro caso d-se o inverso: o reexame do texto
as autistas em escolas, clnicas e centros es-            transforma o prprio campo. Desenvolveu-se
pecializados.                                              um debate interminvel, nessa perspectiva de
                                                           uma distino entre cincia "natural" e discur-
 Eugen Bleuler, Dementia praecox ou groupe des
                                                           sividade, sobre a questo no da auto-anlise
schizophrnies (Leipzig, 1911), Paris, EPEL-GREC,
1993  Carl Gustav Jung, Correspondance (1906-             como investigao de si por si mesmo, mas
1909), Paris, Gallimard, 1975  Leo Kanner, "Autistic      como momento fundador, para o prprio Freud
disturbances of affective contact", Nervous Child, 2,      e, portanto, para o freudismo*, de um campo de
1943, 217-50  Bruno Bettelheim, A fortaleza vazia         discursividade: o da psicanlise, sua doutrina e
(1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1987  Frances Tus-
tin, Autismo e psicose infantil (Londres, 1970), Rio de    seus conceitos.
Janeiro, Imago, 1975  M. Rutter e S. Schloper (orgs.),        A questo da auto-anlise como inves-
L'Autisme. Une revaluation des concepts et des trai-      tigao de si por si mesmo foi resolvida desde
tements (N. York, 1978), Paris, PUF, 1991  Phyllis        muito cedo pelo movimento psicanaltico. Em
Tyson e Robert L. Tyson, Teorias psicanalticas do
desenvolvimento (New Haven, Londres, 1990), P. Ale-        14 de novembro de 1897, numa carta a Wilhelm
gre, Artes Mdicas, 1993  Jacques Postel, "Autisme",      Fliess*, Freud declarou: "Minha auto-anlise
in Grand dictionnaire de la psychologie, Paris, Larous-    continua parada. Agora compreendi por qu. 
se, 1991, 86-7  Pierre Morel (org.), Dicionrio biogr-   que s posso me analisar servindo-me de co-
fico psi (Paris, 1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
1997.                                                      nhecimentos objetivamente adquiridos, como
                                                           em relao a um estranho. A verdadeira auto-
 ANNAFREUDISMO; AUBRY, JENNY; DOLTO, FRAN-                 anlise  impossvel, caso contrrio j no ha-
OISE; KLEINISMO; OBJETO, RELAO DE; PSICAN-             veria doena. Como meus casos tm me criado
LISE DE CRIANAS; WINNICOTT, DONALD WOODS.                 alguns outros problemas, vejo-me forado a
                                                           interromper minha prpria anlise."
                                                               Essas reservas incitaram Freud a tomar seus
auto-anlise                                               discpulos em anlise, quer para que se tratas-
al. Selbstanalyse; esp. autoanlisis; fr. auto-ana-        sem como verdadeiros doentes, quer para que
lyse; ing. self-analysis                                   se tornassem psicanalistas. Estes, em seguida,
    Na doutrina freudiana e na histria do mo-             instauraram os princpios gerais da anlise di-
vimento psicanaltico, a situao da auto-an-             dtica* e da superviso*, que posteriormente
lise sempre foi to problemtica quanto a da               permitiriam dar esteio ao avano da profisso.
cientificidade da psicanlise*. Essa nova "cin-           Em conseqncia disso, a auto-anlise como
cia", inventada por Freud, realmente se carac-             investigao de si mesmo foi banida dos pa-
teriza pelo fato de dever sua existncia aos               dres da formao, a no ser como prolonga-
enunciados de um pai fundador, autor e criador             mento da anlise pessoal.
de um sistema de pensamento.                                   Em situaes excepcionais, Freud interes-
    Como assinalou Michel Foucault (1926-                  sou-se por algumas tentativas de auto-anlise,
1984) numa conferncia proferida em 1969,                 como mostra seu comentrio de 1926 sobre um
preciso, nesse contexto, estabelecer bem a dife-           artigo de Pickworth Farrow dedicado a uma
rena entre a fundao de um campo de cienti-              lembrana infantil que remontava aos seis
ficidade, caso em que a cincia se relaciona com           meses de idade: "O autor [...] no conseguiu
a obra do instaurador como o faria com coorde-             chegar a um acordo com seus dois analistas [...].
nadas primrias, e a fundao de uma discursi-             Assim, voltou-se para uma aplicao conse-
vidade de tipo cientfico, atravs da qual um              qente do processo de auto-anlise de que me
autor instaura em seu prprio nome uma pos-                servi, no passado, para analisar meus prprios
sibilidade infinita de discursos, passveis de ser         sonhos. Seus resultados merecem ser levados
reinterpretados. No primeiro caso, o reexame de            em considerao, em virtude de sua originali-
um texto (de Galileu ou Darwin, por exemplo)               dade e de sua tcnica."
                                                                                auto-anlise      45

    Depois de haver definido solidamente os         significao, foi um dos grandes desafios da
princpios da anlise didtica, a comunidade        historiografia* freudiana, primeiramente ofi-
freudiana aceitou a idia de que somente Freud,     cial, com os trabalhos de Ernest Jones* e Didier
como pai fundador, havia realmente praticado        Anzieu, depois acadmica, com Ola Anders-
uma auto-anlise, isto , uma investigao de si    son* e Henri F. Ellenberger*, e por fim revisio-
mesmo no precedida de uma anlise. Por isso,       nista, com a elucidao que Frank J. Sulloway
ela desenhou um quadro de filiaes* em que o       fez dos emprstimos que Freud tomou de Fliess.
mestre ficou ocupando um lugar original: ele se         Foi Jones quem popularizou, em 1953, o
havia "autogerado". Assim, a auto-anlise dei-      termo auto-anlise. Ele fez de Fliess um falso
xou de ser uma questo terica e clnica para se    estudioso, demonaco e iluminado, que nunca
tornar a grande questo histrica da psicanlise.   produziu nada de interessante. Quando a Freud,
Passou-se ento a indagar exclusivamente so-        transformou-o num verdadeiro heri da cincia,
bre a auto-anlise de Freud, e portanto, sobre o    capaz de inventar tudo sem nada dever a sua
nascimento e as origens da doutrina psicanal-      poca. E, para explicar o amor desmedido que
tica.                                               esse deus nutria por Sat, entregou-se a uma
    Freud mudou de opinio vrias vezes quanto      interpretao psicanaltica das mais ortodoxas:
 durao dessa auto-anlise, mas, ao tomarmos      Fliess teria ocupado junto a Freud o lugar de um
conhecimento de suas cartas a Fliess, cons-         sedutor paranico e de um substituto paterno,
tatamos que ela se desenrolou entre 22 de junho     do qual este ltimo se haveria desfeito valente-
e 14 de novembro de 1897. Durante esse pero-       mente, atravs de um "trabalho hercleo" que
do crucial, o jovem mdico abandonou a teoria       lhe permitiu ter acesso  independncia e 
da seduo* em favor da teoria da fantasia* e       verdade. Essa interpretao foi retirada da fa-
fez sua primeira interpretao do dipo de S-      mosa declarao de Freud a Sandor Ferenczi*:
focles.                                             "Tive xito onde o paranico fracassa." Com
    Tal como Freud, os diferentes comentadores      algumas variaes, ela foi adotada durante uns
alongaram a durao dessa experincia origi-        vinte anos pela comunidade freudiana.
nal, fazendo-a iniciar-se em 1895, com a publi-         Em 1959, Didier Anzieu a criticou, avalian-
cao dos Estudos sobre a histeria*, e situando     do a auto-anlise de Freud  luz de seus traba-
seu fim em 1899, no momento em que foi              lhos posteriores e, em particular, de A interpre-
lanada A interpretao dos sonhos*. Eles           tao dos sonhos.
sublinharam que o perodo de junho a novem-             Em seguida, os trabalhos da historiografia
bro de 1897 correspondeu a uma auto-anlise         erudita modificaram radicalmente a idia que
"intensiva".                                        se podia ter desse episdio. Ellenberger fez dele
    De qualquer modo, como salientou Patrick        um momento essencial de toda forma de "neu-
Mahony, uma coisa  certa: essa auto-anlise        rose criadora" e, depois dele, Sulloway foi o
no foi um tratamento pela fala, mas pela escri-    primeiro, em 1979, a mudar de campo e estudar
ta. Seu contedo figura nas 301 cartas que Freud    a auto-anlise de Freud como o episdio dra-
enviou a Fliess entre 1887 e 1904. Ora, essa        mtico de uma rivalidade cientfica entre dois
correspondncia foi alvo de uma censura e,          homens. No obstante, numa perspectiva
mais tarde, de um escndalo. Publicada pela         continusta, ele rejeitou a idia de que Freud
primeira vez em 1950, por Marie Bonaparte*,         houvesse inventado uma nova teoria da sexua-
Ernst Kris* e Anna Freud*, sob o ttulo de O        lidade* e da bissexualidade* e fez dele um
nascimento da psicanlise, continha somente         herdeiro da doutrina fliessiana.
168 cartas, das quais apenas 30 estavam com-            Marcado pela tradio francesa da histria
pletas. Faltavam, portanto, 133, que s seriam      das cincias (a de Alexandre Koyr), Jacques
publicadas em 1985, por ocasio da primeira         Lacan* rompeu radicalmente com a concepo
edio no expurgada, feita em lngua inglesa       de Jones em 1953. Num belo comentrio sobre
por Jeffrey Moussaieff Masson.                      o sonho "da injeo de Irma*", e sem conhecer
    Sob esse aspecto, o estudo da auto-anlise      a histria de Emma Eckstein*, ele mostrou que
de Freud, de sua durao, seu contedo e sua        na origem de uma descoberta h sempre uma
46       auto-erotismo

dvida fundadora. Nenhum estudioso passa su-                   Biologist of the Mind, N. York, Basic Books, 1979 
                                                               Patrick Mahony, "L'Origine de la psychanalyse: la cure
bitamente da "falsa" para a "verdadeira" cin-
                                                               par crit", in Andr Haynal (org.), La Psychanalyse: cent
cia, e toda grande descoberta  to somente a                  ans dj (Londres, 1994), Genebra, Georg, 1996, 155-
histria de um encaminhamento dialtico em                     85.
que a verdade est intimamente misturada ao
erro. Essa foi tambm a tese de Jean-Paul Sartre
em Le Scnario Freud, postumamente publi-                      auto-erotismo
cado.
                                                               al. Autoerotismus; esp. autoerotismo; fr. auto-ro-
    Numa perspectiva idntica, Octave Manno-
                                                               tisme; ing. auto-erotism
ni* substituiu o termo auto-anlise, em 1967,
pela expresso, mais exata, anlise originria.                Termo proposto por Havelock Ellis* e retomado por
Sublinhou o lugar ocupado pelas teorias flies-                 Sigmund Freud* para designar um comportamento
sianas na doutrina de Freud e mostrou que a                    sexual de tipo infantil, em virtude do qual o sujeito
relao entre os dois homens foi a expresso de                encontra prazer unicamente com seu prprio cor-
                                                               po, sem recorrer a qualquer objeto externo.
uma diviso complexa entre o saber e o delrio,
entre a cincia e o desejo*.
                                                                AUTISMO; BLEULER, EUGEN; INTROJEO; LIBI-
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse               DO; NARCISISMO; SEXOLOGIA; SEXUALIDADE; TRS
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; "Nota preambular            ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE.
a um artigo de E. Picworth Farrow" (1926), ESB, XX,
324; GW, XIV, 568; SE, XX, 280; OC, XVIII, 105 
Freud/Fliess: correspondncia completa, 1887-1904,
Rio de Janeiro, Imago, 1997  Sigmund Freud e San-             automatismo mental (ou psicolgico)
dor Ferenczi: correspondncia, vol.i, 1908-1914 (Pa-
                                                               Termo utilizado na psiquiatria ou na psicologia
ris, 1992), Rio de Janeiro, Imago, 1994, 1995  Ernest
Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 1, 1856-1900          para designar o funcionamento espontneo da vi-
(N. York, 1953), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Jacques         da psquica normal ou patolgica, fora do controle
Lacan, O Seminrio, livro 1, Os escritos tcnicos de           da conscincia* e da vontade. A idia se inscreve
Freud (1953-1954) (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Jorge         numa concepo organicista da doena mental e
Zahar, 1979  Didier Anzieu, A auto-anlise de Freud e         remete a uma teoria hereditarista ou subliminar do
a descoberta da psicanlise (Paris, 1988), P. Alegre,          inconsciente*.
Artes Mdicas, 1989  Octave Mannoni, "L'Analyse
originelle" (1967), in Clefs pour l'imaginaire, Paris,
Seuil, 1969, 115-31  Michel Foucault, "Qu'est-ce qu'un         CLRAMBAULT, GATAN GATIAN DE; ESPIRITIS-
auteur?" (1969), in Dits et crits, vol.I, 1954-1969, Paris,   MO; HEREDITARIEDADE-DEGENERESCNCIA; HIP-
Gallimard, 1994, 789-21  Frank J. Sulloway, Freud,            NOSE; JANET, PIERRE.
                                                      B
Babinski, Joseph (1857-1932)                                    Balint, Michael, n Mihaly
mdico e neurologista francs                                   Bergsmann (1896-1970)
    Nascido em Paris, em uma famlia de imi-                    mdico e psicanalista ingls
grantes poloneses catlicos, Joseph Babinski                        Nascido em Budapeste em uma famlia da
foi o aluno preferido de Jean Martin Charcot*.                  pequena burguesia judaica, Michael Bergs-
No clebre quadro de Andr Brouillet (1857-                     mann era filho de um clnico geral, que confes-
1920) Uma lio clnica na Salptrire, ele                    sava sua decepo por no ter podido tornar-se
visto  esquerda do mestre, em uma sesso de                    um especialista. Amado pela me, mulher sim-
hipnotismo, segurando uma mulher histrica                      ples e inteligente, o jovem Michael contrariou
(Blanche Wittmann), mergulhada no sono. Em                      a autoridade paterna, mas decidiu estudar me-
1901, oito anos depois da morte de Charcot,                     dicina. Como muitos judeus hngaros cujos
reviu a sua definio de histeria*, dando-lhe o                 antepassados adotaram nomes alemes, deci-
nome de pitiatismo, do grego peithos (persua-                   diu, no fim da guerra, "magiarizar-se" para
so) e iatos (curvel). Esse desmembramento,                    afirmar assim que pertencia  nao hngara.
que esvaziava notadamente a etiologia sexual                    Tomou ento o sobrenome de Balint. Na uni-
construda por Sigmund Freud* e reavivava o                     versidade, ficou conhecendo Alice Szekely-
debate sobre a simulao, era na verdade a                      Kovacs, estudante de etnologia, que despertou
conseqncia da deciso de Babinski de tomar                    seu interesse pela psicanlise.*.
o caminho da fundao da neurologia moderna.                        A me de Alice, Wilma Prosnitz, tendo se
    Efetivamente, para delimitar com preciso o                 casado muito jovem com um homem que no
campo de uma semiologia lesional, era preciso                   amava (Szekely), desposara em segundas np-
dinamitar a doutrina de Charcot, amputando-a                    cias Frederic Kovacs, arquiteto que conhecera
de suas pesquisas sobre a histeria, e deixando                  em um sanatrio, onde ela se tratava de uma
assim para os psiquiatras, e no mais para os
                                                                tuberculose. Ele prprio estava em tratamento
neurologistas, o tratamento de uma neurose*
                                                                com Georg Groddeck*, por distrbios somti-
considerada a partir de ento como uma doena
                                                                cos diversos. Depois do casamento, adotou os
mental.
                                                                trs filhos de Wilma, e esta se tornou psicanalis-
    A partir de 1908, a noo de pitiatismo foi
                                                                ta, com o nome de Wilma Kovacs (1882-1940),
longamente discutida na Frana pelos grandes
                                                                depois de fazer uma anlise com Sandor Fe-
nomes da psiquiatria dinmica*. Por volta de
                                                                renczi*, que a curou de uma grave agorafobia.
1925, essa palavra caiu em desuso; os surrealis-
tas celebraram nesse ano o cinqentenrio da                        Em 1921, Michael casou-se com Alice e
histeria e da implantao das teses freudianas.                 instalaram-se em Berlim. Analisado por Hanns
                                                                Sachs* e supervisionado por Max Eitingon*, no
 lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na              quadro do prestigioso Berliner Psychoanaly-
Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge              tisches Institut* (BPI), Balint orientou-se para a
Zahar, 1989  Pierre Morel (org.), Dicionrio biogrfico
psi (Paris, 1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
                                                                medicina psicossomtica*, tratando de pa-
                                                                cientes no Hospital de Caridade. Depois, voltou
 CONTRIBUIO  CONCEPO DAS AFASIAS;                          a Budapeste, onde fez um perodo de anlise
FRANA; JACKSON, HUGHLINGS; SEXUALIDADE.                        com Ferenczi. Cinco anos depois da morte des-
                                                           47
48     Balint, Michael

te, tomou o caminho do exlio e chegou em 1939      Tambm contriburam para a humanizao des-
a Manchester com sua mulher e seu filho. Foi        sas duas disciplinas. Foi por isso que tiveram
obrigado, como todos os imigrantes, a refazer       tanto sucesso na Gr-Bretanha*, e em todos os
os estudos de medicina e teve que enfrentar,        outros pases, especialmente na Frana*, onde a
alm do exlio, a dor de perder de uma s vez       psicanlise era menos dependente da psiquia-
quase todos os membros da famlia. Alice Balint     tria.
(1898-1939), sua mulher, e Wilma Kovacs, sua            Em 1954, foi o primeiro convidado estran-
sogra, a quem era muito apegado, morreram           geiro da Sociedade Francesa de Psicanlise
com um ano de intervalo. Depois da guerra,          (SFP). Foi nessa ocasio que Ginette Raimbault
ficou sabendo que seus pais tinham se suicidado     lhe foi apresentada. Aluna de Jenny Aubry* e
para escapar  deportao.                          membro da cole Freudienne de Paris (EFP),
     Depois de alguns anos de celibato, Balint      ela introduziu a prtica dos grupos Balint no
casou-se novamente com uma ex-analisanda,           Hpital des Enfants Malades em 1965, no ser-
Edna Oakeshott, que se tornara psicanalista.        vio do professor Pierre Royer. Enid e Michael
Certamente, a situao no era muito confort-      Balint assistiram a vrias reunies. E foi Judith
vel e o casal no tardou a passar por dificul-      Dupont, membro da Associao Psicanaltica
dades.                                              da Frana (APF), neta de Wilma Kovacs, filha
     A partir de 1946, Balint mudou de vida.        de Olga Dormandi (ne Szekely) e sobrinha de
Instalando-se em Londres, comeou a trabalhar       Alice Balint, que traduziu a sua obra para o
na Tavistock Clinic, onde encontrou os grandes      francs, tornando-se tambm executora testa-
astros da escola psicanaltica inglesa: John Ri-    mentria da obra de Ferenczi. Tudo isso contri-
ckman*, e Wilfred Ruprecht Bion*. Foi l tam-       buiu para a afirmao da escola hngara na
bm que ficou conhecendo Enid Albu-Eich-            Frana e para o desenvolvimento de uma cor-
holtz, sua terceira mulher. Analisada por Do-       rente particular da historiografia* freudiana, cu-
nald Woods Winnicott*, Enid Balint (1904-           jos traos se encontram na revista Le Coq H-
1994) iniciou Michael em uma nova tcnica, o        ron, criada em 1971. Na Sua, Andr Haynal,
case work. Tratava-se de comentar e trocar re-      depois de receber manuscritos e correspon-
latos de casos no interior de grupos compostos      dncias de Enid Balint, abriu em Genebra os
de mdicos e de psicanalistas. Essa experincia     Arquivos Balint.
deu origem ao que se chama de grupos Balint.            Grande tcnico do tratamento, Balint soube
Apesar de sua separao em 1953, Michael e          aliar o esprito inovador de seu mestre Ferenczi
Enid continuaram a trabalhar juntos.                 tradio clnica da escola inglesa. Nesse as-
     Na dupla linhagem de Ferenczi e da escola      pecto, foi realmente o "hngaro selvagem" da
inglesa, Balint definiu uma noo nova, a "falha    British Psychoanalytical Society (BPS), cujos
bsica", designando sob essa apelao uma "zo-      rituais e cuja esclerose ele criticou com muito
na" pr-edipiana caracterizada pela ausncia,       humor, prestando homenagem, na primeira oca-
em certos indivduos, de uma terceira parte         sio, aos costumes mais liberais da antiga socie-
estruturante, e conseqentemente de toda reali-     dade de Budapeste: "Sua gentileza, sua huma-
dade objetal externa. O sujeito* fica ento sozi-   nidade, sua compreenso, escreveu Andr Hay-
nho e sua principal preocupao  criar algo a      nal, sua repugnncia pelas relaes autoritrias
partir de si mesmo. A existncia dessa falha no    ou de dependncia s se igualavam  sua in-
permite a instaurao de uma contratransfern-      dependncia de esprito. Sua convico de que
cia*. Nesse caso, o analista  obrigado a proce-    a psicanlise poderia evoluir graas  contribui-
der a um novo arranjo do quadro tcnico, que        o de pensadores independentes, animados de
permita aceitar a regresso do paciente.            um desejo exclusivo de verdade [...] o persuadiu
     Os grupos Balint permitiram, alis, estender   de que ela  uma das disciplinas mais impor-
a tcnica psicanaltica* a uma melhor com-          tantes a servio do homem e da humanidade.
preenso das relaes entre os mdicos e os         Assim, ele se sentiu bastante afetado pela mes-
doentes, notadamente em terreno hospitalar,         quinhez de certas pessoas empenhadas em pes-
nos servios de pediatria e de medicina geral.      quisas nesse campo."
                                                                                  Bateson, Gregory         49

 Michael Balint, Le Mdecin, son malade et la maladie        Proveniente de uma famlia veneziana e for-
(Londres, 1957), Paris, Payot, 1960; Amour primaire et
                                                          mado em psiquiatria em Pdua, Basaglia foi
technique psychanalytique (Londres, 1965), Paris,
Payot, 1972; A falha bsica (Londres, 1968), P. Alegre,   nomeado em 1961 diretor do Hospital Psiqui-
Artes Mdicas, 1993; Six minutes par patient. Interac-    trico de Gorizia, pequena cidade italiana situada
tions en consultation de mdecine gnrale (Londres,      perto da fronteira iugoslava. Inspirando-se nos
1973), Paris, 1976  Michael Balint e Enid Balint, Te-    trabalhos do psiquiatra anglo-americano Max-
chniques psychothrapeutiques en mdecine (Lon-
dres, 1961), Paris, Payot, 1966  Michel Balint, E.
                                                          well Jones (1907-1990) sobre as comunidades
Balint, E. Gosling, R. e P. Hildebrand, Le Mdecin en     teraputicas, ps em prtica um novo tratamen-
formation (Londres, 1966), Paris, Payot, 1979; La Psy-    to da loucura*, considerando-a ao mesmo tem-
chothrapie focale. Un exemple de psychanalyse ap-        po como doena mental e resultado de uma
plique (Londres, 1972), Paris, Payot, 1975  Ginette
Raimbault, Mdecins d'enfants, Paris, Seuil, 1973 
                                                          marginalizao econmica. Sua crtica radical
Andr Haynal, La Technique en question. Contro-           de qualquer forma de instituio asilar o levou,
verses en Psychanalyse, Paris, Payot, 1987; "Cente-       dez anos depois, a criar a associao Psichiatria
naire: Michael Balint 1896-1970", Psychothrapies,        Democratica. Suas teses foram vigorosamente
vol.XVI, 4, 1996, 233-5.                                  defendidas e compartilhadas por boa parte da
                                                          esquerda italiana.
                                                              Trabalhando no hospital de Trieste, pros-
Baranger, Willy (1922-1994)                               seguiu as suas experincias, substituiu o confi-
psicanalista argentino                                    namento por instalaes teraputicas em am-
    Nascido em Bne, na Arglia, Willy Baran-             biente aberto (apartamentos e habitaes cole-
ger estudou filosofia em Toulouse e emigrou               tivas) e demonstrou a inutilidade tanto do asilo
para a Argentina* em 1946. Em Buenos Aires,               clssico quanto da obstinao farmacolgica no
integrou-se  Asociacin Psicoanaltica Argen-            tratamento da loucura.
tina (APA), para instalar-se depois no Uruguai,               Em 1979, sua experincia foi coroada de
onde criou a Asociacin Psicoanaltica del Uru-           sucesso: depois de uma ampla consulta feita
guay (APU). Voltando a Buenos Aires em 1966,              pelos partidos polticos aos psiquiatras, o parla-
publicou vrias obras de inspirao kleiniana e           mento aprovou uma lei que suprimia o hospital
interessou-se particularmente pela obra de Jac-           psiquitrico e reintegrava os doentes mentais
ques Lacan*.                                              seja ao hospital geral, seja a comunidades tera-
                                                          puticas.
                                                              Como todas as experincias do movimento
Basaglia, Franco (1924-1980)                              antipsiquitrico, a de Basaglia foi posterior-
                                                          mente questionada pelo retorno das teses orga-
psiquiatra italiano
                                                          nicistas e pela utilizao macia da farmacolo-
    Na histria da antipsiquiatria*, Franco Basa-         gia.
glia ocupa uma posio bem diferente da de
Ronald Laing* e de David Cooper*, em razo                 Franco Basaglia, L'Institution en ngation (Turim,
da situao muito peculiar da psicanlise* na             1968), Paris, Seuil, 1970  Frank Chaumon et al.,
                                                          "Psychiatrie", Encyclopaedia universalis, 1981, 327-
Itlia*. Na mesma medida em que Laing e Co-               33;  "Franco Basaglia (1924-1980)", ibid., 527-8.
oper procuraram destruir a instituio asilar a
partir de uma reflexo existencial sobre o es-             BION, WILFRED RUPRECHT; BURROW, TRI-
tatuto da esquizofrenia*, Basaglia foi primeira-          GANT.
mente um militante poltico, cuja trajetria se
inscreve na histria do marxismo e do comunis-
mo*. Nesse aspecto, ao contrrio de Cooper e              Bateson, Gregory (1904-1980)
principalmente de Laing, que foram profun-                antroplogo americano
damente marcados pela escola inglesa de psica-               Nascido em Cambridge e filho de um grande
nlise, Basaglia teve poucas relaes com o               geneticista, Gregory Bateson estudou zoologia,
freudismo, que considerava como veculo pri-              antes de se orientar para a antropologia*. Fez
vilegiado de uma concepo capitalista da                 estudos de campo na Nova Guin e nas popu-
adaptao do indivduo  sociedade.                       laes do rio Spik, onde, em 1932, ficou co-
50      Baudouin, Charles

nhecendo Margaret Mead*, que se tornaria sua                 Charles Baudouin, Psychologie de la suggestion et
                                                            de l'auto-suggestion, Neuchtel, Delachaux et Niestl
mulher.
                                                            1924; Psychanalyse de Victor Hugo (Genebra, 1943),
   Inicialmente especialista em anlise dos ri-             Paris, Armand Colin, 1972; L'Oeuvre de Jung, Paris,
tuais e das relaes entre homens e mulheres,               Payot, 1963  Mireille Cifali "De quelques remous hel-
Bateson voltou-se depois para o estudo da lou-              vtiques autour de l'analyse profane", Revue Interna-
cura* e instalou-se na Califrnia, no Veteran's             tionale d'Histoire de la Psychanalyse, 3, 1990, Paris,
                                                            PUF, 145-57.
Hospital de Palo Alto, onde se dedicou ao tra-
tamento e  observao de famlias de esquizo-               ANLISE LEIGA; QUESTO DA ANLISE LEIGA, A.
frnicos, o que fez dele um pioneiro da antipsi-
quiatria* e da terapia familiar*. Na perspectiva
da Escola de Palo Alto, explicava que a esqui-
                                                            Bauer, Ida, sobrenome de casada
zofrenia* era o resultado de uma disfuno fun-             Adler (1882-1945), caso Dora
dada sobre o que ele chamava de double bind
(duplo vnculo*). Essa expresso teve sucesso e                 Primeiro grande tratamento psicanaltico
foi retomada depois por todos os clnicos da                realizado por Sigmund Freud*, anterior aos do
esquizofrenia.                                              Homem dos Ratos (Ernst Lanzer*) e do Homem
                                                            dos Lobos (Serguei Constantinovitch Panke-
 Gregory Bateson, La Crmonie du naven (Cam-              jeff*), a histria de Dora, redigida em dezembro
bridge, 1936), Paris, Minuit, 1971; Vers une cologie       de 1900 e janeiro de 1901 e publicada quatro
de l'esprit, 2 vols. (N. York, 1972), Paris, Seuil, 1977,   anos depois, desenrolou-se entre a redao de A
1980; Perceval le fou. Autobiographie d'un schizo-
                                                            interpretao dos sonhos* e a dos Trs ensaios
phrne (Londres, 1962), Paris, Payot, 1975.
                                                            sobre a teoria da sexualidade*. Originalmente,
 CULTURALISMO.                                              Freud queria dar a esse "Fragmento da anlise
                                                            de um caso de histeria" o ttulo de "Sonho* e
                                                            histeria*". Atravs desse caso, ele procurou pro-
                                                            var a validade de suas teses sobre a neurose*
Baudouin, Charles (1893-1963)                               histrica -- etiologia sexual, conflito psquico,
psicanalista suo                                          hereditariedade sifiltica -- e expor a natureza
    Nascido em Nancy, Charles Baudouin es-                  do tratamento psicanaltico, muito diferente da
tudou letras e depois foi para Genebra em 1915,             catarse* e da hipnose*, e j ento fundamentado
atrado pelo desenvolvimento do Instituto Jean-             na interpretao* do sonho e na associao
Jacques Rousseau. Foi l que descobriu a psi-               livre*.
canlise*. Formado por Carl Picht, junguiano, e                 Ao longo dos anos, o texto adquiriu um
por Charles Odier*, sofreu em 1920 um proces-               estatuto particular: trata-se, com efeito, do do-
so por exerccio ilegal da medicina, depois de              cumento clnico que mais se comentou, desde
ter dado "cursos" de iniciao  sugesto*. Hen-            sua publicao. Dezenas de artigos, vrios li-
ri Flournoy* se ops  sua candidatura  Socie-             vros, um romance e uma pea teatral foram
dade Psicanaltica de Paris (SPP).                          criados a propsito de Dora, e o caso dessa
    Autor de cerca de trinta obras e artigos de             jovem tornou-se o objeto privilegiado dos es-
inspirao psicobiogrfica, fundou as ditions              tudos feministas. Alis, muitas vezes foi aproxi-
du Mont-Blanc, que publicaram as obras de                   mado do caso de Bertha Pappenheim*. A maio-
alguns psicanalistas da primeira gerao fran-              ria dos comentadores observou que esse trata-
cesa. Criou, em 1924, um instituto internacional            mento no foi to "bem-sucedido" quanto os
de "psicagogia" e procurou conciliar a prtica              outros dois. De fato, Freud teve muitas dificul-
da psicanlise com a da "sugesto" e do mtodo              dades com sua paciente, e no as mascarou.
de mile Cou (1857-1926), este adepto de uma               Como observou Patrick Mahoney a propsito
psicoterapia* baseada no auto-controle pela                 de Ernst Lanzer, "Quando comparamos as
vontade e pela auto-sugesto. Baudouin sempre               contratransferncias* de Freud com seus prin-
quis ficar prximo, ao mesmo tempo, das teo-                cipais pacientes, temos a sensao de que ele
rias freudianas e das de Pierre Janet* e de Carl            simpatizava mais com o Homem dos Ratos do
Gustav Jung*.                                               que com Dora ou com o Homem dos Lobos. Se
                                                                                  Bauer, Ida      51

Freud foi um procurador com Dora, foi um            do assunto com seu pai. Este interroga o marido
educador amistoso com Lanzer."                      da amante, que nega categoricamente os fatos
    Para a publicao desse primeiro tratamento     pelos quais  recriminado. Preocupado em pro-
exclusivamente psicanaltico, conduzido com         teger seu romance extraconjugal, o pai culpado
uma mocinha virgem de 18 anos de idade,             faz com que a filha passe por mentirosa e a
Freud tomou precaues inauditas. Na poca,         encaminha para tratamento com um mdico
de fato, a cruzada que se travava contra o freu-    que, alguns anos antes, prescrevera-lhe um ex-
dismo* consistia em fazer com que a psican-        celente tratamento contra a sfilis.
lise* passasse por uma doutrina pansexualista,          A entrada de Freud em cena transforma essa
que tinha por objetivo fazer os pacientes (sobre-   histria de famlia numa verdadeira tragdia do
tudo as mulheres) confessarem, por meio da          sexo, do amor e da doena. Sob esse aspecto,
sugesto*, "sujeiras" sexuais inventadas pelos      sua narrativa do caso Dora assemelha-se a um
prprios psicanalistas. Na Gr-Bretanha* e no       romance moderno: hesitamos entre Arthur
Canad*, por exemplo, Ernest Jones* suporta-        Schnitzler*, Marcel Proust (1871-1922) e Hen-
ria o peso de acusaes dessa ordem.                rik Ibsen (1828-1906). Com efeito, o drama
    Logo em sua introduo, portanto, Freud         inteiro gira em torno da introspeco atravs da
resolveu responder de antemo a esse tipo de        qual a herona (Ida) mergulha, progres-
objeo, mostrando que sua teoria no era uma       sivamente, nas profundezas de uma subjetivi-
trama diablica, destinada a perverter mocinhas     dade que se oculta de sua conscincia. E a fora
e mulheres: "Pode-se falar de toda sorte de         da narrativa prende-se ao fato de que Freud faz
questes sexuais com moas e mulheres, sem          surgir uma impressionante patologia por trs
lhes causar nenhum prejuzo e sem acarretar         das aparncias de uma grande normalidade.
suspeitas sobre si mesmo, desde que, em pri-        Com isso ele pode restituir a Dora uma verdade
meiro lugar, se adote uma certa maneira de          que sua famlia lhe roubara, ao cham-la de
faz-lo e, em segundo, se desperte nelas a con-     simuladora.
vico de que isso  inevitvel (...). A melhor         Nascida em Viena*, numa famlia da bur-
maneira de falar dessas coisas  sendo seco e       guesia judaica abastada, Ida era a filha caula
direto; e ela , ao mesmo tempo, a que mais se      de Philipp Bauer (1853-1913) e Katharina Ger-
afasta da lascvia com que esses assuntos so       ber-Bauer (1862-1912). Acometido por uma
tratados na `sociedade', lascvia esta com que      afeco sifiltica antes do casamento, Phillip s
as moas e mulheres esto plenamente habitua-       enxergava de um olho desde que ela nascera.
das. Dou aos rgos e aos fenmenos seus            Freud o descreveu como um homem ativo e
nomes tcnicos e comunico esses nomes, na           muito talentoso: "A personalidade dominante
eventualidade de eles serem desconhecidos." E       era o pai", escreveu, "tanto por sua inteligncia
acrescentou em francs: "J'appele un chat un        e suas qualidades de carter quanto pelas cir-
chat."                                              cunstncias de sua vida, que condicionaram a
    A histria de Ida Bauer  a de um drama         trama da histria patolgica e infantil de minha
burgus, tal como encontrado nas comdias           cliente." Grande industrial, ele desfrutava de
ligeiras do fim do sculo XIX: um marido fraco      uma bela situao financeira e era admirado
e hipcrita engana sua mulher, uma dona de          pela filha. Em 1888, contraiu tuberculose, o que
casa ignorante, com a esposa de um de seus          o obrigou a se instalar com toda a famlia longe
amigos, conhecida numa temporada de frias          da cidade. Assim, optou por residir em Merano,
em Merano. A princpio enciumado, depois in-        no Tirol, onde travou conhecimento com Hans
diferente, o marido enganado tenta, de incio,      Zellenka (Sr. K.), um negociante menos abas-
seduzir a governanta de seus filhos. Depois,        tado que ele, casado com uma bela italiana,
apaixona-se pela filha de seu rival e a corteja     Giuseppina ou Peppina (Sra. K.), que sofria de
durante uma temporada em sua casa de campo,         distrbios histricos e era uma assdua freqen-
situada s margens do lago de Garda. Hor-           tadora de sanatrios. Peppina tornou-se amante
rorizada, esta o rejeita, pespega-lhe uma bofe-     de Phillip e cuidou dele em 1892, quando ele
tada e conta a cena a sua me, para que ela fale    sofreu um descolamento da retina.
52     Bauer, Ida

    Nessa poca, havendo retornado a Viena,         morek, dez anos mais moa que ele, e que seria
Phillip instalou-se na mesma rua que Freud e        sua amante at sua morte. Secretrio do Partido
foi consult-lo (como mdico) por conta de um       Social-Democrata de 1907 a 1914 e, depois,
acesso de paralisia e confuso mental de origem     assessor de Viktor Adler no ministrio de As-
sifiltica. Satisfeito com o tratamento, encami-    suntos Exteriores em 1918, viria a ser uma das
nhou-lhe sua irm, Malvine Friedmann (1855-         grandes figuras da intelectualidade austraca no
1899). Afetada por uma neurose grave e imersa       entre-guerras. No entanto, apesar de seu talento
na infelicidade de uma vida conjugal atormen-       excepcional, nunca se refez do desmoronamen-
tada, ela morreu pouco depois, vtima de uma        to do Imprio Austro-Hngaro e despendeu
caquexia de evoluo rpida.                        mais energia atacando Lenin do que combaten-
    Katharina, a me de Ida, provinha, como o       do Hitler: "Essa ingenuidade", escreveu Wil-
marido, de uma famlia judia originria da Bo-     liam Johnston, "ainda era uma herana do Im-
mia. Pouco instruda e bastante simplria, sofria   prio de antes da guerra, no qual a tradio
de dores abdominais permanentes, que seriam         protegia os dissidentes. Bauer insistiu, at 1934,
herdadas pela filha. Nunca se interessara pelos     em fazer cruzadas tpicas do pr-guerra contra
filhos e, desde a doena do marido e da desunio    a Igreja e a aristocracia, num momento em que,
que se seguira a ela, exibia todos os sinais de     justamente, deveria ter-se associado a seus ini-
uma "psicose domstica": "Sem mostrar ne-           migos de outrora para repelir o fascismo. Pou-
nhuma compreenso pelas aspiraes dos fi-          cas cegueiras tiveram conseqncias to pesa-
lhos, ela se ocupava o dia inteiro", escreveu       das."
Freud, "em limpar e arrumar a casa, os mveis           Portanto, foi em outubro de 1901 que Ida
e os utenslios domsticos, a tal ponto que us-    Bauer visitou Freud para dar incio a esse trata-
los e usufruir deles tinha-se tornado quase im-     mento, que duraria exatamente onze semanas.
possvel (...). Fazia anos que as relaes entre    Afetada por diversos distrbios nervosos --
me e filha eram pouco afetuosas. A filha no       enxaquecas, tosse convulsiva, afonia, depres-
dava a menor ateno  me, fazia-lhe duras         so, tendncias suicidas --, ela acabara de so-
crticas e escapara por completo de sua influn-    frer uma terrvel afronta.
cia." E era uma governanta quem cuidava de              Consciente, desde longa data, do "erro" pa-
Ida. Mulher moderna e "liberada", esta lia livros   terno e da mentira em que se apoiava a vida
sobre a vida sexual e dava informaes sobre        familiar, ela havia rejeitado as propostas amo-
eles  sua aluna, em segredo. Abriu-lhe os olhos    rosas que Hans Zellenka (Sr. K.) lhe fizera 
para o romance do pai com Peppina. Entretanto,      margem do lago de Garda e o esbofeteara. E
depois de t-la amado e de lhe ter dado ouvidos,    ento tinha eclodido o drama: ela fora acusada
Dora se desentendera com ela.                       por Hans e por seu pai de ter inventado a cena
    Quanto ao irmo, Otto Bauer (1881-1938),        de seduo. Pior ainda, fora reprovada por Pep-
ele pensava sobretudo em fugir das brigas fami-     pina Zellenka (Sra. K.), que suspeitava que ela
liares. Quando tinha que tomar algum partido,       lesse livros pornogrficos, em particular A fisio-
alinhava-se do lado da me: "Assim, a cos-          logia do amor, de Paolo Mantegazza (1831-
tumeira atrao sexual havia aproximado pai e       1901), publicado em 1872 e traduzido para o
filha, de um lado, e me e filho, do outro." Aos    alemo cinco anos depois. O autor era um sex-
9 anos de idade, ele se tornara um menino           logo darwinista, profusamente citado por Ri-
prodgio, a ponto de escrever um drama em           chard von Krafft-Ebing* e especializado na
cinco atos sobre o fim de Napoleo. Depois,         descrio "etnolgica" das grandes prticas se-
rebelara-se contra as opinies polticas do pai,    xuais humanas: lesbianismo, onanismo, mas-
cujo adultrio aprovava, por outro lado. Tal        turbao, inverso, felao etc. Ao encaminhar
como o pai, Otto levou uma vida dupla, marca-       sua filha a Freud, Philipp Bauer esperava que
da pelo segredo e pela ambivalncia. Casou-se       este lhe desse razo e que tratasse de pr fim s
com uma mulher dez anos mais velha, j me          fantasias* sexuais da moa.
de trs filhos, mantendo ao mesmo tempo um              Longe de subscrever  vontade paterna,
romance prolongado com Hilda Schiller-Mar-          Freud enveredou por um caminho totalmente
                                                                                         Bauer, Ida         53

diverso. Em onze semanas e atravs de dois           tarde, deu  luz um filho, que posteriormente
sonhos -- um referente a um incndio na resi-        faria carreira musical nos Estados Unidos*.
dncia da famlia e outro  morte do pai --, ele         Em 1923, sujeita a novos distrbios -- ver-
reconstituiu a verdade inconsciente desse dra-       tigens, zumbidos no ouvido, insnia, enxaque-
ma. O primeiro sonho revelou que Dora era da-        cas --, por acaso chamou  sua cabeceira Felix
da  masturbao e que, na realidade, estava         Deutsch*. Contou-lhe toda a sua histria, falou
enamorada de Hans Zellenka. Por isso havia           do egosmo dos homens, de suas frustraes e
pedido ao pai que a protegesse da tentao desse     de sua frigidez. Ouvindo suas queixas, Deutsch
amor. Quanto ao segundo, ele permitiu ir ainda       reconheceu o famoso caso Dora: "Desse mo-
mais longe na investigao da "geografia se-         mento em diante, ela esqueceu a doena e ma-
xual" de Dora e, em especial, trazer  luz           nifestou um imenso orgulho por ter sido objeto
seu perfeito conhecimento da vida sexual dos         de um texto to clebre na literatura psiquitri-
adultos.                                             ca." Ento, discutiu as interpretaes de seus
    Freud se deu conta de que a paciente no         dois sonhos feitas por Freud. Quando Deutsch
suportou a revelao de seu desejo pelo homem        tornou a v-la, os ataques tinham passado.
a quem havia esbofeteado. Por isso, deixou-a             Em 1955, havendo emigrado para os Es-
partir quando ela resolveu interromper o trata-      tados Unidos, Deutsch teve notcia da morte de
mento. Como agir de outro modo? O pai, de            Dora, ocorrida dez anos antes. Atravs de
incio favorvel  anlise, logo percebeu que        Ernest Jones*, ficou sabendo que ela havia
Freud no havia aceitado a tese da fabulao.        morrido em Nova York, e, atravs de um colega,
Por conseguinte, desinteressou-se do tratamen-       soube como se haviam desenrolado seus lti-
to da filha. Por seu lado, esta no encontrara em    mos anos de vida. Dora tinha voltado contra o
Freud a seduo que esperava dele: ele no fora      prprio corpo a obsesso de sua me: "Sua
compassivo e no soubera empregar com ela            constipao, vivida como uma impossibilidade
uma relao transferencial positiva. Nessa po-      de `limpar os intestinos', causou-lhe problemas
ca, com efeito, ele ainda no sabia manejar a        at o fim da vida. Entretanto, habituada a esses
transferncia* na anlise. Do mesmo modo,            distrbios, ela os tratou como um sintoma co-
como sublinharia em uma nota de 1923, foi            nhecido, at o momento em que eles se revela-
incapaz de compreender a natureza da ligao         ram mais graves do que uma simples converso.
homossexual que unia Ida (Dora) a Peppina. No        Sua morte -- de um cncer de clon, diagnos-
entanto, fora a prpria Sra. K. que fizera a moa    ticado tarde demais para que uma operao
ler o livro proibido, para depois acus-la. E fora   pudesse ter xito -- veio como uma bno para
tambm ela quem lhe havia falado de coisas           seus parentes. Ela fora, nas palavras de meu
sexuais.                                             informante, uma das `histricas mais repulsi-
    Esse tema da homossexualidade* inerente         vas' que ele j havia conhecido."
histeria feminina seria longamente comentado          Sigmund Freud, "Fragmento da anlise de um caso
por Jacques Lacan* em 1951, enquanto outros          de histeria" (1905), ESB, VII, 5-128; GW, V, 163-286;
autores fariam questo de demonstrar ora que         SE, VII, 1-122; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,
Freud nada entendia de sexualidade feminina*,        1954, 1-91  Felix Deutsch, "Apostille au `Fragment
                                                     d'une analyse d'hystrie (Dora)'" (1957), Revue Fran-
ora que Dora era inanalisvel.                       aise de Psychanalyse, XXXVII, janeiro-abril de 1973,
    Ida Bauer nunca se curou de seu horror aos       407-14  Jacques Lacan, "Interveno sobre a transfe-
homens. Mas seus sintomas se aplacaram. Aps         rncia" (1951), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,
sua curta anlise, ela pde vingar-se da humi-       Jorge Zahar, 1998, 214-28; O Seminrio, livro 2, O eu
                                                     na teoria de Freud e na tcnica da psicanlise (1954-
lhao sofrida, fazendo a Sra. K. confessar o        1955) (Paris, 1978), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985;
romance com seu pai e levando o Sr. K. a             O Seminrio, livro 17, O avesso da psicanlise (1969-
confessar a cena do lago. Transmitiu ento a         1970) (Paris, 1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992
verdade ao pai e, depois disso, suspendeu qual-       Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de
                                                     l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbane,
quer relacionamento com o casal. Em 1903,            1974), Paris, Fayard, 1994  Arnold Rogow, "A further
casou-se com Ernst Adler, um compositor que          footnote to Freud's `Fragment of an analysis of a case
trabalhava na fbrica de seu pai. Dois anos mais     of hysteria'", in Journal of the American Psychoanaly-
54       Beirnaert, Louis

tical Association, 26, 1978, 311-30  Hlne Cixous,           permaneceu ligado ao da Frana*, e em parte ao
Portrait de Dora, Paris, Des femmes, 1986  Charles
                                                               dos Pases Baixos*.
Berheimer e Claire Kahane (orgs.), In Dora's Case:
Freud-Hysteria-Feminism, N. York, Columbia Universi-               Desde os anos 1900, a polmica a respeito
ty Press, 1985  Harry Stroeken, En analyse avec Freud         do freudismo* se desenvolveu entre os neuro-
(1985), Paris, Payot, 1987  William M. Johnston, L'Es-        logistas e os psiquiatras. A psicanlise era ento
prit viennois. Une histoire intellectuelle et sociale, 1848-
                                                               considerada como um mtodo de investigao
1938 (N. York, 1972), Paris, PUF, 1985  Hannah S.
Decker, Freud, Dora and Vienna, 1900, N. York, The             til em inquritos judicirios e na deteco das
Free Press, 1991  Lisa Appignanesi e John Forrester,          simulaes. Era confundida com o teste de as-
Freud's Women, N. York, Basic Books, 1992  Jacque-            sociao verbal* de Carl Gustav Jung*. Princi-
line Rousseau-Dujardin, "L'Objet: comment le sujet s'y         palmente, a prtica freudiana no era distingui-
retrouve. Une lecture (entre autres) de Dora", in Le
Double, Centre d'Arts Plastiques de Saint-Fons, 1995,          da de todas as outras formas de terapia. A pri-
42-52  Patrick J. Mahony, Freud's Dora. A Psychoana-          mazia da sexualidade* foi qualificada de pan-
lytic, Historical and Textual Study, New Haven, Lon-           sexualismo* pelo corpo mdico, como em todos
dres, Yale University Press, 1996.                             os outros pases.
 DIFERENA SEXUAL; ESTUDOS SOBRE A HIS-                            Depois da Primeira Guerra Mundial, Juliaan
TERIA; SEDUO, TEORIA DA; SEXOLOGIA.                          Varendonck* foi o verdadeiro pioneiro da psi-
                                                               canlise na Blgica. Formado em Viena*, reco-
                                                               nhecido por Sigmund Freud* e membro da Ne-
Beirnaert, Louis (1906-1985)                                   derlandse Vereniging voor Psychoanalyse
padre e psicanalista francs                                   (NVP), instalou-se em Gand e trabalhou duran-
    Nascido em Ascq, Louis Beirnaert entrou                    te um breve perodo, antes de morrer sem deixar
para a Companhia de Jesus em 1923 e tornou-se                  posteridade.
professor de teologia dogmtica. Durante a Se-                     Foi necessrio esperar o perodo entre as
gunda Guerra Mundial, participou da Resis-                     duas guerras para que alguns marginais e auto-
tncia anti-nazista em uma rede gaullista.                     didatas fundassem verdadeiramente o movi-
Orientou-se depois para a psicanlise e foi ana-               mento belga: Fernand Lechat*, Camille Lechat,
lisado por Daniel Lagache, antes de se tornar                  sua esposa, e Maurice Dugautiez*. Usando o
um dos ntimos companheiros de Jacques La-                     ttulo de psiquistas, instituram em 1920 um
can* e desempenhar um papel importante na                      Crculo de Estudos Psquicos, no qual se prati-
histria das relaes entre a psicanlise e a                  cavam igualmente as cincias ocultas, o espiri-
Igreja* catlica, notadamente a propsito da                   tismo*, a hipnose* e a psicanlise. Logo, Lechat
questo da deteco das vocaes. Cronista da                  e Dugautiez criaram a revista Le Psychagogue,
revista tudes, redigiu vrios textos importan-                fizeram contato com a Sociedade Psicanaltica
tes sobre a mstica, e principalmente sobre In-               de Paris (SPP), criada em 1926, e se iniciaram
cio de Loyola (1491-1556).                                     na anlise didtica* com Ernst Paul Hoffmann*,
                                                               vindo de Viena e refugiado na Blgica de 1938
 Louis Beirnaert, Aux frontires de l'acte analytique. La
Bible, saint Ignace, Freud et Lacan, Paris, Seuil, 1987.
                                                               a 1940.
                                                                   Desde essa poca, surgiu o conflito em torno
 IGREJA.                                                       da anlise leiga* (entre mdicos e no-mdi-
                                                               cos), que marcaria o ps-guerra na Blgica, mas
                                                               que j atravessava o movimento internacional.
Blgica                                                        Lechat e Dugautiez viram-se contestados como
   A introduo da psicanlise* na Blgica se-                 marginais e at "charlates" por Jacques De
guiu o mesmo movimento de todos os outros                      Busscher, mdico membro da NVP bastante
pases da Europa*. Mas, dividido entre duas                    favorvel s teses freudianas. Ele prprio no
lnguas, entre mdicos e leigos (os no-mdi-                  praticava a psicanlise, mas lutava para que esta
cos), perpassado pela histria do nazismo* e                   fosse reservada apenas aos mdicos.
pela renovao lacaniana, o movimento psica-                       Paralelamente, os meios intelectuais se inte-
naltico belga teve como caracterstica nunca                  ressavam pelo pensamento freudiano. Assim,
conseguir encontrar sua autonomia. Seu destino                 Hendrik (Henri) De Man (1885-1953), futuro
                                                                                         Blgica       55

presidente do Partido Operrio Belga, escreveu      fenomenologia, os representantes da jovem ge-
a Sigmund Freud em 1925. Alis, socilogos,         rao* psicanaltica -- a terceira da Blgica --
pedagogos e professores universitrios, assim       fizeram anlises didticas fora de seu pas. Na
como os jesutas ligados  Universidade Cat-       Frana com Lacan, na Sua* com Gustav Bally
lica de Louvain comearam a comentar as obras       (1893-1966) ou Maeder Boss.
de psicanlise e a inspirar-se nelas.                   Recusando curvar-se s exigncias ortodo-
    Em 1924, foi publicado um nmero especial       xas da SBP, eles acabaram por fundar sua pr-
da revista Le Disque Vert, inteiramente dedica-     pria instituio em 1969, a Escola Belga de
do  psicanlise. Franz Hellens, seu diretor,       Psicanlise (EBP), calcada na cole Freudien-
conseguira reunir, para tratar desse tema, nomes    ne de Paris* e dotada de um programa de ensino
prestigiosos da literatura e do saber mdico. Foi   idntico: retorno a Freud, ensino da filosofia, da
um verdadeiro acontecimento.                        antropologia*, da lingstica. Favorvel  an-
    Na abertura, havia uma carta de Freud. Vi-      lise leiga, essa escola reuniu os no-mdicos
nham depois artigos de psicanalistas e escri-       que, inicialmente, eram majoritrios.
tores franceses. No conjunto, o nmero expri-           Entretanto, diante da SBP, preocupada com
mia bem os motivos da batalha dos anos 1920         sua respeitabilidade, a EBP permaneceu  pro-
em torno do freudismo. Alguns o condenavam          cura de uma verdadeira identidade. Ligados 
como moda efmera, outros insistiam na serie-       Universidade de Louvain, seus fundadores fa-
dade do que lhes parecia uma verdadeira dou-        voreceram a implantao do lacanismo* na Bl-
trina.                                              gica, por uma via catlica e universitria. O
    Durante o perodo da ocupao nazista, Le-      filsofo Alphonse de Waehlens (1911-1981),
chat e Dugautiez continuaram a praticar a psi-      leitor de Husserl, tradutor de Heidegger e amigo
canlise. Em maro de 1947, sob o patrocnio        de Maurice Merleau-Ponty (1908-1967), de-
da SPP, fundaram a Associao dos Psicanalis-       sempenhou ento um papel importante. Mem-
tas da Blgica (APB), que seria reconhecida         bro da cole Freudienne de Paris (EFP) de 1964
pela International Psychoanalytical Associa-        a 1971, comeou acompanhando o Seminrio
tion* (IPA), no congresso de Zurique de 1949,       de Lacan, assistiu s suas apresentaes de
com o firme apoio de Marie Bonaparte*. Essa         doentes, antes de tomar as suas distncias e
fundao permitiu  psicanlise desenvolver-se      militar mais firmemente do que nunca por uma
na parte francfona do pas.                        psicanlise de inspirao fenomenolgica.
    A adeso  IPA teve como efeito obrigar a           Em 1980, a dissoluo da EFP acarretou a
APB a se normatizar, isto , no contexto belga,     fragmentao da EBP e a criao de uma mul-
a adotar o ponto de vista da medicalizao.         tido de pequenos grupos dependentes de diver-
Foram mulheres mdicas que tomaram a dire-          sas escolas neolacanianas parisienses: Escola
o da associao e afastaram os fundadores         da Causa Freudiana (ECF), Associao Freu-
autodidatas. A APB modificou ento os seus          diana (AF) etc. Com essa disseminao, a EBP
estatutos e, em 1960, assumiu o nome de Socie-      continuou ligada  Universidade de Louvain,
dade Belga de Psicanlise (SBP). Composta de        em torno de Jacques Schotte e Antoine Vergote,
uma grande maioria de mdicos, no se preo-         considerando-se pluralista, aberta e democrti-
cupou mais com a pesquisa intelectual. No fim       ca, no sendo exclusiva a referncia a Lacan e
dos anos 1990, contava com 60 membros, para          sua doutrina.
uma populao global de dez milhes de habi-
tantes, ou seja seis psicanalistas (IPA) para um     Le Disque Vert. Freud et la psychanalyse, Paris-
                                                    Bruxelas, 1924  Varits. Le Surralisme en 1929,
milho de habitantes.                               nmero especial, junho de 1929  Winfried Huber,
    Nesse contexto, os jovens terapeutas mais       Herman Piron, Antoine Vergote, La Psychanalyse
brilhantes preferiram voltar-se para as teses de    science de l'homme, Bruxelas, Dessart, 1964  Bulletin
Jacques Lacan*, cuja doutrina estava banida da      Interne de l'EBP, 2 de maro de 1977  Charles Fran-
                                                    ois, Le Mouvement de l'hygine mentale en Belgique
SBP, no momento em que comeava a florescer         et la formation des psychothrapeutes, tese, Universi-
na Frana, no seio da Sociedade Francesa de         dade de Lige, 1978-1979. Arquivos Michel Coddens
Psicanlise (SFP, 1953-1963). Marcados pela         e Didier Cromphout.
56     Bellevue, Clnica Psiquitrica de

 CISO; FEDERAO EUROPIA DE        PSICANLI-     aqueles que considerava como adversrios ou
SE; QUESTO DA ANLISE LEIGA, A.                    falsos eruditos: Richard von Krafft-Ebing* ou
                                                    Wilhelm Fliess*. Deve-se acrescentar que Be-
                                                    nedikt ficou tributrio de uma concepo do
Bellevue, Clnica Psiquitrica de                   psiquismo fundada na conscincia.
 BINSWANGER, LUDWIG.                                    Na "Comunicao preliminar" de 1893, que
                                                    seria incorporada aos Estudos sobre a histeria*,
                                                    Freud e Josef Breuer* o citaram como tendo
Benedikt, Moriz (1835-1920)                         publicado "ocasionalmente" observaes sobre
                                                    o assunto. Na Interpretao dos sonhos*, Freud
mdico austraco
                                                    tambm evoca sua obra Hipnotismo e sugesto,
    O escritor Hermann Bahr (1863-1920) dizia       publicada em 1894.
que "o vienense  um homem que detesta e                Sua contribuio mais interessante para a
despreza os outros vienenses, mas no consegue      histria da psiquiatria dinmica* foi um artigo
viver fora de Viena". Se essa frase se aplica a     de 1914 que se referia ao que ele chamava em
Sigmund Freud*, ela convm ainda mais a Mo-         ingls the second life, isto , a vida interior
riz (ou Moritz) Benedikt, cujo destino trgico      secreta de cada indivduo. Essa segunda vida,
foi conhecido graas  sua autobiografia publi-     que alis era a expresso de seu prprio itiner-
cada em 1906 e aos trabalhos do historiador         rio de mdico vienense atormentado pela inau-
Henri F. Ellenberger*.                              tenticidade daquela sociedade fin de sicle, se
    Esse mdico, originrio de uma famlia judia    construa, segundo ele, como um sistema de
de Burgenland, passou a vida fazendo descober-      representaes e ruminaes que o indivduo
tas sobre as doenas nervosas e seu tratamento,     conservava em seu foro ntimo, sem desejar
sem nunca conseguir ser reconhecido como um         manifest-las. Mais freqente na mulher, ela era
inovador. De certa forma, foi um pioneiro da        dominante nos jogadores, nos excntricos, nos
sombra que ia de decepo em decepo, de           criminosos, nos neurastnicos. A primeira pro-
converso a renegao,  maneira de muitos          vidncia do terapeuta era ser o explorador desse
judeus vienenses nessa poca, sempre  procura      sistema, pois ele encerrava segredos patogni-
de identidade e atormentados pelo "dio de si       cos. Benedikt foi tambm um dos primeiros
judeu". Benedikt se identificou a todos os inte-    estudiosos a detectar as causas sexuais da his-
lectuais malditos esquecidos pela cincia ofi-      teria. Antes de morrer solitrio e esquecido,
cial. No s permaneceu um mdico obscuro           tinha-se voltado para as cincias ocultas, que no
porm talentoso, mas tambm sofreu por ser,         entanto desprezara no incio da sua carreira.
pelo sobrenome, homnimo de um jornalista
clebre da Neue Freie Press.                         Henri F. Ellenberger, Mdecines de l'me. Essais
    Especialista em histeria*, praticante de hip-   d'histoire de la folie et des gurisons psychiques, Paris,
nose* e amigo de Jean Martin Charcot*, afirma-      Fayard, 1995.
va, j em 1864, que a histeria era uma doena
                                                     JUDEIDADE; PSIQUIATRIA DINMICA; SEXUALIDA-
sem causas uterinas. Quatro anos depois, inte-
                                                    DE; WEININGER, OTTO.
ressou-se pela eletroterapia, mas, em 1891, vol-
tou atrs e comeou a militar contra o hipnotis-
mo. Enfim, foi um dos primeiros a falar de
histeria masculina. Erna Lesky, historiadora da     Benussi, Vittorio (1878-1927)
medicina vienense, explicou em 1965 as razes       psicanalista italiano
dos repetidos fracassos desse terapeuta brilhan-       Nascido em Trieste, Vittorio Benussi ficou
te em se afirmar como um verdadeiro inovador:       dividido, durante toda a vida, entre suas duas
embora tivesse recebido slida formao, ele        ptrias, a ustria e a Itlia*. Depois de estudar
no podia resolver-se a aceitar os fatos e sempre   psicologia em Roma, no departamento dirigido
se deixava levar por sua louca imaginao.          por Sante De Sanctis (1862-1935), estudou
Alm disso, preferia a polmica ao lento traba-     mais especialmente a psicologia experimental
lho da razo e no cessava de atacar todos          na ustria e fez uma anlise com Otto Gross*
                                                                                           Bernays, Anna           57

em Graz. Depois da queda do Imprio Austro-                 mesmo nome, o Instituto Psicanaltico de Ber-
Hngaro, recusou um cargo em Praga por ra-                  lim foi inaugurado em 14 de fevereiro de 1920,
zes polticas e voltou  Itlia, onde obteve a             em instalaes arranjadas por Ernst Freud* na
ctedra de psicologia na Universidade de P-                Potsdamer Strasse. Verdadeiro laboratrio de
dua. Rigoroso ao extremo, como mostram seus                 formao de terapeutas, desempenhou durante
trabalhos experimentais, Benussi foi tambm                 dez anos um papel considervel na elaborao
um poeta e uma espcie de guru, que estudou a               dos princpios da anlise didtica* e serviu de
sugesto* hipntica e a psicologia do testemu-              modelo para todos os outros institutos pos-
nho.                                                        teriormente criados no mbito da International
    Em 1926, no clima antipsicanaltico alimen-             Psychoanalytical Association* (IPA). At sua
tado pela publicao do livro do clebre psi-               ida para a Palestina, Eitingon presidiu a comis-
quiatra Enrico Morselli (1852-1929), deu uma                so de ensino, e foi em 1923 que, pela primeira
srie de cursos sobre os fundamentos da psica-              vez no mundo, a formao analtica foi subme-
nlise e formou um certo nmero de alunos,                  tida s trs prescries hoje sistemticas: an-
entre os quais Cesare Musatti*, que se tornaria             lise didtica, ensino terico e superviso*.
seu assistente e o sucederia depois de sua morte,               Proveniente de Viena*, Hans Sachs* foi o
e Novello Papafava, militante anti-fascista,                primeiro psicanalista exclusivamente didata do
amigo da grande figura da luta contra o regime              BPI. Formou 25 pessoas, dentre elas os mais
mussolinista que foi Piero Gobetti (1901-                   brilhantes representantes do freudismo* inter-
1926), e autor de um ensaio de inspirao freu-             nacional. Ao longo dos anos e em razo do
diana sobre os fundamentos do fascismo italia-              afluxo de emigrados hngaros que fugiam do
no. Benussi ficou conhecendo em Groningen,                  regime do almirante Horthy, e, mais tarde, do
nesse mesmo ano de 1926, Ludwig Binswan-                    afluxo de vienenses obrigados a se exilar por
ger* e Karl Jaspers (1883-1969). Por razes                 razes econmicas, o Instituto tornou-se o
desconhecidas, suicidou-se em 1927, pouco                   maior centro de formao analtica do mundo,
tempo antes de um congresso de psicologia                   ao mesmo tempo que se desenvolvia na policl-
italiana, que devia realizar-se em sua homena-              nica toda sorte de tratamentos teraputicos, gra-
gem em Pdua.                                               tuitos para os desfavorecidos e pagos em graus
    Seus trabalhos de psicologia experimental               variveis pelos outros pacientes. Em 1930, na
foram escritos e publicados em lngua alem,                ocasio em que Eitingon publicou seu "Relat-
mas foi em italiano que escreveu suas contri-               rio original sobre os dez anos do BPI", Berlim
buies clnicas, reunidas e publicadas em 1932             se tornara, nas palavras de Ernest Jones*, "o
sob o ttulo Sugesto e psicanlise por sua                 corao de todo o movimento psicanaltico in-
ex-aluna Silvia Musatti de Marchi.                          ternacional".
                                                                Depois do advento do nazismo* na Alema-
 Contardo Calligaris, "Petite histoire de la psychana-     nha*, o BPI foi integrado ao instituto alemo
lyse en Italie", Critique, 333, fevereiro de 1975, 175-95
 Michel David, La psicoanalisi nella cultura italiana
                                                            dirigido por Matthias Heinrich Gring*, assim
(1966), Turim, Bollati Boringhieri, 1990; "La Psychana-     se prestando  sinistra comdia da "arianiza-
lyse en Italie", in Roland Jaccard (org.), Histoire de la   o" da psicanlise, isto , de sua destruio
psychanalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982  Silvia         sistemtica como "cincia judaica".
Vegetti Finzi, Storia della psicoanalisi, Milo, Mon-
dadori, 1986.                                                On forme des psychanalystes. Rapport original sur
                                                            les dix ans de l'Institut Psychanalytique de Berlin, apre-
 SUICDIO.                                                  sentao de Fanny Colonomos, Paris, Denel, 1985.



Berliner Psychoanalytisches Institut                        Bernays, Anna, ne Freud
(BPI)                                                       (1859-1955), irm de Sigmund Freud
(Instituto Psicanaltico de Berlim)                            Nascida em Freiberg e terceira entre os fi-
   Criado por Max Eitingon*, Karl Abraham*                  lhos de Jacob e Amalia Freud*, Anna era tam-
e Ernst Simmel* no mbito da policlnica do                 bm a primeira das cinco irms de Sigmund
58      Bernays, Minna

Freud* e a nica que foi poupada do extermnio           Bernays, Minna (1865-1941),
dos judeus pelos nazistas. Em suas lembranas,           cunhada de Sigmund Freud
manifestou o mesmo cime que seu irmo sen-                  Na histria da vida privada de Sigmund
tira em relao a ela, quando era criana. Con-          Freud*, Minna Bernays, irm mais nova de
tou at que ponto Amalia privilegiava o filho            Martha Freud* (ne Bernays), ocupa um lugar
mais velho: ele tinha direito a um quarto s para        determinante, no s pelos laos ntimos que
ele, enquanto as irms se apertavam no resto do          mantinha com o cunhado (e que duraram toda
apartamento. Quando Amalia quis dar aulas de             a vida), mas tambm porque essa amizade se
piano a Anna, Sigmund se ops e ameaou                  tornou uma das grandes questes da historio-
deixar a casa. Quando ela tinha 16 anos, ele a           grafia* freudiana, e em especial da corrente
impediu de ler as obras de Honor de Balzac              revisionista.
(1799-1850) e de Alexandre Dumas (1802-                      Em 1882, quando Freud se apaixonou por
1870). Essa atitude tirnica estava ligada ao fato       Martha, tambm se sentiu muito atrado por
de que Freud fora muito ciumento de seu irmo            Minna, cuja inteligncia e esprito custico o
Julius Freud*, nascido depois dele, e posterior-         encantavam. Escreveu-lhe cartas ntimas, nas
mente se sentira culpado de sua morte. Tinha             quais lhe fazia muitas confidncias, chamando-
ento dirigido sua rivalidade contra a jovem             a de "meu tesouro, minha irm". Nessa poca,
irm, vista como "usurpadora" porque lhe to-             a jovem estava noiva de um amigo de Freud,
mava uma parcela do amor da me. Mas essa                Ignaz Schnberg (1856-1886), que contraiu tu-
hostilidade tambm mostra a que ponto Freud              berculose e morreu no comeo do ano de 1886.
obedecia, em certas questes,  concepo vi-            Minna se decidiu ento a ficar solteira e ocupar-
toriana da educao das meninas, prpria da              se de sua me em Hamburgo, trabalhando tam-
sociedade vienense do fim do sculo. Suas dif-          bm algumas vezes como dama de companhia.
ceis relaes com essa irm estimularam certa-               Em 1896, instalou-se em Viena* na casa da
mente suas reflexes sobre as rivalidades edi-           irm e do cunhado, o apartamento do nmero
pianas e sobre os laos familiares em geral.             19 da Berggasse, onde ocupava um cmodo
Posteriormente, Freud se mostrou bem mais                sem entrada independente. Assim, tinha que
afetuoso com suas quatro outras irms, cujo              passar sempre pelo quarto do casal Freud para
destino foi trgico.                                     chegar ao seu. Ao longo dos anos, tornou-se a
    Em outubro de 1883, Anna Freud casou-se              "tia Minna" para os cinco filhos da famlia, aos
com Eli Bernays, irmo de Martha Bernays,                quais dedicou muito tempo e toda a sua energia.
futura mulher de Freud, com o qual este no              Enquanto Freud mantinha a mulher e os filhos
tardou a se indispor por causa de uma banal              afastados da sua vida profissional, confiava
histria de dinheiro. Novamente manifestou seu           suas dvidas, interrogaes e certezas  cu-
cime querendo que Martha, sua noiva, tomasse            nhada ternamente amada. Chegou at a viajar
partido por ele, o que ela no fez. Por isso, no        em sua companhia, principalmente  Itlia. Em
assistiu ao casamento da irm. Tempos depois,            suas cartas, ele a mantinha informada sobre
deu fim  briga e ajudou os Bernays a emigrar            todos os assuntos da famlia, falando-lhe tanto
para os Estados Unidos*, onde Eli se tornou um           de Martha quanto de suas descobertas intelec-
homem de negcios muito rico. Anna teve cinco            tuais. Ela respondia com a firmeza de uma
filhos e morreu em Nova York quase centenria.           mulher que ocupava uma posio slida entre
                                                         os familiares. Em 1938, j doente e quase cega,
 Anna Freud-Bernays, "My brother S. Freud", The         conseguiu exilar-se em Londres, onde morreu
American Mercury, 51, 1940  Ernest Jones, A vida e      dois anos depois do cunhado.
a obra de Sigmund Freud, vol.1 (N. York, 1953), Rio de       Carl Gustav Jung*, que recusava a teoria
Janeiro, Imago, 1989  Lydia Flem, La Vie quotidienne
de Freud et de ses patients, Paris, Hachette, 1986 
                                                         freudiana da sexualidade*, tinha entretanto um
Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.        gosto pronunciado pelas histrias picantes da
York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995.       vida privada. Tendo tido, ele prprio, aventuras
                                                         extra-conjugais, notadamente com Sabina
 BERNAYS, MINNA; FREUD, MARTHA.                          Spielrein*, no hesitava em divulgar boatos,
                                                                                Bernays, Minna          59

verdadeiros ou falsos, sobre as ligaes carnais    tamente ao constatar a existncia de um branco,
dos amigos e dos contemporneos. Assim, foi         entre 1893 e 1910, na numerao das cartas.
o primeiro, no crculo de Freud, a deixar enten-    Ora, era precisamente durante esse perodo que
der que talvez este tivesse sido amante da cu-      a relao sexual teria podido ocorrer. Gay no
nhada. Em 1957, em uma entrevista com John          acreditava na existncia dessa cena incestuosa
Billinsky, contou que, em maro de 1907, Min-       original, mas mostrava como herdeiros legti-
na Bernays, muito "desorientada", lhe confes-       mos, censurando a vida privada dos pensadores,
sara que Freud estava apaixonado por ela e "sua     suprimiam dados inutilmente, e justamente
relao era verdadeiramente muito ntima". De-      com isso favoreciam a difuso das interpreta-
clarou lembrar-se do "suplcio" que sofrera ao      es mais fantasiosas.
ouvir essa "revelao".                                 Para Albrecht Hirschmller, especialista
    No era preciso tanto para abalar a comuni-     alemo na publicao da correspondncia de
dade freudiana e reavivar assim as acusaes        Freud com os membros de sua famlia, Gay
contra a psicanlise. Essa doutrina, que via sexo   teria cometido um erro e a numerao das fa-
por toda a parte, ia finalmente ser surpreendida    mosas cartas no teria tido interrupo. A cor-
em flagrante delito de incesto*, na prpria pes-    respondncia de Freud com a cunhada no con-
soa de seu fundador hipcrita? Ernest Jones*,       tinha, segundo ele, nenhum elemento que pu-
bigrafo oficial do mestre, afirmou inutilmente     desse comprovar a existncia de tal ligao: "A
por muitas vezes que o grande homem fora            correspondncia  muito aberta e muito ntima,
"mongamo em um grau incomum", mas no              escreveu Hirschmller. Ela mostra que as re-
pde impedir que o boato fizesse estragos. Pior     laes de Freud com a cunhada faziam parte de
ainda, a correspondncia entre Minna Bernays        uma rede de relaes familiares [...]. Uma rela-
e o cunhado continuava inacessvel a todos os       o carnal teria causado muitos problemas e
pesquisadores e zelosamente guardada pelo           destrudo os laos com Martha, que eram fun-
muito ortodoxo Kurt Eissler, responsvel pelos      damentais para Freud, mas diferentes dos que
Arquivos Freud, depositados na Biblioteca do        mantinha com Minna. Foi a opinio que formei,
Congresso* de Washington.                           depois de ter estudado tudo o que encontrei nos
    No fim dos anos 1970, o historiador revisio-    arquivos de Freud sobre a famlia Bernays."
nista Peter Swales relanou a questo, dando-           Assim, a relao carnal foi inventada por
lhe um contedo terico. Preocupado em reen-        Jung, a partir de um testemunho mal compreen-
contrar os vestgios originais de todas as preva-   dido de Minna, antes de se tornar uma fantasia
ricaes cometidas pelo fundador, comeou a         maior na historiografia revisionista e antifreu-
pesquisar a questo e fez em Nova York, em          diana.
novembro de 1981, uma conferncia que teve
grande repercusso. Tomando como ponto de            Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, vols.
partida a confidncia de Jung, explicou que         1 e 2 (N. York, 1953 e 1955), Rio de Janeiro, Imago,
Freud tivera uma ligao sexual com Minna.          1989  John M. Billinsky, "Jung and Freud (the end of
Ele a teria at mesmo engravidado e obrigado        a romance)", Andover Newton Quarterly, X, 1969, 39-
                                                    43  Max Schur, Freud: vida e agonia, uma biografia
a abortar. O mtodo utilizado no fornecia a        (N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1981  La
menor prova da realidade de uma tal ligao.        Maison de Freud, Berggasse 19 Vienne, fotografias e
Tratava-se de uma espcie de pardia de inter-      prefcio de Edmund Engelman, notcia biogrfica de
pretao psicanaltica, que pretendia encontrar     Peter Gay (N. York, 1976), Paris, Seuil, 1979  Peter
                                                    Swales, "Freud, Minna Bernays and the conquest of
na obra de Freud "revelaes" autobiogrficas
                                                    Rome: new light on the origins of psychoanalysis", New
capazes de explicar o mais claramente possvel      American Review. A Journal of Civility and the Arts, 1,
os atos de sua vida privada.                        vero de 1982, 1-23  Janet Malcolm, Tempte aux
    A esse delrio de interpretao*, o historia-   Archives Freud (N. York, 1983), Paris, PUF, 1986 
dor Peter Gay, novo bigrafo de Freud, respon-      Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.
                                                    York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995;
deu relatando a perturbao que sentira ao con-     Lendo Freud (New Haven, 1990), Rio de Janeiro,
sultar, na Biblioteca do Congresso, a correspon-    Imago, 1992  lisabeth Roudinesco, Genealogias
dncia entre Freud e Minna Bernays, mais exa-       (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Relume Dumar, 1995 
60      Bernfeld, Siegfried

Albrecht Hirschmller, carta indita a lisabeth Roudi-   savam pela infncia e pela adolescncia em
nesco de 13 de setembro de 1996.
                                                          situao de dificuldade: Wilhelm (Willi) Hoffer
 FLIESS, WILHELM; SEDUO, TEORIA DA.                     (1897-1967), Anna Freud, August Aichhorn*.
                                                          Todos tinham como objetivo estender a doutri-
                                                          na freudiana s questes sociais.
Bernfeld, Siegfried (1892-1953)                               Em 1925, publicou duas obras importantes,
                                                          uma dedicada  psicologia da adolescncia, ou-
psicanalista americano
                                                          tra centrada no mito de Ssifo, na qual denun-
    Militante sionista e austro-marxista, apre-
                                                          ciava os mtodos educativos alemes que pode-
ciador de mulheres, fumante inveterado de ci-
                                                          riam, segundo ele, favorecer a instaurao de
garros americanos, grande conhecedor das ori-
                                                          uma ditadura.
gens do freudismo*, pioneiro da anlise leiga*
                                                              Nesse ano, separado da primeira mulher, foi
e da psicologia da adolescncia, Siegfried Bern-
                                                          a Berlim e cruzou o destino de todos aqueles
feld foi uma das figuras principais do primeiro
                                                          que se tinham agrupado em torno de Karl Abra-
crculo psicanaltico vienense, antes de se tor-
                                                          ham* e de Eitingon. Fez uma anlise de dois
nar, em 1941, fundador da San Francisco Psy-
                                                          anos com Hanns Sachs*, e retornou a Viena em
choanalytical Society (SFPS).
                                                          1932, depois de se casar com a atriz lisabeth
    Nascido em Lemberg, na Galcia, em uma
                                                          Neumann, aluna de Erwin Piscator (1893-
famlia judia de negociantes de txteis, ins-
talada no subrbio de Viena*, estudou botnica            1966), futura artista de Hollywood, de quem se
e zoologia, que lhe deram um slido conheci-              separaria em 1934, para se casar com a terceira
mento das cincias da natureza. Depois, orien-            mulher e preciosa colaboradora: Suzanne Cas-
tou-se para a psicologia e a pedagogia. Desde a           sirer-Paret. De origem francesa e me de dois
juventude, interessou-se pelo hipnotismo, que             filhos, Peter e Renate, ela tinha recebido de
praticou com seu jovem irmo, e logo o mtodo             Freud a sua formao didtica.
da associao livre*. Militante sionista e socia-             De modo geral, Bernfeld insistia no fato de
lista, comeou a se interessar pela psicanlise*          que o homem sempre est em uma "posio
atravs da pedagogia e das experincias de Ma-            social" e que essa dependncia do social  de-
ria Montessori*. Em 1915, casou-se com Anne               terminante na construo do eu*. Da a idia
Salomon, estudante de medicina e militante                essencial de que a neurose e a delinqncia
marxista, com quem teve duas filhas: Rosema-              resultam ambas da maneira pela qual os in-
rie e Ruth.                                               divduos so educados na infncia.
    Em 1918, Bernfeld organizou em Viena uma                  Em 1934, depois da tomada do poder pelos
imensa reunio da juventude sionista, durante a           nazistas, Bernfeld se exilou com sua filha Ruth,
qual Martin Buber (1878-1965) pronunciou um               sua me, Suzanne, Peter e Renate. Instalados
discurso clebre. Um ano depois, criou uma                em Menton, no sul da Frana*, os Bernfeld
instituio, o Kinderheim Baumgarten, espe-               passaram por Paris em 1935, apenas o tempo de
cializado no acolhimento s crianas judias r-           ficar conhecendo Ren Spitz* e Ren Lafor-
fs de guerra. Essa instituio devia dar-lhes            gue*. Em seguida, depois de uma longa viagem
uma formao que lhes permitisse emigrar para             que os conduziu de Amsterdam a Londres, dei-
a Palestina. Desde a sua abertura, o instituto            xaram definitivamente a Europa e foram para
recebeu 240 pensionistas, entre os quais crian-           os Estados Unidos*. Em setembro de 1937,
as de menos de cinco anos, desnutridas, retar-           estabeleceram-se em So Francisco. Manfred
dadas ou traumatizadas. Tornando-se membro                Bernfeld, irmo de Siegfried, morreu no campo
da Wiener Psychoanalytische Vereinigung                   de concentrao de Theresienstadt e uma parte
(WPV) no mesmo ano, Bernfeld encontrou-se                 da famlia deste foi exterminada no campo de
com Sigmund Freud*, que o recomendou a Max                Auschwitz.
Eitingon* para a Policlnica de Berlim. Final-                Ao contrrio de muitos outros imigrantes
mente, em 1922, instalou-se como psicanalista             vienenses que adotaram facilmente os ideais
em Viena, tornou-se ntimo de Anna Freud* e               pragmticos do freudismo americano, Bernfeld
logo formou um grupo com os que se interes-               conservou durante toda a vida esse "esprito
                                                                                 Bernheim, Hippolyte           61

vienense" contestatrio e profundamente mar-              furt, Suhrkamp, 1992; "Der soziale Ort und seine Be-
cado pela teoria das pulses*. Foi por isso que,          deutung fr Neurose, Verwahrlosung und Pdagogik",
                                                          Imago, 15, 1929, 299-312; "An unknown autobiogra-
desde que chegou  Califrnia, ficou ao mesmo             phical fragment by Freud", American Imago, 4, 1, 1946
tempo fascinado pela beleza selvagem da costa              Siegfrield Bernfeld e Suzanne Cassirer-Bernfeld,
oeste e muito decepcionado pela reduo da                "Freud's early childhood", Bull. Menninger Clinic, 1944,
psicanlise a uma psicologia do eu,  sua "mas-           8, 107-15; "On psychoanalytic training", The Psychoa-
sificao": "Os `psicanalistas' que encontrei             nalytic Quarterly, 31, 1962, 453-82  Jacques Lacan, O
                                                          Seminrio, livro 7, A tica da psicanlise (1959-1960)
aqui, escreveu a Anna Freud em 1937, so                  (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995, 2 ed.
pessoas muito medocres [...]. A palavra psica-            Franz Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grot-
nlise  to conhecida aqui quanto nos confins            jahn (orgs.), A histria da psicanlise atravs de seus
do leste. O nome de Freud  menos corrente, e             pioneiros, (N. York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981
de preferncia  pronunciado `Frud' [...]. Se-             Gregory Zilboorg, "S. Bernfeld, Obituary", in Psychoa-
                                                          nalytic Quarterly, 1953, 22, 571-2  Hedwig Hoffer,
gundo a geografia dos californianos, Viena se             "Obituary, Siegfried Bernfeld, 1892-1953", IJP, 1955,
encontra exatamente na fronteira americano-               66-9  Moustapha Safouan, Jacques Lacan et la ques-
europia. Depois de um nmero considervel                tion de la formation des analystes, Paris, Seuil, 1983 
de discos de msica vienense que eles tocam               Karl Fallend e Johannes Reichmayr, Siegfried Bernfeld
em sua honra, voc nem tem mais prazer de se              oder die Grenzen der Psychoanalyse, Frankfurt, S-
                                                          troemfeld-Nexus, 1992  Nathan G. Hale, Freud and
sentir vienense, e depois de algumas perguntas            the Americans, 1917-1985: The Rise and Crisis of
diretas sobre a situao na ustria, voc no             Psychoanalysis in the United States, t.II, N. York, Ox-
tem mais honra nenhuma."                                  ford, Oxford University Press, 1995  Ludger M. Her-
    Por apego a seu passado vienense, Bernfeld            manns, "Document indit: lettre de Siegfried Bernfeld
                                                           Anna Freud sur la pratique de la psychanalyse  San
comeou ento a se interessar pela vida de
                                                          Francisco, le 23 novembre 1937", Revue Internationale
Freud e pela histria das origens do freudismo.           d'Histoire de la Psychanalyse, 1990, 3, 331-41  Ernst
Seus artigos sobre o assunto seriam, alis, am-           Federn, Tmoin de la psychanalyse (Londres, 1990),
plamente utilizados por Ernest Jones*, quando             Paris, PUF, 1994.
este tivesse sido aceito por Anna Freud, para
grande mgoa de todos os judeus vienenses                  HELMHOLTZ, HERMANN LUDWIG FERDINAND
                                                          VON; HERBART, JOHANN FRIEDRICH; HISTORIO-
exilados, como historiador oficial do fundador.
                                                          GRAFIA; JUDEIDADE; SCHUR, MAX.
Portanto, com essa deciso, era  escola inglesa,
e no aos americanos como Bernfeld, que se
confiava a tarefa de tratar da herana freudiana:
James Strachey* como tradutor das obras com-              Bernheim, Hippolyte (1840-1919)
pletas do mestre, Jones como bigrafo.                    mdico francs
    Alguns meses antes de morrer de cncer de                 Pioneiro da noo moderna de psicotera-
pulmo, Bernfeld fez no Instituto de So Fran-            pia*, Hippolyte Bernheim renunciou  sua si-
cisco uma conferncia sobre a histria da an-            tuao hospitalar em Estrasburgo, quando a
lise didtica*. Criticou com ferocidade os pa-            Alscia foi anexada  Alemanha* em 1871.
dres da formao psicanaltica no interior da            Nomeado ento para a Universidade de Nancy,
International Psychoanalytical Association*               tornou-se professor-titular de medicina interna
(IPA). Seu discurso provocou escndalo e s foi           em 1879. Trs anos depois, adotou o mtodo
publicado em 1962, acompanhado de uma apre-               hipntico de Auguste Libeault*, ao qual deu
sentao "oficial" de Rudolf Eckstein, que ten-           um contedo racional. Ao contrrio desse velho
tava limitar o seu alcance, enfatizando que               mdico, tratava apenas de pacientes capazes de
Bernfeld talvez no tivesse razo de preferir o           serem hipnotizados -- soldados, operrios,
processo do ensino ao da organizao institu-
                                                          camponeses -- com os quais, como observou
cional.
                                                          Henri F. Ellenberger*, obtinha resultados me-
                                                          lhores do que com doentes das classes supe-
 Siegfried Bernfeld, "Bemerkungen ber Subliemier-
ung", Imago, 8, 1922, 333-44; The Psychology of the
                                                          riores. Assim, pde demonstrar que a hipnose*
Infant (Viena, 1925), N. York, Brentano, 1929; Sisyphos   era um estado de sugestionabilidade provocado
oder die Grenzen der Erziehung (Viena, 1925), Frank-      pela sugesto*.
62     Betlheim, Stjepan

     Se o marqus Armand de Puysgur (1751-        vero de 1889, em companhia de Anna von
1825), nas vsperas da Revoluo de 1789,          Lieben* (Frau Ccilie), logo antes de ir a Paris
abrira caminho para a idia de que um mestre       para assistir a dois congressos internacionais,
(nobre, mdico, intelectual) pudesse ser limita-   um sobre psicologia e outro sobre hipnotismo.
do no exerccio do seu poder por um indivduo      Em Nancy, foi testemunha das experincias
capaz de falar, e conseqentemente de lhe resis-   impressionantes do mdico alsaciano, teve es-
tir, Bernheim mostrava, ao contrrio, que a hip-   timulantes discusses com ele e decidiu traduzir
nose era apenas, no fim do sculo XIX, uma         o seu livro. Mas constatou que a sugesto s
questo de sugesto verbal: uma clnica da pa-     funcionava em meio hospitalar e no com a
lavra substitua, pois, a clnica do olhar. Em     clientela particular: "Abandonei portanto a hip-
suma, contribua para dissolver os ltimos res-   nose, observou, e s conservei dela a posio
duos do magnetismo, invertendo a relao des-      deitada do paciente sobre um div, atrs do qual
crita por Puysgur e aniquilando a hipnose na      eu me sentava, de modo que eu o via, sem ser
sugesto.                                          visto por ele."
     Da a querela com Jean Martin Charcot*, que
                                                    Hippolyte Bernheim, Hypnotisme, suggestion, psy-
assimilava a hipnose a um estado patolgico e      chothrapie (1891), Paris, Fayard, col. "Corpus des
se servia dela no como meio teraputico, mas      oeuvres de philosophie en langue franaise", 1995 
para provocar crises convulsivas e dar um es-      Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'in-
tatuto de neurose*  histeria*. Bernheim acusou    conscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974),
                                                   Paris, Fayard, 1994  Lon Chertok e Raymond de
o mestre da Salptrire de fabricar artificial-    Saussure, Naissance du psychanalyste, Paris, Payot,
mente sintomas histricos e manipular os           1973  Jacques Nassif, Freud, l'inconscient, Paris,
doentes. Agrupou em torno de si, alm de Li-      Gallile, 1977  lisabeth Roudinesco, Histria da psi-
beault, dois outros estudiosos: Henri Beaunis      canlise na Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro,
                                                   Jorge Zahar, 1989  Jacqueline Carroy, "L'cole hypno-
(1830-1921) e Jules Ligeois (1833-1908). As-      logique de Nancy, I et II", in Le Pays Lorrain. Journal de
sim, formou-se a Escola de Nancy, que lutou        la Socit d'Archeologie Lorraine et du Muse His-
durante dez anos contra a Escola da Salptrire.   torique Lorrain, 2 e 3, 108-16, 159-66  Pierre Morel
Enquanto Beaunis tentaria separar a filosofia da   (org.), Dicionrio biogrfico psi (Paris, 1996), Rio de
                                                   Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
psicologia, criando com Alfred Binet em 1894
a revista L'Ane Psychologique, Ligeois, de        BENEDIKT, MORIZ; BREUER, JOSEF; CHERTOK,
formao jurdica, se interessaria pelos crimes    LON; ESPIRITISMO; ESTUDO AUTOBIOGRFICO,
e delitos cometidos em estado de hipnose, to-      UM; ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; MESMER, FRANZ
mando a defesa, em muitos casos judicirios, de    ANTON; MEYNERT, THEODOR; MOSER, FANNY;
criminosos vtimas de hipnotizadores.              PAPPENHEIM, BERTHA; PERSONALIDADE MLTI-
     A lgica dessa dissoluo da hipnose na       PLA; PSICOLOGIA DAS MASSAS E ANLISE DO EU.
sugesto conduziu, portanto, Bernheim a afir-
mar que os efeitos obtidos pelo hipnotismo
podiam tambm ser obtidos por uma sugesto         Betlheim, Stjepan (1898-1970)
em estado de viglia, que logo se chamaria de      psiquiatra e psicanalista iugoslavo
psicoterapia.                                         Nascido em Zagreb, Stjepan Betlheim era de
     Do mesmo modo, pode-se dizer, Sigmund         famlia judia. Fez sua anlise em Berlim com
Freud* inventou a psicanlise* abandonando a       Sandor Rado*, e supervises com Helene
hipnose pela catarse*, sem nem mesmo adotar        Deutsch* e Karen Horney*, antes de aderir 
a sugesto. Destruiu simultaneamente as teses      Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV)
de Bernheim e as de Charcot, ainda que se          em 1928, data em que comeou a praticar a
inspirando nessas duas experincias. De Char-      psicanlise* em Zagreb. Com Nikola Sugar*,
cot, tomou uma nova conceitualizao da his-       tentou criar uma associao psicanaltica na
teria e de Bernheim o princpio de uma terapia     Iugoslvia, no perodo entre as duas guerras.
pela palavra.                                      Depois de combater na Bsnia, ao lado dos
     Em sua autobiografia de 1925, Freud relatou   guerrilheiros, tornou-se membro da Internatio-
a visita que fez a Bernheim e a Libeault, no      nal Psychoanalytical Association* (IPA) em
                                                                              Bettelheim, Bruno       63

1952, a ttulo pessoal, e criou, em 1968, a            maneira que, no essencial, s podia chocar os
Associao dos Psicoterapeutas Iugoslavos.             partidrios e herdeiros da Ego Psychology*,
                                                       guardies de uma ortodoxia encarnada pela In-
 Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psy-
choanalyse. Die Mitglieder der psychologischen Mitt-
                                                       ternational Psychoanalytical Association*
woch-Gesellschaft und der Wiener Psychoanalytis-       (IPA). Recusando tanto o conforto do dogma-
chen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord,     tismo terico quanto o pragmatismo, afirmando
1992.                                                  que as crianas de quem estava encarregado
                                                       deviam ser tratadas com um respeito e uma
 COMUNISMO; FEDERAO EUROPIA DE PSICA-
                                                       exigncia que no admitiam nenhum relaxa-
NLISE; HISTRIA DA PSICANLISE; KLAJN, HUGO.
                                                       mento, Bruno Bettelheim concebera um univer-
                                                       so "teraputico total", que fez de seu trabalho
Bettelheim, Bruno (1903-1990)                          um combate permanente, cujo fim, a sada do
                                                       isolamento no qual essas crianas tinham en-
psicanalista americano
                                                       contrado refgio, devia justificar os meios.
    No se pode evocar a vida e a obra de Bruno
                                                           Nascido em Viena a 28 de agosto de 1903,
Bettelheim sem levar em conta o escndalo que
                                                       em uma famlia da pequena burguesia judaica
estourou nos Estados Unidos* algumas sema-
                                                       assimilada, de uma feira constatada sem deli-
nas depois de sua morte. Em conseqncia da
                                                       cadeza pela me, que nunca lhe dedicou grande
publicao, em alguns grandes jornais, de car-
                                                       afeio, Bruno Bettelheim manifestou cedo
tas de ex-alunos da Escola Ortognica de Chi-
cago, que ele dirigira durante cerca de trinta         suas tendncias  depresso. Dois acontecimen-
anos e que acolhia crianas classificadas como         tos trgicos influenciaram a sua jovem exis-
autistas, a imagem do bom "Dr. B.", como era           tncia: a doena sifiltica do pai, doena "vergo-
chamado, se apagava por trs da figura de um           nhosa" e mantida oculta, da qual ele acreditou
tirano brutal, que fazia reinar o terror em sua        ser portador durante muito tempo por transmis-
escola. Lembrou-se ento que ele no aceitava          so hereditria, e o advento da Primeira Guerra
nenhum visitante, a no ser, e em condies            Mundial, com seu cortejo de recesso e misria,
muito restritivas, as famlias das crianas que        resultando, em 1918, no desabamento do imp-
ali estavam. Logo os ataques se estenderam            rio dos Habsburgo e no fim daquilo que Stefan
sua vida e  sua obra. Os termos de impostor,          Zweig* chamou de "mundo de ontem". Primei-
de falsificador e de plagirio se somaram ao de        ras fraturas materiais e morais que orientaram
charlato. Esse tumulto teve pouca repercusso         sua reflexo sobre as possibilidades de adapta-
na Frana, onde ele gozara, em razo do sucesso        o do homem diante de condies que amea-
de seu livro A fortaleza vazia e do programa           am destru-lo. Destinando-se a estudos liter-
dedicado  Escola Ortognica, realizado por            rios e artsticos, Bruno Bettelheim freqentou
Daniel Karlin e Tony Lain para a televiso            uma organizao de juventude chamada Jung
francesa e difundido em outubro de 1974, de            Wandervogel (Jovens Pssaros Migradores),
um imenso prestgio que s foi prejudicado pelo        cenrio de seu primeiro encontro com as idias
declnio geral das idias filosficas e psicanal-     de Sigmund Freud*, atravs de um jovem ofi-
ticas dos anos 1970.                                   cial desmobilizado, Otto Fenichel*.
    Sem dar crdito  totalidade das acusaes             A morte do pai o obrigou a interromper os
que foram feitas contra ele, recusando princi-         estudos para dirigir a empresa familiar de venda
palmente a de plgio, sua bigrafa, Nina Sutton,       de madeira. Depois de alguns anos de vida
demonstrou a autenticidade de algumas delas,           conjugal difcil, voltou  universidade, fez uma
mostrando que a questo central residia na in-         anlise com Richard Sterba* e comeou uma
terpretao que se poderia fazer de seus entu-         relao com uma jovem professora primria,
siasmos verbais, da brutalidade de alguns de           que se tornaria depois a sua segunda esposa e
seus atos, de suas "pequenas mentiras", de suas        que era, como sua mulher, discpula de Maria
"fraudes", e alm disso, de suas contnuas ma-         Montessori*. Tornou-se doutor em esttica em
nipulaes da histria. Bruno Bettelheim teria         1938 -- mais tarde, ele se diria doutor em
sido fiel,  sua maneira, s idias freudianas,        filosofia -- algumas semanas antes da entrada
64     Bettelheim, Bruno

dos nazistas em Viena. Por razes confusas, que     nhos dos raros sobreviventes dos campos de
ele nunca esclareceria, ficou em Viena, enquan-     morte fariam aparecer a insondvel distncia
to sua mulher e a pequena americana autista de      que separava o universo concentracionrio da
quem ela tratava -- posteriormente, ele diria       empreitada de extermnio sistemtico, cujo
que era ele prprio quem o fazia -- partiram        smbolo ser, para sempre, Auschwitz. Bruno
para os Estados Unidos.                             Bettelheim levaria anos para admitir essa dife-
    Preso pela Gestapo, chegou a Dachau a 3 de      rena, recusando-se a ver nela o limite trgico
junho de 1938, depois de ter sido violentamente     de sua virulenta crtica daquilo que ele apresen-
espancado. Transferido depois para o campo de       tava como a passividade dos judeus diante de
concentrao de Buchenwald a 23 de setembro         seus torturadores.
de 1938, encontrou ali Ernst Federn, filho de           Em 1944, foi nomeado diretor da Escola
Paul Federn*, companheiro de Freud. Naquele         Ortognica, que dependia da Universidade de
universo de medo, angstia e humilhao per-        Chicago e cujo funcionamento no era mais
manentes, comeou a fazer um trabalho consigo       satisfatrio. Durante trinta anos, essa instituio
mesmo, para resistir  ao mortfera dos SS.       se tornaria a "sua" escola, centro draconiano da
Foi a experincia desses campos a origem do         concretizao de seus mtodos e concepes,
conceito de "situao extrema", pelo qual ele       forjados durante os episdios dolorosos que
designava as condies de vida diante das quais     vivera. Tratava-se de construir, a cada instante
o homem pode seja abdicar, identificando-se         da vida cotidiana desse internato, um universo
com a fora destruidora, constituda tanto pelo     protetor, capaz de ser o antdoto daquelas "si-
carrasco ou pelo ambiente quanto pela conjun-       tuaes extremas" que teriam precipitado essas
tura, seja resistir, praticando a estratgia da
                                                    crianas no autismo e na psicose*. De inspirao
sobrevivncia -- Sobreviver seria o ttulo de um
                                                    psicanaltica, esse empreendimento era, entre-
de seus livros -- que consiste em construir para
                                                    tanto, paradoxal, pois se chocava com os pr-
si, a exemplo do que Bettelheim supunha ser a
                                                    prios princpios psicanalticos de abertura para
origem do autismo*, um mundo interior cujas
                                                    o exterior e de autonomizao dos indivduos.
fortificaes o protegeriam das agresses exter-
                                                    O procedimento no consistia apenas em refutar
nas. Libertado a 14 de abril de 1939, graas a
                                                    as doutrinas organicistas sobre o autismo e a
intervenes que seriam para ele uma nova
                                                    psicose; ele tambm levantava a questo das
ocasio de fabular, emigrou para os Estados
Unidos, despojado de todos os seus bens.            modalidades de funcionamento da teoria psica-
    Novos dissabores quando, ao chegar, sua         naltica no tratamento do autismo e da psicose.
mulher lhe participou sua deciso de se divor-      E, nesse ponto, ele permanece totalmente atual.
ciar, e quando descobriu o pouco interesse que          Consagrando seus dias e uma parte de suas
os americanos tinham pelo horror dos campos         noites  Escola e  redao de relatrios que
de concentrao. Fiel a seu compromisso com         constituiriam a matria de suas obras principais,
Ernst Federn, pelo qual o primeiro libertado        Bruno Bettelheim se tornou um personagem
deveria denunciar as atrocidades nazistas, regis-   conhecido na mdia dos Estados Unidos e do
trou por escrito a minuciosa observao que         resto do mundo, inspirador de adeses apaixo-
fizera do comportamento dos prisioneiros, dos       nadas e alvo de violentas polmicas. Depois de
carrascos e das relaes que eles mantinham         alguns conflitos, aposentou-se e continuou a
entre si. Esse documento, que inicialmente ins-     escrever, dedicando-se tanto a uma explicao
pirou indiferena ou resistncia, foi publicado     analtica dos contos de fadas quanto a uma
em 1943; atraiu ento a ateno do general          leitura crtica da traduo* inglesa das obras de
Eisenhower, que ordenou que os seus oficiais o      Freud. Abalado pela morte de sua mulher e
lessem. Assim, Bruno Bettelheim tornou-se es-       pelos problemas de sade que limitavam sua
pecialista em campos de concentrao, quali-        autonomia, deprimido e colrico, obcecado pe-
dade que se revelaria sobrecarregada de muitos      lo medo da invalidez, Bruno Bettelheim ps fim
mal-entendidos, desta vez com o conjunto da          vida na noite de 12 para 13 de maro de 1990,
comunidade judaica. Com efeito, os testemu-         cinqenta e dois anos depois da entrada dos
                                                     Biblioteca do Congresso (Library of Congress)              65

nazistas em Viena, asfixiando-se com um saco                  A coleo Sigmund Freud, dividida em s-
de plstico amarrado com borracha.                        ries (A, B, E, F e Z), e cujos direitos de publi-
                                                          cao dependem da Sigmund Freud Copyrights
 Bruno Bettelheim, A fortaleza vazia (Glencoe, 1967),
S. Paulo, Martins Fontes, 1987; Freud e a alma huma-
                                                          (que representa os interesses financeiros das
na (N. York, 1982), S. Paulo, Cultrix, 1984; Parents et   pessoas legalmente habilitadas), est agora
enfants, Psychanalyse des contes de fes, L'amour ne      acessvel a todos os pesquisadores. Seu regula-
suffit pas, Pour tre des parents acceptables, Dialo-     mento prev algumas restries, ora justifi-
gues avec les mres, Paris, Robert Laffont, col. "Bou-
quins", introduo de Danile Lvy, 1995  Genevive
                                                          cadas e conformes s leis em vigor, ora contes-
Jurgensen, La Folie des autres, Paris, Robert Laffont,    tveis. Quanto  srie Z, sujeita a uma sus-
1973  Nina Sutton, Bruno Bettelheim, une vie, Paris,     penso progressiva da imposio de sigilo que
Stock, 1995.                                              se estende at 2100, ela encerra, supostamente,
 STRACHEY, JAMES.
                                                          documentos concernentes  vida privada de
                                                          pessoas (pacientes, psicanalistas etc.), as quais
                                                           preciso proteger.
Biblioteca do Congresso (Library of                           Na realidade, essa srie Z contm alguns
Congress)                                                 textos que nada tm de confidencial, outros que
    Situada em Washington, nos Estados Uni-               no comportam nenhuma revelao bombs-
dos*, a Biblioteca do Congresso  uma das                 tica, ainda que digam respeito a segredos de
maiores bibliotecas do mundo. Foi ali, no de-             famlia ou do div, e outros, por fim, cuja
partamento de manuscritos, que foram deposi-              presena nessa classe nada tem de evidente: por
tados os arquivos de Sigmund Freud* (cartas,              exemplo, contratos de Freud com seus edifores,
manuscritos, etc.) e os de inmeros outros                cartas trocadas com uma organizao esportiva
psicanalistas de diferentes pases. Essa iniciati-        judaica, ou documentos sobre Josef Freud* que
va foi tomada por Siegfried Bernfeld*. Depois             j so conhecidos dos historiadores. Patrick
dele, Kurt Eissler, psicanalista tambm de ori-           Mahony e o historiador Yosef Hayim Yerushal-
gem vienense e autor de vrios livros sobre               mi denunciaram o regulamento que rege a or-
Freud, foi, depois da Segunda Guerra Mundial,             ganizao dessa srie numa conferncia not-
o principal responsvel por esse grande depsi-           vel, realizada em 1994. Este ltimo sublinhou
to de saber e memria, que assumiu o nome de              que esconder segredos de polichinelo conduz,
Sigmund Freud Archives (SFA) ou Arquivos                  antes, a alimentar boatos inteis, e que a nica
Freud. Ele colecionou documentos apaixo-                  maneira de evit-los seria abrir os chamados
nantes, tanto interrogando todos os sobrevi-              arquivos secretos. Yerushalmi lembrou a frase
ventes da saga freudiana quanto preservando a             de Lord Acton: "Fechar os arquivos aos his-
gravao de suas entrevistas em fitas magnti-            toriadores equivale a deixar a prpria histria
cas. De comum acordo com Anna Freud*, Eis-                entregue aos inimigos." E concluiu: "Vivemos
sler editou normas de conservao draconianas,            numa poca em que a informao, em todos os
as quais, respeitando a vontade dos doadores,             campos, enterra-nos sob uma avalanche  qual
proibiram  maioria dos pesquisadores externos            a pesquisa sobre Freud no escapa. Esta se
 International Psychoanalytical Association*             transformou numa indstria em si mesma. O
(IPA) o acesso a esse reservatrio. Foi sob a             controle de ordem estritamente bibliogrfico
direo dele, sumamente ortodoxa, que, a partir           sobre seus produtos tornou-se hoje, por assim
de 1979, numa reao ao esprito de censura,              dizer, impossvel."
produziu-se uma virada revisionista na his-
toriografia* freudiana, em especial a propsito            Janet Malcolm, Tempte aus Archives Freud (N. York,
da edio das cartas de Freud a Wilhelm Flies-            1984), Paris, PUF, 1986  Jeffrey Moussaeff Masson,
s*, confiada pelo prprio Eissler a um pesqui-            Le Rel escamot, Paris, Aubier-Montaigne, 1984 
sador pouco escrupuloso: Jeffrey Moussaieff               lisabeth Roudinesco, Genealogias (Paris, 1994), Rio
                                                          de Janeiro, Relume Dumar, 1996  Yosef Hayim
Masson. A censura e a desconfiana, assim,                Yerushalmi, "Srie Z" (1994), "Une fantaisie archiviste",
levaram ao favorecimento de uma iniciativa                Le Dbat, 92, novembro-dezembro de 1996, 141-52 
historiogrfica violentamente antifreudiana.              Jacques Derrida, Mal d'archive, Paris, Galile, 1995.
66      Bibring, Edward

Bibring, Edward (1894-1959)                               do Quebec. Dos onze irmos, foi o nico que
mdico e psicanalista americano                           estudou. Orientou-se primeiro para a medicina,
   Nascido em Stanislau, na Galcia, Edward               depois para a psiquiatria, e trabalhou em quatro
Bibring, originrio de uma famlia judia, teve            hospitais psiquitricos entre 1963 e 1983: Hos-
uma vida marcada por sucessivas migraes.                pital Sainte Justine, Instituto Albert Prvost,
Depois da Revoluo de Outubro, foi para Vie-             Douglas Hospital e Royal Victoria. Depois de
na, onde refez seus estudos de medicina, ao               uma primeira psicoterapia* com Victorien
mesmo tempo em que era analisado por Paul                 Voyer, partiu para Paris em 1960 com sua pri-
Federn*. Em 1938, emigrou para Londres, na                meira mulher, Mireille Lafortune. Ficou em
mesma poca que a famlia de Freud. Trs anos             Paris durante trs anos, tempo necessrio para
depois, em fevereiro de 1941, partiu para os              efetuar sua formao didtica com Andr Lu-
Estados Unidos* e integrou-se  Boston Psy-               quet, no quadro da Sociedade Psicanaltica de
choanalytic Society (BoPS), da qual foi presi-            Paris (SPP) e para fazer uma slida amizade
dente durante dois anos. Bibring foi, antes de            com Conrad Stein, que seria seu supervisor.
tudo, um clnico ortodoxo da International Psy-               Tornando-se membro da SPP, voltou a Mon-
choanalytical Association* (IPA), prximo das             treal, onde tentou fazer evoluir a Sociedade
teses de Anna Freud*. Em 1943, no mbito do               Psicanaltica Canadense, instaurando relaes e
desenvolvimento da teoria ps-freudiana do                intercmbios com os dissidentes parisienses da
eu*, elaborou a noo de mecanismos de desli-             SPP, que tambm contestavam a esclerose de
gamento (working-off mechanisms), para desig-
                                                          sua instituio e estabeleciam laos com clni-
nar um processo de resoluo dos conflitos do
                                                          cos da nova cole Freudienne de Paris* (EFP),
eu, distinto das defesas* e da ab-reao*. Mor-
                                                          fundada por Jacques Lacan*. Depois de uma
reu de doena de Parkinson. Sua mulher, Grete
                                                          segunda superviso com Jean Baptiste Boulan-
Bibring-Lehner (1899-1977), analisada por
Hermann Nunberg*, tambm foi mdica e                     ger, Bigras foi integrado, no sem dificuldade,
psicanalista.                                              SPC, na qual sempre seria olhado como um
                                                          bad boy, marginal e excntrico. Era chamado
 Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabul-      de ndio, por causa do seu interesse pela etnop-
rio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins       sicanlise* e pelos amerndios habitantes das
Fontes, 1991, 2 ed.  Elke Mhlleitner, Biographisches
Lexikon der Psychoanalyse. Die Mitglieder der psycho-     reservas indgenas do Canad*.
logischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener Psy-           Foi nesse contexto que criou em 1967 a
choanalytischen Vereinigung von 1902-1938, Tbin-         revista Interprtation, que teria durante qua-
gen, Diskord, 1992.
                                                          torze anos um papel importante em Montreal e
                                                          em Paris, acolhendo textos de todos os hori-
Bigras, Julien (1932-1989)                                zontes do saber: psicanlise, literatura, cincias
psiquiatra e psicanalista canadense
                                                          humanas, antropologia. Entre os numerosos co-
                                                          laboradores dessa revista franco-canadense,
   Ao contrrio de Franois Peraldi*, que se
                                                          distinguem-se os nomes de Piera Aulagnier*,
exilou no Quebec conservando a nacionalidade
francesa, Julien Bigras tentou radicar-se na              Conrad Stein, Ren Major, Franois Peraldi, o
Frana*, como seu compatriota Ren Major.                 poeta Jacques Brault, e tambm americanos
No conseguiu e voltou a Montreal, onde exer-             como Heinz Kohut*, Kurt Eissler, Frieda
ceu influncia estimulante sobre a Sociedade              Fromm-Reichman* etc.
Psicanaltica Canadense (SPC), fechada em si                  Esse autor prolfico e no-conformista, ro-
mesma e em permanentes lutas institucionais               mancista nas horas vagas, apaixonado pelo es-
entre anglfonos e francfonos, entre partid-            tudo do incesto* e da loucura*, morreu prema-
rios das vrias correntes da International Psy-           turamente de uma doena cardiovascular, de-
choanalytical Association* (IPA): kleinismo*,             pois de terminar a experincia do grupo e da
Ego Psychology*, Self Psychology*.                        revista Interprtation e de ver o nascimento de
   Nascido em Saint-Martin, Bigras vinha de               outra revista, Frayages, criada por Franois
uma famlia de fazendeiros pobres da provncia            Peraldi, seu rival lacaniano.
                                                                                Binswanger, Ludwig         67

 Julien Bigras, Les Images de la mre, Paris, Ha-         nica de Bellevue, como decidira, se no tivesse
chette, 1971; L'Enfant dans le grenier (Montreal, 1976),
                                                           se detido definitivamente em Palermo, por onde
Paris, Aubier-Montaigne, 1987; Le Psychanalyste nu,
Paris, Laffont, 1979; "Histoire de la revue et du groupe   resolvera fazer um desvio antes de ir para a
Interprtation au sein du mouvement psychiatrique et       Sua.
psychanalytique qubcois", Sant Mentale au Qu-              O tio de Ludwig Binswanger, Otto Binswan-
bec, 7, junho de 1982, 3-16  lisabeth Bigras, "D'une
                                                           ger (1852-1929), que tratou de Friedrich Nietz-
revue  l'autre ou l'impossible dette", ibid. 16-20 
Entrevista com Mireille Lafortune de 21 de maio de         sche (1844-1900) e conheceu Freud em 1894,
1996, e com lisabeth Bigras a 22 de maio de 1996.         por ocasio de um congresso em Viena*, publi-
                                                           cou trabalhos sobre a histeria* e a paralisia
 CANAD; CLARKE, CHARLES KIRK; GLASSCO,                    geral. Nomeado professor em Iena, acolheu o
GERALD STINSON; MEYERS, DONALD CAMPBELL;                   sobrinho entre 1907 e 1908 no seu servio da
PRADOS, MIGUEL; SLIGHT, DAVID.                             clnica psiquitrica dessa cidade, onde o jovem
                                                           Ludwig ficaria conhecendo sua futura mulher,
                                                           Hertha Buchenberger.
Binswanger, Ludwig (1881-1966)                                 Ludwig Binswanger foi educado segundo as
psiquiatra suo                                           normas de seu tempo e de seu meio social, isto
    Nascido em Kreuzlingen, na margem sua                , antes de tudo no respeito  lei ditada pelo pai,
do lago de Constana, Ludwig Binswanger era                Robert Binswanger (1850-1910), que sucedera
descendente de uma dinastia de psiquiatras. Seu            a seu prprio pai, Ludwig Senior, na direo da
av, Ludwig Senior (1820-1880), era originrio             clnica. Muito cedo, o jovem Ludwig decidiu
de uma famlia judia de Osterberg, na Baviera.             tornar-se psiquiatra, a fim de suceder, por sua
Deixou a Alemanha* em 1850, para dirigir o                 vez, ao pai.
Hospital Psiquitrico do Estado de Munster-                    Estudou medicina e tambm filosofia, entre
lingen, na Sua*. Pouco tempo depois de sua               1900 e 1906 em Lausanne, Zurique, Heidelberg
posse nessas funes, Ludwig Senior comprou                e novamente Zurique. Nessa poca, ficou co-
o terreno de uma grfica desativada, em Kreuz-             nhecendo Eugen Bleuler*, a quem, como mui-
lingen, para fundar, segundo concepes que                tos jovens psiquiatras de sua gerao, devotava
seu filho, Robert, e seu neto, Ludwig, reco-               uma imensa admirao. No tardou a trabalhar
nheceriam como revolucionrias, a Clnica Psi-             como assistente voluntrio no Hospital Burg-
quitrica de Bellevue.                                     hlzli, a clnica de Zurique onde conheceu Karl
    Com efeito, esta logo se caracterizou pela             Abraham*, Max Eitingon* e Carl Gustav Jung*.
proscrio de quaisquer meios coercitivos, to             Sob a direo deste ltimo, redigiu uma tese
freqentes na poca. Alm disso, seu fundador              sobre as associaes verbais*. Nessa poca,
inaugurou tcnicas novas, principalmente pon-              toda a equipe do Burghlzli estava apaixonada
do a servio dos doentes o ambiente familiar do            pela descoberta freudiana e Zurique estava a
mdico, prtica que permitia falar, segundo os             ponto de tornar-se, depois de Viena, o segundo
termos de Ludwig Binswanger ao evocar o av,               centro mundial da psicanlise*.
de "terapia familiar* no sentido estrito da pala-              Em janeiro de 1907, Jung fez sua primeira
vra." Bem antes de conhecer Ludwig Binswan-                visita a Freud, acompanhado de sua mulher
ger, Sigmund Freud* conhecia de reputao a                Emma e do jovem Ludwig Binswanger. Este
Clnica de Bellevue, para a qual j mandara                no escondia seu desejo de se iniciar na psica-
pacientes, e que Joseph Roth (1894-1939) evo-              nlise. O relato, por Binswanger, desse primeiro
cava assim em A marcha de Radetzky: "essa                  encontro traduz a simpatia espontnea e rec-
casa de sade do lago de Constana, onde tra-              proca que se instaurou entre ambos. De um
tamentos cuidadosos, mas caros, esperavam os               lado, o mestre, figura de pai afvel e tolerante,
alienados dos meios ricos, que tinham o hbito             bem diferente da figura autoritria do pai de
de ser mimados e que os enfermeiros tratavam               Ludwig; do outro lado, o jovem mdico, vinte
com uma delicadeza de parteira". Bem mais                  e seis anos mais novo, j to talentoso. Depois
tarde, em 1933, o escritor francs Raymond                 dessa visita, levado por seu entusiasmo por
Roussel (1877-1933) teria permanecido na Cl-              Freud e suas idias, Ludwig Binswanger, que
68     Binswanger, Ludwig

ento tinha apenas um conhecimento livresco         homem -- apesar da indiferena, to elogiada
da psicanlise, analisou sua primeira paciente,     por voc, que a idade traz."
por ocasio de sua permanncia no servio do            Desde 1911, Binswanger projetava escrever
tio, em Iena.                                       uma obra tratando da influncia de Freud sobre
    Em dezembro de 1910, depois da morte do         a psiquiatria clnica. Entretanto, percebia que
pai, Ludwig Binswanger assumiu a direo da         esse empreendimento supunha conhecimentos
clnica. Durante alguns anos, considerou a psi-     que ele no tinha. Decidiu ento proceder em
canlise como o recurso absoluto para todas as      duas etapas. O primeiro volume seria dedicado
categorias de pacientes. S mais tarde seria        ao exame dos fundamentos da psicologia geral,
mais moderado: "... dez anos de labor e decep-      o segundo trataria do centro da questo. Mas
o foram o preo a pagar para chegar a reco-       este nunca seria publicado, embora os captulos
nhecer que a anlise convm a apenas uma parte      j se acumulassem e fossem objeto de uma
determinada dos nossos pacientes."                  correspondncia intensa com Freud. Nesse
    Sua atrao crescente pela filosofia, sua cu-   meio tempo, Binswanger se voltara para a filo-
riosidade e o contato assduo com intelectuais e    sofia, primeiro a de Henri Bergson (1859-
artistas de seu tempo, entre os quais Martin        1941), mas principalmente a fenomenologia de
Buber (1878-1965), Ernst Cassirer (1874-            Edmund Husserl, que explorou sistematica-
1945), Martin Heidegger (1889-1976), Ed-            mente, antes de se encontrar com o filsofo em
mund Husserl (1859-1938), Karl Jaspers (1883-       agosto de 1923. Esse encontro assinalou o fim
                                                    do grande projeto epistemolgico e o nascimen-
1969), Edwin Fischer, Wilhelm Furtwngler,
                                                    to de uma nova perspectiva, sob a forma de uma
Kurt Goldstein (1878-1965), Eugne Minkow-
                                                    hermenutica, na qual ele se esforava em ins-
ski*, o levaram a desenvolver uma concepo
                                                    crever a interpretao freudiana. Cerca de 40
diferente da via freudiana. Mas esse afasta-
                                                    anos depois, Henri F. Ellenberger*, em um arti-
mento no o faria renunciar  teoria. Seu res-
                                                    go consagrado  obra de Paul Ricoeur sobre a
peito, sua admirao e amizade por Freud fica-
                                                    hermenutica freudiana, confrontaria os dois
riam intactos ao longo dos anos, como mostram
                                                    procedimentos, o de Binswanger e o de Ricoeur,
a sua interveno do dia 7 de maio de 1936, por     atribuindo a Binswanger o privilgio de ter sido
ocasio do octogsimo aniversrio de Freud, e       o primeiro, e o nico no seu tempo, a reconhecer
tambm o seu texto de 1956, destinado  come-       a existncia de uma hermenutica freudiana
morao do centenrio de nascimento do inven-       baseada na experincia, diferente das herme-
tor da psicanlise, intitulado "Meu caminho         nuticas filolgica, teolgica ou histrica.
para Freud". Mas, antes de tudo,  a correspon-         Em um primeiro tempo, sob o efeito dessa
dncia entre ambos que comprova o carter           influncia husserliana, Binswanger desenvol-
excepcional de sua relao. Embora ocasional-       veu o seu mtodo teraputico, a anlise exis-
mente Freud, envolvido nas primeiras turbuln-      tencial* (Daseinanalyse), que ilustrou sobretu-
cias da deteriorao de sua relao com Jung,       do com a publicao do caso "Suzan Urban". A
tenha feito uma apreciao reservada de Bins-       partir de 1927, data da publicao do livro de
wanger, principalmente em uma carta de 30 de        Martin Heidegger Ser e tempo, deu uma nova
maio de 1912, relatando a Sandor Ferenczi* a        inflexo  sua trajetria, abandonando a pers-
famosa visita a Kreuzlingen, que foi considera-     pectiva estritamente fenomenolgica, para
da por Jung como uma ofensa deliberada, a nota      abrir-se  ontologia. Nesse contexto, publicou
dominante seria sempre impregnada de ami-           em 1930 Sonho e existncia, em que misturava
zade, de confiana e de respeito pelo psiquiatra    a concepo freudiana da existncia humana
suo. A 11 de janeiro de 1929, Freud lhe escre-    com as de Husserl e de Heidegger. Michel Fou-
veu: "Ao contrrio de tantos outros, voc no       cault (1926-1984) redigiria, para essa obra, que
permitiu que sua evoluo intelectual, que cada     ele traduziria com Jacqueline Verdeaux, um
vez mais o afastou de minha influncia, des-        longo prefcio. Em 1983, na verso inglesa
trusse tambm nossas relaes pessoais, e voc     (indita em francs) da apresentao do seu
no sabe como essa delicadeza faz bem ao            livro O uso dos prazeres, Foucault evocaria a
                                                                               Bion, Wilfred Ruprecht      69

sua dvida em relao a Binswanger e as razes                e, tambm como ele, apaixonou-se pela lingua-
pelas quais se afastou dele.                                  gem, pela filosofia e pela lgica, mas com uma
    Como observou Gerhard Fichtner em sua                     perspectiva nitidamente cognitivista.
introduo  correspondncia entre ambos,                         Grande viajante, fez escola no s na Gr-
Freud certamente no teria admitido as crticas               Bretanha* mas tambm no Brasil*, principal-
e interrogaes que permeiam as homenagens                    mente em So Paulo, onde marcou profun-
que Binswanger lhe rendeu. Mas, sem dvida,                   damente seus alunos. Na juventude, teve o pri-
teria apreciado as linhas que o amigo suo                   vilgio de ser terapeuta do escritor Samuel
escreveu em seu dirio, depois da visita  casa               Beckett (1906-1989), com quem se identificou
de Freud em Londres, em 1946: "Freud conti-                   fortemente. Na Frana*, teve alguns adeptos,
nua sendo a minha experincia humana mais                     entre os quais Didier Anzieu e Andr Green.
importante, isto , a experincia de meu encon-                   Nascido em Muttra, no Pendjab, de me in-
tro com o maior dos homens."                                  diana e pai ingls, engenheiro especialista em
                                                              irrigao, foi educado por uma ama-de-leite e
 Ludwig Binswanger, Rve et existence (1930), Paris,
Descle de Brouwer, 1954; Le Cas Suzanne Urban.               passou a infncia na ndia*, no fim da era vito-
tude sur la schizophrnie (1952), Paris, Descle de          riana e no apogeu do perodo colonial. No sem
Brouwer, 1957; Discours, parcours et Freud, Paris,            humor, diria que todos os membros de sua
Gallimard, 1970; Introduction  l'analyse existentielle,      famlia eram "completamente malucos". Em
Paris, Minuit, 1971; Mlancolie et manie (1960), Paris,
PUF, 1987  Henri F. Ellenberger, Mdecines de l'me,         sua autobiografia, apresentou sua me como
Paris, Fayard, 1995  Didier Eribon, Michel Foucault          uma mulher fria e aterrorizante, que lhe lem-
(Paris, 1989), S. Paulo, Companhia das Letras, 1990          brava as correntes de ar geladas das capelas
Jean-Baptiste Fags, Histoire de la psychanalyse              inglesas.
aprs Freud (Toulouse, 1976), Paris, Odile Jacob, 1996
 Michel Foucault, Dits et crits, vol.1, Paris, Gallimard,       Como todos os filhos da alta administrao
1994  Sigmund Freud e Ludwig Binswanger, Corres-             colonial, foi enviado com a idade de 8 anos 
pondance, 1908-1938 (Frankfurt, 1992), Paris, Cal-            Inglaterra, para ser interno em um colgio.
mann-Lvy, 1995  Sigmund Freud e Sandor Ferenczi,            Abandonado pelos seus e isolado em um clima
Correspondncia (1908-1914), vol.I, 2 tomos (Paris,
1992), Rio de Janeiro, Imago, 1994, 1995  Pierre Morel       hostil, prosseguiu seus estudos sonhando com
(org.), Dicionrio biogrfico psi (Paris, 1996), Rio de       as paisagens suntuosas do Pendjab e desenvol-
Janeiro, Jorge Zahar, 1997  lisabeth Roudinesco,            vendo uma forte repugnncia pelas coisas da
Jacques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um             sexualidade*. S gostava das atividades espor-
sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,
Companhia das Letras, 1994  Joseph Roth, La Marche           tivas e permaneceu virgem at seu casamento,
de Radetzky (1932), Paris, Seuil, 1982.                       aos 40 anos. Em janeiro de 1916, foi incorpo-
                                                              rado a um batalho de blindados e logo estava
                                                              no campo de batalha de Cambrai, no meio dos
Bion, Wilfred Ruprecht (1897-1979)                            obuses e do fogo da guerra. Saiu em 1918 com
mdico e psicanalista ingls                                  a patente de capito, uma slida experincia da
    Clnico erudito e brilhante, reformador da                fraternidade humana e dos artifcios da hierar-
psiquiatria militar, grande clnico das psicoses*             quia militar, de que se serviria anos depois.
e do borderline*, Wilfred Ruprecht Bion foi o                     Na prestigiosa Universidade de Oxford, for-
aluno mais turbulento de Melanie Klein*, cujo                 mou-se em filosofia e em literatura, sem com
dogmatismo rejeitou para construir uma teoria                 isso abandonar o rugby, mas foi em Poitiers que
sofisticada do self e da personalidade, fundada               terminou seus estudos humansticos, a fim de
em um modelo matemtico e repleta de noes                   dominar a lngua francesa. Tornou-se depois
originais -- pequenos grupos, funo alfa, con-               professor em Bishop's Stortford, seu antigo
tinente/contedo, objetos bizarros, pressupos-                colgio, onde lhe aconteceu uma estranha aven-
tos de base, grade etc. -- que, em certos as-                 tura. Tendo simpatizado com a me de um
pectos, se assemelhavam s de Jacques Lacan*,                 aluno, foi acusado por esta de ter desejado
seu contemporneo. Como este, tentou dar um                   abusar do adolescente e teve que deixar o ensi-
contedo formal  transmisso do saber psica-                 no. Comeou ento a fazer estudos mdicos,
naltico, apoiando-se em frmulas e na lgebra,               que concluiu com sucesso.
70     Bion, Wilfred Ruprecht

    Depois de um fracasso amoroso, decidiu              Mobilizado por ocasio da entrada da In-
fazer uma psicoterapia*, o que o conduziu          glaterra na Segunda Guerra Mundial, participou
psiquiatria e depois  psicanlise*. Em 1932,       com Rickman e outros mdicos da reforma da
contratado como mdico assistente na Tavis-         psiquiatria inglesa, que seria saudada por Lacan
tock Clinic de Londres, dirigiu tratamentos de      em 1946, e que daria origem  famosa teoria dos
adolescentes delinqentes ou atingidos por dis-     pequenos grupos, inspirada pela experincia de
trbios da personalidade, e ocupou-se durante       Maxwell Jones (1907-1990) com as comuni-
cerca de dois anos do tratamento de Samuel          dades teraputicas.
Beckett.                                                No hospital militar de Northfield, perto de
    Essa relao teraputica teve um efeito con-    Birmingham, onde eram recebidos os pacientes
sidervel no destino de ambos, que, nessa po-      atingidos por neurose de guerra*, Bion e Ri-
ca, ainda eram iniciantes em suas carreiras.        ckman experimentaram o princpio do "grupo
Tinham em comum uma relao difcil com as          sem lder", que consistia em organizar em pe-
mes. Amigo e admirador de James Joyce              quenas clulas homens julgados inadaptados ou
(1882-1941) desde 1928, Beckett se indispu-         inteis. Cada grupo definia o objeto de seu
sera com ele dois anos depois, aps ter repelido    trabalho sob a orientao de um terapeuta, que
as pretenses amorosas de sua filha, Lucia          apoiava todos os homens do grupo, sem ocupar
Joyce, doente de esquizofrenia* e tratada por       o lugar de um chefe nem o de um pai autoritrio.
Carl Gustav Jung*. Atormentado por uma me          A experincia produziu resultados, mas foi bru-
conformista e abusiva, que desconhecia seu          talmente encerrada porque questionava o pr-
talento e desaprovava sua conduta, sofria em        prio princpio da hierarquia militar.
1932 de graves distrbios respiratrios, de do-         Em 1945, prximo dos cinqenta anos, Bion
res de cabea e de diversos problemas crnicos      fez uma terceira anlise com Melanie Klein, que
ligados ao alcoolismo e a uma tendncia para a      marcaria definitivamente sua orientao. O tra-
vadiagem. Assim, decidira fazer uma psicotera-      tamento durou oito anos e, desde o comeo,
pia, a conselho de seu amigo, o doutor Geoffrey     Bion anunciou  sua analista sua recusa a qual-
Thomson. O tratamento com Bion foi conflituo-       quer idolatria e seu desejo de trabalhar com toda
so e difcil. A cada vez que Beckett voltava para   a independncia. Assim, foi um discpulo fiel,
a casa de sua me em Dublin, sofria de terrores     mas nunca submisso. A partir de 1960, comeou
noturnos, torpor e furnculos no pescoo e no       a publicar uma srie de obras que impressiona-
nus. Por isso, Bion acabou recomendando-lhe        ram a comunidade psicanaltica por sua com-
que se afastasse dela. Beckett no conseguiu e      plexidade, e cujo objetivo era nada menos do
interrompeu a anlise, depois de ter assistido, a   que revisar filosoficamente a obra freudiana (e
conselho de Bion, a uma conferncia de Jung         sua leitura kleiniana), concebendo um incons-
na Tavistock Clinic, na qual este afirmava que      ciente* fundado na linguagem. Baseando-se na
os personagens de uma fico so sempre a           filosofia kantiana, Bion dividiu o aparelho ps-
imagem mental do escritor que os criou. Disso       quico em duas funes mentais: a funo alfa,
nasceria Murphy, primeiro romance de Beckett.       correspondente ao fenmeno, e a funo beta
    Em 1937, Bion se integrou efetivamente         correspondente ao nmeno (a coisa em si, a
histria do freudismo* ingls, ao encontrar John    idia). Para Bion, a funo alfa preservava o
Rickman*. Membro da British Psychoanalyti-          sujeito do estado psictico, enquanto a funo
cal Society (BPS) e analisado por Melanie           beta o desprotegia.
Klein, este tornou-se seu analista, iniciou-o nas       A experincia com os pequenos grupos per-
teses kleinianas e lhe permitiu certamente, atra-   mitiu a Bion abordar o campo das psicoses, com
vs desse segundo tratamento, compreender           a ajuda de diferentes conceitos kleinianos, aos
melhor os seus problemas sexuais. No incio da      quais acrescentou os de objetos bizarros (part-
guerra, Bion casou-se com a atriz Betty Jardine,    culas destacadas do eu*, com vida autnoma)
que morreria de uma embolia pulmonar algum          ou de ideograma (inscrio pr-verbal de um
tempo depois, quando nasceu sua filha. Pos-         pensamento primitivo). Alis, tomando de Paul
teriormente, Bion voltaria a se casar.              Schilder* a noo de imagem do corpo*, desen-
                                                                                        bissexualidade        71

volveu a idia segundo a qual os grupos e os                Deirdre Bair, Samuel Beckett (N. York, 1978), Paris,
                                                            Fayard, 1979.
indivduos seriam compostos de um continente
e de um contedo. Se, para um dado indivduo,                ANTIPSIQUIATRIA; BASAGLIA, FRANCO; BUR-
o grupo funciona como um continente, cada                   ROW, TRIGANT; ESQUIZOFRENIA; KLEINISMO; KO-
indivduo tem tambm em si mesmo um con-                    HUT, HEINZ; MATEMA; N BORROMEANO; PSICOTE-
tedo, ou pressuposto de base, que determina                RAPIA INSTITUCIONAL; TRANSFERNCIA.
suas emoes. Quanto  personalidade psicti-
ca, esta  um componente normal do eu. Ora ela
destri o eu, impedindo toda forma de acesso               bissexualidade
simbolizao, ora, ao contrrio, coexiste com               al. Bisexualitt; esp. bisexualidad; fr. bisexualit;
outros aspectos do eu, sem se tornar um agente              ing. bisexuality
de destruio. Bion construiu tambm um mo-                 Termo proveniente do darwinismo e da embriolo-
delo de tratamento, ao qual deu o nome de gra-              gia, e adotado pela sexologia* no fim do sculo XIX
de. Composta de um eixo vertical de oito letras             (simultaneamente a homossexualidade* e heteros-
(de A a H), conotando o grau de complexidade                sexualidade), para designar a existncia, na sexua-
do enunciado, e um eixo horizontal de seis alga-            lidade* humana e animal, de uma predisposio
rismos (de 1 a 6), representando a relao trans-           biolgica dotada de dois componentes: um macho
ferencial, a grade deveria permitir ao mesmo                ou masculino e um fmea ou feminino. Por exten-
tempo auxiliar o clnico em sua escuta e dar uma            so, fala-se de bissexualidade para designar uma
                                                            forma de amor carnal entre pessoas que ora per-
base dita "cientfica"  prtica da psicanlise.
                                                            tencem ao mesmo sexo, ora ao sexo oposto.
    Recusando-se, depois da morte de Melanie,
                                                                Retomado por Sigmund Freud* e por todos os
a transgredir sua doutrina do "grupo sem lder"
                                                            seus sucessores como um conceito central da
e a se tornar chefe da escola kleiniana, Bion               doutrina psicanaltica da sexualidade, ao lado dos
preferiu instalar-se na Califrnia. A partir de             de libido* e pulso*, foi progressivamente utilizado
1968, viveu em Los Angeles e fez muitas via-                para designar uma disposio psquica incons-
gens ao Brasil e  Argentina*, onde o impacto               ciente que  prpria de toda a subjetividade huma-
de seu ensino, de sua doutrina e de sua tcnica             na, na medida em que esta se fundamenta na exis-
psicanalticas teve grande importncia na difu-             tncia da diferena sexual*, isto , baseia-se na
so do que no se tardou a considerar como um               necessidade de o sujeito* fazer uma escolha se-
neokleinismo (ou ps-kleinismo). A obra de                  xual, quer atravs do recalque* de um dos dois
Bion foi ento traduzida em muitas lnguas.                 componentes da sexualidade, quer atravs da
                                                            aceitao desses dois componentes, quer, ainda,
    No fim da vida, depois de se tornar clebre,
                                                            atravs de uma renegao* da realidade da diferen-
voltou  Inglaterra, onde morreu de leucemia.
                                                            a sexual.

 Wilfred Ruprecht Bion, Experincias com grupos                Assim como todos os trabalhos modernos
(Londres, 1961), Rio de Janeiro, Imago, 1991; O apren-      sobre o transexualismo* tomaram por mitos
der com a experincia (Londres, 1962), Rio de Janeiro,
                                                            fundadores a lenda de Hermafroditos e os
Imago, 1991; Elementos em psicanlise (Londres,
1963), Rio de Janeiro, Imago, 1991; Transformaes          amores da deusa Cibele, as reflexes sobre a
(Londres, 1965), Rio de Janeiro, Imago, 1991; Ateno       bissexualidade sempre tiveram por origem o
e interpretao (Londres, 1970), Rio de Janeiro Imago,      clebre relato dos infortnios de Andrgino,
1991; Conversando com Bion, Rio de Janeiro, Imago,          feito por Aristfanes no Banquete de Plato: "A
1992; Uma memria do futuro II: o passado apresen-
                                                            natureza humana de outrora no era como a de
tado, Rio de Janeiro, Imago, 1996  Grard Blandonu,
Les Communauts thrapeutiques, Paris, Scarabe,            hoje, mas muito diferente. Em primeiro lugar,
1970; Wilfred R. Bion: a vida e a obra (Paris, 1990), Rio   trs eram as espcies em que se dividia a huma-
de Janeiro, Imago, 1993; L'cole de Melanie Klein,          nidade, e no duas, como agora. Junto aos sexos
Paris, Le Centurion, 1985  R.D. Hinshelwood, Dicio-        masculino e feminino havia um terceiro, que era
nrio do pensamento kleiniano (1989), P. Alegre, Artes      comum a ambos. Esse gnero era ento chama-
Mdicas, 1992  Jacques Lacan, "La Psychiatrie an-
glaise et la guerre", L'volution Psychiatrique, 1, 1947,   do andrgino. O corpo de cada um desses an-
293-312  Didier Anzieu, "Beckett et Bion", Revue           drginos tinha forma arredondada. Seu dorso e
Franaise de Psychanalyse, Paris, Mentha, 1992             seus flancos eram em crculo; quatro mos eles
72     bissexualidade

tinham, pernas em nmero igual ao das mos,             Ao darwinismo e  embriologia Fliess jun-
dois rostos perfeitamente iguais, dois rgos da    tava toda a tradio romntica da medicina
procriao etc. Zeus os cortou em dois (...).       alem, que alis se encontrava entre os escri-
Feita essa diviso, cada metade passou a desejar    tores do fim de sculo marcados pelos trabalhos
unir-se  sua outra metade. Quando se encon-        de Johann Jakob Bachofen (1815-1887) sobre
travam, enlaavam-se nos braos e com tal for-      o matriarcado e o patriarcado*. De August
a se estreitavam que, no ardor de se refun-        Strindberg (1849-1912) a Otto Weininger*,
direm, deixavam-se morrer de fome e de inr-        passando por Karl Kraus* e Daniel Paul Schre-
cia, por nada quererem fazer longe uma da           ber*, o duplo tema da nostalgia do feminino e
outra."                                             do pavor da feminizao da sociedade alimen-
    Os sexlogos do fim do sculo XIX, desde        tava as interrogaes do fim de sculo, em plena
Richard von Krafft-Ebing* at Magnus Hirsch-        reflexo sobre as condies de uma reformula-
feld*, retomaram esse tema, alis misturando        o da famlia burguesa e de uma redistribuio
estreitamente a bissexualidade, a homos-            das relaes de identidade entre os sexos.
sexualidade, o hermafroditismo real e os fen-          Em seu livro de 1896 sobre as relaes entre
menos de travestismo, ainda confundidos com         o nariz e os rgos genitais, Fliess exps sua
o que viria a se transformar no transexualismo*     concepo dupla da bissexualidade e da perio-
nos anos 1950. Foi assim que se construiu o         dicidade, estabelecendo um vnculo entre as
famoso mito do "terceiro sexo", para designar       dores da menstruao e as do parto, todas reme-
ao mesmo tempo o andrgino (bissexual), o           tidas a "localizaes genitais" situadas no nariz.
invertido (homossexual) e o hermafrodita psi-       Da decorria a tese da periodicidade, segundo a
cossexual (o transexual). Freud rejeitou esse       qual as neuroses nasais, os acessos de enxaque-
termo, optando, j em 1905, em seus Trs en-        ca e outros sintomas do ciclo feminino obede-
saios sobre a teoria da sexualidade*, por definir   ciam a um ritmo de 28 dias, como a mens-
a homossexualidade como uma escolha sexual          truao.
derivada da existncia, em todo sujeito, de uma         A esse primeiro ciclo Fliess acrescentava um
bissexualidade originria. A seu ver, era des-      segundo, de 23 dias, qualificado de masculino,
necessrio inventar um "terceiro sexo" ou "sexo     e conclua que os dois se manifestavam em
intermedirio" para designar algo que decorria      ambos os sexos. Atravs de clculos, era pos-
de um universal da sexualidade humana.              svel, segundo ele, prever durante a gravidez
    Foi com a publicao, em 1871, de A descen-     qual seria o sexo da criana por nascer. A me
dncia do homem, de Charles Darwin (1809-           transmitia a seu feto os dois perodos (de 28 e
1882), que comeou a se efetuar a passagem do       23 dias), e era possvel determinar a que sexo
mito platnico da androginia para a nova defi-      pertenceria o futuro recm-nascido atravs da
nio da bissexualidade, segundo as pers-           natureza do perodo transmitido em primeiro
pectivas da cincia biolgica. Tratava-se, na       lugar. Em dezembro de 1897, durante um en-
poca, de dotar o estudo da sexualidade humana      contro em Breslau, Fliess desenvolveu uma no-
de uma terminologia adequada em matria de          va idia, afirmando que a bissexualidade biol-
"raa", constituio, espcie, organicidade etc.    gica prolongava-se, no ser humano, numa bis-
A contribuio da embriologia foi decisiva, na      sexualidade psquica, que era paralela  bilate-
medida em que ela pde mostrar, graas  utili-     ralidade caracterstica do organismo humano,
zao do microscpio, que o embrio humano          com a direita e a esquerda traduzindo, de certo
era dotado de duas potencialidades, uma mas-        modo, a organizao corporal e espacial da
culina e outra feminina. Da a idia de que a       diferena entre os sexos.
bissexualidade j no era apenas um mito, po-           Como inmeros estudiosos de sua poca,
rm uma realidade da natureza. Atravs dos          Fliess sonhava transformar a biologia numa
ensinamentos de Carl Claus* e, mais tarde, em       matemtica universal. Num primeiro momento,
contato com seu amigo Wilhelm Fliess*, Freud        Freud o acompanhou nesse terreno, no apenas
adotou, por volta de 1890, a tese da bisse-         se entregando a clculos absurdos, mas fazendo
xualidade.                                          com que seu amigo tratasse da famosa Emma
                                                                             bissexualidade       73

Eckstein* e, mais tarde, mandando operar seus      que enalteciam os mritos da virilidade "nrdi-
prprios seios nasais, na esperana de curar sua   ca", a nica, segundo ele afirmava, capaz de
neurose*. Todavia, no exato momento em que         sublimao* e de grandeza frente ao perigo
abandonou sua teoria da seduo*, ele tomou        social representado pela feminilidade. Partindo
emprestada de Fliess no a tese da bissexuali-     diretamente dessa concepo inferiorizante da
dade natural, acompanhada pela bilateralidade,     diferena sexual, Weininger assimilava o judeu
mas a da bissexualidade psquica. Em seguida,       mulher, sublinhando, alm disso, que esta era
aps seu rompimento com ele, Freud apagaria        pior do que aquele, uma vez que o judeu, como
os vestgios desse emprstimo, sobretudo por       encarnao de uma dialtica negativa, podia ter
causa da delirante histria de plgio em que       acesso  emancipao. Assim, a noo de bis-
seria implicado por intermdio de Hermann          sexualidade serviu para reinstaurar sob nova
Swoboda*. Em 1910, numa nota acrescentada          forma os velhos preconceitos da poca clssica.
aos Trs ensaios sobre a teoria da sexuali-            J em 1897, Freud adotou uma posio di-
dade*, diria simplesmente que Fliess havia rei-    ferente da de Fliess. Renunciando a ver na
vindicado a paternidade dessa noo, e depois,     bissexualidade o substrato do psquico, ele a
em outra nota, datada de 1924, afirmaria: "Em      pensou na categoria de uma pura organizao
alguns crculos no especializados, considera-     psquica, chegando mesmo a afirmar que os
se que a idia da bissexualidade humana  obra     progressos ulteriores da biologia confirmariam
do filsofo Otto Weininger, morto prematura-       sua hiptese. Essa diferenciao entre o psqui-
mente, que fez dela a base de um livro bastante    co e o biolgico lhe permitiu compreender a
irrefletido (1903). As indicaes precedentes      dissimetria existente entre os dois domnios:
mostram com clareza quo pouco justificada        com efeito, no existia uma continuidade entre
essa pretenso." Essa atitude levaria os defen-    os dois, nem tampouco uma relao termo a
sores da historiografia* oficial a afirmarem que   termo. Como Fliess, Freud fez ento da bis-
Freud foi o inventor da hiptese da bissexua-      sexualidade um motor do recalque*, mas -- e
lidade psquica, e que nada devia, nesse campo,    foi a que se produziu a divergncia --, em vez
s teses fliessianas, enquanto os partidrios da   de encar-la como um conflito entre duas ten-
historiografia revisionista foram levados a su-    dncias (uma libido viril, um recalque femini-
blinhar que ele era um plagiador e no inventara   no), interessou-se pela maneira como cada ser
coisa alguma. Na realidade, a concepo freu-      sexuado recalcava ou no os caracteres do outro
diana da noo de bissexualidade passou por        sexo.
outros caminhos, mais complexos que os des-            A princpio, Freud achou que o "recalque
critos pelos hagigrafos, de um lado, e pelos      parte da feminilidade e se volta contra a virili-
antifreudianos, de outro.                          dade" (carta a Fliess de 15 de outubro de 1897).
    Com Weininger, a tese da bissexualidade        Um ms depois, renunciou a essa idia e, no
adquiriu uma amplitude considervel, tanto         vero de 1899, afirmou que cada ato sexual era
mais que serviu de complemento  questo da        um "acontecimento que implica quatro pes-
judeidade*, pensada como um dio judaico a si      soas". Nos Trs ensaios sobre a teoria da sexua-
mesmo, e da feminilidade, concebida como um        lidade, fez da bissexualidade o fundamento da
perigo sexual. Em seu livro Sexo e carter,        inverso (homossexualidade) e rejeitou todas as
publicado em Viena em 1903 e que foi um            teses sexolgicas sobre o terceiro sexo, bem
verdadeiro best-seller durante quarenta anos,      como as de Weininger sobre a desigualdade
Weininger seguiu a linha mestra da bissexuali-     entre os dois plos. J em 1905, substituiu esse
dade para estudar a evoluo da sociedade oci-     no igualitarismo pela idia de uma libido ni-
dental. Retomando a idia fliessiana da diviso    ca, de essncia masculina, de modo a incluir a
das espcies, fez do plo masculino a suprema      diferena sexual no contexto universalista de
expresso do talento criador e da intelectuali-    um monismo sexual (ou falocentrismo*) de tipo
dade humana, e do plo feminino a manifes-         igualitarista. Em 1919, em "Uma criana  es-
tao da sensualidade, da languidez e da pulso.   pancada", rejeitou as teses de Fliess, sem cit-lo
Da a falta de igualitarismo e o antifeminismo     nominalmente, e as de Alfred Adler* sobre o
74     Bjerre, Poul

protesto viril, mostrando que o recalque dos       representao social e psquica da diferena
caracteres do sexo oposto est presente tanto      sexual, por outro.
nas meninas quanto nos meninos. Disso extraiu
a concluso de que os motivos do recalque no       Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da sexua-
                                                   lidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145; SE,
deviam ser sexualizados.                           VII, 130-245; Paris, Gallimard, 1987; "Bate-se numa
    Depois de fazer da bissexualidade o ncleo     criana" (1919), ESB, XVII, 225-58; GW, XII, 197-226;
central de sua doutrina da homossexualidade e      SE, XVII, 175-204; in Nvrose, psychose et perversion,
da sexualidade feminina*, Freud considerou         Paris, PUF, 1973, 219-43; "O mal-estar na civilizao"
                                                   (1930), ESB, XXI, 81-178; GW, XIV, 421-506; SE, XXI,
que essa noo era de completa obscuridade, na     64-145; OC, XVIII, 245-333; "Anlise terminvel e in-
medida em que no podia articular-se com a de      terminvel" (1937), ESB, XXIII, 247-90; GW, XVI, 59-
pulso. Em 1937, porm, deu meia volta e, em       99; SE, XXIII, 209-53; in Rsultats, ides, problmes,
"Anlise terminvel e interminvel", mencio-       II, Paris, PUF, 1985, 231-69; La Naissance de la psy-
                                                   chanalyse (N. York, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an
nou o nome de Fliess e voltou  idia de 1919      Wilhelm Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986 
de que ambos os sexos recalcavam o que dizia       Wilhelm Fliess, Les Relations entre le nez et les or-
respeito ao sexo oposto: a inveja do pnis, na     ganes gnitaux fminins prsents selon leurs signifi-
mulher, e, no homem, a revolta contra sua pr-     cations biologiques (Viena, 1897), Paris, Seuil, 1977;
                                                   Der Ablauf des Lebens. Grundlegung zur exakten Bio-
pria feminilidade e sua homossexualidade la-       logie, Leipzig e Viena, Franz Deuticke, 1906  Otto
tente: "J mencionei em outros textos que, na      Weininger, Sexe et caractre (Viena, 1903), Lausanne,
poca, esse ponto de vista foi-me exposto por      L'ge d'Homme, 1975  Magnus Hirschfeld, Vom We-
Wilhelm Fliess, que se inclinava a ver na opo-     sen der Liebe. Zugleich ein Beitrag zur Lsung der
                                                   Frage der Bisexualitt, Leipzig, Spohr, 1906  Jean
sio entre os sexos a verdadeira causa e o        Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da
motivo originrio do recalque. S fao reiterar    psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,
minha discordncia de outrora ao me recusar a      1991, 2 ed.  Henri F. Ellenberger, Histoire de la
sexualizar o recalque dessa maneira, e portanto,   dcouverte de l'inconscient (N. York, Londres, 1970,
                                                   Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994  "Bisexualit
a lhe dar um fundamento biolgico, e no ape-      et diffrence des sexes", nmero especial da Nouvelle
nas psicolgico."                                  Revue de Psychanalyse, 7, primavera de 1973  Frank
    Essa afirmao foi consecutiva ao grande       J. Sulloway, Freud, Biologist of the Mind, N. York, Basic
debate que se desenrolara no cerne do movi-        Books, 1979  Jacques Le Rider, Le Cas Otto Weinin-
                                                   ger. Racines de l'antifminisme et de l'antismitisme,
mento psicanaltico a propsito do monismo         Paris, PUF, 1982; Modernit viennoise et crises d'iden-
sexual (sexualidade feminina), e que opusera os    tit (1990), Paris, PUF, 1994  rik Porge, Vol d'ides,
partidrios da escola inglesa (Melanie Klein*,     Paris, Denol, 1994.
Ernest Jones*) aos da escola vienense (Helene
Deutsch*, Jeanne Lampl de Groot*, Ruth Mack         FETICHISMO; GRODDECK, GEORG;               KHAN, MA-
Brunswick*). Com efeito, essa querela havia        SUD; PERVERSO; STEKEL, WILHELM;            STRACHEY,
mostrado como era difcil conciliar a idia da     JAMES.
diferena sexual e da bissexualidade (no sentido
psquico) com a de uma libido nica (essencial-
mente masculina).                                  Bjerre, Poul (1876-1965)
    Foram os sucessores de Freud, e sobretudo      mdico e psicoterapeuta sueco
a terceira gerao* psicanaltica mundial, de         Personagem excntrico, de um orgulho ili-
Donald Woods Winnicott* a Jacques Lacan* e         mitado, ao mesmo tempo esteta, mstico, fil-
a Robert Stoller*, que trouxeram uma nova          sofo, poeta e escultor, assemelhava-se a vrios
soluo para o enigma da bissexualidade, quer      outros pioneiros do freudismo* na Europa. Di-
aprofundando, a partir do falocentrismo, o es-     zia-se nietzschiano e homem do Renascimento,
tudo da sexualidade feminina sob todas as suas     mas apaixonou-se principalmente pela hipno-
formas (Lacan), quer estudando os distrbios da    se* e pelo espiritismo*. Finalmente, foi o intro-
identidade sexual a partir de uma separao,       dutor da psicanlise* na Sucia e nos pases
muito mais radical do que a efetuada por Freud,    escandinavos*. Como os homens de sua gera-
entre a sexualidade no sentido biolgico e ana-    o*, ele prprio era habitado pelos sintomas e
tmico, por um lado, e o gnero* (gender) como     errncias que tratava em seus pacientes. Deixou
                                                                                 Bjerre, Poul     75

uma obra considervel -- milhares de pginas         parcialmente a prtica da hipnose pela da psi-
-- na qual se entregava "de corpo e alma",           canlise. Em 1909, apresentou pela primeira
afirmando que "a experincia pessoal, vivida e       vez o mtodo freudiano na Universidade de
elaborada, permite a compreenso intuitiva", a       Helsinki e, em 1911, depois de se encontrar
nica vlida.                                        pessoalmente em Viena com Sigmund Fred*,
    Filho de um comerciante de laticnios pro-       comentou suas idias diante dos membros da
veniente da Dinamarca, nasceu em Gteborg e          Ordem dos Mdicos sueca. Sua conferncia
desde a infncia sofreu de repetidas dores de        intitulada "O mtodo psicanaltico" teve pouca
cabea e de perturbaes do humor, alternando        repercusso e no foi publicada na revista da
mania e depresso. Admirava o pai, homem             Ordem, como era de praxe.
gentil e econmico, incapaz de adaptar-se s             Nessa data, redigiu para o Jahrbuch* um
convenes da vida burguesa, e desprezava a          longo artigo sobre um caso de parania* femi-
me, muito mais mundana e dinmica, mas              nina, o primeiro do gnero na literatura psica-
atingida, como ele, por uma espcie de melan-        naltica. Inicialmente discutido por Freud, ao
colia crnica. Freqentemente acamado por            longo de uma troca de cartas, esse caso foi
causa da doena, o jovem Poul tinha pelo irmo       comentado em 1936 pelo filsofo francs Ro-
mais novo, Andreas, tambm deprimido e com           land Dalbiez, em sua obra O mtodo psicanal-
tendncias suicidas, um forte sentimento de          tico e a doutrina freudiana.
cime. Para sair de suas tristes ruminaes,             A paciente era uma mulher de 53 anos,
tomou o hbito de fazer longos passeios solit-      solteira, certa de que estava sendo perseguida
rios nas florestas e nas montanhas cobertas de       por homens que lhe mostravam a lngua ou
neve. Depois de estudar medicina em Estocol-         contavam  imprensa sua ligao com o amante.
mo, dedicou-se ao estudo das doenas nervosas        Depois de ter tido relacionamentos sexuais com
e recorreu  hipnose e  sugesto*.                  homens, voltara-se para as mulheres e se tornara
    Em 1904, Andreas Bjerre (1869-1925), que         feminista. Bjerre a recebeu quarenta vezes, para
se tornaria um brilhante criminologista, casou-      uma sesso a cada dois dias. Obrigou-a a forne-
se com uma jovem, Amelie Posse, cuja me,            cer mnimos detalhes relativos  sua histria e
Gunhild Wennerberg (1860-1925), tornou-se            duvidou sistematicamente de suas interpreta-
um ano depois esposa de Poul. Instrumentista e       es. Logo afirmou que a tinha curado.
cantora de talento, pertencia  aristocracia inte-       Freud, que nessa poca estava elaborando
lectual sueca e tivera trs filhos de seu primeiro   sua doutrina da parania, declarou em dezem-
casamento com Fredrick Posse. Doente de reu-         bro de 1911 que, se houvera cura, foi porque se
matismo articular agudo e de diversas outras         tratava de um caso de histeria* de forma para-
enfermidades psquicas e somticas, que a tor-       nide. Baseando-se em uma experincia idn-
nariam progressivamente invlida, ela foi a          tica feita por Sandor Ferenczi*, manteve o diag-
"musa" de Bjerre, que proclamou durante toda         nstico: "A paciente se tornou paranica, disse
a vida que essa unio tinha um carter mstico       a Bjerre, no momento em que toda a sua libido*
e despertava nele foras criadoras. Entretanto,      se dirigiu para a mulher. Voltou  normalidade
os laos de parentesco incestuoso que uniam os       logo que, pela transferncia, voc lhe restituiu
dois irmos atravs de suas esposas acentuaram       a antiga fixao no homem."
os seus conflitos e agravaram os sintomas pato-          Esse intercmbio, que deixa ver como ocor-
lgicos.                                             riam as discusses de que Freud se alimentava
    Em 1905, Poul Bjerre publicou o caso de          para elaborar sua clnica, foi, evidentemente,
uma jovem esprita, Karin,  qual atribua dons      decepcionante para Bjerre, que se sentiu "humi-
energticos sobrenaturais, ligados  sua capaci-     lhado" em seu encontro com aquele "cujo olhar
dade de voltar  vida intra-uterina. Dois anos       penetrante e glacial me transpassou, a ponto de
depois, sucedeu a Otto Wetterstrand (1845-           me fazer sentir muito pior do que jamais ima-
1907), clebre mdico de doenas nervosas e          ginei ser". Freud achou Bjerre "taciturno, afe-
adepto das teorias de Auguste Libeault*, cujos      tado e desprovido de humor". Em uma carta,
consultrio e clientela assumiu. Abandonou           antes mesmo de v-lo, mostrou uma ironia mor-
76     Bjerre, Poul

daz: "Sem conhec-lo, creio que posso anteci-         a esse preo ele se permitiu o amor." No fim da
par que o acho perfeitamente incapaz do menor         vida, Bjerre, interrogado por H.F. Peters, mos-
plgio; mas no direi o mesmo a respeito de um        trou-se mais terno a seu respeito do que ela fora
convite para encontr-lo esta noite em seu quar-      para com ele: "Em minha longa vida, nunca
to, feito a uma bonita camareira que voc en-         encontrei ningum que me compreendesse to
controu h pouco no corredor do hotel."               depressa, to bem e to completamente quanto
    No s Bjerre desistiu da idia de ele mesmo      ela [...]. Quando a encontrei, eu estava traba-
deitar-se no div, mas tambm abandonou pro-          lhando para estabelecer as bases de minha psi-
gressivamente o freudismo e adotou outras for-        coterapia, que  fundada, ao contrrio da de
mas de terapia, atravs das quais procurava           Freud, sobre o princpio da sntese. Em minhas
principalmente construir a sua prpria identi-        conversas com Lou, coisas que eu no teria
dade. De modo geral, pensava que o consciente*        podido achar por mim mesmo me apareceram
importava mais do que o inconsciente* no tra-         claramente. Como um catalisador, ela ativava o
tamento do psiquismo, e que a cura podia ser          processo de meu pensamento.  possvel que
obtida por persuaso. No congresso da Interna-        ela tenha destrudo vidas e casamentos, mas sua
tional Psychoanalytical Association* (IPA) de         companhia era estimulante. Sentia-se nela a
Munique em 1913, j insistira na prioridade do        chama do gnio. Tinha-se a impresso de cres-
consciente.                                           cer em sua presena [...]. Lembro-me de que ela
    Sua ligao tumultuada com a bela Lou An-         comeou a aprender sueco, porque queria ler os
dreas-Salom*, que tinha a mesma idade de sua         meus livros no original."
mulher, e que o deixou ao fim de nove meses,              Pacifista durante a Primeira Guerra Mun-
no melhorou as coisas. Ele a conheceu em             dial, e acreditando ser ele prprio missionrio
agosto de 1911, por ocasio de uma visita a           de uma nova ordem espiritual, ops-se feroz-
Ellen Key, na casa desta em Alvastra, centro de       mente  Revoluo de Outubro, depois de ir a
encontros intelectuais. Admirava Nietzsche            So Petersburgo para se encontrar com
(1844-1900) e lera a obra magnfica que Lou           Aleksandr Kerenski (1881-1970).
lhe dedicara. Preparava ento sua interveno             Paradoxo surpreendente: esse introdutor do
no congresso internacional da IPA em Weimar.          freudismo nos pases escandinavos afastou-se
Lou encontrou-se com a mulher de seu amante,          da doutrina freudiana sem ter sido realmente
que era paraltica, e notou a estranha relao        freudiano. Do mesmo modo, apaixonou-se pe-
mstica e culpada que os unia. Depois, foram          las teses de Alfred Adler* e de Carl Gustav
juntos a Weimar e logo ela entrou no crculo dos      Jung*, sem aderir verdadeiramente a elas. As-
ntimos de Freud. Ao passo que Bjerre continua-       sim, em 1924, pediu a Freud autorizao para
va a duvidar do freudismo, Lou o abandonou            traduzir para o sueco o texto L'Intrt de la
para tomar apaixonadamente o partido de               psychanalyse (escrito em francs). Depois, sem
Freud.                                                participar-lhe, publicou-o em uma obra coleti-
    Em maio de 1912, ela terminou essa ligao        va, ao lado de artigos de Oskar Pfister*, Alfons
amorosa e lhe pediu que queimasse as seis             Maeder,* Jung e Adler. Freud se aborreceu e
cartas que lhe dirigira. Em seu Dirio de um          depois recomendou-lhe que mandasse traduzir
ano, fez uma descrio cruel do amante, que           as cinco famosas conferncias sobre a psican-
mostrava o orgulho, o narcisismo*, o sofrimento       lise pronunciadas nos Estados Unidos* em
e as inibies desse puritano nrdico: "Um            1909.
aventureiro que se fez a si mesmo e que [...] no         No ltimo artigo dessa obra coletiva, intitu-
pode confessar nada a si mesmo [...]. Usa os          lado "O caminho que leva a Freud para melhor
homens como meio para exteriorizar-se e aju-          afastar-se dele", Bjerre tentava mostrar os "li-
dar-se pessoalmente [...]. Isso se aplica at  sua   mites" de todas as teorias dos principais fun-
vida amorosa: at  sua casa e  sua esposa, que      dadores da psiquiatria dinmica* moderna
so adaptados para esse esquema, de modo              (Freud, Jung, Adler). Mas principalmente, apre-
lamentvel e singular, pois ele  o enfermeiro,       sentava-se como inventor de uma nova doutrina
o apoio, o salvador da vida de sua mulher -- s       teraputica, a psicossntese*, que na verdade
                                                                                      Bleger, Jos         77

fora inventada em 1907 por um psiquiatra su-        a uma renovao espiritual da "alma nrdica",
o. Desejava associar-lhe a cincia das reli-        contra os partidrios da psicanlise, vtimas, em
gies, a esttica e as cincias naturais, a fim de   sua opinio, da sua mentalidade judaica. Fazia
mostrar at que ponto ela era superior a todas       de sua doutrina, a psicossntese, uma nova reli-
as outras. Bjerre se apresentava, efetivamente,      gio dos tempos modernos, superior ao judeu-
como fundador de um bjerrismo que nunca              cristianismo e nica capaz de curar a humani-
existiria.                                           dade sofredora.
   A partir de 1925, depois da morte da mulher           O messianismo desse estranho freudiano,
e do sucidio do irmo Andreas, que ocultou         que tanto desconhecera o freudismo, no fez
sua me, viveu com sua governanta, Signhild          adeptos na Sucia nem em lugar algum. Poul
Forsberg, at o fim da vida. Nessa poca, come-      Bjerre morreu solitrio, sob o olhar benevolente
ou a se interessar de modo ainda mais evidente      de sua fiel governanta.
pela alma coletiva dos povos e a aderir a uma
                                                      Poul Bjerre, Manniskosonens lefnadsdrm [O sonho
espcie de mstica naturalista, que misturava o      e a vida do filho do homem], Estocolmo, 1900; La Folie
culto pangermnico e a apologia da mentali-          gniale. Une tude  la mmoire de Nietzsche (Gte-
dade nrdica. Logo ficou fascinado pelo nacio-       borg, 1903), Paris, Mercure de France, 1904; "Fallet
nal-socialismo e pronunciou em dezembro de           Karin. An experimental study of spontaneous rap-
                                                     pings", The Annals of Psychical Science, vol.II, 1905,
1933 uma conferncia ambgua, intitulada             143-80; "Zur Radikalbehandlung der chronischen Pa-
"Hitler psicoterapeuta". Partindo da idia de        ranoa", Jahrbuch fr psychoanalytische und psycho-
que Hitler tinha um verdadeiro gnio para            pathologische Forschungen, vol.III, 1911, 795-847;
compreender e captar a alma das massas, dedu-        The History and Practice of Psychoanalysis (1916),
                                                     Boston, R.G. Badger, 1920; Dd och frnyelse, Es-
zia que o nazismo, como doutrina anti-semita,        tocolmo, Bonnier, 1919; Comment l'me gurit. Les
era to fantico e extremista quanto o freudis-      Bases de la thrapeutique psychanalytique (1923),
mo, que qualificava de "cincia semita". A esses     Genebra, d. de la Petite Fusterie, 1925; Samlade
dois fanatismos, opunha a sua prpria teoria,        Psykoterapeutiska Skrifter, 8 vols., Estocolmo, Bon-
                                                     niers, 1933-1944; "Hitler som psykoterapeut", Hygiea,
mostrando que ele fora um dos raros a saber          band 96, 3, 1934, 80-93; Rfst och rttarting, Es-
afastar-se a tempo do dogmatismo psicanalti-        tocolmo, Centrum, 1945; "Point de vue nordique", Psy-
co, to sectrio quanto a ideologia hitlerista.      ch, 2, 1947, 454-7; "Die Psychosynthese", in Die
Assim, a crena em uma psicologia diferencial        Vortrage der 2. Lindauer Psychotherapiewoche 1951,
                                                     Ernst Speer (org.), Stutgart, 1952  Roland Dalbiez, La
dos povos e das raas levou Bjerre a "aceitar"       Mthode psychanalytique et la doctrine freudienne, 2
a nazificao da Alemanha*. Por isso, durante        vols., Paris, Alcan, 1936  H.F. Peters, Lou: minha irm,
sua conferncia, incitou os colegas a escolher o     minha esposa (N. York, 1962), Rio de Janeiro, Jorge
campo, ou seja, a avalizar a "arianizao" pelos     Zahar, 1986  Freud/Lou Andreas-Salom: correspon-
                                                     dncia (Frankfurt, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1975
nazistas da psicanlise e da psiquiatria. At
                                                      Jan Brmak e Ingemar Nilsson, Poul Bjerre "Mnnis-
1942, foi vrias vezes a Berlim, procurou editar     kosonen", Estocolmo, Natur och Kultur, 1983  Jacques
seus livros e manteve correspondncia com            Chazaud e A. de La Payonne Lidbom, "A propos d'une
Matthias Heinrich Gring*.                           correspondance rcemment dcouverte entre Freud et
                                                     Bjerre", Frnsie, 5, primavera de 1988, 97-115; "Poul
   Esse desvio no o levou, entretanto, a tornar-
                                                     Bjerre (1876-1964)", volution Psychiatrique, t.55, 2,
se um anti-semita militante ou um adepto do          abril-junho de 1990, 409-16.
nazismo*. Preocupado principalmente consigo
mesmo e com a divulgao de suas obras, fun-          FROMM, ERICH; HORNEY, KAREN; IGREJA; JU-
dou em 1941 um Instituto de Psicologia Mdica        DEIDADE; LAFORGUE, REN; PSICOTERAPIA;
e Psicoterapia, do qual foi o nico mestre. Seis     SCHJELDERUP, HARALD; SULLIVAN, HARRY
anos depois, por falta de discpulos, o instituto    STACK.
fechou as portas e Bjerre se retirou definitiva-
mente para Varstavi, na esplndida casa que
mandara construir em 1913, depois da morte de        Bleger, Jos (1922-1972)
sua me, para dedicar-se s suas obras, no sem      psiquiatra e psicanalista argentino
ter publicado, na revista de Maryse Choisy             Marxista e militante comunista, especialista
(1903-1979), Psych, um artigo no qual apelava       em psicoses*, clnico do borderline*, Jos Ble-
78     Bleuler, Eugen

ger foi uma das figuras importantes da segunda      alunos, decepcionados com sua atitude. Morreu
gerao* psicanaltica da Argentina*. Suscitou      de uma crise cardaca aos 49 anos.
tanto a hostilidade quanto a idolatria por sua
                                                     Jos Bleger, Psicoanlisis y dialctica materialista, B.
ambivalncia, seus acessos de clera e seu du-      Aires, Paidos, 1958; Psicologia da conduta (B. Aires,
plo compromisso com o comunismo* e com a            1964), P. Alegre, Artes Mdicas, 1989; Symbiose et
psicanlise*.                                       ambigut. tude psychanalytique (B. Aires, 1967), Pa-
    Nascido em Ceres, na provncia de Santa Fe,     ris, PUF, 1981  David Liberman, "Doctor Jos Bleger",
                                                    Revista de Psicoanlisis, 3, t.XXIX, julho-setembro de
era de uma famlia judia imigrante que se ins-      1972, 421-4  Fernando Ulloa, "Recordando a Jos
talara em uma colnia agrcola. Estudou medi-       Bleger", Diarios Clinicos, 5, 1992, 103-7  Leopoldo
cina em Rosario e praticou a psiquiatria em         Bleger, "Recorrido y huellas de Jos Bleger", ibid.,
                                                    109-15  Hugo Vezzetti, "La querella de Jos Bleger.
Santiago del Estero. Depois, mudou-se para          Psicoanlisis y cultura comunista", Punto de Vista, 27,
Buenos Aires e integrou-se  Asociacin Psi-        fevereiro de 1991, 21-2  Georges Politzer, Critique des
coanaltica Argentina (APA), aps uma anlise       fondements de la psychologie (1928), Paris, PUF,
com Enrique Pichon-Rivire*. Fez um segundo         1968; Les Fondements de la psychologie, Paris, di-
                                                    tions Sociales, 1969.
tratamento com Marie Langer*. Preocupado
com as questes sociais e polticas, aderiu ao       CISO; FREUDO-MARXISMO; KLEINISMO; MASO-
Partido Comunista Argentino e baseou-se nas         TTA, OSCAR; RSSIA; SELF PSYCHOLOGY.
teses do filsofo francs Georges Politzer
(1903-1942) para criar as condies de uma
nova psicologia da subjetividade. Depois, evo-      Bleuler, Eugen (1857-1939)
luiu para o marxismo e publicou em 1958 uma         psiquiatra suo
obra consagrada  relao entre a psicanlise e         Inventor dos termos esquizofrenia* e autis-
o materialismo dialtico. Ao contrrio de Polit-    mo*, diretor, depois de August Forel*, da pres-
zer, que passara de um freudismo* crtico para      tigiosa clnica do Hospital do Burghlzli, por
um militantismo staliniano e antifreudiano,         onde passaram todos os pioneiros do freudis-
Bleger procurava, antes, fazer a sntese das duas   mo*, Eugen Bleuler foi o grande pioneiro da
doutrinas, com a finalidade de definir uma psi-     nova psiquiatria do sculo XX e um reformador
cologia da personalidade. Por ocasio de uma        do tratamento da loucura* comparvel ao que
viagem  Unio Sovitica, criticou o regime         tinha sido, um sculo antes, Philippe Pinel
comunista, sobretudo quanto  questo do anti-      (1745-1825). Contemporneo de Sigmund
semitismo e, em 1961, depois de uma violenta        Freud*, de quem foi amigo e defensor, para alm
acusao contra o seu freudismo, considerado        dos conflitos e das discordncias, fundou uma
um "irracionalismo", foi excludo do Partido        verdadeira escola de pensamento, o bleuleris-
Comunista Argentino.                                mo, que marcou o conjunto do saber psiquitri-
                                                    co at aproximadamente 1970, data a partir da
    No interior da APA, desempenhou um papel
                                                    qual generalizou-se em todos os pases do mun-
importante do ponto de vista da formao did-
                                                    do um novo organicismo, nascido da farmaco-
tica. No plano clnico, orientou-se para as teses
                                                    logia.
de Melanie Klein* e de Ronald Fairbairn*, inte-         Nascido em Zollikon, perto de Zurique, em
ressando-se particularmente pelo que chamava        um meio protestante de origem camponesa,
de "indiferenciao primitiva". Teorizou a          Bleuler era filho de um administrador da escola
questo das personalidades ditas "ambguas",        local. "Seu pai, seu av e todos os membros da
isto , afetadas por distrbios da personalidade.   famlia, escreveu Henri F. Ellenberger*, guarda-
    No momento da crise que atravessou a APA        vam ainda uma lembrana muito viva da poca
e que resultou na criao dos dois movimentos       em que a populao camponesa do canto es-
de contestao da ortodoxia freudiana (Plata-       tava sob o domnio das autoridades da cidade
forma e Documento), Jos Bleger, j doente,         de Zurique, que limitavam estreitamente o aces-
declarou-se, a despeito do seu engajamento na       so dos camponeses a certas profisses e empre-
esquerda, favorvel  continuidade institucio-      gos [...]. A famlia Bleuler tomou parte nas lutas
nal, provocando assim a clera de seus prprios     polticas, que resultaram, em 1831, no reco-
                                                                               Bleuler, Eugen      79

nhecimento da igualdade de direitos para os          ro a propor que se integrasse o pensamento
camponeses e na criao da Universidade de           freudiano ao saber psiquitrico. Da esta analo-
Zurique, em 1833, destinada a promover o de-         gia: do mesmo modo que Freud transformara a
senvolvimento intelectual da jovem gerao           histeria* em um paradigma moderno da doena
camponesa."                                          nervosa, Bleuler inventava a esquizofrenia para
    Decidido a tratar dos alienados vindos do        fazer dela o modelo estrutural da loucura no
campo, escutando sua linguagem e no mais            sculo XX.
olhando-os como objetos de laboratrio, Bleu-            Sem renunciar  etiologia orgnica e heredi-
ler se empenhou em estudos de psiquiatria,           tria, situava a doena no campo das afeces
primeiro em Berna depois em Paris, onde se-          psicolgicas. A nova esquizofrenia no era por-
guiu o ensino de Jean Martin Charcot* e de           tanto uma demncia e no era precoce. Era de
Valentin Magnan (1835-1916), e posteriormen-         origem txica e se caracterizava por distrbios
te em Londres e em Munique. Depois dessas            primrios, dissociao da personalidade ou
viagens, tornou-se interno de Forel na Clnica       Spaltung (esquizo), e distrbios secundrios, o
do Burghlzli e lhe sucedeu em 1898. Ficou           fechamento em si ou autismo.
nesse posto durante trinta anos e foi seu filho,         Atravs desse deslocamento, Bleuler reno-
Manfred Bleuler, quem assumiu sua sucesso           vava o gesto do alienismo do Sculo das Luzes,
em 1927.                                             segundo o qual a loucura era curvel, pois todo
    No momento em que Bleuler chegou ao              indivduo insano conservava em si um resto de
Burghlzli, a psiquiatria de lngua alem estava     razo, acessvel por um tratamento apropriado:
dominada pela nosografia de Emil Kraepelin*.         o tratamento moral. Ora, no fim do sculo XIX,
Este, contemporneo de Freud e de Bleuler,           as diversas teorias da hereditariedade-degene-
dera uma organizao rigorosa  clnica das          rescncia* tinham abolido essa idia de curabi-
doenas mentais. Inventor de um sistema de           lidade, em proveito de um constitucionalismo
codificao, Kraepelin continuava ligado, en-        da doena mental, tendo como corolrio o con-
tretanto, a uma concepo normativa e repres-        finamento perptuo.
sora da loucura, procurando classificar sinto-           Com o impulso das teses freudianas, que
mas sem melhorar a condio dos alienados,           relanavam o debate sobre uma possvel origem
cujo destino se confundia com o do universo          psquica da loucura, todas as esperanas de
carcerrio.                                          curabilidade se reacendiam. Essa foi a verda-
    Ora, por volta de 1900, esse sistema j estava   deira ruptura de Bleuler com a psiquiatria de seu
em vias de decadncia. Descendentes diretos de       tempo: ele reatava com uma concepo pro-
uma certa tradio francesa, de Charcot, por um      gressista do asilo, que inclua sua abolio. E,
lado, e por outro de Hippolyte Bernheim*, os         para realizar essa transformao, preconizava o
principais especialistas em doenas mentais e        uso da psicanlise*, passando horas examinan-
nervosas procuravam elaborar uma nova clnica        do os pacientes, escolhidos para provar a exati-
da loucura, fundada no na abstrao classifi-       do das idias freudianas.
cadora, mas na escuta do paciente: queriam               Foi atravs dos tratamentos elaborados na
ouvir o sofrimento dos doentes, decifrar sua         Clnica do Burghlzli que ocorreu, entre 1900
linguagem, compreender a significao de seu         e 1913, a implantao das teses freudianas no
delrio e instaurar com eles uma relao din-       centro do saber psiquitrico. Trs homens, ani-
mica e transferencial.                               mados por uma grande paixo, participaram
    Em 1911, Bleuler publicou a sua grande           dela, atravs de um longo e conflituoso dilogo:
obra, Dementia praecox ou grupo das esquizo-         Freud, Bleuler e o jovem Carl Gustav Jung*,
frenias, na qual apresentava essa nova aborda-       que se tornou discpulo do primeiro e aluno do
gem da loucura. Os sintomas, os delrios, os         segundo.
distrbios diversos e as alucinaes encontra-           Hostil  tese da primazia da sexualidade*,
vam o seu significado, dizia ele, caso se atentas-   Bleuler procurava primeiro, para curar seus
se para os mecanismos descritos por Freud na         doentes, entrar em contato com eles, compreen-
sua teoria do psiquismo. No fundo, foi o primei-     d-los intimamente. Evidenciou a noo de au-
80     Bloomsbury, Grupo de

tismo, a partir da noo de auto-erotismo*, cria-    1993  "Freud-Bleuler, correspondance", Archives of
                                                     General Psychiatry, janeiro de 1965, vol.XII, 3-5 
da por Havelock Ellis* e adotada por Freud. A
                                                     Freud/Jung: correspondncia completa (Paris, 1975),
criao desse neologismo, por contrao dos          Rio de Janeiro, Imago, 1993  Henri F. Ellenberger,
dois substantivos, permitia-lhe escapar do pan-      Histoire de la dcouverte de l'inconscient (N. York,
sexualismo* freudiano, que julgava perigoso. O       Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard,
termo se imporia posteriormente, na clnica das      1994  Jacques Postel e Claude Qutel, Nouvelle
                                                     histoire de la psychiatrie (1983), Paris, Dunod, 1994 
psicoses infantis.                                   Jean Garrab, Histoire de la schizophrnie, Paris, Se-
    Se Bleuler queria adaptar a psicanlise ao       ghers, 1992  Manfred Bleuler, "La Pense bleulrienne
asilo, Freud sonhava conquistar, desde Viena*,       dans la psychiatrie suisse", Nervure, VIII, novembro de
via Zurique, a terra prometida da psiquiatria de     1995, 23-4  Pierre Morel (org.), Dicionrio biogrfico
                                                     psi (Paris, 1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
lngua alem que, nessa poca, dominava o
mundo. E contava com a fidelidade de Jung,            CLIVAGEM (DO EU); EY, HENRI; MEYER, ADOLF;
assistente de Bleuler no Burghlzli, para ajud-     MINKOWSKI, EUGNE; PSICOTERAPIA INSTITUCIO-
lo nesse empreendimento. Contra Bleuler, ele         NAL; PSIQUIATRIA DINMICA; SPIELREIN, SABINA.
conservou a noo de auto-erotismo e preferiu
pensar o domnio da psicose* em geral sob a
categoria da parania*, ao invs da esquizofre-      Bloomsbury, Grupo de
nia. Ops assim o sistema de Kraepelin  ino-         GR-BRETANHA; STRACHEY, JAMES.
vao bleuleriana, mas tranformou-o de cima a
baixo, a fim de estabelecer uma distino es-
trutural entre neurose*, psicose e perverso*.       Boehm, Felix (1881-1958)
    Quanto a Jung, separou-se primeiro de Bleu-
                                                     psicanalista alemo
ler, seu mestre em psiquiatria, e depois de Freud,
que fizera dele o seu sucessor. Decidiu utilizar         Com Werner Kemper*, Harald Schultz-Hen-
a expresso demncia precoce, e no a de esqui-      cke* e Carl Mller-Braunschweig*, Felix Boehm
zofrenia, e inventou em 1910 a palavra introver-     (ou Bhm) foi um dos psicanalistas que aceitaram
so*, que preferiu a autismo, para designar a        trabalhar no Deutsche Institut fr Psychologische
retirada da libido* para o mundo interior do         Forschung (ou Gring Institut, ou Instituto Ale-
sujeito*.                                            mo de Pesquisa Psicolgica e de Psicoterapia),
                                                     fundado por Matthias Heinrich Gring* em 1936,
    A ruptura com Freud e Jung levou Bleuler a
                                                     no mbito da nazificao da psicanlise* na
um movimento mais ou menos semelhante ao
                                                     Alemanha* e da poltica de "salvamento" desta,
de Pinel, um sculo antes. Afastando-se da psi-
                                                     preconizada por Ernest Jones*.
canlise, mostrou-se cada vez mais pessimista
em relao  curabilidade, depois retomou a              Analisado inicialmente por Eugnie Sokol-
idia de uma etiologia puramente orgnica. En-       nicka* e depois por Karl Abraham*, Boehm
tretanto, esse encontro do incio do sculo foi      trabalhou no Berliner Psychoanalytisches Ins-
uma vitria para as teses freudianas, pois desen-    titut* (BPI), integrado  famosa Policlnica de
volveu-se na Frana* e depois nos Estados Uni-       Berlim, fundada por Max Eitingon*, e interes-
dos* e no resto do mundo um vasto movimento          sou-se principalmente pela questo da homos-
que resultou na implantao da psicanlise pela      sexualidade*. Presidente da Deutsche Psychoa-
via mdica, a partir de uma abordagem psico-         nalytische Gesellschaft (DPG) a partir de 1933,
gnica da loucura.                                   dois anos depois obrigou os judeus da sociedade
                                                     a se demitirem, por ocasio de uma sesso
    Depois de ser contestada pela antipsiquia-
                                                     presidida por Ernest Jones.
tria*, a clnica freudo-bleuleriana foi marginali-
zada, a partir de 1970, pela elaborao de um            No Gring Institut, prosseguiu suas "pesqui-
Manual diagnstico e estatstico dos distrbios      sas", tornando-se "perito" em homossexualida-
mentais (DSM III, IV etc.), de inspirao com-       de na Wehrmacht, e notadamente na Luftwaffe.
portamentalista e farmacolgica.                     Inicialmente, contentou-se em denunciar o pe-
                                                     rigo homossexual que pesava sobre a Alema-
 Eugen Bleuler, Dementia praecox ou groupe des      nha, pedindo ao Reich que tomasse providn-
schizophrnies (Leipzig, 1911), Paris, EPEL-GREC,    cias de vigilncia e deteco. Pretendia assim
                                                                                      Bonaparte, Marie          81

opor-se s teses nacional-socialistas sobre a               14 et 15 octobre 1946", Revue Internationale d'Histoire
                                                            de la Psychanalyse, 1, 1988, 157-63.
homossexualidade, que levavam direto  es-
terilizao,  priso, ao assassinato e finalmente           BJERRE, POUL; JUNG, CARL GUSTAV; LAFOR-
ao extermnio. Mas, a partir de 1944, aceitou o             GUE, REN; MAUCO, GEORGES; MITSCHERLICH,
programa nazista, e enviou para a morte progra-             ALEXANDER.
mada os homossexuais dos quais tratava ou que
submetia  "percia", pretendendo ento poupar
os que sofressem de psicose* ou de alcoolismo.              Bonaparte, Marie (1882-1962),
    Ao contrrio de Mller-Braunschweig, que                princesa da Grcia
sofria de crises de depresso e se sentia culpado
                                                            psicanalista francesa
de seus atos de colaborao, Boehm era um
homem grosseiro, arrogante e misgino. Em                       Filha de Roland Bonaparte (1858-1924), ne-
1946, quando John Rickman* foi a Berlim para                to de Lucien, irmo do imperador, Marie Bona-
interrogar os freudianos que tinham ficado na               parte, nascida em Saint-Cloud, era portanto so-
Alemanha sob o nazismo*, a fim de avaliar a                 brinha-bisneta de Napoleo Bonaparte (1769-
sua capacidade para formar candidatos a dida-               1821). Sua me morreu por ocasio de seu
tas, julgou Boehm inapto para exercer essa                  nascimento e a menina teve uma infncia e uma
funo, no por causa de sua colaborao com                adolescncia trgicas. Educada pelo pai, que s
Gring, mas por razes de deteriorao psqui-              se interessava por suas atividades de gegrafo
ca. Rickman, representante da International                 e antroplogo, e por sua av paterna, verdadeira
Psychoanalytical Association* (IPA), notvel                tirana domstica, vida de sucesso e de notorie-
reformador da psiquiatria inglesa durante a                 dade, Marie tinha tudo de uma personagem
guerra, participou de uma poltica de reconstru-            romanesca.
o do freudismo na Alemanha. Essa poltica                     Seu casamento arranjado com o prncipe
consistia no em julgar os psicanalistas em                 Jorge da Grcia (1869-1957), homossexual de-
funo de seu engajamento no nazismo, mas em                pravado, alcolatra e conformista, fez dela uma
avaliar a sua suposta normalidade psquica.                 alteza real coberta de honras e de celebridade,
Nessa perspectiva, Rickman deixou-se iludir                 mas sempre obcecada pela procura de uma cau-
por Kemper, que no apresentava nenhum dis-                 sa nobre e principalmente preocupada com sua
trbio de personalidade.                                    frigidez. Quando encontrou Freud* em Viena*
                                                            em 1925, a conselho de Ren Laforgue*, estava
    No momento da criao da Deutsche Psy-
                                                             beira do suicdio* e acabava de publicar, sob
choanalytische Vereinigung (DPV) por Mller-
                                                            o pseudnimo de Narjani, um artigo no qual
Braunschweig, Boehm permaneceu na DPG e
                                                            louvava o mrito de uma interveno cirrgica,
no foi reintegrado  IPA.
                                                            em voga na poca, que consistia em aproximar
 Les Annes brunes. La Psychanalyse sous le IIIe
                                                            o clitris da vagina, a fim de transferir o orgas-
Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-Luc        mo clitoridiano para a zona vaginal. Acreditava
Evard, Paris, Confrontation, 1984  Chaim S. Katz           assim que poderia curar sua frigidez e no he-
(org.), Psicanlise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus,      sitou em experimentar a operao em si prpria,
1985  Geoffrey Cocks, La Psychothrapie sous le IIIe
                                                            mas sem nunca obter o menor resultado.
Reich (Oxford, 1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987 
Regine Lockot, Erinnern und Durcharbeiten, Frankfurt,           Graas ao minucioso trabalho de Clia Ber-
Fischer, 1985  Ici la vie continue de manire surpre-      tin, nica a ter acesso aos arquivos da famlia,
nante, seleo de textos traduzidos por Alain de Mijolla,   conhecemos a vida dessa princesa, estimada por
Paris, Association Internationale d'Histoire de la Psy-     Sigmund Freud, que reinou como soberana so-
chanalyse (AIHP), 1987  Ludger M. Hermanns,
"Condies e limites da produtividade cientfica dos        bre a Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP), da
psicanalistas na Alemanha de 1933 a 1935", Revista          qual foi um dos doze fundadores, ao lado de
Internacional da Histria da Psicanlise, 1 (1988), Rio     Ren Laforgue, Adrien Borel*, Rudolph
de Janeiro, Imago, 1990, 67-86  Karen Brecht, "A           Loewenstein*, douard Pichon*, Raymond de
psicanlise na Alemanha nazista: adaptao  institui-
o, relaes entre psicanalistas judeus e no judeus",
                                                            Saussure*, Ren Allendy* etc. Tradutora incan-
ibid., 87-98  "Compte rendu du sjour du docteur John      svel da obra freudiana, organizadora do movi-
Rickman  Berlin pour interroger les psychanalystes,        mento francs, que financiou em parte com seu
82     Bonaparte, Marie

dinheiro, Marie Bonaparte consagrou a vida        tinha tido me. Freud manteve o que afirmara e
psicanlise*, com um entusiasmo e uma cora-        lembrou a presena de sua ama. Finalmente,
gem invejveis. Lutou em favor da anlise lei-     Marie decidiu interrogar o meio-irmo de seu
ga* e, diante do nazismo*, adotou uma atitude      pai, que tratava dos cavalos na casa em que
exemplar, negando-se a qualquer concesso.         passou a infncia. Constrangido, o velho contou
Pagou um resgate considervel para arrancar        como tivera relaes sexuais em pleno dia,
Freud das garras da Gestapo, salvou seus ma-       diante do bero de Marie. Ela tinha pois visto
nuscritos e instalou-o em Londres com toda a       cenas de coito, de felao e de cunilngua.
famlia. Foi sua atividade eficaz a servio da         Com essa mulher que o cumulava de pre-
causa que lhe valeu ocupar um lugar central na     sentes, Freud manifestou o seu extraordinrio
Frana* e tornar-se uma das personalidades         gnio clnico. Gostava tanto dela que, para re-
mais respeitadas do movimento freudiano.           compensar sua fidelidade, ofereceu-lhe, como
    Depois da Segunda Guerra Mundial, tornou-      fizera a Lou Andreas-Salom*, um dos famosos
se uma espcie de monstro sagrado, incapaz de      anis reservados aos membros do Comit Se-
perceber as ambies, os sonhos e os talentos      creto*. Se Lou era a Mulher, a amiga, a igual, a
das duas novas geraes* francesas (a segunda      encarnao da liberdade, da beleza, da inteli-
e a terceira).                                     gncia e da criatividade, Marie foi a aluna, a
    Durante a primeira ciso* (1953) e s vspe-   discpula submissa, a admiradora, a analisanda,
ras da segunda (1963), ops-se fanaticamente a     a embaixatriz devotada.
Jacques Lacan*, a quem detestava e que a trata-        Durante a anlise, ele evitou que ela tivesse
va de "cadver de Ionesco". Na verdade, ele lhe    uma relao incestuosa com o filho, e imps
tirava o papel de chefe de escola, ao arrastar     certos limites s suas experincias cirrgicas,
consigo a juventude psicanaltica francesa.        sem conseguir, entretanto, impedi-la de passar
    Apesar de sua extenso, a obra escrita de      ao ato. Deve-se dizer que a sua situao contra-
Marie Bonaparte  bastante medocre,  exce-       transferencial era difcil: ao longo de toda a
o de alguns belos textos, entre os quais uma     durao dessa anlise, Freud sofreu temveis
obra monumental sobre Edgar Allan Poe (1809-       operaes da mandbula, a fim de combater a
1849), ilustrao dos princpios freudianos da     progresso do cncer. Como poderia ele, em tais
psicobiografia, um artigo de 1927 sobre Marie-     condies, interpretar o gozo* sentido por Ma-
Flicit Lefebvre (um caso de loucura crimino-     rie ao manejar o bisturi?
sa) e os seus famosos "cadernos": os Cinco             A partir da publicao em 1931 do artigo de
cadernos de uma menina, nos quais comentou         Freud sobre a sexualidade feminina*, a princesa
sua anlise e suas lembranas da infncia, e os    tomou parte no debate de modo muito pessoal,
Cadernos negros, dirio ntimo em que relatou      transformando a doutrina psicanaltica em uma
todos os detalhes de sua vida e as confidncias    tipologia dos instintos biolgicos. Deduziu uma
que Freud lhe fez sobre vrios assuntos.           psicologia da mulher da qual o inconsciente* era
    Ao contrrio do tratamento dos outros disc-   esvaziado. Afastando-se simultaneamente da
pulos, o da princesa foi interminvel. Fez-se em   escola vienense e da escola inglesa, distinguiu
alemo e em ingls, por etapas sucessivas, de      trs categorias de mulheres: as que reivindicam
1925 a 1938: cinco a seis meses nos primeiros      e procuram apropriar-se do pnis do homem; as
anos, um a dois meses nos anos seguintes.          que aceitam e se adaptam  realidade de suas
Desde o incio, Marie recebeu uma forte inter-     funes biolgicas ou de seu papel social; as
pretao*. Depois de um sonho*, em que ela se      que renunciam e se afastam da sexualidade.
via em seu bero assistindo a cenas de coito,      Essas teses no teriam eco na Frana, onde o
Freud afirmou peremptoriamente que ela no         debate sobre esse tema seria conduzido por
tinha apenas ouvido essas cenas, como a maio-      Simone de Beauvoir (1908-1986) e depois pe-
ria das crianas que dormem no quarto dos pais,    los alunos de Lacan (Franois Perrier* e Wladi-
mas que ela as vira em pleno dia. Assustada e      mir Granoff) e Franoise Dolto*. Na SPP, Janine
sempre preocupada em obter provas materiais,       Chasseguet-Smirgel as questionaria, introdu-
recusou essa afirmao e protestou que no         zindo as teses de Melanie Klein*.
                                                                                              borderline        83

    Atingida por uma leucemia fulminante, Ma-             e da identidade que se encontram na fronteira
rie Bonaparte morreu completamente lcida,                entre a neurose* e a psicose*. Fala-se tambm
depois de manifestar uma coragem exemplar,                em casos fronteirios [ou limtrofes], persona-
sem ter assistido  derrota de Lacan. Durante             lidades fronteirias ou patologias fronteirias.
dez anos, ela lutara com todas as foras para                 Otto Fenichel* foi um dos primeiros, em
impedir a reintegrao da Sociedade Francesa              1945, a sublinhar a existncia desse tipo de
de Psicanlise (SFP, 1953-1963)  International           patologia: "Existem personalidades neurticas
Psychoanalytical Association* (IPA).                      que, sem desenvolver uma psicose completa,
                                                          possuem inclinaes psicticas, ou manifestam
 Marie Bonaparte, "Considrations sur les causes         uma propenso a se servir de mecanismos es-
anatomiques de la frigidit chez la femme", sob o
pseudnimo de A.E. Narjani, in Bruxelles-Mdical, abril
                                                          quizofrnicos em caso de frustrao*." Essa
de 1924, 768-78; Cahiers noirs (dirio), 1925-1939,       noo foi consideravelmente desenvolvida,
indito (arquivos lisabeth Roudinesco); "Le Cas de       mais tarde, nos trabalhos de Heinz Kohut* e
Mme Lefebvre", Revue Franaise de Psychanalyse, 1,        Otto Kernberg, que props o termo "organiza-
1927, 149-98; Cinq cahiers crits par une petite fille
                                                          o fronteiria" para demonstrar com clareza
entre sept ans et demi et dix ans, avec leurs commen-
taires, 4 vols., 1939-1951, impressos pela autora; "Ex-   que o estado borderline era estvel e duradouro.
traits du cahier I", in L'Infini, 2, primavera de 1983,       Foi o psicanalista norte-americano Harold
76-89; Edgar Poe, sa vie, son oeuvre. tude psycha-       Searles, especialista em esquizofrenia*, quem
nalytique (1933), 3 vols., Paris, PUF, 1958; Psychana-
                                                          produziu, nesse mesmo perodo, os trabalhos
lyse et biologie, Paris, PUF, 1952; Psychanalyse et
anthropologie, Paris, PUF, 1952; Sexualit de la femme    mais pertinentes a respeito dessa questo, a
(1967), Paris, UGE, col. "10/18", 1977  Sigmund          partir de uma longa prtica na Chesnut Lodge
Freud, "Sexualidade feminina" (1931), ESB, XXI, 259-      Clinic, uma das mecas do tratamento psicana-
82; GW, XIV, 517-37; SE, XXI, 225-43; OC, XIX, 7-27;      ltico das psicoses, onde trabalhou Frieda
"Prefcio a A vida e as obras de Edgar Allan Poe: uma
interpretao psicanaltica, de Marie Bonaparte"          Fromm-Reichmann* depois de sua emigrao
(1933), ESB, XXII, 310; GW, XVI, 276; SE, XXII, 254;      da Alemanha*. Marcado pelo ensino de Harry
OC, XIX, 305-7  Janine Chasseguet-Smirgel (org.), La     Stack Sullivan*, Searles desarticulou a defini-
Sexualit fminine. Nouvelles recherches, Paris,          o clssica da loucura*  maneira dos artfices
Payot, 1964  Clia Bertin, La Dernire Bonaparte,
Paris, Perrin, 1982  lisabeth Roudinesco, Histria de
                                                          da antipsiquiatria*, mostrando que, nos pa-
psicanlise na Frana, 2 vols. (Paris, 1982, 1986), Rio   cientes borderline, o eu* funciona de maneira
de Janeiro, Jorge Zahar, 1988, 1989  Marie Bonaparte     autstica. Em seu clebre livro de 1965, O es-
et la psychanalyse,  travers ses lettres  Ren Lafor-   foro de enlouquecer o outro, ele criticou a
gue et les images de son temps, apresentado por           ortodoxia, freudiana sublinhando como a prti-
Jean-Pierre Bourgeron, Genebra, Slatkine, 1993.
                                                          ca ortodoxa da transferncia* pode desembocar
 ANTROPOLOGIA; CONTRATRANSFERNCIA; CRI-                  numa estratgia de terror, que consiste em tor-
MINOLOGIA; INCESTO; PAPPENHEIM, BERTHA;                   nar o paciente dependente do analista. Contras-
QUESTO DA ANLISE LEIGA, A; SIGNIFICANTE;                tou com isso uma prtica da anlise inspirada
TRADUO (DAS OBRAS DE SIGMUND FREUD).                    no tratamento dos estados borderline e fun-
                                                          damentada na idia de reconhecimento mtuo
                                                          entre o terapeuta e o paciente.
borderline
                                                           Otto Fenichel, Teoria psicanaltica das neuroses, Rio
fr. tats-limites; ing. borderline state                  de Janeiro e S. Paulo, Atheneu, 1981  Otto Kernberg,
    A noo do borderline faz parte do vocabu-            La Personnalit narcissique et les troubles-limites de
lrio clnico norte-americano e anglo-saxo               la personnalit, 2 vols. (N. York, 1975), Toulouse, Pri-
                                                          vat, 1975, 1979  Otto Kernberg com Michael A. Selzer,
prprio da corrente da Self-Psychology* e, sob            Harold W. Koenisgsberg, Arthur C. Carr e Ann H.
certos aspectos, do ps-kleinismo da dcada de            Appelbaum, La Thrapie psychodinamique des per-
1960. Perpassa igualmente o neofreudismo* e               sonnalitis-limites (N. York, 1989), Paris, PUF, 1995 
o culturalismo* e acabou se integrando  termi-           Harold Searles, L'Effort pour rendre l'autre fou (N. York,
                                                          1965), Paris, Gallimard, 1981; Mon exprience des
nologia psicanaltica francesa, sob o nome de             tats-limites (N. York, 1986), Paris, Gallimard, 1994 
tats-limites (no plural). O termo borderline             Andr Green, La Folie prive. Psychanalyse des cas-
(fronteira) designa distrbios da personalidade           limites, Paris, Gallimard, 1990.
84      Borel, Adrien

 ANLISE DIRETA; AUTISMO; BATESON, GREGO-                    Filho de um administrador de terras, Bose
RY; BION, WILFRED RUPRECHT; EGO PSYCHOLO-                era de uma rica famlia letrada de Bengala, e foi
GY; FEDERN, PAUL; KLEINISMO; NARCISISMO; NEO-            em Calcut, depois da aposentadoria de seu pai,
FREUDISMO; PERSONALIDADE MLTIPLA; TCNICA               que comeou a se orientar para a medicina.
PSICANALTICA.
                                                         Casou-se muito jovem, segundo os estritos pre-
                                                         ceitos da religio hindu. Apaixonou-se pela ma-
                                                         gia, atravs da qual comeou a interessar-se pela
Borel, Adrien (1886-1966)                                hipnose*, voltando-se depois para a psicologia.
psiquiatra e psicanalista francs                        Por volta de 1914, cuidou de doentes que so-
    Formado na tradio psiquitrica francesa e          friam de distrbios mentais. Algum tempo de-
analisado por Ren Laforgue*, Adrien Borel foi           pois, tomou conhecimento dos primeiros textos
um dos doze fundadores da Sociedade Psicana-             de Freud traduzidos para o ingls, e logo
ltica de Paris (SPP). Como Ren Allendy*, mas           manifestou um real entusiasmo pelo mtodo
de maneira diferente, especializou-se na anlise         psicanaltico. Especializou-se em psicologia e
dos escritores, entre os quais Georges Bataille          apresentou em 1921 um trabalho sobre o recal-
(1897-1962) e Michel Leiris (1901-1990). Em              que, obtendo assim o primeiro doutorado nessa
1950, interpretou o papel do cura de Torcy no            matria conferido pela Universidade de Calcu-
filme de Robert Bresson Journal d'un cur de             t. A partir de 1917, prosseguiu uma brilhante
campagne.                                                carreira de psiclogo universitrio, que termi-
                                                         naria em 1949.
 lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na
                                                             Ao contrrio de Kosawa, Bose decidiu no
Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge Za-
har, 1989  Michel Surya, Georges Bataille. La Mort     ir a Viena* para receber uma formao psicana-
l'oeuvre (1987), Paris, Gallimard, 1992.                 ltica. Assim, sem ter sido analisado, comeou
                                                         a reunir em torno de si amigos e colegas que se
 CISO; FRANA.                                          tornariam seus analisandos e discpulos. Em
                                                         1922, criou a Sociedade Psicanaltica Indiana,
                                                         de que seria presidente at sua morte. Participou
Bose, Girndrashekhar (1883-1953)                        o fato a Freud, que se alegrou e o aconselhou a
mdico e psicanalista indiano                            escrever a Ernest Jones*, a fim de que esse
    Em certos aspectos, o destino de Girndra-           primeiro grupo fosse integrado  International
shekhar Bose se assemelha ao do grande                   Psychoanalytical Association* (IPA). Com efei-
psicanalista Heisaku Kosawa*. Ambos foram                to, foi graas a Owen Berkeley-Hill (1879-
pioneiros solitrios nos dois nicos pases da           1944), psiquiatra ingls analisado por Jones e
sia onde a psicanlise* se implantou, sem ter,          mdico-chefe do Hospital de Rangi, que o cr-
todavia, o impulso que teve nos pases ociden-           culo de Bose foi rapidamente reconhecido pela
tais. Entretanto, existia entre esses dois homens        IPA. Em conseqncia disso, produziram-se
uma diferena radical. Analisado por Sigmund             muitas tenses no seio do grupo, entre os brit-
Freud*, Kosawa foi um internacionalista, um              nicos considerados colonialistas e os indianos.
didata clssico e o fundador de uma escola               Em 1947, Bose fundou a revista oficial da so-
japonesa de psicanlise, ao passo que Bose foi,          ciedade, Samiska.
antes de tudo, um autodidata do freudismo*,                  Como muitos freudianos dessa gerao, foi
defensor de sua cultura, e um formador de alu-           ao mesmo tempo professor universitrio, escri-
nos cujo magistrio se limitou ao seu crculo de         tor, pensador e chefe de escola. Alm disso, era
Calcut. A diferena entre esses dois pioneiros          um grande especialista em hindusmo. Na cor-
tambm residia na histria poltica de cada um           respondncia que manteve com Freud de 1920
dos dois pases. Da a distncia que separou o           a 1937, expressou seu desejo de elaborar uma
freudismo indiano do freudismo japons: o pri-           doutrina do psiquismo que levasse em conta as
meiro permaneceu sempre marcado pela tradi-              particularidades culturais ligadas ao hindusmo.
o colonial inglesa, o segundo foi uma criao          Desenvolveu em especial a idia de uma coexis-
autnoma.                                                tncia de elementos opostos no desejo humano,
                                                                                             Bowlby, John          85

e redigiu verdadeiros quadros nosogrficos das               Bouvet pertencia  segunda gerao* psicanal-
diferentes dualidades oposicionais.                          tica francesa, terceira na histria mundial. Ana-
    Do ponto de vista da tcnica psicanaltica,              lisado por Georges Parcheminey (1888-1953),
considerou necessrio, j em 1931, inspirar-se               supervisionado por Nacht e John Leuba (1884-
no mtodo dos gurus, segundo o qual o analista               1952), foi um dos titulares mais respeitados da
intervm ativamente, tomando notas e obrigan-                Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP) e for-
do o paciente a superar as suas resistncias*:               mou um grande nmero de psicanalistas. Seus
"Quando Bose informa o paciente sobre a dire-                trabalhos, essencialmente clnicos e de inspira-
o a ser tomada pela sua fantasia, escreveu                 o ps-freudiana, referem-se ao tratamento
Sudhir Kakar, no est muito longe de certos                 padro,  relao de objeto* e  despersonali-
processos mediadores utilizados nas escolas                  zao.
psicofilosficas hindus de auto-realizao. A
visualizao tntrica, tal como o nyasa ou o                  Maurice Bouvet, Oeuvres psychanalytiques, vols.1 e
                                                             2, Paris, Payot, 1985  La Psychanalyse d'aujourd'hui
yoganidra do raja yoga, vem logo  mente. So                (col.), 2 vols., Paris, PUF, 1956  lisabeth Roudinesco,
tcnicas que eram familiares a Bose, pelo seu                Histria da psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986),
estudo profundo dos yogas."                                  Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
    Em fins dos anos 1940, os psicanalistas in-
dianos formados por Bose, notadamente T.C.
Sihna, seu principal discpulo, estudaram os                 Bowlby, John (1907-1990)
particularismos da vida psquica indiana, em
                                                             psiquiatra e psicanalista ingls
textos que aludiam  mitologia de Shiva ou de
Kali. Dez anos depois, essa tradio caiu em                     Membro do Grupo dos Independentes*, es-
desuso,  medida que desaparecia a primeira                  pecialista em psiquiatria infantil e diretor da
gerao psicanaltica indiana, deixando lugar                prestigiosa Tavistock Clinic de Londres, John
para o florescimento das teses da escola inglesa:            Bowlby foi uma das maiores figuras do movi-
Melanie Klein* ou Wilfred Ruprecht Bion*.                    mento psicanaltico ingls. Nascido em uma
Assim, o ensino de Bose no contribuiria para                famlia da grande burguesia inglesa, era neto de
fundar na ndia, ainda colonial, uma escola de               um clebre jornalista do Times. Depois de ser
psicanlise semelhante  do Japo*.                          aluno interno desde a idade de oito anos, foi
                                                             para a escola naval de Dartnorth, depois es-
 Girndrashekhar Bose, "A new technique of psychoa-         tudou psicologia e cincias naturais em Cam-
nalysis", IJP, 1931, 387-8; "A new theory of mental life",   bridge. Trabalhou em seguida como professor,
Samiska, 3, 1949, 108-205; "The genesis and adjus-           antes de voltar  universidade para fazer estudos
tment of the Oedipus wish", ibid., 3, 1949, 222-40;
"Nature of the wish", ibid., 5, 1951, 203-14  C.V.
                                                             mdicos.
Ramana, "On the early history and development of                 Analisado por Joan Riviere*, supervisiona-
psychoanalysis in India", Journal of the American Psy-       do por Nina Searl e depois por Ella Sharpe*,
choanalytic Association, 12, 1964, 110-34  T.C. Sihna,      tornou-se membro titular da British Psychoana-
"Development of psycho-analysis in India", IJP, 47,
                                                             lytical Society (BPS), s vsperas da Primeira
1966, 427-39  Samiska, 9, 1955, "Special issue on
Bose"  Sudhir Kakar, "Consideraes sobre a histria        Guerra Mundial. Melanie Klein* supervisionou
e o desenvolvimento da psicanlise na ndia", Revista        sua primeira anlise de crianas. Em 1940, co-
Internacional da Histria da Psicanlise, 2 (1989), Rio      meou a publicar trabalhos sobre a criana, sua
de Janeiro, Imago, 1992, 439-44.                             me e seu ambiente, opondo-se  perspectiva
                                                             puramente psquica da escola kleiniana. Bowl-
 ANTROPOLOGIA; FANON, FRANTZ; GR-BRETA-
                                                             by atribua efetivamente uma grande importn-
NHA; HISTRIA DA PSICANLISE; TOTEM E TABU.
                                                             cia  realidade social, e levava em conta a
                                                             maneira pela qual a criana fora educada. Trs
                                                             noes marcaram o seu ensino: o apego, a per-
Bouvet, Maurice (1911-1960)                                  da, a separao. Depois de 1950, deu-lhes um
psiquiatra e psicanalista francs                            contedo cada vez mais biolgico, comparando
   Como Daniel Lagache*, Sacha Nacht*,                       o comportamento humano ao das espcies ani-
Franoise Dolto* e Jacques Lacan*, Maurice                   mais. Nesse aspecto, seu interesse constante
86      Brasil

pela etologia e pela biologia segundo Darwin,            de mos e se colocou na rbita da economia
foi acusado de ignorar o inconsciente*.                  norte-americana. Esse longo perodo de indus-
    A partir de 1948, dirigiu uma pesquisa sobre         trializao foi marcado pela expanso de uma
as crianas abandonadas ou privadas de lar,              oligarquia fundiria, vivendo em imensas
cujos resultados tiveram repercusso mundial             fazendas e reinando  maneira de senhores feu-
sobre o tratamento psicanaltico do hos-                 dais sobre uma populao analfabeta.
pitalismo*, da depresso anacltica* e das carn-            Calcado na monarquia inglesa, o regime
cias maternas, assim como sobre a preveno              parlamentar instaurado em 1824, sob o reinado
das psicoses*. Em 1950, tornou-se assessor da            do imperador Pedro I, foi derrubado em 1889
ONU, onde suas teses tiveram papel consider-            por uma junta que deps o seu filho Pedro II.
vel na adoo de uma carta mundial dos direitos          Soberano intelectual e liberal, este enfrentara a
da infncia. Um ano depois, publicou o seu               guerra civil, vencera as revoltas e abolira a
relatrio Maternal Care and Mental Health, no            escravatura, sem se preocupar com o perigo que
qual mostrou que a relao afetiva constante             o poder militar representava. Proclamada a Re-
com a me  um dado fundamental para a sade             pblica, um regime presidencial foi instaurado,
psquica da criana.                                     enquanto a Constituio de 1891, impregnada
    No fim da vida, sempre apaixonado por                da filosofia de Auguste Comte (1798-1857), se
biologia e etologia, redigiu a biografia de              baseava em dois princpios: ordem e progresso.
Charles Darwin (1809-1882). Estudou minu-                Ao mesmo tempo em que imitava o modelo
ciosamente a primeira infncia do sbio, suas            americano, fundado no presidencialismo e no
doenas psicossomticas, suas dvidas e de-              federalismo, o novo regime brasileiro atualiza-
presses, pintanto um vigoroso quadro da poca           va a tradio do caudilhismo latino-americano.
vitoriana e das reaes que a revoluo darwi-               Como aconteceu por toda a parte, a ins-
niana suscitou na Inglaterra.                            taurao do Estado republicano deu origem ao
 John Bowlby, Cuidados maternos e sade mental
                                                         asilo moderno e foi acompanhada de uma refor-
(Genebra, 1951), S. Paulo, Martins Fontes, 1995, 3      mulao da clnica da loucura*. Em 1890, o an-
ed.; Apego e perda -- Apego, Perda, Separao, 3         tigo Hospcio Pedro II foi transformado em hos-
vols. (Londres, 1969, 1973, 1980), S. Paulo, Martins     pital de alienados, na mais pura tradio do
Fontes, 1990, 1993, 1993; Charles Darwin. Une nou-
                                                         gesto de Philippe Pinel (1745-1826). A fora
velle biographie (Londres, 1990), Paris, PUF, 1995 
Eric Rayner, Le Groupe des "Indpendants" et la psy-     da nosologia francesa foi tal, durante cerca de
chanalyse britannique (Londres, 1990), Paris, PUF,       uma dcada, que a expresso "estar Pinel" pas-
1994  Pearl King e Eric Rayner, "Obituary of John       sou, na linguagem corrente, a significar "estar
Bowlby", IJP, 74, 4, 1993, 823-8  Jeremy Holmes, John
                                                         louco".
Bowlby and Attachment Theory, Londres, Routledge,
1993.                                                        Foi nesse terreno da primeira reforma asilar
                                                         que Juliano Moreira*, baiano e negro, introdu-
 AUBRY, JENNY; DOLTO, FRANOISE; FREUD,                  ziu a nosografia alem. Amigo de Emil Kraepe-
ANNA; GR-BRETANHA; PSICANLISE DE CRIAN-                lin* e excelente conhecedor da Europa, foi no-
AS; SPITZ, REN; WINNICOTT, DONALD WOODS.               meado professor na Universidade da Bahia com
                                                         a idade de 23 anos, e tomou em 1903 a direo
                                                         do Hospital Nacional de Alienados do Rio de
Brasil                                                   Janeiro. Nove anos depois, graas  sua ao, a
    Primeiro pas de implantao do freudismo*           psiquiatria se tornou uma especialidade autno-
na Amrica Latina, o Brasil teve uma histria            ma no currculo dos estudos mdicos. Fundador
muito diferente da Argentina*. Longe de imitar           da psiquiatria brasileira moderna, Juliano Mo-
a Europa, de apropriar-se de seus modelos,               reira foi tambm o primeiro no pas a adotar e
transformando-os e depois desenvolvendo uma              divulgar a doutrina freudiana.
poltica macia de imigrao, o Brasil s se                 Entre 1914 e 1930, vrios psiquiatras contri-
emancipou da colonizao portuguesa em 1822              buram para a implantao progressiva do freu-
para colocar-se, at 1918, sob o domnio econ-          dismo no Rio de Janeiro, em So Paulo e na
mico da Gr-Bretanha*. Depois, o pas mudou              Bahia: Arthur Ramos*, Jlio Porto-Carrero* e
                                                                                        Brasil     87

Francisco Franco da Rocha*. De modo geral,           Marcondes* passou da psiquiatria para a psica-
esses autores se mostraram menos crticos em         nlise, tornando-se assim o primeiro freudiano
relao  psicanlise* do que seus colegas dos       do Brasil, antes mesmo de ser analisado. Esteta
outros pases, em especial a propsito da sexua-     francfilo e letrado, devotou-se de corpo e alma
lidade. Todavia, adaptaram a doutrina vienense        causa freudiana, desejando fazer de So Paulo
s suas preocupaes teraputicas e fizeram          o centro nevrlgico da nova doutrina.
dela um componente essencial de uma concep-              Em 24 de outubro de 1927, com Franco da
o culturalista e organicista da loucura.           Rocha, fundou em So Paulo a Sociedade Bra-
    Na verdade, como mostrou Gilberto Freyre         sileira de Psicanlise (SBP), primeira sociedade
(1900-1987), o Brasil oferecia duas faces anta-      psicanaltica do continente latino-americano.
gnicas, sob os traos de uma organizao pa-        No ano seguinte, criou a Revista Brasileira de
triarcal rgida, herdada da colonizao. De um       Psicanlise, que foi acolhida com entusiasmo
lado, florescia o ideal humanista da Igreja          por Sigmund Freud*, enquanto em 17 de junho,
positivista que, durante todo o sculo XIX,          Moreira instalava no Rio de Janeiro, com Por-
inspirou os grandes reformadores; do outro la-       to-Carrero e na presena de Marcondes, uma
do, perdurava a cultura negra misturada  bran-      filial da SBP. Mas logo esta, depois de reco-
ca, proveniente da mestiagem dos escravos e         nhecida pela IPA no Congresso de Oxford em
de seus senhores, do senhor e de sua concubina,      1929, teve muita dificuldade em se desenvol-
do homem branco e da mulher negra, e tambm          ver. Nessa poca, a anlise didtica era obriga-
do criado negro e da jovem branca. Dessas            tria, e Marcondes, que no fizera anlise, no
misturas, decorria o lugar peculiar atribudo       podia formar alunos. Alis, em 1931, teve que
sexualidade* (e mais tarde  bissexualidade*) na     enfrentar um charlato chamado Maximilien
sociedade brasileira, na qual a atrao dos filhos   Langsner, que obteve grande sucesso em So
de famlia pelas mulheres de cor provinha das        Paulo. Esse homem usava um nome vienense e
relaes ntimas da criana branca com a sua         praticava a telepatia*, proclamando-se o melhor
ama negra: uma sexualidade carnal e sensual.         discpulo de Freud. Temendo que esse es-
    Assim como sob a monogamia surgia sem-           petculo desacreditasse a psicanlise nos meios
pre a prtica mal encoberta da poligamia, sob o      mdicos, Marcondes pediu a Freud que des-
monotesmo perfilavam-se todas as variantes          mascarasse o impostor, o que ele logo fez.
de um politesmo selvagem. Assim, quando foi             A crise de 1929 acarretou a runa das plan-
instaurado, por um homem negro, um saber             taes de caf e um deslocamento da federao
psiquitrico que visava arrancar a loucura das       brasileira. A rpida urbanizao favoreceu um
prticas mgicas, a clivagem se repetiu. A nova      movimento de independncia das cidades e a
ordem no conseguiu pr termo s antigas tra-        desconfiana dos proprietrios rurais em rela-
dies teraputicas do transe e das possesses       o ao poder central. Em 1930, Getlio Vargas,
(o candombl).                                       apoiado pelo exrcito, foi eleito presidente. To-
    A psiquiatria foi, portanto, a disciplina da     mou o caminho do fascismo e reprimiu a rebe-
cultura branca, embora tratasse de doentes no-      lio paulista de 1932, da qual participou Mar-
brancos. A psicanlise acompanhou seus pas-          condes. Cinco anos depois, proclamou o Estado
sos. Reservada inicialmente, no perodo entre        Novo, espcie de Estado mussoliniano, apoiado
as duas guerras,  grande burguesia paulista e a     em uma Constituio que suprimia as eleies.
mdicos preocupados em seguir as regras orto-            Apesar da criao em 1934, por Georges
doxas da International Psychoanalytical As-          Dumas (1866-1946), de uma universidade, na
sociation* (IPA), ela se tornou, na segunda me-      qual Claude Lvi-Strauss e Fernand Braudel
tade do sculo, ao desenvolver-se no Rio e em        (1902-1985) formaram estudantes nas novas
outras cidades, a nova psicologia das classes        cincias humanas, Marcondes, ligado essen-
mdias brancas, formadas na universidade. To-        cialmente ao meio mdico, teve grande dificul-
mou o lugar da antiga sociologia comtiana.           dade para instaurar um movimento psicanalti-
    Enquanto os pioneiros do freudismo conti-        co brasileiro. Fugindo do nazismo*, os freudia-
nuavam sendo clnicos hospitalares, Durval           nos da Europa se exilavam nos Estados Uni-
88     Brasil

dos*, na Gr-Bretanha e na Argentina, e no         discpulos, analistas paulistas atravessaram o
tinham a possibilidade de se instalar em um pas    Atlntico para receber uma formao na British
onde reinava o fascismo. Ren Spitz* planejou       Psychoanalytical Society (BPS). Foi o caso de
vir em 1932, mas a revolta paulista impediu as      Virgnia Bicudo. Depois de cinco anos em Lon-
comunicaes e, cansado de esperar notcias,        dres, ela trouxe as suas experincias clnicas da
partiu para o Colorado.                             Tavistock Clinic e as ensinou. Por sua vez,
    Quanto aos americanos do norte, estes tam-      Frank Philips, voltando de Londres, realizou no
bm no desejavam se deslocar para o sul, a fim     seio do grupo paulista seminrios tcnicos e
de formar terapeutas. Depois de muitos esfor-       tericos de inspirao kleiniana.  influncia
os, Marcondes conseguiu que Adelheid Koch*         compsita argentina acrescentou-se ento a do
viesse. Analisada no quadro do prestigioso Ber-     kleinismo*, nitidamente mais implantado em
liner Psychoanalytisches Institut* (BPI), ela       So Paulo do que no Rio. Posteriormente, Wil-
apresentava todas as garantias para iniciar os      fred Ruprecht Bion, convidado por Philips, se
brasileiros na anlise didtica*. Em 1936, ins-     tornaria um dos mestres do grupo paulista.
talou-se em So Paulo, e foi assim a primeira           Enquanto a psicanlise se desenvolvia, outra
psicanalista didata do Brasil. O prprio Mar-       instituio comeou a desempenhar um papel
condes no hesitou em deitar-se em seu div.        importante em So Paulo: o Instituto Sedes
Outro imigrante logo se reuniu ao grupo: Frank      Sapientiae. Criado em 1933 por membros da
Julien Philips. Australiano, fez anlise com        Igreja* catlica, promoveu, para os psiclogos
Adelheid Koch, antes de se formar em Londres        no-mdicos, uma formao terica e clnica. A
com Melanie Klein* e Wilfred Ruprecht Bion*.        partir de 1970, tornou-se um centro de difuso
    Combatendo junto aos Aliados durante a          das prticas psicoteraputicas e em 1976, por
Segunda Guerra Mundial, os contingentes do          iniciativa de Regina Schnaiderman (1923-
exrcito brasileiro achavam ilgico lutar na Eu-    1985), Isaias Melshon e Roberto Azevedo, in-
ropa pela democracia, enquanto suportavam o         tegrou s suas atividades um Instituto de For-
fascismo em seu pas. Em 1945, Getlio Vargas       mao Psicanaltica, no qual se reuniram dis-
teve que se afastar do poder e a democracia foi     sidentes da SBPSP e independentes, hostis tanto
restabelecida. A partir de ento, o movimento        rigidez dos critrios da IPA quanto a seu
psicanaltico brasileiro comeou a integrar-se     conservadorismo poltico.
IPA e a aceitar os seus processos de normatiza-         No Rio de Janeiro, a instalao do movimen-
o, construindo-se, ao mesmo tempo, segundo        to foi gravemente perturbada pelo conflito entre
o modelo federalista em vigor no pas.              Mark Burke* e Werner Kemper*, ex-colabora-
    Inicialmente, foi como potncia latino-ame-     dor de Matthias Heinrich Gring*, e mandatrio
ricana que ele se organizou, por ocasio do I       de Ernest Jones* para desenvolver a psicanlise
Congresso Interamericano de Mdicos, realiza-       no Brasil. Em 1953, Kemper fundou a Socie-
do no Rio de Janeiro em 1946. Vrios psica-         dade Psicanaltica do Rio de Janeiro (SPRJ),
nalistas argentinos apresentaram ento os seus      reconhecida pela IPA em 1955. Quanto aos
trabalhos de psicossomtica*. Os brasileiros se     partidrios de Burke, depois de violentos
reuniram a eles e concluiu-se um acordo para        confrontos, associaram-se a seus colegas for-
favorecer o intercmbio entre os paulistas, os      mados na Argentina para criar um outro grupo
cariocas e os portenhos (Buenos Aires). Assim,      em 1959: a Sociedade Brasileira de Psicanlise
comeou a corrente de influncia clnica da         do Rio de Janeiro (SBPRJ). Entre os seus quinze
escola argentina sobre as filiaes* brasileiras.   fundadores estavam Alcyon Baer Bahia, Danilo
    Dissolvida em 1944, a SBP se reconstituiu       Perestrello, Marialzira Perestrello, Mrio Pa-
em um grupo puramente paulista, a Sociedade         checo de Almeida Prado.
Brasileira de Psicanlise de So Paulo (SBPSP),         Em Porto Alegre, Mrio Martins constituiu
reconhecida pela IPA no Congresso de Ams-           em 1947 a Sociedade Psicanaltica de Porto
terdam de 1951. A partir desse momento, houve       Alegre (SPPA), reconhecida pela IPA em 1963.
intercmbios entre Londres e So Paulo. Apai-       Formado em Buenos Aires por Angel Garma*,
xonados pelas teorias de Melanie Klein e seus       voltou com sua mulher Zaira Bittencourt, esta
                                                                                         Brasil     89

analisada por Celes Crcamo*. Formada na             pulares no Rio, o regime tomou o caminho da
prtica da psicanlise de crianas* por Arminda      ditadura.
Aberastury*, ela introduziu no Brasil essa tra-          Como faria depois da instaurao do terror
dio clnica. A SPPA evoluiu para o kleinismo       de Estado na Argentina, a direo da IPA deci-
e o neokleinismo, principalmente depois da           diu permanecer "neutra": nem condenao nem
visita de Herbert Rosenfeld* em 1974. Conser-        interveno em qualquer sentido. Segundo a
vou entretanto suas relaes privilegiadas com       tradio dos anos 1930, o objetivo era sempre
os argentinos.                                       o mesmo: no dar nenhum pretexto a qualquer
    Essa expanso da psicanlise nas duas gran-      poder para proibir a prtica da psicanlise.
des cidades rivais, So Paulo e Rio, assim como          Ao contrrio do nazismo, a ditadura brasi-
na regio sul do pas, permitiu ao freudismo         leira no tocou na liberdade de associao, sal-
brasileiro recuperar progressivamente o seu          vo quando se tratava de perseguir associaes
atraso em relao ao movimento argentino, sem        polticamente engajadas contra ela. Alis, nun-
com isso fazer emergir em suas fileiras chefes       ca evoluiu para o terror de Estado organizado,
de escola de estatura comparvel  dos argenti-      que a Argentina conheceu entre 1976 e 1985.
nos. Deve-se dizer que, desde a origem, a situa-     Conseqentemente, ela foi mais recalcada pela
o no Brasil era diferente. Efetivamente, a         instituio psicanaltica do que o terror argenti-
escola brasileira, na ausncia de um slido mo-      no. Em seu livro sobre o nazismo e a psican-
vimento migratrio durante o perodo entre as        lise, Chaim Samuel Katz mostra de que maneira
duas guerras, no tivera "fundador" que fosse        a Associao Brasileira de Psicanlise* "acei-
ao mesmo tempo didata e terico. E ela s            tou" o regime.
encontrou a sua identidade, de uma cidade               Nos artigos que publicou durante vinte anos,
outra, ao filiar-se ora  escola inglesa ou a        a Revista Brasileira de Psicanlise teve o cui-
algumas correntes norte-americanas, ora  es-        dado de apresentar sempre a psicanlise como
cola argentina. Entretanto, desenvolveu uma          uma cincia pura, sem relao com os campos
grande atividade clnica em diversas institui-       social e poltico. Se um autor queria falar de
es (hospitais e centros de sade). A partir de     poltica ou de histria, tinha que se contentar
1960, com a criao da COPAL (futura FE-             em evocar o passado mais longnquo: o exlio
PAL*) e depois da Associao Brasileira de           de Freud em Londres sim, mas o genocdio ou
Psicanlise* (ABP, 1967), ela se tornou, ao lado     a poltica de "salvamento" da psicanlise em
da escola argentina, a segunda grande potncia       Berlim, no. Impossvel aludir  atualidade,
do freudismo latino-americano.                       salvo para travesti-la habilmente. Assim, fala-
    Em 31 de maro de 1964, depois de dez anos       va-se de luto, de separao, de castrao*, de
de governo social-democrata, durante os quais        angstia, para significar exlio, afastamento,
o presidente Kubitschek inaugurou a cidade de        sofrimento etc. Atravs dessa censura volunt-
Braslia, o marechal Castello Branco, apoiado        ria, nunca se fazia referncia, de perto ou de
pelos Estados Unidos e pelas classes mdias,         longe, a um militante preso ou a um psicanalista
derrubou o presidente Joo Goulart e instaurou       torturado ou perseguido. Assim, esses fatos s
uma ditadura que duraria vinte anos. Durante         existiam no imaginrio dos indivduos e, se
seis meses, o novo poder se entregou a uma           necessrio, podia-se invocar o "sigilo profis-
violenta represso. Centenas de intelectuais,        sional". Nesse aspecto, a conceitualidade klei-
dirigentes polticos e sindicalistas foram presos,   niana, centrada nos processos de violncia in-
expulsos, privados de seus direitos civis e mui-     trapsquicos, foi explorada para apresentar a
tas vezes torturados. Orgulhosos de constru-        represso poltica como uma histria de objeto
rem um Brasil novo, os tecnocratas, os conser-       mau* ou de identificao projetiva*.
vadores e os anticomunistas afirmaram sua                A partir de 1973, o caso Kemper perturbou
vontade de governar sem o sufrgio das massas.       de novo as duas sociedades psicanalticas do
Os partidos foram dissolvidos, as foras arma-       Rio de Janeiro. Antes de sua partida para a
das reorganizadas. Quatro anos depois, aps a        Alemanha* em 1967, o ex-colaborador de G-
sublevao dos estudantes e das rebelies po-        ring analisara um dos didatas mais ativos da
90     Brasil

SPRJ, Leo Cabernite. Tornando-se presidente        durante dois anos, a lhe conferir o ttulo de
de sua sociedade e ligado de perto ao poder         membro titular, ao passo que ela tinha teorica-
militar, este teve depois, como aluno em forma-     mente direito a ele, considerando-se o seu cur-
o, de 1971 a 1974, um mdico-tenente da           rculo. Pior ainda, o conselho de administrao
polcia militar, Amlcar Lobo Moreira da Silva      da SBPRJ se transformou em tribunal interno
(1939-1997), torturador a servio da ditadura.      para acus-la de delao, envolvendo a pessoa
Esse fato foi revelado por um artigo annimo,       de um inocente (Amlcar Lobo), de plgio dos
mas perfeitamente exato, publicado no jornal        textos de seus colegas e enfim de falta de res-
clandestino Voz Operria. Helena Besserman          peito para com Bion: uma verdadeira degrada-
Vianna, psicanalista de extrema esquerda e          o pblica. Posteriormente, Helena foi vtima
membro da outra sociedade (SBPRJ), tomou            de uma tentativa de atentado fracassada, por
conhecimento desse artigo. Suas opinies radi-      parte da polcia brasileira, prevenida por Aml-
cais eram conhecidas, pois ela se expressara        car Lobo. Ela s foi definitivamente reabilitada
publicamente na SBPRJ, por ocasio de um            em 1980, quando um ex-prisioneiro revelou
debate com Bion, perguntando-lhe se ele acei-       publicamente as atrocidades de Amlcar Lobo.
taria analisar um torturador. A assemblia res-     Entretanto, nem Cabernite, nem Zimmermann,
pondera que essa pergunta era "provocadora,         nem Lebovici prestaram contas de seu erro
nem cientfica nem construtiva". Helena enviou      durante esse perodo, o que provocou uma ver-
a Marie Langer* o artigo da Voz Operria,           dadeira tempestade nas fileiras das duas socie-
acompanhado do nome e do endereo de Caber-         dades do Rio.
nite escritos a mo, para que ela o publicasse em       Durante todos os anos da ditadura e depois,
sua revista Cuestionamos e pedisse  direo da     o freudismo continou a florescer no solo brasi-
IPA a abertura de um inqurito. Marie Langer        leiro. Em 1975, foi criada em Recife a Socie-
mandou imediatamente o artigo a Serge Lebo-         dade Psicanaltica do Recife (SPR), reco-
vici, presidente da IPA, e a diversos res-          nhecida pela IPA em 1988, enquanto em Bras-
ponsveis do movimento psicanaltico. Depois,       lia, no mesmo ano, Virgnia Bicudo organizava
publicou-a em sua revista. Marie Langer tinha       o Grupo de Estudos Psicanalticos de Braslia
um peso considervel na IPA, em razo de sua        (GEPB), reconhecido em 1995. Enfim, em Pe-
notoriedade e de seu engajamento contra todas       lotas, psicanalistas vindos da Argentina e do Rio
as ditaduras latino-americanas.                     fundaram em 1987 a Sociedade Psicanaltica de
    Preocupado com as conseqncias desse ca-       Pelotas (SPP), reconhecida em 1995.
so para a imagem da psicanlise no mundo,               Mas o fenmeno mais notvel dessa poca
Lebovici preveniu Cabernite e David Zimmer-         foi a formidvel expanso, sobretudo no Rio de
mann, membro da SPPA (Porto Alegre) e presi-        Janeiro, So Paulo e Porto Alegre, de todas as
dente da COPAL, que lhe respondeu logo que          escolas de psicoterapias*. Ligadas ao desenvol-
essa publicao era "um jornaleco que no me-       vimento do ensino universitrio da psicologia
recia respeito". Depois, com Cabernite e outros     clnica* e ao da anlise leiga*, essas escolas
membros da SPRJ, enviou por carta circular um       tiveram como caracterstica, ao contrrio de
desmentido categrico: "A afirmao annima         instituies semelhantes em outros pases, fi-
do jornal clandestino  inteiramente falsa e sem    liar-se a quase todas as diversas correntes do
nenhum fundamento." No s os autores nega-         freudismo, seja atravs dos crculos de psicolo-
vam qualquer participao de Amlcar Lobo           gia das profundezas, ligados a Igor Caruso*,
nesse gnero de atividade, como tambm acu-         seja atravs do lacanismo, ou ainda em refern-
savam o denunciante de fomentar um compl           cia a uma filiao direta ou longnqua: Sandor
para desestabilizar a psicanlise brasileira, no    Ferenczi*, por exemplo, ou ainda Ana Katrin
momento em que ia se realizar o IV Congresso        Kemper* e Iracy Doyle*.
da ABP.                                                 Nesse contexto, o lacanismo se implantou
    Identificada por uma percia grafolgica,       maciamente na universidade, em particular
Helena Besserman Vianna pagou caro a denn-         nos departamentos de psicologia, trazendo as-
cia do torturador. Sua sociedade recusou-se,        sim uma cultura e uma identidade para a profis-
                                                                                        Brasil    91

so de psicoterapeuta, abandonada pela ABP,          rios. MDMagno deu ao lacanismo carioca uma
que tendia, apesar de algumas excees, como         furiosa expanso, e o seu Colgio foi o ncleo
Ins Besouchet (1924-1991) por exemplo, a            inicial de todos os grupos formados depois no
favorecer os mdicos. Da a ecloso paralela de      Rio, por cises* sucessivas. Evoluindo para um
mltiplos grupos, com diversas orientaes: 26       culturalismo radical, Magno se apresentava co-
no Rio, 27 em So Paulo, 7 no Rio Grande do          mo fundador da psicanlise "abrasileirada".
Sul, 9 em Minas Gerais, ao todo 70 associaes,      Segundo a nova genealogia, Freud era o bisav,
reunindo cerca de 1.500 psicoterapeutas. Essa        Lacan o av, MDMagno o pai.
cifra elevava o efetivo total dos psicanalistas          No fim dos anos 1980, Jacques-Alain Miller
freudianos a mais de 3.000.                          mobilizou outros grupos, impondo-lhes uma
    Esses nmeros mostram bem que a implan-          disciplina maior e uma viso mundialista da
tao do freudismo no Brasil continuou sendo         prtica psicanaltica. Obteve mais sucesso em
um fenmeno urbano, tendo a psicanlise uma          So Paulo do que no Rio e, em 1995, conseguiu
expanso considervel nas grandes metrpoles         fundar a Escola Brasileira de Psicanlise (EBP),
e nas cidades da regio oriental do pas (de norte   ligada  Association Mondiale de Psychana-
a sul), de Recife a Pelotas. Em outras palavras,     lyse* (AMP) e composta de 88 membros e 230
a despeito de um desenvolvimento de massa            membros de sees, distribudos em cinco ci-
ligado  expanso da psicologia clnica, a psi-      dades ou regies: um total de 318 terapeutas.
canlise s atingia pois, aps 70 anos de exis-      Diante dos 5.000 membros da Associao Bra-
tncia, a burguesia branca. Alm disso,  medi-      sileira (IPA) e dos 1.200 outros psicanalistas
da que ela se desenvolvia, feminilizou-se forte-     distribudos pelos diferentes grupos, a EBP
mente: 70% dos efetivos so femininos.               conseguia assim ocupar uma posio confort-
    Formado em Estrasburgo, com Lucien Isral        vel no campo do freudismo brasileiro, sem to-
e Moustapha Safouan, no quadro da cole Freu-        davia conseguir integrar os outros lacanianos
dienne de Paris* (EFP), da qual se tornou mem-       (cerca de 400).
bro em 1973, Durval Checchinato voltou a                 Em Porto Alegre, outro veterano da EFP,
Campinas, onde ensinou a obra de Jacques La-         Contardo Calligaris, soube situar em uma pers-
can* no departamento de filosofia. Em 1975,          pectiva de descentralizao radical o conjuntos
com Lus Carlos Nogueira (de So Paulo), Jac-        dos pequenos grupos lacanianos, sob a gide da
ques Laberge e Ivan Correa (do Recife), Chec-        Associao Freudiana (AF). Esta no professa
chinato fundou o primeiro crculo lacaniano do       nenhum dogma.
Brasil, o Centro de Estudos Freudianos (CEF),            Na Bahia, Emilio Rodrigu, grande figura
completamente independente da EFP. O CEF             da escola argentina, realizou uma experincia
prosseguiu depois com suas atividades no Re-         nica em seu gnero. Dissidente da APA, prxi-
cife, enquanto em Campinas eram criadas as           mo de Marie Langer e do grupo Plataforma,
bases de uma futura sociedade. Esse grupo,           recebera sua formao didtica em Londres,
oriundo da tradio erudita dos jesutas, ma-        com Paula Heimann* e Melanie Klein. Ins-
nifestou independncia de esprito em relao        talando-se em 1974 no corao da civilizao
aos dogmas, evitou submeter-se ao centralismo        brasileira, entre a negritude e a colonizao,
parisiense e manteve-se afastado das extrava-        casado com uma sacerdotisa da aristocracia do
gncias xamansticas do clebre lacaniano bra-       candombl, apaixonado por historiografia*,
sileiro dos anos 1970, Magno Machado Dias,           conseguiu reunir em torno de si um grupo com-
mais conhecido sob o nome de MDMagno.                posto de todas as tendncias do freudismo. As-
    Analisado por Lacan em alguns meses, esse        sim, foi um dos raros psicanalistas, talvez o
esteta carioca culto e sedutor, professor de se-     nico, a estabelecer uma ponte entre todas as
miologia na universidade, fundou em 1975,            culturas do continente latino-americano, sem
com Betty Milan, outra analisada de Lacan, o         ceder nem ao universalismo abstrato, nem ao
Colgio Freudiano do Rio de Janeiro (CFRJ).          culturalismo desenfreado. Da o seu lugar de
Tornou-se o terapeuta dos membros de seu gru-        mestre socrtico, nico na psicanlise neste fim
po, que freqentavam seu div e seus semin-         do sculo XX.
92      Brentano, Franz

   No fim dos anos 1990, o nmero total dos                da, jogava xadrez com uma paixo extremada e
psicanalistas atinge cerca de 4.000, para uma              manifestava um talento inaudito pelos jogos
populao global de 155 milhes de habitantes,             de palavras mais sofisticados. Em 1879, publi-
ou seja, cerca de 25 psicanalistas por milho de           cou sob o pseudnimo de Aenigmatis uma an-
habitantes (dez para a IPA).                               tologia de adivinhaes, que provocou entu-
                                                           siasmo nos sales vienenses e estimulou muitas
 Gilberto Freyre, Casa-grande & Senzala: formao         imitaes.
da famlia brasileira sob o regime da economia patriar-        Confrontado com o progresso das cincias
cal (S. Paulo, 1933), Rio de Janeiro, Record, 1992, 28
ed.  Jurandir Freire Costa, Histria da psiquiatria no    positivas, Brentano procurou simultaneamente
Brasil, Rio de Janeiro, Documentrio, 1976  Alain         salvar a filosofia, que acreditava ameaada de
Rouqui, L'tat militaire en Amrique latine, Paris,       desaparecimento, e desenvolver uma psicologia
Seuil, 1986  Chaim S. Katz (org.), Psicanlise e nazis-   emprica e descritiva fundada na anlise das
mo, Rio de Janeiro, Taurus, 1985  Marialzira Peres-
trello, Histria da Sociedade Brasileira de Psicanlise
                                                           modalidades reais da conscincia*, excluindo
do Rio de Janeiro. Suas origens e fundao, Rio de         todo subjetivismo. Nesse aspecto, teve grande
Janeiro, Imago, 1987; Encontros: psicanlise, Rio de       influncia sobre Edmund Husserl (1859-1938),
Janeiro, Imago, 1992  Joel Birman (org.), Percursos       seu aluno. O seu ensino, que tambm foi segui-
na histria da psicanlise, Rio de Janeiro, Taurus, 1988
 Roberto Yutaka Sagawa, Os inconscientes no div da
                                                           do por Sigmund Freud e Thomas Masaryk
histria, Campinas, IFCH-Unicamp (tese de antropolo-       (1859-1937), teve um grande papel no desen-
gia), 1989; Redescobrir as psicanlises, S. Paulo, Lem-    volvimento do pensamento psicanaltico. De
mos, 1991  Srvulo Figueira, Nos bastidores da psi-       fato, Brentano foi o renovador das teses de
canlise. Sobre poltica, histria e dinmica do campo
psicanaltico, Rio de Janeiro, Imago, 1991  Anurio
                                                           Johann Friedrich Herbart*. Foi adepto da psi-
Brasileiro de Psicanlise. Ensaios, publicaes, calen-    cologia emprica e acrescentou  noo her-
drio, resenhas, artigos, Rio de Janeiro, Relume Du-       bartiana de representao a de intencionali-
mar, 1991  lbum de famlia. Imagens, fontes e idias    dade (ato pelo qual a conscincia se orienta para
da psicanlise em So Paulo, S. Paulo, Casa do Psi-
clogo, 1994  Ceclia Coimbra, Guardies da ordem:
                                                           um objeto). Ao lado dos fenmenos de re-
uma viagem pelas prticas psi no Brasil do "milagre",      presentao, distinguia duas categorias de
Rio de Janeiro, Oficina do Autor, 1995  Helena Bes-       atos mentais: os juzos, que permitem afir-
serman Vianna, No conte a ningum... Rio de Janeiro,      mar ou negar a existncia de um objeto re-
Imago, 1994  Cntia vila de Carvalho, Os psiconautas
do Atlntico Sul. Uma etnografia da psicanlise, tese
                                                           presentado, e as atitudes de dio ou de amor,
de doutorado em cincias sociais, Unicamp, 1995.           que tornam indiscernveis o querer e o senti-
                                                           mento.
                                                               Longe de fundar uma escola monoltica co-
Brentano, Franz (1838-1917)                                mo fizera Herbart, incitou seus alunos a inova-
filsofo alemo                                            rem em todas as direes. E seu ensino abalou
    Brentano renunciou ao sacerdcio em 1871,              realmente o domnio do herbartismo rgido so-
aps a proclamao, por Pio IX, do dogma da                bre a filosofia austraca.
infalibilidade papal. Depois, no deixou de en-                Em 1873, o jovem Sigmund Freud, estudan-
carnar os valores do catolicismo reformado da              te na Universidade de Viena, preparou seu dou-
Bomia. De famlia ilustre, marcada pelo ro-               torado de filosofia sob a direo de Brentano.
mantismo, era sobrinho do poeta Clemens                    Freud contestava o seu tesmo e lhe opunha o
Brentano (1778-1842), que se casara com Bet-               materialismo de Ludwig Feuerbach (1804-
tina von Arnim (1785-1859). Professor em Vie-              1872). Em uma carta de 13 de maro, relatou ao
na* durante vinte anos (de 1874 a 1894), com               amigo e condiscpulo Eduard Silberstein* uma
algumas interrupes, Franz Brentano foi ami-              cena de pugilato filosfico, durante a qual Bren-
go das personalidades mais requintadas da in-              tano foi obrigado por seus alunos a lutar pelas
telligentsia vienense, entre as quais Theodor              teses herbartianas. O grande professor saiu ven-
Meynert*, Josef Breuer*, e Theodor Gomperz                 cedor do combate, mas aceitou orientar a tese
(1832-1912). Casou-se com Ida von Lieben,                  de Freud. Entretanto, este se decepcionou com
irm de Anna von Lieben*, futura paciente de               a filosofia em geral, que julgava demasiado
Sigmund Freud*. Indiferente  roupa e  comi-              "especulativa", e em particular com Brentano,
                                                                                        Breuer, Josef      93

por quem tinha uma admirao muito relativa.                 mtodo catrtico para o tratamento da histeria,
Escolheu ento o caminho da fisiologia, encar-               redigiu com ele a obra inaugural da histria da
nada em Viena por Ernst von Brcke*. Assim,                  psicanlise*, Estudos sobre a histeria*, e foi
Brentano foi para Freud um mestre modelo,                    mdico de Bertha Pappenheim* que, sob o
cujo ensino lhe indicou o caminho a seguir, para             nome de Anna O., se tornaria o caso princeps
conciliar a especulao e a observao.                      das origens do freudismo*. A imagem desse
    Posteriormente, Freud no reconheceu os                  brilhante clnico vienense que tratou de Franz
emprstimos conceituais que fizera  doutrina                Brentano*, Johannes Brahms (1833-1897),
de Brentano, nem o que lhe devia. Limitar-se-ia              Marie von Ebner-Eschenbach e seus colegas
a afirmar, a respeito da filosofia, que, depois de           mdicos, o ginecologista Rudolf Chrobak
ter sido atrado pela especulao, renunciara                (1843-1910), Theodor Billroth e o prprio
corajosamente a ela. Em uma carta a Wilhelm                  Freud, foi deformada por Ernest Jones*. Em sua
Fliess* de 2 de abril de 1896, escreveu: "Nos                biografia de Freud, este o apresentou como um
meus anos de juventude, aspirei apenas aos                   terapeuta tmido e estpido, incapaz de com-
conhecimentos filosficos, e agora estou a pon-              preender a questo da sexualidade*. Foi neces-
to de realizar esse desejo, passando da medicina             srio esperar pelo trabalho de Albrecht Hirsch-
para a psicologia." Isso queria dizer que, no                mller, historiador da medicina de lngua
esprito de Freud, a nova psicologia da qual                 alem, para que fosse escrita a histria das
pretendia ser o fundador era o equivalente de                relaes entre Freud e Breuer, longe das lendas
uma filosofia. Da a recusa constante do saber               da historiografia* oficial.
filosfico, que ele manifestaria de novo em suas                 Filho de um rabino conhecido por suas opi-
relaes com Ludwig Binswanger*. Entretan-                   nies liberais, Josef Breuer no era crente nem
to, em 1905, no livro Os chistes e sua relao               praticante. Como Freud, permaneceu ligado 
com o inconsciente*, citou o nome de seu antigo              sua judeidade*, sem proclamar nenhuma f e
mestre, evocando a famosa antologia de adivi-                defendendo os princpios da assimilao. Em
nhaes de 1879.                                             1859, orientou-se para a medicina, tornando-se
                                                             aluno de Karl Rokitansky (1804-1878), de Josef
 Franz Brentano, La Psychologie du point de vue             Skoda, de Ernst von Brcke* e, enfim, do as-
empirique (Viena, 1874), Paris, Aubier, 1944  Revue
Internationale de Philosophie, nmero especial sobre
                                                             sistente deste, Johann von Oppolzer (1808-
Brentano, 78, 1966  Sigmund Freud, Os chistes e sua         1871), notvel clnico geral, do qual foi por sua
relao com o inconsciente (1905), ESB, VIII, 1-266;         vez assistente. Foi no laboratrio de fisiologia
GW, VI, 1-185; SE, VIII; Paris, Gallimard, 1988; La          de Ewald Hering, rival de Brcke, que comeou
Naissance de la psychanalyse (Londres, 1950), Paris,
PUF, 1956  Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcou-
                                                             a trabalhar no problema da respirao. Essa
verte de l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeur-     formao fez dele o herdeiro de uma tradio
banne, 1974), Paris, Fayard, 1994  William M. Johns-        positivista, originria da escola de Hermann
ton, L'Esprit viennois. Une histoire intellectuelle et so-   von Helmholtz*, pela qual se realizava a unio
ciale, 1848-1938 (N. York, 1972), Paris, PUF, 1985 
Andr Haynal, " la recherche des sources intellec-
                                                             de uma medicina de laboratrio de estilo ale-
tuelles de Freud -- philosophiques et biologiques --        mo e da medicina hospitalar vienense. Tornan-
travers ses correspondances", in id. (org.), La Psycha-      do-se clebre em 1868 por um estudo sobre o
nalyse: cent ans dj (Londres, 1994), Genebra,              papel do nervo pneumogstrico na regulao da
Georg, 1996, 229-55.
                                                             respirao, estudou depois os canais semicircu-
                                                             lares do ouvido interno.
                                                                 Em fins dos anos 1870, Breuer passou da
Breuer, Josef (1842-1925)                                    fisiologia para a psicologia e se interessou,
mdico austraco                                             como muitos mdicos dessa poca, pela hipno-
   Como Wilhelm Fliess*, Josef Breuer de-                    se*, que experimentou em sua paciente Bertha
sempenhou um papel considervel na vida de                   Pappenheim.
Sigmund Freud*, entre 1882 e 1895. De certa                      Em 1877, ficou conhecendo Freud, e este fez
forma, foi uma figura paterna para o jovem                   seus cursos sobre doenas renais no instituto de
sbio. Ajudou-o financeiramente, inventou o                  fisiologia. Logo ambos se tornaram ntimos;
94     Brill, Abraham Arden

Breuer interessou-se pelo futuro do amigo mais      dade de Breuer de reconhecer a existncia da
jovem e o aconselhou a prosseguir sua carreira.     primazia da sexualidade na neurose e compre-
Alm disso, emprestou-lhe uma quantia consi-        ender a transferncia amorosa de Anna O. Da
dervel, necessria  sua instalao como m-       a verso de uma pretensa gravidez psquica,
dico de cidade. Breuer e Freud tinham em sua        retomada por Jones a propsito do trmino do
clientela doentes mentais, principalmente mu-       tratamento da jovem.
lheres histricas da boa burguesia vienense.            Em 1925, por ocasio da morte de Breuer,
Assim, comearam a tornar-se, cada um a seu         Freud dirigiu ao filho deste uma carta de con-
modo, especialistas em distrbios psquicos, o      dolncias. Em sua resposta, publicada por Al-
que os levou a assinarem juntos, em 1895, os        brecht Hirschmller, Robert Breuer lhe garantiu
famosos Estudos sobre a histeria. Entretanto,       o interesse que seu pai dedicara durante toda
desde 1891, muitas discordncias j tinham sur-     vida  sua obra. Tranqilizado, Freud confessou
gido entre eles, a propsito de suas concepes     ento a seu correspondente que se enganara
de cincia, de histeria e de sexualidade. Na        durante anos: "O que voc disse sobre a relao
verdade, Freud se orientava cada vez mais para      de seu pai com os meus trabalhos mais tardios
a elaborao de uma obra terica absolutamente      era novidade para mim e agiu como um blsamo
inovadora para a poca, enquanto Breuer conti-      sobre um ferimento doloroso que nunca se fe-
nuava um erudito clssico, ligado aos princpios    chara."
da fisiologia de seu tempo. Sem desconhecer os
progressos de Freud e sem negar principal-           Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, vol.1
mente a importncia do papel da sexualidade na      (N. York, 1953), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Henri F.
                                                    Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'inconscient
gnese da neurose, no compartilhava sua po-        (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris,
sio sobre a seduo* e no separava a psico-      Fayard, 1994  Erna Lesky, Die Wiener medizinische
logia da fisiologia. A esse respeito, a evoluo    Schule im 19. Jahrhundert, Graz, Verlag Bhlau, 1965
das relaes entre Freud e Fliess, perturbada por    William M. Johnston, L'Esprit viennois. Une histoire
                                                    intellectuelle et sociale, 1848-1938 (1972), Paris, PUF,
sua discordncia sobre a questo da bissexuali-     1985  Albrecht Hirschmller, Josef Breuer (Berna,
dade*, teve papel importante na ruptura entre       1978), Paris, PUF, 1991  Frank J. Sulloway, Freud,
os dois.                                            Biologist of the Mind, N. York, Basic Books, 1979.
    Sua amizade terminou na primavera de
1896. Entretanto, o conflito no foi nem violen-
to nem definitivo, como aconteceu com Fliess        Brill, Abraham Arden (1874-1948)
e depois com Carl Gustav Jung*. Constrangido        psiquiatra e psicanalista americano
por ter que pagar sua dvida financeira, Freud          Nascido em Kanczuga, na Galcia, e origi-
comportou-se com Breuer como um filho in-           nrio do Imprio Austro-Hngaro, Abraham
transigente e revoltado. Suspeitou que ele qui-     Arden Brill era de famlia judia. Seu pai, oficial
sesse tutel-lo e acusou-o de ser oportunista e     do exrcito imperial, deu-lhe uma educao
no ter a coragem de defender idias novas. Na      militar, embora ele sonhasse ser mdico. Sua
realidade, Breuer no tinha as mesmas am-           me, ao contrrio, queria fazer dele um rabino.
bies que Freud. No procurando fazer nome         Depois de permanecer em muitas regies da
na histria das cincias nem tornar-se profeta de   Europa central e aprender vrias lnguas, entre
uma doutrina que iria abalar o mundo, mostrou-      as quais o hebraico, emigrou com a idade de 15
se sempre favorvel  psicanlise*. E mesmo         anos para os Estados Unidos*. Nessa ocasio,
que no compartilhasse as opinies de Freud e       tinha entrado em violento conflito com o pai.
seus discpulos, continuou ligado ao ex-amigo,      Com dificuldade, conseguiu estudar no City
cujo gnio percebera.                               College de Nova York e depois no Columbia
    Quanto a Freud, este ps termo  sua rebe-      College and Surgeons, e foi obrigado a dar aulas
lio durante a sua auto-anlise*, reconstruindo     de lnguas estrangeiras e de bandolim para pa-
o passado  luz do presente. Foi assim que          gar os estudos. Inicialmente aluno de Adolf
comeou a explicar a seus prximos que a rup-       Meyer*, voltou  Europa para ir a Zurique e
tura tinha tido como motivo central a incapaci-     estudar psiquiatria com Eugen Bleuler* e Carl
                                                                    Brcke, Ernst Wilhelm von             95

Gustav Jung* na Clnica do Hospital Burghlz-       tas e em associar permanentemente a psiquia-
li. Ali, encontrou Ernest Jones* e Karl Abra-       tria, a neurologia e a psicanlise*.
ham*, tornando-se rapidamente um ortodoxo
                                                     Abraham Arden Brill, Psychoanalisis. Its Theories and
da teoria freudiana.                                Practical Applications, Filadlfia, W.B. Sanders, 1913;
    Em 1908, depois de assistir ao primeiro         "The adjustment of the Jew to the american environ-
congresso da International Psychoanalytical         ment", in Mental Hygien, 2, 1918; Fundamental Con-
Association* (IPA) em Salzburgo, foi a Viena*       ceptions of Psychoanalysis, N. York, Harcourt, Brace
                                                    & Co., 1921; "Unconscious insight; some of its manifes-
para encontrar-se com Sigmund Freud*, com           tations", in IJP, 10, 1929, 145-61  Clarence Oberndorf,
quem comeou uma anlise. Desejoso de divul-        "A.A. Brill", in Psychoanalytic Quarterly, 17, 1948, 149-
gar sua obra na lngua inglesa, o mestre lhe deu    54  May E. Romm, "Abraham Arden Brill, 1874-1948",
autorizao para traduzir seus livros. O resulta-   in Franz Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grot-
                                                    jahn (orgs.) A histria da psicanlise atravs de seus
do foi desastroso e as nove tradues feitas por    pioneiros (N. York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981
Brill tiveram que ser inteiramente revistas por      Paula S. Fass, A.A. Brill, Pioneer and Prophet, tese
James Strachey*. Elas continham um grande           de cincias polticas, Columbia University, 1969  Paul
                                                    Roazen, Freud e seus discpulos (N. York, 1971), S.
nmero de contra-sensos e adaptaes fantasis-
                                                    Paulo, Cultrix, 1978  L'Introduction de la psychanalyse
tas. No s Brill no dominava suficientemente      aux tats-Unis. Autour de James Jackson Putnam
o ingls para ser um bom tradutor, mas tambm       (Londres, 1968), Nathan G. Hale (org.), Paris, Galli-
tinha na cabea a idia de que era preciso adap-    mard, 1978, 17-86  Nathan G. Hale, Freud and the
                                                    Americans: The Beginning Psychoanalysis in the Uni-
tar a doutrina vienense ao esprito americano.      ted States, 1876-1917, t.1 (1971), N. York, Oxford,
Foi Jones quem interveio junto a Freud, para        Oxford University Press, 1995.
que tomasse conscincia desses erros.
    Grande organizador e bom propagandista do        CHISTES E SUA RELAO COM O INCONSCIENTE,
freudismo*, Brill suplantou o esprito pioneiro     OS; QUESTO DA ANLISE LEIGA, A; TRADUO
                                                    (DAS OBRAS DE SIGMUND FREUD).
de James Jackson Putnam*, transformando de
cima a baixo o ideal freudiano. Reduziu sua
doutrina a uma tcnica mdica pragmtica,
adaptadora e normativa. Foi com esse esprito       Brcke, Ernst Wilhelm von
que fundou em 1911 a prestigiosa New York
                                                    (1819-1892)
Psychoanalytic Society (NYPS) e ops-se for-        mdico e fisiologista alemo
temente, e contra Freud,  admisso dos psica-          Nascido em Berlim, esse prussiano rgido e
nalistas no-mdicos. Assim, foi um dos gran-       anticlerical, de sorriso "mefistoflico" e cabe-
des adversrios da anlise leiga*. Durante certo    leira ruiva, segundo Moriz Benedikt*, foi aluno
tempo, esteve em posio de rivalidade com          de Johannes Peter Mller (1801-1858), antes de
Jones, que acabava de fundar a American Psy-        se instalar em Viena em 1849. Na ctedra de
                                                    fisiologia e no instituto que fundou, tornou-se
choanalytic Association* (ApsaA), depois reu-
                                                    o mais brilhante representante da escola positi-
niu-se a ele, tornando-se assim, at a morte, o
                                                    vista, antivitalista, organicista e mecanicista
principal organizador do movimento psicanal-
                                                    originria do ensino de Hermann von Helm-
tico americano.
                                                    holtz* e de Emil Du Bois-Reymond (1818-
    Depois de defend-lo, afirmando que, se ele     1896). Assim, Brcke merece ser considerado
se americanizara completamente, no deixava         o fundador da fisiologia na ustria. Atravs
de ser um "bom rapaz", Freud tentou destitu-lo,    dele e de seus alunos, efetuou-se a unio da
apoiando Horace Frink*. Essa poltica foi um        medicina de laboratrio alem e da medicina
fracasso: afetado por distrbios psicticos, este   hospitalar vienense. Em 1879, foi o primeiro
terminou a vida em um hospital psiquitrico.        reitor de confisso protestante nomeado para a
    Clnico arguto e habituado a todas as formas    Universidade de Viena*. Autor de vrios es-
de comunicao de massa, Brill dedicou todas        tudos sobre anatomia, cujo ensino desenvolveu
as suas obras a trabalhos de difuso do freudis-    graas ao microscpio, conquistou a celebri-
mo. No hesitou em intervir na imprensa, em         dade por seus trabalhos sobre a fisiologia do
apresentar-se ao grande pblico e aos jornalis-     olho, a digesto e a voz. Pouco  vontade na
96      Burghlzli, Clnica do

sociedade vienense, no deixou de louvar essa               MEYNERT, THEODOR; MOISS E O MONOTESMO;
cidade, que considerava como a metrpole                    RECALQUE; TOTEM E TABU.
oriental da cultura germnica.
    Depois de se iniciar no darwinismo, atravs
dos cursos de Carl Claus*, Sigmund Freud*                   Burghlzli, Clnica do
passou seis anos, de 1876 a 1882, estudando                  BLEULER, EUGEN; FOREL, AUGUST; SUA.
fisiologia no laboratrio de Brcke. Considera-
va esse grande mdico como seu mestre vene-
rado -- uma "figura paterna", diriam os bigra-             Burke, Mark (1900-1975)
fos -- a ponto de dar a seu quarto filho o nome             mdico e psicanalista ingls
de Ernst e descrever na Interpretao dos so-                   Judeu nascido na Polnia, Mark Burke emi-
nhos a impresso inesquecvel que causou nele               grou para a Gr-Bretanha* para fugir do nazis-
o seu "olhar": "Brcke ficara sabendo que eu                mo* e integrou-se  British Psychoanalytical
cheguei vrias vezes atrasado ao laboratrio.               Society (BPS) logo antes da Segunda Guerra
Um dia, ele veio na hora em que eu deveria                  Mundial. Fez sua formao didtica com James
chegar e me esperou. [...] O essencial estava em            Strachey*. Depois de ter sido major no Royal
seus terrveis olhos azuis, cujo olhar me aniqui-           Army Medical Corps, foi enviado por Ernest
lou. Aqueles que se lembram dos olhos maravi-               Jones* ao Brasil*, com a misso de organizar
lhosos que o mestre conservou at a velhice e               no Rio de Janeiro uma sociedade psicanaltica
que o viram encolerizado podem imaginar fa-                 de acordo com as normas da International Psy-
cilmente o que senti ento."                                choanalytical Association*(IPA). Chegou ao
    Foi no instituto de Brcke que Freud ficou              Rio em abril de 1948 e foi assim, doze anos
conhecendo Ernst von Fleischl-Marxow* e Jo-                 depois de Adelheid Koch*, o segundo freudiano
sef Breuer*, e foi em contato com essa medicina             europeu a desembarcar no pas. Logo de sada,
positivista que se afastou definitivamente da fi-           no suportou o modo de vida carioca. A cidade
losofia, e principalmente do ensino de Franz                do Rio era muito ruidosa para ele, que temia a
Brentano*, orientando-se para uma concep-                   sua agitao. Para cmulo da infelicidade, al-
o ao mesmo tempo darwinista e helmholtzia-                guns meses mais tarde, em dezembro, reuniu-se
na da psicologia,  qual anexaria o modelo                  a ele o psicanalista alemo Werner Kemper*,
herbartiano.                                                cujo itinerrio era o oposto do seu. Adepto das
                                                            teses nazistas, Kemper colaborara durante toda
 Siegfried Bernfeld, "Freud's earliest theories and the    a guerra com Matthias Heinrich Gring*, no
school of Helmholtz", Psychoanalytic Quarterly, XIII,       Instituto Alemo de Pesquisa Psicolgica e Psi-
1944, 341-62; "Freud's scientific beginnings", American     coterapia (dito Instituto Gring), ao qual aderi-
Imago, vol.6, 1949, 163-96; "Sigmund Freud M.D.", IJP,
vol.32, 1951, 204-17;  Siegfried Bernfeld e Suzanne
                                                            ram os psicoterapeutas favorveis ao regime
Cassirer-Bernfeld, "Freud's first year in practice, 1886-   hitlerista.
1887", Bulletin of the Menninger Clinic, vol. 16, 1952,         Durante algum tempo, os dois trabalharam
37-49  Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund            juntos no Rio de Janeiro, formando alunos e
Freud, vol.1 (N. York, 1953), Rio de Janeiro, Imago,        supervisionando cada um os analisandos do
1989  Erna Lesky, Die Wiener medizinische Schule im
10. Jahrhundert, Graz, Verlag Bhlau, 1965  William
                                                            outro. Mas logo surgiram os conflitos. Burke
M. Johnston, L'Esprit viennois. Une histoire intellec-      no tolerava o comportamento tirnico de Kem-
tuelle et sociale, 1848-1938 (1972), Paris, PUF, 1985      per, e este acusou Burke de ser louco e arrastar
Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.           os alunos para sua loucura. Em 1953, cansado
York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995          de tudo, Burke voltou para a Inglaterra. Alguns
Lucille B. Ritvo, A influncia de Darwin sobre Freud (N.
York, 1991), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Pierre Morel
                                                            de seus alunos o seguiram para concluir a sua
(org.), Dicionrio biogrfico psi (Paris, 1996), Rio de     formao, enquanto outros preferiram procurar
Janeiro, Jorge Zahar, 1997.                                 outro analista em So Paulo ou em Buenos
                                                            Aires, na Argentina*. Quando voltaram ao Bra-
 CHARCOT, JEAN MARTIN; HAECKEL, ERNST;                      sil, desejaram formar seu prprio grupo. Da a
HERBART, JOHANN FRIEDRICH; INCONSCIENTE;                    criao, em 1959, da Sociedade Brasileira de
                                                                                Burrow, Trigant        97

Psicanlise do Rio de Janeiro (SBPRJ), reco-            Quando Anna ficou sozinha em Londres,
nhecida pela IPA e rival da outra sociedade, que    depois da morte do pai, Dorothy decidiu ins-
fora fundada por Kemper em 1953 e tambm            talar-se perto dela, em Maresfield Gardens, em
reconhecida pela IPA em 1955, sob o nome de         uma casa vizinha. As duas amigas no se deixa-
Sociedade Psicanaltica do Rio de Janeiro           ram mais e participaram juntas da criao, rea-
(SPRJ).                                             lizao, gesto e organizao da famosa
    Burke morreu nos Estados Unidos*, onde          Hampstead War Nursery. Sua amizade era to
teve um papel importante na difuso das idias      intensa que elas se consideravam irms gmeas
kleinianas. Deixou uma forte marca de sua pas-      e acabaram assemelhando-se fisicamente. Essa
sagem pelo Rio, onde foi reconhecido, pos-          amizade parecia suspeita e algumas ms lnguas
teriormente, como um mestre humanista e libe-       as acusaram de lesbianismo, o que para Anna
ral, que soube opor-se ao autoritarismo de um       era a suprema injria. De fato, ela achava que a
antigo nazista, cujo passado ele ignorava.          homossexualidade* era uma doena, ao contr-
                                                    rio de seu pai. Quando Dorothy morreu, logo
 Helena Besserman Vianna, No conte a ningum...   depois de um colquio, Anna ficou inconsol-
Rio de Janeiro, Imago, 1994.                        vel e continuou a ocupar-se de seus filhos como
                                                    se pertencessem  sua prpria famlia. Essa
 ALEMANHA; JUDEIDADE.                               histria foi, de qualquer forma, uma bela aven-
                                                    tura de amor e fidelidade recprocos.
                                                     Elizabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma biografia
Burlingham, Dorothy, ne Tiffany                    (N. York, 1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Michael
(1891-1979)                                         Burlingham, The Last Tiffany, N. York, Atheneum,
psicanalista americana                              1989.

    O destino de Dorothy Burlingham se con-
funde com o da famlia Freud e com a histria
da psicanlise.* Nascida em Nova York, era          Burrow, Trigant (1875-1950)
neta de Charles Tiffany, clebre fundador das       psiquiatra e psicanalista americano
lojas Tiffany & Co. Em 1914, com a idade de             Membro fundador da American Psychoana-
23 anos, acometida por uma fobia*, tornou-se        lytic Association* (APsaA), Trigant Burrow
esposa de um cirurgio, Robert Burlingham,          teve um destino original na histria do movi-
que logo mergulhou em crises de psicose ma-         mento psicanaltico americano, que prefigurou
naco-depressiva*. Ela o deixou, levando seus       em muitos aspectos o de Heinz Kohut*. Anali-
quatro filhos e foi para Viena, onde comeou        sado por Ernest Jones* em 1909, consagrou-se
uma anlise com Theodor Reik*.                      essencialmente  elucidao clnica dos dis-
    Anna Freud* assumiu ento a responsabi-         trbios ligados ao narcisismo* primrio. De-
lidade pelas crianas e seu tratamento. Estas       pois de 13 anos de prtica psicanaltica, tornou-
foram verdadeiramente adotadas pela famlia         se cada vez mais atento  questo das impli-
Freud, como alis tambm sua me. Dorothy           caes sociais da neurose*.
comeou logo a ser analisada por Sigmund                Estimulado pelo desafio que lhe lanava
Freud*, que a estimulou a se tornar psicanalista.   Clarence Shields, um de seus analisandos, acei-
Foi ao escut-la, e no durante o tratamento de     tou "inverter os papis" e enfrentar, na posio
sua filha, que ele compreendeu a fora dos          de paciente, a questo da autoridade transferen-
vnculos que os uniam e que davam a Anna uma        cial emanada do analista. Essa experincia o
famlia de adoo: "Nossa simbiose com uma          levou, em 1923, a inventar a psicanlise de
famlia americana (sem marido), escreveu ele        grupo. Apesar de todos os seus esforos, no
em janeiro de 1929, cujos filhos minha filha        conseguiu convencer Sigmund Freud* da
analisa, cresce a cada dia, de modo que com-        validade da experincia grupal. Este, em uma
partilhamos com eles as nossas necessidades no      carta a Otto Rank de 23 de julho de 1924, o
vero." Ernstl, filho de Sophie Halberstadt*, se    tratou, alis, de "idiota incurvel", o que mos-
tornaria o melhor amigo de Bob Burlingham.          trava, mais uma vez, a sua ferocidade em rela-
98      Bychowski, Gustav

o aos terapeutas americanos e suas inovaes          curso de filosofia em Heidelberg, depois orien-
tcnicas. Em 1933, foi excludo da APsaA e              tou-se para a psiquiatria, trabalhando com Eu-
orientou-se definitivamente para a dinmica de          gen Bleuler* na Clnica do Hospital Burghlzli.
grupo.                                                  Em 1923, instalou-se em Viena*, e publicou
                                                        uma obra de inspirao fenomenolgica, Meta-
 Trigant Burrow, The Biology of Human Conflict, N.
York, Macmillan, 1937; Preconscious Foundations of
                                                        fsica e esquizofrenia. Analisou-se com Sieg-
Human Experience, N. York, Basic Books, 1964  E.       fried Bernfeld* e participou dos trabalhos da
James Lieberman, La Volont en acte. La Vie et l'oeu-   Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV),
vre d'Otto Rank (N. York, 1985), Paris, PUF, 1991      da qual foi membro entre 1931 e 1938. Como
Malcolm Pines, "La Dissension dans son contexte", in
Topique, 57, 191-207.                                   Ludwig Jekels*, foi um dos pioneiros da psica-
                                                        nlise* na Polnia, antes de emigrar para os
 BION, WILFRED RUPRECHT; ESTADOS UNIDOS;                Estados Unidos*, onde aderiu  New York Psy-
PSICODRAMA; PSICOTERAPIA; TCNICA PSICANAL-            choanalytic Society (NYPS). Interessou-se par-
TICA; TERAPIA DE FAMLIA.                               ticularmente pela terapia das psicoses* e mais
                                                        tarde por seu tratamento pelo LSD, alm de
                                                        redigir muitos artigos e vrios livros.
Bychowski, Gustav (1895-1972)
psiquiatra e psicanalista americano                      Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psy-
                                                        choanalyse. Die Mitglieder der psychologischen Mitt-
   Nascido em Varsvia em uma famlia judia,
                                                        woch-Gesellschaft und der Wiener psychoanalytis-
Gustav Bychowski era filho de um psiquiatra             chen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord,
conhecido: Sigmund Bychowski. Depois de es-             1992  Jose Barchillon, "Gustav Bychowski (1895-
tudar em Varsvia e em So Petersburgo, fez um          1972)", IJP, vol.54, 1873, 112-3.
                                               C
Ccilie M., caso                                         os asilos em hospitais. Depois de perder a bata-
 ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; LIEBEN, ANNA                  lha, abriu uma clnica particular.
VON.                                                         Durante toda a sua permanncia, Jones no
                                                         ficaria inativo. Foi aos Estados Unidos, organi-
                                                         zou congressos e encontros, fundou em 1911,
Canad                                                   com Gerald Stinson Glassco*, a American Psy-
                                                         choanalytic Association* (APsaA).
    Nesse imenso territrio sucessivamente co-
                                                             Entretanto, logo teve que enfrentar uma te-
lonizado pela Frana*, pela Inglaterra e pelos
Estados Unidos*, constitudo em federao a              mvel campanha, organizada por uma das ligas
partir de 1867, e profundamente marcado pela             puritanas do Novo Mundo, que assimilavam o
religio catlica e pelos diversos ramos da Igre-        freudismo a um demnio sexual e a psicanlise
ja reformada (presbiterianos, luteranos, batis-          a uma prtica de devassido e de libertinagem.
tas, metodistas), a psicanlise* nunca se implan-        Em fevereiro de 1911, em uma carta a Freud e
tou to bem como nos outros pases do conti-             em outra a James Jackson Putnam*, contou os
nente americano. Quando Ernest Jones* deixou             boatos extravagantes a seu respeito. Tornando-
a Gr-Bretanha* no incio do sculo, para se             se um verdadeiro bode expiatrio, era acusado
instalar em Toronto, na provncia de Ontrio,            de todo tipo de crimes imaginrios. Alguns
com a esperana de desenvolver o freudismo*,             diziam que ele incitava os jovens a se mas-
s teve fracassos. Em uma carta a Sigmund                turbarem, distribua postais obscenos ou man-
Freud*, datada de 10 de dezembro de 1908, fez            dava adolescentes de boa famlia para as pros-
uma descrio assustadora da atmosfera que               titutas...
reinava nessa cidade obcecada por um conser-                 Logo, com o apoio de Sir Robert Alexander
vadorismo mesquinho.                                     Falconer (1867-1943), ministro da Igreja pres-
    Foi a convite de Charles Kirk Clarke*, ex-           biteriana e presidente da Universidade de To-
aluno de Emil Kraepelin*, que Jones foi ao               ronto, foi processado na justia pela clebre
Canad. Ali, dirigiu o primeiro consultrio ex-          Emma Leila Gordon (1859-1949), primeira
terno de psiquiatria, onde foi introduzida a pr-
                                                         mulher mdica do Canad e membro da
tica da psicanlise. Duas correntes dividiam
                                                         puritanssima Women's Christian Temperance
ento os adeptos da medicina psquica, a pri-
                                                         Union. Ela o acusava de ter abusado sexual-
meira de inspirao neurolgica, a segunda de
orientao psiquitrica. Diante de Clarke,               mente de uma mulher histrica, delirante, ho-
alienista, especialista no tratamento das psi-           mossexual e morfinmana, de quem ele estava
coses*, partidrio da nosografia alem e favo-           tratando e a quem ingenuamente dera dinheiro
rvel  autonomia da psiquiatria, Donald                 para que parasse de chantage-lo. O caso trans-
Campbell Meyers*, ex-aluno de Jean Martin                formou-se em tragdia quando a paciente quis
Charcot* e clnico das neuroses*, preconizava a          matar Jones com um revlver, tentando suici-
integrao da medicina mental ao hospital ge-            dar-se depois. Essa mulher foi banida de Ont-
ral. Foi criticado por Edward Ryan, que criara           rio, depois de ter sido assim manipulada por
uma comisso governamental para transformar              uma liga de virtude.
                                                    99
100     Canad

     preciso dizer que esse gnero de histrias   sucedeu a Jones, no em Toronto, mas em Mon-
acontecia freqentemente com Jones. Falava de      treal, para se estabelecer depois em Chicago.
sexualidade com uma incrvel brutalidade, mul-         Foi graas  atividade de um imigrante de
tiplicava as suas relaes carnais com as mu-      origem espanhola, Miguel Prados*, que se ins-
lheres e se interessava pelas prostitutas. Em      tituiu a primeira organizao freudiana em
Londres, j fora acusado por duas crianas, das    Montreal, ou seja, na parte francfona do pas.
quais tratava, de ter pronunciado palavras obs-    Este comeou reunindo em sua casa internos do
cenas, e em Toronto a sua reputao tornou-se      Allan Memorial Institute of Psychiatry, que
rapidamente muito m. Efetivamente, vivia          dependia da famosa Universidade McGill, e
sem ser casado com uma jovem morfinmana           formou assim um pequeno cenculo, a partir do
e excntrica, Loe Kann, que Freud alis anali-     modelo da Sociedade Psicolgica das Quartas-
saria. Tambm era um alvo ideal para os purita-    Feiras*. No outono de 1946, criou o Crculo
nos de todos os gneros, hostis ao pretenso        Psicanaltico de Montreal, que convidou
pansexualismo* freudiano: "A atitude em rela-      conferencistas dos Estados Unidos: Edith Ja-
o s questes sexuais no Canad, escreveu a      cobson* e Sandor Lorand, notadamente. Essas
Putnam, quase no tem equivalente na histria      reunies permitiram formar psicanalistas, e
do mundo: a lama, a repugnncia, o nojo so os     tambm divulgar o freudismo entre os traba-
nicos termos que podem exprimi-la."               lhadores em sade mental.
    Impedido de prosseguir seu trabalho nesse          A partir de 1948, Prados recebeu o apoio do
clima de caa s bruxas, Jones pensou instalar-    padre Nol Mailloux. Dominicano erudito e
se em Boston. Efetivamente, em 1910, Putnam        catlico de esquerda, este abriu um largo cami-
                                                   nho para a psicanlise, fundando na Universi-
pensava em lhe obter um posto em Harvard,
                                                   dade de Montreal um instituto de psicologia.
hesitando ao mesmo tempo em apoi-lo, em
                                                   Ali, ministrou um ensino rigoroso, a partir de
razo de sua tendncia excessiva a falar de
                                                   referncias tanto francesas quanto anglfonas.
sexualidade diante de um pblico reticente. Fi-
                                                   Fez com que seus alunos estudassem, alm dos
nalmente, a tentativa no se concretizou e Jones
                                                   textos de Freud, as obras de Otto Fenichel*.
deixou o Canad durante o vero de 1912, para
                                                   "Que eu saiba, escreveu Andr Lussier, no h
se instalar em Londres. Durante muitos anos,
                                                   dvida de que Mailloux  o primeiro homem,
considerou que sua partida tinha posto fim a
                                                   um religioso, que implantou eficazmente a psi-
qualquer forma de experincia psicanaltica no     canlise freudiana no Canad [...]. Sua f reli-
territrio canadense. No estava totalmente er-    giosa no o levava a negar o que quer que fosse
rado, mesmo que nunca tenha sido verdadeira-       essencial em Freud [...]. Nos anos 1945-1950,
mente um "fundador", ao contrrio do que pen-      era preciso ter uma audcia e uma coragem fora
sava.                                              do comum para ensinar abertamente a psican-
    Com efeito, at 1945, enquanto se produzia     lise em uma universidade pontifical, que tinha
um grande movimento de migrao dos freudia-        sua frente um reitor eclesistico e um chance-
nos da Europa para os Estados Unidos, a psica-     ler cardeal."
nlise no se implantou no Canad. E raros             Mailloux era realmente audacioso, pois a
foram os mdicos, como Hugh Carmichael,            experincia vivida por Jones no incio do scu-
Grace Baker ou Douglas Noble, que emigraram        lo, em um pas marcado ao mesmo tempo pelo
para se formar no estrangeiro. Foi o caso de       puritanismo protestante e por um catolicismo
Clifford Scott, que foi a Londres em 1927 e        fantico, ameaava renovar-se, como constatou
aderiu  British Psychoanalytical Society          em 1950 a sua aluna Gabrielle Clerk, quando
(BPS), depois de se formar com Melanie Klein*.     procurou obras de Freud na biblioteca do Par-
A maioria deles retornaria a seu pas, para de-    lamento, em Ottawa: "Apresentei-me tranqi-
senvolver a psicanlise segundo os critrios da    lamente ao bibliotecrio-chefe, homem encan-
International Psychoanalytical Association*        tador, erudito, gentil, que, horrorizado, me res-
(IPA). Durante esse tempo, David Slight* fez a     pondeu que os textos de Freud no podiam ser
viagem em direo inversa. Vindo da Europa,        postos nas mos de uma moa; alis, eles se
                                                                                    Canad       101

encontravam em uma seo reservada,  qual          dos psicanalistas ou  questo da anlise leiga*.
s certos leitores tinham acesso. Depois, fiquei    Mas se a batalha estava no auge nas velhas
sabendo que essa seo era reservada aos livros     sociedades filiadas  IPA (francesa, inglesa e
referentes ao erotismo e  pornografia."            americana), ela no atingia tanto os grupos
    Durante todo esse perodo, o Crculo Psica-     ainda no filiados no perodo entre as duas
naltico de Montreal desenvolveu uma intensa        guerras, que tinham toda uma gerao* de atra-
atividade e foi marcado por uma srie de mi-        so em relao aos outros pases de implantao
graes diversas. Muitos conferencistas ameri-      freudiana. Ora, para eles, a integrao  IPA era
canos se deslocaram novamente, entre os quais       absolutamente indispensvel, porque s ela
Richard Sterba*, Edward Bibring*, Ren Spitz*       conferia um rtulo, tanto doutrinrio quanto
e principalmente Gregory Zilboorg*, enquanto        profissional.
imigrantes se instalavam no Canad, e cana-             Em 1952, cinco membros do Crculo de
denses, formados no estrangeiro, voltavam ao        Montreal decidiram fundar a Sociedade dos
pas.                                               Psicanalistas Canadenses (SPC): Theodore
    Entre estes, encontravam-se terapeutas que      Chentrier, Eric Wittkover, Georges Zavitzia-
tinham feito cursos na Sociedade Psicanaltica      nos, Alastair MacLeod e Bruce Ruddick. Todos
de Paris (SPP). Diante do pensamento norte-         pertenciam  IPA, atravs de uma adeso seja 
americano, eles introduziram em Montreal uma        SPP, seja  BPS, seja  New York Psychoana-
prtica clnica diferente, de inspirao ao mes-    lytic Society (NYPS), e decidiram logo adotar
mo tempo francesa, europia e kleiniana. De         o bilingismo. A SPC acrescentou portanto a
certa forma, tornar-se-iam os "fundadores" da       seu ttulo o de Canadian Society of Psychoana-
Sociedade Psicanaltica Canadense. Foi o caso       lysis (CSP) e filiou-se como grupo de estudos 
de Theodore Chentrier*, de Jean Baptiste Bou-       BPS. Assim, obtinha um reconhecimento por
langer, brilhante intelectual de cultura simulta-   parte da IPA.
neamente francesa, inglesa e americana, e no-           Mas esse procedimento foi desaprovado pe-
tvel clnico kleiniano, apaixonado por histria,   la poderosa APsaA, que reivindicou soberania
de Andr Lussier, ou ainda de Roger Dufresne,       sobre o conjunto dos grupos norte-americanos
que elaborou a primeira grande bibliografia das     e no admitiu que os canadenses pudessem ser
obras de Freud, conhecida no mundo inteiro, e       filiados a uma sociedade europia, mesmo an-
enfim de Camille Laurin, que se tornaria minis-     glfona. Apesar da interveno de Miguel Pra-
tro da sade no Quebec. Em 1951, Georges            dos junto  direo da IPA, a APsaA obteve
Zavitzianos, terapeuta de origem grega, tam-        ganho de causa e a BPS renunciou a patrocinar
bm formado na SPP, reuniu-se ao crculo, ao        a filiao da SPC, que passou ao controle ame-
qual Eric Wittkover, de origem berlinense e         ricano. Em outubro de 1952, para pr fim 
analisado na BPS, j se integrara um ano antes.     confuso e facilitar o processo de integrao,
    Atravs desse cosmopolitismo, no qual se        Prados pronunciou a dissoluo do Crculo de
misturavam todas as correntes do freudismo          Montreal. A partir de ento, os canadenses per-
moderno -- kleinismo, Self Psychology*, Ego         deram toda liberdade e de certa forma foram
Psychology*, medicina psicossomtica*, clas-        colonizados pela cultura e pela poltica das
sicismo  francesa -- comeavam a desenhar-         associaes norte-americanas.
se os contornos de um movimento psicanaltico           No ano seguinte, iniciaram-se discusses
propriamente canadense. Foi ento que os            com a APsaA, mas surgiram novas dificul-
membros do Crculo se empenharam em um              dades, e assim pediu-se a cada membro da
processo de reconhecimento pela IPA, que iria       Sociedade canadense que solicitasse uma filia-
mergulh-los em terrveis querelas ins-             o a ttulo individual. Entretanto, em outubro
titucionais.                                        de 1953, manifestando a sua integrao  Com-
    De fato, nessa data a IPA se tornara uma        monwealth, os canadenses recusaram-se a se
imensa mquina burocrtica atacada, no mundo        submeter ao procedimento imposto e reafirma-
inteiro, por fenmenos de cises* em cadeia,        ram sua vontade de filiao  BPS. Ao mesmo
provocados por conflitos referentes  formao      tempo, decidiram transformar-se oficialmente
102     Canad

em sociedade bilngue e tomar o nome de So-          de muitas escolas de psicoterapias*. O nmero
ciedade Canadense de Psicanlise/Canadian            de seus membros no progredia, em relao 
Psychoanalytic Society (SCP/CPS). Mailloux e         fabulosa expanso das sociedades do norte e do
Chentrier, os dois eminentes fundadores, foram       sul da Amrica. Em 1995, para uma populao
obrigados a pedir demisso de seus postos de         de 29 milhes e meio de habitantes, o Canad
responsabilidade. No sendo mdicos, eles po-        tinha apenas 370 membros (IPA), distribudos
deriam retardar o processo de reconhecimento         em quatro grandes ramos para trs cidades,
do grupo no seio de uma IPA amplamente do-           Montreal (SPM e Quebec English Branch), To-
minada pelos adversrios da psicanlise leiga.       ronto, Ottawa e quatro pequenos ramos para as
Essas negociaes burocrticas parecem hoje          outras privncias, todas anglfonas: a Western
absurdas, ainda mais porque, em 1954, a Socie-       Canada (doze membros), a South Western On-
dade canadense tinha apenas 12 membros, entre        tario Psychoanalytic Society (doze membros),
Toronto e Montreal. (Entre eles, apenas dois         a Psychoanalytic Society of Eastern Ontario
estavam habilitados a dirigir anlises didticas.)   (seis membros), a Sociedade Psicanaltica de
    Em julho de 1957, no congresso de Paris, a       Quebec-Ville (seis membros). Ou seja, um n-
SCP/CPS obteve o estatuto de sociedade com-          dice de doze psicanalistas por milho de habi-
ponente da IPA. Nessa data, alguns psicanalis-       tantes.
tas tinham se instalado em Vancouver. Trs anos          Depois de passar por tantos problemas, a
depois, em outubro de 1960, foi criado o Ins-        SPC/CPS tentou superar suas dificuldades, so-
tituto Canadense de Psicanlise, ao qual a so-       bretudo nas grandes cidades e mais es-
ciedade delegou suas funes no campo da             pecificamente em Montreal, declarando-se
formao dos didatas. Sete anos depois, a            aberta a todas as correntes. Da a implantao
SPC/CPS foi sacudida por uma forte reivin-           na SPM, em torno de Jacques Mauger e de Lise
dicao de autonomia, que resultou simultanea-       Monette, de um grupo de reflexo sobre o pen-
mente na federao do movimento em dife-             samento de Jacques Lacan*, independente de
rentes "ramos" (provincianos ou urbanos) e na        Paris e inspirado inicialmente no ensino de
instalao da Sociedade Psicanaltica de Mon-        Peraldi. Na universidade, o filsofo Claude L-
treal (SPM), exclusivamente francfona, que          vesque, prximo de Jacques Derrida, formava
propunha um currculo diferente do currculo         estudantes dentro da mesma tendncia, introdu-
do ramo anglfono. Na realidade, em alguns           zindo-os na obra de Georges Bataille (1897-
anos, a SPM se tornou a ponta de lana de uma        1962).
renovao da clnica e da teoria freudianas no           Como nos Estados Unidos, mas de maneira
Canad, graas  ao conjugada e contraditria      mais radical ainda, o movimento psicanaltico
de dois homens: o canadense Julien Bigras*,          teve que sofrer, a partir de 1985, os ataques
fundador da revista Interprtation, e o francs      conjugados do cognitivismo, do cientificismo
Franois Peraldi*, introdutor do pensamento          neurofarmacolgico e de um puritanismo exa-
lacaniano no Quebec. Entre os membros da             cerbado semelhante ao que perseguira Jones no
SCP/CPS, duas personalidades adquiriram, ao          incio do sculo. Foi no mbito de uma pesquisa
longo dos anos, um renome internacional: Pa-         feita em Ontrio em 1988 por Marie-Lou Mac-
trick Mahony, por seus trabalhos sobre a histria    Phedran que se reativou uma vez mais o famoso
do freudismo, e Ren Major, fundador da revis-       artigo 153 do Cdigo Penal canadense, que
ta Confrontation, por seu papel de primeiro          proibia todo contato sexual entre qualquer pes-
plano na SPP entre 1970 e 1980. Vindo de Nova        soa e um adolescente sob sua dependncia.
York, o primeiro se instalou em Montreal e fez       Convencida de que um grande nmero de abu-
sua anlise com Wittkower, enquanto o segundo        sos sexuais eram cometidos no prprio seio da
deixou Montreal para viver em Paris, onde ado-       profisso mdica, a pesquisadora desencadeou
tou a nacionalidade francesa, depois de se for-      um processo de inquisio, fazendo campanha
mar com Bela Grunberger*.                            junto a mulheres vtimas ou no de abusos, para
    A partir dos anos 1970, a SCP/PCS enfren-        que elas "confessassem" as relaes carnais que
tou o desenvolvimento no territrio canadense        tiveram com seus terapeutas. As vtimas (reais
                                                                     Crcamo, Celes Ernesto            103

ou imaginrias) deram queixas em massa ao            cado em um contexto puritano por seu pretenso
Colgio dos Mdicos, que foi levado a mandar         pansexualismo. Da a estranha impresso de
para os tribunais os colegas culpados.               repetio entre as campanhas caluniosas contra
    Sob a presso de certas ligas feministas (e      Jones em Toronto em 1912 e as loucas impre-
no clima de um duplo movimento de "correo          caes dos anos 1990.
poltica" e de conservadorismo que fez estragos
nessa poca na parte anglfona do continente          Cyril Greenland, "Ernest Jones in Toronto, 1908-
                                                     1913", Canadian Psychiatric Association Journal, vol.6,
americano), a noo de "abuso", limitada at         1, junho de 1961, 132-9  L'Introduction de la psycha-
ento ao estupro, ao constrangimento compro-         nalyse aux tats-Unis. Autour de James Jackson Put-
vado (fsico ou moral) e ao desvio de menores,       nam (Londres, 1968), Nathan G. Hale (org.), Paris,
foi estendida s relaes sexuais entre adultos      Gallimard, 1978, 17-86  Jean Baptiste Boulanger,
                                                     "Dissidences, scessions et dfections dans l'histoire
em situao de poder. Se todas as profisses         du mouvement psychanalytique", Union Mdicale du
fundadas nessa relao (professores e alunos,        Canada, 112, 1983, 744-6; "The critical years (1957-
mdicos e pacientes, patres e empregados etc.)      1960)", 77th Annual Meeting of the American Psychoa-
se viram ento submetidas a uma nova tecnolo-        nalytic Association, Montreal, 5 de maio de 1988, Oral
                                                     History Workshop, 1988; Arquivos de J.B. Boulanger,
gia da confisso, fundada (mais freqentemente       Andrew R. Paskauskas, "The Jones-Freud Era (1908-
contra a vontade) nas diversas teorias do gne-      1939)", in Freud in Exile. Papers on the Origins and
ro* (gender), a corporao mdica foi a mais         Evolution of Psychoanalysis, Edward Timms and Nao-
afetada pelo dilvio de queixas: 120 processos       mi Segal (org.), New Haven, Yale University Press,
                                                     1988, 109-23  The Complete Correspondance of
por "abuso" em onze anos, entre os quais treze       Sigmund Freud and Ernest Jones, 1908-1939, R. An-
visavam psiquiatras que praticavam a psican-        drew Paskauskas (org.), introduo por Riccardo
lise, ou seja 5% da profisso, enquanto os casos     Steiner, Cambridge, Londres, Harvard University Pres-
de transgresso desse tipo no passavam de 1%.       s, 1993  Miguel Prados, "Introduction: La Psychana-
                                                     lyse au Canada", The Canadian Psychoanalytic Re-
De qualquer forma, no seio da comunidade             view (ed. bilnge), 1, 1954, 3-33  Frayages, nmero
freudiana, que afirmava que a sexualidade*, a        especial sobre o tema "La Naissance de la psychana-
transferncia* e a fantasia* estavam na prpria      lyse  Montreal", 1984  Alan Parkin, A History of
base da conduta do tratamento, a aplicao           Psychoanalysis in Canada, Toronto, The Toronto Psy-
                                                     choanalytic Society, 1987  Phyllis Grosskurth, O mun-
dessa lei teve como conseqncia transformar
                                                     do e a obra de Melanie Klein (1986), Rio de Janeiro,
em culpados muitos clnicos do inconsciente*,        Imago, 1992  Bulletin de la Socit Psychanalytique
sem que nunca se pudesse saber de que eram           de Montral, vol.7, outono de 1994  Claude Lvesque,
acusados: abusos reais, transgresso de um in-       Le Proche et le lointain, Montreal, Vlb, 1994.
terdito, histria de amor banal etc.
    Sabemos que, em todos os pases onde o            ABRAHAM, NICOLAS; BEIRNAERT, LOUIS; EL-
                                                     LENBERGER, HENRI F.; FILIAO; HISTORIOGRA-
freudismo se implantou, a questo das relaes
                                                     FIA; IGREJA; SEDUO, TEORIA DA.
sexuais entre psicanalistas e pacientes sempre
foi regulada no prprio interior da comunidade
psicanaltica. Simplesmente porque o interdito
absoluto e necessrio da sexualidade no trata-       Crcamo, Celes Ernesto (1903-1990)
mento s  regulado pela adeso  tica da           psiquiatra e psicanalista argentino
psicanlise, ela prpria fundada no interdito do         Nascido em La Plata, Celes Crcamo era de
incesto*, e no pelos tribunais.  verdade que       uma famlia da burguesia catlica. Depois de
essas transgresses foram muitas vezes recalca-      estudar medicina, comeou a orientar-se para a
das ou mascaradas pela histria oficial, mas         psicoterapia*, no servio de medicina geral di-
nem por isso elas merecem ser assimiladas a          rigido por Mariano Castex, onde assistiu s
delitos.                                             conferncias de James Mapelli, hipnotizador
    A confuso entre tica e direito, a ingerncia   inteligente e cheio de recursos, que no hesitava
da justia na gesto das sociedades psicanalti-     em declarar: "Prefiro uma nica sesso de hip-
cas puseram recentemente em perigo, nos Es-          nose a um tratamento psicanaltico de um ano."
tados Unidos e no Canad, a prpria existncia       Foi em contato com esse mdico que Crcamo
do freudismo, mais uma vez violentamente ata-        descobriu a psicanlise*. Tornar-se-ia um exce-
104      Caruso, Igor

lente clnico, aberto a todas as tendncias do             Jorge Baln, Cuntame tu vida. Una biografa colectiva
freudismo*.                                                del psicoanlisis argentino, B. Aires, Planeta, 1991 
                                                           Ral Giordano, Notice historique du mouvement psy-
    Em 1936, partiu para a Europa, com o apoio             chanalytique en Argentine, monografia para o CES de
do Ministrio dos Negcios Estrangeiros argen-             psiquiatria, sob a direo de Georges Lantri-Laura,
tino. Visitou Hamburgo e Viena, onde ficou                 Universidade de Paris-XII, s/d.
conhecendo Anna Freud*. Em Paris, continuou
seus estudos de psiquiatria. Graas  recomen-
dao do psiquiatra Jos Belbey, encontrou-se              Caruso, Igor (1914-1981)
com Paul Schiff*, com quem fez sua anlise
                                                           psicanalista austraco
didtica*, trabalhando ao mesmo tempo no
Hospital Sainte-Anne, no servio de Henri                     Nascido na Rssia* em uma famlia nobre
Claude*. Em 1943, recebeu uma carta de Paul                de ascendncia italiana, Igor Caruso foi um dos
Schiff. Sob sua alcunha de participante da                 representantes da corrente da psicoterapia exis-
Resistncia (Herbelot), este lhe pedia ajuda para          tencial e fundador de uma internacional freudia-
emigrar para a Argentina. Depois de ter conse-             na original, a Internationale Fderation der Ar-
guido para ele um convite da faculdade de                  beitskreise fr Tiefenpsychologie*.
medicina, Crcamo ficou sem notcias. Mais                    Formado em teologia e em filosofia na Uni-
tarde, saberia que Schiff tinha se reunido aos             versidade de Louvain, na Blgica*, analisado
Aliados para participar da campanha da Itlia*,            por Viktor Emil Freiherr von Gebsattel (1883-
depois de passar pelo Marrocos.                            1976), psicanalista alemo amigo de Rainer
    Fez dois anos de superviso, um com Ru-                Maria Rilke (1875-1926) e de Lou Andreas-Sa-
dolph Loewenstein* e o outro com Charles                   lom*, o conde Igor Caruso participou em Vie-
Odier*, e foi eleito membro da Sociedade Psi-              na*, depois da Segunda Guerra Mundial, da
canaltica de Paris (SPP), depois de apresentar            reconstruo da Wiener Psychoanalytische Ve-
um estudo clnico e um estudo de psicanlise               reinigung (WPV), com o baro Alfred von
aplicada* sobre a serpente de plumas da religio           Winterstein* e o conde Wilhelm Solms-Rdel-
maia e asteca. Apaixonado por antropologia*,               heim. Esses trs aristocratas tinham mantido
freqentava o Museu do Homem, onde ficou                   sob o nazismo* o esprito freudiano, sem aceitar
conhecendo Jacques Soustelle.                              a poltica de colaborao preconizada por
    Durante sua permanncia em Paris, encon-               Ernest Jones*. Mas, em 1947, Caruso se separou
trou-se com Angel Garma*. Ambos logo deci-                 sem traumas da WPV, cuja orientao lhe pare-
diram fundar uma sociedade psicanaltica na                cia excessivamente mdica, excessivamente
Argentina*.                                                materialista, ou seja, excessivamente "america-
    Em 1939, instalou-se em Buenos Aires e                 na", para criar o primeiro Crculo de Trabalho
trabalhou no Hospital Durand, dando tambm                 vienense sobre a psicologia das profundezas.
conferncias sobre psicanlise na Sociedade de             Mesmo continuando a ser freudiano, no acei-
Homeopatia. Trs anos depois, com Marie Lan-               tava os padres de formao da International
ger*, Enrique Pichon-Rivire*, Arnaldo Ras-                Psychoanalytical Association* (IPA) e, como
covsky*, Guillermo Ferrari Hardoy e Garma,                 Jacques Lacan*, queria dar  psicanlise* uma
fundou a Asociacin Psicoanaltica Argentina               orientao intelectual, espiritual e filosfica.
(APA). Depois da crise dos anos 1970, preferiu             Assim, considerava-a,  luz da fenomenologia,
afastar-se, mas sem pedir demisso, como fez               como um mtodo de edificao da personali-
Marie Langer, cujas opinies crticas comparti-            dade humana (ou personalismo), destinado no
lhava.                                                     a adaptar o sujeito ao princpio de realidade*,
 Celes E. Crcamo, "Quetzalcoalt, le dieu-serpent        mas a lev-lo a resolver as tenses resultantes
plume de la religion Maya-Aztque", I, in Revue Fran-      da sua relao conflituosa com o mundo.
aise de Psychanalyse, vol.11, 2, 1939, 273-93, e II,         Grande viajante, Caruso ensinou na Univer-
ibid., vol.12, 1, 1948, 101-24  Antonio Cucurullo, Hay-
de Faimberg e Leonardo Wender, "La Psychanalyse
                                                           sidade de Salzburgo e foi a vrios pases da
en Argentine", in Roland Jaccard (org.), Histoire de la    Amrica Latina, onde se desenvolveram os Cr-
psychanalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982, 395-444       culos de Trabalho que fundara.
                                                                           castrao, complexo de         105

 Igor Caruso, Psychanalyse et synthse personnelle         castrado). Na ndia*, essa prtica continua a ter
(Viena, 1952), Paris, Descle de Brouwer, 1959  Jean-
Baptiste Fags, Histoire de la psychanalyse aprs
                                                            adeptos no sculo XX, na comunidade dos Hij-
Freud (Toulouse, 1976), Paris, Odile Jacob, 1996           ras.
Raoul Schindler, "L'dification de la personnalit par la       Numa breve carta a Wilhelm Fliess*, datada
psychanalyse: Igor Caruso et les Cercles de Travail sur     de 24 de setembro de 1900, Freud recomenda
la Psychologie des Profondeurs", Austriaca, 21, no-
vembro de 1985, 101-8.
                                                            ao amigo a leitura de um livro de Conrad Rieger
                                                            dedicado  castrao.
 ANLISE EXISTENCIAL; ARGENTINA; BRASIL; CI-                    Mais tarde, o termo volta a aparecer em A
SO; VIENA.                                                 interpretao dos sonhos*. Confundindo Zeus
                                                            e Cronos, Freud atribui ao primeiro o ato de
                                                            emasculao do segundo, quando foi Cronos
castrao, complexo de                                      quem castrou seu pai, Urano. No ano seguinte,
al. Kastrationskomplex; esp. complejo de castra-            na Psicopatologia da vida cotidiana*, Freud
cin; fr. complexe de castration; ing. castration           analisou seu erro e, em 1911, acrescentou al-
complex                                                     guns comentrios  reedio da Interpretao
Termo derivado do latim castratio e surgido no fim          dos sonhos.
do sculo XIV para designar a operao pela qual                Num texto de 1908, consagrado s teorias
um homem ou um animal  privado de suas gln-               sexuais infantis, Freud observa que a primeira
dulas genitais, condio de sua reproduo. Sen-            das teorias sexuais elaboradas pelas crianas
do assim,  sinnimo do termo emasculao, mais             "consiste em atribuir a todos os seres humanos,
recente, que o uso contemporneo tende a privile-           inclusive os femininos, um pnis como o que o
giar para designar a remoo real dos testculos. A         menino conhece a partir de seu prprio corpo".
palavra ovariectomia  empregada para designar a
                                                            Ao mesmo tempo, ele observa a impos-
retirada dos ovrios.
                                                            sibilidade de o menino imaginar uma pessoa
    Sigmund Freud* denominou complexo de cas-
                                                            que no possua esse elemento essencial.
trao o sentimento inconsciente de ameaa expe-
rimentado pela criana quando ela constata a dife-
                                                            Evocando o caso do Pequeno Hans (Herbert
rena anatmica entre os sexos.                             Graf*), cujo tratamento constituiu o contexto
                                                            clnico da introduo do conceito de castrao
    Foi  grande deusa-me da Frgia, Cibele,               em sua teoria, Freud assinala que, confrontado
que se dedicou o primeiro ritual de castrao.              com a anatomia de sua irm caula, o menino
Me de todos os deuses, ela esteve na origem                desrespeita sua percepo e, em vez de cons-
da loucura* de tis, seu amante e seu filho.
                                                            tatar a ausncia do membro, prev o crescimen-
Quando este quis se casar, Cibele o impediu e
                                                            to deste. Freud s falaria nessa questo da rene-
ele se castrou antes de se suicidar. Comemoran-
                                                            gao* muito depois, em 1923, num artigo
do o ato de tis, os adeptos do culto dessa
                                                            intitulado "A organizao genital infantil", que
deusa-me adquiriram o hbito de se mutilar,
em meio  embriaguez e ao xtase das festas                 incorporaria parcialmente, em 1930, em seus
religiosas. Posteriormente praticada na Roma                Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade*.
imperial, a castrao ou auto-emasculao con-                  Somente nesse mesmo texto de 1923  que
sistia numa retirada dos testculos e do pnis.             o complexo de castrao foi inserido no conjun-
    Os progressos do cristianismo suplantaram               to da teoria freudiana do desenvolvimento se-
esses rituais e, em 395, o papa Leo I proibiu              xual. Nesse momento, foi relacionado com o
todas as prticas de emasculao voluntria. O              complexo de dipo* e reconhecido como uni-
sculo XVIII abriu uma exceo para os cas-                 versal. Para tanto, teve que ser feita a descrio
trati e, ao longo do Iluminismo, as vozes agudas            do estdio* flico, caracterizado pela ausncia
desses rapazes foram postas a servio da litur-             de representao psquica do sexo feminino,
gia, a despeito da condenao proferida pelo                organizando-se a diferena sexual em torno da
papa Clemente XIV. Na mesma poca, alis, a                 posse ou no do falo*: "A oposio", escreveu
castrao era praticada na Rssia* pela curiosa             Freud, "enuncia-se nisto: rgo genital mascu-
seita mstica dos Skoptzy (do russo skopets,                lino ou castrado."
106     castrao, complexo de

    O complexo de castrao compe-se de duas       com simpatia a tese de Otto Rank* sobre o
representaes psquicas. Por um lado, o reco-      trauma do nascimento como forma primria da
nhecimento, que implica a superao da rene-        angstia de castrao, ele se mantm a dis-
gao, inicialmente observada, da diferena         tncia, como indicam Jean Laplanche e Jean-
anatmica entre os sexos. Por outro, como con-      Bertrand Pontalis, para que o complexo de cas-
seqncia dessa constatao, a rememorao ou       trao continue a ser pensado na categoria da
atualizao da ameaa de castrao, no caso do      fantasia*, quando se trata da ameaa, e na do
menino, ameaa esta que  ouvida ou fantasia-       originrio, quando se trata da articulao com o
da, particularmente por ocasio de atividades       dipo. O complexo de castrao, sublinham os
masturbatrias, e que assim vem manifestar-se       mesmos autores, deve tambm "ser referido
a posteriori*. Para Freud, o pai (ou a autoridade    ordem cultural", com o que isso implica em
paterna)  o agente direto ou indireto dessa        termos da proibio e da lei constitutiva da
ameaa. Na menina, a castrao  atribuda         ordem humana.
me, sob a forma de uma privao do pnis.              Em seu seminrio dos anos de 1956-1957, A
    O complexo de castrao, alm da renncia       relao de objeto, Jacques Lacan* trata ampla-
parcial  masturbao, implica o abandono dos       mente, sobretudo mediante uma releitura da
desejos edipianos: nisso ele assinala, para o       anlise do Pequeno Hans, do conceito de cas-
menino, a sada do dipo e a constituio, atra-    trao, que ele situa na perspectiva de sua teoria
vs da identificao com o pai ou seu substituto,   do significante*. Assim, Lacan distingue a cas-
do ncleo do supereu*, o que Freud resume na        trao da frustrao* e da privao, situando-as,
frase lapidar de 1925: "... o complexo de dipo     respectivamente, no tocante ao agente e ao ob-
naufraga pela ameaa de castrao." Na meni-
                                                    jeto, no contexto das instncias de sua tpica*
na, as coisas se passam de outra maneira, como
                                                    do real*, do imaginrio* e do simblico*. A
Freud tenta explicar num outro artigo, publica-
                                                    castrao ope-se  privao do ponto de vista
do no mesmo ano e intitulado "Algumas conse-
                                                    do agente: ele  o "Pai real", inatingvel e im-
qncias psquicas da distino anatmica entre
                                                    pensvel, no sentido em que podemos dizer de
os sexos": "Enquanto o complexo de dipo do
                                                    um ser que nunca sabemos "com quem estamos
menino soobra sob o efeito do complexo de
                                                    lidando realmente", no que concerne  cas-
castrao, o da menina  possibilitado e intro-
                                                    trao; e  o "Pai imaginrio", um pai assustador
duzido pelo complexo de castrao."  essa
entrada no complexo de dipo, sob o efeito do       com o qual, ao contrrio, lidamos o tempo todo,
complexo de castrao, que leva a menina a se       na vida cotidiana e nos textos de Freud, no que
afastar do objeto materno, a fim de se orientar     concerne  privao.
para o desejo do pnis paterno e, alm dele, para       Do ponto de vista do objeto, a castrao s
a heterossexualidade.                               pode ser a representao simblica da ameaa
    Em textos posteriores, como a "Anlise ter-     de desaparecimento na medida em que esta no
minvel e interminvel" e o Esboo de psica-        concerne ao pnis, objeto real, mas ao falo,
nlise*, Freud retorna  questo da castrao,      objeto imaginrio. Esse deslocamento permite
para reconhecer a impossibilidade da renncia       a Lacan estabelecer uma inexistncia de dife-
completa aos primeiros desejos, e fala, a esse      rena entre a menina e o menino do ponto de
respeito, do "rochedo originrio" encontrado        vista do desenrolar do dipo, ambos desejando,
em toda anlise.                                    num primeiro momento, ser o falo da me,
    Embora ele mesmo tenha aberto o caminho,        posio incestuosa da qual tm que ser desalo-
num artigo de 1917 dedicado ao erotismo anal,       jados pelo "Pai simblico", marca incontorn-
para uma ampliao da imagem da castrao           vel do significante, antes de se chocarem com
alm de seu contexto original, postulando uma       o "Pai real", portador do falo e reconhecido
equivalncia, na ordem da separao, entre p-      como tal pela me. Alm disso, tal abordagem
nis, fezes e filho, Freud se ope s diversas       se abre para a concepo lacaniana da psicose*,
formas metafricas da castrao. Em Inibies,      na qual a evitao da castrao simblica leva
sintomas e angstia*, mesmo considerando            a seu retorno no real.
                                                                                               catarse      107

 Sigmund Freud, Briefe an Wilhelm Fliess, 1887-1904,         campo da esttica quanto no da filosofia. Em
Frankfurt, Fischer, 1986; Trs ensaios sobre a teoria
                                                              1857, Jacob Bernays (1824-1881), tio de Mar-
da sexualidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V,
29-145; SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; "So-        tha Bernays, futura mulher de Sigmund Freud*,
bre as teorias sexuais das crianas" (1908), ESB, IX,         publicou um livro de medicina sobre o assunto.
213-32; GW, VII, 171-88; SE, IX, 205-26; In La Vie            Opondo-se a Lessing (1729-1781), que dera ao
Sexuelle, Paris, PUF, 1969, 14-27; "Anlise de uma
                                                              termo uma interpretao moral, fazendo da ca-
fobia em um menino de cinco anos" (1909), ESB, X,
15-152; GW, VII, 243-377; SE, X, 1-147; in Cinq psy-          tarse um "expurgo" ou uma "purificao", Ber-
chanalyses, Paris, PUF, 1954, 93-198; "As transfor-           nays sublinhou que Aristteles, filho de mdi-
maes da pulso exemplificadas no erotismo anal"             co, havia-se inspirado no corpus hipocrtico.
(1917), ESB, XVII, 159-70; GW, X, 402-10; SE, XVII,           Da a idia de que o tratamento devia fazer sur-
125-33; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 106-12; "A
organizao genital infantil e da libido: uma interpola-      gir o elemento opressivo, para provocar um al-
o na teoria da sexualidade" (1923), ESB, XIX, 179-          vio, em vez de faz-lo regredir atravs de uma
88; GW, XIII, 293-8; SE, XIX, 141-5; OC, XVI, 303-9;          transformao tica do sujeito*. Tratava-se de
"A dissoluo do complexo de dipo" (1924), ESB, XIX,         fazer com que sasse do sujeito, atravs da fala,
217-28; GW, XIII, 395-402; SE, XIX, 173-9; OC, XVII,
25-33; "Algumas conseqncias psquicas da dis-               um segredo patognico, consciente ou incons-
tino anatmica entre os sexos" (1925), ESB, XIX,            ciente, que o deixava em estado de alienao.
309-24; GW, XIV, 19-30; SE, XIX, 248-8; OC, XVII,                 Entre 1857 e 1880, foi publicado sobre essa
189-202; "Anlise terminvel e interminvel" (1937),          idia um nmero considervel de trabalhos em
ESB, XXIII, 247-90; GW, XVI, 59-99; SE, XXIII, 209-53;
in Rsultats, ides, problmes, vol.2, Paris, PUF, 1985,      lngua alem, inspirados no de Bernays. Em
231-68; Esboo de psicanlise (1938), ESB, XXIII,             Viena*, onde grassava o niilismo teraputico,
168-246; GW, XVII, 67-138, SE, XXIII, 139-207; Paris,         as teses de Bernays foram submetidas a diver-
PUF, 1967  Didier Anzieu, A auto-anlise de Freud e          sos exames crticos, e foi na esteira dessa grande
a descoberta da psicanlise (1959), P. Alegre, Artes
Mdicas, 1989  Michel Erlich, La Mutilation, Paris,          onda da catarse que Josef Breuer e Sigmund
PUF, 1990  Andr Green, O complexo de castrao              Freud, ambos marcados pelo ensino aristotlico
(Paris, 1990), Rio de Janeiro, Imago  Jacques Lacan,         de Franz Brentano*, recorreram a essa idia.
O Seminrio, livro 4, A relao de objeto (1956-1957)             Esta surgiu em sua pena pela primeira vez
(Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995  Jean
Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da            em 1893, juntamente com a de ab-reao*, na
psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,          "Comunicao preliminar" que, dois anos de-
1991, 2 ed.  Philippe Levillain (org.), Dictionnaire        pois, serviria de captulo inaugural para os Es-
historique de la papaut, Paris, Fayard, 1994  Michel        tudos sobre a histeria: "A reao do sujeito que
Poizat, L'Opra ou le cri de l'ange, Paris, Mtaili, 1986;
La Voix du diable, Paris, Mtaili, 1991  Otto Rank, Le      sofre algum prejuzo s tem um efeito real-
Traumatisme de la naissance (1923), Paris, Payot,             mente `catrtico' quando  de fato adequada,
1960.                                                         como na vingana. Mas o ser humano encontra
                                                              na linguagem um equivalente do ato, equiva-
 OBJETO, RELAO DE; OBJETO (PEQUENO) a; PUL-                 lente graas ao qual o afeto pode ser `ab-reagi-
SO; SEXUALIDADE FEMININA; TRANSEXUALISMO.
                                                              do' mais ou menos da mesma maneira."
                                                                  Como sublinhou Albrecht Hirschmller em
                                                              1978, fazia muito tempo que os dois autores
catarse
                                                              empregavam esse termo. No entanto, foi a
Palavra grega utilizada por Aristteles para designar
                                                              Breuer que coube a inveno do mtodo. Freud
o processo de purgao ou eliminao das paixes
que se produz no espectador quando, no teatro, ele
                                                              o utilizou, por sua vez, no tratamento de Emmy
assiste  representao de uma tragdia. O termo foi          von N. (Fanny Moser*).
retomado por Sigmund Freud* e Josef Breuer*, que,                 Na Frana*, tambm Pierre Janet* tinha in-
nos Estudos sobre a histeria*, chamam de mtodo               ventado, mais ou menos na mesma poca, um
catrtico o procedimento teraputico pelo qual um             mtodo muito prximo desse -- recordao de
sujeito consegue eliminar seus afetos patognicos             uma lembrana e ab-reao --, ao qual dera o
e ento ab-reagi-los, revivendo os acontecimentos             nome de dissociao verbal ou desinfeco mo-
traumticos a que eles esto ligados.                         ral. Assim, ele reivindicou uma prioridade para
    Fazia sculos que a noo de catarse era ob-              sua inveno. Foi por isso que, para evitar uma
jeto de uma discusso interminvel, tanto no                  disputa pela prioridade entre Paris e Viena,
108      catexia

Breuer, instigado por Freud, apresentou o caso                 O termo Urszene aparece na pena de
Anna O. (Bertha Pappenheim*) como sendo o                  Sigmund Freud* em 1897. A partir da, teria
prottipo de um tratamento catrtico. Os traba-            sempre a mesma significao: designa a relao
lhos da historiografia* acadmica, inaugurados             sexual entre os pais, tal como pode ser vista ou
por Henri F. Ellenberger* e prosseguidos por               fantasiada pela criana, que a interpreta como
Hirschmller, permitiram que se restabelecesse             um ato de violncia, ou mesmo de estupro, por
a verdade a respeito desse caso princeps.                  parte do pai contra a me. A mais extraordinria
    Alm dessa querela de prioridade, existe               cena primria da histria da psicanlise foi des-
uma diferena radical entre o procedimento de              crita por Freud a propsito do Homem dos
Janet e o de Breuer. Ainda que, em ambos os                Lobos (Serguei Constantinovitch Pankejeff*).
casos, o mdico interrogue o paciente sob hip-
                                                            Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
nose* para ganhar acesso s representaes in-             (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956  Jean Laplanche e
conscientes, Janet procede por sugesto*, sem              Jean-Bertrand Pontalis, Fantasia originria, fantasia
investigar o evento inicial que responde pelo              das origens, origens da fantasia (Paris, 1964), Rio de
efeito patognico, ao passo que Breuer, ao                 Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
contrrio, procura o elemento original para li-
                                                            FANTASIA; SEDUO, TEORIA DA; SEXUALIDADE;
g-lo aos afetos e provocar a ab-reao. Do
                                                           TOTEM E TABU.
ponto de vista terico, portanto, so poucas as
semelhanas existentes entre os dois mtodos.
    Na histria da psicanlise*, o mtodo catr-           censura
tico deriva do campo do hipnotismo. Foi ao se              al. Zensur; esp. censura; fr. censure; ing. censorship
desligar progressivamente da prtica da hipno-
                                                           Instncia psquica que probe que emerja na cons-
se*, entre 1880 e 1895, que Freud passou pela
                                                           cincia um desejo* de natureza inconsciente e o faz
catarse, para inventar o mtodo psicanaltico
                                                           aparecer sob forma travestida.
propriamente dito, baseado na associao li-
vre*, ou seja, na fala e na linguagem.                         O termo censura foi empregado por Sig-
                                                           mund Freud* pela primeira vez em dezembro
 Aristteles, Potica (Paris, 1968), S. Paulo, Ars Po-   de 1897, numa carta a Wilhelm Fliess*, onde
tica, 1993, 2 ed. (bilnge)  Pierre Janet, L'Automa-    ele comparou o absurdo de certos delrios ao
tisme psychologique (1889), Paris, Alcan, 1973(reimp.)     fenmeno clssico da censura na poltica:
 Henri-Jean Barraud, Freud e Janet. tude compare,       "Voc j teve, algum dia, a oportunidade de ver
Toulouse, Privat, 1971  Jean Laplanche e Jean-
Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris,      um jornal estrangeiro censurado pelos russos na
1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Pierre     passagem pela fronteira? Palavras, frases, par-
Somville, Essai sur la potique d'Aristote et sur quel-    grafos inteiros so tarjados de preto, de modo
ques aspects de sa postrit, Paris, Vrin, 1975  Henri    que a carta se torna ininteligvel." Essa idia da
F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'incon-
scient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974),
                                                           tarja e da ilegibilidade foi retomada em 1900,
Paris, Fayard, 1994  Albrecht Hirschmller, Josef         em A interpretao dos sonhos*, para designar
Breuer (Berna, 1978), Paris, PUF, 1991.                    os disfarces impostos  expresso do sonho --
                                                           condensao* e deslocamento* -- pelo proces-
 ACTING OUT; ASSOCIAO VERBAL; BENEDIKT,                  so do recalque*.
MORIZ; BERNHEIM, HIPPOLYTE; FREUD, MARTHA.                     No mbito da primeira concepo tpica*
                                                           do aparelho psquico (1900-1920), a censura 
                                                           exercida, por um lado, entre o inconsciente* e
catexia                                                    o pr-consciente*, e por outro, entre o pr-
                                                           consciente e a conscincia*: assim, a cada pro-
 INVESTIMENTO.
                                                           gresso para um nvel superior de organizao
                                                           psquica corresponde uma nova censura.
                                                               A partir de 1914, em "Sobre o narcisismo:
cena primria (ou originria)                              uma introduo", Freud comeou a identificar
al. Urszene; esp. escena primitiva; fr. scne primi-       a censura com uma conscincia moral, o que
tive; ing. primal scene                                    mais tarde o levaria, no contexto de sua segunda
                                                                          Charcot, Jean Martin        109

tpica do aparelho psquico (1920-1939), a             qual escreveu: "Ele no era algum que fazia
identificar a censura com o supereu*, isto ,          elucubraes, nem um pensador, mas uma na-
com uma instncia que funciona como um                 tureza artisticamente dotada segundo os seus
"censor do eu*".                                       prprios termos, um visual, um vidente." Freud
                                                       comparava Charcot a Georges Cuvier (1769-
 Sigmund Freud, "Sobre o narcisismo: uma introdu-
                                                       1832), e opunha sua trajetria experimental 
o" (1914), ESB, XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE,
XIV, 73-102; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969,     da clnica alem: "Estvamos um dia com um
80-105; "O inconsciente" (1915), ESB, XIV, 191-233;    pequeno grupo de estrangeiros que, educados
GW, X, 263-303; SE, XIV, 159-204; OC, XIII, 205-43;    na fisiologia acadmica alem, o importunva-
La Naissance de la psychanalyse (Londres, 1950),
                                                       mos discutindo suas inovaes clnicas. `Mas
Paris, PUF, 1956.
                                                       isso no  possvel', objetou um de ns, `isso
 EU E O ISSO, O.                                       contradiz a teoria de Young-Helmholtz'. Ele
                                                       no replicou: `Pior para a teoria, os fatos clni-
                                                       cos tm prioridade' etc., mas disse categorica-
Charcot, Jean Martin (1825-1893)                       mente, o que nos causou uma grande impresso:
mdico e neurologista francs                          `Teoria  bom, mas isso no impede de existir'."
    O nome de Jean Martin Charcot  insepar-              Charcot nasceu em Paris. Seu pai era fabri-
vel da histria da histeria*, da hipnose* e das        cante de carruagens e lhe transmitiu seus talen-
origens da psicanlise*, e tambm daquelas mu-         tos de desenhista. Orientou-se para a medicina
lheres loucas, expostas, tratadas e fotografadas       com a ajuda de Pierre Rayer, mdico pessoal do
no Hospital da Salptrire, em suas atitudes           imperador Napoleo III. Mdico dos hospitais
passionais: Augustine*, Blanche Wittmann,              e depois professor de medicina, foi nomeado
Rosalie Dubois, Justine Etchevery. Essas mu-           em 1862 como chefe de servio na Salptrire,
lheres, sem as quais Charcot no teria co-             onde estudou, com Alfred Vulpian, as doenas
nhecido a glria, eram todas oriundas do povo.         neurolgicas. Graas ao mtodo antomo-clni-
Suas convulses, crises, ataques, suas paralisias      co, descreveu a doena que levaria o seu nome:
eram sem dvida alguma de natureza psquica,           esclerose lateral amiotrfica. Por seus traba-
mas tambm eram conseqncia de traumas de             lhos, seria nomeado professor de clnica de
infncia, estupros, abusos sexuais. Em suma, da        doenas nervosas na ctedra de neurologia, a
misria da alma e do corpo, to bem descrita           primeira no mundo, criada para ele por Lon
pelo mestre nas suas Lies da tera-feira.            Gambetta (1838-1882).
    Essa misria foi descrita pelo talento de              Foi em 1870 que se interessou pela histeria,
Dsir-Magloire Bourneville (1840-1909), cu-           por ocasio de uma reorganizao dos setores
jo destino foi inseparvel do de Charcot. Mdi-        do hospital. De fato, a administrao tomou a
co, socialista e anticlerical, foi aluno e editor do   deciso de separar os alienados dos epilticos
"Csar" da Salptrire e militou pelo melhora-         (no-alienados) e das histricas. Como essas
mento das condies dos internos. Foi ele que          duas ltimas categorias de doentes apresenta-
instituiu, com Paul Regnard, a Iconografia fo-         vam sinais convulsivos idnticos, decidiu-se
togrfica da Salptrire, verdadeiro laboratrio       reuni-los em uma seo especial: a seo dos
das representaes visuais da histeria.                epilticos simples.
    ltimo grande representante da primeira                Na seqncia direta do olhar antomo-clni-
psiquiatria dinmica* e rival de Hippolyte             co herdado de Claude Bernard (1813-1878),
Bernheim*, Charcot teve um papel fundamental           Charcot inaugurou assim um modo de clas-
na formao do jovem Sigmund Freud*, que               sificao que distinguia a crise histrica da crise
assistiu maravilhado s suas demonstraes cl-        epiltica e permitia  doente histrica escapar
nicas na Salptrire entre outubro de 1885 e           da acusao de simulao. Assim, abandonou a
fevereiro de 1886. Depois, trocou com ele v-          definio antiga de histeria, para substitu-la
rias cartas e traduziu o primeiro volume das           pelo conceito mais moderno de neurose*. Re-
Lies da tera-feira. No ano de sua morte, em         duziu esta a uma origem traumtica com liga-
1893, consagrou-lhe um belo necrolgio, no             o com o sistema genital, e depois demonstrou
110     Chentrier, Thodore

a existncia da histeria masculina traumtica,       fundar a neurologia moderna. Est segurando
muito discutida na poca, em Viena* e em Paris.      uma mulher desfalecida (Blanche Wittmann),
Em outras palavras, ele fazia da histeria uma        que quase cai sobre uma maca. Nem Pierre
doena nervosa e funcional, de origem heredi-        Janet* nem Freud aparecem no quadro. Entre-
tria e orgnica. E para distingui-la, uma vez por   tanto, seriam os principais herdeiros da doutrina
todas, da simulao, recorreu  hipnose: ador-       francesa da histeria.
mecendo as mulheres na Salptrire, fabricava
                                                      Jean Martin Charcot, Leons sur les maladies du
sintomas histricos experimentalmente, fazen-        systme nerveux faites  la Salptrire, Paris, Dela-
do-os desaparecer imediatamente, provando as-        haye, 3 vols., 1872-1887; Leons du mardi  la Salp-
sim o carter neurtico da doena. Foi nesse         trire, Policlinique, t.I, 1887-1888, t.II, 1888-1889, Pa-
ponto que seria atacado por Bernheim.                ris, Lecrosnier et Bab, 1892; "La Foi qui gurit" (1892),
                                                     in Les Dmoniaques dans l'art, Paris, Macula, 1984;
    Para explicar que a histeria no era uma         L'Hystrie, textos escolhidos e apresentados por
doena do sculo, mas um mal estrutural, sub-        tienne Trillat, Toulouse, Privat, 1971  Jean Martin
metido a uma nosografia especfica, Charcot          Charcot e Paul Richer, Les Dmoniaques dans l'art
mostrou que as suas marcas eram detectveis          (1887), Paris, Macula, 1984  Iconographie photogra-
                                                     phique de la Salptrire, Dsir-Magloire Bourneville e
nas obras de arte do passado. Por isso, em 1887,
                                                     Paul Regnard (org.), Paris, Bureaux du Progrs Mdi-
publicou Os demonacos na arte, em colabora-         cal, Delahaye e Lecrosnier, t.I, 1876-1877, t.II, 1878,
o com seu aluno Paul Richer (1849-1933).           t.III, 1879-1880  Sigmund Freud, "Charcot" (1893),
Para ele, tratava-se de encontrar nas crises de      ESB, III, 21-38; GW, I, 21-35; SE, III, 7-23; in Rsultats,
                                                     ides, problmes, I, Paris, PUF, 1984, 61-75; "Prefcio
possesso e nos xtases os sintomas de uma
                                                     e notas de rodap  traduo de Leons du mardi, de
doena que ainda no recebera a sua definio        Charcot (1892-1894)", ESB, I, 191-207; Leipzig, Viena,
cientfica. O estudo do quadro de Rubens repre-      Deuticke, 1892-1984; SE, I, 1966  Georges Guillain,
sentando santo Incio curando os possudos lhe       J.M. Charcot, sa vie, son oeuvre, Paris, Masson, 1935
forneceu assim a ocasio de descrever, com            Ola Andersson, Freud avant Freud. La Prhistoire de
                                                     la psychanalyse (Estocolmo, 1962), Paris, Synthlabo,
inmeros detalhes, os perodos do grande ata-        col. "Les empcheurs de penser en rond", 1997  Henri
que histrico: a "fase epileptide", quando a        F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'incon-
doente se contraa em uma bola e dava uma            scient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974),
volta completa em torno de si mesma, a "fase         Paris, Fayard, 1994  Gladys Swain, Le Sujet de la folie,
                                                     Toulouse, Privat, 1977  lisabeth Roudinesco, Histria
de clownismo", com seu movimento em arco             da psicanlise na Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de
de crculo, a "fase passional", com seus xtases,    Janeiro, Jorge Zahar, 1988  Georges Didi-Huberman,
e enfim o "perodo terminal", com suas crises        L'Invention de l'hystrie. Charcot et l'iconographie pho-
de contraturas generalizadas. A isso Charcot         tographique de la Salptrire, Paris, Macula, 1982 
                                                     "Mon cher docteur Freud: Charcot's unpublished cor-
acrescentava uma variedade "demonaca" da            respondance to Freud, 1888-1893", anotaes, tradu-
histeria: aquela em que a Inquisio via os sinais   o e comentrios de Toby Gelfand, in Bulletin of the
da presena do diabo no tero das mulheres.          History of Medecine, 62, 1888, 563-88  Michel Bon-
    Em um quadro clebre pintado por Andr           duelle, Toby Gelfand, Christopher G. Goetz, Charcot,
                                                     un grand mdecin dans son sicle, Paris, Michalon,
Brouillet (1857-1920) e apresentado no Salo         1996.
de 1887, sob o ttulo Uma lio clnica na
Salptrire, pode-se imaginar uma espcie de          BAUER, IDA; ELLENBERGER, HENRI F.; ESTU-
romance familiar* da descendncia de Charcot,        DOS SOBRE A HISTERIA; HAITZMANN, CHRISTO-
comparvel ao que seria o sonho* da "injeo         PHER; IGREJA; LAIR LAMOTTE, PAULINE; LIEBEN,
de Irma*" na histria da psicanlise. V-se um       ANNA VON; LOUCURA; MESMER, FRANZ ANTON;
Charcot to legendrio quanto o Philippe Pinel       PAPPENHEIM, BERTHA; PSIQUIATRIA DINMICA.
(1745-1826) representado em 1878 por Tony
Robert-Fleury (1837-1912), provocando os sin-
tomas nos alienados, em 1895. Esse Charcot           Chentrier, Thodore (1887-1965)
apresenta um caso de grande histeria a um            psicanalista canadense
pblico composto de mdicos e intelectuais de            Nascido em Marselha, de pai provenal e
renome. Atrs dele, encontra-se Joseph Babin-        me de origem espanhola, Thodore Chentrier
ski*, o favorito que destruiria a sua teoria, para   foi amigo e admirador dos escritores de extrema
                                                Chistes e sua relao com o inconsciente, Os          111

direita francesa Lon Bloy (1846-1917),               em maio de 1941, entrou na clandestinidade sob
Charles Maurras (1868-1952) e Lon Daudet             o nome de Alex. No Movimento Nacional
(1867-1942). Apaixonado por lnguas, literatu-        contra o Racismo, emanao da seo judaica
ra, grafologia e lingstica, falava correntemen-     da Mo de Obra Imigrante (MOI), organizou
te provenal, russo, ingls, srvio e chins. Ini-    meios destinados a salvar crianas judias da
cialmente professor de latim e grego na classe        deportao. Assim, fabricou documentos falsos
de retrica de um liceu parisiense, orientou-se       e entrou em contato com Leopold Trepper, o
para a psicanlise* durante o perodo entre as        famoso chefe da rede Orquestra Vermelha.
duas guerras e se interessou pela infncia e pela        Depois da Libertao, orientou-se para a
adolescncia. Freqentou os amigos de Ren            psicanlise* e para a psicossomtica. Comeou
Laforgue* -- Ren Allendy*, Juliette Favez-           a seguir um currculo clssico na Sociedade
Boutonier*, Maryse Choisy (1903-1979) e prin-         Psicanaltica de Paris (SPP): anlise com Jac-
cipalmente o padre Paul Jury (1878-1953), de          ques Lacan*, supervises* com Marc Schlum-
quem se tornou amigo ntimo. Em julho de              berger (1900-1977) e Maurice Bouvet*. Deci-
1931, comeou sua anlise com Rudolph                 diu ento tornar-se hipnotizador e reabilitar o
Loewenstein*. Dois anos depois, tornou-se             hipnotismo, negando que Sigmund Freud* ti-
membro aderente da Sociedade Psicanaltica de         vesse realmente abandonado essa prtica e
Paris (SPP). Graas a Daniel Lagache*, que o          acusando seus herdeiros de desconhec-la. Re-
recomendou ao padre Nol Mailloux, pde ob-           digiu com Raymond de Saussure* uma obra
ter, durante o inverno de 1948-1949, um lugar         consagrada s origens da psicanlise e asso-
de professor no departamento de psicologia da         ciou-se  organizao de um simpsio sobre o
Universidade de Montreal. Quando da criao           inconsciente* em Tbilissi, na Gergia (URSS),
da Sociedade Canadense de Psicanlise em              que se realizou em outubro de 1979.
1952, foi o nico dos cinco fundadores a ser
reconhecido como psicanalista pela Internatio-         Lon Chertok, Mmoires d'un hrtique, Paris, La
                                                      Dcouverte, 1991  Lon Chertok e Raymond de Saus-
nal Psychoanalytical Association* (IPA ).             sure, Naissance du psychanalyste (1973), Paris, Syn-
Tornando-se presidente da Sociedade, preferiu         thlabo, col. "Les empcheurs de penser en rond",
demitir-se para no prejudicar, pela sua con-         1997.
dio de no-mdico, as negociaes que iriam
resultar no reconhecimento do grupo pela IPA.
                                                      Chestnut Lodge Clinic
 Arquivos Jean-Baptiste Boulanger.
                                                       BORDERLINE; ESTADOS UNIDOS; FROMM-
                                                      REICHMANN, FRIEDA; SULLIVAN, HARRY STACK.
 BIGRAS, JULIEN; CANAD; CLARKE, CHARLES
KIRK; GLASSCO, GERALD STINSON; IGREJA;
MEYERS, DONALD CAMPBELL; PERALDI, FRAN-
OIS; PRADOS, MIGUEL; SLIGHT, DAVID.                  chiste
                                                       CHISTES E SUA RELAO COM O INCONSCIENTE,
                                                      OS.
Chertok, Lon, n Lejb Tchertok
(1911-1991)
                                                      Chistes e sua relao com o
mdico e psicanalista francs
                                                      inconsciente, Os
    Esse mdico e hipnotizador, personagem
                                                      Livro de Sigmund Freud*, publicado pela primeira
pitoresco e amante da heresia, nasceu em Lida,        vez em 1905, sob o ttulo Der Witz und seine Bezie-
perto da fronteira lituana, em uma famlia de         hung zum Unbewussten. Traduzido para o francs
comerciantes judeus. J falava trs lnguas           pela primeira vez em 1930, por Marie Bonaparte* e
quando partiu para Praga, aos vinte anos. Ali,        Marcel Nathan, sob o ttulo Le Mot d'esprit et ses
estudou medicina e em 1933 tornou-se mili-            rapports avec l'inconscient, e depois traduzido por
tante ativo da luta anti-nazista, tendo comunis-      Denis Messier, em 1988, sob o ttulo Le Mot d'esprit
tas poloneses como companheiros. Em julho de          et sa relation  l'inconscient. Traduzido pela pri-
1939, estava em Paris para continuar a luta e,        meira vez para o ingls em 1916, por Abraham
112      Chistes e sua relao com o inconsciente, Os

Arden Brill*, sob o ttulo Wit and its Relation to the   inconsciente*, identificvel em todos os in-
Unconscious, e mais tarde, em 1960, por James            divduos.
Strachey*, sob o ttulo Jokes and their Relation to          Aps A interpretao dos sonhos* e a Psi-
the Unconscious.                                         copatologia da vida cotidiana*, Os chistes e
    Sigmund Freud tinha paixo por aforismos,            sua relao com o inconsciente foi a terceira
trocadilhos e anedotas judaicas, e no parou de          grande obra de Freud dedicada  elaborao de
colecion-los ao longo de toda a sua vida. Como          uma nova teoria do inconsciente. Foi preciso
inmeros intelectuais vienenses -- Karl                  complet-la com os Trs ensaios sobre a teoria
Kraus*, por exemplo --, era dotado de um                 da sexualidade*. Redigido na mesma poca e
senso de humor corrosivo e adorava as histrias          publicado no mesmo ano, esse quarto livro
das Schadhen (casamenteiras judias) ou dos               acrescentou ao edifcio freudiano uma nova
Schnorrer (pedintes), atravs das quais se expri-        doutrina da sexualidade* e trouxe para a ques-
miam, por meio do riso, os principais problemas          to do chiste um esclarecimento essencial, por-
da comunidade judaica da Europa Central, con-            quanto sublinhou o aspecto infantil ou polimor-
frontada com o anti-semitismo. Sob esse as-              fo da sexualidade humana que  encontrado nos
pecto, como sublinha Henri F. Ellenberger*, seu          jogos de linguagem.
livro sobre o chiste  um pequeno monumento                  Foi a leitura, em 1898, do livro de Theodor
 memria da vida vienense: ali ele conta his-           Lipps (1851-1914), Komik und Humor, que
trias de dinheiro e sonhos de glria, e piadas          incitou Freud a dedicar um livro a esse tema.
referentes ao sexo,  famlia, ao casamento etc.         Do trabalho desse filsofo alemo, herdeiro do
    Em mltiplas ocasies, Freud serviu-se do            romantismo, Freud preservou a adequao en-
Witz (chiste) tanto para zombar de si mesmo              tre o psiquismo e o inconsciente. Isso no o
quanto para expressar a seu crculo o quanto             impediu de encontrar outras fontes de inspira-
podia rir das realidades mais sombrias. Assim,           o: Georg Christoph von Lichtenberg (1851-
em 21 de setembro de 1897, depois de haver               1914), Cervantes, Molire e Heinrich Heine
explicado a Wilhelm Fliess* sua renncia                (1797-1856), entre outros.
teoria da seduo*, encerrou sua carta com esta              O texto divide-se em trs partes, uma anal-
aluso a uma piada de Schadhen: "Rebeca, tire            tica, a seguinte sinttica, e a ltima, terica.
o vestido, voc no est mais noiva." O adjetivo         Freud estuda primeiramente a tcnica do chiste,
noiva foi escrito em idiche (kalle) e a frase           para em seguida mostrar o mecanismo de prazer
significava que Freud, tendo resolvido mudar             que este emprega. Por fim, descreve o aspecto
de orientao terica, estava inteiramente nu,           social do chiste e sua relao com o sonho e com
qual uma moa abandonada pelo noivo na vs-              o inconsciente.
pera do casamento. Quarenta e um anos depois,                Dentre os diferentes Witze, Freud distingue
no fim da vida, forado a abandonar Viena*, ele          os inofensivos dos tendenciosos, tendo estes por
assinou sob coao uma declarao pela qual              mbil a agressividade, a obscenidade ou o ci-
reconhecia que os funcionrios do partido na-            nismo. Quando atingem seu objetivo, os chis-
zista haviam-no tratado corretamente. Pois               tes, que requerem a presena de pelo menos trs
bem, segundo a lenda, retomada por seu filho             pessoas (o autor da piada, seu destinatrio e o
Martin Freud* e, mais tarde, por Ernest Jones*,          espectador), ajudam a suportar os desejos recal-
ele teria acrescentado: "Posso recomendar cor-           cados, fornecendo-lhes um modo de expresso
dialmente a Gestapo a todos."                            socialmente aceitvel. Alm desses, segundo
    Freud apoiou-se em histrias do gueto para           Freud, existe um quarto mbil, mais terrvel que
estabelecer um elo entre o mecanismo do so-              os outros trs: o ceticismo. Os chistes desse
nho* e as diversas modalidades do riso. Em               registro empregam o contra-senso e atacam no
outras palavras, partiu de anedotas especficas          uma pessoa ou uma instituio, mas a certeza
de uma comunidade para propor uma anlise do             do juzo. Mentem quando dizem a verdade e
chiste cujo alcance  universal. Fossem quais            dizem a verdade atravs da mentira, como ilus-
fossem suas modalidades, com efeito, o Witz              tra esta historieta judaica: "Numa estao da
era, a seu ver, como que uma expresso do                Galcia, dois judeus encontram-se num trem. --
                                              Chistes e sua relao com o inconsciente, Os        113

Onde voc vai? -- pergunta um. -- A Cracvia        uma espcie de trilogia, que abarcaria A inter-
-- responde o outro. -- Mas, vejam s que           pretao dos sonhos e a Psicopatologia da vida
mentiroso! -- exclama o primeiro, enfurecido.       cotidiana. No mesmo ano, em seu seminrio As
-- Se voc est dizendo que vai a Cracvia, com     formaes do inconsciente, traduziu a palavra
certeza  porque quer que eu acredite que est      Witz por trait d'esprit [dito ou tirada espiri-
indo a Lemberg. S que eu sei que voc est         tuosos], e props uma interpretao pessoal da
indo mesmo a Cracvia. Ento, por que               histria narrada por Freud e retirada das Ima-
mente?"                                             gens de viagem de Heinrich Heine. Essa nar-
    Enquanto o sonho  a expresso da realiza-      rativa punha em cena um personagem saboroso,
o de um desejo* e de uma evitao do des-         Hirsch-Hyacinth, vendedor de bilhetes de lote-
prazer, que leva a uma regresso para o pensa-      ria e calista em Hamburgo, que se vangloriou
mento em imagens, o chiste  produtor de pra-       com o poeta de ter sido tratado familionaria-
zer. Se recorre aos mecanismos de conden-           mente pelo rico baro de Rothschild. Nesse
sao* e deslocamento*, caracteriza-se, antes       chiste, criado por um erro (inconsciente) a partir
de mais nada, pelo exerccio da funo ldica       de familiar e milionrio, Freud viu o resultado
da linguagem, cujo primeiro estdio seria a         de um processo de condensao semelhante ao
brincadeira infantil e o segundo, o gracejo.        encontrado no trabalho do sonho.
    Depois de examinar todas as formas do c-           Querendo destacar a relao entre o incons-
mico, desde as mais ingnuas at as mais com-       ciente e a linguagem, Lacan efetuou uma leitura
plexas, Freud conclui sua exposio com um          estrutural da noo freudiana de condensao.
estudo da prtica do humor. De Mark Twain           Assemelhou-a a uma metfora, fazendo do dito
(1835-1910) a Dom Quixote, distingue o hu-          espirituoso um significante*, isto , a marca
mor, o cmico e o chiste propriamente dito.         pela qual surge num discurso um "rasgo" [trait]
Todos trs, afirma ele, remetem o homem ao          de verdade que procuramos mascarar. No caso
estado infantil, pois "a euforia que almejamos      de Hirsch-Hyacinth, o desejo de "ter um milio-
atingir por esses caminhos no  outra coisa        nrio na palma da mo", impossvel de objeti-
seno o humor (...) de nossa infncia, idade em     var, exprimiu-se atravs do jogo de palavras
que desconhecamos o cmico, ramos inca-           familionrio.
pazes de espirituosidade e no precisvamos do          Por essa perspectiva, o livro de 1905 tornou-
humor para nos sentirmos felizes na vida".          se uma etapa fundamental na elaborao da
    Freud no dava grande importncia a esse        teoria freudiana do inconsciente. Lacan deu a
livro volumoso, que considerava como um en-         entender que Freud teria percebido, antes das
saio de psicanlise aplicada*  criao literria   descobertas da lingstica moderna, uma rela-
e no qual quase no introduziu modificaes ao      o entre as leis de funcionamento da lingua-
longo dos anos. Alis, era freqente sublinhar      gem e as do inconsciente.
que ele era uma digresso em relao  Inter-           Tal como Freud, Lacan tinha um humor
pretao dos sonhos. O livro no teve uma           corrosivo. Adorava trocadilhos e toda sorte de
acolhida entusistica e os mil exemplares da        piadas construdas segundo o modelo das his-
primeira edio s se esgotaram sete anos de-       trias judaicas. Foi um mestre do Witz, do tro-
pois. Foi inspirado nesse livro que o desenhista    cadilho e do aforismo e, acima de tudo, de
Ralph Steadman comps, em 1979, um lbum            maneira mais feroz do que Freud, soube mane-
humorstico sobre a vida de Freud, cujas ima-       jar a tcnica da "figurao pelo contrrio", co-
gens percorreram o mundo inteiro.                   mo  atestado por sua portentosa frmula sobre
    Em 1958, Jacques Lacan* foi o primeiro          a relao amorosa: "O amor  dar o que no se
grande intrprete da histria do freudismo a se     tem a algum que no o quer."
interessar de um modo novo por esse livro e a           A traduo do termo alemo Witz foi objeto
conferir ao Witz o estatuto de um conceito. Em      de polmicas entre os freudianos de lngua in-
sua clebre conferncia "A instncia da letra no    glesa e de lngua francesa. Em 1916, Abraham
inconsciente", qualificou Os chistes de texto       Arden Brill redigiu a primeira verso do livro
"cannico" e fez dessa obra a ltima parte de       em ingls e escolheu a palavra wit como equi-
114     Cinco lies de psicanlise

valente de Witz, com o risco de restringir a        pectiva. Afirmando a existncia de uma preten-
significao do chiste  espirituosidade intelec-   sa "lngua freudiana" e de uma disciplina deno-
tual, no sentido como dizemos que algum "tem       minada freudologia, concluram que o Witz no
esprito", ou " uma pessoa espirituosa", ou "faz   era um chiste [mot d'esprit], mas um rasgo da
tiradas oportunas". Opondo-se a essa reduo,       engenhosidade [trait de l'esprit] freudiana, que
James Strachey preferiu, em 1960, o vocbulo        era preciso transpor para a lngua francesa. Ao
joke, que ampliou a significao do termo, es-      cabo dessa elaborao meio bizantina, decidiu-
tendendo-o at a blague, a brincadeira ou a         se que o livro de Freud seria publicado com o
farsa, com o risco de dissolver o dito espirituo-   ttulo de Le Trait d'esprit, no volume VII das
so, ou seja, o aspecto intelectual do Witz freu-    Obras completas em francs.
diano, no campo mais vasto das diferentes for-
                                                     Sigmund Freud, Os chistes e sua relao com o
mas de expresso do cmico. Na verdade, por
                                                    inconsciente (1905), ESB, VIII, 1-266; GW, VI, 1-285;
trs dessa querela perfilava-se uma luta ideol-    SE, VIII; Paris, Gallimard, 1988; La Naissance de la
gica entre os ingleses e os norte-americanos        psychanalyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956;
pela apropriao da obra freudiana.  que Brill     Briefe an Wilhelm Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fis-
havia procurado, em sua traduo, "adaptar" o       cher, 1986  Georg Christoph von Lichtenberg, Witzige
                                                    und satirische Einflle, Gttingen, 1853  Theodor
pensamento freudiano ao esprito de alm-At-        Lipps, Komik und Humor. Eine psychologisch-s-
lntico, transformando certas blagues judaicas      thetische Untersuchung, Hamburgo, L. Voss, 1898 
em piadas norte-americanas. Strachey, ao con-       Edmund Bergler, Laughter and the Sense of Humour,
trrio, opondo-se a Brill, reivindicava uma fide-   N. York, Intercontinental Medical Book Corporation,
                                                    1956  Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de
lidade maior tanto ao texto freudiano quanto       Janeiro, Jorge Zahar, 1998; Le Sminaire, livre V, Les
lngua inglesa (e no norte-americana) e  his-     Formations de l'inconscient (1957-1958), indito, resu-
tria vienense.                                     mido por Jean-Bertrand Pontalis in Bulletin de Psycho-
    Na Frana, foi Lacan, contrariando Marie        logie, vol. XI, 1957-1958, 4, 5, vol. XII, 1958-1959, 2, 3,
                                                    4  Theodor Reik, Trente Ans avec Freud (N. York,
Bonaparte*, quem procurou traduzir Witz por         1956), Paris, Denol, 1976  Paul Ricoeur, Da interpre-
trait d'esprit, assim dissociando o trait [rasgo,   tao -- Ensaio sobre Freud, Rio de Janeiro, Imago,
trao], como significante, do esprit [intelecto,    1977  William M. Johnston, L'Esprit viennois. Une
engenho, esprito]. A partir da, os lacanianos,    histoire intellectuelle et sociale, 1848-1938 (1972), Pa-
                                                    ris, PUF, 1985  Ralph Steadman, Sigmund Freud
fascinados pelos trocadilhos do mestre, privile-    (Londres, 1979), Paris, Aubier-Montaigne, 1980  Jol
giaram o termo Witz, preferencialmente a chis-      Dor, Introduo  leitura de Lacan, t.1 (Paris, 1985), P.
te, como se o emprego do termo alemo permi-        Alegre, Artes Mdicas, 1992  Norman Kiell, Freud
tisse remeter o Witz freudiano a uma funo         without Hindsight. Reviews of his Work, 1893-1939,
                                                    Madison, International Universities Press, 1988  Andr
simblica da linguagem, a um trao significante     Bourguignon, Pierre Cotet, Jean Laplanche e Franois
no redutvel  diversidade das lnguas. Em         Robert, Traduzir Freud (Paris, 1989), S. Paulo, Martins
1988, quando do lanamento da excelente tra-        Fontes, 1992  Freudlichkeit. Recueils d'histoires ju-
duo de Denis Messier, Jean-Bertrand Pontalis      do-psychanalytiques, apres. de Franois Lvy, Jean-
                                                    Jacques Ritz e Emmanuel Suchet, Comp'Act, 1991 
redigiu uma nota em que se recusou a traduzir       Peter Gay, Lendo Freud (New Haven, Londres, 1990),
Witz por trait d'esprit. Mesmo levando em con-      Rio de Janeiro, Imago, 1992.
ta o carter positivo da contribuio terica de
Lacan, sublinhou, com justa razo, que o Witz        TRADUO (DAS OBRAS DE SIGMUND FREUD).
tinha, no sentido freudiano, uma significao
muito mais ampla e menos conceitual do que a
leitura que dele propusera Lacan. Da a opo       Cinco lies de psicanlise
de traduzir o livro como Le Mot d'esprit et sa
                                                    Livro de Sigmund Freud*, publicado pela primeira
relation  l'inconscient.                           vez em 1910, em ingls, no American Journal of
    Em 1989, os tradutores da edio das Obras      Psychology, sob o ttulo The Origin and Develop-
completas, sob a direo de Jean Laplanche,         ment of Psychoanalysis, numa traduo de H.W.
Pierre Cotet e Andr Bourguignon (1920-             Chase, e depois retraduzido por James Strachey*
1996), anunciaram, ao contrrio, sua inteno       em 1957, sob o ttulo Five Lectures on Psycho-ana-
de retomar o termo lacaniano numa outra pers-       lysis. Publicado em alemo em 1910, sob o ttulo
                                                                  Cinco lies de psicanlise      115

ber Psychoanalyse. Traduzido para o francs em       e, depois, em 17 de janeiro: "Se, malgrado tudo
1920 por Yves Le Lay, sob o ttulo Origine et dve-   o que possamos humanamente imaginar, a via-
loppement de la psychanalyse, e mais tarde, em        gem viesse de fato a ocorrer, o senhor me acom-
1923, sob o ttulo Cinq Leons sur la psychanalyse.   panharia, isso  certo."
Retraduzido por Cornlius Heim em 1991, sob o
                                                          Passadas algumas semanas, depois de um
ttulo Sur la psychanalyse. Cinq confrences, e
                                                      novo convite, que props datas mais cmodas
depois, em 1993, por Ren Lain e Johanna Stute-
                                                      e uma remunerao mais substancial, Freud
Cadiot, sob o ttulo De la psychanalyse.
                                                      convidou Ferenczi a acompanh-lo: "Venho
    Em 27 de agosto de 1909, Freud chegou aos         perguntar-lhe se gostaria de juntar-se a mim
Estados Unidos*, acompanhado por Sandor Fe-           nessa viagem. Para mim, seria um grande pra-
renczi* e Carl Gustav Jung*: seria sua nica          zer." Com a mesma solicitude, Ferenczi infor-
viagem ao continente americano. Foi a prop-          mou-lhe em 2 de maro que "aceit[ava] com
sito disso que Jacques Lacan* construiu seu           gratido" seu amvel convite. Muito contente
famoso mito da peste*.                                em lev-lo consigo, Freud no tinha a menor
    Em 30 de dezembro de 1908, Freud anun-            vontade, em contrapartida, de viajar na compa-
ciou a Jung haver recebido, por parte de Stanley      nhia de Jung, que ficou um tanto ressentido com
Granville Hall*, um convite para fazer uma            isso.
srie de conferncias na Clark University, de             Foi ento que a histria tomou outro rumo.
Worcester, no estado de Massachusetts. Temia          Em 12 de junho, Jung anunciou a Freud que
que essa viagem o fizesse perder dinheiro e           tambm ele fora convidado pela Clark Univer-
esclareceu: "No sou to rico que possa gastar        sity: " timo que eu esteja indo  Amrica,
cinco vezes mais em prol da estimulao da            no?" Freud s respondeu em 18 de junho, num
Amrica (...). Janet*, cujo exemplo eles invo-        tom amvel, mas antes disso, no dia 13 de
caram, provavelmente  mais rico ou mais am-          junho, dirigiu-se em tom sibilino ao pastor Os-
bicioso, ou no falta nada em sua prtica. La-        kar Pfister*: "A grande novidade de que Jung
mento, entretanto, que isso venha a malograr          estar indo a Worcester comigo", escreveu,
por essa razo, pois seria muito divertido."          "certamente tambm h de lhe ter causado sen-
    Em 7 de janeiro de 1909, Jung respondeu no        sao." No mesmo dia, informou secamente a
mesmo tom: "A propsito da Amrica, eu gos-           Ferenczi sobre a ida de Jung, deixando claro,
taria ainda de observar que Janet, por exemplo,       como que para evitar possveis confuses: "O
amorteceu posteriormente suas despesas de via-        prprio Jung h de lhe ter participado que rece-
gem atravs da clientela norte-americana que          beu igualmente um convite para nossa cerim-
granjeou. Kraepelin*, recentemente, deu uma           nia, para proferir trs conferncias sobre um
consulta na Califrnia pela modesta gorjeta de        tema que lhe foi imposto. A est algo que
50.000 marcos. Creio que esse aspecto da ques-        valoriza a histria toda e, para ns, com certeza
to tambm deve ser levado em considerao."          tudo se engrandecer e ampliar. Ainda no sei
Freud tambm temia o puritanismo. Na ver-             se ele conseguir tomar o mesmo navio que ns,
dade, achava que o pblico norte-americano            mas, de qualquer modo, estaremos juntos l."
no aceitaria o "ncleo essencial" de sua teoria          A viagem transcorreu sem incidentes. No
da sexualidade*.                                      navio George Washington, os trs homens ana-
    Transmitiu igualmente essa informao a           lisaram seus sonhos mutuamente, mas Freud
Karl Abraham*, que lamentou que a viagem              sentiu certa dificuldade em dar livre curso a
no pudesse ser feita. Quanto a Ferenczi, eis         suas associaes na presena de Jung.
como este comentou a deciso negativa de                  Durante cinco manhs, de tera-feira a sba-
Freud: "Consola-me que o senhor tenha apenas          do, ele proferiu suas conferncias. No fim da
quase aceito a viagem  Amrica, embora eu            semana, numa brilhante cerimnia, recebeu, tal
fosse bem capaz de acompanh-lo at mesmo             como Jung, o ttulo de doutor honoris causa.
por l." Freud retrucou no mesmo tom, primeiro            Unanimemente apreciadas, as cinco pales-
em 19 de janeiro de 1909 -- "Eu tambm seria          tras de Worcester tiveram uma acolhida triunfal
bem capaz de convid-lo a me acompanhar" --           na imprensa local e nacional. Num belo artigo,
116     Cinco lies de psicanlise

Stanley Hall, reitor da universidade, qualificou        Na verdade, essa conferncia ilustra, de ma-
de "novas e revolucionrias" as concepes          neira talvez ainda mais evidente do que as ou-
freudianas. Insistiu na importncia da sexuali-     tras, o talento pedaggico de Freud. Para expli-
dade e comparou a contribuio de Freud na          car com clareza as respectivas funes daqueles
psicologia  de Richard Wagner (1813-1883) na       trs conceitos em sua teoria, ele evoca a possvel
msica.                                             presena de um "importuno" (ou "moo dese-
    Para Freud, esse momento marcou o fim de        jante") que viesse perturbar o desenrolar de suas
seu isolamento. No entanto, em 1914, em seu         conferncias. Se tal fato viesse a ocorrer, algu-
ensaio sobre "A histria do movimento psica-        mas pessoas presentes na sala (as "resis-
naltico", falou com certa leviandade das cinco     tncias") no tardariam a se manifestar, para
conferncias, afirmando hav-las improvisado.       expulsar o intruso do anfiteatro: isso constituiria
Na verdade -- e sua correspondncia com Fe-         um recalque, que permitiria que a aula pudesse
renczi o atesta --, redigiu-as durante todo o       transcorrer em paz. Uma vez do lado de fora,
vero de 1909.                                      entretanto, o intruso poderia fazer ainda mais
    Foi em 1925, em sua autobiografia ("Um          barulho e perturbar o conferencista e seus ou-
estudo autobiogrfico"*), que ele adotou outra      vintes de maneira diferente, porm no menos
atitude a propsito de seu trabalho. Nesse retor-   insuportvel.  justamente disso que Freud cha-
no ao passado, com efeito, Freud no mascarou       ma o sintoma: uma manifestao deslocada da
sua emoo nem a importncia do aconteci-           moo inconsciente recalcada.
mento: "Na poca, eu contava apenas 53 anos,            Em seguida, ele compara o psicanalista a um
sentia-me jovem e saudvel, e essa breve tem-       mediador que fosse capaz de fazer uma nego-
                                                    ciao com o perturbador, a fim de que ele
porada no Novo Mundo foi, de maneira geral,
                                                    pudesse reingressar no anfiteatro, depois de se
benfica para meu amor-prprio; na Europa, eu
                                                    comprometer a no mais perturbar o auditrio.
me sentia meio proscrito, enquanto ali me vi
                                                    A tarefa do psicanalista, portanto, seria recon-
acolhido pelos melhores como um de seus
                                                    duzir o sintoma a seu lugar de origem, isto , 
pares. Foi como que a realizao de um deva-
                                                    idia recalcada.
neio improvvel subir ao plpito de Worcester,
                                                        A acreditarmos em Henri F. Ellenberger*, a
para ali proferir as Cinco lies de psicanlise
                                                    metfora do intruso foi perfeitamente enten-
(1910). A psicanlise*, portanto, j no era uma
                                                    dida. A conferncia de Freud na quarta-feira 
formao delirante, havendo-se transformado
                                                    tarde, com efeito, foi perturbada pela intromis-
numa parte preciosa da realidade."                  so de Emma Goldmann, a clebre anarquista
    Inicialmente publicadas em ingls, essas        norte-americana, acompanhada, nesse dia, por
cinco lies nada trazem de novo para quem          Ben Reitman, o "rei dos vagabundos".
conhece a essncia da obra freudiana. No entan-         Em seu prefcio  traduo francesa de
to, por sua clareza exemplar, tm uma funo        1991, Jean-Bertrand Pontalis sublinhou a enge-
didtica e constituem uma iniciao particular-     nhosidade de que Freud deu mostras ao usar
mente simples aos princpios gerais da psican-     essa imagem do perturbador. Contudo, subli-
lise.                                               nhou tambm que a ttica que consiste em
    A primeira conferncia versa sobre a es-        desarmar o adversrio em potencial comporta o
pecificidade da abordagem psicanaltica da          risco de gerar, por fora da moderao, um
neurose*. A propsito disso, Freud evoca a          nmero excessivo de mal-entendidos. Assim,
histria de Anna O. (Bertha Pappenheim*) e a        para no chocar o pblico norte-americano,
lembrana de Josef Breuer*. Na segunda confe-       Freud havia recuado, nesse momento, em rela-
rncia, explica de que modo o abandono da           o s posies adotadas em 1905, em seus Trs
hipnose* lhe permitiu captar a manifestao das     ensaios sobre a teoria da sexualidade*. Essa
resistncias*, do recalque* e do sintoma, assim     concesso, entretanto, no evitaria que sua dou-
como seu funcionamento em relao ao surgi-         trina fosse assemelhada a um pansexualismo*,
mento de "moes" do desejo*, por ele qualifi-      tanto nos Estados Unidos quanto em todos os
cadas de "perturbadoras" para o eu*.                outros lugares.
                                                                                              ciso     117

    Esse exemplo de deslizamento epistemol-               sionais da corporao (anlise didtica* e su-
gico, responsvel por uma certa edulcorao da             perviso*, anlise leiga* ou anlise feita por
teoria, tambm responde pelo interesse desse               mdicos) a partir de regras tcnicas (durao
livro. Nele, com efeito, podemos apreender co-             das sesses e dos tratamentos, currculo, hierar-
mo foi difcil o combate travado por Freud em              quias) que se tornaram contestveis aos olhos
prol do uso e da manuteno do termo sexuali-              de alguns de seus membros, a ponto de conduzi-
dade. Como sublinhou Jean Laplanche a esse                 los a rejeit-las radicalmente e, depois, a pro-
respeito, "Ceder quanto  palavra j  ceder em            mover uma secesso.
trs quartos quanto ao prprio contedo da                    O cisionismo produz-se, em geral, em torno
idia."                                                    da fala de um mestre cujo pensamento e ensino
                                                           despertam as conscincias, apontando a alunos
 Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da
sexualidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145;
                                                           ou discpulos o caminho de uma possvel reno-
SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; Cinco lies     vao da doutrina. Esse despertar conduz, de
de psicanlise (1910), ESB, XI, 13-58; GW, VIII, 3-60;     um modo geral, a um questionamento da m-
SE, XI, 7-55; OC, X, 1-55; "A histria do movimento        quina burocrtica, cujo objetivo, antes de mais
psicanaltico" (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113;
SE, XIV, 7-66; Paris, Gallimard, 1991; "Um estudo
                                                           nada,  a equiparao das condies entre todos
autobiogrfico" (1925), ESB, XX, 17-88; GW, XIV, 33-       os seus membros: nada de lder, nada de novo
96; SE, XX, 7-70; Paris, Gallimard, 1984  Sigmund         pensador, nada de mestre passvel de se asseme-
Freud e Karl Abraham, Correspondance, 1907-1926            lhar a Freud e de reunir a seu redor epgonos ou
(Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard, 1969  Sigmund
                                                           idlatras.
Freud e Sandor Ferenczi, Correspondncia, vol.I, 2
tomos, 1908-1914; (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Ima-         O cisionismo, portanto,  o sintoma da im-
go, 1994, 1995  Freud/Jung: correspondncia comple-       possibilidade de a psicanlise e o freudismo* da
ta (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993  Corres-    segunda metade do sculo XX serem represen-
pondance de Sigmund Freud avec le pasteur Pfister,
                                                           tados em sua totalidade unicamente pela IPA,
1909-1939 (Frankfurt, 1963), Paris, Gallimard, 1966 
Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'in-   ainda que ela seja a associao mais poderosa e
conscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,           mais legtima do mundo. Quanto mais impor-
1974), Paris, Fayard, 1994  Norman Kiell, Freud wi-       tante  o movimento freudiano num pas, mais
thout Hindsight. Review of his Work 1893-1939, Madi-
                                                           freqentes so as cises. Por isso  que o cisio-
son, International Universities Press, 1988  Jacques
Lacan, "A coisa freudiana ou Sentido do retorno a          nismo  realmente um fenmeno ligado ao de-
Freud em psicanlise" (1955), in Escritos (Paris, 1966),   senvolvimento das instituies psicanalticas.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 402-37  Jean              Os grandes pases cisionistas foram, de in-
Laplanche, Vida e morte em psicanlise (Paris, 1970),
                                                           cio, a Sua*, onde a primeira ciso teve como
P. Alegre, Artes Mdicas, 1985  lisabeth Roudinesco,
Jacques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um          piv a questo da anlise leiga (1927-1928), os
sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,             Pases Baixos*, onde a segunda eclodiu por
Companhia das Letras, 1994.                                ocasio da emigrao dos judeus (1934-1935)
                                                           expulsos pelo nazismo*, e depois os Estados
                                                           Unidos*, a Frana*, a Argentina* e o Brasil*.
ciso                                                      Somente a Gr-Bretanha* conseguiu evitar as
al. Trennung; esp. escisin; fr. scission; ing. scis-      cises, atravs de um arranjo interno da British
sion, shism                                                Psychoanalytical Society (BPS) aps as Gran-
    D-se o nome de ciso a um tipo de ruptura             des Controvrsias*: em vez de levar a uma
institucional ocorrida no interior da Internatio-          verdadeira ciso, os conflitos conduziram a
nal Psychoanalytical Association* (IPA) a par-             uma diviso tripartite da prpria BPS (kleinis-
tir do fim da dcada de 1920. O cisionismo                mo*, annafreudismo* e o Grupo dos Indepen-
um processo ligado ao desenvolvimento maci-                dentes*). Convm dizer que o piv, nesse caso,
o da psicanlise durante o entre-guerras e, mais          era especfico, uma vez que era a filha de Freud
tarde, durante a segunda metade do sculo XX.              que corria o risco de ser excluda da sociedade
Atesta uma crise da instituio psicanaltica e a          legtima ou de abandon-la.
transformao desta num aparelho burocrtico,                 A palavra ciso reveste-se de uma dimenso
destinado a administrar os interesses profis-              poltica. Por isso, convm na perfeio ao mo-
118     ciso

vimento psicanaltico, que construiu suas as-           Essas duas dissidncias concerniram, na
sociaes com base num modelo copiado do das        verdade, a questes tericas. Nesse aspecto, h
organizaes modernas. Por outro lado, ela re-      entre a dissidncia e a ciso a mesma distncia
mete ao conceito freudiano de clivagem*             que separa o cisma da heresia. O cisma (religio-
(Spaltung) e  idia de que  impossvel alcan-     so), assim como a ciso (leiga),  a contestao
ar qualquer unidade na ordem do humano. O          da autoridade legtima da instituio que repre-
termo difere, portanto, de cisma, muitas vezes      senta a doutrina a ser transmitida (a Igreja*, na
empregado na terminologia inglesa e que, em-        religio, e a IPA, na psicanlise), ao passo que
bora designe a contestao de uma autoridade        a dissidncia (leiga), tal como a heresia (religio-
legtima, tem uma conotao religiosa que no       sa),  uma crtica da doutrina transmitida, que
convm  inscrio da psicanlise no sculo.        tanto pode conduzir  ruptura radical quanto ao
    A palavra dissidncia tem outra significa-      rearranjo ou reformulao internos da doutrina
o. Designa a ao ou o estado de esprito de      original.
quem rompe com a autoridade estabelecida,               As dissidncias de Wilhelm Stekel* e Otto
mas no implica a idia de separao e diviso      Rank*, sob esse aspecto, so diferentes da adle-
que est presente no termo ciso. Por isso ela     riana e da junguiana, porquanto dizem respeito
empregada em psicanlise para designar as rup-      a certos aspectos da doutrina e no  sua totali-
turas ocorridas durante a primeira metade do        dade. Trata-se, pois, de dissidncias internas 
sculo XX, numa poca em que o freudismo            histria da teoria freudiana, da qual conservam
ainda no se havia tornado um verdadeiro mo-        quer o essencial, quer uma parte. A dissidncia
vimento de massa, como aconteceria depois da        de Wilhelm Reich*  da mesma ordem, tendo
morte de Freud. A dissidncia, portanto,  um       sido acompanhada, como a de Rank, de uma
fenmeno historicamente anterior ao das             expulso da IPA.
cises, contemporneas da expanso macia da            Note-se que Jacques Lacan foi o nico a
psicanlise no mundo, e, por conseguinte, do        utilizar a palavra excomunho para designar a
advento da terceira gerao* psicanaltica mun-     maneira como foi obrigado a deixar a IPA em
dial (Jacques Lacan*, Heinz Kohut*, Marie           1963. Com isso, inscreveu sua ruptura com a
Langer*, Wilfred Ruprecht Bion*, Igor Caru-         legitimidade freudiana na linha direta do herem
so*, Donald Woods Winnicott*). Instrudos pe-       de Baruch Spinoza (1632-1677), que era um
los representantes da segunda gerao, os mem-      castigo de carter leigo, e no religioso. Lacan,
bros da terceira s tiveram acesso a Freud atra-    alis, comportou-se diante da IPA da mesma
vs da leitura dos textos. Considerando que a       maneira que o filsofo frente  sua comunidade:
IPA j no era uma instncia legtima inatac-      ele mesmo providenciou sua excluso. E o em-
vel, eles questionaram no apenas a interpreta-     prego dessa palavra traduz perfeitamente bem
o clssica da obra freudiana, mas tambm as       a posio particular ocupada pelo lacanismo*
modalidades da formao didtica, s quais no      na histria do freudismo. Ao contrrio das ou-
mais queriam se submeter, arrastando consigo        tras correntes, que procuravam ultrapassar o
as geraes seguintes.                              freudismo, Lacan instaurou, com efeito, uma
    De modo geral, emprega-se o termo dis-          retomada ortodoxa dos textos freudianos. Cen-
sidncia para qualificar as duas grandes ruptu-     surando a instituio freudiana (IPA) por j no
ras que marcaram os primrdios do movimento         ser freudiana, ele se viu coagido a fundar um
psicanaltico: com Alfred Adler*, em 1911, e        novo lugar de legitimidade para o exerccio da
com Carl Gustav Jung*, em 1913. Essas duas          psicanlise -- a cole Freudienne de Paris*
rupturas conduziram seus protagonistas a aban-      (EFP) --, assim fazendo nascer um movimento
donar o freudismo e fundar, ao mesmo tempo,         que, apesar de se pretender freudiano, seria
uma nova doutrina e um novo movimento pol-         chamado de lacaniano. Essa  a contradio
tico e institucional: a psicologia individual, no   traduzida pela palavra excomunho: tambm o
caso do primeiro, e a psicologia analtica, no      jovem Spinoza foi coagido por seu herem a
que tange ao segundo.                               fundar uma filosofia "spinozista".
                                                                                         Claude, Henri        119

 Sigmund Freud, "A histria do movimento psicanalti-      sobre a libido", mencionava o debate entre
co" (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV,
                                                            Freud e ele em torno dessa noo.
7-66; Paris, Gallimard, 1991  Frances H. Giltelson,
"Crise d'identit. Scissions ou compromis. Solutions
                                                             douard Claparde, "Freud et la psychanalyse", La
positives ou constats d'chec", in Edward Joseph e
                                                            Revue de Genve, 6, dezembro de 1920, 846-64;
Daniel Widlcher, L'Identit du psychanalyste, Paris,
                                                            "Introduction" e "Note additionnelle sur la libido", in
PUF, 1979, 169-88  Pearl King, "Crise d'identit. Scis-
                                                            Sigmund Freud, Sur la psychanalyse. Cinq conf-
sions ou compromis. Solutions ou constats d'chec",
                                                            rences, Paris, Gallimard, 1991  Henri Flournoy,
idem, 189-204  Jean Baptiste Boulanger, "Dis-
                                                            "douard Claparde, 1873-1940", Supplment aux
sidences, scessions et dfections dans l'histoire du
                                                            Archives des Sciences Physiques et Naturelles, Gene-
mouvement psychanalytique", Union Mdicale du Ca-
                                                            bra, Kungdig, 58, 1, janeiro-maro de 1941, 13-20.
nada, 112, 1983, 744-6  lisabeth Roudinesco, His-
tria da psicanlise na Frana, vol. 2 (Paris, 1986), Rio
de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; "Lacan et Spinoza.            CINCO LIES DE PSICANLISE.
Essai d'interprtation", in Olivier Bloch (org.), Spinoza
au XXe sicle, Paris, PUF, 1993, 577-86  Malcolm
Pines, "La Dissension dans son contexte", Topique, 57,      Clarke, Charles Kirk (1857-1924)
1995, 191-207  R.D. Hinshelwood, "Le Mythe du com-
promis britannique", ibid., 229-45  Nellie L. Thompson,    psiquiatra canadense
"Les Schismes dans le mouvement psychanalytique                 Nascido em Elora, na provncia de Ontrio,
aux tats-Units", ibid., 257-71.                            Charles Kirk Clarke visitou Emil Kraepelin*
                                                            em 1907 em Munique e, no ano seguinte, tomou
 ASSOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE;
                                                            como assistente Ernest Jones* no Hospital Psi-
HORNEY, KAREN; SOCIEDADE PSICOLGICA DAS
QUARTAS-FEIRAS.                                             quitrico de Toronto, onde durante trinta anos
                                                            foi o grande especialista no tratamento das psi-
                                                            coses* e um dos introdutores da psicanlise* na
civilizao                                                 parte anglfona do Canad*.
 CULTURALISMO; MAL-ESTAR NA CULTURA, O.                      Alan Parkin, An History of Psychoanalysis in Canada,
                                                            Toronto, The Toronto Psychoanalytic Society, 1987.

Claparde, douard (1873-1940)                               AUSTRLIA; GLASSCO, GERALD STINSON;
pedagogo e psiclogo suo                                  MEYERS, DONALD CAMPBELL.
    Favorvel s idias freudianas, douard
Claparde teve um papel na histria da introdu-
o da psicanlise* na Sua. Em 1907, visitou              Claude, Henri (1869-1945)
a Clnica do Hospital Burghlzli e depois aderiu            psiquiatra francs
 Sociedade Freud, criada por Carl Gustav                       Clnico da esquizofrenia*, inventor do termo
Jung*. Em 1908, participou do primeiro con-                 "esquizose" para designar as doenas por dis-
gresso da futura International Psychoanalytical             sociao, Henri Claude foi um dos principais
Association* (IPA) em Salzburgo. Foi tambm,                representantes da tradio psiquitrica francesa
com Thodore Flournoy*, seu primo, editor dos               da primeira metade do sculo, terreno privile-
Arquivos de Psicologia e fundou em Genebra o                giado no qual se implantou a psicanlise*. Alu-
Instituto Jean-Jacques Rousseau. Quando foi                 no de Fulgence Raymond (1844-1910), tam-
publicada em francs a primeira traduo de                 bm discpulo de Jean Martin Charcot*, tornou-
uma obra de Sigmund Freud*, redigiu a sua                   se, a partir de 1922, o grande chefe da clnica
introduo. Tratava-se das cinco conferncias               das doenas mentais no Hospital Sainte-Anne.
dadas por este nos Estados Unidos*. Elas foram              Fez-se protetor oficial do freudismo* e encar-
reunidas em uma traduo de Yves Le Lay,                    regou Ren Laforgue* de um consultrio de
primeiro em La Revue de Genve, sob o ttulo                psicanlise no seu servio, onde foram aco-
"Origens e desenvolvimento da psicanlise", e               lhidos Adrien Borel*, Angelo Hesnard*, e Eu-
depois publicadas por Sonor (Genebra) e Payot               gnie Sokolnicka*. Assim, ocupou a posio
(Paris), sob o ttulo A psicanlise. Claparde              privilegiada de mestre de psiquiatria da terceira
relatava o comeo da histria da psicanlise na             gerao psicanaltica francesa, notadamente
Frana* e na Sua. Em uma "Nota adicional                  Jacques Lacan* e tambm Henri Ey*, que foi
120       Claus, Carl

seu assistente e lhe emprestou sua concepo do               das mulheres orientais de atar tecidos ou faz-
organodinamismo.                                              los deslizar ao longo do corpo. Passou assim os
   Nacionalista e particularmente germanfo-                  anos da Grande Guerra fabricando figurinhas de
bo, queria ser, como Hesnard, adepto de uma                   madeira vestidas com tecido, que guardaria du-
psicanlise dita "cartesiana" e adaptada ao "g-              rante toda a vida, e que hoje fazem parte do
nio latino".                                                  patrimnio do Museu do Homem em Paris.
                                                              Clrambault foi um colonialista apaixonado por
 Paul Bercherie, Os fundamentos da clnica (Paris,
1980), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989  lisabeth          etnologia.
Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana, vol.1              Misgino obstinado, conservador, hostil ao
(Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989.             freudismo* e ao surrealismo*, na condio de
                                                              mdico-chefe da enfermaria especial dos alie-
                                                              nados da delegacia de polcia de Paris, foi o
Claus, Carl (1835-1899)                                       guardio daquilo que se chamava na poca de
mdico e zologo alemo                                       constitucionalismo. A seus olhos, a doena
    Depois de estudar medicina e cincias natu-               mental subordinava-se a uma organognese*:
rais, Carl Claus foi o introdutor na ustria do               era de natureza constitutiva, isto , de substrato
pensamento darwiniano. Professor de zoologia                  hereditrio. Clrambault foi todavia, para a ge-
e anatomia comparada na Universidade de Vie-                  rao francesa dos psiquiatras do perodo entre
na*, deu cursos sobre o evolucionismo e criou                 as duas guerras, adepta das concepes de Sig-
em Trieste o Instituto de Pesquisas sobre os                  mund Freud* e Eugen Bleuler*, um clnico mo-
Animais Marinhos. Em 1874, Sigmund Freud*                     derno. Redigiu certificados de internao cle-
seguiu seus cursos, no momento em que Claus                   bres por seu formalismo e inventou a sndrome
se dedicava a uma vasta polmica com outro                    do automatismo mental para designar os dis-
discpulo alemo de Charles Darwin (1809-                     trbios de origem orgnica que atingiam o su-
1882), Ernst Haeckel*. No ano seguinte, obteve                jeito, causando nele a convico delirante de
por duas vezes uma bolsa para Trieste, onde                   uma perda da vontade e de uma alienao a uma
efetuou pesquisas sobre as gnadas da enguia.                 fora externa agindo em seu lugar, como um
    Em 1990, Lucille Ritvo foi a primeira a                   automatismo*. Baseando-se nessa sndrome,
estudar a importncia do ensino de Carl Claus                 distinguiu as psicoses* alucinatrias dos del-
na gnese da adeso de Freud ao darwinismo,                   rios passionais e classificou entre estes a loucu-
especialmente  tese da hereditariedade dos                   ra* do amor casto, chamada erotomania, cuja
caracteres adquiridos.                                        fonte principal reside no orgulho sexual. A his-
 Lucille B. Ritvo, A influncia de Darwin sobre Freud        tria, constatava Clrambault,  sempre a mes-
(N. York, 1991), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Patrick        ma: o heri se acredita amado por aquela ou
Tort, "Claus Carl", in Patrick Tort (org.), Dictionnaire du   aquele que ele deseja castamente e que  em
darwinisme et de l'volution, Paris, PUF, 1996, 612-3.
                                                              geral um personagem clebre -- ator, rei ou
 BRCKE, ERNEST; MEYNERT, THODOR; MOI-                       acadmico. Assim, a sra. Dupont estava persua-
SS E O MONOTESMO; TOTEM E TABU.                             dida de que o Prncipe de Gales se interessava
                                                              por ela, a procurava, marcava encontros aos
                                                              quais ele no comparecia. Ela se ressentia, acu-
Clrambault, Gatan Gatian de                                 sava-o de engan-la e finalmente atravessou a
(1872-1934)                                                   Mancha, para surpreend-lo em flagrante delito
psiquiatra francs                                            de traio. Voltando a Paris, agrediu em via
   Gatan (ou Gatan) Gatian de Clrambault,                  pblica um policial, que a conduziu para o
que Jacques Lacan* designaria em 1966 como                    escritrio do chefe da enfermaria especial, a fim
seu "nico mestre em psiquiatria", foi o clnico              de ser internada. Em 1932, Lacan utilizaria a
francs mais brilhante dos anos 1920-1930. De-                noo de erotomania para descrever o caso de
pois de estudar medicina e direito, alistou-se no             Marguerite Anzieu*, o que lhe permitiu pos-
exrcito do Marrocos e apaixonou-se pela "ban-                teriormente construir uma teoria da parania*,
deira rabe", descrevendo com mincias a arte                 atravs da qual ligaria as teses da escola alem
                                                                                 clivagem (do eu)         121

-- nas quais o prprio Freud se inspirara -- s         Chaslin (1857-1923) chamou de discordncia
da escola francesa.                                     um fenmeno idntico, ao qual deu o nome de
   Em 1934, atingido por um glaucoma que o              loucura discordante.
ameaava de cegueira, Clrambault se suici-                 Partindo dessa terminologia e da descrio,
dou. Sentado em uma poltrona diante de um               no campo da histeria*, de fenmenos idnticos,
espelho, deu um tiro de pistola na boca.                Freud foi como que conduzido a introduzir a
                                                        dissociao (Spaltung) no eu (Ich). Assim, no
 Gatan Gatian de Clrambault, Oeuvre psychiatri-      contexto de sua segunda tpica* e de uma re-
que, 2 vols., Paris, PUF, 1942; L'rotomanie, Paris,
Synthlabo, col. "Les empcheurs de penser en rond",    flexo sobre a renegao e o fetichismo*, ele
1993  lizabeth Renard, Le Docteur Gatan Gatian de    cunhou o termo clivagem do eu (Ichspaltung).
Clrambault, sa vie et son oeuvre, 1872-1934 (1942),    Atravs disso, remeteu a discordncia ao cerne
Paris, Synthlabo, col. "Les empcheurs de penser en    do eu, enquanto a psiquiatria dinmica* a situa-
rond", 1992  lisabeth Roudinesco, Jacques Lacan.
Esboo de uma vida, histria de um sistema de pen-
                                                        va entre duas instncias e a caracterizava como
samento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Le-      um estado de incoerncia, mais do que como
tras, 1994.                                             um fenmeno estrutural.
                                                            Melanie Klein* retomou a noo freudiana
 CLAUDE, HENRI; EY, HENRI; FETICHISMO; FORA-            e deslocou a clivagem para o objeto, assim
CLUSO; FRANA; JANET, PIERRE; NOME-DO-PAI;
                                                        elaborando sua teoria dos objetos bons e maus,
PERVERSO; SCHREBER, DANIEL PAUL; SUICDIO.
                                                        enquanto Jacques Lacan*, marcado pela tradi-
                                                        o psiquitrica francesa, empregou o termo
                                                        discordncia, inicialmente em 1932, para defi-
clivagem (do eu)                                        nir uma diferena (da loucura) em relao a uma
al. Ichspaltung; esp. escisin del yo; fr. clivage du   norma. Vinte anos depois, criou uma coleo de
moi; ing. splitting of the ego                          palavras para designar as diferentes modali-
Termo introduzido por Sigmund Freud* em 1927            dades de clivagem, no apenas do eu, mas
para designar um fenmeno prprio do fetichis-          tambm do sujeito. No contexto de sua teoria
mo*, da psicose* e tambm da perverso* em geral,       do significante*, com efeito, mostrou que o
e que se traduz pela coexistncia, no cerne do eu*,     sujeito humano  duplamente dividido -- uma
de duas atitudes contraditrias, uma que consiste
                                                        primeira instncia separa o eu imaginrio do
em recusar a realidade (renegao*), outra, em
                                                        sujeito do inconsciente, e uma segunda ins-
aceit-la.
                                                        tncia se inscreve no prprio interior do sujeito
    As idias de Spaltung (clivagem), disso-            do inconsciente, para representar sua diviso
ciao e discordncia foram inicialmente de-            original. A essa segunda diviso ele chamou
senvolvidas, no fim do sculo XIX, por todas            refenda [refente], a partir do ingls fading (to
as doutrinas que estudavam o automatismo                fade, perder a luminosidade [esmaecer, desva-
mental*, a hipnose* e as personalidades mlti-          necer-se]), para dar a idia do esvaecimento (do
plas*. De Pierre Janet* a Josef Breuer*, todos          sujeito e de seu desejo*), prxima do que Ernest
os clnicos da conscincia dupla (inclusive o           Jones* chamava de afnise*.
jovem Freud) viam nesse fenmeno -- o da                    Assim como Melanie Klein, Lacan estendeu
coexistncia de dois campos ou duas persona-            a noo de clivagem  prpria estrutura do
lidades que se ignoravam mutuamente -- uma              indivduo em sua relao com o outro, ao passo
ruptura da unidade psquica, que acarretava um          que Freud, embora tenha aberto caminho para
distrbio do pensamento e da atividade asso-            esse tipo de generalizao, utilizou-a essen-
ciativa e conduzia o sujeito*  alienao mental        cialmente na clnica da psicose e da perverso.
e, portanto,  psicose. Foi nesse contexto que
Eugen Bleuler* fez da Spaltung o distrbio               Sigmund Freud, "A organizao genital infantil da
principal e primrio da esquizofrenia* (do gre-         libido: uma interpolao na teoria da sexualidade"
go skhizein: fender), isto , da forma de loucu-        (1923), ESB, XIX, 179-88; GW, XIII, 293-8; SE, XIX,
                                                        139-45; OC, XVI, 303-9; "A perda da realidade na
ra* caracterizada por um rompimento de qual-            neurose e na psicose" (1924), ESB, XIX, 229-38; GW,
quer contato entre o doente e o mundo externo.          III, 363-8; SE, XIX, 183-7; OC, XVII, 35-43; "Fetichis-
Um ano depois, o psiquiatra francs Philippe            mo" (1927), ESB, XXI, 179-88; GW, XIV, 311-7; SE,
122       cocana

XXI, 147-57; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969; "A       junto do Comit at sua morte, em 1920, e Max
clivagem do eu no processo de defesa" (1938), ESB,
XXIII, 309-14; GW, XVII, 59-62; SE, XXIII, 271-8; in
                                                            Eitingon* juntou-se ao grupo em 1919. Para o
Rsultats, ides, problmes, II, Paris, PUF  Eugen         mestre, assim cercado por seus seis eleitos e por
Bleuler, Dementia praecox ou groupe des schizophr-         aquele que financiava a editora do movimento
nies (Leipzig, 1911), Paris, EPEL-GREC, 1993  Phi-         psicanaltico (Internationaler Psychoanalyti-
lippe Chaslin, lments de smiologie et cliniques
mentales, Paris, Asselin et Houzeau, 1912  Jacques
                                                            scher Verlag), tratava-se, aps as duas primeiras
Lacan, Da psicose paranica em suas relaes com a          dissidncias (de Alfred Adler* e Wilhelm
personalidade (1932), Rio de Janeiro, Forense Univer-       Stekel*) e tendo por fundo o grave conflito com
sitria, 1987; O Seminrio, livro 11, Os quatro conceitos   Carl Gustav Jung*, de determinar de que ma-
fundamentais da psicanlise (1964) (Paris, 1973), Rio
de Janeiro, Jorge Zahar, 1979  Georges Lantri-Laura       neira se poderia preservar a doutrina psicanal-
e Martine Gros, Essai sur la discordance dans la psy-       tica de qualquer forma de desvirtuamento, des-
chiatrie contemporaine, Pais, EPEL, 1992  Ignacio          vio ou m interpretao. Inspirado no modelo
Garate e Jos Miguel Marinas, Lacan en castellano,
                                                            romntico e iluminista das sociedades secretas
Madri, Quipu Ediciones, 1996.
                                                            do sculo XIX, o Comit foi concebido por
 ANZIEU, MARGUERITE; CASTRAO; DENEGA-                     Jones como um crculo de iniciados,  maneira
O; ESPIRITISMO; FLOURNOY, THODORE; FORA-                 dos paladinos de Carlos Magno ou dos cavalei-
CLUSO; MEYER, ADOLPH; OBJETO (BOM E MAU);                  ros da Tvola Redonda  procura do Santo
OBJETO, RELAO DE; OBJETO (PEQUENO) a;                     Graal. Para selar a sagrada unio entre os guar-
PREISWERK, HELENE.                                          dies do templo, Freud entregou a cada um
                                                            deles um entalhe grego, que eles mandaram
                                                            engastar em anis de ouro.
cocana
                                                                Depois de ter sido o laboratrio imaginrio
 KOLLER, CARL.
                                                            de um ideal impossvel de pureza doutrinal, e
                                                            sobretudo um lugar de poder paralelo ao da
Collomb, Henri (1913-1979)                                  direo da International Psychoanalytical As-
psiquiatra francs                                          sociation* (IPA), o Comit, por sua vez, foi
    Depois de fazer carreira como mdico mili-              perpassado pelos conflitos que pretendia evitar:
tar, Henri Collomb foi durante vinte anos, em               entre os discpulos judeus e Jones (o nico no
Dakar (Senegal), o chefe de uma experincia de              judeu), entre o norte e o sul (os berlinenses, de
psiquiatria transcultural, marcada pelos princ-            um lado, e os austracos, do outro), entre Fe-
pios da psicanlise*.                                       renczi e Jones, entre Ferenczi e Freud, entre este
                                                            e Rank, entre os partidrios de uma renovao
 ANTROPOLOGIA; DEVEREUX, GEORGES; ET-                       da tcnica psicanaltica* e os "ortodoxos", entre
NOPSICANLISE; FANON, FRANTZ; ROHEIM, GEZA;                 uma poltica de expanso para os Estados Uni-
SACHS, WULF.
                                                            dos* e um fechamento no mundo europeu etc.
                                                            Foi dissolvido em 1927. Rank, o mais antidog-
colonizao                                                 mtico e mais tolerante do grupo (com Ferenc-
                                                            zi), que havia desempenhado um papel consi-
 ANTROPOLOGIA; ETNOPSICANLISE; FANON,
FRANTZ; NDIA; MANNONI, OCTAVE.                             dervel no seio do Comit, abandonou ento
                                                            definitivamente o movimento freudiano, em
                                                            condies dramticas.
Comit Secreto (1912-1927)                                      A publicao das Rundbriefe (ou cartas cir-
   Chama-se Comit Secreto ou Comit, ou                    culares) dos membros do Comit, guardadas em
ainda Ring (anel), o crculo formado em 1912,               Nova York na Universidade Columbia, dever
por iniciativa de Ernest Jones*, composto dos               trazer um novo esclarecimento sobre o que foi
discpulos mais fiis de Sigmund Freud*: Karl               a poltica do movimento psicanaltico nesse
Abraham*, Hanns Sachs*, Otto Rank* e Sandor                 perodo de sua histria, em especial a propsito
Ferenczi*. Anton von Freund* esteve associado               da homossexualidade* e da implantao da psi-
a essa iniciativa e foi considerado membro ad-              canlise* na Rssia*.
                                                                                     comunismo        123

 Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3       e vem se desenvolvendo a psicanlise*, o termo
vols. (N. York, 1953, 1955, 1957), Rio de Janeiro,
                                                          comunismo abrange trs realidades diferentes.
Imago, 1989  E. James Lieberman, La Volont en acte.
La Vie et l'oeuvre d'Otto Rank (N. York, 1985), Paris,        Em primeiro lugar, est ligado ao marxismo,
PUF, 1991  Phyllis Grosskurth, O crculo secreto (Lon-   doutrina calcada nos trabalhos de Karl Marx
dres, 1991), Rio de Janeiro, Imago, 1992.                 (1818-1883) e sistematizada por Friedrich En-
                                                          gels (1820-1895), por volta de 1880, para de-
 CISO; COLE FREUDIENNE DE PARIS (EFP);
                                                          signar um corpus terico e os que nele se pau-
JUDEIDADE; MESMER, FRANZ ANTON; PASSE; SO-
CIEDADE PSICOLGICA DAS QUARTAS-FEIRAS.
                                                          tam. O marxismo, de certa maneira, redescobriu
                                                          o comunismo introduzindo nele um novo
                                                          contedo terico. Nesse aspecto, instaurou-se
complexo                                                  entre o marxismo e o freudismo* um vnculo
al. Komplex; esp.; complejo; fr. complexe; ing. com-
                                                          que deu origem a uma corrente intelectual des-
plex                                                      ignada pelo nome de freudo-marxismo*, cujos
                                                          principais representantes foram os filsofos da
Termo criado pelo psiquiatra alemo Theodor Zie-
                                                          Escola de Frankfurt e os psicanalistas da "es-
hen (1862-1950) e utilizado essencialmente por
Carl Gustav Jung*, para designar fragmentos sol-
                                                          querda freudiana": desde Otto Fenichel* a Wi-
tos de personalidade ou grupos de contedo ps-           lhelm Reich*, passando por Erich Fromm* e
quico separados do consciente* e que tm um               Herbert Marcuse*.
funcionamento autnomo no inconsciente*, de on-               Outras pontes foram lanadas entre o comu-
de podem exercer influncia sobre o consciente.           nismo e a psicanlise, a fim de apreender criti-
    A acreditarmos nas diversas escolas de psi-           camente a realidade social e subjetiva. Assim,
coterapia*, existem mais de cinqenta com-                numerosos intelectuais do sculo XX foram ao
plexos.                                                   mesmo tempo marxistas e freudianos, sem se-
    Na terminologia freudiana, essa palavra              rem freudo-marxistas, quer tenham ou no ade-
associada apenas a dois conjuntos de repre-               rido ao comunismo ou ao movimento psicana-
sentaes inconscientes na vida psquica do               ltico. Em regra geral, foram simultaneamente
sujeito*: o complexo de dipo* e o complexo               criticados pela corporao psicanaltica, exces-
de castrao*.                                            sivamente conservadora para se interessar pelas
    Em sua primeira teoria do imaginrio*                 teses deles, e pelos partidos comunistas, amide
(1938), Jacques Lacan* ligou o termo com-                 stalinistas demais para aceit-las.
plexo  palavra imago* e fez desse conjunto                   Pessoalmente, Freud sempre manifestou
uma estrutura que permite compreender a ins-              uma hostilidade, se no ao marxismo, pelo me-
tituio familiar.                                        nos ao comunismo e, acima de tudo, aos freu-
                                                          do-marxistas. Foi contra Reich que se mostrou
                                                          mais violento, sobretudo em 1933, no momento
compulso                                                 em que os freudianos de todas as tendncias
 PULSO; REPETIO, COMPULSO .                          deveriam ter se mobilizado contra o nazismo*,
                                                          e no contra os dissidentes marxistas de seu
                                                          prprio movimento. (Freud, entretanto, jamais
comunismo                                                 confundiu comunismo com nazismo, como
   O termo comunismo surgiu no fim do sculo              mostra uma carta publicada por Jones, dirigida
XVIII, para designar uma formao social ba-              a Marie Bonaparte* em 10 de junho de 1933:
seada na abolio da propriedade individual,              "O mundo est se transformando numa enorme
em favor da propriedade coletiva dos bens de              priso. A Alemanha  a pior de suas celas. O que
produo.                                                 acontecer na cela austraca  absolutamente
   Por extenso, a palavra remete s diferentes           incerto. Prevejo uma surpresa paradoxal na Ale-
doutrinas, utpicas ou no, que tendem a pro-             manha. Eles comearam tendo o bolchevismo
mover esse tipo de sociedade.                             como seu inimigo mortal e terminaro com algo
   No que concerne ao fim do sculo XIX e a               que no se distinguir dele -- exceto pelo fato
todo o sculo XX, isto ,  poca em que nasceu           de que o bolchevismo, afinal, adotou ideais
124     comunismo

revolucionrios, ao passo que os do hitlerismo       Tchecoslovquia) ou simplesmente ligados ao
so puramente medievais e reacionrios.")            modelo comunista (Romnia*, Iugoslvia, Chi-
    Foi na Frana*, onde o freudo-marxismo era       na etc.)
inexistente, que se efetuou com mais riqueza a           Em todos os pases que se tornaram comu-
juno entre o ideal comunista e a idia de uma      nistas e onde a psicanlise estava implantada no
subverso freudiana. Primeiro atravs do movi-       comeo do sculo, ela foi proibida e seus repre-
mento surrealista, que se colocou a servio de       sentantes foram perseguidos, caados ou obri-
um duplo projeto de revoluo da linguagem e         gados a se exilar. Naqueles em que ainda no
da realidade, e depois com o Collge de Socio-       existia antes do advento do regime comunista,
logie, que reativou a problemtica do sagrado e      ela tambm foi proibida. Num primeiro mo-
das pulses coletivas nas sociedades democr-        mento, de 1920 a 1949, e  medida que se deu
ticas. Citamos ainda a reformulao do marxis-       a stalinizao do movimento comunista e a
mo inaugurada por Louis Althusser (1918-             transformao do regime sovitico (e de seus
1990) em 1964, a partir de uma leitura do texto      satlites) num sistema totalitrio, a supresso de
largamente inspirada nas teses freudianas.           todas as liberdades associativas e polticas acar-
    No mbito clnico, foi o movimento de psi-       retou a extino pura e simples da prtica psi-
coterapia institucional*, nascido na Resistncia     canaltica e de suas instituies.
antifascista, que por sua vez levou em conta a           Num segundo momento, a partir de 1949, a
problemtica de uma revolta articulada em tor-       psicanlise foi condenada na Unio Sovitica
no do marxismo, do freudismo, do movimento           como "cincia burguesa", no contexto da cru-
comunista e do surrealismo.                          zada lanada no ps-guerra por Andrei Jdanov
    A palavra comunismo abrange uma segunda          (1896-1948) em favor de uma diviso do mun-
realidade: a da constituio de um movimento         do em "dois campos", um portador da felicidade
e, portanto, de uma internacional e de um par-       proletria, o outro condenado ao saudosismo
tido comunista. Nesse aspecto, a psicanlise, na     burgus. Enquanto se anunciava nos Estados
medida em que tambm se constituiu num mo-           Unidos uma assustadora caa s bruxas anti-
vimento internacional, pde ser comparada a          marxista, no Leste europeu o discurso comunis-
uma internacional de tipo comunista. Assim           ta cristalizava-se numa denncia exagerada dos
como o freudismo procura transformar o sujei-        horrores do capitalismo. Na perspectiva jdano-
to* atravs da explorao de seu inconsciente*,      viana (ou Jdanovchtchina), existiam duas cul-
e o marxismo visa a modificar a sociedade            turas e duas cincias, uma burguesa e imperia-
atravs de uma luta coletiva, as duas doutrinas      lista, que era preciso combater, e outra prolet-
empregaram um aparato institucional destinado        ria, que era preciso defender. Assim, foi como
a disseminar suas idias e a organizar partid-      cincia burguesa que a psicanlise viu-se con-
rios no mundo inteiro. E h, sem dvida, um          denada, embora fizesse vinte anos que havia
ponto em comum entre as duas primeiras Inter-        desaparecido da Unio Sovitica.
nacionais socialistas e a International Psychoa-         Essa condenao teve uma repercusso ime-
nalytical Association* (IPA). Contudo, entre a       diata em todos os partidos comunistas, que lan-
Terceira Internacional marxista-leninista, isto ,   aram ento violentas campanhas antifreudia-
o Komintern (1919-1943), e a IPA no h ne-          nas nos pases democrticos. E foi a teoria do
nhuma comparao possvel. A IPA  regida            condicionamento, do fisiologista russo Ivan Pe-
pelo princpio da liberdade associativa e seu        trovitch Pavlov (1849-1936), cujo centenrio
aparelho s se implantou nos Estados de direito.     estava sendo celebrado, que se reatualizou co-
    Por fim, a palavra comunismo remete a uma        mo contrapeso s teorias freudianas. O pavlo-
terceira realidade, a instaurao de um sistema      vismo tornou-se o padro generalizado de uma
e de um poder comunistas nos pases em que a         psicologia chamada materialista, que foi con-
psicanlise se havia ou no implantado no incio     trastada com a cincia burguesa freudiana, dita
do sculo: primeiro a Rssia* e, depois, passada     espiritualista ou reacionria. Na Frana, essa
a Segunda Guerra Mundial, todos os pases            campanha concretizou-se com a publicao, em
ligados  Unio Sovitica (Hungria*, Polnia,        1949, de uma petio antipsicanaltica, assinada
                                                                                     condensao        125

por psiquiatras e psicanalistas que eram mem-               ente, em especial no sonho*, para desembocar
bros do Partido Comunista, dentre eles Serge                numa nica imagem no contedo manifesto,
Lebovici, futuro presidente da IPA.                         consciente*.
    Em todos os outros pases produziram-se fe-                 Como indica Freud, numerosos autores lhe
nmenos idnticos, e foi preciso esperar pelo ano           haviam apontado a existncia de um mecanis-
de 1956 para que a atitude dos partidos comunistas          mo de condensao atuante no processo do
satlites da URSS se abrandasse um pouco.                   sonho, sem contudo deter-se nele.
    Somente aps a queda do comunismo, em                       Desde a primeira edio de A interpretao
1989,  que o freudismo pde implantar-se                   dos sonhos*, a condensao foi reconhecida
novamente na Rssia e na Romnia, ou encon-                 como um dos processos essenciais do trabalho
trar uma nova via de introduo na Polnia, na              do sonho, responsvel pela diferena entre o
Bulgria e na Repblica Tcheca.                             contedo onrico manifesto, caracterizado por
                                                            sua pobreza, e seus pensamentos latentes, cuja
 Andr Jdanov, Sur la littrature, l'art et la musique     riqueza e amplitude parecem no ter limites. 
(1948), Paris, d. de la Nouvelle Critique, 1950  "Auto-
critique. La Psychanalyse, idologie ractionnaire", in
                                                            claro que essa diferena entre o sonho manifes-
La Nouvelle Critique, 7, junho de 1949, 52-73  Serge       to e seu contedo latente pode variar de um
Moscovici, La Psychanalyse, son image et son public,        sonho para outro, e seria impossvel contemplar
Paris, PUF, 1961  Ernest Jones, A vida e a obra de         a determinao de qualquer "quociente de con-
Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955, 1957),
Rio de Janeiro, Imago, 1989  Maurice Nadeau, His-
                                                            densao", mas nem por isso deixa de ser ver-
toire du surralisme, Paris, Seuil, 1964  Louis Althus-    dade -- como  atestado por todas as anlises
ser, Pour Marx, Paris, Maspero, 1965; crits sur la         de sonhos -- que a condensao se produz
psychanalyse, Paris, Stock-IMEC, 1993  Georges Po-         sempre no mesmo sentido. Para descrever seu
litzer, crits 1. La Philosophie et les mythes, crits 2.
Les Fondements de la psychologie, Paris, ditions
                                                            funcionamento, Freud interpreta diversos so-
Sociales, 1969  Lucien Sve, Marxisme et thorie de        nhos, em especial o chamado sonho da "mono-
la personnalit, Paris, 1969  Lucien Sve, Catherine       grafia botnica". Assim se evidencia a funo
Clment e Pierre Bruno, Pour une critique marxiste de       nodal dos termos monografia e botnica, nos
la thorie psychanalytique, Paris, ditions Sociales,
1973  F. Champarnaud, Rvolution et contre-rvolu-
                                                            quais um certo nmero de pensamentos latentes
tion culturelle en URSS, de Lnine  Jdanov, Paris,         do sonho vem juntar-se como que numa espcie
Anthropos, 1976  Dominique Lecourt, Lyssenko. His-         de sntese, a qual implica a perda de algumas de
toire relle d'une science proltarienne, Paris, Mas-       suas caractersticas prprias em prol de um
pero, 1976  Denis Hollier, Le Collge de Sociologie,
1937-1939 (1979), Paris, Gallimard, col. "Folio-Essais"
                                                            reforo de um ou vrios de seus aspectos co-
1995  Lilly Marcou, Le Mouvement communiste inter-         muns. Em outras palavras, como  dito bem no
national depuis 1945, Paris, PUF, col. "Que sais-je?",      final do captulo de A interpretao dos sonhos
1980  Georges Labica (org.), Dictionnaire critique du      dedicado ao trabalho do sonho, a condensao
marxisme, Paris, PUF, 1982  lisabeth Roudinesco,
Histria da psicanlise na Frana, vol. 2 (Paris, 1986),
                                                            "rene e concentra pensamentos dispersos do
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.                          sonho". Por ltimo, e Freud volta a isso no
                                                            clebre captulo VII de seu livro, a condensao
 ANTIPSIQUIATRIA; BASAGLIA, FRANCO; BLEGER,                  principalmente responsvel pela impresso de
JOS; DOSUZKOV, THEODOR; EITINGON, MAX;                     estranheza que o sonho produz em ns. Ao
ESCANDINVIA; HAAS, LADISLAV; HISTRIA DA PSI-              amalgamar entre si traos andinos ou secun-
CANLISE; LANGER, MARIE; WORTIS, JOSEPH.                    drios de diversos pensamentos, para produzir
                                                            um contedo manifesto que os represente a
                                                            todos, a condensao efetua uma transposio,
condensao                                                 partindo da coerncia psquica para represen-
al. Verdichtung; esp. condensacin; fr. conden-             taes de um contedo particularmente intenso.
sation; ing. condensation                                   Essa operao  comparvel a uma leitura que
Termo empregado por Sigmund Freud* para desig-              retivesse de um texto unicamente os termos
nar um dos principais mecanismos do funciona-               impressos em itlico ou em negrito, por serem
mento do inconsciente*. A condensao efetua a              eles considerados essenciais ao entendimento
fuso de diversas idias do pensamento inconsci-            do texto.
126       Conferncias introdutrias sobre psicanlise

    O papel essencial da condensao  igual-                  num nico volume, em 1917, sob o ttulo Vorlesun-
mente evidenciado na Psicopatologia da vida                    gen zur Einfhrung in die Psychoanalyse. Traduzi-
cotidiana* e em Os chistes e sua relao com o                 do para o francs pela primeira vez em 1921, por
inconsciente*. No primeiro desses dois livros,                 Samuel Janklvitch, sob o ttulo Introduction  la
Freud mostra, interpretando um lapso (uma se-                  psychanalyse. Traduzido para o ingls pela primei-
                                                               ra vez em 1920, sem indicao do tradutor mas sob
nhora que diz de um homem que, para agradar,
                                                               a direo e com um prefcio de Stanley Granville
basta ele "ter cinco membros direitos"), que a
                                                               Hall*, sob o ttulo A General Introduction to Psy-
condensao se realiza a fundindo as idias
                                                               choanalysis. Mais tarde, traduzido em 1922 por
concernentes  existncia de quatro membros e                  Joan Riviere* sob o ttulo Introductory Lectures on
cinco sentidos. Ao mesmo tempo, ele sublinha                   Psycho-Analysis, com um prefcio de Ernest Jo-
que esse lapso, por seu carter divertido,  as-               nes*. A traduo de Joan Riviere foi posteriormente
semelhvel a um chiste, aproximao que lhe                    reeditada em 1935 sob o ttulo A General Introduc-
parece passvel de ser generalizada muito alm                 tion to Psychoanalysis, incluindo os dois pref-
desse simples exemplo.                                         cios. Traduzido em 1964 por James Strachey* sob
    Em Os chistes e sua relao com o incons-                  o ttulo Introductory Lectures on Psycho-Analysis.
ciente, a condensao intervm como uma das                        Durante o inverno de 1915-1916, quando
tcnicas responsveis pela produo do chiste,                 acabara de reformular sua concepo da orga-
mas  passvel, em alguns casos -- o que cons-                 nizao das pulses*, publicando sua introdu-
titui uma nova modalidade --, de ser acompa-                   o ao conceito de narcisismo*, e estava
nhada pela formao de um substituto, isto ,                  desenvolvendo sua metapsicologia*, Freud
uma nova palavra. O exemplo mais clebre diz                   proferiu uma srie de conferncias, sempre aos
respeito  condensao efetuada entre as pala-                 sbados  noite, na Faculdade de Medicina de
vras familiar e milionrio, ou seja, ao neologis-              Viena*. Ao contrrio do que tinha previsto, o
mo familionrio. Jacques Lacan*, em seu semi-                  pblico foi numeroso. Anna Freud*, Max
nrio de 1958, As formaes do inconsciente,                   Schur* e Edoardo Weiss* (que traduziria para
interpreta esse chiste no mbito de sua teoria do              o italiano, alguns anos depois, o conjunto dessas
significante*. Nela, a condensao  identifica-               conferncias) tambm estavam presentes. A
da com a metfora, que intervm onde emerge                    platia foi aumentando ao longo das palestras e
um sentido a partir do no-senso: do no-senso                 Freud renovou essa experincia no inverno se-
do termo familionrio surge um sentido, o de                   guinte. A srie de aulas foi ento publicada num
ter familiaridade com um milionrio.                           volume que alcanou um sucesso equiparvel
 Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),            ao que obtivera, quase doze anos antes, a Psi-
ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621; Paris,   copatologia da vida cotidiana*. Indcio da po-
PUF, 1967; A psicopatologia da vida cotidiana (1901),          pularidade crescente da psicanlise no mundo,
ESB, VI; GW, IV; SE, VI; Paris, Payot, 1973; Os chistes        esse novo livro seria traduzido em 16 lnguas
e sua relao com o inconsciente (1905), ESB, VIII,
1-266; GW, VI, 1-285; SE, VIII; Paris, Gallimard, 1988 
                                                               durante a vida de seu autor. Isso no impediu
Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,         que, antes mesmo do lanamento, Freud mani-
Jorge Zahar, 1998; Le Sminaire, livre V, Les Formations       festasse mais uma vez sua insatisfao a res-
de l'inconscient (1957-1958), indito  Jean Laplanche e       peito da obra, numa carta endereada a Lou
Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Pa-
ris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Howard
                                                               Andras-Salom*, datada de 14 de julho de
Shevrin, "Condensation et mtaphore", in Nouvelle Re-          1916: "... minhas conferncias", escreveu num
vue de Psychanalyse, 5, 1972, 115-30.                          tom meio desiludido, "matria meio bruta, des-
                                                               tinada s massas e encarregada, como se sabe,
 DESLOCAMENTO.                                                 de me livrar de uma vez por todas de fazer
                                                               conferncias elementares". Deixando de lado
                                                               essas reservas, Lou deu a conhecer sua reao
Conferncias introdutrias sobre                               positiva assim que recebeu o fascculo dedicado
psicanlise                                                    aos atos falhos, enquanto Karl Abraham*
Livro inicialmente publicado por Sigmund Freud*                manifestou seu entusiasmo numa carta de 2 de
em trs partes distintas, entre 1916 e 1917, e depois          janeiro de 1917.
                                                 Conferncias introdutrias sobre psicanlise     127

    As Conferncias introdutrias sobre psica-        retados pelas simples palavras proferidas por
nlise compreendem trs grupos de aulas: as           um ser amado, um responsvel ou um superior:
quatro primeiras dizem respeito aos atos fa-          "As palavras", sublinha Freud, "provocam
lhos*; as onze seguintes so dedicadas ao so-         emoes e constituem, para os homens, o meio
nho*, e as outras treze, que em si constituem a       geral de influenciar uns aos outros."
verdadeira segunda parte do livro, so agrupa-            Livremo-nos de nossas prevenes, portan-
das sob o ttulo de "Teoria geral das neuroses".      to, prope Freud a seu auditrio, e nos conten-
    A primeira parte  precedida de uma intro-        temos em "assistir" a essa troca de palavras
duo curta e densa, na qual Freud alterna com        entre o analista e seu paciente. Mas, nova difi-
brilhantismo o humor, a zombaria, a seriedade         culdade,  impossvel assistir a uma sesso de
e o rigor, para apresentar a psicanlise* e o que     psicanlise, embora seja corriqueiro observar
ela traz de novo (e sobretudo de incmodo) a          apresentaes de doentes no mbito dos servi-
um pblico que ele toma por pouco ou mal              os de psiquiatria. Com efeito, a psicanlise
informado e, inevitavelmente, por crtico, se         pressupe a fala espontnea e no controlada
no hostil.                                           por parte do paciente; assim, ela versa sobre o
    Logo de sada, Freud procura desestimular         que h de mais ntimo e mais pessoal, que no
sua platia de sentir qualquer interesse pela         pode ser dito na presena de terceiros.
psicanlise, e sublinha os riscos sociais, profis-        Sendo assim, como ter convico do interes-
sionais e econmicos corridos pelos que que-          se dessa abordagem psicanaltica, to descon-
rem fazer dessa nova prtica sua profisso.           certante? Para comear, pode-se proceder a uma
Quanto aos demais, aqueles a quem tal adver-          espcie de auto-observao, levando em conta
tncia no desanimar, ele declara acolh-los de       e tratando, por meio de algumas indicaes,
muito bom grado, a fim de lhes expor as inme-        uma srie de fenmenos psquicos freqentes e
ras dificuldades inerentes  psicanlise.             conhecidos em geral. Esse primeiro caminho,
    A primeira dessas dificuldades -- e Freud         que anuncia sem explicit-las as futuras aulas
ento muda de tom, para abordar questes de           sobre os atos falhos e o sonho, pode conduzir 
ordem epistemolgica -- reside naquilo que            convico da solidez de fundamento das con-
distingue a medicina da psicanlise.                  cepes psicanalticas. Mas, se realmente qui-
    As diferenas manifestam-se, primeiramen-         sermos inteirar-nos da justeza da psicanlise e
te, no plano do ensino. No prprio lugar onde         da finura de sua tcnica, ser preciso que nos
Freud est falando, o estudante e futuro mdico       deixemos "analisar por um psicanalista compe-
aprende a ver, tocar e manipular. Guiado por          tente", entendendo-se, acrescenta Freud -- que
clnicos experientes, descobre e aprende a co-        nesse ponto introduz uma advertncia surpreen-
nhecer um universo de fatos. Ora, agora  pre-        dente, uma vez que parece antecipar-se  futura
ciso abandonar esse terreno tranqilizador,           irrupo das terapias de grupo --, que "esse
pois, previne Freud, "infelizmente, as coisas se      meio excelente continua s podendo ser utiliza-
do de um modo totalmente diverso na psica-           do por uma nica pessoa e nunca se aplica a uma
nlise. O tratamento psicanaltico comporta           reunio de vrias".
apenas uma troca de palavras entre o analisando           Surge ento um outro obstculo, relaciona-
e o mdico". Essa prtica, fundamentada na fala       do com a deturpao mental inerente ao estudo
e conferindo s palavras uma importncia ex-          da medicina. Decididamente, Freud no es-
clusiva, gera quase que inevitavelmente dvida        quece que est se dirigindo essencialmente a
e desconfiana por parte daqueles (em especial        mdicos. Contrastando a concepo mdica,
o crculo dos pacientes) que esto acostumados        organizada em torno de um sistema de causali-
a confiar no "visvel" e no "palpvel". Essas         dades orgnicas, fisiolgicas e anatmicas, com
reaes habituais, entretanto, so motivo de          a concepo psicanaltica, que se mantm afas-
surpresa, se nos dermos ao trabalho de pensar         tada desse conjunto de determinaes e s se
na importncia das palavras e dos ditos em            apia em noes puramente psicolgicas, ele
todos os campos da vida, se pensarmos na feli-        aborda sucintamente, mas em termos j radi-
cidade ou no desespero que podem ser acar-            cais, um tema que  fonte de conflitos e ao qual
128     Conferncias introdutrias sobre psicanlise

voltar posteriormente, sobretudo em A questo      prezvel nas criaes do esprito humano, nos
da anlise leiga*.                                  campos da cultura, da arte e da vida social". Esta
    Administrando cuidadosamente seus efei-         ltima audcia constitui, segundo Freud, que
tos, Freud, cujas qualidades de pedagogo pode-      nesse ponto registra sua experincia, a razo
mos aquilatar pela leitura dessas linhas introdu-   principal das resistncias* em que esbarra a
trias, aborda ento as duas ltimas dificul-       psicanlise. Para dar conta desse obstculo, ele
dades que a psicanlise reserva aos que nela        desenvolve uma argumentao que mais tarde
querem se engajar.                                  ir retomar, particularmente em O mal-estar na
    Como primeira dessas "premissas desagra-        cultura*. Freud sublinha a ameaa que essas
dveis", a psicanlise considera que a essncia     pulses sexuais fazem pesar sobre a ordem
dos processos psquicos  inconsciente. Isso,       social, evoca seu recalque* e sua transformao
como admite Freud sem dificuldade, justifica a      atravs do mecanismo da sublimao* e, por
perda da simpatia de todos aqueles -- a maioria     ltimo, fala das medidas educativas tomadas
-- para quem no existe psiquismo seno o           pela sociedade para rechaar o perigo do retorno
consciente, a comear pelos psiclogos, sejam       sempre possvel dos instintos sexuais, medidas
eles adeptos do procedimento descritivo ou do       estas que so invalidadas, precisamente, pelas
outro, experimental, que se liga  fisiologia dos   descobertas feitas no campo da psicanlise. To-
sentidos. No apenas a psicanlise ousa falar de    das essas reaes de ordem moral ou sentimen-
pensamento e vontade inconscientes como tam-        tal, entretanto, conclui Freud, no podem servir
bm se permite, na pessoa do conferencista,         de argumentos lgicos capazes de pr em dvi-
taxar de "preconceito" o enunciado de uma           da a solidez de fundamento de um avano cien-
identidade entre o psiquismo e o consciente. O      tfico para cujo estudo, nesse ponto, ele convida
tom, nesse ponto, j no  de amargura, mas de      aqueles dentre seus ouvintes a quem a enume-
uma ironia mordaz. Mesmo tomando a precau-          rao de todas essas dificuldades no houver
o de lembrar que a existncia do inconsciente     desestimulado.
 da ordem da hiptese (prudncia perfeita-             Fiel a uma tcnica comprovada, coloca en-
mente retrica, que ele voltar a exprimir numa     to seu pblico na posio de interlocutor -- um
de suas Novas conferncias introdutrias sobre      interlocutor alternadamente atento e questio-
psicanlise*), Freud efetivamente evoca as          nador, ou at crtico -- e desenvolve sua expo-
"vantagens" (conscincia leve e conforto mo-        sio dos objetos e conceitos da psicanlise, de
ral) que podem extrair de sua postura todos         uma forma e num ritmo cujo carter alerta
aqueles que negam a existncia do inconscien-       contribui incontestavelmente para o sucesso
te. A podemos discernir algumas das idias         dessas lies.
polmicas que ele desenvolveria mais tarde, em          As quatro primeiras conferncias retomam
particular em O futuro de uma iluso*.              de forma sinttica o tema da Psicopatologia da
    Essa hiptese audaciosa, de um psiquismo        vida cotidiana. O estudo dos atos falhos s se
essencialmente inconsciente, anuncia uma se-        justifica, esclarece Freud, na medida em que 
gunda e ltima dificuldade, que no entanto nada     suscetvel de trazer um enriquecimento para a
tem de insignificante: a psicanlise "proclama      psicanlise. De maneira ainda mais ntida, no
como uma de suas descobertas" a afirmao de        fim dessa primeira srie de lies, ele chama a
que "impulsos que s podemos qualificar de          ateno para o modelo que deve constituir o
sexuais, no sentido restrito ou lato da palavra,    modo como tratou esses fenmenos: "A partir
desempenham, como causas determinantes das          desse modo", diz ele, "os senhores j podem
doenas nervosas e psquicas, um papel extra-       avaliar quais so as intenes de nossa psicolo-
ordinariamente importante, e que at hoje no       gia. No queremos apenas descrever e clas-
foi aquilatado por seu valor". No s a psican-    sificar os fenmenos, mas tambm conceb-los
lise afirma o papel essencial da sexualidade no     como indcios de um jogo de foras que se
funcionamento psquico, como vai ainda mais         realiza na alma, como a manifestao de ten-
longe, afirmando que "as emoes sexuais as-        dncias que tm um objetivo definido e traba-
sumem um papel que est longe de ser des-           lham, quer na mesma direo, quer em direes
                                                Conferncias introdutrias sobre psicanlise      129

opostas. Procuramos formar uma concepo                 A terceira parte do livro, dedicada  teoria
dinmica dos fenmenos psquicos. Em nossa           geral das neuroses, corresponde s lies pro-
concepo, os fenmenos percebidos devem             feridas durante o inverno de 1916-1917. Nessa
apagar-se diante das tendncias que so sim-         oportunidade, Freud se alegra por poder reto-
plesmente admitidas."                                mar com seus ouvintes o fio daquelas "conver-
    As lies seguintes, dedicadas ao sonho,         sas". Mas o tom se modifica: dado que o objeto
constroem-se de maneira idntica: mesmo m-          dessa nova srie de aulas nada mais tem a ver
todo de exposio, recorrendo ao dilogo com         com fenmenos facilmente observveis na vida
um interlocutor a quem se atribuem perguntas,        cotidiana, j no se trata de discutir ou de pro-
objees e crticas. Elas constituem uma sntese     ceder atravs de perguntas e respostas, nem
recapitulativa do livro pioneiro, A interpreta-      mesmo fictcias. Trata-se, doravante, de expor
o dos sonhos*, cuja quinta edio estava           sem dogmatismo e sem uma preocupao de
prestes a ser publicada.                             polemizar -- Freud esclarece de passagem que,
    Freud dedica uma dessas lies  questo,        em matria cientfica, a polmica lhe parece
at hoje controvertida, da simblica do sonho,       estril -- a concepo psicanaltica das neu-
a qual desenvolvera amplamente nas edies de        roses. O pblico escutar e se impregnar da
1909 e 1911 de seu livro, em parte sob a influn-    lgica dessa concepo, at o momento em que
cia de Wilhelm Stekel*. Esse corpus de smbo-        sua dinmica e sua lgica sobrepujaro a con-
                                                     cepo "popular ou psicolgica" que ocupa
los tende a constituir uma espcie de reservat-
                                                     espontaneamente os espritos.
rio de tradues permanentes a que a anlise
                                                         Esta ltima parte do livro distingue-se das
deve recorrer quando o contedo manifesto no
                                                     anteriores num outro aspecto, que no  objeto
suscita nenhuma associao, o que, esclarece
                                                     de nenhum anncio. Se Freud realmente conti-
Freud, no pode ser atribudo a um fenmeno
                                                     nua a expor as conquistas da psicanlise na
de resistncia, mas  especificidade do material.
                                                     explicao dos processos neurticos, ele no se
Ele reconhece que esse conjunto de smbolos
                                                     limita a esse trabalho recapitulativo. Desen-
no deixa de evocar "o ideal da antiga e popular
                                                     volve, quando surge a oportunidade, temas ou
interpretao dos sonhos, um ideal do qual nos-      concepes ainda praticamente inditos. Nesse
sa tcnica nos afastou consideravelmente".           sentido, as Conferncias introdutrias sobre
Nesse ponto e em termos ainda mais claros,           psicanlise no so apenas um manual didtico,
renova a advertncia acrescentada em 1909 ao         mas constituem, assim como a maioria das pu-
texto de A interpretao dos sonhos: "No se         blicaes de Freud, uma etapa no desenvolvi-
deixem, contudo, seduzir por essa facilidade.        mento de sua elaborao terica.
Nossa tarefa no consiste em realizar faanhas.          Isso se aplica, em particular, ao captulo
A tcnica que repousa no conhecimento dos            sobre a angstia, onde  retomado um certo
smbolos no substitui a que repousa na as-          nmero de observaes clnicas, previamente
sociao e no pode comparar-se com ela. Ape-        desenvolvidas no mbito dos histricos de ca-
nas a complementa e lhe fornece dados utiliz-       sos, mas onde so igualmente introduzidas no-
veis." Dito isso, a freqncia das analogias         vas concepes, que anunciam as elaboraes
simblicas no sonho permite a Freud sublinhar        que Freud iria teorizar em Inibies, sintomas
o carter universalista da psicanlise, bem dife-    e angstia* (1926).
rente, nesse como em outros aspectos, da psi-            Do mesmo modo, o captulo intitulado
cologia e da psiquiatria. A considerao dessa       "A teoria da libido e o narcisismo", longe de se
dimenso simblica d ensejo a que a psican-        limitar  simples evocao das contribuies
lise se abra a outros campos do conhecimento,        contidas no texto de 1914,  a oportunidade de
como a mitologia, a histria das religies, a        introduzir pela segunda vez a idia de ideal do
lingstica e a psicologia dos povos, o que          eu* (que seria desenvolvida no curso da "gran-
justifica amplamente a criao de um novo            de reformulao" dos anos 20 e de onde emer-
peridico, a revista Imago*, cuja apresentao       giria a instncia do supereu*, conceituada, por
Freud assegura dessa maneira.                        sua vez, em O eu e o isso*).
130      Congresso

    O ltimo captulo  dedicado  teraputica            S. Paulo, Companhia das Letras, 1995  Ernest Jones,
                                                          A vida e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York,
analtica. Nele, Freud retoma a gnese do m-
                                                          1955), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Norman Kiell,
todo psicanaltico, marcada, em particular, pelo          Freud without Hindsight. Review of his Work 1893-
abandono do mtodo hipntico e pela rejeio              1939, Madison, International Universities Press, 1988
do recurso aos processos de sugesto. Em algu-             Freud/Lou Andras-Salom: correspondncia com-
mas linhas, esclarece sua reticncia em forne-            pleta, (Frankfurt, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1975.
cer, nesse como noutros pontos, um "guia pr-
tico para o exerccio da psicanlise", e demons-
tra atravs de exemplos como a transmisso                Congresso (da IPA)
dessa prtica passa por vias que no podem ser             INTERNATIONAL      PSYCHOANALYTICAL ASSOCIA-
as do ensino abstrato.                                    TION.
    Recusando-se a responder a todas as crticas
endereadas  psicanlise e chegando at a se
divertir com a evocao de alguns fracassos do
tratamento, mais freqentemente devidos, co-              conscincia
mo ele sublinha, a fatores externos (em especial          al. Bewusstsein, Selbstbewusstsein; esp. concien-
o crculo do paciente) do que  psicanlise em            cia; fr. conscience; ing. conscience, consciousness
si, Freud exclama, quase sereno: "Contra os               Termo empregado em psicologia e filosofia para
preconceitos no h nada a fazer. H que esperar          designar, por um lado, o pensamento em si e a
e deixar que o tempo se encarregue de desgas-             intuio que a mente tem de seus atos e seus
t-los." Se, ao trmino desses dois invernos de           estados, e, por outro, o conhecimento que o sujei-
aulas, ele sublinha os abusos a que a anlise             to* tem de seu estado e de sua relao com o
pode s vezes dar margem, sobretudo em vista              mundo e consigo mesmo. Por extenso, a cons-
da manipulao da transferncia, nem por isso             cincia  tambm a propriedade que tem o esprito
Freud deixa de concluir sua exposio com um              humano de emitir juzos espontneos.
toque de humor, destacando que qualquer                       Associado ao termo sujeito, o termo cons-
processo teraputico pode dar ensejo a usos               cincia se confunde, na histria das sociedades
abusivos, e que o prprio bisturi, conquanto seja         ocidentais, desde Ren Descartes (1596-1650)
um instrumento de cura, no tem outro recurso             e Immanuel Kant (1724-1804) at Edmund
seno cortar.                                             Husserl (1859-1938), com a prpria filosofia,
                                                          na medida em que pressupe uma universali-
 Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),       dade e uma singularidade da subjetividade hu-
ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;     mana, isto , um sujeito da conscincia, quer
Paris, PUF, 1967; A psicopatologia da vida cotidiana
(1901), ESB, VI; GW, IV; SE, VI; Paris, Payot, 1973;
                                                          essa conscincia seja emprica, transcendental,
"Sobre o narcisismo: uma introduo" (1914), ESB,         fenomnica ou dividida numa conscincia re-
XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV, 67-102; in La Vie    flexa e numa subconscincia de natureza auto-
sexuelle, Paris, PUF, 1969, 81-105; Conferncias intro-   mtica.
dutrias sobre psicanlise (1916-1917), ESB, XV-XVI;
GW, XI; SE, XV-XVI; Paris, Payot, 1973; O eu e o isso
                                                              Sob esse aspecto, o termo conscincia no
(1923), ESB XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX,        faz parte do vocabulrio da psicanlise*, embo-
12-59; OC, XVI, 255-301; Inibies, sintomas e angs-     ra a teoria freudiana do inconsciente* esteja re-
tia (1925), ESB, XX, 107-98; GW, XIV, 113-205; SE,        lacionada com a histria da filosofia da cons-
XX, 87-172; OC, XVII, 203-86; A questo da anlise        cincia, da qual  a herdeira crtica. Do ponto
leiga (1926), ESB, XX, 211-84; GW, XIV, 209-86; SE,
XX, 183-258; OC, XVIII, 1-92; O futuro de uma iluso      de vista clnico, a questo da conscincia encon-
(1927), ESB, XXI, 15-80; GW, XIV, 325-80; SE, XXI,        tra-se em todas as escolas de psicoterapia* que
5-56; OC, XVIII, 141-97; "O mal-estar na cultura"         se valem da fenomenologia ou da mobilizao
(1930), ESB XXI, 81-178; GW, XIV, 421-506; SE, XXI,       da vontade consciente dos pacientes no trata-
64-145; OC, XVIII, 245-333; Novas conferncias intro-
dutrias sobre psicanlise (1933), ESB, XXII, 15-226;
                                                          mento.
GW, XV; SE, XXII, 5-182, OC, XIX, 83-268  Sigmund
Freud e Karl Abraham, Correspondance, 1907-1926            ANLISE EXISTENCIAL; AUTOMATISMO MENTAL;
(Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard, 1969  Peter Gay,    CONSCIENTE; LOUCURA; HISTRIA DA PSICANLISE;
Freud, uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988),       METAPSICOLOGIA; PR-CONSCIENTE; PSIQUIATRIA
                                                                                 consciente      131

DINMICA;   SELF PSYCHOLOGY; SIGNIFICANTE; T-           Essa questo da "ciso do consciente" ou da
PICA.                                                "clivagem* da conscincia" constitui um elo
                                                     essencial no processo da descoberta do incons-
                                                     ciente. Revela constituir um ponto de discor-
consciente                                           dncia radical entre a concepo freudiana da
al. Bewusste (das); esp. conciente; fr. conscient;   neurose e a de Pierre Janet*. Se, para Janet, a
ing. conscious                                       clivagem da conscincia vem em primeiro lugar
Termo utilizado por Sigmund Freud*, quer como        na constituio da afeco histrica, a coisa se
adjetivo, para qualificar um estado psquico, quer   d de outra maneira para Freud -- e para Josef
como substantivo, para indicar a localizao de      Breuer* --, para quem a clivagem do cons-
certos processos constitutivos do funcionamento
                                                     ciente  secundria, "adquirida", efeito das re-
do aparelho psquico. Nessa condio, o consci-
                                                     presentaes que provm dos estados hipnides
ente , junto com o pr-consciente* e o inconsci-
                                                     e so isoladas dos contedos que permanecem
ente*, uma das trs instncias da primeira tpica*
freudiana.
                                                     na conscincia. Em seu artigo de 1894 sobre "as
                                                     neuropsicoses de defesa", Freud o afirma com
    O termo consciente, quer se trate do adjetivo
                                                     muita clareza: "Vemos, pois, que o fator ca-
ou do substantivo,  freqentemente utilizado
                                                     racterstico da histeria no  a clivagem da
por Freud como sinnimo de conscincia*, ex-
                                                     conscincia, mas a capacidade de converso..."
ceto quando se trata da conscincia moral
(Gewissen), processo psquico relacionado com            As funes e caractersticas do consciente
a constituio do ideal do eu* e do supereu*.        foram progressivamente definidas ao longo do
    Numa carta a Wilhelm Fliess* de 29 de            ano de 1896. A comear por janeiro, no manus-
agosto de 1888, Freud evoca sua introduo ao        crito K, endereado a Fliess, onde, falando da
livro de Hippolyte Bernheim* sobre a suges-          neurose obsessiva*, uma das quatro neuroses
to*, na qual ele toma o partido de Jean Martin      de defesa*, Freud ressalta que o complexo ps-
Charcot* em oposio ao do mestre de Nancy           quico constitudo pela lembrana de um inci-
e, a conselho de seus amigos, modera suas            dente sexual e pela culpa que ele acarreta co-
crticas a Theodor Meynert*. Nessa introduo,       mea sendo consciente, e depois  recalcado,
Freud se interroga sobre o fundamento da opo-        no trazendo o consciente mais do que um
sio entre fenmenos psquicos e fenmenos          vestgio dele, sob a forma de um "contra-sinto-
fisiolgicos, a propsito da hipnose*, e escla-      ma". Em maio desse mesmo ano de 1896, Freud
rece que, em sua opinio, "o estado consciente,      expe a Fliess os quatro perodos da vida que
seja ele qual for, no est ligado nem a todas as    esto implicados na etiologia das neuropsi-
atividades do crtex cerebral, nem tampouco,         coses. Ali esclarece as condies do consciente,
em grau idntico, a nenhuma de suas atividades       "ou melhor", como diz, do "tornar-se cons-
especficas. Ele no me parece localizar-se em       ciente": dentre elas, Freud ressalta a importn-
parte alguma no sistema nervoso".                    cia das representaes verbais, sem as quais
    Nos Estudos sobre a histeria*, ao comentar       nenhuma conscientizao pode efetuar-se, a
o caso Emmy von N. (Fanny Moser*) e a pres-          no pertinncia da busca de uma exclusividade
teza da paciente (idntica, nesse aspecto, a to-     consciente ou inconsciente na responsabilidade
dos os "neuropatas") em responsabilizar o m-        pelo fenmeno e, por ltimo, a atribuio desse
dico por seus sintomas, Freud fala das con-          processo do "tornar-se consciente"  existncia
dies aptas a suscitar o aparecimento "dessas       de um "compromisso entre as diversas foras
falsas associaes" e, em especial, da que          psquicas que, no momento dos recalques, en-
constituda pela "ciso do consciente", quase        tram em conflito".
sempre dissimulada, "seja porque a maioria dos           Em sua carta de 6 de dezembro de 1896 ao
neuropatas no tem nenhuma idia das causas          mesmo Fliess, Freud abandona a idia -- ex-
reais (ou, pelo menos, do motivo ocasional) de       pressa um ano antes, no "Projeto para uma
sua doena, seja porque se recusam a tomar           psicologia cientfica" -- de uma base neurofi-
conhecimento delas, no querendo ser lembra-         siolgica dos processos psquicos. Pela primei-
dos de que tm uma responsabilidade por isso".       ra vez, fala de um "aparelho psquico" cons-
132     consciente

titudo de trs nveis, o "consciente", o "pr-    ciente ao processo perceptivo. Aquilo a que, em
consciente" e o "inconsciente". Essa elaborao    1915, no artigo de sua metapsicologia* dedicado
terica  retomada e desenvolvida no captulo      ao inconsciente, ele havia chamado de sistema
VII de A interpretao dos sonhos*, e torna a      "percepo-conscincia" (Pc-Cs) recebe, por um
ser evocada em Mais-alm do princpio de pra-      lado, as excitaes externas, e por outro, vindas do
zer*, s vsperas da instaurao, em O eu e o      interior do aparelho psquico, sensaes organiza-
isso*, da segunda tpica.                          das em torno do eixo prazer/desprazer. Diferente-
    Freud depara com a questo da conscincia,     mente das outras instncias, pr-consciente e
do "tornar-se consciente", ao estudar a distor-    inconsciente, as excitaes recebidas pelo sistema
o no sonho*. O acesso do contedo do sonho       Pc-Cs, pelo fato mesmo de se tornarem
 conscincia, sob sua forma manifesta,  per-     conscientes, essencialmente por intermdio da ati-
mitido pela censura, que exerce sobre o material   vidade verbal, no deixam nenhum vestgio dura-
inconsciente "as modificaes que lhe con-         douro. Em decorrncia disso, o sistema perma-
vm". Essa concepo leva Freud a considerar       nece acessvel em qualquer momento a todas as
esse "tornar-se consciente" como um ato ps-       novas percepes, o que Freud ilustraria, em
quico especfico, bem distinto do pensamento e     1925, mediante o exemplo da lousa mgica.
da representao, sendo a conscincia encarada         Retomando essa concepo em Mais-alm
como um "rgo dos sentidos" cuja considera-       do princpio de prazer, Freud resume o proces-
o  indispensvel para a psicopatologia. Essa    so por meio de uma frmula de impacto: "A
insistncia d continuidade  inverso que ele     conscincia aparece no lugar do trao mnmi-
havia efetuado anteriormente em relao  filo-    co." A nfase  novamente colocada no aspecto
sofia e  psicologia tradicionais. No sem um      dinmico do processo, uma vez que a espe-
certo jbilo, ele retoma a seu modo as "palavras   cificidade do sistema Pc-Cs  postulada como
vigorosas" de Theodor Lipps (1851-1914), para      inerente a seu movimento: h uma simultanei-
quem "o problema do inconsciente em psicolo-       dade entre o processo de conscientizao e o
gia  (...) menos um problema psicolgico do       processo de apagamento da modificao provo-
que o problema da prpria psicologia". Durante     cada por essa tomada de conscincia.
muito tempo, observa Freud, a psicologia privi-        Em O eu e o isso, o sistema Pc-Cs  objeto
legiou a equivalncia entre o psquico e o cons-   de um novo exame, ligado  destruio da assi-
ciente, privando-se de meios de explicar as        milao, ainda em vigor at esse momento,
observaes, fornecidas pela clnica psicopato-    entre o eu e a conscincia. Essa identidade
lgica, que atestam uma clivagem entre a cons-     levava a que se concebesse a neurose como o
cincia de um sujeito e alguns processos psqui-   produto de um conflito entre o consciente e o
cos complexos cuja existncia  atestada por       inconsciente. A nova tpica exposta nesse en-
seus sonhos ou seus sintomas.                      saio modificou radicalmente essa concepo e
    Contudo, uma vez efetuada essa inverso,       levou a se considerar o eu como uma parte
era importante enfrentar um novo perigo, o de      modificada do isso*, sendo essa modificao
                                                   resultante de uma influncia externa efetuada
uma psicologia inteiramente organizada em tor-
                                                   por intermdio do sistema Pc-Cs.
no de um inconsciente pensado como estrita-
mente no consciente, o que se deu com a escola     Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
behaviorista, alvo da ironia freudiana no Esbo-    (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
o de psicanlise*. Da a pergunta formulada       Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; "As neu-
no ltimo captulo de A interpretao dos so-      ropsicoses de defesa" (1894), ESB, III; GW, I, 57-74;
                                                   SE, III, 41-61; OC, III, 1-18; A interpretao dos sonhos
nhos: "Que papel conserva em nossa concep-         (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V,
o, portanto, a conscincia outrora onipotente,   1-621; Paris, PUF, 1967; "O inconsciente" (1915), ESB,
e que encobria e ocultava todos os outros fen-    XIV, 191-232; GW, X, 263-303; SE, XIV, 159-204; OC,
menos?"                                            XIII, 203-42; Mais-alm do princpio de prazer (1920),
                                                   ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69; SE, XVIII, 1-64; in
    Em essncia, e no sem deparar com cer-        Essais de psychanalyse, Paris, Payot, 1981, 41-115; O
tas dificuldades para dar a seu sistema uma        eu e o isso (1923), ESB XIX; 23-72; GW, XIII, 237-89;
coerncia absoluta, Freud liga a atividade cons-   SE, XIX, 12-59; OC, XVI, 255-301; "Uma nota sobre o
                                                                                 contratransferncia       133

`Bloco mgico'" (1925), ESB, XIX, 285-94; GW, XIV,           "pleiteamos, por conseguinte," prosseguiu
3-8; SE, XIX, 227-32; OC, XVII, 137-43; Esboo de
                                                             Freud, "[que o analista] comece sua atividade
psicanlise (1938), ESB, XXIII, 168-246; GW, XVII,
67-138; SE, XXIII, 139-207; Paris, PUF, 1967  Sig-          pela auto-anlise* e a aprofunde continuamen-
mund Freud e Josef Breuer, Estudos sobre a histeria          te,  medida que se derem suas experincias
(1895), ESB, II; SE, II; Paris, PUF, 1956  Didier Anzieu,   com o doente".
A auto-anlise de Freud e a descoberta da psicanlise
                                                                 Em 1913, numa carta a Ludwig Binswan-
(1959), P. Alegre, Artes Mdicas, 1989  Jean La-
planche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psi-        ger*, Freud sublinhou que o problema da con-
canlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991,      tratransferncia " um dos mais difceis da tc-
2 ed.                                                       nica psicanaltica". O analista -- e isso devia
                                                             ser uma regra, segundo Freud -- nunca deve
                                                             dar ao analisando nada que tenha sado de seu
construo                                                   prprio inconsciente. Vez aps outra, ele deve
 INTERPRETAO.                                              "reconhecer e ultrapassar sua contratransfern-
                                                             cia, para que possa estar livre". Alguns anos
                                                             depois, Freud notou que, no tratamento, o sur-
contedo (latente e manifesto)                               gimento de um fenmeno a que ele deu o nome
 INTERPRETAO DOS SONHOS, A; SONHO.                         de amor transferencial* devia dar ensejo ao
                                                             analista de "desconfiar, talvez, de uma possvel
                                                             contratransferncia".
contratransferncia
al. Gegenbertragung; esp. contratransferencia; fr.
                                                                 A posio de Freud no continuaria a evoluir
contre-transfert; ing. counter-transference                  aps essas colocaes que se tornaram cls-
                                                             sicas, e ele jamais considerou que a contratrans-
Conjunto das manifestaes do inconsciente* do
                                                             ferncia pudesse ser utilizada de maneira din-
analista relacionadas com as da transferncia* de
seu paciente.
                                                             mica no desenrolar do tratamento.
    Mais ainda do que o conceito de transfern-                  O ponto de vista de Ferenczi, a princpio,
cia, ao qual est ligada, a idia de contratrans-            seria calcado no de Freud. Ele sublinharia a
ferncia, suas acepes e as utilizaes que dela            necessidade de um "domnio" do analista sobre
foram feitas sempre suscitaram polmicas entre               sua contratransferncia. Este, a seu ver, s po-
os diversos ramos do movimento psicanaltico.                deria resultar de uma anlise e deveria ser dis-
    Foi numa carta a Sigmund Freud*, datada                  tinguido de uma simples resistncia*  contra-
de 22 de novembro de 1908, que Sandor Fe-                    transferncia, por sua vez passvel de gerar uma
renczi* mencionou pela primeira vez a exis-                  rigidez artificial no analista.
tncia de uma reao do analista aos ditos de                    Mais tarde, dentro da tica de seu retorno 
seu paciente: "Tenho demasiada tendncia a                   teoria do trauma, que acarretaria um afrouxa-
considerar os assuntos dos doentes como                      mento de seus laos com Freud, Ferenczi rumou
meus." Freud utilizou o termo contratransfern-              por um caminho inteiramente diverso, efetuan-
cia pela primeira vez, entre aspas, numa carta a             do um deslocamento na concepo da anlise e
Carl Gustav Jung* datada de 7 de junho de                    preconizando um emprego da contratransfern-
1909. Foi em 1910, todavia, em sua avaliao                 cia do analista.
das perspectivas de futuro da terapia psicanal-                 Sensvel aos impasses de algumas anlises,
tica, que ele evocou, falando da pessoa do tera-             Ferenczi desenvolveu a idia da anlise mtua,
peuta, a existncia da contratransferncia, que              processo durante o qual o analista fornece ao
"se instala no mdico atravs da influncia do               paciente os elementos constitutivos de sua con-
paciente na sensibilidade inconsciente do m-                tratransferncia,  medida que eles vo surgin-
dico". Estava prximo o momento, acrescentou                 do, de tal maneira que o paciente se liberta da
Freud, em que seria lcito "formularmos a exi-               opresso ligada  relao transferencial e que o
gncia de que o mdico reconhea e domine                    artificialismo da situao analtica clssica ten-
obrigatoriamente em si essa contratransfern-                de a desaparecer.
cia". Sabendo que nenhum analista pode ir alm                   Essa orientao teria um belo futuro. Encon-
do que lhe permitem suas resistncias* internas,             tramos sua marca, de maneira explcita ou no,
134      contratransferncia

nos mtodos psicanalticos ingleses (sobretudo        em saber se convm considerar a contratransfe-
em Donald Woods Winnicott* e Masud Khan*)             rncia como um obstculo que o analista deva
e no desenvolvimento da psicanlise norte-            neutralizar e ultrapassar. No  proveitoso con-
americana, tanto entre os representantes da cor-      siderar a questo sob o ngulo da comunicao
rente da Self Psychology* quanto num autor            necessria entre o paciente e o analista, para que
como Harold Searles, que desenvolve, em par-          este encontre seus referenciais subjetivos. A
ticular, a idia de uma simbiose teraputica.         idia de contratransferncia, portanto, , para
    A partir de 1939, foi um aluno de Ferenczi,       Lacan, desprovida de objetivo. No designa
Michael Balint*, que introduziu a idia de uma        nada alm dos efeitos da transferncia que atin-
inespecificidade da contratransferncia, estabe-      gem o desejo* do analista, no como pessoa,
lecendo que  do lado do analisando que con-          mas como algum que  colocado no lugar do
vm reconhecer seus traos: ecos das falhas do        Outro* pela fala do analisando, isto , numa
analista ou marcas residuais da transferncia         posio terceira que torna a relao analtica
deste ltimo para seu prprio analista.               irredutvel a uma relao dual. "Pelo simples
    Depois da Segunda Guerra Mundial, no mo-          fato de haver transferncia, estamos implica-
mento em que a corrente da Ego Psychology*            dos", diz Lacan em 1960, "na posio de ser
ganhou fora nos Estados Unidos*, o debate            aquele que contm o agalma, o objeto fun-
sobre a contratransferncia passou por seus mo-       damental (...). Isso  um efeito legtimo da
mentos mais intensos, em especial sob o impul-        transferncia. No  preciso, portanto, fazer
so de discpulos de Melanie Klein*, embora esta       intervir a contratransferncia, como se ela fosse
no dedicasse nenhuma elaborao terica es-          algo que constitusse a parte prpria e, muito
pecfica a essa questo.                              mais que isso, a parte falha do analista. (...) 
    Partindo da perspectiva kleiniana, que con-       somente na medida [em que o analista] sabe o
cebe a relao analtica como uma dualidade           que  o desejo, mas no sabe o que deseja esse
inscrita na ordem do "aqui e agora", as inter-        sujeito com quem embarcou na aventura anal-
venes de Paula Heimann* e Margaret Little,          tica, que ele fica em condies de ter em si,
em especial, por mais distintas que fossem,           desse desejo, o objeto." Por a reencontramos a
redefiniram a contratransferncia como o con-         problemtica do engano, inerente  concepo
junto das reaes e sentimentos que o analista        lacaniana da transferncia, exposta no comen-
                                                      trio sobre o Banquete.
experimenta em relao a seu paciente. Para
Heimann, na medida em que o inconsciente do
                                                       Sigmund Freud, "As perspectivas futuras da terapia
analista engloba o do paciente, o psicanalista        psicanaltica" (1910), ESB, XI, 127-40; GW, VIII, 104-
deve servir-se da contratransferncia como um         15; SE, XI, 139-51; OC, X, 61-73; "Observaes sobre
instrumento facilitador da compreenso do in-         o amor transferencial (Novas recomendaes sobre a
consciente do analisando. Em Heimann, essa            tcnica da psicanlise III)" (1915), ESB, XII, 208-21;
                                                      GW, X, 306-21; SE, XII, 157-71; in La Technique psy-
concepo da contratransferncia no deve le-         chanalytique, Paris, PUF, 1953, 116-30  Sigmund
var a uma comunicao dos sentimentos do              Freud e Ludwig Binswanger, Correspondance, 1908-
analista ao paciente. Quanto a esse aspecto, sua      1938 (1992), Paris, Calmann-Lvy, 1995  Sigmund
abordagem se distingue da idia de "anlise           Freud e Sandor Ferenczi, Correspondncia, vol.I, 2
                                                      tomos, 1908-1914, (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Ima-
mtua" de Ferenczi. Margaret Little, ao contr-       go, 1994, 1995  Freud/Jung: correspondncia comple-
rio, rejeita qualquer idia de distncia, j que, a   ta (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993  Michael
seu ver, analista e analisando so inseparveis,      Balint, "Transfert et contre-transfert" (1939), in Amour
devendo o analista comunicar ao paciente os           primaire et technique psychanalytique (Londres, 1952),
                                                      Paris, Payot, 1972  Serge Cottet, Freud e o desejo do
elementos de sua contratransferncia.                 psicanalista (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
    Foi por uma crtica radical desse ponto de        1989  Sandor Ferenczi, "A tcnica psicanaltica"
vista, desenvolvida em seu seminrio de 1953          (1919), in Psicanlise II, Obras completas, 1913-1919
sobre os escritos tcnicos de Freud, que Jacques      (Paris, 1970), S. Paulo, Martins Fontes, 1992, 357-68;
                                                      "Elasticidade da tcnica psicanaltica" (1928), in Psica-
Lacan* ilustrou sua prpria posio, que  per-       nlise IV, Obras completas, 1927-1933 (Paris, 1982),
feitamente articulada  que ele desenvolveria a       S. Paulo, Martins Fontes, 1994, 25-34; Dirio clnico
propsito da transferncia. O problema no est       (Paris, 1985), S. Paulo, Martins Fontes, 1990  Paula
                                                                                      Cooper, David         135

Heimann, "A propos du contre-transfert" (1950), in        precedido de um prefcio de Roland Kuhn, 5-38; La
Paula Heimann, Margaret Little, Lucia Tower e Annie       Naissance de la psychanalyse (Londres, 1950), Paris,
Reich, Le Contre-transfert, Paris, Navarin, 1987  Ma-    PUF, 1956; Briefe an Wilhelm Fliess, 1887-1904,
sud Kahn, Le Soi cach (Londres, 1974), Paris, Galli-     Frankfurt, Fischer, 1986  Maria Dorer, Historische
mard, 1976  Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966),       Grundlagen der Psychoanalyse, Leipzig, Felix Meiner,
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998; O Seminrio, livro     1932  Kurt Goldstein, Language and Language Dis-
1, Os escritos tcnicos de Freud (1953-1954) (Paris,      turbances, N. York, Grune & Stratton, 1948  Jacques
1975), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979; O Seminrio,    Nassif, Freud, l'inconscient (1977), Paris, Flammarion,
livro 8, A transferncia (1960-1961) (Paris, 1991), Rio   col. "Champs", 1992.
de Janeiro, Jorge Zahar, 1992  Margaret Little, "Le
Contre-transfert et la rponse qu'y apporte le patient"
(1951), in Paula Heimann, Margaret Little, Lucia Tower
e Annie Reich, Le Contre-transfert, Paris, Navarin,       controle, anlise de
1987  Moustapha Safouan, Le Transfert et le dsir de      SUPERVISO.
l'analyste, Paris, Seuil, 1988  Harold Searles, Le
Contre-transfert (1979), Paris, Gallimard, 1981  Do-
nald W. Winnicott, O brincar e a realidade (Londres,
1971), Rio de Janeiro, Imago, 1976.                       converso
                                                           HISTERIA.
 BLEGER, JOS; NEUROSE DE TRANSFERNCIA;
RACKER, HEINRICH; RESISTNCIA; SUGESTO.
                                                          Cooper, David (1931-1986)
                                                          psiquiatra ingls
Contribuio  concepo das                                  Criador do termo antipsiquiatria* e principal
afasias                                                   representante dessa corrente com Ronald
Livro de Sigmund Freud*, publicado em alemo              Laing*, David Cooper nasceu na Cidade do
pela primeira vez em 1891, sob o ttulo Zur Auff-
                                                          Cabo, na frica do Sul, em uma famlia que ele
assung der Aphasien. Eine kritische Studie. Tradu-
                                                          qualificaria de "comum". Depois de estudar
zido para o ingls em 1953 por E. Stengel, sob o
                                                          msica, orientou-se para a medicina e obteve o
ttulo On Aphasia, a Critical Study. Traduzido para
ao francs em 1983 por Claude van Reeth, sob o
                                                          seu diploma em 1955. Trabalhou ento em um
ttulo Contribution  la conception des aphasies.
                                                          centro de medicina reservado aos negros, e
                                                          aderiu ao partido comunista clandestino. Ins-
    Primeiro livro publicado por Freud, essa
                                                          talando-se em Londres, casou-se com uma fran-
Contribuio  concepo das afasias  uma
                                                          cesa, com quem teve trs filhos. Depois, foi
monografia em que o autor se apia nas teorias
                                                          durante algum tempo companheiro de Juliet
de Hughlings Jackson* para compreender, de
                                                          Mitchell, lder do movimento feminista anglo-
um ponto de vista funcional, e no mais apenas
                                                          saxo e especialista no pensamento lacaniano.
neurofisiolgico, os distrbios da linguagem.
                                                              Em 1962, criou o famoso pavilho 21, no
Ele substitui a doutrina das "localizaes cere-
                                                          interior de um vasto hospital psiquitrico do
brais" pela do associacionismo, que abre cami-
                                                          subrbio de Londres. Baseando-se nas teses
nho para a definio de um "aparelho psquico"
                                                          sartrianas, e mais genericamente na fenomeno-
que voltaremos a encontrar em sua metapsico-
                                                          logia existencial, inaugurou nesse local pionei-
logia*. Como todos os trabalhos de Freud ante-
                                                          ro uma prtica de contestao da nosografia
riores ao chamado perodo "psicanaltico", esse
                                                          psiquitrica, que o levaria a rejeitar radical-
texto no foi incorporado nem na edio alem
                                                          mente a tradio ocidental herdada de Eugen
(Gesammelte Schriften, Gesammelte Werke)
                                                          Bleuler*.
nem na traduo* inglesa (Standard Edition)
                                                              Como todos os artfices da antipsiquiatria,
das Obras completas, feita por James Stra-
                                                          via na loucura*, e principalmente na esquizofre-
chey*. Somente alguns especialistas se interes-
                                                          nia*, no uma doena mental, mas uma "expe-
saram por esse perodo do pensamento freudia-
                                                          rincia", uma "viagem", uma "passagem". As-
no, dentre eles Maria Dorer, Kurt Goldstein
                                                          sim, comeou de modo muito pragmtico a
(1878-1965), Roland Kuhn e Jacques Nassif.
                                                          pedir aos mdicos e enfermeiros que "no fizes-
 Sigmund Freud, Contribution  la conception des         sem mais nada". Depois, certo dia, disse a um
aphasies (Viena, Leipzig, 1891), Paris, PUF, 1983,        paciente internado: "Vou lhe dar essa coisa
136     Coriat, Isador

chamada Largactil, para que a gente possa cui-      prisioneiros, ao lado de Michel Foucault (1926-
dar de assuntos mais urgentes." Enfim, decidiu      1984), Robert Castel e Gilles Deleuze (1925-
deixar que o lixo se acumulasse nos corredores      1995). Mas, identificando-se com os marginais
e nos cmodos do estabelecimento. Graas a          e excludos de todo tipo, experimentou em si
essa passagem ao ato, os doentes puderam des-       mesmo as formas de errncia prprias dessa
cer ao inferno, regredir, manipular seus excre-     grande poca contestatria.
mentos, voltar a uma espcie de estado arcaico,         Durante os ltimos anos de sua curta vida,
e depois subir novamente para o mundo dos           alcolatra e gluto compulsivo, no hesitou em
vivos. Cooper sugeriu que ex-doentes se tornas-     exibir a sua silhueta de gigante barbudo e obeso
sem enfermeiros e que os internos tivessem          em todos os lugares onde pudesse lutar contra
direito  sexualidade*. Apesar de fracassos e       a ordem estabelecida. Morreu de uma crise
conflitos, a experincia se revelou conclusiva.     cardaca depois de ter afirmado categoricamen-
De qualquer forma, mostrou que, em certas           te: "Romper de modo suficientemente ntido
condies particulares, a esquizofrenia, consi-     com o sistema equivale a pr em risco todas as
derada como incurvel, podia ser curada.            estruturas de segurana de sua prpria vida,
    Em 1965, tornando-se lder do movimento         assim como o corpo, o esprito, seus bens e seu
antipsiquitrico internacional, Cooper criou        piano."
com Laing e Aaron Esterson a Philadelphia
Association and Mental Health Charity e o Hos-       David Cooper, Psiquiatria e antipsiquiatria (Londres,
                                                    1967), S. Paulo, Perspectiva; A morte da famlia (Lon-
pital de Kingsley Hall, onde foram acolhidos        dres, 1971), S. Paulo, Martins Fontes, 1994, 3 ed.; Une
pacientes esquizofrnicos. Dois anos depois,        grammaire  l'usage des vivants (Londres, 1974), Pa-
participou em Londres, com Gregory Bateson*,        ris, Seuil, 1977; Le Langage de la folie (Londres, 1977),
Stokeley Carmichael e Herbert Marcuse*, do          Paris, Seuil, 1978; Qui sont les dissidents?, Paris,
                                                    Galile, 1977; Raison et violence, em colaborao com
grande congresso mundial, dito de "dialtica e
                                                    Ronald Laing (Londres, 1964), Paris, Payot, 1976 
de liberao", destinado a evidenciar a "pro-       Marie-Odile Supligeau, "David Cooper, 1931-1986",
gresso do inferno no mundo". O colquio du-        Encyclopaedia universalis, Paris, 1987, 540  lisabeth
rou 16 dias e inscreveu a antipsiquiatria na        Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana, vol.2
                                                    (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988 
conscincia libertria. Reuniu negros america-
                                                    Elizabeth Wright (org.), Feminism and Psychoanalysis,
nos, feministas, estudantes revoltados de Ber-      Oxford, Blackwell, 1992.
lim ocidental e representantes de todos os mo-
vimentos terceiromundistas. Assim, a utopia          CULTURALISMO; DIFERENA SEXUAL; ETNOPSI-
cooperiana de uma loucura liberada encontrou        CANLISE; FANON, FRANTZ; SEXUALIDADE FEMI-
uma nova bandeira: a dos oprimidos do mundo,        NINA.
em luta pelo reconhecimento. Logo Cooper
tomou a defesa dos dissidentes soviticos, vti-
mas de internaes abusivas e props a criao
de um grande movimento de "dissidncia inte-        Coriat, Isador (1875-1943)
lectual", fundado em uma nova definio da          psiquiatra e psicanalista americano
atividade criadora.                                     Pioneiro da psicanlise* em Boston e na
    A partir de 1972, instalou-se em Paris, onde    costa leste dos Estados Unidos*, Isador Coriat
muitos psicanalistas da corrente lacaniana e do     nasceu em Filadlfia e estudou medicina na
movimento de psicoterapia institucional* ha-        escola mdica da Faculdade de Tuft. Aluno de
viam acolhido favoravelmente as suas teses.         Adolf Meyer* e de Morton Prince*, foi eleito
Entre estes, estavam Maud Mannoni, Octave           presidente da American Psychoanalytic Asso-
Mannoni* e Flix Guattari*. Recusando-se a          ciation* (APsaA) em 1924 e 1937, e depois
praticar a psiquiatria e a integrar-se a uma ins-   vice-presidente da International Psychoanalyti-
tituio normativa qualquer, viveu de expe-         cal Association* (IPA), no mesmo ano. Mili-
dientes e participou de todos os combates da        tante anti-racista, foi tambm o primeiro ame-
esquerda intelectual francesa em favor dos ho-      ricano a introduzir as teses da psicanlise apli-
mossexuais, dos loucos, dos dissidentes e dos       cada* em seu pas, estudando sobretudo o per-
                                                                                     criminologia      137

sonagem de Lady Macbeth no drama de                      quecvel detetive Sherlock Holmes, criado por
Shakespeare.                                             Arthur Conan Doyle (1859-1930), quanto na
                                                         antropometria aperfeioada por Alphonse Ber-
 Nathan G. Hale, Freud and the Americans: The Be-       tillon (1853-1914).
ginnings of Psychoanalysis in the United States 1876-
1917, t.I (1971), N. York, Oxford, Oxford University         Sob esse aspecto, a criminologia distingue-
Press, 1995.                                             se da criminalstica, porquanto se interessa me-
                                                         nos pela identificao dos criminosos do que
                                                         pela causa do crime. Embora no tenha empre-
criminologia                                             gado esse termo e tenha conservado a expresso
                                                         "antropologia criminal", o verdadeiro fundador
al. Kriminologie; esp. criminologa; fr. criminologie;
ing. criminology
                                                         dessa disciplina foi o mdico italiano Cesare
                                                         Lombroso, que se inspirou no darwinismo para
Termo criado em 1885 pelo magistrado italiano
                                                         construir sua concepo do "criminoso nato".
Rafaele Garofalo (1851-1934) para designar uma
                                                         Segundo ele, o crime  resultado de uma predis-
disciplina fundada por seu mestre, Cesare Lom-
                                                         posio instintiva de certos sujeitos. Em vez de
broso (1836-1909), que toma por objeto as causas
do crime, o comportamento mental do criminoso,
                                                         evolurem normalmente, eles regridem ao es-
sua personalidade e as patologias ligadas ao ato         tado animal.
criminoso.                                                   Depois de colecionar uma quantidade im-
    As sociedades sempre buscaram meios de               pressionante de crnios e estudar a morfologia
atribuir marcas identificatrias aos criminosos,         de 27.000 "anormais" (prostitutas, assassinos,
usando, conforme os regimes e pocas, diversas           epilticos, perversos sexuais etc.), Lombroso
mutilaes, desde a extrao dos dentes at a            publicou, em 1876, um verdadeiro manifesto,
amputao sistemtica de rgos: nariz, ore-             O homem criminoso, onde descrevia criteriosa-
lhas, mos, lngua etc. No Antigo Regime, na             mente a seguinte patologia: seu criminoso se
Frana*, a marca feita com ferro em brasa                assemelhava ao grande macaco da lenda da
constitua o trao infamante do crime, como             horda selvagem, cujo tema Sigmund Freud*
ilustrado em Os trs mosqueteiros, de Alexan-            retomaria em Totem e tabu*.
dre Dumas, pelo personagem da Senhora De                     Mdico penitencirio e alienista em Pie-
Winter. Entre os puritanos da Nova Inglaterra,           monte, judeu e militante socialista, Lombroso
o "A" de adultrio era costurado na roupa das            era um higienista interessado na hipnose* e no
mulheres, como  testemunhado pelo clebre               espiritismo*. Suas teses tiveram considervel
romance de Nathaniel Hawthorne (1804-1864),              sucesso, antes de carem em desuso aps a
A letra escarlate.                                       derrocada do hereditarismo. Na Frana, foram
    Quando essas prticas foram abolidas, colo-          admiradas e posteriormente criticadas por Ale-
cou-se a questo de elaborar um mtodo de                xandre Lacassagne (1843-1924), que fundou
identificao cientfica, e foi na Frana, na Ale-       em Lyon a Revue d'Anthropologie Criminelle.
manha* e na Itlia* que se desenvolveram,                Lacassagne compartia as idias hereditaristas
simultaneamente, dois campos de pesquisa: a              de seu rival, e a briga que ops a escola francesa
antropologia* criminal e a criminalstica. Am-            italiana disse menos respeito a uma oposio
bas se inspiraram na antiga frenologia, por sua          hereditariedade/meio social do que  adoo,
vez sada da "cranioscopia" de Franz Josef Gall          por parte de Lacassagne, de um modelo mais
(1758-1828), que consistia em decifrar o carter         lamarckista do que darwinista. Por fim, foi
do indivduo atravs das salincias e relevos de         Hans Gross (1847-1915) -- cujo filho, Otto
sua calota craniana, e da antropologia fsica do         Gross*, viria a se tornar psicanalista -- quem
mdico francs Paul Broca (1824-1880).                   unificou os dois campos da antropologia crimi-
    A criminalstica relacionava os fatos crimi-         nal, a criminalstica e a criminologia, e fundou
nosos com a teoria da hereditariedade-degene-            em Graz, em 1912, o primeiro instituto de cri-
rescncia*. Encontramos um grande eco dessa              minologia do mundo.
nova cincia dos sinais, que se generalizou no               Na realidade, a criminologia nunca foi uma
fim do sculo XIX, tanto no mtodo do ines-              disciplina independente. Praticada por mdicos
138      criminologia

e empenhada num dilogo com a justia e os            para a morte, julgando-os culpados e, portanto,
magistrados, integrou-se na psiquiatria, cuja         plenamente responsveis por seus atos. Da a
evoluo acompanhou, quer adotando a doutri-          defesa do prprio princpio da percia psicol-
na das constituies, quer os princpios da psi-      gica ou psiquitrica, que consistia em "expli-
canlise* freudiana e ps-freudiana, quer, ain-       car" o crime e, em seguida, tentar tratar do
da, as hipteses da fenomenologia, segundo            criminoso, a fim de reintegr-lo na sociedade.
Edmund Husserl (1859-1938).  nesta ltima                Se os representantes da psiquiatria dinmi-
perspectiva que convm situar os trabalhos do         ca* queriam, atravs da percia, arrancar os
grande criminologista belga tienne De Greeff         loucos da justia e, mais exatamente, da pena
(1898-1961). Mdico do instituto psiquitrico         capital, os partidrios da psicanlise procura-
da Universidade de Louvain, ele procurou dis-         vam, antes, explicar a prpria natureza da cri-
cernir a personalidade do criminoso relacionan-       minalidade humana, em funo de uma concei-
do sua vivncia interna a seu modo de comuni-         tuao freudiana (ou kleiniana, mais tarde) cen-
cao com o mundo. Daniel Lagache* introdu-           tralizada no complexo de dipo, na pulso de
ziria as teses de De Greeff na Frana, cruzando-      morte*, no isso* e no supereu*. A primeira
as com a psicologia clnica herdada de Pierre         sntese do pensamento psicanaltico nesse cam-
Janet*. Por isso  que falaria de criminognese,      po foi realizada por Franz Alexander*. Em
mais do que de criminologia.                          1928, ele publicou em Berlim O criminoso e
    Sigmund Freud no se interessou muito pela        seus juzes, livro co-assinado pelo advogado
criminologia como tal. O nico tipo de crime          Hugo Staub, no qual afirmava que o homem 
que o fascinava era o parricdio, que ele ligava      criminoso por natureza e que vem a s-lo social-
ao incesto* e ao complexo de dipo* e do qual         mente quando no consegue evoluir com nor-
fez o paradigma de todos os atos criminosos           malidade para um estdio genital. Em funo
cometidos pelo homem. Ele estabelecia uma             dessa teoria dos estdios*, Alexander e Staub
distino bastante simples entre o histrico e o      distinguiram trs tipos de crimes: os de etiologia
criminoso: o primeiro, dizia, esconde um segre-       psicolgica (provenientes de uma neurose edi-
do que no conhece, ao passo que o segundo            piana), os de etiologia sociolgica (decorrentes
dissimula esse mesmo segredo com plena cons-          de uma identificao* do eu* -- em geral, de
cincia.                                              uma criana -- com o supereu de um adulto
    Foi atravs de uma reflexo sobre a posio       criminoso), e os crimes de etiologia biolgica
do mtodo psicanaltico no estabelecimento dos        (provocados por doenas mentais).
fatos judiciais, e, mais tarde, sobre sua utilidade       De maneira geral, essa criminologia freudia-
nos presdios, que se iniciou um verdadeiro           na, de um biologismo simplista, foi tambm de
debate entre as duas disciplinas. Contrariando        grande pobreza terica. Contentou-se em apli-
os defensores das teses hereditaristas, Sandor        car a teoria psicanaltica  elucidao do crime
Ferenczi* props denominar de crimino-psica-          e  personalidade do criminoso. Convm as-
nlise a nova disciplina, que permitiria aplicar      sinalar que, em carter individual, inmeros
o mtodo freudiano  compreenso das moti-            psicanalistas, especialistas em geral sobre de-
vaes inconscientes do crime e submeter os           linqncia juvenil, interessaram-se pelo crime
criminosos a um tratamento: "(...) tenho a con-       e pelos criminosos, sem ceder a teorias dema-
vico de que o tratamento analtico dos crimi-       siadamente ortodoxas. Dentre eles, August
nosos confessos j apresenta, por si s, algumas      Aichhorn*, Muriel Gardiner* e, em particular,
probabilidades de xito, ao menos muito mais          Marie Bonaparte*. Fascinada pelas relaes in-
do que o rigor brbaro dos carcereiros ou a           cestuosas, ela se apaixonou pela histria de
hipocrisia dos capeles dos presdios".               Marie-Flicit Lefbvre, que fora condenada 
    Nesse terreno, a ao praticada por Ferenczi      morte e depois indultada pelo assassinato da
e, mais tarde, pela maioria dos discpulos e          mulher de seu filho, grvida de vrios meses.
herdeiros de Freud teve a mesma natureza do               Essa atitude no era de surpreender. Na
combate travado pela psiquiatria pineliana para       Frana, com efeito, vinha-se desenhando desde
arrancar os loucos de uma justia que os enviava      1925 um caminho original, por um lado com os
                                                                                    criminologia         139

trabalhos sobre as psicoses passionais inspira-    um instinto inato e, mais tarde, de uma anomalia
dos por Gatan Gatian de Clrambault, e por        gentica; a outra, de inspirao fenomenolgica
outro com o movimento surrealista, que enalte-     ou psicanaltica, encarava o crime, ao mesmo
cia um ideal de revolta fundamentado na valo-      tempo, como um fato social e como um fato
rizao imaginria da loucura* e do crime: "O      psquico. A partir da dcada de 1960, essas duas
ato surrealista mais simples", escreveu Andr      correntes foram contestadas pelos diversos mo-
Breton em 1930, "consiste em andar pela rua de     vimentos de antipsiquiatria*, que tornaram a
revlveres em punho e atirar a esmo na multi-      valorizar, numa perspectiva sartriana, o tema da
do, tanto quanto possvel. Quem no ter tido     revolta atravs do crime.
vontade, pelo menos uma vez, de acabar dessa           Nessa poca, os trabalhos dos historiadores
maneira com o sisteminha de aviltamento e          da escola dos Annales, antroplogos e filsofos,
cretinizao em vigor, em seu lugar perfeita-      abriram um novo caminho para a pesquisa, ao
mente marcado nessa multido, com a barriga        se proporem estudar a histria do crime, da
 altura do canho?"                               penalidade, das sanes, da crnica policial,
    Se Lombroso inventou a falsa teoria do "cri-   dos suplcios ou dos discursos no mais a partir
minoso nato", ele foi tambm o primeiro grande     de um modelo classificatrio, mas fazendo o
teorizador do crime a constituir uma documen-      prprio crime "falar", sem nenhuma interpreta-
tao sobre a criminalidade, escrita pelos con-    o psiquitrica ou psicanaltica. Com a publi-
denados: dirios ntimos, autobiografias, de-      cao, em 1973, de um caso de parricdio pra-
poimentos, grafites de prisioneiros e anotaes    ticado na poca da Restaurao pelo jovem
em livros de bibliotecas. Assim, a criminologia    campons Pierre Rivire, e com a de Vigiar e
nascente no se contentava em classificar taras    punir, dois anos depois, Michel Foucault
e estigmas, porm j afirmava, como fizera         (1926-1984) foi o principal iniciador dessa no-
Freud ao lutar contra o niilismo teraputico, a    va maneira de olhar para o crime e para o
necessidade de incluir no estudo do crime a fala   criminoso. Ela nunca se imps no campo da
do principal interessado: o prprio criminoso.     criminologia, amplamente dominado, a partir
    Ora, em 1930, os surrealistas transpuseram     da dcada de 1980, sobretudo nos Estados Uni-
uma nova etapa. A seu ver, de fato, o crime        dos*, por um modelo neo-organicista e expe-
individual e impulsivo transformava-se, simbo-     rimentalista. Da a observao contundente do
licamente, no nico ato racional possvel num      psicanalista e jurista francs Pierre Legendre,
mundo s voltas com o crime organizado: de-        contida em Le Crime du caporal Lortie: "... um
semprego, guerras coloniais, explorao capi-      homicdio sempre exige que algum responda
talista, ditaduras, violncia burguesa e demo-     por ele -- o sujeito, ou, em sua falta, a funo
crtica etc. Dessa lgica da loucura criminosa,    que o exime de ter que responder. Que significa
                                                   responder? Essa pergunta no pode ser descar-
agindo no interior do sujeito, Jacques Lacan*
                                                   tada pelos pretensos mtodos cientficos da cri-
forneceria um belo exemplo em 1932, em sua
                                                   minologia atual, dominada pelos ideais da ex-
tese de medicina dedicada  histria de Margue-
                                                   perimentao social."
rite Anzieu*, e tambm, um ano depois, em seu
comentrio sobre o crime "paranico" das ir-
                                                    Sigmund Freud, "A psicanlise e a determinao dos
ms Papin, duas criadas de Mans que assas-         fatos nos processos jurdicos" (1906), ESB, IX, 105-20;
sinaram selvagemente suas patroas. Em matria      GW, VII, 3-15; SE, IX, 97-114; in L'Inquitante trange-
de criminologia, contrariamente  escola fran-     t et autres textes, Paris, Gallimard, 1985, 13-28; "Al-
cesa e ao conjunto da comunidade freudiana,        guns tipos de carter encontrados no trabalho psica-
                                                   naltico" (1916), ESB, XIV, 351-80; GW, 364-91; SE,
Lacan sempre contestaria a utilizao da psica-    XIV, 309-33; in ibid., 137-71; "Dostoievski e o parricdio"
nlise nas percias psiquitricas.                 (1927), ESB, XXI, 205-20; GW, XIV, 399-418; SE, XXI,
    A partir da dcada de 1950, a criminologia     177-94; OC, XVIII, 207-25; "O parecer do perito no
mundial foi perpassada por diversas correntes,     Caso Halsmann" (1931), ESB, XXI, 287-9; GW, XIV,
                                                   541-2; SE, XXI, 251-3; OC, XIX, 39-43  Cesare Lom-
dentre elas duas principais. A primeira, de ins-   broso, L'Homme criminel (1876), Paris, Alcan, 1887 
pirao neurolgica, reativou a noo de "cri-     Sandor Ferenczi, "Psicanlise e criminologia" (1919),
minoso nato", fazendo do crime a expresso de      in Psicanlise III, Obras completas, 1919-1926 (Paris,
140       Cuernavaca, Mosteiro de

1974), S. Paulo, Martins Fontes, 1993, 69-72  Franz            na diversidade das culturas, dos comportamen-
Alexander e Hugo Staub, Le Criminel et ses juges
                                                                tos, das atitudes, das mentalidades e dos cos-
(Berlim, 1928), Paris, Gallimard, 1934  Marie Bona-
parte, "Le Cas de Madame Lefebvre", Revue Franaise             tumes, uma explicao para o homem que se
de Psychanalyse, 1, 1, 1927, 149-98  Jacques Lacan,            fundamente na diferena e no relativismo, ques-
"Motivos do crime paranico: o crime das irms Papin"           tionando o universalismo prprio dos grandes
(1933), in Da psicose paranica em suas relaes com
a personalidade, Rio de Janeiro, Forense Universitria,
                                                                sistemas de pensamento oriundos da tradio do
1987  Jacques Lacan e Michel Cenac, "Introduo                saber ocidental.
terica s funes da psicanlise em criminologia", in              A corrente culturalista  essencialmente nor-
Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,            te-americana e representada pelos trabalhos da
1998, 127-51  tienne De Greeff, Amour et crime
d'amour (1942), Bruxelas, Dessart, 1973; Introduction
                                                                chamada escola da Cultura e Personalidade,
 la criminologie (Bruxelas, 1946), Paris, PUF, 1948           onde se reuniram no entre-guerras Abram Kar-
Daniel Lagache, "Psychocriminogense" (1950), in                diner*, Ruth Benedict (1887-1948), Margaret
Oeuvres, II, Le Psychologue et le criminel (1947-1952),         Mead*, Ralph Linton (1893-1953) e Cora Du-
Paris, PUF, 1979, 179-205; "Rflexions sur De Greeff
et le crime passionnel" (1956), in Oeuvres, III, Le
                                                                bois, autora de um trabalho coletivo de antro-
Transfert et autres travaux psychanalytiques (1952-             pologia cultural centrado em duas grandes no-
1956), Paris, PUF, 1980, 307-13  Juliette Favez-Bou-           es: o pattern e a personalidade bsica. A
tonier, "Psychanalyse et criminologie", in La Psychana-         primeira, introduzida por Ruth Benedict em
lyse, 3, 1957, 1-17  J. Lafon, "Criminologie", Encyclo-
paedia universalis, vol.5, 1968, 91-100  Moi, Pierre
                                                                1934, designa a forma especfica assumida por
Rivire, ayant gorg ma mre, ma soeur et mon frre.           uma cultura para se singularizar em relao a
Un cas de parricide au XIXe sicle prsent par Michel          uma outra, e a segunda, proposta em 1939 por
Foucault, Paris, Gallimard-Julliard, col. "Archives",           Linton e Kardiner, remete aos elementos cons-
1973  Michel Foucault, Vigiar e punir (Paris, 1975),
Petrpolis, Vozes, 1977  Pierre Legendre, Le Crime
                                                                titutivos de uma dada sociedade.
du caporal Lortie, Paris, Fayard, 1989  Laurent Muc-               Embora a corrente Cultura e Personalidade
chielli (org.), Histoire de la criminologie franaise, Paris,   tenha-se mostrado crtica a respeito das teses
L'Harmattan, 1994  "Destins de meurtriers", textos             freudianas, ela foi uma das vias de introduo
reunidos por Michel Carty e Marcel Detienne, in Sys-
tmes de pense en Afrique noire, cad.14, 1996, publi-
                                                                da psicanlise* nos Estados Unidos*.
cado pela cole Pratique des tudes Suprieures (se-                O debate entre culturalismo e universalismo
o de cincias religiosas).                                    no se limita aos trabalhos dessa corrente. Ele
                                                                perpassa toda a histria da psicanlise, em suas
                                                                relaes no apenas com a antropologia, mas
Cuernavaca, Mosteiro de                                         com a questo da diferena sexual*, do com-
 IGREJA.                                                        plexo de dipo*, da proibio do incesto* e, por
                                                                ltimo, do prprio inconsciente*.
culturalismo                                                     CRIMINOLOGIA; DEVEREUX, GEORGES; FANON,
al. Kulturalismus; esp. culturalismo; fr. culturalisme;         FRANTZ; GNERO; HOMOSSEXUALIDADE; JUDEI-
ing. culturalism                                                DADE; MALINOWSKI, BRONISLAW; ROHEIM, GEZA;
   Atravs desse termo designam-se as tendn-                   SEXOLOGIA; SEXUALIDADE; SEXUALIDADE FEMINI-
cias da antropologia* que procuram descobrir,                   NA; TOTEM E TABU.
                                                D
Daseinanalyse                                               diversas afeces neurticas, sobretudo no arti-
 ANLISE EXISTENCIAL.                                       go de 1896 intitulado "Observaes adicionais
                                                            sobre as neuropsicoses de defesa". O mecanis-
                                                            mo de defesa passou, desse modo, a assumir a
defesa                                                      forma de converso na neurose* histrica, a de
al. Abwehr; esp. defensa; fr. dfense; ing. defence         substituio na neurose obsessiva* e, por fim,
                                                            a de projeo* na parania*. Sob esses diversos
Sigmund Freud* designa por esse termo o conjun-
                                                            aspectos, ligados  especificidade da entidade
to das manifestaes de proteo do eu* contra as
                                                            patolgica, a defesa visa a um mesmo objetivo:
agresses internas (de ordem pulsional) e exter-
nas, suscetveis de constituir fontes de excitao
                                                            separar, quando essa operao no mais pode
e, por conseguinte, de serem fatores de desprazer.          efetuar-se diretamente por meio da ab-reao*,
    As diversas formas de defesa em condies de            a representao perturbadora do afeto que lhe
especificar afeces neurticas costumam ser                esteve originalmente ligado.
agrupadas na expresso "mecanismo de defesa".                   Em 1915, a propsito de sua metapsicolo-
                                                            gia*, Freud voltou a usar a expresso mecanis-
   Em 1894, Freud publicou um artigo intitu-
                                                            mo de defesa, por um lado, no artigo dedicado
lado "As neuropsicoses de defesa", no qual a
                                                            ao inconsciente*, para reunir o conjunto dos
noo de defesa surgiu como o eixo do funcio-
                                                            processos defensivos (em todos os tipos de
namento neurtico em relao aos processos de
                                                            neurose), e, por outro, no artigo consagrado aos
organizao do eu.
                                                            destinos das pulses, para evocar as diversas
   Desse momento em diante, como  confir-
                                                            formas -- recalque*, reverso e inverso -- da
mado pelos Estudos sobre a histeria*, escritos
em colaborao com Josef Breuer*, a questo                 evoluo de uma pulso*. Em sua carta a Wil-
consiste em identificar as modalidades pelas                helm Fliess de 6 de dezembro de 1896, dedicada
quais o eu, nessa poca assemelhado  cons-                  instaurao do aparelho psquico, Freud j
cincia* ou ao consciente*, reage s diversas               assemelhava a defesa ao recalque: "A condio
solicitaes capazes de perturb-lo, provocan-              determinante de uma defesa patolgica (isto ,
do-lhe efeitos desprazerosos. Esses elementos               do recalque), portanto,  o carter sexual do
parasitas podem ter uma origem externa, exis-               incidente e sua ocorrncia numa fase anterior."
tindo ento a possibilidade de o eu fugir deles                 Em 1926, no suplemento a seu livro Inibi-
ou proceder a investimentos colaterais. A ques-             es, sintomas e angstia*, Freud volta a essa
to  mais delicada, logo de sada, quando os               assemelhao, evocando, em primeiro lugar, as
elementos inconciliveis so de origem interna,             razes pelas quais abandonou a expresso "pro-
pulsional e, mais exatamente, sexual. Numa                  cesso de defesa". Em seguida, reconhece hav-
carta de 21 de maio de 1894 a Wilhelm Fliess*,              lo substitudo pelo processo de recalque, sem
Freud o declara expressamente: " contra a                  esclarecer a natureza da relao entre essas duas
sexualidade* que se ergue a defesa."                        noes. Assim, prope conservar o termo recal-
   Inicialmente elaborada no contexto da etio-              que para designar alguns casos de defesa, a sa-
logia da histeria*, a idia de defesa adquiriu              ber, aqueles que esto ligados a afeces neu-
para Freud um papel discriminador entre as                  rticas especficas -- e usa o exemplo da liga-
                                                      141
142       Delay, Jean

o precisa entre recalque e histeria --, sendo "o           (org.), Dicionrio enciclopdico de psicanlise: o lega-
                                                             do de Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro,
velho conceito de defesa" utilizado para englobar
                                                             Jorge Zahar, 1996  Jacques Lacan, "Variantes do
os processos de orientao idntica, a da "proteo          tratamento-padro" (1955), in Escritos (Paris, 1966),
do eu contra as exigncias pulsionais".                      Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 325-64; "A coisa
    Com os trabalhos de Anna Freud*, a noo                 freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psican-
de mecanismo de defesa voltou a se tornar                    lise" (1955), in ibid., 402-37  Jean Laplanche e Jean-
                                                             Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris,
central na reflexo psicanaltica e assumiu at              1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.
mesmo o valor de conceito. Para a filha de
Freud, os mecanismos de defesa interviriam                    ANNAFREUDISMO;        FENICHEL, OTTO; RESISTN-
contra as agresses pulsionais, mas tambm                   CIA.
contra todas as fontes externas de angstia,
inclusive as mais concretas. O desenvolvimento
dessa perspectiva globalizante implicou uma                  Delay, Jean (1907-1987)
concepo do eu que marcava um retrocesso em
                                                             psiquiatra francs
relao  que fora expressa por Freud no contex-
to da grande reformulao terica da dcada de                   Nascido em Bayonne em uma famlia de
1920. O eu voltou a se tornar sinnimo de                    mdicos, aluno de Pierre Janet*, analisado por
consciente, foi assemelhado  pessoa, e o obje-              douard Pichon*, amigo e contemporneo de
tivo da psicanlise passou a consistir em ajudar             Jacques Lacan*, membro da Academia de Me-
as defesas da pessoa para consolidar sua inte-               dicina em 1955 e da Academia Francesa em
gridade. Essa concepo encontrou meios de se                1959, Jean Delay foi o principal representante
expandir na corrente da Ego Psychology*. Foi                 francs da escola de psiquiatria biolgica da
fortemente combatida, sobretudo por Jacques                  segunda metade do sculo. E nisso, no foi
Lacan*, em diversos artigos dos anos de 1950-                favorvel s teorias freudianas, que conhecia
1960, onde o autor dos Escritos a denunciou                  perfeitamente bem, e no manifestou nenhuma
como uma transformao da psicanlise num                    simpatia pelas inovaes da psiquiatria dinmi-
processo adaptativo, numa forma de ortopedia                 ca*. Depois de ter sido perito no tribunal de
social contra a qual ele empreendeu seu "retor-              Nuremberg, em 1945, para julgar a res-
no a Freud".                                                 ponsabilidade penal de alguns carrascos nazis-
    Para Melanie Klein*, o conceito de defesa e              tas, foi eleito titular da ctedra de doenas men-
as formas que ele pode assumir esto inscritos               tais e do encfalo do Hospital Sainte-Anne,
na fase arcaica, pr-edipiana, e concernem tanto             onde ps  disposio de Lacan um anfiteatro.
aos elementos externos internalizados, ou sub-               Ocupou essa funo at 1970, e introduziu na
metidos a tentativas de controle, quanto aos                 Frana* os tratamentos farmacolgicos para as
elementos pulsionais.                                        doenas mentais, principalmente os neurolpti-
                                                             cos e os antidepressivos. Em 1956, publicou
 Sigmund Freud, "As neuropsicoses de defesa"                uma notvel obra psicobiogrfica, La Jeunesse
(1894), ESB, III, 57-74; GW, I, 57-74; SE, III, 41-61; OC,   d'Andr Gide,  qual Lacan dedicou um longo
III, 1-18; "Novos comentrios sobre as neuropsicoses         comentrio.
de defesa" (1896), ESB, III, 187-216; GW, I, 377-403;
SE, III, 157-85; OC, III, 121-46; La Naissance de la
                                                                 Tendo percorrido uma trajetria contrria 
psychanalyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956;              de Henri Ey*, Delay teve, como este, renome
Briefe an Wilhelm Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fis-         internacional. Formou vrios alunos, notada-
cher, 1986; "O inconsciente" (1915), ESB, XIV, 191-          mente Pierre Pichot, adversrio da psicanlise
233; GW, X, 263-303; SE, XIV, 159-204; OC, XIII,             e das teses de Henri F. Ellenberger*, defensor
203-42; "As pulses e suas vicissitudes" (1915), ESB,
XIV, 137-68; GW, X, 209-32; SE, XIV, 109-40; OC, XIII,       na Frana do famoso Manual diagnstico e
161-85; Inibies, sintomas e angstia (1926), ESB,          estatstico dos distrbios mentais (DSM I-IV).
XX, 107-98; GW, XIV, 113-205; SE, XX, 87-172; OC,            Esse manual teve um sucesso considervel nas
XVII, 203-86  Sigmund Freud e Josef Breuer, Estudos         sociedades industriais avanadas, por reduzir a
sobre a histeria (1895), ESB, II; SE, II; Paris, PUF, 1956
 Anna Freud, O ego e os mecanismos de defesa
                                                             loucura* a um comportamento puramente me-
(1936), Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 1982, 6     cnico e o sujeito pensante a um corpo-mqui-
ed.  Pierre Kaufmann, "Defesa", in Pierre Kaufmann          na, contradizendo o saber clnico e a prtica
                                                            Delrios e sonhos na Gradiva de Jensen          143

hospitalar acumulados desde o fim do sculo                  para encanto de Freud: "Sua Gradiva, no dizer
XIX, quando Sigmund Freud* e Eugen Bleuler*                  de Bleuler,  maravilhosa..."
denunciaram justamente todas as formas de                        Natural do norte da Alemanha*, Jensen foi um
"niilismo teraputico".                                      escritor prolfero. Sua posteridade, entretanto, li-
                                                             ga-se exclusivamente a esse livro, Gradiva, do
 Jean Delay, La Jeunesse d'Andr Gide, 2 vols., Paris,      qual Freud se apossou para efetuar sua segunda
Gallimard, 1956  Jacques Lacan: "Juventude de Gide
ou a letra e o desejo" (1958), in Escritos (Paris, 1966),
                                                             psicanlise da literatura -- a primeira, que perma-
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 749-75  Pierre           neceu indita, foi remetida somente a Wilhelm
Pichot, Un sicle de psychiatrie (1983), Paris, Synth-      Fliess* e dizia respeito a um romance de Conrad
labo, col. "Les empcheurs de penser en rond", 1996.         Ferdinand Meyer (1825-1898) --, inaugurando a
                                                             coleo de psicanlise aplicada* que fora criada
 ANTIPSIQUIATRIA; ESQUIZOFRENIA; MELANCOLIA.                 em poca ento recente, sob o nome de Schriften
                                                             zur angewandten Seelenkunde*.
                                                                 O romance de Jensen  a histria de um
Delrios e sonhos na Gradiva                                 jovem arquelogo, Norbert Hanold, apaixona-
de Jensen                                                    do por uma figura em baixo-relevo, descoberta
Estudo de Sigmund Freud*, publicado em 1907 sob              em Roma numa coleo de antigidades, que
o ttulo Der Wahn und die Trume in W. Jensens               representava uma jovem grega de andar sedu-
"Gradiva". Traduzido pela primeira vez para o                tor: "Ela est caminhando", relata Freud, tam-
francs em 1931, por Marie Bonaparte*, sob o ttulo          bm ele visivelmente sob o efeito do encanto,
Dlires et rves dans la "Gradiva" de Jensen, pre-           "e traz um pouco repuxado o vestido de pregas
cedido por Gradiva, une fantaisie pompienne, de             numerosas, assim revelando os ps calados em
Wilhelm Jensen (1837-1911), publicado pela pri-              sandlias. Um dos ps repousa inteiramente no
meira vez em alemo em 1903, sob o ttulo Gradiva,           cho; o outro, para acompanh-lo, elevou-se do
ein pompejanisches Phantasienstck, e traduzido
                                                             solo, o qual apenas toca com a ponta dos arte-
em 1931 por E. Zak e G. Sadoul. Retraduzido para
                                                             lhos (...). O andar incomum e particularmente
o francs em 1986 por Paule Arhex e Rose-Marie
Zeitlin, precedido do texto de Wilhelm Jensen, tra-
                                                             sedutor, assim representado, sem dvida des-
duzido por Jean Bellemin-Nol em 1983. Traduzido
                                                             pertara a ateno do artista e, decorridos tantos
pela primeira vez para o ingls em 1917, por H.M.            sculos, cativava agora o olhar de nosso espec-
Downey, sob o ttulo Delusion and Dream e prece-             tador arquelogo."
dido do texto de Wilhelm Jensen em ingls. Retra-                Norbert  invadido pelas fantasias* que lhe
duzido por James Strachey* em 1959, sob o ttulo             so inspiradas por essa jovem, a quem batizou
Delusions and Dreams in Jensen's "Gradiva".                  de Gradiva -- Gradiva: aquela que avana --,
    Ernest Jones* relata o fato com uma pitada               a ponto de pendurar numa das paredes de seu
de ceticismo: Carl Gustav Jung*  quem teria                 gabinete de trabalho uma cpia do baixo-rele-
chamado a ateno de Freud para o romance de                 vo, como mais tarde fariam Freud e seus disc-
Wilhelm Jensen intitulado Gradiva, uma fanta-                pulos. Num pesadelo, Norbert v a moa ser
sia pompeiana. Para agradar seu discpulo,                   vitimada pela erupo que sepultou Pompia
Freud teria ento redigido seu ensaio psicanal-             em 79 d.C. Ao acordar, livrando-se trabalhosa-
tico sobre esse livro, que qualificou em sua                 mente da convico de tambm haver assistido
autobiografia, em 1925, de "pequeno romance                   catstrofe, continua convencido da veraci-
sem grande valor em si".                                     dade de seu sonho*. Debrua-se ento na janela
    Se nada na correspondncia entre Freud e                 e, na rua, divisa uma silhueta parecida com a de
Jung corrobora as afirmaes atribudas a este,              sua herona. Precipita-se em vo para tentar
Jung, como  atestado por duas de suas cartas,               alcan-la. Sentindo-se prisioneiro de suas fan-
entusiasmou-se com o ensaio. Em 24 de maio                   tasias, parte para Pompia: na hora "ardente e
de 1907, exclamou: "Sua Gradiva  magnfica!                 sagrada" do meio-dia, aquela em que os turistas
Li-a recentemente, de uma s vez. A clareza de               fogem das runas para buscar uma sombra, de
sua exposio  fascinante..."; e mais adiante,              repente ele v surgir de uma casa sua Gradiva,
nessa mesma carta, acrescentou, sem dvida                   andando com seu passo leve. A moa no  uma
144     Delrios e sonhos na Gradiva de Jensen

fantasia,  bastante real, chama-se Zo Bertgang     sonhos reais, que fica em contradio com a
-- nome que significa aquela que brilha pelo         afirmao, enunciada em A interpretao dos
andar -- e lhe pede que tenha a gentileza de falar   sonhos, de que os sonhos inventados pelos ro-
alemo, e no grego ou latim, como acaba de          mancistas e poetas so da alada da interpreta-
fazer, se quiser conversar com ela. Compreen-        o simblica, e no da interpretao freudiana,
dendo o estado mental em que se acha o rapaz,        a qual se fundamenta nas associaes do sonha-
ela trata de cur-lo, com sucesso,  claro, reve-    dor. Analogia entre Norbert Hanold e um pa-
lando-lhe progressivamente o que ele recalcou:       ciente em anlise, entre Zo Bertgang e o psi-
o fato de que os dois moram na mesma cidade          canalista e, por ltimo, a analogia mais central
alem e foram, desde a infncia, companheiros        e mais sedutora,  qual Freud no resiste, entre
de brincadeiras.                                     o recalque psquico e o sepultamento de Pom-
    Logo aps a publicao de A interpretao        pia pelas lavas incandescentes do Vesvio.
dos sonhos* e de sua Psicopatologia da vida              Seja qual for a prudncia de Freud quanto a
cotidiana*, Freud descobria algo inesperado:         esse ponto, ele no consegue impedir-se de ir
um autor que desconhecia tudo sobre a psican-       adiante e de se entregar ao realce jubilatrio das
lise escrevera um texto de fico cuja constru-      concordncias que supostamente corroboram a
o e desenrolar vinham confirmar e esclarecer,      analogia inicial, nem que seja forando o texto
sem demonstraes nem o peso dos conceitos,          -- por exemplo, ao qualificar de delrio as
a verossimilhana do que ele havia teorizado         fantasias de Norbert, quando essa palavra nunca
to dolorosamente durante todos aqueles anos          empregada por Jensen.
anteriores.                                              Se esse ensaio despertou o entusiasmo dos
    A tese central de Freud em seu ensaio            discpulos, os psicanalistas das geraes se-
consiste em afirmar que os sonhos inventados         guintes nunca o situaram na linha de frente das
pelos escritores so passveis de ser interpreta-    obras freudianas. Jacques Lacan*, num debate
dos, da mesma maneira que os sonhos reais.           na universidade norte-americana de Yale, em
    Seu procedimento organiza-se em duas di-         1975, no julgou "especialmente felizes" as
menses. A primeira, efeito do encantamento          tentativas de Freud de "ver na arte uma espcie
sentido durante a leitura,  de ordem transferen-    de testemunho do inconsciente" e citou, a ttulo
cial, identificando-se Freud ora com o autor, ora    de exemplo de fracasso, o ensaio sobre Gradiva.
com o personagem de Norbert. A segunda, te-             Entretanto, Freud quis ir ainda mais longe e,
rica, provm do sentimento de que aquela nar-        "naturalmente", como escreve Jones com certa
rativa continha esta verdade: os processos in-       ingenuidade, interessou-se "pela possibilidade
conscientes e a atividade criadora so similares.    de ligar os motivos desvelados de Gradiva 
O ensaio sobre Gradiva, portanto, no constitui,     personalidade do autor". Mas seu trabalho es-
a princpio, um exerccio de aplicao rudimen-      barrou, tambm sob esse aspecto, em srios
tar da psicanlise* a um material literrio, mas     limites. De fato, Freud remeteu a Jensen um
a tentativa de fazer a psicanlise progredir atra-   exemplar de seu livro e recebeu em resposta
vs do estudo dos processos da criao artstica.    uma carta amvel, confirmando-lhe sua perfeita
    A realizao do projeto fica longe de ser        compreenso das intenes do autor. Freud no
satisfatria. Freud tem conscincia dos limites      se deteve nisso. "Estimulado por essa resposta",
de sua iniciativa, mas no se detm neles e at      escreve ainda Jones, "pediu a Jensen outras
procura ultrapass-los, com o risco de abrir         informaes. O escritor explicou-se de maneira
perspectivas psicobiogrficas e psico-histricas     evasiva sobre a origem de seu romance e as
cujo desenvolvimento ele mesmo iria criticar.        condies em que o escrevera. Freud transmitiu
    O principal ponto fraco desse ensaio reside      essa resposta a seus colegas em 15 de maio de
no lugar que o raciocnio analgico ocupa nele.      1907, durante uma reunio da Sociedade Psico-
A comear pela analogia global entre o romance       lgica das Quartas-Feiras*.
de Jensen e um tratamento psicanaltico, da qual         Em seguida, numa carta de 2 de novembro
decorre uma srie de outras analogias.  o caso      de 1907, Jung apontou a Freud a existncia de
da que se formula entre os sonhos do heri e os      dois romances de Jensen nos quais era possvel
                                                                                          denegao         145

encontrar algumas informaes relativas  in-              sujeito* exprime negativamente um desejo* ou
fncia do escritor. Durante a reunio de quarta-           uma idia cuja presena ou existncia ele recal-
feira, 11 de dezembro, ocupada pela comunica-              ca. No Brasil tambm se usam "negao" e "nega-
o de Max Graf* sobre a "metodologia da                   tiva".
psicanlise dos escritores", Freud, depois de                  Embora Freud tenha evidenciado esse me-
comparar os diversos textos do autor de Gradi-             canismo nos Estudos sobre a histeria*, foi so-
va, formulou a hiptese de que teria havido uma            mente em 1925, num pequeno artigo sobre a
irm mais nova, uma jovem com uma deficin-                negao (Verneinung), que forneceu dele uma
cia, sob a forma de um p aleijado, por quem o             explicao metapsicolgica, para mostrar co-
escritor teria sentido um desejo muito forte.              mo, numa frase como "no  minha me",
Jensen respondeu ao envio dessa interpretao              proferida por um sujeito a propsito de um
atravs de uma carta datada de 14 de dezembro              sonho*, o recalcado  reconhecido de maneira
de 1907. A princpio, deixou despontar nela um             negativa, sem ser aceito. Assim, a denegao 
certo agastamento: "No, no tive nenhuma                  um meio de todo ser humano tomar conheci-
irm", mas, como que asserenado, confiou ter               mento daquilo que recalca em seu inconscien-
experimentado, quando menino, sentimentos                  te*. Atravs desse meio, portanto, o pensamen-
amorosos por uma amiga prematuramente de-                  to se liberta, por uma lgica da negatividade,
saparecida...                                              das limitaes que lhe so impostas pelo recal-
    Freud, comentou Jean-Bertrand Pontalis,                que*. Otto Rank* j havia empregado o termo
"teria querido mais", porm as coisas no foram            numa acepo idntica. Na perspectiva freudia-
adiante, uma vez que Jensen recusou-se a en-               na, a denegao  diferente da renegao* (Ver-
contr-lo depois desta ltima carta.                       leugnung), introduzida em 1923 e depois teori-
                                                           zada, em 1927, a propsito do fetichismo*. Este
 Sigmund Freud, "Delrios e sonhos na Gradiva de
Jensen (1907)", ESB, IX, 17-96; SE, IX, 1-95; Paris,
                                                           ltimo termo, tambm composto pelo prefixo
Gallimard, 1986, precedido por "La Jeune fille", de        Ver- (privativo), remete a um mecanismo de
Jean-Bertrand Pontalis, 9-23; "Um estudo autobiogr-       negao prprio da psicose* e da perverso*.
fico" (1925), ESB, XX, 17-88; GW, XIV, 33-96; SE, XX,          Na Frana*, a traduo* da Verneinung
7-70; OC, XVII, 51-122  Freud/Jung: correspondncia
completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993 
                                                           freudiana suscitou numerosas polmicas, que
Les Premiers psychanalystes, Minutes de la Socit         resultaram inicialmente de uma discusso entre
Psychanalytique de Vienne, vol.I, 1906-1908 (1962),        Freud e Ren Laforgue* a propsito da escoto-
Paris, Gallimard, 1976  Ernest Jones, A vida e a obra     mizao, depois, das teorias de douard Pi-
de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955, 1957),
Rio de Janeiro, Imago, 1989  Wladimir Granoff, La
                                                           chon* sobre a negao gramatical e, por fim, da
Pense et le fminin, Paris, Minuit, 1976  Sarah Kof-     criao do conceito de foracluso* por Jacques
man, Quatre romans analytiques, Paris, Galile, 1973       Lacan*. Em 1934, Henri Hoesli adotou o termo
 Jacques Lacan, "Confrences et entretiens dans des       negao [ngation] para traduzir o vocbulo
universits nord-amricaines", Scilicet, 1976, 6-7, 5-63
 Nicolas Rand e Maria Torok, Questions  Freud, Paris,
                                                           freudiano. Em 1956, em seu debate com Lacan,
Les Belles Lettres-Archimbaud, 1995  Pamela Tytell,       o filsofo hegeliano Jean Hyppolite (1907-
La Plume sur le divan. Psychanalyse et littrature en      1968) preferiu a este denegao [dngation] e,
France, Paris, Aubier, 1982.                               em 1967, Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pon-
                                                           talis atriburam os termos (de)negao [(d)n-
                                                           gation]  Verneinung e renegao [ou recusa,
demanda                                                    dni]  Verleugnung, rebatizada de desmentido
 DESEJO.                                                   [dsaveu] por Guy Rosolato no mesmo ano. Em
                                                           1989, a equipe de Jean Laplanche e Andr
                                                           Bourguignon (1920-1996) tornou a adotar a
denegao                                                  palavra negao [ngation].
al. Verneinung; esp. negacin; fr. dngation; ing.
negation                                                    Sigmund Freud, "A denegao" (1925), ESB, XIX,
                                                           295-308; GW, XIV, 11-5; SE, XIX, 235-9; OC, XVII,
Termo proposto por Sigmund Freud* para caracte-            165-71  Jacques Damourette e douard Pichon, "Sur
rizar um mecanismo de defesa* atravs do qual o            la signification psychologique de la ngation en fran-
146      depresso

ais" (1928), Le Bloc-Notes de la Psychanalyse, 5,        Hegel, no havemos de nos surpreender com as
1985, 111-32  Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966),
                                                          polmicas que cercaram a traduo* do termo
Rio de Janeiro, 1998  Jean Laplanche e Jean-Bertrand
Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.    Wunsch, empregado por Freud em A interpre-
Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  E. James Lieber-    tao dos sonhos*.
man, La Volont en acte. La Vie et l'oeuvre d'Otto Rank       Trs palavras abarcam em alemo a noo
(N. York, 1985), Paris, PUF, 1991  lisabeth Roudines-
                                                          de desejo, para a qual a lngua francesa e a
co, Histria da psicanlise na Frana, 2 vols. (Paris,
1982, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989, 1988      lngua espanhola dispem apenas de um nico
 Andr Bourguignon, Pierre Cotet, Jean Laplanche,        termo (dsir, deseo): Begierde, Lust e Wunsch.
Franois Robert, Traduzir Freud (Paris, 1989), S. Pau-        O termo Begierde remete  filosofia da
lo, Martins Fontes, 1992.
                                                          conscincia* e do sujeito*, tal como desenvol-
 FRUSTRAO.                                              vida no sculo XIX a partir da publicao da
                                                          Fenomenologia do esprito, de Hegel. Dela de-
                                                          rivaria a fenomenologia husserliana e, mais
depresso                                                 tarde, a heideggeriana, nas quais se inspiraria a
 MELANCOLIA; POSIO DEPRESSIVA/POSIO                   anlise existencial*, desde Ludwig Binswan-
ESQUIZO-PARANIDE.                                        ger* at Igor Caruso*. Begierde  utilizado para
                                                          definir o apetite, a tendncia ou a concupiscn-
                                                          cia pelas quais se expressa a relao da
desejo                                                    conscincia com o eu. Se a conscincia tenta
al. Begierde, Wunsch, Wunscherfllung, Wunsch-            conhecer o objeto, a apreenso deste no se faz
befriedigung; esp. deseo; fr. dsir; ing. wish, wish      por um conhecimento, mas por um re-conheci-
fulfillment, desire                                       mento. Em outras palavras, a conscincia, no
Termo empregado em filosofia, psicanlise* e psi-
                                                          sentido hegeliano, reconhece o outro* na medi-
cologia para designar, ao mesmo tempo, a propen-          da em que se reencontra nele. A relao com o
so, o anseio, a necessidade, a cobia ou o apetite,      outro passa, pois, pelo desejo (Begierde): a
isto , qualquer forma de movimento em direo a          conscincia s se reconhece num outro, isto ,
um objeto cuja atrao espiritual ou sexual  sen-        num objeto imaginrio, na medida em que,
tida pela alma e pelo corpo.                              atravs desse reconhecimento, instaura esse ou-
    Em Sigmund Freud*, essa idia  empregada no          tro como objeto de desejo.
contexto de uma teoria do inconsciente* para des-             O outro, portanto,  o objeto do desejo que
ignar, ao mesmo tempo, a propenso e a realizao         a conscincia deseja, numa relao negativa e
da propenso. Nesse sentido, o desejo  a realiza-        especular que lhe permite reconhecer-se nele.
o de um anseio ou voto (Wunsch) inconsciente.           Ao mesmo tempo, quando se destaca a relao
Segundo essa formulao freudiana clssica, em-           negativa com o objeto do desejo, a conscincia,
pregam-se como sinnimas de desejo as palavras
                                                          transformada em conscincia de si, descobre
alems Wunscherfllung e Wunschbefriedigung e
                                                          que o objeto no est fora dela, mas nela. A
a expresso inglesa wish fulfillment (desejo no
sentido da realizao ou satisfao de um anseio
                                                          conscincia tem de passar pelo outro para retor-
inconsciente).                                            nar a si mesma sob a forma do outro. Essa  a
     Entre os sucessores de Freud, somente Jac-           definio hegeliana do movimento da Begierde
ques Lacan* conceituou a idia de desejo em psi-          que leva  satisfao (Befriedigung). A consci-
canlise a partir da tradio filosfica, para dela       ncia s pode dizer "eu" em relao a um outro
fazer a expresso de uma cobia ou apetite que            que lhe serve de apoio: eu me reconheo no
tendem a se satisfazer no absoluto, isto , fora de       outro na medida em que o nego como outro.
qualquer realizao de um anseio ou de uma pro-               Desprezando a tradio filosfica, Freud
penso. Segundo essa concepo lacaniana, em-             no emprega o termo Begierde, mas Wunsch,
pregam-se em alemo a palavra Begierde e em               que significa voto ou anseio, sem idia de cobi-
ingls a palavra desire (desejo no sentido de desejo      a ou de reconhecimento de si atravs do outro
de um desejo).
                                                          e do outro atravs de si mesmo. Por outro lado,
   Dado o lugar ocupado pela noo de desejo              ele emprega a palavra Lust no sentido de paixo
na histria da filosofia ocidental, de Spinoza at        ou pendor, para definir aquilo a que chama
                                                                                          desejo       147

princpio de prazer (Lustprinzip), isto , uma       lgica. Lacan no ops uma filosofia do desejo
atividade que tende a evitar qualquer forma de       a uma biologia das paixes, mas utilizou um
desprazer -- algo de destrutivo, que Lacan           discurso filosfico para conceituar a viso freu-
transformaria no gozo.*                              diana, que julgou insuficiente. Assim, estabele-
    Em Freud, o desejo (Wunsch) , antes de          ceu um elo entre o desejo baseado no reconheci-
mais nada, o desejo inconsciente. Tende a se         mento (ou desejo do desejo do outro) e o desejo
consumar (Wunschfllung) e, s vezes, a se           inconsciente (realizao no sentido freudiano).
realizar (Wunschbefriedigung). Por isso  que            Com isso, ele diferenciou o desejo da neces-
se liga prontamente  nova concepo do so-          sidade mais do que fizera Freud. Atravs da
nho*, do inconsciente*, do recalque* e da fan-       idia hegeliana de reconhecimento, Lacan in-
tasia*. Da esta definio que no variaria mais:    troduziu, entre 1953 e 1957, um terceiro termo,
o desejo  desejo inconsciente e realizao de       ao qual deu o nome de demanda. Esta  ende-
desejo. Em outras palavras,  no sonho que           reada a outrem e, aparentemente, incide sobre
reside a definio freudiana do desejo: o sonho      um objeto. Mas esse objeto  inessencial, por-
 a realizao de um desejo recalcado e a fanta-     quanto a demanda  demanda de amor. Em
sia  a realizao alucinatria do desejo em si.     outras palavras, na terminologia lacaniana, a
    Mesmo no levando em conta a idia de            necessidade, de natureza biolgica, satisfaz-se
reconhecimento, Freud no identifica o desejo        com um objeto real (o alimento), ao passo que
com a necessidade (biolgica). Esta, com efei-       o desejo (Begierde inconsciente) nasce da dis-
to, encontra sua satisfao em objetos adequa-       tncia entre a demanda e a necessidade. Ele
dos, como o alimento, ao passo que o desejo          incide sobre uma fantasia, isto , sobre um outro
est ligado a traos mnmicos, a lembranas.         imaginrio. Portanto,  desejo do desejo do
Realiza-se na reproduo, simultaneamente in-        outro, na medida em que busca ser reconhecido
consciente e alucinatria, das percepes trans-     em carter absoluto por ele, ao preo de uma
formadas em "signos" da satisfao. Esses sig-       luta de morte, que Lacan identifica com a famo-
nos, segundo Freud, tm sempre um carter            sa dialtica hegeliana do senhor e do escravo.
sexual, uma vez que o desejo sempre tem como             Em francs, o Wunsch, no sentido da psica-
mbil a sexualidade*.                                nlise, foi traduzido por dsir, em especial no
    Em A interpretao dos sonhos encontra-          Vocabulrio da psicanlise, uma vez que no
mos todos os exemplos clnicos que permitem          existe outro termo para significar essa realidade
ilustrar essa teoria freudiana do desejo,  qual a   e que, em Freud, trata-se efetivamente de uma
escola inglesa, desde Melanie Klein* at Do-         teoria (do desejo) que remete a um conceito, e
nald Woods Winnicott*, acrescentaria uma ou-         no a uma palavra. No obstante, em 1989, na
tra dimenso: a relao de objeto*, baseada na       edio das obras completas realizada por Jean
clivagem*, no dio e na destruio (inveja*,         Laplanche, Andr Bourguignon (1920-1996) e
objeto* bom e mau) ou na transitividade (objeto      Pierre Cotet, essa terminologia foi abandonada
transicional*).                                      em prol de uma atomizao lexicogrfica da
    Marcado, durante o entre-guerras, pelo en-       conceituao freudiana.
sino de Alexandre Kojve (1902-1968), comen-             Em ingls, James Strachey* optou por wish
tador francs da fenomenologia hegeliana, Jac-       e wish fulfillment. Os tradutores alemes de
ques Lacan foi o nico autor a conciliar duas        Lacan escolheram Begierde ou begehren, e os
tradies, uma filosfica, fundamentada na Be-       ingleses, desire.
gierde, e outra psicanaltica, apoiada no
                                                      Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
Wunsch.                                              ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
    Com Kojve, ele "antropologizou" o desejo        Paris, PUF, 1967  G.W.F. Hegel, A fenomenologia do
humano, embora colocando o inconsciente              esprito (Bamberg, Wrzburg, 1807), Petrpolis,
freudiano no lugar da conscincia hegeliana.         Vozes, 1996  Alexandre Kojve, Introduction  la
                                                     lecture de Hegel, Paris, Gallimard, 1947  Jacques
Por isso, remeteu a descoberta vienense a uma        Lacan, Le Sminaire, livre V, Les Formations de l'in-
idia de desejo inconsciente que foi revista e       conscient (1957-1958), indito; Le Sminaire, livre VI,
corrigida dentro de uma perspectiva fenomeno-        Le Dsir et son interprtation (1958-1959), indito;
148      deslocamento

Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,      progride na concepo daquilo a que pela pri-
1998  Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vo-
cabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Mar-
                                                          meira vez d o nome de aparelho psquico,
tins Fontes, 1991, 2 ed.  Charles Rycroft, A Critical   falando, a propsito da memria, de um proces-
Dictionary of Psychoanalysis, N. York, Basic Books,       so de estratificao em que os "traos mnmicos
1968  E. Burness, M.D. Moore e Bernard D. Fine, A        so remanejados de tempos em tempos, confor-
Glossary of Psychoanalytic Terms and Concepts (Ap-
saA), Library of Congress, 1968  Ludwig Eidelberg
                                                          me as novas circunstncias".
(org.), Encyclopedia of Psychoanalysis, N. York e Lon-        O processo de deslocamento comea a assu-
dres, The Free Press, Macmillan, 1968  Andr Bour-       mir sua forma definitiva em 1899, na primeira
guignon, Pierre Cotet, Jean Laplanche e Franois Ro-      verso do artigo "Lembranas encobridoras".
bert, Traduzir Freud (Paris, 1989), S. Paulo, Martins
Fontes, 1992  Monique David-Mnard, "Desejo", in         Trata-se de explicar as razes das escolhas efe-
Pierre Kaufmann (org.), Dicionrio enciclopdico de       tuadas pela memria entre os diversos elemen-
psicanlise: o legado de Freud e Lacan (Paris, 1993),     tos de uma experincia vivida. Duas foras
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996, 114-20  Dylan
Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian Psy-
                                                          psquicas entram em confronto, uma trabalhan-
choanalysis, Londres, Routledge, 1996  Ignacio Ga-       do na memorizao de acontecimentos impor-
rate e Jos Miguel Marinas, Lacan en castellano, Ma-      tantes, outra sendo uma resistncia que se ope
dri, Quipu Edicines, 1996  Guy Rosolato, A fora do     a esta. O conflito termina num compromisso:
desejo (Paris, 1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
1998.
                                                          "... em vez da imagem mnmica originalmente
                                                          justificada, ocorre uma outra imagem mnmica,
 ESTDIO DO ESPELHO; IMAGINRIO; INVEJA; LIBI-            que substitui parcialmente a primeira por des-
DO; MAIS-ALM DO PRINCPIO DE PRAZER; MIN-                locamento na associao." Essa funo do des-
KOWSKI, EUGNE; OBJETO (BOM E MAU); OBJETO                locamento  confirmada quando da reformula-
(PEQUENO) a; OBJETO TRANSICIONAL; PULSO;                 o desse artigo, por ocasio da publicao da
SEXUALIDADE.
                                                          Psicopatologia da vida cotidiana*: o desloca-
                                                          mento , na verdade, a operao responsvel
                                                          pela existncia das lembranas infantis que se
deslocamento                                              referem a coisas indiferentes ou secundrias. O
al. Verschiebung; esp. desplazamiento; fr. dplace-       deslocamento consiste numa operao de subs-
ment; ing. displacement
                                                          tituio, que incide sobre impresses impor-
Processo psquico inconsciente*, teorizado por            tantes cuja memorizao esbarrou numa resis-
Sigmund Freud* sobretudo no contexto da anlise           tncia, e cuja existncia ser estabelecida pela
do sonho*. O deslocamento, por meio de um des-
                                                          anlise.
lizamento associativo, transforma elementos pri-
                                                              Em A interpretao dos sonhos*, o desloca-
mordiais de um contedo latente em detalhes se-
cundrios de um contedo manifesto.
                                                          mento e a condensao* constituem "as duas
                                                          grandes operaes a que devemos, essencial-
   Freud utiliza o termo deslocamento desde
                                                          mente, a forma de nossos sonhos". A anlise dos
1894, num artigo dedicado s neuropsicoses de
defesa, numa acepo que no mais se alteraria.           sonhos evidencia, de maneira bastante sistem-
Trata-se, no fim desse artigo, de "alguma coi-            tica, que alguns elementos, essenciais para o
sa", um quantum de energia, "que  passvel de            contedo manifesto do sonho, desempenham
aumento, diminuio, deslocamento e descar-               apenas um papel secundrio no nvel dos pen-
ga, e que se espalha pelos traos mnmicos das            samentos latentes, sendo igualmente freqente
representaes mais ou menos como uma carga               o mecanismo inverso.  essa constatao que
eltrica sobre a superfcie dos corpos".                  leva Freud a considerar esse deslocamento de
   Em seguida, no Projeto para uma psicologia             elementos como uma das formas essenciais do
cientfica, a noo de deslocamento  situada             processo de deformao constitutivo do traba-
como intrinsecamente ligada ao processo pri-              lho do sonho. Diversamente da condensao, o
mrio, constitutivo do sistema inconsciente, ca-          deslocamento aparece como totalmente ligado
racterizado pelo livre deslocamento de uma                 censura: esta, com efeito, comanda a escolha
energia de investimento*. Na clebre carta de 6           de elementos andinos destinados a substituir
de dezembro de 1896 a Wilhelm Fliess*, Freud              outros, potencialmente conflitantes.
                                                                                     Deutsch, Felix      149

    Revemos em ao o processo de desloca-                  desmentido
mento no ensaio Os chistes e sua relao com                 RENEGAO.
o inconsciente*. Nesse contexto, porm, o des-
locamento intervm de acordo com modali-
dades diversas e Freud insiste, em especial, na             des-ser
distino a ser efetuada entre o deslocamento                PASSE.
que age no nvel do trabalho psquico respon-
svel pelo chiste e o que intervm no plano do
trabalho necessrio a sua compreenso.                      destituio subjetiva
    Em diversas ocasies, Freud menciona as                  PASSE.
vrias modalidades de funcionamento do des-
locamento, sobretudo as que esto ligadas 
proximidade e  analogia, mas no as teoriza.               Deutsch, Adolf Abraham (1867-1943)
O lingista Roman Jakobson (1896-1982) seria                mdico austraco
o introdutor dessa teorizao, ao articular as                 Nascido em Czernowitz na Bucovina, esse
figuras retricas da metfora e da sindoque                mdico judeu participou, entre 1906 e 1909 das
com os processos de simbolizao, baseados na               reunies da Sociedade Psicolgica das Quartas-
semelhana, no tocante  primeira, e na conti-              Feiras*. Foi morto em janeiro de 1943 no campo
gidade ou proximidade, no tocante  segunda,               de concentrao de Theresienstadt.
e ressaltando que essas duas operaes, que
constituem a bipolaridade inerente a qualquer
linguagem, encontram-se no funcionamento do                 Deutsch, Felix (1884-1964)
sonho descrito por Freud. Jacques Lacan*                    mdico e psicanalista americano
apoiou-se nessa afirmao para repensar, no                     De origem vienense, Felix Deutsch foi na
mbito de sua teoria do significante*, a concep-            juventude um grande admirador de Theodor
o freudiana do trabalho do sonho. Ao contr-              Herzl (1860-1904). Foi um dos fundadores da
rio de Jakobson, Lacan assimilou a condensa-                Kadimah, organizao de estudantes sionistas
o  metfora e o deslocamento  metonmia.                de Viena*, na qual militava Martin Freud*, filho
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
                                                            de Sigmund Freud*. Foi atravs dele que fez
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm        amizade com a famlia. Depois de estudar me-
Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; "As neu-       dicina e obter o ttulo prestigioso de Privatdo-
ropsicoses de defesa" (1894), ESB, III, 57-74; GW, I,       zent, tornou-se um excelente clnico geral.
57-74; SE, III, 41-61; OC, III, 1-18; "Lembranas enco-         Apesar do amor que lhe dedicava, teve mui-
bridoras" (1899), ESB, III, 333-58; GW, I, 529-54; SE,
III, 299-322; OC, III, 253-76; A interpretao dos son-     tas dificuldades em seu casamento com uma das
hos (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE,        mulheres mais clebres da saga freudiana: He-
IV-V, 1-621; Paris, PUF, 1967; A psicopatologia da vida     lene Deutsch*. Em 1922, dez anos depois de
cotidiana (1901), ESB, VI; GW, IV; SE, VI; Paris, Payot,    casado, aderiu  Wiener Psychoanalytische
1973; Os chistes e sua relao com o inconsciente
                                                            Vereinigung (WPV) e fez uma anlise com
(1905), ESB, VIII, 1-266; GW, VI, 1-285; SE, VIII; Paris,
Gallimard, 1988; "O inconsciente" (1915), ESB, XIV,         Siegfried Bernfeld*. Nessa poca, foi tambm
191-233; GW, X, 263-303; SE, XIV, 159-204; OC, XIII,        mdico pessoal de Sigmund Freud. Quando
203-42  Roman Jakobson, Essais de linguistique g-         diagnosticou, em abril de 1923, a leso cance-
nrale, Paris, Minuit, 1963  Jacques Lacan, Escritos       rosa de seu ilustre paciente, recusou-se a dizer-
(Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998; Le
Sminaire, livre V, Les Formations de l'inconscient
                                                            lhe a verdade, mas preconizou uma operao.
(1957-1958), indito  Jean Laplanche e Jean-Bertrand       Posteriormente, explicou sua atitude, afirman-
Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.      do que Freud no estava "suficientemente pre-
Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  lisabeth Roudi-      parado para enfrentar tal realidade". Temia o
nesco, Histria da psicanlise na Frana, vol. 2 (Paris,    suicdio* de seu paciente. Na verdade, parece
1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jacques
Lacan. Esboo de uma vida, histria de um sistema de
                                                            que o prprio Deutsch no ousou confrontar-se
pensamento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das           com essa terrvel descoberta; da o seu silncio.
Letras, 1994.                                               Freud ficou aborrecido com ele durante algum
150      Deutsch, Helene

tempo e tomou Max Schur* como mdico,                    Luxemburgo, figura histrica, de quem ela fa-
fazendo-o jurar que nunca lhe mentiria.                  laria ainda com entusiasmo e admirao no fim
    Na mesma poca, Deutsch recebeu uma pa-              da vida, aos 85 anos.
ciente que fora o famoso caso Dora (Ida                      Em 1907, o casal se instalou em Viena*,
Bauer*). Percebeu progressivamente esse fato e           onde Helene comeou a estudar medicina. Mas,
trinta e trs anos depois redigiu um artigo para         no vendo perspectiva de futuro, Helene termi-
mostrar que a jovem nunca se tinha curado de             nou essa ligao violenta e tumultuada, que
seus sintomas.                                           durou quatro anos. A ruptura foi motivo de
    Depois de emigrar para os Estados Unidos*,           sofrimento para Herman durante longos anos.
Felix Deutsch fez uma brilhante carreira de              Em 1911, Josef Reinhold, um amigo neurolo-
mdico e psicanalista. Orientou-se para a medi-          gista que mais tarde ela no conseguiria ar-
cina psicossomtica* e foi, entre 1951 e 1954,           rancar das garras dos nazistas, lhe aconselhou a
presidente da conceituada Boston Psychoanaly-            leitura da Interpretao dos sonhos*. Ao mes-
tic Society (BoPS).                                      mo tempo, encontrou Felix Deutsch*, jovem
 Felix Deutsch, "Reflections on Freud's one hundredth   mdico atrado pelas idias freudianas, com
birthday", Psychosomatic Medicine, 18, 1956, 279-83      quem se casou no ano seguinte.
 Max Schur, Freud: vida e agonia, uma biografia, 3          Em fevereiro de 1914, quando comeava a
vols. (N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1981 
Paul Roazen, Helene Deutsch. Une vie de psychana-        se especializar em psiquiatria, foi a Munique,
lyste (N. York, 1985), Paris, PUF, 1992.                 para o servio de Emil Kraepelin*, onde se
                                                         chocou com a hostilidade da filha deste, prel-
                                                         dio  sua rivalidade futura com Anna Freud*.
Deutsch, Helene, ne Rosenbach                           Em abril, voltou a Viena e integrou-se ao cle-
(1884-1982)                                              bre servio de Julius Wagner-Jauregg*, sucessor
psiquiatra e psicanalista americana                      de Richard von Krafft-Ebing*. Desejando conti-
    A mulher que foi chamada de filha querida            nuar no caminho da psicanlise*, freqentou
de Sigmund Freud* e que Abram Kardiner, fa-              simultaneamente o seminrio de Viktor Tausk*,
zendo aluso  sua beleza, comparava a Helena            que se tornou amigo do casal Deutsch. Os anos
de Tria, nasceu em Przemysl, na Polnia*, em            seguintes marcaram o incio de sua notoriedade.
uma famlia da burguesia judaica assimilada.                 Em 1917, depois de uma sucesso de abortos
ltima de quatro irmos, a pequena Hala, seis            e dificuldades conjugais crescentes, deu  luz
anos mais nova que sua irm Gizela, foi a                um menino, Martin, que seria seu nico filho e
predileta do pai, brilhante jurista, que se sentia       cuja verdadeira filiao nunca se saberia com
decepcionado com a mediocridade do filho                 certeza. Era filho de Felix ou de seu amigo
Emil, dez anos mais velho que Helene. Regina
                                                         ntimo Paul Barnay, ator e diretor de teatro?
Rosenbach, a me, era uma mulher autoritria,
                                                             Assim, foram tanto problemas pessoais
conformista e pouco afetuosa. Tudo faz crer que
ela era principalmente insatisfeita, o que, curio-       quanto interesse terico e clnico que levaram
samente, a sua filha psicanalista e pioneira da          Helene a aproximar-se do grupo freudiano. A
emancipao feminina nunca levou em consi-               partir de 1918, assistiu regularmente s reunies
derao.                                                 da Wiener Psychoanalitische Vereinigung*
    Aos 14 anos, a despeito de sua inteligncia          (WPV), da qual se tornou membro em 13 de
e sua beleza, Helene era deprimida, marcada              maro de 1918. No outono, comeou uma an-
pela hostilidade da me em relao a ela e pela          lise com Freud e logo se deu conta de que essa
tentativa de estupro de que tinha sido vtima por        opo a obrigava a deixar o servio de Wagner-
parte do irmo. Para grande escndalo da fam-           Jauregg. Seduzido pela inteligncia e pelos co-
lia, tornou-se ento amante de um homem ca-              nhecimentos da jovem, Freud quis fazer dela
sado e conhecido em toda a cidade: Herman                sua principal discpula e acelerou o curso das
Lieberman. Esse eminente dirigente socialista,           coisas. Ao fim de um ano, interrompeu o trata-
que seria ministro do governo polons no exlio          mento, pretextando que tinha necessidade da-
em Londres em 1940, lhe apresentou Rosa                  quela hora cotidiana para um paciente estran-
                                                                          Devereux, Georges           151

geiro, que se revelaria ser Serguei Constantino-    escola inglesa, centrada no dualismo sexual, e
vitch Pankejeff*, o Homem dos Lobos.                representada por Ernest Jones*, Melanie Klein*
    Foi no contexto desse reconhecimento pre-       e Josine Mller (1884-1930).
cipitado que Freud enviou Tausk para ser ana-           J em 1935, Helene Deutsch percebia o
lisado por Helene, depois de t-lo analisado ele    perigo nazista e decidiu, a despeito das novas
prprio. Freud supervisionava o trabalho de sua     presses de Freud, exilar-se alm do Atlntico,
discpula, mas essa situao confusa terminaria     com seu marido e seu filho. Ali, integrou-se 
com o suicdio* de Tausk. Alis, embora sua         Boston Psychoanalytic Society (BoPS), da qual
anlise no tivesse contribudo para a resoluo    se tornaria uma das mais brilhantes personali-
de seus problemas, Helene assumiu cada vez          dades.
mais a causa do freudismo*, do qual diria, em           As longas dcadas que se seguiram -- ela
referncia a seus ideais socialistas, que fora a    viveu at os 98 anos -- foram ritmadas pelas
sua "ltima revoluo", a "mais profunda".          tenses e conflitos de uma vida conjugal insa-
    A partir de 1922, estimulados pelo exemplo      tisfatria e pela nostalgia da paixo amorosa
berlinense, os vienenses abriram uma policlni-     que marcou sua juventude. Sem dvida, era
ca, de cuja direo participava Felix Deutsch,      essa uma das razes de seu apego  Polnia
que se tornara mdico pessoal de Freud. Quanto      natal. Manifestava esse sentimento por um forte
este quis criar em Viena um instituto baseado       sotaque, o que fazia com que seus amigos dis-
no modelo de Berlim, foi Helene quem garantiu       sessem que "ela falava cinco lnguas, todas em
sua fundao. Dirigiu-o de 1924 at a sua par-      polons". A grande dama de um freudismo sem
tida para os Estados Unidos*. Antes, foi a Ber-     concesses, criticando to severamente a Ego
lim para se informar, mas principalmente para       Psychology* quanto a standardizao,  moda
se afastar de Felix e retomar uma anlise com       americana, da anlise didtica*, desprovida
Karl Abraham*. Teve ento uma ligao com           segundo ela daquele esprito militante ao qual
Sandor Rado*.                                       aderira apaixonadamente durante a sua juven-
    Inquieto com aquilo que sentia como uma         tude, foi ento reconhecida e celebrada no
tentativa de emancipao, Freud no hesitou         continente americano.
em escrever a seu fiel discpulo, para pedir-lhe     Helene Deutsch, La Psychologie des femmes (N.
que zelasse para que esse tratamento no resul-     York, 1944), Paris, PUF, 1949; Autobiographie (N. York,
tasse na separao de Helene e seu marido.          1973), Paris, Mercure de France, 1986; Psychanalyse
Dcil, Abraham, obedeceu  recomendao do          des fonctions sexuelles de la femme (N. York, 1991),
                                                    Paris, PUF, 1994  Paul Roazen, Helene Deutsch. Une
mestre, entravando assim o desenrolar normal        vie de psychanalyste (N. York, 1985), Paris, PUF, 1992.
da anlise de sua paciente.
    Durante sua permanncia em Berlim, He-           DIFERENA SEXUAL; GNERO; SEXUALIDADE.
lene redigiu seu primeiro trabalho sobre a psi-
cologia da mulher. Apresentou-o no congresso
da International Psychoanalytical Association*      Devereux, Georges, n Gyorgy
(IPA) de Salzburgo, em 21 de abril de 1924.         Dobo (1908-1985)
Depois, escreveu sua primeira obra, Psican-        psicanalista e antroplogo americano e francs
lise das funes sexuais da mulher, preldio a          Os grandes freudianos interessados na ques-
seu livro mais importante, Psicologia da mu-        to da antropologia*, Georges Devereux e Geza
lher, que seria, em 1949, a referncia psicana-     Roheim*, eram ambos judeus hngaros -- isto
ltica maior de Simone de Beauvoir (1908-           , provenientes de uma regio da Europa onde
1986) em O segundo sexo. A posio de Helene        a questo do comunitarismo e das identidades
Deutsch sobre a sexualidade feminina*, ins-         nacionais ainda era mais acentuada que nos
pirada na tese da libido nica e do falicismo, se   outros territrios do continente -- e preocupa-
inscreve perfeitamente na corrente da escola        dos com a universalidade. Durante toda a vida,
vienense, tambm representada por Jeanne            Devereux obstinou-se na procura de um nome,
Lampl de Groot*, Ruth Mack-Brunswick* e             de uma identidade, de uma nacionalidade. Os-
Marie Bonaparte*. A essa corrente se oporia a       cilava permanentemente entre um desejo de
152     Devereux, Georges

vinculao e uma atrao contrria pela dis-       bro da Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP),
sidncia.                                          e depois em Topeka, no Kansas, na famosa
    Nascido em Lugos, na Transilvnia, em uma      clnica de Karl Menninger*, onde tambm
regio que se tornaria a Romnia* com o tratado    trabalhava Henri F. Ellenberger* e onde encon-
de Trianon (1920), Gyorgy Dobo foi criado por      trou um novo campo de experincias transcul-
uma me alem e um pai hngaro, que conver-        turais. Ali, iniciou-se na clnica psiquitrica.
sava com ele em francs. Desde muito pequeno,      Integrou-se  Philadelphia Psychoanalytic So-
falava quatro lnguas (hngaro, romeno, ale-       ciety (PPS) e  New York Psychoanalytic So-
mo, francs). E, mais tarde, aprenderia mais      ciety (NYPS), tornando-se membro da Interna-
quatro outras.                                     tional Psychoanalytical Association* (IPA)
    Em 1926, contrariando sua me, germanfi-      atravs de uma filiao  American Psychoana-
la, escolheu a Frana como ptria de adoo e      lytic Association* (APsaA). Em 1964, de volta
instalou-se em Paris, onde comeou a estudar       a Paris, inscreveu-se na Sociedade Psicanaltica
fsica e qumica com Marie Curie (1859-1906).      de Paris (SPP), praticou muito pouco a psican-
Fez amizade com Klaus Mann (1906-1949),            lise e foi eleito diretor de estudos na cole
filho de Thomas Mann*, e decidiu entrar para a     Pratique des Hautes tudes (EPHE), graas 
Escola de Lnguas Orientais. Seguiu ento os       interveno de Claude Lvi-Strauss. Peri-
cursos de Marcel Mauss (1872-1950) e de Lu-        odicamente, Devereux retornava ao Arizona,
cien Lvy-Bruhl (1857-1939), orientando-se         entre os ndios mohaves. Considerava sua cul-
depois para a antropologia.                        tura como uma "cultura do sonho" e estudou
    Em 1932, aos 24 anos, comeou a escrever       mais de 130 casos, que relatou em seu grande
artigos para a prestigiosa revista American        livro publicado em 1961: Etnopsiquiatria dos
Anthropologist. Nesse ano, mudou de nome e
                                                   ndios mohaves. Depois de sua morte, segundo
fez-se batizar catlico. Um ano depois, partiu a
                                                   seu desejo, suas cinzas foram dispersadas
campo: foi para o Arizona, entre os ndios mo-
                                                   segundo os ritos mohaves no cemitrio de Par-
haves e depois para a Indochina entre os Se-
                                                   ker, nos Estados Unidos.
dang-Mo. Aluno de Alfred Kroeber (1876-
                                                       Se Geza Roheim foi o fundador da etnopsi-
1960), ensinou ento durante algum tempo na
                                                   canlise*, Devereux foi o primeiro a unificar
Califrnia, na Universidade de Berkeley.
    O amor e o dio desempenharam um papel         todos os domnios relativos ao estudo das doen-
fundamental no itinerrio desse esteta culto,      as mentais em sua diversidade cultural. Em sua
conservador e melanclico. dio a si mesmo         obra, a definio de etnopsiquiatria, prove-
como judeu e dio  Romnia, dio  Alema-         niente da tradio de Emil Kraepelin*, se
nha*, adorao pela Frana, todas essas paixes    confunde com a de etnopsicanlise. Assim co-
se encontram em seus objetos de estudo. Assim,     mo Geza Roheim, ele foi um terapeuta de cam-
Devereux adorava Atenas, cidade civilizada por     po, um clnico da psicanlise em culturas no-
excelncia, e detestava Esparta por seu milita-    ocidentais, continuando a ser, ao mesmo tempo,
rismo. Do mesmo modo, gostava de seus ndios       um freudiano clssico e ortodoxo. Ao contrrio
mohaves e rejeitava os Sedang-Mo. Mas tam-        de Roheim, nunca aderiu s teses kleinianas.
bm era de sua me que procurava fugir, apre-      Simultaneamente prximo da Escola de Chica-
sentando-se como "carente de amor materno" e       go (Franz Alexander*) e da Ego Psychology*,
estigmatizando o matriarcado, regime de auto-      cujas posies adaptadoras no deixava de cri-
ridade e opresso. Certamente, tambm foi mui-     ticar, dedicou-se, em nome da universalidade do
to marcado pelo suicdio* do irmo.                gnero humano, ao mesmo combate anticultu-
    O trabalho de campo o fez refletir sobre os    ralista que Roheim, especialmente contra Mar-
problemas da diversidade das doenas mentais       garet Mead*, Abram Kardiner* e a corrente
segundo as culturas. Mas s depois da Segunda      Cultura e Personalidade. Efetivamente, foi o
Guerra Mundial orientou-se para a psicanlise*,    primeiro a fazer a sntese entre o freudismo* 
primeiro em Paris, onde comeou um tratamen-       americana e a escola francesa de antropologia:
to com Marc Schlumberger (1900-1977), mem-         de Marcel Mauss a Lvi-Strauss.
                                                                                          didtica      153

    Sua obra escrita, redigida essencialmente         tas, que ela s aparecia quando indivduos so
em ingls,  considervel: mais de 400 ttulos,       "submetidos a um violento processo de acultu-
de 1927 aos anos 1990, considerando-se as             rao".
publicaes pstumas. O princpio que a                   O psicanalista francs Tobie Nathan, um dos
atravessa  o do complementarismo, cuja defi-         alunos de Devereux, rompeu com as posies
nio terica se encontra no livro de 1972 Et-        do mestre, defendendo um etnicismo radical.
nopsicanlise complementarista. Devereux              Nessa perspectiva, a cincia  rejeitada em be-
mostra que todo fenmeno humano deve ser              nefcio da magia, e o psicanalista, agindo no
explicado pelo menos por duas maneiras "com-          campo das populaes migrantes do mundo
plementares". Cada explicao  completa em           ocidental (principalmente africanas), deve
seu contexto, sendo necessrio portanto um            identificar-se com o feiticeiro, a fim de reparar
duplo discurso para sustent-la. Esse duplo dis-      o erro cometido por um Ocidente imperialista,
curso no deve ser enunciado pelo mesmo pes-          julgado culpado de ter destrudo as culturas
quisador. A verdadeira etnopsicanlise, segun-
                                                      minoritrias. Da uma adeso a teses diferencia-
do Devereux, deve propor, conseqentemente,
                                                      listas, que nada mais tm a ver com as da psi-
uma dupla anlise de certos fatos: no mbito da
                                                      canlise ou da psiquiatria transcultural.
etnologia, por um lado, e no mbito da psican-
lise, por outro lado. S dessa maneira ela conse-
                                                       Georges Devereux, Psychothrapie d'un Indien des
guir identificar a natureza da relao de com-
                                                      plaines (N. York, 1951), Paris, J.-C. Godefroy, 1982;
plementaridade entre os dois sistemas. Assim,         Mohave Etnopsichiatry and Suicide, Washington, Smi-
por exemplo, um sujeito deve ser observado do         thsonian Institution Press, 1961; Ethnopsychiatrie des
"interior" por um psicanalista, e do "exterior"       Indiens mohaves (N. York, 1961), Paris, Synthlabo,
pelo etnlogo ou pelo socilogo. Da a exis-          col. "Les empcheurs de penser en rond", 1966; Essais
tncia de uma relao de complementaridade            d'ethnopsychiatrie gnrale, Paris, Gallimard, 1970;
                                                      Ethnopychanalyse complmentariste, Paris, Flamma-
entre as duas explicaes.                            rion, 1972; Tragdies et posie grecques. tudes psy-
     esse modelo, prximo do de Claude Lvi-         chanalytiques, Paris, Flammarion, 1975; Clomne, le
Strauss quando este analisa o "pensamento sel-        roi fou, Paris, Flammarion, 1995  lisabeth Burgos,
vagem", que permite a Devereux criticar ao            "Georges Devereux, Mohave", Le Coq-Hron, 109,
mesmo tempo o etnocentrismo e o universalis-          1988, 71-5  Benjamin Kilborne, "Altrit et contre-
                                                      transfert: Georges Devereux", Nouvelle Revue d'E-
mo abstrato, que tendem a reduzir tudo a uma          thnopsychiatrie, 7, 135-47  Marie-Christine Beck, "La
explicao nica, e o culturalismo*, que dis-         Jeunesse de Georges Devereux. Un chemin peu ha-
solve o universal no particular. Devereux dis-        bituel vers la psychanalyse", Revue Internationale
tingue assim radicalmente o mtodo de trata-          d'Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991, 581-600 
mento dos xams do mtodo dos psiquiatras             Simone Valentin-Charasson e Ariane Deluz, "Contrefi-
                                                      liations et inspirations paradoxales: Georges Devereux
modernos, o primeiro fundado na magia, o
                                                      (1908-1985)", ibid., 605-15  Tobie Nathan, L'Influence
segundo na razo. Nessa tica, reafirma o prin-       qui gurit, Paris, Odile Jacob, 1994.
cpio fundador da histria da psiquiatria din-
mica*: o etnopsicanalista, longe de se identifi-
                                                       ANTIPSIQUIATRIA; DIFERENA SEXUAL; GNERO;
car com o xam, deve explicar o sistema de
                                                      TOTEM E TABU.
pensamento da comunidade que estuda com o
seu prprio sistema. Se ele desejar tratar e curar,
dever faz-lo com sua prpria racionalidade:
nem negar a importncia da cultura original na        Dick, caso
forma tomada pela neurose* ou pela psicose*,
nem querer adaptar o sujeito  sua comunidade.         KLEIN, MELANIE; PSICANLISE DE CRIANAS.
Da a adoo do termo "transculturalismo", que
respeita a idia complementarista. Foi nessa
perspectiva que Devereux fez da esquizofre-
nia*, em 1965, uma "psicose tnica", no              didtica
hesitando em afirmar, contra as teses organicis-       ANLISE DIDTICA.
154      diferena sexual

diferena sexual                                         reformulao freudiana e das lutas pela eman-
al. Geschlechtsunterschied; esp. diferencia sexual;      cipao. Beauvoir estudou a sexualidade  ma-
fr. diffrence des sexes; ing. distinction between the   neira de um historiador e tomou o partido da
sexes, sexual difference                                 escola inglesa.
    Em psicanlise*, a elucidao da questo da              Entretanto, acrescentou s teses inglesas
diferena sexual decorre da concepo freudia-           uma reflexo poltica e ideolgica, atravs da
na da libido* nica (ou monismo sexual), que             qual instaurou uma relao entre o sexo no
permite, a um s tempo, definir a sexualidade            sentido anatmico e a situao sexuada da mu-
masculina e a sexualidade feminina*.                     lher nas sociedades dominadas pelo poder mas-
    De acordo com Sigmund Freud*, a existn-             culino e pela ordem patriarcal. Censurou Freud
cia de uma diferena anatmica leva cada repre-          por calcar o destino feminino num destino inci-
sentante de ambos os sexos a uma organizao             pientemente modificado do homem. Opondo-
psquica diferente, atravs do complexo de di-          se a ele, afirmou a existncia de um segundo
po* e da castrao*. Mas, se essa diferena              sexo, diferente do primeiro tanto pela anatomia
existe, ela  pensada por Freud no quadro uni-           quanto pela implicao social dessa anatomia.
ficador de um monismo sexual: uma nica libi-            Todavia, ao se apoiar no existencialismo sartria-
do, de essncia masculina, define a sexuali-             no, ela se afastou do preconceito naturalista:
dade* em geral (masculina e feminina). Esse              "No se nasce mulher, vem-se a s-lo", decla-
monismo, prprio da chamada escola vienense,             rou. Essa frmula, sem dvida alguma, era fal-
foi criticado, a partir de 1920, pelos repre-            sa, mas tinha o mrito de exprimir vigorosa-
sentantes da chamada escola inglesa: Ernest              mente a dialtica do ser e da subjetividade que
Jones* ou Melanie Klein*.  tese da libido               a fenomenologia husserliana e a heideggeriana,
nica, de essncia flica (ou masculina), eles           depois dela, souberam levar  incandescncia.
opuseram a tese de uma diferena sexual (ou              Beauvoir aplicou  elucidao do "mistrio" da
dualismo sexual) de tipo naturalista, sem por            sexualidade feminina uma tica que seria a dos
isso apregoar, por outro lado, qualquer diferen-         antipsiquiatras a propsito da loucura*. A seu
cialismo cultural ou poltico.                           ver, a questo feminina no era assunto das
    Na histria intelectual do sculo XX, o pri-         mulheres, mas da sociedade dos homens, a ni-
meiro livro coerente a tomar por objeto a sexua-         ca responsvel, em sua opinio, pela submisso
lidade feminina a partir da noo de diferena           a ideais masculinos. Ao ligar a questo da
foi obra de uma romancista e filsofa. Quando            sexualidade  da emancipao, Beauvoir reme-
Simone de Beauvoir (1908-1986) publicou O                teu a noo de sexualidade feminina a um cul-
segundo sexo, em junho de 1949, anunciou                 turalismo, e no mais ao naturalismo.
desde logo que a reivindicao feminista j                  Beauvoir fazia da sexualidade feminina uma
estava ultrapassada. Para abordar esse tema a            "diferena",  maneira como a escola cultura-
srio, aps uma guerra que, na Frana*, permi-           lista norte-americana -- de Ruth Benedict
tira s mulheres obterem o direito de voto, era          (1887-1948) a Margaret Mead* -- defendia o
preciso, doravante, tomar uma certa distncia.           relativismo: a cada cultura, seu tipo psicolgi-
Beauvoir no sabia que seu livro estaria na              co, a cada grupo, sua identidade, a cada minoria,
origem, aps um longo desvio pelo continente             seu pattern. Tanto assim que toda sociedade no
norte-americano, de uma transformao simul-             passa da soma de suas diversas comunidades:
tnea dos ideais do feminismo e dos do freudis-          as crianas, os judeus, os loucos, as mulheres,
mo*. Ignorava-o a ponto de, em 1968, pegar o             os negros etc.
bonde andando do novo feminismo radical ba-                  Ao mesmo tempo, entretanto, ela levou em
seado numa concepo maximalista da diferen-             conta o debate sobre a dualidade da natureza e
a entre os sexos, da qual, com esse livro inau-         da cultura, tal como o formulara, na Frana,
gural, ela fora a grande inspiradora.                    Claude Lvi-Strauss num outro livro inaugural
    Pela primeira vez numa anlise acadmica             -- As estruturas elementares do parentesco --,
estabeleceu-se um vnculo entre as diversas teo-         publicado na mesma poca e a propsito do qual
rias da sexualidade feminina, provenientes da            Beauvoir escreveu um artigo elogioso. Empre-
                                                                             diferena sexual      155

gando o mtodo estrutural, Lvi-Strauss trouxe        flico no mais  articulado com a anatomia, e
um esclarecimento indito  questo da univer-        sim com o desejo* que estrutura a identidade
salidade da proibio do incesto*, que tanto          sexual, sem privilegiar um gnero em detrimen-
havia dividido os etnlogos ingleses e norte-         to do outro.
americanos desde a publicao de Totem e tabu             Na perspectiva lacaniana, a teoria freudiana,
por Freud.                                            por um lado, e as teses inglesas, por outro,
    No contexto do grande debate iniciado aps        traduzem-se numa mesma lgebra ternria. Na
a guerra sobre a relatividade das culturas, o livro   relao primordial com a me, a criana  "de-
de Simone de Beauvoir foi tomado como em-             sejo do desejo materno". Pode identificar-se
blema de uma sexualizao do feminismo e              com a me, com o falo, com a me como
contribuiu, exagerando as idias de sua autora,       portadora do falo, ou ento apresentar-se, ela
para o surgimento, nos Estados Unidos*, de um         mesma, como provida do falo. Com o dipo,
feminismo sexista e diferenciatrio. Convm           entra-se numa ordem diferente: o pai intervm
lembrarmos que foi em 1947 que a American             como privador, para a criana, do objeto de seu
Anthropological Association submeteu  Co-            desejo, e como privador, para a me, de seu
misso de Direitos Humanos da Organizao             objeto flico. Por fim, num terceiro tempo, que
das Naes Unidas um projeto de declarao            corresponde ao declnio do dipo, o pai inter-
que sublinhava o carter relativo dos valores         vm para se fazer preferir  me, encarnando
prprios de cada cultura.                             para a criana o significante flico. O menino
    Nessa passagem para o diferencialismo, as         sai do dipo atravs da castrao*, na medida
teses de Jacques Lacan* sobre a questo da            em que esta no  real, mas significada pelo
sexualidade feminina desempenharam um pa-             falo, enquanto a menina  introduzida nele pelo
pel considervel. Em 1958, no contexto da pre-        mesmo caminho, ao renunciar a ser portadora
parao de um congresso sobre a sexualidade           do falo para receb-lo como significante.
feminina, que deveria realizar-se em Amsterd             Na Frana, essa leitura lacaniana do falocen-
dois anos depois, ele elaborou "diretrizes" pau-      trismo* abriu caminho, entre 1968 e 1974, para
tadas na tese freudiana do monismo sexual, mas        teses diferencialistas encontradas sob a pena de
corrigidas pela escola inglesa: a publicao do       autores -- em geral mulheres e psicanalistas --
livro de Simone de Beauvoir foi, para ele, uma        preocupados em definir as caractersticas de
oportunidade de retomar toda essa questo.            uma identidade feminina liberta de qualquer
    Embora mantendo o carter primrio do fa-         substrato biolgico ou anatmico. Assistiu-se
licismo e do monismo sexual, Lacan props, ao         ento, em seguida  reformulao lacaniana, ao
mesmo tempo, introduzir a idia da relao            surgimento de um feminismo psicanaltico
precoce com a me, sob a categoria de um              francs que, embora apoiando-se no livro fun-
"desejo materno", como tinham feito antes dele        dador de Simone de Beauvoir, procurou ora
Melanie Klein* e Donald Woods Winnicott*, e           contest-lo radicalmente, ora corrigir seu as-
livrar a terminologia freudiana de qualquer           pecto naturalista e existencialista atravs de
equvoco centrado no paternalismo. Assim, ele         uma nova referncia a Freud.
revisou a doutrina clssica vienense  luz de             Em 1965, Michle Montrelay, membro da
suas sucessivas revises e de sua prpria tpica      cole Freudienne de Paris* (EFP), apoiou-se na
do simblico*, do imaginrio* e do real*. Com         obra de Marguerite Duras e, em especial, no
isso, Lacan fez do falo* (grafado como Falo) o        romance Le Ravissement de Lol V. Stein, que
objeto central da economia libidinal, porm um        Lacan havia comentado, para definir o gozo*
falo desligado de suas conivncias com o rgo        feminino como uma "escrita", um continente
peniano. Dentro dessa tica, o falo  assimilado      negro, uma "sombra" ou um "feminino prim-
a um significante* puro da potncia vital, divi-      rio", recalcado pela psicanlise. Da a necessi-
dindo igualmente os dois sexos e exercendo,           dade de o homem e a mulher inscreverem o
portanto, uma funo simblica. Se o falo no         nome dessa sombra como marca da diferena.
 um rgo de ningum, nenhuma libido mas-                Nove anos depois, Julia Kristeva, membro
culina domina a condio feminina. O poder            do comit da revista Tel Quel, impulsionada por
156     diferena sexual

Philippe Sollers, publicou um livro, La Rvolu-     diferena sexual deixou de interessar  comuni-
tion du langage potique, no qual, retomando a      dade freudiana. Nos Estados Unidos, a implan-
idia de heterologia que fora cara a Georges        tao do lacanismo nas altas esferas do ensino
Bataille (1897-1962), contrastou uma "ordem         universitrio, atravs dos French studies, deu
semitica" com a ordem simblica. Essa ordem        origem a pesquisas especficas sobre a identi-
semitica seria aparentada com a noo de real      dade feminina e a constituio de um possvel
elaborada por Lacan: irrupo de uma pulso*,       "sujeito feminino" no Ocidente.
lugar de negatividade e de gozo, ela era como           O culto das minorias, tal como se desenvol-
que impossvel de simbolizar e tambm remetia       veu nos Estados Unidos a partir da dcada de
ao feminino.                                        1990, inspira-se nessa herana, seja ela freudia-
    No mesmo ano, recorrendo ao trabalho de         na, lacaniana ou hostil ao freudismo. O direito
Jacques Derrida sobre a diferena (ou diff-         diferena, mitificado, transmudou-se numa
rance), Luce Irigaray, filsofa e psicanalista,     vontade de encerramento. As minorias, outrora
membro da EFP, retomou as teses clssicas da        vtimas do diferencialismo, tornaram-se suas
escola inglesa em Speculum de l'autre femme,        defensoras,  fora de reivindicar sua "raa",
onde se enunciou pela primeira vez um diferen-      sua "etnia" ou seu "sexo". Da esse feminismo
cialismo radical, que faria fortuna nos Estados     radical que renunciou, ao mesmo tempo, ao
Unidos. Irigaray definiu uma escrita feminina,      universalismo iluminista e  concepo freudia-
sexuada, capaz de subverter a linguagem opres-      na da sexualidade. Como antdoto, por outro
siva dos "machos". Assimilou o falocentrismo        lado, ele deu origem a trabalhos que tentam
freudiano a um logocentrismo e props fazer         refletir sobre uma nova diviso entre o gnero*,
brotar uma alteridade do feminino.  tese do        como entidade moral, poltica e cultural, e o
falocentrismo freudiano e lacaniano ela ops a      sexo, como especificidade anatmica.
idia de uma possvel "feminizao" do conjun-
to da sexualidade humana, atravs do surgimen-       Simone de Beauvoir, O segundo sexo, 2 vols. (Paris,
to de um arcasmo recalcado nos planos social       1949), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, 8 ed. 
                                                    Claude Lvi-Strauss, As estruturas elementares do
e subjetivo.                                        parentesco (Paris, 1949), Petrpolis, Vozes, 1976 
    Essas teses, que ameaavam reduzir a teoria     Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,
freudiana a um puro culturalismo*, encontram-       1998; O Seminrio, livro 4, A relao de objeto (1956-
se no clebre livro de Juliet Mitchell intitulado   1957) (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995
Psychanalyse et fminisme, publicado em 1974,        Wladimir Granoff e Franois Perrier, Le Dsir et le
                                                    fminin (1964), Paris, Aubier, 1991  Jacques Derrida,
que marcou o comeo de uma releitura lacania-       A escritura e a diferena (Paris, 1967), S. Paulo, Pers-
na do freudismo nos Estados Unidos e na lite-       pectiva, 1971  Julia Kristeva, La Rvolution du langage
ratura psicanaltica anglfona. Opondo-se s        potique, Paris, Seuil, 1974  Luce Irigaray, Spculum
diferentes correntes da Self Psychology*, pro-      de l'autre femme, Paris, Minuit, 1974  Juliet Mitchell,
                                                    Psychanalyse et fminisme (Londres, 1974), Paris,
venientes de Winnicott e Heinz Kohut*, que          Des femmes, 1979  Jacqueline Rose, Feminine
continuavam presas a uma concepo biologis-        Sexuality. Jacques Lacan and the cole freudienne,
ta, anatomista e naturalista da diferena sexual,   Londres, Macmillan, 1982  Michle Montrelay, L'Om-
Mitchell apoiou-se implicitamente na obra de        bre et le nom, Paris, Minuit, 1977  lisabeth Badinter,
Lacan -- e nos comentadores dele -- para            Um  o outro (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Nova
                                                    Fronteira, 1986, XY: sobre a identidade masculina
efetuar uma espcie de "retorno a Freud". Tra-      (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994, 2
tava-se de mostrar que Freud, longe de haver        ed.  Jane Gallop, Thinking through the Body, N. York,
aderido aos ideais do patriarcado, fornecera os     Columbia University Press, 1988  Elizabeth Wright
instrumentos tericos para nos desligarmos          (org.), Feminism and Psychoanalysis. A Critical Dictio-
                                                    nary, Oxford, Basil Blackwell, 1992  Franoise Hritier,
deles, e que Lacan, mesmo permanecendo sub-
                                                    Masculin/Fminin. La Pense de la diffrence, Paris,
metido ao falocentrismo freudiano, fornecia os      Odile Jacob, 1996.
meios para sairmos deste atravs de sua crtica
do biologismo.                                       ANTROPOLOGIA; BISSEXUALIDADE; CULTURALIS-
    Na Frana, a partir de 1980, salvo alguns       MO; DESCONSTRUO; HOMOSSEXUALIDADE; JU-
trabalhos especializados, a interrogao sobre a    DEIDADE; SEXUAO, FRMULAS DA.
                                                                         Dolto, Franoise      157

Dinamarca                                         conseguir assumir o luto desse primeiro amor.
 ESCANDINVIA.                                    Ao longo desse perodo, foi marcada pela ger-
                                                  manofobia, pelo racismo e pelo anti-semitismo
                                                  que eram o alimento espiritual de sua famlia.
discordncia                                         Outro acontecimento contribuiu para
 CLIVAGEM (DO EU); FORACLUSO.                    mant-la em situao de luto, tdio e ignorn-
                                                  cia: a morte de sua irm mais velha, atingida em
                                                  maio de 1920 por um cncer nos ossos. Suzanne
dissidncia                                       Marette (1879-1962), me de Franoise, no se
 CISO.                                           recuperou dessa morte, apesar do nascimento
                                                  de um ltimo filho, em 1922. Assim, o estado
                                                  de depresso no qual se encontrou mergulhada,
dissociao                                       depois de uma febre cerebral e de surtos de
 CLIVAGEM (DO EU).                                delrio, foi apenas o aspecto mais visvel dessa
                                                  melancolia* de que ela sofria desde sempre, e
                                                  que s uma vida repleta de tarefas domsticas e
diviso (do eu)                                   deveres conjugais lhe permitira mascarar.
 CLIVAGEM (DO EU).                                   Com tal educao, e em contato com uma
                                                  me deprimida que, mesmo devotada e afetuo-
Documento                                         sa, no era menos vtima dos ideais de sua
                                                  classe, a jovem Franoise Marette chegou a seu
 ARGENTINA; CISO; LANGER, MARIE.
                                                  vigsimo aniversrio em estado de grave neu-
                                                  rose*. Preocupada com um incio de obesidade,
Dolto, Franoise, ne Marette                     invadida por pulses violentas, era incapaz de
(1908-1988)                                       considerar a menor relao com um homem, de
mdica e psicanalista francesa                    pensar em uma verdadeira profisso ou em
   Com Jacques Lacan*, Franoise Dolto foi a      construir para si uma identidade.
segunda grande personalidade do freudismo*           Para as mulheres dessa gerao que desejas-
francs. Nascida em 6 de novembro de 1908,        sem libertar-se do jugo familiar, vrios cami-
em uma famlia de engenheiros e militares,        nhos eram possveis no limiar dos anos 1930: a
adepta das idias de Charles Maurras (1868-       tomada de conscincia poltica, o engajamento
1952), foi educada segundo os princpios da-      feminista ou mstico, o acesso a uma profisso.
quela grande burguesia parisiense, cuja opinio   Franoise fez esta ltima escolha quando, na
era modelada pela leitura cotidiana do jornal     mesma poca que seu irmo Philippe, comeou
L'Action Franaise.                               a estudar medicina, ao mesmo tempo para se
   Desde a mais tenra infncia, ela leu livros    curar de sua educao e para no repetir, tornan-
piedosos e foi afastada dos fatos da sexuali-     do-se por sua vez me e esposa, os erros come-
dade* humana. Diziam-lhe que as crianas nas-     tidos por seus pais. Desejando ser "mdica da
ciam em caixas enviadas  terra pelo Sagrado      educao", deparou-se ento com a aventura
Corao de Jesus, que as coisas do amor eram      pioneira do freudismo francs, na pessoa de
repugnantes, ou ainda que as mulheres eram        Ren Laforgue*.
destinadas a passar da virgindade para a mater-      Seu tratamento psicanaltico comeou em
nidade, sem nunca ter acesso  intelectualidade   fevereiro de 1934 e durou trs anos. Esse trata-
ou a uma liberdade qualquer.                      mento operou sobre seu destino uma espcie de
   No comeo da Primeira Guerra Mundial,          milagre, que se assemelhou a uma revoluo da
aos 7 anos de idade, ela se acreditou noiva de    conscincia pelo trabalho do inconsciente*.
seu tio materno Pierre Demmler (1846-1916),       Franoise tornou-se outra mulher: uma mulher
capito de um batalho de caadores alpinos,      consciente de si mesma e no mais alienada,
morto em julho de 1916. Estimulada pelos pais,    uma mulher capaz de sentir-se sexualmente
considerou-se ento uma viva de guerra, sem      mulher ao invs de ter de si mesma uma imagem
158     Dolto, Franoise

infantil e mortfera. Assim, foi despertada de      mais maternal e feminino do que Franoise
sua neurose pelo aprendizado de um saber cl-       Dolto, que cultivaria um estilo mais paternal.
nico e arrancada aos preconceitos de seu am-            Em 24 de setembro de 1940, pouco tempo
biente pelo acesso  cultura freudiana. Entretan-   depois da morte de douard Pichon, Franoise
to, de sua educao e suas origens, ela conser-     Dolto inaugurou, no Hospital Trousseau, um
varia uma f catlica ardorosa, a vontade de        consultrio que se tornaria "pblico", isto ,
reparar as desgraas do sofrimento infantil e       aberto aos analistas que desejassem se formar
uma maneira de falar muito peculiar. Parado-        na prtica da psicanlise de crianas*. Ela o
xalmente, quanto mais sua f se desembaraas-       fechou em 1978.
se das intolerncias nacionalistas da Action            Em 1942, Franoise Marette casou-se com
Franaise, tanto mais seu discurso seria marca-     Boris Dolto (1899-1981), mdico russo imi-
do pelo culto excessivamente vieille France ao      grante, nascido na Crimia, que fundaria um
vocabulrio clssico.                               novo mtodo de quinesiterapia. Trs filhos nas-
    Seu talento para a escuta da infncia se        ceram desse casamento.
revelou em contato com seu segundo mestre:              Em 1949, Franoise Dolto exps  Socie-
douard Pichon*. Graas a ele, depois de uma        dade Psicanaltica de Paris (SPP) o caso de duas
passagem pelo servio de Georges Heuyer             meninas psicticas, Bernadette e Nicole. A pri-
(1884-1977), onde freqentou Sophie Mor-            meira gritava, sem conseguir fazer-se ouvir.
genstern*, defendeu sua tese de medicina em         Humanizava os vegetais e "coisificava" os seres
1939 sobre o tema das relaes entre a psican-     humanos. A segunda permanecia muda, embora
lise* e a pediatria.                                no fosse surda. Dolto teve a idia de pedir 
                                                    me de Bernadette que fabricasse um objeto que
    O mtodo utilizado com as crianas consis-
                                                    teria, para a criana, o papel de um bode expia-
tia em abandonar a tcnica da brincadeira e da
                                                    trio. Deu-lhe o nome de "boneca-flor": uma
interpretao* dos desenhos e praticar uma es-
                                                    haste coberta de tecido verde no lugar do corpo
cuta capaz de traduzir a linguagem infantil. Na
                                                    e dos membros, uma margarida artificial para
verdade, segundo Dolto, o psicanalista devia
                                                    representar o rosto. Bernadette projetou no ob-
usar as mesmas palavras que a criana e comu-
                                                    jeto as suas pulses* mortferas e comeou a
nicar-lhe os seus prprios pensamentos sob seu
                                                    falar, enquanto Nicole saa de seu mutismo.
aspecto real. Em sua tese, no hesitou em tra-          Com essa "boneca-flor", Dolto integrava 
duzir em palavras cotidianas os termos sofis-       sua prtica a tcnica dos jogos e, embora no
ticados do vocabulrio mdico: enurese = xixi       tivesse conhecimento, na poca, dos trabalhos
na cama; encopresia = coc na cala. Os 16          de Melanie Klein*, referia-se implicitamente a
casos apresentados em Psicanlise e pediatria       uma clnica das relaes de objeto*, desprovida,
eram a ilustrao desse mtodo, que se desen-       entretanto, da temtica kleiniana do dio, da
volveu ao longo dos anos.                           inveja* e de qualquer forma de perseguio
    Em 1938, encontrou Jacques Lacan, a quem        ligada  idia de objeto mau*. Dessa "boneca-
acompanhou ao longo de sua carreira de psica-       flor", sairia a representao particular que Dolto
nalista. Ela adotaria seus conceitos, nomeando-     faria da imagem do corpo*, mais prxima da
os  sua maneira. Assim, quando falava de           concepo lacaniana do estdio do espelho* do
castrao* simblica, preferia a esse adjetivo a    que da definio de Paul Schilder*.
palavra "simbolgena", inventada por ela, que           Em 1953, depois da primeira ciso* do mo-
lamentava no existisse esse termo em francs.      vimento psicanaltico francs, ela seguiu Daniel
A inteno era sublinhar que o interdito permi-     Lagache* na criao da Sociedade Francesa de
tia  pulso* expressar-se de outra forma alm      Psicanlise (SFP), na qual comeou a formar
do gozo* do corpo. Durante quarenta anos, La-       muitos alunos. Em 1960, no congresso de Ams-
can e Dolto seriam o casal parental para ge-        terd organizado pela SFP e dedicado  sexua-
raes de psicanalistas franceses. O paradoxo       lidade feminina*, fez uma exposio original
mais impressionante dessa epopia edipiana es-      sobre esse tema, ao lado de Franois Perrier* e
tava no fato de que Lacan se revelaria sempre       de Wladimir Granoff. Sem renunciar  tese da
                                                                           Dolto, Franoise      159

libido* nica, ela articulava a sexualidade femi-   novo episdio regressivo, e depois a perda de
nina com pontos de referncia anatmicos, para      tudo o que aprendera na escola. A anamnese
mostrar que a constituio do "ser-mulher" re-      conduzida por Franoise Dolto permitiu a
pousava sobre a aceitao, pela menina, da          reconstituio da histria edipiana dos pais e o
especificidade de seu sexo. Se a menina reagia      progressivo distanciamento do adolescente em
com uma decepo narcsica  descoberta de          relao a um clima familiar incestuoso. Ao fim
seu sexo, podia tambm aceitar sua identidade       de um ano de tratamento, o pai de Dominique
sexual, desde que tivesse alguma certeza de ter     recusou-se a pagar as sesses e o tratamento foi
sido desejada pelo pai  imagem da me.             interrompido. Franoise Dolto fez ento um
    Em 1963, no momento da segunda ciso, foi       prognstico reservado quanto ao futuro do ado-
criticada, no por causa da durao de suas         lescente, mas afirmou que ele estava curado "de
sesses, como Lacan, mas pelo seu no-confor-       sua regresso psictica".
mismo, herdado de Laforgue. Aos olhos da                Em 1984, durante uma entrevista com Fran-
comisso de inqurito da International Psy-         ois Peraldi* e Chantal Maillet, Franoise Dolto
choanalytical Association* (IPA), ela aparecia      deu informaes sobre o que sucedera pos-
como um guru, e at o grande Donald Woods           teriormente a Dominique. Ela o encontrara no-
Winnicott*, que reconhecia seu gnio, a acusou      vamente quando sua me, pretextando que ele
de ter excessiva "influncia" sobre seus alunos     era homossexual, procurava obter de Franoise
e no se preocupar suficientemente com as           um certificado de internao. Opondo-se  me,
regras da anlise didtica*.                        que queria fazer dele um pintor de paredes,
    Proibida de ensinar, participou com Lacan       Dominique desejava orientar-se para a profis-
da fundao, em 1964, da cole Freudienne de        so de ceramista. Franoise Dolto conseguiu
Paris* (EFP), onde continuou seu trabalho, prin-    vencer a hostilidade materna. Usando o di-
cipalmente sob a forma de um Seminrio de           nheiro que a publicao desse caso rendera,
Psicanlise de Crianas. Em outubro de 1967,        financiou para o jovem, sem que ele soubesse,
quando de um colquio consagrado s psi-            um estgio com um arteso ceramista no sul da
coses* infantis, organizado por Maud Mannoni        Frana.
com a participao de David Cooper* e de                Depois de permanecer algum tempo na Bl-
Ronald Laing*, apresentou um relatrio deta-        gica, Dominique voltou  casa materna, ficando
lhado de "doze sesses de tratamento psicana-       literalmente enclausurado. Sua me no renun-
ltico de um adolescente apragmtico desde a        ciara ao desejo obsessivo de proteg-lo contra
infncia". Quatro anos depois, publicou o ma-       sua homossexualidade*.
terial grfico e verbal desse tratamento na nte-       Em 1977, com Grard Svrin, psicanalista
gra, acrescentando suas prprias intervenes e     e editorialista do jornal La Vie, Dolto props
associaes. A obra se intitulava O caso Domi-      uma leitura psicanaltica dos Evangelhos, que a
nique.                                              levou a dar um significado espiritualista  ques-
    Foi no consultrio do Centro Etienne Marcel     to do desejo*, concebido como uma transcen-
que ela recebeu, a partir de 1964, o jovem          dncia humanizante, e a acrescentar uma base
Dominique Bel (tratava-se de um pseudnimo).        mstica  sua tese da imagem do corpo. Pela
Com 14 anos de idade, sofria de uma fobia*          encarnao e pela ressurreio, pela crucifica-
generalizada e apresentava tendncias esquizo-      o que o fazia sair de uma "placenta" e de um
frnicas graves. Com 7 anos, fizera uma primei-     mundo uterino para chegar  vida eterna, o
ra psicoterapia*, quando j acusava um forte        Cristo se tornava, segundo ela, a prpria met-
atraso escolar, resultante de episdios regres-     fora do desejo guiando o homem, do nascimen-
sivos (enurese, encopresia), consecutivos ao        to  morte, para uma grande busca de identi-
nascimento de uma irm, trs anos mais nova         dade.
que ele, e durante um perodo em que estava             Em 1981, retomou o dilogo, para submeter
vivendo com os avs. Outra permanncia com          "a f ao risco da psicanlise". Sem conhecer os
estes, no momento em que essa irm entrou para      trabalhos dos especialistas em judeidade*, ela
a pr-escola, logo provocou em Dominique um         afirmou que "Freud nada teria inventado", se
160     Dolto, Franoise

tivesse ficado "fechado em sua religio judai-        maneira dos jornalistas, escreveu Madeleine
ca": " porque Freud saiu do seio de sua reli-       Chapsal, dizendo o que tinha a dizer a cada dia,
gio, porque se sentia filho espiritual da Grcia    com urgncia e com desprezo pelo escndalo,
humanista, porque tinha fobia de Roma, a cat-       pelo choque que poderia causar. Evidente-
lica (isto , sentia inibio e angstia ao pensar   mente, sofreu o contragolpe de sua deliberada
em Roma), que ele descobriu a psicanlise. Ele       no-prudncia. Foi atacada, afastada, des-
nunca teria realizado essa inveno se tivesse       prezada. Nada disso a deteve."
aceito as respostas prontas, tanto da religio          No momento de enfrentar a "passagem", ela
quanto da cincia mdica, para explicar o ser        conservou a lucidez, apesar da doena que a
humano." Depois de interpretar o atesmo de          levaria (uma fibrose pulmonar). Morreu em sua
Freud como uma rejeio ao judasmo e como           casa, cercada pelos seus, na f crist.
uma manifestao fbica pelo catolicismo, ela
fez dele, em 1986, um "profeta da Bblia" e           Franoise Dolto, Psicanlise e pediatria (Paris, 1939),
estigmatizou a violncia anti-religiosa que ele      Rio de Janeiro, Zahar, 1980; O caso Dominique, (Paris,
demonstrou em O futuro de uma iluso*.               1971), Rio de Janeiro, Zahar, 1981; Les vangiles et
    Traduzidos em nove lnguas, os dilogos          la foi au risque de la psychanalyse (1977, 1978, 1981),
sobre a f e os Evangelhos foram criticados          Paris, Gallimard, 1996; Lorsque l'enfant parat (1977-
                                                     1979), Paris, Seuil, 1990; No jogo do desejo (Paris,
tanto pelos cristos quanto pelos telogos e
                                                     1981), Rio de Janeiro, Zahar, 1984; Seminrio de
psicanalistas. Ums acusavam Dolto de fazer           psicanlise de crianas (Paris, 1982, 1988), Rio de
uma exegese iconoclasta e psicologizante dos         Janeiro, Zahar, 1985; Sexualidade feminina (1982), S.
textos sagrados, outros se mostravam hostis a        Paulo, Martins Fontes, 1996, 3 ed. La Cause des
essa tentativa de cristianizao da psicanlise.     enfants, Paris, Laffont, 1985; Solido (1985), P. Alegre,
De qualquer forma, ela permitiu a muitos cat-       Artes Mdicas, no prelo; Dialogues qubcois, em
                                                     colaborao com J.-F. de Sauverzac, Paris, Seuil,
licos franceses no terem mais medo do trata-        1987; Les tapes majeures de l'enfance, Paris, Galli-
mento freudiano. Seu amigo Denis Vasse,              mard, 1994; Les Chemins de l'ducation, Paris, Galli-
psicanalista e jesuta, tambm autor de vrios       mard, 1994; Tout est langage, Paris, Gallimard, 1995;
livros, afirmou em 1988 que ela "abria o incons-     A dificuldade de viver (Paris, 1995), P. Alegre, Artes
ciente* para o Evangelho": "Ela reconhece no         Mdicas, s/d; Le Sentiment de soi. Aux sources de
                                                     l'image du corps, Paris, Gallimard, 1997; "Questions de
inconsciente aquilo que nos chama a reinterpre-      transfert", declaraes recolhidas por Franois Peraldi
tar o nosso nascimento  luz do que fala em ns.     e Chantal Maillet, in tudes Freudiennes, 23, 1984,
Ela reconhece na Boa Nova de Jesus Cristo esse       95-113; Correspondance, 1913-1938, Paris, Hatier,
mesmo movimento que nos faz renascer  luz           1991  "Sur la foi et la religion. Entretien de Franoise
daquilo que fala em ns, de Deus."                   Dolto avec Isabeau Beigbder, Pierre Kahn, Andr Se-
                                                     nik", in Espaces, 13-16, 1986  Denis Vasse, Le Temps
    Em janeiro de 1979, Franoise Dolto criou        du dsir, Paris, Seuil, 1969; L'Ombilic et la voix, Paris,
em Paris a primeira "Casa Verde", para acolher       Seuil, 1974; L'Autre du dsir et le dieu de la foi. Lire
crianas at a idade de trs anos, acompanhadas      aujourd'hui Thrse d'Avila, Paris, Seuil, 1991  Quel-
dos pais. "Segundo Dolto, escreveu Jean-Fran-        ques pas sur le chemin de Franoise Dolto (col.), Paris,
ois de Sauverzac, tratava-se de evitar os trau-     Seuil, 1988  Michel H. Ledoux, Introduo  obra de
                                                     Franoise Dolto (Paris, 1990), Rio de Janeiro, Jorge
mas que marcam a entrada na pr-escola e de
                                                     Zahar, 1991  lisabeth Roudinesco, Jacques Lacan.
manter a segurana que a criana adquiriu no         Esboo de uma vida, histria de um sistema de pensa-
nascimento." Essa experincia teve sucesso e         mento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras,
muitas "casas verdes" foram abertas no Cana-         1994  Jean-Franois de Sauverzac, Franoise Dolto.
d*, na Rssia*, na Blgica* etc.                    Itinraire d'une psychanalyste, Paris, Aubier, 1993 
                                                     Claude Halmos, "La Plante Dolto", in L'Enfant et la
    Durante os ltimos quinze anos de sua vida,
                                                     psychanalyse, Paris, Esquisses Psychanalytiques,
pelo rdio e pela televiso, continuou a lutar por   CFRP, 1993  Madeleine Chapsal, Ce que m'a appris
essa "causa das crianas",  qual dedicou toda       Franoise Dolto, Paris, Fayard, 1994  Michel Plon,
a sua vida profissional. Tornou-se a figura mais     "Entretien avec Colette Percheminier", 25 de outubro
popular da Frana freudiana, mas foi criticada       de 1997.
pelos meios psicanalticos, que a acusavam de
pr o div na rua. "Cientista, ela se comportava      IMAGEM DO CORPO.
                                                                                      Doyle, Iracy       161

Dominique, caso                                            Durante a ocupao nazista, continuou clan-
 DOLTO, FRANOISE; PSICANLISE DE CRIANAS.            destinamente as suas atividades psicanalticas
                                                       e, logo depois da vitria dos Aliados, foi para o
                                                       campo de extermnio de Theresienstadt, para
Doolittle, Hilda, dita H.D. (1886-1961)                pr a sua competncia de mdico a servio dos
intelectual americana                                  sobreviventes. A partir de 1946, publicou vrios
    Nascida em Bethlehem na Pensilvnia, e             artigos sobre o freudismo* e preparou a criao
casada com o romancista Richard Aldington              de um instituto de psicanlise, reunindo cerca
(1892-1962), a poetisa Hilda Doolittle foi uma         de vinte terapeutas. A chegada ao poder do
das figuras marcantes do movimento imaginis-           regime comunista em 1948 o impediu de conti-
ta, animado por Ezra Pound (1885-1972). Pu-            nuar esse trabalho.
blicou vrias antologias importantes e um ro-              A era da Jdanovchtchina, em nome da qual
mance autobiogrfico, que relata os conflitos da       a psicanlise foi condenada como "cincia bur-
bissexualidade* em uma mulher apaixonada               guesa" e substituda por uma psicologia dita
por um homem e por outra mulher.                       pavloviana, contribuiu, efetivamente, para a ex-
    Analisada por Sigmund Freud* em 1933-              tino completa do freudismo nos pases domi-
1934, publicou em 1956 um depoimento sobre             nados pela Unio Sovitica. Apesar dessa cor-
o seu tratamento, composto de duas partes: "O          tina de chumbo, que pesou at a primavera de
advento", conjunto de notas tomadas diaria-            Praga, Dosuzkov continuou corajosamente a
mente durante a anlise e "Escrito na parede.          analisar pacientes e a defender publicamente a
Reminiscncias de uma anlise com Freud",              psicanlise, ao mesmo tempo em que traba-
relato redigido dez anos depois.                       lhava oficialmente no Instituto de Logopedia.
                                                       Depois de 1968, continuou a trabalhar ao lado
 H.D., Visage de Freud (1956), Paris, Denol, 1977.   de seus dois principais alunos, Ladislav Haas*
                                                       e Otakar Kucera (1906-1980), dos quais um
 SCMIDEBERG, WALTER.
                                                       emigrou para Londres e o outro permaneceu em
                                                       Praga. Morreu em circunstncias trgicas, es-
                                                       magado por um trem, quando atravessava uma
Dora, caso
                                                       via proibida para o pblico.
 BAUER, IDA.
                                                        Michael Sebek, "La Psychanalyse, les psychanalys-
                                                       tes et la priode stalinienne de l'aprs-guerre. La Si-
Dosuzkov, Theodor (1899-1982)                          tuation tchcoslovaque", Revue Internationale d'His-
                                                       toire de la Psychanalyse, 5, 1992, 553-65  Eugenia
mdico e psicanalista tchecoslovaco                    Fischer, "Czechoslovakia", in Peter Kutter (org.), Psy-
    Nascido em Baku, no Azerbaijo*, Theodor           choanalysis International. A Guide to Psychoanalysis
Dosuzkov radicou-se em Praga em 1921, de-              throughout the World, vol.1, Stuttgart, Frommann-
                                                       Holzboog, 1992, 34-50.
pois do desmantelamento do Imprio Austro-
Hngaro, do qual sara a nova Tchecoslovquia.          BETLHEIM, STJEPAN; COMUNISMO; FREUDO-
Assim, foi o segundo mdico a praticar a psica-        MARXISMO; HISTRIA DA PSICANLISE; ROMNIA;
nlise* nessa cidade, depois de Nikolai Ievgra-        SUGAR, NIKOLA.
fovitch Ossipov*, que veio de Moscou na mes-
ma data.
    Depois de estudar medicina, aderiu s teses        double bind
pavlovianas sobre o condicionamento e voltou-           DUPLO VNCULO.
se para a psicanlise. Fez sua formao didtica
com Otto Fenichel* e Annie Reich*, quando
estes estiveram em Praga. Dosuzkov criou en-           Doyle, Iracy (1911-1956)
to um grupo de estudos, que foi oficialmente          psiquiatra e psicanalista brasileira
reconhecido pela International Psychoanalyti-             Nascida no Rio de Janeiro, Iracy Doyle per-
cal Association* (IPA), por ocasio do congres-        tencia  terceira gerao* psicanaltica mundial.
so de Marienbad em 1936.                               Depois de estudar medicina, continuou sua for-
162      Dugautiez, Maurice

mao psiquitrica nos Estados Unidos*, na             Dugautiez, Maurice (1893-1960)
Universidade Johns Hopkins, e tornou-se aluna          psicanalista belga
de Adolf Meyer* e de Leo Kanner (1894-1981),               Fundador, com Fernand Lechat*, da As-
especialista em autismo*. Em Nova York, du-            sociao dos Psicanalistas da Blgica* (APB)
rante os anos 1940, realizou sua anlise didti-       em 1947, que se tornaria a Sociedade Belga de
ca* com Meyer Maskin, no Instituto Psiquitri-         Psicanlise (SBP) em 1960, Dugautiez nasceu
co da William Alanson White* Foundation,               em Leuze, na Blgica*. Depois de ser funcion-
criada por Harry Stack Sullivan*.                      rio, praticou a hipnose*, interessou-se pela psi-
    Recusando a ortodoxia da International Psy-        cologia e criou em 1930 o Crculo de Estudos
choanalytical Association* (IPA), de que nunca         Psquicos e, um ano depois, a revista Le Psy-
seria membro, fundou no Rio de Janeiro, em             chagogue.
abril de 1953, o Instituto de Medicina Psicol-            Supervisionado em Paris, no quadro da SPP,
gica. Morreu prematuramente, trs anos depois,         por Marie Bonaparte* e John Leuba (1884-
das seqelas de uma encefalite viral, sem ter          1952), comeou uma anlise no fim do ano de
tido tempo de concluir sua obra e seu magis-           1938 com Ernst Paul Hoffmann*, quando este
trio. Em 1984, o Instituto tomou o nome de            se refugiou na Blgica, depois de deixar Viena*,
Sociedade de Psicanlise Iracy Doyle (SPID).           por causa do nazismo*. Dugautiez formaria uma
    Grande figura da dissidncia psicanaltica         parte da segunda gerao psicanaltica belga, e
brasileira, psicanalista de crianas e especialista    seria posteriormente afastado, como Lechat,
em homossexualidade* feminina, Iracy Doyle             quando a SPB se medicalizou e se enquadrou
se mostrou aberta a todas as correntes do freu-        nos padres da International Psychoanalytical
dismo*, sem querer submeter-se a um dogma.             Association* (IPA).
Privilegiou uma orientao culturalista (cultu-
ralismo*) e formou muitos alunos, entre os quais
                                                       duplo vnculo
Hlio Pellegrino* e Horus Vital Brazil. Quanto
                                                       fr. double contrainte; ing. double bind
 sociedade que tem o seu nome, a SPID, inte-
grou-se  International Federation of Psychoa-         A expresso double bind foi criada por Gregory
nalytic Societies* (IFPS).                             Bateson* em 1956, para designar o dilema (im-
                                                       passe duplo, coero dupla ou duplo vnculo) em
 Iracy Doyle, O sentido do movimento psicanaltico,   que fica encerrado o sujeito afetado pela esquizo-
Rio de Janeiro, Casa do Estudante do Brasil, 1952;     frenia*, quando no consegue dar uma resposta
Introduo  medicina psicolgica, Rio de Janeiro,     coerente a duas ordens de mensagens contradit-
Casa do Estudante do Brasil, 1952; Contribuio ao     rias e emitidas simultaneamente, quer por dois
estudo da homossexualidade feminina, Rio de Janeiro,   membros de sua famlia, quer pela famlia, de um
Universidade do Brasil, 1960.                          lado, e pela sociedade, de outro. A coero vinda
                                                       de fora acarreta desse modo uma resposta psic-
 FROMM, ERICH; HORNEY, KAREN; KARDINER,                tica* por parte do sujeito, porquanto ele no sabe
ABRAM; KEMPER, ANA KATRIN; NEOFREUDISMO.               decifrar a mensagem que lhe  dirigida.
                                               E
Eckstein, Emma (1865-1924)                                Albert Hirst, tivera com Kurt Eissler, o res-
   A relao mantida por Sigmund Freud* com               ponsvel pelos Arquivos Freud na Biblioteca do
essa paciente vienense, herona por sua partici-          Congresso*, de Washington, diversas entrevis-
pao no sonho original da "injeo de Irma*",            tas a propsito de sua tia, que logo foram depo-
 uma das mais surpreendentes da saga psica-              sitadas na srie Z, reservada aos papis sigilo-
naltica. Ela mostra que os laos entre os                sos. Hirst tambm confiara a Eissler quatorze
doentes e seus mdicos so de importncia                 cartas escritas por Freud a Emma entre 1895 e
crucial na gnese das teorias clnicas. Nesse             1910.
aspecto, h realmente uma diviso entre o dis-                O caso foi revelado pela primeira vez por
curso da nosografia, onde se exprime a consci-            Max Schur*, em 1966. Ele voltou ao episdio
ncia* do estudioso, e a histria mais subter-            em seu livro de 1972, Freud: Vida e agonia. Ali
rnea (e freqentemente mascarada) da loucu-              mostrou que Emma foi sem dvida a primeira
ra*, onde se enuncia a conscincia trgica dos            a fornecer a Freud o material que lhe permitiu
pacientes.                                                renunciar  teoria da seduo*, e que foi por seu
   Tendo laos de famlia com Paul Federn*,               intermdio que ele se conscientizou de que o
Emma Eckstein foi tratada de distrbios hist-            que era descrito como uma investida sedutora
ricos por Freud, no momento em que este, em               talvez no passasse de fantasia*. As cartas de
sua longa correspondncia com Wilhelm                     Freud depositadas nos Arquivos pelo sobrinho
Fliess*, havia aderido s teses fliessianas, a um         de Emma foram exumadas, em parte, por Jef-
tempo romnticas e organicistas, sobre os lia-            frey Moussaieff Masson. Elas mostram que
mes entre as mucosas nasais e as atividades               Emma foi a primeira mulher a aceitar pacientes
genitais. Procurando saber se uma patologia dos           e a ser como que "supervisionada" por Freud,
seios nasais poderia explicar os sintomas abdo-           depois de ter sido por ele analisada. Associada
minais de Emma, Freud pediu que seu amigo                  figura sonhada de "Irma", essa histrica tor-
fosse oper-la em Viena.* Depois da interven-             nou-se, na lenda obscura do movimento freu-
o, que teve lugar em fevereiro de 1895, a               diano, um personagem mtico.
jovem teve sangramentos. Freud descobriu en-                  Ela escreveu artigos at 1905 e, depois disso,
to que, por descuido, Fliess esquecera na cavi-          retirou-se do mundo para viver na solido, num
dade deixada pela remoo do corneto e pela               cmodo repleto de livros. Paralisada por um
abertura dos seios nasais uma tira de gaze de             mal inexplicvel, no saa da cama. Morreu de
uns 50 centmetros. Foi preciso proceder a uma            uma apoplexia cerebral.
outra cirurgia, durante a qual a paciente por                  possvel que Freud tenha se recordado
pouco no morreu. Freud s faltou desmaiar.               dela ao redigir, em 1937, "Anlise terminvel e
Em julho, sonhou com "a injeo de Irma".                 interminvel". Nesse texto, com efeito, ele evo-
   Na primeira edio de sua correspondncia              cou o caso de uma jovem histrica a quem tivera
com Fliess, preparada em 1950 por Ernst Kris*,            em tratamento nos primeiros anos de sua ativi-
Anna Freud* e Marie Bonaparte*, as cartas                 dade psicanaltica e que, depois de ter sido
concernentes a esse episdio foram omitidas.              curada, sofrera uma recada, aps um trauma
Nessa ocasio, entretanto, o sobrinho de Emma,            provocado por uma histerectomia: "Eu ficaria
                                                    163
164       cole de la Salptrire

tentado a crer", disse, "que, sem o novo trauma,            reinando sobre uma aristocracia intelectual
no se haveria chegado a uma nova irrupo da               composta dos melhores psicanalistas da terceira
neurose."                                                   gerao* francesa: Serge Leclaire*, Franois
                                                            Perrier*, Piera Aulagnier*, Wladimir Granoff,
 Sigmund Freud, "Anlise terminvel e interminvel"
(1937), ESB, XXIII, 247-90; GW, XVI, 59-99; SE, XXIII,
                                                            Jean Laplanche, Jean-Bertrand Pontalis etc. Da
209-53; in Rsultats, ides, problmes, vol.2, Paris,       a opo, em 1960-1961, por comentar um dos
PUF, 1985, 231-69; La Naissance de la psychanalyse          principais textos da histria da filosofia ociden-
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm        tal: O banquete, de Plato. Durante esse semi-
Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986  Max
                                                            nrio, Lacan atribuiu a Scrates o lugar do
Schur, "Some additional `day residues' of the `specimen
dream of psychoanalysis'", in Psychoanalysis. A Gene-       psicanalista. Entre as duas cises* do movimen-
ral Psychology, N. York, International Universities         to psicanaltico francs, portanto, Lacan rein-
Press, 1966, 45-85; Freud: vida e agonia, uma biogra-       ventou o dilogo platnico empregado por
fia, 3 vols. (N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1981
                                                            Freud, de 1902 a 1907, no seio da Sociedade
 Jeffrey Moussaeff Masson, Le Rel escamot, Paris,
Aubier-Montaigne, 1984  Michel Schneider, Blessures        Psicolgica das Quartas-Feiras. Contudo, a par-
de mmoire, Paris, Gallimard, 1980.                         tir de 1964, forado a deixar a IPA, ele fundou
                                                            uma nova forma de instituio psicanaltica. Ao
                                                            banquete socrtico sucedeu-se a academia pla-
cole de la Salptrire                                     tnica: a escola.
 CHARCOT, JEAN MARTIN; HIPNOSE; HISTERIA;                       Em relao aos padres da IPA, os da EFP
PSIQUIATRIA DINMICA.                                       puseram em prtica, entre 1964 e 1967, trs
                                                            grandes inovaes: 1) anulao da distino
                                                            entre anlise didtica* e anlise teraputica; 2)
cole de Nancy                                              anulao da regra das sesses de durao fixa;
 BERNHEIM, HIPPOLYTE; HIPNOSE; HISTERIA; PSI-               3) aceitao, nas fileiras da escola, de membros
QUIATRIA DINMICA; SUGESTO.                                que no eram psicanalistas. Em conseqncia
                                                            disso, a EFP props um modelo de formao
                                                            psicanaltica em que os direitos dos sujeitos
cole Freudienne de Paris (EFP)                             eram ampliados: cada candidato podia escolher
    Fundada por Jacques Lacan* em 21 de junho               livremente seu psicanalista, sem ter que passar
de 1964, a cole Freudienne de Paris (EFP) foi              por uma comisso de pr-seleo, cada analista
a primeira instituio da histria do freudismo*            tinha o direito de decidir como bem entendesse
a pr em prtica um sistema institucional basea-            sobre a durao da sesso, e toda pessoa interes-
do no princpio de uma academia antiga, en-                 sada no freudismo podia solicitar sua adeso 
quanto a International Psychoanalytical As-                 escola, quaisquer que fossem suas atividades.
sociation* (IPA) se inspirava, desde 1910, num              Nesse sentido, os ttulos de analista da escola
modelo de tipo associativo. Sob esse aspecto, a             (AE) e analista membro da escola (AME), cria-
EFP foi a matriz de todas as instituies do                dos por Lacan, no correspondem aos de mem-
lacanismo* no mundo, tal como a Sociedade                   bro titular e membro associado nos moldes da
Psicolgica das Quartas-Feiras*, entre 1902 e               IPA, uma vez que os AE e os AME tm o direito
1907, fora o modelo original da Wiener Psy-                 de realizar anlises didticas. Entretanto, o AE
choanalytische Vereinigung (WPV), primeira                  se distingue do AME, na medida em que 
associao freudiana da histria da psican-                membro "titular" da EFP.
lise*. Ao adotar a palavra escola, em detrimento                Por sua abertura aos no analistas, a EFP
de sociedade ou associao, Lacan rendeu ho-                reatualizou o modelo da Sociedade Psicolgica
menagem, opondo-se ao currculo e  hierarquia              das Quartas-Feiras, cuja maioria dos membros,
da IPA,  transmisso do saber segundo a tradi-             a princpio, compunha-se de intelectuais. Por
o grega.                                                  isso  que ela atraiu no apenas uma multido
    Durante dez anos, de 1953 a 1963, cercado               de jovens terapeutas, que rejeitavam a esclerose
por discpulos brilhantes, Lacan ensinou o saber            dos outros grupos franceses, como tambm boa
freudiano  maneira de um filsofo grego,                   parte da juventude filosfica, em especial os
                                                                                  Eder, David        165

alunos da cole Normale Suprieure da rue          conservaram duas das grandes inovaes laca-
d'Ulm, formados pelo ensino de Louis Althus-       nianas: a livre escolha do analista pelo analisan-
ser (1918-1990) e Georges Canguilhem (1904-        do e a ausncia de uma durao cronometrada
1995), dentre eles Jacques-Alain Miller, Judith    da sesso (alguns grupos chegaram inclusive a
Miller, Jean-Claude Milner, Alain Grosrichard      preservar o passe). Miller foi, dentre os herdei-
e Franois Regnault. Em 1966, eles criaram         ros de Lacan, o nico a fundar uma verdadeira
uma revista, Les Cahiers pour l'Analyse, que       instituio internacional comparvel  IPA, 
daria um novo vigor  teoria do mestre.            qual deu o nome de Association Mondiale de
    Em 1967, atacada de gigantismo, a EFP          Psychanalyse* (AMP).
conheceu sua primeira grande crise ins-
                                                    Jacques Lacan, O Seminrio, livro 8, A transferncia
titucional. Lacan props um novo modelo de         (1960-1961) (Paris, 1991), Rio de Janeiro, Jorge Za-
formao dos didatas: o passe*. Aps dois anos     har, 1992; "Acte de fondation de l'cole Freudienne de
de debates internos, produziu-se uma ciso em      Paris", "Note adjointe", "Prambule", "Fonctionnement
torno de Piera Aulagnier, Franois Perrier e       et administration", in Annuaire de l'cole Freudienne
                                                   de Paris, 1995 e seguintes  lisabeth Roudinesco,
Jean-Paul Valabrega, que deu origem, em 1969,      Histria da psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986),
a uma nova instituio: a Organisation Psycha-     Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
nalytique de Langue Franaise (OPLF), ou
Quarto Grupo.                                       AMERICAN PSYCHOANALYTIC ASSOCIATION; AR-
    A partir de 1970, a introduo do matema*      GENTINA; ASSOCIAO BRASILEIRA DE PSICAN-
                                                   LISE; BRASIL; FEDERAO EUROPIA DE PSICAN-
e do n borromeano* por Lacan conjugou-se
                                                   LISE; FEDERAO PSICANALTICA DA AMRICA LA-
com a deriva da escola rumo  esclerose ins-
                                                   TINA; INTERNATIONALE FDERATION DER ARBEIT-
titucional que ela tanto desejara conjurar em      SKREISE FR TIEFENPSYCHOLOGIE.
1964. Assim, eclodiu uma querela pela suces-
so entre os companheiros de percurso da ter-
ceira gerao e as geraes seguintes. Dentre os   Eder, David (1866-1936)
componentes destas, foi Jacques-Alain Miller       psiquiatra e psicanalista ingls
quem se imps, de 1974 em diante, como o               David Eder organizou, com Ernest Jones*, o
delfim de Lacan, no apenas graas a seu talento   movimento psicanaltico ingls. Em 1913, foi a
de organizador poltico, mas tambm por ser, a     Viena* para fazer uma anlise com Sigmund
partir da, o nico habilitado a transcrever o     Freud*. Este o encaminhou a Viktor Tausk*,
seminrio oral de seu sogro.                       mas foi finalmente com Sandor Ferenczi* e
    Afetado por distrbios cerebrais que em        depois com Jones que ele faria sua formao.
pouco tempo o deixaram afsico e incapaz de        Sua cunhada, Barbara Low (1877-1955), se
escrever, Lacan deixou de dirigir a EFP em         tornaria psicanalista e criaria o princpio do
1979. Em 5 de janeiro de 1980, diante de uma       nirvana.
platia muda, leu o ato de dissoluo de sua           Teve numerosas divergncias doutrinrias
escola, redigido por Jacques-Alain Miller e do     com Jones, que sempre o invejou, e, durante
qual ele aprovou todos os termos. Nessa oca-       alguns anos, afastou-se da Sociedade psicana-
sio, com 609 membros, a EFP se transformara       ltica londrina, para estudar a obra de Carl Gus-
na maior organizao freudiana da Frana*:         tav Jung*. Durante a guerra, tratou das vtimas
havia 297 membros na Sociedade Psicanaltica       de neuroses traumticas e, em 1923, reintegrou-
de Paris (SPP), 50 na Associao Psicanaltica     se  British Psychoanalytical Society (BPS),
da Frana (APF) e 30 na Organizao Psicana-       criada por Jones em 1919.
ltica de Lngua Francesa (OPLF) ou Quarto             Homem combativo e militante socialista,
Grupo.                                             viajante incansvel, Eder foi um dos membros
    A referncia  Academia de Plato, portanto,   fundadores do London Labour Party, militante
ter sido de curta durao: apenas cinco anos,     da Fabian Society. Promoveu a higiene mental
entre 1964 e 1969. Todos os grupos que deriva-     nos estabelecimentos escolares e lutou contra
ram da EFP, atravs de cises sucessivas, ado-     as leis de segregao que atingiam os doentes
taram um modelo associativo clssico, mas          mentais. Fez muitas viagens como mdico pelo
166      dipo, complexo de

mundo inteiro e criou, com seu primo Israel           com suas origens e sua genealogia familiar e his-
Zangwill, a Jewish Territorial Organisation, que      trica.
tinha como objetivo promover a implantao de             Mais do que qualquer outro no Ocidente, o
colnias judaicas fora de Israel. Em 1939, Freud      mito de dipo confundiu-se, de incio, com a
redigiu um prefcio para uma obra coletiva            tragdia de Sfocles, que transforma a vida do
(publicada em 1945), na qual prestava homena-         rei de Tebas num paradigma do destino humano
gem a esse pioneiro original: "Eder fazia parte       (o fatum), e depois, com o complexo inventado
desses homens que se distinguem por uma rara          por Freud, que relaciona o destino com uma
combinao de amor absoluto pela verdade e de         determinao psquica vinda do inconsciente*.
corajem intrpida, aliada  tolerncia e a uma            Na mitologia grega, dipo  filho de Laio e
grande capacidade de amar [...]. Quando o en-         Jocasta. Para evitar que se realize o orculo de
contrei pela primeira vez, fiquei orgulhoso de        Apolo, que lhe previra que ele seria morto pelo
t-lo entre os meus alunos."                          filho, Laio entrega seu menino recm-nascido a
                                                      um criado, para que ele o abandone no monte
 David Eder, War Shock. The Psycho-Neuroses in War
Psychology and Treatment, Londres, Heinemann,         Citron, depois de lhe transpassar os ps com
1917  J.B. Hobman (org.), David Eder. Memoirs of a   um prego. Em vez de obedecer, o criado confia
Modern Pioneer, Londres, Gollancz, 1945.              o menino a um pastor de ovelhas, que em segui-
                                                      da o entrega a Plibo, rei de Corinto, e  mulher
 GR-BRETANHA.                                        deste, Merope, que no tm descendentes. Eles
                                                      lhe do o nome de dipo (oidipos: ps inchados)
                                                      e o criam como seu filho.
dipo, complexo de                                        dipo cresce e ouve rumores que dizem que
al. edipuskomplex; esp. complejo de Edipo; fr.       ele no seria filho de seus pais. Por isso, dirige-
complexe d'Oedipe; ing. Oedipus complex               se a Delfos para consultar o orculo, que de
                                                      pronto lhe responde que ele matar o pai e
Correlato do complexo* de castrao* e da exis-
                                                      desposar a me. Para escapar a essa previso,
tncia da diferena sexual* e das geraes*, o
                                                      dipo viaja. Na estrada para Tebas, cruza por
complexo de dipo  uma noo to central em
psicanlise* quanto a universalidade da interdio
                                                      acaso com Laio, a quem no conhece. Os dois
do incesto* a que est ligado. Sua inveno deve-     homens brigam e dipo o mata. Nessa poca,
se a Sigmund Freud*, que pensou, atravs do vo-       Tebas vinha sendo aterrorizada pela Esfinge,
cbulo dipuskomplex, num complexo ligado ao          monstro feminino alado e dotado de garras, que
personagem de dipo, criado por Sfocles.             mata todos aqueles que no decifram o enigma
   O complexo de dipo  a representao incon-       que ela prope sobre a essncia do homem:
sciente pela qual se exprime o desejo* sexual ou      "Quem  aquele que anda sobre quatro ps,
amoroso da criana pelo genitor do sexo oposto e      depois, sobre dois e, depois, sobre trs?" dipo
sua hostilidade para com o genitor do mesmo sexo.     d a resposta certa e a Esfinge se mata. Como
Essa representao pode inverter-se e exprimir o      recompensa, Creonte, o regente de Tebas, d-
amor pelo genitor do mesmo sexo e o dio pelo do      lhe por esposa sua irm, Jocasta, com quem ele
sexo oposto. Chama-se dipo  primeira repre-         tem dois filhos, Eteocls e Polinices, e duas
sentao, dipo invertido  segunda, e dipo com-
                                                      filhas, Antgona e Ismene.
pleto  mescla das duas. O complexo de dipo
                                                          Os anos passam. Um dia, a peste e a fome se
aparece entre os 3 e os 5 anos. Seu declnio marca
a entrada num perodo chamado de latncia, e sua
                                                      abatem sobre Tebas. O orculo declara que os
resoluo aps a puberdade concretiza-se num          flagelos desaparecero quando o assassino de
novo tipo de escolha de objeto.                       Laio tiver sido expulso da cidade. dipo pede
     Na histria da psicanlise*, a palavra dipo     ento a todos que se manifestem. Tirsias, o
acabou substituindo a expresso complexo de di-      adivinho cego, conhece a verdade, mas se recu-
po. Nesse sentido, o dipo designa, ao mesmo          sa a falar. Por fim, dipo  informado de seu
tempo, o complexo definido por Freud e o mito         destino por um mensageiro de Corinto, que lhe
fundador sobre o qual repousa a doutrina psicana-     anuncia a morte de Plibo e lhe conta como ele
ltica como elucidao das relaes do ser humano     prprio, no passado, havia recolhido um meni-
                                                                      dipo, complexo de        167

no das mos do pastor para entreg-lo ao rei. Ao   `romantizao' da origem nos paranicos --
saber da verdade, Jocasta se enforca. dipo        heris fundadores de religies). Se realmente 
vaza os prprios olhos e em seguida se exila em    assim,  compreensvel, a despeito de todas as
Colono com Antgona, enquanto Creonte reto-        objees racionais que se opem  hiptese de
ma o poder. Em dipo rei, Sfocles adapta          uma fatalidade inexorvel, o efeito cativante de
apenas uma parte do mito (a que se relaciona       dipo rei (...). A lenda grega apoderou-se de
com as origens de Tebas) e a faz verter-se no      uma compulso que todos reconhecem, porque
molde da tragdia.                                 todos a sentiram. Todo espectador, um dia, foi
    Embora Sigmund Freud nunca tenha dedi-         em germe, na imaginao, um dipo, e se as-
cado nenhum artigo ao complexo de dipo,           sombra diante da realizao de seu sonho*,
dipo rei (e o complexo relacionado com ele)       transposto para a realidade." No Esboo de
acha-se presente em toda a sua obra, desde 1897    psicanlise*, seu ltimo livro, Freud reivin-
at 1938. Em sua pena, alis, a figura de dipo    dicou a importncia da lenda que havia desco-
 quase sempre associada  de Hamlet. Vamos        berto quarenta anos antes: "Permito-me pensar
encontr-la igualmente no trabalho de Otto         que, se a psicanlise no tivesse em seu ativo
Rank* sobre o nascimento do heri (o romance       seno a simples descoberta do complexo de
familiar*).                                        dipo recalcado, isso bastaria para situ-la en-
    Em 1967, no prefcio a um livro de Ernest      tre as preciosas novas aquisies do gnero
Jones*, Hamlet e dipo, Jean Starobinski mos-      humano."
trou que, se dipo rei era para Freud a tragdia       Portanto, o mito de dipo surge na pena de
da revelao, Hamlet era o drama do recalca-       Freud no exato momento do nascimento da
mento*: "Heri antigo, dipo simboliza o uni-      psicanlise (consecutivo ao abandono da teoria
versal do inconsciente, disfarado de destino;     da seduo*), para depois servir de trama a
heri moderno, Hamlet remete ao nascimento         todos os seus textos e a todos os debates da
de uma subjetividade culpada, contempornea        antropologia* moderna em torno de Totem e
de uma poca em que se desfaz a imagem             tabu* e da sexualidade feminina*, desde Bro-
tradicional do Cosmo."                             nislaw Malinowski* at Geza Roheim*, pas-
    Freud tinha perfeita conscincia dessa dife-   sando por Karen Horney* e Helene Deutsch*.
rena e, em 1927, juntou  tragdia antiga e ao    s vsperas da morte, Freud continuava a lhe
drama shakespeariano uma terceira vertente:        atribuir um lugar soberano, a ponto de, mais
Os irmos Karamazov. Segundo ele, o romance        tarde, a psicanlise ser qualificada de edipiana,
de Fiodor Dostoievski (1821-1881) era o mais       tanto por seus partidrios quanto por seus opo-
"freudiano" dos trs. Em vez de mostrar um         sitores.
inconsciente disfarado de destino (dipo) ou          Em psicanlise, a questo do dipo pode ser
uma inibio culpada, ele pe em cena, sem         abordada de duas maneiras diferentes,
mscara alguma, a prpria pulso assassina, isto   conforme nos coloquemos no ponto de vista do
, o carter universal do desejo parricida: cada   complexo (e portanto, da clnica) ou no ponto
um dos trs irmos, com efeito,  habitado pelo    de vista da interpretao do mito. A definio
desejo de matar realmente o pai.                   do complexo nuclear e de suas sucessivas re-
    Foi numa carta de 15 de outubro de 1897,       vises, por parte do kleinismo*, da Self Psycho-
dirigida a Wilhelm Fliess*, que Freud interpre-    logy* e do lacanismo*,  relativamente simples,
tou pela primeira vez a tragdia de Sfocles,      ao passo que a discusso interpretativa  de
fazendo dela o ponto nodal de um desejo inces-     grande complexidade. Com efeito, centenas de
tuoso infantil: "Encontrei em mim, como em         livros foram escritos sobre o mito, a tragdia e
toda parte, sentimentos amorosos em relao       sua atualizao por Freud.
minha me e de cime a respeito de meu pai,            Segundo a tese cannica, o complexo de
sentimentos estes que, penso eu, so comuns a      dipo est ligado  fase (estdio*) flica da
todas as crianas pequenas, mesmo quando seu       sexualidade infantil. Aparece quando o menino
aparecimento no  to precoce quanto naque-       (por volta dos 2 ou 3 anos) comea a sentir
las que ficam histricas (de maneira anloga      sensaes voluptuosas. Apaixonado pela me,
168     dipo, complexo de

ele quer possu-la, colocando-se como rival do      tiante da simbiose, das imagens introjetadas e
pai, outrora admirado. Mas adota igualmente a       das relaes de objeto*. Em sntese, um mundo
posio inversa: ternura em relao ao pai e        arcaico e sem limites, no qual a lei (paterna) no
hostilidade para com a me. H ento, ao mes-       intervm.
mo tempo que o dipo, um "dipo invertido".             Se o kleinismo desloca a questo do dipo,
E essas duas posies -- positiva e negativa --     remontando at estdios anteriores, os clnicos
perante cada genitor so complementares e           da psicologia do self abandonam parcialmente
constituem o dipo completo, exposto por            a problemtica edipiana para se debruar sobre
Freud em O eu e o isso*.                            o narcisismo* e os distrbios que ele gera. A
    O complexo de dipo desaparece com o            partir de meados da dcada de 1960, numerosos
complexo de castrao*: o menino reconhece          comentadores assinalaram que, entre os freu-
ento na figura paterna o obstculo  realizao    dianos norte-americanos, o mito de Narciso
de seus desejos. Abandona o investimento* fei-      estava em vias de substituir a antiga mitologia
to na me e evolui para uma identificao* com      edipiana. Esse desdobramento se confirmaria
o pai, a qual lhe permite, mais tarde, uma outra    com os trabalhos de Heinz Kohut*.
escolha de objeto e novas identificaes: ele se        Em 1953, Jacques Lacan* tornou a centrar a
desliga da me (desaparecimento do complexo         questo edipiana na triangulao, mas levando
de dipo) para escolher um objeto do mesmo          em conta as contribuies da escola kleiniana.
sexo.                                               No mbito de sua teoria do significante* e de
    Ao dipo, Freud acrescenta a tese da libido*    sua tpica (imaginrio*, real* e simblico*),
nica, de essncia masculina, que cria uma          ele definiu o complexo de dipo como uma
dissimetria entre as organizaes edipianas fe-     funo simblica: o pai intervm sob a forma
minina e masculina. Se o menino sai do dipo        da lei, para privar a criana da fuso com a me.
atravs da angstia de castrao, a menina          Segundo essa perspectiva, o mito edipiano atri-
ingressa nele pela descoberta da castrao e pela   bui ao pai, por conseguinte, a exigncia da
inveja do pnis. Nela, o complexo se manifesta      castrao: "A lei primordial", escreveu Lacan
pelo desejo de ter um filho do pai. Ao contrrio    em 1953, ", pois, aquela que, regulando a
do menino, a menina desliga-se de um objeto         aliana, superpe o reino da cultura ao reino da
do mesmo sexo (a me) por outro de sexo             natureza, entregue  lei do acasalamento. Essa
diferente (o pai). No h, portanto, um parale-     lei, portanto, faz-se conhecer suficientemente
lismo exato entre o dipo masculino e seu           como idntica a uma ordem de linguagem."
homlogo feminino. No obstante, subsiste               A interpretao freudiana da tragdia de S-
uma simetria, uma vez que nos dois sexos o          focles, por outro lado, suscitou inmeras
apego  me  o elemento comum e primeiro.          discusses em meio a todos os especialistas da
    A partir da reformulao feita por Karl Abra-   mitologia grega, em especial na Frana*. Num
ham* (em 1924) da teoria dos estdios, Melanie      artigo de 1967, intitulado "`dipo' sem com-
Klein* revisou inteiramente a doutrina edipiana     plexo", Jean-Pierre Vernant, por ocasio de uma
da escola vienense, interessando-se pelas cha-      controvrsia com Didier Anzieu, insurgiu-se
madas relaes pr-edipianas, isto , anteriores    contra as interpretaes selvagens e psicologi-
 entrada no complexo. Segundo a perspectiva        zantes que identificava, na poca, nos textos
kleiniana, no existe uma libido nica, mas um      psicanalticos dedicados ao dipo. Essas inter-
dualismo sexual, e a famosa relao triangular      pretaes, com efeito, tendiam a transformar o
que caracteriza o dipo freudiano  abandonada      personagem de Sfocles num neurtico moder-
em favor de uma estrutura anterior e muito mais     no, habitado por um complexo freudiano. Se
determinante: a do vnculo que une a me ao         Freud se apoiara em Sfocles para elaborar seu
filho. Em outras palavras, Klein contesta em        complexo, os psicanalistas, sublinhou Vernant,
Freud a idia de um corte entre um antes no        tinham acabado projetando suas fantasias* edi-
edipiano (a me) e um depois edipiano (o pai).      pianas no mito e na tragdia.
Ela substitui a organizao estrutural por uma          Opondo-se a essa psicologizao, Vernant
continuidade sempre atuante: o mundo angus-         props uma nova interpretao do dipo, mais
                                                                                    Ego Psychology            169

conforme s representaes da mitologia grega:           ou la lgende du conqurant, Lige, Bibliothque de la
                                                         Facult de Philosophie et de Lettres de l'Universit de
"Seu destino excepcional", escreveu ele em
                                                         Lige, 1944  Melanie Klein, "Primeiras fases do com-
1980, "e a faanha que lhe concedeu a vitria            plexo de dipo" (1928), in Contribuies  psicanlise,
sobre a Esfinge colocaram-no acima dos outros            S. Paulo, Mestre Jou, 1970, 253-67; "O complexo de
cidados, alm da condio humana -- seme-               dipo  luz das primeiras ansiedades" (1945), ibid.,
lhante ou igual a um deus -- e, atravs do               425-89  Ernest Jones, Hamlet et Oedipe (Londres,
                                                         1948), Paris, Gallimard, 1967  Jacques Lacan, "Fun-
parricdio e do incesto, que consagraram seu             o e campo da fala e da linguagem em psicanlise",
acesso ao poder, tambm o rejeitaram para                in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
aqum da vida civilizada, excluram-no da co-            1998, 238-324  Claude Lvi-Strauss, Antropologia
munidade dos homens, reduzido a nada, igual              estrutural (Paris, 1958), Rio de Janeiro, Tempo Brasi-
                                                         leiro, 1975  Didier Anzieu, "Oedipe avant le complexe,
ao nada. Os dois crimes que ele cometeu, sem             ou de l'interprtation psychanalytique des mythes", Les
saber nem querer, tornaram-no -- a ele, o adulto         Temps Modernes, 245, 1966, 675-715  Jean-Pierre
firme sobre seus dois ps -- semelhante a seu            Vernant, "`Oedipe' sans complexe", in Jean-Pierre Ver-
pai, ajudado por uma bengala, velho de trs ps          nant e Pierre Vidal-Naquet, Mythe et tragdie en Grce
cujo lugar ele assumiu ao lado de Jocasta, e             ancienne, Paris, Maspero, 1972, 75-98; "Ambigut et
                                                         renversement. Sur la structure nigmatique d'`Oedipe
tambm semelhante a seus filhos pequenos,                roi'", ibid., 99-130; "Oedipe", in Yves Bonnefoy (org.),
ainda andando de quatro, e dos quais ele tanto           Dictionnaire des mythologies, vol.II, Paris, Flammarion,
era irmo quanto pai. Seu erro inexpivel foi            1980, 190-2  Jean Starobinski, "Hamlet et Freud", in
misturar em si trs geraes etrias, que deviam         Ernest Jones, Hamlet et Oedipe (Londres, 1948), Pa-
                                                         ris, Gallimard, 1967, VII-XL; La Rlation critique, Paris,
seguir-se sem jamais se confundir nem se su-             Gallimard, 1970  Andr Green, Un oeil en trop. Le
perpor no seio de uma linhagem familiar."                Complexe d'Oedipe dans la tragdie, Paris, Minuit,
    Esse retrato do verdadeiro dipo grego no           1969  Clmence Ramnoux, "Oedipe (complexe d')",
est longe, na realidade, do dipo freudiano,            Encyclopaedia universalis, vol.11, 1968, 1090-2 
                                                         Moustapha Safouan, tudes sur l'Oedipe, Paris, Seuil,
uma vez que, em Freud, o complexo liga-se                1974  Jean-Joseph Goux, Oedipe philosophe, Paris,
desde o comeo  dupla questo do desejo                 Aubier, 1990  Jean Bollack, La Naissance d'Oedipe,
incestuoso e de sua proibio necessria, a fim          Paris, Gallimard, 1995  Marcelle Marini, "dipo (com-
de que nunca se transgrida o encadeamento das            plexo de)", in Pierre Kaufmann (org.), Dicionrio enci-
geraes.                                                clopdico de psicanlise: o legado de Freud e Lacan
                                                         (Paris, 1993), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996, 135-
    Em 1972, num belo livro de inspirao rei-           42.
chiana, O Anti-dipo, Gilles Deleuze (1925-
1995) e Flix Guattari* criticaram o edipianis-           ESTADOS UNIDOS; FALO; FALOCENTRISMO;
mo freudiano, que, a seu ver, reduzia a libido           IDENTIFICAO PROJETIVA; IMAGEM DO CORPO;
plural da loucura* (e da esquizofrenia*) a um            IMAGO; INTROJEO; MOISS E O MONOTESMO;
fechamento familiarista, de tipo burgus e pa-           PARENTESCO; PATRIARCADO; PERVERSO; POSI-
triarcal.                                                O DEPRESSIVA/POSIO ESQUIZO-PARANIDE;
                                                         PROJEO; PSICANLISE DE CRIANAS.
 Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
Paris, PUF, 1967; "Um tipo especial de escolha de        ego
objeto feita pelos homens" (1910), ESB, XI, 149-62;
                                                          EU.
GW, VIII, 66-77; SE, XI, 163-75; in La Vie sexuelle,
Paris, PUF, 1969, 47-55; "A dissoluo do complexo de
dipo" (1924), ESB, XIX, 217-28; GW, XIII, 395-402;
SE, XIX, 171-9; OC, XVII, 25-33; Totem e tabu (1913),    Ego Psychology (psicologia do eu)
ESB, XIII; GW, IX; SE, XIII; Paris, Gallimard, 1993;        Ao lado do neofreudismo* culturalista (Ka-
"Dostoivski e o parricdio" (1927), ESB, XXI, 205-24;
GW, XIV, 399-418; SE, XXI, 177-94; OC, XVIII, 207-25;    ren Horney*, Abram Kardiner* etc.), do anna-
La Naissance de la psychanalyse (Londres, 1950),         freudismo*, da Escola de Chicago (Franz
Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm Fliess, 1887-1904,   Alexander*) e tambm da Self Psychology*,
Frankfurt, Fischer, 1986  Flix Guattari e Gilles De-   mais tardia, a Ego Psychology, representada por
leuze, O anti-dipo -- Capitalismo e esquizofrenia
(Paris, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1976  Sfocles,
                                                         emigrados como Rudolph Loewenstein*, Ernst
dipo rei e dipo em Colono, in A trilogia tebana, Rio   Kris*, Erik Erikson*, David Rapaport (1911-
de Janeiro, Jorge Zahar, 1990  Marie Delcourt, Oedipe   1960) e, acima de tudo, Heinz Hartmann*, 
170     Ego Psychology

uma das grandes correntes da histria do freu-      nense leiga, atormentada pela morte, pelo auto-
dismo* norte-americano e a principal compo-         aniquilamento e pelo niilismo teraputico.
nente da chamada Escola de Nova York, a po-             As diferentes correntes desse freudismo nor-
derosa New York Psychoanalytic Society              te-americano, quaisquer que sejam suas (nume-
(NYPS), que lhe serviu de esteio. Nesse sentido,    rosas) variaes, portanto, so quase sempre
a denominao francesa de "psicologia do eu"        perpassadas por uma religio da felicidade e da
 imprpria. Ela no d conta do carter freu-      sade, contrria tanto  concepo vienense do
diano dessa corrente, j conhecida no mundo         mal-estar da Kultur quanto ao recentramento
inteiro por sua denominao original.               kleiniano do sujeito* numa pura realidade ps-
    A Ego Psychology tem em comum com               quica, ou  viso lacaniana do freudismo como
todas as outras correntes do freudismo norte-       uma peste* subversiva. Alis,  em razo dessa
americano o fato de ter sido fundamentada na        contradio radical entre as interpretaes euro-
idia de uma possvel integrao do homem           pias e norte-americanas da psicanlise que o
numa sociedade, numa "comunidade", ou at,          kleinismo*, o lacanismo* e o freudismo "origi-
a partir de 1970, numa identidade sexual, numa      nal" (vienense e alemo) no puderam implan-
diferena (loucura*, marginalidade), numa cor       tar-se como tais nos Estados Unidos*. Quanto
ou numa etnia. Por conseguinte, ela no  sim-      aos partidrios da "esquerda freudiana" (em
plesmente uma imitao servil dos ideais do         torno de Otto Fenichel*), foram obrigados a re-
American way of life, como se sublinha com          nunciar a suas atividades porque elas eram jul-
demasiada facilidade na Frana*, em especial        gadas "subversivas" no solo norte-americano.
depois de Jacques Lacan*. Se visa  adaptao       Depois de sofrerem os ataques do macarthismo,
pragmtica de qualquer sujeito  sociedade, ela     eles tiveram de se medicalizar, recalcar seu pas-
de fato leva em conta criticamente os desar-        sado europeu e se transformar em tcnicos da
raigamentos e as diferenas ligados ao ideal        adaptao. Da a ortodoxia burocrtica que aca-
adaptativo norte-americano. Se existe orto-         baria por desacreditar a imagem do psicanalista
doxia, esta  de natureza tcnica.                  e deixar o campo livre  supremacia dos labo-
    Com efeito, foi a Ego Psychology que serviu     ratrios farmacuticos, fornecedores de "plu-
de grande referncia doutrinal, na segunda me-      las da felicidade", ou s diversas terapias da
tade do sculo, para anlises interminveis e       New Age -- tratamentos xamansticos e expe-
cronometradas, imobilizadas no silncio, reser-     rincias de espiritismo*, vidncia ou telepatia*.
vadas  burguesia urbana rica e praticadas por          A corrente da Ego Psychology desenvolveu-
mdicos preocupados com o prestgio social e        se a partir de 1939 no interior da IPA.  mais
a rentabilidade financeira. Essa tcnica psicana-   prxima da doutrina clssica de Sigmund
ltica*, alis, seria violentamente criticada, no   Freud* do que a tradio naturalista, embora
interior da prpria International Psychoanalyti-    proceda a uma reviso completa da segunda
cal Association* (IPA), por todos os renova-        tpica*. Quanto a isso, o fato de o Ich freudiano
dores do freudismo, de Heinz Kohut* a Donald        ter sido traduzido para o ingls por James Stra-
Woods Winnicott*, passando por Michael Ba-          chey* pelo vocbulo latino ego no deixou de
lint*, Siegfried Bernfeld* e Melitta Schmide-       ter importncia para a disseminao de todas as
berg*.                                              teorias do eu e da pessoa em lngua inglesa, e,
    De maneira geral, o freudismo norte-ameri-      em especial, na passagem do ego para o self e,
cano, em todas as suas tendncias, privilegia o     posteriormente, da Ego Psychology para a Self
eu* (ego), o self ou o indivduo, em detrimento     Psychology.
do isso*, do inconsciente* e do sujeito*. Por           Enquanto Freud, em 1923, afirmou a prima-
conseguinte, ope  pretensa decadncia da ve-      zia do inconsciente sobre o consciente* e pro-
lha Europa uma tica pragmtica do homem,           vocou uma reviravolta no campo de estudo das
fundamentada na noo de profilaxia social ou       pulses com a introduo da pulso* de morte,
de higiene mental. Da a generalizao de uma       os partidrios da Ego Psychology sustentam
psicanlise* medicalizada e assemelhada  psi-      uma postura que vai em sentido contrrio a esse
quiatria, em oposio  velha psicanlise vie-      descentramento. Segundo eles, o eu se autono-
                                                                               Eitingon, Max       171

miza (e se torna um eu autnomo) ao controlar       que lhe permitiria no distinguir um ego e um
suas pulses primitivas, o que lhe permite con-     self, mas um je e um moi e, com isso, construir
quistar sua independncia frente  realidade        a idia do "sujeito representado" por um signi-
externa. A autonomia, contudo, permanece re-        ficante*.
lativa: do lado das pulses, o eu busca uma
                                                     Heinz Hartmann, La Psychologie du moi et le pro-
garantia contra a escravido do meio ambiente.
                                                    blme de l'adaptation (N. York, 1939), Paris, PUF,
Pelo lado do ambiente, ele reivindica essas         1968; Essays on Ego Psychology, N. York, Internatio-
mesmas garantias contra as exigncias do isso.      nal Universities Press, 1964  Heinz Hartman, Ernst
A adaptao do eu  presso dupla do isso e da      Kris e Rudolph Loewenstein, lments de psychologie
                                                    psychanalytique, Paris, PUF, 1975.
realidade passa por um meio termo que as-
segura o equilbrio necessrio  expanso da
                                                     ANTROPOLOGIA; CISO; DIFERENA SEXUAL;
vida humana. Mas, se o eu tende a se ajustar        FREUDO-MARXISMO; GNERO; HISTRIA DA PSICA-
para realizar sua autonomia, a identificao        NLISE; JUDEIDADE; QUESTO DA ANLISE LEIGA,
deixa de ser um processo inconsciente para se       A; SELF (FALSO E VERDADEIRO); TRADUO (DAS
transformar num modo imitativo de comporta-         OBRAS DE SIGMUND FREUD); VIENA.
mento. A teoria da sexualidade tambm sofre
uma toro: despejada na sublimao, a libido
assegura uma dessexualizao das pulses            Eitingon, Max (1881-1943)
agressivas. Quanto mais forte  o eu, mais ele      psiquiatra e psicanalista polons
refora seu quantum de energia neutralizada.            No tendo deixado nenhuma obra terica
Quanto mais ele  fraco, menos funciona a           importante, Max Eitingon est muitas vezes
neutralizao. Em 1950, em "Comments on the         ausente da lista dos autores que contriburam
psychoanalytic theory of the ego" ["Coment-        para a edificao da doutrina psicanaltica. En-
rios sobre a teoria psicanaltica do ego"], Hart-   tretanto, a partir de meados dos anos 1970, o
mann introduziu uma distino entre o eu (ego),     desenvolvimento dos estudos histricos permi-
como instncia psquica, e o si mesmo (self),       tiu a esse homenzinho tmido, que parecia um
tomado no sentido da personalidade ou da pr-       burocrata escrupuloso, ter o seu lugar -- um dos
pria pessoa. Esse termo seria retomado por          mais importantes na histria da organizao do
Winnicott, que lhe acrescentaria uma referncia     movimento psicanaltico internacional, at as
fenomenolgica, e por Kohut, que o transfor-        vsperas da Segunda Guerra Mundial.
maria numa instncia especfica, a nica apta a         Nascido em Mohilev, na Bielo-Rssia, Max
explicar os distrbios narcsicos.                  Eitingon era o segundo filho de uma famlia
    Assim, a Ego Psychology contorna a pulso       judia ortodoxa que tinha quatro filhos, duas
de morte, ao mesmo tempo que torna a centrar        meninas (Esther e Fanny) e dois meninos (Vla-
o inconsciente no pr-consciente*. Quanto ao        dimir e Max). Seu pai, Chaim Eitingon, foi
conceito de transferncia*, tambm ele sofre        comerciante de acar e de peles. Em 1893,
modificaes, j que, na anlise, o terapeuta do    estabeleceu-se em Leipzig, onde se tornou o
ego deve ocupar o lugar do eu "forte" com o         mecenas da comunidade judaica, mandando
qual o paciente quer se parecer a fim de conquis-   construir um hospital e uma sinagoga que se-
tar a autonomia do eu. No plano tcnico, a          riam destrudos em 1938. Por razes obscuras,
reviso feita pela Ego Psychology traduz-se no      Chaim Eitingon assumiu, durante algum tem-
privilgio conferido  anlise das resistncias*,   po, a nacionalidade hngara. Como seus neg-
em detrimento da interpretao dos contedos.       cios prosperavam, abriu uma sucursal em Nova
Da sua ligao com o annafreudismo.                York, mas viu-se arruinado com a quebra da
    Na Frana*, Jacques Lacan criticaria a Ego      Bolsa em 1929. Morreu em Leipzig em 1932.
Psychology, essa "psicanlise norte-america-            Max Eitingon tinha doze anos quando sua
na", segundo suas palavras, efetuando uma lei-      famlia se instalou na Alemanha*. Sofria de ga-
tura totalmente diferente da segunda tpica. Em     gueira, o que lhe trouxe dificuldades na escola
particular, ele introduziria na doutrina freudia-   secundria. Mesmo impedido de fazer o exame
na uma teoria no fenomenolgica do sujeito, o      final, fez estudos superiores de histria da arte
172     Eitingon, Max

e de filosofia, como ouvinte, nas prestigiosas     pou com Abraham da constituio da sociedade
universidades de Halle, Heidelberg e Marbur-       psicanaltica da qual este seria presidente. A 20
go. Voltou a Leipzig em 1902, onde estudou         de abril de 1913, casou-se com a atriz Mirra
medicina, certamente depois de obter uma equi-     Jacovleina Raigorodsky, com quem permane-
valncia de diplomas. Partiu depois para Zuri-     ceu durante toda a vida. Ela o apresentou aos
que, onde se tornou assistente de Eugen Bleu-      meios artsticos da capital alem, principal-
ler* na clnica do Hospital Burghlzli. Defen-     mente a cantora Plevitskaia, cujas desventuras
deu uma tese sob a direo de Bleuler e conhe-     contribuiriam posteriormente para dar crdito
ceu Carl Gustav Jung*, que sempre lhe daria        s acusaes de espionagem de que Eitingon
mostra de um desprezo condescendente, consi-       seria alvo.
derando-o apenas capaz de ser um bom deputa-           Nem todas as verses concordam quanto 
do na Duma, conforme declarou em uma carta         sua nacionalidade. Algumas o qualificam como
a Freud* de 25 de setembro de 1907. Em Zuri-       austraco, como seu pai se teria tornado; outras
que, conheceu tambm Karl Abraham*, Ludwig         afirmam, ao contrrio, que essa nacionalidade
Binswanger* e sua compatriota Sabina Spiel-        foi escolhida por ele no incio da guerra. Com-
rein*.                                             batente corajoso, vrias vezes condecorado, op-
    Max Eitingon foi o primeiro dos membros        tou em 1919 pela nacionalidade polonesa, como
do grupo de Zurique a ir a Viena em 1907 para      todos os refugiados do Imprio Austro-Hngaro
visitar Sigmund Freud. Assistiu ento a algu-      podiam fazer na poca.
mas reunies da Sociedade Psicolgica das              Nesse mesmo ano de 1919, voltou a Berlim,
Quartas-Feiras*, em especial a do dia 30 de        onde comeou a desempenhar papel importante
janeiro de 1907, quando interveio com muita        no seio do movimento freudiano. De acordo
pertinncia na discusso sobre a etiologia das     com as ltimas recomendaes de Anton von
neuroses*. Nessa poca, tambm falou com           Freund*, que pediam que lhe fosse legado o seu
Freud sobre um paciente cujo tratamento se         anel, Max Eitingon foi nomeado membro do
mostrava delicado. Em funo disso, fez com        Comit Secreto*, por indicao de Freud.
Freud, primeiro em 1908 e depois em outubro            Em 1920, impulsionou o sonho freudiano de
de 1909, uma anlise didtica*, uma das primei-    uma psicanlise de carter social, expresso por
ras da histria, que teve como inslito cenrio    ocasio do Congresso de Budapeste em 1918.
os seus passeios vespertinos. O encontro com       At 1929, financiou a Policlnica de Berlim,
Freud foi para Max Eitingon o momento deci-        construda segundo os planos de Ernst Freud*,
sivo de sua vida, marcando o incio de uma         filho de Sigmund. Essa policlnica, que ele diri-
amizade duradoura. Estaria presente em todas       giria com Abraham de 1920 a 1925, e depois
as lutas, inclusive sobre a questo da anlise     com Ernst Simmel* at 1933, foi a primeira do
leiga*, quando, depois de um tempo de hesita-      gnero e o modelo das futuras instituies pelo
o, aderiu ao mestre, contra a opinio dos        mundo. Tratava-se, ao mesmo tempo, de formar
psicanalistas americanos. Por sua vez, Freud       analistas -- esse foi o papel atribudo ao Insti-
no economizaria elogios a ele, defendendo-o       tuto, o Berliner Psychoanalytisches Institut*
sistematicamente contra os ataques de Otto         (BPI) -- e de tornar acessvel o tratamento
Rank, principalmente. E Freud sempre lembra-       psicanaltico ao maior nmero de pessoas e s
ria a Eitingon, como escreveu em carta de 7 de     mais carentes. Max Eitingon faria desse empre-
janeiro de 1913, que ele fora "o primeiro men-     endimento a sua obra, garantindo assim por
sageiro a aproximar-se de um homem solitrio".     cerca de treze anos o acolhimento, a admisso
Mais tarde, em uma carta particularmente calo-     e a orientao de pacientes de todas as origens.
rosa de 24 de janeiro de 1922, evocou ainda essa   Simultaneamente, supervisionava a formao
prioridade, inesquecvel para ele, acrescentan-    dos analistas e, com isso, a da maioria dos gran-
do: "Voc sabe o papel que conquistou na minha     des nomes da segunda gerao*. Estava cons-
existncia e na dos meus."                         ciente da importncia poltica dessa posio,
    Em novembro de 1909, Max Eitingon              como mostra a sua famosa declarao de 1922:
deixou Zurique e foi para Berlim, onde partici-    "Sou eu quem tenho o controle nas mos."
                                                                             Eitingon, Max      173

    Seu poder no seio do movimento psicanal-       esperar e, voltando a Berlim, Max Eitingon
tico no parou de crescer. Dirigia cada vez mais    pediu demisso da direo da Policlnica.
congressos, em sua preparao ou sua realiza-           No dia 31 de dezembro de 1933, deixou a
o, e assim fez triunfarem, no Congresso de        Alemanha para sempre. Partiu para a Palestina
Bad-Hombourg em 1925, com a aquiescncia            e instalou-se em Jerusalm em abril de 1934.
silenciosa de Freud, as posies berlinenses        Graas a Freud, que se entendera previamente
contra as vienenses quanto  formao e super-      com o presidente da Universidade Hebraica da
viso dos analistas, dando impulso decisivo        cidade, ele deveria ocupar um posto de psic-
burocratizao do movimento freudiano. De           logo, recentemente criado. Mas, para sua gran-
1927 a 1932, foi presidente da International        de decepo (e de Freud), esse lugar foi final-
Psychoanalytical Association* (IPA). Em 1925,       mente ocupado por um psiclogo de uma orien-
presidiu a International Training Commission,       tao completamente diferente, Kurt Lewin
principal instrumento de poder da IPA, encar-       (1890-1947), que se tornaria, a partir de 1945,
regada da harmonizao das regras da anlise        o terico e artfice do desenvolvimento da psi-
didtica no mundo. Eminncia parda ou conse-        cologia social nos Estados Unidos*.
lheiro especial de Freud, foi encarregado pelo          Com Moshe Wulff*, Eitingon fundou a pri-
mestre de solucionar as crises que abalavam         meira sociedade psicanaltica da Palestina, que
este ou aquele movimento psicanaltico, por         se tornaria a Hachevra Hapsychoanalytit Be-Is-
exemplo na Sua* em 1928, ou de colaborar          rael (HHBI), logo reconhecida pela IPA. Eitin-
para o surgimento de algum outro. Assim, em         gou fundou depois o Instituto de Psicanlise de
1923, Freud lhe pediu que fosse  Frana para       Jerusalm, onde se encontram ainda hoje, na
se encontrar com Ren Laforgue*, a fim de criar     biblioteca, alguns dos objetos que fizeram parte
uma sociedade freudiana em Paris.
                                                    de seu ambiente de trabalho, no tempo em que
    Depois de uma primeira viagem em 1910,
                                                    dirigiu a Policlnica de Berlim.
nunca mais deixou de se interessar pela evolu-
                                                        Em julho de 1938, assistiu em Paris ao XV
o da Palestina, ento sob mandato britnico,
                                                    Congresso da IPA, e depois foi a Londres, para
e pelas diversas experincias que ali se desen-
                                                    uma ltima visita a Freud. Em 20 de abril de
rolavam no campo da educao e da assistncia
                                                    1939, recebeu a ltima carta enviada pelo mes-
s crianas deficientes. Em 13 de junho de
                                                    tre, cuja morte, alguns meses mais tarde, o
1933, quando pronunciou em Budapeste o elo-
gio fnebre de Sandor Ferenczi*, j tinha deci-     afetaria profundamente.
dido o seu futuro. Com a chegada dos nazistas           Max Eitingon foi sepultado no cemitrio do
ao poder, esse grande germanfilo foi obrigado      Monte das Oliveiras.
a renunciar  sua preferncia cultural, e tomou         Em 1988, foi publicado no New York Times
o caminho do exlio. Certamente pressentia que      Book Review um artigo que retomava as ale-
esse seria o seu destino, pois h muito abrira um   gaes apresentadas por John J. Dziak, ex-fun-
escritrio de emigrao para os analistas.          cionrio da CIA, em seu livro History of the
    Entretanto, Freud, que ele visitou em Viena     KGB, publicado nos Estados Unidos no ano
em janeiro de 1933, o estimulou a ficar o maior     anterior. Nele, Max Eitingon era acusado de ter
tempo possvel em Berlim. Mas trs meses            sido agente secreto sovitico a servio da
depois, quando estava em Menton com sua             NKVD e depois da KGB, implicado no seqes-
mulher, Eitingon tomou conhecimento do de-          tro, em Paris, do general Miller, organizado por
creto do Reich que proibia a qualquer estran-       um certo Nicolas Skoblin, marido da cantora
geiro ocupar uma funo em uma sociedade            Nadezhda Plevitskaia, que Eitingon conhecera
mdica. Felix Boehm*, a quem ele dera plenos        no passado. Tambm era acusado de ter partici-
poderes no caso em que a Deutsche Psychoana-        pado do assassinato de um espio russo dis-
lytisches Gesellschaft (DPG) fosse obrigada a       sidente. Todas essas acusaes se baseavam na
ter um presidente "ariano", apressou-se a per-      afirmao de Sandor Rado*, segundo a qual
guntar s autoridades se a psicanlise estaria      Max Eitingon era irmo de Leonid Eitingon,
atingida por esse decreto. A resposta no se fez    espio sovitico que residira nos Estados Uni-
174       elaborao

dos e no Mxico, onde recrutara Ramon Mar-                   Termo introduzido em 1967 por Jean Laplanche e
cader, o assassino de Leon Trotski (1879-1940).              Jean-Bertrand Pontalis, para designar um trabalho
    Theodor Praper, em um artigo na New York                 inconsciente que  prprio do tratamento psicana-
                                                             ltico.
Review publicado pouco tempo depois, esclare-
ceu o assunto, estabelecendo que Max Eitingon                    Esse neologismo [perlaboration] foi intro-
no era irmo de Leonid Eitingon, e que nunca                duzido por Jean Laplanche e Jean-Bertrand
estivera envolvido em qualquer caso de es-                   Pontalis, em 1967, para traduzir para a lngua
pionagem. S testemunhos tendenciosos e uma                  francesa o verbo alemo durcharbeiten (elabo-
incrvel confuso de identidades, apoiados por               rar, trabalhar com cuidado), empregado por
algumas coincidncias -- como a ajuda finan-                 Sigmund Freud* para designar o trabalho do
ceira que Max Eitingon prestou durante toda a                inconsciente* que  prprio do tratamento psi-
vida ao movimento psicanaltico e, mais ocasio-              canaltico. Esse verbo e o processo que ele
nalmente,  cantora Plevitskaia, graas  sua                designa no tm, em Freud, o estatuto de
fortuna pessoal, esta bem real -- puderam cons-              conceito que lhes  justificadamente atribudo
truir essa lenda que continua a ser difundida,               pelos autores franceses. A perlaborao (elabo-
no sem alguma leviandade, por certos autores,               rao inconsciente) permite ao analisando inte-
sobretudo Alexandre Etkind, na sua Histria da               grar uma interpretao* e superar as resis-
psicanlise na Rssia.                                       tncias* que ela desperta. Na lngua inglesa,
                                                             durcharbeiten foi traduzido por working-
 Max Eitingon, "Allocution de Max Eitingon au IXe           through (literalmente, trabalhar atravs).
Congrs Psychanalytique International" (1925), in                A maioria dos autores considera que, se o
Moustapha Safouan, Philippe Julien, Christian Hoff-
mann, Malaise dans la psychanalyse. Le Tiers dans
                                                             trabalho  efetivamente feito pelo analisando, o
l'institution et l'analyse de contrle, Paris, Arcanes,      analista tem grande participao nele. Melanie
1995  Sigmund Freud, Correspondance, 1873-1939              Klein*, no entanto, modificou essa concepo
(1960), Paris, Gallimard, 1966  Freud/Jung: corres-         da elaborao inconsciente, mostrando que ela
pondncia completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro,
                                                             pode se produzir sem a interveno do analista.
Imago, 1993  Les Premiers psychanalystes, Minutes
de la Socit Psychanalytique de Vienne, vol.1, 1906-        Trata-se, nesse caso, de uma reao espontnea
1908 (1962), Paris, Gallimard, 1976  Jacquy Chemou-         do sujeito*, que procura remanejar seus afetos
ni, Freud e o sionismo (Paris, 1988), Rio de Janeiro,        para superar a posio depressiva*. Cnscios
Imago, 1992  Jacquy Chemoni e Michelle Moreau-Ri-           dessa distino, os tradutores franceses da obra
caud, "Max Eitingon (1881-1943)", Frnsie, 5, 1988,
115-28  Michelle Moreau-Ricaud, "Max Eitingon
                                                             kleiniana introduziram dois termos distintos pa-
(1881-1943) et la politique", Revue Internationale d'His-    ra marcar as duas modalidades do working-
toire de la Psychanalyse, 5, 1992, 55-69  Alexandre         through: a perlaborao e a translaborao
Etkind, Histoire de la psychanalyse en Russie (1993),        [translaboration].
Paris, PUF, 1995  Peter Gay, Freud: Uma vida para o
nosso tempo (1988), S. Paulo, Companhia das Letras,
                                                                 Em 1989, os responsveis pela nova tradu-
1995  Phyllis Grosskurth, O crculo secreto (1991), Rio     o* das obras de Freud substituram o subs-
de Janeiro, Imago, 1992  Ernest Jones, A vida e a obra      tantivo perlaborao pelo verbo perlaborar,
de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955, 1957),       com isso julgando aproximar-se mais do ideal
Rio de Janeiro, Imago, 1989  Pierre Morel (org.),
                                                             de uma chamada lngua "freudolgica".
Dicionrio biogrfico psi (Paris, 1996), Rio de Janeiro,
Jorge Zahar, 1997  Paul Roazen, Freud e seus disc-
                                                              Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabul-
pulos (N. York, 1971), S. Paulo, Cultrix, 1978  lisabeth
                                                             rio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins
Roudinesco, Genealogias (Paris, 1994), Rio de Janei-
                                                             Fontes, 1991, 2 ed.  Melanie Klein, Inveja e gratido
ro, Relume Dumar, 1995.
                                                             -- Um estudo das fontes do inconsciente (Londres,
                                                             1957), Rio de Janeiro, Imago, 1974  Jean Laplanche,
 COMUNISMO; CONTRATRANSFERNCIA; HIS-                        Andr Bourguignon, Pierre Cotet e Franois Robert,
TORIOGRAFIA; NAZISMO; SUPERVISO.                            Traduzir Freud (Paris, 1989), S. Paulo, Martins Fontes,
                                                             1992.


elaborao (ou perlaborao)
al. Durcharbeitung; esp. reelaboracin; fr. perlabo-         Elisabeth von R., caso
ration; ing. working-through                                  ESTUDOS SOBRE A HISTERIA.
                                                                       Ellenberger, Henri F.     175

Ellenberger, Henri F. (1905-1993)                   oeste. Foi uma viagem de estudo aos Estados
psiquiatra e psicanalista canadense                 Unidos* e depois o encontro com Karl Mennin-
    Nascido em Nalolo, na Rodsia, Henri Fr-       ger* e a permanncia em sua clnica de Topeka,
dric Ellenberger deve ser considerado como o       no Kansas, que determinaram a orientao de
fundador da historiografia* erudita do freudis-     seus trabalhos posteriores.
mo*, da psicanlise* e da psiquiatria dinmica*.        Em 1953, deveria instalar-se definitiva-
Tambm foi criminologista e antroplogo. Ori-       mente nos Estados Unidos, depois de receber o
ginrio de uma famlia de missionrios protes-      ttulo de professor na Menninger School of
tantes de origem sua, estudou psiquiatria em      Psychiatry. Mas como sua esposa nascera na
Estrasburgo, onde freqentou os cursos de al-       Rssia*, no podia, durante esse perodo da
guns daqueles que, cinco anos depois, se encon-     guerra fria, obter um visto de permanncia de
trariam em torno de Lucien Febvre (1878-1956)       longa durao. Assim, em 1959, tomou a deci-
e de Marc Bloch (1886-1944), na esteira da          so de viver em Montreal, onde obteve a ctedra
cole des Annales.                                  de criminologia no Allen Memorial Institute da
    No fim dos seus estudos de medicina, Henri      Universidade McGill. O Qubec, regio fran-
F. Ellenberger foi morar em Paris. Ali, casou-se    cfona, seria sua ltima terra de acolhimento.
com uma jovem de origem russo-bltica e de          Morreu ali em maio de 1993, depois de formar,
religio ortodoxa. No incio dos anos 1930,         com os seus trabalhos, uma gerao inteira de
ficou conhecendo, no Hospital Sainte-Anne, a        historiadores do freudismo, cuja maioria  hoje
histria da psiquiatria dinmica, que ele relata-   de americanos.
ria trinta anos depois. Fez amizade com Henri           Depois de trabalhar durante vinte anos com
Ey* e instalou-se em Poitiers como psiquiatra,      arquivos*, redigiu em ingls sua obra fun-
aproveitando para estudar os mitos e as supers-     damental: The Discovery of the Unconscious.
ties da regio.                                   The History and Evolution of Dynamic Psy-
    Nascido de pais franceses em uma colnia        chiatry, que foi publicado nos Estados Unidos
inglesa, deveria ter a nacionalidade francesa.      em 1970, o que lhe valeu o reconhecimento da
Mas, como seu pai deixara de registr-lo no         maior parte dos pases do mundo,  exceo da
consulado da Frana, era portador de um pas-        Frana, onde, quando de sua primeira traduo
saporte ingls. Sua mulher, que era aptrida,       em 1974, interessou apenas aos meios psiqui-
seus filhos e ele prprio se naturalizaram fran-    tricos. Ellenberger fazia uma revoluo que
ceses. Em 1941, arriscando-se a perder sua          lembrava a dos Annales. Opondo-se sobretudo
nacionalidade pelo governo de Vichy, emigrou         histria oficial segundo Ernest Jones* e seus
para a Sua*, onde trabalhou em vrias clni-      herdeiros, seu mtodo associava o tratamento
cas, iniciando-se na lngua alem. Freqentou       positivo das fontes,  maneira de Alphonse
durante muito tempo Carl Gustav Jung*, que lhe      Aulard,  sondagem imaginria, tal como a
transmitiu a memria oral da primeira saga da       concebia Lucien Febvre.
psicanlise e de sua implantao nos meios              Segundo ele, existia uma dicotomia entre a
psiquitricos de Zurique, principalmente na cl-    histria da teorizao da noo de inconsciente*
nica do Hospital Burghlzli. Em 1950, Ellen-        e a da sua utilizao teraputica. A primeira co-
berger fez anlise didtica com Oskar Pfister*,     meara com as intuies dos filsofos da Anti-
ento com 77 anos. Nesse momento, pensou em         gidade, depois prosseguira com as dos grandes
tornar-se membro da Sociedade Sua de Psica-       msticos. No sculo XIX, a noo de incons-
nlise (SSP).                                       ciente se consolidou com Arthur Schopenhauer
    Em meados do sculo, tinha pois adquirido       (1788-1860), Friedrich Nietzsche (1844-1900)
um grande conhecimento da histria da psiquia-      e os trabalhos da psicologia experimental: Jo-
tria e da psicanlise na Europa. Falava e escre-    hann Friedrich Herbart*, Hermann Helmholtz*,
via muito bem em francs, alemo e ingls, e        Gustav Fechner*. Quanto  segunda histria,
interessava-se pela evoluo de todas as formas     esta remontava  arte do feiticeiro e do xam, e
de tratamento psquico. S lhe faltava iniciar-se   passava pela confisso crist. Dois mtodos
na histria da emigrao freudiana de leste para    teraputicos foram praticados. Um consistia em
176      Ellis, Henry Havelock

provocar no doente a emergncia de foras in-              lho de um capito de longo curso, foi criado pela
conscientes, sob forma de "crises": possesses             me e quatro tias.
ou sonhos. O outro gerava o mesmo processo                     Homossexual revoltado contra os cdigos
no mdico. Do tratamento centrado no paciente              morais da Inglaterra vitoriana, decidiu, aos 16
derivava a neurose de transferncia* no sentido            anos, dedicar a vida  anlise da sexualidade*
freudiano; do tratamento centrado no mdico                humana sob todas as suas formas. Foi com essa
derivava a anlise didtica*. Efetivamente, esta           inteno que estudou medicina: "Queria poupar
herdava a "doena inicitica" que conferia ao               juventude das geraes futuras as preocu-
xam o seu poder de cura, e a "neurose criadora"           paes e perplexidades que a ignorncia [do
tal como a tinham vivido no fim do sculo XIX              sexo] me infligiu." De 1884 a 1889, tornou-se
os pioneiros da descoberta do inconsciente:                amigo ntimo de uma romancista feminista,
Pierre Janet*, Sigmund Freud*, Carl Gustav                 Olive Schreiner, que conhecera atravs da filha
Jung, Alfred Adler*.                                       de Karl Marx (1818-1883). Depois do casamen-
    Nessa perspectiva, a primeira grande tenta-            to de Olive, desposou Edith Lees, uma intelec-
tiva de integrar a investigao do inconsciente            tual que mergulhou progressivamente na loucu-
 sua utilizao teraputica comeava com as               ra*.
experincias de Franz Anton Mesmer*, inicia-                   Lanando-se na carreira literria aos 30
dor da primeira psiquiatria dinmica*. Esta ter-           anos, Ellis se dedicou  reedio das melhores
minava com Jean Martin Charcot*, e foi ento               peas dos contemporneos de Shakespeare. Em
que nasceu, sobre as runas de um magnetismo               1890, comeou a redao de sua grande obra:
que se tornara hipnotismo, a segunda psiquiatria           Estudos de psicologia sexual. Publicado em
dinmica, dividida em quatro grandes cor-                  Londres um ano depois do processo de Oscar
rentes: a anlise psicolgica de Pierre Janet,             Wilde (1856-1900), o primeiro volume era
centrada na explorao do subconsciente, a psi-            consagrado  inverso sexual. O livro causou
canlise* de Freud, fundada na teoria do incons-           escndalo, e o livreiro que vendeu a obra foi
ciente*, a psicologia individual de Adler, a psi-          processado na justia. Posteriormente, Ellis se-
cologia analtica de Jung. Ellenberger observou            ria obrigado a publicar os outros volumes nos
que o paradoxo dessa segunda psiquiatria din-             Estados Unidos*: "A envergadura da documen-
mica, cuja histria se detinha em 1940, era que,           tao de Ellis nesses Estudos, escreveu Frank
ao cindir-se em escolas opostas, ela rompia o              Sulloway, era realmente impressionante. Ele
pacto fundador que a ligava ao ideal de uma                estava completamente a par de toda a literatura
cincia universal nascida do Iluminismo, para              mdica do seu tempo e citava mais de dois mil
voltar ao antigo modelo das seitas greco-roma-             autores, pertencentes a doze reas lingsticas
nas.                                                       diferentes. Cada volume era uma suma enciclo-
                                                           pdica do saber contemporneo sobre cada uma
 Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de       das questes tratadas."
l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
1974), Paris, Fayard, 1994; Mdecines de l'me. Es-            Contemporneo de Sigmund Freud*, Ellis
sais d'histoire de la folie et des gurisons psychiques,   acolheu com fervor as obras deste e ambos
Paris, Fayard, 1995; Beyond the Unconscious, N. Jer-       trocaram cartas durante toda a vida, no hesitan-
sey, Princeton University Press, 1993.                     do em demonstrar ocasionalmente suas discor-
                                                           dncias, invejas ou admiraes recprocas.
 ANTROPOLOGIA; ESPIRITISMO; ETNOPSICAN-
                                                           Freud adotou a noo de auto-erotismo de Ellis
LISE; HIPNOSE; HISTERIA; PAPPENHEIM, BERTHA;
PERSONALIDADE MLTIPLA; PREISWERK, HLNE;
                                                           e lhe prestou homenagem nos Trs ensaios so-
SUGESTO .
                                                           bre a teoria da sexualidade*.
                                                            Havelock Ellis, Studies on the Psychology of Sex.
                                                           Sexual Inversion, vol.1, Londres, The University Press,
Ellis, Henry Havelock (1859-1939)                          1897; "Auto-erotism. A psychological study", The
mdico e escritor ingls                                   Alienist and Neurologist, 19, 1898, 260-99; Studies on
                                                           the Psychology of Sex, 7 vols., Filadlfia, F.A. Davis,
   Fundador da sexologia*, com Albert Moll* e              1900-1928; tudes de psychologie sexuelle, vol.1
Richard von Krafft-Ebing*, Havelock Ellis, fi-             (Londres, 1897), Paris, Mercure de France, 1904; My
                                                                          Emerson, Louville Eugene             177

Life. Autobiography of Havelock Ellis, Boston, Hough-      segundo as normas da IPA. Quanto a Zavitzia-
ton Mifflin, Co., 1939  Vincent Brome, Les Premiers
                                                           nos, decidiu emigrar para o Canad*, onde teve
disciples de Freud (Londres, 1967), Paris, PUF, 1978
 Frank J. Sulloway, Freud, Biologist of the Mind, N.      um papel importante. S Kouretas conseguiu
York, Basic Books, 1979  Sexualits occidentales          manter-se em Atenas, e em 1983 um novo grupo
(1982), sob a direo de Philippe Aris e Andr Bjin,     de estudos foi reconhecido pela IPA.
Paris, Seuil, col. "Points essais", 1984  Phyllis Gros-
skurth, Havelock Ellis. A Biography, N. York, New York      Andreas Embiricos, Haut fourneau (Atenas, 1935),
University Press, 1985.                                    Arles, Actes Sud, 1991; Argo ou vol d'arostat (Atenas,
                                                           1964), Paris, Actes Sud, 1991  Gilles Ortlieb, "Andreas
 ALEMANHA; HIRSCHFELD, MAGNUS; HOMOS-                      Embiricos", in Le Nouveau dictionnaire des auteurs,
SEXUALIDADE; PERVERSO; REICH, WILHELM.                    Paris, Laffont, t.1, 1994, 999-1000  Eleni Atzina, L'In-
                                                           troduction de la psychanalyse en Grce  travers ses
                                                           relations avec les institutions psychiatriques (1910-
                                                           1950), dissertao de DEA, GHSS, Universidade de
Embiricos, Andreas (1901-1975)                             Paris-VII, 1996.
escritor e psicanalista grego
                                                            FEDERAO EUROPIA DE PSICANLISE; FRAN-
    Nascido em Braila, na Romnia*, Andreas                A; HISTRIA DA PSICANLISE; TRIANDAFILIDIS,
Embiricos estudou filosofia e literatura em Ate-           MANOLIS.
nas. Em 1927, depois de seu encontro com
Andr Breton (1896-1966), foi fortemente mar-
cado pelo surrealismo e publicou uma obra                  Emden, Jan Van (1868-1950)
potica abundante, na qual se filiava a Rim-
                                                           psiquiatra e psicanalista neerlands
baud, aos futuristas e  escrita automtica: "Em-
biricos, escreveu Gilles Ortlieb, abriu caminho               Analisado por Sigmund Freud* e membro,
para um novo modo de expresso, transbor-                  em 1911, da Wiener Psychoanalytische Verein-
dante de imaginao e sensualidade [...].  ima-           igung (WPV), Jan Van Emden foi um dos pio-
gem da sua vida, dividida entre a Grcia e as              neiros da psicanlise* nos Pases-Baixos* e co-
capitais europias, seus escritos manifestam um            fundador, em 1917, da Nederlandse Vereniging
cosmopolitismo quase aristocrtico."                       voor Psychoanalyse (NVP), com Johan Van
                                                           Ophuijsen*, August Strke*, o psiquiatra Ger-
    Analisado por Ren Laforgue*, por ocasio
                                                           brandus Jelgersma (1859-1942), o hipnotizador
de uma longa permanncia em Paris, entre 1925
                                                           Albert Willem Van Renterghem (1845-1939) e
e 1931, comeou a praticar a psicanlise* em
                                                           o neurologista A. Van der Chijs (1875-1926).
Atenas, formando com Dimitri Kouretas*,
                                                           Em 1941, instalou-se em Amsterdam, onde for-
Georges Zavitzianos e Nicolas Dracoulidis
                                                           mou um pequeno grupo de trabalho, mudando-
(1900-1986) -- os dois ltimos analisados por
                                                           se depois para Haia.
Marie Bonaparte* -- o primeiro grupo freudia-
no da Grcia. Reconhecido de modo efmero                   MONCHY, REN DE.
pela International Psychoanalytical Associa-
tion* (IPA), esse grupo foi obrigado a dissolver-
se em 1950, em circunstncias difceis e no-              Emerson, Louville Eugene
elucidadas. Embiricos preferiu ento renunciar             (1873-1939)
 profisso de psicanalista, para se dedicar  sua         psiclogo americano
obra potica e literria.
                                                               Membro da American Psychoanalytic As-
    Em 1935, publicou uma bela antologia                   sociation* (APsaA), Louville Eugene Emerson
(Haut Fourneau) de 63 breves textos em prosa,              foi um dos primeros psiclogos americanos a
centrados na figura de Eros. Em 1964, publicou             se interessar pelas teses freudianas e a estudar,
Argos, relato ertico no qual descrevia o voyeu-           no Massachusetts General Hospital, perto de
rismo de um pai descobrindo as relaes amo-               Boston, o papel das neuroses* nas relaes fa-
rosas da filha com seu amante.                             miliares.
    Como a de Embiricos, a prtica de Dracou-
lidis, que era simultaneamente sexlogo e der-              ESTADOS UNIDOS; PRINCE, MORTON; PUTNAM,
matologista, tambm no foi julgada adequada,              JAMES JACKSON.
178     Emmy von N., caso

Emmy von N., caso                                  psicanlise de crianas* em Boston. Primeiro
 MOSER, FANNY.                                     discpulo de Anna Freud, foi tambm o primeiro
                                                   homem a se lanar nessa atividade, at ento
                                                   reservada s mulheres. Posteriormente, dedi-
Erikson, Erik, n Homburger                        cou-se mais  adolescncia e ensinou na Cali-
(1902-1994)                                        frnia, na Universidade de Berkeley.
                                                       Pouco antes de deixar a Europa, abandonou
psicanalista americano
                                                   o sobrenome Homburger e fabricou outro,
    Nascido em Frankfurt, Erik Homburger
                                                   utilizando o processo escandinavo, que consiste
nunca conheceu seu pai biolgico, que aban-
                                                   em acrescentar o sufixo "son" (filho) a um nome
donou sua me, Karla Abrahamsen, antes de seu
                                                   prprio. Assim, tornou-se Erik Erikson, ou seja,
nascimento. De origem dinamarquesa, esta ca-
                                                   Erik, filho de Erik.
sou-se em 1905 com um pediatra alemo, Theo-
                                                       O acesso a essa nova identidade coincidiu
dor Homburger, originrio de uma famlia da
                                                   com a descoberta das teorias do movimento
pequena burguesia judaica praticante. Res-
ponsvel pela sinagoga de Karlsruhe, levou sua     culturalista americano, e permitiu a Erikson
mulher para essa cidade e deu seu nome            dedicar-se proveitosamente aos problemas da
criana, que foi ento educada sem conhecer        adolescncia. "Enquanto trabalhava nas reser-
sua verdadeira histria. Esconderam-lhe princi-    vas indgenas sioux de Dakota do Sul e na tribo
palmente que seu pai era dinamarqus e que         yourok da Califrnia do Norte, durante os anos
abandonara sua me. Da a perturbao que o        1930, escreveu Pamela Tytell, Erikson perce-
jovem Erik sentia em relao  sua judeidade*.     beu que a origem de certos problemas dos ndios
Ora tinha a impresso de ser judeu pela filiao   americanos adultos devia ser procurada no na
de seu padrasto, ora atribua  sua famlia ma-    teoria psicanaltica tradicional, mas no senti-
terna uma origem judaica. Essa confuso o le-      mento de `desenraizamento' de que eles so-
varia a se converter ao protestantismo e a mudar   friam. Esse sentimento, devido  ruptura violen-
de sobrenome.                                      ta entre o seu modo de vida nas reservas e o que
    Em 1927, instalou-se em Viena como pintor      era descrito na histria de sua tribo, est mais
especializado em retratos de crianas. Iniciou-    ligado ao eu*,  cultura e s interaes sociais
se tambm nos mtodos pedaggicos de Maria         do que s pulses* sexuais, que Freud* enfati-
Montessori* e, atravs do amigo Peter Blos, que    zava."
dava aulas particulares para os quatro filhos de       Assim, foi em contato com os conflitos liga-
Dorothy Burlingham*, entrou em contato com         dos ao comunitarismo da sociedade americana
Anna Freud*. Juntos, com Eva Rosenfeld             e com as "falhas" de sua concepo adaptativa
(1892-1977), abriram uma escola, inicialmente      que Erikson redigiu os seus trabalhos, no qua-
freqentada pelos filhos de Dorothy, depois por    dro da Ego Psychology*. Estava reencontrando
outras crianas em tratamento analtico, cujos     ali os problemas ligados a seu prprio sofrimen-
pais tambm faziam anlise. Atrado por essa       to de adolescente  procura de identidade. Em
experincia, mas pobre como J, Erik Hombur-       Infncia e sociedade, obra que o tornaria cle-
ger foi, contudo, aceito para formao didtica    bre, distinguiu-se do freudismo clssico, mos-
com Anna Freud, por um pagamento mdico.           trando que o eu, longe de ser uma instncia ou
Em Viena, ficou conhecendo sua futura mulher,      um departamento do isso*, podia ser receptivo
Joan Moivat Serson, de origem americano-ca-        a todas as mudanas sociais. Da a tese segundo
nadense, que seria analisada por Ludwig Je-        a qual a cada estdio* de sua evoluo, o sujeito*
kels*.                                             podia fazer uma escolha baseada na confiana
    Erik Homburger redigiu ento seus primei-      ou na desconfiana.
ros artigos sobre pedagogia. Logo integrou-se         Com essa teoria, Erikson adotava o projeto
Wiener Psychoanalytische Vereinigung               profiltico do higienismo e renunciava a uma
(WPV), cuja atmosfera achou opressiva, e de-       concepo puramente psquica da organizao
cidiu emigrar para os Estados Unidos* depois       da personalidade. Ligava a noo de estdio (no
de ter sido convidado a ensinar e a praticar a     sentido freudiano)  de evoluo biolgica e
                                                                         Ermakov, Ivan Dimitrievitch          179

social, afirmando que uma pedagogia da ado-                 1913, 360-77  Lucien Febvre, Martin Luther. Un destin
                                                            (1928), Paris, PUF, 1988  Eugne Pumpian-Mindlin,
lescncia era necessria para superar os confli-
                                                            "Anna Freud and Erik H. Erikson. Contribuies a teoria
tos de geraes. Os freudianos clssicos o acu-             e prtica da psicanlise e da psicoterapia", in Franz
saram de minimizar o peso do psiquismo in-                  Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grotjahn (org.),
consciente e negligenciar as relaes edipianas             A histria da psicanlise atravs de seus pioneiros (N.
e pr-edipianas. Entretanto, Erikson se inscre-             York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981  Robert
                                                            Coles Robert, Erik H. Erikson. The Growth of his Work,
via em uma tradio muito vienense, desenvol-               Boston, Little Brown, 1970  Paul Roazen, Erik H.
vida antes dele por August Aichhorn*.                       Erikson, The Power Limits of a Vision, N. York, Free
    Depois de sua partida de Berkeley, foi no-              Press, 1976  Pamela Tytell, "Erik Homburger Erikson,
meado professor na Escola de Medicina de                    1902-1994", Encyclopaedia universalis, Paris, 1995,
                                                            500-1  Peter Schttler, "Note sur Erik Erikson et Lu-
Harvard, onde criou um centro de pesquisas                  ther", 1996, indito.
com o seu nome. Ensinou depois no Mas-
sachusetts Institute of Technology. Durante to-              CULTURALISMO; MEYER, ADOLPH.
da essa poca, apaixonou-se pela psicanlise
aplicada* e redigiu vrias psicobiografias de
homens clebres: Jesus Cristo, Charles Darwin               Ermakov, Ivan Dimitrievitch
(1809-1882), Sigmund Freud. Sua obra sobre                  (1875-1942)
Gandhi recebeu o prmio Pulitzer em 1970, e a
                                                            psiquiatra e psicanalista russo
que consagrou a Lutero foi considerada um
clssico do gnero.                                             Aluno do psiquiatra Vladimir Petrovitch
                                                            Serbski (1858-1917), Ivan Dimitrievitch Erma-
    Desde o incio, a psicanlise* se apoderou
                                                            kov dedicou seus primeiros trabalhos s neu-
do personagem de Lutero (1483-1546). Em
                                                            roses de guerra*, tratando dos soldados durante
1913, um autor americano, Preserved Smith,
                                                            o conflito entre a Rssia* e o Japo*. Depois,
fez dele um "neurtico tpico", atravs de uma
                                                            interessou-se pela hipnose* e, a partir de 1913,
psicobiografia terrivelmente reducionista.
                                                            voltou-se para a psicanlise*. Com Moshe
Criticando, com razo, esse tipo de procedi-
                                                            Wulff*, criou em 1921 a Associao Psicanal-
mento, o historiador francs Lucien Febvre
                                                            tica de Pesquisas sobre a Criao Artstica e, um
(1878-1956) afirmou que a histria no preci-
                                                            ano depois, tornou-se presidente da Sociedade
sava de um "Lutero freudiano". Ora, em sua
                                                            Psicanaltica da Rssia. Tambm participou,
obra de 1958, Erikson mostrava um Lutero
                                                            com Vera Schmidt*, da instalao do famoso lar
perfeitamente admissvel. Segundo ele, o jo-
                                                            experimental para crianas. Mas foi principal-
vem Lutero teria vivido conflitos violentos com
                                                            mente por seus textos sobre a arte e a literatura
os pais, enfrentando uma crise profunda, da
                                                            que desempenhou um papel na introduo do
qual s teria sado parcialmente no momento de
                                                            freudismo* na Rssia: a melancolia* em Drer
sua descoberta da nova f. Por conseguinte, seu
                                                            (1471-1528) e estudos sobre Gogol (1809-
comportamento posterior teria sido marcado
                                                            1852) e Puchkin (1799-1837).
pela repetio dessa crise. Da seus acessos
                                                                A principal atividade de Ermakov foi a ges-
manaco-depressivos.
                                                            to da Biblioteca de Psicologia e de Psicanlise,
                                                            ao lado de Otto Schmidt (1891-1956), que era
 Erik Erikson, "Configurations in play. Clinical notes",
Psychoanalytical Quarterly, 6, 1937, 139-214; "Obser-       seu diretor para as edies estatais. Entre 1922
vations on Sioux education", Journal of Psychology,         e 1928, ambos encomendaram a traduo para
1939, 7, 101-56; "Hitler's imagery and German youth",       o russo de vrias obras de Sigmund Freud*,
Psychiatry, 1942, 5, 475-93; Enfance et socit (N.         entre as quais a Introduo  psicanlise* e
York, 1950), Neuchtel, Delachaux et Niestl, 1959;
Luther avant Luther (N. York, 1958), Paris, Flammarion,
                                                            Totem e tabu*. Ermakov redigiu notas e pref-
1968; thique et psychanalyse (N. York, 1964), Paris,       cios.
Flammarion, 1971; Adolescence et crise. La Qute de             Demitido de todas as suas funes entre
l'identit (N. York, 1968), Paris, Flammarion, 1972; La     1924 e 1928, durante a stalinizao do regime
Vrit de Gandhi. Les Origines de la non-violence (N.
York, 1969), Paris, Flammarion, 1974  Preserved
                                                            sovitico, conseguiu traduzir ainda O futuro de
Smith, "Luther's early development in the light of psy-     uma iluso* em 1930. Depois, continuou a es-
choanalysis", American Journal of Psychology, 24,           crever, no publicou mais e abandonou todas as
180      eros

atividades psicanalticas. Preso em 1940, foi              quismo e tornar obsoleto o mtodo psicanalti-
deportado para um campo de internamento,                   co, do qual, no entanto, assume vigorosamente
onde morreu dois anos depois.                              a defesa: "Por ora, no entanto, dispomos apenas
                                                           da tcnica psicanaltica, e  por isso que, a
 Jean Marti, "La Psychanalyse en Russie (1909-            despeito de todas as suas limitaes, convm
1930)", Critique, 346, maro de 1976, 199-237  Alberto
Angelini, La Psicoanalisi in Russia, Npoles, Liguori      no desprez-la."
Editore, 1988  Alexandre Etkind, Histoire de la psycha-
nalyse en Russie (1993), Paris, PUF, 1995.                  Sigmund Freud, Esboo de psicanlise (1938), ESB,
                                                           XXIII, 168-246; GW, XVII, 67-138; SE, XXIII, 139-207;
                                                           Paris, PUF 1949  Ernest Jones, A vida e a obra de
 COMUNISMO; FREUDO-MARXISMO; LURIA, ALEK-
                                                           Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955, 1957),
SANDR ROMANOVITCH; OSSIPOV, NIKOLAI IEVGRA-                Rio de Janeiro, Imago, 1989  Peter Gay, Freud, uma
FOVITCH; ROSENTHAL, TATIANA; SPIELREIN, SABI-              vida para o nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo,
NA; ZALKIND, ARON BORISSOVITCH.                            Companhia das Letras, 1995  Ilse Grubrich-Simitis,
                                                           Freud, retour aux manuscrits. Faire parler les docu-
                                                           ments muets (Frankfurt, 1993), Paris, PUF, 1997.

eros
 HOMOSSEXUALIDADE; LIBIDO; NARCISISMO;
PERVERSO; PULSO; SEXUALIDADE; SUBLIMAO.
                                                           Escandinvia
                                                               Sob essa designao genrica esto agrupa-
                                                           dos cinco pases da Europa: Dinamarca, Norue-
Esboo de psicanlise                                      ga, Sucia, Finlndia e Islndia. No plano pol-
Obra pstuma e inacabada de Sigmund Freud*,                tico, existem apenas trs Estados ditos escan-
redigida em 1938 e publicada pela primeira vez em          dinavos: Sucia, Noruega e Dinamarca. Geo-
alemo, em 1940, sob o ttulo Abriss der Psychoa-          graficamente, chama-se Escandinvia a parte
nalyse, e em ingls, na mesma data, sob o ttulo An        norte da Europa que rene a Sucia, a Noruega,
Outline of Psycho-Analysis, numa traduo de               a Dinamarca e a Finlndia, ou seja, quatro
James Strachey*. Traduzida para o francs por              pases no total, e d-se o nome de Pennsula
Anne Berman (1889-1979), em 1949, sob o ttulo             Escandinava ao conjunto constitudo pela Su-
Abrg de psychanalyse.                                    cia e pela Noruega. So quatro as lnguas escan-
    Iniciado em 22 de julho de 1938, esse ltimo           dinavas ligadas ao grupo das lnguas germni-
livro de Sigmund Freud permaneceu inacabado                cas: dinamarqus, sueco, noruegus e islands,
e comporta apenas trs partes. Fazia muito tem-            enquanto o finlands pertence  famlia das
po que Freud tinha o projeto de escrever um                lnguas ditas fino-gricas.
opsculo destinado a apresentar ao grande p-                  Como em quase todos os pases da Europa,
blico uma sntese de sua doutrina. Iniciou esse            foi no fim do sculo XVIII e sob a influncia da
trabalho em Viena*, s vsperas de seu exlio,             filosofia do Iluminismo que alienistas dinamar-
queixando-se de ter que escrever coisas que j             queses e noruegueses instauraram o asilo mo-
tinha dito e s quais nada tinha a acrescentar. No         derno, a partir do modelo francs realizado por
entanto, redigiu o texto em ritmo animado e ao             Philippe Pinel (1745-1826) sob a Revoluo. O
sabor da pena, apelando para abreviaturas.                 movimento de reforma foi progressivamente
    De fato, o livro  certamente bem melhor do            adotado durante o sculo XIX, primeiro na
que o julgava Freud. Trata-se de uma excelente             Finlndia, depois na Sucia, com a criao da
sntese dos eixos fundamentais do pensamento               Ordem dos Serafins, que se encarregou do sis-
freudiano no tocante ao aparelho psquico,                tema hospitalar at 1876. A partir da, surgiria
teoria das pulses*,  sexualidade*, ao incons-            um novo olhar sobre a loucura*, que permitiria
ciente*,  interpretao dos sonhos* e  tcnica           a implantao da nosografia de origem alem,
psicanaltica*. Em algumas passagens, Freud se             proveniente dos trabalhos de Emil Kraepelin*,
interroga sobre novas direes de investigao,            e posteriormente a da psiquiatria dinmica*.
em especial a propsito do eu*, e prenuncia,                   Dando seqncia a esse movimento, as
acima de tudo, a descoberta de substncias qu-            idias freudianas se implantaram por etapas nos
micas capazes de agir diretamente sobre o psi-             quatro pases escandinavos (Dinamarca, Su-
                                                                              Escandinvia       181

cia, Noruega e Finlndia), sem com isso desem-          Depois dessas reflexes sobre os aspectos
bocar na formao de um movimento amplo. A          mdico e neurolgico da obra freudiana, Poul
prtica ficou limitada a alguns grupos, e o de-     Bjerre* foi o primeiro a introduzir a psicanlise
senvolvimento doutrinrio restringiu-se a per-      nos pases escandinavos. Em 1907, instalou-se
sonalidades marcantes, psiquiatras ou profes-       no consultrio de um clebre mdico hipnoti-
sores de universidade.                              zador, Otto Wetterstrand (1845-1907), que aca-
    Foi na Sucia que o freudismo* obteve mais      bava de morrer. Adepto da Escola de Nancy e
sucesso, ao passo que, por razes polticas,        das teses de Hippolyte Bernheim*, Wetterstrand
ligadas ao forte desenvolvimento dos partidos       favorecera o progresso da psicoterapia* na Su-
trabalhistas, a Dinamarca e a Noruega foram         cia, inventando um mtodo de "sono prolonga-
principalmente receptivas s teses de Wilhelm       do", que lhe valeu a reputao de "mgico".
Reich*, ou seja, ao materialismo biolgico e           Nascido em Gteborg em uma famlia de
sntese entre o freudismo e o marxismo.             imigrantes dinamarqueses, Poul Bjerre desem-
    Desde meados do sculo XIX, grandes pen-        penhou, por sua vez, um papel importante no
sadores, escritores e filsofos, manifestaram       s por seu encontro com Freud em 1911, mas
seu interesse pelos fenmenos inconscientes.        tambm por sua ligao com Lou Andreas-Sa-
Cada um  sua maneira, August Strindberg            lom* e sua convivncia com o meio psicanal-
(1849-1912), Georg Brandes (1842-1927),             tico internacional. Entretanto, a partir de 1924,
Henrik Ibsen (1828-1906) e Sren Kierkegaard        afastou-se do freudismo sem ter aderido a ele e
(1813-1855) souberam compreender as trans-          sem ter praticado a psicanlise. Da a observa-
formaes da sociedade ocidental: diminuio        o de Freud em 1923, em uma nota acrescen-
da funo paterna no seio da famlia e aumento      tada  reedio de sua contribuio para a his-
das interrogaes sobre a diferena sexual*.        tria do movimento psicanaltico: "Atualmen-
Criticavam ferozmente a hipocrisia social e         te, so os pases escandinavos que se mantm
eram sensveis s foras destruidoras que per-      mais afastados da psicanlise."
meavam os ideais de humanismo s vsperas do            Ao contrrio de Bjerre, Emanuel af Geijers-
advento do mundo moderno. Essa atitude era          tam (1867-1928) aceitou submeter-se  anlise.
encontrada nos pintores escandinavos contem-        Tambm aluno de Wetterstrand e prximo de
porneos, como Carl Fredrik Hill, Ernst Josefs-     Strindberg, comeou praticando a hipnose,
son ou Edvard Munch (1863-1944). Obcecados          antes de fazer uma anlise didtica* por volta
pelo exlio, preocupados com a loucura ou com       de 1910 com Johannes Strmme*. Tambm foi
a estranheza do homem em relao a si mesmo,        o primeiro psicanalista sueco formado segundo
todos procuravam captar em suas obras a angs-      as regras da filiao* psicanaltica.
tia existencial de uma poca dominada pelo              Em 1905, Ragnar Vogt (1870-1943), profes-
ceticismo, pelo irracionalismo e pela recusa da     sor na Universidade de Oslo, publicou em um
idia de progresso linear. Foi nesse terreno cr-   tratado de psiquiatria um estudo objetivo sobre
tico, e em um contexto em que o puritanismo         a psicanlise, bastante distanciado dos precon-
luterano era ao mesmo tempo religio do Esta-       ceitos desfavorveis da poca. Alis, em 1920,
do e uma atitude mental e espiritual, que surgi-    Sigurd Naesgaard* traduziu para o dinamarqus
ram as primeiras interrogaes sobre a doutrina     as cinco conferncias feitas por Freud nos Es-
freudiana.                                          tados Unidos* quinze anos antes. Elas foram
    Em 1885, um mdico finlands, Konrad            traduzidas nove anos depois para o noruegus
Relander, mencionou pela primeira vez o nome        por Kristina Schjelderup (1894-1980). Enfim,
de Sigmund Freud* em um artigo sobre o uso          em 1923, Georg Groddeck*, quando de uma
medicinal da cocana. Oito anos depois, na          permanncia em Estocolmo, despertou o
Sucia, um professor de patologia nervosa, Fri-     interesse pelo freudismo.
thiof Lennmalm, citou os trabalhos de Freud,            Como em outros pases, o avano progres-
de Pierre Janet*, de Josef Breuer* e de Jean        sivo das teses freudianas se chocou com fortes
Martin Charcot*, em um texto consagrado s          resistncias, notadamente em torno da questo
neuroses* traumticas.                              do pretenso pansexualismo* de Freud. Enquan-
182     Escandinvia

to na Frana dizia-se que a teoria freudiana da     bas foram filiadas  International Psychoanaly-
sexualidade era excessivamente "germnica" (e       tical Association* (IPA) no Congresso de Lucer-
logo "brbara") para adaptar-se ao "gnio lati-     na em 1934, sob condies dramticas, tendo
no", na Sucia afirmava-se a mesma proposio       como pano de fundo a excluso de Wilhelm
em sentido inverso: essa teoria, inventada por      Reich.
um vienense, no podia adaptar-se  "mentali-           No perodo entre as duas guerras, a situao
dade nrdica". O essencial dessas crticas foi      no se desenvolveu da mesma forma nos quatro
enunciado, em 1913, em um livro de Olof Kin-        pases escandinavos. A chegada de Reich a
berg, que reuniu todas as discusses realizadas     Copenhague em maio de 1933, depois sua per-
nessa poca por Bjerre no seio da Sociedade         manncia em Oslo entre outubro de 1935 e
Mdica Sueca. Foram retomadas vinte anos            agosto de 1939 modificaram o panorama psica-
depois, em 1934, pelo psiquiatra Bror Gadelius      naltico da Dinamarca e da Noruega. Nesses
(1862-1938), reformador humanista do asilo,         dois pases, onde a tradio socialista era pode-
que afirmou,  maneira de outros representantes     rosa, a temtica da revoluo sexual e da libe-
da psiquiatria dinmica, que a doutrina freudia-    rao da libido* pela bioeletricidade foi facil-
na da sexualidade era mais apta a implantar-se      mente aceita pelos intelectuais, mas suscitou
nos pases latinos do que nos pases nrdicos,      escndalos na imprensa puritana e conservado-
pois fora criada por um homem de "raa judia",      ra.
j que essa prpria "raa" estava sujeita a um          Na Dinamarca, ao invs de adotar uma po-
"pansexualismo" especfico.                         sio flexvel, os dirigentes da IPA, es-
    Durante os anos 1930, como na Blgica* ou       pecialmente Max Eitingon* e Anna Freud,
na Frana, os crculos literrios nrdicos se       apoiados por Ernest Jones* e Freud, no autori-
interessaram pelo freudismo. Assim, na revista      zaram Reich a praticar anlises didticas, ao
sueca Spektrum, foram publicados artigos de         passo que ele era membro da International atra-
Anna Freud*, Erich Fromm* e Wilhelm Reich*.         vs de sua filiao  Deutsche Psychoanaly-
Pehr Henrik Trngren* foi um de seus membros        tische Gesellschaft (DPG). Ora, apesar de suas
ativos. A revista norueguesa Samtiden tomou         divergncias tcnicas e polticas com os freu-
parte no debate, publicando textos que ques-        dianos ortodoxos, ele era na poca o nico
tionavam o valor cientfico e teraputico da        psicanalista capaz de formar clnicos em Cope-
psicanlise. Em Clart, revista socialista, foram   nhague, como mostra uma carta dirigida a
publicados textos de muitos pioneiros nrdicos      Freud, em 10 de novembro de 1933, por Erik
do freudismo. Alis, com o impulso do sin-          Carstens, publicada em 1967 em Reich fala de
dicalista noruegus Erling Falck, que criara em     Freud.
1921 o grupo Mot Dag, de inspirao comunis-            Evocando o papel desastroso desempenhado
ta, desenvolveu-se um interesse muito grande        por Naesgaard, que recusava o princpio da
pelo freudo-marxismo*.                              formao didtica, Carstens enfatizava que a
    Depois da ruptura de Bjerre com o freudis-      atividade de Reich fora positiva nessa rea. E,
mo, foi preciso esperar at 1931 para que se        principalmente, queixava-se de que o comit de
desenvolvesse, em torno dos vrios pioneiros e      formao da DPG, sob a responsabilidade de
por iniciativa da sueca Alfhild Tamm*, o em-        Eitingon, concedera a Jen Harnik, psicanalista
brio de um movimento freudiano. Depois de          hngaro exilado, e no a Reich, o estatuto de
muitas discusses, das quais participaram Si-       didata. Todos sabiam que Harnik sofria de pa-
gurd Naesgaard pela Dinamarca, Harald Schjel-       rania* com crises de delrio: de qualquer for-
derup* pela Noruega, e Yrj Kulovesi* pela          ma, muito mais patolgico que Reich e, sobre-
Finlndia, foi criado um grupo escandinavo de       tudo, sem a menor competncia psicanaltica.
psicanlise, que se cindiu finalmente em duas       Em 1912, Sandor Ferenczi* tentara trat-lo de
sociedades: a Sociedade Fino-Sueca, por um          impotncia sexual, dissuadindo-o de se tornar
lado (Finsk-svenska Psykoanalytika Frening),       psicanalista. Posteriormente, quando Harnik
a Sociedade Dano-Norueguesa, por outro              quis aderir  Wiener Psychoanalytische Verein-
(Dansk-norska Psykoanalytika Frening). Am-         igung, Ferenczi, a pedido de Freud e com sua
                                                                              Escandinvia       183

inteira aprovao, apresentou um motivo de              Com essa poltica, a direo da IPA contri-
oposio categrica: "Ciumento, psiquica-           buiu para desvalorizar a imagem do freudismo
mente impotente, patologicamente vaidoso,           no seio da comunidade psicanaltica escan-
inepto. Deveria tomar outro caminho." Apesar        dinava, j atravessada por fenmenos de dis-
dessa opinio desfavorvel, Harnik conseguiu        sidncia e ainda muito frgil para se submeter
integrar-se ao Berliner Psychoanalytisches Ins-     aos padres impostos nessa poca pela orto-
titut* (BPI) e ser enviado por Eitingon, como       doxia freudiana. Em 1937-1938, Reich foi vti-
didata, para desenvolver a psicanlise na Dina-     ma de uma obstinada campanha de imprensa na
marca.                                              Noruega. Depois de ser tratado muitas vezes de
    Em sua resposta a Carstens, Freud confir-       "charlato" e de "porngrafo judeu", emigrou
mou que Harnik era paranico, mas no deu           para os Estados Unidos*, deixando por sua vez
nenhum apoio a seu interlocutor. Reich protes-      uma marca desastrosa na comunidade psicana-
tou contra essa sano, argumentando como era       ltica nrdica. Efetivamente, no sendo mais
paradoxal negar-lhe o estatuto de didata por ser    membro da IPA, no foi defendido contra os
marxista, enquanto a IPA sempre tivera ten-         ataques (exceto por Schjelderup) e evoluiu ra-
dncia a encaminhar os alunos em formao           pidamente para um biologismo exacerbado, pa-
para psicanalistas que compartilhassem as suas      ra o qual arrastou Ola Raknes*. Seus conflitos
convices religiosas ou ideolgicas: "Consi-       com Otto Fenichel*, exilado em Oslo entre
derei como virtualmente estabelecido o fato de      1933 e 1935, tambm contriburam para a de-
que os telogos eram enviados para Oskar Pfis-      teriorao da situao do freudismo na Norue-
ter*, os filsofos morais para Carl Mller-         ga.
                                                        Quatro anos depois, em plena guerra, a So-
Braunschweig* e os socialistas recuperados pa-
                                                    ciedade Dano-Norueguesa de Psicanlise foi
ra Siegfried Bernfeld*."
                                                    banida da IPA. Ernest Jones, novo presidente da
    Acusado de ser ele prprio simultaneamente
                                                    Associao, estava fazendo com que Schjelde-
paranico, bolchevista e antifreudiano, Reich
                                                    rup, Raknes, Nic Waal (ne Hoel, 1905-1960)
foi instado por Anna Freud, em julho de 1934,
                                                    "pagassem" por sua desobedincia  imposio
a aceitar que seu nome fosse riscado da lista dos   de 1934. Assim, sem dizer claramente, acusou-
membros da DPG: "O problema todo tem ape-           se o grupo de ter sido demasiado sensvel s
nas um valor terico, acrescentou ela, j que o     teses reichianas. Estas, alis, continuaram a ga-
reconhecimento pelo congresso do grupo              nhar terreno, graas a Raknes e a Nic Waal. Essa
escandinavo acarretaria automaticamente a in-       psicanalista norueguesa, analisada primeira-
sero de seu nome na lista dos membros desse       mente por Schjelderup, e depois por Fenichel e
novo grupo." A manobra era simples: Eitingon        Reich, passara pela clnica de Karl Menninger*
conseguira secretamente que Reich fosse ex-         em Topeka, no Kansas, antes de fundar em
pulso da DPG, e conseqentemente da IPA.            Oslo, em 1953, uma instituio para crianas.
Para evitar qualquer reintegrao no grupo              Outro psiquiatra noruegus, Trygve Braatoy
escandinavo, ele fizera com que a filiao da       (1904-1953), tambm teve um papel impor-
Sociedade Dano-Norueguesa, que devia ocor-          tante em seu pas, depois de passar por Topeka.
rer em Lucerna em agosto de 1934, dependesse        Combinando as teses adlerianas com as de
de uma promessa de no-integrao de Reich.         Freud, especialmente em uma obra dedicada ao
Mas os noruegueses se recusaram a submeter-se       poeta Knut Hamsun (1859-1952), interessou-se
a essa imposio, e essa determinao impres-       depois pela fitoterapia.
sionou o comit executivo, que os admitiu sem           Apesar da presena, em Copenhague, do
impor condies. Assim, Reich foi riscado da        hngaro Georg Ger (1901-1981), que emigrou
IPA em Lucerna, atravs da sua excluso da          para os Estados Unidos sem ter exercido grande
DPG. Dois meses depois, instalou-se em Oslo.        influncia, s em 1957 reconstituiu-se oficial-
Em 1935, Eitingon negou qualquer participa-         mente um grupo psicanaltico dinamarqus, fi-
o nesse episdio, que entretanto ele havia        liado  IPA, a Dansk Psykoanalytisk Selskab
habilmente arquitetado.                             (DPS). Alis, s em 1975 foi criada uma nova
184     Escandinvia

sociedade norueguesa, a Norsk Psykoanalitisk       dia, essa fragmentao se produziu a partir de
Forening (NPF). Nessa data, os pioneiros e         1943.
imigrantes haviam desaparecido, e os dois gru-         Durante a Segunda Guerra Mundial, apenas
pos, compostos de terapeutas annimos, se re-      a Sucia declarou sua neutralidade. Mas nem
gularizaram sem obstculos, s custas de uma       por isso serviu de refgio para os vrios freu-
progressiva esclerose.                             dianos da Europa, que preferiram emigrar para
    Na Sucia, onde a marca das teses reichianas   a Gr-Bretanha*, para os Estados Unidos ou
no se manifestou, outros problemas surgiram.      para a Amrica Latina. Enquanto o corajoso
Alfhild Tamm no teve energia suficiente para      Harald Schjelderup decidiu engajar-se na luta
dar vida  Sociedade Psicanaltica Sueca, que      antinazista, depois de recusar a proposta de
logo caiu na apatia. Apesar da interveno de      Matthias Heinrich Gring para criar em Oslo
Ludwig Jekels*, que tentou, com o apoio de         um instituto "arianizado" a partir do modelo do
Freud, dar impulso ao grupo de Estocolmo e         instituto de Berlim, Poul Bjerre adotou, ao
formar didatas, no houve melhora. E quando        contrrio, uma atitude ambgua, mantendo com
Jekels deixou a Sucia, no vero de 1937, de-      Gring, desde 1933, excelentes relaes em
pois de uma permanncia de trs anos, expres-      nome de um diferencialismo que assimilava o
sou seu pessimismo quanto ao futuro da psica-      freudismo a um semitismo to fantico quanto
nlise nesse pas. Em 1943, com a morte de         o hitlerismo. Por sua vez, o psicanalista Tore
Kulovesi, a Sociedade Fino-Sueca foi dis-          Ekman (1887-1971), formado no BPI, ficou na
solvida, sendo substituda por uma associao      Alemanha* at 1943 e trabalhou no Instituto
exclusivamente sueca, a Svenska Psykoanaly-        Gring. Ao voltar, foi acusado pelos colegas de
                                                   colaborao com o nazismo. Posteriormente,
tiska Freningen (SPF), que durante muitos
                                                   conseguiu abafar o caso e reintegrar-se  SPF,
anos contou apenas com oito membros. Nessa
                                                   mascarando o seu passado.
data, a psicanlise desapareceu da Finlndia,
                                                       Em 1943, Ren De Monchy * instalou-se em
onde alis tivera apenas uma breve existncia
                                                   Estocolmo, em companhia de sua mulher, judia
na pessoa do seu fundador. Em 1969, uma as-
                                                   sueca, Vera Palmstierna, tambm psicanalista,
sociao finlandesa foi novamente constituda
                                                   que no podia prosseguir suas atividades nos
e filiada  IPA, a Suomen Psykoanalyyttinen
                                                   Pases Baixos sob a ocupao nazista. Como
Yhdistys (SPY). Teria uma progresso es-
                                                   Jekels, De Monchy tentou estimular o freudis-
petacular: 130 membros em 1993 (tantos quan-       mo sueco, formando didatas segundo os crit-
to a SPF).                                         rios da IPA, e, nesse aspecto, teve um papel
    Na Sucia, como nos outros pases nrdicos,    determinante na Sucia, no ps-guerra. Lajos
as teorias freudianas logo sofreram a concor-      Szkely (1904-1995), jovem psiclogo judeu
rncia do florescimento de mltiplas escolas de    hngaro, analisado por Wilma Kovacs (1882-
psicoterapia*, nascidas da slida implantao      1940) e por De Monchy, contribuiu tambm
da psicologia no mago do saber psiquitrico e     para formar didatas em Estocolmo.
da universidade. Freqentemente, tinham como           A partir de 1952, data em que De Monchy
lderes ex-pioneiros do freudismo, que na reali-   voltou para a Holanda, a psicanlise no teve
dade nunca tinham sido freudianos nem anali-       expanso significativa nos pases escandinavos.
sados. Nesse aspecto, Poul Bjerre e Sigurd         Os grupos filiados  IPA manifestaram um
Naesgaard tiveram um papel importante. Em          conservadorismo estreito no seio de suas ins-
1932, criaram juntos na Noruega a Nordisk          tituies respectivas, dominadas pela auto-sa-
Psykoanalytisk Samfund e, no ano seguinte,         tisfao ou pela retirada melanclica. Marcadas
participaram com Johannes Strmme da fun-          por seu passado reichiano (que desejavam apa-
dao de outra associao, a Psykoanalytisk        gar), a DPS e a NPF no teriam grande expan-
Samfund, reivindicando o sincretismo terico e     so: 30 membros na primeira, 44 na segunda,
formando psicoterapeutas de diversas ten-          no fim dos anos 1990.
dncias: biologismo, eletroterapia, comporta-          Em 1963, alguns membros da Sociedade
mentalismo, terapias corporais etc. Na Finln-     sueca promoveram uma ciso*, reprovando a
                                                                                 Escandinvia         185

ortodoxia dos colegas e proclamando as teses       veu-se assim uma corrente dinmica que per-
de Karen Horney*. Cinco anos depois, forma-        mitiu a introduo da obra de Melanie Klein*
ram um grupo de psicoterapia psicanaltica que     na Sucia e, mais amplamente, a difuso dos
procurou reintegrar-se  IPA no fim dos anos       textos da escola inglesa: os de Donald Woods
1990. De modo geral,  medida que se integra-      Winnicott* e de Michael Balint*, principal-
vam  IPA, as sociedades psicanalticas nrdi-     mente. No fim dos anos 1990, o GPI chegaria a
cas recuperavam uma certa unidade, que se          uma centena de membros. Posteriormente e a
concretizou com a publicao, em 1978, de uma      ttulo individual, alguns psicanalistas escan-
revista oficial, dita "escandinava", editada em    dinavos comearam a atar relaes com a Fran-
ingls, em Copenhague: The Scandinavian Psy-       a* e com as correntes divergentes do lacanis-
choanalytic Review. Em tal situao, marcada       mo*. Entretanto, nenhum dos grandes compo-
pela estreiteza de esprito e pelo conformismo,    nentes do freudismo moderno (kleinismo*, la-
s algumas brilhantes personalidades do mun-       canismo, Ego Psychology* etc.) implantou-se
do intelectual e acadmico deram impulso          verdadeiramente nos pases nrdicos nem nessa
redescoberta da obra freudiana. Assim, Ola An-     "noite sueca", em que Michel Foucault (1926-
dersson* teve um papel pioneiro no nascimento      1984) foi duramente criticado pelo professor
da historiografia* freudiana, cuidando tambm      Sten Lindroth (1914-1980), depois de encon-
da traduo sueca dos textos do fundador, e Carl   trar, em 1959, na biblioteca Carolina Rediviva
Lesche (1920-1993), finlands que emigrara         todos os arquivos necessrios  redao de seu
para a Sucia, se distinguiu por seus trabalhos    grande livro Histria da loucura na idade cls-
de hermenutica. Tentou definir o lugar da dou-    sica.
trina psicanaltica diante das cincias da natu-
reza, e distinguir o seu mtodo dos outros tipos    Sigmund Freud, A histria do movimento psicanaltico
                                                   (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV, 7-66;
de psicoterapia*. No fim da vida, converteu-se     Paris, Gallimard, 1991  Bror Gadelius, Tro och hel-
 religio ortodoxa. O grande crtico literrio    brgdagrelse jmte en kritisk studie av psykoanaly-
sueco Gunnar Brandell (1916-1995) redigiu          sen [Crena e cura pela f com um estudo crtico sobre
uma obra sobre Freud que teve um grande            a psicanlise], Estocolmo, Hugo Gebers Frlag, 1934
                                                    Michel Foucault, Histria da loucura na idade clssica
sucesso e foi traduzida em vrias lnguas. En-     (Paris, 1962), S. Paulo, Perspectiva, 1978  Jacques
fim, o finlands Mikael Enckell, filho do poeta    Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge
Robbe Enckell (1903-1974), publicou textos         Zahar, 1998  Gunnar Brandell, Freud, enfant de son
sobre a literatura e a questo da judeidade*.      sicle (Estocolmo, 1961), Paris, Lettres modernes,
                                                   1967  Carl Lesche, A Metascientific Study of Psycho-
    A partir do incio dos anos 1970, a obra de    somatic Theories and their Application in Medicine,
Jacques Lacan* passou a suscitar certo interesse   Copenhague, Munksgaard, 1962  Reich parle de
nos pases escandinavos, onde vrios repre-        Freud (N. York, 1967), Paris, Payot, 1970  Mikael
sentantes da escola estruturalista francesa j     Enckell, Det dolda motivet, Helsinki, Sderstrm, 1969
                                                    Nigel Moore, "Psychoanalysis in Scandinavia", 1
tinham suas obras traduzidas: Roland Barthes       parte: "Sweden and Finland", The Scandinavian Psy-
(1915-1980), Claude Lvi-Strauss etc. Em           choanalytic Review, 1, 1978, 9-64  Reimer Jensen e
1973, foi publicada uma primeira edio dina-      Henning Paikin, "On psychoanalysis in Denmark", ibid.,
marquesa dos Escritos, compreendendo oito          2, vol.3, 1980, 103-16  Randolf Alnaes, "The develop-
                                                   ment of psychoanalysis in Norway. An historical over-
dos trinta e quatro artigos. Outras se seguiram.   view", ibid., 2, vol.3, 1980, 55-101  Bjrn Killingmo,
Mas s em 1981 alguns clnicos isolados se         Forut for sin tid? En vurdering av Harald Schjelderups
interessaram realmente pela obra. E a Dinamar-     psykooanalytiske forfatterskap, Oslo, Universitetsforla-
ca foi o nico dos quatro pases onde se cons-     get, 1984  Michael Meyer, Strindberg August (Londres,
                                                   1985), Paris, Gallimard, 1993  Franz Luttenberger,
tituiu um grupo lacaniano.                         Freud i Sverige, Estocolmo, Carlssons Bokfrlag, 1989
    Em 1974, na Sucia, por iniciativa de dois      Bertil Nolin (org.), Kulturradikalismen Det moderna
exilados argentinos membros da IPA, Dora e         genombrottets andra fas, Stehag, Brutus stlings Fr-
Angel Fiasche, foi criado o Gteborg Psykote-      lag Symposion, 1993  Juhani Ihanus, Vietit vai henki,
                                                   Helsinki, Yliopistopaino, 1994  Finn Hansen e Sverre
rapi Institut (GPI). Nessa cidade porturia da     Varvin, "Norway", in Peter Kutter (org.), Psychoanalysis
costa oeste, onde nascera Poul Bjerre e onde no   International. A Guide to Psychoanalysis throughout
havia nenhum grupo psicanaltico, desenvol-        the World, vol.2, Stuttgart, Friedrich Frommann Verlag,
186      Escola Ortognica de Chicago

1995, 306-19  Per Magnus Johansson, "Ur arkivet, Ola       Enquanto na Frana essa primeira fase de
Anderssons insats", Ord och Bild, 6, 1994, 65-7  Ola
                                                        introduo desembocou em 1926 na criao da
Andersson, Freud avant Freud. La Prhistoire de la
psychanalyse (1962), Paris, Synthlabo, col. "Les em-   Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP), na Es-
pcheurs de penser en rond", 1996.                      panha no houve nada disso. Na verdade, longe
                                                        de se orientar para a prtica da psicanlise,
 FEDERAO       EUROPIA DE PSICANLISE; HUN-          criando um grupo freudiano, os pioneiros espa-
GRIA.
                                                        nhis incorporaram os dados do freudismo* ao
                                                        saber psiquitrico, deixando lugar no para a
                                                        constituio de uma corrente crtica ou de uma
Escola Ortognica de Chicago                            escola ligada  ortodoxia, como ocorreu por
 BETTELHEIM, BRUNO.                                     toda a parte, mas apenas para um movimento
                                                        antifreudiano, amplamente orquestrado pela
                                                        Igreja* catlica.
escotomizao                                               Nesse contexto, Angel Garma* no conse-
 FORACLUSO; LAFORGUE, REN.                            guiu fundar, ao voltar de Berlim em 1931, ne-
                                                        nhuma sociedade psicanaltica na Espanha.
                                                        Chocou-se com a indiferena geral e depois
escrita automtica                                      com a hostilidade crescente. A exploso da
 AUTOMATISMO MENTAL;        FRANA; JANET, PIER-        guerra civil o obrigou a se exilar na Argentina*,
RE.                                                     impedindo qualquer institucionalizao do
                                                        freudismo.
                                                            Do lado literrio, Ortega y Gasset no
Espanha                                                 deixou herana. Quando voltou  Espanha de-
    Como em todos os outros pases da Europa,           pois de ter emigrado, j no se interessava mais
e principalmente na Frana*, as teses freudianas        pela psicanlise: "No se pode citar nenhum
foram acolhidas na Espanha de maneira crtica,          romancista espanhol da segunda metade do s-
e foi pelas resistncias suscitadas e por acu-          culo, escreveu Christian Delacampagne, para
saes diversas (obscenidade, pansexualismo*,           quem a psicanlise tenha constitudo fonte de
metapsicologismo etc.) que elas encontraram             inspirao ou de criao. Quanto aos raros artis-
eco nos meios mdicos e psiquitricos. Em sua           tas para os quais ela parece ter tido esse papel
tese de 1983, Francisco Carles Egea registrou           -- o cineasta Buuel, os pintores Dali ou Clav
95 trabalhos dedicados  psicanlise* (livros e         -- estes pertencem a uma gerao j antiga, a
artigos) no perodo 1893-1922. Entre estes, des-        gerao surrealista, que, alm disso, realizou
taca-se o papel pioneiro de certos psiquiatras          grande parte de sua obra fora da Espanha."
que criticaram a obra freudiana, embora dando-              Compreende-se ento por que, j em 1936,
lhe um lugar central: Jos Sanchis Banus (1890-         Lopez Ibor, representante de uma concepo
1932), reformador do asilo e militante socialis-        repressora e reacionria da psiquiatria, conse-
ta, Gonzalo Rodriguez Lafora*, Enrique                  guiu ocupar tal lugar, publicando um livro de
Fernandez Sanz (1872-1950), presidente da Li-           antemas contra Freud, Vida e morte da psica-
ga de Higiene Mental, formado na escola fran-           nlise, que escamoteava todos os trabalhos dos
cesa e na nosografia alem, Rafael Valle y Al-          pioneiros espanhis.
dabalde (1863-1937), engajado na extrema di-                Depois da Segunda Guerra Mundial, a psi-
reita e mandarim da psiquiatria madrilenha, e           canlise foi banida da Espanha durante 30 anos,
Emilio Mira y Lopez (1896-1963), presidente             enquanto o saber psiquitrico, violentamente
da Sociedade Psiquitrica da Catalunha. Alm            antifreudiano, tomava uma orientao ultra-
dessa difuso por via mdica,  preciso enfatizar       organicista, e at policial, generalizando a utili-
o papel desempenhado nessa implantao pelo             zao da lobotomia, do eletrochoque e da insu-
filsofo Ortega y Gasset*, iniciador da primeira        linoterapia. Atravs das campanhas feitas pela
grande traduo das obras completas de                  Opus Dei, a psicanlise foi ento denunciada
Sigmund Freud*.                                         como um "compl judeu-manico" e Freud
                                                                                    Espanha       187

tratado de "gnio satnico". Quanto a Lopez          (1966) em duas associaes distintas: uma es-
Ibor, este tornou-se o porta-voz oficial dessa       panhola (Sociedad Espaola de Psicoanlisis,
psiquiatria franquista, cada vez mais hostil        SEP), a outra portuguesa (Sociedade Portugue-
psicanlise. Em 1951, reeditou seu livro sob um      sa de Psicanlise). Em 1971, foi criado um
novo ttulo (Agonia da psicanlise) e, em 1975,      instituto em Barcelona, muito influenciado pe-
renovou o seu antema com outra obra: Freud          las teses kleinianas. Posteriormente, os caste-
e seus deuses ocultos. Essas denncias lembra-       lhanos (Madri), abertos a uma maior diversi-
vam, por seu estilo, os tribunais da Inquisio.     dade de correntes, se separaram dos catales
Sublinhavam tambm a determinao do fran-           (Barcelona) e, em 1979, uma nova sociedade
quismo em identificar qualquer forma de mo-          componente foi reconhecida no Congresso de
dernidade a uma heresia.                             Nova York: a Asociacin Psicoanaltica de Ma-
    Excluda das instituies oficiais, a doutrina   drid (APM). Nenhum desses grupos conseguiu
freudiana interessava, entretanto, aos crculos      impulsionar a formao de um verdadeiro mo-
de mdicos que desejavam estudar textos e            vimento freudiano na pennsula ibrica. Nasci-
discutir questes clnicas.                          da no seio de um freudismo ortodoxo, a Socie-
    A primeira iniciativa foi tomada em 1948         dade espanhola (antes da separao entre Madri
por Molina Nunez, ex-analisanda de Garma, e          e Barcelona) contentou-se em existir, sem ques-
por Ramn del Portillo. Ambos entraram em            tionar o regime e adotando seus princpios hie-
contato com Garma. Formado na Alemanha*,             rrquicos. Todavia, estendeu suas atividades a
este os dirigiu para o presidente da Deutsche        alguns servios psiquitricos e a alguns cursos
Psychoanalytische Gesellschaft (DPG). Foi as-        universitrios.
sim que Carl Mller-Braunschweig*, que aca-              Em meados dos anos 1970, os dois grupos
bara de abandonar sua colaborao no Gring          no contavam com mais de cem clnicos nem
Institut, foi convidado para ajudar os espanhis     tinham adquirido identidade intelectual ou te-
a construir o primeiro crculo psicanaltico do      rica no campo do freudismo, apesar da chegada,
regime franquista. Aconselhou seus interlocu-        em 1976, do argentino Leon Grinberg, que se
tores a chamar uma de suas alunas, Margarete         exilara com a sua mulher Rebecca. Quanto 
Steinbach. Tambm ela fizera parte do instituto      pequena sociedade portuguesa (cerca de 30 mem-
alemo. Instalada em Madri, iniciou na anlise       bros), era um pequeno grupo em vias de desen-
didtica* vrios terapeutas reunidos em um gru-      volvimento, diante da fora do freudismo brasi-
po de uma dezena de mdicos. Morreu em 1954.         leiro. Tudo se passava como se os ex-coloniza-
    Em Barcelona, como em Madri, outros can-         dos do continente americano tivessem a revan-
didatos entraram em contato com colegas por-         che sobre os seus ex-colonizadores europeus.
tugueses, cuja situao sob Salazar era idntica         Com a instaurao do terrorismo na Argen-
 sua sob Franco. Foram  Sua* e  Gr-Breta-      tina*, contemporneo do fim do franquismo, o
nha* para receber uma formao didtica no           lacanismo* comeou a se implantar na Espanha,
quadro da International Psychoanalytical Asso-       graas  ao de Oscar Masotta*. Depois de
ciation* (IPA). Como o regime franquista             fundar a Escuela Freudiana de Buenos Aires
no tinha nem eliminado a liberdade de asso-         (EFBA), instalou em Barcelona, em 1976, a Bi-
ciao, nem impedido os intercmbios cultu-          blioteca Freudiana. Essa associao serviu para
rais, nem proibido a prtica das diversas psico-     difundir a obra de Jacques Lacan* em lngua
terapias*, foi possvel fundar uma associao        castelhana. Depois da morte do seu fundador,
psicanaltica reunindo os crculos de Madri e de     ela originou, atravs de sucessivas cises, como
Barcelona.                                           por exemplo a EFBA, vrios grupos lacanianos
    Em uma primeira etapa, um grupo luso-es-         que criaram, diante do elitismo de seus rivais da
panhol se integrou  IPA em 1957, no Congres-        IPA, uma forma de psicanlise de massa. Nesse
so de Paris, sob o patrocnio da Sociedade Sua     pas, onde nenhuma tradio clnica de inspira-
de Psicanlise (SSP). Em uma segunda etapa,          o psicanaltica se implantara nos meios psi-
depois de ser reconhecida como sociedade             quitricos durante todo o franquismo, o lacanis-
componente em 1959, essa sociedade cindiu-se         mo surgia como movimento de vanguarda.
188      espelho, estdio do

    Depois da morte de Lacan e da reorganiza-              ros estudiosos europeus do sculo XIX, dentre
o empreendida por Jacques-Alain Miller, a                eles Frederick Myers*, na Inglaterra, Charles
maioria dos grupos se fundiu com a criao em              Richet (1850-1935), na Frana*, e Thodore
Barcelona, em setembro de 1990, da Escola                  Flournoy*, na Sua*. Cinqenta anos depois,
Europia de Psicanlise (EEP), que logo se                 fascinou Andr Breton (1898-1966) e os sur-
transformaria, no interior da Association Mon-             realistas, assim como havia fascinado Victor
diale de Psychanalyse* (AMP), em um plo                   Hugo (1802-1885). Todos buscaram nele um
avanado da corrente milleriana na Europa. No              meio de atingir aquele outro lado da conscincia
fim do sculo, a Espanha se tornou assim o                 -- o subconsciente ou eu* subliminar -- em
nico pas em que essa tendncia  amplamente              cujo funcionamento se pensava em termos de
majoritria, ao contrrio da Argentina e da Fran-          automatismo* mental ou psicolgico.
a: doze grupos, repartidos em treze cidades ou                Algumas das mulheres que foram grandes
regies (entre as quais Las Palmas, nas Can-              mdiuns de cientistas, poetas e romancistas ce-
rias) e ligados  Escola Europia de Psicanlise           lebrizaram-se: Catherine-lise Mller (1861-
(EEP), esta tambm integrante da AMP.
                                                           1929), por exemplo, herona do livro Des Indes
 Christian Delacampagne, "La Psychanalyse dans la          la plante Mars, publicado por Flournoy em
Pninsule Ibrique", in Roland Jaccard (org.), Histoire    1900, ou ento Hlne Preiswerk*, prima de
de la psychanalyse, II, Paris, Hachette, 1982, 383-94     Carl Gustav Jung*. No plano genealgico, essas
Francisco Carles Egea, La Introduccin del psicoan-
lisis en Espaa (1893-1922), tese para obteno do
                                                           mulheres, que faziam mesas girarem ou inven-
grau de doutor em medicina, Universidade de Murcia,        tavam lnguas desconhecidas (glossolalia),
1983  Maria Luisa Munoz e Rebecca Grinberg,               eram as descendentes das videntes, das curan-
"Spain", in Peter Kutter (org.), Psychoanalysis Interna-   deiras, das feiticeiras ou das profetisas. Como
tional. Guide to Psychoanalysis throughout the World,
Stuttgart-Bad Cannstatt, Frommann-Holzboog, 1992.          estas, eram dotadas de uma personalidade ml-
                                                           tipla* e procuravam levar aos homens a arte da
 BRASIL; HISTRIA DA PSICANLISE; ITLIA; NA-              adivinhao. Entretanto, com o nascimento do
ZISMO.                                                     alienismo e da primeira psiquiatria dinmica*
                                                           no fim do sculo XVIII, transformaram-se em
                                                           objetos de estudo da psicopatologia. Depois de
espelho, estdio do                                        terem sido princesas de um reino das trevas ou
 ESTDIO DO ESPELHO.                                       soberanas de um mundo imaginrio, fundamen-
                                                           tado na magia, elas se tornaram loucas, histri-
                                                           cas, agitadas ou esquizofrnicas -- em suma,
espiritismo                                                doentes mentais.
al. Spiritismus; esp. espiritismo; fr. spiritisme; ing.
                                                               Historicamente, o espiritismo, em sua forma
spirit-rapping
                                                           moderna, nasceu por volta de 1840, sobre as
Termo derivado do ingls spirit rapping (ou comu-          runas do magnetismo mesmeriano, e permitiu
nicao por pancadas sonoras com os espritos)
                                                           que o hipnotismo se disseminasse numa nova
para designar uma doutrina segundo a qual os
                                                           doutrina do conhecimento do inconsciente*, do
vivos poderiam comunicar-se com os mortos por
intermdio de um mdium, denominado esprita.
                                                           qual emergiria a psicanlise, no alvorecer do
                                                           sculo XX.
    Na historiografia da psicanlise*, o espiritis-
mo e a telepatia* (ou transmisso do pensamen-
                                                            Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de
to a distncia) so considerados pertinentes ao            l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
campo do ocultismo* ou do oculto.                          1974), Paris, Fayard, 1994  Pascal Le Malfan, Les
    O espiritismo diz respeito  histria da pa-           Dlires spirites, le spiritisme et la mtapsychique dans
rapsicologia, assim como o ocultismo, a telepa-            la nosographie psychiatrique, tese de mestrado, Uni-
                                                           versidade Paris-V, 1989; "Mdiumnit, mtapsychique
tia ou o sonambulismo. Contudo,  tnue a fron-
                                                           et folie au dbut du XXe sicle", L'volution Psychiatri-
teira entre o estudo positivista do psiquismo e a          que, 56, 4, 1991, 861-74  Nicole Edelman, Voyantes,
tentao faustiana de conquistar o domnio do              gurisseuses et visionnaires en France 1785-1914,
irracional. O espiritismo foi adotado por inme-           Paris, Albin Michel, 1995.
                                                                                  esquizofrenia      189

 AUGUSTINE; BENEDIKT, MORIZ; GR-BRETA-                 contava com todos os detalhes aquela vida de
NHA; HIPNOSE; HISTERIA; JANET, PIERRE; LAIR LA-         criancinha de bero. De repente, Louis parou de
MOTTE, PAULINE; LOUCURA; SUGESTO.                      esfregar suas pernas uma na outra e disse em
                                                        voz lenta: -- Os anjos so brancos."
                                                            Como sublinhou Jean Garrab, o alienista
esquizo-anlise                                         francs Bndict-Augustin Morel (1809-1873)
 ESQUIZOFRENIA; GUATTARI, FLIX; PSICOTERA-             foi quem primeiro descreveu essa forma de
PIA INSTITUCIONAL.                                      loucura, em seus Estudos clnicos de 1851-
                                                        1852, e quem depois lhe deu, em seu Tratado
                                                        das doenas mentais, de 1860, o nome de de-
esquizofrenia                                           mncia precoce, a qual qualificou de "imobili-
al. Schizophrenie; esp. esquizofrenia; fr. schizo-      zao sbita de todas as faculdades". O adjetivo
phrnie; ing. schizophrenia
                                                        "precoce" significava que a demncia atingia
Termo cunhado em 1911 por Eugen Bleuler*, a             sujeitos na adolescncia ou em plena juventude.
partir do grego schizein (fender, clivar) e phrens         Ao contrrio da melancolia, da mania, da
(pensamento), para designar uma forma de loucu-
                                                        histeria* e da parania (j conhecidas antes de
ra* a que Emil Kraepelin* dera o nome de "demn-
                                                        serem denominadas), portanto, a demncia pre-
cia precoce", e cujos sintomas fundamentais so
                                                        coce era uma nova doena da alma, que atingia
a incoerncia do pensamento, da afetividade e da
ao (chamada Spaltung ou clivagem*), o ensimes-
                                                        com a impotncia e a hebetude jovens da socie-
mamento (ou autismo*) e uma atividade delirante.        dade burguesa, revoltados contra sua poca ou
    Contornado por Sigmund Freud*, que preferia         seu meio, mas incapazes de traduzir suas as-
falar de "parafrenias", o termo imps-se, entretan-     piraes de outro modo que no por um verda-
to, na psiquiatria e na psicanlise*, para caracteri-   deiro naufrgio da razo. A psiquiatria nascente
zar, ao lado da parania* e da psicose manaco-         procurou classificar esse estado e denomin-lo
depressiva* proveniente da melancolia*, um dos          em funo das outras entidades j identificadas.
trs componentes modernos da psicose* em geral.         Por isso  que o termo deu margem a numerosas
    Antes mesmo de receber o nome que lhe deu           discusses. Tratava-se realmente de uma doen-
Bleuler, essa forma de loucura fora descrita            a nova, ou seria uma afeco antiga, que estava
pelos mdicos do sculo XIX como uma de-                sendo batizada com outro nome? Durante todo
mncia em estado puro, caracterizada por um             o fim do sculo XIX e at a definio bleuleria-
retraimento do sujeito para dentro de si mesmo.         na, as opinies ficaram ainda mais divididas, na
Quase sempre jovem, o doente, homem ou mu-              medida em que era perfeitamente possvel in-
lher, mergulhava, sem nenhuma razo aparente,           cluir na histeria, por um lado, e na melancolia,
em tamanho estado de estupor e delrio, que             por outro, numerosos sintomas atribudos  de-
parecia perder definitivamente o contato com a          mncia precoce. Assim, entre 1898 e 1902, o
realidade.                                              psiquiatra alemo Sigbert Ganser (1853-1931)
    Em 1832, Honor de Balzac (1799-1850)               deu o nome de "histeria crepuscular" a uma
descreveu pela primeira vez, em Louis Lam-              sndrome que se parecia com a futura esquizo-
bert, a quintessncia do que viria a se transfor-       frenia bleuleriana: alucinaes, "falar sozinho",
mar no sintoma esquizofrnico: "Louis ficava            desorientao espao-temporal, confuso, es-
de p como eu o estava vendo, dia e noite, de           tupor, amnsia etc.
olhos vidrados, sem jamais baixar e erguer as               Em sua classificao, Emil Kraepelin
plpebras como costumamos fazer (...). Tentei           conservou essa noo, distinguindo trs grupos
falar-lhe em vrias ocasies, mas ele no me            de psicoses: a parania, a demncia precoce e a
ouvia. Era uma carcaa arrancada do tmulo,             psicose manaco-depressiva. Foi contra esse
uma espcie de conquista feita  morte pela             sistema que Bleuler inventou, ao mesmo tempo,
vida, ou feita  vida pela morte. Fazia cerca de        a noo de Spaltung (clivagem, dissociao,
uma hora que eu estava ali, mergulhado num              discordncia) e a palavra esquizofrenia: "Cha-
devaneio indefinvel, s voltas com mil idias          mo a demncia precoce de esquizofrenia por-
aflitivas. Escutava a Srta. de Villenoix, que me        que, como espero mostrar, a ciso das mais
190      esquizofrenia

diversas funes psquicas  um de seus traos        zofrenia. Esta se desenvolveu, na Frana* e na
mais importantes. Por uma questo de comodi-          Gr-Bretanha*, num quadro hospitalar, e, nos
dade, emprego essa palavra no singular, embora        Estados Unidos*, no contexto do movimento de
o grupo abarque, provavelmente, diversas              higiene mental que permitiu ao bleulerismo e
doenas."                                             ao freudismo se implantarem maciamente no
    Bleuler, insurgindo-se contra o niilismo te-      terreno da psiquiatria. Da a criao de numero-
raputico da escola alem, mais preocupada em         sas clnicas especializadas no tratamento das
classificar do que em tratar, criou a palavra         psicoses (e, mais particularmente, da esquizo-
esquizofrenia para integrar o pensamento freu-        frenia), e provenientes do modelo original de
diano no saber psiquitrico: a seu ver, com           Zurique, o Burghlzli. Dentre os grandes clni-
efeito, somente a teoria do psiquismo elaborada       cos da esquizofrenia, encontramos todas as ten-
por Freud permitia compreender os sintomas            dncias da psicanlise e da psicoterapia*: desde
dessa loucura. Mesmo preservando-lhe uma              o culturalismo* (Harry Stack Sullivan*, Grego-
etiologia orgnica, hereditria e txica, ele abriu   ry Bateson*, Frieda Fromm-Reichmann*) at a
caminho para uma concepo segundo a qual as          Self Psychology* (Paul Federn*, Heinz Kohut*,
idias de personalidade, eu e relao do sujeito      Donald Woods Winnicott*), passando pelo
com o mundo (interno e externo) desempe-              kleinismo* (Herbert Rosenfeld*, Marguerite
nhavam um papel considervel. Em outras pa-           Sechehaye*, Wilfred Ruprecht Bion*) e pela
lavras, essa nova demncia j no era uma             fenomenologia (Ludwig Binswanger*, Eugne
demncia e j no era precoce, mas englobava          Minkowski*).
todos os distrbios ligados  dissociao prim-          De maneira geral, a abordagem clnica ela-
ria da personalidade e conducentes a diversos         borada depois de 1945 privilegia o esquizofr-
sintomas, como o ensimesmamento, a fuga de            nico, em detrimento da esquizofrenia, e se ocu-
idias, a inadaptao radical ao mundo externo,       pa simultaneamente do meio familiar do sujeito
a incoerncia, as idias bizarras, e os delrios      e de sua evoluo psquica inconsciente, ao
sem depresso, nem mania, nem distrbios do           mesmo tempo que inventa tcnicas teraputicas
humor etc.                                            apropriadas, como a anlise direta*, por exem-
    Freud no retomou a definio de Bleuler,         plo. Foi na perspectiva de uma abordagem geral
preferindo pensar o campo da psicose sob a            das psicoses, herdada do ensino de Karl Abra-
categoria da parania, como mostra seu estudo         ham* e Sandor Ferenczi*, que Melanie Klein*
sobre Daniel Paul Schreber*. No obstante,            elaborou sua concepo da posio depressiva
assim como ele havia transformado a histeria          e da posio esquizo-paranide, para mostrar
num paradigma moderno da neurose*, Bleuler            que elas eram o destino comum de qualquer
fez da esquizofrenia o grande modelo estrutural       sujeito e que a "normalidade" era apenas uma
da loucura do sculo XX. Assim, a segunda             maneira de cada um superar um estado psicti-
psiquiatria dinmica* seria dominada, at cerca       co original.
de 1980, pelo sistema de pensamento freudo-               Do ponto de vista da fenomenologia, a es-
bleuleriano. Toda uma terminologia seria cu-          quizofrenia foi considerada por Minkowski co-
nhada, sobretudo pela escola francesa (Henri          mo uma alterao da estrutura existencial do
Claude* e Ren Laforgue*) e, mais tarde, por          sujeito, como uma perda de contato vital com a
Ernst Kretschmer*, para exprimir diversas mo-         realidade e, por ltimo, como uma incapacidade
dalidades dessa "esquize": desde a esquizoma-         de o doente se inscrever numa temporalidade.
nia, onde o autismo se faz presente sem a dis-        Para Binswanger, que apresentou a histria de
sociao, at a esquizoidia, caracterizada por        cinco grandes casos clnicos, dentre eles os de
um estado patolgico sem psicose, passando            Ellen West e Suzan Urban, a causalidade prim-
pela esquizotimia, a tendncia "morfolgica"         ria da esquizofrenia era o ingresso numa vida
interiorizao.                                       inautntica, conducente  "perda do eu na exis-
    Foram os sucessores de Freud, portanto, que       tncia", a uma grave alterao da temporalidade
se orientaram para a elaborao de uma verda-         e ao autismo, isto , a um "projeto de no ser
deira clnica psiquitrico-psicanaltica da esqui-    quem se ".
                                                                                esquizofrenia      191

    Ao se transformar na forma paradigmtica         se ater  definio psiquitrica da esquizofrenia,
da loucura do sculo XX, a esquizofrenia foi         Prinzhorn estendeu esse termo a uma forma de
igualmente objeto de um debate esttico e, mais      pensamento ou uma estrutura psquica capaz de
tarde, poltico. A partir de 1922 e buscando         produzir uma arte "selvagem", semelhante 
inspirao em biografias clssicas de figuras        das crianas e dos povos primitivos, com isso
patolgicas, Karl Jaspers (1883-1969) empe-          se associando ao debate que vinha ocorrendo,
nhou-se em estudar quatro destinos de criadores      na mesma poca, entre a antropologia* e a
retroativamente considerados esquizofrnicos:        psicanlise a propsito de Totem e tabu*.
Friedrich Hlderlin (1770-1843), Emmanuel                Essa concepo da esquizofrenia seria reto-
Swedenborg (1688-1772), Vincent Van Gogh             mada, a partir de 1955-1960, mediante algumas
(1853-1890) e August Strindberg (1849-1912).         modificaes, pelos artfices da antipsiquia-
Constatando que a noo de esquizofrenia era         tria* (David Cooper* e Ronald Laing*) e, mais
dbia e que a origem da doena podia ser atri-       tarde, teorizada na Frana por dois filsofos:
buda a uma leso cerebral, Jaspers, ainda as-       Michel Foucault (1926-1984) e Gilles Deleuze
sim, saiu do campo da nosografia, para subli-        (1925-1995). Em sua Histria da loucura na
nhar a existncia de uma vida espiritual prpria     idade clssica, publicada em 1961, Foucault
dessa forma de loucura: "Existe uma vida do          rejeitou qualquer diagnstico, fazendo da lou-
esprito da qual a esquizofrenia se apodera para     cura de Artaud, de Nietzsche, de Van Gogh e de
nela fazer suas experincias, criar suas fantasias   Hlderlin o instante mximo da obra: "Onde h
e implant-las; a posteriori, talvez possamos        obra, no h loucura; e no entanto, a loucura 
crer que essa vida espiritual basta para explic-    contempornea da obra, uma vez que inaugura
las, mas, sem a loucura, elas no poderiam           o tempo de sua verdade." No mesmo ano, Jean
manifestar-se da mesma maneira."                     Laplanche estudou a esquizofrenia de Hlder-
    Desde a dcada de 1920, a esquizofrenia,         lin, considerando-a um elemento inseparvel da
como alis a histeria, escapou, portanto,  defi-    obra do poeta.
nio bleuleriana, transformando-se na expres-           Quanto a Deleuze, em O anti-dipo -- Ca-
so de uma verdadeira linguagem da loucura,          pitalismo e esquizofrenia, livro redigido com
no "patolgica" mas subversiva, portadora de        Flix Guattari*, ele se apropriou do termo es-
uma revoluo formal e de uma contestao da         quizofrenia para faz-lo ressoar de outra manei-
ordem estabelecida. Foi essa a significao, em      ra. Os dois autores esforaram-se por repensar
1925, do manifesto surrealista intitulado "Let-      a histria universal das sociedades a partir de
tre aux mdecins-chefs des asiles de fous",          um nico postulado: o capitalismo, a tirania ou
inspirado por Antonin Artaud (1896-1948) e           o despotismo encontrariam seus limites nas
redigido por Robert Desnos (1900-1945): "Sem         mquinas desejantes de uma esquizofrenia
insistir no carter perfeitamente genial das         bem-sucedida, isto , nas redes de uma loucura
manifestaes de alguns loucos, desde que es-        no entravada pela psiquiatria. Ao imperialis-
tejamos aptos a apreci-las, afirmamos a abso-       mo do dipo* freudiano e  teoria lacaniana do
luta legitimidade de sua concepo da realidade      significante* os autores opuseram o princpio
e de todos os atos decorrentes dela."                de uma esquizo-anlise, fundamentada numa
    Foi com essa mesma perspectiva que o psi-        psiquiatria dita "materialista", da qual Wilhelm
quiatra alemo Hans Prinzhorn (1886-1933)            Reich*, contrariando Freud e Bleuler, teria sido
resolveu dedicar-se ao estudo das obras pls-        o primeiro porta-voz. O livro, notvel por sua
ticas produzidas por doentes mentais. Em seu         verve antidogmtica, pela beleza de seu estilo,
livro magistral, Expressions de la folie publica-    pela generosidade da inspirao e pelo valor
do em 1922, ele foi o primeiro a considerar          programtico de seu ideal bioqumico e energ-
essas produes no como uma ilustrao da           tico, no provocou nenhuma reforma do saber
patologia dos autores, mas como perfeitas obras      psiquitrico no campo do tratamento da esqui-
de arte. Batizou-as de "arte esquizofrnica" e as    zofrenia e se inscreveu, da maneira mais sim-
aproximou das diversas escolas pictricas mo-        ples do mundo, na histria progressista da psi-
dernas, sobretudo o expressionismo. Longe de         coterapia institucional*.
192      esquizofrenia

    Enquanto, impulsionada pela antipsiquia-          indivduos segundo o comportamento e os sin-
tria, ampliava-se a grande temtica libertria da     tomas. Ao mesmo tempo, a esquizofrenia e a
revolta esquizofrnica, os estudos clnicos so-       histeria desapareceram do quadro. Assim foram
bre o tratamento da esquizofrenia e da psicose        abolidos os dois grandes paradigmas da clnica
manaco-depressiva prosseguiram  sombra das          freudo-bleuleriana, que havia dominado o scu-
instituies hospitalares do mundo inteiro. Nes-      lo inteiro, dando uma nova significao ao uni-
se aspecto, uma revoluo pragmtica e tecno-         verso mental do homem moderno.
lgica foi introduzida pela farmacologia com a            Com o sucesso considervel do DSM nas
inveno dos neurolpticos, em 1952. Enquan-          sociedades industriais avanadas, a psiquiatria
to, no comeo do sculo, os esquizofrnicos           deixou o campo do saber clnico para se colocar
eram condenados a passar a vida em manic-            a servio dos laboratrios farmacuticos, e se
mios e muitos doentes eram selvagemente tra-          transformou numa psiquiatria sem alma e sem
tados, atravs da terapia insulnica, inventada       conscincia, baseada na crena nas plulas da
em 1932 por Manfred Sakel (1900-1957), de-            felicidade e adepta do famoso niilismo terapu-
pois, da neurocirurgia (ou lobotomia), introdu-       tico to combatido por Freud e Bleuler.
zida em 1935 por Egas Moniz (1874-1955) e,                Foi nessas novas classificaes tecnolgi-
finalmente, do eletrochoque, a contribuio da        cas, de inspirao farmacolgica, que se apoia-
psicanlise e das diferentes terapias -- kleinia-     ram, a partir de 1990, os numerosos trabalhos
na, freudiana, de famlia -- permitiu um pro-         cognitivistas referentes  esquizofrenia. Sem
gresso considervel no tratamento dessa forma         jamais trazer a mais nfima soluo para a cau-
de loucura.                                           salidade real dessa psicose, eles pretextaram
    A introduo dos diversos tratamentos far-        descobrir nela um fundamento neurolgico (a
macolgicos substituiu o antigo encerramento          "disfuno cognitiva"), mero retorno  Spalt-
carcerrio por uma camisa-de-fora qumica e          ung bleuleriana.
permitiu tratar os pacientes fora do hospcio.
Essa revoluo "pacfica", contempornea da            Sigmund Freud, "Notas psicanalticas sobre um relato
expanso do grande movimento de contestao           autobiogrfico de um caso de parania (Dementia
                                                      paranoides)" (1911), ESB, XII, 23-104; GW, VIII, 240-
da ordem psiquitrica dos anos de 1955-1970,          316; SE, XII, 1-79; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,
imps progressivamente seus mtodos no mun-           1954, 263-321; "Sobre o narcisismo: uma introduo"
do inteiro, ao preo da aniquilao de toda a         (1914), ESB, XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV,
concepo freudo-bleuleriana da psiquiatria di-       67-102; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 81-105 
                                                      Eugen Bleuler, Dementia praecox ou Groupe des schi-
nmica.                                               zophrnies (Leipzig, 1911), Paris, EPEL/GREC, 1993
    Podemos captar-lhe a evoluo, comparan-           Karl Jaspers, Psicopatologia geral, 2 vols. (1913), Rio
do as diferentes verses do Manual diagnstico        de Janeiro, Atheneu, 1979; Strindberg et Van Gogh
e estatstico dos distrbios mentais (DSM), pre-      (Basilia, 1949), Paris, Minuit, 1953  Hans Prinzhorn,
                                                      Expressions de la folie (1922), Paris, Gallimard, 1984
parado pela American Psychiatric Association           Eugne Minkowski, La Schizophrnie, Paris, Payot,
(APA). Publicado pela primeira vez em 1952,           1927  Ludwig Binswanger, "Der Fall Ellen West.
sob o ttulo de DSM I, a princpio ele foi influen-   Studien zum Schizophrenieproblem", Schweiz. Archiv
ciado pelas teses higienistas de Adolf Meyer*.        fr Neurologie und Psychologie, vols. LVIII, LIV e LV,
                                                      1945; Le Cas Suzan Urban (1952), Paris, Descle de
Em 1968, sob o nome de DSM II, tornou-se a            Brouwer, 1958; Schizophrenie, Pfullingen, Gnther
expresso de uma concepo puramente                  Neske, 1957  Jean Laplanche, Hlderlin e a questo
organicista da doena mental, da qual foi elimi-      do pai (Paris, 1961), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991
nada qualquer idia de causalidade psquica.           M. Bazot, G. Deleuze e H. Dumry, "Schizophrnie",
                                                      Encyclopaedia universalis, vol.XIV, 1968, 732-6  Gilles
Doze anos depois, aps vastos debates sobre os        Deleuze e Flix Guattari, O anti-dipo -- Capitalismo
abusos da psiquiatria na Unio Sovitica, edi-        e esquizofrenia (Paris, 1972), Rio de Janeiro, Imago,
tou-se um novo manual, o DSM III, no qual se          1976  Jacques Postel, "Schizophrnie", in Grand dic-
concretizou uma escolha deliberadamente               tionnaire de la psychologie, Paris, Larousse, 1991,
                                                      692-8  C.D. Frith, Neuropsychologie cognitive de la
"aterica". A prpria noo de doena da alma,        schizophrnie (Hove, 1992), Paris, PUF, 1996  Jean
ou loucura, com seus dois mil anos de idade, foi      Garrab, Histoire de la schizophrnie, Paris, Seghers,
liquidada, em prol de uma classificao dos           1992  David F. Allen, Vers une perspective axiologique
                                                                                               estdio      193

de la schizophrnie, tese de psicologia clnica, 2 vols.,   "falocntrica", nasceriam todos os debates ul-
Universidade Paris-VII, 1995.
                                                            teriores sobre a sexualidade feminina*, a dife-
                                                            rena sexual* e o gnero*, desde Melanie
                                                            Klein* at Jacques Lacan*, passando por Karen
esquizo-paranide, posio
                                                            Horney*, Helene Deutsch*, Simone de Beau-
 POSIO DEPRESSIVA/POSIO ESQUIZO-PARA-                   voir (1908-1986), os culturalistas e as feminis-
NIDE.
                                                            tas.
                                                                Desse modo, Freud relacionou a evoluo
                                                            da libido e a escolha de objeto, atravs das quais
estdio (oral, anal, flico, genital)
                                                            o sujeito passa do auto-erotismo* para o narci-
al. Stufe; esp. estadio; fr. stade; ing. phase
                                                            sismo*, em seguida para a escolha homos-
    A noo de estdio  comum  biologia                   sexual e, por ltimo, para a escolha heteros-
evolucionista,  psicologia e  psicanlise*.               sexual.
Com efeito, essas trs disciplinas tiveram o                    A teoria dos estdios seria reformulada mui-
cuidado de diferenciar idades da vida, etapas ou            tas vezes pelas diversas escolas. Em 1913, San-
momentos da evoluo. Foi no mbito de sua                  dor Ferenczi* diferenciou um estdio psquico
teoria da libido* e nos Trs ensaios sobre a                primrio, caracterizado por uma atividade liga-
teoria da sexualidade* que Sigmund Freud*                   da ao princpio de prazer* (sonho*, neurose*,
comeou a introduzir uma definio do estdio               fantasia*) e compartilhado pelas crianas, pelos
-- pr-genital (oral e anal) e genital -- em                animais e pelos "selvagens" (primitivos), e um
funo da evoluo do sujeito* e de sua relao             estdio psquico secundrio, o do homem nor-
com quatro zonas ergenas que se distribuem                 mal em estado de viglia.
por quatro regies do corpo: oral, anal, uretro-
                                                                Karl Abraham*, no contexto de uma teoria
genital e mamria. A cada zona correspondem
                                                            da relao de objeto* baseada na clivagem*
uma ou vrias atividades erticas, dentre as
                                                            entre neurose e psicose*, props, em 1924,
quais Freud inclui os atos mais simples da vida
                                                            subdividir o estdio oral num estdio oral pre-
cotidiana das crianas: suco do polegar ou do
                                                            coce (suco do seio) e num estdio sdico-oral,
seio materno, defecao e masturbao.
                                                            que corresponderia ao aparecimento dos dentes
    O estdio foi definido, nessa poca, como
                                                            e implicaria a idia de mordida ou destruio
uma modalidade de relao com o objeto. Aps
                                                            do objeto. Do mesmo modo, ele introduziu uma
mltiplas reformulaes, Freud definiria quatro
                                                            distino, no interior do estdio anal, entre uma
deles: o estdio oral, em que o prazer sexual est
                                                            primeira fase, na qual o erotismo est ligado 
ligado  excitao da cavidade bucal e  suco
                                                            evacuao e  destruio do objeto, e uma
(comer/ser comido); o estdio anal (ou sdico-
                                                            segunda, onde o erotismo se caracteriza pela
anal), em que o erotismo se define (entre 2 e 4
                                                            reteno e pelo desejo de posse do objeto. A
anos) em relao  atividade de defecao e de
                                                            passagem de uma fase para a outra define um
acordo com um simbolismo obsessivo das
                                                            progresso (impulso para uma escolha de objeto)
fezes, do dom e do dinheiro; o estdio flico,
                                                            ou uma regresso (evoluo para a destruio e
em que a unificao das pulses* parciais, tanto
                                                            o ensimesmamento).
no menino quanto na menina, efetua-se sob a
                                                                A partir da herana de Abraham, Melanie
primazia do rgo genital masculino; e, por
                                                            Klein introduziu a idia de posio (depressiva
ltimo, o estdio genital, que se institui na
                                                            e esquizo-paranide*), para dar um estatuto
puberdade e marca a passagem para a sexuali-
                                                            mais estrutural  idia de estdio, enquanto
dade* adulta.
                                                            Lacan conservou essa palavra (com seu estdio
    A noo de estdio flico s veio a surgir
                                                            do espelho*), dando-lhe um contedo ao mes-
num artigo de 1923, "A organizao genital
                                                            mo tempo fenomenolgico e prximo da posi-
infantil", mas a do falicismo j estava presente
                                                            o no sentido kleiniano.
em 1915 num adendo aos Trs ensaios, o que
permitiu a Freud atribuir  libido uma nica                 Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da
essncia, de natureza masculina (viril), tanto na           sexualidade (1905), ESB, VII, 129-212; GW, V, 29-145;
menina quanto no menino. Dessa tese, dita                   SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; "Contri-
194       estdio do espelho

buies  psicologia do amor" (1910), ESB, XI, 149-         o eu do isso para fazer dele o instrumento de
162; GW, VIII, 66-77; SE, XI, 163-75; in La Vie sexuelle,
                                                            uma adaptao do indivduo  realidade exter-
Paris, PUF, 1969, 47-55; "As transformaes da pulso
exemplificadas no erotismo anal" (1917), ESB, XVII,         na, ao passo que, na segunda, a do kleinismo* e
159-70; GW, X, 402-10; SE, XVII, 125-33; in La Vie          do lacanismo* e, mais tarde, da Self Psycholo-
sexuelle, Paris, PUF, 1969, 106-12; "Tipos libidinais"      gy*, ele era reconduzido ao isso, para mostrar que
(1931), ESB, XXI, 251-8; GW, XIV, 509-13; SE, XXI,
                                                            se estruturava por etapas, em funo de imagos*
215-20; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 156-9 
Sandor Ferenczi, "O desenvolvimento do sentido de           retiradas do outro* ou de identificaes proje-
realidade e seus estgios" (1913), in Psicanlise II,       tivas*.
Obras completas, 1913-1919 (Paris, 1970), S. Paulo,             Em 1931, o psiclogo Henri Wallon (1879-
Martins Fontes, 1992, 39-54  Karl Abraham, "Breve          1962) deu o nome de "prova do espelho" a uma
estudo do desenvolvimento da libido, visto  luz das
perturbaes mentais" (1924), in Teoria psicanaltica       experincia pela qual a criana, colocada diante
da libido, Rio de Janeiro, Imago, 1970.                     de um espelho, passa progressivamente a dis-
                                                            tinguir seu prprio corpo da imagem refletida
 CULTURALISMO; LANZER, ERNST; FALO; FALO-                   deste. Essa operao dialtica se efetuaria, se-
CENTRISMO; NEUROSE OBSESSIVA; TOTEM E TABU.
                                                            gundo Wallon, graas a uma compreenso sim-
                                                            blica, por parte do sujeito*, do espao imagi-
                                                            nrio em que ele forjava sua unidade. Na pers-
estdio do espelho
                                                            pectiva walloniana, a prova do espelho especi-
al. Spiegelstadium; esp. estadio del espejo; fr. s-
                                                            ficava a passagem do especular para o imagin-
tade du miroir; ing. looking-glass-phase
                                                            rio* e, em seguida, do imaginrio para o simb-
Expresso cunhada por Jacques Lacan*, em 1936,              lico*.
para designar um momento psquico e ontolgico                  Durante uma conferncia proferida na So-
da evoluo humana, situado entre os primeiros
                                                            ciedade Psicanaltica de Paris (SPP) em 16 de
seis e dezoito meses de vida, durante o qual a
                                                            junho de 1936, Lacan retomou a terminologia
criana antecipa o domnio sobre sua unidade cor-
poral atravs de uma identificao* com a imagem
                                                            de Wallon, transformando a prova do espelho
do semelhante e da percepo de sua prpria ima-            num "estdio do espelho", isto , numa mistura
gem num espelho. No Brasil tambm se usam                   de posio, no sentido kleiniano, e estdio*, no
"estgio do espelho" e "fase do espelho".                   sentido freudiano. Assim desapareceu a refe-
    A freqentao do seminrio do filsofo                 rncia walloniana a uma dialtica natural: na
Alexandre Kojve (1902-1968) permitiu a Jac-                perspectiva lacaniana, o estdio do espelho j
ques Lacan, a partir de 1933, iniciar-se na filo-           no tinha muito a ver com um verdadeiro es-
sofia hegeliana e se interrogar sobre a gnese do           tdio nem com um verdadeiro espelho. Trans-
eu*, por intermdio de uma reflexo filosfica              formava-se numa operao psquica, ou at on-
concernente  conscincia* de si. Assim  que,              tolgica, pela qual o ser humano se constitui
tal como Melanie Klein*, ele foi levado a pro-              numa identificao com seu semelhante.
por uma leitura da segunda tpica* freudiana                    Segundo Lacan, que retirou essa idia do
que tinha o sentido contrrio ao da psicologia              embriologista holands Louis Bolk (1866-
do eu. Duas opes eram possveis, com efeito,              1930), a importncia do estdio do espelho
aps a reformulao feita por Sigmund Freud*                devia ser ligada  prematurao do nascimento,
em 1920-1923. Uma consistia em fazer do eu o                objetivamente atestado pelo carter anatomica-
produto de uma diferenciao progressiva do                 mente inacabado do sistema piramidal e pela
isso*, agindo como representante da realidade               falta de coordenao motora dos primeiros me-
e encarregado de conter as pulses* (Ego Psy-               ses de vida.
chology*); a outra, ao contrrio, voltava as cos-               Por conseguinte, Lacan afastou-se da viso
tas a qualquer idia de autonomizao do eu,                psicolgica prpria de Wallon, ao descrever
para estudar sua gnese em termos de identifi-              esse processo pelo prisma do inconsciente, e
cao.                                                      no mais pelo da conscincia, e ao afirmar que
    Em outras palavras, na primeira opo, que              o mundo especular onde se exprimia a identi-
seria em parte a do desenvolvimento da psica-               dade primordial do eu no continha nenhuma
nlise* nos Estados Unidos*, procurava-se tirar             alteridade.
                                                                                   Estados Unidos        195

    Foi no congresso da International Psychoa-             Estados Unidos
nalytical Association* (IPA) de Marienbad, em
                                                               Excelentes trabalhos foram consagrados 
1936, que Lacan exps pela segunda vez sua                 histria da psicanlise nos Estados Unidos, e
tese sobre o estdio do espelho. Interrompido              entre eles o de Nathan G. Hale. Essa obra
por Ernest Jones* ao cabo de alguns minutos,               monumental em dois tomos permite seguir to-
ele esqueceu de entregar sua comunicao, que              das as etapas da implantao do freudismo* no
se perdeu. Desse primeiro texto, conservaram-              pas que, de certa forma, "salvou" a psicanlise
se apenas algumas notas tomadas por Franoise              do nazismo*, transformando radicalmente seus
Dolto* na SPP. Mais tarde, Lacan integrou al-              ideais, sua prtica, sua essncia e sua tcnica.
guns trechos de sua conferncia num texto mui-             Sem a potncia norte-americana, e sem a emi-
to longo, dedicado  famlia e publicado em                grao macia, durante o perodo entre as duas
1938 na Encyclopdie franaise, a pedido de                guerras, da quase totalidade dos terapeutas da
Henri Wallon. O tema do estdio do espelho foi             Alemanha*, da ustria (Viena*), da Hungria*,
objeto de uma nova comunicao no congresso                da Itlia* e da Europa central, o freudismo
da IPA realizado em Zurique, em 1949, sob o                jamais teria atingido seu prestgio na histria
ttulo "O estdio do espelho como formador da              mundial.
funo do Eu [Je], tal como nos  revelada na                  Foi nos Estados Unidos que se desenvolveu
experincia psicanaltica".                                a maioria das grandes correntes freudianas --
                                                           Ego Psychology*, annafreudismo*, Self Psy-
 Jacques Lacan, Os complexos familiares na forma-         chology*, neofreudismo*, culturalismo* -- as-
o do indivduo (1938, Paris, 1984), Rio de Janeiro,      sim como todas as psicoterapias* inspiradas ou
Jorge Zahar, 1987; "O estdio do espelho como forma-       no na doutrina vienense: gestalt-terapia*, tera-
dor da funo do eu" (1949), in Escritos (Paris, 1966),
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 96-103; O Semin-
                                                           pia familiar*, anlise direta*, anlise transacio-
rio, livro 1, Os escritos tcnicos de Freud (1953-1954)    nal* etc. Acrescente-se a corrente representada
(Paris, 1975), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979; Es-      pela Escola de Chicago em torno de Franz
critos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998    Alexander* e da medicina psicossomtica*. Foi
 Franoise Dolto, "Notes sur le stade du miroir", 16 de   tambm no continente americano que se encon-
junho de 1936, indito  Louis Bolk, "La Gense de
                                                           traram todos os grandes dissidentes europeus
l'homme" (Iena, 1926), Arguments 1956-1962, vol.2,
Toulouse, Privat, 1-13  Henri Wallon, "Comment se         do movimento psicanaltico: Karen Horney*,
dveloppe chez l'enfant la notion de corps propre",        Wilhelm Reich*, Otto Rank*, Erich Fromm*.
Journal de Psychologie, novembro-dezembro de 1931,         Assim, no  surpreendente que a psicanlise
705-48; Les Origines du caractre chez l'enfant (1934),    dita "americana" tenha marcado tanto os pases
Paris, PUF, 1973  Jean Laplanche e Jean-Bertrand          anglfonos -- Canad* e Austrlia -- e o resto
Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.
Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  mile Jalley,
                                                           do mundo, principalmente o Japo*, assim co-
Wallon, lecteur de Freud et de Piaget, Paris, ditions     mo todos os pases egressos do comunismo* a
Sociales, 1981  Bertrand Ogilvie, Lacan. A formao       partir de 1989 e novamente abertos  prtica
do conceito de sujeito (Paris, 1987), Rio de Janeiro,      psicanaltica: Rssia*, Hungria etc.
Jorge Zahar, 1988  lisabeth Roudinesco, Histria da
                                                               Trs grandes correntes do freudismo, entre-
psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jacques Lacan. Esboo          tanto, permaneceram estranhas a essa potncia
de uma vida, histria de um sistema de pensamento          norte-americana: os Independentes*, o kleinis-
(Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994.       mo* e o lacanismo*. Smbolo da grande fora
                                                           clnica da escola inglesa (Gr-Bretanha*), o
 IMAGEM DO CORPO; NARCISISMO; OBJETO, RE-                  kleinismo implantou-se principalmente nos
LAO DE; POSIO DEPRESSIVA/POSIO ESQUI-                pases latino-americanos (Argentina*, Brasil*),
ZO-PARANIDE; SCHILDER, PAUL.                              enquanto os representantes do grupo dos Inde-
                                                           pendentes, de Michael Balint* a Donald Woods
                                                           Winnicott*, fizeram frutificar em todo o mundo
                                                           uma tradio exemplar: nem excessivamente de-
estados fronteirios                                       pendente da psiquiatria, nem excessivamente
 BORDERLINE.                                               estranha  medicina, nem excessivamente cen-
196     Estados Unidos

trada (como o kleinismo) na phantasia* e na         bre a sade mental, que o levaram a fundar a
realidade psquica*. Quanto ao lacanismo, nas-      psiquiatria americana.
cido na Frana*, seguiu o mesmo caminho que             Durante toda a primeira metade do sculo
o kleinismo e s se implantou nos pases latinos    XIX, o florescimento da psiquiatria coincidiu
e latino-americanos. Nos Estados Unidos, a          com o desenvolvimento dos state mental hos-
obra de Jacques Lacan*  essencialmente ensi-       pitals, verdadeiro sistema de assistncia que
nada na Universidade, nos departamentos de          tratava dos alienados indigentes, enquanto se
literatura. Amplamente utilizada pelas feminis-     criavam muitas fundaes e estabelecimentos
tas e pelos diferencialistas, ela revigorou, a      privados, especialmente dedicados ao trata-
partir dos anos 1970, todos os debates america-     mento da loucura. Continuando o trabalho de
nos sobre a sexualidade feminina* e a diferena     Rush, Dorothe Dix (1802-1887) tornou-se c-
sexual*. Note-se ainda que os principais debates    lebre em Massachusetts por sua piedade protes-
referentes  historiografia* se desenrolaram nos    tante e sua cruzada militante em favor da me-
Estados Unidos pelo fato de que os arquivos         lhoria das condies de vida das mulheres alie-
Freud se encontram depositados na Biblioteca        nadas. Suas mltiplas atividades resultaram na
do Congresso* de Washington.                        criao, em 1923, da poderosa American Psy-
    Para apreender as modalidades especficas       chiatric Association (APA), que teria um papel
da implantao da psicanlise na Amrica, de-       considervel na organizao da assistncia aos
vemos remontar ao fim do sculo XVIII e com-        doentes mentais.
parar trs concepes da democracia: a france-          Entre 1870 e 1908, esboaram-se trs gran-
sa, a inglesa e a americana.                        des vertentes que permitiriam posteriormente
    Nascida na Nova Inglaterra e fundada pelos      uma vasta implantao da psicanlise. Foram
descendentes dos puritanos, a democracia ame-       primeiro os "tratamentos de almas", realizados
ricana se baseia na Declarao de Indepen-          pelos pastores e praticados espontaneamente
dncia, assinada pelos "pais fundadores" a 4 de     pelas comunidades aldes e urbanas. Transio
julho de 1776, e na criao, dez anos depois, dos   para o tratamento psicanaltico, eles se desen-
Estados confederados, reunio de comunidades        volveram com a voga do espiritismo* e mis-
cujo projeto era de inspirao religiosa. De        turaram o canto, a prece e as invocaes para
essncia filantrpica e poltica, a Revoluo       desembocar depois na hipnose* e na sugesto*.
Americana se apoiava na preeminncia dos po-        Herdados da tcnica da confisso, cara aos pu-
deres locais, ao contrrio da Revoluo France-     ritanos, eles veiculavam um ideal de purificao
sa, que construiria um Estado centralizador e se    do esprito, que devia conduzir o sujeito* ao
diria universalista e desejosa de instituir uma     domnio de suas paixes e  adoo de uma
nova organizao social. Atravs de seus "pais      moral fundada na tolerncia e no respeito s
fundadores", o povo americano se considerava        diferenas.
fundamentalmente como o novo intrprete da              Por outro lado, a neurologia e a psicologia
Bblia e o herdeiro da antiga aliana divina com    influram no desenvolvimento das psicotera-
Israel.                                             pias. Enquanto o psiquiatra Edward Cowles
    Foi o advento de uma nova teoria do direito     (1837-1907) se apoiava em uma concepo fun-
individual que permitiu instituir o asilo moder-    cionalista da doena mental, Morton Prince*,
no e dar o primeiro impulso ao que se chamou        contemporneo de Pierre Janet* e de Thodore
de tratamento moral da loucura. Inspirando-se       Flournoy*, defendia a teoria associacionista de
em um ideal filantrpico, cultivado na mesma        Hughlings Jackson*, para impor o "estilo som-
poca pelo ingls William Tuke (1732-1822),         tico", estudando casos de personalidade mlti-
criador da casa de sade O Refgio, em York, e      pla*. Assim, dava aos distrbios psquicos uma
pelo francs Philippe Pinel (1745-1826), refor-     origem neurolgica, preconizando ao mesmo
mador do asilo de Bictre, Benjamin Rush            tempo um educational treatment (tratamento
(1746-1813) comeou por militar pela abolio       educativo). Disciplina mdica, a neurologia ser-
da escravatura, antes de assinar a Declarao de    via pois de substrato a uma vasta expanso da
Independncia. Em seguida, fez pesquisas so-        psiquiatria dinmica*.
                                                                           Estados Unidos       197

    Apesar de seu antifreudismo, Morton Prince          Como em todos os outros pases, a doutrina
participou da criao da prestigiosa Escola Bos-    freudiana da sexualidade* foi ento assimilada
toniana de Psicoterapia, onde se elaborou, entre    a um pansexualismo*. A partir de 1910, abri-
1895 e 1909, em torno de William James (1877-       ram-se por toda a parte discusses sobre o es-
1910), o mtodo de tratamento psquico mais         tatuto dessa famosa libido*. Sempre muito pr-
racional do mundo anglo-americano. Foi nesse        ticos, os americanos procuraram "medir" a
grupo, e principalmente com Stanley Gran-           energia sexual, provar com estatsticas a efic-
dville Hall*, Josiah Royce* e sobretudo James       cia dos tratamentos freudianos e fazer pesquisas
Jackson Putnam*, que a doutrina freudiana foi       sociolgicas para saber se os conceitos freudia-
acolhida com um formidvel entusiasmo.              nos eram aplicveis empiricamente aos proble-
     maneira de Eugen Bleuler* e na esteira da     mas psquicos dos indivduos. Nessas con-
tradio sua da higiene mental, Adolf Meyer*      dies, a psicanlise tendia a tornar-se, no
criticou o estilo somtico e perpetuou o esprito   continente americano, o instrumento de uma
de Benjamin Rush, introduzindo nos Estados          formidvel adaptao do homem  sociedade.
Unidos o estudo e o tratamento da esquizofre-           A idia de que a psicanlise pudesse ser
nia*. Nesse aspecto, contribuiu muito, como         subversiva veio do prprio Freud, que se consi-
Bleuler, para a extenso da clnica psicanaltica   derava um erudito spinozista que infligira ao
ao campo das psicoses*, mas recusando a con-        homem uma ferida profunda. Ela foi retomada
cepo freudiana de inconsciente*.                  pelos surrealistas, que foram os primeiros a
    Em uma perspectiva ao mesmo tempo mais          falar de "revoluo freudiana", em referncia 
                                                    tradio francesa da Revoluo de 1789.
freudiana e mais aberta s questes sociais,
                                                        Nos Estados Unidos, foi antes uma viso
William Alanson White* introduziu em Was-
                                                    teraputica da psicanlise que invadiu o campo
hington a psicanlise no tratamento das psi-
                                                    da cultura e da medicina, atribuindo menos
coses, enfatizando todavia a necessidade de um
                                                    importncia a seu sistema de pensamento do
distanciamento em relao  doutrina original.
                                                    que a seu poder de cura. A psicanlise se imps,
Formaria toda uma gerao de psiquiatras, entre
                                                    assim, como um novo ideal de felicidade, capaz
estes Smith Ely Jelliffe*, assim como o cultura-
                                                    de dar soluo  moral sexual da sociedade
lista antibleuleriano Harry Stack Sullivan*.
                                                    democrtica e liberal: o homem no estava
    Todas essas atividades, limitadas  costa       condenado ao inferno de suas neuroses e de suas
leste, contriburam para a expanso dos mto-       paixes. Pelo contrrio, podia curar-se delas.
dos de psicoterapias, que logo foram populari-          O sistema freudiano substituiu assim o "es-
zados pelos pastores, trabalhadores em sade        tilo somtico" da neurologia, a ponto de invadir
mental, mdicos e educadores. Em 1904 e em          todo o campo da psiquiatria. Logo, a palavra
1906, Pierre Janet fez uma viagem de confern-      psicanlise tornou-se sinnimo de psiquiatria
cias na Nova Inglaterra e obteve um sucesso         em um pas onde a prpria noo de anlise
triunfal, oferecendo aos americanos o prestgio     leiga* no tinha nenhum significado. Entre
da cultura europia. Estava aberto o caminho        1910 e 1917, o perodo do idealismo putnamia-
para que Sigmund Freud* fizesse sua famosa          no cedeu lugar ao pragmatismo de Ernest
viagem.                                             Jones*, e principalmente de Abraham Arden
    Acompanhado de Carl Gustav Jung* e de           Brill*. A psicanlise se organizou ento em um
Sandor Ferenczi*, o mestre vienense chegou a        verdadeiro movimento profissional e corpora-
Nova York a bordo do navio George Washing-          tivo, em torno de vrias instituies. Em 1911,
ton em 27 de agosto de 1909. Depois de hesitar      Jones fundou a American Psychoanalytic As-
longamente, aceitou fazer cinco conferncias        sociation* (APsaA); no mesmo ano, Brill ins-
(Cinco lies de psicanlise*) na Clark Univer-     talou, com Horace Frink*, a New York Psychoa-
sity de Worcester, a convite de Stanley Hall.       nalytical Society (NYPS); dois anos depois,
Teria um enorme sucesso, sem com isso levar a       White e Jelliffe criaram a Psychoanalytic Re-
peste* aos americanos, como diria mais tarde        view, primeira revista americana de difuso do
Jacques Lacan.                                      freudismo. Em 1914, Putnam e Isador Coriat*
198     Estados Unidos

fundaram a Boston Psychoanalytic Society           Georg Simmel*, Franz Alexander*, por exem-
(BoPS).                                            plo. Em 1932, outra grande revista foi criada por
    Os tratados de Versalhes e do Trianon,         membros da NYPS, entre os quais Gregory
concludos em 1919 e 1920, marcaram o des-         Zilboorg*. Tomou o nome de Psychoanalytic
moronamento da cultura austro-hngara no mo-       Quarterly. Muito mais liberal do que o Interna-
vimento psicanaltico internacional. Na Euro-      tional Journal of Psychoanalysis* (IJP), teria
pa, a Alemanha* manteve acesa ainda durante        um grande pblico e contribuiria ainda mais
dez anos a chama do freudismo, enquanto os         para acentuar o poder da psicanlise na costa
austracos, arruinados pela guerra e pela der-     leste.
rota, tinham dificuldade em prosseguir. Foi nes-       A partir de 1925, a questo da anlise leiga*
se contexto que Freud, que se tornara clebre,     dividiu o movimento psicanaltico internacio-
viu afluirem a Viena* numerosos americanos         nal no mesmo momento em que eram ins-
desejosos de analisar-se com ele. Freud no        tauradas na IPA as regras padres da anlise
gostava nada deles, achando-os grosseiros e        didtica obrigatria. Presidente da NYPS, Brill
incapazes de compreender verdadeiramente           se ops firmemente aos europeus e ao prprio
suas idias. Entretanto, no era insensvel ao     Freud, recusando a admisso de no-mdicos
grande sucesso de sua doutrina no Novo Mun-        na profisso de psicanalista. No ano seguinte,
do. Alm disso, precisava de dinheiro para ali-    com o processo aberto contra Theodor Reik* e
mentar a famlia e ajudar os amigos em dificul-    a publicao de A questo da anlise leiga*, o
dade. Assim, no hesitou em formar os futuros      conflito tomou uma dimenso considervel. Em
analistas do movimento americano, que lhe tra-     1929, no congresso da IPA em Oxford, houve
ziam dlares. Adolph Stern foi o primeiro a        um acordo internacional e a NYPS aceitou a
chegar, em 1920. Viriam depois Clarence            filiao de analistas leigos. Mas aprovou-se
Oberndorf*, Horace Frink, Monroe Meyer             uma clusula que permitia s sociedades ame-
(1892-1939), Leonard Blumgart (1881-1959),         ricanas recusarem a filiao dos psicanalistas
Joseph Wortis*, Abram Kardiner*, Roy Grinker,      formados na Europa. Assim, todo imigrante era
Ruth Mack-Brunswick*.                              obrigado no s a refazer seus estudos de me-
    A ascenso ao poder de Adolf Hitler (1889-     dicina segundo as leis em vigor no territrio
1945) acelerou um processo de emigrao j em      americano, mas tambm a recomear seu cur-
marcha e provocou a partida para o continente      rculo psicanaltico.
americano (entre 1933 e 1938) da quase totali-         Enquanto a lngua inglesa se impunha nos
dade dos pioneiros do movimento psicanaltico      congressos da IPA, as sociedades norte-ameri-
europeu. Esse exlio macio reforou o poder       canas, agrupadas na APsaA, dominavam o mo-
norte-americano no seio da International Psy-      vimento internacional. Em 1934, no congresso
choanalytical Association* (IPA). Dominada         da IPA em Lucerna, a clusula de Oxford foi
pela APsaP, ela ps suas estruturas burocrticas   anulada. Mas esse reconhecimento do valor dos
a servio da definio das modalidades de an-     currculos psicanalticos europeus no impedi-
lise didtica*, em funo de critrios cada vez    ria o processo de medicalizao do pensamento
mais adaptativos, bem distanciados do freudis-     freudiano de continuar seu curso. Nessa poca,
mo original.                                       nos Estados Unidos, a psicanlise se tornou
    Entre 1930 e 1951, a implantao da psica-     assim, segundo as palavras de Freud, "o `pau
nlise (sociedades e institutos) progrediu de      para toda obra' da psiquiatria".
modo considervel no territrio em geral: Chi-         Inventada por europeus preocupados com a
cago (1931), Filadlfia (1931 e 1949), Topeka      integrao (Heinz Hartmann*, principalmente)
(1938), Detroit, (1940), So Francisco (1941),     a Ego Psychology foi a corrente que melhor
Los Angeles (1946), Baltimore (1946). Califr-     representou o ideal de adaptao prprio ao
nia do Sul (1950). A cada sociedade estava         pragmatismo americano. Ficava ligada ao uni-
ligado um instituto de formao (organizado a      versalismo freudiano, mas rompia com a terapia
partir do modelo de Berlim) e s vezes um "pai     da felicidade dos pioneiros protestantes. Diante
fundador" que se exilara: Siegfried Bernfeld*,     dessa psicologia do eu*, que seria contestada no
                                                                          Estados Unidos        199

fim dos anos 1960 pelos partidrios da Self            Foi na Washington-Baltimore Psychoanaly-
Psychology, o culturalismo era, ao contrrio,      tic Society que ocorreu, em 1947, a terceira
portador de dissidncia e contestao. Criticava   ciso americana, que suscitou, de modo carac-
todos os modelos dogmticos, normativos e          terstico, querelas pessoais, interesses locais e
adaptativos, arriscando-se a dissolver o univer-   problemas de formao. Segundo Donald Bur-
sal no particular.                                 nham, o principal conflito era o que opunha
    Como em todos os lugares, a expanso do        Sullivan a Jenny Wlder-Hall (1898-1989),
movimento freudiano levou as sociedades psi-       imigrante vienense, prxima de Anna Freud.
canalticas a conflitos internos que se traduzi-       Jenny Wlder se integraria  Sociedade de
ram por uma sucesso de cises*. Houve cinco       Filadlfia, antes de instalar-se na Flrida, en-
entre 1941 e 1950. As duas primeiras no seio da    quanto os partidrios de Sullivan se reuniriam
NYPS, uma em torno de Karen Horney em              na Fundao White, que nunca seria reconheci-
1941, outra em torno de Sandor Rado*, seis         da pela IPA. Finalmente, duas sociedades dis-
meses depois. Elas demonstravam a forte posi-      tintas (e um instituto que elas geriam em co-
o ocupada pela psicanlise na costa leste,       mum) permaneceriam integradas  APsaA, a
graas ao afluxo dos imigrantes, maciamente       Washington Psychoanalytic Society (WPS) e a
instalados em Nova York.                           Baltimore Psychoanalytic Society (BaPS).
    Inicialmente dirigido por Monroe Meyer e           A quarta ciso se produziu em 1948, na
Dorothy Ross, o Instituto de Nova York, fun-       Philadelphia Psychoanalytic Society (PPS),
dado em 1931, atingia, atravs do seu ensino,      fundada em 1931. Girou em torno da formao
muitas camadas da populao: magistrados, po-      didtica e opunha tambm imigrantes vienen-
liciais, assistentes sociais, professores. Em      ses, como Robert Wlder (1900-1967), a ame-
1946, a influncia da NYPS se estendeu mais        ricanos de origem. Em 1949, criou-se uma se-
ainda, com a criao de um centro de tratamento    gunda sociedade, a Philadelphia Association
(treatment center) dependente do instituto, que    for Psychoanalysis (PAP), tambm integrada 
acolhia traumatizados de guerra e posterior-       APsaA.
mente adultos e crianas.                              Enfim, a quinta ciso aconteceu na Califr-
    A terceira ciso se produziu na regio de      nia, depois da morte de Otto Fenichel* e de
Washington, onde predominavam ao mesmo             Ernst Simmel. Ambos tinham defendido a an-
tempo a tradio da higiene mental e a de White,   lise leiga no seio da Los Angeles Psychoanaly-
representada por Sullivan, fundador da William     tic Society (LAPS). Em 1950, seus alunos fo-
Alanson White Foundation (Nova York). Em           ram obrigados a criar um novo grupo favorvel
1914, Adolf Meyer criou a Washington Psy-          aos no-mdicos: a Society for Psychoanalytic
choanalytic Society (WPS). Dez anos depois,        Medicine of Southern California, que se torna-
surgiu outra sociedade, a Washington Psychoa-      ria depois a Southern California Psychoanalytic
nalytic Association. Com isso, em 1926, a WPS      Society (SCPS), integrada  APsaA. Formaria
mudou de nome, tornando-se a Washington            mais analistas leigos do que todos os outros
Psychopathological Society. Os dois grupos ri-     grupos americanos.
valizaram para fazer-se admitir na APsaA, e            Ao contrrio das outras sociedades, a de
finalmente uma terceira sociedade, muito mais      Chicago, fundada por Alexander, conseguiu su-
vasta, foi criada em 1930, a Washington-Balti-     perar seus conflitos. Especializada em medici-
more Psychoanalytic Society, na qual se reuni-     na psicossomtica, acolheu uma corrente da
ram terapeutas vindos do Kansas e da Virginia,     qual emergiria, com Heinz Kohut*, uma clnica
sem filiao europia.                             dos distrbios narcsicos, fundada na teoria do
    No seio dessa sociedade se encontraram, em     self.
torno de Sullivan, muitos freudianos dissiden-         A partir de 1945, o cinema hollywoodiano
tes ou alunos de White que trabalhavam nos trs    apresentou uma imagem da epopia freudiana
grandes hospitais da regio, especializados no     muito diferente daquela que as sociedades psi-
tratamento das psicoses: St. Elizabeth, Chesnut    canalticas americanas exibiam. Entretanto, um
Lodge, Sheppard-Pratt.                             elemento aproximava os terapeutas e os cineas-
200     Estados Unidos

tas do Novo Mundo interessados na doutrina         der teraputico de seus clnicos e do talento de
vienense: quase todos eram provenientes da         seus representantes, imigrantes ou no, o freu-
velha Europa. O saber freudiano lhes servia        dismo americano sempre foi de uma extrema
para criticar os ideais da sociedade americana.    fragilidade: por um lado, em virtude de sua
Nesse sentido, sua posio em relao  psica-     dependncia em relao a um saber psiquitrico
nlise era diferente da dos clnicos, tambm       de natureza emprica; por outro lado, em razo
imigrantes. Efetivamente, nenhuma teoria de        de seu ideal adaptativo. Ao contrrio da Frana*
adaptao se destaca do cinema hollywoodiano       e da Gr-Bretanha, os Estados Unidos nunca
do ps-guerra, e foi em funo disso que, atra-    produziram, no domnio da psicanlise, um sis-
vs dos filmes de Alfred Hitchcock (1899-          tema de pensamento capaz de opor suas regras,
1980), de Charlie Chaplin (1889-1977), de Elia     seus critrios e seus mtodos aos argumentos
Kazan, de Vincent Minelli ou de Nicholas Ray       cientificistas das diferentes correntes organicis-
(1911-1979), desdobrou-se uma representao        tas da psicologia e da psiquiatria biolgica. No
do freudismo antagnica quela veiculada pe-       s a psicanlise dita americana continuou sendo
los institutos da APsaA: uma espcie de retorno    uma psicoterapia entre outras, como tambm
 psicanlise vienense. Nascido americano e        no gerou uma teoria forte, comparvel ao klei-
tendo ido para a Irlanda, John Huston realizaria   nismo, ao ps-kleinismo, aos Independentes ou
assim um filme sobre o jovem Freud (Freud,         ao lacanismo. Distribuda em vrias correntes,
alm da alma), a partir de um magnfico roteiro    ela acabou por destruir a prpria unidade do
de Jean-Paul Sartre (1905-1980). Mas essa obra     pensamento freudiano.
profunda chocaria a sensibilidade dos partid-         Em outros termos, como sublinha Nathan G.
rios da ortodoxia annafreudiana, e Marianne        Hale, os partidrios do antifreudismo america-
Kris* impediria a atriz Marilyn Monroe (1926-      no dos anos 1970-1990, em especial o filsofo
1962) de fazer o papel de Bertha Pappenheim*.      Adolf Grnbaum, no teriam nenhuma dificul-
    Enfim, a partir de 1960, o desenvolvimento     dade, em nome de um materialismo nu e cru, de
das teses da Self Psychology permitiu que se       recorrer aos mesmos argumentos que os freu-
renovasse o debate clnico e deu novo alento ao    dianos entusiastas do incio do sculo. Tambm
freudismo americano.                               eles proporiam avaliaes, provas, pesquisas,
    No fim dos anos 1990, a APsaA e as outras      em suma um arsenal tecnolgico inadequado
sociedades da IPA contariam 3.500 membros          para explicar a realidade conceitual da prtica e
(mais de um tero da IPA), distribudos por 44     da teoria psicanalticas.
sociedades, 5 grupos de estudos e 29 institutos.       Esse desaparecimento silencioso da psica-
A isso, acrescentaram-se cerca de 8.000            nlise se produziu pois em um pas que foi a
psicanalistas freudianos, espalhados em diver-     grande terra de acolhida para os judeus freudia-
sas associaes, e um nmero importante de         nos da Europa. Ele no resultou, naturalmente,
terapeutas reunidos em mltiplas escolas de        da ausncia de um estado de direito, como sob
psicoterapias implantadas no conjunto do ter-      o comunismo*, mas de um excesso de jurisdi-
ritrio. O socilogo francs Robert Castel, para   cismo e da psiquiatrizao dos fenmenos men-
explicar essa expanso da psiquiatria dinmica,    tais que tinha como pano de fundo a expanso
qualificou a sociedade americana de "sociedade     de um novo comunitarismo.
psiquitrica avanada".                                Nascido da crtica da assimilao, esse mo-
    Entre 1965 e 1970, iniciou-se o declnio da    delo retomou flego em 1985 para contestar o
psicanlise, tanto no mbito da opinio pblica    ideal da integrao, em nome de uma defesa das
quanto nos centros de difuso do saber psiqui-    minorias, das vtimas e dos excludos (os ne-
trico. Esse movimento foi acompanhado pelo         gros, as mulheres, os homossexuais). Assim, ele
renascimento de um antifreudismo mais viru-        reduz o sujeito s suas razes, ao seu grupo (o
lento ainda do que o do comeo do sculo.          negro ao negro, a mulher  mulher e cada um
    Essa situao de crise podia ser explicada     ao seu gnero*). Em vez de pensar as diferenas
por vrios fatores. Apesar da fora indita de     em uma perspectiva universal, como fizeram os
seu movimento institucional, a despeito do po-     antroplogos freudianos, de Geza Roheim* a
                                                                          Estudo autobiogrfico, Um           201

Georges Devereux*, em vez de ligar dialetica-               burgh, University of Pittsburgh Press, 1992  Philip
                                                            Cushman, Constructing the Self, Constructing Ameri-
mente o universal e o particular, ele regride --
                                                            ca. A Cultural History of Psychotherapy, N. York, Addi-
contra o modelo freudiano, julgado "imperialis-             son-Wesley Publishing Company, 1995  Nellie L.
ta" ou "abusivo" -- a formas primitivas de                  Thompson, "Les Schismes dans le mouvement psy-
psicoterapia. Da o culto das terapias menores:             chanalytique aux tats-Unis", Topique, 57, 1995, 257-
a hipnose* contra a psicanlise, a magia contra             71.
a cincia, as medicinas ditas alternativas contra            ANTROPOLOGIA; HOMOSSEXUALIDADE; SEXO-
a medicina, a investigao do trauma real (teo-             LOGIA.
ria da seduo*) contra a da fantasia, exces-
sivamente inapreensvel, excessivamente im-
palpvel, excessivamente diluda no universal.
Esse fenmeno  da mesma natureza daquele                   estranho, o
que ope a seita  Igreja*.                                  INIBIES, SINTOMAS E ANGSTIA; TRADUO
    No campo da psiquiatria dinmica, o comu-               (DAS OBRAS DE SIGMUND FREUD).
nitarismo caminha ao lado do desenvolvimento
de um novo organicismo, que tende a derivar
todos os comportamentos mentais de um subs-                 Estudo autobiogrfico, Um
trato gentico ou biolgico do qual o sujeito 
                                                            Obra de Sigmund Freud publicada em 1925, sob o
excludo, reduzindo-se a um corpo  procura de              ttulo genrico da coleo dirigida pelo professor
pharmakos (droga).  por isso que as terapias               Dr. L.R. Grote, Die Medizin der Gegenwart in Selbst-
menores, em ruptura com o universalismo, se                 darstellung (A medicina contempornea apresen-
nutrem do cientificismo farmacolgico. Talvez               tada por ela mesma). Reeditada em 1928 nos Ge-
esse duplo movimento -- comunitarismo, or-                  sammelte Schriften e, mais tarde, em 1934, sob a
ganicismo -- venha a atingir, no sculo XXI,                forma de livro, com o ttulo Selbstdarstellung. Tra-
outros pases freudianos.                                   duzido para o francs pela primeira vez em 1928,
                                                            por Marie Bonaparte*, sob o ttulo Ma vie et la
 Alexis de Tocqueville, De la dmocratie en Amrique       psychanalyse, e posteriormente, em 1984, por
(1835-1840), Paris, Laffont, col. "Bouquins", 1986         Fernand Cambon, sob o ttulo Sigmund Freud pr-
Hannah Arendt, Essai sur la rvolution (N. York, 1963),     sent para lui-mme. Retraduzido por Pierre Cotet
Paris, Gallimard, 1967  Clarence P. Oberndorf, A           e Ren Lain em 1992, sob o ttulo Autoprsenta-
History of Psychoanalysis in America, N. York, Grune
                                                            tion. Traduzido para o ingls pela primeira vez em
& Stratton, 1953  Ernest Jones, A vida e a obra de
Sigmund Freud, vols. 2 e 3 (N. York, 1955, 1957), Rio       1927, por James Strachey*, sob o ttulo An Auto-
de Janeiro, Imago, 1989  L'Introduction de la psycha-      biographical Study, reeditado em 1935 com o ttulo
nalyse aux tats-Unis. Autour de James Jackson Put-         Autobiography, acompanhado por um ps-escrito,
nam (Londres, 1968), Nathan G. Hale (org.), Paris,          e por fim, em 1959, sob o ttulo An Autobiographical
Gallimard, 1978, 17-86  Nathan G. Hale, Freud and          Study.
the Americans. The Beginnings of Psychoanalysis in
the United States, 1876-1917, t.I (1971), The Rise and          Desde as primeiras linhas desse ensaio,
Crisis of Psychoanalysis in United States, t.II, N. York,   Freud deixa claro: sua deciso de dar uma res-
Oxford, Oxford University Press, 1995.  Jacques M.         posta positiva  proposta da editora Felix Mei-
Quen e Eric T. Carlson (org.), American Psychoanaly-
sis. Origins and Development, N. York, Brunner-Mazel,
                                                            ner de apresentar o campo mdico do qual ele
1978  Robert Castel, Franoise Castel, Anne Lovell,        era o inventor, a psicanlise*, levava-o a correr
La Socit psychiatrique avance. Le Modle amri-          o risco, quer de contradizer o que j havia
cain, Paris, Grasset, 1979  Jean-Paul Sartre, Freud,       escrito sobre o assunto -- fosse sob a forma de
alm da alma, (Paris, 1984), Rio de Janeiro, Nova           suas conferncias proferidas nos Estados Uni-
Fronteira, 1987, 2 ed.  Adolf Grnbaum, Les Fon-
dements de la psychanalyse (Berkeley, 1984), Paris,         dos* em 1909, fosse sob a de sua "Histria do
PUF, 1996  lisabeth Roudinesco, "Sartre, lecteur de       movimento psicanaltico", publicada em 1914
Freud", Les Temps Modernes, 531-3, outubro-dezem-           --, quer de se repetir, pura e simplesmente.
bro de 1990, 589-613  Gail S. Reed, "Le Dveloppe-         Assim, cabia-lhe "tentar encontrar (...) uma no-
ment des instituts freudiens ouverts aux non-mdecins
 New York", Revue Internationale d'Histoire de la
                                                            va dosagem entre a apresentao subjetiva e a
Psychanalyse, 3, 1990, 343-59  J. Earman (org.), The       objetiva, entre o interesse biogrfico e o his-
Dynamic of Theory-Change in Psychoanalysis, Pitts-          trico".
202     Estudo autobiogrfico, Um

    Na verdade, como sublinhou a maioria dos        cia a "barbrie" da nao alem -- termo que
comentadores, dentre eles Norman Kiell, essa        sustentou a despeito das presses de Max Eitin-
auto-apresentao de Freud -- foi esse mesmo        gon* -- e a desonra da cincia alem, incapaz
o ttulo finalmente preservado quando da            de abrir espao para a psicanlise.
segunda edio alem, em 1934 --  notvel,             Reiteradamente confrontado com iniciati-
acima de tudo, pelo que Freud no diz. Em seu       vas biogrficas a seu respeito, Freud sempre deu
"ps-escrito" de 1935, ele esclarece e justifica    mostras de grande ambivalncia quanto a essa
a opo feita: "Dois temas perpassam este livro:    questo.
o de meu prprio destino e o da histria da             Em 1993, o psicanalista francs Alain de
psicanlise*. Eles se acham estreitamente liga-     Mijolla fez uma lista dessas reaes freudianas:
dos. Meu Estudo autobiogrfico mostra como          desde a carta de 24 de abril de 1885 a Martha,
a psicanlise se tornou o contedo de minha         na qual ele se regozijou de antemo pelos erros
vida e, a partir disso, conforma-se ao princpio    que seus futuros bigrafos poderiam cometer,
justificado de que nada do que me acontece          at o projeto de Arnold Zweig* de 1936, cujo
pessoalmente merece interesse, comparado a          abandono o encheu de satisfao, passando por
minhas relaes com a cincia." Mais adiante,       sua acolhida bastante seca  biografia que Fritz
depois de lembrar algumas datas importantes no      Wittels* fez dele e por suas reticncias amis-
correr de seus estudos e em sua vida profis-        tosas  leitura do retrato que Stefan Zweig*
sional, Freud volta a essa questo: "Posso per-     esboou dele em seu livro A cura pelo esprito,
mitir-me fixar aqui um termo para minhas co-        sem esquecer a carta de 23 de abril de 1933 ao
municaes autobiogrficas. Alis, no que           dr. Roy Winn, na qual Freud rejeitou a idia,
concerne a minhas condies pessoais de vida,       sugerida por seu correspondente, de escrever
minhas lutas, minhas decepes e meus suces-        uma autobiografia mais ntima. Entretanto, nem
sos, o pblico no tem nenhum direito a ter         mesmo todas essas reaes negativas bastam
maior conhecimento deles. De resto, em alguns       para explicar o verdadeiro sentimento de Freud
de meus escritos -- A interpretao dos sonhos,     acerca das biografias. Tal sentimento se carac-
Sobre a psicopatologia da vida cotidiana --,        teriza por outras atitudes, que atenuam a postura
fui mais franco e mais sincero do que costumam      de rejeio: com apenas 30 anos, por exemplo,
ser as pessoas que descrevem sua vida para seus     ele j pensava em eventuais bigrafos; e mais
contemporneos ou para a posteridade." Freud        tarde, adquiriu o hbito de assinalar e transmitir
tem razo. Em matria de confidncias e reve-       aos autores interessados longas listas de retifi-
laes sobre sua vida privada, ele foi muito mais   caes de erros e esquecimentos que eles pudes-
diserto nesses dois textos citados, mas tambm      sem ter cometido, com vistas s futuras edies
o foi em outros artigos, tais como "Lembranas      de seus livros. Um dos testemunhos mais
encobridoras" e "Um distrbio de memria na         impressionantes dessa preocupao com a exa-
Acrpole", em especial, para no falar do ma-       tido  a correspondncia, de uma preciso
nancial de informaes representado pelo            extraordinria, que ele dirigiu a seu aluno pe-
conjunto de sua correspondncia.                    ruano Honorio Delgado, autor de uma biografia
    Assim, num silncio quase total sobre a vida    de Freud em homenagem a seu septuagsimo
de Freud, esse livro  precioso pela recapitula-    aniversrio.
o que prope da histria da psicanlise conce-        Na verdade, a reserva e o mal-estar de Freud
bida como produto de seu esprito. Atualizando      se expressavam de maneiras diferentes, como
seus balanos anteriores, Freud confere um lu-      ressaltou Alain de Mijolla, conforme o mtodo
gar de peso  grande reformulao terica do        adotado pelo autor da biografia. Quando o pro-
comeo da dcada de 1920, abordando de pas-         cedimento deste se limitava  considerao de
sagem algumas desavenas (dentre as quais           fatos objetivos -- aqueles a que se referiam as
Pierre Janet*, sua "competncia mesquinha" e        retificaes freudianas --, isto , quando o exer-
seus argumentos "deselegantes" servem de            ccio biogrfico no recorria  psicanlise,
bode expiatrio), recorda a acolhida precria       Freud demonstrava tolerncia, apesar de um
recebida por seus primeiros trabalhos, e denun-     certo desprazer. Em contrapartida, quando um
                                                                   Estudo autobiogrfico, Um              203

bigrafo ou um pretenso bigrafo se referia         maior com seu objeto." Alguns anos depois, foi
psicanlise e se entregava a interpretaes mais     exatamente essa a regra que ele aplicou, ao
ou menos rigorosas, ele exibia sua irritao.        exigir que o livro escrito em colaborao com
    Caber vermos nisso uma contradio com          o embaixador norte-americano William C. Bul-
sua prpria paixo interpretativa? Porventura        litt (1891-1967) sobre O Presidente Thomas
ele no justifica o recurso  interpretao* em      Woodrow Wilson* no fosse publicado durante
seu ensaio sobre Uma lembrana infantil de           a vida da viva do presidente.
Leonardo da Vinci*? Na verdade, a contradio            Essa prudncia e esses escrpulos freudia-
 apenas aparente, se considerarmos as circuns-      nos, no entanto, no devem mascarar outras
tncias que conferem legitimidade  interpreta-      questes mais diretamente ligadas ao desenro-
o psicanaltica. Fora do contexto constitudo      lar da historiografia* psicanaltica. Incontes-
pelo tratamento psicanaltico, o recurso  inter-    tavelmente, a opo feita por Freud nesse en-
pretao, passvel de desvendar aspectos nti-       saio, com o que implica de omisses e segredos
mos da vida de um sujeito, sempre foi objeto de      guardados, fossem eles conscientes ou no,
extrema vigilncia por parte de Freud. O prin-       contm os germes da histria oficial (inaugura-
cipal critrio era o respeito devido  pessoa viva   da pelo primeiro autor a biografar Freud, Ernest
ou a seu crculo ntimo, quando essa pessoa          Jones*), caracterizada por preocupaes es-
falecia. Sem dvida, Freud chegou a contrariar       tratgicas e escolhas afetivas difceis de com-
essa regra, sobretudo na poca febril dos pri-       patibilizar com o rigor e a tica de uma his-
meiros passos da psicanlise. Assim, por oca-        toriografia erudita. Se a histria oficial e suas
sio do nascimento da filha de Wilhelm Fliess*,      transformaes favoreceram o surgimento de
Pauline, permitiu-se formular a hiptese de que      uma historiografia dissidente, a princpio, e de-
ela bem poderia ser a substituta da irm falecida    pois revisionista, que encontrou aliados entre os
de seu amigo. De maneira ainda mais delibera-        adversrios da psicanlise, a historiografia rigo-
da, durante a sesso de 11 de dezembro de 1907       rosa deve, por seu turno, preocupar-se em pre-
das reunies das quartas-feiras, atirou-se a uma     servar, em seu procedimento, a especificidade
conjectura sobre uma hipottica irm com             do objeto da psicanlise: o inconsciente*.
quem Wilhelm Jensen (1837-1911), autor da             Sigmund Freud, "Lembranas encobridoras" (1899),
Gradiva que foi objeto do ensaio freudiano           ESB, III, 333-58; GW, I, 529-54; SE, III, 299-322; OC,
intitulado "Delrios e sonhos na Gradiva de          III, 253-76; A interpretao dos sonhos (1900), ESB,
Jensen"*, teria tido "um relacionamento repleto      IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621; Paris,
                                                     PUF, 1967; A psicopatologia da vida cotidiana (1901),
de intimidade". Da por diante, entretanto, so-      ESB, VI; GW, IV; SE, VI; Paris, Payot, 1973; Cinco
mente os mortos distantes, personagens reais ou      lies de psicanlise (1910), ESB, XI, 13-58; GW, VIII,
fictcios, foram alvo de interpretaes.             3-60; SE, XI, 7-55; OC, X, 1-55; "Leonardo da Vinci e
    Numa carta de 2 de abril de 1928, en-            uma lembrana de sua infncia" (1910), ESB, XI, 59-
                                                     126; GW, VIII, 128-211; SE, XI, 63-129; OC, X, 79-164;
dereada a Ludwig Binswanger*, que em seu            "O interesse cientfico da psicanlise" (1913), ESB, XIII,
livro Sonho e existncia havia manifestado           199-229; GW, VIII, 390-420; SE, XIII, 163-190; in R-
interesse pelo trabalho de Edgar Michaelis,          sultats, ides, problmes, vol.I, Paris, PUF, 1984, 187-
Freud, no sem uma certa irritao, indicou sua      213; "A histria do movimento psicanaltico" (1914),
                                                     ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV, 7-66; Paris,
posio com muita clareza: "Talvez o senhor se       Gallimard, 1991; "Um estudo autobiogrfico" (1925),
surpreenda ao saber que no li a anlise feita       ESB, XX, 17-88; GW, XIV, 33-96; SE, XX, 7-70; OC,
sobre mim por esse Michaelis a quem tanto            51-122; "Um distrbio de memria na Acrpole", carta
admira. Analisar um homem vivo mal chega a           a Romain Rolland (1936), ESB, XXII, 293-306; GW,
                                                     XVI, 250-7; SE, XXII, 239-48; OC, XIX, 325-38; "Carta
ser admissvel, e  certamente impolido. Deixa-      a Fritz Wittels", ESB, XIX, 359-61; GW, Nachtragsban-
remos em suspenso a questo de saber se se trata     d, 754-8; SE, XIX, 286-8; OC, XVI, 357-63; Correspon-
da um agravamento ou um atenuante dessa              dance, 1873-1939 (1960), Paris, Gallimard, 1966 
descortesia que o resultado da vivisseco no       Sigmund Freud e William C. Bullitt, Le Prsident Tho-
                                                     mas Woodrow Wilson (Londres, 1966, Paris, 1967),
seja remetido  vtima. No fiquei curioso, pois     Paris, Payot, 1990  Sigmund Freud e Ludwig Binswan-
esse Michaelis no me conhece. Nossas an-           ger, Correspondance, 1908-1938 (Frankfurt, 1982),
lises clnicas pressupem uma familiaridade          Paris, Calmann-Lvy, 1995  Sigmund Freud e Arnold
204       Estudos sobre a histeria

Zweig, Correspondance, 1927-1939 (Frankfurt, 1968),               Embora a palavra psico-anlise s aparea
Paris, Gallimard, 1973  Sigmund Freud e Stefan
                                                              na pena de Sigmund Freud em 1896, os Estudos
Zweig, Correspondance (1987), Paris, Rivages, 1991
 Les Premiers psychanalystes, Minutes de la Socit          sobre a histeria sempre foram considerados o
Psychanalytique de Vienne, 1906-1918, 4 vols. (1962-          livro inaugural da inveno da psicanlise* e da
1975), Paris, Gallimard, 1976-1983  Michel de Cer-           nova definio freudiana da histeria*. Isso
teau, Histoire et psychanalyse entre science et fiction       decorre, em parte, da publicao, no corpo do
(1986), Paris, Gallimard, col. "Folio", 1987  Jean-Fran-
                                                              texto, do famoso caso Anna O., que se tornou
ois Chiantaretto, De l'acte autobiographique. Le
Psychanalyste et l'criture autobiographique, Seysell,        lendrio na histria do freudismo*. Atravs
Champ Vallon, 1995  Wladimir Granoff, Filiations,            dele, foi possvel atribuir a uma histrica a
Paris, Minuit, 1975; "Quant  une histoire de la psycha-      inveno do mtodo psicanaltico. As diferentes
nalyse", in L'crit du temps  Ernest Jones, A vida e a       revises da historiografia* erudita permitiram,
obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955,
1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Norman Kiell,
                                                              a partir da segunda metade do sculo XX, lanar
Freud without Hindsight. Review of his Work 1893-             um olhar completamente diverso sobre essas
1939, Madison, International Universities Press, 1988         histrias de mulheres. A verdade  que a mere-
 Sarah Kofman, L'Enfance de l'art, Paris, Payot, 1970        cida celebridade desse livro se prende, acima de
 Philippe Lejeune, Le Pacte autobiographique (1976),         tudo, a suas extraordinrias qualidades liter-
Paris, Seuil, col. "Points", 1996  Alain de Mijolla,
"Freud, la biographie, son autobiographie et ses bio-
                                                              rias. As exposies tericas dos dois autores so
graphes", Revue Internationale d'Histoire de la Psycha-       de uma limpidez admirvel, e as histrias dessas
nalyse, 6, 1993, 81-108  Pierre Nora (org.), Essais          doentes, transcritas num estilo romanesco,
d'ego-histoire, Paris, Gallimard, 1987  rik Porge,          contribuem para dar vida a figuras femininas
Freud/Fliess, Mito e quimera da auto-anlise (Paris,
                                                              semelhantes s descritas por Gustave Flaubert
1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998  Jean-Michel
Rey, "Freud et l'criture de l'histoire", L'crit du temps,   (1821-1880) ou Honor de Balzac (1799-1850).
6, 1984, 23-42  lisabeth Roudinesco, Genealogias                Quando Felicit se dirige a Emma Bovary
(Paris, 1994), Rio de Janeiro, Relume Dumar, 1996           para lhe explicar a "doena" de que sofre Gu-
Fritz Wittels, Freud, l'homme, la doctrine, l'cole (Viena,   rine, filha de um pescador normando, ficamos
Leipzig, Zurique, 1924), Paris, Alcan, 1929.
                                                              pensando nas oito mulheres imortalizadas por
 PSICANLISE APLICADA.                                        Freud e Breuer: "Seu mal", escreveu Flaubert,
                                                              nas palavras que pe na boca de Flicit a
                                                              respeito de Gurine, "era uma espcie de ne-
                                                              voeiro que lhe dava na cabea, e os mdicos no
Estudos sobre a histeria                                      sabiam fazer nada a esse respeito, nem tampou-
Livro de Sigmund Freud* e Josef Breuer*, publica-             co o cura. Quando aquilo a tomava com muita
do em 1895 sob o ttulo Studien ber Hysterie.                fora, ela ia sozinha para a beira-mar, de modo
Republicado em 1925, sem as contribuies de                  que o guarda alfandegrio, fazendo sua ronda,
Josef Breuer e com notas de Sigmund Freud, e                  muitas vezes a encontrava estendida de bruos
depois em 1995, em sua forma inicial. Traduzido               sobre os seixos rolados, em prantos."
para o francs pela primeira vez por Anne Berman                  No  de surpreender, portanto, que os Es-
(1889-1979) em 1956, sob o ttulo tudes sur l'hys-
                                                              tudos de Freud e Breuer, onde so magnifica-
trie, com as contribuies de Josef Breuer e as
                                                              mente narradas as relaes ntimas entre pais
notas de Sigmund Freud de 1925. Traduzido para
                                                              aproveitadores, mes submissas e autoritrias e
o ingls pela primeira vez em 1909, por Abraham
Arden Brill*, sob o ttulo Studies in Hysteria, sem o
                                                              filhas rebeldes e vtimas, tanto tenham fascina-
relato dos casos de Anna O., Emmy von N. e Ka-
                                                              do os escritores. O livro era (e continua a ser)
tharina, e sem as "Consideraes tericas" de                 uma espcie de sntese de todas as interrogaes
Josef Breuer (captulo III), e depois em 1936, por            prprias da sociedade ocidental do fim do scu-
Abraham Arden Brill, na verso completa mas sem               lo: emancipao das mulheres, reduo do pa-
as notas de 1925 acrescentadas por Sigmund                    triarcado e surgimento de uma nova forma de
Freud. Retraduzido em 1955 por James Strachey*                diferena sexual*.
e Alix Strachey*, sob o ttulo Studies on Hysteria,               Do mesmo modo que os surrealistas, temen-
com as contribuies de Josef Breuer e as notas               do o desaparecimento da histeria, celebraram
de Sigmund Freud.                                             em 1928 a Augustine* de Jean Martin Charcot*
                                                                     Estudos sobre a histeria      205

como o emblema esquecido da beleza convul-            realmente "curada" de seus sintomas nem, aci-
siva, tambm Jacques Lacan* diria, em 1973,           ma de tudo, de sua neurose.
que a psicanlise corria o risco de morrer se             Sob esse aspecto, esse grande livro inaugu-
renunciasse a seus mitos originais: "Para onde        ral  realmente a expresso de uma diviso que
foram as histricas de outrora", disse ele, "aque-    separa a histria da loucura* da histria da
las mulheres maravilhosas, as Anna O., as Em-         psicopatologia*. Sabe-se, com efeito, que a
my von N.? Elas no apenas desempenharam              conscincia crtica do estudioso no  da mes-
um certo papel, um papel social certeiro, como        ma natureza que a conscincia trgica do doente
tambm, quando Freud se ps a escut-las,             ou do louco. Por conseguinte, todos os estudos
foram quem permitiu o nascimento da psican-          de casos se constroem como fices destinadas
lise. Foi pela escuta delas que Freud inaugurou       a validar as hipteses dos estudiosos, e um caso
um modo inteiramente novo de relao huma-            s tem valor de verdade por ser redigido como
na."                                                  uma fico. Da as revises necessrias, que em
    O primeiro captulo, redigido por Freud e         geral evidenciam o quanto o doente real rejeita
Breuer, traz como ttulo "Sobre o mecanismo           a roupagem da cincia e a validade do discurso
psquico dos fenmenos histricos", tendo por         cientfico, do qual se sente vtima. Assim, a
subttulo "Comunicao preliminar". Trata-se          verdadeira Bertha Pappenheim* negaria per-
da reimpresso de um artigo publicado em              manentemente ter sido Anna O., assim como
1893, no qual os autores haviam falado pela           Marguerite Anzieu* negou ter sido o caso Ai-
primeira vez do mtodo catrtico (catarse*) e         me de Lacan.
da ab-reao*, sublinhando, em especial a pro-            O segundo captulo dos Estudos sobre a
psito do caso de Ccilie M., o carter psquico      histeria apresenta, portanto, a histria de cinco
e traumtico da histeria. Verdadeiro manifesto        grandes casos: Srta. Anna O., Sra. Emmy von
contra o niilismo teraputico dos partidrios da      N., Srta. Lucy R. (ou Miss Lucy), Katharina e
organognese, a "Comunicao preliminar"              Srta. Elisabeth von R. Juntam-se a elas trs
mostra que a histeria, no estilo de Charcot,         pequenas histrias de doentes: Srta. Mathilde
uma doena psquica, curvel por uma terapu-         H., Srta. Rosalia H. e Sra. Ccilie M. Somente
tica da fala. Se o sujeito sofre de reminiscncias,   uma enferma (Anna O.) foi tratada por Breuer,
isto , de representaes ligadas a afetos abafa-     tendo sido as demais tratadas por Freud. As
dos, e no de distrbios orgnicos, ele pode ser      identidades de quatro dessas pacientes foram
curado atravs da verbalizao dos referidos          reveladas pelos trabalhos da historiografia: An-
afetos. Da a idia de substituir a sugesto* por     na O. (Bertha Pappenheim*), por Ernest Jones*
um tratamento pela fala, sob ligeira hipnose*.        e, mais tarde, por Henri F. Ellenberger*; Emmy
    Outra verso dessa "Comunicao prelimi-          von N. (Fanny Moser*), por Ola Andersson*;
nar" foi objeto, em 1893, de uma exposio            Katharina (Aurelia hm*), por Albrecht
verbal feita apenas por Freud, e sua minuta           Hirschmller; e Ccilie (Anna von Lieben*),
estenografada seria publicada no mesmo ano na         por Peter Swales. Restam, pois, as outras quatro
Wiener medizinische Presse e, posteriormente,         histrias: Lucy, Elisabeth von R., Mathilde H.
em 1971, na Studienausgabe.                           e Rosalia H.
    Aps essa vigorosa defesa dos princpios da           Natural da Hungria, Elisabeth foi consultar
psicognese* e, portanto, do possvel tratamen-       Freud em 1892, aos 24 anos de idade, em decor-
to da neurose*, era preciso os autores afirmarem      rncia de dores nas pernas e dificuldade para
que suas pacientes haviam-se curado, seno de         andar. Ele rapidamente atribuiu seus sintomas
sua doena, ao menos de seus sintomas. Assim,         a causas sexuais. Percebeu que, ao pressionar a
Breuer e Freud foraram um pouco os fatos e           coxa da paciente, f-la experimentar um prazer
apresentaram seus oito relatos sobre histricas       ertico que ela rejeitava na vida consciente.
como a histria de oito casos de cura. Foi pre-       Quase no utilizando a hipnose, Freud aperfei-
ciso esperar pelas revises da historiografia         oou uma tcnica de concentrao e chamou o
erudita e pela identificao das diversas pa-         mtodo empregado de anlise psquica, o que o
cientes para constatar que nenhuma delas fora         levou a dizer, mais tarde, que Elisabeth fora a
206     Estudos sobre a histeria

primeira mulher tratada e curada pela psican-       to, quando queria tornar-se cantora,  exposto
lise. Deitada e de olhos fechados, ela era solici-   por Freud em poucas pginas. Trata-se de uma
tada pelo mdico a se concentrar e dizer tudo o      histria em que intervm, como na de Aurelia
que lhe passava pela cabea. Quando se recusa-       hm (Katharina), uma cena de seduo*. Ro-
va a responder, Freud tentava persuadi-la.          salia curou-se atravs da hipnose, quando
medida que o dilogo foi prosseguindo, ele           conseguiu recordar a maneira brutal como seu
compreendeu que o mecanismo de rebeldia e de         tio, no passado, maltratava em sua presena a
esquecimento voluntrio funcionava como um           mulher e os filhos, enquanto manifestava suas
sintoma. Esse foi, para Freud, o primeiro passo      preferncias sexuais pelas empregadas doms-
em direo  tcnica da associao livre* e,         ticas. O sintoma da constrio na garganta
mais tarde, para a elaborao da noo de resis-     transformou-se ento numa sensao de alfine-
tncia*. Ele percebeu que Elisabeth estava           tadas na ponta dos dedos. Freud foi mais longe,
apaixonada pelo cunhado e que rechaava de           fazendo surgir uma cena antiga: o tio malvado,
sua conscincia os desejos de morte sentidos a       que sofria de reumatismo, um dia exigira que a
respeito de sua irm, falecida em conseqncia       sobrinha lhe fizesse massagens. No momento
de uma enfermidade. O reconhecimento desse           em que a menina lhe obedecera, ele havia le-
desejo* marcou, para a moa, a cessao de seu       vantado as cobertas e tentado abusar dela. Ro-
sofrimento. No fim do tratamento, Freud teve         salia fugira.
uma entrevista com a me de Elisabeth, que lhe           Quanto  quarta histria, a de Mathilde H.,
confirmou a inclinao da filha pelo cunhado         moa deprimida de 19 anos, afetada por uma
desta, embora desejando que ela no o des-           paralisia parcial da perna, ela foi exposta em
posasse. Freud convidou sua paciente a aceitar       poucas linhas, como um caso de cura por ab-
essa realidade e a considerou curada: "Na pri-       reao.
mavera de 1894", escreveu, "ouvi dizer que ela           O terceiro captulo dos Estudos  um ensaio
iria a um baile para o qual eu poderia obter um      de Breuer, intitulado "Consideraes tericas",
convite, e no deixei escapar essa oportunidade      e o quarto, "A psicoterapia da histeria",  uma
de ver minha ex-paciente sair rodopiando numa        reflexo de Freud onde se expressam, ao mesmo
dana ligeira."                                      tempo, comentrios tericos sobre os casos e
    Elisabeth chamava-se Ilona Weiss. Muitos         divergncias de Breuer.
anos depois de um casamento feliz, sua filha lhe         Como observa James Strachey em sua apre-
fez perguntas e deixou um depoimento que             sentao do livro, as divergncias entre Freud e
sublinhou que a imagem fornecida dela nos            Breuer no aparecem  primeira vista. No en-
Estudos era conforme  realidade. No entanto,        tanto, sabemos que a deciso de publicao foi
ao falar de seu tratamento, a ex-paciente afir-      resultado de um acordo, destinado a mostrar 
mou que o "mdico barbudo" de Viena* a quem          comunidade cientfica a situao dos trabalhos
a tinham encaminhado havia tentado, contrari-        realizados em comum pelos dois homens at
ando sua vontade, convenc-la de que estava          1894, data em que suas relaes cientficas
apaixonada pelo cunhado.                             efetivas chegaram ao fim. Desse acordo e das
    Miss Lucy, uma governanta inglesa contra-        divergncias que se introduziram entre os dois
tada por uma famlia vienense, consultou Freud       pontos de vista, os autores e, mais tarde, seus
em 1892, em funo de uma alucinao olfativa        comentadores retiveram trs. Primeiro, Freud
acompanhada de crises depressivas. Sentia-se         sustentava que a dissociao mental encontrada
perseguida por um cheiro de pudim queimado.          no sintoma histrico era provocada por uma
Utilizando o mesmo mtodo empregado com              defesa* psquica, enquanto Breuer pensava nu-
Elisabeth, Freud usou a palavra recalque* para       ma fisiologia dos estados hipnides. Segundo,
mostrar que os sintomas de sua paciente provi-       Breuer se recusava a atribuir  histeria, como
nham do amor inconsciente que ela nutria pelo        Freud, uma etiologia puramente sexual. Por
patro.                                              ltimo, esse mesmo Breuer no aceitava a cr-
    O caso de Rosalia H., jovem vienense de 23       tica feita a suas posies pelo neurologista ale-
anos, tomada por uma sensao de sufocamen-          mo Adolf Strmpell (1853-1925). Este reco-
                                                                                      etnopsicanlise         207

nhecia o carter psquico da doena histrica e            vols. (N. York, 1953, 1955, 1957), Rio de Janeiro,
                                                           Imago, 1989  "Memorandum for the Sigmund Freud
sua etiologia sexual, mas duvidava da eficcia
                                                           Archives", annimo, porm dado como proveniente de
tanto da hipnose quanto do tratamento catrtico,           uma das trs filhas de Ilona Weiss, 11 de janeiro de
sublinhando que os doentes, atravs de seus                1953, Freud Museum, Londres  Henri F. Ellenberger,
sintomas, podiam perfeitamente induzir os m-              Histoire de la dcouverte de l'inconscient (N. York,
dicos em erro.                                             Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard,
                                                           1994; Mdecines de l'me. Essais d'histoire de la folie
    Assim, foi em torno das questes da defesa             et des gurisons psychiques, Paris, Fayard, 1995 
e da sexualidade*, do problema do estado hip-              Albrecht Hirschmller, Josef Breuer (Berna, 1978), Pa-
nide como causa da histeria e, por ltimo, de             ris, PUF, 1991  Frank J. Sulloway, Freud, Biologist of
uma concepo geral da cincia que se manifes-             the Mind, N. York, Basic Books, 1979  tienne Trillat,
                                                           Histoire de l'hystrie, Paris, Seghers, 1986  Peter
taram entre os dois homens as divergncias                 Swales, "Freud, his teacher, and the birth of psychoa-
mais graves, que iriam conduzi-los ao rompi-               nalysis", in Paul E. Stepansky (org.), Freud, Appraisals
mento.                                                     and Reappraisals, vol.1, Hillsdale, NJ, The Analytic
    De maneira geral, os Estudos receberam                 Press, 1986, 3-83; "Freud, Katharina and the First `Wild
                                                           Analysis'", ibid., vol.2, 1988, 81-167  Norman Kiell,
uma acolhida favorvel do meio cientfico, co-             Freud without Hindsight. Review of his Work 1893-
mo uma contribuio preciosa para a elucida-               1939, Madison, International Universities Press, 1988
o da vida psquica.                                       Lisa Appignanesi e John Forrester, Freud's Women,
    Como sublinha Albrecht Hirschmller, as                N. York, Basic Books, 1992  Ilse Grubrich-Simitis,
reservas de Breuer quanto  etiologia sexual               "Urbuch der Psychoanalyse. Die `Studien ber Hys-
                                                           terie'", Psyche, 12, dezembro de 1995, 1117-55.
concernem  famosa hiptese da seduo,
segundo a qual haveria um trauma sexual na                  ECKSTEIN, EMMA; FLIESS, WILHELM; INCONSCI-
origem da neurose, e  idia freudiana de uma              ENTE; PRINCPIO DE PRAZER/PRINCPIO DE REALI-
etiologia sexual especfica de cada neurose.               DADE; TPICA; TRADUO (DAS OBRAS DE SIG-
Quanto  concepo breueriana da cincia, ela              MUND FREUD).
era mais fisiolgica que a de Freud. Assim, a
propsito do princpio de constncia, Breuer
fazia o funcionamento psquico depender de                 etnografia
uma homeostase, ou seja, de um equilbrio di-               ANTROPOLOGIA.
nmico do corpo vivo, ao passo que Freud se
indagava qual era o limite de um processo
primrio, entendendo por isso a tendncia do               etnologia
sistema psquico a se livrar das excitaes.                ANTROPOLOGIA.
    Freud abandonou a tese da seduo em
1897, o que mostra que Ernest Jones*, em sua
                                                           etnopsicanlise
verso oficial da desavena entre os dois ho-
                                                           al. Ethnopsychoanalyse, esp. etnopsicoanlisis; fr.
mens, negligencia a maneira como a verdade
                                                           thnopsychanalyse, ing. ethnopsychoanalysis
progride na histria das cincias, em prol de
uma representao hagiogrfica da realidade.                   A etnopsicanlise, da qual Geza Roheim*
De fato, Jones baseia o rompimento no desco-               foi o pioneiro, inspira-se nos princpios da psi-
nhecimento radical que Breuer teria tido da                canlise* para estudar tanto os distrbios psico-
sexualidade e descreve este ltimo como um                 patolgicos ligados a culturas especficas quan-
cientista perturbado, que no teria entendido              to a maneira como essas diferentes culturas
coisa alguma do amor transferencial* que Ber-              classificam e organizam as doenas psquicas.
tha Pappenheim teria nutrido por ele.                      Historicamente, a etnopsicanlise nasceu da et-
                                                           nopsiquiatria, fundada por Emil Kraepelin* e
 Sigmund Freud e Josef Breuer, "Sobre o mecanismo         definida como o estudo da loucura* e da clas-
psquico dos fenmenos histricos: Comunicao pre-        sificao dos distrbios mentais nas diferentes
liminar" (1893), ESB, II, 43-62; Studienausgabe, VI,       culturas. A partir dos trabalhos de Georges De-
9-24; SE, II, 1-17; in Esquisses psychanalytiques, 19,
primavera de 1993, 93-108; Estudos sobre a histeria
                                                           vereux*, que unificou esses dois campos, a
(1895), ESB, II; GW, I, 77-312; SE, II; Paris, PUF, 1956   palavra etnopsicanlise passou a ter o mesmo
 Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3        sentido de etnopsiquiatria.
208     etnopsicanlise

    Desde a Antigidade, colocou-se a questo       uma deficincia fisiolgica, funcional ou org-
da existncia de doenas especficas das dife-      nica?
rentes culturas, e  na coleo hipocrtica do          No exato momento em que Sigmund Freud*
Tratado dos ares, das guas e dos lugares que       retomava o archote de Herdoto para fazer a
encontramos a famosa descrio da "doena           tragdia antiga penetrar no cerne do drama bur-
dos citas" (Rssia meridional), que serviria de     gus da famlia ocidental, Emil Kraepelin
modelo para a constituio, no Ocidente, de um      percorreu a Europa e foi a Cingapura e a Java
discurso da psicopatologia* baseado na separa-      para verificar a validade dos critrios nosolgi-
o entre a racionalidade e a magia: "Quando        cos elaborados pela psiquiatria moderna. Em
fracassam em suas relaes com as mulheres,         outras palavras, para a psicopatologia, tratava-
na primeira vez eles [os citas] no se inquietam,   se de renovar o gesto hipocrtico e traduzir as
conservando a calma. Ao cabo de duas, trs ou       classificaes exticas e religiosas das doenas
vrias tentativas que no do nenhum resultado,     da alma num vocabulrio coerente, de tipo cien-
e acreditando haver cometido algum pecado           tfico. Assim foi, por exemplo, que a "doena
contra a divindade  qual atribuem a causa          dos citas" pde ser assimilada a um transexua-
disso, eles vestem a roupa das mulheres, confes-    lismo* ou a uma parania*. Do mesmo modo,
sando sua impotncia. Depois, assumem a voz         a "fria dos Berserks" (entre os antigos guer-
das mulheres e executam a seu lado os mesmos        reiros escandinavos) ou a "maldio de Amok"
trabalhos que elas."                                (entre os malaios) encontraram lugar sob as
    Para descrever essa conduta mgica, o autor     designaes de "estados manacos", "surtos de-
do tratado hipocrtico buscava argumentos ra-       lirantes" ou "psicoses alcolicas". Em 1904,
cionais e rejeitava qualquer idia de uma ori-      Kraepelin publicou os resultados de sua pesqui-
gem divina do mal.  crena dos citas numa          sa e deu a esse campo o nome de psiquiatria
"doena sagrada" ele opunha causas fsicas.         comparada. Dela nasceram a etnopsiquiatria e,
Constatando que o sintoma atingia cavaleiros        mais tarde, a psiquiatria transcultural, que se
ricos, deduzia que a prtica cotidiana da equita-   desenvolveu nos Estados Unidos* e no Cana-
o alterava as vias seminais e provocava, a        d*, em especial na universidade McGill, de
longo prazo, uma impotncia sexual.                 Montreal, onde trabalhou Henri F. Ellenber-
    A essa explicao atravs de causas fsicas     ger*.
Herdoto ops uma outra, que afirmava a ori-            Durante o sculo XIX, os princpios da psi-
gem sagrada da doena, mas sem faz-la derivar      quiatria dinmica*, provenientes de Philippe
da magia. A seu ver, de fato, a deusa Afrodite      Pinel (1745-1826) e Franz Anton Mesmer*,
infligira essa doena "feminina" aos descen-        impuseram-se no apenas em todos os pases da
dentes de alguns citas culpados pela pilhagem       Europa, mas tambm no conjunto do mundo
do templo de Ascalon, na Palestina. O "peca-        ocidental judaico-cristo e, mais tarde, no Ja-
do", portanto, fora transmitido de uma gerao      po*, o que em seguida permitiu a implantao
para outra. Quanto aos descendentes das fam-       progressiva da psicanlise nesses mesmos
lias amaldioadas, que outrora haviam suscita-      pases. Essa expanso foi possibilitada pela ins-
do a clera divina, eles eram atingidos por um      taurao de uma viso da loucura capaz de
destino trgico.                                    conceituar a idia de doena mental, em detri-
    Essa separao entre as causas naturais e as    mento de qualquer idia de possesso divina.
causas genealgicas, entre o olhar mdico e o           Nesse aspecto, o emprego do termo etnopsi-
olhar histrico, entre Hipcrates e Herdoto,       quiatria mostra com clareza os obstculos em
seria reencontrada, sob novas formas, na his-       que esbarrou o saber psiquitrico quando quis
tria da psiquiatria dinmica* do sculo XX e,      se universalizar. Com efeito, primeiro a etnopsi-
em particular, em todos os debates que opuse-       quiatria esteve aliada  psicologia dos povos,
ram os partidrios da organognese aos da psi-      depois  psiquiatria colonial e, por fim, ao de-
cognese. Ter o distrbio mental como origem       senvolvimento da antropologia e da etnologia.
uma histria familiar, um destino (fatum), um       Conforme a ocasio, favoreceu ora a universa-
romance familiar*, ou ser que  produzido por      lizao do discurso cientfico sobre a doena
                                                                                etnopsicanlise         209

mental, ora o tcito restabelecimento do dife-      Lvi-Strauss. Ao faz-lo, estabeleceu as bases
rencialismo tnico (impondo-se ento como           de uma espcie de antropologia da loucura, que
uma espcie de departamento psiquitrico a          recorria, ao mesmo tempo,  psicanlise,  psi-
servio dos povos no civilizados, que se trata-    quiatria e  etnologia.
vam com feiticeiros e ainda estavam convenci-           Definitivamente emancipada da psicologia
dos da origem religiosa da loucura).                dos povos e da psiquiatria colonial, a etnopsi-
    As teses da etnopsiquiatria foram aproveita-    canlise separou-se ento da antropologia,
das, durante a primeira metade do sculo XX,        transformando-se numa disciplina hostil a qual-
pela medicina colonial militar, fosse esta ingle-   quer universalismo e servindo para tratar das
sa, como na ndia*, onde elas imprimiram vi-        minorias urbanas e das populaes migratrias
gorosamente sua marca nos debates em torno          dos pases ocidentais, com a ajuda de suas
da psicanlise, fosse francesa, como na maioria     prprias tcnicas xamansticas. Dentro dessa
dos pases da frica, onde as idias freudianas     linha, ela evoluiu para um culturalismo* radi-
nunca se implantaram. Com o grande movi-            cal, hostil  psicanlise da qual ela havia sado
mento mundial de descolonizao das dcadas         e valorizador da identificao entre o prestador
de 1950 e 1960, os princpios da psiquiatria        de cuidados e o feiticeiro.
colonial inglesa foram contestados pelos dife-          Quanto a esse aspecto, convm constatar
rentes artfices da antipsiquiatria*, Ronald        que nem Roheim nem Devereux formaram dis-
Laing* e David Cooper*, auxiliados nessa tare-      cpulos e que a antropologia psicanaltica, no
fa pelos culturalistas norte-americanos, sobre-     sentido como eles a entendiam, deixou de exis-
tudo Gregory Bateson*. Quanto aos princpios        tir com esses pesquisadores, deslizando ento
da psiquiatria colonial francesa, foram violen-     quer para o lado da magia e das medicinas
tamente atacados no entre-guerras pelos sur-        paralelas, quer para o lado do engajamento
realistas, em especial pelo escritor Michel Lei-    militante anti-ocidental.
ris (1901-1990), que participou da primeira             Em contrapartida, o estudo da natureza da
grande misso etnolgica francesa de 1931,          doena e da loucura em funo das diferentes
Dacar-Djibuti, conduzida por Marcel Griaule         culturas continuou a ser objeto de mltiplos
(1898-1956). Aps a Segunda Guerra Mundial,         trabalhos, sobretudo por parte dos antroplo-
foi a psicologia da colonizao, outro tipo de      gos. Testemunho disso, na Frana, so o livro
abordagem do fenmeno mental, que se tornou         de Roger Bastide (1898-1974), Le Rve, la
objeto de um longo debate entre Frantz Fanon*       transe, la folie, publicado em 1972, e as pesqui-
e Octave Mannoni*, enquanto se desenrolava          sas conduzidas por Marc Aug, na mesma linha
em Dacar a experincia de Henri Collomb* e          das de Devereux. Elas tendem a mostrar que
enquanto Edmond e Cecile Ortigues traba-            todo distrbio biolgico  sinal de uma altera-
lhavam na descoberta de um dipo africano.          o ou de uma desordem social. Sob esse ponto
    No entre-guerras, Geza Roheim deu um no-        de vista, o interesse est em comparar no a
vo contedo ao campo da etnopsiquiatria. Dis-       medicina tradicional com a medicina biomdi-
cpulo kleiniano de Freud, ele se tornou etnlo-    ca (ocidental), mas em estudar o pluralismo da
go por paixo e para responder s crticas for-     viso mdica em cada sociedade, a heterogenei-
muladas por Bronislaw Malinowski* contra To-        dade das interpretaes e, por fim, as trajetrias
tem e tabu*. Ligando a psicanlise, a antropo-      dos doentes, de suas famlias e dos terapeutas.
logia e a experincia do campo australiano e        Segundo essa tica, a expresso psiquiatria
melansio, ele soube tratar as patologias nativas   transcultural foi que acabou por se impor, em
dentro de uma perspectiva universalista, sem        lugar de etnopsiquiatria ou etnopsicanlise, por
jamais servir aos interesses do colonialismo.       demais carregadas de uma nfase na etnia.
Seguindo-se a ele, Georges Devereux, aluno de
Marcel Mauss (1872-1950), psicanalista e etn-       Claude Lvi-Strauss, Race et histoire (1952), Paris,
                                                    Denol, col. "Folio Essais", 1987  Henri F. Ellenberger,
logo de campo, reuniu as duas disciplinas -- a      "Ethno-psychiatrie", Encyclopdie mdico-chirurgi-
etnopsiquiatria e a etnopsicanlise --, as-         cale, 37725 A 10 e B 10, 1965, 1-13 e 1-22  Edmond
sociando as teorias freudianas s de Claude         e Marie-Ccile Ortigues, Oedipe africain, Paris, Plon,
210       eu

1966  Roger Bastide, Le Rve, la transe, la folie, Paris,   da maioria dos grandes filsofos, sobretudo os
Flammarion, 1972  Franois Laplantine, L'Ethnopsy-
                                                             alemes, desde meados do sculo XVIII. E, ante
chiatrie, Paris, ditions Universitaires, 1973; Antropo-
logia da doena (Paris, 1986), S. Paulo, Martins Fontes      a constatao das experincias mesmerianas,
 Marc Aug, "Ordre biologique, ordre social: la maladie,    Wilhelm von Schelling (1775-1854) e Johann
forme lmentaire de l'vnement", in M. Aug e C.           Gottlieb Fichte (1762-1814) relativizaram a im-
Herzlich (orgs.), Le Sens du mal. Anthropologie, his-
                                                             portncia do eu em sua concepo do funciona-
toire, sociologie de la maladie, Paris, d. des Archives
Contemporaines, 1984  Jacques Jouanna, Hippo-               mento mental. Essas referncias filosficas
crate, Paris, Fayard, 1992.                                  constituem o pano de fundo contra o qual se
                                                             desenvolveram as primeiras etapas de uma psi-
 ANTROPOLOGIA; ESQUIZOFRENIA; FROMM, ERI-                    quiatria dinmica* que procurava desvincular-
CH; HORNEY, KAREN; HIPNOSE; NDIA; KARDINER,
                                                             se das concepes organicistas do funciona-
ABRAM; MEAD, MARGARET; PSICOTERAPIA;
                                                             mento do esprito humano.
SACHS, WULF; SULLIVAN, HARRY STACK.
                                                                 Assim, podemos considerar que Wilhelm
                                                             Griesinger (1817-1869), inspirador de Theodor
                                                             Meynert, foi um dos ancestrais de Freud. No-
eu                                                           meado diretor, em 1860, do novssimo hospital
al. Ich; esp. yo; fr. moi; ing. ego                          psiquitrico de Zurique, o Burghlzli, Griesin-
Termo empregado na filosofia e na psicologia para            ger foi um dos primeiros psiquiatras a afirmar
designar a pessoa humana como consciente de si               que a maioria dos processos psicolgicos decor-
e objeto do pensamento. No Brasil tambm se usa              ria de uma atividade inconsciente. Ele elaborou
"ego".                                                       uma psicologia do eu cujas distores so tidas
   Retomado por Sigmund Freud*, esse termo de-               como resultantes do conflito que ope esse eu
signou, num primeiro momento, a sede da cons-                a representaes que ele no consegue as-
cincia. O eu foi ento delimitado num sistema               similar.
chamado primeira tpica*, que abrangia o cons-                   Meynert*, cujas aulas Freud acompanhou
ciente*, o pr-consciente* e o inconsciente*.                em 1883, formulou, por sua vez, uma concep-
   A partir de 1920, o termo mudou de estatuto,
                                                             o dual do eu, fazendo uma distino entre o
sendo conceituado por Freud como uma instncia
                                                             eu primrio, parte inconsciente da vida mental
psquica, no contexto de uma segunda tpica que
abrangia outras duas instncias: o supereu* e o
                                                             que tem sua origem na infncia, e o eu secun-
isso*. O eu tornou-se ento, em grande parte, in-            drio, ligado  percepo consciente.
consciente.                                                      Encontramos a marca desse ensino na pri-
     Essa segunda tpica (eu/isso/supereu) deu ori-          meira grande elaborao terica de Freud, seu
gem a trs leituras divergentes da doutrina freudia-         "Projeto para uma psicologia cientfica". Desde
na: a primeira destaca um eu concebido como um               esse momento -- e nisso se situa a contribuio
plo de defesa* ou de adaptao  realidade (Ego             freudiana --, o eu se inscreve na trama da
Psychology*, annafreudismo*); a segunda mergu-               anlise do conflito psquico. Assim, nessa pri-
lha o eu no isso, divide-o num eu [moi] e num Eu             meira sntese terica, evocando o conflito entre
[je] (sujeito*), este determinado por um significan-         a "atrao provocada pelo desejo*" e a ten-
te* (lacanismo*); e a terceira inclui o eu numa              dncia ao recalcamento*, cujo teatro  o sistema
fenomenologia do si mesmo ou da relao de ob-               neuronal concernido nas excitaes endgenas,
jeto* (Self Psychology*, kleinismo*).                        Freud discerne a existncia de uma "instncia"
   Henri F. Ellenberger* d mostras de exces-                cuja presena entrava a passagem das quanti-
siva severidade ao escrever, a propsito da se-              dades energticas, quando esse fluxo  acompa-
gunda tpica freudiana, que "o eu no passa de               nhado de sofrimento ou de satisfao. "Essa
um antigo conceito filosfico, vestido numa                  instncia", diz Freud, "chama-se o `eu' (...).
nova roupagem psicolgica". Sem dvida,                      Descrevemos (...) o eu dizendo que ele cons-
Freud foi to pouco inventor do termo "eu"                   titui, em qualquer momento dado, a totalidade
quanto criador dos termos inconsciente e cons-               dos investimentos* desse sistema neuronal."
ciente. A idia de eu, muitas vezes sinnima da              Esse eu tem um modo duplo de funcionamento:
de conscincia, de fato est presente nas obras              esfora-se por se livrar dos investimentos dos
                                                                                         eu      211

quais  objeto, procurando a satisfao, e tenta,   Parte do eu, instncia de ordem moral, instala-
por meio do processo que Freud denomina de          se numa posio crtica diante da parte restante
inibio, evitar a repetio de experincias do-    do eu. Essa diferenciao, j esboada no texto
lorosas.                                            sobre o narcisismo, constitui a primeira verso
    Antes mesmo da redao do "Projeto",            do que viria a ser o ideal do eu* e, mais tarde,
Freud abordou o papel do eu nas elaboraes         o supereu.
preliminares que so os manuscritos enviados            O eu  afetado, enfim, em sua prpria cons-
a Wilhelm Fliess*. Assim, em 24 de janeiro de       tituio, pelo processo de identificao*: em
1895, no manuscrito H, ele fala da natureza das     alguns casos, pode trazer a marca, trao nico,
relaes conflitivas com o eu. As formas de que     de uma relao com um outro. A identificao
esse conflito se reveste permitem distinguir as     com esse trao pode levar  transformao do
diferentes afeces psquicas: histeria*, idias    eu segundo o "modelo" desse outro. Em Psico-
obsessivas, confuses alucinatrias e para-         logia das massas e anlise do eu*, so as iden-
nia*. Numa carta a Fliess de 6 de dezembro de      tificaes dos indivduos em seu eu que,
1896, onde surge pela primeira vez a idia de       comandadas pela instalao de um nico e mes-
aparelho psquico, o eu, qualificado de "ofi-       mo objeto no ideal do eu de cada um, permitem
cial",  assemelhado ao pr-consciente. Mas         a constituio de uma multido organizada.
essa caracterstica no  retomada no captulo          Em 1923, em O eu e o isso*, o eu torna-se
VII de A interpretao dos sonhos*, onde a          uma das instncias da segunda tpica, caracte-
primeira tpica  integralmente teorizada.          rizada por um novo dualismo pulsional, que
    Em seguida, a partir dos Trs ensaios sobre     ope as pulses de vida s pulses de morte.
a teoria da sexualidade*, o eu  pensado como           Se o eu continua a ser o ancoradouro defen-
o lugar de um sistema pulsional do qual iro        sivo em relao s excitaes internas e exter-
diferenciar-se, por apoio*, as pulses sexuais,     nas, se seu papel realmente consiste em refrear
conclamadas a se tornarem completamente dis-        os mpetos passionais do isso e em substituir o
tintas. As pulses do eu, portanto, ficam a ser-    princpio de prazer* pelo princpio de realidade,
vio da autoconservao do indivduo, incluin-      se, provido do que Freud denomina de "calota
do a totalidade das necessidades primrias or-      acstica", lugar de recepo dos traos mnmi-
gnicas no sexuais.                                cos deixados pelas palavras, o eu se encontra no
    A reformulao que comeou a se efetuar         cerne do sistema perceptivo, e se, por fim,
com a introduo do conceito de narcisismo*,        ajudado pelo supereu, ele participa da censura*,
em 1914, contribuiu para conferir ao eu um          a novidade reside, antes de mais nada, no fato
lugar de primeiro plano. Em seguida aos traba-      de que uma parte do eu, "e Deus sabe que parte
lhos de Karl Abraham*, o estudo das psicoses*       importante do eu", insiste Freud,  inconscien-
permitiu estabelecer que o eu podia ser sede de     te. No, esclarece ainda Freud, no sentido la-
um investimento libidinal, como qualquer ob-        tente do pr-consciente, mas no sentido pleno
jeto externo. Surgiu assim uma libido* do eu,       do termo inconsciente, j que a experincia
oposta  libido objetal, com Freud enunciando       psicanaltica demonstra, precisamente, como 
a hiptese de um movimento de balana entre         difcil ou at impossvel levar ao consciente as
as duas. A partir da, o eu deixou de ter apenas    resistncias* enraizadas no eu, que se compor-
o papel de mediador perante a realidade exter-      tam "exatamente como o recalcado".
na, sendo tambm objeto de amor e se tornando,          Nessa segunda tpica, o eu " a parte do isso
em virtude da distino entre narcisismo prim-     que foi modificada sob a influncia direta do
rio -- que pressupe a existncia de uma libido     mundo externo, por intermdio do Pc-Cs [sis-
no eu -- e narcisismo secundrio, um reserva-       tema percepo-conscincia] (...),  como que
trio de libido.                                    uma continuao da diferenciao superficial".
    Com o artigo "Luto e melancolia", publica-      Freud acrescenta que "o eu , antes de mais
do em 1917, Freud introduziu outras modifi-         nada, um eu corporal". Por isso,  preciso
caes importantes, em especial a idia de uma      apreend-lo como uma projeo mental da su-
diferenciao funcional efetuada a partir do eu.    perfcie do corpo.
212     eu

    Uma vez repertoriadas as respectivas            inconsciente", seguindo caminhos que, por ou-
funes do supereu e do isso, Freud retornou a      tro lado, so bem distintos entre si.
sua concepo do eu, para traar dele um quadro         Se Melanie Klein* enfatiza a fase pr-edi-
trgico, de acordo com sua concepo da con-        piana do desenvolvimento psquico, consagran-
dio humana. Ao contrrio da representao         do sua ateno ao estudo das relaes arcaicas
que a cincia fornecia dele, "o eu no  senhor     me-filho e a seu contedo pulsional negativo,
em sua casa": "Agora vemos o eu com sua fora       o procedimento de Jacques Lacan* volta-se
e suas fraquezas. Ele  encarregado de funes      desde logo para a anlise das condies de
importantes e, em virtude de sua relao com o      emergncia de um sujeito do inconsciente, apa-
sistema perceptivo, estabelece a ordenao          nhado, em sua origem, na armadilha do eu, que
temporal dos processos psquicos e os submete        constitutivo do registro do imaginrio*, este
 prova de realidade. Intercalando os processos     conclamado, desde 1953, a se tornar uma das
de pensamento, consegue adiar as descargas          instncias da tpica lacaniana, ao lado do real*
motoras e domina os acessos  motilidade. Esta      e do simblico*.
ltima dominao, entretanto,  mais formal do          Para Lacan, o eu se distingue, como ncleo
que efetiva, tendo o eu em sua relao com a        da instncia imaginria, na fase chamada de
ao, por assim dizer, a postura de uma monarca     estdio do espelho*. A criana se reconhece em
constitucional sem cuja sano nada pode trans-     sua prpria imagem, caucionada nesse movi-
formar-se em lei, mas que reflete longamente        mento pela presena e pelo olhar do outro* (a
antes de opor seu veto a uma proposta do par-       me ou um substituto) que a identifica, que a
lamento. (...) vemos esse mesmo eu como uma         reconhece simultaneamente nessa imagem.
pobre criatura que tem que servir a trs senhores   Nesse instante, porm, o eu [je]  como que
e, por conseguinte, sofre a ameaa de trs peri-    captado por esse eu [moi] imaginrio: de fato, o
gos, por parte do mundo externo, da libido, do      sujeito, que no sabe o que , acredita ser aquele
isso e da severidade do supereu."                   eu [moi] a quem v no espelho. Trata-se de um
    Depois de Freud, o eu, sua concepo e as       engodo,  claro, j que o discurso desse eu [moi]
funes de que ele  supostamente a sede iriam       um discurso consciente, que faz "semblante"
constituir um desafio terico e poltico a partir   de ser o nico discurso possvel do indivduo,
do qual se instituiriam correntes contraditrias    enquanto existe, como que nas entrelinhas, o
no movimento psicanaltico.                         discurso no controlvel do sujeito do incons-
    Assim se formaram duas correntes, destina-      ciente.
das a se tornar dominantes na psicanlise norte-        Consideradas essas bases, podemos compre-
americana: o annafreudismo e a Ego Psycholo-        ender a interpretao lacaniana da clebre frase
gy, em torno de Anna Freud*, por um lado, e de      de Freud nas Novas conferncias introdutrias
Heinz Hartmann*, por outro, para privilegiar o      sobre psicanlise*: "Wo Es war, soll Ich wer-
eu e seus mecanismos de defesa, em detrimento       den". Lacan traduz essa frase da seguinte ma-
do isso, do inconsciente e do sujeito*. Dessa       neira: "Ali onde isso era, eu devo advir." Para
maneira, elas contriburam para fazer da psica-     ele, trata-se de mostrar que o eu no pode surgir
nlise uma terapia da adaptao do eu  reali-      no lugar do isso, mas que o sujeito (je) deve estar
dade.                                               ali onde se encontra o isso, determinado por ele,
    Em reao a essa normalizao, Heinz Ko-        pelo significante.
hut* retomou o conceito de self (o si mesmo),
introduzido em 1950 por Hartmann, para as-           Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
                                                    (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
sinalar uma distino em relao ao ego, e          Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; A interpre-
elaborou uma teoria do aparelho psquico em         tao dos sonhos (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III,
que o self se tornou uma instncia particular,      1-642; SE, IV-V, 1-621; Paris, PUF, 1967; Trs ensaios
que permite explicar os ataques narcsicos.         sobre a teoria da sexualidade (1905), ESB, VII, 129-
                                                    212; GW, V, 29-145; SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard,
    Outras correntes, como o kleinismo* e o         1987; "A concepo psicanaltica da perturbao psi-
lacanismo*, adotam uma orientao radical-          cognica da viso" (1910), ESB, XI, 197-206; GW, VIII,
mente oposta, na perspectiva de um "retorno ao      94-102; SE, XI, 209-18; OC, X, 177-86; "Sobre o nar-
                                                                                       Eu e o isso, O      213

cisismo: uma introduo" (1914), ESB, XIV, 89-122;          do ttulo. Traduzido pela primeira vez para o ingls
GW, X, 138-70; SE, XIV, 67-102; in La Vie sexuelle,         por Joan Riviere*, em 1927, sob o ttulo The Ego
Paris, PUF, 1969, 80-105; "Luto e melancolia" (1915-        and the Id. Essa traduo foi revista por James
1917), ESB, XIV, 275-92; GW, X, 427-46; SE, XIV,
                                                            Strachey* e republicada em 1961, sem alterao do
237-58; OC, XIII, 259-78; "Mais-alm do princpio do
prazer" (1920), ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69; SE,      ttulo.
XVIII, 1-64; in Essais de psychanalyse, Paris, Payot,           Desde seu lanamento, O eu e o isso foi
1981, 41-115; "Psicologia das massas e anlise do eu"       acolhido com entusiasmo pela comunidade psi-
(1921), ESB, XVIII, 91-184; GW, XIII, 73-161; SE, XVIII,
65-143; OC, XVI, 1-83; "O eu e o isso" (1923), ESB,         canaltica, ainda que alguns tenham feito certas
XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX, 1-59; OC, XVI,       reservas  homenagem nele prestada por
255-301  Sigmund Freud e Josef Breuer, Estudos             Sigmund Freud a Georg Groddeck*, autor do
sobre a histeria (1895), ESB, II; GW, I, 77-312; SE, II;    Livro d'isso, publicado alguns meses antes.
Paris, PUF, 1956  Jol Dor, Introduo  leitura de
Lacan, t. I (Paris, 1985), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992       Como atestam as cartas endereadas a San-
 Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de        dor Ferenczi* e a Otto Rank* durante o vero
l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,        de 1922, Freud estava perfeitamente cnscio de
1974), Paris, Fayard, 1994  Anna Freud, O ego e os         dar continuidade, atravs desse terceiro ensaio,
mecanismos de defesa (Londres, 1936), Rio de Janei-
ro, Civilizao Brasileira, 1982, 6 ed.  Heinz Kohut,      vasta reformulao terica iniciada com
Le Soi (N. York, 1971), Paris, PUF, 1991; The Res-          Mais-alm do princpio de prazer e prosseguida
toration of the Self, N. York, International Universities   na Psicologia das massas e anlise do eu*. Essa
Press, 1977  Jacques Lacan, "O estdio do espelho          continuidade  afirmada logo nas primeiras li-
como formador da funo do eu" (1949), in Escritos
(Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 96-       nhas do livro, mas Freud esclarece que, desta
103; "Funo e campo da fala e da linguagem em              vez, no se tomar "nenhum novo emprstimo
psicanlise" (1953), ibid., 238-324; "Introduo ao co-     da biologia", sendo seu objetivo manter-se o
mentrio de Jean Hyppolite sobre a Verneinung de
                                                            mais prximo possvel da psicanlise*.
Freud" (1954), ibid., 370-82; "A coisa freudiana ou
Sentido do retorno a Freud em psicanlise" (1955),              O primeiro captulo  uma rememorao do
ibid., 402-37; "Observao sobre o relatrio de Daniel      caminho percorrido pela psicanlise. Esta, me-
Lagache: Psicanlise e estrutura da personalidade"          diante o estudo do sonho* e da hipnose*, conse-
(1960), ibid., 653-91; "De nossos antecedentes", ibid.,
                                                            guiu aprimorar (e depois, superar) a clssica
69-76; O Seminrio, livro 2, O eu na teoria de Freud e
na tcnica da psicanlise (1954-1955) (Paris, 1978),        oposio entre o consciente* e o inconsciente*.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985  Jean Laplanche e        Para isso, estabeleceu uma distino entre a
Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise          abordagem descritiva dos processos psquicos
(Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed. 
Agns Oppenheimer, Kohut et la psychologie du self,
                                                            e a abordagem dinmica (psicanaltica, propria-
Paris, PUF, 1996  lisabeth Roudinesco, Histria da        mente dita) desses mesmos processos. Isso se
psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Ja-      aplica sobretudo ao termo inconsciente, que, no
neiro, Jorge Zahar, 1988.                                   sentido descritivo, designa processos psquicos
                                                            latentes, suscetveis de se tornarem conscientes,
                                                            aos quais a psicanlise deu a denominao de
eu autnomo                                                 pr-consciente*, e, no sentido dinmico, desig-
 EGO PSYCHOLOGY; HARTMANN, HEINZ.                           na o material psquico recalcado, que somente
                                                            a tcnica psicanaltica  capaz de tornar cons-
                                                            ciente, logrando vencer as resistncias* que se
Eu e o isso, O                                              opem a essa transformao. A psicanlise, des-
Livro publicado por Sigmund Freud* em 1923, sob             se modo, props uma representao tpica do
o ttulo Das Ich und das Es. Traduzido para o
                                                            psiquismo que comportava trs instncias -- o
francs pela primeira vez em 1927, por Samuel
                                                            consciente (Cs), o pr-consciente (Pcs) e o in-
Janklvitch, sob o ttulo Le Moi et le Soi. Essa
traduo foi revisada por Angelo Hesnard* e reedi-
                                                            consciente (Ics) --, instncias "cujo sentido no
tada em 1966, sob o ttulo Le Moi et le a. Uma nova         mais simplesmente descritivo".
traduo foi feita em 1981 por Jean Laplanche e                 O prosseguimento do trabalho psicanaltico,
Jean-Bertrand Pontalis, sob o ttulo Le Moi et le a,       entretanto, demonstrou a insuficincia dessa
e depois, em 1991, por Catherine Baliteau, Albert           elaborao, em virtude da descoberta de uma
Bloch e Joseph-Marie Rondeau, sem modificao               organizao psquica coerente e unitria  qual
214     Eu e o isso, O

os psicanalistas deram o nome de eu*. Num               A complexa relao do eu com o isso as-
primeiro momento, esse eu foi concebido como        semelha-se, diz Freud,  do "cavaleiro com o
estreitamente ligado  conscincia* e conside-      cavalo, cuja fora superior ele tem que refrear,
rado responsvel pelas relaes entre a organi-     com a diferena de que o cavaleiro se empenha
zao psquica e as informaes vindas de fora.     nisso com suas prprias foras, enquanto o eu o
Depois, a experincia dos tratamentos psicana-      faz com foras emprestadas". A rigor, a compa-
lticos permitiu constatar a existncia, qualquer   rao vai ainda mais longe: "Assim como o
que fosse a boa vontade de que davam mostra         cavaleiro, no querendo separar-se de seu cava-
os pacientes em suas associaes livres*, de        lo, muitas vezes no tem outra sada seno
resistncias inconscientes, opostas  suspenso     conduzi-lo por onde ele quer ir, tambm o eu
do recalcamento e provenientes do eu. Da esta      tem o costume de transformar em ao a von-
constatao, efetuada j em 1915, num artigo        tade do isso, como se fosse a dele mesmo." Para
metapsicolgico dedicado ao inconsciente: se        proteger essa nova elaborao contra qualquer
todo o recalcado era inconsciente, o inconsci-      forma de interpretao moral, Freud rejeita a
ente no coincidia inteiramente com o recalca-      idia de um inconsciente como sede privilegia-
do. A existncia de uma parte inconsciente no       da das paixes mais vis, oposto a uma conscin-
eu, oposta por clivagem* ao eu coerente, impu-      cia que seria a sede das mais nobres atividades
nha que se reconhecesse a existncia de trs        intelectuais. Com esse intuito, ele lembra que 
inconscientes: um inconsciente assimilvel ao       freqente um trabalho intelectual delicado en-
recalcado, um inconsciente dependente do eu,        contrar sua soluo de maneira inconsciente,
distinto do recalcado, e um inconsciente latente,   em particular durante o sono.  guisa de conclu-
o pr-consciente. Ao mesmo tempo, j no era        so, Freud reafirma a primazia da escala dos
possvel definir a neurose* como o resultado de     valores psicanalticos, declarando: "No  ape-
um conflito entre o consciente e o inconsciente.    nas o mais profundo, mas tambm o mais ele-
    Com efeito, a pesquisa psicanaltica atestou    vado no eu que pode ser inconsciente."
que, entre essas duas instncias, era imperativa-       Se as coisas pudessem ficar por a, esclarece
mente necessrio levar em conta o eu, placa         Freud no limiar do terceiro captulo, a situao
giratria que participa da conscincia e das        seria simples. Mas o eu no tem apenas o isso
percepes externas, engloba o pr-consciente       como adversrio e rival: tem tambm que se
e comporta uma parte inconsciente. Como ex-         confrontar com uma outra instncia, a terceira
plicar a complexidade dessa nova instncia, o       dessa nova tpica que vai ganhando forma, o
eu, cujo lugar na elaborao terica vinha se       supereu*.
tornando essencial?                                     Essa entidade fora objeto de uma primeira
    A resposta a essa pergunta constitui o mo-      elaborao em 1914, na "Introduo ao narci-
mento chave da obra. Apoiando-se no texto de        sismo". Freud dava ento o nome de ideal do eu
Groddeck, Freud estabelece uma distino fun-       a uma funo do eu. Depois, em 1921, em
damental entre um eu consciente e o eu "pas-        Psicologia das massas e anlise do eu, a funo
sivo" groddeckiano, isto , um eu inconsciente,     transformara-se numa instncia, conservando o
que ele passa desde ento a chamar, " maneira      mesmo nome. E agora aparece um novo termo,
de Groddeck", de isso. Por esse prisma, o eu        o supereu, considerado equivalente ou sinni-
torna-se uma instncia intermediria, por um        mo do ideal do eu. Da o ttulo do captulo, "O
lado ligada ao mundo externo, atravs do sis-       eu e o supereu (ideal do eu)". Desse momento
tema percepo-conscincia e, por outro, ao         em diante, o ideal do eu deixa de ser concebido
isso, com o qual ele se funde, mas sobre o qual     como herdeiro do narcisismo primrio. Na pers-
se empenha em exercer uma funo pacificado-        pectiva inaugurada em 1921, a nfase  coloca-
ra: "A percepo desempenha para o eu o papel       da na problemtica da identificao*.
que, no isso, compete  pulso*. O eu representa        Primeiramente, faz-se referncia ao texto da
o que podemos denominar de razo e bom              metapsicologia* intitulado "Luto e melanco-
senso, em oposio ao isso, que tem por conte-     lia", que apresentava a hiptese de uma reins-
do as paixes."                                     crio, no eu, do objeto perdido, causa da afec-
                                                                             Eu e o isso, O      215

o dolorosa. Esse processo, que consiste na            O supereu, entretanto, no  apenas a resul-
substituio de um investimento* objetal por        tante das primeiras escolhas de objeto do isso,
uma identificao, logo se evidenciou, explica      mas tambm uma formao reativa contra esses
Freud, como emblemtico do desenvolvimento          objetos: ao mesmo tempo, ele  ordem -- "tens
psicolgico. Os investimentos objetais partem       que ser assim (como o pai)" -- e proibio:
do isso, concebido como o grande reservatrio       "no tens direito de ser assim (como o pai)".
da libido*; so produto das pulses sexuais das     Seja qual for a forma do complexo de dipo,
quais o eu procura se defender por meio do          positiva, negativa ou intermediria, e seja qual
recalque*. De maneira mais ou menos sis-            for sua resoluo final, o supereu conserva o
temtica, todo abandono do objeto sexual tra-       carter do pai: "Quanto mais forte  o complexo
duz-se por uma modificao do eu, que, como         de dipo e quanto mais depressa se produz seu
na melancolia*, apropria-se do objeto por iden-     recalcamento (sob a influncia da autoridade,
tificao. Esse processo, diz Freud,  suficien-    da instruo religiosa, do ensino, das leituras),
temente freqente para "concebermos que o           mais severa ser, posteriormente, a dominao
carter do eu resulta da sedimentao dos inves-    do supereu sobre o eu como conscincia moral,
timentos objetais abandonados". As primeiras        ou at como sentimento de culpa inconsciente."
identificaes, as da primeira infncia, tm um     O ideal do eu/supereu aparece, portanto, como
carter geral e duradouro, e uma delas, a primei-   o herdeiro do complexo de dipo, e constitui,
ra,  responsvel pelo nascimento do ideal do       por isso mesmo, a expresso mais acabada do
eu: trata-se da identificao com o pai.            desenvolvimento da libido do isso. Se o eu  o
                                                    agente da realidade externa, o supereu confron-
    Dois fatores devem ser levados em conta na
                                                    ta-se com ele como representante do mundo
gnese do ideal do eu/supereu: o complexo de
                                                    interno, do isso. A oposio consciente/incons-
dipo* e a natureza bissexual de todo in-
                                                    ciente aprimora-se, os conflitos neurticos pas-
divduo. Isso d ensejo a que Freud efetue uma
                                                    sam, desde ento, a ter como protagonistas o eu
longa elaborao, que leva, como fora anuncia-
                                                    e o supereu, e resultam de uma oposio entre
do em 1921 na Psicologia das massas e anlise
                                                    o externo e o interno, entre o real e o psquico.
do eu,  exposio da chamada forma "comple-
                                                        O quarto captulo tem por objeto o relacio-
ta" do complexo de dipo. A bissexualidade*
                                                    namento dessa nova tpica com o dualismo
inerente a todo ser humano intervm de duas         pulsional elaborado em Mais-alm do princpio
maneiras no destino do complexo de dipo.           de prazer, do qual Freud prope uma rememo-
Primeiro, a propsito da identificao final com    rao sumria, insistindo nas formas de fuso e
o pai ou com a me: essa depender, diz Freud,      desfuso dos dois tipos de pulses, pulses de
"da fora relativa, em ambos os sexos, das          vida e pulses de morte. O sadismo*, em sua
predisposies sexuais masculina e feminina".       forma de componente da pulso sexual,  um
Segundo, a propsito da forma, positiva ou          exemplo de fuso pulsional a servio de uma
negativa, assumida por essa estrutura relacio-      finalidade, porm o sadismo que se torna in-
nal, cuja extrema complexidade  revelada pela      dependente, revestindo-se da forma de uma
primeira vez: "O menino no tem apenas uma          perverso*,  um exemplo igualmente compro-
postura ambivalente em relao ao pai e uma         batrio de desfuso pulsional. Outros exemplos
escolha objetal terna pela me, mas se compor-      de desfuso pulsional so as diversas formas de
ta, ao mesmo tempo, como uma menina, ma-            regresso e, em termos mais gerais, as formas
nifestando a postura feminina terna para com o      de neuroses graves que levam  dominao da
pai e a postura correspondente de hostilidade       pulso de morte. Inversamente, o desenvolvi-
enciumada em relao  me." A experincia          mento harmonioso do psiquismo, a passagem
analtica, esclarece Freud, atesta que, na maio-    de um estdio para outro, atestam uma unio
ria das vezes, deparamos com formas interme-        pulsional.
dirias do complexo, devendo o analista dis-            Essas consideraes levam  formulao de
cernir a forma de arranjo que est em ao neste    duas perguntas centrais, cuja abordagem reve-
ou naquele perfil patolgico.                       la-se tambm um modo de testar a validade da
216     Eu e o isso, O

hiptese da pulso de morte. Ser possvel des-     reencontrar o perigo encontrado no texto de
cobrirmos, indaga-se Freud, "relaes fecundas      1914, o de um abandono de qualquer dualismo
entre, de um lado, as formaes cuja existncia     pulsional.
admitimos, o eu, o supereu e o isso, e de outro,        Na realidade, trata-se de um efeito superfi-
as duas espcies de pulses?" Que acontece          cial, conseqncia do ativismo e da algazarra
com a posio do princpio de prazer* em rela-      das pulses de vida, que servem de anteparo ao
o  dualidade pulsional e  nova tpica que       silncio, j observado em Mais-alm do princ-
acaba de ser instaurada?                            pio de prazer, das pulses de morte. Como
    Antes de responder, Freud submete mais          prova disso Freud expe a maneira como o isso
uma vez ao exame clnico a distino entre os       se defende das tenses provocadas pelas reivin-
dois tipos de pulses, chegando at a fingir que    dicaes das pulses sexuais.  justamente isso
espera encontrar razes para revogar esse dua-      que acontece no mbito da satisfao sexual,
lismo. Da seu recurso  anlise atenta das re-     cuja finalidade  constituda pela rejeio das
laes de amor/dio no contexto da clnica da       substncias sexuais portadoras de tenses er-
parania*. Se realmente observamos nela di-         ticas. Freud observa a semelhana existente
versas modalidades de transformao do amor         entre o estado que sucede  obteno dessa
em dio e vice-versa, essas modificaes decor-     satisfao e o momento da morte. Convencido
rem de uma mudana interna, e no de uma            de introduzir desse modo um argumento suple-
diferena de comportamento do objeto. Assim,        mentar a favor de sua nova teoria das pulses,
no se pode falar, nesse caso, numa transforma-     ele no hesita em recorrer ao exemplo daqueles
o direta do amor em dio, cuja existncia         "animais inferiores" entre os quais o ato de
conduziria ao questionamento do dualismo pul-       procriao coincide com a morte: "Esses seres
sional.                                             vivos morrem da reproduo, na medida em
    Mas essa discusso faz surgir a hiptese da     que, sendo eros posto de lado pela satisfao, a
existncia, na vida psquica, de uma energia        pulso de morte fica com as mos livres para
passvel de deslocamento, cuja localizao ini-     executar seus desgnios."
cial  desconhecida, mas que sabemos ser capaz          O ltimo captulo do livro  dedicado ao
de passar de uma pulso ertica para outra,         sentimento de culpa e s formas de dependncia
destrutiva, para aumentar seu investimento to-      do eu. Ele comea por uma recapitulao das
tal. De fato, o exame das pulses sexuais par-      caractersticas do supereu, do qual Freud subli-
ciais j permitira identificar esse processo, e    nha a propenso, ao longo de toda a evoluo
possvel formular a hiptese de que essa energia    psicolgica, a se opor ao eu. O supereu, escreve
deslocvel provm da reserva de libido narcsi-     ele,  "o memorial da fraqueza e da dependncia
ca, isto , de uma forma de libido dessexualiza-    que outrora foram prprias do eu, e perpetua sua
da, "sublimada", que participa da aspirao uni-    dominao at mesmo sobre o eu amadureci-
tria do eu.                                        do". Por suas origens, o supereu permanece
    Freud esclarece a esse respeito que, se in-     muito prximo do isso, representa-o junto ao eu
cluirmos "nesses deslocamentos os processos         e, desse modo, mantm-se "mais afastado da
de pensamento em sentido lato, veremos que          conscincia do que o eu".
tambm o trabalho do pensamento  alimentado            Para ilustrar essa colocao, Freud, fiel ao
pela sublimao de foras pulsionais erticas".     que fora anunciado, apia-se na clnica psica-
A reencontramos uma observao inicialmente        naltica durante a maior parte desse captulo.
feita a respeito da recuperao, por parte do eu,   Comea retornando a algumas antigas obser-
dos investimentos objetais do isso, e podemos       vaes que aguardavam uma elaborao teri-
discernir melhor a manobra do eu que procura        ca. Refere-se a alguns pacientes cujo estado se
impor-se como objeto exclusivo de amor. O eu,       agrava quando o analista se arrisca a lhes parti-
observa Freud, coloca-se ento a servio das        cipar a evoluo positiva do tratamento: "No
moes pulsionais opostas a Eros, e nisso po-       apenas", diz ele, "(...) essas pessoas no supor-
demos realmente falar de um narcisismo secun-       tam ser elogiadas nem reconhecidas, como tam-
drio, um narcisismo do eu, correndo o risco de     bm (...) reagem de maneira inversa ao progres-
                                                                            Eu e o isso, O      217

so da anlise". Trata-se, muito simplesmente,       da clnica. No caso da melancolia, o supereu se
de uma "reao teraputica negativa", isto , da    apodera do sadismo para arrasar o eu. Mas se
manifestao de um fator oposto  cura, vivida      trata, nessa situao, daquela parcela do sadis-
como um perigo. Alm da resistncia* clssica,      mo que  irredutvel ao amor: sua instalao no
o analista confronta-se, pois, com uma "inaces-     supereu e seus ataques exclusivamente dirigi-
sibilidade narcsica", uma oposio de carter      dos contra o eu constituem o caso singular de
moral, um "sentimento de culpa", marcas de          uma dominao absoluta da pulso de morte,
uma recusa a renunciar  punio representada       passvel, com muita freqncia, de levar o eu a
pelo sofrimento. Tal explicao ainda  insatis-    seu fim. Na neurose obsessiva, o sujeito, mes-
fatria, uma vez que no esclarece a ausncia,      mo sendo exposto a recriminaes igualmente
na conscincia do paciente, de qualquer sensa-      duras, nunca chega, por assim dizer,  autodes-
o de culpa. O paciente sente-se enfermo e se      truio: diversamente do histrico, ele mantm
mantm inacessvel  idia de uma recusa, de        uma relao com o objeto contra o qual as
sua parte, a qualquer forma de cura. Tal situao   pulses destrutivas podem inverter-se em
pode estender-se para muito alm de alguns          pulses de agresso.
casos graves, e essa generalizao leva Freud a         Assim, a melancolia realmente constitui o
propor que se reconhea nesse processo um           caso excepcional em que as pulses de morte,
efeito do comportamento do ideal do eu. O           em virtude de uma desfuso, reencontram-se
recurso  clnica de diversas formas de patolo-     sozinhas, em estado puro, reunidas no supereu.
gia permite distinguir os vrios aspectos dessa     Nos outros casos, as pulses de morte ora so
relao entre o supereu e o sentimento de culpa.    transformadas em pulses agressivas, voltadas
    Na melancolia e na neurose obsessiva*, o        para fora, ora refreadas por sua ligao com
sentimento de culpa persiste e corresponde ao       elementos pulsionais erticos.
que chamamos "conscincia moral". Em ambos              Por que essa especificidade da melancolia,
os casos, o ideal do eu investe contra o eu com     cujo quadro clnico de fato parece constituir o
rara ferocidade, mas as formas dessa severidade     argumento decisivo a favor da existncia das
e as respostas do eu so diferentes. Na neurose     pulses de morte? Um primeiro elemento de
obsessiva, o paciente recusa sua culpa e pede       resposta, observa Freud, nisso contrariando o
ajuda. Confrontado com uma aliana entre o          senso comum,  que, quanto mais um homem
supereu e o isso, desconhece as razes da           restringe sua agressividade contra o exterior,
represso de que  vtima. Na melancolia, o eu      mais ele a aumenta em relao a si mesmo.
se reconhece culpado e podemos formular a           Podemos inclusive encontrar nisso, esclarece
hiptese de que o objeto da culpa j est no eu,    Freud, os fundamentos da concepo do ser
como produto da identificao.                      superior que pune, do Deus vingador e repres-
    Em outros casos, como na neurose histrica,     sivo.
por exemplo, o sentimento de culpa  total-             Indo mais longe, Freud recorda a gnese do
mente inconsciente. Posto em perigo por per-        supereu: nela, a identificao com o modelo
cepes dolorosas, provenientes do supereu, o       paterno  acompanhada por uma dessexualiza-
eu, contrariando seu senhor, serve-se ento do      o ou mesmo por uma sublimao* e uma
recalque, quando de praxe coloca esse recalque      desfuso pulsional. A pulso destrutiva fica en-
a servio dele.                                     to livre, uma vez que eros, em virtude da
    Na medida em que a conscincia moral en-        sublimao, j no pode ligar as moes pulsio-
contra sua origem no complexo de dipo, o           nais entre si. A crueldade e o sentido de dever
sentimento de culpa permanece essencialmente        imperativo que caracterizam o ideal podem ser
inconsciente. Se de fato podemos afirmar a          concebidos como efeitos dessa desfuso.
independncia do supereu em relao ao eu e a           Esses avanos permitem aperfeioar a con-
estreiteza de suas relaes com o isso, como        cepo psicanaltica do eu, transformado numa
explicar essa severidade do supereu para com o      instncia completa dessa nova tpica. Nesse
eu, responsvel por tal sentimento de culpa?        ponto, Freud se mostra hesitante, ora achando
Mais uma vez, as respostas variam em funo         que o eu pode conquistar o isso, ora que ele se
218       eu ideal

mantm como um servo dilacerado, compla-                     tempo (N. York, 1988), S. Paulo, Companhia das Le-
                                                             tras, 1995  Jean-Luc Donnet, Surmoi. Le Concept
cente ou obsequioso do isso, do supereu e da
                                                             freudien et la rgle fondamentale, monografias da Re-
realidade externa. Quanto ao isso,  freqente               vue Franaise de Psychanalyse, Paris, PUF, 1995.
ele tentar submet-lo  dominao muda e po-
derosa das pulses de morte, com o risco de
subestimar o papel de eros.                                  eu ideal
    A natureza dessas incertezas mostra que a                 IDEAL DO EU.
grande reformulao de 1920, de qualquer mo-
do, atinge com esse ensaio um ponto ir-
reversvel. No obstante, permanecem em sus-                 Europa
penso algumas perguntas que s encontraro                    ALEMANHA; BLGICA; BETLHEIM, STJEPAN; DO-
suas respostas mais ou menos definitivas pos-                SUZKOV, THEODOR; EMBIRICOS, ANDREAS; ES-
teriormente: em 1924, em "O problema econ-                  CANDINVIA; ESPANHA; FEDERAO EUROPIA DE
mico do masoquismo", em 1930, em "O mal-                     PSICANLISE; FRANA; GR-BRETANHA; HAAS,
estar na cultura"*, e em 1933, na trigsima                  LADISLAV; HISTRIA DA PSICANLISE; HUNGRIA;
primeira das Novas conferncias introdutrias                ITLIA; KOURETAS, DIMITRI; PASES BAIXOS; RO-
sobre psicanlise*. Note-se que, nesta ltima                MNIA; RSSIA; SUGAR, NIKOLA; SUA; TRIAN-
conferncia, intitulada "A decomposio da                   DAFILIDIS, MANOLIS.

personalidade psquica", Freud atribui um lugar
essencial ao supereu, ao passo que o ideal do eu
                                                             excomunho
no  mais do que um aspecto do supereu ligado
 antiga representao parental.                              CISO.
    Por fim,  nesse texto que aparece esta cle-
bre frase, que viria a receber tradues diversas,           Ey, Henri (1900-1977)
conforme as diferentes escolas psicanalticas:
                                                             psiquiatra francs
"Wo Es war, soll Ich werden." Para Freud, tra-
                                                                Nascido em Banyuls-dels-Aspres, na regio
ta-se de atribuir  cultura uma nova tarefa, cuja
                                                             catal, esse homem caloroso, gourmet refinado,
importncia, em suas palavras,  comparvel 
                                                             grande fumante de charutos e apaixonado por
secagem do Zuiderzee.
                                                             tauromaquia, ocupa na histria do movimento
                                                             psiquitrico francs um lugar equivalente ao de
 Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;        Jacques Lacan* na Frana* freudiana. Foi cole-
Paris, PUF, 1967; "Formulaes sobre os dois princ-         ga de residncia deste no Hospital Sainte-Anne
pios do funcionamento mental" (1911), ESB, XII, 277-         nos anos 1930. Aluno de Henri Claude*, as-
90; GW, VIII, 230-8; SE, XII, 213-26; in Rsultats, ides,   sumiu em 1933 a direo do hospital psiquitri-
problmes, vol.I, Paris, PUF, 1984, 135-43; "Sobre o
narcisismo: uma introduo" (1914), ESB, XIV, 89-122;
                                                             co de Bonneval, situado na Beauce, onde prati-
GW, X, 138-70; SE, XIV, 67-102; in La Vie sexuelle,          cou uma nova abordagem das doenas mentais,
Paris, PUF, 1969, 81-105; "Luto e melancolia" (1917),        inspirada nos trabalhos de Sigmund Freud* e de
ESB, XIV, 275-92; GW, X, 427-46; SE, XIV, 237-58;            Eugen Bleuler*.
OC, XIII, 259-78; "O inconsciente" (1915), ESB, XIV,
191-233; GW, X, 263-303; SE, XIV, 159-204; OC, XIII,
                                                                Durante toda a vida, defendeu vigorosa-
203-42; Mais-alm do princpio do prazer (1920), ESB,        mente uma concepo humanista da psiquiatria.
XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69; SE, XVIII, 1-64; OC, XV,       Foi com essa orientao que dirigiu a revista
273-339; "Psicologia das massas e anlise do eu"             L'volution Psychiatrique a partir de 1945, fun-
(1921), ESB, XVIII, 91-184; GW, XIII, 73-161; SE, XVIII,     dou em 1950 a Association Mondiale de Psy-
65-143; OC, XVI, 1-83; O eu e o isso (1923), ESB, XIX,
23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX, 1-59; OC, XVI,             chiatrie e organizou em Bonneval os famosos
255-303; "O problema econmico do masoquismo"                colquios reunindo psicanalistas, psiquiatras e
(1924), ESB, XIX, 199-216; GW, XIII, 371-83; SE, XIX,        pensadores de todas as tendncias, com um
139-45; OC, XVII, 9-23; Novas conferncias introdut-        esprito de abertura e ecletismo.
rias sobre psicanlise (1933), ESB, XXII, 15-226; GW,
XV; SE, XXII, 5-182; OC, XIX, 83-268  Georg Grod-
                                                                Em 1936, elaborou a noo, desde ento
deck, O livro d'isso (Viena, 1923), S. Paulo, Pers-          clssica, de organo-dinamicismo. Inspirada na
pectiva,  Peter Gay, Freud, uma vida para o nosso           neurologia jacksoniana, da qual Freud adotou
                                                                                        Ey, Henri        219

alguns dos instrumentos tericos, essa doutrina     nista que levasse em conta ao mesmo tempo a
afirma a prioridade da hierarquia das funes       subjetividade do doente e a nosografia clssica,
sobre a sua organizao esttica. Considera as      a Association Mondiale de Psychiatrie, tornan-
funes psquicas como dependentes entre si,        do-se inteiramente americana sob o nome de
de cima para baixo. Assim, Henri Ey se opunha       World Psychiatric Association (WPA), nada
 doutrina dita das constituies, proveniente      guardou de sua herana clnica e, no fim do
da dupla tradio alem e francesa.                 sculo XX, recorreria apenas  farmacologia,
    Se Hughlings Jackson* libertou a neurologia     reduzindo assim o fenmeno da loucura a sin-
de seus pressupostos mecanicistas, Freud aban-      tomas puramente comportamentalistas, des-
donou a neurologia para fundar uma nova teoria      providos de qualquer significao para os pr-
do inconsciente* e dar  psiquiatria uma con-       prios sujeitos: um verdadeiro retorno ao niilis-
cepo indita da loucura*. Ora, segundo Ey,        mo teraputico que Freud combatera em sua
era preciso reunir a neurologia  psiquiatria,      poca.
para dotar esta ltima de uma verdadeira teoria
capaz de integrar o freudismo.                       Henri Ey, Hallucinations et dlires, Paris, Alcan, 1934;
    Para Ey, a psicanlise era a herdeira da psi-   (org.) Manuel de psychiatrie, Paris, Masson, 1960; La
quiatria. Na verdade, era um ramo da psiquiatria    Conscience, Paris, Descle de Brouwer, 1963; Trait
                                                    des hallucinations, Paris, Masson, 1977; Naissance de
dinmica*, e ambas dependiam da medicina. A         la mdecine, Paris, Masson, 1891; Schizophrnie.
partir dessa posio, Henri Ey contestaria du-      tudes cliniques et psychopathologiques, Paris, Syn-
rante os anos 1960 os princpios da antipsiquia-    thlabo, col. "Les empcheurs de penser en rond",
tria*. Tambm se oporia s teses de Michel          1996  Michel Foucault, Histria da loucura na idade
Foucault (1926-1984) sobre a questo da lou-        clssica (Paris, 1962), S. Paulo, Perspectiva, 1978 
                                                    lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na Fran-
cura, julgando-as "psiquiatricidas".                a, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
    Apesar de todos os esforos que fez, visando    1988  Pierre Morel (org.), Dicionrio biogrfico psi
o desenvolvimento de uma psiquiatria huma-          (Paris, 1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
                                                        F
Fachinelli, Elvio (1928-1989)                                      toire de la psychanalyse en Italie", Critique, 333, feve-
                                                                   reiro de 1975  Michel David, "La Psychanalyse en
psicanalista italiano                                              Italie", in Roland Jaccard (org.), Histoire de la psycha-
    Eminente figura da tendncia contestatria e                   nalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982  Elvio Fachinelli,
radical dos anos 1970 na Itlia*, Elvio Fachi-                     L'cole de l'impossible, Paris, Mercure de France,
                                                                   1972  Silvia Vegetti Finzi, Storia della psicoanalisi,
nelli  conhecido como um dos promotores do                        Milo, Mondadori, 1986.
contra-congresso que se realizou em Roma em
1969, ao mesmo tempo que o congresso da                             COMUNISMO; DIFERENA SEXUAL; FEDERAO
poderosssima e muito conservadora Internatio-                     EUROPIA DE PSICANLISE; FREUDO-MARXISMO;
nal Psychoanalytical Association* (IPA).                           MUSATTI, CESARE.
    Esse movimento, que teve grande repercus-
so nos meios de comunicao, questionava as
estruturas hierrquicas da Societ Psicoanaliti-
ca Italiana (SPI), assim como os critrios de                      Fairbairn, Ronald (1889-1964)
formao dos analistas. Os resultados se fize-                     mdico e psicanalista ingls
ram sentir alguns anos depois sob a forma de                           Nascido em Edimburgo, Ronald Fairbairn
uma reorganizao da SPI, que estabeleceu uma                      estudou teologia e filosofia, antes de se orientar
distino entre os centros, em nmero de seis na                   para a medicina e para a psicoterapia*. Clnico
Itlia, que estavam encarregados da difuso                        nos meios hospitalares, professor na universi-
cultural, e os institutos, em nmero de trs,                      dade, consagrou-se em tempo integral  psica-
responsveis pela formao.                                        nlise a partir de 1954. Era o nico membro da
    Influenciado pelas idias de Jacques La-                       British Psychoanalytical Society (BPS) a traba-
can*, que ele contribuiu para divulgar na Itlia                   lhar nessa cidade e nunca foi verdadeiramente
j em 1965, Elvio Fachinelli foi tambm sens-                     reconhecido por seus pares. Inicialmente favo-
vel a todas as teses anti-autoritrias, s de Wil-                 rvel s teses kleinianas, integrou-se depois ao
helm Reich*, s de Herbert Marcuse*, s dos v-                    grupo dos Independentes*. Terico da relao
rios componentes dos movimentos feministas.                        de objeto*, elaborou uma posio original, con-
    Sensvel s novas aspiraes polticas, Fa-                    siderando que os objetos externos so transfor-
chinelli, com Enzo Morpurgo, Diego Napolita-                       mados pelos processos inconscientes. Como
ni e outros, fez com que a psicanlise pudesse                     clnico da esquizofrenia* e da fobia*, foi um dos
participar, fora das estruturas institucionais or-                 ardorosos defensores da doutrina do self, que
todoxas, de todas as experincias em curso nos                     contribuiu para desenvolver amplamente nos
subrbios das grandes cidades, principalmente                      Estados Unidos*.
em Milo. Elvio Fachinelli, que teve um de seus
livros traduzidos em francs, foi o fundador da                     Ronald Fairbairn, Psycho-Analytic Studies of the Per-
revista L'rba voglio, que contou at 2.500                        sonality, Londres, Tavistock, 1952  Judith M. Hughes,
                                                                   Reshaping the Psycho-analytic Domain, Berkeley, Uni-
assinantes nos anos 1970 e que depois foi trans-                   versity of California Press, 1988  R.D. Hinshelwood,
formada em casa editora.                                           Dicionrio do pensamento kleiniano (1989), P. Alegre,
                                                                   Artes Mdicas, 1992  Eric Rayner, Le Groupe des
 Sergio Benvenuto, "A glance at psychoanalysis in                 "Indpendants" et la psychanalyse britannique (Lon-
Italy", artigo indito  Contardo Calligaris, "Petite his-         dres, 1991), Paris, PUF, 1994.

                                                             220
                                                                                    falocentrismo        221

 KLEIN, MELANIE; KLEINISMO; POSIO DEPRES-               Foi Jacques Lacan*, nietzschiano de cultura
SIVA/POSIO ESQUIZO-PARANIDE; SELF PSY-             catlica, admirador de Sade e amigo de Georges
CHOLOGY.                                              Bataille (1897-1962), quem reatualizou a pala-
                                                      vra falo, na mais pura tradio de um anticris-
                                                      tianismo que ia buscar suas fontes no amor
falo                                                  mstico e na filosofia platnica. Muito diversa-
                                                      mente de Freud e dos kleinianos, portanto, La-
al. Phallus; esp. falo; fr. phallus; ing. phallus
                                                      can afastou-se o mximo possvel da concepo
    Diversas palavras so empregadas para de-         biolgica da sexualidade, interessando-se mais
signar o rgo masculino. Se a palavra pnis          pela perverso* do que pela neurose, pelo go-
fica reservada ao membro real, a palavra falo,        zo* do que pelo prazer, pelo desejo* do que pela
derivada do latim, designa esse rgo mais no         necessidade, e pelo objeto (pequeno) a* do que
sentido simblico, ao passo que denominamos           pela pulso*. Fascinado por todas as formas de
de itiflico (do grego ithus, reto) o culto do falo   transgresso, mas habitado pela certeza de que
como smbolo do rgo masculino em ereo.            o falo  um atributo divino, inacessvel ao ho-
Investidos de suprema potncia, tanto na cele-        mem, e no o rgo do prazer ou da soberania
brao dos antigos mistrios quanto em diver-         viril, Lacan fez dele, a partir de julho de 1956,
sas religies pags ou orientais, os deuses itif-    o prprio significante* do desejo, aplicando-lhe
licos e o falo foram rejeitados pela religio         uma maiscula e o evocando, antes de mais
monotesta, que considerava que eles remetiam         nada, como o "falo imaginrio", e depois como
a um perodo brbaro da humanidade, caracte-          o "falo da me", antes de passar finalmente 
rizado por prticas orgacas.                         idia de "falo simblico". Foi assim que ele
    Altamente reivindicado por Sade no sculo         revisou a teoria freudiana dos estdios, da se-
das Luzes, numa contestao radical do cristia-       xualidade feminina e da diferena sexual, mos-
nismo, e mais tarde por Nietzsche, cem anos de-       trando que o complexo de dipo* ou de cas-
pois, o falo tornou-se, para as seitas do perodo     trao* consiste numa dialtica "hamletiana"
moderno, como tentaria mostrar Hermann Ror-           do ser: ser ou no ser o falo, t-lo ou no o ter.
schach*, o instrumento de uma verdadeira su-
jeio dos membros da comunidade, obrigados            Jacques Lacan, O Seminrio, livro 3, As psicoses
a obedecer s injunes sexuais do guru e a           (1955-1956) (Paris, 1981), Rio de Janeiro, Jorge Za-
                                                      har, 1988, 2 ed.; Le Sminaire, livre V, Les Formations
idolatrar seu rgo. Na histria da psicanlise*,
                                                      de l'inconscient (1957-1958), indito, resumido por
foi em nome de um culto biolgico e sexolgico        Jean-Bertrand Pontalis, Bulletin de Psychologie, vol.XI,
do rgo masculino que se desenvolveram to-           1957-1958, 4 e 5, vol.XII, 1958-1959, 2, 3 e 4; "A
das as psicoterapias* de tipo orgstico.              significao do falo" (1958), in Escritos (Paris, 1966),
                                                      Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 692-703  Jrme
    O termo falo, portanto, s muito raramente
                                                      Taillandier, "Le Phallus. Une note historique", Esquis-
foi empregado por Sigmund Freud*, a propsi-          ses Psychanalytiques, 9, primavera de 1988, 199-201.
to do fetichismo* ou da renegao*, e muitas
vezes como sinnimo de pnis. Em contrapar-            FREUDISMO; GNERO; IMAGINRIO; REICH, WIL-
tida, o adjetivo "flico" ocupa um grande lugar       HELM; SEXOLOGIA; SIMBLICO.
na teoria freudiana da libido* nica (de essncia
masculina), na doutrina da sexualidade femini-
na* e da diferena sexual* e, por fim, na con-        falocentrismo
cepo dos diferentes estdios* (oral, anal, f-      al. Phallozentrismus; esp. falocentrismo; fr. phallo-
lico e genital). O falocentrismo* freudiano foi       centrisme; ing. phallocentrism
objeto de uma vasta discusso, tanto no interior          Esse termo, criado em 1927, pertence ao
do movimento psicanaltico, onde Melanie              vocabulrio freudiano e se apia na tradio
Klein*, Ernest Jones* e a escola inglesa contes-      greco-latina, segundo a qual as diversas repre-
taram o monismo sexual em prol de um dualis-          sentaes figuradas do rgo masculino orga-
mo, quanto entre as feministas, que viram nessa       nizavam-se num sistema simblico. Ele remete
doutrina a expresso de um "falocratismo" ou           teoria freudiana da sexualidade feminina* e
de um "falogocentrismo".                              da diferena sexual* e designa uma doutrina
222      Fanon, Frantz

monista, em cujos termos s existiria no incons-         nial. Filho ilegtimo de um casal de "sangue
ciente* uma espcie de libido* de essncia viril.        misturado", foi marcado, alm disso, pelo fato
Essa doutrina foi criticada por Melanie Klein*,          de que era o mais escuro dos oito filhos da
Ernest Jones* e a escola inglesa de psicanlise,         famlia. Ser o mais escuro, diria ele depois, era
que lhe opuseram uma teoria dualista da dife-            "ser o menos branco". Assim, no  surpreen-
rena sexual.                                            dente que tivesse se preocupado, durante toda a
    Depois da Segunda Guerra Mundial, com o              vida, com a questo Branco/Negro.
desenvolvimento do movimento feminista, a                     Entre 1939 e 1943, estudou no Liceu Schoel-
palavra falocentrismo adquiriu uma significa-            cher, onde Aim Csaire ensinava. Depois, hos-
o pejorativa, na medida em que foi assimilada          til  poltica do marechal Ptain, foi para Dom-
a uma doutrina decorrente da "falocracia", isto          nica, para alistar-se nas Foras Francesas Livres
, de um modo de poder sexista, baseado na               da regio caraba. No ano seguinte, aos 19 anos,
desigualdade e na dominao das mulheres pe-             combateu na frente europia e descobriu, nas
los homens.                                              fileiras do exrcito de libertao, que a Frana
    Em 1965, o filsofo francs Jacques Derrida          resistente no era menos racista do que a Frana
forjou o termo falogocentrismo, a partir de fa-          ptainista e anti-semita. Foi enviado  Arglia e
locentrismo e logocentrismo, para designar a             depois condecorado com a cruz de guerra pelo
primazia conferida pela filosofia ocidental ao           general Raoul Salan, comandante-em-chefe do
logos platnico e  simblica do falo*. Esse             6 regimento de atiradores senegaleses.
termo foi retomado em 1974 pela psicanalista                  Em 1947, graas a uma bolsa do governo,
francesa Luce Irigaray, no contexto de uma               inscreveu-se na faculdade de medicina de Lyon
teoria diferencialista da sexualidade feminina.          e se especializou em psiquiatria. Foi ento que
Em seguida, fez fortuna nos Estados Unidos*              iniciou a redao da sua tese, Pele negra, ms-
junto s feministas antifreudianas.                      caras brancas, publicada em 1952, no ano em
 Sigmund Freud, "Algumas conseqncias psquicas        que se encontrava no Hospital de Saint-Alban.
das diferenas anatmicas entre os sexos" (1925),        Ali, formado por Franois Tosquelles, integrou-
ESB, XIX, 309-24; GW, XIV, 19-30; SE, XIX, 248-58;       se  grande corrente da psicoterapia institucio-
OC, XVII, 189-202; "Sexualidade feminina" (1931),        nal*, nascida na Frana com a luta antinazista.
ESB, XXI, 259-82; SE, XXI; OC, XIX, 7-27  Melanie
Klein, Contribuies  psicanlise (Londres, 1965), S.   Antifreudiano, recusou-se a fazer anlise e, em
Paulo, Mestre Jou, 1970  Ernest Jones, Thorie et       dezembro de 1953, foi nomeado mdico-chefe
pratique de la psychanalyse, Paris, Payot, 1969  Jac-   do Hospital de Blida, na Arglia, onde passaria
ques Derrida, Gramatologia (1967), S. Paulo, Perspec-    trs anos tratando dos doentes mentais, no con-
tiva, 1973  Luce Irigaray, Speculum de l'autre femme,
Paris, Minuit, 1974  Juliet Mitchell, Psychanalyse et   texto da guerra de libertao nacional.
fminisme (Londres, 1974), Paris, Des Femmes, 1979;           Pele negra, mscaras brancas era uma res-
Feminism and Psychoanalysis. A Critical Dictionary,      posta  Psicologia da colonizao, obra do psi-
Oxford, Blackwell, 1992.                                 canalista francs Octave Mannoni*, publicada
 ANTROPOLOGIA; BISSEXUALIDADE; CULTURALIS-               em 1950. Mesmo julgando "sincero" o proce-
MO; DEUTSCH, HELENE; GNERO; HOMOSSEXUA-                 dimento de seu adversrio, Fanon o acusava de
LIDADE; HORNEY, KAREN; JUDEIDADE; SEXUAO,              psicologizar a situao colonial e reduzir os
FRMULAS DA; SEXUALIDADE.                                conflitos entre o homem branco e o homem ne-
                                                         gro a um jogo sofisticado, que levava a manter
                                                         o colonizado na dependncia do colonizador.
Fanon, Frantz (1925-1961)                                     Era uma crtica de peso e, depois dessa po-
escritor e psiquiatra francs                            lmica, Mannoni manteve com o seu prprio
    Heri da luta antinazista e figura de relevo         livro uma relao ambivalente, ora renegando
no combate contra o colonialismo, Frantz Fa-             algumas de suas teses, ora defendendo-as. Na
non nasceu em Fort-de-France, na Martinica,              verdade, nesse debate, cada um dos protagonis-
em um meio abastado. Sua me era de origem               tas adotava as teses que j tinham sido discuti-
alsaciana, o que explica a escolha do seu nome,          das por Bronislaw Malinowski* e Geza Ro-
e seu pai trabalhava para a administrao colo-          heim*, a respeito de Totem e tabu* e do alcance,
                                                                                         fantasia       223

universal ou no, do complexo de dipo* no           da hibridizao cultural, isto , de uma no-di-
conjunto das sociedades humanas. Se Mannoni,         ferenciao entre a identidade negra e a identi-
antes mesmo de se tornar freudiano, defendia         dade branca.
posies universalistas, corrigidas pela feno-
menologia, Fanon, recusando o freudismo*,             Frantz Fanon, Peau noire, masques blancs, Paris,
                                                     Seuil, 1952; Les Damns de la terre, Paris, Maspero,
adotava o princpio de um culturalismo* cimen-       1968  Aim Csaire, Discours sur le colonialisme
tado pelo engajamento anticolonial. Era por          (1950), Paris, Prsence africaine, 1973  Jock McCul-
isso que descartava a psicanlise*, por causa da     logh, Black Soul, White Artifact. Fanon's Clinical Psy-
sua suposta incapacidade de levar em conta a         chology and Social Theory, Cambridge, Cambridge
                                                     University Press, 1983  Guillaume Surna, "Psycha-
negritude ou a identidade negra: "Nem Freud*         nalyse et anticolonialisme. L'Influence de Frantz Fa-
nem Adler*, nem mesmo o csmico Jung* pen-           non", Revue Internationale d'Histoire de la Psychana-
saram nos negros em suas pesquisas [...]. Quei-      lyse, 5, 1992, 431-44  Homi Bhabha, The Location of
ram ou no, no  hoje nem amanh que o              Culture, N. York, Routledge, 1993  Franoise Vergs,
                                                     "To cure and to free. The fanonian project of `decoloni-
complexo de dipo nascer entre os negros."          zed psychiatry'", in Fanon. A Critical Reader, Lewis R.
    Entretanto, para construir sua teoria da iden-   Gordon, Rene T. White e T. Denean Sharpley-Whiting
tidade negra, baseava-se na noo de estdio do      (orgs.), Oxford, Basil Blackwell, 1996; "Creole skin,
espelho* de Jacques Lacan*. Ela lhe permitia         black mask. Fanon and disavowal", in Critical Inquiry,
                                                     Chicago University Press, 1996.
criticar a psiquiatria colonial, fundada em uma
classificao "racista", e distinguir a aborda-
                                                      ANTROPOLOGIA; DEVEREUX, GEORGES; DIFE-
gem culturalista da subjetividade da psicologia      RENA SEXUAL; ETNOPSICANLISE; GNERO; JU-
dos povos e do diferencialismo. Na mesma             DEIDADE.
medida em que Mannoni se ligava a uma psi-
cologia que o conduzia a considerar a situao
colonial como um jogo de papis ou uma brin-
                                                     fantasia
cadeira perversa, Fanon utilizava os conheci-
mentos da psicanlise para rejeitar o freudismo      al. Phantasie; esp. fantasa; fr. fantasme; ing. fan-
                                                     tasy ou phantasy
em nome de uma poltica. Nisso, ele antecipava
as posies da antipsiquiatria*.                     Termo utilizado por Sigmund Freud*, primeiro no
    Prximo da Frente de Libertao Nacional         sentido corrente que a lngua alem lhe confere
(FLN), da qual se tornaria membro em 1957,           (fantasia ou imaginao), depois como um concei-
                                                     to, a partir de 1897. Correlato da elaborao da
Fanon demitiu-se de seu posto de mdico-chefe
                                                     noo de realidade psquica* e do abandono da
em 1956 para ir para Tunis e empenhar-se ainda
                                                     teoria da seduo*, designa a vida imaginria do
mais no combate. Ensinou na faculdade de me-
                                                     sujeito* e a maneira como este representa para si
dicina, praticou a psiquiatria no Hospital de        mesmo sua histria ou a histria de suas origens:
Manouba, e depois, com Charles Gronimi,             fala-se ento de fantasia originria.
abriu um servio diurno.                                 Em francs, a palavra fantasme foi forjada pe-
    Continuou tambm a escrever. Em 1960,            los primeiros tradutores da obra freudiana, num
quando redigiu o seu grande livro, Os condena-       sentido conceitual no relacionado com a palavra
dos da terra, o mais belo manifesto da revolta       [verncula] fantaisie. Deriva do grego phantasma
anticolonial, ficou sabendo que estava leucmi-      (apario, transformada em "fantasma" no latim) e
co. Morreu em dezembro de 1961, em um hos-           do adjetivo fantasmatique [fantasmtico], outrora
pital de Washington, convencido do carter ine-      prximo, por sua significao, de fantomatique
vitvel da independncia, pela qual tanto lutara.    [fantasmal, fantasmagrico].
    Apaixonadamente lida e comentada no                  A escola kleiniana criou o termo phantasy
mundo inteiro, a obra de Fanon foi mitificada        (phantasia*), ao lado de fantasy. No Brasil tambm
                                                     se usa "fantasma".
nos Estados Unidos*, onde o autor, com a au-
rola de heri da negritude, foi transformado           Por fora de algumas declaraes sumrias
nos anos 1990, pela sua referncia ao estdio do     de Freud a esse respeito, a histria oficial deu
espelho, em um "Lacan negro", mais psicana-          crdito, durante muito tempo,  idia de um
lista do que psiquiatra, e principalmente terico    abandono definitivo da teoria da seduo* em
224     fantasia

1897, imposto pela presso da realidade em prol         Para sair dessa aporia de oposies inconci-
de uma teoria da fantasia.                          liveis -- o psquico ou o biolgico, o real ou o
    No entanto, desde os Estudos sobre a histe-     imaginrio, o interno ou o externo --, cuja
ria*, Freud e Josef Breuer* tratam das manifes-     persistncia implicava a dissoluo silenciosa
taes fantassticas das histricas, e Breuer,      do registro da fantasia, Freud instituiu o concei-
mais ainda do que Freud, ao expor o caso de         to de realidade psquica, cuja explicitao, so-
Anna O. (Bertha Pappenheim*), privilegia o          bretudo em A interpretao dos sonhos*, levou-
registro da imaginao, das fantasias de sua        o a fazer uma distino entre a realidade mate-
paciente, sem dar grande importncia aos acon-      rial, realidade externa nunca atingvel como tal,
tecimentos vivenciados por ela. Diversas cartas     a realidade do que ele chamou de "pensamentos
de Freud a Wilhelm Fliess atestam, por outro        de transio e de ligao", registro da psicolo-
lado, a evoluo progressiva de Freud nessa         gia, e a realidade psquica propriamente dita,
questo. Assim, em 2 de maio de 1897, ele           ncleo irredutvel do psiquismo, registro dos
assinala que, se a estrutura da histeria* cons-     desejos inconscientes dos quais a fantasia  "a
titui-se pela reproduo de algumas cenas, tal-     expresso mxima e mais verdadeira".
vez seja preciso, para chegar at elas, passar          "Retorno a idias que desenvolvi alhures [na
"pelas fantasias interpostas". Em 25 de maio        parte terica de A interpretao dos sonhos]",
seguinte, no manuscrito M, um pargrafo intei-      escreveu Freud em 1911, para introduzir esse
ro  dedicado s fantasias, consideradas do pon-    conceito de realidade psquica, o que lhe deu
to de vista de sua formao e seu papel, em         ensejo de estender sua concepo da atividade
termos prximos aos que ele empregava para          psquica para alm do simples eixo do pra-
falar dos sonhos. Esse ponto encontra confirma-
                                                    zer/desprazer, de definir, ao lado do recalca-
o alguns dias depois, no manuscrito N, onde
                                                    mento, a idia discriminativa de ato de julga-
o processo de formao dos sonhos  evocado
                                                    mento, e de distinguir, sob a rubrica da criao
como modelo da formao das fantasias e dos
                                                    de fantasias, a parcela da atividade psquica que
sintomas.
                                                    se mantm independente do princpio de reali-
    Em 1964, numa perspectiva inspirada na
                                                    dade* e submetida unicamente ao princpio de
tradio da histria das cincias que foi enobre-
                                                    prazer*. A diviso que se organiza entre as
cida por Alexandre Koyr (1892-1964), Gaston
                                                    pulses* sexuais e as pulses de autoconserva-
Bachelard (1884-1962) e Georges Canguilhem
                                                    o, ao longo da fase de auto-erotismo*, atesta
(1904-1995), Jean Laplanche e Jean-Bertrand
                                                    a ligao entre as pulses sexuais e a fantasia:
Pontalis tomaram a iniciativa de explorar os
fundamentos epistemolgicos desse momento           "A longa persistncia do auto-erotismo permite
chave da descoberta da psicanlise*. Relendo a      que a satisfao fantasstica ligada ao objeto
teoria da seduo, esses autores mostraram que,     sexual, imediata e mais fcil de obter, seja man-
para alm do registro emprico do trauma, j se     tida por muito tempo, em lugar da satisfao
tratava, para Freud, de explicar a observao       real, que exige esforos e adiamentos."
clnica do recalque* e de seu efeito privilegiado       Deixando de lado as questes ortogrficas,
sobre a sexualidade*. O abandono da teoria da       s existe para Freud um nico conceito de fan-
seduo, longe de descortinar automaticamente       tasia. Vista por esse prisma, a oposio kleinia-
uma concepo con su mada do desen-                 na, sustentada e desenvolvida por Susan
volvimento sexual, deixou Freud, ao contrrio,      Isaacs*, entre phantasia (phantasy) inconscien-
um tanto desnorteado. Ele no conseguia ligar       te e fantasia (fantasy) consciente  totalmente
a sexualidade infantil, o dipo* e a fantasia.      contraditria com o pensamento freudiano.
Havia, pois, nos Trs ensaios sobre a teoria da         Desde 1905, nos Trs ensaios sobre a teoria
sexualidade*, e mais ainda no artigo intitulado     da sexualidade, a fantasia foi descrita como
"Meus pontos de vista sobre o papel desempe-        dependente das trs localizaes da atividade
nhado pela sexualidade na etiologia das neu-        psquica, o consciente*, o pr-consciente* e o
roses", o risco de um retorno  ancoragem bio-      inconsciente*, qualquer que fosse a estrutura
lgica da sexualidade.                              psicopatolgica considerada.
                                                                                      fantasia      225

    Para tanto, Freud estabelece uma distino        atribuda a Ernst Heinrich Haeckel*. A impor-
entre as fantasias conscientes, os devaneios e os     tncia dessa hiptese, discutvel e discutida,
romances que o sujeito conta a si mesmo, bem          atinge seu ponto culminante nesse texto meta-
como certas formas de criao literria, e as         psicolgico, nessa "fantasia filogentica" de
fantasias inconscientes, devaneios sublimi-           Freud, encontrado e editado pela primeira vez
nares, prefigurao dos sintomas histricos, a        por Ilse Grubrich-Simitis, que viu nele a tenta-
despeito de estas serem concebidas como es-           tiva terica de integrar a origem traumtica da
treitamente ligadas s fantasias conscientes.         patologia no modelo fantasstico e pulsional.
    Esses dois registros da atividade fantasstica        Afora a perspectiva kleiniana, que, privile-
encontram-se no processo do sonho*: a fantasia        giando na anlise a realidade psquica, em de-
consciente participa do remanejamento do              trimento de qualquer forma de realidade mate-
contedo manifesto do sonho, constituda pela         rial, faz da phantasia o lugar exclusivo de inter-
elaborao secundria, e a fantasia inconsciente      veno do trabalho analtico, o conceito de
inscreve-se na origem da formao do sonho.           fantasia foi objeto de um trabalho terico es-
    Em 1915, em seu artigo metapsicolgico            sencial na obra de Jacques Lacan*.
dedicado ao inconsciente, Freud d uma defini-            De maneira geral, Lacan retoma por sua
o da fantasia que confirma suas concepes          conta o conceito freudiano de fantasia, mas
anteriores: ali, a fantasia  caracterizada por sua   sublinha desde muito cedo sua funo defensi-
mobilidade,  apresentada como lugar e mo-            va. No seminrio dos anos de 1956-1957, a
mento de passagem de um registro da atividade         fantasia  assimilada ao que ele passa a deno-
psquica para outro e, desse modo, afigura-se         minar de "parada na imagem", maneira de im-
irredutvel a apenas um desses registros,             pedir o surgimento de um episdio traumtico.
consciente ou inconsciente.                           Imagem cristalizada, modo de defesa* contra a
    Nesse mesmo ano de 1915, por ocasio de           castrao*, a fantasia  inscrita por Lacan, en-
um artigo dedicado a um caso de parania* que         tretanto -- o que difere fundamentalmente da
parece contradizer a teoria psicanaltica, Freud      perspectiva kleiniana --, no mbito de uma
introduz o conceito de fantasia originria: "A        estrutura significante, e, por conseguinte, no
observao do comrcio sexual entre os pais          pode ser reduzida ao registro do imaginrio*.
uma pea que raramente falta no reservatrio de           Alm da diversidade das fantasias de cada
fantasias inconscientes que podemos descobrir,        sujeito, Lacan postula a existncia de uma es-
atravs da anlise, em todos os neurticos e,         trutura terica geral, a fantasia fundamental,
provavelmente, em todas as crianas. A essas          cuja "travessia" pelo paciente assinala a efic-
formaes fantassticas,  da observao do           cia da anlise, materializada num remaneja-
comrcio sexual dos pais,  da seduo,  da          mento das defesas e numa modificao de sua
castrao e outras, dou o nome de fantasias           relao com o gozo*.
originrias (...)." Com isso, Freud retorna a             Desde a primeira formulao do grafo laca-
uma concepo bidimensional nunca aban-               niano do desejo*, em 1957, Lacan elabora um
donada e j encontrada a propsito dos sonhos         matema* daquilo a que denomina lgica da
tpicos e da simblica dos sonhos. Ele procura        fantasia. Trata-se de explicar a sujeio origin-
uma origem para a histria individual do sujei-       ria do sujeito ao Outro*, relao traduzida por
to. Persegue, de uma outra forma, aquilo de que       esta pergunta eternamente sem resposta: "Que
se tratara atravs da teoria da seduo ou teoria     queres?" (Che vuoi?). O matema Sa exprime
do trauma. Simultaneamente, porm, ele se             a relao genrica e de forma varivel, porm
interroga sobre a solidez de fundamento de uma        nunca simtrica, entre o sujeito do inconscien-
origem situada antes do sujeito individual: uma       te, sujeito barrado, dividido pelo significante*
origem da histria global da espcie humana.          que o constitui, e o objeto (pequeno) a*, objeto
Essa fantasia das origens, cuja busca  onipre-       inapreensvel do desejo, que remete a uma falta,
sente tanto em Totem e tabu*, de 1912, quanto         a um vazio do lado do Outro. Foi em seu
em 1939, em Moiss e o monotesmo*, leva-o            seminrio dos anos de 1966-1967 que Lacan
a retomar a seu modo a hiptese filogentica          desenvolveu essa lgica da fantasia, expresso
226       fantasma

ltima da lgica do desejo. Foi tambm nesse                 1985), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Vocabulrio
                                                             da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,
momento que ele desviou decisivamente seu
                                                             1991, 2 ed.  Grard Le Gous e Roger Perron (orgs.),
trabalho para uma formalizao lgica e mate-                Scnes originaires, monografias da Revue Franaise
mtica do inconsciente.                                      de Psychanalyse, Paris, PUF, 1996.

 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse              IDENTIFICAO.
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; A interpre-
tao dos sonhos (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III,
1-642; SE, IV-V, 1-621; Paris, PUF, 1967; Trs ensaios       fantasma
sobre a teoria da sexualidade (1905), ESB, VII, 129-          FANTASIA.
212; GW, V, 29-145; SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard,
1987; "Minhas teses sobre o papel da sexualidade na
etiologia das neuroses" (1905), ESB, VII, 283-96; GW,
V, 149-9; SE, VII, 269-79; in Rsultats, ides, pro-         Favez-Boutonier, Juliette,
blmes, I, 1890-1920, Paris, PUF, 1984, 113-22; "Fan-        ne Boutonier (1903-1994)
tasias histricas e sua relao com a bissexualidade"
(1908), ESB, IX, 163-74; GW, VII, 191-9; SE, IX, 155-
                                                             psicanalista francesa
66; in Nvrose, psychose et perversion, Paris, PUF,              Originria de uma famlia de professores
1973, 149-55; "Escritores criativos e devaneio" (1908),      primrios do sul da Frana, Juliette Boutonier
ESB, IX, 149-62; GW, VII, 213-33; SE, IX, 141-53; in         submeteu-se ao concurso para professora uni-
L'Inquitante tranget et autres essais, Paris, Galli-
mard, 1985, 29-46, "Formulaes sobre os dois princ-        versitria de filosofia aos 22 anos e estudou
pios do funcionamento mental" (1911), ESB, XII, 277-         medicina em Dijon, onde conheceu Gaston Ba-
90; GW, VIII, 230-8; SE, XII, 213-26; in Rsultats, ides,   chelard (1884-1962). Interessada em psican-
problmes, Paris, PUF, 1984, vol.I, 135-43; Totem e          lise*, escreveu uma carta a Sigmund Freud* que
tabu (1913), ESB, XIII, 17-192; GW, IX; SE, XIII, 1-161;
Paris, Gallimard, 1993; "Um caso de parania que
                                                             lhe respondeu em 11 de abril de 1930. Em 1935,
contraria a teoria psicanaltica da doena" (1915), ESB,     nomeada para ensinar filosofia em Paris, ficou
XIV, 297-310; GW, X, 234-46; SE, XIV, 261-72; OC,            conhecendo Daniel Lagache* e fez uma anlise
XIII, 305-17; "O inconsciente" (1915), ESB, XIV, 191-        com Ren Laforgue*. Freqentou o Hospital
233; GW, X, 263-303; SE, XIV, 159-204; OC, XIII,
                                                             Sainte-Anne e o servio de Georges Heuyer
203-42; "Bate-se numa criana" (1919), ESB, XVII,
225-58; GW, XII, 197-226; SE, XVII, 175-204; in N-          (1884-1977). Depois da Segunda Guerra Mun-
vrose, psychose et perversion, Paris, PUF, 1973, 219-        dial, criou, ao lado de Georges Mauco*, o centro
43; Moiss e o monotesmo (1939), ESB, XXIII, 16-167;        psicopedaggico do Liceu Claude-Bernard. Ca-
GW, XVI, 103-246; SE, XXIII, 1-137; Paris, Gallimard,        sou-se em 1952 com Georges Favez (1902-
1986  Didier Anzieu, A auto-anlise de Freud e a
descoberta da psicanlise (1959), P. Alegre, Artes M-
                                                             1981), tambm psicanalista, e desempenhou
dicas, 1989  Jol Dor, Introduo  leitura de Lacan,       um papel na histria das cises* do movimento
t.2 (Paris, 1992), P. Alegre, Artes Mdicas, 1996  Dylan    francs, fundando com Lagache, em 1953, a
Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian Psy-           Sociedade Francesa de Psicanlise (SFP) e de-
choanalysis, Londres, Routledge, 1996  Ilse Grubrich-
Simitis, "Metapsicologia e metabiologia", in Sigmund
                                                             pois, tambm com ele, em 1964, a Associao
Freud, Neuroses de transferncia: uma sntese (Frank-        Psicanaltica da Frana (APF). Na universi-
furt, 1985), Rio de Janeiro, Imago, 1987; "Trauma or         dade, em especial na ctedra de psicologia ge-
drive -- drive and trauma", in Albert J. Solnit, Peter B.    ral, onde sucedeu Lagache em 1955, repre-
Neubauer, Samuel Abrams e A. Scott Dowling (orgs.),          sentou muito bem o ideal da psicologia clnica
The Psychoanalytic Study of the Child, New Haven,
Yale University Press, 1988, vol.43, 3-32  Susan            universitria, herdado de Pierre Janet*, que foi
Isaacs, "A natureza e a funo da fantasia", in Melanie      uma das correntes do freudismo francs.
Klein (org.), Os progressos da psicanlise (Londres,
1952), Rio de Janeiro, Zahar, 1978  Jacques Lacan,           lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na
O Seminrio, livro 4, A relao de objeto (1956-1957)        Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Za-
(Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995; "Sub-      har, 1988  Claire Doz-Schiff, "In memoriam Juliette
verso do sujeito e dialtica do desejo no inconsciente      Favez-Boutonier (1903-1994)", Bulletin du Centre de
freudiano" (1960), in Escritos (Paris, 1966), Rio de         Documentation Henri F. Ellenberger, 5, 1 trimestre de
Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 807-42; Le Sminaire, livre      1994  "Sance du 25 janvier 1955 de la Socit
14, La Logique du fantasme (1966-1967), indito  Jean       Franaise de Philosophie", Mtapsychologie et Philo-
Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Fantasia origin-        sophie, IIIe Rencontre Psychanalytique d'Aix-en-Pro-
ria, fantasia das origens, origens da fantasia (Paris,       vence, Paris, Les Belles Lettres, 1985, 177-228.
                                                        Federao Europia de Psicanlise                227

Fechner, Gustav Theodor                               Gustav Theodor Fechner, "ber den Lustprinzip des
                                                     Handelns", Fichtes-Zeitschrift fr Philosophie und philo-
(1801-1887)                                          sophische Kritik, XIX, 1948, 1-30, 163-94; Einige Ideen
mdico e filsofo alemo                             zur Schpfungs und Entwicklungsgeschichte der Orga-
                                                     nismen, Leipzig, Breitkopf und Hrtel, 1973  Sigmund
    Fundador da psicofsica e da psicologia expe-    Freud, Um estudo autobiogrfico (1925), ESB, XX, 17-
rimental, Fechner era filho de pastor e foi um dos   88; GW, XIV, 33-96, SE, XX, 7-70; Paris, Gallimard, 1984
representantes tardios da tradio do romantismo      Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de
alemo. Personagem faustiano, experimentou em        l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
si mesmo suas prprias descobertas, atravessando     1974), Paris, Fayard, 1994; Beyond the Unconscious,
                                                     Princeton, Princeton University Press, 1993  Paul-Lau-
uma espcie de crise mstica,  qual Henri F.        rent Assoun, Metapsicologia freudiana: uma introduo
Ellenberger* deu o nome de neurose criadora. Sua     (Paris, 1981), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996.
obra teve um impacto importante sobre a de Sig-
mund Freud*. "Sempre fui muito aberto s idias
de G.T. Fechner, escreveu ele em 1925, e alis, em   Federao Europia de Psicanlise
pontos importantes, baseei-me nesse pensador."       (FEP)
    Depois de estudar medicina e biologia,               Criada em 1966, sob o nome de Federao
Fechner tornou-se, em 1834, professor de fsica      das Sociedades Europias de Psicanlise, para
na Universidade de Leipzig. Durante os trs          servir de contrapeso  poderosa American Psy-
anos seguintes, mergulhou em um estado me-           choanalytic Association* (APsaA) e  COPAL
lanclico que o obrigou a renunciar ao magis-        (futura Federao Psicanaltica da Amrica La-
trio e a viver quase sem alimentar-se em um         tina*, FEPAL), a Federao Europia de Psica-
cmodo escuro, com paredes pintadas de preto.        nlise (FEP) s comeou a ser realmente
Depois desse episdio, teve um breve perodo         atuante em 1969. Reconhecida pela Internatio-
de exaltao. Acreditava-se o eleito de Deus e       nal Psychoanalytical Association* (IPA), ad-
estava convencido de ter inventado um princ-        quiriu o hbito de realizar seus congressos em
pio universal to fundamental para o universo        trs lnguas (alemo, ingls e francs).
quanto o de Isaac Newton (1642-1727). Em                 A partir da dcada de 1990, dezoito pases
1848, deu-lhe o nome de princpio de prazer*.        passaram a ser representados na FEP, atravs de
    Depois de curado, trocou sua ctedra de          dezoito sociedades-membros ou sociedades
fsica na universidade pela de filosofia e publi-    provisrias, dezesseis institutos e trs grupos de
cou muitas obras, nas quais afirmava que a           estudos: Alemanha* (doze institutos), ustria
Terra era um ser vivo, que a conscincia estava      (Viena*), Blgica*, Dinamarca, Finlndia,
difusa no universo e que a alma era imortal. Foi     Sucia, Noruega (Escandinvia*), Espanha*
para dar um fundamento experimental aos seus         (duas sociedades), Frana* (um instituto, duas
trabalhos sobre as relaes entre a alma e a         sociedades), Gr-Bretanha*, Grcia (um grupo
matria que publicou, em 1860, os Elementos          de estudos), Tchecoslovquia (um grupo de
de psicofsica. Em 1873, teorizou o princpio de     estudos), Hungria*, Itlia* (trs institutos, oito
conservao (ou de estabilidade) da energia,         ramos em sete cidades), Portugal, Pases Bai-
formulado em 1842 pelo fsico Robert Meyer,          xos*, Srvia e Sua*. A esses pases somaram-
e depois retomado e desenvolvido em 1845 por         se, em 1992, a Irlanda e a Rssia* e, em seguida,
Hermann von Helmholtz*. Foi desse princpio,         diversos pases da Europa desejosos de recons-
completamente abandonado pela cincia mo-            truir a psicanlise depois de sarem do comu-
derna, que Freud tirou, em 1920, o princpio de      nismo*, entre eles a Polnia e a Romnia*.
prazer/desprazer, no incio do seu livro Mais-       Graas a essa contribuio, a FEP pde retomar
alm do princpio de prazer*.                        impulso, muito embora a psicanlise estivesse
    Em 1924, Imre Hermann* dedicou um estu-          em declnio nos vrios pases europeus.
do a Fechner, mas seria preciso esperar os traba-        No fim do sculo XX, ela rene trs mil
lhos da historiografia* erudita para que fos-        membros em cerca de dezessete pases, isto ,
se concedido um espao a suas pesquisas sobre        um pouco menos de um tero do efetivo global
a gnese da descoberta freudiana do incons-          da IPA para uma populao de 400 milhes de
ciente*.                                             habitantes, ou seja, uma mdia de sete a oito
228      Federao Psicanaltica da Amrica Latina

psicanalistas por milho de habitantes, com di-              A primeira federao psicanaltica latino-
ferenas considerveis de um pas para outro.            americana foi criada em 1960, sob o nome de
Sob esse aspecto, ela passou, seguindo-se               Conselho Coordenador das Organizaes Psi-
American Psychoanalytic Association (APsaA)              canalticas da Amrica Latina (COPAL), tendo
e  FEPAL, para o terceiro lugar mundial das             por objetivo defender os interesses comuns a
instituies freudianas legitimistas.                    todas as sociedades psicanalticas da Amrica
    Em razo da perda de influncia da Europa            Latina filiadas  International Psychoanalytical
no seio da comunidade psicanaltica internacio-          Association* (IPA). Em 1979, ela foi dis-
nal, dominada, em primeiro lugar, pela lngua            solvida, sendo substituda em novembro de
inglesa, comum a todas as sociedades da IPA              1980 por uma nova organizao, que assumiu o
(desde os Estados Unidos* at o Japo* e a               nome de Federao Psicanaltica da Amrica
ndia*, passando pelo Canad* e pela Austr-             Latina (FEPAL). Reconhecida pela IPA, esta se
lia*), e cada vez mais subjugada ao mundo                tornou, no fim do sculo XX, diante da Ameri-
americano, em virtude da vigorosa ascenso das           can Psychoanalytic Association* (APsaA) e da
sociedades latino-americanas, a FEP dedica-se            Federao Europia de Psicanlise* (FEP), a
ao trabalho cientfico e terico, deixando  IPA         terceira potncia freudiana do mundo, com de-
a tarefa de cuidar das questes polticas.               zoito sociedades-membros ou sociedades pro-
    No intuito de tentar reconquistar seu poder          visrias representadas e seis grupos de estudos,
perdido no campo poltico atravs da elabora-            tudo isso distribudo em oito pases: Argentina*
o doutrinal, a FEP dedica a essncia de suas           (quatro sociedades, um grupo de estudos), Bra-
foras a refletir sobre o estatuto terico da psica-     sil* (seis sociedades, trs grupos de estudos),
nlise e suas modalidades de transmisso, muito          Chile, Colmbia, Mxico (duas sociedades),
embora esta enfrente a ampla concorrncia de             Peru, Uruguai e Venezuela (duas sociedades). A
diversas psicoterapias* ou at de diversas prti-        FEPAL abrange um total de pouco mais de trs
cas mgicas e espiritualistas. O objetivo da FEP         mil psicanalistas, ou seja, um tero da cifra
 lanar uma ponte para os pases do Leste euro-         global da IPA, para uma populao de 380
peu, dominados, aps sua sada do comunismo,             milhes de habitantes, isto , uma densidade de
no apenas pela lngua inglesa, mas tambm               oito psicanalistas por milho de habitantes, com
pelas correntes sadas do mundo anglfono, em            diferenas considerveis de um pas para outro
especial o kleinismo* e a Self Psychology*.              e com a Argentina e o Brasil conhecendo de
    Na Europa, a FEP confronta-se com cerca de           longe a maior densidade.
seis mil lacanianos (dos quais trs mil encon-
tram-se na Frana) e com dois mil freudianos              Roster. The International Psychoanalytical As-
                                                         sociation Trust, 1996-1997.
no membros da IPA.
 Peter Kutter (org.), Psychoanalysis International. A    ASSOCIAO BRASILEIRA DE PSICANLISE;
Guide to Psychoanalysis throughout the World, vol.1,     AUSTRLIA; CANAD; FREUDISMO; HISTRIA DA
Stuttgart, Frommann-Holzboog, 1992  lisabeth Rou-      PSICANLISE; NDIA; JAPO ; KLEINISMO.
dinesco, Jacques Lacan. Esboo de uma vida, histria
de um sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,
Companhia das Letras, 1994  La Psychanalyse et
l'Europe de 1993, monografias da Revue Franaise de      Federn, Paul (1871-1950)
Psychanalyse, Paris, PUF, 1993  Roster. The Interna-    psiquiatra e psicanalista americano
tional Psychoanalytical Association Trust, 1996-1997.
                                                             Quinto membro a aderir  Sociedade Psico-
 ASSOCIAO BRASILEIRA DE PSICANLISE;                   lgica das Quartas-Feiras*, esse brilhante dis-
BERLINER PSYCHOANALYTISCHES INSTITUT; FREU-              cpulo das primeiras horas do freudismo com-
DISMO; HISTRIA DA PSICANLISE; LACANISMO.               parava-se ao apstolo Paulo ou a um "oficial
                                                         subalterno do exrcito psicanaltico". Na cultu-
                                                         ra alem admirava a ordem e a disciplina, e no
Federao Psicanaltica da Amrica                       grupo vienense foi no apenas um notvel cl-
Latina (FEPAL)                                           nico mas tambm um formador de alunos. Mui-
(Federacin Psicoanlitica de America Latina)            tos foram aqueles, mais jovens do que ele, a
                                                                                Federn, Paul      229

passar por seu div para tornar-se por sua vez      Bernfeld* e Willi Hoffer*, pela delinqncia
os didatas das geraes seguintes.                  juvenil, pela educao sexual, pela emancipa-
    Neto de rabino e filho de um clnico geral      o da mulher.
bastante conceituado em Viena*, Federn per-             No seio da famlia Federn, Wilma teve um
tencia  burguesia judaica liberal. Sua me,        papel eminente. Ernst, filho de Paul, que se
mulher muito bela, era de uma famlia de ricos      tornaria psicanalista depois de um tratamento
comerciantes.                                       com Hermann Nunberg*, relatou que Freud
    Desde a juventude, tinha tendncia  depres-    comparava a sra. Federn a Mussolini e Paul ao
so, o que no o impediu de ser um garboso          rei Vtor-Emanuel: "Na poca, acrescentou ele,
oficial da cavalaria imperial, de amar as mu-       ningum ignorava que o segundo era apenas um
lheres e ser muito bem-sucedido com elas. A         fantoche sob o domnio do ditador. Por isso,
estatura imponente, a voz poderosa, os olhos        minha me foi chamada de Mussolina, apelido
vivos e a grande barba negra lhe davam o            que ela aceitava com uma certa satisfao."
aspecto de um califa das Mil e uma noites. E            Se Federn permaneceu fiel  doutrina cls-
como gostava de passear nas ruas de Viena com       sica, empenhou-se logo, no perodo entre as
um grande chapu, deram-lhe o apelido de Ha-        duas guerras, como muitos freudianos da
run Al-Rachid.                                      segunda gerao*, na reviso da teoria do eu*
    Obedecendo ao pai, que obrigou os dois          e na reformulao da segunda tpica*, trabalho
filhos a seguir a mesma carreira que ele, Paul      que resultou na distino do eu (ego) e do si
Federn estudou medicina, apesar de sua predi-       (self), primeiro passo para a Self Psychology*.
leo pela biologia. Em 1902, instalou-se como      Tambm foi muito afetado por no ser efetiva-
clnico geral em Viena e, dois anos depois,         mente reconhecido pelos representantes da Ego
casou-se com Wilma Bauer, que conhecera             Psychology*, que nunca citavam seus traba-
quando a tratou, em idade precoce, de um reu-       lhos. Na verdade, foi a partir de uma reflexo
matismo articular. Ela era de famlia protes-       sobre o narcisismo* e a clnica das psicoses que
tante, prxima da de Hermann Nothnagel*, que        ele elaborou sua concepo das "fronteiras do
apresentou Federn a Sigmund Freud*. Como            eu". Considerava a psicose*, e sobretudo a es-
muitos judeus vienenses, pensou em converter-       quizofrenia*, como uma diminuio dos inves-
se e educou seus trs filhos na religio da me.    timentos do eu, que levava o sujeito* a no
    Com Freud, fez uma espcie de anlise           reconhecer mais suas fronteiras, a no saber
avant la lettre, durante a qual conseguiu contro-   mais distinguir suas percepes ou seus senti-
lar o seu humor melanclico. Suas crises de de-     mentos. Desenvolveu a idia, cara  psiquiatria
presso foram menos freqentes, mas projetava       clssica, segundo a qual o delrio  a expresso
suicidar-se em caso de recada. No seio da So-      de um "erro do juzo". Alis, ele prprio tratou
ciedade das Quartas-Feiras, da qual foi um dos      de pacientes psicticos e interessou-se pelo de-
pilares, dedicou-se ao ensino, dando um semi-       senvolvimento da quimioterapia.
nrio particularmente rico sobre A interpreta-          Esse interesse pela loucura* no deixava de ter
o dos sonhos*. Interessou-se tambm pela          relao com a sua situao pessoal. Com efeito,
telepatia* e teve, no seio da Wiener Psychoana-     seu primeiro filho, Walter, nascido em 1910, logo
lytische Vereinigung (WPV), uma atividade de        se tornou uma criana difcil. Apesar de brilhantes
administrador e organizador. Em 1914, foi aos       estudos de egiptologia, que lhe permitiram fazer
Estados Unidos para uma srie de conferncias       uma bela carreira universitria, mergulhou
e desempenhou um certo papel analisando Cla-        progressivamente na esquizofrenia.
rence Oberndorf* e Smith Ely Jelliffe*.                 Em 1938, Paul Federn emigrou com a fam-
    Mdico militar durante a Primeira Guerra        lia para os Estados Unidos*. Depois de refazer
Mundial, aderiu aos ideais patriticos do Imp-     seus estudos de medicina e obter um novo di-
rio e acreditava firmemente na vitria da Ale-      ploma, integrou-se  New York Psychoanalyti-
manha. Depois da derrota, tornou-se membro          cal Society (NYPS), cujas regras rgidas contes-
do Partido Social-Democrata e comeou a se          tou, a ponto de ser considerado -- ele, freudiano
interessar, com August Aichhorn*, Siegfried         ortodoxo -- como um "desviante". Alguns me-
230      feminismo

ses antes da emigrao, seu filho Ernst fora               DADE; PATRIARCADO; SEXUAO, FRMULAS DA;
preso pela Gestapo, por atividades polticas, e            SEXUALIDADE; SEXUALIDADE FEMININA.
deportado para o campo de concentrao de
Buchenwald, onde se encontrou com Bruno
Bettelheim*. Ernst e Paul s se reencontrariam             Fenichel, Otto (1897-1946)
na Amrica em 1946. Mas nessa poca, sofren-
                                                           mdico e psicanalista americano
do de um tumor maligno da bexiga, Paul teve
que ser operado pela primeira vez.                             Pouco conhecido fora do movimento psica-
   A recada ocorreu depois da morte de Wilma.             naltico e com freqncia considerado um sim-
Para no viver uma agonia atroz, decidiu pr               ples tcnico do tratamento, Otto Fenichel foi,
fim aos seus dias, na mais pura tradio antiga.           entretanto, um grande freudiano. Ao mesmo
No dia 3 de maio de 1950, organizou seus                   tempo dissidente e anti-autoritrio, hostil a to-
papis, deixou instrues por escrito para o               dos os dogmatismos e aberto para a questo
amigo Edoardo Weiss* e dirigiu-se ao banco,                social, sempre se ops  poltica conservadora
de onde retirou uma pistola cuidadosamente                 de Ernest Jones* e criticou tanto o biologismo
depositada em um cofre. Carregou-a com duas                reichiano como o culturalismo* dos neofreu-
balas. Durante o dia, recebeu normalmente os               dianos. Em nome da defesa humanista do sujei-
analisandos e at brincou com a sua governanta             to*, defendeu os princpios de um universalis-
sobre as diversas maneiras de se matar. No meio            mo moderado, respeitando as diferenas cultu-
da noite, redigiu uma carta para o filho Walter.           rais. Conseqentemente, recusando-se a esque-
Preveniu-o para que tivesse cuidado: uma bala              cer sua juventude socialista e seu passado vie-
poderia ter ficado no tambor. s trs horas da             nense, teve dificuldade em se integrar aos ideais
manh, sentado em sua poltrona de analista,                pragmticos e reguladores da sociedade norte-
teve apenas que dar um tiro. "At o ltimo                 americana,  qual foi forado a adaptar-se.
suspiro, escreveu Ernst, ele foi mais cuidadoso                Como observou o historiador Russel Jacoby,
com os outros do que consigo prprio."                     Otto Fenichel fez parte, com seus amigos e co-
   Em 1968, Walter Federn se suicidou,                     legas -- Annie Reich*, Barbara Lantos (1894-
deixando-se morrer de fome.                                1962), Edith Jacobson*, Kate Friedlnder*,
                                                           Georg Ger (1901-1981) e alguns outros --
 Paul Federn, "Narcissism in the structure of the ego",   daquilo que se chama esquerda freudiana. Nas-
IJP, 1928, 9, 401-19; "Reality of the death instinct,      cidos pouco antes ou no incio do sculo, esses
especially in melancholia", Psychoanalytical Review,       homens e mulheres pertenciam, como Sandor
1932, 19, 129-51  Paul Federn e Heinrich Meng, Das
psychoanalytische Volksbuch, Stuttgart, Hippokrates
                                                           Rado*, Helene Deutsch*, Ernst Kris*, Rudolph
Verlag, 1927; La Psychologie du moi et les psychoses       Loewenstein*, Marie Bonaparte*, Melanie
(Londres, 1953), Paris, PUF, 1979  Edoardo Weiss,         Klein* e Karen Horney*,  segunda gerao
"Paul Federn, 1871-1950. The theory of the psychosis",     psicanaltica mundial. Assim, foram marcados
in Franz Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grot-       pela Revoluo de Outubro, pela ascenso do
jahn (orgs.), A histria da psicanlise atravs de seus
pioneiros (N. York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981;    nazismo*, pelo exlio e pela necessidade de se
"Obituary: Paul Federn", IJP, 1951, 242-6  Ernst Fe-      integrar a uma nova cultura. Encontraram na
dern, Tmoin de la psychanalyse (Londres, 1990),           International Psychoanalytical Association*
Paris, PUF, 1994  Elke Mhlleitner, Biographisches        (IPA) uma nova ptria freudiana, e foram ento
Lexikon der Psychoanalyse. Die Mitglieder der psycho-
logischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener psy-
                                                           os artfices do legitimismo, ou, ao contrrio,
choanalytischen Vereinigung von 1902-1938, Tbin-          contestaram o aparelho freudiano, chegando at
gen, Diskord, 1992  Maria Teresa de Melo Carvalho,        a ciso*, o exlio interior, ou ainda a mudana
Paul Federn. Une autre voie pour la thorie du moi,        de prtica.
Paris, PUF, 1996.
                                                               Nascido em Viena* de uma famlia da bur-
                                                           guesia judaica, Fenichel militou ativamente du-
                                                           rante a adolescncia no movimento da juven-
feminismo                                                  tude austraca e no da juventude judaica, visan-
 BISSEXUALIDADE; CULTURALISMO; DIFERENA                   do uma convergncia para a revoluo poltica
SEXUAL; GNERO; GOZO; HORNEY, KAREN; JUDEI-                e a liberao sexual. Em 1916, a partir de uma
                                                                               Fenichel, Otto     231

pesquisa junto a seus colegas de classe, redigiu      119 cartas circulares foram assim trocadas so-
um artigo sobre essa questo, o que quase lhe         bre muitos assuntos.
valeu a expulso do liceu.                                Exilado em Oslo, Fenichel tentou sem su-
    Em 1918, encaminhou-se para a psicanlise         cesso dar uma certa unidade ao movimento
ao ter contato com as teses de Siegfried Bern-        psicanaltico dos pases escandinavos*. Encon-
feld* e participar dos trabalhos da Wiener Psy-       trou-se por vrias vezes com Reich, tambm
choanalytische Vereinigung (WPV). Fez ento           imigrante, mas acabou votando por sua exclu-
uma primeira anlise com Paul Federn* e uma           so da IPA no Congresso de Lucerna, em 1934.
segunda com Sandor Rado*, quando se instalou          No plano poltico, a oposio entre ambos tinha
em Berlim em 1922. Mesmo permanecendo fiel            como motivo o melhor meio de lutar contra o
 legitimidade freudiana em matria de forma-         nazismo, visando salvar ao mesmo tempo a
o didtica, logo se distanciou do formalismo        psicanlise e o marxismo. Reich preconizava o
burocrtico da IPA, formando um crculo de            combate declarado, Fenichel a luta clandestina.
estudos independente (chamado Seminrio de            Apesar de suas divergncias, conservaram la-
Crianas), no qual se alternaram, at 1933, dis-      os de amizade.
cusses polticas e ensino da tcnica psicanal-          Durante algum tempo, em companhia de
tica. Em 1930, Wilhelm Reich* e sua mulher            Edith Jacobson, Fenichel aceitou a poltica do
Annie se juntaram ao grupo, encontrando os            suposto "salvamento" da psicanlise na Alema-
analistas berlinenses mais avanados do que os        nha, defendida por Ernest Jones. Mas em 1935,
vienenses quanto  questo social. Assim, nas-        quando os judeus foram excludos da DPG,
ceu o movimento dos freudianos polticos, que         lamentou ter adotado essa posio e mostrou-
teve seu apogeu em 1932 quando Fenichel foi           se, como escreveu Jacoby, "escandalizado com
nomeado vice-presidente da Deutsche Psycho-           a estupidez do establishment psicanaltico, in-
analytische Gesellschaft (DPG).                       capaz de compreender a realidade do nazismo".
    Apesar de vrias viagens  Rssia* e da sim-      Nesse ponto, Reich foi mais lcido, pregando a
patia declarada pelo socialismo e pelo marxis-        dissoluo pura e simples da DPG j em 1933
mo, Fenichel no aderiu ao Partido Comunista          e a luta sem trgua contra o nazismo.
alemo, que julgava excessivamente sectrio.              De passagem por Viena em 1936, Fenichel foi
Em um primeiro tempo, teve um dilogo fecun-          bem recebido pelos freudianos, diante dos quais
do com Reich, compartilhando sua interpreta-          pronunciou uma srie de conferncias sobre a
o da psicologia de massa do fascismo e a sua        tcnica psicanaltica. Rejeitava claramente as
abordagem da anlise das resistncias*. Mas a         teses kleinianas e preferia as posies anna-
partir de 1933, as relaes entre eles se tornaram    freudianas. Entretanto, em relao aos mecanis-
difceis. Intelectual sutil e culto, apreciador das   mos de defesa*, no adotou o mesmo ponto de
snteses e dos trabalhos bem organizados, Feni-       vista que Anna Freud*. Forjou assim a expresso
chel no apreciava as violncias pulsionais de        "defesa de defesa", para designar a maneira pela
Reich, nem sua tendncia  perseguio e sua          qual um sujeito se defende dialeticamente de uma
megalomania dogmtica. Alm disso, desapro-           defesa, que na verdade seria uma pulso*.
vava seu mtodo teraputico, sua maneira de               Novamente exilado, Fenichel permaneceu
quebrar a "couraa" defensiva do paciente e sua       algum tempo em Praga, onde fez do pequeno
teoria biolgica da sexualidade*.                     grupo psicanaltico tchecoslovaco um ramo da
    A partir do advento do nazismo, esse crculo      IPA. Depois, a convite do seu amigo Ernst
teve que se dissolver, e seus membros foram           Simmel*, partiu para os Estados Unidos* e ins-
obrigados a deixar a Alemanha*. Preocupado            talou-se em Los Angeles, depois de passar por
em conservar a unidade de seu grupo, Fenichel         Chicago e Topeka, no Kansas, onde fez muitas
inventou ento um sistema de comunicao              conferncias e encontrou-se com a dispora
clandestino, as Rundbriefe (cartas circulares),       freudiana da Europa central que, como ele, fu-
que permitiam a todos os membros da socie-            gira do nazismo. Entre eles, estava Bernfeld,
dade secreta manter-se informados acerca de           que tambm se instalara na costa oeste, em So
suas respectivas atividades. Entre 1934 e 1945,       Francisco.
232      Ferenczi, Sandor

    No continente americano, Fenichel teve que                Nascido em Miskolc, na Hungria*, origin-
enfrentar uma situao delicada para si mesmo             rio de uma famlia de judeus poloneses imi-
e para seus prximos. Favorvel  anlise leiga*          grantes, Sandor Ferenczi foi no s o discpulo
em um pas onde a psicanlise estava inteira-             preferido de Sigmund Freud*, mas tambm o
mente medicalizada, foi obrigado a providen-              clnico mais talentoso da histria do freudis-
ciar um novo diploma de mdico, pois o seu no            mo*. Foi atravs dele que a escola hngara de
era reconhecido na Amrica, tendo assim que               psicanlise*, da qual foi o primeiro animador,
submeter-se, aos 47 anos, a um ano obrigatrio            produziu uma prestigiosa filiao* de artfices
de residncia e aos plantes noturnos. Tambm             do movimento, entre os quais Melanie Klein*,
foi obrigado a renunciar oficialmente a mani-             Geza Roheim* e Michael Balint*. A obra escrita
festar suas opinies marxistas. Estando em des-           de Ferenczi  composta de numerosos artigos,
acordo com as transformaes impostas ao                  redigidos em estilo inventivo e sempre ligados
freudismo clssico pelos partidrios da Escola             realidade. Grande escritor de cartas, Ferenczi
de Chicago e pelos neofreudianos, mostrava-se             tambm foi autor de um Dirio clnico, publi-
como um "ortodoxo" da velha escola vienense               cado em 1969. Um ano antes de sua morte,
e alem, incapaz de se adaptar. Esgotado pelo             havia registrado vrios relatos de casos, muitas
espetculo da eliminao progressiva dos no-             inovaes, assim como as crticas que dirigia ao
mdicos do seio da Los Angeles Psychoanalytic             dogmatismo psicanaltico.
Society (LAPS), fundada em 1946, e pela de-                   O pai de Ferenczi era um simptico livreiro,
gradao da psicanlise em mtodo psiquitri-             que se empenhara com fervor na revoluo de
co, morreu prematuramente aos 48 anos, um                 1848 antes de se tornar editor militante, favor-
ano antes de seu amigo Simmel. Suas obras se              vel  causa do renascimento hngaro. Assim,
tornaram depois uma verdadeira bblia para os             mudara seu nome, de sonoridade alem (Baruch
tcnicos americanos do tratamento freudiano.              Fraenkel), para um patronmico magiar (Bernat
    Evocando a lembrana desses dois homens,              Ferenczi). Deu ao filho predileto, o oitavo entre
Max Horkheimer (1895-1973) lhes prestou esta              doze, uma educao em que prevaleciam o culto
homenagem: "Esses pensadores se opunham                  da liberdade e um gosto acentuado pela litera-
mentalidade de funcionrio, que tenta transfor-           tura e pela filosofia.
mar cada coisa em uma `funo' a servio da                   Optando pela carreira mdica, o jovem Fe-
mquina. Assim, resistiram  traio da psica-            renczi trabalhou no Hospital Saint Roch, onde
nlise no seu prprio terreno, por tcnicos               quarenta anos antes, outro grande mdico hn-
apressados."                                              garo, Philippe Ignace Semmelweis (1818-
                                                          1865), tentou fazer com que o carter infeccioso
 Otto Fenichel, Problmes de technique psychanalyti-
que (N. York, 1941), Paris, PUF, 1953; La Thorie
                                                          da febre puerperal, que descobrira, fosse reco-
psychanalytique des nvroses, 2 vols., (N. York, 1945),   nhecido. Como seu ilustre antecessor, Ferenczi
Paris, PUF, 1953; The Collected Papers of Otto Feni-      logo se mostrou adepto da medicina social.
chel, N. York, Norton, 1954  Russel Jacoby, Otto         Sempre pronto a ajudar os oprimidos, a escutar
Fenichel. Destins de la gauche freudienne (N. York,
1983)  Ronald Portillo, "Otto Fenichel, 1897-1948.
                                                          os problemas das mulheres e a socorrer os ex-
L'Opposition en sourdine", Ornicar?, 36, primavera de     cludos e marginais, tomou, em 1906, a defesa
1986, 143-51  Nathan G. Hale, Freud and the Ameri-       dos homossexuais em um texto corajoso apre-
cans, 1917-1985. The Rise and Crisis of Psychoanaly-      sentado  Associao Mdica de Budapeste.
sis in United States, t.II, N. York, Oxford, Oxford
University Press, 1995.
                                                          Atacava os preconceitos reacionrios da classe
                                                          dominante, que tendia a designar aqueles que se
 COMUNISMO; DOSUZKOV,           THEODOR; FREUDO-
                                                          chamavam uranianos como degenerados res-
MARXISMO; HAAS, LADISLAV.
                                                          ponsveis pela desordem social.
                                                              Esse era o homem que, depois de ler com
                                                          entusiasmo A interpretao dos sonhos*, visi-
                                                          tou Freud em fevereiro de 1908, acompanhado
Ferenczi, Sandor (1873-1933)                              do seu colega e amigo Fulop Stein (1867-1917).
psiquiatra e psicanalista hngaro                         Este o iniciou no teste de associao verbal*,
                                                                         Ferenczi, Sandor       233

elaborado por Carl Gustav Jung*. A partir desse        Inutilmente Freud o advertiu contra os peri-
dia, durante um quarto de sculo, Ferenczi tro-    gos de uma prtica como essa. Implicado em
caria com o mestre de Viena 1.200 cartas. Um       uma espcie de auto-anlise* epistolar, ele pro-
verdadeiro tesouro de inveno terica e clni-    curava desafiar Freud, pedindo-lhe que o reco-
ca, com algumas confidncias pessoais. Dono        nhecesse como um pai reconhece o filho, dan-
de uma curiosidade insacivel, Ferenczi se         do-lhe a entender ao mesmo tempo que podia
interessou, durante toda a vida, por mltiplas     perfeitamente passar sem ele. Em novembro de
formas de pensamento, das mais eruditas s         1911, depois do suicdio* com arma de fogo do
mais irracionais. Freud o chamava o seu "Pala-     noivo de Elma, anunciou a Freud que estava
dino", ou seu "Gro-vizir Secreto". E Ferenczi     apaixonado pela jovem. Disse que no sentia
gostava de se apresentar nos meios analticos      mais desejo sexual por Gizella, muito idosa, e
como "um astrlogo da corte".                      queria fazer com que ela ocupasse uma posio
    Partindo de um combate contra o niilismo       de sogra, fundando uma famlia com sua filha.
teraputico, Freud elaborou uma teoria da neu-     Na verdade, queria ficar com as duas. Logo,
rose* e da psicose* que superava amplamente        anunciou sua inteno de se casar com Elma.
os limites da clnica. Sempre consciente de seu        Finalmente, percebeu que se envolvera em
prprio gnio e da importncia de sua descober-    uma confuso transferencial e desistiu de des-
ta, sabia dominar seus afetos e mostrar-se im-     posar a jovem, junto a quem ocupou uma posi-
placvel para com seus adversrios. Acima de       o de mdico e de analista. Mas, no podendo
tudo, amava a razo, a lgica, as construes      conduzir adequadamente o tratamento, obrigou
doutrinrias. Mais intuitivo, mais sensual e       Freud a analisar Elma e depois fez-se analisar
                                                   em trs ocasies pelo mestre, entre 1914 e 1916.
mais feminino, Ferenczi procurava na psican-
                                                   Este agiu ento como um pai autoritrio,
lise os meios de aliviar o sofrimento dos pa-
                                                   obrigando Ferenczi a casar-se com Gizella e a
cientes. Era pois menos atrado pelas grandes
                                                   renunciar a Elma. Assim, acreditava confirmar
hipteses genricas do que pelas questes tc-
                                                   a tese anunciada em Totem e tabu em 1912,
nicas. Assim, era mais inventivo que Freud na
                                                   segundo a qual o desejo* de incesto*  inerente
anlise das relaes com o outro*. Em 1908,
                                                   ao homem e s um interdito, formulado como
descobriu a existncia da contratransferncia*,
                                                   uma lei, pode afast-lo dele.
explicando a seu interlocutor sua tendncia em
                                                       Se Freud se comportava  maneira dos fa-
considerar os assuntos do paciente como seus
                                                   mosos "casamenteiros" das histrias judaicas,
prprios. Dois anos depois, Freud conceituali-     Ferenczi tinha a impresso de ter sido des-
zou essa noo, fazendo dela um elemento es-       pojado, por essa anlise, de suas paixes e seus
sencial na situao analtica. Entre ambos, por-   desejos. Em suma, aceitou pesarosamente ter
tanto, o intercmbio epistolar teve como funo    sido "normalizado" por Freud: "... Eu disse a
fazer surgir novas problemticas, que serviam      Gizella que me tornara outro homem, menos
depois para alimentar a doutrina comum.            interessante e mais normal. Confessei-lhe tam-
    Como muitos pioneiros do freudismo, Fe-        bm que alguma coisa em mim lamenta o ho-
renczi experimentou em si mesmo os efeitos de      mem de antes, um pouco instvel, mas to capaz
suas descobertas. Em 1904, tornou-se compa-        de grandes entusiasmos (e na verdade, muitas
nheiro de Gizella Palos, oito anos mais velha      vezes inutilmente deprimido)."
que ele. Essa ligao era tolerada pelo marido         Assim, vemos como atuaram, nas relaes
desta, que entretanto lhe recusava o divrcio.     entre Freud e Ferenczi, todas as contradies do
Gizella vivia com suas duas filhas, Magda,         tratamento psicanaltico que leva um sujeito* a
casada com o irmo mais novo de Sandor, e          passar de um estado infantil para a idade adulta,
Elma, nascida em 1887. No s Ferenczi tor-        da desrazo para a razo, da onipotncia ilus-
nou-se, em 1908, analista de sua amante, como      ria para a sabedoria, do gozo* para o verdadeiro
tambm no hesitou em tratar de Elma quando        desejo. Mas arriscando-se a que essa perda,
esta apresentou sintomas de depresso trs anos    longe de ser benfica e fonte de uma nova
depois.                                            paixo, no seja nada mais do que a expresso
234     Ferenczi, Sandor

da vontade normalizadora do analista e, alm        comearam a emigrar. Berlim tornou-se ento
deste, da sociedade na qual ele vive. De qual-      o centro nevrlgico do movimento freudiano:
quer forma, o episdio dessa confuso familiar      efetivamente, foi nessa poca que se fundou o
e transferencial pode ser compreendido como a       Berliner Psychoanalytisches Institut* (BPI).
matriz de todas as reflexes posteriores sobre o        A partir de 1919, como Rank, Ferenczi se
estatuto incerto do tratamento psicanaltico,       empenhou na reforma completa da tcnica psi-
oscilando sempre entre um excesso de confor-        canaltica*. Inventou primeiro a tcnica ativa,
mismo adaptador, que seria denunciado por           que consiste em intervir diretamente no trata-
Ferenczi e seus partidrios, e a ausncia de lei,   mento, atravs de gestos de ternura e afeto, e
contra a qual reagiriam os herdeiros ortodoxos      depois a anlise mtua, durante a qual o anali-
de Freud.                                           sando  convidado a "dirigir" o tratamento ao
    Ao mesmo tempo em que prosseguia sua            mesmo tempo que o terapeuta, antes de reatar
anlise com Freud, Ferenczi se devotava de          com a teoria do trauma, denunciando a hipocri-
corpo e alma  "causa" freudiana. Em 1909,          sia da corporao analtica em um texto famoso
com Jung, acompanhou Freud aos Estados Uni-         de 1932, intitulado "Confuso de lnguas entre
dos*. Um ano depois, viajou com ele para a          os adultos e a criana". Atravs dessa exposi-
Itlia*, passando por Florena, Roma, Palermo       o, que suscitou a oposio de Jones e de
e Siracusa. No mesmo ano, fundou a Internatio-      Freud, relanava todo o debate sobre a teoria da
nal Psychoanalytical Association* (IPA). En-        seduo*.
fim, em 1912, criou a Sociedade Psicanaltica           Em 1926, fez uma viagem de conferncias
de Budapeste, com Sandor Rado*, Istvan Hol-         pelos Estados Unidos, onde alguns terapeutas,
los* e Ignotus*. A partir de 1919, viriam Geza      como Clara Thompson (1893-1958), grande
Roheim, Ren Spitz*, Imre Hermann* e Eug-          amiga de Harry Stack Sullivan*, o reconhece-
nie Sokolnicka*.                                    ram logo como um clnico genial.
    Membro do Comit Secreto* a partir de               Foi em 1924 que Ferenczi publicou Thalas-
1913, participou de todas as atividades de dire-    sa. Ensaio sobre a teoria da genitalidade, obra
o do movimento freudiano, formando com            prxima da de Rank, sobre o trauma do nasci-
Otto Rank* e Freud um plo "sulista" e austro-      mento. Nos dois textos, desenha-se o abandono
hngaro, diante das iniciativas mais rgidas e      da tese da prioridade do pai em prol de uma
burocrticas dos discpulos vindos do norte da      pesquisa sobre as origens do vnculo arcaico da
Europa: Karl Abraham*, Ernest Jones*, Max           criana com a me, tema trabalhado por Mela-
Eitingon*. Mas foi nesse perodo que se desen-      nie Klein na mesma poca. Ao contrrio dos
rolou o grande debate sobre a telepatia*, em        kleinianos, Ferenczi se situava no terreno do
torno do qual se cristalizaram os conflitos entre   evolucionismo darwiniano. Afirmava que a vi-
Jones, partidrio de uma psicanlise racionalis-    da intra-uterina reproduzia a existncia dos or-
ta emprica, e Ferenczi, muito mais aberto a        ganismos primitivos que viviam no oceano.
experincias julgadas desviantes, irracionais ou    Segundo ele, o homem teria a nostalgia do seio
extravagantes por seu adversrio.                   da me, mas tambm procuraria regredir ao
    A derrota dos imprios centrais anunciou a      estado fetal nas profundezas martimas. Essa
insurreio hngara. Em maro de 1919, Bela         abordagem da psicanlise atravs da metfora
Kun proclamou a Repblica dos Conselhos,            da cripta e das profundezas era acompanhada
enquanto em Budapeste era criada, pela primei-      de inovaes tcnicas. Se a sesso analtica
ra vez no mundo, uma ctedra de ensino da           repetia uma seqncia da histria individual e
psicanlise na universidade. Ferenczi foi, natu-    se, alis, a ontognese recapitulava a filognese,
ralmente, nomeado para esse posto. Mas, quatro      a reflexo sobre a prpria sesso conduzia na-
meses depois, a Comuna foi reprimida com            turalmente  pergunta: qual o estado traumtico
sangue pelas tropas do almirante Miklos Hor-        que a ontognese repete simbolicamente?
thy. A Hungria caiu ento sob o jugo de outra           Duramente contestado por suas teses e suas
ditadura, e os brilhantes representantes da esco-   inovaes pelos partidrios da ortodoxia, Fe-
la hngara de psicanlise, floro do movimento,     renczi no deixaria o regao freudiano como
                                                                                            fetichismo       235

Rank. Jones, entretanto, o chamaria de psicti-            Brabant-Ger, Ferenczi et l'cole hongroise de psy-
                                                           chanalyse, Paris, L'Harmattan, 1993.
co: "Ferenczi sempre acreditou firmemente na
telepatia. Depois, foram os delrios sobre a pre-           ANLISE DIDTICA; CRIMINOLOGIA; GRODDECK,
tensa hostilidade de Freud. No fim, apareceu               GEORG; HOMOSSEXUALIDADE; INTROJEO; PA-
uma violenta parania*, acompanhada at de                 TRIARCADO; PSICANLISE DE CRIANAS; TRANSFE-
exploses homicidas. Foi o fim trgico de uma              RNCIA.
personalidade brilhante..." Na verdade, Ferenc-
zi morreu de uma anemia perniciosa. Freud lhe
prestou uma vibrante homenagem, mas                        fetichismo
enfatizando a excessiva importncia que as-                al. Fetischismus; esp. fetichismo; fr. ftichisme; ing.
sumira, a seus olhos, o desejo de curar: "Ao               fetishism
voltar de uma temporada de trabalho na Am-                Termo criado, por volta de 1750, a partir da palavra
rica, ele [Ferenczi] pareceu isolar-se cada vez            fetiche (derivada do portugus feitio: sortilgio,
mais em um trabalho solitrio [...]. Soubemos              artifcio), retomado em 1887 pelo psiclogo
que um nico problema monopolizava o seu                   francs Alfred Binet (1857-1911) e, mais tarde, re-
interesse. A necessidade de curar e de ajudar              tomado pelos fundadores da sexologia*, para de-
nele se tornara avassaladora."                             signar quer uma atitude da vida sexual normal, que
    Foi na Frana* e na Sua* que a obra de               consiste em privilegiar uma parte do corpo do
Ferenczi foi particularmente apreciada, graas             parceiro, quer uma perverso* sexual (ou fetichis-
 sua tradutora Judith Dupont, sobrinha de Alice           mo patolgico), caracterizada pelo fato de uma das
Balint (1898-1939), e a Andr Haynal, res-                 partes do corpo (p, boca, seio, cabelos) ou obje-
                                                           tos relacionados com o corpo (sapatos, chapus,
ponsvel em Genebra pelos arquivos de Mi-
                                                           tecidos etc.) serem tomados como objetos exclu-
chael Balint.
                                                           sivos de uma excitao ou um ato sexuais.
 Sandor Ferenczi, Les crits de Budapest, 1899-1907,          J em 1905, Sigmund Freud* atualizou o termo,
Paris, EPEL, 1994; Psicanlise I, 1908-1912, Obras         primeiro para designar uma perverso sexual, ca-
completas (Paris, 1970), S. Paulo, Martins Fontes,         racterizada pelo fato de uma parte do corpo ou um
1991; Psicanlise II, 1913-1918, Obras completas (Pa-      objeto serem escolhidos como substitutos de uma
ris, 1972); S. Paulo, Martins Fontes, 1992; Psicanlise    pessoa, depois para definir uma escolha perversa,
III, 1919-1926, Obras completas (Paris, 1974), S. Pau-     em virtude da qual o objeto amoroso (partes do
lo, Martins Fontes, 1993; Psicanlise IV, 1927-1933,
                                                           corpo ou objetos relacionados com o corpo) fun-
Obras completas (Paris, 1982), S. Paulo, Martins
Fontes, 1992; Dirio clnico, janeiro-outubro 1932 (Pa-    ciona para o sujeito* como substituto de um falo*
ris, 1985), S. Paulo, Martins Fontes, 1990  Sndor        atribudo  mulher, e cuja ausncia  recusada por
Ferenczi e Otto Rank, Perspectives de la psychanalyse      uma renegao*.
(Viena, 1924), Paris, Payot, 1994  Sandor Ferenczi e
Georg Groddeck, Correspondance, Paris, Payot, 1982            A idia de fetiche  comum a todos os cam-
 Sigmund Freud e Sandor Ferenczi, Correspondncia,        pos do saber. Nessa condio, tornou-se mbil
vol. I, 2 tomos, 1908-1914, (Paris, 1992), Rio de Janei-   e objeto de mltiplas controvrsias para a an-
ro, Imago, 1994, 1995; Correspondance vol. II, 1914-       tropologia*, a filosofia, a economia poltica, a
1919 (Viena, Weimar, 1992), Paris, Calmann-Lvy,
1996  Sigmund Freud, "Sandor Ferenczi", ESB, XXII,
                                                           sociologia, a religio, a psiquiatria, a literatura
277-84; GW, XVI, 267-9; SE, XXII, 227-9; OC, XIX,          e a psicanlise*. Por outro lado, convm assi-
309-14  Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund          nalar que todos os freudianos, qualquer que seja
Freud, vol.3 (N. York, 1957), Rio de Janeiro, Imago,       sua tendncia, comentaram os textos originais
1989  Wladimir Granoff, "Ferenczi: faux problme ou       de Freud sobre o assunto e publicaram numero-
vrai malentendu", La Psychanalyse, 6, 1961, 255-83 
Claude Lorin, Le Jeune Ferenczi, Paris, Aubier-Mon-
                                                           sos casos de fetichismo. Diversas sesses da
taigne, 1983; Sandor Ferenczi, de la mdecine  la         Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras* lhe
psychanalyse, Paris, PUF, 1993  Andr Haynal, "Da         foram consagradas, e os primeiros discpulos de
correspondncia (com Freud) ao Dirio (de Ferenczi)",      Freud ficaram visivelmente fascinados com o
Revista Internacional da Histria da Psicanlise, 2        que aprenderam: fetichismo do p, da roupa, do
(1989), Rio de Janeiro, Imago, 1992, 153-64; "Notas
sobre a histria da correspondncia Freud-Ferenczi",
                                                           cheiro, da viso etc. Depois, desde Richard von
ibid., 219-28  Judith Dupont, "A relao Freud-Ferenc-    Krafft-Ebing* at Masud Khan*, passando por
zi  luz de sua correspondncia", ibid., 165-82  Eva      Michael Balint*, Edward Glover* e muitos ou-
236     fetichismo

tros, cada corrente desenvolveu sua prpria teo-    grandes fundadores da moderna antropologia
ria, fosse no contexto de uma concepo klei-       inglesa e francesa, ambas marcadas pelo ensino
niana do objeto* (bom ou mau*), fosse na p-        de mile Durkheim (1858-1917). Foi nesse
tica winnicottiana do objeto transicional*, fos-    contexto que a idia de fetichismo foi aban-
se, ainda, na perspectiva lacaniana de uma dou-     donada na etnologia, como sublinhou Marcel
trina da perverso estendida  "estrutura perver-   Mauss (1872-1950) em 1908: "A noo de fe-
sa", e segundo a qual o fetiche, como objeto        tiche (...) deve desaparecer definitivamente da
(pequeno) a*, transforma-se na condio abso-       cincia (...). O objeto que serve de fetiche, no
luta do desejo* e no lugar de um gozo*.             importa o que se tenha dito a seu respeito, nunca
    Costuma-se atribuir ao magistrado francs        um objeto qualquer, escolhido arbitrariamen-
Charles De Brosses (1709-1777) a primeira           te, mas  sempre definido pelo cdigo da magia
descrio do fetichismo como fenmeno reli-         ou da religio (...). Quando escreverem a his-
gioso. Grande viajante e adepto da filosofia do     tria da cincia das religies e da etnografia,
Iluminismo, De Brosses partilhava com a maio-       ficaremos surpresos com o papel indevido e
ria dos pensadores de sua poca a idia de que      fortuito desempenhado por uma idia do tipo da
o estudo dos chamados povos primitivos permi-       de fetiche nos trabalhos tericos e descritivos.
tiria compreender a origem e a evoluo da          Ela corresponde apenas a um imenso mal-en-
humanidade inteira. Essa "etnologia", que daria     tendido entre duas civilizaes, a africana e a
origem  antropologia de inspirao darwinia-       europia; no tem outro fundamento seno uma
na, da qual Freud se iria alimentar para escrever   obedincia cega aos costumes coloniais (...)."
Totem e tabu*, encarava o "selvagem" como               Expulso da antropologia, o termo, j retoma-
uma "criana", e via a infncia como um es-         do pela sexologia e pela psiquiatria, seria lite-
tdio* anterior  idade adulta. Da a idia de      ralmente investido pela psicanlise. Se Freud
atribuir s sociedades um princpio de evoluo     conservou a idia de evolucionismo e continuou
biolgica segundo o qual todas elas passariam,      a comparar a criana a um primitivo e o fetiche
progressivamente, de um estado selvagem "in-        ao "deus incorpreo" do selvagem, esse proce-
fantil" para um estado "adulto" de civilizao.     dimento no tem, nele, nenhum carter etnocen-
Foi nessa perspectiva que De Brosses fez do         trista ou inferiorizante. Alis, a idia de incor-
fetichismo uma forma de religio, cuja caracte-     porao, de sacralizao, ou at de pavor da
rstica seria a transformao em divindades dos     idia do fetiche, seria retomada por alguns her-
animais e seres inanimados aos quais se atribua    deiros franceses de Freud, em especial Guy
um poder mgico. O fetichismo do "negro", ao        Rosolato, no para analisar a religio, mas para
mesmo tempo, foi inferiorizado e assimilado a       explicar a gnose e o fenmeno das seitas reli-
um culto pueril, caracterstico de uma "infncia    giosas organizadas em torno de uma mitologia
da humanidade".                                     do segredo, na qual o bem e o mal, o xtase e a
    Essa tese foi retomada por Hegel em 1831,       abjeo constituem um punhado de oposies
em suas Lies sobre a filosofia da histria, mas   irredutveis, que levam o sujeito a servir a um
invalidada por Augusto Comte (1798-1857),           fetiche a ponto de perder qualquer contato com
que, como mostraria luminosamente Georges           a realidade. J no incio do sculo, Hermann
Canguilhem (1904-1995), no excluiu a "idade        Rorschach* pensara em estudar esse fenmeno,
do fetichismo" de sua histria dos trs estados     e Michel de Certeau (1926-1986) dignificou o
do esprito humano, mas, ao contrrio, integrou-    tema em sua anlise dos msticos.
a como o primeiro estado teolgico da humani-           A concepo freudiana do fetichismo 
dade.                                               exposta atravs de diversos textos. Em 1905,
    Foi realmente inspirando-se nesse evolucio-     nos Trs ensaios sobre a teoria da sexuali-
nismo (no comtiano, mas darwiniano) que            dade*, o Ersatz (ou substituto)  uma parte do
Freud, por sua vez, retomou a idia das dife-       corpo que mantm uma relao com a pessoa
rentes "idades" da humanidade, sobretudo em         sexual. A "superestimao" do objeto, isto , um
Totem e tabu, em 1912. Ora, desde o incio do       certo grau de fetichismo, existe "normalmente"
sculo, o evolucionismo fora criticado pelos        em qualquer relao amorosa. Mas s se torna
                                                                                       fetichismo       237

patolgica quando a fixao no objeto decorre        oportunidade de observar casos clnicos com-
de uma libido* infantil.                             probatrios. Mas atesta tambm a cegueira de
    Em seguida, em seu estudo dedicado a Leo-        Freud com respeito s mulheres (sobretudo al-
nardo da Vinci (1452-1519) e tambm em seu           gumas de seu crculo), como Marie Bonaparte*,
comentrio da Gradiva de Wilhelm Jensen              por exemplo, cujas prticas e teorias sobre a
(1837-1911), Freud identifica a dimenso             feminilidade poderiam t-lo incitado a refletir
fetichista de todas as formas de perverso (exi-     melhor. O fato  que essa tese veio a ser ques-
bicionismo, voyeurismo, coprofilia), mostran-        tionada por seus sucessores kleinianos, que ins-
do que, nesses casos, o fetiche  portador de        creveram o fetichismo em geral no contexto de
todos os outros objetos. Mas ele esclarece que       uma relao arcaica com a me, comum a am-
o encontro com o fetiche  apenas a reatualiza-      bos os sexos, e por Robert Stoller*, grande
o de uma lembrana precoce recalcada. A            especialista norte-americano em distrbios da
propsito de Leonardo da Vinci e da fantasia*        identidade sexual, para quem o fetichismo mas-
do "abutre", ele introduz a idia de que o fetiche   culino (homossexual e heterossexual) seria uma
(o p, por exemplo)  um substituto do falo que      fetichizao do objeto ou do rgo, ao passo que
falta na mulher: "A venerao do p feminino         o fetichismo feminino (homossexual ou
e do sapato toma o p como smbolo do membro         heterossexual) seria uma fetichizao da rela-
que antes faltava na mulher."                        o: assim, uma necrfila se apaixona pelo
    Em 1914, com "Sobre o narcisismo: uma            cadver que deseja e do qual se torna parceira
introduo", Freud desliza do objeto para o          ertica, ao passo que um necrfilo apropria-se
sujeito, concluindo pela ausncia do fetichismo      do cadver como um pedao do corpo.
feminino. A seu ver, de fato, o fetichismo da            A escola francesa, simultaneamente marca-
roupa  "normal" nas mulheres, uma vez que          da pelo ensino de Gatan Gatian de Clram-
a totalidade do corpo que  transformada num         bault* e pelo de Jacques Lacan*, tambm
fetiche, e no um objeto. O fetichismo femini-       contestou a pretensa inexistncia do fetichismo
no, portanto, no seria nada alm de uma "nar-       feminino e, em termos mais gerais, da perverso
cisizao" do corpo.                                 feminina. Uma das melhores abordagens teri-
    Com a introduo do termo "renegao*",          cas da questo foi obra de Wladimir Granoff e
em 1923, Freud construiu uma teoria que o            Franois Perrier*, que publicaram, em 1964, o
levaria, em seu artigo de 1927, a compreender        texto de uma conferncia proferida em 1960.
o fetichismo como a coexistncia de uma recusa       Ambos admitem que o fetichismo no existe na
da percepo da ausncia do pnis na mulher          mulher sob a forma da construo de um obje-
com um reconhecimento da falta, levando a            to-fetiche. Mas, ainda assim, a mulher pode
uma clivagem* permanente do eu* e  fabrica-         tornar-se seu prprio fetiche, numa relao ero-
o do fetiche como substituto do rgo fal-         tomanaca com o filho. Na condio de me, ela
tante. Para ilustrar sua colocao, ele conta o      se constri ento como um dolo onipotente e,
caso de um homem cujo fetiche consiste num           portanto, como um fetiche.
suporte pubiano que ele pode usar como uma
                                                      Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da
sunga. Ele esconde os rgos genitais e mascara
                                                     sexualidade (1905), ESB, VII, 129-2; GW, V, 29-145;
a diferena sexual. O fetichista encontra prazer     SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; "Freud e o
no fato de a mulher ser ao mesmo tempo cas-          fetichismo", sesso de 24 de fevereiro de 1909, apre-
trada e no castrada, e de o homem tambm            sentada por Louis Rose, Revista Internacional da His-
poder ser castrado. A criao do fetiche, portan-    tria da Psicanlise, 2 (1989), Rio de Janeiro, Imago,
                                                     1992; "Un cas de ftichisme du pied", sesso de 11 de
to, obedece  inteno de destruir a prova da        maro de 1914, in Les Premiers psychanalystes, Mi-
castrao, para escapar  angstia de castrao.     nutes de la Socit Psychanalytique de Vienne, IV,
O fetichismo, desse modo, tornar-se-ia uma           1912-1918 (N. York, 1975), Paris, Gallimard, 1983,
espcie de paradigma da perverso em geral.          278-80; "Fetichismo" (1927), ESB, XXI, 179-88; GW,
                                                     XIV, 311-7; SE, XXI, 147-157; in La Vie sexuelle, Paris,
    A tese da ausncia do fetichismo feminino,       PUF, 1969; "A clivagem do eu no processo de defesa"
largamente aceita no comeo do sculo, atesta        (1938), ESB, XXIII, 309-14; GW, XVII, 59-62; SE, XXIII,
que os mdicos da poca no tinham tido a            271-8; in Rsultats, ides, problmes, II, Paris, PUF,
238       filiao

1985, 283-7  Charles De Brosses, Du culte des dieux         tidade social e se inscreve num processo de
ftiches ou Parallle de l'ancienne religion de l'gypte
                                                             transmisso de tipo patrilinear ou matrilinear. O
avec la religion actuelle de Ngritie (1760), Paris,
Fayard, col. "Corpus des oeuvres de philosophie en           debate sobre a natureza da filiao superpe-se
langue franaise", 1988  G.W.F. Hegel, Leon sur la         aos que se desenvolveram sobre o patriarcado*
philosophie de l'histoire, Paris, Vrin, 1967  Augusto       e o matriarcado. Quanto  filiao em si, ela 
Comte, Cours de philosophie positive, vol.V (1841),          um dos objetos de estudo dos sistemas de pa-
Paris, Hermann, 1975; Discours sur l'esprit positif
(1844), Paris, UGE, col. "10/18", 1963  Richard von
                                                             rentesco*.
Krafft-Ebing, Psychopathia sexualis (Stuttgart, 1886,            Na historiografia* freudiana, o termo remete
Paris, 1907), Paris, Payot, 1969  Alfred Binet, "Le          forma particular de iniciao no saber e na
Ftichisme dans l'amour", Revue Philosophique, 1887;         prtica da psicanlise que se opera entre um
tudes de psychologie exprimentale, Paris, Doin,
1888  Marcel Mauss, "Rsum de cours" (1906-1907),
                                                             mestre e seu discpulo, atravs da experincia
in Oeuvres, II, Paris, Minuit, 1969, 244-5  Karl Abra-      da anlise pessoal ou didtica e, mais tarde, da
ham, "Psychanalyse d'un cas de ftichisme du pied et         superviso*.
du corset" (1910), Oeuvres compltes, 1, Paris, Payot,           O estudo das filiaes  essencial para a
1965, 147-55  Michael Balint, "A contribution on fetis-
hism", IJP, 16, 4, 1935, 481-3  William Gillespie, "A
                                                             constituio da histria da psicanlise, na me-
contribution to fetishism", IJP, 21, 1940, 401-15  Daniel   dida em que o movimento e suas instituies
Hunter, "Object relation changes in the analysis of a        sempre formaram uma comunidade compar-
fetishism", IJP, 35, 1954, 302-12  Angel Garma, "The        vel a uma famlia patriarcal, ou ento a um
meaning and genesis of fetishism", IJP, 37, 1956,            sistema de parentesco. Nessa perspectiva, o es-
414-25  Jacques Lacan e Wladimir Granoff, "Le Fti-
chisme: le symbolique, l'imaginaire et le rel" (1956), in   tudo das filiaes tem por objetivo estabelecer
L'Objet en psychanalyse. Le Ftiche, le corps, l'enfant,     quem  analisado (ou supervisionado) por
la science, Paris, Denol, 1986, 16-32  Wladimir Gra-       quem, e permite compreender a natureza das
noff e Franois Perrier, Le Dsir et le fminin (1964),      relaes transferenciais entre psicanalistas.
Paris, Aubier, 1991, precedido por "Le Non-lieu de la
femme", de Ren Major  Guy Rosolato, "tude des
                                                                 Depois de Sandor Ferenczi*, que foi o pri-
perversions sexuelles  partir du ftichisme", in Le         meiro, em 1928, a se interessar especificamente
Dsir et la perversion, Paris, Seuil, 1967, 9-52            pela anlise dos analistas, Michael Balint* pro-
Georges Canguilhem, "Histoire des religions et histoire      ps, em 1948, um estudo sistemtico do que
des sciences dans la thorie du ftichisme chez A.
Comte", in tudes d'histoire et de philosophie des
                                                             denominou de sistema de formao dos analis-
sciences, Paris, Vrin, 1968, 81-99  Robert C. Bak, "Le      tas (ou sucesso apostlica).
Ftichisme" (1953), Nouvelle Revue de Psychanalyse,              Em 1975, o psicanalista francs Wladimir
2, outono de 1970, 65-77  Masud R. Khan, "Le Fti-          Granoff, muito marcado pelo ensino de Ferenc-
chisme comme ngation de soi" (1965), ibid., 77-112 
                                                             zi, introduziu o termo filiao. Em seguida, o
Jean Pouillon, "Ftiche sans ftichisme", ibid., 135-49
 Frank J. Sulloway, Freud, Biologist of the Mind, N.        historiador Ernst Falzeder deu uma grande
York, Basic Books, 1979  Robert Stoller, "Dynamiques        contribuio a esse campo, ao estabelecer uma
des troubles rotiques", in Les Troubles de la sexualit,    genealogia das filiaes freudianas no mundo
monografias da Revue Franaise de Psychanalyse,              germnico e anglfono,  qual acrescentou a
Paris, PUF, 1993, 119-39  Paul-Laurent Assoun, Le
Ftichisme, Paris, PUF, col. "Que sais-je?", 1994.           lista das prticas consideradas "transgressoras"
                                                             em relao aos cnones da anlise, segundo a
 DELRIOS E SONHOS NA "GRADIVA" DE W. JEN-                   International Psychoanalytical Association*
SEN; HAITZMANN, CHRISTOPHER; HOMOSSEXUALI-                   (IPA), entre 1920 e 1925: relaes sexuais entre
DADE; HUG-HELLMUTH, HERMINE VON; LEONAR-                     analistas e analisandos, anlise de crianas por
DO DA VINCI E UMA LEMBRANA DE SUA INFNCIA;                 seus pais etc. Na Frana*, essa questo foi
MALINOWSKI, BRONISLAW; ROHEIM, GEZA; SADO-                   estudada por lisabeth Roudinesco, a partir da
MASOQUISMO; TRANSEXUALISMO.                                  contribuio de Wladimir Granoff. Em todos os
                                                             pases de implantao do freudismo (Argenti-
                                                             na*, Brasil*, Hungria*, Escandinvia*, Itlia*
filiao                                                     etc.), as pesquisas genealgicas decorrem da
                                                             histria acadmica.
    O termo filiao  comum ao direito,  an-
tropologia* e  psicanlise*. Designa a regra em              Sandor Ferenczi, "O problema do fim da anlise"
virtude da qual um indivduo adquire sua iden-               (1928), in Psicanlise IV, Obras completas, 1927-1933
                                                                                      Fliess, Wilhelm       239

(Paris, 1982), S. Paulo, Martins Fontes, 1994, 15-24      psicanalista, depois de uma segunda anlise
Michael Balint, "A propos du systme de formation
                                                           com Ruth Mack-Brunswick*. Em uma de suas
psychanalytique" (1948), in Amour primaire et techni-
que psychanalytique (Londres, 1952), Paris, Payot,         obras, publicada depois de sua morte, adotou a
1965, 285-308  Wladimir Granoff, Filiations, Paris,       antiga teoria freudiana da seduo*, para enfa-
Minuit, 1975  Ernst Falzeder, "Filiations psychanalyti-   tizar que todos os neurticos graves tinham sido
ques: la psychanalyse prend effet" (1994), in Andr        atingidos na infncia por traumas reais ou por
Haynal (org.), La Psychanalyse: cent ans dj (Lon-
dres, 1994), Genebra, Georg, 1996, 255-89  lisabeth
                                                           abusos sexuais. Essa posio permitiria  his-
Roudinesco, Genealogias (Paris, 1994), Rio de Janei-       toriografia* revisionista, e principalmente a
ro, Relume Dumar, 1996.                                   Jeffrey Moussaeff Masson, editor da corres-
                                                           pondncia de Sigmund Freud* e Wilhelm
 GERAO; PASSE; PSICANLISE DIDTICA;                     Fliess, relanar o debate sobre a seduo e
TRANSFERNCIA.
                                                           formular a hiptese, sem provas, de que o pr-
                                                           prio Robert Fliess teria sido vtima de seu pai.
Finlndia                                                   Robert Fliess, Symbol, Dream and Psychosis, N.
 ESCANDINVIA.                                             York, International Universities Press, 1973  Jeffrey
                                                           Moussaeff Masson, Le Rel escamot, Paris, Aubier,
                                                           1984.
Fleischl-Marxow, Ernst von
(1847-1891)
    Brilhante fisiologista da gerao de Sig-              Fliess, Wilhelm (1858-1928)
mund Freud*, foi assistente de Ernst von                   mdico alemo
Brcke* em Viena*. Durante um experimento,                    Personagem pitoresco, amigo ntimo de
feriu-se profundamente na mo e teve que am-               Sigmund Freud* e terico da bissexualidade*,
putar trs dedos. Sofria de dores insuportveis            Wilhelm Fliess pertence  longa linhagem de
nos cotos, o que o levou a usar morfina. Dese-             sbios prometeicos da literatura romntica, cu-
jando cur-lo da sua toxicomania, Freud o tra-             jos traos se encontram na obra de Thomas
tou com cocana, acreditando que essa droga                Mann*. Nascido em Arswalde, em uma famlia
podia curar a morfinomania. Tornando-se adep-              de judeus sefardins instalados no Markbran-
to da cocana, Fleischl morreu aos 44 anos,                denburg desde o sculo XVIII, residiu em Ber-
assistido por seu grande amigo Sigmund Freud,              lim a partir de 1862, onde seu pai, Jacob Fliess
que evocou sua lembrana em A interpretao                (1819-1878), era um comerciante de gros pou-
dos sonhos*.                                               co dotado para os negcios e certamente depri-
                                                           mido. Contava-se na famlia que, provavel-
 Max Schur, Freud: vida e agonia, uma biografia, 3
vols. (N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1981.
                                                           mente, ele se suicidara.
                                                              Depois de estudar medicina e fazer vrias
 KOLLER, CARL.                                             viagens pela Europa, Wilhelm Fliess abriu um
                                                           consultrio de clnica geral em Berlim, assim
                                                           como uma pequena clnica com alguns leitos.
Fliess, Robert (1895-1970)                                 Especializou-se em otorrinolaringologia e fez
mdico e psicanalista americano                            pesquisas sobre as relaes entre o nariz e os
    Filho de Wilhelm Fliess e Ida Bondy (ex-pa-            rgos genitais. Estas resultaram, em 1897, na
ciente de Josef Breuer* e irm de Margarethe               publicao de um livro, As relaes entre o
Nunberg* e de Marianne Kris*), Robert Fliess               nariz e os rgos genitais femininos, apresen-
foi, como Anna Freud*, um filho da psican-                tadas segundo suas significaes biolgicas.
lise*. Analisado em Berlim por Karl Abraham*,                 Foi em outubro de 1887, por ocasio de uma
interessou-se pelas prticas de musculao e               permanncia em Viena*, que se encontrou com
massagem sueca. Depois da tomada do poder                  Freud, atravs de Josef Breuer*. Os dois jovens
pelo nazismo*, emigrou para os Estados Uni-                mdicos estavam ento sob a influncia da
dos* e instalou-se em Nova York, onde traba-               escola alem de Hermann von Helmholtz*.
lhou ao mesmo tempo como mdico e como                     Ambos se interessavam pela sexualidade*,
240     Fliess, Wilhelm

procurando na medicina e na cincia de sua             Em contato com Fliess, atravs de um pa-
poca os meios de construir uma nova teoria        ciente trabalho de escrita, Freud rompeu pro-
biolgica e darwiniana da vida psquica do ho-     gressivamente com a teoria da seduo e criou
mem. Sua amizade foi curta mas apaixonada,         a noo de fantasia*. Ao longo de seu relacio-
como so habitualmente essas aventuras inici-     namento (como provam os raros encontros que
ticas de uma juventude  procura de identidade     tiveram em cidades escolhidas -- chamavam
intelectual, e foi acompanhada de uma bela         esses encontros de "congressos"), Freud se dei-
correspondncia, da qual infelizmente s se        xou literalmente encantar por Fliess. Ora, este
conhece a parte escrita por Freud.                 o encerrava em uma concepo da cincia na
    Maravilhoso correspondente, Freud descre-      qual nem o erro, nem a experincia, nem a
veu com prazer aquilo que chamou de sua auto-      procura da verdade tinham lugar, tal era a cer-
anlise*. Ao longo das pginas, descobrimos        teza que governava o trabalho especulativo.
como ele adotou as teses do amigo sobre a          Renunciando  sua hiptese do trauma, Freud
bissexualidade para transform-las, e depois       foi assim logicamente conduzido a evoluir para
como elaborou suas primeiras hipteses sobre       outro caminho: o de uma cincia capaz de ex-
a histeria*, a neurose* e o dipo*. As cartas      plicar a realidade com a qual ele se confrontava.
tambm relatavam o abandono da teoria da               A ruptura foi violenta. Fliess se sentiu perse-
seduo*, acontecimento central na relao en-     guido e lanou contra Freud uma acusao de
tre ambos, o episdio do caso Emma Eckstein*,      plgio, na qual estavam implicados dois outros
e enfim a gnese de A interpretao dos so-        homens: Hermann Swoboda* e Otto Weinin-
nhos*. Continham uma multiplicidade de deta-       ger*.
lhes sobre a vida cotidiana e sexual do autor, e       Preocupado em no desvelar para a pos-
muitas outras informaes de todo tipo. A cor-     teridade sua relao com Fliess, Freud destruiu
respondncia terminou em setembro de 1902.         as cartas do amigo. Mas em 1936, Charles Fliess
                                                   (1899-1956), irmo mais velho de Robert, ven-
    Em setembro de 1892, Fliess casou-se com
                                                   deu a um comerciante as cartas de Freud, que
Ida Bondy (1869-1941), vienense, ex-paciente
                                                   seu pai guardara at a morte. Foi ento que
de Breuer, cuja irm, Melanie, se casaria com
                                                   Marie Bonaparte* as comprou e as conservou,
Oskar Rie*, amigo de Freud: um verdadeiro
                                                   contra a opinio do mestre, que se recusava
romance familiar* da psicanlise, cuja estrutura
                                                   obstinadamente a que fossem publicadas, nem
se encontra no sonho da "injeo de Irma"*.
                                                   queria que elas fossem conhecidas. Em 1950,
Desse casamento, nasceram duas filhas, Marga-      com a ajuda de Ernst Kris* e de Anna Freud*,
rethe, que se casou com Hermann Nunberg*, e        ela publicou algumas, sob o ttulo O nascimento
Marianne, futura mulher de Ernst Kris*. Dos        da psicanlise. S em 1985 foi enfim publicada
cinco filhos nascidos do casamento de Wilhelm      uma edio completa, depois de um escndalo
e Ida, s Robert Fliess* seria psicanalista e      nos Arquivos Freud.
mdico, prximo, em certos aspectos, do ima-
ginrio paterno.                                    Wilhelm Fliess, Les Relations entre le nez et les
    Adepto de uma teoria mstica e organicista     organes gnitaux fminins prsents selon leurs signi-
                                                   fications biologiques (Viena, 1897), Paris, Seuil, 1977;
da sexualidade, Fliess era uma espcie de duplo    Der Ablauf des Lebens. Grundlegung zur exakten Bio-
de Freud. Dominado por uma viso paranica         logie, Leipzig e Viena, Franz Deuticke, 1906  Sigmund
da cincia, misturava as teses mais extravagan-    Freud, La Naissance de la psychanalyse (Londres,
tes (e tambm as mais inovadoras) sem conse-       1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm Fliess,
                                                   1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986  Freud/Fliess:
guir organiz-las em um sistema de pensamento      correspondncia completa, 1887-1904 (Cambridge,
adequado  realidade. Relacionando a mucosa        1985), Rio de Janeiro, Imago, 1997  Karl Abraham,
nasal com as atividades genitais, pensava que a    "Six lettres indites  Wilhelm Fliess", Revue du Littoral
vida estava condicionada por fenmenos peri-      31-32, maro de 1991  Peter Swales, "Freud, Fliess
                                                   and fratricide. The role of Fliess in Freud's conception
dicos que dependiam da natureza bissexuada da      of paranoa", in Sigmund Freud. Critical Assessments,
constituio humana. J observava o carter        Laurence Spurling (org.), vol.1, Londres, N. York, Rout-
polimorfo da sexualidade infantil.                 ledge, 1982  Jean-Paul Sartre, Freud, alm da alma
                                                                             Flournoy, Thodore       241

(Paris, 1984), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1987, 2   uma clebre esprita, Catherine-lise Mller
ed.  Jeffrey Moussaeff Masson, Le Rel escamot,
                                                          (1861-1929), tornou-se durante cinco anos te-
Paris, Aubier, 1984  Erik Porge, Vol d'ides, Paris,
Denol, 1994.                                             rapeuta e confidente desta, no mesmo momento
                                                          em que comeava a ler as primeiras publicaes
 BIBLIOTECA DO CONGRESSO; PARANIA.                       de Freud. A jovem lhe contou sua histria fami-
                                                          liar e, ao longo de minuciosa pesquisa, Flour-
                                                          noy descobriu que outrora seus pais haviam tido
Flournoy, Henri (1854-1920)                               contato com os dela.
psiquiatra e psicanalista suo                               Algum tempo depois, Catherine-lise mer-
   Filho de Thodore Flournoy* e cunhado de               gulhou em profunda depresso e atualizou as
Raymond de Saussure*, Henri Flournoy es-                  cenas de uma vida anterior, composta de trs
tudou medicina em Genebra e tornou-se assis-              ciclos. Durante o primeiro, tinha sido uma prin-
tente de Adolf Meyer* durante um ano, em                  cesa indiana do sculo XV, no segundo, Maria
Baltimore. Foi um dos artfices ativos do movi-           Antonieta; e no terceiro vivera no planeta Mar-
mento psicanaltico suo, sendo tambm mem-              te. Descrevia seus habitantes, suas paisagens e
bro da Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP),            falava e escrevia uma "lngua marciana". Flour-
tendo desempenhado papel importante em seu                noy observou que grande parte das criaes da
pas pela legalizao do aborto. Foi analisado            jovem provinha de livros lidos na infncia, mas
primeiro por Carl Gustav Jung*, depois, na                no lhe disse nada e ignorou o peso da realidade
Holanda, por Johan Van Ophuijsen*, e enfim                psquica* e da fantasia*, preocupando-se ape-
em Viena por Sigmund Freud* e Hermann Nun-                nas com a experimentao pura. Em 1900, de-
berg*.                                                    cidiu publicar os resultados de seu estudo em
 lisabeth Roudinesco, entrevista com Olivier Flour-
                                                          um livro que teria grande sucesso, Das ndias
noy, junho de 1982.                                       ao planeta Marte. Segundo ele, cada um dos
                                                          ciclos revividos pela esprita (que chamou de
                                                          Hlne Smith) era construdo sobre uma "rever-
Flournoy, Thodore (1854-1920)                            so" da sua personalidade a uma idade dife-
mdico suo                                              rente: o ciclo de Maria Antonieta a levava at a
    Contemporneo de Sigmund Freud*, de                   idade de 16 anos, o ciclo indiano  idade de 12
Pierre Janet* e de Morton Prince*, Thodore               anos, o ciclo marciano  primeira infncia.
Flournoy ocupa lugar importante na histria da                Para Flournoy, que no acreditava na exis-
descoberta do inconsciente* e da passagem do              tncia de extra-terrestres, no havia dvida:
espiritismo* para a psicanlise*. Nascido em              Catherine-lise no se comunicava com os
Genebra em uma velha famlia calvinista, era              marcianos e sua lngua pertencia ao campo da
sobrinho de douard Claparde*. Recebeu uma               glossolalia, linguagens inventadas pelos pr-
formao de mdico e de filsofo. Em Leipzig,             prios sujeitos para expressarem suas alucina-
fez os cursos de Wilhelm Wundt (1833-1920) e              es. Mas para a jovem, alimentada pelos so-
obteve em 1891, em sua cidade natal, a primeira           nhos de uma poca em que os romances de Jlio
ctedra de psicologia experimental, criada es-            Verne (1828-1905) e de H.G. Wells (1866-
pecialmente para ele. No mesmo ano, o lingis-            1946) pareciam coincidir com as descobertas de
ta Ferdinand de Saussure (1857-1912) assumiu              Camille Flammarion (1842-1925), a realidade
a ctedra de snscrito e de lnguas indo-euro-            era diferente: o planeta Marte existia mesmo,
pias.                                                    com sua lngua revelada e seus verdadeiros
    Marcado pelos trabalhos de Frederick                  marcianos.
Myers*, Flournoy logo se interessou pelo es-                  Foi por isso que, logo que a obra foi publi-
piritismo, pelo ocultismo e pelo alm da cons-            cada, desencadeou-se um intenso debate entre
cincia (ou inconsciente subliminar), que se              os adeptos do espiritismo, que reivindicavam a
acreditava discernir nos fenmenos de persona-            existncia de uma "lngua revelada", e os
lidade mltipla*. Em 1894, depois de assistir,            cientistas, que a negavam. Enquanto Ferdinand
fascinado, a uma sesso na qual se expressava             de Saussure se situava ao lado de Flournoy, o
242      Fluss, Gisela

francs Victor Henry, especialista em snscrito,          Eduard Silberstein que o objeto de seu amor no
afirmava que a jovem criara sua lngua marcia-            era Gisela, mas Eleonora, me desta: "Parece-
na utilizando um vocabulrio composto de pa-              me, escreveu ele, que transferi para a filha, sob
lavras hngaras deformadas, oriundas da lngua            forma de amizade, o respeito que me inspira a
materna do pai.                                           me. Sou um observador perspicaz, ou me
    A aventura terminou em tragdia, como a de            considero tal; minha vida no seio de uma famlia
Carl Gustav Jung* com Hlne Preiswerk*.                  numerosa, na qual tantos caracteres se desen-
Sentindo-se destituda da sua lngua imaginria           volvem, aguou o meu olhar e estou cheio de
pelo discurso da cincia, Catherine-lise rejei-          admirao por essa mulher que nenhum de seus
tou Flournoy. Depois de receber donativos de              filhos consegue igualar." Seguia-se ento um
uma rica americana para se dedicar s suas                elogio ardente a Eleonora.
experincias, mergulhou em um isolamento so-                  Esta possua qualidades que Amalia Freud*,
namblico completo, pintando quadros ms-                 me de Sigmund, no tinha. Era moderna, libe-
ticos que seriam expostos depois de sua morte.            ral, culta e completamente livre do esprito de
Quanto a Flournoy, que se recusara a tratar da
                                                          gueto. Quanto a seu marido, mostrara-se capaz,
jovem, no a considerando uma doente mas um
                                                          ao contrrio de Jacob Freud, de superar a crise
sujeito de experincia, prosseguiu seus traba-
                                                          que atingira o comrcio de txteis e no fora
lhos e acolheu com entusiasmo a teoria freudia-
                                                          obrigado a deixar Freiberg por Viena. Assim, o
na do sonho*.
                                                          amor que Freud dedicou a Gisela Fluss parece
    Tendo permanecido ligado  tradio dos
antigos magnetizadores, Thodore Flournoy foi             ter sido acompanhado da construo de um
uma figura original na histria do freudismo*             romance familiar*: ter um pai idntico a Ignaz
na Sua*. Seu filho, Henri Flournoy*, tornou-            e uma me semelhante a Eleonora.
se psicanalista, assim como o filho deste, Oli-               Essa aspirao a uma outra identidade, cuja
vier Flournoy; sua filha, Ariane, casou-se com            significao Freud e Otto Rank* teorizariam na
Raymond de Saussure*.                                     noo de romance familiar, foi um dos compo-
                                                          nentes maiores do esprito vienense dos anos
 Thodore Flournoy, Des Indes  la plante Mars          1870-1890, que tanto contestava a autoridade
(Genebra, 1900), Paris  Henri F. Ellenberger, Histoire   patriarcal. Entre os estudantes judeus, ela to-
de la dcouverte de l'inconscient (N. York, Londres,
1970, Villeurbanne, 1974), Paris Fayard, 1994.            mou a forma de uma vontade de superar os pais,
                                                          consagrando-se ao trabalho intelectual. Encon-
                                                          tramos essa problemtica ao longo da corres-
Fluss, Gisela (1859-?), ao casar:                         pondncia entre Freud e Silberstein, na identi-
Popper                                                    ficao de Freud com Anbal (a respeito de uma
                                                          lembrana de infncia referente a Jacob Freud),
    Em 1871, Eduard Silberstein* e Sigmund
                                                          assim como atravs de muitos episdios da vida
Freud* passaram o vero em Roznau. Dali,
                                                          de Freud.
foram a Freiberg, hospedando-se com a famlia
de Ignaz Fluss, comerciante de txteis, amigo                 Em 27 de fevereiro de 1881, Gisela Fluss
de longa data de Jacob Freud*, e pai do jovem             casou-se em Viena com um comerciante de
Emil Fluss, colega de Sigmund e Eduard.                   Presbourg (Bratislava), chamado Emil Popper.
Sigmund apaixonou-se ento por Gisela, irm                   Em 1899, em um artigo intitulado "As lem-
de Emil.                                                  branas encobridoras", Freud relatou em parte
    No ano seguinte, sempre muito apaixonado,             a histria de seu amor por Gisela Fluss, modi-
Freud reviu Gisela, mas fingiu indiferena e              ficando os nomes de pessoas e lugares. Foi
deixou-a partir para o colgio interno. Passeava          Siegfried Bernfeld*, sem conhecer ainda as car-
pelos bosques, inconsolvel, sonhando com o               tas de juventude de Freud, o primeiro a mostrar,
que poderia ter sido sua vida, se seus pais no           em 1946, que esse artigo continha um fragmen-
tivessem deixado Freiberg e se ele tivesse podi-          to autobiogrfico. O texto seria depois comen-
do casar-se com a bem-amada. Mas em uma                   tado por muitos autores, de maneira mais ou
carta de 4 de setembro de 1872, explicou a                menos fantasiosa.
                                                                                            fobia     243

 Sigmund Freud, "Lembranas encobridoras" (1899),       interno ou externo, em geral ligado a uma ma-
ESB, III, 333-58; GW, I, 529-44; SE, III, 299-322; OC,
                                                         nifestao diablica ou divina. Continuam a ser
III, 255-76; Lettres de jeunesse (1989), Paris, Galli-
mard, 1990  Siegfried Bernfeld, "An unknown autobio-    numerosas as supersties que exprimem a
graphical fragment by Freud", American Imago, 4, 1,      angstia, como o medo do nmero 13, por
1946  Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud,   exemplo.
vol.1 (N. York, 1953), Rio de Janeiro, Imago, 1989.
                                                             Assim, identificaram-se dezenas de doenas
                                                         do medo, dentre as quais algumas se tornaram
 JUDEIDADE; LEMBRANA ENCOBRIDORA; PA-
                                                         clebres; a hidrofobia (medo da gua), a agora-
TRIARCADO; VIENA.
                                                         fobia (medo de lugares pblicos), a claustrofo-
                                                         bia (medo de lugares fechados) etc. No cerne
                                                         desse universo do medo, so as representaes
fobia                                                    da animalidade, na maioria das vezes, que re-
al. Phobie; esp. fobia; fr. phobie; ing. phobia          velam a essncia da fobia. Desde os afrescos
Termo derivado do grego phobos e utilizado na            infernais de Hieronymus Bosch (1450-1516)
lngua francesa como sufixo, para designar o pavor       at a Metamorfose de Franz Kafka (1883-
de um sujeito* em relao a um objeto, um ser vivo       1924), passando pelo Drcula do escritor irlan-
ou uma situao.                                         ds Bram (Abraham) Stocker (1847-1912), ex-
    Tal como utilizado em psiquiatria por volta de       prime-se o pavor da transio do humano para
1870, como substantivo, o termo designa uma neu-         o animal, do anjo para o demnio, da alma para
rose* cujo sintoma central  o pavor contnuo e          o corpo. O evolucionismo darwiniano daria
imotivado que afeta o sujeito, frente a um ser vivo,
                                                         uma consistncia cientfica a essa fantasia*,
um objeto ou uma situao que, em si mesmos,
                                                         como sublinhou Freud em Totem e tabu*,
no apresentam nenhum perigo real.
    Em psicanlise*, a fobia  um sintoma, e no
                                                         apoiando-se no caso do pequeno Arpad, o me-
uma neurose, donde a utilizao da expresso             nino analisado por Sandor Ferenczi* em razo
histeria* de angstia em lugar da palavra fobia.         de sua fobia dos galos.
Introduzida por Wilhelm Stekel* em 1908 e retoma-            Foi a retirada do terror do universo do pen-
da por Sigmund Freud*, a histeria de angstia           samento religioso que permitiu ao saber psi-
uma neurose de tipo histrico, que converte uma          quitrico do fim do sculo XIX fazer da fobia
angstia num terror imotivado, frente a um objeto,       uma verdadeira entidade nosogrfica. Ao se
um ser vivo ou uma situao que no apresentam           transformar numa neurose, a fobia acedeu a um
em si nenhum perigo real.                                estatuto estrutural, ao passo que o bestirio,
   Entre os sucessores de Freud, a palavra tende         sintoma dos antigos pnicos sagrados, transfor-
a se superpor  idia de histeria de angstia.           mou-se sub-repticiamente num mal inelutvel,
    Conhecida desde a noite dos tempos, a re-            que destri a alma por dentro. Nessa configura-
pulsa que atinge certos indivduos em algumas            o, o sujeito pode ser designado como fbico,
situaes particulares tem suscitado numerosos           sem que o objeto de sua fobia seja identificado.
comentrios. Para conjurar o medo no combate,            Da a confuso entre a angstia no sentido
os gregos divinizaram Fobos e os guerreiros o            existencial e a fobia.
honravam antes de partir para a guerra. Se esse               compreensvel que Freud tenha preferido
pavor remetia a um perigo bastante real, que o           a ela a expresso histeria de angstia, inventada
sculo XX reencontraria com as neuroses de               por Stekel: esta lhe permitiu situar a sexuali-
guerra*, as doenas do medo foram tratadas, no           dade* no centro do sintoma fbico. Num pri-
Ocidente, pelos remdios tradicionais: ervas e           meiro momento, em 1894-1895, Freud consta-
poes mgicas, colares de alho, crimes rituais,         tou que os sintomas fbicos estavam presentes
confeco de amuletos etc. Algumas doenas               em toda sorte de distrbios neurticos ou psi-
no identificadas, como a hepatite, por exem-            cticos, porm, mais particularmente, na neu-
plo, chamada de ictercia, entraram durante              rose obsessiva* e na neurose de angstia (ou
muito tempo na categoria das afeces causa-             neurose atual). Eram a expresso de uma con-
das pelo pavor. Supunha-se, de fato, que o               verso da angstia em terror, em pacientes que
doente mudava de cor sob o efeito de um medo             praticavam a continncia e se mostravam fan-
244     fobia

ticos com a limpeza, porque tinham horror s        idia, em seu seminrio A relao de objeto, de
coisas da sexualidade.                              que o objeto da fobia seria um significante*, isto
    Depois, na anlise do Pequeno Hans (Her-        , um elemento significativo da histria do su-
bert Graf*), em 1909, Freud constatou que exis-     jeito que viria mascarar sua angstia fun-
tia pelo menos uma neurose em que o sintoma         damental: "Para preencher algo que no pode
fbico era central. Designou-a pelo nome de his-    resolver-se no nvel da angstia intolervel do
teria de angstia. Nesses casos, a libido* no     sujeito, este no tem outro recurso seno criar
convertida, mas liberada sob a forma de angs-      para si mesmo um tigre de papel." Lacan com-
tia. Note-se que a fobia  um dos sintomas que o    parou esse significante a letras de fogo ou
tratamento psicanaltico permite dominar com        "brases da fobia", verdadeiras paredes de pa-
mais facilidade, substituindo-o pela angstia.      pel que se tornam, para o sujeito, to intrans-
    Os sucessores de Freud interessaram-se          ponveis quanto a muralha da China. Nessa
muito pelas fobias infantis e, portanto, essen-     perspectiva, portanto, cabe distinguir o objeto
cialmente, pelos terrores inspirados pelos ani-     significante (ou significante fbico) do objeto
mais. Como na arte ou na literatura, eles so       fetiche, para mostrar que o primeiro decorre de
quase sempre o vetor principal do sintoma f-       uma sintomatologia neurtica (histeria, neurose
bico e, portanto, da angstia. Alis, encontra-     obsessiva) e o segundo, de uma clnica da per-
mos seus vestgios em outros dois grandes casos     verso*. Se o fetiche garante a condio abso-
freudianos: o Homem dos Lobos (Serguei              luta de um gozo*, o significante fbico protege
Constantinovitch Pankejeff*) e o Homem dos          contra o desaparecimento do desejo*.
Ratos (Ernst Lanzer*).
    Depois de Freud, entretanto, a terminologia      Sigmund Freud, "Obsesses e fobias: seu mecanis-
se modificou e a fobia acabou sendo aceita          mo psquico e sua etiologia" (1895), escrito em francs,
menos como um sintoma do que como uma               ESB, III, 89-98; GW, I, 343-53; SE, III, 69-82; OC, III,
                                                    19-29; "Anlise de uma fobia em um menino de cinco
verdadeira entidade clnica. Da o desapareci-
                                                    anos" (1909), ESB, X, 15-152; GW, VII, 243-377; SE,
mento progressivo da expresso histeria de          X, 1-147; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF, 1954,
angstia. Se Melanie Klein* dissolveu a fobia       93-198  Bram Stocker, Dracula (Dublin, 1897), Vervier,
na angstia, fazendo dela um mecanismo arcai-       Marabout, 1975  Franz Kafka, A metamorfose (1916),
co, integrado na posio esquizo-paranide*,        S. Paulo, Companhia das Letras, 1997  Wilhelm S-
                                                    tekel, Nervse Angstzustnde und ihre Behandlung,
Anna Freud*, ao contrrio, encarou-a como           Viena e Berlim, Urban und Schwarzenberg, 1908, com
uma neurose de transferncia*, na qual o objeto     prefcio de Sigmund Freud reproduzido in ESB, IX,
fobogeno torna-se smbolo de todos os perigos       255-6; GW, VII, 467-8; SE, IX, 250-1  Sandor Ferenczi,
ligados  sexualidade, os quais  preciso repelir   "Um pequeno homem-galo" (1913), in Psicanlise II,
atravs de mecanismos de defesa*. Da o surgi-      Obras completas, 1913-1919 (Paris, 1970), S. Paulo,
                                                    Martins Fontes, 1992, 61-8  Anna Freud, O ego e os
mento de uma defesa manaca, ou a adoo, em        mecanismos de defesa (Londres, 1936), Rio de Janei-
alguns indivduos, de uma atitude chamada de        ro, Civilizao Brasileira, 1982, 6 ed.; "Fears, anxieties
contrafbica. Do ponto de vista da teoria cls-     and phobic phenomena", Psychoanalytic Study of the
sica (freudiana e annafreudiana), a claustrofo-     Child, 32, 1977, 85-90  Jacques Lacan, O Seminrio,
bia deveria ser interpretada como o desejo e o      livro 4, A relao de objeto (1956-1957) (Paris, 1994),
                                                    Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995; Escritos (Paris,
medo da masturbao, e a agorafobia, como a         1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998  Jean La-
expresso de uma fantasia de prostituio etc.      planche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psi-
Segundo a tica kleiniana, a claustrofobia seria    canlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991,
um desejo de escapar  proteo sufocante do        2 ed.  Charles Rycroft, A Critical Dictionary of Psy-
                                                    choanalysis (1968), Londres, Penguin Books, 1995 
bom objeto, enquanto a agorafobia correspon-
                                                    Jean Delumeau, La Peur en Occident, Paris, Fayard,
deria ao desejo de fugir de um mundo povoado        1978  Annie Birraux, loge de la phobie, Paris, PUF,
de maus objetos.                                    1994.
    Grande clnico dos estados de terror ligados
ao surgimento do real*, Jacques Lacan* foi o         CASTRAO; FAIRBAIRN, RONALD; FETICHISMO;
nico autor a desenvolver uma concepo fran-       INIBIES, SINTOMAS E ANGSTIA; NOVAS CONFE-
camente estrutural da fobia em geral. Da a         RNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE PSICANLISE; OB-
                                                                                   foracluso      245

JETO (BOM E MAU); OBJETO, RELAO DE; OBJETO          tanto a renegao (Verleugnung) quanto um
(PEQUENO) a.                                          outro mecanismo, prprio da psicose e, em
                                                      especial, da esquizofrenia*. Freud recusou-se a
                                                      acompanh-lo e distinguiu, de um lado, a Ver-
foracluso                                            leugnung, e de outro, a Verdrngung (recalque).
al. Verwerfung; esp. desestimacin; fr. forclusion;   A situao descrita por Laforgue despertava a
ing. foreclosure                                      idia de uma anulao da percepo, ao passo
Conceito forjado por Jacques Lacan* para desig-       que a exposta por Freud mantinha a percepo,
nar um mecanismo especfico da psicose*, atravs      no contexto de uma negatividade: atualizao
do qual se produz a rejeio de um significante*      de uma percepo que consiste numa rene-
fundamental para fora do universo simblico do        gao.
sujeito*. Quando essa rejeio se produz, o signi-        Do ponto de vista clnico, a polmica entre
ficante  foracludo. No  integrado no inconsci-
                                                      os dois homens revelou que faltava engendrar
ente*, como no recalque*, e retorna sob forma
                                                      um termo especfico para designar o mecanis-
alucinatria no real* do sujeito. No Brasil tambm
se usam "forcluso", "repdio", "rejeio" e "pre-
                                                      mo de rejeio prprio da psicose: essa palavra,
cluso".                                              com efeito, no figurava no vocabulrio freu-
                                                      diano, ainda que Freud procurasse elaborar seu
    O termo foracluso foi introduzido pela pri-
meira vez por Jacques Lacan, em 4 de julho de         conceito.
1956, na ltima sesso de seu seminrio dedi-             As coisas estavam nesse p quando douard
cado s psicoses* e  leitura do comentrio de        Pichon publicou, em 1928, com seu tio Jacques
Sigmund Freud* sobre a parania* do jurista           Damourette, um artigo intitulado "Sobre a sig-
Daniel Paul Schreber*.                                nificao psicolgica da negao em francs".
    Para compreender a gnese desse conceito,         A partir da lngua, e no mais da clnica, ele
h que relacion-lo com a utilizao que Hip-         tomou emprestado ao discurso jurdico o adje-
polyte Bernheim* fez, em 1895, da noo de            tivo forclusif [foraclusivo ou excludente (do uso
alucinao negativa: esta designa a ausncia de       de um direito no exercido no momento opor-
percepo de um objeto presente no campo do           tuno)] para expressar a idia de que o segundo
sujeito aps a hipnose*. Freud retomou o termo,       membro da negao em francs aplicava-se a
porm no mais o empregou a partir de 1917,           fatos que o locutor j no encarava como fazen-
na medida em que, em 1914, props uma nova            do parte da realidade. Esses fatos eram como
classificao das neuroses*, psicoses e per-          que foracludos. O exemplo fornecido pelos
verses* no mbito de sua teoria da castrao*.       dois autores no deixou de ter um certo humor,
Deu ento o nome de Verneinung ao mecanismo           tratando-se de dois membros da Action Fran-
verbal pelo qual o recalcado  reconhecido de         aise. Com efeito, eles mencionaram a citao
maneira negativa pelo sujeito, sem no entanto         de um jornalista, extrada do Journal de 18 de
ser aceito: "No  meu pai." Em 1934, o termo         agosto de 1923 a propsito da morte de Es-
foi traduzido em francs por ngation [nega-          terhazy: "O caso Dreyfus, diz ele [Esterhazy],
o]. Quanto  renegao* (Verleugnung),               doravante um livro fechado. Deve ter-se ar-
Freud a caracterizava como a recusa, por parte        rependido de algum dia o ter aberto [Il dut se
do sujeito, a reconhecer a realidade de uma           repentir de l'avoir jamais ouvert.]." Os autores
percepo negativa -- por exemplo, a ausncia         sublinharam que o emprego do verbo arrepen-
de pnis na mulher.                                   der-se implicava que um fato que realmente
    Paralelamente, na Frana*, Pichon* intro-         existira fora efetivamente excludo do passado.
duzia o termo "escotomizao", para designar          E aproximaram a escotomizao do foraclusi-
o mecanismo de enceguecimento inconsciente            vo: "A lngua francesa, atravs do foraclusivo
pelo qual o sujeito faz desaparecerem de sua          [forclusif], exprime esse desejo de escotomiza-
memria ou sua conscincia fatos desagrad-           o, assim traduzindo o fenmeno normal do
veis. Em 1925, uma polmica ops Freud a              qual a escotomizao, descrita na patologia
Ren Laforgue* a propsito dessa palavra. La-         mental pelo Sr. Laforgue e por um de ns [Pi-
forgue propunha traduzir por escotomizao            chon, constitui o exagero patolgico."
246     forcluso

    Em 3 de fevereiro de 1954, Lacan comeou       inconsciente do sujeito, mas retornam (no real)
a atualizar a questo do foraclusivo e da esco-    por ocasio de uma alucinao ou um delrio
tomizao, por ocasio de um debate com o          que invadem a fala ou a percepo do sujeito.
filsofo hegeliano Jean Hyppolite (1907-1968),         O conceito de foracluso assumiu, em segui-
ele prprio confrontado com essa questo por       da, uma extenso considervel na literatura la-
intermdio da Verneinung, a qual propunha tra-     caniana, a ponto de os discpulos do mestre
duzir por denegao*, em vez de negao. La-       francs acabarem vendo (seno alucinando) sua
can inspirou-se no trabalho de Maurice Mer-        existncia no corpus freudiano. Entretanto,
leau-Ponty (1908-1961), Phnomnologie de la       Freud nunca conceituou esse fenmeno de re-
perception, e sobretudo nas pginas desse livro    jeio (Verwerfung), ainda que, como mostra
dedicadas  alucinao como "fenmeno de           sua polmica com Laforgue, sempre tenha es-
desintegrao do real", componente da inten-       tado buscando a definio de um mecanismo
cionalidade do sujeito.                            desse tipo que fosse prprio da psicose.
    Na anlise do caso do Homem dos Lobos,          Sigmund Freud, "A denegao" (1925), ESB, XIX,
publicada em 1918, Freud explicou que a g-        295-308; GW, XIV, 11-5; SE, XIX, 235-9; OC, XVII,
nese do reconhecimento e do desconhecimento        165-71  "La Correspondance entre Freud et Laforgue,
da castrao em seu paciente passava por uma       1923-1937", apresentada por Andr Bourguignon,
                                                   Nouvelle Revue de Psychanalyse, XV, primavera de
atitude de rejeio (ou Verwerfung) que consis-    1977, 235-314  Jacques Damourette e douard Pi-
tia em s ver a sexualidade* pelo prisma de uma    chon, "Sur la signification psychologique de la ngation
teoria infantil: o comrcio sexual pelo nus.      en franais" (1928), Le Bloc-notes de la Psychanalyse,
Para ilustrar sua colocao, ele evocou uma        5, 1985, 111-32  Maurice Merleau-Ponty, Fenomeno-
                                                   logia da percepo (Paris, 1945), S. Paulo, Martins
alucinao que seu paciente Serguei Cons-
                                                   Fontes, 1996, 2 ed.  Jacques Lacan, Escritos (Paris,
tantinovitch Pankejeff* tivera na infncia. Este   1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998; O Seminrio,
"vira" seu dedo mnimo cortado por seu cani-       livro 1, Os escritos tcnicos de Freud (1953-1954)
vete, apercebendo-se em seguida da inexis-         (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979; O
                                                   Seminrio, livro 3, As psicoses (1955-1956) (Paris,
tncia do ferimento. A propsito da "rejeio de
                                                   1981), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988  Jean La-
uma realidade apresentada como inexistente",       planche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psi-
Freud sublinhou que isso no era um recalca-       canlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991,
mento, porque "eine Verdrngung ist etwas an-      2 ed.  lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise
deres als eine Verwerfung" (um recalque  algo     na Frana, 2 vols. (Paris, 1982, 1986), Rio de Janeiro,
                                                   Jorge Zahar, 1989, 1988; Jacques Lacan. Esboo de
diferente de uma rejeio).                        uma vida, histria de um sistema de pensamento (Pa-
    Comentando esse texto em seu dilogo de        ris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994 
1954 com Hyppolite, Lacan forneceu como            Pierre Macherey, "Le Leurre hglien", Le Bloc-notes
correspondente francs de Verwerfung a palavra     de la Psychanalyse, 5, 1985, 27-51  Jol Dor, Introdu-
                                                   o  leitura de Lacan, t.II (Paris, 1992), P. Alegre, Artes
retranchement [supresso, eliminao]. Dois        Mdicas, 1996.
anos depois, retomou a distino freudiana en-
tre neurose e psicose, para lhe aplicar a termi-
nologia segundo a qual, na psicose, a realidade    forcluso
nunca  realmente escotomizada. Por fim, de-        FORACLUSO.
pois de comentar longamente a parania de
Schreber e inventar o conceito de Nome-do-
Pai*, Lacan props traduzir Verwerfung por         Forel, August (1848-1931)
foracluso. Entendia por isso o mecanismo es-      psiquiatra suo
pecfico da psicose, definido a partir da para-        Higienista, fundador de uma liga anti-alco-
nia, que consiste na rejeio primordial de um    lica (a Ordem dos Bons Templrios), August
significante fundamental para fora do universo     Forel foi um dos mais legtimos representantes
simblico do sujeito. Lacan distinguia esse me-    da tradio sua e protestante da psiquiatria
canismo do recalque, sublinhando que, no pri-      dinmica*, que contribuiu, no fim do sculo
meiro caso, o significante foracludo ou os si-    XIX, para transformar inteiramente o tratamen-
gnificantes que o representam no pertencem ao     to da loucura* e do internamento.
                                                                                    Fornari, Franco      247

    Nascido em Morges, s margens do Lago                   do Centro Studi di Psicoterapia Critica, lugar de
Leman, apaixonou-se na infncia pela entomo-                encontro da psicanlise com as cincias huma-
logia, estudando sobretudo a vida das formigas.             nas em pleno desenvolvimento e com as cor-
Depois, orientou-se para a medicina e preparou              rentes existencialistas que comeavam a se
sua tese em Viena, sob a direo de Theodor                 manifestar no seio da psiquiatria italiana.
Meynert*. Obteve um lugar de professor de                       Em 1968, foi chamado por Francesco Albe-
psiquiatria em Zurique, o que lhe permitiu, em              roni, ento reitor da Universidade de Trento,
1879, ser nomeado diretor da prestigiosa clnica            para dar "contracursos" de psicanlise a pedido
do Hospital Burghlzli, para cuja fama contri-              dos estudantes do departamento de sociologia,
buiu cercando-se de brilhantes alunos: princi-              que Renato Curcio, um dos fundadores das
palmente Eugen Bleuler*, que lhe sucederia, e               Brigadas Vermelhas, freqentava ento. Em se-
Adolf Meyer*, que desenvolveria as teorias                  guida, foi nomeado professor na faculdade de
higienistas nos Estados Unidos*.                            letras e de filosofia na Universidade de Milo.
    Foi ao tratar dos alcolatras que abandonou
                                                                Terico audacioso, clnico voltado para a
as teses organicistas e compreendeu que, no
                                                            psicanlise de crianas* e admirador da prtica
campo do psiquismo, a eficcia teraputica
                                                            de Donald Woods Winnicott*, autor de cerca de
dependia da qualidade da relao entre o pa-
                                                            vinte obras, entre as quais um romance, Fornari
ciente e o mdico. A partir de ento, interessou-
se pela hipnose*, visitou Hipollyte Bernheim*               tambm era um cidado interessado em mobi-
em Nancy e introduziu o seu mtodo em Zuri-                 lizar o saber psicanaltico para enfrentar os
que. No Hospital Burghlzli, organizou con-                 problemas do seu tempo.
sultas externas, tanto para os distrbios fsicos               Preocupado com a geopoltica da guerra fria,
quanto para as afeces mentais, e experimen-               desenvolveu uma reflexo psico-poltica que
tou a hipnose nos profissionais de sade. Tam-              tratava especialmente da transformao da no-
bm lutou por uma reforma do Cdigo Penal e                 o de guerra resultante do aparecimento das
dos asilos, defendendo a abolio da pros-                  armas nucleares. Mostrou que a eventualidade
tituio.                                                   da destruio da humanidade tirava da guerra
                                                            clssica sua funo paranide de apropriao e
 Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de        conservao de objetos de amor como a terra
l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
1974), Paris, Fayard, 1994  Pierre Morel (org.), Dicio-
                                                            ou a ptria.
nrio biogrfico psi (Paris, 1996), Rio de Janeiro, Jorge       Posteriormente, seus encontros com a se-
Zahar, 1997.                                                miologia, a lingstica, a epistemologia e a obra
                                                            de Jacques Lacan* o levaram a empreender
                                                            uma reavaliao da obra de Freud, da qual
Fornari, Franco (1921-1985)                                 conservou os conceitos maiores, particular-
psiquiatra e psicanalista italiano                          mente a pulso de morte*. Na perspectiva de
    Nascido na Emlia, perto de Piacenza, esse              uma pesquisa dos fundamentos de uma teoria
mdico neuropsiquiatra foi formado na psica-                psicanaltica da linguagem, retomou A interpre-
nlise por Cesare Musatti*.                                 tao dos sonhos* e elaborou um sistema
    Muito cedo, manifestou interesse pelas                  segundo o qual a linguagem do inconsciente 
idias de Melanie Klein* e de Wilfred Ruprecht              constituda por um conjunto de componentes
Bion*. Mesmo mantendo-se fiel s instituies               ligados ao parentesco e ao corpo ertico, que
psicanalticas ortodoxas -- seria presidente da             ele chamou de koinemas. Ps essa tese  prova
Societ Psicoanaltica Italiana (SPI) de 1974 a             em diversos ensaios crticos de obras artsticas,
1978 -- Fornari procurou durante toda a vida                entre os quais o que dedicou a Agostino, ro-
confrontar a psicanlise com os outros modos                mance de Alberto Moravia. Ampliando seu
de conhecimento dos fenmenos psquicos e                   campo de aplicao, Fornari quis mostrar que,
sociais. Por isso, participou j em 1962 -- no              ao identificar os elementos de um cdigo cons-
quadro da Universidade Catlica de Milo, di-               titudo de partculas remetendo s figuras pa-
rigida por Leonardo Ancona -- das atividades                rentais, era possvel detectar as manifestaes
248       Forsyth, David

do inconsciente em todo enunciado ou ao da                   o, e que se pode traduzir em ingls como
vida humana.                                                   Foresight.
    No fim da vida, em uma obra dedicada                          Na semana anterior, depois de visitar seu
redescoberta da alma, o psicanalista italiano                  amigo Anton von Freund*, Freud ouvira esse
tentou reinterpretar os grandes mitos da filoso-               paciente cham-lo de Freund. Enfim, na mesma
fia grega, referindo-os  vida intra-uterina.                  sesso, o paciente contou um pesadelo,
                                                               enfatizando que esquecera a palavra inglesa
 Claude Ambroise, "Franco Fornari", Encyclopaedia             (nightmare). Depois, ao sair do consultrio de
universalis, 1986, 553  Contardo Calligaris, "Petite          seu analista, cruzara com Ernest Jones*, autor
histoire de la psychanalyse en Italie", Critique, 333,
fevereiro de 1975, 175-95  Michel David, "La Psycha-
                                                               justamente de um livro sobre o pesadelo.
nalyse en Italie", in Roland Jaccard (org.), Histoire de           Em 1932, Freud analisou esse exemplo, que
la psychanalyse, vol. 2, Paris, Hachette, 1982  Franco        teria podido figurar na Psicopatologia da vida
Fornari, "Aventures de la psychanalyse", Silex, 5-6,           cotidiana*. Por no conseguir dar uma explica-
1978, 207-14; Psychanalyse de la situation atomique
                                                               o exaustiva, concluiu pela existncia da tele-
(1964), Paris, Gallimard, 1969; I fondamenti di una
teoria psicoanaltica del linguaggio, Turim, Boringhieri,      patia*, fenmeno ao qual deu, em 1921, o nome
1979; La Riscoperta dell'anima, Bari, Laterza, 1984           de transferncia de pensamento.
Arnaldo Novelletto, "Italy", in Peter Kutter (org.), Psy-
choanalysis International Guide to Psychoanalisis               Sigmund Freud, Novas conferncias introdutrias so-
throughout the World, Stuttgart, Frommann-Holzboog,            bre a psicanlise (1933), ESB, XXII, 15-226; GW, XV;
1992  Riccardo Steiner e Giorgio Quintavalle, "Franco         SE, XXII, 5-182; OC, XIX, 83-269  Ernest Jones, Le
Fornari", in Antonio Alberto Semi (org.), Trattato di          Cauchemar (Viena, 1912), Paris, Payot, 1973  Wladi-
psicoanalisi, vol.I, Milo, Raffaello Cortina, 1988, 278-      mir Granoff e Jean-Michel Rey, L'Occulte, objet de la
84  Silvia Vegetti Finzi, Storia della psicoanalisi, Milo,   pense freudienne, Paris, PUF, 1983.
Mondadori, 1986.
                                                                ESPIRITISMO; GR-BRETANHA; NOVAS CONFE-
 ITLIA; KLEINISMO; SELF PSYCHOLOGY.                           RNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE PSICANLISE;
                                                               OCULTISMO.


Forsyth, David (1877-1941)
                                                               fort/da
mdico ingls
                                                                HALBERSTADT, SOPHIE; MAIS-ALM DO PRINC-
    Mdico-chefe no Charing Cross Hospital de
                                                               PIO DE PRAZER.
Londres e co-fundador, com Ernest Jones* e
David Eder*, da London Psychoanalytic Socie-
ty, David Forsyth participou do congresso inter-
nacional de medicina em Londres, de 7 a 12 de                  Frana
agosto de 1913 e defendeu, contra Pierre Janet*,                   Embora a criao da primeira sociedade psi-
as idias freudianas. Mais tarde, foi analisado                canaltica na Frana tenha sido mais tardia
por Sigmund Freud*, que o citou em 1932 em                     (1926) do que nas outras grandes reas geogr-
sua conferncia "O sonho e o ocultismo" e                      ficas de implantao freudiana do incio do
relatou uma histria de transmisso de pensa-                  sculo (Gr-Bretanha*, Estados Unidos*), a
mento ocorrida em 1919.                                        Frana foi o nico pas do mundo onde foram
    No outono daquele ano, Forsyth deixou seu                  reunidas, a longo prazo (de 1914 ao fim do
carto de visita na casa de Freud, enquanto este               sculo XX) e sem nenhuma interrupo, as
trabalhava com um paciente, o qual, durante sua                condies necessrias  implantao da psica-
anlise, tomara o hbito de lhe trazer os volumes              nlise* em todos os setores da vida cultural e
de uma obra de fico do escritor John Galswor-                cientfica, tanto por via mdica e teraputica
thy (1867-1963), referente a uma dinastia fami-                (psiquiatria, psicologia, psicologia clnica*)
liar: os Forsyte. No dia da visita de Forsyth, o               quanto por via intelectual (literatura, filosofia,
paciente contou a Freud que uma jovem que ele                  poltica, universidade). Essa implantao bem-
desejava seduzir o chamava de Herr von Vor-                    sucedida no se fez sem convulses e convm
sicht, expresso que significa Senhor Precau-                  notar que a Frana foi um dos pases em que a
                                                                                    Frana      249

resistncia nacionalista  psicanlise e o dio a   Hospcio de Bictre a um decreto da Conveno
Sigmund Freud* foram os mais virulentos.            Montanhesa de 11 de setembro de 1793. O mito
    Nesse aspecto, existe uma evidente "exce-       conta que, nessa poca, Pinel recebeu a visita
o francesa". Sua origem remonta  Revoluo       de Couthon (1756-1794), membro do Comit
de 1789 -- que dotou de legitimidade cientfica     de Salvao Pblica, que procurava suspeitos
e jurdica o olhar da razo sobre a loucura*,       entre os loucos. Todos tremiam ao ver o aclito
assinando assim a certido de nascimento ins-       de Robespierre (1758-1794), que deixara sua
titucional da psiquiatria -- e, posteriormente,     cadeira de paraltico para ser carregado por
ao caso Dreyfus, que tornou possvel a ins-         auxiliares. Pinel o conduziu at os alojamentos,
taurao de uma conscincia de si da classe         onde a viso dos loucos agitados lhe causou um
intelectual. Designando-se como "vanguarda",        medo intenso. Recebido com injrias, voltou-se
ela conseguiu apoderar-se das idias mais ino-      para o alienista e lhe disse: "Cidado, tu mesmo
vadoras e faz-las frutificar  sua maneira. So-    s louco para quereres libertar semelhantes ani-
ma-se a isso o nascimento de uma modernidade        mais?" O mdico respondeu que os insensatos
literria, na qual se enunciou -- atravs de        eram ainda mais intratveis porque estavam
Charles Baudelaire (1821-1867), Arthur Rim-         privados de ar e liberdade. Couthon aceitou
baud (1854-1891) e Lautramont (1846-1870)          portanto a supresso das correntes, mas adver-
-- a idia de mudar o homem a partir do "eu        tiu Pinel contra sua presuno. Foi transportado
um outro".                                          at seu veculo, e o filantropo pde comear a
    A exceo tambm se deve ao estatuto atri-      sua obra: o alienismo acabava de nascer.
budo, desde o Ancien Rgime,  gramtica, s           Como o mito da peste*, o da abolio das
palavras, ao vocabulrio, ao lxico. Longe de       correntes foi questionado por todos os his-
considerar sua lngua como um mero ins-             toriadores da psiquiatria, que explicaram que
trumento de comunicao, as elites francesas        esse gesto simplesmente no ocorreu. Mas os
sempre a valorizaram, fazendo de sua forma          mitos fundadores tm como caracterstica se-
escrita o smbolo de uma nao homognea, e         rem mais significativos do que a realidade das
depois o smbolo da Repblica. Assim, a lngua      coisas. Contemporneo de William Tuke
francesa era o ideal, enfim atingido, de lngua.    (1732-1822) na Inglaterra e de Benjamin Rush
Da a importncia dada no s  Academia, cujo      (1746-1813) nos Estados Unidos, Pinel inven-
papel era legislar sobre o "bem falar" e o "bem     tou efetivamente o tratamento moral a partir da
escrever", mas tambm aos escritores em geral.      idia de que a loucura continha sempre um
Essa concepo de lngua era totalmente estra-      resduo de razo. Cem anos depois, no Hospital
nha  maioria dos outros pases da Europa. Ela      da Salptrire, Jean Martin Charcot* lembrava
explica, de qualquer forma, que um gramtico        o mito, recorrendo  hipnose* para mostrar que
(douard Pichon*) tenha tido papel to impor-       a histeria* era uma doena funcional, libertando
tante na gnese da conceitualidade francesa do      assim as mulheres da acusao de simulao.
freudismo* e tanta influncia sobre os dois             Na histria das origens da psicanlise, os
grandes mestres da psicanlise nesse pas: Jac-     mitos ligados  libertao,  servido,  Revo-
ques Lacan*, formalista mallarmaico de uma          luo e  abolio das correntes desempenham
lngua do inconsciente, e Franoise Dolto*,         pois um papel considervel. Quando de sua
porta-voz de um lxico de raiz perfeitamente        viagem, em 1885, a Paris, onde se encontrou
adaptado  identidade nacional.                     com Charcot, e depois quando de sua perma-
    Conhecemos o mito da abolio das cor-          nncia em Nancy, onde visitou Hippolyte Bern-
rentes dos alienados, inventado por Scipion         heim*, Sigmund Freud estava impregnado des-
Pinel (1795-1859) e por Jean-tienne Esquirol       ses mitos fundadores, aos quais ele prprio
(1772-1840) sob a Restaurao. Ele apresenta        recorreria muitos anos mais tarde.
Philippe Pinel (1745-1826), fundador da psi-            Depois do desmoronamento da doutrina da
quiatria na Frana, como um antijacobino            hereditariedade-degenerescncia* e do des-
contrrio aos senhores do Terror, ao passo que,     membramento, por Joseph Babinski*, do ensi-
na realidade, ele devia sua nomeao para o         no de Charcot, foi Pierre Janet quem repre-
250     Frana

sentou, sucedendo a Thodule Ribot (1839-          nhecido por Freud, em uma carta a Carl Gustav
1916), a tradio francesa na psiquiatria din-    Jung* de 3 de dezembro de 1910, como o
mica*. Ribot era o promotor da psicologia ex-      primeiro francs a aderir abertamente  "causa"
perimental, cuja herana iria para Alfred Binet    da psicanlise. Entre 1912 e 1922, publicou
(1857-1911), associado a Henri Beaunis (1830-      quatro artigos, nos quais assumiu posio opos-
1921), enquanto Janet foi o artfice da psicolo-   ta s teses em vigor sobre o pansexualismo
gia clnica,  qual se filiariam Daniel Lagache*   freudiano. Alis, reconhecia explicitamente o
e Juliette Favez-Boutonier*.                       papel da sexualidade nos laos que unem o
    Adepto do automatismo mental*, Janet pro-      paciente a seu mdico, e traduziu pela primeira
nunciou no congresso de medicina de Londres,       vez para o francs o conceito freudiano de
em 1913, a sua famosa conferncia sobre a          transferncia*, atravs da expresso rapport
"psico-anlise", graas  qual popularizou a       affectif ("relao afetiva").
idia de que esta era um simples produto da            Geralmente chauvinistas, os meios mdicos
sensualidade e da imoralidade da cidade de         no aderiram seno a uma concepo terapu-
Viena*. Associada  germanofobia, na Frana        tica da psicanlise. Os meios literrios, por sua
obcecada ento pelo nacionalismo e pelo anti-      vez, acolheram bem a doutrina ampliada da
semitismo, essa convico alimentaria os ata-      sexualidade, recusaram-se a considerar o freu-
ques contra o pansexualismo* de Freud. E as-       dismo como "cultura germnica" e defenderam
sim considerada como fruto da barbrie germ-      a anlise leiga*. Por esse lado, todas as correntes
nica, a doutrina da sexualidade* seria julgada     literrias em geral consideravam o sonho como
pouco compatvel com a bela latinidade france-     a grande aventura do sculo. Inventou-se a uto-
sa, smbolo do esprito cartesiano. Da a reao   pia de um inconsciente* feito de linguagem e
dos pioneiros, como Angelo Hesnard*, que pro-      aberto  liberdade e  subverso, e admirava-se
curariam "afrancesar" a doutrina de Freud e        acima de tudo a coragem com a qual um sbio
assimil-la aos ideais daquilo que se chamava      austero ousara fazer escndalo ao desafiar a
ento "gnio latino".                              intimidade do conformismo burgus.
    Depois da Primeira Guerra Mundial e do             A partir de 1920, a psicanlise obteve um
acirramento do dio  Alemanha*, a psicanlise     sucesso considervel nos sales literrios pari-
foi tratada de "cincia boche", como alis tam-    sienses, e muitos escritores experimentaram um
bm a teoria da relatividade de Albert Einstein    tratamento. Foi o caso, notadamente, de Michel
(1879-1955). s reaes violentas da imprensa      Leiris (1901-1990), Ren Crevel (1900-1935),
somou-se o antifreudismo selvagem de duas          Antonin Artaud (1896-1948), Georges Bataille
grandes figuras da psicopatologia francesa:        (1897-1962) ou Raymond Queneau (1903-
Georges Dumas (1866-1946) e Charles Blon-          1976).
del. Aluno de Janet e clebre por suas notveis        Foram as revistas que serviram de suporte
apresentaes de doentes, acompanhadas pelos       para a descoberta vienense, entre estas a Nou-
estudantes de filosofia, Dumas no parava de       velle Revue Franaise (NRF), em torno de An-
fustigar a nova doutrina "sexual". Quanto a        dr Gide (1869-1951) e Jacques Rivire (1886-
Blondel, amigo do historiador Marc Bloch           1925), La Rvolution Surraliste, na qual Andr
(1886-1944) e professor em Estrasburgo, dedi-      Breton (1896-1966) teve um papel determi-
cou em 1924 todo um estudo  psicanlise,          nante, e enfim a revista Philosophies, na qual
tratando-a de "obscenidade cientfica". Em um      Georges Politzer (1903-1942) concebeu a sua
artigo da mesma poca, um membro do Instituto      psicologia concreta, inspirando-se no freudis-
escreveu estas palavras: "Suas opinies [de        mo, antes de reneg-lo em nome do comunis-
Freud] se aplicam aos judeus, seus irmos de ra-   mo*, engajando-se depois na luta antinazista.
a, especialmente predispostos ao pansexualis-     Dois outros escritores se voltaram para o freu-
mo libidinoso, congnito por fatalidade tnica."   dismo: Romain Rolland*, que trocaria cartas
    Um dos raros autores a escapar a essa viso    com Freud, e Pierre Jean Jouve (1887-1976),
estreita era mdico em Poitiers: Pierre Ernest     cuja mulher, Blanche Reverchon-Jouve (1897-
Morichaut-Beauchant (1873-1951). Foi reco-         1974), era psicanalista e tradutora dos Trs en-
                                                                                     Frana       251

saios sobre a teoria da sexualidade*. Jouve         delo o Berliner Psychoanalytisches Institut*
utilizou o mtodo psicanaltico na sua obra em      (BPI).
prosa baseando-se no material clnico fornecido         Assim, foi com quinze anos de atraso em
por sua mulher. Assim, construiu seus grandes       relao aos outros pioneiros europeus e ameri-
romances a partir de figuras femininas cujo         canos que a primeira gerao* psicanaltica
modelo eram casos de mulheres loucas. Quanto        francesa (segunda na ordem mundial), se inte-
 sua poesia, ele a concebia como uma "cats-       grou  International Psychoanalytical As-
trofe", diretamente inspirada pelo inconsciente     sociation* (IPA), no momento em que esta aca-
segundo Freud.                                      bava de impor regras precisas quanto ao acesso
    Psiquiatra de formao e residente de Joseph     anlise didtica* e  superviso*. Ora, os
Babinski, Andr Breton descobriu a fora do         franceses no estavam dispostos a se adaptar a
automatismo mental junto aos soldados que           esse funcionamento burocrtico, cuja neces-
sofriam de neurose de guerra*. Foi a partir dessa   sidade no viam. Assim, a SPP se cindiu em
experincia clnica que ele concebeu a exis-        duas fraes distintas: os internacionalistas de
tncia de uma "surrealidade". Depois, procurou      um lado, formados fora da Frana e liderados
atingi-la atravs da escrita automtica, publi-     por Marie Bonaparte, Loewenstein e Saussure,
cando, com Philippe Soupault (1897-1990), em        os nacionalistas do outro, ligados  raiz psiqui-
1919, o primeiro grande texto surrealista: Os       trica francesa, tendo  frente Pichon, Borel,
campos magnticos. Em 1921, foi a Viena para        Codet e Hesnard. Os primeiros se mostravam
encontrar-se com Freud. A visita foi decepcio-      favorveis a uma adaptao rpida do movi-
nante. Ligado a uma viso tradicional da litera-    mento  ortodoxia da IPA, enquanto os ltimos
tura e pouco aberto  vanguarda francesa, Freud     se afirmavam partidrios da manuteno de
no entendia nada da abertura surrealista e da      uma identidade francesa no movimento, preten-
concepo de inconsciente defendida por Bre-        dendo "afrancesar" o vocabulrio e os concei-
ton. Em 1932, trocariam cartas que explicita-       tos da psicanlise. No centro desse dispositivo,
riam esse mal-entendido.                            Ren Laforgue no conseguiu nem ocupar o
    Em 1925, organizou-se em torno da revista       lugar de um chefe de escola, nem unificar um
L'volution Psychiatrique o primeiro grupo          movimento s voltas com uma querela insupe-
freudiano francs. Entre seus diversos lderes      rvel.
havia tanto psicanalistas, como Ren Lafor-             Na verdade, nenhum dos membros dessa
gue*, Sophie Morgenstern* ou Rudolph Loe-           primeira gerao tinha a envergadura de um
wenstein*, quanto psiquiatras marcados pela         Ernest Jones*, de um Sandor Ferenczi*, de um
tradio dinmica ou pela fenomenologia, co-        Otto Rank*, ou mesmo de um Wilhelm Reich*.
mo Eugne Minkowski*, Paul Schiff*, e mais          Nenhum deles produziu uma obra inovadora e
tarde Henri Ey*. A revista e o grupo se torna-      nenhum foi capaz de unificar o movimento em
riam um dos centros de difuso do freudismo         torno de uma doutrina, de um lema, de uma
mdico na Frana.                                   poltica, de um ensino ou de uma filiao*. Foi
    Em novembro de 1926, foi criada a primeira      por isso que, j em 1932, esse papel coube 
associao de psicanlise, a Sociedade Psicana-     segunda gerao (terceira na ordem mundial):
ltica de Paris (SPP), composta de doze mem-        Sacha Nacht*, Daniel Lagache*, Maurice Bou-
bros: Ren Laforgue*, Marie Bonaparte*,             vet*, Jacques Lacan e Franoise Dolto.
douard Pichon, Charles Odier*, Raymond de              Ora, no seio dessa nova gerao, que surgiu
Saussure*, Rudolph Loewenstein, Ren Allen-         nas vsperas da Segunda Guerra Mundial, La-
dy*, Georges Parcheminey (1888-1953), Eug-         can foi o nico a se impor como inaugurador de
nie Sokolnicka*, Angelo Hesnard, Adrien Bo-         um sistema de pensamento original, fundado no
rel*, Henri Codet (1889-1939). No ano seguin-       freudismo e na filosofia hegeliana. No sendo
te, foi publicado o primeiro nmero da Revue        nem nacionalista nem internacionalista, daria
Franaise de Psychanalyse. S em 1934 for-          progressivamente ao movimento uma outra so-
mou-se, graas  participao financeira de Ma-     luo alm da busca de uma impossvel identi-
rie Bonaparte, um instituto que teve como mo-       dade. Proveniente da tradio psiquitrica, for-
252     Frana

mado por Gatan Gatian de Clrambault*, ana-        Psicanlise (SFP), levando consigo a maioria
lisado por Loewenstein e marcado pelo sur-          dos alunos da SPP, isto , a terceira gerao
realismo, era tambm o nico, no perodo en-        francesa (quarta na ordem mundial).
tre-guerras, a fazer a sntese entre as duas vias       Durante dez anos, em torno de Dolto, La-
(mdica, intelectual) de implantao da psica-      gache e Lacan, a SFP foi o centro de um formi-
nlise. Da a posio nica que ocuparia durante    dvel impulso do freudismo francs: implanta-
cinqenta anos ao lado de Franoise Dolto, que      o universitria, atividades de traduo* de
surgiu j em 1945 como a criadora da psican-       textos das escolas inglesa e americana, criao
lise de crianas*, depois das experincias mal-     de colees de psicanlise pelos editores pari-
sucedidas de Sokolnicka e Morgenstern.              sienses e principalmente de uma revista concei-
    Graas a Marie Bonaparte, que interrompeu       tuada, La Psychanalyse. Foi durante esse pero-
as atividades da SPP em 1939, e graas tambm       do que nasceu o lacanismo*, verdadeira escola
a Henri Ey e ao grupo da Evoluo Psiquitrica,     francesa do freudismo. No s Lacan formava
favorvel  Resistncia, o movimento francs        os melhores alunos dessa gerao, como tam-
escapou a qualquer comprometimento com a            bm elaborava os grandes conceitos que fariam
ocupao. Marginalizado desde 1935, Ren La-        dele um grande mestre do pensamento, ao mes-
forgue tentou isoladamente instaurar em Paris       mo tempo adulado e odiado.
um Instituto "arianizado", como o de Matthias           Desde sua fundao, a SFP tentou fazer-se
Heinrich Gring*. No conseguiu. Quanto a           reconhecer como sociedade componente da
Georges Mauco*, nico psicanalista francs
                                                    IPA. Ora, apesar dos esforos de Wladimir Gra-
adepto do nazismo*, empenhou apenas a pr-
                                                    noff, Serge Leclaire* e Franois Perrier*, que
pria pessoa na colaborao. Por conseguinte, o
                                                    consagraram os melhores anos de suas vidas a
movimento francs saiu inclume do perodo
                                                    essa poltica de reintegrao, a direo da IPA,
da ocupao e pde assim desenvolver-se no
                                                    depois de anos de negociao, recusou-se a
momento em que, na Europa, s a Gr-Bretanha
                                                    conceder o ttulo de didata a Lacan e a Dolto.
se encontrava na vanguarda do freudismo inter-
                                                    Reprovava as inovaes tcnicas do primeiro,
nacional, graas sobretudo  solidez de sua
escola clnica que, embora cindida em trs cor-     em especial a prtica das sesses curtas, em
rentes, pertencia completamente  IPA: kleinis-     desacordo com a durao padro (50 minutos),
mo*, annafreudismo*, Independentes*.                e a prtica excessivamente "carismtica" da
    Como em todos os outros pases, a expanso      segunda.
da psicanlise se traduzia na Frana por um             No vero de 1964, a SFP rachou e cindiu-se
fenmeno de cises* em cadeia, que tinham           em dois grupos, a cole Freudienne de Paris*
como motivo, ao mesmo tempo, a questo da           (EFP), fundada por Lacan, e a Associao Psi-
anlise leiga* e a anlise da formao didtica.    canaltica da Frana (APF), para onde foram,
    A primeira ciso ocorreu em 1953, em torno      em torno de Lagache, Didier Anzieu, Juliette
da criao de um novo instituto de psicanlise.     Favez-Boutonier e Wadimir Granoff, alguns
Os partidrios da ordem mdica se opunham           dos melhores alunos de Lacan, principalmente
aos universitrios liberais, favorveis  anlise   Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis (que
leiga. Agrupados em torno de Nacht e de Serge       publicaria na editora Gallimard a Nouvelle Re-
Lebovici, os primeiros queriam garantir o           vue de Psychanalyse), assim como Daniel
controle exercido pelo poder mdico sobre a         Wildlcher. Diante da SPP, a APF tornou-se o
formao dos psicanalistas. Representados por       segundo componente francs da IPA. Mais in-
Dolto, Lagache e Lacan (e apoiados pelos alu-       telectual e mais liberal, ela organizaria uma
nos em revolta contra a autoridade), os ltimos     reforma dos currculos suprimindo a distino
eram protegidos por Marie Bonaparte. Assus-         entre psicanlise didtica e psicanlise pessoal.
tada com a desordem, e principalmente muito         Quanto  EFP, tambm era formada por um
hostil a Lacan, esta daria finalmente seu apoio     nmero importante de clnicos franceses da
ao grupo de Nacht, provocando a sada dos           mesma gerao: Moustapha Safouan, Octave
liberais, que fundaram a Sociedade Francesa de      Mannoni*, Maud Mannoni, Jenny Aubry*, Gi-
                                                                                     Frana       253

nette Raimbault, Lucien Isral (1925-1996),         tis a esse sistema, Franois Perrier, Piera Aulag-
Jean Clavreul etc.                                  nier*, Cornelius Castoriadis e Jean-Paul Vala-
    Ao contrrio dos americanos e ingleses, os      brega se demitiram, para fundar a Organizao
terapeutas franceses de todas as tendncias nun-    Psicanaltica de Lngua Francesa (OPLF), ou
ca formariam uma escola homognea, capaz de         Quarto Grupo. De inspirao freudiana, esta
acolher as grandes correntes do freudismo in-       no se integraria  IPA, mas se organizaria em
ternacional: a Ego Psychology*, o kleinismo, o      torno de uma nova revista, Topique.
annafreudismo, ou a Self Psychology*. Foi o             Essa ciso marcou a entrada do lacanismo
lacanismo, e apenas ele, que dividiu durante        em um processo de burocratizao e de dogma-
cinqenta anos, em dois plos extremos, o cam-      tismo, e se distinguiu nitidamente das prece-
po psicanaltico francs: os anti-lacanianos de     dentes. De fato, at ento, Lacan representava
um lado, os lacanianos do outro. Quanto aos         a renovao da doutrina freudiana, e as cises
"neutros", continuaram sendo acima de tudo          se faziam "com" ele. Dessa vez, deixavam-no
clnicos independentes (Andr Green ou              para fundar uma escola mais liberal.
Conrad Stein, por exemplo), sem filiao pre-           A crise que afetou a EFP depois de 1968 era
cisa, mas preocupados em afirmar sua prpria        o sinal de uma massificao do movimento. Ao
concepo da psicanlise. Podemos citar Mi-         contrrio dos outros pases, onde a psicanlise
chel de M'Uzan, notvel terico da perverso*,      sofria a concorrncia, durante esse perodo, da
Joyce McDougall, especialista em borderlines*       expanso de muitas escolas de psicoterapia*, a
e em distrbios da identidade sexual, Nicolas       Frana continuou quase exclusivamente freu-
Abraham*, e enfim Julia Kristeva, simultanea-       diana. Com isso, foi no prprio interior do
mente psicanalista, romancista e ensasta, cujas
                                                    freudismo que se produziu a expanso, que alis
teses seriam retomadas pelas feministas ameri-
                                                    se estendeu para fora da psicanlise ou para suas
canas.
                                                    margens. Por conseguinte, todos os grupos psi-
    Excluda do movimento psicanaltico inter-
                                                    canalticos foram atingidos, a partir de 1970,
nacional, a obra lacaniana ocuparia a partir de
                                                    por um formidvel gigantismo. Assim, os es-
ento um lugar central na histria do es-
                                                    tudantes formados em psicologia clnica na uni-
truturalismo. Dez anos depois do momento
                                                    versidade formaram progressivamente a base
fecundo de sua elaborao, o retorno lacaniano
                                                    das escolas psicanalticas. Esse fenmeno era
a Freud veio, efetivamente, ao encontro das
preocupaes de uma espcie de filosofia da         ainda mais evidente na EFP do que nas outras
estrutura, oriunda das interrogaes da lings-    associaes.
tica saussuriana e convertida, ela prpria, na          Enquanto a APF conseguiu manter uma hie-
ponta de lana de uma oposio  fenomenolo-        rarquia slida, recusando-se a conceder aos alu-
gia clssica. A efervescncia doutrinria, que se   nos em formao o status de membros, a SPP
concretizou em torno dos trabalhos de Louis         sofreu em cheio uma crise institucional que
Althusser (1918-1990), de Roland Barthes            duraria dez anos. Membro da SPP, Ren Major
(1915-1980), de Michel Foucault (1926-1984)         deu ento um impulso terico e poltico  dis-
e de Jacques Derrida, que tomou como objeto         sidncia dos anos 1975-1980, que afetou os
de estudo o primado da lngua, o anti-humanis-      quatro grandes grupos freudianos. Baseando-se
mo, a desconstruo ou a arqueologia, se desen-     nas teses de Jacques Derrida, criou uma revista
volveu no interior da instituio universitria,    e um grupo, que tomaram o nome de Confron-
preparando o terreno para a revolta estudantil      tation. Da a emergncia de uma corrente der-
de maio de 1968. A revista Tel Quel, animada        ridiana da psicanlise, que serviria para criticar
por Philippe Sollers, desempenhou um papel          todas as formas de dogmatismo institucional.
idntico ao da vanguarda surrealista do perodo         Depois da dissoluo da EFP e da morte de
entre-guerras.                                      Lacan, a paisagem da Frana freudiana se trans-
    Em 1969, a aplicao na EFP do procedi-         formou radicalmente ao longo de um infinito
mento do passe* provocou uma nova ciso, a          processo de fragmentao e atomizao dos
terceira da histria do movimento francs. Hos-     grupos lacanianos.
254      Freud, Adolfine

    No fim dos anos 1990, ao lado das duas               documentos editados por Jacques-Alain Miller, suple-
                                                         mento ao nmero 7 de Ornicar?, 1976; L'Excommuni-
sociedades componentes da IPA e da OPLF, 17
                                                         cation. La Communaut psychanalytique en France, II,
associaes oriundas da EFP dividem o ter-               documentos editados por Jacques-Alain Miller, suple-
ritrio do campo freudiano francs: cole de la          mento ao nmero 8 de Ornicar?, 1977  Jean-Pierre
Cause Freudienne (ECF, 1981), Association                Mordier, Les Dbuts de la psychanalyse en France,
Freudienne Internationale (AFI, 1982), Cercle            Paris, Maspero, 1981  Clia Bertin, La Dernire Bona-
                                                         parte, Paris, Perrin, 1982  lisabeth Roudinesco, His-
Freudien (CF, 1982), Cartels Constituants de
                                                         tria da psicanlise na Frana, 2 vols. (Paris, 1982,
l'Analyse Freudienne (CCAF, 1983), cole                 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989, 1988; Jac-
Freudienne (EF, 1983), Fdration des Offi-              ques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um
cines de Psychanalyse (FAP, 1983), Convention            sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,
Psychanalytique (CP, 1983), Cot Freudien                Companhia das Letras, 1994; Genealogias (Paris,
                                                         1994), Rio de Janeiro, Relume Dumar, 1995; "Histoire
(1983), Errata (1983), cole Lacanienne de               de la psychanalyse en France. Entretien avec Philippe
Psychanalyse (ELP, 1985), Psychanalyse Ac-               Sollers" (1983), in Claude Spielmann e Jacques Has-
tuelle (1985), Sminaires Psychanalytiques de            soun (org.), Psychanalyse: cent ans de divan, Panora-
Paris (SPP, 1986), Association pour une Ins-            miques, Arla-Corlet, 22, 4 trimestre de 1995, 59-71 
tance des Psychanalystes (Apui, 1990), Analyse           Alain de Mijolla, "L'dition en franais des oeuvres de
                                                         Freud avant 1940. Autour de quelques documents
Freudienne (1992), cole de Psychanalyse Sig-            nouveaux", Revue Internationale d'Histoire de la Psy-
mund Freud (1994), Espace Analytique (EA,                chanalyse, 4, 1991, 209-70  "Correspondance indite
1994) e Socit de Psychanalyse Freudienne               Sigmund Freud/Gaston Gallimard (1921-1922)", ibid.,
(SPF, 1994). A esses se juntaram duas socie-             271-82  Marie Bonaparte et la psychanalyse,  travers
                                                         ses lettres  Ren Laforgue et les images de son
dades de histria, a Socit Internationale
                                                         temps, apresentado por Jean-Pierre Bourgeron, Gene-
d'Histoire de la Psychiatrie et de la Psychana-          bra, Slatkine, 1993  R. Anthony Lodge, Le Franais.
lyse (AIHP, 1985), uma escola de ensino, a               Histoire d'un dialecte devenu langue (Londres, N. York,
cole Propdeutique pour la Connaissance de              1993), Paris, Fayard, 1997  Bernard Foutrier, L'Identit
l'Inconscient (EPCI, 1985), muitos grupos de             communiste, la psychanalyse, la psychiatrie, la psy-
                                                         chologie, Paris, L'Harmattan, 1994  Danile Lvy, "Les
provncia e vrias associaes de tipo federati-
                                                         Socits et associations psychanalytiques franaises
vo, visando reunir outros grupos na Europa ou            en 1995", in Claude Spielmann e Jacques Hassoun
no mundo. Note-se que o lacanismo s produziu            (org.), op. cit., 24-5  Philippe Forest, Histoire de "Tel
uma nica associao internacional comparvel            Quel", Paris, Seuil, 1995.
 IPA: a Association Mondiale de Psychana-
                                                          ANTROPOLOGIA; BALINT, MICHAEL; BLGICA;
lyse* (AMP).
                                                         BRASIL; DELAY, JEAN; DEVEREUX, GEORGES; DI-
    No fim do sculo, o nmero de psicanalistas
                                                         FERENA SEXUAL; ETNOPSICANLISE; FANON,
franceses de todas as tendncias se elevou a             FRANTZ; FEDERAO EUROPIA DE PSICANLISE;
cerca de cinco mil, para uma populao de                FETICHISMO; GUATTARI, FLIX; IMAGINRIO; JA-
cinquenta e oito milhes de habitantes, dos              PO; PSICOSSOMTICA; PSICOTERAPIA INSTITUCIO-
quais mil para as duas sociedades pertencentes           NAL; PSIQUIATRIA DINMICA; REAL; SEXUALIDADE
 IPA (inclusive alunos), ou seja, uma taxa de           FEMININA; SIGNIFICANTE; SIMBLICO; TRADUO
96 psicanalistas por milho de habitantes, a             (DAS OBRAS DE SIGMUND         FREUD).
mais alta do mundo. Jacques Lacan conseguiu
assim, auxiliado por Franoise Dolto, fazer da
Frana o pas mais freudiano, o nico, pouco
antes da Argentina*, em que a psicanlise se             Freud, Adolfine, dita Dolfi
tornou ao mesmo tempo um componente maior                (1862-1943), irm de Sigmund Freud
da vida intelectual e uma real teraputica de               Nascida em Viena* e sexta entre os filhos de
massa.                                                   Jacob e Amalia Freud*, Dolfi era a quarta irm
                                                         de Sigmund Freud, que a amava muito. Perma-
 Serge Moscovici, La Psychanalyse, son image et son     neceu solteira durante toda a vida e serviu de
public, Paris, PUF, 1961  Maurice Nadeau, Histoire du
surralisme, Paris, Seuil, 1964  Robert Castel, Le
                                                         governanta para a sua me, que sempre a consi-
Psychanalisme, Paris, Maspero, 1973  La Scission de     derou uma adolescente e lhe infligiu muitas
1953. La Communaut psychanalytique en France, 1,        humilhaes.
                                                                                  Freud, Alexander         255

   Deportada para o campo de concentrao de              Freud com conquistadores: Anbal, Alexandre,
Theresienstadt com Mitzi e Paula pelo comboio             Napoleo, Cristvo Colombo.
de 29 de agosto de 1942, morreu ali em 5 de                   Em uma carta enviada a Romain Rolland*
fevereiro de 1943, de hemorragia interna cau-             em 1936, por ocasio dos 70 anos deste, Freud
sada por extrema desnutrio.                             contou uma lembrana de infncia que se refe-
                                                          ria a uma viagem feita a Atenas com Alexander
 Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, vols.   em 1904. Durante a permanncia, ele foi toma-
1 e 3 (N. York, 1953, 1957), Rio de Janeiro, Imago,
1989  Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo
                                                          do de um sentimento de inquietante estranheza
(N. York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995     ao descobrir que a cidade no era um fantasma.
 Harald Leupold-Lwenthal, "A emigrao da famlia       Outrora, na escola, tinha se recusado a acreditar
Freud em 1938", Revista Internacional da Histria da      na realidade histrica da Acrpole, e o encontro
Psicanlise, 2 (1989), Rio de Janeiro, Imago, 1992.
                                                          com as pedras do Partenon lhe revelou ento a
                                                          natureza do recalque*. A perturbao que sentiu
 FREUD, MARIA; GRAF, REGINE DEBORA; NAZIS-
                                                          era comparvel  de uma pessoa que caa doente
MO; WINTERNITZ, PAULINE.
                                                          porque seu desejo* se realizava: o sucesso era,
                                                          de certa forma, a marca de um fracasso. Freud
                                                          explicou a Rolland que duvidara da existncia
Freud, Alexander (1866-1943),                             de Atenas na infncia porque temia nunca ver a
irmo de Sigmund Freud                                    Acrpole. Fazendo o relato dessa lembrana,
    Nascido em Viena*, Alexander era o oitavo             Freud mostrava como um filho devia superar o
e ltimo rebento de Jacob e Amalia Freud*, seu            pai, ou ainda como Anbal devia vingar Aml-
terceiro filho e irmo mais novo de Sigmund               car, humilhado pelos romanos: Jacob Freud,
Freud*, que se mostrou bastante paternal com              humilhado outrora por um anti-semita, nunca
ele e no demonstrou ter dele nenhum cime.               tivera acesso  cultura grega. Diante do Parte-
De carter divertido, parecia-se com a me.               non, Sigmund, que se tornara um intelectual
Como perito em organizaes de transporte,                totalmente familiarizado com a cultura domi-
tratou muitas vezes das viagens do irmo e foi            nante (greco-latina), podia ento voltar-se para
com ele aos dois pases que preferiam, a Itlia*          Alexander e dizer estas palavras: "O que diria
e a Grcia. Em 1909, Alexander se casou com               nosso pai?" Esse gesto era idntico ao de Bona-
Sophie Schreiber, com quem teria um nico                 parte, que se voltara para o irmo, no momento
filho, Harry. Tornou-se professor na Exportaka-           de sua coroao, pronunciando as mesmas pa-
demie, escola de comrcio situada na Berggas-             lavras.
se, e dirigiu a revista Tarifanzeiger. Em maro               Essa lembrana expressava resumidamente
de 1938, conseguiu deixar a ustria atravs da            a prpria histria da judeidade* vienense, que
Sua* e emigrou com a mulher para o Canad,              estava no centro do nascimento da psicanlise*,
onde j se encontrava Harry Freud. Naturaliza-            a histria dos filhos da burguesia comercial
do americano, este voltaria  Europa, nas filei-          judaica, que se emanciparam de sua condio e
ras do exrcito de libertao, para ocupar Ber-           de sua famlia, tornando-se intelectuais e ado-
lim. Viveu depois em Nova York e continuou                tando uma nova cultura, estranha ao judasmo.
muito ligado  sua prima Anna Freud*.
    Foi Sigmund, com a idade de dez anos, que              Sigmund Freud, "Um distrbio de memria na Acr-
escolheu o nome de Alexander para esse irmo,             pole" (1936), ESB, XXII, 293-306; GW, XVI, 250-7; SE,
                                                          XXII, 239-48; OC, XIX, 325-39; Chronique la plus
em homenagem a Alexandre da Macednia.                    brve. Carnets intimes, 1929-1939, anotado e apre-
Quando se tornou pai, por sua vez, deu aos                sentado por Michael Molnar (Londres, 1992), Paris,
filhos nomes de heris que admirava. Essa                 Albin Michel, 1992  Siegfried Bernfeld e Suzanne
escolha no era insignificante. Por um lado,              Cassirer, "Freud and archeology", The American Ima-
porque Alexandre o Grande era filho de Filipe             go, 8, 1951, 107-28  Carl Schorske, Viena fin-de-si-
                                                          cle (N. York, 1981), S. Paulo, Companhia das Letras,
da Macednia, cujo nome era idntico ao de                1990  Yosef Hayim Yerushalmi, Le Mose de Freud.
Philipp Freud* (meio-irmo de Sigmund), e por             Judasme terminable et interminable (New Haven,
outro lado porque confirmava a identificao de           1991), Paris, Gallimard, 1993.
256     Freud, Amalia

Freud, Amalia, ne Malka Nathanson                    divindade egpcia reproduzida na bblia fami-
(1835-1930), me de Sigmund Freud                    liar que o pequeno Sigmund tinha o hbito de
     Terceira esposa de Jacob Freud*, Amalia         folhear. O sonho traduzia assim o desejo*
Nathanson nasceu em Brody, em uma famlia            sexual da criana pela me. Note-se que Freud
judia da Galcia oriental, provncia polonesa        retomaria essa temtica em 1910, sob outra
ligada  ustria. Passou uma parte da infncia       forma, em Leonardo da Vinci e uma lembrana
em Odessa e ainda era muito jovem quando seus        de sua infncia*.
pais foram se instalar em Viena*. Seu casamen-           Consciente do amor que sua me lhe dedi-
to foi celebrado em 1855 pelo rabino Isaac Noah      cava, Freud declarou muitas vezes, especial-
Mannheimer, segundo o rito reformado, quando         mente a propsito de Goethe, que "quando se
a jovem tinha vinte anos menos que o marido.         foi o favorito inconteste de sua me, guarda-se
Deu  luz, um ano depois, o primeiro de seus         pela vida inteira uma sensao conquistadora,
oito filhos, ao qual foi dado o nome do av          uma segurana de sucesso que muitas vezes
paterno (Schlomo), morto trs meses antes do         leva efetivamente ao sucesso". Nada  mais
nascimento do neto. Sigmund Freud* nunca             verdadeiro, e o lao que une freqentemente
usaria esse nome.                                    todo criador (escritor ou artista)  sua me est
     Ernest Jones* fez um retrato preciso dessa      a para provar, principalmente nos casos de
mulher vibrante, bela, narcsica, tirnica com as    homossexualidade* bem-sucedida. Alis, o
filhas, egocntrica, dotada de um humor cor-         prprio Freud foi a prova viva dessa verdade. O
tante e capaz de passar os veres em Ischl           amor de sua me lhe deu todas as coragens. No
jogando cartas com as amigas at altas horas da      s ele soube enfrentar a adversidade com uma
noite: "Com a idade de 90 anos, ela se recusou       incrvel segurana, como tambm adotou em
a receber um magnfico xale que queriam lhe          relao  morte a atitude de aceitao tpica
dar de presente, dizendo que a `envelheceria'        daqueles que se sentem imortais porque pude-
[...]. Ao ver uma fotografia sua no jornal, disse:   ram realizar o luto do primeiro objeto de amor:
`Que retrato ruim, pareo uma centenria!'" Os       a me amorosa.
jovens visitantes se impressionavam ao ouvi-la           Compreende-se ento a angstia que ele sen-
falar de seu venerado mestre chamando-o de           tia com a idia de morrer antes de Amalia. Falou
mein goldener Sigi (meu Sigi de ouro). Martin        disso com Karl Abraham* em uma carta do dia
Freud* descreveu sua av como uma "judia             20 de maio de 1918: "Minha me ter 83 anos
polonesa tpica, com todos os defeitos que isso      neste ano e no  mais muito saudvel. Ocorre-
implicava [...]. Falava bem e no tinha papas na     me pensar que, se ela morrer, isso me dar um
lngua; uma mulher de carter resoluto, pouco        pouco mais de liberdade, pois a idia de que
paciente e extremamente inteligente."                seria necessrio dar-lhe a notcia de que eu
     Freud foi adorado pela me e teve uma rela-     morri tem algo que me faz recuar." Por causa
o privilegiada com ela. Foi a partir desse         dessa angstia, Amalia foi mantida na ignorn-
contato que ele construiu sua teoria do com-         cia dos falecimentos que atingiram sua descen-
plexo de dipo*, cuja evocao se encontra na        dncia. E quando ela morreu em Viena aos 95
Interpretao dos sonhos*. Aos quatro anos,          anos, Freud, sofrendo de cncer e j invlido,
deslumbrou-se com sua nudez e teve, seis anos        sentiu-se aliviado. Contrrio aos ritos religiosos
depois, um clebre sonho* de angstia: "Minha        e esgotado por seu prprio sofrimento fsico, ele
me querida, com uma expresso no rosto par-         no foi ao funeral: "Nada de dor, nada de luto",
ticularmente tranqila e adormecida, levada pa-      declarou a Sandor Ferenczi*. Mas logo acres-
ra o seu quarto e estendida no leito por dois (ou    centou que, nas camadas profundas do incons-
trs) personagens com bicos de pssaro."             ciente*, essa morte iria desestabilizar sua vida.
     Segundo sua prpria interpretao*, os bi-      Isso de fato ocorreu, embora a morte de Jacob
cos de pssaro eram a representao visual de        Freud, em 1896, tivesse tido ainda mais efeito
vgeln (aparafusar), palavra vulgar alem que        sobre ele.
designa as relaes sexuais, por analogia com            Pode-se acrescentar que a constatao que
Vogel (pssaro). Quanto aos pssaros, remetiam       Freud fez sobre o "filho preferido" foi cor-
                                                                                   Freud, Anna         257

roborada de modo negativo pelas descobertas          Gay evidenciou esse ltimo ponto. Com suas
de Melanie Klein* sobre a primeira infncia.         filhas, Freud repetia essa clivagem: Anna
Inspirando-se em sua relao detestvel com a        Freud* se tornou para ele o objeto de uma
prpria me, Klein mostrou, efetivamente, que        verdadeira paixo intelectual, enquanto Ma-
o dio primordial que ligava a criana  me era     thilde Hollitscher* e Sophie Halberstadt* tive-
fonte de todas as perturbaes psicticas e neu-     ram como nico destino o de mes. S uma
rticas posteriores, assim como a causa primei-      mulher conseguiu quebrar o espelho: Lou An-
ra e inconsciente de todos os fracassos amoro-       dreas-Salom*.
sos e profissionais da idade adulta. Da a neces-
                                                      Sigmund Freud, A interpretao de sonhos (1900),
sidade de uma anlise precoce.                       ESB, IV-V, 1-660; GW, I-II, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
    Ferenczi foi o primeiro a enfatizar, em 1930,    Paris, PUF, 1967; "Uma recordao de infncia de
o que a doutrina freudiana da sexualidade femi-      Dichtung und Wahrheit" (1917), ESB, XVII, 185-200;
nina* devia a essa relao entre Amalia e seu        GW, XII, 12-26; SE, XVII; in L'Inquitante tranget et
                                                     autres essais, Paris, Gallimard, 1985, 190-207; Chro-
filho: "Nota-se a leviandade com a qual ele          nique la plus brve. Carnets intimes, 1929-1939, ano-
sacrifica os interesses das mulheres aos pa-         tado e apresentado por Michael Molnar (Londres,
cientes masculinos. Isso corresponde  orienta-      1992), Paris, Albin Michel, 1992  Sandor Ferenczi,
o unilateral, andrfila, de sua teoria da sexua-   Dirio clnico, janeiro-outubro 1932 (Paris, 1985), S.
                                                     Paulo, Martins Fontes, 1990  Ernest Jones, A vida e
lidade. Nesse ponto, ele foi seguido por quase       a obra de Sigmund Freud, vols. 1 e 2 (N. York, 1953,
todos os seus alunos, inclusive eu [...].  pos-     1955), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Ernst Freud,
svel que o autor tenha uma repugnncia pes-         Lucie Freud e Ilse Grubrich-Simitis (orgs.), Sigmund
soal por uma sexualidade espontnea da mu-           Freud. Lieux, visages, objets (Frankfurt, 1976), Bruxe-
                                                     las, Complexe-Gallimard, 1979  Marianne Krll,
lher, pela orientao feminina: idealizao da       Sigmund Freud, fils de Jacob (Munique, 1979), Paris,
me. Assim, recua diante da tarefa de ter uma        Gallimard, 1983  Peter Gay, Freud: uma vida para o
me sexualmente exigente e ser obrigado a            nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo, Companhia das
satisfaz-la. Em um certo momento, ele teve ter      Letras, 1995.
sido posto diante dessa tarefa pelo carter
                                                      DEUTSCH, HELENE; DIFERENA SEXUAL; FALO-
apaixonado da me. (A cena primria pode t-lo       CENTRISMO; FREUD, MARTHA; HORNEY, KAREN;
tornado relativamente impotente). [...] Em sua       PATRIARCADO; RANK, OTTO.
conduta, Freud faz apenas o papel do deus
castrador, nada quer saber do momento traum-
tico de sua prpria castrao na infncia;  o       Freud, Anna (1895-1982),
nico que no deve ser analisado."                   filha de Sigmund Freud
     menos o monismo sexual (libido* nica)         psicanalista inglesa
de sua teoria que revela o medocre conheci-             Nascida em Viena*, Anna Freud era a sexta
mento que Freud tem da feminilidade do que a         e ltima dos filhos de Sigmund e Martha
incapacidade, como disse Ferenczi, em que ele        Freud*. No fora desejada nem por sua me,
se encontrava de enfrentar a sexualidade da          nem por seu pai, que decidiu, depois de seu
mulher -- e, logo, da me. Alis, foi sua ama,       nascimento, permanecer casto por no poder
Monica Zajic, dita Nannie, e no sua me, que        utilizar contraceptivos. Assim, Anna teve de
foi sua iniciadora nesse campo. Em relao          lutar para ser reconhecida pelas qualidades de
sexualidade*, Freud adotou em sua vida uma           que dispunha: coragem, tenacidade e o gosto
atitude contrria  que preconizava em sua teo-      pelas coisas do esprito. No tendo nem a beleza
ria. Nunca foi amante das mulheres que o sedu-       de sua irm Sophie Halberstadt* nem a elegn-
ziam por sua inteligncia, dita "masculina" e        cia de Mathilde Hollitscher*, sentia-se em es-
com quem mantinha relaes transferenciais           tado de inferioridade na famlia, na qual se
apaixonadas (Marie Bonaparte*, Ruth Mack-            esperava que s os herdeiros masculinos fos-
Brunswick*, Jeanne Lampl-De Groot* etc), e           sem talentosos para os estudos.
casou-se com uma mulher cuja sexualidade se              Rivalizando desde a infncia com sua tia
reduzia a desempenhar o papel para o qual era        Minna Bernays*, passou a adolescncia inve-
biologicamente constituda: o de me. Peter          jando a doutrina que a privava de seu pai ado-
258     Freud, Anna

rado. Na idade adulta, para aproximar-se dele,      naltico. Foi por isso que tomou como confi-
decidiu entrar para o crculo de seus discpulos.   dentes Max Eitingon* e Lou Andreas-Salom.
Mas como estava impedida de ir para a univer-       Ambos tiveram um papel analtico, o primeiro
sidade e estudar medicina, tornou-se professora     tentando afast-la do pai, a segunda estimulan-
primria. Exerceria essa profisso durante toda     do-a, ao contrrio, a assumir essa situao
a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1920           transgressiva: "Pouco importa o destino esco-
exatamente.                                         lhido, disse ela, desde que ele se cumpra at o
    Seu primeiro contato com o movimento psi-       fim." Lou tinha razo, pois afinal foi no des-
canaltico ocorreu em 1913. Por ocasio de uma      abrochar completo dessa piedade filial que An-
viagem a Londres, encontrou-se subitamente          na pde dar um significado verdadeiro  sua
implicada no centro das relaes de seu pai com     existncia de mulher e chefe de escola no mo-
Ernest Jones*. Acompanhando Loe Kann,               vimento freudiano. Manteve com o pai uma
amante de Jones ento em anlise com Freud,         correspondncia de 300 cartas, de ambos os
Anna foi cortejada por ele. Prevenido por Loe,      lados, ainda no publicada, mas disponvel na
Freud reagiu muito mal e dirigiu a Jones srias     Biblioteca do Congresso* de Washington.
advertncias, ao mesmo tempo que proibia               Foi no campo da psicanlise de crianas*
filha embarcar em uma aventura sem futuro           que Anna Freud ingressou no movimento. Em
com um "velho celibatrio" astuto. No              1922, apresentou  Wiener Psychoanalytische
contente de agir como pai autoritrio, fez com      Vereinigung (WPV) um primeiro trabalho, inti-
que Loe se analisasse para interpretar o compor-    tulado "Fantasias e devaneios diurnos de uma
tamento de seu discpulo: "Jones, disse ele, faz    criana espancada". Cinco anos depois, publi-
a corte a Anna para vingar-se do fato de que sua    cou sua obra principal, O tratamento psicana-
amante quer deix-lo, graas ao sucesso de seu      ltico das crianas. Paralelamente, assumiu a
tratamento." A partir desse dia, Freud comeou      edio das obras do pai, Gesammelte Schriften,
a desviar de sua filha todos os pretendentes que    concluda em 1924. No ano seguinte, foi eleita
ousavam fazer-lhe a corte (Hans Lampl*, nota-       diretora do novo instituto de psicanlise de
damente). Jones esperou quarenta anos para          Viena, recm-criado. Assim, comeou a as-
explicar-se com Anna e confessar-lhe que conti-     sumir as responsabilidades institucionais que
nuava a am-la.                                     iriam fazer dela a grande representante da orto-
    Depois da morte prematura de Sophie e do        doxia vienense, em uma poca em que Melanie
casamento de Mathilde, Anna Freud tornou-se         Klein*, sua terrvel rival, comeava a grande
a Antgona da casa paterna, ao mesmo tempo          reformulao terica da obra freudiana. Entre
discpula, confidente e enfermeira. Quanto a        essas duas mulheres, representantes de duas
Freud, no hesitou em analis-la por duas vezes:    correntes divergentes no seio da International
entre 1918 e 1920 e entre 1922 e 1924. Dez anos     Psychoanalytical Association* (IPA), enten-
depois, tentaria justificar sua deciso: "Com       dimento algum nunca seria possvel.
minha prpria filha tive sucesso, com um filho          Cercada pelos mais notveis discpulos vie-
tm-se escrpulos especiais." Na verdade,           nenses da primeira hora, Siegfried Bernfeld*,
Freud no se iludia com essa explicao edipia-     August Aichhorn*, Wilhelm (Willi) Hoffer
na. Sabia muito bem que essa anlise tivera         (1897-1967), Anna criou em 1925 o Kin-
como efeito reforar o amor que Anna lhe dedi-      derseminar (Seminrio de Crianas), que se
cava e que a afirmao do "sucesso" do trata-       reunia no apartamento da Berggasse. Depois
mento no era mais do que a expresso de uma        das experincias infelizes de Hermine von Hug-
paixo impossvel de resolver. E foi com toda a     Hellmuth*, tratava-se ento de formar terapeu-
franqueza que expressou a Lou Andreas-Salo-         tas capazes de aplicar os princpios da psican-
m* os seus verdadeiros sentimentos: era to        lise*  educao das crianas.
incapaz de renunciar a Anna quanto deixar de            No mesmo ano, conheceu Dorothy Burlin-
fumar.                                              gham*, que se tornou sua mais cara amiga por
    Do seu lado, Anna sofria com o escndalo        toda a vida. Atravs dessa mulher, Anna reali-
que essa paixo suscitava no movimento psica-       zou seu desejo de maternidade. Com uma es-
                                                                               Freud, Anna      259

pcie de devotamento mstico, ocupou-se dos         Secreto*. Teve ento a impresso de fazer parte,
quatro filhos de Dorothy: Bob (Robert), Mabbie      finalmente, dos paladinos da "causa" analtica,
(Mary), Katrina (Tinky) e Michael (Mickey).         o que a aproximava ainda mais do pai. Assim,
Todos sofriam de distrbios psquicos mais ou       tornou-se a guardi da ortodoxia freudiana.
menos graves e Anna lhes serviu de me, edu-            Em 1937, graas ao dinheiro de uma rica
cadora e analista.                                  americana, Edith Jackson (1895-1977), que foi
    Para eles, criou com Erik Erikson*, Peter       a Viena analisar-se com Freud, Anna criou um
Blos e Eva Rosenfeld (1892-1977), sobrinha de       pensionato para crianas pobres, ao qual deu o
Yvette Guilbert*, uma escola especial, que foi      nome de Jackson Nursery. A experincia se
depois freqentada por crianas cujos pais se       inspirava na de Maria Montessori*. Foi inter-
analisavam: "Para esses analistas que gravita-      rompida pela implantao do nazismo* na us-
vam em torno de Freud e da famlia Burlingham       tria.
em Viena, escreveu Peter Heller, a psicanlise          Obrigada a emigrar com toda a famlia, An-
era realmente uma religio, um culto, uma Igre-     na Freud instalou-se em Londres em 1938,
ja [...]. Minha vida se passava na escola muito     acompanhada de muitos vienenses que se exi-
particular das Burlingham-Rosenfeld, marcada        lariam depois nos Estados Unidos*. Os kleinia-
pela personalidade de Anna Freud e por sua          nos sentiram esse desembarque da "legitimi-
concepo de uma pedagogia psicanaltica. En-       dade freudiana" como uma verdadeira intruso.
tre outras coisas, embora isso tenha sido negado    H muito tempo a British Psychoanalytical So-
depois, a escola consistia em uma experincia       ciety (BPS) estava dominada pelas teses klei-
progressiva e elitista de educao de crianas      nianas, que haviam transformado radicalmente
[cujos pais] faziam anlise. Uma experincia        o freudismo clssico. No s os psicanalistas
privilegiada, muito promissora, inspirada e ani-    ingleses tinham-se afastado de seus colegas do
mada por um ideal de humanidade mais puro e         continente, mas tambm sua prtica, sua men-
mais sincero do que todos os outros es-             talidade, suas orientaes clnicas, at seus
tabelecimentos que freqentei. Ali, difundia-se     conflitos -- notadamente em torno de Edward
um autntico sentido de comunidade."                Glover* -- no tinham mais nada a ver com as
    Enquanto Melanie Klein inventava uma no-        querelas do mundo germanfono. Ora, nessa
va prtica da anlise infantil, Anna Freud seguia   poca, Anna acabava de publicar sua obra
o caminho indicado pelo pai desde o tratamento      maior, O eu e os mecanismos de defesa, que se
de Herbert Graf* (o pequeno Hans). Conside-         chocava com as pesquisas da escola inglesa. O
rando que uma criana  frgil demais para ser      conflito era pois inevitvel e ocorreria depois
submetida a uma verdadeira anlise, com ex-         da morte de Freud, com a exploso, em 1941,
plorao do inconsciente*, defendia o princpio     das Grandes Controvrsias*.
do tratamento sob a responsabilidade da famlia         Prxima das posies da Ego Psychology,
e dos parentes, e mais geralmente sob a tutela      Anna Freud retomava a noo de defesa* para
das instituies educativas. Segundo ela, o         fazer dela o piv de uma concepo de psican-
complexo de dipo* no devia ser examinado          lise centrada no mais no isso*, mas na adapta-
muito profundamente na criana, em razo da         o possvel do eu  realidade. Da a importn-
falta de maturidade do supereu*. Nesse campo,       cia muito grande dada aos mecanismos de de-
a abordagem analtica devia ser integrada  ao    fesa, mais do que  defesa propriamente dita. A
educativa.                                          obra teve grande sucesso nos Estados Unidos e
    A fraqueza da doutrina annafreudiana vinha      marcou o nascimento do annafreudismo*,
da ausncia de reflexo sobre os laos do filho     segunda grande corrente representada na Inter-
com a me. Aos olhos de Anna, s contava a          national Psychoanalytical Association* (IPA).
relao com o pai. Da a prioridade dada               Esgotada pelas controvrsias e decepciona-
pedagogia do eu*, em detrimento da explorao       da com a evoluo do movimento analtico que
inconsciente.                                       ela via cada vez mais afastado do freudismo
    Depois da ruptura com Otto Rank*, Anna          original, Anna Freud conservou todavia muitos
Freud foi admitida em seu lugar no Comit           amigos de outrora, que a admiravam por seu
260     Freud, Anna

devotamento, sua generosidade e seu senso de        respondeu com estas palavras: "Predizer a
fidelidade, e com os quais podia evocar saudo-      morte da psicanlise talvez esteja na moda. A
samente o antigo esplendor vienense. Entre          nica resposta inteligente  a que Mark Twain
eles, Ernst Kris*, Marianne Kris*, Heinz Hart-      deu, quando um jornal anunciou, por erro, a
mann*, Ren Spitz*, Richard Sterba* etc. Iso-       notcia de sua morte: `As notcias sobre minha
lada em Londres, mas instalada na magnfica         morte so muito exageradas'. De qualquer for-
manso de Maresfield Gardens 20, que se tor-        ma, o sr. diz que os antigos ficaram indiferentes,
naria o Freud Museum*, prosseguiu com suas          o que  normal, pois sempre foram acostumados
atividades em favor da infncia, criando as         aos ataques. Sob muitos aspectos,  quando
Hampstead Nurseries, sempre com a ajuda de          atacada que a psicanlise caminha melhor."
Dorothy Burlingham. Em 1952, fundou a
                                                     Anna Freud, O tratamento psicanaltico de crianas
Hampstead Child Therapy Clinic, centro de           (Viena, 1927), Rio de Janeiro, Imago, 1971; O ego e
terapia e pesquisas psicanalticas, onde aplicou    os mecanismos de defesa (Londres, 1936), Rio de
suas teorias em estreita colaborao com os pais    Janeiro, Civilizao Brasileira, 1982, 6 ed.; Le Normal
das crianas atendidas.                             et le pathologique chez l'enfant (Londres, 1965), Paris,
                                                    Gallimard, 1968; L'Enfant dans la Psychanalyse, Paris,
    Guardi da herana freudiana, tratou no s     Gallimard, 1976; Les Confrences de Harvard (Lon-
da publicao das obras do pai e de seus arqui-     dres, 1992), Paris, PUF, 1994; The Writings of Anna
vos, como tambm dos membros da famlia,            Freud, 8 vols., N. York, International Universities Press,
principalmente os sobrinhos. Durante os anos        1966-1980  Joseph Sandler, Hansi Kennedy, Robert
                                                    L. Tyson, Tcnica da psicanlise infantil (Londres,
1970, continuou a desempenhar o papel de me        1980), P. Alegre, Artes Mdicas  Joseph Sandler, En-
para os filhos de sua amiga Dorothy. Dois deles     tretiens avec Anna Freud (N. York, 1985), Paris, PUF,
tiveram um fim dramtico: Bob morreu de uma         1989  Peter Heller, Une analyse d'enfant avec Anna
crise de asma depois de atravessar vrios epis-    Freud (Wrzburg, 1983, Madison, 1990), Paris, PUF,
                                                    1996  Elisabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma bio-
dios de depresso, e Mabbie acabou suicidando-      grafia (N. York, 1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992.
se, ingerindo uma alta dose de medicamentos.
    Em 1990, tornando-se professor de literatu-      ANLISE DIDTICA; FILIAO; HOMOSSEXUALIDA-
ra, Peter Heller publicou um depoimento como-       DE; PATRIARCADO; SEDUO, TEORIA DA; SELF
vedor sobre as suas lembranas da anlise com       PSYCHOLOGY; SEXUALIDADE FEMININA.
Anna Freud. Nascido em Viena em 1920, sub-
meteu-se a um tratamento com ela entre 1929 e
1932. Depois, casou-se com Tinky, filha de          Freud, Anna, irm de Sigmund Freud
Dorothy Burlingham, e em seguida passou ain-         BERNAYS, ANNA.
da longos anos no div de Kris. O relato de seu
tratamento, acompanhado das notas que Anna
lhe entregou, revivia a estranha confuso dos       Freud, Emanuel (1833-1914),
anos 1920-1935, durante a qual Anna e seu pai       meio-irmo de Sigmund Freud
misturaram to estreitamente o div, a famlia          Nascido em Tysmenitz, Emanuel era o filho
e a vida particular. Peter Heller mostrava, prin-   mais velho de Jacob Freud* e de sua primeira
cipalmente, o carter sufocante da posio "ma-     mulher, Sally Freud* (nascida Kanner). Como
terna" ocupada por Anna, ao passo que, em sua       Sigmund Freud*, seu meio-irmo, e como Rosa
doutrina, ela no levava em conta o vnculo         Graf*, sua meia-irm, era de humor neuras-
arcaico com a me.                                  tnico. Casou-se em 1852 com Maria Rokach
    Coberta de honras, mas incapaz de compre-       (1834-1921), nascida em Milow, na Rssia* e
ender a evoluo do movimento psicanaltico,        filha de um rabino, e assumiu dois anos depois
Anna Freud morreu em Londres depois de en-          a sucesso do pai no comrcio de txteis. Em
frentar a tempestade provocada pelos adeptos        1859, como seu irmo Philipp*, foi estabelecer-
da historiografia* revisionista a respeito da pu-   se em Manchester, na Gr-Bretanha*, com sua
blicao das cartas de Freud a Wilhelm Fliess*.     mulher e os trs filhos, Johann, dito John (1855-
    A um jovem analista que lhe enviou em 1979      ?), Pauline* e Bertha (1859-1944), todos nasci-
um artigo prevendo a morte da psicanlise, ela      dos em Freiberg. Em Manchester, teria dois
                                                                                    Freud, Ernst      261

outros filhos, Samuel (1860-1945) e Matilda,             nheceu Lucie Brasch, com quem se casou em
que morreu ainda criana. Nessa cidade, Ema-             1920. Depois de uma crise grave, da qual Freud
nuel encontrou as facilidades que seu pai no            foi mantido afastado, o casal recuperou o equi-
conhecera. Fez parte da boa burguesia comer-             lbrio e viveu unido durante cinqenta anos.
cial judaica e figurou com o irmo, em 1872,             Trs filhos nasceram desse casamento: Stefan,
entre os fundadores da South Manchester Sy-              Lucian, Klemens.
nagogue. Morreu acidentalmente, ao cair de um                Por ocasio de seu trigsimo aniversrio,
trem. Sua filha Bertha tambm morreu de uma              recebeu uma carta, na qual seu pai o felicitava
queda acidental de uma escada.                           pelo seu sucesso: "Voc  o nico dos meus
    Freud sempre teve muita afeio por esse             filhos que j possui tudo o que um homem pode
meio-irmo que poderia ter sido seu pai, e que           desejar nessa idade: uma mulher amorosa, um
sempre o exortou  piedade filial, lembrando-            filho maravilhoso, trabalho, rendas e amigos.
lhe que pertencia  terceira gerao a partir do         Alis, voc merece tudo isso, e como nem tudo
pai. Em 1908, foi visit-lo na Inglaterra. Na            na vida acompanha o mrito, quero expressar o
infncia teve como companheiro de brincadei-
                                                         desejo de que a sorte lhe continue sempre fiel."
ras o seu sobrinho John, oito meses mais velho
                                                             Em 1933, com a chegada de Hitler ao poder,
que ele e que, com a idade de 18 anos, desapa-
                                                         Ernst emigrou para Londres com sua famlia. J
receu sem deixar vestgios. Em 1979, Marianne
Krll formulou a hiptese de que, na infncia,           tendo viajado, exercendo uma profisso em que
John e Sigmund tentaram deflorar sua jovem               a mobilidade era um hbito, integrou-se muito
prima Pauline Freud.                                     bem  sociedade britnica. Ernest Jones* o
                                                         ajudou, contratando-o para reformar uma ala de
 Lettres de famille de Sigmund Freud et des Freud de    sua casa de campo. Julgou-o extremamente
Manchester, 1911-1938, Paris, PUF, 1996  Siegfried      competente: "O seu reconhecimento da compe-
Bernfeld e Suzanne Cassirer-Bernfeld, "Freud's early
                                                         tncia de Ernst, sublinhou Freud,  um blsamo
childhood", Bull. Menninger Clinic, 1944, 8, 107-15 
Rene Gicklhorn, "La Famille Freud  Freiberg" (1969),   para o meu corao de pai. Lamento que meu
tudes Freudiennes 11-12, janeiro de 1976, 231-8        outro filho [Oliver], que est em Nice, no tenha
Marianne Krll, Sigmund Freud, fils de Jacob (Muni-      encontrado nem ptria nem emprego."
que, 1979), Paris, Gallimard, 1983.
                                                             Em 1938, Ernst organizou a vinda de seus
 HISTORIOGRAFIA; SEDUO, TEORIA DA.                     pais e de sua irm Anna para Londres, instalan-
                                                         do no n 20 de Maresfield Gardens uma "Berg-
                                                         gasse reconstruda" e lindamente reformada por
Freud, Ernst (1892-1966), filho de                       ele. Foi executor testamentrio do pai e assumiu
Sigmund Freud                                            a publicao de suas obras,  frente da Sigmund
                                                         Freud Copyright Ltd.
    Nascido em Viena*, Ernst era o quarto filho
                                                             Com sua morte, Lucie tomou o seu lugar,
de Sigmund e Martha Freud*, o terceiro e lti-
mo filho depois de Martin e Oliver. No sendo            depois de quase sucumbir a uma tentativa de
o preferido nem do pai nem da me, foi tambm            sucdio*. Foi ento Ilse Grubrich-Simitis que
o mais independente dos irmos, chamado o                consagrou toda a sua energia ao ltimo projeto
"menino de sorte". Na verdade, parecia-se mui-           de Ernst: a realizao de um magnfico lbum
to com o pai. Quando lhe perguntaram por que             ilustrado, o primeiro do gnero, dedicado  vida
se tornara arquiteto, disse que foi porque seu pai       de Freud, Sigmund Freud. Lugares, rostos, ob-
e os outros membros da famlia no entendiam             jetos, que seria depois traduzido no mundo
nada disso.                                              inteiro.
    Dotado de um real talento de artista, seguiu             Amigo de Francis Bacon (1909-1992), Lu-
muito cedo esse caminho, o que lhe permitiu              cian Freud tornou-se um dos pintores mais im-
aprender uma verdadeira profisso, conquistar            portantes da escola neofigurativa inglesa e fez
uma identidade e principalmente no depender             impressionantes retratos da me. Quanto ao
financeiramente do pai. Depois de estudar em             terceiro filho de Ernst, Sir Klemens Freud, re-
Munique, instalou-se em Berlim, onde co-                 cebeu um ttulo de nobreza e fez uma brilhante
262      Freud, Eva

carreira de poltico liberal e cronista radiofnico        dade falsa. Diante de uma gravidez no deseja-
no campo culinrio.                                        da, abortou clandestinamente e teve uma infec-
                                                           o. Tratada em Marselha, no Hospital de Ti-
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse           mone, morreu de septicemia a 4 de novembro
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Chronique la plus
brve. Carnets intimes, 1929-1939, anotado e apre-         de 1944, depois de uma longa agonia durante a
sentado por Michael Molnar (Londres, 1992), Paris,         qual pediu para receber o sacramento do batis-
Albin Michel, 1992  Sigmund Freud e Sandor Ferenc-        mo catlico. Voltando do maquis, seu noivo a
zi: correspondncia, vol.I, 2 tomos, 1908-1914 (Paris,     enterrou no cemitrio Saint-Pierre. Em 1948,
1992), Rio de Janeiro, Imago, 1994, 1995, vol.II, 1914-
1919, Paris, Calmann-Lvy, 1996  Ernest Jones, A
                                                           seus pais vieram visitar o tmulo e em 1962
vida e a obra de Sigmund Freud, vols.1 e 2 (N. York,       encontraram-se com seu noivo e alguns amigos.
1953, 1955), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Martin          Durante muitos anos, a morte de Eva Freud foi
Freud, Freud, mon pre (Londres, 1957), Paris, De-         atribuda, pela histria oficial, a uma epidemia
nol, 1975  Ernst Freud, Lucie Freud e Ilse Grubrich-
                                                           de gripe. Foi um psicanalista francs, Pierre
Simitis (orgs.), Sigmund Freud. Lieux, visages, objets
(Frankfurt, 1976), Bruxelas, Complexe-Gallimard,           Segond, que revelou a verdade em 1993, depois
1979  lisabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma bio-        de uma longa pesquisa feita no sul da Frana.
grafia (N. York, 1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992 
Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.           Pierre Segond, "Eva Freud, une vie. Berlin 1924, Nice
York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995         1934, Marseille 1944" (1992), Trames, 15, setembro de
Jean Clair, "Lucian Freud, la question du nu en pein-      1993, 76-116.
ture", in loge du visible, Paris, Gallimard, 1996, 171-
88.                                                         FREUD, ANNA; FREUD, MARTIN; FREUD, OLI-
                                                           VER; HALBERSTADT, SOPHIE; HOLLITSCHER, MA-
 FREUD, ANNA; FREUD, EVA; FREUD, MARTIN;                   THILDE.
FREUD, OLIVER; HALBERSTADT, SOPHIE; HOLLIT-
SCHER, MATHILDE.

                                                           Freud, Josef (1825-1897), tio de
                                                           Sigmund Freud
Freud, Eva (1924-1944), neta de
Sigmund Freud                                                  No dirio vienense Neue Freie Press, de 23
                                                           de fevereiro de 1866, foi relatado o processo
    Nascida em Berlim, Eva era filha nica de
                                                           contra Josef Freud por trfico de dinheiro falso:
Oliver Freud* e sua mulher Henny. Emigrou
                                                           "Segundo a percia do Banco Imperial Russo de
com os pais para a Frana* no fim de abril de
                                                           So Petersburgo, as notas falsas em poder de
1933. Depois de uma breve permanncia em
                                                           Josef Freud foram gravadas com cinzel e em
Paris, acompanhou os pais a Nice, onde se
                                                           litografia sobre papel comum, e so do tipo das
matriculou no liceu.
                                                           que inundam todos os mercados da Europa."
    Para Sigmund Freud*, que tanto sofrera com
                                                           Josef Freud foi condenado a dez anos de priso.
a perda do seu neto Heinerle (filho de Sophie
                                                               Na Interpretao dos sonhos*, Sigmund
Halberstadt*), Eva se tornara a querida Evchen.
                                                           Freud evocou a figura desse tio "malfeitor" no
Ela o visitou pela ltima vez no dia 24 de agosto
                                                           "Sonho do tio": "Meu amigo R.  um tio. Tenho
de 1939, e ele se mostrou particularmente terno
                                                           uma grande ternura por ele. Vejo seu rosto
com ela, sabendo que no a veria mais.
                                                           diante de mim, um pouco mudado. V-se niti-
    No fim do vero de 1940, Eva ficou co-
                                                           damente uma barba amarela que o emoldura."
nhecendo um jovem judeu, nascido em So
                                                               Segundo Freud, Jacob considerava seu ir-
Petersburgo, de 30 anos de idade. Tornou-se sua
                                                           mo um imbecil e no uma m pessoa. Esse
companheira, no momento em que ele decidiu
                                                           caso o entristeceu muito, e em poucos dias seus
entrar na Resistncia. Para no separar-se dele,
                                                           cabelos ficaram grisalhos.
recusou-se a emigrar para os Estados Unidos*
                                                               Essa histria suscitou muitas interpretaes,
com os pais em 1943. Sob a responsabilidade
                                                           s vezes bastante fantasiosas, por parte dos
de Ren Laforgue*, com quem comeara uma
                                                           especialistas em histria do freudismo.
anlise, encontrou-se muito isolada em Nice,
onde, para escapar s perseguies anti-semi-               Alain de Mijolla, "'Mein Onkel Josef'  la une", tudes
tas, logo foi obrigada a viver com uma identi-             Freudiennes, 15-16, abril de 1979, 183-92  Marianne
                                                                          Freud, Kallamon Jacob        263

Krll, Sigmund Freud, fils de Jacob (Munique, 1979),      Freud, Kallamon Jacob (1815-1896),
Paris, Gallimard, 1983  Nicolas Rand e Maria Torok,
                                                          pai de Sigmund Freud
Questions  Freud, Paris, Les Belles Lettres, 1995.
                                                              Nascido em Tysmenitz, na Galcia oriental,
 HISTORIOGRAFIA.                                          provncia polonesa ligada  ustria em 1772,
                                                          Jacob (ou Jakob) Freud era o filho mais velho
                                                          de uma famlia de comerciantes judeus e tinha
                                                          trs irmos, entre os quais Josef Freud*, cuja
Freud, Julius (1857-1858), irmo de                       histria  doravante conhecida. Foi Marianne
Sigmund Freud
                                                          Krll quem estabeleceu em 1979 a genealogia
    Nascido em Freiberg, Julius era o segundo             familiar dos Freud, dando seqncia aos traba-
filho de Jacob e Amalia Freud*, e o primeiro              lhos de Rene Gicklhorn e Josef Sajner. A esse
irmo mais novo de Sigmund Freud*, que sen-               respeito,  interessante citar uma carta de
tiu, desde o nascimento do irmo, um forte                Sigmund Freud* a Martha Freud*, do dia 10 de
cime em relao a ele. Julius morreu com oito            fevereiro de 1886, na qual descrevia assim a
meses. Em uma carta a Wilhelm Fliess*, datada             tragdia de um desses tios, chamado Abae: "Ele
de 3 de outubro de 1897, Freud afirmou que                 comerciante e a histria de sua famlia  muito
alimentava, para com Julius, "desejos malva-              triste. Dos quatro filhos, s uma filha  normal
dos". Depois de sua morte, sentiu remorso e               e casou-se na Polnia. Um filho  hidrocfalo e
culpa. Depois, transferiu sua rivalidade para a           dbil mental; outro, que parecia normal quando
irm mais velha, Anna Bernays*. Foi nesse                 pequeno, tornou-se louco aos 19 anos e uma
momento que descobriu o conflito edipiano, ou             filha aos 20."
seja, que a rivalidade com o pai determinava                  O nome Freud, que significa alegria em
desejos mortferos. Na Interpretao dos so-              alemo (Freude) era derivado de Freide, pre-
nhos*, indicou que uma criana pequena, cujo              nome da bisav materna de Jacob. A famlia o
irmo ou irm mais novo tivesse morrido, po-              adotara em 1789, quando o imperador Jos II
deria, depois do nascimento de outro irmo,               promulgou uma carta de tolerncia que eman-
alimentar o desejo de ver o novo rival sofrer o           cipava os judeus, reconhecendo-lhes os mes-
mesmo destino.                                            mos direitos e privilgios que aos outros sditos
    Em 1917, em um artigo dedicado  autobio-             do Imprio. Essa carta os obrigava, entretanto,
grafia de Goethe, Poesia e verdade, evocou essa           a assumir um nome de famlia, e conseqente-
questo, mostrando que o poeta tivera um sen-             mente a renunciar  organizao comunitria.
timento idntico por ocasio do nascimento, e                 Afastado do hassidismo, tradio mstica de
da morte posterior, de um irmozinho.                     seus ancestrais, Jacob Freud foi um judeu do
    A partir de Freud, a questo do lugar da              Iluminismo que aderiu s idias da Haskala
criana morta entre os irmos foi objeto de uma           pouco depois do seu casamento com Sally
abundante literatura, especialmente por parte             Freud*. Ao contrrio do que diria seu filho,
dos psicanalistas de crianas.                            permaneceu ligado aos valores tradicionais do
                                                          judasmo e transmitiu aos filhos uma slida
 Sigmund Freud, "Uma recordao de infncia de           cultura judaica, fazendo com que lessem a B-
Dichtung und Wahrheit" (1917), ESB, XVII, 185-200;
GW, XII, 12-26; SE, XVII; in L'inquitante tranget et
                                                          blia na edio bilnge ilustrada (hebraico-ale-
autres essais, Paris, Gallimard, 1985, 190-207; La        mo) de Ludwig Philippsohn. Sua primeira es-
Naissance de la psychanalyse (Londres, 1950), Paris,      posa teve quatro filhos, dos quais apenas dois
PUF, 1956  Siegfried Bernfeld e Suzanne Cassirer-        sobreviveram: Emanuel Freud* e Philipp
Bernfeld, "Freud's early childhood", Bull. Menninger
                                                          Freud*. Em 1848, o casal se instalou em Frei-
Clinic, 1944, 8, 107-15  Max Schur, Freud: vida e
agonia, uma biografia, 3 vols. (N. York, 1972), Rio de    berg (Pribor), na parte noroeste da Morvia,
Janeiro, Imago, 1981.                                     integrada ao Imprio Austro-Hngaro, cuja po-
                                                          pulao tcheca falava oficialmente o alemo.
 DOLTO, FRANOISE; DIPO, COMPLEXO DE; ES-                Negociante de txteis, pouco dotado para o
TDIO DO ESPELHO; KLEIN, MELANIE; LACAN, JAC-             comando, Jacob no fez fortuna no comrcio e
QUES; PULSO DE MORTE.                                    foi pobre durante toda a vida.
264     Freud, Kallamon Jacob

    Depois de um segundo casamento com Re-           pondncia (1897) com Wilhelm Fliess*.
bekka Freud*, Jacob casou-se em Viena*, em           Renunciando a considerar em 1897 que, na
terceiras npcias, com uma jovem de 20 anos,         origem da neurose* existe a seduo* sexual da
Amalia Nathanson (Amalia Freud*), originria,        criana pelo adulto, Freud confessa sua culpa:
como ele, de uma famlia judia da Galcia orien-     efetivamente, suspeitou que seu prprio pai fos-
tal, falando correntemente o idiche. Ela lhe        se um sedutor e lamentava amargamente que
daria oito filhos, entre os quais Sigismund-         este tivesse morrido antes do abandono dessa
Schlomo, o mais velho, em 1856, que se faria         teoria.
chamar Sigmund.                                          O segundo acontecimento se refere  dife-
    Em agosto de 1859, a famlia deixou Frei-        rena entre a judeidade* do pai e a do filho. Ele
berg e foi para Leipzig, onde permaneceu algum        evocado na Interpretao dos sonhos, sob a
tempo, antes de se instalar definitivamente em       forma de uma clebre lembrana de infncia.
Viena em maro de 1860, data na qual Philipp         Um dia, lembra o narrador, Jacob relatou a seu
e Emanuel Freud, os dois irmos consangneos        filho um episdio antigo para lhe provar que o
de Sigmund, emigraram para a Gr-Bretanha*.          tempo presente era melhor que o passado. Ou-
    Enquanto Amalia era uma mulher enrgica          trora, disse ele, um cristo jogou seu chapu de
e tirnica, de grande vivacidade de esprito,        pele na lama e gritou: "Judeu, desce do pas-
Jacob era um homem simples, tranqilo e, ao          seio." Como a criana perguntou ao pai o que
que parece, pouco autoritrio: "Otimista inve-       ele fizera, este respondeu: "Apanhei o meu
terado, escreveu Peter Gay, pelo menos aparen-       chapu." A essa cena, que lhe desagradava, o
temente, era um pequeno comerciante mal pre-         pequeno Sigmund contraps outra, mais de
parado para enfrentar a industrializao do seu      acordo com as suas aspiraes: o momento
mundo. Simptico, generoso, bem-humorado,            histrico em que Amlcar faz seu filho Anbal
estava intimamente persuadido dos dons emi-          jurar que o vingar dos romanos e defender
nentes do filho Sigismund."                          Cartago at a morte.
    Assim, Freud foi o filho querido dos seus            Essa lembrana contm, ao mesmo tempo, a
pais. E foi a partir de uma famlia ao mesmo         posio de inferioridade do pai diante do anti-
tempo atpica para a poca, por causa dos trs       semitismo e o itinerrio de um filho que assume
casamentos sucessivos de seu pai, e mais ou          a misso de revalorizar a funo paterna atravs
menos "normal" do ponto de vista afetivo, que        de um ato de rebelio  maneira de Anbal.
Freud construiria uma teoria subversiva da fa-       Nessa perspectiva,  preciso no s superar o
mlia patriarcal. E se a psicanlise* nasceu real-   pai, para tornar-se o heri ou o chefe de escola
mente do sentimento de declnio do patriarca-        de uma nova doutrina, mas tambm mudar de
do* (que afetava a sociedade vienense do fim         cultura sem trair sua judeidade: esse era real-
do sculo) e de uma tentativa de revalorizar         mente o destino dos filhos da burguesia comer-
simbolicamente a figura do Pai, pode-se dizer        cial judaica do Imprio Austro-Hngaro, obri-
que Jacob Freud foi a prpria encarnao dessa       gados a se "desjudeizarem" para existir, isto ,
                                                     adotar a cultura grega, latina ou alem, nicas
falncia.
                                                     capazes de tir-los do gueto.
    As relaes de Freud com o pai foram muitas
vezes comentadas pelo prprio Freud, por seus         Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
discpulos e por historiadores ou filsofos, entre   ESB, IV-V, 1-660; GW, I-II, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
os quais Henri F. Ellenberger*, Ernest Jones*,       Paris, PUF, 1967; La Naissance de la psychanalyse
Max Schur*, Jean-Paul Sartre (1905-1980),            (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
                                                     Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; Corres-
Carl Schorske, Marianne Krll, lisabeth Rou-        pondance, 1873-1939 (Frankfurt, 1960), Paris, Galli-
dinesco, Peter Gay, Yosef Hayim Yerushalmi.          mard, 1966; Chronique la plus brve. Carnets intimes,
Dois acontecimentos maiores devem ser reala-        1929-1939, anotado e apresentado por Michael Molnar
dos, em relao  teoria freudiana da paterni-       (Londres, 1992), Paris, Albin Michel, 1992  Siegfried
                                                     Bernfeld e Suzanne Cassirer-Bernfeld, "Freud's early
dade. O primeiro se refere  culpa do filho          childhood", Bull. Menninger Clinic, 1944, 8, 107-15 
(Sigmund), no momento da morte do pai (Ja-           Josef Sajner "Sigmund Freuds Beziehungen zu seinem
cob). Encontram-se vestgios desta na corres-        Geburtsort Freiberg (Probor) und zu Mhren", Clio
                                                                                       Freud, Martha       265

Medica, 3, 1968, 167-80  Rene Gicklhorn, "La Fa-          desapareceu, certamente morta nas cmaras de
mille Freud  Freiberg" (1969), tudes Freudiennes,
                                                            gs, ao mesmo tempo que Paula.
11-12, janeiro de 1976, 231-8  Ernest Jones, A vida e
a obra de Sigmund Freud, vols. 1 e 2 (N. York, 1953,
                                                             Harald Leupold-Lwenthal, "A emigrao da famlia
1955), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Carl E. Schorske,
                                                            Freud em 1938", Revista Internacional da Histria da
"Poltica e parricdio em A interpretao de sonhos de
                                                            Psicanlise, 2 (1989), Rio de Janeiro, Imago, 1992 
Freud", in Viena fin-de-sicle (N. York, 1981), S. Paulo,
                                                            Sigmund Freud, Chronique la plus brve. Carnets in-
Companhia das Letras, 1990  Ernst Freud, Lucie
                                                            times, 1929-1939, anotado e apresentado por Michael
Freud e Ilse Grubrich-Simitis (orgs.), Sigmund Freud.
                                                            Molnar (Londres, 1992), Paris, Albin Michel, 1992.
Lieux, visages, objets (Frankfurt, 1976), Bruxelas,
Complexe-Gallimard, 1979  Marianne Krll, Sigmund
Freud, fils de Jacob (Munique, 1979), Paris, Gallimard,      GRAF, REGINA DEBORA; NAZISMO.
1983  lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise
na Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge
Zahar, 1989  Jean-Paul Sartre, Freud, alm da alma         Freud, Martha, ne Bernays
(Paris, 1984), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1987 
Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.
                                                            (1861-1951), mulher de
York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995          Sigmund Freud
Yosef Hayim Yerushalmi, Le Mose de Freud. Judasme             Nascida em Wandsbeck, perto de Hambur-
terminable et interminable (New Haven, 1991), Paris,        go, Martha era irm de Minna Bernays* e de Eli
Gallimard, 1993.
                                                            Bernays, que se casou com Anna (Bernays*),
 COMIT SECRETO; CULTURALISMO; FREUD,                       primeira das cinco irms de Sigmund Freud* e
ALEXANDER; ITLIA; JUNG, CARL GUSTAV; MOISS                nica a escapar do extermnio nazista.
E O MONOTESMO; PSICANLISE; RANK, OTTO; RO-                    Proveniente de uma famlia de intelectuais
MANCE FAMILIAR; SEXUALIDADE FEMININA; TOTEM                 judeus, Martha era filha de Berman Bernays
E TABU.                                                     (1826-1879), que foi negociante, antes de se
                                                            tornar secretrio de Lorenz von Stein, professor
                                                            de direito e de economia, depois que se instalou
                                                            em Viena* em 1868. O av, Isaac Bernays
Freud, Marie, dita Mitzi (1861-1942),                       (1792-1849), fora o gro-rabino de Hamburgo.
irm de Sigmund Freud                                       Quanto aos tios paternos, Jacob Bernays (1824-
    Nascida em Viena*, Mitzi era a quinta entre             1881) e Michael Bernays (1834-1897), eram
os filhos de Jacob e Amalia Freud*, e a terceira            intelectuais eminentes. Primeiro fillogo judeu
irm de Sigmund Freud*. Em 1886, casou-se                   de renome no campo dos estudos clssicos
com um primo distante de Bucareste, Moritz                  (Grcia aristotlica e Antigidade tardia), Jacob
Freud, falecido em 1920. Tiveram cinco filhos,              foi tambm o primeiro judeu praticante a obter
dos quais um nasceu morto. A mais nova, Mar-                um posto universitrio na Alemanha no sculo
tha Gertrud, era uma artista talentosa que escre-           XIX, em Bonn. Por sua vez, Michael ensinou
via livros ilustrados para crianas. Sofrendo de            literatura em Munique e foi leitor do rei Lus II
distrbios de identidade e no suportando ser               da Baviera.
uma moa, fazia-se chamar Tom. Casou-se com                     Nas famlias de estrita observncia religiosa,
Jacob Seidmann, que se lanou no mercado                    as meninas eram educadas de modo muito se-
editorial, faliu e suicidou-se em outubro de                vero, e Martha no escapou  autoridade da
1929. Um ano depois, atingida por uma profun-               me, Emilie Philipp (1830-1910), mulher pre-
da depresso, Martha deixou-se morrer em um                 conceituosa, que se parecia com as mes des-
hospital berlinense, aos 37 anos de idade. Tinha            critas por Freud e Josef Breuer* nos Estudos
uma filha de sete anos, Angela, que, com sua                sobre a histeria*. Tornando-se viva em 1879,
av, foi protegida por Freud.                               mostrou-se hostil  escolha de Martha, pois o
    No dia 29 de junho de 1942, Mitzi foi depor-            jovem Sigmund no tinha nem fortuna nem
tada com suas irms Pauline Winternitz, dita                posio social.
Paula, e Adolfine Freud*, dita Dolfi, para o                    Em abril de 1882, quando tinha 26 anos,
campo de concentrao de Theresienstadt. Dali,              Freud ficou conhecendo Martha durante uma
foi transportada no dia 23 de setembro para o               visita  sua irm Anna. A jovem era morena,
campo de extermnio de Maly Trostinec, onde                 esbelta, plida, reservada, com grandes olhos
266     Freud, Martha

negros expressivos. Freud apaixonou-se ime-          sua irm Minna, nem com Amalia Freud*, me
diatamente por ela, como lhe acontecera dez          de Sigmund, embora gostasse muito desta. E foi
anos antes com Gisela Fluss*. Cortejou-a             por causa dessa diferena que Freud sempre
segundo as convenes de seu meio social. O          achou que tinha feito a escolha certa: "Nesse
noivado foi celebrado em 27 de junho de 1882.        cruzamento, ns nos entendemos melhor, disse-
Um ano depois, Martha deixou Viena para se           lhe um dia. Duas pessoas como Minna e eu no
instalar em Wandsbeck com sua me e sua irm         combinariam bem, e dois indivduos de carter
Minna. Os noivos viveram separados durante           fcil no podem sentir atrao um pelo outro."
trs anos, at a data do casamento, dia 13 de            Ao contrrio de seu pai, Freud foi um pa-
setembro de 1886. Durante esse perodo, Freud        triarca autoritrio. Estritamente mongamo,
escreveu cerca de mil cartas a Martha, das quais     no era misgino, como j se afirmou com
uma centena apenas foi publicada em 1960.            freqncia. Devotava uma espcie de paixo s
Kurt Eissler, guardio dos Arquivos Sigmund          mulheres intelectuais e no-conformistas a pon-
Freud na Biblioteca do Congresso* em Was-            to de manter com algumas delas (Marie Bona-
hington a partir de 1945, as tornaria inacessveis   parte, por exemplo) relaes viris ou fraternas.
aos pesquisadores, e Harold Blum, seu sucessor,      Em sua vida particular, adotou alguns dos pre-
seguiria a mesma poltica.                           conceitos vitorianos do seu tempo, principal-
    Se Martha era virgem no momento de seu           mente no que se refere  educao das meninas.
noivado e permaneceu assim at o casamento,          Assim, entrou muitas vezes em contradio
Freud tivera pelo menos uma experincia              com as teses que desenvolvia em sua doutrina,
sexual em sua vida de rapaz, como confidenciou       como provam suas hesitaes a respeito da
a Marie Bonaparte*, que se apressou a anotar         sexualidade feminina*. Com Martha, durante
esse detalhe em seu dirio ntimo, sem precisar      seu longo noivado, mostrou-se de um cime e
nem a data nem a natureza dessa experincia.
                                                     de uma possessividade dignas dos mais clebre
De qualquer forma, Freud foi obrigado durante
                                                     amantes romnticos do sculo XIX.
quatro anos a submeter-se a um duro regime de
                                                         Depois do nascimento de Anna Freud*, sex-
abstinncia, contentando-se em trocar beijos e
                                                     ta entre seus filhos, Martha estava esgotada e
cartas com sua noiva. Com a ajuda de Minna,
                                                     Sigmund, que mal tinha 40 anos, decidiu viver
auxiliou Martha a libertar-se do domnio da me
e principalmente das prticas religiosas nas         em continncia. Assim, esse grande terico da
quais ela estava confinada e que ele considerava     sexualidade*, que passou o tempo a observar a
como "bobagens". Exibindo certa repugnncia,         libido* humana, se obrigou a uma abstinncia
aceitou casar-se no religioso em Wandsbeck e         que contrariava seus princpios teraputicos.
recitar as respostas em hebraico. Deve-se dizer      Essa atitude no deixava de ter relao com o
que a lei austraca, ao contrrio da alem, no      gosto pela sublimao* que ele atribua a um de
lhe deixava outra escolha. Desde a primeira          seus criadores preferidos: Leonardo da Vinci
sexta-feira seguinte s npcias, proibiu a jovem     (1452-1519).
esposa de acender as velas do shabbat. Depois,           A partir de 1920, comportou-se com Anna
continuou afastando-a de sua famlia, para fazer     do mesmo modo com que se comportara outrora
dela uma burguesa modelo, segundo o seu gos-         com Martha. E seu cime em relao  filha era
to. E ela aceitou esse papel, que lhe convinha s    certamente a repetio do que mostrara durante
mil maravilhas.                                      o noivado. De qualquer forma, Anna foi a "filha
    Martha era uma notvel dona de casa e me        da psicanlise" e teve que lutar, na infncia,
atenta, que no se interessava pelas coisas inte-    contra uma terrvel rival, que lhe tomava o pai.
lectuais: "No que se refere  psicanlise*, dizia    De fato, era com uma mulher que Freud com-
Anna, minha me nunca cooperou... Ela acredi-        parava a psicanlise, no fim da vida, em uma
tava em meu pai, e no na psicanlise." Exibia       carta a Stefan Zweig* datada de julho de 1938:
uma calma e uma suavidade que contrastavam           "A anlise  como uma mulher que quer ser
singularmente com o carter violento e impul-        conquistada, mas que sabe que ser pouco es-
sivo de Freud. Nisso, no se parecia nem com         timada se no opuser resistncia."
                                                                                      Freud, Martin      267

 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse,           pouco amado por sua me, que preferia Oliver,
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
                                                            Martin dependeu mais que os outros da fortuna
Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986. Corres-
pondance, 1873-1939 (Londres, 1960), Paris, Galli-          do pai, e depois de sua herana.
mard, 1966; Chronique la plus brve. Carnets intimes,           Freud deu um dia a Carl Gustav Jung* uma
1929-1939, anotado e apresentado por Michael Molnar         explicao sobre a difcil relao de Martin com
(Londres, 1992), Paris, Albin Michel, 1992  Sigmund
                                                            a me. Era a conseqncia, segundo ele, das
Freud e Stefan Zweig, Correspondance (Frankfurt,
1987), Paris, Rivages, 1991  Marie Bonaparte, Ca-          relaes conflitantes que surgiram na famlia
hiers noirs (dirio, 1925-1939), indito (arquivos lisa-   Bernays, e principalmente com Eli, irmo de
beth Roudinesco)  Ernest Jones, A vida e a obra de         Martha e marido de Anna Bernays*, irm de
Sigmund Freud, vols.1 e 2 (N. York, 1953, 1955), Rio        Freud: "Ele [Martin] no  o preferido da me,
de Janeiro, Imago, 1989  Martin Freud, Freud, mon
pre (Londres, 1957), Paris, Denol, 1975  lisabeth       escreveu ele; pelo contrrio,  tratado por ela de
Young-Bruehl, Anna Freud: uma biografia (N. York,           maneira quase injusta. Ela compensa nele a sua
1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Peter Gay, Freud:      excessiva cumplicidade com seu prprio irmo,
uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo,      com o qual ele se parece, enquanto eu -- coisa
Companhia das Letras, 1995  Detlef Berthelsen, La
Famille Freud au jour le jour. Souvenirs de Paula Fichti    notvel -- compenso nele minha dureza para
(Hamburgo, 1989), Paris, PUF, 1991  Paul Roazen,           com essa mesma pessoa."
Mes rencontres avec la famille Freud (Amherst, 1993),           Entre os irmos, Martin teve que assumir o
Paris, Seuil, 1996  Jacob Bernays, un philologue juif,     papel de filho mais velho, ocupando junto  sua
obra coletiva editada por John Glucker e Andr Laks,
Presses Universitaires du Septentrion, 1996.                irm Anna o lugar paterno que seu pai tomara
                                                            outrora junto a seu irmo mais jovem, Alexan-
 ANDREAS-SALOM, LOU; FREUD, ERNST;                         der. Como Anna, Martin sofria com o seu fsico
FREUD, JACOB; FREUD, MARTIN; FREUD, OLIVER;                 ingrato e sentia cime da beleza e do encanto
HALBERSTADT, SOPHIE; HOLLITSCHER, MATHILDE;                 do irmo Oliver. Era dotado de um esprito
JUDEIDADE; LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRAN-                 custico, de uma bela inteligncia e de uma
A DE SUA INFNCIA; PATRIARCADO.                            maravilhosa capacidade para brincadeiras. Ha-
                                                            bituado a pregar peas, fantasiou-se um dia de
                                                            astrlogo e apresentou-se no domiclio do pai,
Freud, (Jean) Martin (1889-1967),                           que lhe dirigiu um olhar to furibundo que o
filho de Sigmund Freud                                      deixou petrificado. O autor dos Chistes no
    Nascido em Viena*, Martin era o sexto filho             gostava de ser objeto de zombaria.  exceo
de Sigmund Freud* e de sua mulher Martha, e                 de Mathilde, todos os filhos de Freud tiveram
portanto o primeiro de seus trs filhos antes de            problemas de pronncia, como o pai na infn-
Oliver e de Ernst. Seu nome era uma homena-                 cia. Tinham a lngua presa, como se diz. Assim,
gem a Jean Martin Charcot*, mas era chamado                 tiveram que recorrer aos servios de uma fo-
de Martin. Como seus outros irmos, no foi                 noaudiloga.
circuncidado. De fato, Freud se recusou a impor                 Quando estudante, Martin tornou-se sionis-
aos filhos os rituais religiosos. Educado segun-            ta, aderindo  Kadimah, organizao de duelis-
do a tradio da burguesia vienense, Martin                 tas criada em 1883 para defender a honra dos
deveria ter se tornado um patriarca.                        judeus, e da qual o prprio Freud acabaria sendo
    Tirnico com suas filhas, Freud no foi auto-           membro honorrio. Depois de cursar direito,
ritrio com seus filhos e os deixou escolher seu            Martin preferiu ocupar-se de negcios, o que o
destino. Entretanto, todos os trs foram vtimas            levou a tratar dos assuntos do pai e particular-
da dureza da poca e do fim da monarquia dos                mente da Verlag, a casa editora do movimento
Habsburgo. Mobilizados durante a Primeira                   freudiano, cujas finanas saneou. Tambm ge-
Guerra Mundial, humilhados com a derrota de                 riu muito bem a fortuna do pai, particularmente
1918 que reduziu a p o Imprio Austro-Hn-                 no momento da tomada do poder pelos nazistas
garo e suas estruturas patriarcais, e enfim ex-             na Alemanha.
pulsos da Alemanha* e de Viena pelo nazismo,                    Em 1919, casou-se com Ernestine Drucker
tiveram um destino difcil. Mais oprimido do                (apelidada Esti), uma fonoaudiloga com quem
que os irmos e irms pela imagem paterna,                  teve dois filhos: Walter e Sophie. Esti era uma
268     Freud, Mathilde

mulher emancipada, que no se comportava            Nova York em um modesto apartamento, onde
como as burguesas de Viena e dava saraus tea-       continuou a exercer a profisso de fonoaudi-
trais. No agradava a Freud; achava-a bonita        loga. Sua filha, Sophie Freud, se tornou assis-
demais para entrar para a famlia e depois consi-   tente social e professora em Boston. Freqente-
derou-a louca: "Sua mulher [de Martin] no         mente, manifestou uma atitude hostil em rela-
simplesmente maldosa,  verdadeiramente lou-        o ao freudismo*.
ca no sentido mdico do termo", dizia ele. Esse
                                                     Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse,
casamento foi um desastre para Martin. Sedu-        (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Chronique la plus
tor, ele colecionava mulheres, o que tinha o dom    brve. Carnets intimes, 1929-1939, anotado e apre-
de exasperar o pai: "Na minha vida privada,         sentado por Michael Molnar (Londres, 1992), Paris,
disse ele um dia a Marie Bonaparte*, sou um         Albin Michel, 1992  Sigmund Freud e Sandor Ferenc-
                                                    zi, Correspondncia, vol.I, 1908-1914 (Paris, 1992),
pequeno-burgus, e no gostaria de que um de        Rio de Janeiro, Imago, 1994, 1995, vol.II, 1914-1919,
meus filhos se divorciasse ou que uma de mi-        Paris, Calmann-Lvy, 1996  Ernest Jones, A vida e a
nhas filhas tivesse um caso." Alis, Freud era      obra de Sigmund Freud, vols.1 e 2 (N. York, 1953,
to tradicionalista no que se referia  educao    1955), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Martin Freud,
                                                    Freud, mon pre (Londres, 1957), Paris, Denol, 1975
dos filhos que deixou que eles acreditassem,         Clia Bertin, La Dernire Bonaparte, Paris, Perrin,
sem ser desmentido por Martha, que os bebs         1982  lisabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma bio-
nasciam nos repolhos.                               grafia (N. York, 1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992 
    Em maio de 1938, Martin conseguiu deixar        Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.
                                                    York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995 
Viena, enquanto seu filho Walter partia para a
                                                    Detlef Berthelsen, La Famille Freud au jour le jour.
Austrlia em um barco que quase no chegou          Souvenier de Paula Fichti (Hamburgo, 1989), Paris,
ao destino. Na Inglaterra, Martin encontrou         PUF, 1991  Sophie Freud, My Three Mothers and
muitas dificuldades para achar uma atividade.       Other Passions, N. York, New York Universities Press,
                                                    1991  Paul Roazen, Mes rencontres avec la famille
Lanou-se na produo de artigos de higiene e
                                                    Freud (Amherst, 1993), Paris, Seuil, 1996.
de um dentifrcio comercializado com o nome
de Martin A. Depois da guerra, foi empregado         FREUD, ANNA; FREUD, ERNST; FREUD, EVA;
como contabilista e depois abriu uma tabacaria,     HALBERSTADT, SOPHIE; HOLLITSCHER, MATHILDE.
cuja parte dos fundos estava alugada para um
cabeleireiro. No momento da celebrao do
centenrio do nascimento de Freud, contra a         Freud, Mathilde, filha de
opinio de sua irm Anna, redigiu um livro de       Sigmund Freud
lembranas, cheio de episdios pitorescos sobre      HOLLITSCHER, MATHILDE.
os diversos membros da famlia. Tendo adqui-
rido o hbito de circular de lambreta, foi vtima
de um acidente do qual nunca se recuperou           Freud Museum
inteiramente. Morreu em uma casa no sul da              Em 1938, depois da anexao da ustria
Inglaterra, para onde se retirara com sua segun-    pela Alemanha nazista, Sigmund Freud* foi
da mulher.                                          obrigado a exilar-se em Londres. No ms de
    Quanto a Esti, emigrou tambm com sua           setembro desse mesmo ano, mudou-se com a
filha Sophie. Em setembro de 1940, ambas            famlia para Maresfield Gardens 20, em
chegaram a Nice de bicicleta, vindo de Paris        Hampstead, para uma bonita casa que seu filho
para encontrar Oliver Freud e sua famlia. Foi      Ernst Freud*, arquiteto, reconstitura a partir do
ali que Sophie conheceu Paul Loewenstein, seu       modelo de seu apartamento vienense da
futuro marido. Originrio da Alemanha*, este        Berggasse 19. Ali passou o ltimo ano de sua
fora internado no campo de Milles, de onde se       vida e morreu a 23 de setembro de 1939. Sua
evadira. Em julho de 1942, Sophie e Esti che-       filha Anna Freud* viveu nessa casa at sua
garam a Tnger e depois embarcaram com des-         morte em 1982, e deixou disposies para que
tino a Baltimore.                                   fosse transformada em museu.
    Considerada a "ovelha negra da famlia",            Em 1980, os Arquivos Sigmund Freud ad-
Esti conservou o nome Freud e instalou-se em        quiriram o terreno e a casa graas aos recursos
                                                                                      Freud, Oliver      269

que a New-Land Foundation, fundada por Mu-                 de engenheiro de Oliver". Depois da derrota dos
riel Gardiner*, pusera  disposio de Anna. Em            imprios centrais, Oliver se instalou em Berlim.
1986, o Freud Museum abriu suas portas. Aces-              Nessa poca, Freud analisava sua filha Anna,
svel aos visitantes -- que podem ver o div de            sem nunca ter pensado fazer o mesmo com o
Freud, sua biblioteca, suas colees --, contm            filho. A seu ver, um paciente sempre se ar-
tambm muitos arquivos: um total de 25.000                 riscava, nesse tipo peculiar de relao transfe-
documentos, compreendendo fotografias, car-                rencial, a ser mais hostil a um parente do mesmo
tas e fotocpias de manuscritos e correspon-               sexo do que a um parente do sexo oposto. Ele
dncias, cujos originais so conservados na Bi-            tivera essa experincia durante o tratamento de
blioteca do Congresso* de Washington.                      Herbert Graf*, conduzido sob sua direo pelo
                                                           pai deste.
 Lynn Gamwell e Richard Wells, Sigmund Freud and
Art. His Personal Collection of Antiquities, introduo
                                                               Quando Oliver expressou o desejo de anali-
por Peter Gay, Londres, Freud Museum, 1988  Yann          sar-se, dirigiu-se a Max Eitingon*, que morava
Le Pichon e Roland Harari, Le Muse retrouv de            em Berlim. Sentindo-se excessivamente prxi-
Sigmund Freud, Paris, Stock, 1991  Michael Molnar,        mo da famlia, este se recusou. " extrema-
"Exposer Freud. Histoire, muse, vie prive", confern-
cia indita, colquio internacional do Instituto Francs
                                                           mente difcil para mim ser objetivo, disse-lhe
de Viena, sobre o tema "Psico-anlise, primeiro scu-      Freud, porque ele [Oliver] foi durante muito
lo", junho de 1996.                                        tempo o meu orgulho e a minha esperana
                                                           secreta, at que sua organizao anal-masoquis-
                                                           ta apareceu nitidamente [...]. Sofro muito com
Freud, Oliver (1891-1969), filho de                        meu sentimento de impotncia." Finalmente,
Sigmund Freud                                              Franz Alexander*, em 1921, seria o analista do
    Nascido em Viena*, Oliver era o terceiro               filho de Freud.
filho de Sigmund e Martha Freud*, e o segundo                  Em 1923, Oliver casou-se com Henny
filho depois de Martin e antes de Ernst. Tinha             Fuchs, filha de um mdico berlinense. O casal
esse nome em homenagem a Cromwell (1599-                   s teve uma filha, Eva Freud*. Apesar de uma
1658), chefe militar, regicida e puritano que              relativa felicidade conjugal, Oliver no conse-
derrubou a dinastia dos Stuart, proclamou a                guiu uma situao estvel na Alemanha*. Obri-
Repblica e permitiu aos judeus voltarem para              gado a emigrar em 1933, tentou se estabelecer
a Inglaterra. Freud admirava tanto Cromwell                na Frana* com a famlia. Residiu durante al-
quanto Alexandre, o Grande, Anbal e Cris-                 gum tempo na Bretanha, na encantadora aldeia
tvo Colombo (1450-1506). Mas essa escolha                de Saint-Briac, e depois em Paris, onde nunca
expressava tambm a sua anglofilia, que re-                conseguiu fixar-se. Arnold Zweig*, que o visi-
montava  poca em que os seus irmos consan-              tou antes de partir para a Palestina, foi testemu-
gneos, Philipp e Emanuel, se instalaram nesse            nha de suas dificuldades: "Penso muito no seu
pas.                                                      filho, escreveu a Freud. Ele tem sentimentos
    Oliver sempre foi o filho preferido de sua             generosos demais para conseguir assumir a
me. O jovem era perfeccionista, apaixonado                adaptao  vida [...]. Era comovente ver que
por nmeros, mecnica e pequenos consertos,                ele mostrava mais vida e calor quando me fala-
mas nunca pde ter uma verdadeira profisso e              va de seus anos de guerra, assim como outros
dependeu financeiramente do pai. No comeo                 homens de sua gerao que percebem agora
da Primeira Guerra Mundial, enquanto estava                que devem comear tudo de novo, quando j
mobilizado e depois de ter estudado engenharia             esto firmemente enraizados em sua maneira de
civil, casou-se pela primeira vez com Ella                 pensar."
Haim, estudante de medicina. Ela o acompa-                     No ano de 1934, depois de uma rpida per-
nhou at os Crpatos, ficou grvida e abortou              manncia em Paris, Oliver partiu para Nice,
em maro de 1916. Em setembro, divorciaram-                onde tomou a direo de um comrcio de foto-
se. Segundo Freud, as razes do divrcio es-               grafia. Quatro anos depois, obteve a nacionali-
tavam ligadas ao carter da jovem, incapaz de              dade francesa. Graas ao dinheiro do pai, conse-
"conciliar seus estudos de medicina com a vida             guiu comprar uma loja e se interessou pela nova
270      Freud, Pauline

profisso. Na regio, freqentava intelectuais          John, ele tratara a menina, s vezes, com cruel-
exilados, vindos da Alemanha e da ustria.              dade.
    A partir de novembro de 1942, depois da                 Em 1899, em um artigo intitulado "As lem-
invaso dessa parte da zona livre pelas tropas          branas encobridoras", relatou em parte a his-
italianas, Oliver e Henny tiveram que pensar em         tria de suas relaes a trs, chamando John e
novo pas de exlio. Graas a Ren Laforgue*,           Pauline de "primo" e "prima" e evocando nas
conseguiram deixar a Frana atravs da Espa-            entrelinhas uma cena de conotao sexual: dois
nha*, depois de ter os bens seqestrados pela           meninos arrancam flores de um buqu que uma
poltica de "arianizao" das empresas judai-           menina tem nas mos, e que  mais bonito que
cas. Emigraram para os Estados Unidos* sem              o deles. Siegfried Bernfeld* foi o primeiro a
sua filha. Noiva de um jovem Resistente, esta           mostrar, em 1946, que esse artigo continha um
recusou-se a segui-los e morreu depois em               fragmento autobiogrfico sobre Gisela Fluss* e
Marselha, em circunstncias dramticas.                 sobre a infncia de Freud. Esse texto seria de-
    Depois de presenciar o desmoronamento da            pois comentado por muitos autores, de maneira
ustria, Oliver Freud escapou, como seus ir-            mais ou menos fantasiosa. Em 1978, Marianne
mos e irms, ao extermnio dos judeus pelo             Krll interpretou a lembrana como vestgios
nazismo*. Mas sua fragilidade e sua gentileza           de uma cena de seduo*, que teria ocorrido por
nunca combinaram com a dureza de uma poca              volta de 1859. Segundo ela, John e Sigmund,
que o condenou a um perptuo exlio. Assim,             que tinham pouco mais de trs anos de idade,
no encontrou, alm-mar, a energia necessria           teriam tentado "deflorar" Pauline, ou pelo me-
para uma nova existncia.                               nos olharam seu sexo ou tocaram nele.

 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse,        Sigmund Freud, "Lembranas encobridoras" (1899),
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Chronique la plus    ESB, III, 333-58; GW, I, 529-44; SE, III, 299-322; OC,
brve. Carnets intimes, 1929-1939, anotado e apre-      III, 255-76; La Naissance de la psychanalyse (Londres,
sentado por Michael Molnar (Londres, 1992), Paris,      1950), Paris, PUF, 1956; Lettres de famille de Sigmund
Albin Michel, 1992  Sigmund Freud e Arnold Zweig,      Freud et des Freud de Manchester, 1911-1938, Paris,
Correspondance, 1927-1939 (Frankfurt, 1968), Paris,     PUF, 1996  Siegfried Bernfeld, "An unknown autobio-
Gallimard, 1972  Sigmund Freud e Sandor Ferenczi,      graphical fragment by Freud", American Imago, 4, 1,
Correspondncia, vol.I, 1908-1914, (Paris, 1992), Rio   1946  Marianne Krll, Sigmund Freud, fils de Jacob
de Janeiro, Imago, 1994, 1995  Ernest Jones, A vida    (Munique, 1979), Paris, Gallimard, 1983.
e a obra de Sigmund Freud, vols.1 e 2 (N. York, 1953,
1955), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Martin Freud,       FREUD,      PHILIPP; HISTORIOGRAFIA; SEDUO,
Freud, mon pre (Londres, 1957), Paris, Denol, 1975    TEORIA DA.
 lisabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma biografia
(N. York, 1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Pierre
Segond, "Eva Freud, une vie, Berlin 1924, Nice 1934,
Marseille 1944" (1992), Trames, 15, setembro de 1993,   Freud, Pauline, dita Paula, irm de
76-116  Paul Roazen, Mes rencontres avec la famille    Sigmund Freud
Freud (Amherst, 1993), Paris, Seuil, 1996.
                                                         WINTERNITZ, PAULINE.

 FREUD, ANNA; FREUD, ERNST; FREUD, MARTIN;
HALBERSTADT, SOPHIE; HOLLITSCHER, MATHILDE.
                                                        Freud, Philipp (1836-1911), irmo
                                                        consangneo de Sigmund Freud
                                                            Nascido em Tysmenitz, Philipp era o filho
Freud, Pauline (1856-1944),                             mais novo de Jacob Freud* e de sua primeira
sobrinha de Sigmund Freud                               mulher Sally Freud*, ne Kanner. Instalou-se
   Nascida em Freiberg, cinco meses depois de           em Manchester com seu irmo Emanuel
Sigmund Freud*, Pauline era filha de Emanuel            Freud*, onde se casou em 1873 com Matilda
Freud* e irm de John (1855-?), colega de               Bloomah, ou Bloome (1839-1925), com quem
infncia de Sigmund. Parece que sofria de sur-          teria dois filhos, uma menina, Pauline (1873-
dez e confuso mental. Em uma carta a Wilhelm           1951), que se casaria com Frederick Hartwig, e
Fliess*, Freud contou que na infncia, com              um filho, Morris (1876-1938).
                                                                                  Freud, Rebekka          271

    Colega de infncia de Sigmund Freud*,               de Sigmund Freud et des Freud de Manchester, 1911-
                                                        1938, Paris, PUF, 1996  Rene Gicklhorn, "La Famille
John Freud (1855-?), filho de Emanuel, chama-
                                                        Freud  Freiberg" (1969), in tudes Freudiennes, 11-
va esse tio de "tio Philipp". Sigmund fazia o           12, janeiro de 1976, 231-8  Marianne Krll, Sigmund
mesmo. Muito espirituoso e custico, Philipp            Freud, fils de Jacob (Munique, 1979), Paris, Gallimard,
era, aos seus olhos, o "irmo malvado", que no         1983  Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo
tinha sobre ele a mesma autoridade que Ema-             (N. York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995.
nuel. Um dia, Philipp surpreendeu Monika Za-             HISTORIOGRAFIA; SEDUO, TEORIA DA.
jic, a bab apelidada Nannie, roubando. Fez
com que ela fosse "trancada" (presa), no mesmo
momento em que Amalia Freud* dava  luz                 Freud, Rebekka (1820-?), segunda
Anna (futura Anna Bernays*), irm de Sig-               mulher de Jacob Freud
mund. Este sofreu cruelmente com a ausncia
                                                            A hiptese de um segundo casamento de
de Nannie, que coincidia com a impossibilidade
                                                        Jacob Freud* foi apresentada pela primeira vez
de ver a me. Procurou Amalia (sua me) em
                                                        em 1968 por Josef Sajner, e retomada por Ma-
todo o apartamento. Philipp abriu ento um
                                                        rianne Krll em 1979 a partir de documentos
"cofre" para provar ao menino que esta no
                                                        incontestveis, sem que fosse possvel esclare-
estava presa. Em 1897, quando de sua auto-an-
                                                        cer os fatos. Assim, ignora-se a data exata do
lise*, ele analisou esse episdio explicando a
                                                        casamento de Jacob com Sally Kanner (com
Wilhelm Fliess* que tivera medo de que sua
                                                        quem teve dois filhos, Emanuel, nascido em
me tambm estivesse "trancada".
                                                        1833, e Philipp, nascido em 1834). Tambm
    Em sua infncia, Freud suspeitou de que seu
                                                        no se sabe a data de seu casamento com Re-
meio-irmo tinha relaes sexuais com sua
                                                        bekka, sobre cujo destino no se tm dados, a
me, um ano mas nova que ele. (Jacob Freud, o
                                                        no ser que morreu entre 1852 e 1855.
patriarca, efetivamente poderia ter sido pai de
                                                            O certo  que Sigmund Freud* sempre igno-
sua terceira mulher, Amalia, e av de Sigmund.)
                                                        rou esse segundo casamento de seu pai. Em
Na Interpretao dos sonhos*, Freud fez vaga-
                                                        1926, quando o psiquiatra peruano Honorio
mente aluso a essa angstia, contando um
                                                        Delgado lhe enviou a obra biogrfica que aca-
sonho no qual aparecia um personagem, Phi-
                                                        bava de publicar sobre ele, e na qual menciona-
lippe, filho de uma porteira, que lhe revelava a
                                                        va os trs casamentos de seu pai, Freud lhe
natureza do coito e um objeto, a bblia de Lud-
                                                        pediu que corrigisse o "erro": "Meu pai s se
wig Philippsohn, que seu pai lhe oferecera ou-
                                                        casou duas vezes, e no trs."
trora. Quanto ao tema do "cofre" como smbolo
                                                            Em 1979, Marie Balmary fez frgeis es-
do ventre materno, ele o comentou na Psicopa-
                                                        peculaes para tentar "cristianizar" o destino
tologia da vida cotidiana*, atribuindo a des-
                                                        de Freud na sua relao com o pai. Descobriu
ventura da domstica "trancada" a uma criana
                                                        uma pretensa "falta oculta" deste. Inventou que
de trs anos.
                                                        Rebekka se suicidou, pulando de um trem, e que
    Em 1978, Marianne Krll declarou que Phi-
                                                        Amalia Nathanson, me de Sigmund, teria fica-
lipp talvez tivesse sido realmente amante de sua
                                                        do grvida antes de seu casamento com Jacob,
madrasta. Nada prova isso.
                                                        em 29 de julho de 1855. Para dar consistncia
    Morris Freud, filho de Philipp, emigrou para
                                                        a essa hiptese, baseou-se em um boato, segun-
a frica do Sul em 1910, e morreu em um aci-
                                                        do o qual Sigmund Freud teria falsificado a data
dente de automvel. Quanto  sua irm, Pauline
                                                        de seu nascimento: 6 de maio em lugar de 6 de
Hartwig, apelidada Polly, conservaria as cartas
                                                        maro. Ora, Sigmund Freud nasceu realmente
que Sigmund Freud escreveu para sua famlia
                                                        no dia 6 de maio de 1856, e nunca dissimulou
de Manchester, e principalmente para seu sobri-
                                                        essa data, como estabeleceu Rene Gicklhorn
nho Samuel Freud (1860-1945), filho de Ema-
                                                        em 1969.
nuel. O marido de Polly, Frederick, as legou 
biblioteca da Universidade John Rylands.                 Rene Gicklhorn, "La Famille Freud  Freiberg"
                                                        (1969), tudes Freudiennes, 11-12, janeiro de 1976,
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse,       231-8  Marianne Krll, Sigmund Freud, fils de Jacob
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Lettres de famille   (Munique, 1979), Paris, Gallimard, 1983  Marie Bal-
272      Freud, Regina Debora

mary, L'Homme aux statues. Freud et la faute cache     de aproximadamente cinco mil peas. O his-
du pre, Paris, Grasset, 1979  "Lettres de Sigmund
                                                        toriador alemo Gerhard Fichtner props outras
Freud  Honorio Delgado (1919-1934)", apresentadas
por Alvaro Rey de Castro, Revue Internationale d'His-   cifras. Segundo ele, Freud teria escrito cerca de
toire de la Psychanalyse, 6, 1993, 401-27.              20 mil cartas. Dez mil teriam sido destrudas ou
                                                        perdidas, cinco mil esto conservadas e cinco
 FREUD, AMALIA; FREUD, EMANUEL; FREUD,                  mil ainda poderiam ser encontradas no sculo
PHILIPP; FREUD, SALLY; HISTORIOGRAFIA.
                                                        XXI, ou seja dez mil no total. Observe-se que
                                                        Freud destruiu ou perdeu uma parte das cartas
Freud, Regina Debora, dita Rosa,                        que seus correspondentes lhe enviaram, parti-
irm de Sigmund Freud                                   cularmente as de Wilhelm Fliess*.
 GRAF, ROSA.                                                Trs mil e duzentas cartas de Freud foram
                                                        publicadas, entre as quais as dirigidas a Eduard
                                                        Silberstein*, Wilhelm Fliess, Lou Andreas-Sa-
Freud, Sally, ne Kanner, primeira                      lom, Ernest Jones, Carl Gustav Jung*, Sandor
mulher de Jacob Freud                                   Ferenczi*, Romain Rolland*, Arnold Zweig*,
   Nada sabemos sobre Sally Kanner, seno               Stefan Zweig*, Edoardo Weiss*, Oskar Pfister*
que se casou com Jacob Freud* em meados do              (expurgadas), Karl Abraham* (expurgadas).
ano de 1832, quando este ainda no tinha 17                 Duas edies completas da obra de Freud em
anos. Emanuel Freud*, seu primeiro filho, nas-          alemo foram realizadas: uma durante sua vida,
ceu pouco tempo depois do casamento, e o                os Gesammelte Schriften, a outra depois de sua
segundo, Philipp Freud*, um ano e meio depois.          morte, as Gesammelte Werke (GW), publicadas
Dois outros filhos viriam, um menino e uma              primeiro em Londres, depois em Frankfurt. As
menina, morrendo ambos ainda pequenos.                  GW se tornaram, universalmente, a edio de
                                                        referncia. Foram completadas por dois outros
 Marianne Krll, Sigmund Freud, fils de Jacob (Muni-   volumes, um ndice e um volume de suplemen-
que, 1979), Paris, Gallimard, 1983.
                                                        tos (Nachtragsband), realizado por Angela Ri-
                                                        chards e Ilse Grubrich-Simitis. A estes se acres-
Freud, Schlomo Sigismund, dito                          centam uma edio dita de estudos, a Studien-
Sigmund (1856-1939)                                     ausgabe, elaborada por Alexander Mitscher-
mdico vienense, fundador da psicanlise                lich* e composta de uma seleo de textos.
    Centenas de obras foram escritas no mundo           Apesar de todos os esforos de Mitscherlich e
sobre Sigmund Freud e algumas dezenas de                de Ilse Grubrich-Simitis, nenhuma edio dita
biografias lhe foram consagradas, de Fritz Wit-         crtica das GW (notas, comentrios, apresen-
tels* a Peter Gay, passando por Lou Andreas-            taes etc.) foi publicada na Alemanha.
Salom*, Thomas Mann*, Siegfried Bernfeld*,                 A edio inglesa, realizada por James Stra-
Ernest Jones*, Ola Andersson*, Henri F. Ellen-          chey* sob o ttulo Standard Edition of the Com-
berger*, Max Schur*, Kurt Eissler, Didier An-           plete Psychological Works of Sigmund Freud
zieu, Carl Schorske. Sua obra, traduzida em             (SE),  a nica edio crtica da obra de Freud.
cerca de 30 lnguas,  composta de 24 livros             por isso que, mais ainda do que as Gesam-
propriamente ditos (dos quais dois em colabo-           melte Werke,  uma obra de referncia no mun-
rao, um com Josef Breuer*, outro com Wil-             do inteiro.
liam Bullitt) e de 123 artigos. Escreveu tambm             Em razo da oposio dos herdeiros (Ernst
prefcios, necrolgios, intervenes diversas           Freud* e Anna Freud*), nenhum dos textos de
em congressos e contribuies para enciclop-           Freud anteriores ao ano de 1886 foi integrado
dias. As 24 obras de Freud so referidas no             s diversas obras completas. Ora, durante esse
presente dicionrio.                                    perodo, dito pr-psicanaltico, que se estendeu
    Kurt Eissler avaliou em 15 mil o nmero de          de 1877 a 1886, Freud publicou 21 artigos sobre
cartas escritas por Freud e em cerca de 10 mil          temas diversos: neurologia, medicina, his-
as que esto depositadas na Biblioteca do               tologia, cocana etc. Esses artigos foram recen-
Congresso*, em Washington ou seja uma perda             seados em 1973 por Roger Dufresne.
                                                                            Freud, Sigmund        273

    Em 1967, Jean Laplanche e Jean-Bertrand          mund, Sigmund Freud era filho de Amalia
Pontalis isolaram cerca de 90 conceitos es-          Freud* e de Jacob Freud*, e filho mais velho
tritamente freudianos no interior de um voca-        do terceiro casamento de seu pai, que exercia o
bulrio psicanaltico composto de 430 termos.        ofcio de comerciante de l e txteis. Dois ir-
Esses conceitos foram objeto de mltiplas re-        mos vinham do primeiro casamento de Jacob
vises, efetuadas pelos grandes tericos e clni-    com Sally Freud*: Emanuel Freud* e Philipp
cos do freudismo: Sandor Ferenczi, Melanie           Freud*. Do casamento de Jacob e Amalia nas-
Klein*, Jacques Lacan*, Donald Woods Winni-          ceram ainda sete filhos: Julius*, Anna*, Debo-
cott*, Heinz Kohut* etc.                             ra* (Rosa), Marie* (Mitzi), Adolfine* (Dolfi),
    Observe-se que Freud publicou cinco gran-        Pauline* (Paula) e Alexander*.
des casos clnicos, que foram comentados ou              Circuncidado ao nascer, o jovem Sigmund
revistos por seus sucessores: Ida Bauer* (Dora),     recebeu uma educao judaica no tradiciona-
Herbert Graf* (o Pequeno Hans), Ernst Lanzer*        lista e aberta  filosofia do Iluminismo. Era
(o Homem dos Ratos), Daniel Paul Schreber*,          adorado pela me, que o chamava "meu Sigi de
Serguei Constantinovitch Pankejeff* (o Ho-           ouro", e amado pelo pai, que lhe transmitiu os
mem dos Lobos). Segundo o quadro das fi-             valores do judasmo clssico. Tinha uma afei-
liaes* estabelecido por Ernst Falzeder em          o especial por sua governanta tcheca e cat-
1994, Freud formou na anlise didtica* mais         lica, Monika Zajic, apelidada Nannie, que o
de 60 prticos, na maioria alemes, austracos,      levava para visitar igrejas, falava-lhe do "bom
ingleses, hngaros, neerlandeses, americanos,        Deus" e lhe revelou outro mundo alm do ju-
suos, aos quais se acrescentam os pacientes        dasmo e da judeidade*. Talvez ela tambm
cuja identidade se ignora.                           tenha desempenhado um papel em sua apren-
    Foi talvez Stefan Zweig, em 1942, quem           dizagem da sexualidade*.
redigiu um dos retratos mais realistas de Freud:         Em outubro de 1859, Jacob deixou Freiberg,
"No se podia imaginar um indivduo de es-           onde seus negcios no prosperavam em vir-
prito mais intrpido. Freud ousava a cada ins-      tude da introduo do maquinismo e do desen-
tante expressar o que pensava, mesmo quando          volvimento da industrializao. Instalou-se en-
sabia que inquietava e perturbava com suas           to em Leipzig, esperando encontrar nessa ci-
declaraes claras e inexorveis; nunca procu-       dade melhores condies para o comrcio de
rava tornar sua posio menos difcil atravs da     txteis. Por sua vez, Emanuel e Philipp emigra-
menor concesso, mesmo de pura forma. Estou          ram para Manchester. Um ano depois, no ten-
convencido de que Freud poderia ter exposto,         do conseguido modificar sua m situao eco-
sem encontrar resistncia por parte da universi-     nmica, Jacob decidiu estabelecer-se em
dade, quatro quintos de suas teorias, se estivesse   Leopoldstrasse, o bairro judeu de Viena*. Entre
disposto a vesti-las prudentemente, a dizer          1865 e 1873, o jovem Sigmund freqentou o
"ertico" em vez de "sexualidade", Eros em vez       Realgymnasium e depois o Obergymnasium,
de "libido" e a no ir sempre at o fundo das        onde ficou conhecendo Eduard Silberstein*,
coisas, mas limitar-se a sugeri-las. Mas, desde      com quem manteve sua primeira grande corres-
que se tratasse de seu ensino e da verdade,          pondncia intelectual, notadamente a respeito
ficava intransigente; quanto mais firme era a        de Franz Brentano*. Nessa poca, apaixonou-
resistncia, tanto mais ele se afirmava em sua       se por Gisela Fluss*, filha de um negociante
resoluo. Quando procuro um smbolo da co-          amigo do seu pai. Mais tarde, fez amizade com
ragem moral -- o nico herosmo no mundo             Heinrich Braun (1854-1927), que despertaria
que no exige vtimas -- vejo sempre diante de       seu interesse pela poltica e depois se orientaria
mim o belo rosto de Freud, com sua clareza           para o socialismo.
viril, com seus olhos sombrios de olhar reto e           No outono de 1873, Freud comeou seus
viril."                                              estudos de medicina. Apaixonou-se pela cin-
    Nascido em Freiberg, na Morvia (ou Pri-         cia positiva, e principalmente pela biologia dar-
bor, na Repblica Tcheca), em 6 de maio de           winiana (que serviria de modelo para todos os
1856, e chamado Schlomo (Salomo) Sigis-              seus trabalhos). Em 1874, pensou em ir a Ber-
274     Freud, Sigmund

lim, para freqentar os cursos de Hermann von      tin Charcot*, cujas experincias sobre a his-
Helmholtz*. Um ano depois, com o estmulo de       teria* o fascinavam. Essa primeira permanncia
Carl Claus*, seu professor de zoologia, obteve     na Frana* marcou o incio da grande aventura
uma bolsa de estudos que lhe permitiu ir a         cientfica que o levaria  inveno da psican-
Trieste estudar a vida das enguias machos de       lise*. No Teatro Saint-Martin, Freud assistiu
rio. Publicado em 1877, esse texto mostra que      maravilhado  representao de uma pea de
Freud trabalhava na elaborao de uma teoria       Victorien Sardou, interpretada por Sarah Bern-
do funcionamento especfico das clulas nervo-     hardt: "Nunca uma atriz me surpreendeu tanto;
sas (os futuros neurnios), como se veria em seu   eu estava pronto a acreditar em tudo o que ela
"Projeto para uma psicologia cientfica" de        dizia." Depois de Paris, foi a Berlim, onde fez
1895.                                              os cursos do pediatra Adolf Baginsky.
    Depois dessa experincia, Freud passou do          De volta a Viena, instalou-se como mdico
instituto de zoologia para o de fisiologia, tor-   particular, abrindo um consultrio na Rathaus-
nando-se aluno de Ernst Wilhelm von Brcke*,       strasse. Trs tardes por semana, tambm traba-
eminente representante da escola antivitalista     lhava como neurologista na Clnica Steindlgas-
fundada por Helmholtz. Foi nesse instituto, on-    se, primeiro instituto pblico de pediatria, diri-
de ficou seis anos, que fez amizade com Josef      gido pelo professor Max Kassowitz (1842-
Breuer*. Entre 1879 e 1880, forado a uma          1913). Em setembro de 1886, casou-se com
licena para cumprir o servio militar, enganava   Martha, e no dia 15 de outubro fez uma confe-
o tdio traduzindo quatro ensaios de John Stuart   rncia sobre a histeria masculina na Sociedade
Mill (1806-1873), sob a direo de Theodor         dos Mdicos, onde teve uma acolhida glacial,
Gomperz (1832-1912), escritor e helenista aus-     no em razo de suas teses (etiolgicas), como
traco, responsvel pela publicao alem das      diria depois, mas porque atribua a Charcot a
obras completas desse filsofo ingls, terico     paternidade de noes que j eram conhecidas
do liberalismo poltico.                           pelos mdicos vienenses.
    Em 1882, depois de obter seu diploma, ficou        Em 1887, um ms depois do nascimento de
noivo de Martha Bernays (Martha Freud*), que       sua filha Mathilde (Hollitscher*), Freud ficou
se tornaria sua mulher. Por razes financeiras,    conhecendo Wilhelm Fliess, brilhante mdico
renunciou ento  carreira de pesquisador e        judeu berlinense, que fazia amplas pesquisas
decidiu tornar-se clnico. Nos trs anos seguin-   sobre a fisiologia e a bissexualidade*. Era o
tes, trabalhou no Hospital Geral de Viena, pri-    incio de uma longa amizade e de uma soberba
meiro no servio de Hermann Nothnagel*, de-        correspondncia ntima e cientfica. Apesar de
pois no de Theodor Meynert*. Ali, ficou conhe-     vrias tentativas, Fliess no conseguiria curar
cendo Nathan Weiss (1851-1883), e quando es-       Freud de sua paixo pelo fumo: "Comecei a
se novo amigo se suicidou por enforcamento,        fumar aos 24 anos, escreveu em 1929, primeiro
Freud ficou transtornado. "Sua vida, escreveu a    cigarros, e logo exclusivamente charutos [...].
Martha, parece ter sido a de um personagem         Penso que devo ao charuto um grande aumento
de romance, e sua morte uma catstrofe inevi-      da minha capacidade de trabalho e um melhor
tvel."                                            autocontrole."
    Pensando em tornar-se clebre e libertar-se        Em setembro de 1891, Freud mudou-se para
da pobreza para poder se casar, acreditava ter     um apartamento situado no nmero 19 da rua
descoberto as virtudes da cocana e adminis-       Berggasse. Ficou ali at seu exlio em 1938,
trou-a a seu amigo Ernst von Fleischl-Mar-         cercado por seus seis filhos (Mathilde, Martin*,
xow*, que sofria de uma doena incurvel. No      Oliver*, Ernst*, Sophie Halberstadt*, Anna*) e
percebia a dependncia induzida pela droga e       de sua cunhada Minna Bernays*. Como clnico,
ignorava tudo sobre sua ao anestesiante, que     tratava essencialmente de mulheres da burgue-
seria descoberta por Carl Koller*.                 sia vienense, qualificadas como "doentes dos
    Em 1885, nomeado Privatdozent de neuro-        nervos" e sofrendo de distrbios histricos.
logia, Freud obteve uma bolsa de estudos para      Abandonando o niilismo teraputico, to co-
Paris. Queria muito encontrar-se com Jean Mar-     mum nos meios mdicos vienenses da poca,
                                                                             Freud, Sigmund       275

procurou, antes de tudo, curar e tratar de suas       inferioridade, embora ela lhe causasse proble-
pacientes, aliviando os seus sofrimentos psqui-      mas e dificuldades suplementares, principal-
cos. Durante um ano, utilizou os mtodos tera-        mente em sua vida profissional".
puticos aceitos na poca: massagens, hidrote-            No mbito de sua amizade com Fliess, ocor-
rapia, eletroterapia. Mas logo constatou que          reram vrios acontecimentos maiores na vida
esses tratamentos no tinham nenhum efeito.           de Freud: sua auto-anlise*, um intercmbio de
Assim, comeou a utilizar a hipnose*, inspiran-       caso (Emma Eckstein*), a publicao de um
do-se nos mtodos de sugesto* de Hippolyte           primeiro grande livro, Estudos sobre a histe-
Bernheim*, a quem fez uma visita por ocasio          ria*, no qual so relatadas vrias histrias de
do primeiro congresso internacional de hipno-         mulheres (Bertha Pappenheim*, Fanny Mo-
tismo, que se realizou em Paris em 1889. Em           ser*, Aurelia hm*, Anna von Lieben*, Lucy,
1891, publicou uma monografia, Contribuio           Elisabeth von R., Mathilde H., Rosalie H.), e
 concepo das afasias*, na qual se baseava          enfim o abandono da teoria da seduo* segun-
nas teorias de Hughlings Jackson* para propor         do a qual toda neurose* se explicaria por um
uma abordagem funcional, e no mais apenas            trauma real. Essa renncia, fundamental para a
neurofisiolgica, dos distrbios de linguagem.        histria da psicanlise, ocorreu em 21 de setem-
A doutrina das "localizaes cerebrais" era           bro de 1897. Freud comunicou-a a Fliess em
substituda pelo associacionismo, que abria           tom enftico, em uma carta que se tornaria c-
caminho para a definio de um "aparelho ps-         lebre: "No acredito mais na minha Neurotica."
quico" tal como se encontraria na metapsicolo-            Comeou ento a elaborar sua doutrina da
gia*: ele faz sua primeira formulao em 1896         fantasia*, concebendo em seguida uma nova
e estabelece seus fundamentos no captulo VII         teoria do sonho* e do inconsciente*, centrada
da Interpretao dos sonhos.                          no recalcamento* e no complexo de dipo*.
    Trabalhando ao lado de Breuer, Freud aban-        Seu interesse pela tragdia de Sfocles foi con-
donou progressivamente a hipnose pela catar-          temporneo de sua paixo por Hamlet. Freud
se*, inventou o mtodo da associao livre*, e        era um grande leitor de literatura inglesa, ali-
enfim a psico-anlise. Essa palavra foi empre-        mentando-se especialmente da obra de Shakes-
gada pela primeira vez em 1896, e sua inveno        peare: "Uma idia atravessou o meu esprito,
foi atribuda a Breuer. Em 1897, com um rela-         escreveu a Fliess em 1897, de que o conflito
trio favorvel de Nothnagel e de Richard von         edipiano encenado em dipo rei de Sfocles
Krafft-Ebing*, o nome de Freud foi proposto           poderia estar tambm no cerne de Hamlet. No
para receber o prestigioso ttulo de professor        acredito em uma inteno consciente de Sha-
extraordinrio. Sua nomeao foi ratificada pe-       kespeare, mas, antes, que um acontecimento
lo imperador Francisco-Jos no dia 5 de maro         real levou o poeta a escrever esse drama, tendo
de 1902.                                              seu prprio inconsciente lhe permitido com-
    Ao contrrio de muitos intelectuais vienen-       preender o inconsciente do seu heri."
ses marcados pelo "dio de si judeu", Freud,              Depois de 1926, e a despeito de uma longa
judeu infiel e incrdulo, hostil a todos os rituais   discusso com James Strachey*, Freud acaba-
e  religio, nunca negaria sua judeidade. Como       ria cedendo  crena segundo a qual Shakes-
enfatizou Mans Sperber, ele continuaria sendo        peare no era o autor de sua obra. Alis, esse
"um judeu consciente, que no dissimulava a           tema do deslocamento da atribuio de uma
ningum sua origem, proclamando-a, ao con-            paternidade ou de uma identidade se encontra-
trrio, com dignidade e freqentemente com            ria por vrias vezes em sua obra, principalmente
orgulho. Muitas vezes, afirmou que detestava          em Moiss e o monotesmo*, na qual fez de
Viena e que se sentia como que libertado a cada       Moiss um egpcio.
vez que se afastava dessa cidade, onde crescera           Da nova teoria do inconsciente nasceria um
e  qual ficaria ligado, entretanto, por laos        segundo grande livro, publicado em novembro
indestrutveis. Sua conscincia da identidade         de 1899, A Interpretao dos sonhos*, no qual
judaica permaneceria assim, pois sua origem            relatado o sonho da "Injeo de Irma*", ocor-
nunca foi para ele uma fonte de sentimentos de        rido quando Freud estava em Bellevue, em
276     Freud, Sigmund

julho de 1895, em um pequeno castelo na flores-     conversa, ficou encantado com esse novo mes-
ta vienense: "Voc acredita, escreveu a Fliess      tre. Seria o primeiro discpulo no-judeu de
no dia 12 de junho de 1900, que haver um dia       Freud.
nesta casa uma placa de mrmore com esta                Em 1909, a convite de Grandville Stanley
inscrio: `Foi nesta casa que, em 24 de julho      Hall*, Freud foi, em companhia de Jung e de
de 1895, o mistrio do sonho foi revelado ao        Ferenczi,  Clark University de Worcester, em
doutor Sigmund Freud'? At agora, tenho pou-        Massachusetts, para dar cinco conferncias, que
ca esperana."                                      seriam reunidas sob o ttulo de Cinco lies de
    Entre 1901 e 1905, Freud publicou seu pri-      psicanlise*. Apesar de um encontro produtivo
meiro caso clnico (Dora) e trs outras obras: A    com James Jackson Putnam* e de um sucesso
psicopatologia da vida cotidiana* (1901), Os        considervel, Freud no gostou do continente
chistes e sua relao com o inconsciente*           americano. Durante toda a vida, desconfiaria do
(1905), Trs ensaios sobre a teoria da sexuali-     esprito pragmtico e puritano desse pas que
dade* (1905). Em 1902, com Alfred Adler*,           acolhia suas idias com um entusiasmo ingnuo
Wilhelm Stekel*, Max Kahane (1866-1923) e           e desconcertante.
Rudolf Reitler (1865-1917), fundou a Socie-             Temendo o anti-semitismo e que a psican-
dade Psicolgica das Quartas-Feiras*, primeiro      lise fosse assimilada a uma "cincia judaica",
crculo da histria do freudismo*. Durante os       Freud decidiu "desjudaiz-la", pondo Jung 
anos que se seguiram, muitas personalidades do      frente do movimento. Depois de um primeiro
mundo vienense se juntaram ao grupo: Paul           congresso, que reuniu em Salzburgo em 1908
Federn*, Otto Rank*, Fritz Wittels*, Isidor Sad-    todas as sociedades locais, criou com Ferenczi,
ger*. Foi durante essas reunies que se elaborou    em Nuremberg, em 1910, uma associao inter-
a idia de uma possvel aplicao da psicanlise    nacional, a Internationale Psychoanalytische
a todas as reas do saber: literatura, antropolo-   Vereinigung (IPV). Em 1933, a sigla alem seria
gia*, histria etc. O prprio Freud defendeu a      abandonada. A IPV se tornaria ento a Interna-
noo de psicanlise aplicada*, publicando          tional Psychoanalytical Association* (IPA).
uma fantasia literria: Delrios e sonhos na            Entre 1909 e 1913, Freud publicou mais
Gradiva de Jensen* (1907).                          duas obras: Leonardo da Vinci e uma lembrana
    Em 1907 e 1908, o crculo dos primeiro          da sua infncia* (1910) e Totem e tabu* (1912-
discpulos freudianos se ampliou ainda mais,        1913). A partir de 1910, a expanso do movi-
com a adeso  psicanlise de Hanns Sachs*,         mento se traduziu por dissidncias, tendo como
Sandor Ferenczi, Karl Abraham, Ernest Jones,        motivo simultaneamente querelas pessoais e
Abraham Arden Brill* e Max Eitingon*.               questes tericas e tcnicas. s rivalidades nar-
    Durante o primeiro quarto do sculo, a dou-     csicas se acrescentaram crticas sobre a dura-
trina freudiana se implantou em vrios pases:      o dos tratamentos, a questo da transferncia*
Gr-Bretanha*, Hungria*, Alemanha*, costa           e da contratransferncia*, o lugar da sexuali-
leste dos Estados Unidos*. Na Sua* produziu-      dade* e a definio da noo de inconsciente*.
se um acontecimento maior na histria do mo-        Em 1911, Adler e Stekel se separaram do grupo
vimento psicanaltico: Eugen Bleuler*, mdi-        freudiano. Dois anos depois, Jung e Freud rom-
co-chefe da clnica do Hospital Burghlzli de       peram todas as suas relaes. No suportando
Zurique, comeou a aplicar o mtodo psicana-        desvios em relao  sua doutrina, Freud publi-
ltico ao tratamento das psicoses*, inventando      cou, s vsperas da Primeira Guerra Mundial,
ao mesmo tempo a noo de esquizofrenia*.           um verdadeiro panfleto, "A histria do movi-
Uma nova "terra prometida" se abriu assim          mento psicanaltico", no qual denunciou as trai-
doutrina freudiana: ela podia a partir de ento     es de Jung e Adler. Depois, criou um Comit
investir o saber psiquitrico e tentar dar uma      Secreto*, composto de seus melhores paladi-
soluo para o enigma da loucura* humana.           nos, aos quais distribuiu um anel de fidelidade.
    No dia 3 de maro de 1907, Carl Gustav              Longe de evitar as dissidncias, essa inicia-
Jung, aluno e assistente de Bleuler, foi a Viena    tiva levou a novas querelas. Apoiados por Jones,
para conhecer Freud. Depois de vrias horas de      os berlinenses (Abraham e Eitingon) preconiza-
                                                                          Freud, Sigmund       277

vam a ortodoxia institucional, enquanto os aus-    amizades com mulheres intelectuais, uma ati-
tro-hngaros (Rank e Ferenczi) se interessavam     tude perfeitamente corts, moderna e igualit-
mais pelas inovaes tcnicas. Uma nova dis-       ria. Por sua doutrina e por sua condio de
sidncia marcou ainda a histria desse primeiro    terapeuta, desempenhou um papel na emanci-
freudismo: a de Wilhelm Reich*.                    pao feminina.
    Por volta de 1930, o fenmeno da dis-              Nos anos 1920, Freud publicou trs obras
sidncia deu lugar s cises*, caracterstica da   fundamentais, atravs das quais definiu sua se-
transformao da psicanlise em um movimen-        gunda tpica* e remanejou inteiramente sua
to de massa. A partir da eram os grupos que se    teoria do inconsciente e do dualismo pulsional:
enfrentavam, no mais os discpulos ou os pio-     Mais-alm do princpio de prazer* (1920), Psi-
neiros em rivalidade com o mestre. Isolado em      cologia das massas e anlise do eu* (1921), O
Viena, mas clebre no mundo inteiro, Freud         eu e o isso* (1923). Esse movimento de refor-
prosseguiu sua obra, sem conseguir controlar a     mulao conceitual j comeara em 1914,
poltica de seu movimento. Entre 1919 e 1933,      quando da publicao de um artigo dedicado 
a IPA se transformou em uma verdadeira m-         questo do narcisismo*. Confirmou-se, em
quina burocrtica, com a responsabilidade de       1915, com a elaborao de uma metapsicolo-
resolver todos os problemas tcnicos relativos     gia* e a publicao de um ensaio sobre a guerra
 formao dos psicanalistas.                      e a morte, no qual Freud sublinhava a neces-
    No fim da Primeira Guerra Mundial, a dis-      sidade para o sujeito de "organizar-se em vista
cusso sobre o carter traumtico das afeces     da morte, a fim de melhor suportar a vida".
psquicas foi relanada, com o aparecimento        Dessa reformulao, centrada na dialtica da
das neuroses de guerra*. Freud foi ento con-      vida e da morte e em uma acentuao da opo-
frontado com seu velho rival Julius Wagner-        sio entre o eu* e o isso*, nasceriam as dife-
Jauregg*, acusado de ter submetido soldados        rentes correntes do freudismo moderno: klei-
julgados simuladores a inteis tratamentos el-    nismo*, Ego Psychology*, Self Psychology*,
tricos. Nesse debate, Freud interveio de manei-    lacanismo*, annafreudismo*, Independentes*.
ra magistral para demonstrar a superioridade da        Para postular a existncia de uma pulso* de
psicanlise sobre todos os outros mtodos.         morte, Freud revalorizou duas grandes figuras
    Com o desmoronamento do imprio austro-        da mitologia grega: Eros e Tnatos. Essa revi-
hngaro, Berlim se tornou a capital do freudis-    so da doutrina original se produziu em um
mo, como provou a criao do Berliner Psy-         momento em que a sociedade vienense, j preo-
choanalytisches Institut* (BPI), e as numerosas    cupada com a sua prpria morte desde o fim do
atividades do instituto de Frankfurt em torno de   sculo, se confrontava com a negao absoluta
Otto Fenichel* e da "esquerda freudiana". En-      de sua identidade: a ustria dessa poca, como
quanto os americanos afluam a Viena para se       enfatizou Stefan Zweig, era, no mapa da Euro-
formar no div do mestre, este analisava a pr-    pa, apenas "uma luz crepuscular", uma "sombra
pria filha, Anna Freud. Esta no tardaria a tor-   cinzenta, difusa e sem vida, da antiga monar-
nar-se chefe de escola e a opor-se a Melanie       quia imperial".
Klein*, sua principal rival no campo da psica-         Em fevereiro de 1923, Freud descobriu, do
nlise de crianas*. Nesse aspecto, a oposio     lado direito de seu palato, um pequeno tumor,
entre a escola inglesa e a escola vienense, que    que devia ser logo extirpado. Em um primeiro
se desenvolveu na IPA a partir de 1924 e que       tempo, Felix Deutsch*, seu mdico, lhe ocultou
girava em torno da questo da sexualidade fe-      a natureza maligna desse tumor. Freud se indis-
minina*, mostrou o lugar cada vez mais impor-      ps com ele. Seis meses depois, Hans Pichler,
tante das mulheres no movimento psicanaltico.     cirurgio vienense, procedeu a uma interveno
No centro dessa polmica, Freud manteve sua        radical: a ablao dos maxilares e da parte
teoria da libido nica e do falocentrismo*, sem    direita do palato. Trinta e uma operaes seriam
com isso mostrar-se misgino. Ligado em sua        feitas posteriormente, sob a superviso de Max
vida particular a uma concepo burguesa da        Schur*. Freud foi obrigado a suportar uma pr-
famlia patriarcal, adotava todavia, em suas       tese, que ele chamava de "monstro". "Com seu
278     Freud, Sigmund

palato artificial, escreveu Zweig, ele tinha visi-   tratava os judeus e a psicanlise: "Como ho-
velmente dificuldade para falar [...]. Mas no       mem verdadeiramente humano, escreveu
abandonava seus interlocutores. Sua alma de          Zweig, ele estava profundamente abalado, mas
ao tinha a ambio particular de provar a seus      o pensador no se surpreendia absolutamente
amigos que sua vontade era mais forte que os         com a espantosa irrupo da bestialidade." En-
tormentos mesquinhos que o seu corpo lhe in-         tretanto, no dia seguinte ao incndio do Reichs-
fligia [...]. Era um combate terrvel, e cada vez    tag, decidiu com Eitingon manter a existncia
mais sublime  medida que se estendia. Cada          do BPI. Embora no aprovasse a poltica de
vez que eu o via, a morte jogava mais dis-           "salvamento" da psicanlise, preconizada por
tintamente sua sombra sobre seu rosto [...]. Um      Jones, cometeu o erro de privilegiar a luta contra
dia, quando de uma de minhas ltimas visitas,        os dissidentes (Reich e os adlerianos), ao invs
levei comigo Salvador Dal, a meu ver o pintor       de recusar qualquer compromisso com Mat-
mais talentoso da jovem gerao, que devotava        thias Heinrich Gring*, o que teria levado 
a Freud uma venerao extraordinria. Enquan-        suspenso de todas as atividades psicanalticas,
to eu falava, ele desenhou um esboo. Nunca          logo que Hitler chegou ao poder.
tive coragem de mostr-lo a Freud, pois Dal,            Mas em maro de 1938, no momento da
com sua clarividncia, j representara o traba-      invaso da ustria pelas tropas alems, Richard
lho da morte."                                       Sterba* agiu em sentido contrrio, decidindo
    A doena no impedia Freud de prosseguir         recusar a poltica de Jones e no criar em Viena
com suas atividades, mas o mantinha afastado         um instituto "arianizado" como o de Gring, em
das questes do movimento psicanaltico, e foi       Berlim. Tomou-se ento a deciso de dissolver
Jones quem presidiu os destinos da IPA a partir      a Wiener Psychoanalytische Vereinigung*
de 1934, data na qual Max Eitingon foi obrigado      (WPV) e transport-la "para onde Freud fosse
a deixar a Alemanha.                                 morar". Graas  interveno do diplomata
    Apaixonado por telepatia*, Freud no hesi-       americano William Bullitt (1891-1967) e a um
tou em se dedicar, com Ferenczi, entre 1921 e        resgate pago por Marie Bonaparte*, Freud pde
1933, a experincias ditas "ocultas", que iam        deixar Viena com sua famlia. No momento de
contra a poltica jonesiana, que visava dar         partir, foi obrigado a assinar uma declarao na
psicanlise uma base racional, cientfica e m-      qual afirmava que nem ele nem seus prximos
dica. Em 1926, depois de um processo intentado       haviam sido importunados pelos funcionrios
contra Theodor Reik*, tomou vigorosamente a          do Partido Nacional-Socialista. Em Londres,
defesa dos psicanalistas no-mdicos, publi-         instalou-se em uma bela casa em Maresfield
cando A questo da anlise leiga*. No ano            Gardes 20, futuro Freud Museum*. Ali, redigiu
seguinte, deflagrou com seu amigo Oskar Pfis-        sua ltima obra, Moiss e o monotesmo. Nunca
ter* uma polmica ao publicar O futuro de uma        saberia do destino dado pelos nazistas s suas
iluso*, obra na qual comparava a religio a         quatro irms, exterminadas em campos de con-
uma neurose. Enfim, em 1930, com O mal-estar         centrao.
na cultura*, questionava a capacidade das so-            No comeo do ms de setembro de 1939,
ciedades democrticas modernas de dominar as         escutava o rdio todos os dias. Aos seus familia-
pulses destrutivas que levam os homens  sua        res, que lhe perguntavam se aquela seria a lti-
perda. Dois anos depois, em um intercmbio           ma guerra, respondia: "Ser minha ltima guer-
com Albert Einstein (1879-1955), enfatizou que       ra." Iniciou ento a leitura de Peau de chagrin
o desenvolvimento da cultura era sempre uma          de Honor de Balzac (1799-1850): " exata-
maneira de trabalhar contra a guerra. Entre 1929     mente disso que preciso, disse, este livro fala de
e 1939, manteve uma crnica de seus encontros        definhamento e de morte por inanio." Em 21
(Krzeste Chronik, Crnica brevssima), que          de setembro, pegou a mo de Max Schur e lem-
seria publicada por Michael Molnar em Lon-           brou o primeiro encontro dos dois: "Voc pro-
dres, em 1992. Cada vez mais pessimista quanto       meteu no me abandonar quando chegasse a
ao futuro da humanidade, Freud no tinha ne-         hora. Agora  s uma tortura sem sentido."
nhuma iluso sobre a maneira como o nazismo*         Depois, acrescentou: "Fale com Anna; se ela
                                                                                          Freud, Sophie          279

achar que est bem, vamos acabar com isso."                  Max Schur, Freud: vida e agonia, uma biografia, 3 vols.
                                                             (N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1981  William
Consultada, Anna quis adiar o instante fatal,
                                                             M. Johnston, L'Esprit viennois. Une histoire intellec-
mas Schur insistiu e ela aceitou a deciso. Por              tuelle et sociale, 1848-1938 (N. York, 1972), Paris, PUF,
trs vezes, ele deu a Freud uma injeo de trs              1985  Roger Dufresne, Bibliographie des crits de
centigramas de morfina. Em 23 de setembro, s                Freud en franais, allemand et anglais, Paris, Payot,
                                                             1973  Ernst Freud, Lucie Freud e Ilse Grubrich-Simitis
trs horas da manh, depois de dois dias de co-
                                                             (orgs.), Sigmund Freud. Lieux, visages, objets (Frank-
ma, Freud morreu tranqilamente: "Foi a subli-               furt, 1976), Bruxelas, Complexe-Gallimard, 1979  Ma-
me concluso de uma vida sublime, escreveu                   rianne Krll, Sigmund Freud, fils de Jacob (Munique,
Zweig, uma morte memorvel em meio  heca-                   1979), Paris, Gallimard, 1983  Ingeborg Meyer-Pal-
tombe daquela poca mortfera. E quando ns,                 medo, Sigmund Freud. Konkordanz und Gesamtbiblio-
                                                             graphie, Frankfurt, Fischer, 1982  Gerhard Fichtner,
seus amigos, enterramos seu caixo, sabamos                 Freud-Bibliographie und Werkkonkordanz, Frankfurt,
que confivamos  terra inglesa o que a nossa                Fischer, 1989  Peter Gay, Um judeu sem deus (N.
ptria tinha de melhor."                                     York, 1987), Rio de Janeiro, Imago, 1992; Freud: uma
    As cinzas de Freud repousam no crematrio                vida para o nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo,
                                                             Companhia das Letras, 1995; Lendo Freud (N. York,
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                                                             mitis, "Histoire de l'dition des oeuvres de Freud en
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York, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994         HALBERSTADT, SOPHIE.
280     freudismo

freudismo                                           comportamentais e cognitivas, a coero moral,
al. Freudianismus; esp. freudismo; fr. freudisme;   mediante persuaso ou autopersuaso, confis-
ing. Freudianism                                    so, transe ou exorcismo, a coero fsica e
                                                    moral (com ou sem abuso sexual), baseada na
    Na histria da psiquiatria dinmica*, cha-
ma-se freudismo  escola de pensamento fun-         reunio em grupos, na alienao e no delrio
dada por Sigmund Freud*. O freudismo inclui         (seitas), a homeopatia, a bioenergtica (medici-
a totalidade das correntes que recorrem a ela,      nas alternativas e parapsicologia) e, por fim, os
sejam quais forem suas divergncias. A histria     mtodos ligados ao ocultismo* (astrologia, vi-
do freudismo e de sua identificao terica,        dncia, espiritismo*, telepatia*).
sociolgica e poltica confunde-se, portanto,           Em relao s outras medicinas da alma e do
com a histria das sucessivas interpretaes da     psiquismo tambm fundamentadas no trata-
doutrina original, tal como Freud construiu sua     mento pela fala, e que se renem em diversas
arquitetura.                                        escolas de psicoterapia*, a psicanlise  a nica
    Seus herdeiros, chamados freudianos, modi-      a recorrer exclusivamente ao sistema de pensa-
ficaram-na atravs de pelo menos quatro ge-         mento freudiano e a empregar uma tcnica de
raes* de pensadores, comentadores, intr-         tratamento e de transformao da clnica basea-
pretes, terapeutas ou chefes de escola, agrupa-     da na transferncia, bem como na obrigao de
dos ou no em diversas instituies, dentre as      o prprio terapeuta recorrer  psicanlise (dita
quais a mais antiga e de longe a mais poderosa      didtica* e, posteriormente, de controle ou su-
 a International Psychoanalytical Association*     perviso*), assim como numa concepo do
(IPA). Desde sua criao, em 1910, ela se atri-     psiquismo em que entram em jogo as definies
buiu a tarefa de definir as regras de um ensino     freudianas do inconsciente e da sexualidade.
terico e uma formao chamada didtica dos             Quanto a esse aspecto, o freudismo divide-se
terapeutas denominados de psicanalistas, in-        em seis grandes componentes fundamentais,
dependentemente de sua outra formao (mdi-        nascidos entre 1930 e 1960: o annafreudismo*,
ca, psiquitrica ou leiga).                         o kleinismo*, a Ego Psychology*, os Indepen-
    O freudismo  a aliana de um sistema de        dentes*, a Self Psychology* e o lacanismo*. Os
pensamento com um mtodo teraputico. O             cinco primeiros so amplamente aceitos e
sistema freudiano baseia-se em uma concepo        difundidos na IPA, ao passo que o sexto criou,
do inconsciente* que exclui qualquer idia de       a partir de 1964, seu prprio modelo ins-
subconscincia ou supraconscincia, em uma          titucional (a cole Freudienne de Paris*, EFP).
teoria da sexualidade* que se estende a todas as    Em 1981, esta se fragmentou numa multiplici-
formas sublimadas da atividade humana, sendo        dade de correntes, das quais apenas uma fundou
portanto irredutvel  simples atividade sexual     uma nova internacional: a Association Mon-
ou a suas transgresses, e, por ltimo, em uma      diale de Psychanalyse* (AMP).
apreenso da relao teraputica em termos da           Diversos outros mtodos psicoterpicos, es-
transferncia*. Embora tenha nascido da medi-       colas ou correntes recorrem em maior ou menor
cina e da psiquiatria -- e embora seja freqen-     grau ao freudismo, sem adotar seu sistema de
temente praticado por mdicos ou psiquiatras        pensamento nem sua tcnica, e tampouco seu
--, o mtodo teraputico freudiano  a psican-     princpio didtico. Ora so nascidos de uma
lise* e to-somente a psicanlise. Sua caracte-     ciso*, de uma dissidncia ou de uma colabo-
rstica  tratar atravs da fala, e unicamente      rao com o freudismo, havendo ou no preser-
atravs da fala, as doenas da alma (psicose*,      vado a marca dessa associao (psicologia in-
melancolia*), dos nervos (neurose*) e da sexua-     dividual, psicologia analtica, neofreudismo*,
lidade (perverso*), excluindo voluntariamente      Gestalt-terapia*, neopsicanlise, anlise exis-
qualquer outra forma de interveno, tais como      tencial*, etnopsicanlise*, psicologia profunda
o exame clnico e os cuidados corporais adap-       etc.), ora existiam independentemente do freu-
tados a cada parte do organismo, as massagens,      dismo e se desenvolveram nas margens dele, de
a cirurgia, a hipnose*, a hidroterapia, a farma-    acordo com uma dialtica da interioridade e da
cologia, a sugesto*, a internao, as terapias     exterioridade (psicodrama*, psicologia clni-
                                                                                  freudo-marxismo         281

ca*, medicina psicossomtica*, psicoterapia                nealogias (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Relume Du-
                                                           mar, 1996.
institucional*, terapia de famlia*).
    Como sistema de pensamento, o freudismo                 ADLER, ALFRED; COMUNISMO; DIFERENA
marcou as artes e os campos do saber que lhe               SEXUAL; FREUDO-MARXISMO; HISTRIA DA PSICA-
eram preexistentes (psicologia, psiquiatria, fi-           NLISE; HORNEY, KAREN; IGREJA; JANET, PIERRE;
losofia, histria, religio, literatura, pintura) e        JUNG, CARL GUSTAV; SEXUALIDADE FEMININA.
todos os que se constituram ao mesmo tempo
que ele e se formularam perguntas equiparveis
(antropologia*, sexologia*, criminologia*,                 freudo-marxismo
lingstica). Havendo atravessado todo o sculo            al. Freudomarxismus; esp. freudomarxismo; fr.
XX, o freudismo cruzou, por outro lado, a his-             freudo-marxisme; ing. Freudian marxism
tria de duas grandes correntes de pensamento                  O freudo-marxismo  uma corrente intelec-
que se desenvolveram no mundo e que forma-                 tual que perpassa toda a histria do pensamento
ram um movimento: o marxismo e o feminis-                  freudiano, de 1920 a 1975, tanto de um ponto
mo. Atravessou tambm a histria do cinema-                de vista doutrinal (ligao entre o freudismo* e
tgrafo, nascida na mesma poca que ele.                   o marxismo) quanto do ponto de vista poltico
    Como escola de pensamento que alia um                  (relaes entre o comunismo* e a psicanlise*
saber clnico a uma teoria e a um movimento                na Rssia*, na Alemanha*, na Hungria*, na
institucional, o freudismo produziu uma his-               Frana*, no Brasil*, na Argentina*, na Itlia* e
toriografia* oficial, baseada na idealizao de            nos Estados Unidos*). Os representantes dessa
suas origens (idolatria do mestre fundador), e             corrente foram muito variados. Os filsofos da
um dogmatismo. Pelas mesmas razes, susci-                 Escola de Frankfurt, em especial Max Hork-
tou em seu seio, em virtude da diversidade de              heimer (1895-1973), criticaram o pessimismo
suas escolas e suas correntes, as condies de             freudiano, incompatvel, a seu ver, com as es-
uma crtica a esse dogmatismo.                             peranas revolucionrias suscitadas pelo mar-
                                                           xismo, mas conseguiram ligar as duas doutrinas
 Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3        de maneira muito fecunda.
vols. (N. York, 1953, 1955, 1961), Rio de Janeiro,
Imago, 1989  Franz Alexander, Samuel Eisenstein e
                                                               De Wilhelm Reich* (simultaneamente mar-
Martin Grotjahn (orgs.), A histria da psicanlise atra-   xista, freudiano e comunista) a Otto Fenichel*
vs dos seus pioneiros, 2 vols. (N. York, 1956), Rio de    ou Marie Langer* (representantes de uma es-
Janeiro, Imago, 1981  Nandor Fodor e Frank Gaynor         querda freudiana marxista e social-democrata),
(orgs.), Freud Dictionary of Psychoanalysis, Green-        at os artfices do neofreudismo* (menos mar-
wich (Connecticut), Fawcett, 1958  Jean Laplanche e
Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise
                                                           xistas do que culturalistas), passando por Jo-
(Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.     seph Wortis* (que foi stalinista e, depois, anti-
Charles Rycroft, A Critical Dictionary of Psychoanaly-     freudiano) e Herbert Marcuse* (que reacendeu
sis, N. York, Basic Books, 1968  E. Burness, M.D.         o debate em meados dos anos sessenta, atravs
Moore e Bernard D. Fine (orgs.), A Glossary of Psy-        de uma virulenta crtica a seus predecessores
choanalytic Terms and Concepts (APsaA), Washing-
ton, Library of Congress, 1968  Ludwig Eidelberg
                                                           neofreudianos), todos os freudo-marxistas liga-
(org.), Encyclopedia of Psychoanalysis, N. York, The       ram-se  idia de que o freudismo e o marxismo
Free Press, Londres, Collier-Macmillan, 1968  Jac-        so duas doutrinas da libertao do homem,
ques Mousseau e Pierre-Franois Moreau (orgs.), L'In-      articuladas com o paradigma da Revoluo. A
conscient, Paris, CEPL, 1976  Ernst Freud, Lucie          primeira visa a transformar o sujeito* atravs
Freud e Ilse Grubrich-Simitis (orgs.), Sigmund Freud.
Lieux, visages, objets (1976), Bruxelas, Complexe-
                                                           da explorao singular de seu inconsciente*, a
Gallimard, 1979  Michel Plon, "Les Fondements de la       segunda, a transformar a sociedade, atravs da
psychanalyse", in Mmoires du XXe sicle, vol. 1900-       luta coletiva e da considerao das reviravoltas
1909, Paris, Bordas, 1991, 27-31  Pierre Kaufmann         induzidas pelo movimento da economia.
(org.), Dicionrio enciclopdico de psicanlise: o lega-       Todos os freudianos que aderiram ao mar-
do de Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro,
Jorge Zahar, 1996  Edith Kurzweil, The Freudians. A       xismo foram perseguidos, expulsos ou margi-
Comparative Perspective, New Haven, Londres, Yale          nalizados pela International Psychoanalytical
University Press, 1989  lisabeth Roudinesco, Ge-         Association* (IPA), em particular sob a direo
282     Freund, Anton von

de Ernest Jones*, que preferiu compactuar com       titudo a Freud, mas a viva se recusou a sepa-
o nazismo*, em nome de uma poltica de "sal-        rar-se dele. Assim, Freud deu a Max Eitingon*,
vamento" da psicanlise na Alemanha, a se           que lhe sucedeu no Comit, o seu prprio anel,
interessar pelos freudianos de esquerda e de        com uma cabea de Jpiter.
extrema esquerda. Esses mesmos freudianos               Freud ficou abalado com a morte do amigo,
marxistas foram igualmente rejeitados pelo mo-      que ocorreu exatamente antes da de sua filha
vimento comunista internacional, que no se         Sophie, e redigiu sobre ele um necrolgio.
cansou de condenar o freudismo*, assimilado,
at 1940, a uma biologia decadente e mortfera       Sigmund Freud, "Dr. Anton von Freund" (1920), ESB,
                                                    XVIII, 321-3; GW, XIII, 435-6; SE, XVIII, 267-8 
dos instintos, e mais tarde, a partir de 1948, a    Sigmund Freud e Sandor Ferenczi, Correspondance,
uma "cincia burguesa".                             vol.II, 1914-1919, Paris, Calmann-Lvy, 1996  Elke
    Por outro lado, os membros da antiga es-        Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psychoana-
querda freudiana alem, reunidos em torno de        lyse. Die Mitglieder der Psychologischen Mittwoch-Ge-
                                                    sellschaft und der Wiener Psychoanalytischen Ve-
Fenichel, foram obrigados, a partir de seu exlio
                                                    reinigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992.
nos Estados Unidos* (entre 1933 e 1938), pri-
meiro a dissimular sua antiga adeso ao marxis-      PULSO.
mo, e depois, num segundo momento, a renun-
ciar a este e se submeter  americanizao da
psicanlise e a seu ideal adaptativo.               Friedlnder, Kate, ne Frankl
 ADLER, ALFRED; ANTIPSIQUIATRIA; BASAGLIA,          (1903-1949)
FRANCO; BLEGER, JOS; FROMM, ERICH; IGREJA;         psiquiatra e psicanalista inglesa
JACOBSON, EDITH; LACANISMO; MASOTTA, OS-                Grande especialista em delinqncia juve-
CAR; PESTE; SCHMIDT, VERA.                          nil, Kate Friedlnder era uma bela mulher, inte-
                                                    ligente, esportiva e ambiciosa, dotada para as
                                                    coisas do esprito e amante do risco. Praticava
Freund, Anton von, n Antal Freund                  a dana, o tnis, o alpinismo, patinao no gelo
von Tszeghi (1880-1920)                            e enfrentou durante toda a vida os inmeros
    Esse rico cervejeiro hngaro, nascido em        sofrimentos de uma juventude atormentada pe-
Budapeste, estudou filosofia e se tornou um dos     la revolta e pela recusa dos valores da sociedade
amigos mais prximos de Sigmund Freud*,             ocidental.
depois que este o tratou de uma neurose conse-          Nasceu em Innsbruck, em uma famlia judia
cutiva a um tumor maligno de um testculo. Par-     da mdia burguesia austraca e logo se orientou
ticipou das reunies da Wiener Psychoanalytis-      para a medicina. Foi em Berlim, em 1929-1930,
che Vereinigung (WPV) e recebeu o anel de fi-       quando era psiquiatra no tribunal de crianas,
delidade distribudo por Freud a seus fiis dis-    que se encontrou com a histria do freudismo.
cpulos quando da criao do Comit Secreto*.       Provavelmente analisou-se com Hanns Sachs*
    Ajudou financeiramente a causa psicanalti-     e fez amizade com Otto Fenichel* e o crculo
ca, permitindo a Freud fundar a casa editora do     da "esquerda freudiana", da qual participou
movimento, a Internationaler Psychoanalytis-        com Barbara Lantos (1894-1962), uma psica-
cher Verlag (ou Verlag), da qual Otto Rank* foi     nalista hngara com quem prosseguiu seu traba-
o primeiro diretor. No comeo do ano de 1919,       lho em Londres.
foi a Viena para fazer radioterapia, depois do          Emigrando para a Gr-Bretanha* em 1933,
agravamento de seu cncer. Freud admirava seu       integrou-se  British Psychoanalytical Society
herosmo e enfatizou que ele acabara com sua        (BPS) graas a Ernest Jones* e a Edward Glo-
neurose, que era a partir de ento razovel,        ver*. Mas foi obrigada a refazer todos os seus
intuitivo, sensato e realista.                      diplomas de medicina. (Recebeu, entre outros,
    Morreu em 21 de janeiro de 1920, perfeita-      o prestigioso diploma in psychological mede-
mente consciente de seu estado, depois de doar      cine.) Prxima de Anna Freud*, aliou-se a esta
uma soma de 11.000 coroas a Freud. Segundo          por ocasio das Grandes Controvrsias* e fez
sua ltima vontade, seu anel deveria ser res-       com ela uma anlise de superviso*. Depois da
                                                                                Frink, Horace W.       283

guerra, convenceu-a a criar a famosa Hamps-               plorado" pacientes, devemos dizer, na verdade,
tead Child Therapy Clinic.                                que com Horace Frink, ele se comportou real-
    Foi ento que se consagrou plenamente  sua           mente de maneira desastrosa. No encontro com
profisso, escrevendo vrias obras sobre a de-            esse homem atingido por uma grave psicose
linqncia, nas quais distinguia nitidamente a            manaco-depressiva*, cristalizou-se certamen-
associalidade da neurose*. Durante a guerra,              te todo o horror consciente e inconsciente que
trabalhara em Londres, morando com seu ma-                a sociedade americana lhe inspirava, seu puri-
rido, professor de sociologia em Oxford, e sua            tanismo em relao  sexualidade*, seus d-
filha Sybil, em uma fazenda da regio de Chil-            lares e aquela maneira de transformar a psica-
terns. Essa experincia da vida rural a ajudou a          nlise* em higienismo psiquitrico -- "o pau
criar em 1946 um centro de guidance, o West               para toda obra da psiquiatria", como ele diria
Sussex Child Guidance Service, no qual recebia            por ocasio do debate sobre A questo da an-
crianas perturbadas e formava trabalhadores              lise leiga*. Foi a Paulo Roazen que ele contou
sociais e psicoterapeutas na abordagem psica-             pela primeira vez a histria dessa triste expe-
naltica da delinqncia. Sofrendo de mets-              rincia analtica.
tases cerebrais em conseqncia de um cncer                  Brilhante psiquiatra, Horace Frink, inicial-
de pulmo, morreu aos 46 anos em plena ativi-             mente analisado por Abraham Arden Brill*, foi
dade, sem ter podido terminar a sua obra.                 a Viena* em 1920 para fazer um novo tratamen-
    Embora Kate Friedlnder tenha sido amiga              to com Freud, que na poca vivia em grande
de Anna Freud, seus trabalhos foram acolhidos             parte do dinheiro que lhe davam os americanos
com muita hostilidade nos meios psicanalticos            que vinham analisar-se com ele: Clarence
britnicos. Sua independncia, sua ausncia de            Oberndorf*, Leonard Blumgart (1881-1959),
submisso s normas da International Psychoa-             Monroe Meyer (1892-1939), Albert Polon etc.
nalytical Association* (IPA), sua liberdade de            Freud logo manifestou a Frink uma confiana
esprito, seu engajamento na esquerda e enfim             ilimitada, a ponto de querer fazer dele seu prin-
sua concepo no-adaptadora da psicanlise               cipal delegado nos Estados Unidos*. Tratava-se
de adolescentes a marginalizaram.                         de contrabalanar o poder excessivamente
                                                          grande de Brill em Nova York.
 Kate Friedlnder, The Psycho-Analytical Study of the
Child. The Psycho-Analytical Approach of Juvenile De-         Durante o tratamento, Frink se apaixonou
linquency, 1947  Barbara Lantos, "Kate Friedlnder,      por uma de suas ex-pacientes, rica herdeira e
1903-1949. Prevention of juvenile delinquency", in        miliardria: Anjelika Bijur. Apoiado por Freud,
Franz Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grotjahn
                                                          casou-se com ela, depois de se divorciar da
(orgs.), A histria da psicanlise atravs de seus pio-
neiros (N. York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981      primeira mulher, e levou-a a Viena. Freud a
Juta Haager, Kate Friedlnder (1902-1949), Leben und      recebeu e lhe explicou que Frink correria o risco
Werk, tese da Universidade de Colnia, 1982  Elisa-      de se tornar homossexual se ela o deixasse.
beth Young-Bruehl, Anna Freud: uma biografia (N.
                                                          Depois, props a Frink participar financeira-
York, 1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Sybil Wol-
fram, "Kate Friedlnder et la psychanalyse", L'ne, 51,   mente do movimento psicanaltico. O caso pro-
julho-setembro de 1992, 3-6.                              vocou escndalo: o marido de Anjelika amea-
                                                          ou processar Freud por ter manipulado sua
 AICHHORN, AUGUST; ANTIPSIQUIATRIA; GARDI-                mulher e rompido seu casamento, mas morreu
NER, MURIEL; JACOBSON, EDITH; PSICANLISE DE              antes de faz-lo, no mesmo momento que a
CRIANAS.                                                 primeira mulher de Frink.
                                                              Frink logo mergulhou na melancolia* e foi
                                                          tratado por Adolf Meyer*, que o hospitalizou e
Frink, Horace W. (1883-1935)                              aconselhou a Anjelika que o apoiasse. Ela se
psiquiatra e psicanalista americano                       recusou e separou-se dele, acusando Freud re-
   Se Sigmund Freud foi muitas vezes injus-               troativamente de t-la manipulado. Em 1935,
tamente acusado de todo tipo de torpezas ima-             Frink casou-se pela terceira vez. Mas, depois de
ginrias, e principalmente de ter disfarado fra-         um novo acesso de melancolia, foi novamente
cassos teraputicos em sucessos ou de ter "ex-            internado e morreu no hospital. Freud fizera um
284      Fromm, Erich

diagnstico errado, ignorando a loucura* de seu          "esquerda freudiana", que foi a origem do
paciente, que tomou por um homossexual recal-           freudo-marxismo*. Nesse ambiente, ficou co-
cado. Constrangido, no reconheceu franca-              nhecendo Frieda Reichmann, que seria sua
mente o seu erro. Esse caso mostra bem a difi-          quarta analista, antes de se tornar sua mulher,
culdade que ele tinha em se confrontar com a            sob o nome de Frieda Fromm-Reichmann*. No
psicose*. De qualquer forma, o episdio contri-         perodo entre-guerras, criticou a tese clssica do
buiu para desacreditar a psicanlise nos Estados        complexo de dipo* e valorizou o matriarcado,
Unidos.                                                 em detrimento do patriarcado*, inspirando-se
   Quando Abram Kardiner* falou de Frink                nos trabalhos de Johann Jakob Bachofen (1815-
com Freud, este respondeu com sua lucidez               1887), em uma perspectiva prxima da de Frie-
habitual: "Voc disse um dia que a anlise no          drich Engels (1820-1895). Em 1946, seria du-
podia fazer mal a ningum. Pois bem, deixe-me           ramente atacado por Theodor Adorno por seu
mostrar-lhe uma coisa." Mostrou-lhe ento               "revisionismo" anti-freudiano e, mais tarde, por
duas fotografias de Frink, uma feita durante a          Marcuse.
anlise, outra depois. Na primeira, ele tinha               Em 1934, fugindo do nazismo*, instalou-se
aparncia normal, mas na segunda tinha o olhar          nos Estados Unidos*, onde foi companheiro de
perdido, parecendo muito magro e doente.                Karen Horney* e depois analista de sua filha.
   Em 1988, a filha de Frink encontrou nos              Ensinou ento em muitas universidades, apro-
papis de Adolf Meyer a correspondncia de              ximando-se da corrente psicanaltica de ins-
seu pai com Freud e vrios documentos cujo              pirao culturalista. Recusando-se a aderir a um
contedo revelou em uma revista, acusando o             grupo ou a uma escola, praticou a psicanlise
mestre de Viena de ter sido um charlato. Mui-          em Nova York, renunciando  maioria das re-
tos adeptos da historiografia* revisionista se          gras tcnicas em vigor na International Psy-
aproveitaram disso para acusar Freud de ter             choanalytical Association* (IPA), particular-
manipulado todos os seus pacientes, subita-             mente aos tratamentos no div. Assim, privile-
mente transformados em vtimas das perfdias            giou, como todos os artfices das escolas de
da psicanlise.                                         psicoterapia*, a tcnica do face a face e as
                                                        experincias de grupo. A partir de 1951, como
 Horace W. Frink, Morbid Fears and Compulsions,        Igor Caruso*, instalou-se na Cidade do Mxico,
Boston, Moffat, Yard & Co, 1918  Abram Kardiner, Mon
                                                        onde o freudismo no se implantara, sendo con-
analyse avec Freud (N. York, 1977), Paris, Belfond,
1978  Paul Roazen, Freud e seus discpulos (N. York,   siderado uma doutrina imperialista importada
1971), S. Paulo, Cultrix, 1978.                         dos Estados Unidos*.
                                                            Cosmopolita, culturalista, apaixonado por
                                                        histria das religies e sempre tentado pelo
Fromm, Erich (1900-1980)                                sincretismo messinico, em sua opinio nico
                                                        capaz de permitir a emancipao individual,
psicanalista americano
                                                        Erich Fromm publicou muitas obras. Fez da
    Originrio de uma famlia de judeus alemes         psicanlise a expresso ltima de uma crise
apegados  tradio ortodoxa, Erich Fromm               espiritual do homem ocidental, desejoso de se
militou aos 15 anos no movimento da juventude           libertar de seu inconsciente*, contestou radical-
sionista, antes de estudar direito e filosofia na       mente o universalismo freudiano e a filosofia
Universidade de Frankfurt. Por volta de 1922,           do Iluminismo, em nome do relativismo cultu-
voltou-se para a psicanlise* e recebeu sua for-        ral, e pregou os valores de um humanismo
mao didtica em Berlim, com Hanns Sachs*              individualista. Por conseguinte, mostrou-se
e Theodor Reik*. Voltando a Frankfurt, fez              hostil a todas as formas de tirania e de autorita-
anlise durante algum tempo com Karl Lan-               rismo, fossem elas polticas ou familiares, fa-
dauer* e comeou uma carreira universitria,            zendo ao mesmo tempo da tcnica do tratamen-
ligando-se aos filsofos da Escola de Frankfurt:        to um instrumento de adaptao  sociedade.
Herbert Marcuse*, Theodor Adorno (1903-
1969) e Max Horkheimer (1895-1973). Como                 Erich From, O medo da liberdade (N. York 1941), Rio
Otto Fenichel* e Wilhelm Reich*, integrou-se            de Janeiro, Guanabara, 1986; L'Homme pour lui-mme
                                                                                         frustrao      285

(N. York, 1947), Paris, ditions Sociales Franaises,       Estado em que fica um sujeito* quando lhe  recu-
1967; A arte de amar (N. York, 1956, Paris, 1967), B.       sada ou quando ele se probe a satisfao de uma
Horizonte, Itatiaia, 1964; La Mission de Sigmund            demanda de origem pulsional.
Freud. Une analyse de sa personnalit et de son
influence (N. York, 1959), Bruxelas, Complexe, 1975;            Na linguagem corrente, a utilizao do ter-
O conceito marxista do homem (N. York, 1961), Rio de        mo frustrao para designar, indiferentemente,
Janeiro, Guanabara, 1986; La Crise de la psychana-          o desprazer, a insatisfao ou mesmo a contra-
lyse (N. York, 1970), Paris, Anthropos, 1971; La Pas-
sion de dtruire (N. York, 1973), Paris, Laffont, 1975; A
                                                            riedade tende a ocultar a importncia conceitual
linguagem esquecida (Paris, Payot, 1975), Rio de Ja-        dessa palavra na doutrina freudiana e na teori-
neiro, Guanabara, 1986  Martin Jay, L'Imagination          zao lacaniana.
dialectique. Histoire de l'cole de Frankfurt, 1923-1950        Para Sigmund Freud*, e isso aparece j no
(Boston, 1973), Paris, Payot, 1977  Jean-Baptiste Fa-
gs, Histoire de la psychanalyse aprs Freud (1976),
                                                            artigo de 1912 sobre os "Tipos de desencadea-
Paris, Odile Jacob, 1996  Grard D. Khoury "Erich          mento da neurose", a frustrao (Versagung)
Fromm, 1900-1980", Encyclopaedia universalis, Paris,        no implica, sistematicamente, a idia de pas-
1981, 550-1  Russel Jacoby, Otto Fenichel. Destin de       sividade. Freud rene sob esse termo tanto a
la gauche freudienne (1983), Paris, PUF, 1986.
                                                            insatisfao devida  recusa de um agente ex-
 ALEMANHA; CULTURALISMO; FILIAO; HISTRIA                 terno a atender a uma exigncia libidinal quanto
DA PSICANLISE; JAPO; NEOFREUDISMO; SULLI-                 a insatisfao ligada a fatores internos, como
VAN, HARRY STACK.                                           inibio e defesas do eu, que leva a formulaes
                                                            hesitantes, canhestras ou impossveis da
                                                            demanda.
Fromm-Reichmann, Frieda,                                        Aps a importante modificao metapsico-
ne Reichmann (1889-1957)                                   lgica introduzida pelo conceito de narcisis-
psiquiatra e psicanalista americana                         mo*, Freud estabeleceu, em 1916, no artigo
    Originria da Alemanha e membro do Ins-                 "Alguns tipos de carter encontrados no traba-
tituto Psicanaltico de Frankfurt, onde co-                 lho psicanaltico", uma distino entre a frus-
nheceu Erich Fromm*, que foi seu analisando                 trao externa e a frustrao interna. "O traba-
antes de se tornar seu marido, Frieda Reich-                lho psicanaltico doou-nos esta tese: os seres
mann dirigiu tambm em Heidelberg um sana-                  humanos tornam-se neurticos em decorrncia
trio para moas judias ortodoxas. Fugindo do               da frustrao." A neurose resulta do conflito
nazismo*, emigrou para os Estados Unidos*,                  entre os desejos libidinais do ser humano e
passando por Estrasburgo e pela Palestina. Tor-             aquela parte dele, seu eu*, sede das pulses de
nou-se ento, por suas funes na prestigiosa               autoconservao e de seus ideais, que zela por
Chestnut Lodge Clinic, uma das principais in-               evitar-lhe o desprazer que seria acarretado por
trodutoras da psicanlise* no saber psiquitrico            estados de excitao excessivos. A frustrao de
americano do ps-guerra. Teve um papel im-                  uma satisfao muito real constitui, portanto,
portante junto a Harry Stack Sullivan*, quando              uma das causas da neurose.
da criao da Washington-Baltimore Psychoa-                     Sendo assim, como explicar os casos em que
nalytic Society. Fumante, alcolatra e prxima              o sujeito adoece no exato momento em que seu
dos pacientes psicticos de quem tratou durante             desejo est prestes a se realizar? Alm dos
toda a vida, teve uma existncia movimentada                exemplos clnicos dados por Freud, podemos
e pouco conformista. Morreu aos 68 anos, de                 evocar o dos atletas que parecem subitamente
um ataque cardaco fulminante.                              atingidos pelo que se costuma chamar de medo
                                                            da vitria. Aparentemente, h nisso uma contra-
 BORDERLINE; ESQUIZOFRENIA;             HORNEY, KA-         dio da tese da frustrao como causa do ata-
REN; PSICOSE.                                               que neurtico. Resolver esse obstculo pres-
                                                            supe distinguir uma frustrao externa de uma
                                                            frustrao interna. "Quando, na realidade", es-
frustrao                                                  creve Freud, "desaparece o objeto atravs do
al. Versagung; esp. frustracin; fr. frustration; ing.      qual a libido* pode encontrar satisfao, h uma
frustration                                                 frustrao externa. Ela  sem efeito em si e se
286     Futuro de uma iluso, O

mantm no patognica enquanto no lhe             processos. Se ela especifica a vivncia de um
associada uma frustrao interna."                  tempo da fase edipiana, a frustrao, definida
    A frustrao interna est sempre presente,      por Lacan como a falta imaginria do objeto
marca a permanncia do conflito entre o eu e a      real, encontra sua origem em "traumas, fixaes
libido, mas "no entra em ao enquanto a           e impresses provenientes de experincias pr-
frustrao externa real no lhe prepara o ter-      edipianas". Por isso, ela constitui o "terreno
reno". Nas situaes contraditrias evocadas        preparatrio, a base e o fundamento" do dipo.
acima, a frustrao interna intervm depois que         Essa inscrio da frustrao no campo do
"a frustrao externa deu margem  realizao       imaginrio foi algo a que Lacan voltou no ano
do desejo*". Enquanto esse desejo, o desejo de      seguinte, em seu seminrio As formaes do
vencer, de ter sucesso etc., permanece na ordem     inconsciente. Neste, a frustrao foi estudada
da fantasia*, o eu o tolera:  ante a aproximao   como efeito de uma demanda excessiva, no
da realizao, no momento em que a fantasia         limite do formulvel, a propsito de um objeto
est prestes a ser objeto de uma transformao      real e, como tal, impossvel. O pnis, objeto da
real, que o eu intervm para inibir, aniquilar a    frustrao da menina, constitui o modelo origi-
operao.                                           nal desse objeto impossvel, e a descoberta de
    Em 1927, em O futuro de uma iluso, Freud       sua ausncia na mulher pela criana provoca a
deu uma definio muito precisa da palavra          frustrao, ponto de ancoragem de manifes-
frustrao, relacionada por ele com a proibio     taes neurticas, como atesta a observao
e a privao. A frustrao  definida ali como o    clnica do caso do "Pequeno Hans" (Herbert
resultado da insatisfao de uma pulso, a proi-    Graf*).
bio, como o meio atravs do qual a frustrao      Sigmund Freud, "Tipos de desencadeamento da neu-
 infligida, e a privao, como o estado produ-     rose" (1912), ESB, XII, 291-307; GW, VIII, 322-30; SE,
zido pela proibio. A frustrao, explica Freud,   XII, 227-38; in Nvrose, psychose et perversion, Paris,
na medida em que resulta de uma insatisfao        PUF, 1973, 175-82; "Sobre o narcisismo: uma introdu-
                                                    o" (1914), ESB, XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV,
libidinal,  tambm produto da limitao geral      67-102; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 80-105;
constituda pela cultura, modalidade de sociali-    "Alguns tipos de carter encontrados no trabalho psi-
zao do ser humano. A frustrao aparece,          canaltico" (1916), ESB, XIV, 351-80; GW, 364-91; SE,
assim, como um estado inerente  condio           XIV, 309-33; in L'Inquitante tranget et autres essais,
                                                    Paris, Gallimard, 1985, 137-71; "Linhas de progresso
humana.                                             na terapia psicanaltica" (1918), ESB, XVII, 201-16;
    O estado de frustrao  uma dimenso es-       GW, XII, 183-94; SE, XVII, 157-68; in La Technique
sencial no tratamento psicanaltico. Deve ser       psychanalytique, Paris, PUF, 1953, 131-41; O futuro de
mantido pelo analista, sobretudo atravs do res-    uma iluso (1927), ESB, XXI, 15-80; GW, XIV, 325-80;
                                                    SE, XXI, 5-56; OC, XVIII, 141-97  Jol Dor, Introduo
peito  regra de abstinncia*, constituindo a        leitura de Lacan, t.I (Paris, 1985), P. Alegre, Artes
frustrao um dos motores do desenrolar da          Mdicas, 1992  Pierre Kaufmann, "Frustrao", in
anlise, um meio importante de lutar contra as      Pierre Kaufmann (org.), Dicionrio enciclopdico de
resistncias*.                                      psicanlise: o legado de Freud e Lacan (Paris, 1993),
                                                    Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996, 216-9  Jacques
    Jacques Lacan* inscreveu o conceito de          Lacan, O Seminrio, livro 4, A relao de objeto (1956-
frustrao em sua tpica* do real*, do simbli-     1957) (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995;
co* e do imaginrio*. A frustrao constitui a      Le Sminaire, livre V, Les Formations de l'inconscient
modalidade na qual a criana vivencia a segun-      (1957-1958), indito  Jean Laplanche e Jean-Bertrand
                                                    Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.
da fase do desenrolar do dipo*. A intruso
                                                    Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.
paterna priva a me do falo* e, com isso, frustra
o filho de sua me.                                  OBJETO, RELAO DE; OBJETO (PEQUENO) a.
    Em seu seminrio dos anos de 1956-1957, A
relao de objeto, Lacan determinou os res-
pectivos registros da frustrao, da privao e     Futuro de uma iluso, O
da castrao*. Estabeleceu o carter primordial     Livro de Sigmund Freud*, publicado em 1927 sob
da relao com o objeto, a natureza da falta        o ttulo Die Zukunft einer Illusion. Traduzido para o
assim constituda, para distinguir esses trs       francs pela primeira vez em 1932, por Marie Bona-
                                                                         Futuro de uma iluso, O        287

parte*, sob o ttulo L'Avenir d'une illusion, e depois,   O casal parental, em particular o pai, garante
em 1994, por Anne Balseinte, Jean-Gilbert Delarbre        um papel protetor, ao mesmo tempo que se faz
e Daniel Hartmann, sem modificao do ttulo. Tra-        temido pelas proibies que enuncia. Alm dis-
duzido para o ingls pela primeira vez em 1928, por       so, tal como a criana, o sujeito humano tem
W.D. Robson-Scott, sob o ttulo The Future of an
                                                          que encontrar meios de se prevenir contra certas
Illusion, retomado sem modificao por James
                                                          foras da natureza que a cultura no pode
Strachey*, em 1961.
                                                          conter, em particular a morte. Para isso, ele
    Na obra de Sigmund Freud*, O futuro de                procura humanizar essas foras aterrorizantes,
uma iluso segue-se  publicao, em 1926, de             fazer delas pais e, mais ainda, deuses, que de-
A questo da anlise leiga*, e precede o lana-           vero assegurar-lhe uma recompensa pelos so-
mento, em 1930, de O mal-estar na cultura*.               frimentos que ele suportou em decorrncia das
No cerne dessa trilogia surge uma temtica                obrigaes que a cultura lhe imps.
comum, como mostra carta do autor a Oskar                     Coloca-se ento a questo do sentido desse
Pfister*, datada de 25 de novembro de 1928.               movimento de deificao, do fundamento des-
Nesta, Freud esclarece que, ao tratar da anlise          sas idias religiosas e das razes pelas quais elas
leiga*, pretendia proteger a psicanlise* dos             so to valorizadas pelos homens.
mdicos, ao passo que, em O futuro de uma                     A segunda parte do livro trata desses trs
iluso, procura defend-la dos padres.                    pontos sob a forma de um dilogo com um
    O ttulo do livro foi tomado de emprstimo            interlocutor fictcio, que no  outro seno o
de uma pea teatral de Romain Rolland*, Liluli,           pastor Pfister, psicanalista e amigo de Freud.
e este apoiou-se no texto de Freud para defender          Essa forma, que Freud diz destinar-se a lhe
sua tese de um "sentimento ocenico", forma               poupar os defeitos caractersticos do monlogo
primria da necessidade do religioso em todos             -- o excesso de segurana e a recusa de qual-
os homens. Por sua vez, no Mal-estar, Freud               quer objeo --, parece, na realidade, ter cons-
discutiria a validade das posies de Rolland.            titudo para ele um meio de lidar com a susce-
    Com O futuro, de qualquer modo, ele retor-            tibilidade de Pfister.
nou ao tema da religio, considerada em sua                   As idias religiosas constituem a realizao
dimenso de ato de f e de crena, perspectiva            dos mais antigos anseios da humanidade, antes
que j examinara em 1907 no artigo "Atos                  de mais nada o de nos protegermos da onipo-
obsessivos e prticas religiosas", onde havia             tncia da natureza, sem termos que suportar as
assimilado a religio a uma neurose obsessiva*.           limitaes e as privaes trazidas pela cultura.
    Desde os primeiros captulos, Freud aborda            Mas tal resultado  impossvel: assim, s pode
um campo muito mais amplo que apenas o da                 tratar-se de uma iluso. Nesse ponto, numa
religio. Com efeito, trata da oposio entre a           nova preocupao de poupar a sensibilidade de
natureza e a cultura, entendida como o conjunto           Pfister, Freud sublinha que iluso no  erro,
dos saberes e tcnicas adquiridos pelo homem              nem tampouco  passvel de ser assimilada 
para dominar as foras da natureza. Ele observa           idia delirante (que se caracteriza pelo fato de
que a cultura, quase sempre imposta  massa               estar em total contradio com a realidade). A
dos homens por uma minoria esclarecida, tem               iluso, esclarece Freud, no  necessariamente
que instaurar, para se edificar, um sistema de            falsa, mas se caracteriza pelo fato de ser um
coeres destinadas a favorecer a renncia pul-           produto dos desejos humanos: que uma jovem
sional. Mesmo que os homens encontrem na                  de situao modesta sonhe casar-se com um
cultura uma proteo contra as foras ameaa-             prncipe diz algo sobre o desejo da moa, sem
doras e destrutivas da natureza, nem por isso             ser totalmente falso, j que h sempre uma
eles so menos hostis s privaes que a cultura          possibilidade, por mais nfima que seja, de que
lhes impe, sobretudo no campo das relaes               esse sonho se realize. A iluso, para se manter,
humanas, a ponto de s vezes se perguntarem               no precisa ser confirmada pelo real. Freud
se ela merece ser defendida.                              sublinha, nesse ponto, que "todas as doutrinas
    Tal situao, comenta Freud, no  nova:              religiosas so iluses" e que " to impossvel
encontramos seu modelo original na infncia.              refut-las quanto prov-las".
288      Futuro de uma iluso, O

    Mas, se o homem tem tanta necessidade da              artigo intitulado "A iluso de um futuro", publi-
religio que chega a se iludir, porventura a              cado na Imago* em 1928. Ali, explicou que a
argumentao freudiana, que denuncia esse                 crtica freudiana confundia a religio com a f,
processo, no traz o risco de desestabiliz-lo? A         e que a prpria posio de Freud era uma iluso.
essa pergunta, formulada por seu interlocutor                 Cinqenta anos depois, o otimismo freudia-
imaginrio, Freud se apressa a responder que os           no talvez parea inconseqente, comparado 
filsofos do Iluminismo j disseram tudo sobre            renovao das foras religiosas pelo mundo
o assunto e que sua prpria contribuio consis-          afora. Mas, justamente por esse retorno da reli-
te, simplesmente, no acrscimo de uma dimen-              giosidade, esse livro, cuja fraqueza Freud subli-
so psicolgica  argumentao deles.                     nhou, deprimido, censurando Ren Laforgue*
    Outra pergunta: no traz essa iniciativa o            por superestimar seu alcance, bem poderia en-
risco de prejudicar a psicanlise? A resposta            contrar uma nova atualidade, para alm dos
eloqente, impregnada de positivismo. A psica-            limites positivistas e anticlericais em que foi
nlise  um meio de investigao cientfica,              encerrado.
"um instrumento imparcial, semelhante, diga-
mos, ao clculo infinitesimal". Sob esse prisma,           Sigmund Freud, "Atos obsessivos e prticas religio-
 to pouco responsvel por aquilo que eviden-            sas" (1907), ESB, IX, 121-36; SE, IX, 116; OC, XVIII,
cia quanto o seria o clculo infinitesimal, na            141-97; O futuro de uma iluso (1927), ESB, XXI,
hiptese de que permitisse a um fsico descobrir          15-80; GW, XIV, 325-80; SE, XXI, 5-56; OC, XVIII,
                                                          141-97; "A questo da anlise leiga" (1926), ESB, XX,
a futura aniquilao do planeta.                          211-84; GW, XIV, 209-86; SE, XX, 183-258; OC, XVIII,
    Maliciosamente, Freud salienta que a luta con-        2-92; "O mal-estar na cultura" (1930), ESB, XXI, 81-
tra a iluso religiosa deveria fazer frente aos efeitos   178; GW, XIV, 421-506; SE, XXI, 64-145; OC, XVIII,
negativos da pedagogia contempornea, que, na             245-333; Correspondance de Sigmund Freud avec le
preocupao de adiar o desenvolvimento sexual e           pasteur Pfister (1909-1939) (Frankfurt, 1963), Paris,
                                                          Gallimard, 1966; "Correspondance entre Sigmund
reforar a dominao da influncia religiosa, con-        Freud e Ren Laforgue" (1923-1937), Nouvelle Revue
tribui para enfraquecer o pensamento daqueles a           de Psychanalyse, 1977, XV, 251-314  Peter Gay,
quem supostamente deve formar.                            Freud: uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988),
    Por fim, j que a religio  comparvel a uma         S. Paulo, Companhia das Letras, 1995  Ernest Jones,
neurose infantil, o psicanalista, conclui Freud,          A vida e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York,
                                                          1953, 1955, 1961), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Henri
pode dar livre curso a seu otimismo, presumin-            Vermorel e Madeleine Vermorel, Sigmund Freud et
do que, tal como a criana, a humanidade conse-           Romain Rolland, Correspondance, 1923-1936, Paris,
guir superar essa fase neurtica.                        PUF, 1993.
    Sem se afastar de seu humor nem de sua
admirao por Freud, Pfister lhe respondeu num             HAITZMANN, CHRISTOPHER; IGREJA.
                                                       G
Gaddini, Eugenio (1916-1985)                                       que trabalhavam com gado e na indstria de
mdico e psicanalista italiano                                     conservao de carne bovina da cidade. Seus
   Nascido em Cerignola, na provncia de Fog-                      pais eram cultos e ela estudou em um dos
gia, Eugenio Gaddini estudou medicina em Ro-                       melhores colgios da Nova Inglaterra, o Wel-
ma. Analisado a partir de 1951 por Emilio Ser-                     lesley College, perto de Boston. Tornando-se
vadio*, tornou-se analista em 1956. Presidente                     pacifista, assistiu ao processo de Sacco e Van-
da Societ Psicoanalitica Italiana (SPI) entre                     zetti, e mobilizou-se a favor destes. Depois,
1978 e 1982, Gaddini dedicou grande parte de                       defendeu uma tese de literatura sobre Mary
sua atividade  promoo e ao reconhecimento                       Shelley. Mas em 1926, depois de um fracasso
da psicanlise italiana, no seio da International                  em uma prova oral, renunciou ao magistrio e
Psychoanalytical Association* (IPA). Seus                          orientou-se para a psicanlise*.
trabalhos, entre os quais vrios artigos publica-                      Como muitos americanos nessa poca, foi
dos no International Journal of Psycho-Analy-                      ento a Viena* para ser analisada por Sigmund
sis*, tratam principalmente dos processos ps-                     Freud*, que a enviou a Ruth Mack-Bruns-
quicos da primeira infncia, na perspectiva                        wick*. Instalada na capital da ustria por vrios
aberta por Donald Woods Winnicott*.                                anos, casou-se com Julian Gardiner, de quem se
                                                                   divorciaria depois, antes de estudar medicina.
 Eugenio Gaddini, Scritti (1953-1985), Milo, Raffaello
Cortina, 1989  Arnaldo Novelletto, "Italy", in Peter              No consultrio de sua analista, ficou conhecen-
Kutter (org.), Psychoanalysis International. Guide to              do Serguei Constantinovitch Pankejeff* (o Ho-
Psychoanalysis throughout the World, Stuttgart, Fro-               mem dos Lobos), que lhe deu aulas de russo e
mann-Holzboog, 1992  Antonio Alberto Semi (org.),                 com quem simpatizou a ponto de analis-lo.
Trattato di psicoanalisi, vol.I, Milo, Raffaello Cortina,
1988.                                                                  Em 1934, engajou-se na luta antifascista ao
                                                                   lado dos socialistas e militou na clandestinidade
                                                                   contra o regime do chanceler Dollfuss, fazen-
Gardiner, Muriel, ne Morris                                       do-se chamar Mary. Sob esse nome, transportou
(1901-1985)                                                        dinheiro e contribuiu para a confeco de pas-
psiquiatra e psicanalista americana                                saportes falsos, tornando-se ao mesmo tempo
    Essa bela e generosa americana, militante do                   psicanalista e educando sua filha. Dedicou parte
antifascismo e dos direitos da mulher, especia-                    de sua fortuna para salvar judeus e organizar
lista em crianas criminosas,  um personagem                      evases destes. Foi assim que encontrou Joseph
de romance. Alis, foi por essa razo que Lillian                  Buttinger, chefe do Partido Social-Democrata
Hellman, a companheira do escritor Dashiell                        austraco, reponsvel pelas ligaes clandes-
Hammett, apropriou-se de sua vida em seu rela-                     tinas com Otto Bauer e Viktor Adler, exilados
to autobiogrfico, Pentimento, que foi de-                         em Brno e em Paris. Buttinger se tornaria seu
pois levado  tela por Fred Zinnemann, no mag-                     companheiro e seu marido.
nfico filme Julia, com Vanessa Redgrave e                             Em 1939, ambos deixaram a ustria para
Jane Fonda.                                                        escapar  Gestapo. Refugiaram-se na Frana*,
    Nascida em Chicago, Muriel Morris era ori-                     onde Josef foi internado em um campo. Final-
ginria de duas ricas famlias de empresrios                      mente, conseguiram chegar aos Estados Uni-
                                                             289
290      Garma, Angel

dos*. Muriel Gardiner dedicou-se depois s               universalis, 1986, 553-4  Entrevista com Ren Major
                                                         em 22 de agosto de 1996.
crianas criminosas e aos delinqentes. Em um
livro de sucesso que publicou em 1976, expli-
cou a combinao dos elementos trgicos pelos
                                                         Garma, Angel, n Angel Juan Garma
quais adolescentes se tornam assassinos ou par-          Zubizarreta (1904-1993)
ricidas.
                                                         psiquiatra e psicanalista argentino
    Com Samuel Guttman, criou a fundao
                                                             Nascido em Bilbao, Angel Garma tinha qua-
Psychoanalytic Studies in Aspen. Nessa antiga
                                                         tro anos quando seus pais deixaram a Espanha*
cidade mineradora do Colorado, que se tornara
                                                         para se instalar em Buenos Aires, onde ocorreu
uma estao de esportes de inverno muito pro-
                                                         a tragdia que marcou toda a sua infncia e da
curada e um centro importante de msica cls-
                                                         qual ele nunca falava: seu pai, rico negociante
sica, reuniam-se no vero, a cada dois anos,             de porcelana, foi assassinado com dois tiros de
psicanalistas clebres. Vinham discutir livre-           fuzil em condies misteriosas. Pouco tempo
mente o seu trabalho e a evoluo da teoria.             depois, sua me casou-se com o irmo de seu
Esses encontros continuavam no inverno em                falecido marido, como na tradio do levirato.
Princeton, em grupos livres de toda filiao             Garma foi portanto educado por seu tio, que se
institucional.                                           tornara seu padrasto, com as duas irms consan-
    Muito prxima de Anna Freud*, Muriel Gar-            gneas nascidas desse casamento.
diner se mostrou generosa com o movimento                    Aos 17 anos, foi a Madri para estudar psi-
psicanaltico, criando a New-Land Foundation,            quiatria, sob a direo de Gregorio Maraon.
que contribuiu para a compra e a publicao das          Freqentou o Hospital de Ciempozuelos, onde
correspondncias de Freud (especialmente com             trabalhava Miguel Sacristan (1887-1956), dis-
Eduard Silberstein*) e permitiu financiar a              cpulo e amigo de Emil Kraepelin*. Atravs
aquisio, em Londres, de uma casa situada no            desse curso, iniciou-se na nosografia alem e,
n 12 de Maresfield Gardens, destinada a ser             em 1927, passou um ano em Tbingen, onde
transformada em escola maternal piloto,                  teve como professor Robert Gaupp (1870-
propondo consultas psicanalticas. A fundao            1953), especialista em parania* e autor do
teve tambm um papel na criao do Freud                 clebre Caso Wagner, no qual era relatado o
Museum*. Na mesma perspectiva, Muriel Gar-               crime delirante de um professor primrio que
diner continuou a se interessar pelo Homem dos           matara toda a famlia. Um ano depois, solida-
Lobos, ajudando-o financeiramente e fazendo              mente formado em psiquiatria, Garma se ins-
com que redigisse suas memrias, que foram               talou em Berlim, onde entrou em contato com
traduzidas no mundo inteiro. Encontravam-se              a aventura do freudismo*, do qual logo se tor-
tambm nesse volume os textos de Freud e de              nou fervoroso defensor. Analisado por Theodor
Ruth Mack-Brunswick sobre esse caso e ela                Reik* no prestigioso Berliner Psychoanaly-
acrescentou o seu prprio depoimento.                    tisches Institut* (BPI), fez vrias anlises de
    Consciente do destino excepcional dessa              superviso*: com Karen Horney*, Otto Feni-
mulher, que trabalhara tanto pela "causa", Anna          chel*, e at com o perigoso Jeno Harnik, que
Freud lhe escreveu estas palavras em 1972:               sofria de parania. Em 1932, tornou-se membro
"Gosto muito da minha prpria vida, mas se eu            da Deutsche Psychoanalytische Gesellschaft
no tivesse podido viv-la e fosse obrigada a            (DPG), depois de apresentar ao BPI o seu estudo
escolher outra, creio que teria escolhido a sua."        sobre "A realidade e o isso* na esquizofrenia*".
                                                             No esperou ser integrado  DPG para
 Muriel Gardiner, L'Homme aux loups par ses             deixar a Alemanha* e voltar a Madri em 1931.
psychanalystes et par lui-mme (N. York, 1971), Paris,   Durante cinco anos, foi o primeiro freudiano a
Gallimard, 1981; Ces enfants voulaient-ils tuer? (N.     praticar a psicanlise na Espanha, ora como
York, 1976), Paris, Payot, 1978; Le Temps de l'ombre.    terapeuta, ora como didata. Da o ttulo que lhe
Souvenirs d'une Amricaine dans la rsistance autri-
chienne, Paris, Aubier, 1981  Joseph Buttinger, Le      foi concedido, de "primeiro psicanalista espa-
Prcdent autrichien, Paris, Gallimard, 1956  Pamela    nhol". Com isso, chocou-se com a forte oposi-
Tytell, "Muriel Gardiner, 1901-1985", Encyclopaedia      o do meio psiquitrico madrilenho, hostil s
                                                                                         gnero        291

teorias de Sigmund Freud*. Apesar das crticas,     mascaradas, o equivalente a um pesadelo per-
Garma publicou seu primeiro livro, A psican-       manente.
lise, a neurose e a sociedade, nas edies da
                                                     Angel Garma, "La realidad y el ello en la esquizofre-
revista Archivos de Neurobiologia, fazendo as-      nia", Archivos de Neurobiologia, XL, 1931, 598-616; El
sim uma efmera incurso no saber psiquitrico      psicoanlisis, la neurosis y la sociedad, Madri, Edi-
da poca, que se fechara para a psicanlise         ciones de Archivos de neurobiologia, 1936; Tratado
depois de manifestar grande interesse pela obra     maior da psicanlise dos sonhos (B. Aires, 1940), Rio
                                                    de Janeiro, Imago, 1991; La Psychanalyse et les ul-
de Freud no primeiro quarto do sculo. Tornan-      cres gastroduodnaux (B. Aires, 1954), Paris, PUF,
do-se membro da Associao de Neuropsiquia-         1957; Les Maux de tte (B. Aires, 1958), Paris, PUF,
tria e da Liga de Higiene Mental, tinha a inten-    1962; Le Rve. Traumatisme et hallucination (B. Aires,
                                                    1970), Paris, PUF, 1981  Jorge Baln, Cuntame tu
o de fundar em Madri a primeira sociedade
                                                    vida. Una biografa colectiva del psicoanlisis argenti-
psicanaltica espanhola. Mas a guerra civil im-     no, B. Aires, Planeta, 1991  Ral Giordano, Notice
pediu a realizao desse projeto.                   historique du mouvement psychanalytique en Argen-
    Em 1936, deixou o pas para nunca mais          tine, dissertao para o CES de psiquiatria, sob a
                                                    direo de Georges Lantri-Laura, Universidade de
voltar. Depois de uma passagem por Paris, onde      Paris XII, s/d  J.M. Gomez Sanchez-Garnica, La apor-
se encontrou com Celes Crcamo*, voltou a           tacin de Angel Garma al psicoanlisis actual, tese da
Buenos Aires e preparou ativamente a criao        Universidade Autnoma de Madri, 1993.
de um grupo argentino. Em 1942, ao lado de
                                                     BRASIL; FEDERAO PSICANALTICA DA AMRI-
Enrique Pichon-Rivire*, Marie Langer*, Cr-
                                                    CA LATINA.
camo, Arnaldo Raskovsky*, fundou a Asocia-
cin Psicoanaltica Argentina (APA),  qual se
dedicou durante toda a vida, primeiro como          gnero (gender)
principal didata da primeira gerao* argentina,    Termo derivado do latim genus e utilizado pelo
depois como formador de alunos. Militou no          senso comum para designar qualquer categoria,
seio da International Psychoanalytical Associ-      classe, grupo ou famlia que apresente os mesmos
ation* (IPA) em favor de um reconhecimento e        sinais em comum. Empregado como conceito pela
de um reagrupamento federativo de todas as          primeira vez em 1964, por Robert Stoller*, serviu
sociedades latino-americanas.                       inicialmente para distinguir o sexo (no sentido
    Interessado simultaneamente na medicina         anatmico) da identidade (no sentido social ou
psicossomtica*, na clnica das psicoses e no       psquico). Nessa acepo, portanto, o gnero de-
                                                    signa o sentimento (social ou psquico) da identi-
sonho*, baseou-se, para a elaborao da sua
                                                    dade sexual, enquanto o sexo define a organizao
obra, na Ego Psychology* e no kleinismo*.
                                                    anatmica da diferena entre o macho e a fmea.
Desde os seus primeiros trabalhos, tomou dis-
                                                       A partir de 1975, o termo foi utilizado nos
tncia em relao ao freudismo clssico,
                                                    Estados Unidos* e nos trabalhos universitrios
afirmando que a neurose* e a psicose* expri-
                                                    anglfonos para estudar as formas de diferen-
miam um conflito entre o eu* e o isso*, que
                                                    ciao que o estatuto e a existncia da diferena
beneficiava o supereu*. Por conseguinte, os         sexual induzem numa dada sociedade. Por esse
distrbios somticos (lceras, dores de cabea      ponto de vista, o gnero  uma entidade moral,
etc.) deviam ser interpretados como conseqn-      poltica e cultural, isto , uma construo ideo-
cia de frustraes ou agresses que o sujeito no   lgica, enquanto o sexo se mantm como uma
conseguia superar porque, em sua infncia, fora     especificidade anatmica.
obrigado, sob a presso da ordem parental, a           Foi dentro da perspectiva do kleinismo* e
submeter-se em detrimento do seu equilbrio         da Self Psychology*, para estudar o transexua-
psquico. Da o masoquismo*.                        lismo* e as perverses* sexuais, que Robert
    Na mesma perspectiva, Garma revisou a           Stoller deu uma nova definio  palavra gen-
doutrina freudiana do sonho, reatando com a         der. Segundo ele, faltava ao freudismo* cls-
idia de trauma. Assim, formulou a hiptese         sico uma categoria que permitisse diferenciar
segundo a qual os sonhos seriam alucinaes         radicalmente a pertinncia anatmica (o sexo)
nascidas de situaes traumticas recalcadas ou     da pertinncia a uma identidade social ou ps-
292     gnero

quica (o gnero), podendo ambos estar numa           uma "no-diferena" (a fluidez transexual, o
relao de dissimetria radical, como mostrava        lesbianismo, a inverso homem/mulher no ca-
o estudo do transexualismo masculino e femi-         sal etc.), quer para valorizar a cultura identitria
nino.                                                do eu, em detrimento de qualquer sujeito* uni-
     Em 1975, como afirmou a historiadora Na-        versal.
talie Zemon Davis, fez-se sentir a necessidade           Os trabalhos mais interessantes no campo
de uma nova interpretao da histria que levas-     dos gender studies no foram produzidos pelos
se em conta a diferena entre homens e mu-           adeptos de uma concepo radical da diferena
lheres, a qual at ento estivera "oculta": "No     sexual*, mas por historiadores ou filsofos mais
devemos trabalhar unicamente em relao ao           moderados, que ora estudaram a construo da
sexo oprimido, assim como um historiador das         noo de gnero e de sexo na obra de Freud, ora
classes no pode fixar o olhar nos camponeses        estudaram um objeto (perodo, texto literrio,
(...). Nosso objetivo  descobrir a extenso dos     acontecimento) a que o gnero pudesse ser apli-
papis sexuais e do simbolismo sexual nas di-        cado. Convm incluir na primeira categoria o
ferentes sociedades e perodos."                     livro exemplar de Thomas Laqueur, A fbrica
     Em seguida, a noo de gnero tornou-se         do sexo, que se inspirou no trabalho de Michel
corrente nos trabalhos universitrios norte-         Foucault para estudar a passagem da bissexua-
americanos, sobretudo entre as feministas, que       lidade* platnica para o modelo de unissexua-
revisitaram o kleinismo* e, mais tarde, o laca-      lidade criado por Galeno, a fim de descrever as
nismo* (numa perspectiva diferencialista), para      variaes histricas das categorias do gnero e
afirmar que o sexo  sempre uma construo           do sexo, desde o pensamento grego at as hip-
cultural (um gnero), sem nenhuma relao            teses freudianas, e convm incluir na segunda o
com a diferena biolgica. Da a idia de que        livro de Lynn Hunt, O romance familiar da
todo indivduo pode mudar de sexo, de acordo         Revoluo Francesa, que se apoiou no mito
com o gnero ou o papel que se atribui para          criado por Otto Rank* (o romance familiar*)
escapar da sujeio que lhe  imposta pela           para fazer o regicdio surgir como a certido de
sociedade. O primeiro texto representativo des-      nascimento de uma nova sociedade, baseada na
sa abordagem foi o livro de Nancy Chodorow,          desigualdade entre homens e mulheres.
em 1978. A partir de um estudo dedicado                 Na Frana*, a idia de gender no se imps,
maternidade, ela voltou  tese clssica do obje-     dando-se preferncia a falar de identidade se-
to* bom e mau, para afirmar que a separao          xual, em vez de gnero.  a lisabeth Badinter,
entre os sexos das tarefas que habitualmente         filsofa e especialista no sculo XVIII, que
competem s mulheres (maternalizao, cuida-         devemos os melhores trabalhos sobre o assunto,
dos com os bebs, educao, cozinha etc.) leva-      numa perspectiva universalista. Na psicanlise,
va a uma transformao radical e positiva das        foi Joyce McDougall quem desenvolveu essa
identificaes da criana, e portanto, de sua        questo.
identidade sexual (gnero), j no sendo esta
determinada pela desigualdade cultural.               Robert Stoller, "A contribution to the study of gender
                                                     identity", IJP, 45, 1964, 220-6; Recherches sur l'identit
     Seguiu-se o livro de Judith Butler, publicado   sexuelle (1968), Paris, Gallimard, 1978  Michel Fou-
em 1990. Apoiando-se nos trabalhos de Jacques        cault, Histria da sexualidade, vol.I, A vontade de sa-
Lacan*, Michel Foucault (1926-1984) e Jac-           ber, Rio de Janeiro, Graal, 1985, 6 ed.  Natalie Zemon
ques Derrida, ela apregoou o culto do border-        Davis, "Women's history in transition. The European
                                                     case", Feminist Studies, 3, inverno de 1975-76  Nancy
line*, afirmando que a diferena era sempre
                                                     Chodorow, The Reproduction of Mothering. Psychoa-
imprecisa e que, por exemplo, o transexualismo       nalysis and the Sociology of Gender, Berkeley, Univer-
podia ser, em especial para a comunidade negra,      sity of California Press, 1978  Joyce McDougall, Em
uma maneira de subverter a ordem estabelecida,       defesa de uma certa anormalidade (Paris, 1978), P.
uma recusa de se curvar  diferena biolgica,       Alegre, Artes Mdicas, 1991; As mltiplas faces de
                                                     Eros (Paris, 1996), S. Paulo, Martins Fontes, 1997 
construda pelos brancos. Nessa perspectiva, o       lisabeth Badinter, Um  o outro (Paris, 1986), Rio de
direito  diferena, mitificado, transmuda-se        Janeiro, Nova Fronteira, 1986; XY. Sobre a identidade
num desejo de fechamento, quer para defender         masculina (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Nova Frontei-
                                                                                             gerao       293

ra, 1994, 2 ed.  Joan Scott, "Genre: une catgorie utile   junto a Freud, quer no div dos que lhe eram
d'analyse historique", Les Cahiers du GRIF, 37-38,
                                                             prximos. J afastada do esprito de conquista
primavera de 1988, 125-53  Thomas Laqueur, La
Fabrique du sexe. Essai sur le genre et le corps en          que havia caracterizado sua antecessora, essa
Occident (1990), Paris, Gallimard, 1992  Judith Butler,     gerao foi a componente essencial do aparelho
Gender Trouble. Feminism and the Subversion of Iden-         da International Psychoanalytical Association*
tity, N. York, Routledge, 1990  Lynn Hunt, Le Roman
                                                             (IPA) da dcada de 1930. Teve como verdadeiro
familial de la Rvolution franaise (Berkeley, 1992),
Paris, Albin Michel, 1995  John R. Searle, "L'Enseigne-     porto de matrcula (salvo poucas excees) no
ment suprieur des tats-Unis est-il en crise?" (1993),      uma cidade ou um mestre, mas uma organiza-
Le Dbat, setembro-outubro de 1994, 177-92  Sander          o legitimista (a IPA), que encarnava o movi-
L. Gilman, The Case of Sigmund Freud. Medicine and           mento e a doutrina originais.
Identity at the fin de sicle, Baltimore e Londres, The
Johns Hopkins University Press, 1993.                            Essa gerao teve de enfrentar, sobretudo na
                                                             Alemanha*, na ustria e na Hungria*, a esca-
 HOMOSSEXUALIDADE; SEXOLOGIA; SEXUALI-                       lada do nazismo*, que a colocou no caminho
DADE; TOTEM E TABU.                                          do exlio. Da a IPA ter-se tornado, para essa
                                                             gerao, ao mesmo tempo um smbolo de resis-
                                                             tncia  barbrie e o centro de todos os conflitos
gerao                                                      doutrinais. Ora os homens e mulheres dessa
    O estudo das geraes  comum a diferentes               gerao encontraram na IPA uma nova ptria
campos das cincias humanas e sociais, em                    freudiana, e ento foram artfices do legitimis-
especial a antropologia* e a histria. Na his-               mo, ora, ao contrrio, orientaram-se para a
toriografia* psicanaltica, esse instrumento so-             contestao do aparelho, o que desembocou
ciolgico permite estabelecer a genealogia dos               quer na dissidncia, quer no exlio interno, quer
sucessores de Sigmund Freud*, o encadeamen-                  numa nova prtica clnica.
to das diversas interpretaes da obra original,                 Essa segunda gerao transformou a doutri-
a sucesso das escolas e a dialtica dos conflitos           na original a partir de uma leitura centralizada
conducentes a cises*. Por esse ponto de vista,              na segunda tpica*, fosse orientando-se para a
existem dois modos de numerao: um, de al-                  clnica das psicoses* e passando do interesse
cance mundial e internacional, concerne aos                  pela paternidade e pela sexualidade* para uma
diferentes membros da dispora freudiana es-                 elucidao da relao arcaica com a me (Me-
palhados pelo mundo, e o outro, de alcance                   lanie Klein, Karen Horney*), fosse desenvol-
nacional, permite inscrever a filiao* dos                  vendo uma teoria adaptativa do eu (Ego Psy-
psicanalistas a partir de um grupo pioneiro (pas-            chology*, annafreudismo*).
svel de ser reduzido a uma nica pessoa, em                     A terceira gerao internacional, instruda
certos pases), considerado como o introdutor                pelos representantes da segunda ou tendo aces-
da psicanlise* num dado pas.                               so ao freudismo atravs da leitura dos textos,
    A primeira gerao internacional comps-se               foi a das grandes cises*, provocadas, entre
dos primeiros discpulos de Freud, reunidos em               1950 e 1970, pelo questionamento das modali-
Viena* no seio da Sociedade Psicolgica das                  dades da formao didtica tpica da IPA e pelas
Quartas-Feiras*: Alfred Adler*, Wilhelm Ste-                 querelas de escolas em torno da interpretao
kel*, Sandor Ferenczi*, Otto Rank*, Paul Fe-                 da obra freudiana e da tcnica psicanaltica*
dern*, Siegfried Bernfeld*, Hermann Nun-                     (Self Psychology*, Jacques Lacan*, Heinz Ko-
berg*, Hanns Sachs* e Theodor Reik*. A estes                 hut*, Donald Woods Winnicott*, Wilfred Ru-
somavam-se os discpulos no vienenses: Max                  precht Bion*, Marie Langer*, Igor Caruso*). 
Eitingon*, Karl Abraham*, Ernest Jones* e                    histria dessa terceira gerao liga-se a do sur-
Carl Gustav Jung*.                                           gimento de uma historiografia* freudiana, a
    A segunda gerao internacional, repre-                  princpio oficial (com Jones e seus herdeiros),
sentada por Ernst Kris*, Heinz Hartmann*, Ru-                depois acadmica (Ola Andersson*, Henri F.
dolph Loewenstein*, Wilhelm Reich*, Otto Fe-                 Ellenberger*) e, por fim, revisionista. Nessa
nichel*, Melanie Klein* etc.,  a que comeou                condio, essa gerao foi marcada por intensas
a se formar a partir de 1918, quer diretamente               batalhas em torno da traduo* e da publicao
294      Gesammelte Schriften (GS)

das obras e da correspondncia do mestre, bem            furt que adotou a teoria da Gestalt, ao se tornar
como por uma fragmentao irreversvel de                assistente do grande neurologista Kurt Gold-
todas as formas de legitimidade organizacional.          stein (1878-1965), cujas teses sobre a unidade
Da o confronto com uma profuso de escolas              do organismo humano e do funcionamento ce-
de psicoterapia*.                                        rebral marcariam toda a filosofia do sculo XX,
    A quarta gerao internacional, annima e            em especial os trabalhos de Maurice Merleau-
impessoal,  a dos diferentes grupos freudianos          Ponty (1908-1961) e Georges Canguilhem
de todas as tendncias, distribudos pelo mundo          (1904-1995).
a partir de 1970, sejam eles federativos, inde-              Inicialmente analisado por Wilhelm Reich,
pendentes ou ligados  IPA, ou estejam em vias           e depois por Karen Horney*, Perls situou-se
de se converter a psicoterapias no freudianas.          desde logo na dissidncia do freudismo* cls-
                                                         sico. Fugindo do nazismo*, emigrou para os
 HISTRIA DA PSICANLISE; KLEINISMO; LACANIS-            Pases Baixos* e, em 1940, para a frica do Sul,
MO; PARENTESCO; PATRIARCADO; PSIQUIATRIA DI-
                                                         onde redigiu um primeiro livro em que revisava
NMICA.
                                                         a concepo freudiana, aspirando a ver o corpo
                                                         ser mais solicitado no processo da anlise. Foi
                                                         em Nova York, em 1946, e na Califrnia, mais
Gesammelte Schriften (GS)
                                                         tarde, que desenvolveu suas teses gestaltistas,
 FREUD, ANNA; FREUD, SIGMUND; STERBA, RI-                dirigindo diversos grupos ligados  contracul-
CHARD; TRADUO (DAS OBRAS DE SIGMUND
                                                         tura norte-americana. Aps uma temporada no
FREUD).
                                                         Japo*, associou a gestalt-terapia  prtica do
                                                         budismo zen, e depois se tornou um grande guru
                                                         californiano, pregando ao mesmo tempo o na-
Gesammelte Werke (GW)
                                                         turismo, o orientalismo e a abertura para todas
 FREUD, SIGMUND; TRADUO (DAS OBRAS DE                  as formas de psicoterapias corporais que se
SIGMUND FREUD).                                          desenvolveram na costa oeste dos Estados Uni-
                                                         dos* nos anos 70. Antes de morrer, fundou uma
                                                         comunidade teraputica no Canad*.
gestalt-terapia
                                                             Como inmeras psicoterapias dissidentes do
al. Gestalttherapie; esp. terapia gestltica; fr. ges-
                                                         freudismo e orientadas para o eu (self), a ges-
taltthrapie; ing. Gestalt therapy
                                                         talt-terapia rejeita tanto a noo de isso* quanto
Termo derivado da teoria da Gestalt (ou teoria da        a de supereu*, a primeira porque desviaria o
forma) e criado pelo psicanalista norte-americano        sujeito da plena conscincia de si, a segunda
Frederick Perls (1893-1970) para designar uma for-       porque seria uma instncia de opresso do eu*.
ma de psicoterapia* de grupo em que o paciente
                                                         Assim, a gestalt-terapia ope  segunda tpica*
tem que viver seus conflitos atravs de uma ex-
                                                         uma teoria da personalidade e,  psicanlise
presso corporal, a fim de reencontrar a unidade
                                                         propriamente dita, uma terapia de grupo voltada
de sua personalidade.
                                                         para a "desintelectualizao" do sujeito, em
    Essa forma de psicoterapia, prxima da an-          prol de seus afetos ou suas emoes. Da a
lise existencial* (por sua dimenso fenomeno-            juno que se efetuou, mais ou menos em todas
lgica), do psicodrama* de Jacob Levy More-              as partes do mundo, depois da morte de Perls,
no* (por sua tcnica) e da vegetoterapia de              entre a gestalt-terapia e todas as tcnicas ditas
Wilhelm Reich* (por sua faceta biolgica e li-           bioenergticas, herdadas da vegetoterapia de
bertria), foi inventada por um personagem sin-          Reich e baseadas na idia de que a "comunica-
gular. Depois veio a desaparecer, antes de res-          o no verbal" (gritos, ginstica, massagens,
surgir em diversas escolas sob formas mais ou            expresses corporais etc.) permite um melhor
menos distantes do dispositivo de seu criador.           acesso  cura do que o tratamento pela fala.
    Berlinense de origem, Perls formou-se em
psiquiatria e psicanlise em contato com Paul             Frederick Perls, Ego, Hunger and Agression. A Revi-
Schilder*, em Viena*, onde, alis, conheceu              sion of Freud's Theory and Method (1942)  Frederick
Sigmund Freud* em 1930. Mas foi em Frank-                Perls com R. Hefferline e P. Goodman, Gestalt Thera-
                                                                                   Glover, Edward       295

py, N. York, Dell Publishing Co., 1951  Kurt Goldstein,   "hesitante, rebelde, insolente e obstinado",
La Structure de l'organisme (1934), Paris, Gallimard,
                                                           antes de se tornar mdico como seu irmo mais
1951  Claude Allais, "Gestaltthrapie", L'Inconscient,
sob a direo de Jacques Mousseau e Pierre-Franois        velho, James Glover (1882-1926), a quem ad-
Moreau, Paris, CEPL, 1976, 227-9, e "Les Nouvelles         mirava e que era o preferido dos pais. Alis, foi
thrapies de groupes", ibid., 233-59.                      a conselho de James, tambm psicanalista, que
                                                           Edward se interessou pela psiquiatria e pela
 ANLISE DIRETA; ANLISE EXISTENCIAL; ANTIPSI-
QUIATRIA; BATESON, GREGORY; IMAGEM DO COR-
                                                           criminologia*. Em 1920, foi a Berlim para fazer
PO; NEOFREUDISMO; SELF PSYCHOLOGY; TERAPIA
                                                           sua formao didtica com Karl Abraham*.
DE FAMLIA; TRAINING AUTGENO.                             Acabava ento de perder sua primeira mulher,
                                                           depois de 18 meses de casamento.
                                                               Quando seu irmo morreu acidentalmente
Glassco, Gerald Stinson (1871-1934)                        em 1926, ficou to abalado que mergulhou em
psiquiatra e psicanalista canadense                        uma espcie de melancolia*. Pediu ento a
   Fundador, com Ernest Jones*, da American                Jones autorizao para retomar as funes de
Psychoanalytic Association* (ApsaA) em                     secretrio cientfico que este ocupava na socie-
1911, Gerald Glassco foi tambm um dos pio-                dade. Inicialmente presidente do comit cient-
neiros da psicanlise* no Canad. Trabalhou                fico, Edward Glover assumiu depois, em 1934,
em Hamilton, depois de receber sua formao                o posto prestigioso de secretrio do comit de
em Londres, na British Psychoanalytic Society              formao da International Psychoanalytical As-
(BPS).                                                     sociation* (IPA), onde se mostrou muito ativo
                                                           na ajuda aos freudianos que fugiam do nazis-
 Alan Parkin, An History of Psychoanalysis in Canada,     mo*.
Toronto, The Toronto Psychoanalytic Society, 1987.
                                                               Com Jones, presidente da BPS, realizou uma
 AUSTRLIA; CLARKE, CHARLES KIRK; MEYERS,                  poltica conservadora no interior da sociedade,
DONALD CAMPBELL.                                           pretendendo manter a psicanlise afastada das
                                                           instituies em que se praticavam diversas for-
                                                           mas de psicoterapias*, notadamente a famosa
Glover, Edward (1888-1972)                                 Tavistock Clinic. Essa atitude isolacionista se-
mdico e psicanalista ingls                               ria reprovada pelos kleinianos, com os quais
    Pioneiro da psicanlise na Gr-Bretanha*,              Glover estabeleceria um conflito permanente.
ao mesmo tempo conservador e rebelde, margi-               Seu rigorismo o levou, em 1933, em sua obra
nal e ortodoxo, Edward Glover foi, depois de               Guerra, sadismo e pacifismo a interpretar os
Ernest Jones*, o clnico mais poderoso da Bri-             conflitos polticos em termos de neurose e a
tish Psychoanalytical Society (BPS), mas tam-              preconizar, para evitar as guerras, a entrada
bm o principal responsvel por sua fragmen-               macia dos diplomatas em anlise e o reco-
tao, pois desencadeou, em 1942, as Grandes               nhecimento oficial, pelos Estados, do carter
Controvrsias* que resultariam na diviso da               psicopatolgico da prpria guerra. Criticado
sociedade em trs grupos: os annafreudianos,               por Otto Fenichel*, que o acusou de "psicolo-
os kleinianos, os Independentes*. Notvel tc-             gizar" a rea das lutas sociais e econmicas,
nico do tratamento, Glover manejava a ironia               atacou violentamente a "esquerda freudiana",
com ferocidade e a lngua inglesa com um                   afirmando que esta queria anexar a psicanlise
verdadeiro dom de ator. Inventou a noo de                ao marxismo e ao comunismo*.
ncleo do eu, para definir o esquema compor-                   Inicialmente entusiasmado com as inova-
tamental do lactente, ligado aos reflexos afeti-           es kleinianas, rejeitou-as com a mesma radi-
vos, e a de sexualizao da angstia, para de-             calidade em 1933, a partir do momento em que,
signar um processo de erotizao, prprio da               tendo-se tornado analista de Melitta Schmide-
perverso*, permitindo suprimir os temores do              berg*, assumiu a revolta desta contra a me. En-
self por uma experincia orgstica.                        to, chamou de especulao estril as hipteses
    Nascido em Lesmaagow, perto de Glasgow,                kleinianas sobre a psicose* infantil e afirmou
em uma famlia presbiteriana, foi um aluno                 que elas no poderiam ser validadas enquanto
296     Glover, Edward

no se demonstrasse que tambm se aplicavam          baseavam em critrios suscetveis de determi-
aos adultos. Essa restrio tinha um objetivo        nar as competncias profissionais de um sujeito
preciso: para Glover, tratava-se, efetivamente,      "normal", funcionrio ou operrio de fbrica:
de manter o campo das psicoses sob o domnio         "Agora, os psiquiatras do exrcito esto com o
dos analistas mdicos e barrar o caminho            rei na barriga", dizia ele "[...]. Uma medida de
influncia que Melanie Klein, que no tinha          precauo consistiria em submet-los a um cur-
formao mdica, comeava a ter sobre a BPS          so de reabilitao (como eles dizem, quando o
atravs de seus alunos. Mas Glover no era           aplicam aos outros), para que reencontrem uma
apenas um estrategista. Tambm tinha paixo          perspectiva correta quanto aos direitos dos ci-
pela psicanlise e sofria sinceramente ao v-la      vis. Sem salvaguardas adequadas, esse sistema
fossilizar-se na rigidez do dogma kleiniano. Foi     poderia carregar consigo os germes do nazis-
por isso que elaborou um "Questionrio sobre         mo." Glover no se enganava. O teste de sele-
a tcnica", para compreender o que acontecia         o, ingenuamente aplicado por John Ri-
na cabea dos psicanalistas quando se acusa-         ckmann em 1946, no mbito da comisso de
vam reciprocamente de todas as torpezas, bran-       inqurito da IPA encarregada de avaliar a degra-
dindo a torto e a direito os conceitos freudianos.   dao da personalidade nos psicanalistas
    Em plena guerra mundial, ps na ordem do         alemes colaboradores de Matthias Heinrich
dia a avaliao das teses kleinianas no interior     Gring*, permitiria efetivamente julgar o ex-
da BPS. Foi o incio das Controvrsias, das          nazista Werner Kemper* perfeitamente apto pa-
quais ele no se recuperou. A partir de 1935, s     ra o exerccio da psicanlise didtica.
chamava Melanie Klein de "cismtica" e "des-             Assim, tendo provocado escndalo na BPS,
viante", acusando-a de no ser mais freudiana e      atacando de maneira iconoclstica tanto o imo-
de denunciar a idolatria de seus discpulos em       bilismo annafreudiano quanto o sectarismo
relao a ela. Atravs desse combate, tentava        kleiniano e seu mais belo floro (a sacrossanta
defender, no os annafreudianos, nem mesmo a         psiquiatria militar e sua bateria emprica de
prpria Anna Freud*, que ele julgava incapaz         testes e medidas), Glover se voltou para o que,
de retomar a chama da "verdadeira" psicanlise,      na realidade, mais lhe interessava, a ele, o re-
mas uma espcie de utopia. Na verdade, so-           belde ortodoxo. J co-presidente h vinte anos
nhava com o velho mundo vienense, ento de-          do Institute for the Scientific Treatment of De-
saparecido, e combatia a burocracia ipesta que      linquency, consagrou-se ento  reabilitao
acabara destruindo a autenticidade da anlise        dos drogados e criminosos. Em 1963, tornou-se
didtica*: "Os sistemas de formao, disse ele       presidente do comit cientfico do grande Ins-
em 1956, se tornaram uma forma de poder              tituto de Criminologia* de Londres.
poltico, mal disfarada por racionalizaes..."         Por ocasio da morte de Melanie Klein,
    Em fevereiro de 1944, demitiu-se da BPS,         prestou-lhe homenagem, como se o furor que
predizendo a esta um futuro lgubre sob o reina-     demonstrara quando ela era viva tivesse sido
                                                     apenas o sinal de uma ferida secreta.
do de um kleinismo e de um ps-kleinismo que
qualificava de "junguismo", rtulo infamante,            Pois, sem dvida alguma, a atitude custica
em sua opinio. Entretanto, continuou membro         desse homem era inseparvel da tragdia que
                                                     enlutara sua vida depois do nascimento, em
da IPA atravs de uma filiao  Sociedade
                                                     1926, de sua filha, portadora de trissomia. No
Sua de Psicanlise (SSP), o que lhe permitiu
                                                     teve outros filhos e a levava consigo a todos os
preservar suas funes de secretrio da IPA.
                                                     lugares, em viagem e aos congressos da IPA.
    No contente em perseguir Melanie Klein
                                                     Durante o perodo entre-guerras, ela assistiu
com suas invectivas, no hesitou, em 1944,
                                                     portanto, a seu lado, s ferozes disputas que
durante programas de rdio, em criticar a famo-
                                                     opuseram as diferentes correntes da escola in-
sa seleo pelos testes de aptido (elaborada
                                                     glesa sobre a maneira de tratar as crianas psi-
principalmente por John Rickman*), que ha-
                                                     cticas e deficientes.
viam revolucionado a psiquiatria inglesa du-
rante a guerra. Julgava esses mtodos inaplic-       Edward Glover, La Technique de la psychanalyse
veis em tempos de paz, sublinhando que no se        (Londres, 1928), Paris, PUF, 1958; War, Sadism, and
                                                                        Gring, Matthias Heinrich      297

Pacifism, Londres, Allen & Unwin, 1933; Freud et Jung      sempre os mritos da religio e do amor ao
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1983; Psycho-Analysis
                                                           prximo, e nunca andava sem sua Bblia.
and Child Psychiatry, Londres, Imago, 1953; On the
Early Development of Mind, Londres, Imago, 1956; La            Mas Gring era sobretudo um oportunista.
Naissance du moi (Londres, 1968), Toulouse, Privat,        S abraou a causa hitlerista porque a instaura-
1979  Charles W. Wahl, "Edward Glover, b.1888, theo-      o do novo regime era para ele ocasio de uma
ry of technique", in Franz Alexander, Samuel Eisenstein
                                                           promoo institucional  qual, em tempos nor-
e Martin Grotjahn (org.), Psychoanalytic Pioneers, N.
York, Basic Books, 1966  Alexander Bromley, "Edward       mais, nunca teria acesso por sua medocre com-
Glover, 1888-1972, obituary", Psychoanalytic Quar-         petncia. Como Felix Boehm* ou Harald
terly, 1973, 173-7  "Compte rendu du sjour du doc-       Schultz-Hencke*, como Werner Kemper* ou
teur John Rickman  Berlin pour interroger les             Carl Mller-Braunschweig*, invejava os bri-
psychanalystes, 14 et 15 octobre 1946", Revue Inter-
nationale d'Histoire de la Psychanalyse, 1, 1988, 157-     lhantes colegas judeus, mdicos, psiquiatras e
63  Phyllis Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie       psicoterapeutas, que desfrutavam de situao
Klein (1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Eric Ray-      melhor que a sua antes de 1933. Assim, foi um
ner, Le Groupe des "Indpendants" et la psychanalyse       verdadeiro anti-semita, tanto porque estava
britannique (Londres, 1990), Paris, PUF, 1994  Les
Controverses Anna Freud/Melanie Klein (Londres,            convencido da influncia perniciosa que podia
1991), Pearl King e Riccardo Steiner (org.), Paris, PUF,   ter o pretenso "esprito judaico" sobre os dife-
1996.                                                      rentes ramos da psicoterapia (inclusive a psica-
                                                           nlise*), quanto porque se sentia intelectual-
 INTERPRETAO; TCNICA PSICANALTICA.
                                                           mente inferior a esses judeus, freudianos na
                                                           maioria, que detinham as rdeas das principais
                                                           instituies alems, de Berlim a Frankfurt: Max
Gring-Institut (Instituto Gring)                         Eitingon*, Ernst Simmel*, Otto Fenichel*,
 ALEMANHA;      GRING, MATTHIAS HEINRICH; NA-             Erich Fromm*, Karl Landauer* etc. Oculta-
ZISMO.                                                     mente, contribuiu primeiro para o exlio fora-
                                                           do deles, e depois para o seu extermnio.
                                                               Como todos os anti-semitas, explicava a
Gring, Matthias Heinrich                                  quem quisesse ouvi-lo que tinha, entre seus
(1879-1945)                                                prximos, "amigos judeus" ou ainda que "pro-
psiquiatra alemo                                          tegia" da Gestapo as esposas judias de alguns
    Luterano e pietista convicto, primo do ma-             de seus colaboradores. Chegou a revelar, em
rechal Hermann Gring, Matthias (ou Mathias)               1937, que antes do advento do nazismo tratara
Heinrich Gring nasceu em Wuppertal-Eber-                  de onze pacientes judeus, que respeitava pro-
feld. Depois de cursar direito, orientou-se para           fundamente. Infelizmente, acrescentava, no
a neuropsiquiatria, foi assistente em Munique              pudera fazer nada por eles por causa da "dife-
de Emil Kraepelin*, apaixonou-se pela hipno-               rena racial". A partir de 1933, endeusou o
se* e depois adotou as teses da psicologia in-             Fhrer a ponto de pedir a todos os psicoterapeu-
dividual de Alfred Adler*. No dia 1 de maio de            tas pelos quais era responsvel que fizessem de
1933, aderiu ao Partido Nacional-Socialista,               Mein Kampf a bblia da nova cincia psicolgi-
tornando-se, at a morte, um militante modelo              ca do Reich.
da doutrina nazista e o grande lder da psicote-               Esse era o homem com quem, atravs de
rapia alem "arianizada", isto , desembaraada            Boehm, Ernest Jones* aceitou negociar em
no s de seus clnicos judeus, mas do "esprito           1936, para instaurar, em nome da International
judaico" em geral.                                         Psychoanalytical Association* (IPA), a poltica
   Gring no foi temido por seus aliados nem              dita de "salvamento" da psicanlise na Alema-
por seus adversrios, que lhe deram o apelido              nha*, cuja histria complexa s seria revelada
de Papy, ou Papai Noel, por causa de sua longa             publicamente a partir dos anos 1980, na Alema-
barba e de sua aparente generosidade. Camufla-             nha por Regine Lockot e por trabalhos diversos
va muito bem sua dureza por trs de uma apa-               realizados no exterior e no interior da IPA, na
rncia de menino tmido sofrendo de gagueira.              Frana pelo psicanalista Ren Major, nos Es-
Fascinado pelos fenmenos ocultos, elogiava                tados Unidos* pelo historiador Geoffrey Cocks.
298     Gring, Matthias Heinrich

    Em 1928, Gring comeou a infiltrar-se na           O Gring-Institut tambm pde se glorificar
Allgemeine rztliche Gesellschaft fr Psycho-       por ter promovido, depois do ex-BPI, o trata-
therapie (AGP), sociedade alem composta           mento psicanaltico ou psicoteraputico gratui-
de psiquiatras, psicoterapeutas e psicanalistas,    to ou reembolsvel de muitos pacientes co-
que seria presidida por Ernst Kretschmer* at       muns, de todas as classes sociais e portadores
1933, e depois por Carl Gustav Jung* durante        de simples neuroses* ou de doenas mentais:
um ano. Posteriormente, enquanto Jones acei-        psicoses*, epilepsia, retardo.  exceo dos
tava em 1935 a excluso de todos os membros         judeus,  claro. Todas essas pessoas foram "tra-
judeus da Deutsche Psychoanalytische Gesell-        tadas" em vista de uma adaptao  poltica
schaft (DPG), Gring procedeu  nazificao         vlkisch do Grande Reich, fundada na idia de
completa da AGP. Enfim, em maio de 1936,           supremacia da alma germnica. Com o mesmo
criou sua obra-prima institucional, o Deutsche      esprito, o instituto realizou a formao de mui-
Institut fr Psychologische Forschung (Institu-     tos psicoterapeutas e psicanalistas, que se tor-
to Alemo de Pesquisa Psicolgica e de Psico-       nariam depois os clnicos reconhecidos na
terapia), que no tardou a tomar o nome de          Alemanha do ps-guerra. Esse lao "familiar",
Gring-Institut. Um ms depois de se encontrar      semelhante ao dos primeiros discpulos foi at
em Basilia com Jones, Abraham Arden Brill*,        mesmo reconstitudo: Erna, a mulher de G-
Boehm e Carl Mller-Braunschweig, obteve o          ring, analisou-se com Kemper, que afirmou de-
vnculo de seu instituto com a falecida DPG e a     pois t-la espionado a fim de salvar John
converso do Berliner Psychoanalytisches Ins-       Rittmeister*, e seu filho Ernst foi formado na
titut* (BPI) em um instituto "arianizado". Su-      anlise didtica, contra a opinio do pai, por
prema humilhao: confiscou para si os locais       Mller-Braunschweig. Assim, a psicanlise foi
do BPI e da Policlnica, cuja arquitetura fora      "salva" por esse grupo de homens, que aceita-
concebida por Ernst Freud*. Reagrupou ento         ram, alm disso, modificar sua terminologia,
sob seu comando diversos membros das escolas        julgada excessivamente "judaica", e riscar o
de psicoterapias que aceitaram a nazificao da     nome detestado de Freud de todas as publi-
sua doutrina e da sua prtica. Entre eles, encon-   caes e reunies oficiais. A palavra "psican-
travam-se adlerianos, junguianos e terapeutas       lise" foi substituda por "psicoterapia das
independentes (Joannes Schultz*, por exemplo,       profundezas", o dipo* foi simplesmente var-
o fundador do training autgeno).                   rido, a sexualidade* suprimida.
    Oficializado em 1938, na presena de altos          Em 1945, o instituto foi inteiramente des-
dignitrios do regime, o Gring-Institut foi pos-   trudo pelos bombardeios aliados. Assim desa-
to sob a proteo direta de Hitler e beneficiou-    pareceram todos os vestgios do passado: o belo
se, at 1945, de meios financeiros consider-       instituto de 1920 e a sinistra lembrana de sua
veis, tendo como misso principal determinar        "arianizao". Sobre essas runas simblicas, e
as leis do desenvolvimento da personalidade         sem nenhuma depurao, foi reconstrudo por
                                                    Kemper e Schultz-Hencke, na parte oeste de
humana e dos fenmenos coletivos, de acordo
                                                    Berlim, o Instituto Central de Psicoterapia, fi-
com a poltica de "hierarquia das raas" ins-
                                                    nanciado pelas caixas do seguro-sade.
taurada pelo nazismo*. Foi nesse contexto que
Felix Boehm realizou seus "trabalhos" sobre a           Feito prisioneiro pelas tropas russas, Gring
homossexualidade*, enviando para os campos          morreu de tifo em algum lugar, no Leste, em um
de concentrao os sujeitos julgados inaptos        campo de internamento.
para a integrao, e que Werner Kemper tratou
                                                     Les Annes brunes. La Psychanalyse sous le IIIe
pessoalmente da seleo dos neurticos no           Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-Luc
exrcito. Quanto a Schultz-Hencke, contribuiu       Evard, Paris, Confrontation, 1984  Chaim S. Katz
para o melhoramento da capacidade de resis-         (org.), Psicanlise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus,
tncia e comando dos quadros militares, en-         1985  Geoffrey Cocks, La Psychothrapie sous le IIIe
                                                    Reich (Oxford, 1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987 
quanto Schultz experimentava terapias breves        Regine Lockot, Erinnern und Durcharbeiten, Frankfurt,
com oficiais da aeronutica, traumatizados pe-      Fischer, 1985  Ici la vie continue de manire surpre-
los bombardeios.                                    nante, seleo de textos traduzidos por Alain de Mijolla,
                                                                                              gozo       299

Paris, Association Internationale d'Histoire de la Psy-   dade*: a propsito dos "invertidos" (homos-
chanalyse (AIHP), 1987  Ludger M. Hermanns,
                                                          sexuais) que, em virtude de sua averso pelo
"Condies e limites da produtividade cientfica dos
psicanalistas na Alemanha de 1933 a 1945", Revista        objeto do sexo oposto, no conseguem extrair
Internacional da Histria da Psicanlise, 1 (1988), Rio   "nenhum gozo" da relao com ele. Vamos
de Janeiro, Imago, 1990, 67-86  Karen Brecht, "A         reencontrar o termo no captulo VI de seu en-
psicanlise na Alemanha nazista: adaptao  institui-
                                                          saio Os chistes e sua relao com o inconscien-
o, relaes entre psicanalistas judeus e no judeus",
ibid., 87-98.                                             te*. Ali, Freud examina a situao em que,
                                                          repetindo-se o chiste, ele corre o risco de no
 AICHHORN, AUGUST; BJERRE, POUL; LAFOR-                   mais provocar o riso, j que se suprime o recur-
GUE, REN; MAUCO, GEORGES; MITSCHERLICH,                  so da surpresa.  lcito pensar que em tal caso,
ALEXANDER; NAZISMO; SUA.                                entretanto, diz ele, "recupera-se uma parte da
                                                          possibilidade de gozo que falta em conseqn-
                                                          cia da ausncia da novidade, extraindo-o da
gozo                                                      impresso produzida pelo chiste no novo ou-
al. Genuss; esp. goce; fr. jouissance; ing. enjoy-        vinte". Nesse contexto, o gozo no  apenas
ment, jouissance
                                                          sinnimo de prazer, mas  sustentado por uma
Raramente utilizado por Sigmund Freud*, o termo           identificao* e articulado com a idia de repe-
gozo tornou-se um conceito na obra de Jacques             tio*, tal como esta seria empregada mais
Lacan*.
                                                          tarde em Mais-alm do princpio de prazer*,
    Inicialmente ligado ao prazer sexual, o conceito
                                                          por ocasio da elaborao do conceito de pul-
de gozo implica a idia de uma transgresso da lei:
desafio, submisso ou escrnio. O gozo, portanto,
                                                          so* de morte.
participa da perverso*, teorizada por Lacan como
                                                              Embora no se faa meno explcita  idia
um dos componentes estruturais do funcionamen-            de gozo nessa elaborao, podemos lig-la ao
to psquico, distinto das perverses sexuais.             processo do apoio*, que leva ao surgimento da
    Posteriormente, o gozo foi repensado por La-          pulso sexual. Retomando, como fez Jean La-
can no mbito de uma teoria da identidade sexual,         planche, o exemplo da satisfao da neces-
expressa em frmulas da sexuao* que levaram             sidade nutricional atravs da suco do seio
a distinguir o gozo flico do gozo feminino (ou           materno,  possvel reconhecer -- precisamen-
gozo dito suplementar).                                   te no momento em que a criana, satisfeita a sua
    O termo gozo surgiu no sculo XV, para                necessidade orgnica, j no se entrega tanto 
designar a ao de fazer uso de um bem com a              suco, mas ao chuchar -- o nascimento dessa
finalidade de retirar dele as satisfaes que ele         atividade repetitiva, da ordem do gozo, que
supostamente proporcionava. Nesse contexto,               assinala a entrada na fase de auto-erotismo*.
o termo reveste-se de uma dimenso jurdica,                  Essa mesma fase do desenvolvimento ps-
ligada  noo de usufruto, que define o direito          quico, repensada por Lacan no fim da dcada
de gozar de um bem pertencente a terceiros. Em            de 1950, conduz s premissas de seu conceito
1503, o termo foi enriquecido por uma dimen-              de gozo. Elaborando a distino entre neces-
so hedonista, tornando-se sinnimo de prazer,            sidade, demanda e desejo*, Lacan observa que
alegria, bem-estar e volpia.                              o outro*, a me ou seu substituto, que confere
    A lngua alem faz uma distino entre Ge-            um sentido  necessidade orgnica, expressa
nuss, termo que abrange as duas acepes fran-            sem nenhuma intencionalidade pelo lactente.
cesas da palavra jouissance, e Lust, que exprime          Em decorrncia disso, a criana v-se inscrita,
as idias de prazer, desejo e vontade. Essa dis-           sua revelia, numa relao de comunicao em
tino era impossvel de estabelecer na lngua            que esse outro (o outro minsculo), pela respos-
inglesa, onde existia apenas a palavra enjoy-             ta que d  necessidade, institui a existncia
ment, at o surgimento, em 1988, do termo                 pressuposta de uma demanda. Em outras pala-
jouissance, no Shorter Oxford English Dictio-             vras, a partir desse instante, a criana  remetida
nary.                                                     ao discurso desse outro, cuja posio exemplar
    Freud utiliza o termo gozo uma nica vez,             contribui para a constituio do Outro (Outro
em seus Trs ensaios sobre a teoria da sexuali-           maisculo). A satisfao obtida pela resposta 
300     gozo

necessidade induz  repetio do processo, es-          Retomando o mito freudiano do pai origin-
corado no investimento pulsional: a neces-          rio, o pai da horda primeva de Totem e tabu*,
sidade transforma-se ento em demanda pro-          Lacan salienta que, se o conjunto constitudo
priamente dita, sem que, no entanto, o gozo         pelo filho submetido  castrao (proibio fei-
inicial, o da passagem da suco para o chuchar,    ta sobre a posse das mulheres do chefe da horda)
possa ser resgatado. O Outro originrio perma-      tem sentido,  porque, logicamente, existe um
nece inatingvel, barrado pela demanda que se       "pelo menos um" que no sofre essa submisso.
tornou ilusoriamente primria. Esse Outro, ob-      Lacan fabrica nessa ocasio uma palavra-valise,
jeto dessa demanda impossvel, torna-se, no         tal como as produzidas pelo fenmeno da con-
seminrio do ano de 1959-1960, A tica da           densao*, e chama o "pelo menos um" [au
psicanlise, a coisa (das Ding), objeto impos-      moins un] de "homenosum" [hommoinzun,
svel, "fora do significado".                       homme moins un]. Esse "homenosum", que
    Lacan estabelece ento uma distino es-        funda a possibilidade da existncia da totali-
sencial entre o prazer e o gozo, residindo este     dade dos outros, esse pai originrio, pai simb-
na tentativa permanente de ultrapassar os li-       lico, segundo a conceituao lacaniana, no
mites do princpio de prazer*. Esse movimento,      submetido  castrao, , pois, o esteio da fan-
ligado  busca da coisa perdida que falta no        tasia* de um gozo absoluto, to inatingvel
lugar do Outro,  causa de sofrimento; mas tal      quanto o  esse pai originrio. Portanto, no h
sofrimento nunca erradica por completo a busca      gozo para o homem seno um gozo flico, isto
do gozo.                                            , limitado, submetido  ameaa da castrao,
    Alimentada por sua freqentao e sua lei-      gozo flico que constitui a identidade sexual do
                                                    homem.
tura de Georges Bataille (1897-1962), essa re-
                                                        No existe, para as mulheres, um equiva-
flexo levou Lacan a efetuar, em 1962, uma
                                                    lente do pai originrio, no h "homenosum"
aproximao que passou muito tempo sem ser
                                                    que escape  castrao: o gozo do Outro, gozo
compreendida, embora se encontre na base de
                                                    esperado, aguardado e fora do alcance desse pai
sua teoria da perverso. Desenvolvendo, em seu
                                                    originrio, embora igualmente impossvel para
artigo intitulado "Kant com Sade", a idia de
                                                    a mulher, no , todavia, atingido pela proibio
uma equivalncia entre o bem kantiano e o mal
                                                    da castrao. O gozo feminino, portanto,  dife-
sadiano, Lacan pretende mostrar que o gozo se
                                                    rente e, acima de tudo, sem limite. , pois, um
sustenta pela obedincia do sujeito a uma ordem     "gozo suplementar" (um suplemento), enuncia-
-- quaisquer que sejam sua forma e seu conte-      do como tal no brilhante seminrio Mais, ainda,
do -- que o conduz, abandonando o que acon-         cujos contornos realmente parecem ter sido es-
tece com seu desejo, a se destruir na submisso     boados alguns anos antes por Wladimir Gra-
ao Outro (maisculo).                               noff e Franois Perrier*, em 1960, num relatrio
    A partir do seminrio do ano de 1969-1970       apresentado ao congresso de Amsterd sobre a
(O avesso da psicanlise) at o do ano de 1972-     sexualidade feminina*.  a existncia desse
1973 (Mais, ainda), passando por De um dis-         gozo suplementar, incognoscvel para e pelo
curso que no seria do semblante (1970-1971)        homem, mas indizvel pelas mulheres, que ser-
e por... Ou pior (1971-1972), Lacan elabora sua     ve de base para o aforismo lacaniano, tantas
teoria do processo da sexuao, que ele exprime     vezes criticado, de que "no existe relao se-
por meio de um conjunto de frmulas lgicas.        xual", desenvolvido no mbito do seminrio
    Num primeiro momento, ele destaca o im-         ...Ou pior.
passe da idia de complementaridade resultante          Ao teorizar dessa maneira um gozo feminino
da tese freudiana da libido* nica, tese falocn-   desvinculado de qualquer referncia biolgica
trica que pode ser resumida em dois axiomas:        ou anatmica, Lacan no se contenta em res-
"Todos os homens tm o falo" e "Nenhuma             ponder s interpelaes de que foi objeto por
mulher tem o falo". Tal posio, explica Lacan,     parte dos movimentos feministas da poca. Vol-
leva ao um, isto ,  negao da diferena, e com   ta-se para o lado das msticas, tomando o exem-
isso,  negao da funo da castrao*.            plo da Santa Teresa de Bernini, em Roma, sobre
                                                                                           Gr-Bretanha         301

quem constata: "no h dvida" (de que ela                    em psicanlise (Paris, 1970), P. Alegre, Artes Mdicas,
                                                              1985  Grard Miller, Les Pousse-au-jouir du marchal
goza). "E com que goza ela?  claro que o
                                                              Ptain, Paris, Seuil, 1975  Jean-Claude Milner, O
testemunho essencial das msticas est jus-                   amor da lngua (Paris, 1978), P. Alegre, Artes Mdicas,
tamente em dizer que elas experimentam o                      1987  Michle Montrelay, L'Ombre et le nom, Paris,
gozo, mas nada sabem dele."                                   Minuit, 1977  lisabeth Roudinesco, Jacques Lacan.
    Em referncia  teoria lacaniana, o conceito              Esboo de uma vida, histria de um sistema de pen-
                                                              samento (Paris, 1993), Rio de Janeiro, Companhia das
de gozo  hoje utilizado numa perspectiva                     Letras, 1994  Philippe Sollers, Femmes, Paris, Galli-
diferencialista, principalmente por autores --                mard, 1982  Mayette Viltard, "Gozo", in Pierre Kauf-
em geral mulheres e psicanalistas -- que pro-                 mann (org.), Dicionrio enciclopdico de psicanlise: o
curam elaborar os quadros tericos de uma                     legado de Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro,
                                                              Jorge Zahar, 1996, 221-4  Elizabeth Wright (org.),
identidade feminina. Esse processo, que teve                  Feminism and Psychoanalysis. A Critical Dictionary,
um importante sucesso na Frana* no comeo                    Oxford, Blackwell, 1992.
dos anos 70 (com os trabalhos de Luce Irigaray,
Julia Kristeva e Michle Montrelay), assumiu a                 BISSEXUALIDADE; CULTURALISMO; DIFERENA
forma, mais particularmente nos Estados Uni-                  SEXUAL; ESTADOS UNIDOS; FRANA; HOMOS-
dos*, de uma corrente radical, inspirada no                   SEXUALIDADE; LANZER, ERNST; SEXUAO, FR-
culturalismo* e engajada em pesquisas centra-                 MULAS DA; SEXUALIDADE FEMININA.
das na noo de gnero*.
 Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da sexua-
lidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145; SE,          Gr-Bretanha
VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; Os chistes e sua            Foi a importncia atribuda no sculo XVIII
relao com o inconsciente (1905), ESB, VIII, 1-266;
GW, VI, 1-285; SE, VIII; Paris, Gallimard, 1988; Totem
                                                               liberdade individual que levou William Tuke
e tabu (1913), ESB, XIII, 17-192; GW, IX; SE, XIII,           (1732-1822) a inventar o "tratamento moral".
1-161; Paris, Gallimard, 1993; Mais-alm do princpio         Inspirado no ideal filantrpico do francs Phi-
de prazer (1920), ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69;          lippe Pinel (1745-1826), reformador do asilo de
SE, XVIII, 1-64; OC, XV, 273-338  Jacques Lacan,
                                                              Bictre, e do americano Benjamin Rush (1746-
"Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade
feminina" (1958), in Escritos (Paris, 1966), Rio de           1813), Tuke fundou em York, em 1796, um
Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 734-48; "Subverso do             estabelecimento para acolher os insanos, ao
sujeito e dialtica do desejo no inconsciente freudiano"      qual deu o nome de York Retreat. A experincia
(1960), ibid., 807-42; "Kant com Sade" (1962), ibid.          se tornou clebre no mundo inteiro. Seu princ-
776-806; O Seminrio, livro 7, A tica da psicanlise
(1959-1960) (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Za-
                                                              pio teraputico se inspirava no ideal dos qua-
har, 1988; O Seminrio, livro 17, O avesso da psican-        kers, segundo o qual cada ser humano possui no
lise (1969-1970) (Paris, 1991), Rio de Janeiro, Jorge         fundo de si uma centelha divina, que se deve
Zahar, 1992; Le Sminaire, livre XVIII, D'un discours         encontrar e cultivar. Essa tese se aproximava da
qui ne serait pas du semblant (1970-1971), indito; Le
Sminaire, livre XIX, ... Ou pire (1971-1972), indito; O
                                                              de Pinel, que definia o tratamento moral como
Seminrio, livro 20, Mais, ainda (1972-1973), Rio de          a procura de um resduo de razo no cerne da
Janeiro, Jorge Zahar, 1989; 2 ed., "L'tourdit", Scilicet,   loucura*.
4, 1973, 5-53  Georges Bataille, Madame Edwarda                  Baseado no respeito  dignidade humana e
(1937, 1941), in Oeuvres compltes, III, Paris, Galli-
mard, 1971, 9-31  Michel de Certeau, La Fable mys-
                                                              no autocontrole, o tratamento moral praticado
tique, Paris, Gallimard, 1982  Franoise Dolto, Sexua-       por Tuke consistia em socializar o doente men-
lidade feminina (1982), S. Paulo, Martins Fontes, 1996,       tal, integrando-o,  fora, a uma estrutura hie-
3 ed.  Jol Dor, Introduo  leitura de Lacan, t.II        rrquica de tipo familiar. Da a instaurao de
(Paris, 1992), P. Alegre, Artes Mdicas, 1996  Dylan         um modelo comunitrio ou de "ambiente" que
Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian Psy-
choanalysis, Londres, N. York, Routledge, 1996  Wla-         se encontraria depois em todas as experincias
dimir Granoff e Franois Perrier, Le Dsir et le fminin      teraputicas inglesas, tanto entre os clnicos da
(1964), Paris, Aubier, 1991  Patrick Guyomard, O gozo        antipsiquiatria* (de David Cooper* a Ronald
do trgico. Antgona, Lacan e o desejo do analista            Laing*) quanto entre os grandes representantes
(Paris, 1992), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996  Luce
Irigaray, Spculum de l'autre femme, Paris, Minuit,
                                                              da escola inglesa de psicanlise* (de John Ri-
1974  Julia Kristeva, La Rvolution du langage poti-        ckman* a Wilfred Ruprecht Bion*, passando
que, Paris, Seuil, 1974  Jean Laplanche, Vida e morte        por Michael Balint* e John Bowlby*).
302     Gr-Bretanha

   Adepto do espiritismo* e representante da        pases anglfonos: Canad*, Estados Unidos*,
psiquiatria dinmica*, Frederick Myers* foi o       ndia* e Gr-Bretanha. Apaixonado pela psico-
primeiro a mencionar o nome de Sigmund              logia dos povos e por folclore, logo participou
Freud* na Inglaterra, apresentando em 1893         dos debates da antropologia* inglesa a propsi-
Society for Psychical Research uma confern-        to de Totem e tabu*. Depois de criar a American
cia dedicada  "comunicao preliminar" aos         Psychoanalytic Association* (APsaA), perma-
Estudos sobre a histeria*. Por sua vez, Have-       neceu ainda um ano em Toronto em condies
lock Ellis* tambm difundiu as teses freudia-       difceis, voltou a Londres e foi em seguida para
nas, apresentando-as em revistas americanas de      Budapeste em junho de 1913. Ali, fez uma
neurologia lidas pelos mdicos ingleses.            anlise de dois meses com Sandor Ferenczi*.
   Mas foi Ernest Jones* o verdadeiro introdu-      Em agosto, estabeleceu-se definitivamente em
tor da psicanlise na Gr-Bretanha. Aluno de        Londres.
John Hughlings Jackson*, descobriu os primei-           Participou ento com Jung do congresso
ros escritos de Freud graas a seu cunhado          internacional de medicina em Londres, que reu-
Wilfred Ballen Lewis Trotter (1872-1939), ci-       niu os principais representantes da psiquiatria
rurgio honorrio do rei Jorge V, erudito famoso    dinmica europia e americana, entre os quais
e apaixonado por filosofia. Este o estimulou a      Adolf Meyer*, Isador Coriat*, David Eder*,
aprender alemo e a estudar A interpretao dos     David Forsyth* etc. O tema era considervel: a
sonhos* e o caso de Ida Bauer* (Dora).              12 seo do congresso decidiu pr na ordem
   Em setembro de 1907, Jones foi a Ams-            do dia um debate muito esperado sobre a psica-
terdam, nos Pases Baixos*, para assistir ao        nlise, e sabia-se que Pierre Janet, muito em
primeiro grande congresso de psiquiatria, neu-      voga na poca, iria apresentar um relatrio hos-
rologia e assistncia aos alienados. Ali, encon-    til ao que se chamava ento o pansexualismo*
trou todos os grandes nomes da psiquiatria eu-      freudiano: "Existe em Viena, diria ele, uma at-
ropia: Otto Gross*, Theodor Ziehen (1862-          mosfera sexual especial, uma espcie de gnio,
1950), Hermann Oppenheim (1858-1919),               de esprito local, que reina epidemicamente so-
Ludwig Binswanger*, Pierre Janet* e principal-      bre a populao e nesses meios. Um observador
mente Carl Gustav Jung*. Em uma carta a Freud        fatalmente levado a dar uma importncia ex-
de 11 de setembro de 1907, este o descreveu         cepcional s questes relativas  sexualidade."
nestes termos: "Para minha grande surpresa,             Muito mal recebida pela opinio cientfica
encontrava-se entre os ingleses um jovem de         inglesa, a tese de Janet sobre a origem da dou-
Londres, o dr. Jones (um celta do Pas de Gales),   trina sexual de Freud no encontrou eco na
que conhece muito bem seus textos e trabalha        comunidade cientfica anglo-americana: a hos-
psicanaliticamente. Provavelmente, ele lhe far     tilidade dos protestantes e puritanos ao pan-
uma visita depois."                                 sexualismo era de outra natureza. Assim, a
   Convidado por Jung a trabalhar na clnica do     conferncia de Janet contribuiu para reforar o
Hospital Burghlzli, ento dirigida por Eugen       impacto das teses freudianas no mundo anglo-
Bleuler*, Jones encontrou-se com Freud pela         americano. Com isso, Jones pde permitir-se
primeira vez em abril de 1908 em Salzburgo,         estigmatizar a inveja do psiclogo francs,
por ocasio de um congresso que reuniu todas        denunciando o absurdo de seu raciocnio. Trs
as sociedades psicanalticas j constitudas na     semanas depois, em Munique, no congresso da
Europa. No ms seguinte, foi a Viena e em           International Psychoanalytical Association*
setembro, depois de ter problemas com pa-           (IPA), consumava-se o divrcio entre Zurique e
cientes, instalou-se no Canad*. Era o incio de    Viena, entre Jung e Freud.
uma longa amizade e de uma bela correspon-              A partir de ento, depois dessa terceira dis-
dncia entre o mestre e seu primeiro discpulo      sidncia na histria da psicanlise, e s vsperas
ingls: 671 cartas.                                 da Primeira Guerra Mundial, a Gr-Bretanha
   Trabalhador infatigvel, hbil poltico, Jo-     comeou a desempenhar um papel central na
nes desenvolveu ento uma fantstica atividade      Europa para a difuso do freudismo. Em outu-
para instalar a causa freudiana em todos os         bro de 1913, Jones fundou a London Psychoa-
                                                                            Gr-Bretanha       303

nalytic Society (LPS), composta de 14 mem-             A 20 de fevereiro de 1919, fundou a British
bros, entre os quais um canadense, Frederic        Psychoanalytical Society (BPS), que logo teria
Davidson (1870-1946) e trs psiquiatras colo-      muitos associados, entre os quais as principais
niais: o capito Owen Berkeley-Hill (1879-         figuras da primeira gerao* psicanaltica in-
1944) e o coronel W.D. Sutherland (?-1920),        glesa (segunda na ordem mundial): Edward
ambos residentes na ndia, e Watson Smith, a       Glover*, James Glover (1882-1926), Barbara
servio em Beirute, aos quais se acrescentaram     Low (1877-1955), John Rickman, W.H.B. S-
um irlands de Belfast (dr. Graham) e nove         toddart, John Carl Flugel (1884-1955), Eric
ingleses: David Eder*, Douglas Bryan, David        Hiller, Sylvia Payne (1880-1976), Joan Ri-
Forsyth*, Bernard Hart (1879-1966), Constan-       viere*, Ella Sharpe*, Susan Isaacs* e os dois
ce Long, Leslie Mackenzie (Edimburgo), Mau-        Strachey. Um ano depois, criou o International
rice Nicoll, Maurice Wright, dr. Devine. Convi-    Journal of Psycho-Analysis (IJP)*, primeira
dado a juntar-se ao grupo, Havelock Ellis recu-    revista de psicanlise em lngua inglesa, que se
sou-se, preferindo conservar uma certa distn-     tornaria uma espcie de rgo oficial da IPA.
cia em relao s instituies.                        Em 1924, John Rickman instalou um ins-
    Se Jones continuou sendo o principal orga-     tituto de psicanlise a partir do modelo do Ber-
nizador do movimento psicanaltico nos meios       liner Psychoanalytisches Institut* (BPI), e dois
mdicos, foi atravs do grupo de Bloomsbury        anos depois a BPS conseguiu, graas a um
que se formaram, a partir de 1905, dois dos        mecenas americano, criar uma clnica psicana-
maiores representantes do freudismo ingls:        ltica (London Clinic of Psycho-Analysis), para
Alix Strachey* e James Strachey*. Reunidos         oferecer tratamentos gratuitos. Durante cin-
                                                   qenta anos, cerca de 3.000 pessoas seriam
em torno de Lytton Strachey (1870-1932), de
                                                   tratadas nessa clnica: "Existia um acordo m-
Leonard e Virginia Woolf (1882-1941), de Dora
                                                   tuo, escreveu Pearl King, segundo o qual os
Carrington (1893-1932), de Roger Fry (1856-
                                                   clnicos deviam dedicar uma sesso gratuita por
1934) e de John Maynard Keynes (1883-1946),
                                                   dia  clnica ou realizar um trabalho equiva-
os escritores do grupo adotaram as teorias freu-
                                                   lente." A partir de 1930, a segunda gerao
dianas um pouco  maneira dos surrealistas
                                                   psicanaltica inglesa (terceira na ordem mun-
franceses. Hostis  "ditadura" puritana, comba-    dial) aderiu  BPS: Marjorie Brierley (1893-
tiam o esprito vitoriano, pregando o "amor        1984), John Bowlby, William Gillespie, Donald
livre" e exibindo sua bissexualidade* ou sua       Woods Winnicott*, Wilfred Ruprecht Bion.
homossexualidade*. Diante de Jones e dos m-           Por volta de 1926, Jones e Glover se enfren-
dicos, representavam o no-conformismo. O          taram na questo da anlise leiga*, quando a
irmo de Virginia Woolf, Adrien Stephen            Associao dos Mdicos Britnicos decidiu fa-
(1883-1948) e sua esposa, Karin Stephen            zer um inqurito sobre a validade da prtica da
(1889-1953) se tornaram psicanalistas. Quanto      psicanlise por no-mdicos. Trs anos depois,
a Leonard Woolf, fundou em 1917 a prestigiosa      uma soluo positiva surgiu. O comit da as-
Hogarth Press, que publicaria no s as obras      sociao adotou a idia de que a psicanlise
completas de Freud na traduo* de Strachey,       podia ser reconhecida como uma disciplina in-
mas tambm muitas obras dos membros da             dependente, capaz de resolver por si mesma, e
escola psicanaltica inglesa. Durante a guerra,    em suas prprias instituies, os seus conflitos
Jones continuou sua obra de propaganda, mas        e problemas de formao.
no pde evitar os conflitos internos na socie-        Depois da Primeira Guerra Mundial, o sur-
dade londrina, principalmente com os partid-      gimento das neuroses de guerra* reativou o
rios de Jung (Long e Nicoll) e principalmente      debate sobre as origens traumticas dos dis-
com Eder, cujo renome invejava e que tambm        trbios psquicos e levou a inovaes no campo
se voltou para o junguismo. Para sair do impas-    das psicoterapias*. Foi nesse contexto que
se, decidiu dissolver o grupo e formar outro: a    Hugh Crichton-Miller fundou em 1920 a famo-
alguns membros antigos juntaram-se outros te-      sa Tavistock Clinic, destinada a tratar o que se
rapeutas j formados na psicanlise.               chamavam shell-shocks, isto , os traumas ner-
304      Gr-Bretanha

vosos provocados por obuses: tremores incon-          Riviere, foi dedicada  gnese do conflito ps-
trolveis, paralisias, alucinaes etc. A partir de   quico na primeira infncia. Esses "intercmbios
1930, sob a direo de John Rees, as atividades       de conferncias", como foram chamados, no
da Tavistock se estenderam ao tratamento dos          evitaram nem as oposies nem a continuao
delinqentes, seja por terapias individuais, seja     das querelas entre os partidrios de Anna
pela criao de comunidades teraputicas, gru-        Freud* e os de Melanie Klein.
pos etc. Progressivamente, a Tavistock se tor-            O advento do nazismo* transformou mais
nou um dos pilares do desenvolvimento das             ainda a situao da BPS. Entre 1933 e 1940,
teses psicanalticas: freudianas primeiramente,       todas as grandes sociedades psicanalticas eu-
e depois kleinianas, sob a influncia, principal-     ropias desapareceram. Nos pases em que o
mente, de Rickman e de Bion. Depois da Segun-         fascismo no as destruiu, elas foram marginali-
da Guerra Mundial, a partir de 1946, John             zadas, reduzidas ao mnimo ou obrigadas a
Bowlby daria  Tavistock Clinic uma nova              suspender provisoriamente suas atividades. Por
orientao, de acordo com o esprito do grupo         conseguinte, a BPS era a nica fortaleza psica-
dos Independentes*. Introduziu notadamente a          naltica ainda viva no Velho Continente -- a
terapia familiar*, e Balint desenvolveu ali sua       nica, de qualquer forma, capaz de garantir a
tcnica dos grupos.                                   continuidade do freudismo diante da poderosa
    Muito diferente do freudismo berlinense,          escola americana.
por um lado, e da tradio vienense, por outro,           Uma primeira brecha foi aberta na BPS com
a escola inglesa de psicanlise adquiriu assim,       a chegada, em 1932, de Melitta Schmideberg*.
desde 1920, uma grande autonomia no interior          Apoiada por Glover, ela comeou a atacar as
da IPA. Se era dotada de notveis clnicos e          teses da sua me.
realizava uma poltica de formao e uma tc-             No ano seguinte, outra clivagem se produziu
nica do tratamento de tipo pragmtico, no ti-        com a chegada dos novos exilados  BPS. Paula
nha, entretanto, um slido arcabouo terico.         Heimann* foi a primeira a entrar, seguida de
Jones sabia disso e desde 1924 compreendeu            Barbara Lantos (1888-1962) e de Kate Fried-
que as inovaes kleinianas eram capazes de           lnder*. Em Londres, essas mulheres vindas de
oferecer aos prticos ingleses o sistema concei-      Berlim descobriram um outro discurso psicana-
tual que tanto lhes faltava.                          ltico, uma outra conceitualidade, um vocabu-
    No se enganava. Em 1926, a instalao de         lrio diferente da lngua freudiana na qual elas
Klein em Londres revolucionou totalmente a            tinham sido formadas.
situao da psicanlise na Gr-Bretanha. No              A chegada dos vienenses -- Willi Hoffer
s Melanie Klein deu um impulso considervel          (1897-1967) e Hedwig Hoffer (1888-1961) --
ao grupo j constitudo, como tambm formou           e posteriormente da famlia Freud agravou
em torno de si uma nova corrente. Desde ento,        consideravelmente a situao: "Velho e frgil,
a BPS tornou-se majoritariamente kleiniana.           ele [Freud] ficou to feliz com sua casa de
Em 1929, as divergncias se tornaram tais entre       Hampstead, escreveu Melitta Schmideberg, e
Viena e Londres (especialmente sobre a psica-         com a acolhida que a Inglaterra lhe ofereceu
nlise de crianas*, a sexualidade feminina*, as      que, quando meu marido foi visit-lo, ele o
relaes arcaicas com a me, o complexo de            saudou com um Heil Hitler [...]. Cada movi-
dipo*, a fantasia*, o narcisismo* e a realidade      mento do maxilar o fazia sofrer. Mas fez uma
psquica*) que Jones ficou preocupado. Assim,         observao que nunca esquecerei. Era na poca
decidiu, junto com Paul Federn*, organizar in-        de Munique e eu lhe disse: `No  estranho que
tercmbios com a Wiener Psychoanalytische             possamos passar anos tentando ajudar um pa-
Vereinigung (WPV), para que as divergncias           ciente, enquanto milhares de seres humanos
pudessem ser mutuamente compreendidas.                podem ser mortos por uma bomba em um
Duas conferncias tentaram explicar, em 1935          segundo?' A resposta de Freud me deixou per-
e 1936, as posies de cada grupo: uma, de            plexa: `No se poderia dizer qual desses des-
Robert Wlder (futuro Waelder, 1900-1967),            tinos o homem merece mais'. [...] O prprio
tratou da psicologia do eu*, a outra, de Joan         Freud no se interessava mais pela BPS. Morreu
                                                                              Gr-Bretanha        305

em 23 de setembro de 1939. Anna estava deci-            A exploso da Segunda Guerra Mundial obri-
dida a estabelecer-se e devolver a BPS ao freu-     gou a comunidade psicanaltica inglesa a engajar-
dismo. Os poucos analistas alemes refugiados       se contra a Alemanha nazista. Assim, antes mes-
[...] se juntaram ao grupo vienense."               mo que a BPS tivesse tempo de assimilar os
     Decidida a no deixar a BPS nas mos dos       recm-chegados, j devia enfrentar a disperso de
kleinianos, mas sensvel  acolhida que os          seus membros. Os ataques areos afastaram de
psicanalistas ingleses deram  sua famlia, Anna    Londres vrios clnicos, e os outros se empe-
Freud procurou a qualquer preo evitar a ciso.     nharam na luta. Anna Freud e Dorothy Burlin-
Todavia, seu desejo de pacificao no se har-      gham* abriram as Hampstead War Nurseries, en-
monizava com os sentimentos dos vienenses,          quanto Glover instalava, na London Clinic, um
confrontados com as inovaes kleinianas. Na        centro de auxlio psicolgico para os tratamentos
verdade, todos tinham a impresso de que o          de urgncia. Outros praticantes uniram-se ao
grupo kleiniano, difundindo suas teorias sobre      Emergency Medical Service, para tratar das vti-
a destruio, o dio, a inveja*, a fragmentao,    mas dos bombardeios. Por sua vez, Rees, Ri-
a agresso etc., contribua para arruinar total-    ckman, Bion, Ronald Hargreaves, Jock
mente o freudismo que eles amavam. Ora, este        Sutherland e muitos outros mais foram nomeados
acabava justamente de ser destrudo, sob os         para postos de conselheiros do comando do exr-
seus olhos, pela peste marrom.                      cito, a fim de reorganizar a psiquiatria de guerra
     Do lado dos kleinianos, o olhar era igual-     sob a direo do War Office Selection Board
mente severo: representava-se o grupo vienense      (WOSB). Foi ali que se elaborou a teoria dos
como uma tribo esttica, apegada ao passado e       pequenos grupos, to admirada por Jacques La-
                                                    can* e retomada depois por Bion.
identificada com o cadver do pai morto. Mas,
                                                        No centro dos combates, os membros da
naturalmente, ningum pensava em excluir das
                                                    comunidade psicanaltica inglesa, de todas as
fileiras da BPS esses imigrantes que acabavam
                                                    tendncias, compreenderam que seu pas estava
de ser acolhidos to generosamente e que en-
                                                    mudando e que a guerra faria surgir um mundo
carnavam a legitimidade freudiana.
                                                    diferente. Impunha-se a necessidade de fazer
     Diante dessas duas tendncias, emergiu en-     explodirem os conflitos tericos e clnicos entre
to uma terceira via, o middle group, cuja orien-   os diversos grupos: se o mundo estava mudan-
tao Strachey expressou muito bem em uma           do, a BPS tambm devia preparar o seu futuro.
carta a Glover, de julho de 1940: "Essas atitudes       Foi nesse contexto que ocorreu, em outubro de
das duas partes so,  claro, puramente religio-    1942, o incio das Grandes Controvrsias*
sas, e por isso mesmo antitticas em si mesmas      (Controversial Discussions), que resultariam no
e em relao  cincia. Penso que elas tambm       reconhecimento legal de trs tendncias: os anna-
so, de ambos os lados, inspiradas por um de-       freudianos, os kleinianos, os Independentes.
sejo de dominar a situao e especialmente o            Essa recusa da ciso*, essa manuteno das
futuro -- razo pela qual cada uma d tanta         aparncias, era certamente imputvel a uma
importncia  formao dos candidatos; na rea-      concepo da poltica que tinha sua fonte na
lidade, evidentemente,  uma iluso megaloma-       tradio inglesa to admirada por Freud. Com
naca pensar que  possvel controlar as opi-       efeito, esse pas soube se reformar e conservar
nies daqueles que analisamos, alm de um           o seu ritual monrquico, sem recorrer, como a
limite muito restrito [...]. De qualquer forma,     Frana,  revoluo. Mas, assim como a ausn-
creio que toda sugesto de uma clivagem na          cia de revoluo no poupou  Inglaterra vio-
sociedade deve ser condenada, e  preciso opor-     lentas desordens sociais, a ausncia de ciso
se a isso radicalmente."                            no impediu a BPS de mergulhar permanente-
     Com efeito, cada uma das trs correntes        mente em interminveis conflitos, que se tradu-
reivindicava uma leitura da obra freudiana e        ziram por uma esclerose institucional, por
cada uma um modo diferente de formar                demisses individuais (as de Charles Rycroft,
psicanalistas. Todos se pretendiam freudianos e     de Ronald Laing ou de Donald Meltzer, por
ningum tinha a inteno de deixar a IPA.           exemplo), pelo desinteresse ou pelo absentes-
306     Gr-Bretanha

mo (Bion, Bowlby etc.) e enfim por excluses         o conjunto do planeta. Os autores ingleses fo-
(Masud Khan*).                                       ram traduzidos para todas as lnguas e suas
    Em uma carta de 3 de junho de 1954, dirigida     obras so ensinadas em todas as universidades.
simultaneamente a Anna Freud e a Melanie             A clnica inglesa, alm disso, tornou-se um
Klein, Winnicott denunciou ferozmente a escle-       modelo de referncia maior para a maioria dos
rose da BPS: "Considero de absoluta importn-        institutos de psicanlise. Os currculos conser-
cia vital para a Sociedade que ambas destruam        varam uma grande rigidez: obrigao de quatro
seus grupos no que eles tm de oficial [...]. No    ou cinco sesses por semana e vigilncia estrita
tenho razes para pensar que viverei mais tem-       de todos os candidatos julgados "marginais"
po que as senhoras, mas ter que lidar com            (homossexuais, por exemplo).
agrupamentos rgidos que, com a sua morte, se
tornariam automaticamente uma instituio de          Pierre Janet, "La Psycho-analyse", relatrio para o
                                                     XVII Congresso Internacional de Medicina em Londres,
Estado,  uma perspectiva que me apavora."           Journal de Psychologie, XI, maro-abril de 1914, 97-
    Havia portanto um grande paradoxo na situa-      130  H.V. Dicks, Fifty Years of the Tavistock Clinic,
o inglesa da psicanlise. Ela no devia sua        Londres, Routledge & Paul Kegan, 1970  Robert
notoriedade internacional a uma instituio mais     Waelder, "La Psychologie analytique du moi" (1935), in
                                                     Les Fondements de la psychanalyse, Paris, Payot,
poderosa ou mais bem organizada que as outras,       1962, 167-96  Joan Riviere, "Sur la gense du conflit
mas aos talentos individuais de seus membros, que    psychique dans la toute petite enfance" (1936), in
acabaram por desertar da BPS para tratar de outras   Melanie Klein (org.), Os progressos da psicanlise
coisas alm da formao e da transmisso da          (Londres, 1952), Rio de Janeiro, Zahar, 1978  Melitta
                                                     Schmideberg, "Contribution  l'histoire du mouvement
doutrina. Depois da Segunda Guerra, Jones com-       psychanalytique en Angleterre" (1971), Cahiers Con-
pilou arquivos e tornou-se o historiador do movi-    frontation, 3, primavera de 1980, 11-22  Claude Girard,
mento e o bigrafo de Freud; Strachey encar-         Ernest Jones, Paris, Payot, 1972; "La Psychanalyse en
regou-se da Standard Edition; Bowlby, Winnicott      Grande-Bretagne", in Roland Jaccard (org.), Histoire
                                                     de la psychanalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982, 313-
e Bion continuaram com seus trabalhos clnicos,      61  lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na
distantes das questes institucionais.               Frana, vol.2 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge Za-
    Melanie Klein, por sua vez, veria sua doutri-    har, 1988  Jacques Postel e Claude Qutel, Nouvelle
na implantar-se em quase todos os pases do          histoire de la psychiatrie, Toulouse, Privat, 1983  Phyl-
                                                     lis Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie Klein
mundo, na Argentina* e no Brasil* principal-         (1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Donald Woods
mente. Vrios de seus alunos desenvolveriam          Winnicott, Lettres vives (Londres, 1987), Paris, Galli-
suas teses: Susan Isaacs*, Herbert Rosenfeld*,       mard, 1989  Pearl King, "Sobre as atividades e a
Hanna Segal, Esther Bick (1901-1983).                influncia dos psicanalistas britnicos durante a Se-
                                                     gunda Guerra Mundial", Revista Internacional da His-
    A partir dos anos 1970, como nos outros          tria da Psicanlise, 1 (1988), Rio de Janeiro, Imago,
pases, a psicanlise britnica enfrentou o flo-     1990, 119-46  Riccardo Steiner, " uma nova forma de
rescimento das diversas psicoterapias, das quais     dispora...' A poltica de emigrao dos psicanalistas
algumas se diziam adeptas do freudismo (como         segundo a correspondncia de Ernst Jones com Anna
                                                     Freud", ibid. 231-82  Eric Rayner, Le Groupe des
a Philadelphia Association ou a Guild of             "Indpendants" et la psychanalyse britannique (Lon-
Psychotherapists). Diante dessa ecloso, a esco-     dres, 1990), Paris, PUF, 1994  Pearl King e Riccardo
la psicanaltica inglesa decidiu abrir-se a algu-    Steiner (org.), Les Controverses Anna Freud/Melanie
mas delas, correndo o risco de transformar-se        Klein, 1941-1945 (Londres, 1991), Paris, PUF, 1996 
                                                     The Complete Correspondance of Sigmund Freud and
radicalmente. Certos grupos lacanianos conse-
                                                     Ernest Jones, 1908-1939, Andrew R. Paskauskas
guiram implantar-se no terreno dos estudos de        (org.), introduo de Riccardo Steiner, Cambridge,
psicologia: o Center for Freudian Analysis and       Londres, Harvard University Press, 1993  R.D. Hins-
Researchs (CFAR) e o London Circle.                  helwood, "Le Mythe du compromis britannique", in
                                                     Topique, 57, 1995, 229-45  Julia Borossa, Narratives
    No fim do sculo XX, a BPS conta em suas
                                                     of the Clinical Encounter and the Transmission of Psy-
fileiras com 405 membros, mais 57 alunos, para       choanalytic Knowledge (tese), Cambridge, Newnham
uma populao de 58 milhes de habitantes: ou        College, 1995.
seja, oito psicanalistas (IPA) para um milho de
habitantes, uma das densidades mais fracas do         ANLISE DIRETA; ANNAFREUDISMO; EGO PSY-
mundo para a nica escola capaz de conquistar        CHOLOGY; FAIRBAIRN, RONALD; HISTORIOGRAFIA;
                                                                             Graf, Herbert     307

IDENTIFICAO PROJETIVA; LACANISMO; MATTE-             Desde as primeiras anotaes do pai, o Pe-
BLANCO, IGNACIO; OBJETO (BOM E MAU); OBJETO,       queno Hans parecia muito preocupado com a
RELAO DE; OBJETO TRANSICIONAL; PHANTASIA;        parte do corpo a que chamava seu "faz-pipi".
POSIO DEPRESSIVA/ESQUIZO-PARANIDE; SELF         Sucessivamente, perguntou  me se ela tam-
PSYCHOLOGY; TRADUO (DAS OBRAS DE SIG-            bm tinha um, atribuiu um  vaca leiteira, 
MUND FREUD); TRANSFERNCIA.
                                                   locomotiva que soltava gua, ao cachorro e ao
                                                   cavalo, mas no o atribuiu  mesa nem  cadei-
                                                   ra. Esse interesse, como assinalou Freud com
Graf, Herbert (1903-1973),
caso Pequeno Hans                                  humor, no se limitava  teoria: levou Hans a
                                                   ser surpreendido pela me quando se entregava
     At 1972, data da publicao das "Mem-
                                                   a bulir no pnis. A ameaa brandida por esta, de
rias de um homem invisvel", transcrio das
                                                   mandar que lhe cortassem o "faz-pipi" se ele
quatro entrevistas concedidas por Herbert Graf
                                                   continuasse a se dedicar quele tipo de ativi-
ao jornalista Francis Rizzo, no se conhecia a
                                                   dade, no chegou a induzir nenhum sentimento
identidade do "menino de cinco anos" que se
                                                   de culpa, mas, como assinalou ainda Freud, fez
celebrizou sob o nome de "Pequeno Hans",
                                                   com que ele adquirisse o complexo de cas-
graas ao relato feito por Sigmund Freud* sobre
                                                   trao*. Prosseguindo em suas exploraes, o
sua anlise, realizada sob a conduo de Max
                                                   menino procurou averiguar se seu pai tambm
Graf*, pai do paciente.
                                                   tinha um "faz-pipi" e ficou surpreso ao saber
     Considerado um dos grandes casos da his-
tria da psicanlise*, o tratamento do Pequeno     que a me, adulta, no tinha um "faz-pipi" do
Hans ocupou rapidamente um lugar especial          tamanho do de um cavalo.
nos anais do freudismo*, a comear pelo fato           Durante esse perodo, "o grande aconteci-
de que o paciente (pela primeira vez) era uma      mento da vida de Hans foi o nascimento de sua
criana e, alm disso, porque Freud, em vez de     irmzinha Anna, quando ele tinha exatamente
ficar na posio de analista, interviera como      trs anos e meio". As observaes do pai evi-
supervisor.                                        denciaram uma distncia entre os ditos do me-
     A anlise propriamente dita do Pequeno        nino, que pareciam dar crdito  histria da
Hans desenrolou-se durante o primeiro semes-       cegonha que traz os bebs, e sua ateno 
tre do ano de 1908. Foi contempornea da de        maleta do mdico e s bacias de gua suja de
Ernst Lanzer*, o Homem dos Ratos. Freud, com       sangue no quarto da parturiente, ateno essa
a autorizao do pai do menino, publicou o         que parecia indicar, como assinalou Freud, a
relato em 1909, mas j se referira ao Pequeno      presena das primeiras suspeitas quanto  ver-
Hans em dois artigos sobre a sexualidade infan-    dade da fbula. Hans precisaria de uns seis
til, publicados em 1907 e 1908. Na verdade,        meses para superar seu cime e se convencer de
desde 1906, quando o menino ainda no tinha        sua superioridade em relao  irm caula.
trs anos, seu pai, conquistado pela psicanlise   Assistindo ao banho desta, constatou que ela
ao escutar sua mulher lhe falar de seu tratamen-   possua um "faz-pipi (...) ainda pequeno" e,
to com Freud, tomava notas sobre tudo o que        benevolente, previu que ele se tornaria maior
dizia respeito  sexualidade* do filho, a fim de   quando Anna crescesse. Comentando as obser-
transmiti-las ao mestre, para quem se tornara      vaes seguintes, Freud destacou as manifes-
uma pessoa da famlia. Max Graf no era o          taes de auto-erotismo, logo seguidas por uma
nico a se entregar a esse tipo de observao:     "escolha de objeto exatamente como no adul-
Freud, como lembrou no incio de seu relato,       to". Assim, Hans deu mostras de inconstncia e
incitara seus colegas das reunies da Sociedade    de uma predisposio  poligamia, mas tambm
Psicolgica das Quartas-Feiras* a se dedicarem     apresentou traos de homossexualidade*, tudo
a esse tipo de exerccio, de modo a lhe levarem    isso levando Freud, visivelmente satisfeito por
provas da solidez de fundamento de suas teses      assim acompanhar, passo a passo, a confirma-
sobre a sexualidade infantil, expostas algum       o de sua teoria, a dizer: "Nosso Pequeno Hans
tempo antes nos Trs ensaios sobre a teoria da     realmente parece ser um modelo de todas as
sexualidade*.                                      perversidades."
308     Graf, Herbert

    Hans atravessou em seguida um perodo          recusou, chorou e, depois, deixou-se levar, po-
marcado pela busca de emoes erticas --          rm manifestando um medo intenso, do qual s
apaixonou-se por uma menina e insistiu com os      falou na volta: "Eu estava com medo que o
pais em que ela fosse  sua casa para que lhe      cavalo me mordesse."  noite, nova crise de
fosse possvel dormir com ela --, num prolon-      angstia ante a idia do passeio do dia seguinte
gamento das emoes que sentira em suas in-        e medo de que o cavalo entrasse em seu quarto.
curses  cama dos pais. Um sonho*, quando         A me perguntou-lhe, ento, se por acaso ele
ele contava quatro anos e meio, traduziu seu       estivera pondo a mo no "faz-pipi". Ao obter
desejo, desde ento recalcado, de se entregar      sua resposta afirmativa, ela lhe ordenou que
novamente ao exibicionismo a que se dedicara       parasse com aquilo, o que mais tarde ele confes-
no ano anterior, diante das meninas. Esse pero-   sou s conseguir fazer precariamente.
do encerrou-se com o reconhecimento, por               "A est, portanto", comenta Freud, "o co-
parte do menino, ao assistir outra vez ao banho    meo da angstia e da fobia*", que devem ser
da irm, da diferena entre os rgos genitais     distinguidas. A crescente ternura pela me tra-
masculinos e femininos.                            duz uma aspirao libidinal recalcada,  qual
    Alguns dias depois desse sonho e dessa         corresponde o surgimento da angstia. Essa
constatao, a "doena" do Pequeno Hans se         transformao da libido* em angstia  irrever-
declarou. Os dilogos entre o pai e o filho,       svel e a angstia tem que encontrar um objeto
fielmente transcritos pelo pai e transmitidos a    substituto, que constituir o material fbico.
Freud, permitiram a este orientar o tratamento     Nesse momento, ainda  cedo demais para com-
e, em seguida, reconstituir a evoluo dos dis-    preender a origem do material da fobia de Hans,
trbios e seu desaparecimento, numa sano da      os cavalos e o risco da mordida deles. Nesse
"cura" anunciada desde a primeira linha da         estdio, Freud aconselha o pai de Hans a dizer
narrativa.                                         ao menino que a histria dos cavalos  uma
    Esse perodo iniciou-se com uma carta do       "besteira" -- esse foi o termo que o pai e o filho
pai, preocupado com a agitao nervosa de que      passaram a empregar para designar a fobia -- e
o menino se mostrava subitamente vtima e          que o medo provm de seu interesse exagerado
disposto a atribuir esse estado ao excesso de      pelo "faz-pipi" dos cavalos. Freud sugere, alm
ternura manifestada pela me. Freud, que de-       disso, que se promova a iniciao sexual do
fenderia sistematicamente sua ex-paciente, a       menino, em especial para que ele possa admitir
"bela me" de Hans, "bonssima e muito dedi-       que "sua me e todas as outras criaturas femi-
cada", refutou esse ponto de vista. Na anlise,    ninas, como ele pode perceber pela pequena
sublinhou, no se trata de "compreender ime-       Anna, no possuem um `faz-pipi'".
diatamente um caso patolgico"; a compreen-            Passado algum tempo, a fobia retorna e se
so s  possvel "na seqncia", aps nos         estende a todos os animais grandes, girafas,
darmos tempo de observar e acumular as             elefantes e pelicanos. Aps um comentrio de
impresses.                                        Hans sobre o enraizamento de seu "faz-pipi",
    Pouco antes da ecloso do estado ansioso,      que o menino espera ver crescer junto com ele,
Hans tivera um sonho, um "sonho de punio",       Freud explica que os animais grandes lhe do
diz Freud, no qual a me querida, com quem ele     medo porque o remetem  dimenso atual e in-
podia "fazer denguinho", tinha ido embora. Es-     satisfatria de seu rgo peniano. Quanto ao en-
se sonho era um eco dos privilgios obtidos        raizamento, ele  uma resposta, diz ainda Freud,
quando a me o levava para sua cama, no ano         ameaa de castrao, expressa muito antes pe-
anterior, todas as vezes que ele manifestava       la me e cujo efeito se manifesta, assim, a pos-
ansiedade e tambm todas as vezes que seu pai      teriori*, no momento em que a inquietao do
estava ausente. Alguns dias depois, passeando      menino aumentou, depois de feito o anncio ofi-
com a bab, Hans comeou a chorar e pediu para     cial sobre a ausncia do "faz-pipi" nas mulheres.
voltar para casa, para "fazer denguinho com a          Certa manh, Hans d conta de sua incurso
mame". No dia seguinte, a me resolveu lev-      noturna  cama dos pais explicando que havia
lo pessoalmente para passear. A princpio ele      em seu quarto uma grande girafa e uma girafa
                                                                              Graf, Herbert      309

amassada. "A grande", diz ele, "gritou que eu      do objeto de angstia", por razes ligadas  his-
tinha tirado dela a amassada. Depois ela parou     tria do menino: quando menor, Hans tivera
de gritar, e a eu me sentei em cima da girafa     paixo por cavalos, vira um de seus coleguinhas
amassada." O pai relaciona essa fantasia com       cair de um cavalo e se lembrava da histria de
uma situao que se repete: enquanto ele se        um cavalo branco que era capaz de morder os
ope  vinda do filho para o leito conjugal, a     dedos. A ecloso da fobia datava do incidente
me responde que no h nada de grave nisso,       real do cavalo cado: Hans experimentara, na-
desde que no se perpetue. A girafa grande,        quele momento, o desejo (e, ao mesmo tempo,
portanto, seria o grande pnis paterno, enquanto   o medo) de que seu pai casse assim e morresse,
a girafa amassada representaria os rgos geni-    o que lhe abriria caminho para a posse da me,
tais femininos. Freud acrescenta que o "sentar-    mas tambm o exporia aos riscos de uma com-
se" sobre a girafa amassada representa uma         parao que lhe seria pouco favorvel. Desse
"tomada de posse", baseada numa fantasia* de       dia em diante, Hans ganhou mais liberdade
desafio ao pai e na satisfao de menosprezar      com o pai, chegando a querer mord-lo, prova
sua proibio, tudo isso revestindo-se do medo     de que o identificara com o to temido cavalo.
de que a me ache o "faz-pipi" do menino muito     Mas isso no impediu que o medo dos cavalos
pequeno, em comparao ao do pai. Sobrevm         persistisse.
ento uma srie de fantasias de invaso e de           A anlise tomou ento um rumo diferente. A
desrespeito s proibies, nas quais o pai        me, momentaneamente esquecida, voltou ao pri-
associado ao filho -- marca da suspeita de Hans    meiro plano, por intermdio de fantasias excre-
de que o pai faz coisas com a me das quais quer   mentcias e reaes fbicas  viso de calas
priv-lo.                                          amarelas e pretas. Seguiram-se ento a fantasia do
    Em 30 de maro de 1908, Hans vai com o         bombeiro, que furava o estmago de Hans com
pai ao consultrio de Freud. A conversa  curta.   uma broca, e o medo de tomar banho numa ba-
Freud pergunta ao menino, que falou num ne-        nheira grande. A fantasia do bombeiro, fantasia de
grume ao redor da boca dos cavalos, se estes       procriao, encontraria sua significao mais tar-
usam culos. Em seguida a sua resposta nega-       de, ao ficar claro que o menino nunca havia
tiva, formula-lhe a mesma pergunta a respeito      acreditado na histria da cegonha, e ficara zanga-
de seu pai. A resposta, evidentemente,  tam-      do com o pai por lhe contar essas mentiras.
bm negativa. Freud ento explica a Hans que           Freud levou a anlise mais longe, insistindo
ele tem medo do pai "justamente por ele gostar     na justaposio do medo da banheira com as
tanto de sua me".                                 fantasias excrementcias -- o interesse e, em
    Uma melhora se faz sentir depois dessa         seguida, o nojo de Hans pelas fezes, que ele
entrevista. A explicao dada  criana, diz       chamava de "lumfs" --, por sua vez ligadas ao
Freud, provocou o enfraquecimento de suas          prazer que o menino obtinha ao acompanhar
resistncias, o que dever permitir-lhe dar nome   sua me ao banheiro. Parece que, para Hans --
a seus temores. Efetivamente, numa conversa        e Freud se felicitou por encontrar nisso, mais
com o pai, enquanto manifesta seu medo de ver      uma vez, a confirmao do que escrevera anos
levarem um tombo os cavalos atrelados a uma        antes --, os veculos, assim como os ventres das
carruagem, Hans explica que um dia, no qual,       mes, eram carregados de filhos-excrementos:
apesar da "besteira", saiu para passear com a      a queda dos cavalos, tal como a dos "lumfs",
me, ele realmente viu dois cavalos que puxa-      era a representao de um nascimento, e Freud
vam uma carruagem carem na rua, e achou que       sublinha, nessa oportunidade, o carter signifi-
um deles estava morto. A me confirma a vera-      cante da expresso "deitar cria". O cavalo que
cidade do relato.                                  cai, portanto, no  apenas o pai que morre, mas
    Essa informao constitui uma guinada na       tambm a me que d  luz. Hans passa a poder
evoluo da anlise. A fobia se declara quando a   verbalizar seu desejo de ver o pai ir embora e a
angstia, que originalmente nada tinha a ver       reconhecer seu desejo de possuir a me. Toda-
com os cavalos, transpe-se para esses animais,    via, encontra uma soluo para essa situao,
assim elevados, comenta Freud, " dignidade        ainda geradora de angstia: seu pai ser av dos
310     Graf, Herbert

filhos que ele, Hans, tiver com a me. Para        dos animais que funcionaram na anlise em
aplacar a clera sempre possvel desse pai assim   termos levi-straussianos. Longe de buscar em
desalojado, o menino o imagina casado com a        cada um deles uma significao particular, ele
me dele, a av paterna de Hans. Uma ltima        os relacionou uns com os outros, a fim de captar
fantasia, na qual um bombeiro lhe troca seu        a reiterao do semelhante num sistema. O ca-
"faz-pipi" por outro maior, marca sua sada do     valo, portanto, ora remete ao pai, ora  me, e
dipo* e sua vitria sobre o medo da castrao.    funciona como elemento significante*, isolado
    Diversamente dos outros casos princeps ex-     do significado. A toro que com isso Lacan
postos por Freud, o do pequeno Hans no foi        imprime  teoria freudiana do dipo* est liga-
objeto de nenhuma reviso historiogrfica          da a sua concepo do declnio da funo pater-
exaustiva. Entretanto, deu margem a numerosas      na na sociedade ocidental, que ele expusera em
leituras crticas.                                 1938 em seu artigo sobre a famlia. Diante desse
    Num primeiro momento, enquanto era im-         declnio, do qual ele faz a causa essencial do
pensvel abordar to de perto a lendria "ino-     aparecimento da psicanlise em Viena*, Lacan
cncia infantil", os psicanalistas fizeram desse   pretende revalorizar uma noo de paternidade
caso o paradigma de todos os processos de          baseada na interveno da fala e denunciar o
psicanlise de crianas*. Foi preciso esperar      perigo da onipotncia materna, que ele estigma-
que os primeiros passos fossem dados nesse         tiza ao falar de uma "me insacivel e insatis-
campo por Hermine von Hug-Hellmuth*, e so-         feita", pronta para devorar seu filho.
bretudo aguardar a revoluo efetuada por Me-          Em 1987, o psicanalista francs Jean Berge-
lanie Klein*, para que essa concepo fosse        ret relacionou as dificuldades de Hans com as
ultrapassada no movimento psicanaltico.           que o prprio Freud teria conhecido na infncia.
    Por outro lado, algumas leituras tomaram       Observando que os dois nicos textos que Freud
como ngulo de ataque a interpretao freudia-     no publicou em vida (o que ele dedicara aos
na do caso e desenvolveram uma nova reflexo       personagens psicopticos no palco, cujo ma-
sobre o estatuto da fobia. Por ltimo, outros      nuscrito entregou a Max Graf no comeo da
trabalhos optaram por reinscrever a anlise e o    anlise de Hans, e o que foi encontrado e publi-
personagem do Pequeno Hans no fio de sua           cado por Ilse Grubrich-Simitis sob o ttulo de
histria e de sua identidade -- as de Herbert      Neuroses de transferncia: uma sntese) tm em
Graf, filho de Max Graf e Olga Knig-Graf,         comum o tema da violncia irrepresentvel,
amigos de Sigmund Freud.                           indizvel, produzida por uma incitao sexual
    Jacques Lacan* dedicou a segunda parte de      precoce demasiadamente intensa, Bergeret
seu seminrio do ano de 1956-1957, intitulado      defendeu a hiptese de que a anlise do Pequeno
A relao de objeto, ao caso do pequeno Hans.      Hans teria sido construda com base na denega-
Seu objetivo era elaborar uma clnica lacaniana    o de um trauma conhecido.
da anlise de crianas, da qual Jenny Aubry* e         Por ocasio da publicao,  guisa de suple-
Franoise Dolto* eram as grandes mestras, que      mentos  revista L'Unebvue, das tradues que
fosse capaz de rivalizar com a escola inglesa,     fizera desse texto de Freud sobre os persona-
enriquecida pelas contribuies contraditrias     gens psicopticos no palco, do de Max Graf
de Melanie Klein, Anna Freud* e Donald             dedicado a Freud e das Memrias de Herbert
Woods Winnicott*. Para Lacan, a fobia de Hans      Graf, o psicanalista francs Franois Dachet
sobreviera com a descoberta de seu pnis real e    publicou, em 1993, nesse mesma revista, um
com seu conseqente pavor de ser devorado          estudo que almejava elucidar a complexidade
pela me, investida de uma onipotncia imagi-      da relao entre Freud e Max Graf. Em particu-
nria. A fobia, portanto, s podia ser ultrapas-   lar, Dachet observou que, se nessa relao Max
sada, seno curada, pela interveno do Pai real   Graf foi evocado por Freud como o pai do
(Max Graf), apoiada pelo Pai simblico             Pequeno Hans, como o discpulo e amigo que
(Freud), que teve como efeito separar o menino     reconhecia nele um talento artstico do qual os
da me e garantir seu avano do imaginrio*        "remendes da alma" eram desprovidos, e co-
para o simblico*. Lacan interpretou os mitos      mo o destinatrio competente de um manuscrito
                                                                               Graf, Herbert      311

que versava sobre problemas cenogrficos, ele           Em seu artigo, Max Graf evoca, de maneira
nunca o foi como marido da me do Pequeno           simultaneamente afetuosa e crtica, o clima das
Hans, que era ex-paciente de Freud. Nesse as-       noites de quarta-feira para as quais era convida-
pecto, salientou Franois Dachet, a leitura laca-   do por Freud, a personalidade deste, e os dios,
niana do caso mereceria "ser reconsiderada".        paixes e conflitos que a intransigncia dele era
    Em 1996, Peter L. Rudnytsky, um professor       capaz de suscitar. Embora, na poca, a anlise
universitrio norte-americano, props conside-      do Pequeno Hans fosse um assunto freqente-
rar o caso do Pequeno Hans mais como um             mente evocado nessas reunies das noites de
exemplo de "terapia de famlia" do que como a       quarta-feira, Max Graf no faz a menor aluso
anlise de uma criana. Sua abordagem do caso       a ela.  mais prolixo no que concerne ao que o
referiu-se s teses feministas desenvolvidas, em    psicanalista holands Harry Stroeken props
especial, por Luce Irigaray. Ela o conduziu a       chamar de "a relao entre a famlia Graf e
discernir nessa anlise os elementos fun-           Freud". Assim ficamos sabendo, entre outras
damentais da concepo freudiana da diferena       coisas, que Freud, que se associava com facili-
sexual* e da sexualidade feminina*, que apare-      dade aos festejos familiares dos Graf, levou
ceria sob sua forma definitiva em 1933, nas         para o Pequeno Hans, de presente por seu ter-
Novas conferncias introdutrias sobre psica-       ceiro aniversrio, um... cavalo de balano!
nlise*. A concluso de Rudnytsky no teve              Em suas Memrias, Herbert Graf manifesta,
apelao. Ele estigmatizou "os preconceitos         no ocaso da vida, um fervor e uma admirao
burgueses" que, a seu ver, subjazem s posturas     pelo pai que impressionam ainda mais pelo fato
tericas de Freud sobre as questes da homos-       de ele no dizer uma s palavra sobre a me ao
sexualidade e da sexualidade feminina.              longo dessas quatro entrevistas. Essa cliva-
    Voltando ao caso em seu seminrio do ano        gem* parece ilustrar bem o que foi a vida do
de 1968-1969, intitulado De um Outro ao outro,      Pequeno Hans quando transformado em adulto,
Lacan evocou a cura proclamada por Freud e          caracterizada pelo contraste entre seu sucesso
exclamou: "... o Pequeno Hans no tem mais          profissional e seus fracassos afetivos.
medo dos cavalos, e da?"                               Com efeito, Herbert Graf conheceu, na ju-
    E da? Em 1922, Freud acrescentou um "ep-      ventude, por intermdio do pai, tudo o que
logo" a seu texto de 1909; nele, relatou breve-     Viena tinha a oferecer em matria de persona-
mente a visita, naquele mesmo ano, de um rapaz      lidades do mundo artstico da poca. Gustav
que se apresentara a ele como sendo o Pequeno       Mahler* foi seu padrinho, enquanto Arnold
Hans. Para Freud, essa visita constituiu, antes     Schnberg (1874-1951), Richard Strauss
de mais nada, um contundente desmentido das         (1864-1949) e Oskar Kokoschka (1886-1980)
sinistras previses enunciadas na poca da an-     estiveram entre os freqentadores da casa dos
lise. Para sua grande alegria, ele se felicitou,    Graf. Quando, ante as risadas dos outros estu-
numa frase ambgua, pelo fato de o rapaz ter        dantes, que registraram isso no livro das "bur-
conseguido superar as dificuldades inerentes ao     rices do ano" -- mais uma "besteira"? --, Her-
divrcio e s segundas npcias de seus pais, e      bert Graf anunciou seu desejo de se tornar dire-
finalmente observou, com uma voracidade te-        tor cnico de pera, profisso da qual seria o
rica no dissimulada, que Hans/Herbert esque-       inventor, seu pai lhe deu apoio financeiro. Na
cera tudo de sua anlise, inclusive a prpria       trilha direta dos primeiros passos desse pai, ele
existncia dela.                                    defendeu uma tese sobre a cenografia wagne-
    No entanto, a leitura do texto de Max Graf,     riana que lhe valeu o reconhecimento oficial da
"Reminiscncias do Prof. Sigmund Freud", pu-        famlia do autor dos Mestres cantores. Depois
blicado em 1942, bem como a das Memrias            de se arriscar sem sucesso na arte lrica, assumiu
(sob a forma de entrevistas) de Herbert Graf,       a direo cnica da pera de Mnster. Em
traz um certo nmero de informaes capazes         seguida, emigrou para os Estados Unidos* e se
de relativizar a satisfao de Freud e constituir   tornou diretor titular da Metropolitan Opera de
os primeiros elementos para uma reviso do          Nova York, onde colaborou estreitamente com
caso.                                               Arturo Toscanini e Bruno Walter, entre outros.
312       Graf, Max

Sua fama o levou a Salzburgo e  Itlia*, seu               Herbert Graf, "Mmoires d'un homme invisible" (1972),
                                                            suplemento do n 3 de L'Unebvue, 1993  Henri-Louis
pas favorito, onde realizou mais de sessenta
                                                            de La Grange, Gustav Mahler. Chronique d'une vie,
produes, em Verona, Milo, Veneza e Floren-               Paris, Fayard, 1984  Luce Irigaray, Spculum de l'au-
a (onde trabalharia com Maria Callas). Pos-                tre femme, Paris, Minuit, 1974  Ernest Jones, A vida e
teriormente, assumiu a direo da pera de                  a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955,
Zurique, da qual se demitiu em razo da falta de            1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Jacques Lacan,
                                                            Os complexos familiares na formao do indivduo
recursos, e a seguir a do Grand Thtre de                  (1938, Paris, 1984), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987;
Genebra, at sua morte, em 1973.                            O Seminrio, livro 4, A relao de objeto (1956-1957)
    Ao lado dessa brilhante carreira, pontilhada            (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995; Le
por alguns textos audaciosos e sempre atuais                Sminaire, livre XVI, D'un Autre  l'autre (1968-1969),
                                                            indito  Patrick Mahony, "The dictator and his cure",
sobre a questo da pera popular, a vida parti-             IJP, 74, 1993, 1245-51  Brigitte e Jean Massin (orgs.),
cular de Herbert Graf parece ter sido balizada              Histria da msica ocidental (Paris, 1985), Rio de
por sofrimentos. Ao contrrio da apreciao de              Janeiro, Nova Fronteira, 1998  Peter L. Rudnytsky,
Freud, ele parece nunca se haver refeito por                "Maman, as-tu, toi aussi, un fait-pipi? La Reprsenta-
                                                            tion de la sexualit fminine dans le cas du petit Hans",
completo do choque causado pelo divrcio e
                                                            in Andr Haynal (org.), La Psychanalyse: cent ans dj,
pelas segundas npcias de seus pais. Atormen-               Genebra, Georg, 1996, 185-205  Harry Stroeken, En
tado por conflitos conjugais, retomou uma an-              analyse avec Freud, Paris, Payot, 1987.
lise com Hugo Solms, que o incitou, em 1970,
quando se realizou em Genebra um congresso                   FALOCENTRISMO; PATRIARCADO.
de psicanlise, a ir se apresentar a Anna Freud,
visita esta que no teve nenhuma conseqncia.
    Atingido por um cncer renal que se revelou             Graf, Max (1873-1958)
incurvel, Herbert morreu em 5 de abril de 1973             crtico e musiclogo austraco
em decorrncia de uma queda, provavelmente
                                                                Nascido em Viena*, em uma famlia judia
acarretada por vertigens provocadas por seu
                                                            originria da Galcia, Max Graf era filho de um
estado.
                                                            jornalista conhecido, Josef Graf, que se casara
 Sigmund Freud, "O esclarecimento sexual das crian-        com sua prima Regina Lederer. Em 1898, de-
as" (1907), ESB, IX, 137-48; GW, VII, 19-27; SE, IX,       pois de estudar direito e msica, casou-se com
129-39; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 7-13;         uma atriz, Olga Knig. O casal teve dois filhos,
"Sobre as teorias sexuais das crianas" (1908), ESB,        Herbert*, nascido em 1903, e Hanna, nascida
IX, 213-32; GW, VII, 171-88; SE, IX, 205-26; in La Vie
sexuelle, Paris, PUF, 1969, 14-27; "Anlise de uma
                                                            trs anos e meio depois, que se suicidaria nos
fobia em um menino de cinco anos" (1909), ESB, X,           Estados Unidos* no comeo dos anos 1950.
15-152; GW, VII, 243-377; SE, X, 1-147; in Cinq psy-            Tornando-se musiclogo, Max Graf redigiu
chanalyses, Paris, PUF, 1954, 93-198; "Personagens          duas obras sobre Richard Wagner. A segunda,
psicopticas no palco" (1906), ESB, VII, 321; GW,
Nachtragsband, 655-61; SE, VII, 303-10; in Rsultats,
                                                            consagrada ao Navio fantasma, foi publicada
ides, problmes, vol.I, Paris, PUF, 1984, 123-30; No-      por Sigmund Freud* em 1911, na srie Schrift-
vas conferncias introdutrias sobre psicanlise            en zur angewandten Seelenkunde*. Tradutor de
(1933), ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE, XXII, 5-182;         Romain Rolland* e de vrias obras de histria
OC, XIX, 83-268  Freud/Jung: correspondncia com-          da msica, Max Graf tentou a composio mas
pleta (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993.  Les
Premiers psychanalystes, Minutes de la Socit psy-         renunciou rapidamente, a conselho de Johannes
chanalytique de Vienne, vol.I, 1906-1908, vol.II, 1908-     Brahms (1833-1897). Ensinou histria da m-
1910 (1962), Paris, Gallimard, 1976  Jean Bergeret,        sica e esttica musical em Viena, e quando de
Le "Petit Hans" et la ralit ou Freud face  son pass,    seu exlio nos Estados Unidos, durante o pero-
Paris, Payot, 1967  Franois Dachet, "De la `sensibilit
artistique' du professeur Freud", L'Unebvue, 3, 1993,
                                                            do nazista*, na New School for Social Research
7-38  Franois Dachet e Mayette Viltard, "Prsentation     em Nova York, e na Universidade de Filadlfia.
du texte de Freud de 1905-1906: `Personnages psy-           Max Graf interveio tambm no campo da pol-
chopathiques sur la scne'", ibid., 129-48  Henri F.       tica, como editorialista da Neue Frei Press.
Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'inconscient
(N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris,
                                                                Encontrou-se com Freud em 1900, atravs
Fayard, 1994  Max Graf, "Rminiscences sur le              de "uma senhora que eu conhecia", como expli-
professeur Freud" (1942), Tel quel, 88, 1981, 52-101       cou enigmaticamente, e da qual Freud tratava
                                                                                     Graf, Rosa        313

nessa poca. "Depois de suas sesses com             o classicismo e o romantismo na histria da
Freud, escreveu ainda Max Graf, essa senhora         msica. Em sua opinio, o compositor romn-
me falava desse notvel tratamento por meio de       tico deixa falar em si os vestgios de sua infn-
perguntas e respostas. A partir dos relatos dessas   cia, enquanto o msico clssico domina seu
entrevistas, familiarizei-me com a nova manei-       inconsciente.
ra de considerar os fenmenos psicolgicos,              Em 1947, ao voltar a Viena, retomou suas
com o desenlace artstico do tecido do incons-       atividades de crtico em Die Weltpress at 1957.
ciente e com a tcnica da anlise do sonho."         Em dezembro de 1952, Max Graf deu a Kurt
Tudo leva a pensar que essa "senhora" que            Eissler, responsvel pelos Sigmund Freud Ar-
introduziu Max Graf junto a Freud era Olga, sua      chives (SFA), depositados na Biblioteca do Con-
mulher, que Freud, em seu relatrio da "Anlise      gresso*, em Washington, uma longa entrevista
de uma fobia em um menino de cinco anos",            sobre sua famlia e seus filhos. Deixou muitas
chama de "bonita me" do Pequeno Hans, Her-          obras consagradas  vida musical vienense.
bert Graf, esclarecendo que conseguira alivi-la
                                                      Max Graf, Die innere Werkstatt des Musikers, Stutt-
da neurose* de que ela se tornara "vtima".          gart, Ferdinand Encke, 1910; Richard Wagner im
    Em 1902, Freud props a Max Graf partici-        "Fliegenden Hollnder", Leipzig e Viena, Franz Dei-
par das reunies da Sociedade Psicolgica das        ticke, 1911; "Rminiscences sur le professeur Freud"
Quartas-Feiras*. Graf aceitou e assistiu regular-    (1942), Tel Quel, 88, 1981, 52-101; "Entretien du pre
                                                     du petit Hans (Max Graf) avec Kurt Eissler", 16 de
mente s sesses. Teria oportunidade de apre-        dezembro de 1952, Le Bloc-notes de la psychanalyse,
sentar vrias comunicaes originais. Durante        14, 1996, 123-59  Herbert Graf, Mmoires d'un
a reunio de 11 de dezembro de 1907, enfatizou       homme invisible (N. York, 1972), suplemento ao n 3
que "a tcnica de Freud, apenas, no torna           de L'Unebvue, 1993  Sigmund Freud, "Personagens
                                                     psicopticas no palco" (1942), ESB, VII, 321; retradu-
ningum mais inteligente ou profundo", e que         zido in Rsultats, ides, problmes, vol.1, Paris, PUF,
ela no era til para nenhum "manipulador de         1984; "Anlise de uma fobia em um menino de cinco
almas". Nesse perodo, no fim do ano de 1905,        anos" (o pequeno Hans) (1909), ESB, X, 15-152; GW,
Freud lhe confiou o manuscrito do artigo "Per-       VII, 243-377; SE, X, 1-147; in Cinq psychanalyses,
                                                     Paris, PUF, 1954  Freud/Jung: correspondncia com-
sonagens psicopticos no palco", do qual nunca       pleta (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993 
mais falaria. Max Graf traduziu esse texto para      Franois Dachet, "De la `sensibilit artistique' du
o ingls, fazendo cortes inexplicveis; seria        professeur Freud", L'Unebvue, 3, 1993, 7-37  Fran-
publicado nos Estados Unidos em 1942, acom-          ois Dechet e Mayette Viltard, "Prsentation du texte
                                                     de Freud de 1905-1906: `Personnages psychopathi-
panhado de suas "Reminiscncias sobre o pro-         que sur la scne'", ibid., 129-48  Henri-Louis de La
fessor Freud".                                       Grange, Gustave Mahler. Chronique d'une vie, Paris,
    Em 1908, Max Graf dirigiu, sob a supervi-        Fayard, 1984  Andr Michel, Psychanalyse de la mu-
so de Freud, a anlise de seu filho Herbert. O      sique (1951), Paris, PUF, 1984  Elke Mhlleitner, Bio-
                                                     graphisches Lexikon der Psychoanalyse. Die Mitglie-
relato do caso seria publicado no ano seguinte.      der der psychologischen Mittwoch-Gesellschaft un der
    Uma frase de Freud, em uma carta de 2 de         Wiener psychoanalytischen Vereinigung von 1902-
fevereiro de 1910 a Carl Gustav Jung*, faz           1938, Tbingen, Diskord, 1992  Les Premiers psy-
pensar que depois da anlise do filho, Max Graf      chanalystes. Minutes de la Socit Psychanalytique de
                                                     Vienne, I, 1906-1908 (1962), Paris, Gallimard, 1976.
conduziu o segundo tratamento de sua mulher:
"Eu consideraria a anlise da prpria mulher          FILIAO; MELANCOLIA; PSICANLISE APLICADA;
como absolutamente impossvel. O pai do Pe-          PSICANLISE DE CRIANAS; SUICDIO.
queno Hans me provou que isso funciona muito
bem. A regra tcnica da qual suspeito h pouco
tempo, `superar a contratransferncia*', se tor-     Graf, Rosa, ne Regina Debora
na, apesar de tudo, excessivamente difcil nesse     Freud (1860-1942), irm de
caso." Posteriormente, o casal se divorciou e        Sigmund Freud
Max Graf se casaria de novo por duas vezes.             Nascida em Viena*, terceira entre os filhos
    Em seu livro A oficina interior do msico,       de Jacob e Amalia Freud*, Rosa era a segunda
publicado em 1910, ele se inspirou nas teses         irm de Sigmund Freud* depois de Anna Ber-
freudianas para explicar certas diferenas entre     nays* (nascida Freud). Tambm era sua prefe-
314      Grandes Controvrsias

rida, e tinha como ele (e como Emanuel Freud*,             atravs de longas discusses, os freudianos de
seu meio-irmo), uma tendncia  neurastenia*.             todas as tendncias, reunidos na Gr-Bretanha*
Rosa teve um destino trgico.                              no seio da British Psychoanalytical Society
    Em maio de 1896, casou-se com Heinrich                 (BPS).
Graf, um clebre jurista vienense, que morreu                  Aps a destruio das sociedades psicanal-
pouco tempo depois do casamento. Seu filho                 ticas do continente pelo nazismo*, a BPS tor-
nico, Hermann, morreu em combate durante a                nou-se o ltimo bastio da psicanlise* na Eu-
Primeira Guerra Mundial e sua filha Caecilia               ropa. Entre 1933 e 1939, ela acolheu inmeros
(apelidada Mausi), amiga de Hans Lampl* e                  imigrantes, dentre os quais os vienenses, inclu-
muito ligada  sua prima Anna Freud*, suici-               sive a famlia Freud. Ora, desde 1926, a escola
dou-se em 1922, com a idade de 23 anos, toman-             vienense (em especial os partidrios de Anna
do veronal enquanto estava grvida de uma                  Freud*) opunha-se a Melanie Klein* e seu gru-
relao extra-matrimonial.                                 po, que representavam a corrente majoritria da
    No processo de Nuremberg, em 26 de feve-               escola inglesa.
reiro de 1946, uma testemunha contou como                      Adeptos de uma concepo dita ortodoxa
Rosa Graf morrera na cmara de gs do campo                (ou continental) da psicanlise, os annafreudia-
de extermnio de Treblinka, por volta do ms de            nos pretendiam ser os porta-vozes da tradio
outubro de 1942: "Uma mulher de certa idade                do pai fundador: um freudismo* clssico, cen-
aproximou-se de Kurt Franz [comandante dele-               trado na primazia do patriarcado*, no complexo
gado do campo], apresentou um Ausweis e disse              de dipo*, nas defesas* e na clivagem* do eu*,
ser irm de Sigmund Freud. Pediu que a deixas-             na neurose* e numa prtica da psicanlise de
sem fazer um trabalho fcil de escritrio. Franz           crianas* ligada  pedagogia.
examinou com cuidado o Ausweis e disse que                     Frente a esse freudismo, que j deslizava
se tratava provavelmente de um erro; conduziu-             para o annafreudismo*, os freudianos chama-
a ao quadro de horrios da estao de trem e               dos kleinianos eram os artfices de uma clnica
disse que dentro de duas horas um trem voltaria            moderna das relaes de objeto*, centrada nas
para Viena. Ela podia deixar ali todos os seus             psicoses* e nos distrbios narcsicos, nos fen-
objetos de valor, documentos, ir at as duchas, e          menos de regresso, nas relaes arcaicas e
depois do banho seus pertences e sua passagem              inconscientes com a me e na explorao do
para Viena estariam  sua disposio. A mulher             estdio* pr-edipiano.
entrou no banheiro e nunca mais voltou."
                                                               Entretanto, as Controvrsias no opuseram
 Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, vols.    apenas o kleinismo* ao annafreudismo. Tam-
1 e 3 (N. York, 1953, 1954), Rio de Janeiro, Imago, 1989   bm puseram em cena um caso de famlia. Filha
 Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.        de Melanie Klein e analisada na infncia pela
York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995 
lisabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma biografia (N.
                                                           me, Melitta Schmideberg* havia iniciado o
York, 1988), Paris, Payot, 1992  Harald Leupold-L-       combate contra esta antes da chegada dos vie-
wenthal "A emigrao da famlia Freud em 1938",            nenses a Londres, ento apoiada por Edward
Revista Internacional da Histria da Psicanlise, 2        Glover*, um dos fundadores da BPS. Conser-
(1989), Rio de Janeiro, Imago, 1992.
                                                           vador e no conformista, este passara a defen-
 FREUD, ADOLFINE; FREUD, JACOB; FREUD, MA-                 der, em oposio ao annafreudismo e ao klei-
RIA; NAZISMO; SUICDIO; WINTERNITZ, PAULINE.               nismo, um "outro" freudismo: o da primeira
                                                           gerao* inglesa, que iria desaparecer com a
                                                           guerra.
Grandes Controvrsias                                          As Grandes Controvrsias tiveram incio
(Controversial Discussions)                                quando os membros da comunidade psicanal-
   Deu-se o nome de Grandes Controvrsias,                 tica reunidos na BPS conscientizaram-se da
ou Controversial Discussions, a um episdio do             mudana que se vinha operando em seu pas.
movimento psicanaltico ingls que se desenro-             Uma vez que a guerra deveria dar origem a um
lou em Londres entre novembro de 1940 e                    mundo diferente do que eles haviam conhecido,
fevereiro de 1944, e durante o qual se opuseram,           impunha-se a necessidade de fazer com que
                                                                      Groddeck, Walter Georg              315

eclodissem os conflitos tericos e clnicos entre   dle group). Assim, a BPS optou por conservar
os diversos grupos. Criou-se ento um comit        uma unidade de fachada, a fim de preservar a
para examinar as questes concernentes  for-       participao comum na IPA, que garantiu a
mao (training committee).                         internacionalizao das diversas correntes.
    Mas j uma outra tendncia ia emergindo,            Em novembro de 1946, assinou-se um
definindo-se como um middle group. Ela reuniu       compromisso que instituiu dois tipos de forma-
os grandes clnicos da segunda gerao inglesa      o: uma linha A, majoritria, agrupou os klei-
(Donald Woods Winnicott*, John Bowlby*),            nianos e os Independentes, enquanto uma linha
que aceitavam tanto o freudismo quanto o klei-      B reuniu os annafreudianos. Na realidade, foi
nismo, mas recusavam a se curvar a quaisquer        uma vitria dos kleinianos: o poder coube de
dogmas. Eles foram acompanhados por um dos          facto aos que dirigiam a BPS antes da chegada
"veteranos", James Strachey*, analisado por         dos vienenses.
Freud e oriundo da tradio literria dos vito-         Publicadas em 1991, sob os cuidados de
rianos do grupo de Bloomsbury. Strachey en-         Pearl King e Riccardo Steiner, as Grandes Con-
carnaria at o fim as virtudes de um meio termo,    trovrsias so um dos mais apaixonantes docu-
ao mesmo tempo preocupado com a esttica e          mentos de arquivo da histria do freudismo.
no conformista. Outros clnicos da mesma ge-
                                                     Pearl King e Riccardo Steiner (orgs.), Les Contro-
rao alinharam-se nessa tendncia: Ella            verses Anna Freud/Melanie Klein, 1941-1945 (Lon-
Sharpe*, Sylvia Payne (1880-1976) e Marjorie        dres, 1991), Paris, PUF, 1996  Luiz Eduardo Prado de
Brierley (1893-1984).                               Oliveira, "Un transfert venu d'ailleurs. Rvaluation des
                                                    controverses entre Melanie Klein e Anna Freud (du
   Inicialmente kleiniano, John Rickman*, re-
                                                    bruit et du silence)", Psychiatrie de l'Enfant, 1, XXXVIII,
formador da psiquiatria inglesa, defendeu ento     1995, 203-46.
o middle group, antes de ser violentamente
atacado por Glover. Atravs dessa outra contro-
vrsia opuseram-se igualmente duas concep-          gratido
es da psicanlise: uma (a de Glover) avessa a      INVEJA.
qualquer psicologizao do freudismo, outra (a
de Rickman) derivada do pragmatismo adapta-
tivo, o qual, convm dizer, levaria a algumas       Groddeck, Walter Georg (1866-1934)
aberraes.                                         mdico alemo
    Ernest Jones*, o pai fundador da escola in-         Groddeck, que Sigmund Freud* qualificou
glesa, controlou a situao, ora se ausentando      um dia de "soberbo analista", e que reivin-
dos debates, ora os organizando com pacincia       dicava para si o ttulo de "analista selvagem",
e eqidade. Partidrio de uma conciliao, fora     tinha o temperamento de um Wilhelm Fliess*
ele que, contrariando Sigmund Freud*, havia         ou de um Wilhelm Reich*. Pertencia  longa
favorecido a ida de Melanie Klein para Lon-         linhagem dos mdicos herdeiros da tradio
dres. Todavia, prximo de Anna Freud, encar-        romntica, cujas teorias eram impregnadas de
nava com ela a legitimidade familiar, ao mesmo      cientificismo, iluminismo e de Naturphiloso-
tempo que procurava salvaguardar o poder in-        phie. Thomas Mann* se inspirou nele para criar
gls, que corria o risco de ser superado pela       o personagem do doutor Edhin Krokovski em
expanso das correntes norte-americanas.            A montanha mgica. Mdico no Hospital Berg-
    Durante quatro anos, as Controvrsias dila-     hof, Krokovski foi apresentado como um hip-
ceraram a BPS. A ciso* foi evitada por pouco,      notizador  antiga que ainda no teria chegado
ao preo da demisso espetacular de Glover, da      s luzes da razo, mas que seria, como Freud,
emigrao de Melitta Schmideberg para os Es-        obcecado pela questo da sexualidade* huma-
tados Unidos* e da demisso de Anna Freud do        na: "Ei-lo que surge", escreveu o narrador, "ele
training committee. O grupo britnico organi-       que conhece todos os segredos de nossas mu-
zou-se ento em torno do reconhecimento ofi-        lheres. Observem o simbolismo refinado de
cial de trs tendncias: os annafreudianos, os      suas roupas. Veste-se de negro para mostrar que
kleinianos e os Independentes* (o antigo mid-       o campo especfico de seus estudos  a noite."
316     Groddeck, Walter Georg

Krokovski manifestava um pessimismo radical            Estimulado pelo pai, ingressou na carreira
em relao  sade humana, a ponto de ver no       mdica, tornando-se assistente de Ernst Schwe-
homem apenas um sujeito habitado pela doen-        ninger (1850-1924), que se celebrizara ao tratar
a. Evoluindo entre o materialismo e o ocultis-    com sucesso do chanceler Bismarck. Tambm
mo*, dedicou-se a experincias de telepatia*       ultraconservador, Schweninger transps para a
que o mergulharam no universo faustiano de um      medicina os princpios do autoritarismo prus-
subconsciente desordenado.                         siano, instaurando com seus pacientes uma re-
    Irrompendo no novimento psicanaltico em       lao de sugesto e submisso absoluta das
torno de 1920, brandindo uma palavra que teria     quais fazia depender o tratamento e a prpria
sucesso, o isso* (Es), Groddeck abalou o con-      natureza da cura. Sua divisa "Natura sanat,
formismo dos discpulos de Freud, manteve          medicus curat" (A natureza cura, o mdico tra-
com este uma relao de fascnio e de rejeio,    ta) foi retomada por Groddeck em 1913, quando
para compartilhar depois com Sandor Ferenc-        da publicao de seu primeiro livro, Nasamecu.
zi* uma longa cumplicidade fundada em uma              Em 1900, com sua irm Lina e sua primeira
crena comum nos benefcios "maternantes" da       mulher Else von Goltz-Neumann, Groddeck
natureza biolgica do homem. Com sua doutri-       abriu em Baden-Baden um sanatrio com quin-
na, foi o inventor de uma medicina psicos-         ze leitos. Ali, aplicou os princpios de seu mes-
somtica* de inspirao psicanaltica, da qual     tre e elaborou um mtodo original de tratamen-
se alimentariam posteriormente, sem confessar,     to, fundado na hidroterapia, no regime alimen-
muitos herdeiros de Freud.
                                                   tar, nas massagens e nas conversas entre mdi-
    Nascido em Bad Ksen, Georg Groddeck           cos e pacientes.  sua maneira, combatia, como
era filho de Carl Theodor Groddeck, mdico
                                                   Freud, o niilismo teraputico de uma medicina
conceituado que dirigia um estabelecimento de
                                                   exclusivamente centrada no diagnstico, sem
banhos salinos. Depois dos acontecimentos de
                                                   nenhuma compaixo pelo sofrimento do pa-
1848, este redigira um livro ultraconservador,
                                                   ciente. Como ele, procurava apreender o ser hu-
De morbo democratico nova insaniae forma (A
                                                   mano em sua totalidade. Da a escolha de
doena democrtica, uma nova espcie de lou-
                                                   uma medicina psicossomtica atenta  fala do
cura), que passava por ter marcado a obra nietz-
                                                   sujeito*.
schiana. O autor assimilava a idia democrtica
a um flagelo, a uma epidemia capaz de "conta-          Em 1913, em Nasamecu, Groddeck prestou
minar" a Europa e fazer desaparecer nos in-        uma vibrante homenagem ao ensino de
divduos qualquer forma de conscincia de si.      Schweninger, fazendo simultaneamente
Essa tese, que tambm se encontrava entre os       consideraes higienistas que coincidiam com
socilogos das multides e notadamente em          as teses conservadoras de seu pai. Na mais pura
Gustave Le Bon (1841-1931), fazia de Carl          tradio da hereditariedade-degenerescncia* e
Theodor Groddeck um partidrio do chanceler        da crena nos valores do sangue e da nao,
Bismarck.                                          reivindicava a idia de uma "pureza das raas"
    A me de Georg, Caroline, era filha de         e propunha que todo cidado alemo casado
August Koberstein, historiador conhecido por       com um estrangeiro fosse despojado de seus
seus trabalhos sobre a literatura alem. Ela o     direitos civis. Em 1929, nas Lebenserinnerun-
admirava tanto que educou seus cinco filhos de     gen (Lembranas de vida), lamentou sua atitude
maneira fria e distante, no culto ao av venera-   de ento e a corrigiu, sem nunca renunciar 
do. Georg sofreu com essa educao e com esse      utopia higienista que a sustentava. Nesse mes-
poder materno que, a seus olhos, eclipsava a       mo livro, atacou vigorosamente a psicanlise,
figura do pai. Freud no deixaria de apontar-lhe   advertindo o leitor contra os perigos de uma
esses fatos ao longo da correspondncia que        tcnica freqentemente mal dominada por prati-
mantiveram. O jovem Georg seria o nico so-        cantes incompetentes. Em 1915, encontrou-se
brevivente dessa famlia numerosa: seus irmos     com uma sueca, Emmy von Voigt (1874-1961),
e sua irm morreram prematuramente de diver-       que seria sua analisanda e posteriormente sua
sas doenas orgnicas.                             segunda mulher e sua assistente. Tambm seria
                                                                  Groddeck, Walter Georg        317

uma das primeiras tradutoras da obra freudiana     seu prprio desenvolvimento, um solitrio."
na Sucia.                                         Nesse ponto, o mal-entendido entre os dois
    Rapidamente, Groddeck mudou de atitude e       nunca se dissiparia. Um continuaria adepto da
dirigiu-se diretamente a Freud, atravs de uma     medicina alternativa e da psicoterapia*, en-
primeira troca de cartas. Essa correspondncia     quanto o outro sempre desejaria incluir a psica-
duraria de 1917 a 1934. Logo de sada, Grodde-     nlise no campo da cincia.
ck interpretou sua hostilidade pela psicanlise        No Sanatrio de Baden-Baden, Groddeck
como uma expresso de inveja em relao a seu      recebia pacientes que sofriam de todo tipo de
fundador. Depois, aproximou-se das teses psi-      doenas orgnicas, para os quais a medicina da
canalticas sobre a resistncia*, a sexualidade*   poca era impotente. A fim de faz-los partici-
e a transferncia*, mas preservando a origina-     par de seu prprio tratamento, teve a idia, a
lidade de seu percurso. Foi ento que uma es-      partir de 1916, de fazer conferncias para eles
pcie de desafio se instaurou entre ambos.         e de criar uma revista, a Satanarium, na qual
Quanto mais Groddeck se dirigia a Freud como       podiam expressar-se em p de igualdade com o
um discpulo que esperava do mestre aprovao      terapeuta. Groddeck tratava de cncer, lceras,
e reconhecimento de sua singularidade, mais        reumatismo, diabete, pretendendo encontrar no
Freud se comportava como soberano preocupa-        aspecto da doena a expresso de um desejo
do antes de tudo em fazer esse recm-chegado       orgnico. Assim, via em um bcio um desejo
ingressar na "horda selvagem": "Certamente,        infantil e no diabete um desejo do organismo de
eu lhe daria um grande prazer se o expulsasse      ser adoado. Na mesma perspectiva, sexualiza-
para longe de mim, para o lugar onde esto os      va os rgos do corpo, situando o nervo ptico
Adler, Jung e outros. Mas no posso fazer isso.    no lado da masculinidade e as cavidades carda-
Devo afirmar que voc  um soberbo analista,       cas no lado da feminilidade.
que apreendeu a essncia da coisa, e no pode          Esse desejo provinha daquilo que ele cha-
mais perd-la. Aquele que reconhece que trans-     mava de "isso". Com esse pronome neutro (Es,
ferncia e resistncia so os eixos do tratamen-   em alemo), tomado por emprstimo a Nietz-
to, queira ou no, pertence irremediavelmente      sche (1844-1900), Groddeck designava uma
 horda selvagem. E no faz diferena que ele      substncia arcaica, anterior  linguagem, uma
chame o inconsciente* de `isso'".                  espcie de natureza selvagem e irredutvel, que
    Freud apreciava muito esse mdico no-         submergia as instncias subjetivas. A cura
conformista, adorado por seus pacientes mas        consistia em deixar agir no sujeito o jorro do
considerado um curandeiro pela medicina ofi-       isso, fonte da verdade.
cial. Assim, convidou-o a participar das ativi-        Em contato com a psicanlise, Groddeck
dades do movimento psicanaltico, a inscrever-     modificou as suas teorias e levou em conside-
se na Associao berlinense, a publicar seus       rao a eficcia simblica do tratamento pela
artigos nas revistas da International Psychoana-   fala. Mas conservou o essencial de sua doutrina
lytical Association* (IPA) e enfim a editar seus   do isso e decidiu exprimi-la por mtodos nar-
livros na Psychoanalytischer Verlag de Viena*.     rativos originrios da literatura.
Entretanto, no compartilhava nem sua concep-          Em 1921, publicou um "romance psicanal-
o de cincia nem sua tcnica teraputica: em     tico", O pesquisador de almas, no qual contava
sua opinio, o sbio devia afastar-se do exagero   a epopia de um homem transfigurado pela
narcsico e dos impulsos do princpio de pra-      revelao de seu inconsciente e perseguindo
zer*, para aderir a um ideal de cientificidade     pelo mundo percevejos e "imagens de alma".
externo  subjetividade. Do mesmo modo, o          Freud admirou o estilo picaresco do autor, que
psicanalista devia distinguir-se do magnetiza-     lhe lembrava o Dom Quixote de Cervantes.
dor, renunciando a qualquer forma de poder         Entretanto, a obra causou escndalo, sobretudo
oculto ou autoritrio: "A experincia mostrou,     para o pastor Oskar Pfister*, que a julgou exces-
escreveu um dia a Groddeck, que um ambicioso       sivamente rabelaisiana.
indomado salta [...] em um determinado mo-             Dois anos depois, Groddeck publicou o fa-
mento e se torna, para prejuzo da cincia e de    moso Livro d'isso, no qual encenava sua relao
318     Groddeck, Walter Georg

epistolar com Freud, atravs de cartas fictcias   mento da biologia moderna. E foi na Frana*,
dirigidas por um dos narradores, Patrick Troll,    entre 1975 e 1980, que esse personagem romn-
a uma amiga. Queria popularizar assim os           tico foi finalmente exumado, graas ao imenso
conceitos da psicanlise e sua prpria doutrina.   trabalho de seu tradutor, Roger Lewinter, que
Em 1923, Freud retomou o termo no mbito de        teve de enfrentar uma polmica injusta sobre o
sua segunda tpica*, mas modificando radical-      pretenso racismo de seu heri. Assim, em pleno
mente sua definio.                               perodo de crise interna no movimento psicana-
    Em 1931, Groddeck escreveu um texto cu-        ltico francs, Groddeck ressurgiu sob os traos
rioso, "O duplo sexo do ser humano", no qual       de um simptico dissidente que cara na armadi-
se expressava um antijudasmo j visvel no        lha da temvel tirania do mestre. Quanto s suas
Pesquisador de almas, e que remetia a certos       teorias, foram curiosamente comparadas s de
aspectos invertidos do "dio de si judeu" dos      Jacques Lacan* sobre a linguagem e a fala.
vienenses do fim do sculo, de Karl Kraus* a       Posteriormente, elas caram em desuso.
Otto Weininger*. Enquanto estes assimilavam
a judeidade* a uma essncia feminina res-           Georg Groddeck, Un Problme de femme (Leipzig,
                                                   1903), Paris, Mazarine, 1979; Le Pasteur de Lange-
ponsvel pela decadncia da civilizao patriar-   wiesche (Leipzig, 1903), Paris, Mazarine, 1981; Nasa-
cal, Groddeck pregava, ao contrrio, a neces-      mecu, la Nature gurit (Leipzig, 1913), Paris, Aubier-
sidade de reencontrar em cada ser humano uma       Montaigne, 1980; Confrences psychanalytiques  l'u-
bissexualidade* original, recalcada na religio    sage des malades (1915-1916), 3 vols., Paris, Champ
                                                   Libre-Roger Lewinter, 1978, 1979, 1981; Le Chercheur
judaica pela prtica da circunciso. Em sua        d'me (Viena, 1921), Paris, Gallimard, 1982; O livro
opinio, essa prtica favorecera a afirmao de    d'isso (Viena, 1923, Paris, 1963), S. Paulo, Pers-
uma unissexualidade do homem e a rejeio de       pectiva, 1991; Lebenserinnerungen (1929), in O ho-
sua essncia feminina, diante de um Deus bis-      mem e seu Isso (Wiesbaden, 1970), S. Paulo, Pers-
                                                   pectiva, 1994; "Le Double sexe de l'tre humain"
sexual e onipotente. Com essa hostilidade pela     (1931), Nouvelle Revue de Psychanalyse, 7, primave-
religio do pai, e em nome de uma busca mes-       ra, 1973, 193-9; L'tre humain comme symbole (Viena,
sinica da feminilidade, nica capaz de salvar a   1933), Paris, Grard Lebovici, 1991; La Maladie, l'art
humanidade, Groddeck rejeitava a judeidade         et le symbole, Paris, Gallimard, 1969; a et Moi. Lettres
                                                    Freud, Ferenczi et quelques autres (Wiesbaden,
por razes opostas s de Weininger. Mas a          1970), Paris, Gallimard, 1977  Georg Groddeck e
problemtica era a mesma: por um lado, o judeu     Sandor Ferenczi, Correspondance, Paris, Payot, 1982
era assimilado a uma mulher e todo o mal da         Lawrence Durrell, Groddeck, Wiesbaden, Limes Ver-
civilizao vinha da feminilidade, por outro       lag, 1961  Carl e Sylvia Grossman, L'Analyste sau-
                                                   vage Georg Groddeck (N. York, 1965), Paris, PUF,
lado, ele encarnava o mal ao recalcar os bene-     1978  Roger Lewinter, "(Anti)judasme et bisexualit",
fcios do feminino.                                Nouvelle Revue de Psychanalyse, 7, primavera de
    Do ponto de vista clnico, Groddeck prenun-    1973, 199-205; Groddeck et le royaume millnaire de
ciava os ps-freudianos, que se interrogavam       Jrme Bosch. Essai sur le paradis en psychanalyse,
                                                   Paris, Champ Libre, 1974; L'Apparat de l'me, Paris,
sobre a origem das psicoses*, a natureza da        Mazarine, 1980; "Prsentation du texte Du ventre et de
bissexualidade e as formas pr-edipianas da        son me", Nouvelle Revue de Psychanalyse, 3, 1971,
relao com a me. Da a proximidade de seu        211-6  Franois Roustang, Um destino to funesto
percurso com o dos culturalistas americanos,       (Paris, 1977), Rio de Janeiro, Taurus, 1987  L'Arc,
                                                   nmero especial sobre Georg Groddeck, 78, 1980  F.
especialistas em esquizofrenia*, como Harry        Garnier, "Groddeck (Georg), 1866-1934)", Encyclo-
Stack Sullivan*.                                   paedia universalis, suplemento, Paris, 1980, 690-1 
    Em 1934, depois de criticar severamente o      Jean Laplanche, O inconsciente e o id (Paris, 1981), S.
regime hitlerista, Groddeck deixou a Alemanha      Paulo, Martins Fontes, 1992  Pamela Tytell, La Plume
                                                   sur le divan, Paris, Aubier, 1982  Michel Lalive d'Epi-
e foi para a Sua*. Morreu perto de Zurique,      nay, Groddeck, Paris, ditions Universitaires, 1983 
assistido pelo psiquiatra Maeder Boss.             Groddeck-Almanach, Stroemfeld-Roter Stern, Frank-
    Os grandes representantes freudianos da me-    furt, 1986  H. Will, Georg Groddeck. Die Geburt der
dicina psicossomtica, como Franz Alexander*       Psychosomatik, Munique, Deutscher Taschenbuch
                                                   Verlag, 1987  Jacques Le Rider, Modernit viennoise
e Alexander Mitscherlich*, no conservaram         et crises de l'identit (1990), Paris, PUF, 1994  Jacquy
nada da doutrina groddeckiana, considerada ex-     Chemouni, "Psychopathologie de la dmocratie", Fr-
travagante e incompatvel com o desenvolvi-        nsie, 10, primavera de 1992, 265-82.
                                                                                Gross, Otto      319

 EU E O ISSO, O; HORNEY, KAREN; KLEINISMO;          bairro de Schwabing, onde se misturavam, no
PICHON, DOUARD; PSICANLISE SELVAGEM; SELF         comeo do sculo, os discpulos de Stefan
PSYCHOLOGY; TRADUO (DAS OBRAS DE SIG-             George (1868-1933) e de Ludwig Klages
MUND FREUD).                                        (1872-1956): "O nietzschesmo tomava a for-
                                                    ma de uma metafsica do `eros cosmognico',
                                                    escreveu Jacques le Rider, no qual se manifes-
Gross, Otto (1877-1920)                             tava a nostalgia de um dionisismo arcaico ins-
psiquiatra austraco                                pirado pelas pesquisas mitolgicas de Bachofen
    As relaes de Sigmund Freud* com Wil-          sobre o `matriarcado' das culturas anteriores 
helm Fliess* e Hermann Swoboda* mostram             emergncia do racionalismo grego."
at que ponto a histria do movimento psicana-          Foi atravs desse culto, e pregando o imora-
ltico foi marcada, principalmente no incio, por   lismo sexual, que Gross militou pela psican-
uma temtica do plgio, do roubo de idias, da      lise. Nessa poca, era amante de ambas as irms
droga e da loucura*. O "caso Otto Gross", como      Richtofen. Em 1906, em Ascona, foi envolvido
os que envolveram Viktor Tausk* e Sabina            no suicdio* de Lotte Chattemer, uma militante
Spielrein*,  um dos episdios mais violentos.      anarquista. Era suspeito de ter fornecido drogas
    Nascido em Feldbach na Estria (ustria),        jovem e t-la estimulado a matar-se. Em 1907,
Otto Gross era filho do jurista Hans Gross          trs anos depois de seu primeiro encontro com
(1847-1915), um dos fundadores da criminolo-        Freud, publicou uma obra, A ideogenidade freu-
gia*. Desde a infncia, apresentou sinais de        diana e sua significao na alienao mana-
desequilbrio mental, aos quais o pai, muito        co-depressiva de Kraepelin, na qual relaciona-
rgido, no soube dar nenhuma resposta. So-         va o conceito freudiano de clivagem* (Spalt-
nhando fazer do filho um adepto de suas teorias     ung) com o de dissociao de Kraepelin. Propu-
sobre as caractersticas antropolgicas dos cri-    nha substituir o termo dementia praecox por
minosos, orientou-o para os estudos psiquitri-     dementia sejunctiva, tomado ao psiquiatra Karl
cos. Mas logo depois de seu doutorado, Otto         Wernicke (1848-1905), para designar a idia de
Gross embarcou como mdico de bordo nos             disjuno, abrindo assim o caminho para a idia
navios da linha Hamburgo-Amrica do Sul.           bleuleriana de esquizofrenia*. Um ano depois,
procura de identidade, usou diversas drogas:        a pedido de seu pai, foi internado na Clnica do
cocana, pio, morfina. Ao voltar, depois de        Burghlzli, para um segundo tratamento de des-
vrios estgios em clnicas neurolgicas de Mu-     intoxicao.
nique e de Graz, submeteu-se a um primeiro              Na verdade, Gross era considerado simulta-
tratamento de desintoxicao na clnica do Hos-     neamente um discpulo da tribo freudiana e um
pital Burghlzli, onde trabalhava Carl Gustav       doente perigoso. A pedido de Freud, Jung as-
Jung*, sob a direo de Eugen Bleuler*.             sumiu sua anlise e relatou ao mestre, ao longo
    Em 1903, casou-se com Frieda Schloffer e,       de suas cartas, o desenrolar desse estranho tra-
atravs dela, ficou conhecendo Marianne We-         tamento. Elogiando ao mesmo tempo seus m-
ber, mulher do socilogo Max Weber (1862-           ritos de terico, apresentou sucessivamente
1920), e as duas irms von Richtofen, Else e        dois diagnsticos: neurose obsessiva* e demn-
Frieda. Uma delas era casada com o economista       cia precoce. Quanto a Ernest Jones*, este falaria
Edgar Jaff, a outra com o filsofo ingls Ernest   mais tarde de esquizofrenia. Assim rotulado
Weekley, que ela deixou em 1912 para se casar       doente mental, Gross tornou-se uma cobaia en-
com o escritor David Herbert Lawrence (1885-        tre um mestre e um discpulo, este futuro dis-
1926).                                              sidente. Permitiu que Jung defendesse junto a
    Nomeado Privatdozent e professor de psico-      Freud a validade da noo de demncia precoce
patologia*, Gross tornou-se assistente de Emil       qual este resistia. O tratamento terminou em
Kraepelin* em Munique e entusiasmou-se pela         fracasso: Gross fugiu da clnica e foi tratado
obra freudiana. Depois de se encontrar com          depois, sem mais sucesso, por Wilhelm Stekel*.
Freud, orientou-se para a prtica da psican-       Logo, os partidrios da causa freudiana o consi-
lise*, freqentando os meios intelectuais do        deraram um perigoso extremista capaz de pre-
320      Guattari, Flix

judicar o movimento. Devasso, imoral, anar-              (org.), Dicionrio biogrfico psi (Paris, 1995), Rio de
                                                         Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
quista, violentamente apegado  temtica da
revoluo pela sexualidade*, foi sumariamente             JUDEIDADE; MATRIARCADO; SCHREBER, DANIEL
abandonado por Freud: "Infelizmente, no h              PAUL; TOTEM E TABU; VIENA; WEININGER, OTTO.
nada a dizer sobre ele; ele caiu e s poder
causar muitos males  nossa causa."
    Apesar desse rtulo, Gross continuou a pra-
ticar a psicanlise e a dizer-se partidrio do           Guattari, Flix (1930-1992)
freudismo. Em 1908, depois de provocar escn-            psicanalista francs
dalo ao tratar de uma jovem em revolta contra
                                                             Nascido em Villeneuve-les-Sablons, mem-
a autoridade parental, viveu com Sophie Benz,
                                                         bro da cole Freudienne de Paris* e analisado
uma jovem pintora e anarquista, que se suicidou          por Jacques Lacan*, Flix Guattari pertencia 
em 1911. Acusado novamente de incitao ao               quarta gerao* psicanaltica francesa. Engaja-
suicdio, vrias vezes internado, procurado pela         do na esquerda, militante anticolonialista, prin-
polcia, que no deixava de persegui-lo por              cipalmente durante a guerra da Arglia, fun-
"atividades subversivas", Otto Gross terminou            dador da revista Recherches e de diversas as-
sua vida errante em uma rua de Berlim, morto             sociaes de contestao da ordem psiquitrica
de frio e fome.                                          oficial, ecologista e grande viajante a servio de
    Nenhum dos astros da "esquerda freudiana"            todas as formas de tolerncia, combateu durante
-- de Wilhelm Reich* a Otto Fenichel* --                 muitos anos pelos mais belos valores do enga-
prestaria homenagem a essa figura maldita da             jamento libertrio no corao do lacanismo*
revolta anti-autoritria. Foram escritores como          dos anos 1970, j ameaado de dogmatismo.
Max Brod (1884-1968), Blaise Cendrars (1887-             Psiclogo de formao, participou da histria
1961) e principalmente Franz Kafka (1883-                do movimento psicanaltico de trs maneiras:
1924, mais sensvel que outros  relao pai/fi-         como psicanalista lacaniano, como terapeuta
lho), que saudaram a memria daquele que                 ligado  experincia da psicoterapia ins-
tanto perturbara a ordem moral do freudismo*             titucional* realizada na Clnica de La Borde, em
incipiente, e cuja obra refletiu o transtorno so-        Cour-Cheverny, sob a direo de Jean Oury, e
frido pela sociedade ocidental na virada do              enfim como co-autor de vrias obras escritas
sculo: "Mal conheci Otto Gross, escreveu Kaf-           com o filsofo Gilles Deleuze (1925-1995),
ka, mas senti que algo de importante estendia a          entre as quais O anti-dipo, que foi, em 1972,
mo para mim, sobre um fundo de ridculo. O              o verdadeiro manifesto de uma antipsiquiatria*
ar desorientado de sua famlia e de seus amigos           francesa e teve um estrondoso sucesso.
(a mulher, o cunhado e at o beb misteriosa-                Os dois autores criticavam o edipianismo
mente silencioso no meio dos sacos de viagem             freudiano que, em sua opinio, encerrava a
-- para que no casse da cama quando ficasse            libido* plural da loucura em um quadro exces-
sozinho -- que bebia caf preto, comia frutas e          sivamente estreito, de tipo familiar. Para sair
tudo o que lhe davam) me fazia pensar no                 desse impasse "estrutural", eles se propunham
desemparo dos discpulos do Cristo aos ps do            a traduzir a polivalncia do desejo* humano em
crucificado."                                            uma conceitualidade adequada. Da a idia de
                                                         opor  psicanlise* freudiana e lacaniana, arti-
 Otto Gross, Das Freudsche ideogenittsmoment und       culada em torno da prioridade do dipo* e do
seine Bedeutung im manisch-depressiven Irresein
Kraepelins, Leipzig, 1907; La Rvolution sur le divan,
                                                         significante*, uma psiquiatria materialista fun-
seleo de textos de 1908 a 1920, apresentados por       dada na "esquizo-anlise", isto , na possvel
Jacques Le Rider, Paris, Solin, 1988  Freud/Jung:       liberao dos fluxos desejantes. Nascido de um
correspondncia completa (Paris, 1975), Rio de Janei-    ensino oral dado por Gilles Deleuze na Univer-
ro, Imago, 1993  Martin Green, Les Soeurs von Richt-    sidade de Paris-VIII (1969-1972) e de uma
hofen (N. York, 1974), Paris, Seuil, 1979  Emmanuel
Hurwitz, Otto Gross. Paradies-Sucher zwischen Freud
                                                         escrita a dois, O anti-dipo tomava assim como
und Jung, Zurique, 1979  Michel Schneider, Blessures    alvo maior o conformismo psicanaltico de to-
de mmoire, Paris, Gallimard, 1980  Pierre Morel        das as tendncias, anunciando com vigor o es-
                                                                                  Guilbert, Yvette     321

gotamento trgico do lacanismo dos ltimos                 de caf-concerto. Com suas longas luvas ne-
tempos.                                                    gras, clebre na Paris da Belle poque pelo seu
                                                           repertrio, interpretava ora a mocinha ingnua
 Flix Guattari, Psychanalyse et transversalit, Paris,   ora a bbada ou a prostituta.
Maspero, 1972; Chaosmose, Paris, Galile, 1992 
Flix Guattari e Gilles Deleuze, O anti-dipo, Capita-         Foi a conselho da mulher de Jean Martin
lismo e esquizofrenia (Paris, 1972), Rio de Janeiro,       Charcot* que Sigmund Freud* foi pela primeira
Imago, 1976; Rhizome, Paris, Minuit, 1976; Mille Pla-      vez a um recital de Yvette Guilbert, em 1889.
teaux, Paris, Minuit, 1980  lisabeth Roudinesco, His-    Depois disso, eles trocaram uma correspon-
tria da psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio
de Janeiro, Jorge Zahar, 1988  Yannick Oury-Pulliero,
                                                           dncia amistosa. Freud gostava especialmente
"Flix Guattari, 1930-1992", in Encyclopaedia univer-      da famosa cano Dites-moi si je suis belle, que
salis, 1993, 544-5.                                        Yvette Guilbert interpretou em 1938, com a
                                                           idade de 71 anos, por ocasio do congresso da
 COOPER, DAVID; ESQUIZOFRENIA; FRANA;                     International Psychoanalytical Association*
FREUDO-MARXISMO; LAING, RONALD; REICH, WIL-                (IPA) em Paris, diante de todos os psicanalistas
HELM.
                                                           da Europa, reunidos pela ltima vez antes da
                                                           Segunda Guerra Mundial. Ela se casou com um
                                                           bilogo vienense, Max Schiller, e a sobrinha
Guilbert, Yvette (1867-1944)                               deste, Eva Rosenfeld (1892-1977), amiga de
   O pintor Henri de Toulouse-Lautrec (1864-               Anna Freud*, se tornaria psicanalista e membro
1901) fez vrios retratos dessa cantora francesa           da British Psychoanalytical Society (BPS).
                                               H
Haas, Ladislav (1904-1985)                                anos depois. Retomou ento o seu trabalho,
mdico e psicanalista eslovaco                            interessando-se pelos pacientes com tendncias
    Grande personalidade do freudo-marxis-                ao suicdio*.
mo* europeu, Ladislav Haas, originrio da Es-                 Em 1964, deixou Praga e foi instalar-se em
lovquia, foi durante toda a vida um militante            Londres, onde se tornou membro da Bri-
comunista e um freudiano rigoroso, apesar da              tish Psychoanalytical Society (BPS). Conser-
tortura, do exlio e da perseguio. Ao lado de           vou-se sempre ligado a seu pas e a seus amigos,
Theodor Dosuzkov* e de Otakar Kucera (1906-               nunca renegando suas escolhas polticas e ideo-
1980), exerceu suas atividades psicanalticas             lgicas.
em um pas onde o freudismo* no teve reper-               Michael Sebek, "La Psychanalyse, les psychanalys-
cusso alguma.                                            tes et la priode stalinienne de l'aprs-guerre. La Situa-
    Depois de fazer os estudos secundrios na             tion tchcoslovaque", Revue Internationale d'Histoire
                                                          de la Psychanalyse, 5, 1992, 553-65  Eugenia Fischer
Hungria*, Haas se orientou para a psiquiatria             "Czechoslovakia", in Peter Kutter (org.), Psychoanaly-
em Berlim, descobriu as obras de Sigmund                  sis International. A Guide to Psychoanalysis throughout
Freud* e freqentou a "esquerda freudiana",               the World, vol.1, Stuttgart, Frommann-Holzboog, 1992,
sobretudo Wilhelm Reich*. Em 1926, tornou-se              34-50.
membro do Partido Comunista Alemo. A partir
                                                           COMUNISMO; FEDERAO EUROPIA DE PSICA-
de 1933, instalando-se em Praga, exerceu a                NLISE; NAZISMO; RSSIA.
profisso de clnico geral. Em 1934, ficou preso
durante seis semanas em funo de seu engaja-
mento poltico. Posteriormente, integrou-se ao            Haeckel, Ernst Heinrich (1834-1920)
grupo dos psicanalistas de Praga, mas, no mo-             mdico e zologo alemo
mento da ocupao da Tchecoslovquia pelos                    Ernst Heinrich Haeckel nasceu em Potsdam,
nazistas, emigrou para a Gr-Bretanha*.                   em uma famlia protestante marcada pelo pa-
    Em 1945, voltou a seu pas e em Kosice,               triotismo prussiano. Seu pai, originrio da Sil-
cidade prxima da fronteira com a Unio So-               sia, era jurista e sua me veio da Rennia.
vitica, trabalhou como neurologista em um                    Haeckel apaixonou-se muito cedo pela bo-
hospital. Nessa poca, tratou do dirigente pol-          tnica e estudou medicina na Universidade de
tico Klement Gottwald.                                    Wrzburg, cidade cujo esprito rigidamente ca-
    Depois da instaurao do regime comunista             tlico contribuiria para o desenvolvimento de
em 1948, adotou, como Dosuzkov, as teses                  seu dio ao papismo. Obteve seu ttulo de dou-
pavlovianas. Apesar do stalinismo, que ele re-            tor em medicina na Universidade de Berlim em
provava, continuou sendo militante. Mesmo                 1857, e depois completou sua formao em
praticando oficialmente a psiquiatria, e enquan-          Viena*, com Johannes Peter Mller (1801-
to presidia o Instituto Nacional de Sade em              1858), que reconheceria como "um dos maiores
Praga, recebia analisandos privadamente, fosse            naturalistas do sculo XIX".
para trat-los, fosse para form-los como psica-              Em 1860, leu com paixo a primeira tradu-
nalistas. Acusado brutalmente de alta traio em          o alem da Origem das espcies, de Charles
1952, foi preso e torturado, sendo libertado dois         Darwin (1809-1882), de quem se tornou admira-
                                                    322
                                                                      Haeckel, Ernst Heinrich        323

dor entusiasta e mediador corajoso no conjunto        dessa lei so apresentados no captulo XIII da
dos pases germnicos, mas tambm um propa-           Origem das espcies. Mas o prprio Darwin
gandista um tanto simplificador. Nomeado aos          diria que Haeckel e Fritz Mller (1822-1897),
28 anos como professor extraordinrio da Uni-         ambos alunos de Johannes Mller, "sem dvida
versidade de Iena e diretor do museu zoolgico        alguma, [...] elaboraram [essa lei] de maneira
dessa cidade, Haeckel se tornou tambm um             mais profunda, e sob certos aspectos mais cor-
dos lderes mais clebres da filosofia monista,       retamente do que eu".
a servio da qual aplicou as teses darwinianas.           A essa confuso acrescentou-se outra, ligada
    A obra cientfica e filosfica de Haeckel est     assimilao que se fez, em 1917, entre essa lei
hoje superada, mas teve em seu tempo uma              e a hereditariedade dos caracteres adquiridos:
influncia considervel em toda a Europa, in-         "Ao contrrio do que Freud pensa", escre-
clusive na Frana*, onde contribuiu para refor-       veu Lucille B. Ritvo, "a teoria da recapitulao
ar a hostilidade ao darwinismo, em benefcio         no depende da hereditariedade dos caracteres
do pensamento lamarckiano.                            adquiridos e  por isso que ela sobreviver 
    Em 1866, Haeckel publicou uma Morfolo-            queda do lamarckismo [...]. Os discpulos de
gia geral, logo seguida de uma Histria da            Freud que reprovaram o seu neolamarckismo
criao. Depois de outras obras e muitas via-         no lhe reprovam as suas aplicaes da recapi-
gens  sia e  Amrica, publicou em 1899 uma         tulao; deploram que ele tenha fundado a re-
obra de divulgao, Os enigmas do universo.           capitulao na hereditariedade dos caracteres
Esse livro teria 400 mil exemplares vendidos na       adquiridos." Toda a discusso cientfica se re-
Alemanha* e chegou at o gabinete de Lenin            feria  questo de saber se a lei da recapitulao
(1870-1924), que apreciou seu materialismo            implicava ou no a idia de que era o estado adulto
militante.                                            ancestral que era repetido no embrio. Evidente-
    Ao contrrio de Carl Claus*, de Theodor           mente, as respostas de Mller, de Haeckel, mas
Meynert*, de Ernst Brcke* ou de Franz Bren-          tambm de Darwin, foram positivas. Freud, em
tano*, Haeckel no foi um dos mestres de Sig-         seguida a eles, pensava que era esse adulto ances-
mund Freud*. Todavia, foi atravs de sua popu-        tral que se reproduzia no desenvolvimento psicos-
laridade, pela leitura de suas obras e de suas con-   sexual da criana.
ferncias, vrias vezes reeditadas, que Freud             A tese da recapitulao foi abandonada du-
tomou conhecimento das idias de Darwin e             rante os anos 1930-1940, mas a saudade dessa
encontrou a clebre lei da recapitulao ("a          idia sedutora acompanharia durante longo
ontognese repete a filognese"), de que faria        tempo muitos pesquisadores.
uso ininterrupto ao longo de sua obra, a despeito         Fascinado pelo alcance dessa lei, que fun-
das reservas e das crticas de alguns dos seus        damentava a continuidade entre o desenvolvi-
discpulos, como Ernest Jones* e depois Ernst         mento psicolgico individual e o da humani-
Kris*.                                                dade, Freud estava consciente dos perigos liga-
    Essas crticas no eram injustificadas, mas       dos  sua utilizao excessivamente sistem-
encobriam um mal-entendido grave, cuja trama          tica. Da sua renncia a prosseguir e publicar o
Lucille B. Ritvo, em seu livro A influncia de        seu ensaio metapsicolgico "Neuroses de trans-
Darwin sobre Freud, reconstituiu minuciosa-           ferncia; uma sntese", essa "fantasia filogen-
mente, descrevendo as modalidades sob as              tica" encontrada por Ilse Grubrich-Simitis.
quais Freud teve acesso ao pensamento darwi-              Acima dos erros e impasses que marcaram
niano e o lugar especfico de Haeckel nesse           esse percurso intelectual e essas lutas entre
percurso intelectual.                                 sbios do sculo XIX, Lucille B. Ritvo e Ilse
    Se Haeckel foi realmente o inventor das           Grubrich-Simitis, em perspectivas diferentes,
noes de ecologia, de filognese e de ontog-        demonstraram o duplo interesse dessa aventura
nese, no foi o autor dessa lei da recapitulao,     terica e epistemolgica. A convico, a obs-
que lhe  geralmente atribuda, embora tenha          tinao e o abandono freudiano dessa questo
feito dela um dos eixos de sua concepo do           ilustram a complexidade e o carter trgico da
evolucionismo. Na verdade, os prolegmenos            pesquisa cientfica, quando as exigncias de
324        Haitzmann, Christopher

rigor se chocam com a paixo e com a fora pul-                  Fideicomissos um manuscrito proveniente do
sional da curiosidade. Mas, por outro lado, as                   monastrio de Mariazell, onde se relatava a
questes exploradas por meio do recurso  cha-                   histria da cura "miraculosa" do pintor bvaro
mada lei de Haeckel continuam sendo da mais                      Christopher Haitzmann, que Sigmund Freud*
viva atualidade para todos aqueles, psicanalis-                  redigiu e publicou em 1923 um artigo intitulado
tas ou bilogos, que no se satisfazem apenas                    "Uma neurose demonaca do sculo XVII".
com a perspectiva estritamente organicista e                     Nesse livro, estudou detalhadamente o caso
que persistem, na linhagem de Freud e de Dar-                    desse homem, que sofria de convulses em
win, em interrogar os mistrios das origens.                     1677, oito anos depois de assinar um pacto com
                                                                 o diabo, tendo sido posteriormente curado pelo
 Sigmund Freud, Neuroses de transferncia: uma sn-
                                                                 exorcismo.
tese (Frankfurt, 1985), Rio de Janeiro, Imago, 1987;
Totem e tabu (1913), ESB, XIII, 17-192; GW, IX; SE,                  Freud mostrou que o diabo era, para o pintor,
XIII, 1-161; Paris, Gallimard, 1993; A histria do movi-         um substituto do pai. Mas principalmente, ridi-
mento psicanaltico (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X,              cularizou o exorcismo, enfatizando que Haitz-
44-113; SE, XIV, 7-66; Paris, Gallimard, 1991; Moiss
                                                                 mann, que se tornou Irmo Crisstomo, nunca
e o monotesmo: trs ensaios (1939), ESB, XXIII, 16-
167; GW, XVI, 103-246; SE, XXIII, 1-137; Paris, Galli-           se curou. Em seu mosteiro de Mariazell, conti-
mard, 1986  Paul-Laurent Assoun, Introduction                  nou at a morte sendo importunado pelo Malig-
l'pistmologie freudienne, Paris, Payot, 1981; "Freu-           no, principalmente depois de beber mais do que
disme et darwinisme", in Patrick Tort (org.), Dictionnaire
                                                                 devia. Em outras palavras, Freud opunha nesse
du darwinisme et de l'volution, vol.2, Paris, PUF, 1996,
1741-63  Franoise Carasso, Freud mdecin, Arles,               artigo os benefcios da psicanlise*, segundo
Inserm-Actes Sud, 1992  Yvette Conry, L'Introduction            ele capaz de tratar as neuroses*, s prticas
du darwinisme en France au XIXe sicle, Paris, Vrin,             religiosas e ocultas dos tempos antigos, pouco
1974  Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte           compatveis com a Aufklrung.
de l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
1974), Paris, Fayard, 1994  Sandor Ferenczi, Thalas-                J em sua correspondncia com Wilhelm
sa (1924), S. Paulo, Martins Fontes, 1990  Ilse Gru-            Fliess*, Freud se interessara pelo diabo e, em
brich-Simitis, "Metapsicologia e metabiologia", in               janeiro de 1909, quando de uma conferncia de
Sigmund Freud, Neuroses de transferncia: uma sn-               Hugo Heller* na Wiener Psychoanalytische
tese (Frankfurt, 1985), Rio de Janeiro, Imago, 1987;
"Trauma or drive -- drive and trauma", in Albert J. Solnit,      Vereinigung (WPV), declarou que via nesse
Peter B. Neubauer, Samuel Abrams e A. Scott Dowling              personagem no s a prpria essncia da sexua-
(org.), The Psychoanalytic Study of the Child, Yale, Yale        lidade* humana (a libido* nica), mas tambm
University Press, 1988, vol.43, 3-32  Dominique Le-             uma fantasia coletiva, construda a partir do
court, L'Amrique entre la Bible et Darwin, Paris, PUF,
1992  Liliane Maury, Les motions de Darwin  Freud,            modelo de um delrio paranico.
Paris, PUF, 1993  Marie Moscovici, "Un meurtre cons-                Apesar de todas as precaues tomadas por
truit par les produits de son oubli", in Il est arriv quelque   Freud, seu estudo sobre Christopher Haitzmann
chose, Paris, Payot, 1991, 387-416  Lucille B. Ritvo, A         sofria de um defeito prprio a todos os trabalhos
influncia de Darwin sobre Freud (1990), Rio de Janei-
ro, Imago, 1992  Jacques Roger, "Darwin, Haeckel et             de patografia e de psicanlise aplicada*, aos
les Franais", in De Darwin au darwinisme, atas do               quais se dedicavam nessa poca os seus disc-
Congresso Internacional pelo centenrio da morte de              pulos. Ele interpretava retroativamente os fen-
Darwin, Paris, Vrin, 1983  Britta Rupp-Eisenreich,              menos de possesso como casos patolgicos
"Haeckel", in Patrick Tort (org.), Dictionnaire du darwi-
nisme et de l'volution, vol.2, Paris, PUF, 1996, 2072-          que a "cincia" moderna (a psicanlise) preten-
114  Frank J. Sulloway, Freud, Biologist of the Mind,           dia esclarecer de acordo com uma racionalidade
N. York, Basic Books, 1979.                                      nova. Da um certo nmero de especulaes
                                                                 dificilmente admissveis: por exemplo, aquela
 FANTASIA; MOISS E O MONOTESMO; SEXUALI-                       em que Freud "analisa" a reao melanclica do
DADE; TOTEM E TABU.
                                                                 pintor depois da morte de seu pai como se
                                                                 tratasse de um paciente no seu div.
                                                                     Como todos os grandes casos freudianos,
Haitzmann, Christopher (?-1700)                                  esse estudo foi revisto pelos herdeiros do mes-
   Foi a pedido de um conselheiro ulico, R.                     tre, em funo do pensamento de suas res-
Payer Thurn, que descobrira na Biblioteca dos                    pectivas escolas. Assim, em 1950, Geza Ro-
                                                                                Halberstadt, Sophie       325

heim* sublinhou que o diabo, longe de ser um                 Seu nome foi escolhido em homenagem a So-
substituto do pai, era antes uma espcie de                  phie Schwab, uma bela mulher que era sobrinha
supereu*. Seis anos depois, dois clnicos klei-              de Emil Hammerschlag, ex-professor de he-
nianos, Richard Hunter e Ida Macalpine, que j               braico de Freud. Como sua irm mais velha, foi
tinham revisto o caso de Daniel Paul Schreber*,              educada nos princpios da burguesia vienense,
fizeram uma exegese completa da histria de                  que fixava como nico destino para as mulheres
Haitzmann, publicando sua autobiografia e                    tornarem-se esposas modelares e mes perfei-
suas obras pictricas. Evidentemente, invalida-              tas. Entre os filhos de Freud, educados dessa
ram o diagnstico freudiano e, para eles, o                  maneira, repetiram-se os conflitos e rivalidades
pintor era um perfeito esquizofrnico segundo                que a gerao precedente conhecera.
a terminologia bleulero-kleiniana. No conten-                   Mais bonita ainda que Mathilde, Sophie foi
tes em assimilar Haitzmann a um novo Schre-                  a preferida da me e teve que enfrentar o cime
ber, multiplicando interpretaes to duvidosas              de sua irm Anna, que sofria com seu fsico
quanto as de Freud, os dois autores acrescenta-              ingrato e com uma inaptido quase total para os
ram  sua reviso uma anlise do "caso" de                   trabalhos de costura e bordado, para os quais
Freud, enfatizando que suas interpretaes* so-              Sophie era dotada de um talento fora do co-
bre o "diabo substituto do pai" tinham como                  mum: "Voc devia ser generosa com sua irm",
origem a questo no resolvida da morte de seu               escreveu Freud a Anna, "seno vocs acabaro
prprio pai em 1896.                                         como suas duas tias, que nunca conseguiram se
    Foi preciso esperar os trabalhos do historia-            entender na infncia e que foram castigadas,
dor francs Michel de Certeau (1926-1986) pa-                tornando-se incapazes de se separar -- pois o
ra retirar o texto freudiano dessa espiral inter-            amor e o dio no so muito diferentes."
pretativa e dar-lhe um contedo novo. Segundo                    Em 1913, Sophie casou-se com Max Hal-
ele, Freud "fabricava" fices a partir de fatos             berstadt, fotgrafo e retratista famoso de Ham-
histricos, contribuindo assim, sem saber, para              burgo. O casamento foi preparado com cuida-
reintroduzir no trabalho do historiador um mo-               do, mas a pobre Anna, convalescente em Mera-
delo de inteligibilidade subjetiva que a his-                no de uma apendicectomia, no pde assistir a
toriografia exclura ao se tornar positivista.               ele. Consciente da infelicidade de sua ltima
 Sigmund Freud, "Uma neurose demonaca do sculo            filha, Freud lhe enviou entretanto uma carta
XVII" (1923), ESB, XIX, 91-138; GW, XIII, 317-53; SE,        incrivelmente cruel, sugerindo que certamente
XIX; OC, XVI, 213-51  Les Premiers psychanalystes.          ela tinha cime de Max, que soubera conquistar
Minutes de la Socit Psychanalytique de Vienne, II,
                                                             o amor de Sophie.
1908-1910 (N. York, 1967), Paris, Gallimard, 1978,
121-7  Geza Roheim, "Psychologie et histoire ou `La             Na verdade, era Freud, patriarca tirnico,
tragdie de l'homme'" (1950), in Psychanalyse et an-         compulsivamente apegado ao amor de suas fi-
thropologie (N. York, 1950), Paris, Gallimard, 1967,         lhas, que no suportava o casamento de Sophie,
513-39  Ida Macalpine e Richard A. Hunter, Schizo-
                                                             depois do de Mathilde, a tal ponto que Sandor
phrenia 1677. A Psychiatric Study of an Illustrated
Autobiographical Record of Demoniacal Possession,            Ferenczi* diagnosticou nele um "complexo de
Londres, Dawsson and Sons, 1956  Michel Foucault,           Sophie", exortando-o a aceitar normalmente
"Mdecins, juges et sorciers au XVIIe sicle" (1969), in     essa perda.
Dits et crits, vol.1, Paris, Gallimard, 1994, 753-66 
                                                                 Depois de um aborto teraputico, que fez
Michel de Certeau, L'criture de l'histoire, Paris, Galli-
mard, 1975  Luisa de Urtubay, Freud et le diable, Paris,    com que a famlia temesse uma esterilidade
PUF, 1983.                                                   semelhante  de Mathilde, Sophie deu  luz dois
                                                             filhos: Ernst (apelidado Ernstl) em 1914, e
                                                             Heinz (apelidado Heinerle) em 1918. Parecia
Halberstadt, Sophie, ne Freud                               feita para a felicidade conjugal, mas em 1920
(1893-1920), filha de Sigmund Freud                          morreu subitamente durante uma epidemia de
   Nascida em Viena*, Sophie era a quarta                    gripe que devastava o norte da Alemanha*.
entre os filhos de Sigmund Freud* e de sua                   Freud tinha acabado de ser informado da morte
mulher Martha*, e a segunda filha depois de                  de Anton von Freund*. No foi ao enterro, ao
Mathilde Hollitscher* e antes de Anna Freud*.                qual seus dois filhos, Ernst e Martin, assistiram
326     Hall, Granville Stanley

em companhia de Max Eitingon*, que viera de          era o filho mais velho de Sophie, Ernstl. Depois
Berlim. Deprimido, melanclico, Max Halber-          de estudar em Berlim, Ernstl fez vrias viagens.
stadt nunca se recuperou da morte da esposa.         Foi a Jerusalm para estar com Eitingon, que
Enquanto Mathilde se responsabilizava pelo           emigrara para Moscou, e pensou em se instalar
pequeno Heinerle, que sucumbiria tragica-            em Londres. Analisado por Wilhelm (Willi)
mente a uma tuberculose miliar trs anos de-         Hoffer (1897-1967), discpulo vienense de
pois, Anna se ocupava de Ernstl, pensando at        Freud naturalizado ingls, tornou-se psicanalis-
em adot-lo.                                         ta, membro da International Psychoanalytical
    Freud comunicou sua dor a Oskar Pfister*,        Association* (IPA), e trabalhou na Hampstead
mencionando a dureza dos tempos: "A felici-          Child Therapy Clinic, onde se especializou no
dade [de Max e Sophie] estava apenas no seu          estudo das relaes precoces entre o beb e a
corao, no na sua vida: a guerra, a mobiliza-      me. Tratou tambm de crianas prematuras. 
o, o ferimento, a diminuio de seus recursos,     procura de uma identidade que o ligasse ao av,
apesar disso eles continuavam corajosos e ale-       adotou o nome de solteira de sua me e fez-se
gres [...]. A perda de um filho parece ser uma       chamar Ernest W. Freud. Com a morte de Anna,
ofensa grave, narcsica; o que se chama luto s      renunciou a herdar o apartamento londrino de
vem, provavelmente, depois."                         Maresfield Gardens, que se tornou o Freud Mu-
    A morte de Heinerle foi para ele ainda mais      seum*, e foi exercer a psicanlise na Alemanha.
terrvel: " verdade que perdi uma filha querida         Assim, o "menino do carretel", que alis
com a idade de 27 anos, mas estranhamente            esqueceu o episdio contado pelo av em Mais-
suportei bem. Foi em 1920, estvamos desgas-         alm do princpio de prazer*, foi o nico
tados pela misria da guerra, preparados h anos     descendente masculino da famlia Freud que se
para ficar sabendo que perdramos um filho, ou       tornou psicanalista.
mesmo trs. Assim, a submisso ao destino se          Sigmund Freud, Mais-alm do princpio de prazer
preparava [...]. Depois da morte de Heinerle,        (1920), ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69; SE, XVIII,
no gosto mais dos meus netos e no me alegro        1-64; OC, XV, 273-339; La Naissance de la psychana-
mais com a vida. A tambm est o segredo da         lyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Chronique la
                                                     plus brve. Carnets intimes, 1929-1939, anotado e
indiferena. Chamaram isso de coragem, diante        apresentado por Michael Molnar (Londres, 1992), Pa-
da ameaa que pesa sobre a minha prpria             ris, Albin Michel, 1992  Sigmund Freud e Sandor Fe-
vida."                                               renczi, Correspondncia, vol.I, 1908-1914 (Paris,
    Em 1924, Fritz Wittels* quis demonstrar que      1992), Rio de Janeiro, Imago, 1994, 1995, vol.II (1914-
                                                     1919), Paris, Calmann-Lvy, 1996  Ernest Jones, A
a teorizao de Freud sobre a noo de pulso        vida e a obra de Sigmund Freud, vols.1 e 2 (N. York,
de morte* em Mais-alm do princpio de pra-          1953, 1955), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Martin
zer* era o contragolpe da dor sentida com a          Freud, Freud, mon pre (Londres, 1957), Paris, De-
morte de Sophie. No era nada disso e Freud          nol, 1975  Max Schur, Freud: vida e agonia, uma
                                                     biografia, 3 vols. (N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago,
enfatizou, em uma carta a Eitingon de julho de       1981  lisabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma bio-
1920, que a obra j estava em fase de concluso      grafia (N. York, 1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992 
bem antes dessa tragdia. Alis, a idia de um       Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.
instinto de morte j fora formulada por Sabina       York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995.
Spielrein*.
    Na obra, Freud contou a histria de uma
criana amada pelos pais, que no os perturbava      Hall, Granville Stanley (1844-1924)
 noite e nunca chorava quando a me se ausen-       psiclogo americano
tava, mas que adquirira o hbito de brincar com          Fundador americano da psicologia gentica,
um carretel de madeira atado a um barbante. Ele      inspirada no darwinismo e em uma pedagogia
lanava e tornava a apanhar o carretel, gritando     evolucionista, pioneiro da introduo da psica-
"fort-da", expressando assim o sofrimento que        nlise* nos Estados Unidos*, com James Ja-
lhe causava a perda do objeto e o prazer que         ckson Putnam* e Adolf Meyer*, Stanley Gran-
tinha em faz-lo reaparecer. Esse "menino do         ville Hall nasceu em Ashfields, em uma velha
carretel", clebre em toda a literatura freudiana,   famlia de fazendeiros puritanos da Nova
                                                                                   Hartmann, Heinz          327

Inglaterra. Destinando-se inicialmente  teolo-           Hans, Pequeno (caso)
gia e ao ministrio sacro, orientou-se para a              GRAF, HERBERT.
filosofia, depois de uma forte rebelio contra
seu pai e uma experincia amorosa.
    Com o psiclogo William James (1842-                  Happel, Clara, ne Pinkus
1910), obteve seu doutorado aos 30 anos, e,               (1889-1945)
com James Jackson Putnam, comeou a se in-                mdica e psicanalista alem
teressar pelas crianas deficientes e retardadas.             Nascida em Berlim, em uma famlia judia,
Durante uma viagem  Europa, foi a Leipzig                Clara Happel logo se interessou pela psican-
para estudar psicologia com Wilhelm Wundt                 lise e foi formada por Hanns Sachs*. Em 1920,
(1832-1920) e visitou os grandes mestres da               participou da criao do Instituto Psicanaltico
patologia da poca: Jean Martin Charcot* em               de Frankfurt. Depois, instalou-se em Hambur-
Paris, Theodor Meynert* em Viena*, Hippolyte              go, para trabalhar com August Waterman*. Em
Bernheim* em Nancy. Mesmo apaixonado pela                 1934, emigrou para os Estados Unidos* com
hipnose*, ensinou psicologia na Johns Hopkins             seus dois filhos, em condies difceis. No
                                                          consulado americano, anotaram em seus docu-
University, e depois, de 1889 a 1920, na Clark
                                                          mentos: "Mulher com dois filhos. Ser um far-
University de Worcester. Em 1887, fundou o
                                                          do para os Estados Unidos." Assim, logo que
American Journal of Psychology e teve uma
                                                          chegou, foi conduzida a Ellis Island. Sandor
intensa atividade editorial, lanando trs outros
                                                          Rado* foi procur-la para acolh-la em sua casa
peridicos: o Pedagogical Seminary (que se                e ajud-la a integrar-se. Foi em Detroit, onde
tornaria o Journal of Genetic Psychology), o              no havia nenhum grupo freudiano, que ela
Journal of Applied Psychology e enfim o Jour-             decidiu finalmente instalar-se e praticar a psi-
nal of Religious Psychology.                              canlise. Em 1941, depois do ataque de Pearl
    Em 1909, convidou Sigmund Freud* a fazer              Harbor, foi denunciada  polcia como inimiga
conferncias na Clark University, depois de dar           da Amrica por um ex-paciente psictico e
ele prprio cursos sobre psicanlise. Pos-                passou seis semanas na priso. Ao sair, no
teriormente, voltou-se para a escola de psicolo-          conseguiu mais exercer a profisso e mergu-
gia individual de Alfred Adler*, e se dedicou ao          lhou na melancolia*. Em 1944, pobre e solit-
estudo da religio e  gerontologia.                      ria, partiu para viver em Nova York, onde se
                                                          suicidou um ano depois com uma dose macia
 Granville Stanley Hall, Life and Confessions of a       de barbitricos.
Psychologist, N. York, D. Appleton and Co., 1923 
Dorothy Ross, "G. Stanley Hall, 1844-1924. Aspects of      Volker Friedrich, "Cartas da Amrica de Clara Happel
science and culture in the nineteenth century", tese,     a seu filho Peter: 1936-1945", in Revista Internacional
Departamento de Histria, Columbia University, 1965       da Histria da Psicanlise, 1 (1988), Rio de Janeiro,
 L'Introduction de la psychanalyse aux tats-Unis.       Imago, 1990, 283-306.
Autour de James Jackson Putnam (Londres, 1968),
Paris, Gallimard, 1978, precedido de uma "Introduc-        SUICDIO.
tion" por Nathan G. Hale, 17-86  Nathan G. Hale,
Freud and the Americans. The Beginnings of Psychoa-
nalysis in the United States, 1876-1917, t.I (1971), N.   Hartmann, Heinz (1894-1970)
York, Oxford University Press, 1995  L. Zusne, Names
                                                          psiquiatra e psicanalista americano
in the History of Psychology. A Biographical Source-
book, N. York, Londres, A Halsted Press Book, John            Fundador da corrente da Ego Psychology* e
Wiley & Sons, 1975, 375-7.                                grande expoente da escola nova-iorquina de
                                                          psicanlise*, Heinz Hartmann nasceu em Vie-
 CINCO LIES DE PSICANLISE.                             na* e foi educado em um meio intelectual sem
                                                          confisso religiosa, fenmeno raro na poca.
                                                          Era proveniente da grande burguesia vienense
                                                          elitista e refinada. Seu pai foi professor de
Hampstead Child Therapy Clinic                            histria, antes de ser embaixador em Berlim, e
 FREUD, ANNA.                                             seu av materno era o famoso ginecologista
328     Heimann, Paula

Rudolf Chrobak (1843-1910), que sugerira a         da ortodoxia freudiana, ao lado de Anna Freud*.
Sigmund Freud* uma etiologia sexual da his-        Com ela e com Ernst Kris*, criou em 1945 a
teria*. Na juventude, Hartmann fora tratado por    revista Psychoanalytic Study of the Child, rgo
Josef Breuer*. Assim, tinha laos com a famlia    representativo do annafreudismo* no campo da
freudiana.                                         psicanlise de crianas*. Ren Spitz* publica-
    Depois de ter sido aluno de Julius Wagner-     ria muitos textos nessa revista. Diretor do Ins-
Jauregg*, foi a Berlim, onde se familiarizou       tituto de Nova York de 1948 a 1951, presidente
com o pensamento de Max Weber (1864-1920)          da New York Psychoanalytical Society (NYPS)
e de Kurt Lewin (1890-1947). Paralelamente,        de 1952 a 1954, presidente da International
fez uma primeira anlise didtica* com Sandor      Psychoanalytical Association* (IPA) de 1953 a
Rado*, no prestigioso Berliner Psychoanaly-        1959, morreu coberto de honrarias, no sem ter
tisches Institut* (BPI). Voltando a Viena, inte-   sido violentamente criticado no prprio mago
grou-se em 1925  Wiener Psychoanalytische         da internacional freudiana, especialmente por
Vereinigung (WPV), e depois fez uma segunda        Heinz Kohut*, pela imagem desastrosa que deu
anlise com Sigmund Freud*, que o considera-       da psicanlise atravs de sua teoria do eu, de sua
va um de seus melhores alunos no que se            ortodoxia e de sua apologia dos tratamentos
convencionara chamar de segunda gerao*. A        clssicos, cronometrados, silenciosos e de pre-
partir de 1932, foi um dos diretores do Interna-   o inacessvel.
tionale Zeitschrift fr Psychoanalyse*, e depois    Heinz Hartmann, La Psychologie du moi et le pro-
empenhou-se, desde 1937, na reviso da segun-      blme de l'adaptation (Viena, 1939, N. York, 1958),
da tpica* freudiana, o que o levaria  Ego        Paris, PUF, 1968; "Commentaires sur la thorie psy-
Psychology.                                        chanalytique du moi" (1950), Revue Franaise de Psy-
                                                   chanalyse, 31, 3 1967, 339-66; "Les Influences rcipro-
    De passagem por Paris em 1938, foi invo-       ques du moi et du a dans le dveloppement" (1952),
luntariamente envolvido nos conflitos da Socie-    ibid., 379-402; Essays on Ego Psychology, N. York,
dade Psicanaltica de Paris (SPP) a propsito da   International Universities Press, 1964  Heinz Hart-
eleio de Jacques Lacan* ao ttulo de membro      mann, Ernst Kris e Rudolph Loewenstein, lments de
                                                   psychologie psychanalytique, Paris, PUF, 1975  Ru-
titular. Rudolph Loewenstein* recusou esse t-     dolph Loewenstein, "Obituary. Heinz Hartmann, 1894-
tulo a Lacan, e douard Pichon* se interps,       1970", IJP, 51, 1970, 317-419  lisabeth Roudinesco,
trocando a nomeao de Hartmann pela de La-        Histria da psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986),
can. Posteriormente, Hartmann continuaria a        Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jacques Lacan.
                                                   Esboo de uma vida, histria de um sistema de pensa-
opor-se firmemente a Lacan por ocasio das         mento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras,
duas cises* do movimento psicanaltico            1994.
francs. Quanto a Lacan, no hesitou em tratar
a Ego Psychology de "cancro constitudo pelos
libis recorrentes do psicologismo" e em quali-    Heimann, Paula (1899-1982)
ficar a psicanlise americana, encarnada em sua    mdica e psicanalista inglesa
opinio pelos trabalhos de Hartmann, como              Nascida em Dantzig de pais russos, Paula
uma psicologia desviada, a servio da livre        Heimann estudou em vrias universidades
empresa. Alis, Freud tambm no era mais          alems, antes de se instalar em Berlim. Orien-
indulgente quando acusava os americanos, a         tou-se ento para a psicanlise*, fazendo um
respeito da Questo da anlise leiga*, de terem    tratamento com Theodor Reik*. Membro da
transformado sua doutrina em "pau para toda        Deutsche Psychoanalitische Gesellschaft
obra da psiquiatria".                              (DPG) em 1932, foi obrigada a emigrar no ano
    Obrigado a se evadir da Frana em 1939,        seguinte, e Ernest Jones* a convidou para viver
Hartmann se refugiou na Sua*, na casa de         em Londres e integrar-se  British Psychoana-
Raymond de Saussure*, e encontrou-se com           lytical Society (BPS). Logo fez amizade com
Loewenstein. Ambos emigraram para os Es-           Melanie Klein*, de quem foi confidente depois
tados Unidos* em 1941, e em Nova York Hart-        da morte trgica de seu filho mais velho. Na
mann comeou uma segunda carreira de chefe         verdade, tornou-se, de certa forma, sua filha
de escola, tornando-se o principal representante   adotiva. Depois, fez com ela uma nova anlise
                                                                            Helmholtz, Hermann         329

e foi uma discpula assdua. Durante o perodo           fisiologia na Universidade de Knigsberg em
das Grandes Controvrsias*, Paula a apoiou               1849, ocupou depois, na mesma disciplina, a
lealmente. Depois da Segunda Guerra Mundial,             ctedra de Heidelberg, antes de ensinar em
tornando-se uma das didatas mais importantes             Berlim, onde foi criada para ele uma ctedra de
da BPS, redigiu muitos artigos clnicos e dis-           fsica.
tinguiu-se por seus trabalhos sobre a contra-                Para compreender o lugar da obra de Helm-
transferncia*, a identificao projetiva* e as          holtz na histria da descoberta do inconsciente,
relaes de objeto*.                                     e em geral na das cincias,  preciso report-la
    Em 1949, entrou em conflito com Melanie               fisiologia moderna, cujo terreno se consolidou
Klein a propsito da publicao de seu artigo            no fim do sculo XIX atravs dos trabalhos dos
sobre a contratransferncia. Sentindo-se tratada         grandes positivistas: "Entre a experimentao
"como escrava", rebelou-se e foi rejeitada im-           fisiolgica do sculo XVIII e a do sculo XIX,
placavelmente pelos kleinianos. Reuniu-se en-            escreveu Georges Canguilhem, a diferena ra-
to ao Grupo dos Independentes*.                         dical est na utilizao sistemtica, por esta, de
                                                         todos os instrumentos e aparelhos que as cin-
 Paula Heimann, "On counter-transference", IJP, 31,
1950, 81-4; "Quelques aspects du rle de la projection   cias fsico-qumicas em pleno desenvolvimento
et de l'introjection dans les tout premiers stades du    lhe permitiram adotar e construir, tanto para a
dveloppement", in Melanie Klein (org.), Os progres-     deteco quanto para a mensurao dos fen-
sos da psicanlise (Londres, 1952), Rio de Janeiro,      menos."
Zahar, 1978; About Children and Children-no-longer.
The Work of Paula Heimann, 1942-1980, Margaret               Aluno do embriologista Johannes Peter
Tonnesmann (org.), Londres, Routledge, 1989  Phyllis    Mller (1801-1858), Helmholtz soube aliar 
Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie Klein (1986),    exigncia de mensurao e quantificao, que
Rio de Janeiro, Imago, 1992  R.D. Hinshelwood, Di-      era estranha ao seu mestre, o sentido filosfico
cionrio do pensamento kleiniano (Londres, 1991), P.
Alegre, Artes Mdicas, 1992  Les Controverses Anna      da unidade da natureza que este lhe transmitira.
Freud/Melanie Klein (Londres, 1991), Pearl King e        Dominando todas as cincias de sua poca,
Riccardo Steiner (orgs.), Paris, PUF, 1996.              interessou-se pelos fenmenos de percepo e
                                                         criou a expresso inferncia inconsciente para
                                                         designar o processo de reconstruo que per-
Heller, Hugo (1870-1923)                                 mite a cada sujeito perceber uma experincia ou
editor austraco                                         um objeto a distncia da simples impresso dos
   Vienense de origem hngara, Hugo Heller               rgos.
participou a partir de 1902 das reunies da                  Em 1847, em sua monografia Sobre a con-
Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras*.               servao da fora, apresentou uma audaciosa
Sua clebre livraria era um ponto de encontro            demonstrao da aplicao ao conjunto do uni-
de escritores e poetas. Heller foi o primeiro            verso fsico de uma lei que se tornaria um
editor da revista Imago* e do Internationale             princpio fundamental da termodinmica. Na
Zeitschrift fr Psychoanalyse*.                          mesma perspectiva, interessou-se pela ptica e
                                                         pela acstica, e inventou dois aparelhos: o of-
 Elke Mhlleitner, Biographisches lexikon der Psy-      talmmetro e o oftalmoscpio. Um servia para
choanalyse. Die Mitglieder der psychologischen Mitt-
woch-Gesellschaft und der Wiener Psychoanalytis-         explorar o olho, o outro para medir suas curva-
chen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord,       turas. O caminho estava assim aberto para o
1992.                                                    desenvolvimento experimental da ptica fisio-
                                                         lgica.
                                                             Siegfried Bernfeld* foi o primeiro, em 1944,
Helmholtz, Hermann Ludwig                                a mostrar a importncia dos trabalhos da escola
Ferdinand von (1821-1894)                                de Helmholtz na gnese da doutrina freudiana.
fisiologista e fsico alemo                             Se Johannes Mller inculcara em seus alunos a
   Nascido em Potsdam, Hermann von Helm-                 convico de que a fisiologia devia triunfar
holtz estudou na escola dos mdicos militares            sobre a velha medicina romntica, ele continua-
prussianos. Nomeado inicialmente professor de            va ligado  doutrina do vitalismo*. Foi essa
330       Herbart, Johann Friedrich

doutrina que Helmholtz e seus colegas Emil Du               pas, onde conquistou adeptos e teve discpulos
Bois-Reymond (1818-1896), Carl Ludwig                       entre os catlicos, os mdicos e os pedagogos
(1816-1895) e Ernst Wilhelm von Brcke*, to-                leigos (que tentaram reformar o ensino nos
dos eles alunos de Mller, combateram. Em                   liceus e nas universidades a partir das suas
1845, animados por um esprito de cruzada,                  teorias). Foi o caso sobretudo de Franz Brenta-
formaram um pequeno grupo cujo objetivo era                 no*, ou ainda de Franz Exner (1802-1853) e de
impor a verdade de que "s as foras fsicas e              seu aluno Gustav Adolf Lindner (1822-1877),
qumicas, com excluso de qualquer outra,                   ambos autores de manuais de psicologia emp-
agem no organismo". Em trinta anos, tornaram-               rica amplamente difundidos a partir dos anos
se os chefes incontestveis da medicina e da                1850.
fisiologia de lngua alem e impuseram uma                      Antes de Herbart, Johann Fichte criticou o
corrente mecanicista e organicista  neurologia             cogito cartesiano e o ato do conhecimento kan-
e  psicologia a fim de isol-las de todo modelo            tiano como tomada de conscincia do pensa-
filosfico. Assim, realizaram a unio da neuro-             mento cognoscente. Definia o eu* como um
logia e da psicologia.                                      sujeito transcendental que se apresenta a si mes-
    Grande admirador dos trabalhos de Helm-                 mo para si mesmo. Esse eu  infinito e, para
holtz, Sigmund Freud* foi apresentado a seu                 realizar-se, tem necessidade, como se dizia, de
pensamento atravs do ensino de Brcke. To-                 um no-eu. Era esse drama da relao do eu com
mou por emprstimo  fisiologia de sua poca                o no-eu que caracterizava, segundo Fichte, a
a referncia  dinmica, que se encontra em sua             identidade do sujeito moderno, sempre obriga-
primeira tpica*, assim como as noes de                   do a afirmar sua realidade atravs de uma ativi-
conflito, oposio e formao de compromisso,               dade.
que estruturam sua descrio do aparelho ps-                   A partir dessa concepo do eu, Herbart
quico.                                                      desenvolveu uma doutrina completa em torno
 Siegfried Bernfeld, "Freud's earliest theories and the    das noes de representao*, de pulso* e de
school of Helmholtz", Psychoanalytic Quarterly, XIII,       recalque*. Fragmentou a identidade j dividida
1944, 341-62  Ernest Jones, A vida e a obra de             do sujeito da filosofia ps-kantiana em mlti-
Sigmund Freud, vol.1 (N. York, 1953), Rio de Janeiro,       plas representaes definidas como tomos da
Imago, 1989  Georges Canguilhem, tudes d'histoire
et de philosophie des sciences, Paris, Vrin, 1868  J.-L.   alma: recalcadas no limiar da conscincia, elas
Breteau, "Helmholtz Hermann Ludwig Ferdinand von",          lutam umas contra as outras para invadir esta
Encyclopaedia universalis (1968), vol.8, nona publica-      ltima.
o, janeiro de 1976, 299-300  Paul-Laurent Assoun,            Atravs dessa teoria, Herbart descrevia to-
Metapsicologia freudiana: uma introduo (Paris,
1981), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996.                   das as modalidades do inconsciente dinmico,
                                                            nas quais Sigmund Freud* se inspiraria para a
                                                            elaborao de sua primeira tpica.
Herbart, Johann Friedrich                                       Partidrio da ordem e do conservadorismo
(1776-1841)                                                 poltico, Herbart fez uma obra de pedagogo,
filsofo alemo                                             apoiando-se nos princpios de uma disciplina
    Sucessor de Immanuel Kant (1724-1804) na                semifeudal que convinha ao ideal conservador
ctedra de Knigsberg em 1809 e aluno de                    do imprio josefista. Preferindo o saber adqui-
Johann Fichte (1762-1814), Johann Friedrich                 rido ao esprito inventivo, preconizava um sis-
Herbart foi um dos fundadores da psicologia                 tema educativo que favorecia os especialistas e
moderna. Em sua principal obra, A psicologia                os conhecedores, em detrimento dos criadores.
como cincia fundada na experincia, na meta-               Da seu sucesso nos meios acadmicos vie-
fsica e na matemtica, tentou fundar uma cin-             nenses.
cia do homem sobre o ensino das cincias natu-                  Em uma conferncia de 1911, publicada trs
rais, do associacionismo ingls e do idealismo              anos depois, Luise von Karpinska, uma psic-
especulativo alemo.                                        loga polonesa, foi a primeira a estudar a impor-
    Embora nunca tenha posto os ps na ustria,             tncia da doutrina dinmica de Herbart na g-
foi certamente o filsofo mais admirado nesse               nese do pensamento freudiano. Depois dela,
                                                                  hereditariedade-degenerescncia          331

Maria Dorer tentou mostrar que Freud fora                    de tudo, no mesmo ano, no clebre livro de Max
marcado pelo herbartismo, atravs do ensino de               Nordau (1849-1923) chamado Degenerescn-
seu mestre Theodor Meynert*. Posteriormente,                 cia, que impregnou toda a gerao dos judeus
Siegfried Bernfeld* ps em evidncia a impor-                vienenses atormentados pela questo do "dio
tncia que a leitura do manual de Lindner,                   judeu de si" e da bissexualidade*.
Lehrbuch der Psychologie von Standpunkte des                     O despontar dessa configurao foi perfei-
Realismus und nach genetischer Methode, pu-                  tamente descrito, em 1976, por Michel Foucault
blicado em 1857, tivera para o jovem Freud.                  (1926-1984). Foi o fim da crena no privilgio
Enfim, Ernest Jones* e principalmente Ola An-                social que favoreceu a afirmao de um ideal
dersson* estudaram de modo mais sistemtico                  "biolgico", onde o culto da raa "boa" apoiou-
o lugar do herbartismo na doutrina freudiana.                se no anti-semitismo, no no-igualitarismo e no
                                                             dio pelas massas (de criminosos, histricos,
 Johann Friedrich Herbart, "Psychologie als Wis-
                                                             marginais etc.), para propor uma teoria geral
senschaft, Neugegrndet auf Erfahrung, Metaphysik
und Mathematik" (1824), in Smtliche Werke, Leipzig,         das relaes entre o corpo social, o corpo in-
Voss, 1850  Luise von Karpinska, "ber die psycholo-        dividual e o domnio do mental, concebidos
gischen Grundlagen des Freudismus", IZP, vol.2,              como entidades orgnicas e descritos em ter-
1914, 305-26  Maria Dorer, Historiche Grundlagen der        mos de norma e de patologia.
Psychoanalyse, Leipzig, Felix Meiner, 1932  Siegfried
Bernfeld, "Freud's scientific beginnings", American              Assim, a doutrina da hereditariedade-dege-
Imago, vol.6, 1949, 163-96  Ernest Jones, A vida e a        nerescncia submeteu a anlise dos chamados
obra de Sigmund Freud, vol.1 (N. York, 1953), Rio de         fenmenos patolgicos (loucura*, neurose*,
Janeiro, Imago, 1989  Lancelot Whyte, L'Inconscient
                                                             crimes, doenas sexuais, anomalias diversas) 
avant Freud (N. York, 1960), Paris, Payot, 1971  Ola
Andersson, Freud avant Freud. La Prhistoire de la           observao de estigmas ou traos que revelas-
psychanalyse (1962), Paris, Synthlabo, col. "Les em-        sem as taras (sociais ou individuais), as quais
pcheurs de penser en rond", 1997  William M. Johns-        tinham por conseqncia fazer o homem
ton, L'Esprit viennois. Une histoire intellectuelle et so-   mergulhar na degradao e a nao na decadn-
ciale, 1848-1938 (1972), Paris, PUF, 1985  Paul-Lau-
rent Assoun, Metapsicologia freudiana: uma introdu-          cia. A partir desse eixo desenharam-se dois
o (Paris, 1981), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996        caminhos antagnicos. Um tomou a degeneres-
Wilhelm W. Hemecker, Vor Freud. Philosophiegeschi-           cncia ao p da letra e anunciou a queda final
chtliche Voraussetzungen der Psychoanalyse, Muni-            da humanidade, vtima de seus instintos. Teve
que, Philosophia, 1991.
                                                             seu desfecho lgico no eugenismo e no genoc-
                                                             dio. Contra o mal radical, o remdio tinha que
                                                             ser radical: seleo, de um lado, para preservar
hereditariedade-degenerescncia                              a "boa raa", e eliminao, do outro, para fazer
    Proveniente do darwinismo social, o termo                desaparecer a "ruim".
hereditariedade-degenerescncia invadiu, no                      O outro caminho foi higienista e progressis-
fim do sculo XIX, todos os campos do saber,                 ta. Acreditava na cura do homem pelo homem.
desde a psiquiatria at a biologia, passando pela            Por isso, props-se combater as taras e a pato-
literatura, filosofia e criminologia*. Encontra-             logia atravs da profilaxia, da pedagogia e da
mos grandes vestgios dele nas teorias da sexua-             reeducao das almas e dos corpos. Em oposi-
lidade de Richard von Krafft-Ebing*, na noso-                o  idia de queda, desenvolveu a de redeno
grafia de Emil Kraepelin*, nas teses de Cesare               do homem pela cincia e, desse modo, reatou
Lombroso (1835-1909) sobre o "criminoso na-                  com a tradio da filosofia do Iluminismo, de
to", nas de Gustave Le Bon (1841-1931) sobre                 onde sara a psiquiatria dinmica*.
a psicologia das massas e de Georges Vacher de                   Por sua ruptura radical com as teorias here-
Lapouge sobre o eugenismo, e tambm nas                      ditaristas do inconsciente* e da sexualidade*,
obras de Hippolyte Taine (1828-1893) sobre a                 Sigmund Freud* inscreveu a psicanlise nessa
Revoluo Francesa, no romance  rebours, de                 tradio progressista e higienista, muito embo-
Karl Huysmans (1848-1907), lanado em 1884,                  ra, na condio de herdeiro do romantismo, sua
no de mile Zola (1840-1902) intitulado Le                   conscincia hesitasse entre o crtico e o trgico,
Docteur Pascal, publicado em 1893, e, acima                  entre o discurso "racional" da cincia e o apego
332       hermafroditismo

ao "irracional" da pulso*, da loucura e do                 cologia experimental, e depois decidiu tornar-se
sonho*.                                                     mdico. Membro da Sociedade Psicanaltica de
    A doutrina da hereditariedade-degeneres-                Budapeste em 1919, foi analisado por Erzsebet
cncia teve, na Frana*, um destino particular              Revesz (1887-1923), primeira mulher de San-
na histria da implantao do freudismo*, em                dor Rado*, por Sandor Ferenczi* e enfim por
virtude da ecloso do caso Dreyfus em 1894, da              Wilma Kovacs (1882-1940). Em 1922, casou-
irrupo de uma vigorosa corrente germanfo-                se com Alice Czinner, que se tornou psicanalis-
ba e da constituio, atravs das diversas teorias          ta, e com quem teve trs filhas.
psicolgicas, sobretudo a de Pierre Janet*, de                  Autor de dez obras e de uma centena de
um modo de resistncia  psicanlise de nature-             artigos, Hermann foi, como Ferenczi e como
za chauvinista, xenfoba e anti-semita. Da a               quase todos os representantes da escola hnga-
tentativa da primeira gerao* psicanaltica                ra, um excelente clnico, partidrio da tcnica
francesa de elaborar um freudismo "nacional",               ativa* e da necessidade de uma transferncia*
livre de sua pretensa "barbrie alem".                     maternalizante nos casos de psicose*. Nesse
                                                            ponto, suas teses antecipam as da Self Psycho-
 Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de
l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
                                                            logy*, especialmente no campo da sexualidade
1974), Paris, Fayard, 1994  Yvette Conry, L'Introduc-      feminina* e do narcisismo*.
tion du darwinisme en France, Paris, Vrin, 1974                Tentou elaborar modelos matemticos para
Michel Foucault, Histria da sexualidade, vol. I, A von-    apoiar a psicanlise em dados biolgicos. Foi
tade de saber (Paris, 1976), Rio de Janeiro, Graal,
1985, 6a. ed.  Zeev Sternhell, La Droite rvolution-
                                                            nessa perspectiva que forjou a expresso "ins-
naire, Paris, Seuil, 1978  Jean Borie, Mythologies de      tinto de agarramento", para designar um modo
l'hrdit au XIXe sicle, Paris, Galile, 1981  Patrick   de frustrao* que consiste em uma renncia
Wald Lasowski, Syphilis, Paris, Gallimard, 1982  li-      progressiva da criana aos hbitos do macaco.
sabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana,       Na verdade, segundo Hermann, a me e a crian-
vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989
 Jacques Le Rider, Modernit viennoise et crises de        a formam uma unidade biolgica que se desfaz
l'identit (1990), Paris, PUF, 1994  Michel Plon, "Freud   e d lugar a um "enganchamento a distncia",
et les psychanalystes franais", in Michel Drouin (org.),   isto , a uma relao de amor. Melanie Klein*
L'Affaire Dreyfus de A  Z, Paris, Flammarion, 1994        seria fortemente marcada pelos trabalhos de
Delphine Bechtel, Dominique Bourel e Jacques Le
Rider (orgs.), Max Nordau, 1849-1923, Paris, Cerf,
                                                            Hermann.
1996.
                                                             Imre Hermann, La Psychanalyse comme mthode
 HESNARD, ANGELO; HISTRIA DA PSICANLISE;                  (Budapeste, 1993), Paris, Denol, 1979; L'Instinct fi-
                                                            lial (Budapeste, 1943), Paris, Denol, 1972; Parall-
PANSEXUALISMO; PICHON, DOUARD; PSICOLOGIA
                                                            lismes (Budapeste, 1945), Paris, Denol, 1980; Psy-
CLNICA; PSICOLOGIA DAS MASSAS E ANLISE DO                 chanalyse et logique, Paris, Denol, 1978  Gyorgy
EU.                                                         Vikar, "L'cole de Budapest", Critique, 346, maro
                                                            de 1976, 236-52  Eva Brabant-Ger, Ferenczi et l'-
                                                            cole hongroise de psychanalyse, Paris, L'Harmattan,
hermafroditismo                                             1993.
 TRANSEXUALISMO.
                                                             ESTDIO; FECHNER, GUSTAV; HUNGRIA.

Hermann, Imre (1889-1984)
mdico e psicanalista hngaro                               Hesnard, Angelo (1886-1969)
   Um dos expoentes da escola hngara de psi-               psiquiatra e psicanalista francs
canlise, Imre Hermann foi o nico (com Istvan                 Ningum pode contestar o ttulo de primeiro
Hollos*) a permanecer no pas. Por sua longe-               pioneiro da psicanlise* na Frana* de Angelo
vidade, garantiu a continuidade do freudismo*               Hesnard. Esse navegador incansvel, autor de
sob o regime comunista a partir de 1945.                    uma bela obra sobre o universo do pecado, posta
   Filho de um dirigente da Companhia Fer-                  no Index pela Santa S, recusou-se durante toda
roviria, passou a infncia em Zagreb. Desde                a vida a ser analisado. Foi principalmente um
cedo se interessou pela matemtica e pela psi-              polgrafo oportunista, marcado pela tradio
                                                                          Hesnard, Angelo       333

francesa da hereditariedade-degenerescncia*.       carta na qual se desculpava pela indiferena da
Adotando logo de sada as teses da escola fran-     Frana pela psicanlise. Dois anos depois, pu-
cesa de psiquiatria, atravs do ensino de seu       blicou com Rgis a famosa obra A psicoanlise
mestre Emmanuel Rgis, (1855-1918), foi um          das neuroses e das psicoses, verdadeiro mani-
puro representante da "psicanlise  francesa"      festo germanfobo em favor de uma latinizao
germanfoba e hostil ao pretenso pansexualis-       da psicanlise, que seria considerada como o
mo* freudiano.                                      primeiro texto de implantao das teses freudia-
    Assim, tornou-se, na primeira gerao da        nas na Frana pela via mdica.
Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP), o art-         Freud acolheu friamente essa "interpreta-
fice principal de uma corrente chauvinista, cu-     o" de seu pensamento, e foi Sandor Ferenczi*
jas teses podem ser resumidas assim: Sigmund        quem se encarregou, em plena guerra, de atacar
Freud* era um intelectual como outro qualquer,      sem rodeios os artfices desse chauvinismo. Seu
suas teses eram tomadas por emprstimo da           artigo de 1915, "A psicanlise vista pela escola
psiquiatria de Zurique (Eugen Bleuler*, Carl        psiquitrica de Bordeaux" ridicularizava o ar-
Gustav Jung*) e a noo de inconsciente* era        gumento da "clareza latina" e opunha ao nacio-
apenas uma variante da de subconsciente (Pier-      nalismo dos autores uma argumentao fun-
re Janet*). Quanto  teoria freudiana da sexua-     dada na necessidade, para toda cincia, de reco-
lidade*, esta era, como o simbolismo* (no so-       nhecer simultaneamente a complexidade dos
nho*), a expresso de uma mstica germnica e       fatos e a autonomia da conceitualizao.
radical (logo, pansexualista), que era preciso          Membro fundador em 1926 da Sociedade
adaptar ao "gnio latino" e  racionalidade "car-   Psicanaltica de Paris (SPP), Hesnard conti-
tesiana".                                           nuou a defender os princpios da latinidade no
    Da a pretenso de transformar o freudismo*     seio da corrente chauvinista, representada por
em uma doutrina "pro domo et pro patria", da        Adrien Borel*, Henri Codet (1889-1939), e
qual a tradio psiquitrica francesa seria a       teorizada, em uma nova perspectiva, pelo gra-
melhor expresso: contra Zurique, por um lado,      mtico douard Pichon*. Entretanto, isso no
contra Viena*, por outro. Da tambm o para-        o impediu de renegar a obra de 1914, por opor-
doxo que se encontra em vrios outros pases:       tunismo. Em 1929, um ano depois da morte de
o primeiro pioneiro da psicanlise na Frana,       Rgis, em uma nova edio, anunciou que os
embora apaixonado pelo freudismo, no foi           captulos chauvinistas, to criticados por Fe-
nem analisado nem verdadeiramente freudiano.        renczi, tinham sido escritos por seu co-autor,
    Em 1905, o jovem Angelo Hesnard entrou          que no estava mais ali para se defender.
para a escola principal do servio de sade da          Durante toda a sua vida, Hesnard formou
Marinha, em Bordeaux. A escola bordalesa de         psicanalistas no sul da Frana, entre Marselha,
psiquiatria gozava ento de muito prestgio,        Toulon e Montpellier, onde era o nico a exerc-
graas  personalidade de Albert Pitres (1848-      la, gozando do renome que devia  sua reputa-
1928), neurologista, aluno de Jean Martin Char-     o de primeiro pioneiro. Criou um grupo de
cot*, e conhecido por seus trabalhos sobre a        estudos para a regio mediterrnea. Amava a
grande histeria*, e de Emmanuel Rgis, aluno        vida, sabia mostrar-se caloroso e s vezes apa-
de Benjamin Ball (1833-1893), herdeiro da no-       recia nas festas com uniforme de gala, como um
sografia hereditarista proveniente do magis-        almirante sado diretamente dos romances de
trio de Valentin Magnan (1835-1916).               Pierre Loti.
    Designado como mdico para o servio de             Entretanto, depois da Segunda Guerra Mun-
sade da Marinha em Toulon, e depois embar-         dial, no momento em que a SPP, preocupada em
cado no cruzador-encouraado Amiral Char-           esquecer seu passado chauvinista, se adaptava
ner, Hesnard comeou a trabalhar com Rgis,         aos critrios de formao em vigor em todas as
que o encarregou de fazer um estudo aprofun-        sociedades componentes da International Psy-
dado dos trabalhos de Freud. Graas a seu ir-       choanalytical Association* (IPA), Hesnard foi
mo, Oswald, professor de alemo, pde reali-       marginalizado em funo de sua recusa categ-
zar esse projeto, e em 1912, dirigiu a Freud uma    rica de uma anlise didtica*. Em 1953, quando
334     heterologia

da primeira ciso* do movimento francs, en-        uma ideologia comum a toda uma poca, sem
controu-se com Ren Laforgue* nas fileiras da       analisar seu verdadeiro contedo.
Sociedade Francesa de Psicanlise (SFP). Dez
                                                     Angelo Hesnard e Emmanuel Rgis, La Psychoana-
anos depois, quando da segunda ciso, foi im-
                                                    lyse des nvroses et des psychoses. Ses applications
pedido de praticar a formao, ao mesmo tempo       mdicales et extra-mdicales (1914), Paris, Alcan,
que Jacques Lacan* e Franoise Dolto*, pelo         1929  Angelo Hesnard, L'Inconscient, Paris, Doin,
comit consultivo da IPA, presidido por Pierre      1923; La Psychanalyse, thorie sexuelle de Freud,
Turquet. Em 1964, foi integrado por Lacan nas       Paris, Stock, 1924; Manuel de sexologie (1933), Paris,
                                                    Payot, 1959; Freud dans la socit d'aprs-guerre.
fileiras da cole Freudienne de Paris* (EFP),       Action et pense, Genebra, Mont Blanc, 1946; L'Uni-
onde prosseguiu suas atividades de didata,          vers morbide de la faute, Paris, PUF, 1949; L'Oeuvre
redigindo muitas obras de divulgao.               de Freud et son importance dans le monde moderne,
    A trajetria de Hesnard no se parece nem       Paris, Payot, 1960  Sandor Ferenczi, "A psicanlise
                                                    vista pela escola psiquitrica de Bordus" (1915), in
com a de douard Pichon, apstolo tambm do         Psicanlise II, Obras completas, 1913-1919 (Paris,
afrancesamento da psicanlise e membro da           1970), S. Paulo, Martins Fontes, 1992, 227-48  lisa-
Ao Francesa, nem com a de Ren Laforgue,          beth Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana,
que no foi chauvinista e "fracassou" em sua        vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989;
                                                    "A propos d'une lettre d'Angelo Hesnard", Les Carnets
colaborao com os nazistas, e tampouco com         de Psychanalyse, 2, inverno de 1991-1992  dith
a de Georges Mauco*, que foi o nico psicana-       Flix-Hesnard, Le Docteur Hesnard et la naissance de
lista francs a ser ao mesmo tempo anti-semita      la psychanalyse en France, tese de doutorado em
ativo e colaboracionista adepto do nazismo*.        filosofia, Universidade de Paris I, 1984  Jean Bothorel,
                                                    Bernard Grasset. Vie et passions d'un diteur, Paris,
Entretanto, a prosa chauvinista de Hesnard no      Grasset, 1989.
est isenta de certos vestgios de anti-semitis-
mo, como mostra seu artigo "Sobre o israelismo       IGREJA; JUDEIDADE; TRADUO (DAS OBRAS DE
de Freud", redigido entre novembro de 1942 e        SIGMUND FREUD).
maio de 1943, e publicado em 1946, em que o
filo-semitismo proclamado, em nome de uma
psicologia dos povos, faz pensar irresis-           heterologia
tivelmente no bom e velho discurso do anti-se-       REAL.
mitismo francs. Na verdade, a defesa da pre-
tensa superioridade da "raa latina" era de fato
a confisso de um anti-semitismo que no ou-        Hilferding, Margarethe,
sava dizer o seu nome e tomava como alvo a          ne Hnigsberg (1871-1942)
Kultur alem, julgada inferior  civilizao*       mdica austraca
francesa.                                               Nascida em Viena* e originria de uma fa-
    Esse anti-semitismo recalcado, que nunca se     mlia judia, Margarethe Hilferding foi a primei-
manifestaria em suas publicaes ou em seus         ra mulher a participar das reunies da Wiener
atos polticos, Hesnard s o expressava priva-      Psychoanalytische Vereinigung (WPV). Ali, in-
damente, como se pode constatar em uma carta        terveio notadamente, em novembro de 1910,
enviada ao editor Bernard Grasset (1881-1955),      por ocasio de uma conferncia de Wilhelm
cuja anlise com Ren Laforgue terminara mal:       Stekel*, intitulada "Escolha de uma profisso e
"Peo-lhe, escreveu em 1932, que deixe de lado      neurose", na qual este "aplicava" a psicanlise*
toda essa quinquilharia, toda essa gran-            de maneira selvagem, para explicar a escolha de
diloqncia, esses `dipos'. Voc, latino sutil e   uma profisso. Falava dos jornalistas e dos m-
maravilhosamente intuitivo, no se deixe des-       dicos, que adotavam essas profisses uns por
viar por esses espectros da feitiaria judaico-     paixo pelas prostitutas e outros por sadismo,
germnica." Em 1990, a publicao dessa carta       voyeurismo e exibicionismo.
por Jean Bothorel, bigrafo de Grasset, suscitou        Sendo ao mesmo tempo mdica e mulher de
polmicas e atingiu em cheio os alunos de Hes-      um brilhante economista da Repblica de Wei-
nard, que sempre tinham considerado o discurso      mar, tambm jornalista, Margarethe refutou po-
latinizante de seu mestre como a expresso de       lidamente essas bobagens. Em janeiro de 1911,
                                                                                        hipnose      335

exps  Sociedade a suas idias, em "Os fun-            de que um mestre (um cientista, um mdico ou
damentos do amor materno", mostrando que                um nobre) podia ser cerceado no exerccio de
este no era inato, mas adquirido. Freud* a             seu poder por um sujeito* capaz de falar, mes-
cumprimentou. Como seu marido, fundador da              mo que este lhe fosse inferior (um criado, um
revista Marx Studien, tornou-se militante so-           doente, um campons etc.).
cial-democrata e, no momento da ruptura entre               Em 1813, o abade Jos Custdio de Faria
Freud e Adler*, acompanhou este ltimo.                 (1756-1819) retomou a mesma idia, depois de
   Foi deportada pelos nazistas para o campo            haver participado do movimento revolucion-
de concentrao de Theresienstadt e extermina-          rio. Criticando todas as teorias do "fluido",
da em Maly Trostinec. Rudolf Hilferding mor-            inaugurou em Paris um curso pblico sobre o
reu no campo de concentrao de Auschwitz.              "sono lcido" e demonstrou que era possvel
                                                        fazer os sujeitos adormecerem, concentrando a
 Margarethe Hilferding, Teresa Pinheiro, Helena Bes-
serman Vianna, As bases do amor materno, S. Paulo,
                                                        ateno deles num objeto ou num olhar. O sono,
Escuta, 1991.                                           portanto, no dependia do hipnotizador, mas do
                                                        hipnotizado. Em 1845, Alexandre Dumas
                                                        (1802-1870) fez do abade Faria um personagem
hipnose                                                 lendrio em seu romance O conde de Monte-
                                                        cristo.
al. Hypnose; esp. hipnsis; fr. hypnose; ing. hypno-
sis
                                                            Antes que essa bela idia da liberdade da
                                                        fala, prpria da filosofia do Iluminismo, percor-
Termo derivado do grego hupnos (sono) e sis-            resse seu caminho e fosse retomada por Sig-
tematizado, entre 1870 e 1878, para designar um
                                                        mund Freud*, foi preciso que se instalasse so-
estado alterado de conscincia (sonambulismo ou
                                                        bre as runas do magnetismo a longa aventura
estado hipnide) provocado pela sugesto* de
uma pessoa em outra.
                                                        da hipnose.
    Hipnotismo foi um termo cunhado em 1843 pelo
                                                            Progressivamente libertos do "fluido", os
mdico escocs James Braid (1795-1860), para            magnetizadores da primeira metade do sculo
definir o conjunto das tcnicas que permitiam pro-      XIX comearam a praticar um hipnotismo es-
vocar um estado de hipnose num sujeito, com             pontneo, provocando estados sonamblicos
finalidades teraputicas. A sugesto se dava, nes-      nos doentes nervosos. Esse mtodo de explora-
se caso, entre um mdico hipnotizador e um pa-          o favorecia a revelao de segredos patog-
ciente hipnotizado. As duas palavras, hipnose e         nicos nocivos, enterrados no inconsciente* e
hipnotismo, so freqentemente utilizadas na            responsveis pelo mau estado psquico dos su-
mesma acepo.                                          jeitos.
    Em 1784, no exato momento em que, em                    A partir de 1840, espalhou-se pela Europa e
Paris, a teoria do magnetismo animal de Franz           Estados Unidos* uma grande onda de es-
Anton Mesmer* era condenada pelos es-                   piritismo*. Entre as mulheres que se transfor-
pecialistas da Academia de Cincias e da Real           mavam em videntes, dotadas de personalidades
Sociedade de Medicina, o marqus Armand de              mltiplas, e os mdicos que hesitavam em acre-
Puysgur (1751-1825) demonstrava, em sua                ditar numa possvel comunicao com o alm,
cidadezinha de Buzancy, a natureza psicolgica          o hipnotismo permitiu conferir um estatuto ra-
e no "fludica" da relao teraputica, subs-          cional  relao teraputica. James Braid, que
tituindo o tratamento magntico por um estado           introduziu a palavra, refutou definitivamente a
de "sono desperto" ou "sonambulismo". Em                teoria fludica em prol de uma explicao de
especial, ele observou que Victor Race (seu             tipo fisiolgico, e substituiu a tcnica mesme-
"paciente"), longe de cumprir suas ordens, an-          riana dos "passes" pela fixao num objeto
tecipava-se a elas e chegava at a impor sua            brilhante, na qual Faria j havia pensado.
vontade a seu magnetizador pelas palavras, pela             Foi Auguste Libeault* quem retomou os
verbalizao de seus sintomas, sem experimen-           ensinamentos de Braid, seguindo-se a ele Hip-
tar nenhuma crise convulsiva. Foi assim que, s         polyte Bernheim*. Em 1884, os dois fundaram
vsperas da Revoluo de 1789, nasceu a idia           a Escola de Nancy, que se tornou a grande rival
336      hipnose

da Escola da Salptrire, dominada pelo ensino        duas escolas, Freud foi o nico estudioso de sua
de Jean Martin Charcot*.                              poca a inventar um tratamento que, libertando
    A querela entre essas duas escolas, que teve      o enfermo dos ltimos resqucios de um magne-
por piv fundamental a questo da histeria*,          tismo transformado em hipnotismo e sugesto,
durou uns bons dez anos. Enquanto Charcot             propunha uma filosofia da liberdade, baseada
assimilava a hipnose a um estado patolgico, a        no reconhecimento do inconsciente e de sua via
uma crise convulsiva, e utilizava o hipnotismo        real: o sonho*.
para retirar a histeria da simulao e lhe conferir       Com a expanso do freudismo* teve incio
o estatuto de neurose*, Bernheim a considerava        o declnio do hipnotismo. Mas sua prtica nem
um processo normal. Assim, via no hipnotismo          por isso desapareceu. Recorreu-se a ele entre
uma tcnica de sugesto que permitia tratar dos       1914 e 1918, no momento do primeiro conflito
pacientes. Reatando com o projeto de instituir        mundial, para tratar os sintomas histricos dos
uma terapia fundamentada numa pura relao            soldados atingidos pelas neuroses de guerra*.
psicolgica, ele abriu caminho para a expanso        Alm disso, a cada crise do movimento psicana-
das diversas psicoterapias* da segunda psiquia-       ltico, a questo da hipnose e de seu possvel re-
tria dinmica*. Foi por isso que acusou Charcot       torno voltou a se colocar. Assediados por suas
de "fabricar" histricas atravs da sugesto.         origens, diversos psicoterapeutas formados no
    Essa disputa, que ops as duas escolas e          freudismo tenderam, ao longo de todo o sculo
mobilizou todos os especialistas europeus nas         XX, a retornar ao hipnotismo, fosse para de-
doenas da alma, indicou o quanto a hipnose era       monstrar a existncia de um resduo de sugesto
portadora de uma nova esperana de cura, muito        no interior da relao transferencial, fosse para
embora a nosografia psiquitrica do fim do            denunciar os impasses teraputicos do trata-
sculo XIX se esgotasse no niilismo teraputi-        mento freudiano clssico, fosse ainda para afir-
co, de tanto preconizar tratamentos inteis --        mar, numa tica revisionista, que Freud no te-
camisas-de-fora, banhos, eletricidade etc. -- e      ria inventado nada de novo e se haveria deixado
construir classificaes rgidas, das quais o so-     ludibriar por simuladoras em estado de hipnose.
frimento do sujeito era banido.                           Seja como for, continuou-se a praticar a
    Simultaneamente marcado pelo ensino de            hipnose, sobretudo na Rssia*, depois que ali
Charcot e pelo de Bernheim, Freud logo aban-          se extinguiu o movimento psicanaltico. Ela se
donou a hipnose em favor da catarse*, como            expandiu na terra da teoria pavloviana. Nos
mostram os Estudos sobre a histeria*. As razes       Estados Unidos*, passou por uma reativao a
desse abandono e desse desinteresse foram ob-         partir de 1960, com os trabalhos do psiquiatra
jeto de mltiplos comentrios contraditrios.         Milton Erickson (1901-1980), que a reinstaurou
No entanto, so bastante simples. Se Freud no        num lugar de honra, numa perspectiva de efic-
gostava da hipnose e se considerava o hipnotis-       cia e empatia, tanto para cuidar de pacientes
mo uma tcnica brbara, que s podia ser apli-        afetados por distrbios da personalidade quanto
cada a um nmero restrito de doentes, era por-        no mbito das terapias de famlia* de curta
que a adoo da psicanlise*, como tcnica de         durao. Na Frana*, a tcnica do "sonho acor-
verbalizao dos sintomas pela fala, enfim per-       dado dirigido", de Jacques Desoille, foi um
mitia ao doente falar com liberdade e com plena       derivado do hipnotismo e da sugesto, do mes-
                                                      mo modo que o training autgeno de Johannes
conscincia, sem necessidade de se entregar a
                                                      Schultz*, na Alemanha*.
um sono artificial.
    Um sculo depois de Puysgur, e na mais
                                                      Hippolyte Bernheim, Hypnotisme, suggestion, psyco-
pura tradio do Iluminismo, Freud reatualizou,       thrapie (1891), Paris, Fayard, col. "Corpus des oeu-
assim, a grande idia da liberdade do homem e         vres de philosophie en langue franaise", 1995  Josef
de seu direito  fala, destruindo de um s golpe      Delboeuf, Le Sommeil et les rves (1885), Paris,
as teses de Charcot e Bernheim. O primeiro s         Fayard, col. "Corpus des oeuvres de philosophie en
                                                      langue franaise", 1993  Pierre Janet, Les Mdications
utilizava a hipnose para fins de demonstrao,        psychologiques, Paris, Alcan, 1919  Lon Chertok,
e o segundo s fornecia tratamento ao preo de        L'Hypnose (1963), Paris, Payot, 1965  Henri F. Ellen-
encerrar o doente na sugesto. Afastando-se das       berger, Histoire de la dcouverte de l'inconscient (N.
                                                                                                 histeria       337

York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris,             Pierre Morel (org.), Dicionrio biogrfico psi (Paris,
Fayard, 1994  Lon Chertok e Raymond de Saussure,          1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
Naissance du psychanalyste (1973), Paris, Synthla-
bo, col. "Les empcheurs de penser en rond", 1997           ALEMANHA; BISSEXUALIDADE; GNERO; PER-
J.-B. Fages, Histoire de la psychanalyse aprs Freud        VERSO; TRANSEXUALISMO.
(Toulouse, 1976), Paris, Odile Jacob, 1996  Jacques
Nassif, Freud, l'inconscient, Paris, Galile, 1977  li-
sabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana,
vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989      histeria
 Mikkel Borch-Jacobsen, Le Sujet freudien, Paris,          al. Hysterie; esp. histeria; fr. hystrie; ing. hysteria
Flammarion, 1982; Hypnoses, em colaborao com E.
                                                            Derivada da palavra grega hystera (matriz, tero),
Michaud e Jean-Luc Nancy, Paris, Galile, 1984 
Milton H. Erickson, L'Hypnose thrapeutique. Quatre         a histeria  uma neurose* caracterizada por qua-
confrences, Paris, ESF, 1986  Jacques-Antoine Ma-         dros clnicos variados. Sua originalidade reside no
larewicz e J. Godin, Milton H. Erickson, de l'hypnose       fato de que os conflitos psquicos inconscientes
clinique  la psychothrapie stratgique, Paris, ESF,       se exprimem de maneira teatral e sob a forma de
1988  Franois Roustang, Um destino to funesto            simbolizaes, atravs de sintomas corporais
(Paris, 1976), Rio de Janeiro, Taurus, 1987; Qu'est-ce      paroxsticos (ataques ou convulses de aparncia
que l'hypnose?, Paris, Minuit, 1994  Malcolm Macmil-
                                                            epilptica) ou duradouros (paralisias, contraturas,
lan, Freud Evaluated, Amsterd, Elsevier, 1990  Jac-
                                                            cegueira).
ques Postel, "Hypnose", in Grand dictionnaire de la
psychologie, Paris, Larousse, 1991, 348-9  Marcel              As duas principais formas de histeria teoriza-
Gauchet, L'Inconscient crbral, Paris, Seuil, 1992.        das por Sigmund Freud* foram a histeria de angs-
                                                            tia, cujo sintoma central  a fobia*, e a histeria de
 CHERTOK, LON; HISTORIOGRAFIA.                             converso, onde se exprimem atravs do corpo
                                                            representaes sexuais recalcadas. A isso se
                                                            acrescentam duas outras formas freudianas de
                                                            histeria: a histeria de defesa*, que se exerce contra
Hirschfeld, Magnus (1868-1935)                              os afetos desprazerosos, e a histeria de reteno,
psiquiatra alemo                                           onde os afetos no conseguem se exprimir pela
    Nascido em Kolberg, na Pomernia, Mag-                  ab-reao*.
nus Hirschfeld foi um dos grandes especialistas                 A expresso histeria hipnide pertence ao vo-
                                                            cabulrio de Freud e Josef Breuer* no perodo de
alemes em doenas nervosas e um dos fun-
                                                            1894-1895. Foi tambm empregado pelo psiquiatra
dadores da sexologia*. Em 1899, criou a pri-
                                                            alemo Paul Julius Moebius (1853-1907). Designa
meira revista especializada na questo da ho-               um estado induzido pela hipnose* e que produz
mossexualidade*, o Jahrbuch fr sexuelle Zwi-               uma clivagem* no seio da vida psquica.
schenstufen unter besonderer Bercksichtig-                      A expresso histeria traumtica pertence ao
ung der Homosexualitt. Como Havelock El-                   vocabulrio clnico de Jean Martin Charcot* e de-
lis*, Richard von Krafft-Ebing* e Sandor Fe-                signa uma histeria consecutiva a um trauma fsico.
renczi*, militou por uma melhor compreenso
                                                                Certos termos (histeria, inconsciente*,
dos fenmenos da sexualidade*, principalmen-
                                                            sexualidade*, sonho*) acham-se to ligados 
te ao propor uma reforma da legislao alem                gnese da doutrina psicanaltica que se torna-
sobre os homossexuais, considerados nessa                   ram "termos freudianos". E, se os Estudos sobre
poca sodomitas depravados e logo privados                  a histeria*, publicados em 1895, so vistos
dos direitos mais elementares. Publicou muitas              como o livro inaugural da psicanlise*, a his-
obras sobre os "estados sexuais intermedi-                 teria permanece como a doena princeps e pro-
rios", o "terceiro sexo" e os "travestis".                  teiforme que possibilitou no apenas a exis-
    Com Ivan Bloch (1872-1922), Heinrich                    tncia de uma clnica freudiana, mas tambm o
Krber e Otto Juliusburger*, foi um dos fun-                nascimento de um novo olhar sobre a feminili-
dadores da Associao Psicanaltica de Berlim               dade.
em 1908. Deixou essa associao em 1911,                        Sob esse aspecto, a noo tanto remete aos
quando ela se tornou a Deutsche Psychoanaly-                sofrimentos psquicos das burguesas ricas da
tische Gesellschaft (DPG), integrada  Interna-             sociedade vienense, escutadas por Freud em
tional Psychoanalytical Association* (IPA).                 sigilo, quanto  misria mental das loucas do
338     histeria

povo, exibidas por Charcot no palco do Hospital     no eram responsveis por seus atos e que era
da Salptrire. Entre uma cidade e outra, a         preciso considerar toda sorte de convulsivas co-
histeria do fim de sculo fez estremecer o corpo    mo doentes mentais. Em 1564, em Basilia, em
das europias, sintoma de uma rebelio sexual       plena guerra religiosa, Wier publicou um livro,
que serviu de motor para sua emancipao po-        Da impostura do diabo, que teve grande reper-
ltica: "A histeria no  uma doena", sublinhou    cusso. Os telogos viram nele a marca do de-
Gladys Swain, "mas a doena em estado puro,         mnio e por pouco o autor conseguiu evitar as
aquela que no  nada em si, mas  passvel de      perseguies, graas a protees principescas.
assumir a forma de todas as demais.  mais          Gregory Zilboorg* consideraria Jean Wier o pai
estado do que acidente: o que torna a mulher        fundador da primeira psiquiatria dinmica*.
doente por essncia."                                   Na realidade, foi mesmo com Franz Anton
    Na lngua grega, histera significa matriz. Na   Mesmer* que se operou, em meados do sculo
Antigidade, e sobretudo em Hipcrates, a his-      XVIII, a passagem de uma concepo demona-
teria era considerada uma doena orgnica de        ca da histeria -- e portanto, da loucura* -- para
origem uterina e, portanto, especificamente fe-     uma concepo cientfica. Atravs da falsa teo-
minina, que tinha a particularidade de afetar o     ria do magnetismo animal, Mesmer sustentou
corpo em sua totalidade, por "sufocaes da         que as doenas nervosas tinham como origem
matriz". Em seu Timeu, Plato retomou a tese        um desequilbrio na distribuio de um "fluido
hipocrtica, sublinhando que a mulher, diferen-     universal". Assim, bastava que o mdico, trans-
temente do homem, trazia em seu seio um "ani-       formado em "magnetizador", provocasse crises
mal sem alma". Prximo da animalidade: assim        convulsivas nos pacientes, em geral mulheres,
foi, durante sculos, o destino da mulher, e mais   para cur-los mediante o restabelecimento do
ainda da histrica.                                 equilbrio do fluido. Dessa concepo nasceu a
    Na Idade Mdia, sob a influncia das            primeira psiquiatria dinmica, que enaltecia os
concepes agostinianas, renunciou-se  abor-       "tratamentos magnticos". Assim, a histeria es-
dagem mdica da histeria e a palavra em si          capou da religio, transformando-se numa
quase deixou de ser empregada. As convulses        doena dos nervos. Henri F. Ellenberger* subli-
e as famosas sufocaes da matriz eram consi-       nhou que foi em 1775 que se efetuou a pas-
deradas a expresso de um prazer sexual e, por      sagem do sagrado para o profano, data em que
conseguinte, de um pecado. Por isso, foram          Mesmer obteve sua grande vitria sobre o exor-
atribudas a intervenes do demnio: um de-        cista Josef Gassner (?-1779), ao demonstrar que
mnio enganador, capaz de simular doenas e         as curas obtidas por este decorriam do magne-
entrar no corpo das mulheres para "possu-las".     tismo.
A histrica tornou-se a feiticeira, redescoberta        Durante todo esse perodo, a tese da presun-
de maneira positiva no sculo XIX por Jules         o uterina no parou de ser contestada.
Michelet (1798-1874).                               Contornando a questo da possesso demona-
    No Renascimento, mdicos e telogos dis-        ca, inmeros mdicos achavam que a doena
putaram o corpo das mulheres. Em 1487, com          provinha do crebro e atingia os dois sexos: da
a publicao do Malleus maleficarum, a Igreja*      a idia da existncia de uma histeria masculina,
catlica romana e a Inquisio dotaram-se de        que Charles Lepois (1563-1633), um mdico
um manual aterrador, que permitia "detectar" os     francs originrio da cidade de Nancy, foi o
casos de bruxaria e mandar para o carrasco to-      primeiro a estabelecer, em 1618. A hiptese
dos os seus representantes, mais particularmen-     cerebral conduziu a uma "dessexualizao" da
te as mulheres. Durante mais dois sculos, a ca-    histeria, sem pr fim  velha concepo da
a s bruxas fez inmeras vtimas, embora a         animalidade da mulher. Entretanto, no sculo
opinio mdica tentasse resistir a essa concep-     XVII, pde-se invocar, em vez da antiga sufo-
o demonaca da possesso. Assim, o mdico         cao da matriz, o papel das emoes, dos
alemo Jean Wier (1515-1588) tentou, no scu-       "vapores" e dos "humores", a ponto, alis, de
lo XVI, opor-se ao poder da Igreja, e assumiu a     confundir numa mesma entidade a histeria e a
defesa das "possudas", sublinhando que elas        melancolia*: "At o fim do sculo XVIII", es-
                                                                                     histeria     339

creveu Michel Foucault, "at Pinel, o tero e a          Ligando o hipnotismo e a neurose, Charcot
matriz continuaram presentes na patologia da         devolveu dignidade  histeria. No somente
histeria, porm graas a sua difuso pelos hu-       abandonou a tese da presuno uterina, a ponto
mores e pelos nervos, e no por um prestgio         de se recusar a levar oficialmente em conta a
particular de sua natureza."                         etiologia sexual, como tambm, fazendo da
    Em 1859, antes de entrarem em cena as teses      doena uma neurose, libertou as histricas da
de Charcot, a hiptese cerebral foi afirmada         suspeita de simulao.
mais uma ltima vez pelo mdico francs Pierre           A moderna noo de neurose histrica veio
Briquet (1796-1881), que fez com que entras-          luz ao mesmo tempo que se produzia, no
sem na histeria fenmenos "sociolgicos" ou          mundo ocidental, entre 1880 e 1900, uma ver-
"materiais", tais como as condies de vida e        dadeira epidemia de sintomas histricos. Escri-
de trabalho, os ciclos da natureza e at os mo-      tores, mdicos e historiadores concordavam em
vimentos dos astros. O advento da sociedade          ver nas crises da sociedade industrial sinais
industrial (e sobretudo a generalizao das es-      convulsivos de natureza feminina. Assim, as
tradas de ferro, com seu cortejo de acidentes        massas trabalhadoras eram chamadas de his-
traumticos, que primeiro atingiram os ho-           tricas quando entravam em greve, enquanto as
mens) abriu caminho para um amplo debate             multides eram remetidas a seus "furores uteri-
sobre a histeria masculina.                          nos" quando ameaavam a ordem estabelecida.
    A revoluo pineliana deu origem ao alie-            Remetida a uma causa traumtica que tinha
nismo moderno e ps fim s teses demonolgi-         ligao com o sistema genital, a histeria de
cas em prol de uma concepo psiquitrica da         Charcot tornou-se, durante esse perodo, uma
doena mental, que inclua a histeria. Duas          doena funcional, de origem hereditria, que
tendncias se confrontaram: os defensores do         tanto afetava os homens quanto as mulheres.
organicismo, de um lado, e os artfices da psi-      Da a retomada das teses de Lepois sobre a
cognese, de outro. Para os primeiros, a histeria    existncia de uma histeria masculina,  qual se
era uma doena cerebral, de natureza fisiolgi-      atribua uma causa traumtica -- como os aci-
ca ou de substrato hereditrio, e para os ltimos,   dentes ferrovirios, por exemplo.
uma afeco psquica, ou seja, uma neurose.              Teorizador da neurose, Charcot utilizava a
Esse termo, que faria fortuna, fora introduzido      hipnose no para curar ou tratar de seus doentes,
em 1769 por um mdico escocs, William Cul-          mas para demonstrar a solidez de fundamento
len (1710-1790). Ele inclua nessa categoria as      de suas hipteses. Hipnotizando as "loucas" da
afeces mentais sem origem orgnica, qualifi-       Salptrire, ele fabricava experimentalmente
cando-as de "funcionais", isto , sem inflama-       sintomas histricos, a fim de suprimi-los de
o nem leso do rgo em que aparecia a dor.        imediato e demonstrar o carter neurtico da
Essas afeces, portanto, eram doenas nervo-        doena. Por isso, foi acusado por Hippolyte
sas.                                                 Bernheim*, aluno de Ambroise Libeault* e
    Paralelamente, sobre as runas do magnetis-      lder da Escola de Nancy, de fabricar sintomas
mo mesmeriano desenvolveu-se uma corrente            histricos por sugesto* e de atentar contra a
teraputica que iria desembocar, via hipnose*,       dignidade dos doentes, que, em vez de serem
na inveno das psicoterapias modernas, dentre       tratados, serviam de cobaias para as demons-
estas a mais inovadora: a psicanlise.               traes de um mestre que s estava preocupado
    Em 1840, todos os grandes corpos da medi-        com as classificaes.
cina desestimularam os estudos sobre o magne-            Na verdade, duas grandes correntes do pen-
tismo, e foi na Inglaterra que, em 1843, o m-       samento mdico enfrentaram-se nesse debate.
dico escocs James Braid (1795-1860) cunhou          Oriunda da neurologia e da tradio do alienis-
a palavra hipnotismo (do grego hipnos: sono).        mo, a Escola da Salptrire, movida por um
Ele substituiu a antiga teoria fludica pela noo   ideal republicano e pela valorizao dos "gran-
de estimulao fsico-qumico-psicolgica, as-       des patronos", transformados em monarcas do
sim mostrando a inutilidade das intervenes de      saber, colocava a pesquisa terica no centro de
tipo magntico.                                      suas preocupaes. Inversamente, a Escola de
340     histeria

Nancy, mais culturalista, pautava-se numa me-            Sob o aspecto da tcnica teraputica, Freud
dicina dos pobres e excludos, e portanto, numa      retomou de Bernheim a idia de sugesto, da
tradio teraputica em que o bem-estar dos          qual no gostava. Abandonou-a em seguida, em
enfermos preponderava sobre todo o resto.            prol de uma elaborao da noo de transfern-
    Simultaneamente terico e terapeuta, Freud       cia*, depois de haver passado do mtodo catr-
tinha muito maior admirao, no entanto, por         tico de Breuer para o da associao livre*.
Charcot (a quem considerava um mestre) do                Nos Estudos sobre a histeria, obra magistral,
que por Bernheim. Todavia, inspirou-se tanto         tanto por sua contribuio terica quanto pela
na Escola da Salptrire quanto na de Nancy          exposio clnica dos casos patolgicos, propu-
para reivindicar, contrariando os mdicos de         seram-se os grandes conceitos de uma nova
Viena* (Theodor Meynert* ou Richard von              apreenso do inconsciente*: o recalcamento*,
Krafft-Ebing*), as hipteses francesas. Seu pro-     a ab-reao*, a defesa*, a resistncia* e, por
cedimento foi dialtico. Ele cotejou as teses de     fim, a converso, graas  qual tornou-se pos-
Charcot com as de Bernheim, retirando de uma         svel compreender como uma energia libidinal
e de outra lies frutferas. Se o primeiro abrira   se transformava numa inervao somtica, nu-
caminho para uma nova conceituao da histe-         ma somatizao dotada de uma significao
ria, o segundo havia mostrado, opondo-se             simblica.
ao primeiro, o princpio de seu tratamento ps-          Aps o abandono da teoria da seduo, e
quico.                                               tambm da publicao, em 1900, de A interpre-
    Entre 1888 e 1893, portanto, Freud forjou        tao dos sonhos*, o conflito psquico incons-
um novo conceito de histeria. Retomou de             ciente  que foi reconhecido por Freud como a
Charcot a idia da origem traumtica. Todavia,       principal causa da histeria. Ele afirmou, a partir
pela teoria da seduo*, afirmou que o trauma        de ento, no mais que as histricas sofriam de
tinha causas sexuais, sublinhando que a histeria     "reminiscncias", como nos Estudos, mas de
era fruto de um abuso sexual realmente vivido        fantasias. Mesmo que, na infncia, elas houves-
pelo sujeito na infncia.                            sem sofrido abusos ou violncias, o trauma j
    No fim do sculo, todos os especialistas em      no servia como explicao exclusiva sobre a
doenas nervosas reconheciam a importncia           questo da sexualidade humana. Ao lado da
do fator sexual na gnese dos sintomas neurti-      realidade material, afirmou Freud, existia uma
cos, sobretudo no tocante  histeria. Nenhum         realidade psquica* igualmente importante em
deles, porm, sabia como teorizar essa cons-         termos da histria do sujeito*. Do mesmo mo-
tatao. E foi Freud quem resolveu a questo.        do, a converso devia ser encarada como um
Num primeiro momento, at 1897, ele adotou           modo de realizao do desejo*: um desejo sem-
as idias compartilhadas por numerosos mdi-         pre insatisfeito.
cos da poca e elaborou sua teoria da origem             Em seguida, a teorizao da sexualidade
traumtica (seduo real). Depois, num segun-        infantil permitiu a Freud identificar o conflito
do momento, renunciou a esta para inventar a         "nuclear" da neurose histrica (a impos-
noo de fantasia* e retirar da sexologia* a         sibilidade de o sujeito liquidar o complexo de
noo de libido*.                                    dipo* e evitar a angstia de castrao*, que o
    Trs homens lhe haviam sugerido a idia da       leva a rejeitar a sexualidade): "Considero his-
origem traumtica sexual: Charcot, Bernheim e        trica, sem hesitao", declarou Freud a prop-
o ginecologista vienense Rudolf Chrobak              sito de Dora, "qualquer pessoa em quem uma
(1843-1906). O primeiro lhe sussurrara no ou-        oportunidade de excitao sexual provoque, so-
vido, um dia: "Nesses casos,  sempre a coisa        bretudo e exclusivamente, uma sensao de
genital, sempre..." O segundo lhe falara em          asco, quer essa pessoa apresente ou no sinto-
"segredos de alcova". Quanto ao terceiro, a          mas somticos." A elaborao desses diversos
propsito de uma paciente ainda virgem aps          temas pode ser apreendida na maneira como
dezoito anos de casamento, ele enunciara em          Freud redigiu, em janeiro de 1901, o relato da
sua presena, em latim, a seguinte prescrio:       anlise conduzida com Ida Bauer*. Sob o pseu-
"Penis normalis, dosim repetatur."                   dnimo de Dora, essa jovem iria tornar-se o
                                                                                          histeria      341

caso princeps da histeria, na concepo freudia-    lhos da medicina psicossomtica de inspirao
na chegada a sua maturidade. Ele seria comen-       psicanaltica (Franz Alexander*, Alexander
tado por toda a literatura ps-freudiana, tanto     Mistcherlich*). Quanto  idia de personali-
quanto o caso de Anna O. (Bertha Pappen-            dade histrica, herdada da de personalidade
heim*). Nessa poca, todavia, Freud sustentava      mltipla*, fez fortuna a partir da dcada de
a idia de que a histeria, sem se originar num      1960, quando comearam os grandes debates
trauma, podia decorrer de um mecanismo here-        norte-americanos e ingleses sobre a Self Psy-
ditrio. Com efeito, ele estimava que os descen-    chology* e os borderlines*.
dentes de pessoas atingidas pela sfilis eram
predispostos a neuroses graves.                      Plato, Time, Oeuvres compltes, vol.II, Paris, Gal-
    As epidemias histricas do fim do sculo        limard, "Bibliothque de la Pliade", 1943  Jean Martin
                                                    Charcot, Leons sur les maladies du systme nerveux
XIX contriburam de tal maneira para o nasci-       (recueillies et publies par MM. Babinski, Bernard,
mento e a difuso do freudismo*, que a prpria      Fr, Guinon, Marie et Gilles de La Tourette), Oeuvres
noo de histeria desapareceu do campo da           compltes, vol.III, Paris, Lecrosnier & Bab, 1890;
clnica. No apenas os doentes no mais apre-       Leons du mardi  la Salptrire (notes de cours de
                                                    MM. Blin, J.M. Charcot e H. Colin), 2 vols., 1887-1888
sentaram os mesmos sintomas, uma vez que            e 1888-1889, Paris, Progrs Mdical-Bataille, 1892 
eles tinham sido claramente reconhecidos e          Sigmund Freud, "Histeria" (1888), ESB, I, 79-100; SE,
desvinculados de qualquer simulao, como           I, 39-59; Cahiers Confrontation, 7, 1982, 153-69; "So-
tambm, quando porventura esses sintomas res-       bre a teoria dos ataques histricos", em colaborao
                                                    com Josef Breuer (1892), ESB, I, 212-22 (esboo C da
surgiam, j no eram classificados no registro      "Comunicao preliminar"); SE, I, 151-4; in Rsultats,
da neurose, mas no da psicose*: comeou-se          ides, problmes, vol.I, Paris, PUF, 1984, 25-30; "Al-
ento a falar de psicose histrica, termo que       gumas consideraes para o estudo comparativo das
Freud havia descartado, e depois esta foi mis-      paralisias motoras orgnicas e histricas" (1893), ESB,
                                                    I, 223-42; SE, I, 157-72; in Rsultats, ides, problmes,
turada  nova nosografia bleuleriana da esqui-      vol.I, Paris, PUF, 1984, 45-61, "Sobre o mecanismo
zofrenia*. A partir de 1914, ningum mais ou-       psquico dos fenmenos histricos: Comunicao pre-
sou falar em histeria, a tal ponto a palavra foi    liminar" (1893), ESB, II, 43-62; Studienausgabe, VI,
identificada com a prpria psicanlise.             9-24; SE, II, 1-17; in Esquisses psychanalytiques, 19,
                                                    primavera de 1993, 93-108; "As psiconeuroses de
    Na Frana*, essa noo foi desmembrada          defesa" (1894), ESB, III, 57-74; GW, 1, 57-74; SE, III,
pelos dois principais alunos de Charcot: Pierre     41-61; OC, III, 1-18; "A etiologia da histeria" (1896),
Janet* e Joseph Babinski*. O primeiro conside-      ESB, III, 217-54; GW, I, 423-59; SE, III, 187-221; OC,
rou-a "um estreitamento do campo da conscin-       III, 147-80; "Fragmento da anlise de um caso de
                                                    histeria" (1905), ESB, VII, 5-128; GW, V, 163-286; SE,
cia" e o segundo a substituiu pelo termo pitia-     VII, 1-122; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF, 1954,
tismo.                                              1-91  Pierre Janet, L'tat mental des hystriques
    Foi preciso esperar pela conturbada poca       (1893), Marselha, Laffitte Reprints, 1983  Michel Fou-
da Primeira Guerra Mundial e pela entrada em        cault, Histria da Loucura na idade clssica (Paris,
                                                    1962), S. Paulo, Perspectiva, 1978  Ilza Veith, Histoire
cena de uma nova forma de etiologia traumtica      de l'hystrie (Chicago, 1965), Paris, Seghers, 1973 
para que ressurgisse o debate sobre a histeria,     Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio
atravs da discusso que se travou a respeito das   da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,
neuroses de guerra*. Em seguida, na Frana, o       1991, 2 ed.  Thrse Lemprire, "Hystrie", Ency-
                                                    clopaedia universalis, vol.8, 1968, 686-90  Ren Ma-
movimento surrealista reivindicou a expresso       jor, "The revolution of hysteria", IJP, 55, 1974, 385-92
"beleza convulsiva", para fazer da histeria o        Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de
emblema de uma arte nova, enquanto Jules de         l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
Gaultier inventava a noo de bovarismo para        1974), Paris, Fayard, 1994; Mdecines de l'me. Es-
                                                    sais d'histoire de la folie et des gurisons psychiques,
designar uma neurose narcsica de conotao         Paris, Fayard, 1995  Mary R. Lefkowitz, Heroines and
melanclica (e marcante contedo histrico).        Hysterics, Londres, Duckworth, 1981  lisabeth Rou-
Jacques Lacan* utilizou-a com proveito em seu       dinesco, Histria da psicanlise na Frana, 2 vols.
relato do caso Aime (Marguerite Anzieu*). Por      (Paris, 1982, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989,
                                                    1988  Albrecht Hirschmller, Josef Breuer (Berna,
fim, depois da Segunda Guerra Mundial, o ter-       1978), Paris, PUF, 1991  Georges Didi-Huberman,
mo histeria de converso recuperou um vigor         Invention de l'hystrie, Paris, Macula, 1982  tienne
particular, com o desenvolvimento dos traba-        Trillat, Histoire de l'hystrie, Paris, Seghers, 1986 
342      histeria de angstia

Gladys Swain, Dialogue avec l'insens, Paris, Galli-   onde os habitantes, de modo geral, acham-se
mard, 1994.
                                                       desvinculados de suas razes, voltados para um
 AUGUSTINE; BISSEXUALIDADE; CATARSE; DIFE-             ncleo familiar restrito e imersos no anonimato
RENA SEXUAL; ESPIRITISMO; GNERO; GOZO; LAIR          ou no cosmopolitismo. Ser essa solido mes-
LAMOTTE, PAULINE; LIEBEN, ANNA VON; MATEMA;            mo propcia  explorao do inconsciente?
MOSER, FANNY; NARCISISMO; HM, AURELIA;                    Na frica, apenas um pioneiro, Wulf
SEXUALIDADE FEMININA.                                  Sachs*, emigrado da Rssia, conseguiu formar
                                                       um grupo, que depois veio a se desfazer. Neste
                                                       final do sculo XX, um novo grupo est em vias
histeria de angstia                                   de reconstituio (na frica do Sul, depois do
 FOBIA; INIBIES, SINTOMAS E ANGSTIA.                fim do apartheid).
                                                           No que concerne ao continente asitico, a
                                                       psicanlise implantou-se na ndia graas a um
histeria masculina                                     pioneiro, Girndrashekhar Bose*, e por inter-
 CHARCOT, JEAN MARTIN; HISTERIA; MEYNERT,              mdio da colonizao inglesa, mas sem assumir
THEODOR.                                               a forma de um verdadeiro movimento. No Ja-
                                                       po, em contrapartida, existe uma forte corrente
                                                       de psiquiatria dinmica* e um pequeno movi-
histria da psicanlise                                mento psicanaltico, composto por diversas ten-
    Em 1992, num livro coletivo, Peter Kutter          dncias (lacanismo*, freudismo* e kleinis-
fez um levantamento de 41 pases onde a psica-         mo*). Este ltimo estendeu-se a alguns grupos
nlise exerceu um impacto (grande ou pequeno)          coreanos a partir de 1930, essencialmente em
desde o incio do sculo: Alemanha*, Argenti-          torno dos trabalhos da escola inglesa (Melanie
na*, Austrlia*, ustria (Viena*), Blgica*,           Klein*, Donald Woods Winnicott* etc.). Em
Brasil*, Bulgria, Canad*, Chile, China, Co-          Israel, Max Eitingon* e Moshe Wulff* fun-
lmbia, Coria (do Sul), Crocia, Escandin-           daram (na Palestina) uma sociedade psicanal-
via* (Dinamarca, Finlndia, Noruega e Sucia),         tica, enquanto, no Lbano, libaneses e franceses
Eslovnia, Espanha*, Estados Unidos*, Frana,          de origem libanesa criaram, em 1980, a Socie-
Gr-Bretanha*, Grcia, Hungria*, ndia*, Is-           dade Libanesa de Psicanlise (SLP).
rael, Itlia*, Japo*, Litunia, Mxico, Pases            Na China, aps um movimento de higiene
Baixos*, Peru, Polnia, Portugal, Romnia*,            mental e reforma dos manicmios marcado pela
Rssia, Srvia, Tchecoslovquia, Sua, Uru-           introduo da terminologia de Emil Kraepelin*
guai e Venezuela.                                      e as teses de Adolf Meyer*, o regime comunista
    A International Psychoanalytical Associa-          impediu, depois de 1949, qualquer implantao
tion* (IPA), por seu lado, afirma haver-se im-         da psicanlise. Todavia, diversos livros de
plantado em 32 pases. A diferena deve-se ao          Freud foram traduzidos e so lidos por intelec-
fato de a IPA ainda no haver incorporado todos        tuais ou terapeutas: A interpretao dos so-
os grupos em processo de formao nos pases           nhos*, Trs ensaios sobre a teoria da sexuali-
onde o comunismo* desmoronou depois de                 dade*, Totem e tabu* e O mal-estar na cultura*.
1989.                                                      Portanto, foi somente na chamada rea da
    Como quer que seja, todos os estudos mos-          civilizao ocidental que a psicanlise se ex-
tram que a psicanlise implantou-se em quatro          pandiu num movimento de massa, passando por
dos cinco continentes, com forte predomnio na         diferenas considerveis de um pas para outro.
Europa e na Amrica (do Norte e do Sul).                   Na Europa, as diferenas esto ligadas 
    Ligada  industrializao e ao enfraqueci-         evoluo das naes e Estados entre 1900 e
mento das crenas religiosas e do patriarcado*         1990. No comeo do sculo, a psicanlise de-
tradicional, a psicanlise constitui, no mundo         senvolveu-se num espao dominado por quatro
inteiro, um fenmeno urbano. O freudismo,              potncias centrais: ao norte, o autoritrio Imp-
portanto, administra seu ensino e erige seus           rio Prussiano, no centro, o Imprio Austro-Hn-
institutos e associaes em cidades grandes,           garo em declnio, a leste, o Imprio Russo s
                                                                      histria da psicanlise     343

vsperas de uma revoluo, e ao sul, o Imprio           Nascida no corao do Imprio Austro-Hn-
Otomano, em processo de deslocamento.                garo, portanto, a psicanlise seduziu, inicial-
    Nos dois primeiros imprios (e em parte do       mente, uma primeira gerao* de pioneiros de
terceiro), disseminaram-se comunidades judai-        lngua alem, provenientes de todos os cantos
cas perpassadas por diversas correntes de pen-       da Mitteleuropa e, de modo geral, oriundos de
samento. Dentre elas encontravam-se os judeus        um meio de comerciantes ou intelectuais ju-
do Iluminismo (a Haskalah), onde foi recrutada       deus. Entre 1902 e 1913, ela veio ento a
a quase totalidade dos primeiros freudianos.         conquistar trs "terras prometidas" (ou Estados
Quer fossem alems, vienenses, hngaros,             democrticos) onde se haviam desenvolvido,
tchecos, croatas, eslovacos, poloneses ou rus-       segundo o ideal da tica protestante, os princ-
sos, todos esses judeus eram de lngua e cultura     pios gerais da psiquiatria dinmica*: Sua,
alems, mesmo nos casos em que tinham sido           Gr-Bretanha e Estados Unidos.
"magiarizados" (como na Hungria). Nesses im-             A partir de 1913, e sobretudo depois da
prios constituira-se, a partir do fim do sculo     Primeira Guerra Mundial, ela progrediu nos
XVIII, um movimento de reforma do saber              pases "latinos" (Frana e Itlia) e, em seguida,
psiquitrico que havia transformado o trata-         nos pases nrdicos (Sucia, Dinamarca,
mento da loucura* e das doenas psquicas.           Holanda, Noruega e Finlndia), onde se chocou
    No sul, cinco Estados instauraram novas          com resistncias especficas, ligadas s crises
monarquias, ao mesmo tempo em que continua-          polticas da IPA.
vam subordinados ao Imprio Otomano: a Bul-              A derrocada dos grandes imprios e a as-
gria, a Romnia, a Srvia, a Grcia e Monte-        sinatura dos tratados de Versalhes, do Trianon
                                                     e de Saint-Germain vieram ento convulsionar
negro. Nesses pases de fronteiras incertas, as
                                                     o mapa da Europa, redesenhando as fronteiras
minorias judaicas eram importantes, mas no
                                                     e fazendo emergirem novos Estados (Polnia,
existiu um movimento de reforma passvel de
                                                     Tchecoslovquia e Iugoslvia), que nem sequer
favorecer a implantao do saber psiquitrico e
                                                     teriam tempo de se estruturar antes do advento
a afirmao de uma nova viso da loucura. Em
                                                     do nacional-socialismo.
conseqncia disso, neles a psicanlise perma-
                                                         A vitria do stalinismo, na Rssia, e do
neceu como um fenmeno marginal, ligado a
                                                     nazismo, na Alemanha, modificou as modali-
uns poucos pioneiros que se abriam para a            dades de implantao e organizao da psica-
cultura do Ocidente.                                 nlise na Europa. Entre 1933 e 1941, os freu-
    Nos outros pases da Europa (Frana, Gr-        dianos da primeira e segunda geraes deixa-
Bretanha, Itlia, Sua, Blgica, Holanda, Su-      ram a Europa em ondas sucessivas: russos e
cia, Noruega e Dinamarca), constituram-se de-       hngaros refugiados na Alemanha e na Frana
mocracias modernas: monarquias constitucio-          desde 1920, alemes caados pelo nazismo,
nalistas ou democracias parlamentares. Foi nes-      italianos e espanhis perseguidos pelo fascismo
ses pases que a psicanlise se expandiu a partir    e pelo franquismo, e austracos aps a ocupao
de 1913, transformando-se radicalmente  me-         das tropas alems. A partir de 1939, os suos
dida que foram desmoronando os antigos imp-         instalados na Frana retornaram a seu pas,
rios centrais onde havia nascido. Houve uma          alguns franceses abandonaram a terra natal (co-
exceo: a Pennsula Ibrica (Espanha e Portu-       mo Marie Bonarparte*) e outros se esconderam
gal). No comeo do sculo, ela era a nica parte     ou interromperam qualquer atividade pblica.
da Europa ocidental a ter conservado um re-              Esse movimento migratrio drenou um
gime monrquico tradicional, embora em vis-         quarto da comunidade freudiana continental
vel declnio. No se mostraria uma terra aco-        para a Gr-Bretanha, trs quartos para os Es-
lhedora para a psicanlise, e os partidrios desta   tados Unidos e uma infima minoria para o
emigrariam para a Amrica Latina por ocasio         continente sul-americano (Argentina e Brasil).
da guerra civil (1936-1938). Em seguida, o           A emigrao teve trs conseqncias: o reforo
franquismo constituiria um obstculo  implan-       do poder burocrtico da IPA, a fragmentao do
tao do freudismo.                                  freudismo clssico em diversas correntes (com
344     histria da psicanlise

cises*) e o fim da supremacia da lngua alem      a teoria freudiana do inconsciente. Esta ltima,
em prol da lngua inglesa.                          com efeito, mostra que o homem no  senhor
    Essa distribuio geogrfica mostra que a       em sua casa, a tal ponto sua liberdade est
aceitao ou a rejeio da psicanlise no se       sujeita a determinaes que lhe escapam. Entre-
explicaram, em primeiro lugar, por um obs-          tanto, para que um sujeito possa ter a experin-
tculo mental ou cultural, mas pelo contexto        cia dessa "ferida narcsica",  preciso que a
histrico, por um lado, e pela situao poltica,   sociedade em que ele vive reconhea conscien-
por outro.                                          temente o inconsciente. Assim como o exerc-
    H duas condies para a implantao das        cio da liberdade pressupe esse reconhecimen-
idias freudianas e para a formao de um mo-       to, a histria da psicanlise est ligada  cons-
vimento psicanaltico: por um lado, a cons-         tituio da noo de sujeito na histria da filo-
tituio de um saber psiquitrico, isto , de uma   sofia ocidental. Na histria das sucessivas re-
viso da loucura capaz de conceituar a noo de     vises da doutrina freudiana e de seu modelo
doena mental em detrimento da idia de pos-        biolgico, somente Jacques Lacan* procurou
sesso divina, sagrada ou demonaca. Por outro,     dar consistncia a esse vnculo entre a psican-
a existncia de um estado de direito, passvel de   lise e a filosofia do sujeito.
garantir o livre exerccio do ensino freudiano.         Neste final do sculo XX, o freudismo vem
    O estado de direito caracteriza-se pelos li-    recuando nas sociedades ocidentais, aquelas em
mites que impe a seu domnio sobre a socie-        que, durante cem anos, estiveram reunidas to-
dade e os cidados e pela conscincia que tem       das as condies para a implantao bem-suce-
de seus limites. Sem ele,  impossvel  psica-     dida da psicanlise. Esse enfraquecimento re-
nlise ser exercida livremente, transmitida atra-   sulta da expanso de um novo tipo de comuni-
vs do tratamento ou ensinada em instituies       tarismo, no qual o sujeito, remetido a suas ra-
especficas. Em outras palavras, qualquer im-       zes, seu grupo ou sua individualidade, opta mais
plantao da psicanlise passa pelo reco-           facilmente por formas primitivas de psicotera-
nhecimento consciente da existncia do incons-      pia* (o corpo, o grito, o grupo, o jogo, o relaxa-
ciente* do mesmo modo que a associao li-          mento, a hipnose*, a magia etc.) e pelo poder
vre*, como tcnica do tratamento, passa pelo        de um novo organicismo, que tende a apresentar
princpio poltico da liberdade de associao.      todos os comportamentos mentais como resul-
    Em geral,  a ausncia de um desses elemen-     tantes de um processo cognitivo, articulado
tos (ou dos dois ao mesmo tempo) que explica        com um substrato gentico ou biolgico.
a no implantao ou o desaparecimento do
                                                     Grard Chaliand e Jean-Pierre Rageau, Atlas politi-
freudismo nos pases com regimes ditatoriais,       que du XX sicle, Paris, Seuil, 1988  dith Kurzweil,
assim como nas regies do mundo marcadas            The Freudians. A Comparative Perspective, New Ha-
pelo islamismo ou por uma organizao comu-         ven e Londres, Yale University Press, 1989  Jacquy
nitria ainda tribal. Note-se que as ditaduras      Chemouni, Histria do movimento psicanaltico (Paris,
                                                    1990), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991  Andr Hay-
militares no impediram a expanso da teoria        nal, Psychanalyse et science. Face--face, Lyon, C-
psicanaltica na Amrica Latina (em especial no     sura, 1991  Peter Kutter (org.), Psychoanalysis Inter-
Brasil e na Argentina). Isso se deveu  natureza    national, Guide to Psychoanalysis throughout the
delas, diferente da encontrada nos outros dois      World, 2 vols., Stuttgart-Bad Cannstatt, Frommann-
                                                    Holzboog, 1992  Michel Foucher (org.), Fragments
sistemas (stalinismo e nazismo) que destruram      d'Europe, Paris, Fayard, 1993  Roster, The Internatio-
a Europa. Os regimes de tipo caudilhista nunca      nal Psychoanalytical Association Trust, 1996-1997 
instauraram um plano de eliminao do freudis-      lisabeth Roudinesco, Genealogias (Paris, 1994), Rio
mo como "cincia judia", como aconteceu na          de Janeiro, Relume Dumar, 1996  Jacques Le Rider,
                                                    La Mitteleuropa, Paris, PUF, col. "Que sais-je?", 1994
Alemanha entre 1933 e 1944, nem como "cin-          L'tat du monde, Annuaire conomique et gopoliti-
cia burguesa", como se deu na Unio Sovitica       que mondial, Paris, La Dcouverte, 1997.
entre 1945 e 1989.
    As condies de existncia da psicanlise        AMERICAN PSYCHOANALYTIC ASSOCIATION;
parecem corresponder a uma concepo da li-         ASSOCIAO BRASILEIRA DE PSICANLISE; BET-
berdade humana que est em contradio com          LHEIM, STJEPAN; DOSUZKOV, THEODOR; EMBIRI-
                                                                                historiografia    345

COS, ANDREAS; FEDERAO EUROPIA DE PSICA-           se interessar verdadeiramente pela tese enun-
NLISE; FEDERAO PSICANALTICA DA AMRICA           ciada.
LATINA; HAAS, LADISLAS; KOURETAS, DIMITRI; SU-           Foi depois da Segunda Guerra Mundial que
GAR, NIKOLA; TRIANDAFILIDIS, MANOLIS.
                                                     realmente nasceu a historiografia psicanaltica,
                                                     impulsionada por Ernest Jones*, o primeiro
                                                     grande autor a biografar Freud. Seu magistral
historiografia                                       livro em trs volumes, publicado entre 1952 e
    Os primeiros trabalhos histricos sobre a        1957 e apoiado em arquivos inditos e parcial-
psicanlise* foram redigidos pelo prprio            mente compilados por ele, bem como por Sieg-
Sigmund Freud* primeiro em 1915, sob a forma         fried Bernfeld* e Kurt Eissler, permitiu que
de um longo artigo, intitulado "A histria do        comessemos a traar a histria do freudis-
movimento psicanaltico", e depois em 1925,          mo*.
atravs de uma autobiografia, chamada Um es-             Atravs de Jones, com efeito, a dispora
tudo autobiogrfico*.                                freudiana pde passar a ter uma idia de sua
    Esses dois textos, de grande qualidade lite-     origem e seu movimento, sob a forma no de
rria, mostram que Freud, apesar de muito aten-      uma hagiografia (como se diz com demasiada
to  cincia histrica, no conseguiu desvincu-      freqncia), mas de uma histria oficial. O mo-
lar-se, para contar seu prprio destino e o de seu   delo jonesiano no se inspirou numa concepo
movimento, de um modelo historiogrfico ar-          religiosa ou piegas da histria.  pragmtico,
caico, baseado no mito da autogerao da psi-        racionalista e positivista. Privilegia a idia de
canlise por seu valoroso fundador: ela teria        que Freud conseguiu, atravs do poder de seu
nascido de seu prprio crebro, distante das         talento solitrio e ao preo de um herosmo
doutrinas pr-cientficas caractersticas da po-    intransigente, desprender-se das falsas cincias
ca anterior. No primeiro caso, Freud, travando       de sua poca e revelar ao mundo a existncia do
batalhas contra dois dissidentes (Alfred Adler*      inconsciente.
e Carl Gustav Jung*), apresenta-se como pai de           O verdadeiro problema dessa biografia est
uma doutrina que ele pretendia gerir. No segun-      em ela ter sido escrita por um homem que foi,
do, escreve uma Bildung na mais pura tradio        ao mesmo tempo, um cronista a servio de um
alem, segundo a qual o autor traa seu itiner-     rei, o lder de um movimento poltico e um
rio intelectual.
                                                     adversrio da maioria dos atores cuja saga nar-
    Essa vontade de dominar a histria  cons-       rou. Jones quis ser Saint-Simon, depois de ha-
tante em Freud. Ele nunca procurou dissimul-
                                                     ver desempenhado, sucessivamente, os papis
la e nunca mentiu conscientemente a respeito
                                                     de Joinville, Richelieu e Fouch. E, se forneceu
de si mesmo. Era por isso que, quando algum
                                                     de Freud um retrato convincente, no foi nada
tomava a iniciativa de contar sua vida, como fez
                                                     objetivo com respeito aos discpulos dele. No
Fritz Wittels*, por exemplo, ele se mostrava
preocupado com o respeito  estrita exatido         apenas se mostrou de uma injustia flagrante
dos fatos. No obstante, experimentava certo         com Otto Rank*, Sandor Ferenczi* ou Wilhelm
prazer com a idia de que seus futuros bigrafos     Reich*, como tambm situou mal a importncia
pudessem atrapalhar-se. Por isso, tentou (em         de Wilhelm Fliess e suas teorias na histria das
vo) persuadir Marie Bonaparte* a no conser-        origens imediatas do freudismo. Alm disso,
var sua correspondncia com Wilhelm Fliess*.         como bom estrategista poltico, dissimulou os
Quanto  idia do longo prazo, prpria da his-       acontecimentos passveis, a seu ver, de tirar o
toriografia cientfica do sculo XX, ele pratica-    brilho da imagem do movimento psicanaltico:
mente no a levou em conta. Quando leu, em           os suicdios*, os extravios, as loucuras* e as
1931, o livro de Stefan Zweig* intitulado A cura     transgresses. Por ltimo, Jones mascarou ou
pelo esprito, onde o autor estabeleceu uma          no reconheceu os erros terrveis que cometeu,
ligao entre o mtodo de Franz Anton Mes-           sobretudo frente ao nazismo*, ao pr em prtica
mer* e a psicanlise, Freud procurou, em parti-      sua poltica de um pretenso "salvamento" da
cular, corrigir tudo o que lhe dizia respeito, sem   psicanlise.
346     historiografia

    O livro de Jones, portanto,  a um tempo uma    jonesiano da viso oficial sucedeu-se um ho-
obra esplndida, um acontecimento fundador e        mem imerso no movimento de idias que aba-
um monumento de histria oficial. Nele, vemos       lou o Imprio Austro-Hngaro da dcada de
o personagem central evoluir desde a infncia       1880. Esse Freud encarnou, de certa maneira,
qual um heri lendrio, permanentemente             todas as aspiraes de uma gerao de intelec-
cnscio de sua genialidade, que inventa sua         tuais vienenses, atormentados pela judeidade*,
doutrina a partir do nada das "falsas cincias"     pela sexualidade*, pelo declnio do patriarca-
e, em seguida, separa-se com dor de seus maus       do*, pela feminizao da sociedade e, final-
discpulos, ora "renegados", ora "desviantes",      mente, por uma vontade comum de explorar as
com exceo do mais fiel dentre todos: o pr-       origens profundas do psiquismo humano.
prio Jones.                                             Quanto  historiografia dissidente, ela surgiu
    Durante dez anos, de 1960 a 1970, a his-        em 1971, com a publicao de Freud e seus
toriografia freudiana foi mantida como uma          discpulos, de Paul Roazen. Nascido em 1936,
reserva privilegiada do legitimismo psicanalti-    o autor abandonou a histria oficial para se
co, sobretudo em razo da poltica implementa-      tornar o cronista da memria oral do movimen-
da por Kurt Eissler, responsvel pelos arquivos     to. Com a ajuda de depoimentos de sobrevi-
depositados na Biblioteca do Congresso*, de         ventes, construiu uma prosopografia do meio
Washington. Em 1972, com seu livro Freud:           psicanaltico: redes de poder, filiaes* etc.
vida e agonia, uma biografia, Max Schur* cor-       Acima de tudo, Roazen foi o primeiro a dar
rigiu a verso jonesiana, apresentando uma ima-     lugar plenamente aos discpulos cujo destino a
gem mais vienense do mestre, que ento come-        histria oficial havia ocultado ou deturpado:
ou a emergir sob a aparncia de um cientista       Hermine von Jugh-Hellmuth*, Victor Tausk* e
ambivalente, angustiado pela morte e hesitante      Ruth Mack-Brunswick*.
entre o erro e a verdade. Schur revelou pela            A partir de 1978-1980, na Frana*, Alema-
primeira vez a existncia de Emma Eckstein*.        nha*, Estados Unidos* e Gr-Bretanha*, por-
    A partir de 1970, a lngua inglesa passou a     tanto, reuniram-se as condies para que
dominar os trabalhos historiogrficos. Ao mo-       eclodisse uma verdadeira escola histrica do
delo jonesiano sucederam-se, por um lado, uma       freudismo. Em cada pas, arquivos foram coli-
viso dissidente, e, por outro, uma abordagem       gidos por pesquisadores, dentro ou fora da In-
cientfica. Inaugurada por Ola Andersson* em        ternational Psychoanalytical Association*
1962, a historiografia cientfica expandiu-se,      (IPA), permitindo a elaborao de livros nar-
em 1970, com o trabalho inovador de Henri F.        rativos decorrentes da histria cientfica e que
Ellenberger*. Sua Histria da descoberta do         versavam sobre todos os aspectos do freudismo:
inconsciente, com efeito, foi a primeira a intro-   origens, movimento, atores, redes, conceitos,
duzir o longo prazo na aventura freudiana e a       idias, biografias etc. Desde ento, os repre-
mergulhar a psicanlise na histria da psiquia-     sentantes da legitimidade freudiana (IPA) fo-
tria dinmica*. Freud saiu disso desnudado e        ram perdendo terreno e no mais puderam im-
apareceu sob os traos de um cientista faus-        pedir os historiadores de produzirem obras que
tiano, dividido entre a dvida e a certeza, entre   escapavam  imagem oficial. Eles conservaram
a razo e a errncia, entre a aspirao ao          to-somente um monoplio: a gesto e o
progresso e a atrao pelo ocultismo. Ellenber-     controle dos famosos arquivos depositados na
ger faria escola e daria origem, sem que o          Biblioteca do Congresso de Washington.
houvesse pretendido, a uma historiografia               Ora, a poltica de reteno conduzida por
revisionista.                                       Eissler, com a concordncia de Anna Freud*,
    Paralelamente, os trabalhos dos his-            iria revelar-se catastrfica, como sublinhou o
toriadores norte-americanos (ou ingleses) sobre     historiador Peter Gay: "A opo pelo sigilo, 
a Viena* do fim de sculo (Carl Schorske, Wil-      qual Eissler esteve e continua muito firmemente
liam Johnston etc.) transformaram a viso que       ligado, s pode incentivar a proliferao dos
se tinha das circunstncias sociais e polticas     mais extravagantes boatos sobre o homem
que cercaram a descoberta freudiana. Ao Freud       (Freud) cuja reputao ele quer proteger."
                                                                               Hitschmann, Eduard            347

    Foi essa poltica de preservao da imagem            (Estocolmo, 1962), Paris, Synthlabo, col. "Les emp-
                                                          cheurs de penser en rond", 1997  Henri F. Ellenberger,
do pai fundador que contribuiu para a expanso,
                                                          Histoire de la dcouverte de l'inconscient (N. York,
a partir de 1980, de uma historiografia revisio-          Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard,
nista, no exato momento em que o movimento                1994  Paul Roazen, Freud e seus discpulos (N. York,
psicanaltico sofria, no mundo inteiro, os ata-           1971), S. Paulo, Cultrix, 1978  Max Schur, Freud: vida
ques de um novo organicismo, apoiado na far-              e agonia, uma biografia, 3 vols. (N. York, 1972), Rio de
                                                          Janeiro, Imago, 1981  William M. Johnston, L'Esprit
macologia. Em vez de abrirem os arquivos a                viennois. Une histoire intellectuelle et sociale, 1848-
historiadores profissionais, Eissler e Anna               1938 (N. York, 1972), Paris, PUF, 1985  Allan Janik e
Freud decidiram confiar a Jeffrey Moussaeff              Stephen Toulmin, Wittgenstein, Vienne et la modernit
Masson, aluno brilhante e devidamente anali-              (N. York, 1973), Paris, PUF, 1978  Frank J. Sulloway,
                                                          Freud, Biologist of the Mind, N. York, Basic Books, 1979
sado dentro do serralho, o estabelecimento da              Jeffrey Moussaeff Masson, Le Rel escamot, Paris,
correspondncia entre Fliess e Freud. Pois bem,           Aubier, 1984  Janet Malcolm, Tempte aux Archives
em meio a suas pesquisas, o feliz eleito trans-           Freud (N. York, 1984), Paris, PUF, 1986  Peter Gay,
formou-se num contestador radical no so-                 Freud: uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988),
mente da legitimidade oficial, mas da prpria             S. Paulo, Companhia das Letras, 1995  lisabeth
                                                          Roudinesco, Genealogias (Paris, 1994), Rio de Janei-
doutrina freudiana. Sonhando-se profeta de um             ro, Relume Dumar, 1996.
freudismo "revisto", passou a acreditar que a
Amrica tinha sido corrompida por uma menti-
ra freudiana original. Assim, afirmou que as
cartas de Freud revelavam que este havia aban-            Hitschmann, Eduard (1871-1957)
donado a teoria da seduo* por covardia. No             mdico e psicanalista americano
ousando revelar ao mundo as atrocidades come-
tidas pelos adultos com crianas inocentes (es-               Esse clnico geral, inventivo e cheio de hu-
tupros, maus-tratos, incestos forados etc.), ele         mor, originrio de um meio de banqueiros ju-
teria inventado a teoria da fantasia* e, por              deus, foi introduzido na Sociedade Psicolgica
conseguinte, seria um falsrio.                           das Quartas-Feiras* por Paul Federn* em 1905.
    Na poca atual, a corrente revisionista deve          Com Max Graf*, foi o primeiro, no bojo desse
seu sucesso ao fato de ser contempornea de um            crculo freudiano, a interessar-se pela aplicao
vasto questionamento, na universidade norte-              da psicanlise  histria dos "grandes homens",
americana, da chamada civilizao ocidental, o            poetas, escritores, lderes polticos. Assim,
qual visa reabilitar as vtimas dela. Dentro desse        contribuiu para transformar a tradio psiqui-
esprito, a escola revisionista assimila o freudis-       trica da patografia na psicobiografia* e na psi-
mo a uma opresso: colonizao abusiva das                canlise aplicada*. Tinha paixo por Goethe e
crianas pelos adultos, dominao das mu-                 imitava maravilhosamente seu estilo, a ponto
lheres pelos homens etc.                                  de poder expressar-se como ele.
    Assistimos, depois disso, ao retorno da tra-              Em 1911, publicou o primeiro estudo sis-
dio biogrfica e, em seguida, a uma exploso            temtico do pensamento freudiano, no qual j
de diferentes correntes interpretativas. Da a            se mostrava de uma fidelidade inabalvel a
importante produo de trabalhos histricos no            Freud*, de quem fora analisando durante um
fim do sculo XX.                                         ms. A obra era um resumo da psicanlise des-
                                                          tinado ao grande pblico, e Freud lhe pedira que
 Sigmund Freud, "A histria do movimento psicanalti-    se abstivesse de qualquer idia pessoal. Em
co" (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV,      1922, tornou-se diretor do Ambulatorium, pri-
7-66; Paris Gallimard, 1991; La Naissance de la psy-      meira clnica psicanaltica aberta em Viena*,
chanalyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an
Wilhelm Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986      nas instalaes de um hospital militar. Foi tam-
Sigmund Freud e Stefan Zweig, Correspondance              bm um dos mdicos da famlia Freud. Em
(Frankfurt, 1987), Paris, Rivages, 1991  Ernest Jones,   1938, como a maioria dos vienenses, emigrou
A vida e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York,       primeiro para Londres e dois anos depois para
1953, 1955 1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Carl
Schorske, Viena, fin-de-sicle (N. York, 1981), S. Pau-
                                                          os Estados Unidos, onde se tornou um dos
lo, Companhia das Letras, 1990  Ola Andersson,           membros importantes da Boston Psychoanaly-
Freud avant Freud. La Prhistoire de la psychanalyse      tic Society (BoPS). Teve vrios conflitos com
348      Hoch, August

Helene Deutsch*, a quem no hesitou tratar de             tische Vereinigung (WPV), com Paul Federn*.
"ditadora".                                               No momento da Anschluss, encontrava-se na
    Eduard (ou Edward) Hitschmann publicou                Blgica*, onde pediu asilo poltico. Teve um
muitas biografias psicanalticas de homens c-            papel na formao dos psicanalistas desse pas.
lebres, escritores e msicos, principalmente              Quando da invaso da Blgica, foi detido e
Knut Hamsun (1859-1952), Franz Schubert                   depois transferido para a Frana e internado no
(1797-1828), Johannes Brahms (1833-1897),                 campo de Gurs. No pde emigrar para o Mxi-
Emmanuel Swedenborg (1688-1772), Frie-                    co, como desejava, mas conseguiu fugir do
drich Nietzsche (1844-1900), Arthur Schopen-              campo de Mille, perto de Marselha, onde tinha
hauer (1788-1860). No plano clnico, interes-             sido novamente internado. Chegou  Sua* e
sou-se particularmente pela frigidez feminina,            morreu em conseqncia das seqelas de uma
pela impotncia sexual e pelo sonho*. Nunca               cirurgia no estmago.
adotou os princpios adaptadores da Ego Psy-
chology* e, no fim dos anos 1930, quando Anna              Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psy-
                                                          choanalyse. Die Mitglieder der psychologischen Mitt-
Freud* se tornou presidente da Wiener Psy-                woch-Gesellschaft und der Wiener psychoanalyti-
choanalytische Vereinigung (WPV), expressou               schen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord,
seu apego  teoria freudiana clssica com este            1992.
comentrio humorstico: "Freud estava sentado
l e nos ensinou as pulses; agora  Anna, e ela
nos ensina as defesas."                                   Hollitscher, Mathilde, ne Freud
 Paul Roazen, Freud e seus discpulos (N. York, 1971),   (1887-1978), filha de Sigmund Freud.
S. Paulo, Cultrix, 1978  Richard Sterba, Rminis-            Nascida em Viena*, Mathilde foi a primeira
cences d'un psychanalyste viennois (Frankfurt, 1985),
Toulouse, Privat, 1986  Peter Gay, Freud: uma vida
                                                          dos filhos de Sigmund* e Martha Freud*, a mais
para o nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo, Compa-      velha entre as mulheres e tambm entre todos
nhia das Letras, 1995  Elke Mhlleitner, Biogra-         os seis filhos do casal. Por isso, teve um papel
phisches Lexikon der Psychoanalyse. Die Mitglieder        central na vida familiar de Sigmund Freud: com
der psychologischen Mittwoch-Gesellschaft und der         Martha, sua me, e Minna Bernays*, sua tia,
Wiener psychoanalytischen Vereinigung von 1902-
1938, Tbingen, Diskord, 1992.                            formou o ncleo feminino do crculo ntimo do
                                                          pai. Como dizia Anna Freud*, "ela cumpria de
                                                          modo notvel o papel de irm mais velha devo-
Hoch, August (1868-1919)                                  tada que lhe coube. Sempre pronta a dar um
                                                          conselho, um apoio ou uma informao, sua
psiquiatra americano
                                                          autoridade entre os jovens no era questiona-
   Filho do diretor do hospital universitrio de          da." Quando nasceu, seu nome foi escolhido em
Basilia, na Sua*, Hoch emigrou para os Es-             homenagem a Mathilde Breuer, esposa de Josef
tados Unidos com a idade de 19 anos e foi o               Breuer*. Era bela, elegante e generosa. Tendo
primeiro a introduzir a nosografia de Emil Krae-          uma educao laica, como todos os filhos de
pelin* na abordagem americana das psicoses*.              Freud, mas segundo os princpios rgidos da
 Nathan G. Hale, Freud and the Americans. The Be-        burguesia vienense, no teve outro objetivo na
ginnings of Psychoanalysis in the United States, 1876-    vida seno tornar-se uma esposa fiel como sua
1917, t.I, (1971), N. York, Oxford, Oxford University     prpria me e como seu pai lhe aconselhava:
Press, 1995.                                              "Os rapazes mais inteligentes sabem muito bem
                                                          o que devem procurar em uma mulher: a genti-
                                                          leza, a alegria e a capacidade de tornar sua vida
Hoffmann, Ernst Paul (1891-1944)                          mais bela e mais fcil." Esse modo de educao
mdico e psicanalista austraco                           das meninas foi admiravelmente criticado por
   Nascido na Romnia, na provncia de Buko-              Stefan Zweig*: "Era assim que a sociedade da
vina, Hoffmann era originrio de uma famlia              poca queria que a jovem fosse, tola e insigni-
judia. Estudou medicina em Viena* e recebeu               ficante, bem-educada e sem identidade, curiosa
sua formao didtica na Wiener Psychoanaly-              e pudica, desprovida de segurana e de senso
                                                                                  Hollos, Istvan       349

prtico, e graas a essa educao estranha            Como sua me, Mathilde foi mantida a dis-
vida, destinava-a logo de sada a ser mais tarde,   tncia da vida intelectual e profissional do pai,
no casamento, formada e conduzida pas-              da qual no se falava na famlia, e principal-
sivamente pelo homem."                              mente nunca durante as refeies. Ainda que
    Nesse aspecto, os filhos de Freud se com-       no ignorasse que Freud era um grande sbio,
portaram entre si como se tinham comportado         no foi envolvida na histria do movimento
seus tios, pais e tias na famlia de Jacob* e       psicanaltico. Mas era amiga ntima de Ruth
Amalia Freud*. No s foram educados de             Mack-Brunswick*, que deu  sua filha o nome
acordo com os mesmos princpios imutveis,          de Mathilde.
mas tambm tiveram as mesmas rivalidades, os           Com o marido, emigrou para Londres em
mesmos conflitos, as mesmas invejas que todas       1938, ao mesmo tempo que a famlia Freud.
as famlias numerosas da poca. Principal-
                                                     Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
mente, resignaram-se a um modelo idntico de        (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956  Sigmund Freud e
diviso dos sexos e dos poderes. Na mesma           Sandor Ferenczi, Correspondncia, vol.I, 1908-1914
medida em que Freud deixou os filhos, Martin*,      (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Imago, 1994, 1995, e vol.
Ernst* e Oliver* decidirem livremente sobre         II, 1914-1919, Paris, Calmann-Lvy, 1996  Stefan
                                                    Zweig, Le Monde d'hier (Estocolmo, 1944), Paris,
seu futuro, mostrou-se tirnico com as filhas,      Belfond, 1982  Ernest Jones, A vida e a obra de
Sophie e Mathilde, que tiveram como nico           Sigmund Freud, vols.1 e 2 (N. York, 1953, 1955), Rio
modelo as qualidades domsticas e conjugais         de Janeiro, Imago, 1989  Martin Freud, Freud, mon
de sua me e de sua av. Em outras palavras,        pre (Londres, 1957), Paris, Denol, 1975  lisabeth
                                                    Young-Bruehl, Anna Freud: uma biografia (N. York,
Freud no proporcionou s filhas nenhum be-         1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Peter Gay, Freud:
nefcio decorrente de suas investigaes clni-     uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo,
cas e tericas, que questionavam a organizao      Companhia das Letras, 1995  Paul Roazen, Mes ren-
sexual e social da famlia ocidental clssica. S   contres avec la famille Freud (Amherst, 1993), Paris,
                                                    Seuil, 1996.
Anna Freud, a caula, travessa, sofrendo por
no ser bonita e dedicada como as irms, teve        DIFERENA SEXUAL; FREUD, EVA; FREUD, PAU-
uma trajetria moderna: exerceu uma profisso       LINE; PAPPENHEIM, BERTHA; SEXUALIDADE FEMI-
e tornou-se uma intelectual, rompendo assim         NINA.
com os ideais da sociedade vitoriana do fim do
sculo XIX. Mas ficou solteira e sempre man-
teve com o pai uma relao passional.               Hollos, Istvan (1872-1957)
    Embora tenha vivido at os 90 anos, Ma-         psiquiatra e psicanalista hngaro
thilde Hollitscher teve uma sade frgil. Na           Nascido em uma modesta famlia judia e
infncia quase sucumbiu a uma difteria. Em          analisado por Paul Federn*, Istvan Hollos foi
1905, aos 18 anos, esteve outra vez perto da        um pioneiro das teses freudianas no campo das
morte, depois de uma cirurgia de apndice,          psicoses* e um artfice da reforma do asilo na
praticada pelo mdico que operara Emma Eck-         Hungria*. Co-fundador, em 1913 (com Sandor
stein*. As seqelas a impediram de tornar-se        Ferenczi*, Sandor Rado* e Hugo Ignotus*), da
me, o que lhe causou grande mgoa.                 Sociedade Psicanaltica de Budapeste, relatou
    Em 1908, Freud quis cas-la com Sandor          em 1927, em um romance, Meu adeus  casa
Ferenczi*. Entretanto, um ano depois, ela se        amarela, suas experincias clnicas com os lou-
casou na sinagoga com Robert Hollitscher, o         cos, dos quais se encarregara como mdico-
homem que ela escolhera, negociante de txteis      chefe do Hospital Psiquitrico de Lipotmezo,
por quem estava apaixonada e com quem foi           nos arredores de Budapeste. Em 1925, foi afas-
instalar-se perto da Berggasse. Quando sua          tado desse posto por causa de suas origens ju-
irm, Sophie Halberstadt*, morreu de gripe,         daicas.
adotou o sobrinho Heinz (Heinerle), que infe-          Sigmund Freud* lhe respondeu com uma
lizmente faleceu de tuberculose miliar, aos cin-    carta que se tornou clebre: "Finalmente con-
co anos de idade. Esse desaparecimento foi a        fessei a mim mesmo que no gostava desses
causa de uma nova crise de desespero.               doentes e que eles me irritavam por serem to
350      Homem dos Lobos, caso

diferentes de mim e de tudo o que h de humano.          amor carnal entre pessoas de sexos biologica-
 uma curiosa espcie de intolerncia, que evi-          mente diferentes.
dentemente me torna inapto para a psiquiatria                Nem Sigmund Freud* nem seus discpulos,
[...]. Nesse aspecto, eu me comporto como fa-            nem tampouco seus herdeiros, fizeram da
ziam os mdicos que nos precederam com os                homossexualidade um conceito ou uma noo
histricos. Seria um resultado da escolha do             prpria da psicanlise*. Por conseguinte, o
intelecto, sempre mais claramente afirmada, a            freudismo*, consideradas todas as suas ten-
expresso de uma hostilidade para com o Isso?"           dncias, no produziu nenhuma teoria es-
     Em 1933, Hollos sucedeu a Ferenczi na               pecfica sobre essa inclinao sexual que se fez
presidncia da Sociedade Hngara e, em 1944,             derivar da bissexualidade* caracterstica da na-
foi salvo da deportao graas  ao do diplo-          tureza humana e animal, e que foi inicialmente
mata sueco Raoul Wallenberg, que conseguiu               ligada ao campo das perverses sexuais e, mais
resgatar alguns judeus hngaros da milcia do            tarde, ao da perverso* em geral, como elemen-
almirante Horthy. Em seguida, retomou suas               to de uma estrutura ternria que engloba a psi-
funes, ao lado de Imre Hermann*, na Socie-             cose* e a neurose*.
dade Psicanaltica reconstituda.                            Dada a transformao induzida pela doutri-
 Istvan Hollos, Mes adieux  la maison jaune (1927),    na freudiana no olhar que a cincia e o saber
Paris, ditions du Coq-Hron, 1986  Chronique la plus   ocidental voltam para a sexualidade* humana,
brve. Carnets intimes, 1929-1939, anotado e apre-       entretanto, podemos afirmar que Freud, a pro-
sentado por Michael Molnar (Londres, 1992), Paris,       psito da homossexualidade e com os meios
Albin Michel, 1992  Eva Brabant-Ger, Ferenczi et
l'cole hongroise de psychanalyse, Paris, L'Harmattan,   tericos de que dispunha, realmente rompeu
1993.                                                    com o discurso psiquitrico do fim do sculo
                                                         XIX. De Bndict-Augustin Morel (1809-
 LOUCURA; HISTRIA DA PSICANLISE.                       1873) a Valentin Magnan (1835-1916), passan-
                                                         do por Richard von Krafft-Ebing*, esse discur-
                                                         so considerava a homossexualidade como uma
Homem dos Lobos, caso                                    tara ou uma degenerao, que caracterizava, aos
 PANKEJEFF, SERGUEI CONSTANTINOVITCH.                    olhos de alguns deles, uma "espcie" ou uma
                                                         "raa" sempre maldita, sempre reprovada. Sob
                                                         esse aspecto, convm assinalar que a figura do
Homem dos Ratos, caso                                    homossexual, desde Oscar Wilde (1856-1900)
 LANZER, ERNST.                                          at Marcel Proust (1871-1922), no final do s-
                                                         culo, enquanto progredia o anti-semitismo, foi
                                                         acolhida como um equivalente do judeu: "Ao
homossexualidade                                         dio do judeu por si mesmo", escreveu Hans
al. Homosexualitt; esp. homosexualidad; fr. homo-       Mayer, "corresponde o dio do homossexual
sexualit; ing. homosexuality                            por si mesmo." E esse dio, em ambos os casos,
Termo derivado do grego (homos: igual) e criado          podia muito bem transformar-se em dio por si
por volta de 1860 pelo mdico hngaro Karoly             mesmo: o dio de si judeu, como em Karl
Maria Benkert para designar todas as formas de           Kraus* ou Otto Weininger*, ou o dio da parte
amor carnal entre pessoas biologicamente perten-
                                                         "feminina" de si, como no Charlus que, no texto
centes ao mesmo sexo.
                                                         de Em busca do tempo perdido, ridiculariza os
    Entre 1870 e 1910, o termo homossexualidade
                                                         outros sodomitas.
imps-se progressivamente nessa acepo em to-
dos os pases ocidentais, substituindo assim as
                                                             Freud nunca desconheceu o papel desempe-
antigas denominaes que caracterizavam essa             nhado pela tradio judaico-crist na longa his-
forma de amor conforme as pocas e as culturas           tria das perseguies fsicas e morais infligidas
(inverso, uranismo, safismo, lesbianismo etc.).         durante sculos aos que eram acusados de trans-
Definiu-se ento por oposio  palavra heterosse-       gredir as leis da famlia e se entregar a prticas
xualidade (do grego heteros: diferente), cunhada         sexuais anormais, demonacas, desviantes, br-
por volta de 1880, que abrangia todas as formas de       baras e altamente reprovadas pela Bblia, por
                                                                        homossexualidade        351

Deus, pelos profetas, pela Igreja* e pela justia   tural, diversos estudiosos opuseram-se s legis-
dos homens. Amante da cultura grega e apaixo-       laes repressivas europias que concerniam 
nado pela literatura, ele sublinhou muitas vezes    homossexualidade, como  atestado pelas bata-
que os grandes criadores eram homossexuais, e       lhas lideradas por Magnus Hirschfeld* sobre o
sempre foi sensvel  tolerncia do mundo da        "sexo intermedirio", por Havelock Ellis* so-
Antigidade para com a pederastia, a ponto,         bre o "inatismo" natural da homossexualidade,
alis, de esquecer que mesmo entre os gregos o      e tambm por um jurista de Hanover: Carl
amor pelos rapazes podia ser reprovado como         Heinrich Ulrichs (1826-1895). Sendo ele pr-
um vcio que ameaava a civilizao. Em sua         prio homossexual, Ulrichs publicou, sob o
interpretao do mito de dipo*, por exemplo,       pseudnimo de Numa Numantius, uma srie de
Freud nunca pensou em evocar o episdio             livros nos quais popularizou o termo uranismo
"homossexual" de Laio: quando rei de Tebas,         (proveniente do deus da mitologia grega Urano,
ele havia raptado o belo Crsipo. Hera, protetora   castrado por seu filho, Cronos, e de Urnia, a
do casamento, ficara escandalizada com isso e       musa da astronomia), para sustentar que a in-
havia mandado a Esfinge aos tebanos para pu-        verso sexual era uma anomalia hereditria,
ni-los por terem sido demasiadamente tole-          prxima da bissexualidade, que produzia uma
rantes para com essa relao culpada.               "alma de mulher num corpo de homem".
    Embora nunca tenha sido um militante da         Seguindo-se a ele, o psiquiatra Carl Westphal
causa dos homossexuais, Freud foi marcado,          (1833-1890) deu seu apoio  teoria congnita
como todos os cientistas de sua poca, pelas        da homossexualidade, afirmando a existncia
grandes interrogaes provenientes do darwi-        de um "terceiro sexo". Entre 1898 e 1908,
nismo, que almejavam transformar radical-           foram lanadas milhares de publicaes sobre
mente a representao que se tinha da sexuali-      a homossexualidade.
dade humana. Da a inspirao que foi buscar            Para o discurso psiquitrico do sculo XX,
na sexologia*, antes de se desligar dela por        a homossexualidade sempre foi tida como uma
completo.                                           inverso sexual, isto , uma anomalia psquica,
    Como doutrina "progressista" do comporta-       mental ou de natureza constitucional, um dis-
mento sexual, a sexologia inventou, tal como a      trbio da identidade ou da personalidade que
criminologia*, seu vocabulrio: tratava-se, na      podia chegar  psicose e que, no raro, conduzia
poca, de dotar de uma definio "cientfica"       ao suicdio*. A terminologia passou por mlti-
certas prticas sexuais ditas patolgicas, que      plas variaes: com respeito s mulheres, em-
ora se pretendia classificar como doenas here-     pregavam-se os termos safismo ou lesbianismo,
ditrias (e no mais como pecados), a fim de        numa referncia a Safo, a poetisa grega da ilha
remet-las  nosologia psiquitrica, ora se que-    de Lesbos que era adepta do amor entre as
ria definir como crimes ou delitos (e no mais      mulheres; quanto aos homens, falava-se de ura-
como atos contrrios  moral crist) a fim de       nismo, pederastia, sodomia, neuropatia, homo-
julg-los perante a lei: "A homossexualidade",      filia etc. A nosologia foi muito mais flexvel
escreveu Michel Foucault (1926-1984), "apa-         quanto a esse campo do que em relao  lou-
receu como uma das imagens da sexualidade ao        cura*, e a legislao foi diferente conforme os
ser reduzida da prtica da sodomia a uma es-        pases.
pcie de androginia interna, a um hermafrodi-           Foi preciso esperar pela dcada de 1970,
tismo da alma. O sodomita era um pecador            pelos trabalhos dos historiadores -- de Michel
relapso, enquanto o homossexual  hoje uma          Foucault a John Boswell (1947-1994) -- e pe-
espcie." Foi exatamente nesse contexto que se      los grandes movimentos favorveis  liberdade
inventaram, na Hungria* e na Alemanha*, os          sexual, para que a homossexualidade deixasse
dois termos, homossexualidade e heteros-            de ser encarada como uma doena e passasse a
sexualidade, que se impuseram definitivamente       ser vista como uma prtica sexual distinta: fa-
no sculo XX.                                       lou-se ento das homossexualidades, e no
    Em nome dessa teoria hereditarista de uma       mais da homossexualidade, para deixar claro
homossexualidade constitucional, inata ou na-       que esta era menos uma estrutura do que um
352     homossexualidade

componente da sexualidade humana dotado de          sexuais desviantes em relao a uma norma
uma pluralidade de comportamentos to varia-        estrutural (e no mais social) e nela incluiu a
dos quanto os dos neurticos comuns. Freud,         homossexualidade, da qual fez uma perverso
alis, havia apontado o caminho para essa abor-     do objeto caracterizada por uma fixao da
dagem, fazendo a homossexualidade derivar da        sexualidade numa inclinao bissexual. Nessa
bissexualidade e remetendo-a a uma escolha          perspectiva, retirou dela qualquer carter pejo-
inconsciente, ligada  renegao*,  castrao*     rativo, diferencialista, no igualitrio ou, inver-
e ao dipo.                                         samente, valorizador. Em suma, introduziu a
    Em 1974, sob a presso dos "movimentos de       homossexualidade num universal da sexuali-
liberao", a American Psychiatric Association      dade humana e a humanizou, renunciando
(APA) decidiu, atravs de um plebiscito, riscar     progressivamente a fazer dela uma disposio
a homossexualidade da lista das doenas men-        inata ou natural, isto , biolgica, ou ento uma
tais. O caso provocou um escndalo. De fato,        cultura, a fim de conceb-la como uma escolha
ele indicou que a comunidade psiquitrica           psquica inconsciente. Em 1905, nos Trs en-
norte-americana, na impossibilidade de definir      saios sobre a teoria da sexualidade*, Freud
cientificamente a natureza da homossexualida-       ainda falou de inverso, mas, em 1910, com
de, havia cedido  presso da opinio pblica,      "Leonardo da Vinci e uma lembrana de sua
fazendo seus membros votarem sobre um pro-          infncia*", renunciou a esse termo em favor de
blema cuja soluo no dependia de um proces-       homossexualidade. Cinco anos depois, numa
so eleitoral. Treze anos depois, em 1987, sem a     nota acrescentada aos Trs ensaios, expressou
menor discusso terica, o termo perverso*         claramente sua hostilidade a qualquer forma de
desapareceu da terminologia psiquitrica mun-       diferencialismo e discriminao: "A inves-
dial e foi substitudo por parafilia, na qual no   tigao psicanaltica", escreveu, "ope-se com
mais se incluiu a homossexualidade.                 extrema determinao  tentativa de separar os
    Na histria da sexologia e, posteriormente,     homossexuais dos outros seres humanos como
da psicanlise, Sandor Ferenczi* ocupa um lu-       um grupo particularizado."
gar  parte. Em 1906, antes de seu encontro com         Em 1920, a propsito de uma jovem vie-
Freud e num texto sobre os estados intermedi-      nense a quem tratava, em virtude de ela gostar
rios apresentado  Associao de Medicina de        de uma mulher e de seus pais quererem obrig-
Budapeste, tomou abertamente a defesa dos           la a se casar, Freud deu uma definio cannica
homossexuais perseguidos na Hungria. Desa-          da homossexualidade, que rejeitou todas as
provou todos os mdicos que os pressionavam         teses sexolgicas sobre o "estado intermedi-
a se casar para encontrar "remdio" para seu        rio", o "terceiro sexo" ou a "alma feminina num
"pretenso" problema. Mais tarde, em seus tex-       corpo de homem". Segundo a doutrina do dipo
tos posteriores, de inspirao psicanaltica, re-   e do inconsciente, a homossexualidade, como
velou-se um excelente clnico dessa questo.        conseqncia da bissexualidade humana, existe
    Entre 1905 e 1915, graas aos trabalhos         em estado latente em todos os heterossexuais.
clnicos de seus discpulos da Sociedade Psico-     Quando se torna uma escolha exclusiva de ob-
lgica das Quartas-Feiras*, que lhe levavam         jeto, tem por origem, na mulher, uma fixao
numerosos casos de homossexualidade (Alfred         infantil na me e uma decepo com o pai.
Adler*, Isidor Sadger* etc.), Freud desligou-se     Nesse texto, Freud forneceu um esclarecimento
da sexologia. O que lhe interessava em termos       clnico da questo, mostrando que era intil
imediatos no era valorizar, inferiorizar ou jul-   procurar "curar" um sujeito de sua homos-
gar a homossexualidade, porm compreender           sexualidade, uma vez que esta se houvesse ins-
suas causas, sua gnese e sua estrutura, do ponto   talado, e que o tratamento psicanaltico no
de vista de sua nova doutrina do inconsciente*.     devia, de maneira alguma, ser conduzido com
Da o interesse voltado para a homossexualida-      esse objetivo. Acrescentou que, vez por outra,
de latente dos heterossexuais na neurose e, mais    podia-se desobstruir o caminho que levava ao
ainda, na parania*. Freud conservou o termo        sexo oposto: nesse caso, o paciente se tornava
perverso para designar os comportamentos           bissexual. Mas, esclareceu Freud, "transformar
                                                                         homossexualidade         353

um homossexual plenamente desenvolvido               Apoiados por Karl Abraham*, estes ltimos
num heterossexual  uma empreitada com to           consideravam, com efeito, que os homosse-
poucas probabilidades de xito quanto a opera-       xuais eram incapazes de ser psicanalistas, uma
o inversa (...)".                                  vez que a anlise no os "curava" de sua "in-
    Um ano depois, em Psicologia das massas          verso". Apoiado por Freud, o corajoso Otto
e anlise do eu*, ele deu uma definio mais         Rank* ops-se aos berlinenses. Declarou que
clara da homossexualidade masculina: ela so-         os homossexuais deveriam poder ter acesso
brevm depois da puberdade, nos casos em que         normalmente  profisso de psicanalista, con-
se instaurou na infncia um vnculo intenso          forme sua competncia: "No podemos recha-
entre o filho e a me. Em vez de renunciar a esta,   ar essas pessoas sem outra razo vlida, do
o filho se identifica com ela, transforma-se nela    mesmo modo que no podemos admitir que elas
e procura objetos capazes de substituir seu eu*,     sejam perseguidas pela lei." Rank lembrou tam-
aos quais ele possa amar como foi amado pela         bm que havia diferentes tipos de homossexua-
me. Por fim, numa carta de 9 de abril de 1935       lidade e que era preciso examinar cada caso
a uma norte-americana cujo filho era homos-          particular. Ernest Jones* recusou-se obstinada-
sexual e que se queixara disso, Freud escreveu       mente a levar em conta essa posio, apoiou os
estas palavras: "A homossexualidade no  uma        berlinenses e declarou que, aos olhos do mundo,
vantagem, evidentemente, mas nada h nela de         a homossexualidade era "um crime repugnante:
que se deva ter vergonha: no  um vcio nem         se um de nossos membros o cometesse, atrairia
um aviltamento, nem se pode qualific-la de          para ns um grave descrdito". Assim, aquele
doena; ns a consideramos uma variao da           que fora acusado de abuso sexual durante sua
funo sexual provocada por uma suspenso do         temporada no Canad tornou-se, por sua vez, e
desenvolvimento sexual. Diversos indivduos          durante muito tempo, o representante de uma
sumamente respeitveis, nos tempos antigos e         poltica de discriminao que pesaria muito
modernos, foram homossexuais, e dentre eles          sobre o destino da psicanlise no mundo. Sob a
encontramos alguns dos maiores de nossos             presso de Jones e dos berlinenses, os membros
grandes homens (Plato, Leonardo da Vinci            do Comit cederam -- inclusive Ferenczi e
etc.).  uma grande injustia perseguir a homos-     Freud. Assim, a homossexualidade foi banida
sexualidade como um crime, alm de ser uma           da legitimidade freudiana, a ponto de ser nova-
crueldade. Se a senhora no acreditar em mim,        mente considerada uma "tara".
leia os livros de Havelock Ellis." Freud acres-          Ao longo do tempo e durante mais de 50
centou ainda que era intil querer transformar       anos, sob a crescente influncia das sociedades
um homossexual em heterossexual. Note-se             psicanalticas norte-americanas, submetidas
que ele ficava muito mais  vontade com a            por sua vez s teses da APA, a IPA reforou seu
homossexualidade masculina do que com a fe-          arsenal repressivo. Depois de se afastar das
minina, que lhe era muito mais enigmtica, na        posies freudianas para ditar as normas sobre
medida em que ele tinha em relao s mu-            o acesso dos homossexuais  anlise didtica*,
lheres, e em particular  sua filha, um complexo     ela no hesitou, sempre num sentido contrrio
paterno do qual se defendia.                          clnica freudiana, em qualificar os homos-
    Os herdeiros de Freud no seguiram nem           sexuais de pervertidos sexuais e em julg-los
suas diretrizes nem as de Ferenczi e, frente        ora inaptos para o tratamento psicanaltico, ora
homossexualidade, mostraram-se de extrema            curveis desde que a anlise tivesse por objetivo
intolerncia, a ponto de ela se haver tornado        orient-los para a heterossexualidade. Para no
uma espcie de "continente negro" na histria        ser acusada de discriminao, a direo da IPA
do movimento psicanaltico. A partir de dezem-       no editou nenhuma regra escrita sobre esse
bro de 1921 e durante um ms, essa questo           assunto, mas suas sociedades evitaram, no
dividiu os membros do Comit Secreto* que            mundo inteiro, integrar em suas fileiras can-
dirigiam a International Psychoanalytical As-        didatos que fossem oficialmente homossexuais.
sociation* (IPA). Os vienenses mostraram-se              Anna Freud* desempenhou um grande pa-
muito mais tolerantes do que os berlinenses.         pel na deturpao das teses de seu pai. Estando
354     homossexualidade

ela mesma sob a suspeita do meio psicanaltico      do dipo e da bissexualidade, mas, no plano
de manter uma ligao "culpada" com Dorothy         clnico, pelo interesse especial que dedicou 
Burlingham*, Anna militou contra o acesso dos       parania e  sexualidade feminina*, ele, mais
homossexuais  anlise didtica. Apoiada por        do que Freud e Melanie Klein*, abriu um cami-
Jones e pelo conjunto das sociedades norte-         nho original para o estudo da homossexualidade
americanas da IPA, exerceu nesse campo uma          feminina.
influncia considervel, que no foi contraba-          Nos Estados Unidos*, a partir de 1975, as
lanada pela corrente kleiniana, mais liberal,      teses psicanalticas sobre a homossexualidade
mas pela qual a homossexualidade (latente ou        masculina e feminina foram radicalmente con-
consumada) era vista, sobretudo em sua verso       testadas pelos "movimentos de liberao" dos
feminina, como uma identificao com um p-         homossexuais, que, travando uma luta pela
nis sdico, e, em sua verso masculina, como        igualdade de direitos entre os sexos, recorreram
um distrbio esquizide da personalidade.            noo de gnero* para explorar esse campo e
    Em sua prtica, Anna Freud sempre teve          mostrar que a sexualidade em geral  uma cons-
como objetivo transformar seus pacientes            truo ideolgica que escapa a qualquer reali-
homossexuais em bons pais de famlia heteros-       dade anatmica. Esses estudos (gay studies,
sexuais, da o conseqente desastre clnico. Em     lesbian studies) tomaram um rumo diferencia-
1956, pediu  jornalista Nancy Procter-Gregg        lista, e vimos ressurgir uma terminologia que
que renunciasse a citar no The Observer a cle-     rejeita a prpria noo de homossexualidade em
bre carta de seu pai datada de 1935: "H vrias     prol de uma reivindicao de tipo identitrio ou
razes para isso, uma das quais  que, hoje em      comunitarista. Da a criao de um vocabulrio
dia, podemos tratar de muito mais homos-            especfico, que define categorias favorveis ou
sexuais do que julgvamos possvel a princpio.     hostis s prticas homossexuais: homofobia,
A outra razo  que os leitores poderiam ver nela   heterossexismo, homofilia etc.
uma confirmao de que tudo o que a anlise
                                                     Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da sexua-
pode fazer  convencer os pacientes de que suas
                                                    lidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW V, 29-145; SE,
falhas ou `imoralidades' no so graves, e de       VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; "Leonardo da
que eles devem aceit-las com alegria."             Vinci e uma lembrana de sua infncia" (1910), ESB,
    Jacques Lacan* foi o primeiro psicanalista      XI, 59-126; GW, VIII, 128-211; SE, XI, 63-129; OC, X,
da segunda metade do sculo a romper radical-       79-164; "Psicognese de um caso de homos-
                                                    sexualidade numa mulher" (1920), ESB, XVIII, 185-
mente com a perseguio dirigida contra os          216; GW, XII, 271-302; SE, XVIII, 145-172; Correspon-
homossexuais na IPA. No apenas aceitou em          dance, 1873-1939 (Londres, 1960), Paris, Gallimard,
anlise numerosos homossexuais -- sem pro-          1966  Carl Heinrich Ulrichs (Numa Numantius), "Mem-
curar reeduc-los, sem trat-los como des-          non". Die Geschlechtsnatur des mannmnnlichen Lie-
                                                    ben (1868), Leipzig, Max Spohr, 1898  Sandor Ferenc-
viantes ou doentes e sem jamais impedi-los de       zi, "tats sexuels intermdiaires" (1905), in Les crits
se tornarem psicanalistas, se assim o desejas-      de Budapest, Paris, EPEL, 1994, 243-56; "O homoero-
sem --, como tambm, ao fundar em 1964 a            tismo; nosologia da homossexualidade masculina", in
cole Freudienne de Paris* (EFP), aceitou in-       Psicanlise II, Obras completas, 1913-1919 (Paris,
                                                    1970), S. Paulo, Martins Fontes, 1992, 117-30  Claude
clusive o princpio da integrao deles como
                                                    Lorin, Le Jeune Ferenczi, Paris, Aubier, 1983; Sandor
didatas. Assim, o lacanismo* foi, na Frana* e,     Ferenczi, de la mdecine  la psychanalyse, Paris,
mais tarde, nos pases onde se implantou, a         PUF, 1993  Irving Bieber (org.), Homosexuality. A Psy-
ponta de lana de uma reativao da tolerncia      choanalytic Study, N. York, Basic Books, 1962  Jac-
freudiana para com a homossexualidade. Essa         ques Lacan, O Seminrio, livro 8, A transferncia
                                                    (1960-1961) (Paris, 1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
tolerncia se prendia  prpria personalidade de    1992  Hans Mayer, Les Marginaux. Femmes, Juifs et
Lacan. Libertino e sedutor das mulheres, leitor     homosexuels dans la littrature europenne (Frankfurt,
de Sade e de Bataille e grande admirador da         1975), Paris, Albin Michel, 1994  Michel Foucault,
obra de Foucault, ele no tinha nenhum precon-      Histria da sexualidade: vol. 2, O uso dos prazeres, vol.
                                                    3, O cuidado de si (Paris, 1984), Rio de Janeiro, Graal,
ceito em relao s diversas formas da sexuali-     1985  Frank J. Sulloway, Freud, Biologist of the Mind,
dade humana. Do ponto de vista terico, no         N. York, Basic Books, 1979  John Boswell, Chris-
introduziu modificaes na doutrina freudiana       tianisme, tolrance sociale et homosexualit. Les Ho-
                                                                                    Horney, Karen        355

mosexuels en Europe occidentale des dbuts de l're            Marcada pelo desentendimento parental e
chrtienne au XIVe sicle (Chicago, 1980), Paris, Gal-
limard, 1985; Les Unions du mme sexe dans l'Europe
                                                           preocupada em escapar ao destino que lhe re-
antique et mdivale (N. York, 1994), Paris, Fayard,       servavam, manifestou sua revolta tendo muitas
1996  Philippe Aris e Andr Bjin (orgs.), Sexualits    relaes amorosas. Assim, escapava a uma
occidentales, Paris, Seuil, col. "Points", 1982  Pierre   depresso latente. Entretanto, ao contrrio de
Thuillier, "L'Homosexualit devant la psychiatrie", La
Recherche, 213, vol.20, setembro de 1985, 1128-39 
                                                           outras mulheres de sua poca, que preferiam a
James Lieberman, La Volont en acte. La Vie et l'oeu-      liberdade  maternidade, logo teve o desejo de
vre d'Otto Rank (N. York, 1985), Paris, PUF, 1991         ter vrios filhos. Em outubro de 1909, instalou-
Kenneth Lewes, The Psychoanalytical Theory of Male         se em Berlim, onde se casou com Oskar Horney,
Homosexuality, Londres, Quartet, 1988  lisabeth
Young-Bruehl, Anna Freud: uma biografia (N. York,          que se tornou um rico industrial. Foi l que ficou
1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Judith Butler,        conhecendo Karl Abraham*, com quem entrou
Gender Trouble. Feminism and the Subversion of Iden-       em anlise. Rapidamente, ele atribuiu seus sin-
tity, N. York, Routledge, 1990  Phyllis Grosskurth, O
                                                           tomas de depresso  atrao que ela sentia
crculo secreto (Londres, 1991), Rio de Janeiro, Imago,
1992  lisabeth Badinter, XY. Sobre a identidade mas-     pelos homens fortes e a uma admirao recal-
culina (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Nova Fronteira,      cada por seu pai. Abraham aplicava assim ao
1994, 2 ed.                                               "caso Horney" a tese clssica da inveja do
 DIFERENA SEXUAL; FETICHISMO; FLIESS, WIL-
                                                           pnis, que seria contestada por Melanie Klein*,
HELM; GRODDECK, GEORG; LIBIDO; NARCISISMO;
                                                           Ernest Jones* e a escola inglesa. Desenvolveu
PERALDI, FRANOIS; PULSO; SADOMASOQUISMO;                 essa tese no congresso da International Psy-
SPANUDIS, THEON; STOLLER, ROBERT; STRACHEY,                choanalytical Association* (IPA) de Haia em
JAMES; TRANSEXUALISMO; WEININGER, OTTO.                    1920, afirmando que as mulheres desejam in-
                                                           conscientemente ser homens porque, na sua
                                                           infncia, tiveram inveja do pnis e desejaram
horda primitiva                                            ter um filho de seus pais. Essa interpretao
 TOTEM E TABU.                                             simplista teve um efeito desastroso no trata-
                                                           mento de Karen Horney. Temendo ser subme-
                                                           tida a uma "transferncia paterna", a jovem
                                                           interrompeu a anlise. Posteriormente, valori-
Horney, Karen, ne Danielsen
                                                           zaria sempre o princpio da auto-anlise* contra
(1885-1952)
                                                           o tratamento clssico, e consideraria um insulto
psiquiatra e psicanalista americana
                                                           s mulheres a teoria da sexualidade feminina*.
    Nascida em Eilbeck, perto de Hamburgo, na              No h nenhuma dvida de que, atravs de sua
Alemanha*, Karen Horney era de uma famlia                 crtica  obra freudiana, atacava primeiro a
protestante. Seu pai, de origem dinamarquesa,              maneira selvagem com que Abraham a tratara.
era capito da Marinha, e sua me, vinte anos
                                                               Quando seu pai morreu, no momento em
mais jovem que ele, se casara no por amor, mas
                                                           que estava grvida de sua primeira filha (teria
por medo de ficar solteira. Filha de um arquite-
to, sentia-se superior a ele socialmente e lhe             trs), atravessou um perodo de depresso acen-
reprovava sua ortodoxia luterana, seu conserva-            tuado. Alguns meses depois, logo aps o parto,
dorismo, suas imprecaes e suas preces. Sepa-             perdeu a me, "o grande amor de [sua] infn-
raram-se em 1904.                                          cia", e pensou ento em retomar um tratamento
    Desde a juventude, Karen dedicou um amor               com outro analista. Afinal, desistiu, preferindo
total  me e rejeitou o pai, que no queria que           refugiar-se na auto-anlise.
ela estudasse, desejando que se consagrasse aos                Em 1912, apresentou um trabalho sobre a
trabalhos domsticos. Como todas as mulheres               educao das crianas e depois da guerra esco-
de sua gerao, teve de enfrentar uma luta vio-            lheu o div de Hanns Sachs* para fazer uma
lenta para ter acesso  liberdade de fazer suas            anlise didtica*. Integrando-se ao movimento
prprias escolhas. Apoiada pela me, conseguiu             psicanaltico, foi a primeira mulher professora
matricular-se na faculdade de medicina de Frei-            no Instituto Psicanaltico Berlinense e a primei-
burg.                                                      ra tambm a criticar a famosa tese freudiana
356     hospitalismo

sobre a feminilidade, respondendo a Abraham         rncia no Instituto de Psicoterapia dirigido pelo
no congresso da IPA em Berlim, em 1922.             nazista Matthias Heinrich Gring*. Este se
    No perodo entre-guerras, o questionamento      mostrou encantado com seu antifreudismo e, a
sobre a relao precoce da criana com a me e      seu pedido, Karen lhe mandou um exemplar do
sobre a especificidade da sexualidade feminina      texto no qual se baseava sua conferncia: "A
levou  reformulao terica completa do sis-       necessidade neurtica de amor".
tema de pensamento freudiano, da qual o klei-           Nessa poca, seu desejo de reconhecimento
nismo* foi um dos componentes maiores. Do           era mais forte que o seu combate em favor da
interesse dedicado ao pai, ao patriarcado* e ao     feminilidade. Tornando-se clebre, Karen Hor-
dipo* clssico, passou-se a uma redefinio        ney mostrou-se ento de um autoritarismo to
do materno, do feminino e a uma crtica do que      "masculino" quanto o que criticava nos ho-
era sentido como um poder masculino.                mens, e  certamente esse amor de si que explica
    Nessa perspectiva, Karen Horney deixou o        sua cegueira em relao a Gring. Como alguns
terreno do freudismo* e orientou-se para o cultu-   psicanalistas homens, ela transgrediu as regras
ralismo*. Procurou ento fundamentar a psicolo-     do tratamento, tendo uma ligao com um de
gia da mulher sobre uma identidade prpria, em      seus analisandos.
ruptura com a noo de universalismo da espcie         Em 1941, invejada pelos colegas por seu
humana. Em 1926, afirmou que a sociedade mas-       sucesso, foi impedida de fazer a formao e
culina recalcava a inveja da maternidade dos ho-    obrigada, como mais tarde Jacques Lacan*, a
mens. Depois, em 1930, desenvolveu a tese           deixar a NYPS. Fundou ento a Association for
segundo a qual a prpria psicanlise, como obra     the Advancement of Psychoanalysis (AAP), on-
do "gnio masculino", no podia de forma alguma     de logo foram admitidos, como membros ou
resolver a questo feminina.                        conferencistas, alguns dos grandes dissidentes
    As posies de Karen Horney no estavam         do freudismo legitimista que tomaram o cami-
longe das de Wilhelm Reich* ou de Erich             nho do culturalismo, entre eles Harry Stack
Fromm*, ambos em ruptura com o movimento            Sullivan*, Margaret Mead*, Abram Kardiner*,
psicanaltico internacional. Em 1923, separada      Clara Thompson (1893-1958). Mas Sullivan e
h cinco anos de seu marido e marginalizada em      Thompson logo deixaram o novo grupo, depois
sua sociedade, decidiu emigrar para os Estados      da proibio feita a Fromm de ensinar, porque
Unidos. Instalou-se em Chicago, onde Franz          no era mdico.
Alexander*, que fora seu aluno, a nomeou as-            A partir de 1950, Karen Horney desenvolveu
sistant director do instituto que acabara de fun-   uma nova teoria, a "auto-realizao de si", que
dar. Um ano depois, obteve a cidadania ameri-       no deixava de ter relao com outras correntes
cana e comeou uma nova vida, com novas             do neofreudismo* americano, fundadas na
ligaes amorosas. Em 1934, tornando-se             reconstruo do self ou na autonomia do eu.
                                                    Karen Horney morreu de cncer em 1952.
companheira de Erich Fromm, que tambm
emigrara, aceitou um lugar de professora na          Karen Horney, La Psychologie de la femme (N. York,
Sociedade Psicanaltica de Washington-Balti-        1967), Paris, Payot, 1969; L'Auto-analyse (N. York,
more. Mas foi em Nova York que se instalou e,       1943), Paris, Stock, 1993  Susan Quinn, A Mind of her
apesar da oposio violenta de Sandor Rado*,        Own. The Life of Karen Horney, N. York, Summit Books,
                                                    1987  Janet Sayers, Mes da psicanlise (Londres,
foi eleita membro da New York Psychoanalytic        1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992.
Society (NYPS) em 1935, onde, durante vrios
anos, teve um sucesso considervel com os            ANTROPOLOGIA; AUTO-ANLISE; CULTURALISMO;
estudantes em seus cursos e publicaes. Quan-      EGO PSYCHOLOGY; ESTADOS UNIDOS; MU-
do Marianne, sua filha, abraou a carreira de       LHERES; RANK, OTTO; SEXUALIDADE FEMININA.
psiquiatra, ela no hesitou em fazer, durante
quatro anos, uma anlise com Erich Fromm.
    Em dezembro de 1936, por ocasio de uma         hospitalismo
passagem por Berlim, onde devia ir para tratar      a l. Hospitalismus; e s p. hospitalismo; f r. hos-
de seu divrcio, Karen Horney deu uma confe-        pitalisme; ing. hospitalism
                                                                Hug-Hellmuth, Hermine von         357

Termo criado por Ren Spitz* em 1945 para desig-     dedicada  psicanlise de crianas* na revista
nar um estado de alterao profunda, fsica e ps-   Imago*. Foi assim que se tornou, depois dele e
quica, que se instala progressivamente nas crian-    logo antes de Anna Freud* e Melanie Klein*, a
as muito pequenas, durante os primeiros dezoito
                                                     primeira clnica nesse campo. Desenvolveu ati-
meses de vida, por ocasio de um abandono ou de
                                                     vidades de jogo e desenho, e publicou artigos
uma temporada prolongada numa instituio hos-
                                                     sobre o tema.
pitalar.
                                                         Fascinados com essa "doutora", que era de
    Os sinais do hospitalismo, diferentes dos da
                                                     uma ortodoxia sem falhas, Freud e seus fiis no
depresso anacltica*, manifestam-se por um
                                                     viram -- ou no quiseram ver -- que Hermine
atraso no desenvolvimento corporal, por uma
                                                     von Hug-Hellmuth aplicava as teses do mestre
incapacidade de adaptao ao meio e, s vezes,
                                                     ao "caso" do seu jovem sobrinho, fazendo in-
por um mutismo que se assemelha ao autismo*
                                                     terpretaes selvagens. Assim, quando este lhe
e pode levar  psicose*. Nos casos de total
                                                     contou em uma carta que tinha matado cinco
carncia afetiva, ligada  falta de qualquer vn-
                                                     vespas com um basto que introduzira no ninho
culo materno, os distrbios podem chegar ao
                                                     e que depois foi picado, ela comentou esse
marasmo e  morte. Os estudos efetuados por
                                                     acontecimento em jargo psicanaltico: "Ele
Ren Spitz conduziram, depois de 1945 e em
                                                     nos desvela boa parte de sua curiosidade sexual
todos os pases do mundo, a uma reforma das
condies de hospitalizao de crianas peque-       e de seu sadismo, que expressa no ato de perfu-
nas a partir do ensino da psicanlise. Na Fran-      rar o ninho [...]. Revela o desejo que sente pela
a*, Jenny Aubry* foi a primeira a demonstrar        me e seu esprito matreiro" etc.
as carncias afetivas no meio hospitalar.                Nascido em 1906, Rolf Hug era filho natural
                                                     de Antonia, irm consangnea de Hermine.
 PSICANLISE DE CRIANAS.                            Quando sua me morreu, foi enviado para uma
                                                     ama, mudou dezoito vezes de domiclio, e teve
                                                     quatro tutores sucessivos, entre os quais Sadger.
Hug-Hellmuth, Hermine von, ne                       Com a idade de 13 anos, acabou sendo acolhido
Hug Von Hugenstein (1871-1924)                       pela tia. Esta tanto experimentou nele as teses
psicanalista austraca                               freudianas que acabou vtima de sua cobaia. Em
   Nascida em Viena*, Hermine Hug von                setembro de 1924, procurando roubar-lhe di-
Hugenstein era filha de um oficial do exrcito       nheiro e vendo que ela comeava a gritar, Rolf
austro-hngaro, cuja famlia, impregnada de          a estrangulou, depois de sufoc-la com uma
anti-semitismo, fora arruinada pela crise finan-     mordaa.
ceira de 1873. Com a idade de 12 anos, viu sua           A comunidade psicanaltica vienense foi
me morrer de uma longa doena e foi marcada         atingida por esse escndalo. Condenado a doze
durante toda a infncia pela violenta rivalidade     anos de priso, Rolf foi libertado em 1930 e
que a opunha  sua irm mais velha, Antonia.         apressou-se a ir pedir dinheiro a Paul Federn*,
Inicialmente professora primria, foi admitida       ento presidente da Wiener Psychoanalytische
na Universidade de Viena, onde defendeu tese         Vereinigung (WPV). Assim, queria ser in-
de doutoramento sobre alguns aspectos da ra-         denizado por ter servido de material humano
dioatividade. Voltou depois  sua primeira           para as experincias interpretativas da tia. Co-
profisso e comeou, aos 36 anos, uma anlise        mo resposta, Edward Hirschmann* o aconse-
com Isidor Sadger*, que tambm era seu mdi-         lhou a fazer um tratamento com Helene
co de famlia. Com tal analista, Hermine teve a      Deutsch*.
sua patologia acentuada: dogmatismo, rigidez,            Hermine von Hug-Hellmuth no foi apenas
sentimento de perseguio.                           a herona desse trgico folhetim. Pioneira da
   Em 1913, tornou-se membro da Sociedade            psicanlise de crianas*, mostrou-se tambm
Psicolgica das Quartas-Feiras*, sob o nome de       uma notvel falsificadora, fabricando inteira-
Hermine von Hug-Hellmuth, logo depois da             mente o que ficaria como sua obra maior: Di-
desgastante ruptura entre Sigmund Freud* e           rio de uma adolescente de 11 a 14 anos e meio.
Carl Gustav Jung*. Freud lhe confiou a seo         Alis, ela tinha a quem herdar, pois em sua
358     Hungria

famlia sempre se dissimulara cuidadosamente             Na Frana, o Dirio foi traduzido por Clara
a verdade e falsificara o registro civil: Antonia    Malraux (1897-1982) e publicado em 1928 em
passava por irm de Hermine, ao passo que era        verso resumida. Depois, foi reeditado integral-
filha ilegtima e escondia sua idade real.           mente em 1975, depois em 1987 e 1988. Em
    Realizado a partir das efetivas lembranas       cada uma dessas ocasies, foi apresentado, por
de infncia de Hermine, o Dirio foi apresenta-      psicanalistas pouco preocupados com a his-
do ao pblico em 1919, por uma editora anni-        tria, como o "verdadeiro" dirio de uma "ver-
ma, como o autntico dirio de uma verdadeira        dadeira" adolescente. No volume XII das Oeu-
adolescente chamada Grete Lainer. O nome da          vres compltes de Freud, realizado pela equipe
autora era forjado sobre o da me de Hermine         de Jean Laplanche e Andr Bourguignon (1920-
(Leiner). A obra era acompanhada de uma car-         1996) em 1988, o prefcio de Freud foi acompa-
ta-prefcio de Sigmund Freud, datada de 1915,        nhado de uma nota que no mencionava a ree-
na qual se podia ler que se tratava de uma jia,     dio francesa de 1975 e confundia a edio
mostrando a sinceridade de que era capaz a alma      vienense de 1919 com a de 1923. A autentici-
infantil no estado presente da civilizao. O fato   dade do Dirio no era questionada, Cyril Burt
de que Freud se tenha deixado iludir por essa        foi tratado de falsificador e a histria do assas-
falcatrua, que ilustrava maravilhosamente suas       sinato no foi mencionada. Na edio de 1994,
teses, no impediu Cyril Burt, membro da Bri-        os autores corrigiram o erro.
tish Psychoanalytical Society (BPS), de denun-        Hermine von Hug-Hellmuth, Journal psychanalytique
ci-la. Ele conhecia muito bem o assunto por-        d'une petite fille (Viena, 1919, 1923), Paris, Denol,
que ele prprio recorrera ao uso de dados falsos     1988, prefcio de Sigmund Freud, ESB, XIV, 385; GW,
para teorizar suas hipteses sobre a hereditarie-    X, 456; SE, XIV, 341; OC, XIII, 305; Essais psychana-
                                                     lytiques. Destin et crits d'une pionnire de la psycha-
dade da inteligncia.
                                                     nalyse, textos reunidos, apresentados e traduzidos por
    Saudado por Stefan Zweig* e Lou Andreas-         Dominique Soubrenie, prefcio de Jacques Le Rider,
Salom*, o Dirio teve um sucesso consider-         posfcio de Yvette Tourne, Paris, Payot, 1991  Paul
vel. Por ocasio da reedio de 1923, Hermine        Roazen, Freud e seus discpulos (N. York, 1971), S.
                                                     Paulo, Cultrix, 1978  Wolfgang Huber, "Die erste Kind-
von Hug-Hellmuth se declarou, em um novo
                                                     eranalytikerin", in Psychoanalyse als Herausforderung,
prefcio, datado de 1922, como editora do do-        Festschrift, Viena, I.A. Caruso, 1980  Angela Graf-
cumento, que apresentou como o "verdadeiro"          Nold, "Der Fall Hermine Hug-Helmmuth", Eine Ges-
dirio de uma "verdadeira" adolescente e no         chicthe des frhen Kinder-Psychoanalyse, Munique-
                                                     Viena, Verlag Internationale Psychoanalyse, 1988 
como uma fico escrita por ela. Apesar disso,
                                                     George MacLean e Ulrich Rappen, Hermine Hug-Hell-
Freud o retirou de circulao.                       muth. Her Life and Work, N. York e Londres, Routledge,
    Depois da morte da autora, o caso do assas-      1991.
sinato e do falso dirio foi apagado dos anais do
movimento freudiano, a tal ponto que, no fim
do sculo XX, alguns psicanalistas ainda acre-       Hungria
ditavam que o homicdio e a falsificao foram           No corao do Imprio Austro-Hngaro,
calnias difundidas pelos inimigos de Freud.         Budapeste foi, depois de Viena*, sua irm g-
Foi preciso esperar pelos trabalhos do his-          mea, a segunda cidade da histria a abrir-se ao
toriador americano Paul Roazen, do historiador       freudismo*. A atividade psicanaltica foi ali de
austraco Wolfgang Huber (1931-1989), da psi-        uma grande riqueza, no s pelo lugar excep-
cloga sua Angela Graf-Nold e enfim do             cional ocupado por Sandor Ferenczi*, intelec-
germanista francs Jacques Le Rider, para que        tual de alto nvel e notvel clnico, mas tambm
o conjunto dos fatos fosse conhecido em seus         porque os meios literrios e artsticos de
mnimos detalhes.                                    Budapeste manifestaram, um pouco como os
    Alis, esses trs autores no tm o mesmo        surrealistas em Paris, um entusiasmo imediato
ponto de vista. S Angela Graf-Nold adota a          pelos fenmenos relativos ao inconsciente*.
perspectiva de uma historiografia* revisionista      Imersos em uma sociedade em plena mutao,
e antifreudiana para contestar a realidade da        os fundadores do movimento psicanaltico hn-
sexualidade infantil.                                garo tiveram assim um destino original, des-
                                                                                    Hungria      359

pojado de qualquer conformismo. A maioria           dada em 1908 e animada por Hugo Ignotus*,
deles produziu trabalhos inovadores, de Mela-       amigo de Ferenczi e tradutor das obras de
nie Klein* a Geza Roheim*, de Imre Hermann*         Sigmund Freud*, reuniu durante quarenta anos
a Michael Balint*, passando por Franz Alexan-       uma pliade de escritores de orientaes es-
der*, Ren Spitz* ou Sandor Rado*.                  tticas diversas: Endre Ady (1877-1919), Miha-
    Em maro de 1849, aps a derrota das revo-      ly Babits (1883-1941), e depois o "poeta prole-
lues na Europa, Francisco-Jos suprimiu a         trio" Attila Jozsef (1905-1937), que fez trs
Constituio hngara para integrar o pas ao        tratamentos analticos antes de se suicidar com
Imprio. Recusando-se a submeter-se e es-           soda custica.
timulados pelo grande poeta Sandor Petffi              "Nyugat abria suas pginas para todas as
(1823-1849), os hngaros desencadearam en-          novas idias vindas do Ocidente, escreveu Zsu-
to uma insurreio geral, da qual participou o     za Gombos,  arte pela arte, ao engajamento
pai de Ferenczi. Proclamaram a destituio dos      social, ao naturalismo, ao simbolismo, ao im-
Habsburgo. Mas a revolta logo foi reprimida         pressionismo [...]. Encontrava pblico e apoio
pela interveno do exrcito imperial. Lajos        financeiro junto  burguesia urbana, principal-
Kossuth (1802-1894) e Gyula Andrassy (1823-         mente a de Budapeste, tambm esta defensora
1890), organizadores do movimento de in-            de um radicalismo poltico".
dependncia, foram obrigados a exilar-se.               Os grupos artsticos se aproximavam e man-
    S no ano de 1868 surgiu um acordo pelo         tinham contato com Viena. Assim, o pintor
qual a Hungria se tornou um reino indepen-          Robert Bereny, membro do Grupo dos Oito,
dente, mas ligado por uma unio hereditria        tornou-se amigo pessoal de Ferenczi, enquanto
dinastia dos Habsburgo. Favorvel  causa da        Bela Balazs (1884-1949) acompanhava os se-
liberdade, a imperatriz Elisabeth teve um papel     minrios de Georg Simmel*. Quanto a Spitz,
capital nas negociaes com Andrassy para a         freqentava o Crculo do Domingo, criado por
criao do que foi chamado a partir de ento        Georg Lukacs (1885-1971).
monarquia austro-hngara. Foi coroada rainha            Depois de seu encontro com Freud, Ferenczi
da Hungria.                                         tentou em vo despertar o interesse dos meios
    O pas tomou ento o caminho de uma mo-         mdicos de Budapeste pela psicanlise*. Cho-
dernizao acelerada. Acentuou-se a distncia       cou-se com uma recusa categrica. Assim, de-
entre as cidades e o campo, onde ainda reina-       cidiu procurar apoio nos meios literrios, aber-
vam estruturas herdadas do sistema feudal. Po-      tos s idias de vanguarda. A partir de 1910,
voada por minorias -- eslovaca, alem, croata,      desenvolveu uma intensa atividade clnica te-
srvia e romena --, a Hungria foi agitada por       rica e institucional. Depois de fundar a Interna-
querelas de nacionalidades. Cada um reivin-         tional Psychoanalytical Association* (IPA), es-
dicava sua diferena e sua autonomia, enquanto      tabeleceu o grupo hngaro. Em maio de 1913,
as classes dominantes preconizavam a "magia-        criou a Sociedade Psicanaltica de Budapeste
rizao" que, favorecendo a assimilao dos         com Hollos, Rado e Ignotus. Essa foi a terceira
judeus, faria deles aliados da burguesia liberal.   instituio freudiana, depois das de Viena e
    Foi nesse contexto que nasceu em Budapes-       Zurique. Pouco depois, Ernest Jones* fundou a
te, no incio do sculo, um grande movimento        London Psychoanalytic Society (LPS).
cultural e literrio, cuja ambio era depurar a        A Primeira Guerra Mundial dificultou as
antiga Hungria de suas iluses passadistas e        atividades de Ferenczi. No obstante, depois de
transform-la em um pas moderno, semelhante        ser transferido para o servio de neurologia do
s democracias ocidentais. Entre as numerosas       Hospital Maria Valeria em Budapeste, ocupou-
revistas, como Sculo XX (Huszadik Szazad) ou       se de neuroses de guerra*, contribuindo assim
Teraputica (Gyogyaszat), nas quais se deba-        para chamar a ateno das autoridades mdicas
tiam sexualidade*, emancipao dos povos,           para as teses freudianas. Tambm conseguiu
homossexualidade*, Art Nouveau, cincias so-        organizar na Hungria o quinto congresso da
ciais ou estados psquicos, Nyugat foi uma das      IPA. Este se realizou na Academia de Cincias
que mais se interessaram pela psicanlise. Fun-     de Budapeste, nos dias 28 e 29 de setembro de
360     Hungria

1918, na presena de representantes dos gover-       literatura, filosofia, arte, mitologia, histria das
nos alemo, austraco e hngaro. O sucesso           religies e das civilizaes. Freud insistia em
desse encontro foi considervel: "Estou nadan-       que, em nenhum caso, a psicanlise devia limi-
do em satisfao, tenho o corao alegre, escre-     tar seu campo de aplicao s patologias. Esse
veu Freud em uma carta de 30 de setembro, pois       programa nunca seria realizado: nem em
sei que o filho-de-todos-os-meus-cuidados, a         Budapeste, nem em Viena, nem em nenhuma
obra de minha vida, ser protegida pelo interes-     universidade do mundo.
se que voc e outros manifestam, e ser assim            A queda da Comuna de Budapeste e a repres-
preservada para o futuro. Verei chegarem tem-        so sangrenta organizada pelas tropas do almi-
pos melhores, nem que seja de longe."                rante Miklos Horthy (1868-1957), que se pro-
    Nomeado chefe do governo, Mihaly Karolyi         clamou "regente", puseram fim a essa experin-
(1875-1955) proclamou a Repblica. Em janei-         cia. Ferenczi perdeu o seu lugar: "O aspecto
ro de 1919, foi eleito presidente, mas, trs meses   mais repugnante dos dez primeiros anos do
depois, Bela Kun (1886-1939), aliado aos             regime de Horthy, escreveu William Johnston,
socialistas, proclamou a Repblica dos Conse-        foi certamente o Terror Branco de 1920. Com
lhos, inspirada na revoluo bolchevique: "Es-       um esprito de vingana [...] a tortura foi usada
tvamos em situao muito favorvel, escreveu        a torto e a direito e restabeleceu-se a flagelao
Georg Lukacs, pois com ou sem o socialismo,          pblica, enquanto os assassinatos polticos
a vida cultural hngara era de uma grande ri-        eram encobertos e os judeus, refugiados desde
queza [...]. Desde o primeiro dia, a totalidade      1914, eram expulsos."
dos intelectuais estava disposta a colaborar com         A onda de anti-semitismo e de represso
o regime."                                           obrigou os psicanalistas a se exilarem. A maio-
    Nessa data, a Sociedade Psicanaltica de         ria deles emigrou, primeiro para Berlim, depois
Budapeste se enriqueceu com novos membros:           para Londres (Melanie Klein, Michael Balint)
Melanie Klein, Zsigmond Pfeifer, Geza Ro-            ou para os Estados Unidos* (Sandor Rado, Ge-
heim, Imre Hermann, Erzsebet Revesz (1887-           za Roheim). Expulso por seus colegas da Socie-
1923). Aproveitando a instaurao da Primeira        dade Mdica, Ferenczi foi obrigado a se prote-
Repblica, os estudantes da faculdade de medi-       ger. Continuou em Budapeste, mas renunciou a
cina redigiram uma petio pela qual solicita-       qualquer atividade oficial para se dedicar  sua
vam o ensino da psicanlise na universidade.         obra e  sua prtica clnica. A despeito da partida
Citavam os nomes de Freud, Eugen Bleuler*,           de seus melhores membros, a pequena As-
James Jackson Putnam* para exigir a criao de       sociao Psicanaltica de Budapeste conseguiu
uma ctedra, que seria confiada a Ferenczi.          manter-se, bem ou mal, com cerca de vinte
Depois do relatrio negativo de um primeiro          membros. Em 1931, at pde abrir uma policl-
perito, que qualificou a psicanlise de "porno-      nica para o tratamento de adultos.
grafia", a candidatura de Ferenczi foi aceita e o        O fascismo destruiu todas as esperanas da
decreto assinado por Lukacs, comissrio do           escola hngara de psicanlise. E foi no exlio
povo junto  Instruo Pblica e  Cultura do        que seus melhores representantes continuaram
governo de Bela Kun. Em 10 de junho, Ferenczi        a servir a sua causa.
inaugurou seu curso em um anfiteatro repleto             A Hungria no se recuperou do regime Hor-
de alunos entusisticos.                             thy. Depois da morte de Ferenczi e do advento
    Nessa ocasio, Freud redigiu um artigo pu-       do nazismo* na Alemanha*, as condies do
blicado diretamente em hngaro, "Deve-se en-         exerccio da psicanlise se tornaram cada vez
sinar a psicanlise na universidade?" Nele, ci-      mais difceis. As sesses da Sociedade eram
tava todas as matrias necessrias ao currculo      vigiadas pela polcia. Primeiro aliado a Mus-
do estudante de psicanlise. No s enfatizava       solini e depois a Hitler, o governo do regente se
a necessidade de bem conhecer a histria das         apoiou em suas milcias, os Cruzes Flechadas,
psicoterapias*, a fim de compreender as razes       para instaurar o terror contra os judeus e os
objetivas da superioridade do mtodo psicana-        oponentes. Em 1942, a associao foi proibida,
ltico, como propunha tambm um programa de          e Hollos, que sucedera a Ferenczi na direo,
                                                                                        Hungria       361

escapou por pouco  deportao, graas  ao       Pszichoanalitikus Egyesulet (MPE) e publicou
do diplomata sueco Raoul Wallenberg. Em             uma revista, Psychiatria hungarica. No fim do
maro de 1944, depois da invaso da Hungria         sculo XX, ela conta com 45 membros, sendo
pelas tropas alems, vrios psicanalistas pere-     os principais deles alunos de Hermann, espe-
ceram nos campos de extermnio: Miklos              cialmente Livia Nemes, Gyorgy Hidas, Gyorgy
Gimes (mdico e aluno em formao), Zsig-           Vikar, que se esforaram para que a gerao*
mond Pfeifer, Geza Dukes (especialista em de-       jovem conhecesse a histria da tenaz escola
linqncia infantil), Nikola Sugar*, Josef Eisler   hngara.
(neurologista e crtico de arte). S Imre Her-
mann continuou em Budapeste. At o fim de            Sigmund Freud, "Sobre o ensino da psicanlise nas
                                                    universidades" (1919), ESB, XVII, 217-24; SE, XVII,
sua vida, conseguiu manter a chama, em com-         169-173; in Rsultats, ides, problmes, I, Paris, PUF,
panhia de alguns outros clnicos.                   1984, 239-43  Action Potique, 49, nmero especial
    Depois da tomada do poder pelos comunis-        sobre a Comuna de Budapeste, 1972  Gyorgy Vikar,
tas, a Hungria teve que sofrer a cruzada contra     "L'cole de Budapest", Critique, 346, maro de 1976,
                                                    237-52  Charles Dautrey e Jean-Claude Guerlain
a psicanlise no mbito da Jdanovchtchina, e a      (orgs.), L'Activisme hongrois, Bayeux, Goutal-Darly,
Sociedade de Budapeste foi dissolvida em            1979  Livia Nemes, "Le Destin des psychanalystes
1948. Todavia, graas  presena muito "pa-         hongrois pendant les annes du fascisme", Le Coq-H-
triarcal" de Hermann, o grupo hngaro conse-        ron, 98, 1986  Jean-Michel Palmier, "La Psychanalyse
guiu sobreviver, oculto sob o manto da As-          in Hongrie", in Roland Jaccard (org.), Histoire de la
                                                    psychanalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982, 145-87 
sociao Psiquitrica Hngara.                      William M. Johnston, L'Esprit viennois. Une histoire
    Em 1971, depois de discusses com a dire-       intellectuelle et sociale, 1848-1938 (N. York, 1972),
o da IPA, Hermann pediu que o grupo fosse         Paris, PUF, 1985  "Situation de la psychanalyse en
                                                    Hongrie", entrevista com Gyorgy Hidas, in Revue Inter-
reintegrado como sociedade componente, o que
                                                    nationale d'Historie de la Psychanalyse, 1, 1988, 505-8
foi recusado. Os psicanalistas hngaros, que         Michelle Moreau-Ricaud, "La Cration de l'cole de
tanto lutaram para manter uma prtica em            Budapest", Revue Internationale d'Histoire de la Psy-
Budapeste, foram tratados como iniciantes e         chanalyse, 3, 1990, 419-37  Andr Haynal, "La Psy-
convidados a se submeterem ao processo cls-        chanalyse hongroise sous les rgimes totalitaires",
                                                    Revue Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 5,
sico de admisso. Reconhecida primeiramente         1992, 541-51  Eva Brabant-Ger, Ferenczi et l'cole
como grupo de estudos, a sociedade foi depois       hongroise de psychanalyse, Paris, L'Harmattan, 1993.
aceita como sociedade provisria em 1983, no
congresso da IPA em Madri, um ano antes da           COMUNISMO; FREUDO-MARXISMO; HISTRIA DA
morte de Hermann. Tomou o nome de Magyar            PSICANLISE; TCNICA PSICANALTICA.
                                                          I
Ichspaltung                                                     sua sede no eu e cuja realizao exige um
 CLIVAGEM (DO EU)                                               critrio de avaliao: "A formao do ideal
                                                                seria, do lado do eu", escreve Freud, "a con-
                                                                dio do recalque."
id                                                                  Em 1917, nas Conferncias introdutrias
 ISSO.                                                          sobre psicanlise*, Freud modifica sua concep-
                                                                o do ideal do eu. Este converte-se ento numa
                                                                instncia do eu* que se encarrega das funes
ideal do eu                                                     at ento atribudas  "conscincia moral"
al. Ichideal; esp. ideal del yo; fr. idal du moi; ing.         (Gewissen), que permitia ao eu avaliar suas
ego ideal                                                       relaes com seu ideal. Alm disso, o ideal do
Sigmund Freud* utilizou essa expresso para de-                 eu participa da formao do sonho, uma vez que
signar o modelo de referncia do eu*, simultanea-                concebido como responsvel pela censura*
mente substituto do narcisismo* perdido da infn-               dos sonhos.
cia e produto da identificao* com as figuras                      Foi em 1921, em Psicologia das massas e
parentais e seus substitutos sociais. A noo de                anlise do eu*, que Freud atribuiu ao ideal do
ideal do eu  um marco essencial na evoluo do
                                                                eu um lugar de primeiro plano. Fez dele uma
pensamento freudiano, desde as reformulaes
                                                                instncia bem distinta do eu, capaz de "se enga-
iniciais da primeira tpica* at a definio do su-
pereu*. No Brasil tambm se usa "ideal do ego".
                                                                jar em conflitos com ele". A essa instncia,
                                                                recapitulou Freud, "chamamos ideal do eu, e
   A dimenso de um ideal como modalidade
                                                                lhe atribumos como funes a auto-observa-
de referncia do eu aparece explicitamente em
Freud no texto de 1914 dedicado  introduo                    o, a conscincia moral, a censura onrica e o
do conceito de narcisismo.                                      exerccio da influncia essencial no recalque.
   Para que se possa manifestar a idealidade,                  Dissemos que ela era herdeira do narcisismo
preciso, com efeito, que a libido* j no seja                  primrio, em cujo seio o eu da criana bastava
unicamente objetal e que se desenhe a pers-                     a si mesmo".  nesse lugar do ideal do eu que
pectiva de uma relao do sujeito* consigo                      o sujeito instala o objeto de sua fascinao
mesmo, tomado como objeto amoroso. Primiti-                     amorosa, bem como o hipnotizador ou o lder,
vamente, diz Freud, a criana "era seu prprio                  assim se transformando o ideal do eu no esteio
ideal".  a renncia  onipotncia infantil e ao                do principal eixo de constituio do coletivo
delrio de grandeza, caractersticos do narcisis-               como fenmeno, o que Freud j dera a entender
mo infantil, que possibilita o surgimento de um                 no texto de 1914 sobre o narcisismo.
outro ideal. Mas Freud se interroga sobre as                        Observando essa mudana de estatuto do
modalidades dessa renncia: ela  produto da                    ideal do eu, transformado em instncia, Paul-
submisso s proibies enunciadas pelas figu-                  Laurent Assoun comentou, em 1984, que se
ras parentais, instaladas na posio de modelo                  tratava de uma operao estranha, j que todas
no momento em que a estrutura edipiana come-                    as caractersticas que acabavam de lhe ser atri-
a seu declnio. Essa renncia, portanto, situa-                budas iriam, pouco tempo depois, caracterizar
se na vertente do recalque*, processo que tem                   uma nova instncia, o supereu. Em outras pala-
                                                          362
                                                                                   identificao        363

vras, mal foi promovido, o ideal do eu j se viu     Sigmund Freud, "Sobre o narcisismo: uma introdu-
                                                    o" (1914), ESB, XIV, 89-122, GW, X, 138-70; SE,
destitudo. "Sem dvida no foi por acaso",
                                                    XIV, 67-102; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969,
precisa o autor com humor, "que esse `discreto      81-105; Conferncias introdutrias sobre psicanlise
golpe de estado metapsicolgico' teve por ce-       (1916-1917), ESB, XV-XVI; GW, XI; SE, XV-XVI; Paris,
nrio o texto constitudo pelo ensaio sobre a       Payot, 1973; Psicologia das massas e anlise do eu
                                                    (1921), ESB, XVIII, 91-184; GW, XIII, 73-161; SE, XVIII,
psicologia das massas, cheio de ressonncias
                                                    65-143; OC, XVI, 1-83; O eu e o isso (1923), ESB, XIX,
polticas."                                         23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX, 12-59; OC, XVI,
    De fato, dois anos depois, em O eu e o isso*,   255-301; Novas conferncias introdutrias sobre psi-
assistimos a uma verdadeira transmisso do          canlise (1933), ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE, XXII,
poder,  colocao entre parnteses do ideal do     5-182; OC, XIX, 83-268  Paul-Laurent Assoun,
                                                    L'Entendement freudien, Paris, Gallimard, 1984  Jac-
eu, como  indicado pelo ttulo do terceiro         ques Lacan, O Seminrio, livro 1, Os escritos tcnicos
captulo: "O eu e o supereu (ideal do eu)".         de Freud (1953-1954) (Paris, 1975), Rio de Janeiro,
    Em 1933, nas Novas conferncias introdu-        Jorge Zahar, 1979; "Observao sobre o relatrio de
                                                    Daniel Lagache: `Psicanlise e estrutura da personali-
trias sobre psicanlise*, a mutao est defi-
                                                    dade'" (1960), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,
nitivamente consumada. A trigsima primeira         Jorge Zahar, 1998, 653-91  Jean Laplanche e Jean-
conferncia d ensejo a uma apresentao por-       Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris,
menorizada da gnese e das funes do supereu,      1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.
a ttulo das quais figura o ideal do eu "com que
o eu se compara, ao qual ele aspira" e cuja          IDENTIFICAO; INTERPRETAO DOS SO-
"reivindicao ele se esfora por satisfazer,       NHOS,; A; OUTRO; TRANSFERNCIA.

atravs de um aperfeioamento cada vez
maior." "Sem dvida alguma, esclarece ainda
Freud, esse ideal do eu  o precipitado da antiga   identificao
representao parental, a expresso da admira-      al. Identifizierung; esp. identificacin; fr. identifica-
o pela perfeio que a criana atribua aos       tion; ing. identification
pais na poca".                                     Termo empregado em psicanlise* para designar
    Segundo Jean Laplanche e Jean-Bertrand          o processo central pelo qual o sujeito* se constitui
Pontalis, no se encontra em Freud uma "dis-        e se transforma, assimilando ou se apropriando,
tino conceitual" entre o ideal do eu (Ichideal)   em momentos-chave de sua evoluo, dos as-
e o eu ideal (Idealich). Todavia, como Freud        pectos, atributos ou traos dos seres humanos
emprega em diversas ocasies esses dois ter-        que o cercam.
mos, alguns autores os diferenciam. Em seu              Se o conceito de identificao  essencial na
seminrio de 1953-1954, Os escritos tcnicos        teoria freudiana do desenvolvimento psicos-
de Freud, Jacques Lacan* sustenta que Freud         sexual do indivduo, nunca recebeu, por outro
de fato designa duas funes diferentes. Lacan      lado, uma definio sistemtica, e s foi elabo-
inscreve essa distino em sua tpica: "O Ich-      rado tardiamente.
Ideal, o ideal do eu,  o outro como falante, o         De maneira ainda muito descritiva, Sig-
outro na medida em que mantm comigo uma            mund Freud* utiliza o termo identificao em
relao simblica, sublimada, a qual, em nosso      duas ocasies em sua correspondncia com Wi-
manejo dinmico,  ao mesmo tempo igual e           lhelm Fliess*. Numa carta de 17 de dezembro
diferente da libido imaginria." O eu ideal,        de 1896, depois de se rejubilar pela compreen-
formao essencialmente narcsica, constri-        so que seu amigo tem do fenmeno da angs-
se, segundo Lacan, na dinmica do estdio do        tia, ele lhe fala da "anlise de algumas fobias"
espelho*; decorre, pois, do registro do imagin-    e, em particular, da agorafobia nas mulheres.
rio e se torna uma "aspirao" ou um "sonho".       "Captars o mecanismo", explica Freud a seu
Essa comparao  introduzida por Lacan em          correspondente, "pensando nas prostitutas."
1960, em sua "Observao sobre o relatrio de       Trata-se do "recalque* da compulso de ir apa-
Daniel Lagache*", onde ele responde  inter-        nhar na rua o primeiro que aparecer, de um
veno feita por este ltimo no colquio de         sentimento de cime das prostitutas e de iden-
Royaumont, em julho de 1958.                        tificao com elas".
364     identificao

    Nessa etapa, a identificao  concebida co-    representa a totalidade do grupo. Trata-se, nesse
mo o desejo* recalcado de "agir como", de "ser      caso, do processo da "pessoa compsita", ou da
como" algum. Pouco tempo depois, no manus-         "pluralidade das pessoas psquicas": uma ter-
crito L, enviado a Fliess em 2 de maio de 1897,     ceira pessoa, desconhecida, irreal, e por isso
quando a teoria da seduo* comea a ser ques-      capaz de escapar  censura,  composta por
tionada, Freud evoca a pluralidade das personas     traos pertencentes a outras duas pessoas cujo
psquicas, problema com que torna a se deparar      aparecimento  passvel de ser recalcado.
na elaborao dos sonhos*. Ele assinala que a           Se a identificao  importante no texto de
legitimidade dessa expresso repousa no             1914 consagrado ao narcisismo*, por subjazer
processo de identificao.                          ali, ao contrrio da escolha de objeto narcsica,
    Em A interpretao dos sonhos*, a identifi-     uma escolha de objeto por apoio* graas  qual
cao comea a receber um tratamento terico.       o sujeito se constitui com base no modelo pa-
Primeiro, no mbito da segunda interpretao        rental ou no dos substitutos dos pais, sua impor-
do chamado sonho da "bela aougueira". A            tncia metapsicolgica  verdadeiramente de-
sonhadora, a bela aougueira, deseja que o de-      senvolvida no mbito da grande reformulao
sejo de engordar, expresso por sua amiga, no       terica da dcada de 1920.
se realize, a fim de que esta no seduza seu            Um captulo inteiro da Psicologia das mas-
marido, o aougueiro, que tem um fraco pelas        sas e anlise do eu*, o stimo,  dedicado 
mulheres de carnes fartas. Mas, em virtude de       identificao, postulada desde logo "como
uma inverso, o sonho adquire um novo senti-        expresso primria de uma ligao afetiva com
do: a bela aougueira sonha com a no realiza-      outra pessoa". Freud distingue trs tipos de
o de um de seus desejos. A sonhadora, explica     identificao. Em primeiro lugar, ela  concebi-
Freud, identificou-se com sua amiga, e sonha        da como desempenhando "um papel na pr-his-
que lhe acontece o que deseja ver suceder com       tria do complexo de dipo*". Trata-se do es-
a amiga. Esse ponto encontra confirmao na         tdio* oral, o da incorporao* do objeto segun-
vida real da sonhadora, que se recusa a realizar    do o modelo canibalesco, no qual Freud escla-
seu desejo de comer caviar.                         receria um pouco depois, em O eu e o isso*, que
    Trata-se, nesse exemplo, de um caso de iden-     difcil distinguir a identificao do inves-
tificao histrica. Freud insiste em diferenci-   timento*, diferenciar a modalidade do ser da
la do que at ento era chamado de imitao         modalidade do ter.
histrica. A identificao histrica corresponde        O segundo caso  o da identificao regres-
a dedues inconscientes,  uma "apropriao        siva, discernvel no sintoma histrico, uma de
causada por uma etiologia idntica; exprime um      cujas modalidades de formao constitui-se da
`como se' e est relacionada a uma comunho         imitao no da pessoa, mas de um sintoma da
que persiste no inconsciente. A identificao, na   pessoa amada -- Freud cita o exemplo de Dora
maioria das vezes,  utilizada na histeria* como    (Ida Bauer*), que imita a tosse do pai. Nesse
expresso de uma comunho sexual. A histrica       caso, diz Freud, "a identificao toma o lugar
identifica-se, de preferncia, mas no exclusi-     da escolha de objeto, a escolha de objeto regride
vamente, com as pessoas com quem manteve            para a identificao". Ele sublinha a esse res-
relaes sexuais ou que mantm relaes             peito que, nessas situaes, a identificao pode
sexuais com as mesmas pessoas que ela". No          tomar emprestado "apenas um nico trao da
captulo VI, dedicado ao trabalho do sonho,         pessoa-objeto"; trata-se do famoso trao nico
estudando os processos onricos de figurao,       (o einziger Zug).
Freud observa que a semelhana  a nica rela-          Por fim, existe a terceira modalidade, aquela
o lgica preservada no sonho, sendo sua           em que a identificao se efetua na ausncia de
expresso facilitada pelo mecanismo de con-         qualquer investimento sexual. Trata-se ento do
densao*. No sonho, a semelhana ora aparece       produto da "capacidade ou [da] vontade de
sob a forma da aproximao, ora sob a da fuso.     colocar-se numa situao idntica"  do outro
A aproximao diz respeito s pessoas, e fala-      ou dos outros. Esse caso de identificao pro-
mos de identificao quando uma nica pessoa        duz-se, em especial, no contexto das comuni-
                                                                                   identificao       365

dades afetivas.  essa forma de identificao       trs tempos da concepo lacaniana do dipo,
que liga entre si os membros de uma coletivi-       sob a forma de uma identificao com o que se
dade. Ela  comandada pelo vnculo es-              presume ser o desejo da me, depois, sob a
tabelecido entre cada indivduo da coletividade     forma da descoberta da lei do pai e, por fim, sob
e o condutor das massas. Esse vnculo  cons-       a da simbolizao dessa lei, que tem como
titudo pela instalao deste ltimo na posio     efeito atribuir ao desejo da me seu verdadeiro
de ideal do eu por cada um dos participantes da     lugar e permitir as identificaes posteriores,
comunidade.                                         constitutivas do sujeito.
    Em 1925, em seu artigo "A dissoluo do             Na dcada de 1960, Lacan consagrou um
complexo de dipo", Freud estabelece clara-         ano de seu Seminrio  questo da identifica-
mente a distino entre o investimento* do          o. Primeiramente, construiu seu conceito de
objeto e a identificao. O complexo de dipo       trao unrio, que, apesar de se inspirar no trao
oferece  criana duas possibilidades, ativa e      nico da identificao regressiva de Freud, su-
passiva, de satisfao libidinal. A primeira        pera largamente seu contedo, uma vez que
consiste em pensar em se colocar no lugar do        Lacan fundamenta nele sua concepo do um,
pai para manter relaes sexuais com a me, e       esteio da diferena, que por sua vez  a base da
a segunda, em tomar o lugar desta. Quando se        identidade, distinta da abordagem lgica cls-
evidencia que essas duas formas de inves-           sica que faz do um a marca do nico. Da, a
timento do objeto no podem efetivar-se sem a       partir da anlise do cogito cartesiano, Lacan
realizao da castrao*, a perda do pnis como     situa o fundamento da identificao inaugural,
castigo ou a constatao de sua ausncia na         a do sujeito distinto do eu, no trao unrio,
posio feminina, os investimentos so subs-        essncia do significante*, que  o nome prprio.
titudos ( a sada do dipo) por uma identifi-     Em seguida, integra em sua teoria do signifi-
cao: "A autoridade paterna ou parental intro-     cante os outros dois tipos de identificao freu-
jetada no eu forma ali o ncleo do supereu." As     diana -- a identificao primria, na vertente
tendncias libidinais so ento inibidas quanto     do pai simblico, e o terceiro tipo, a identifica-
a seu objetivo, isto , "dessexualizadas e subli-   o histrica, aquela que encontramos em ao
madas, o que provavelmente advm", acrescen-        na constituio das massas e que tem por vetor
ta Freud, "quando de qualquer transposio          o desejo do desejo do Outro*, evocado pela
para uma identificao".                            pergunta "Que queres?" (Che vuoi?), marca da
    Freud se refere a essa mesma concepo em       dependncia incontornvel do sujeito.
1933, em "A decomposio da personalidade            Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
psquica", uma das Novas conferncias intro-        (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
dutrias sobre psicanlise*, porm exprimindo       Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; A interpre-
reservas muito claras a seu respeito. Deplora o     tao dos sonhos (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III,
                                                    1-642; SE, IV-V, 1-621; Paris, PUF, 1967; "Sobre o
carter "complicado" do processo de identifica-     narcisismo: uma introduo" (1914), ESB, XIV, 89-122;
o, "base" da "transformao da relao com        GW, X, 138-70; SE, XIV, 73-102; in La Vie sexuelle,
os pais no supereu". Ao trmino de sua exposi-      Paris, PUF, 1969, 80-105; Psicologia das massas e
o sobre o assunto, repete no estar "nem um       anlise do eu (1921), ESB, XVIII, 91-184; GW, XIII,
                                                    73-161; SE, XVIII, 65-143; OC, XVI, 1-83; O eu e o isso
pouco satisfeito (...) com estas elaboraes so-    (1923), ESB, XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX,
bre a identificao". Entretanto, diz contentar-    12-59; OC, XVI, 255-301; "A dissoluo do complexo
se com elas, na medida em que lhe permitiram        de dipo" (1924), ESB, XIX, 217-28; GW, XIII, 395-402;
instituir a instncia do supereu, que considera     SE, XIX, 173-9; OC, XVII, 25-33; Novas conferncias
                                                    introdutrias sobre psicanlise (1933), ESB, XXII, 15-
ser um exemplo de identificao bem-sucedida        226; GW, XV; SE, XXII, 5-182; OC, XIX, 83-268  Jol
com a instncia parental.                           Dor, Introduo  leitura de Lacan, 2 tomos (Paris,
    Tal como Freud, Jacques Lacan* situa a          1985, 1992), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992, 1996 
identificao no cerne de seu trabalho terico.     Jacques Sdat, "Identificao", in Pierre Kaufmann
                                                    (org.), Dicionrio enciclopdico de psicanlise: o lega-
A princpio, a identificao  situada por ele no   do de Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro,
registro do imaginrio*, durante a fase do es-      Jorge Zahar, 1996, 256-9  Jacques Lacan, "O estdio
tdio do espelho*. Em seguida, ela pontua os        do espelho como formador da funo do eu" (1936,
366       identificao projetiva

1949), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge      assumir a identidade das pessoas cuja vida quer
Zahar, 1998, 96-103; O Seminrio, livro 4, A relao de
                                                             viver. Assim, transforma-se indefinidamente
objeto (1956-1957) (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge
Zahar, 1995; Le Sminaire, livre V, Les formations de        num outro. No fim do livro, reintegra seu pr-
l'inconscient (1957-1958); indito, Le Sminaire, livre      prio corpo e morre apaziguado, junto de sua
IX, L'Identification (1961-1962), indito  Jean La-         me. Melanie Klein v no destino do heri uma
planche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psi-        tentativa de ele superar suas angstias psicti-
canlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991,
2 ed.  lisabeth Roudinesco, Jacques Lacan. Esboo
                                                             cas, mas contesta o final feliz pretendido pelo
de uma vida, histria de um sistema de pensamento            autor: "A explicao desse fim abrupto no
(Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994         pode ser definitiva."
Joseph Sandler (org.), Projection, identification, identi-       Ao ler esse comentrio, Julien Green ficou
fication projective (Londres, Madison, 1988), Paris,
PUF, 1991.
                                                             muito surpreso por constatar que Melanie Klein
                                                             enxergara longe e tinha adivinhado o verdadei-
 FANTASIA; FRUSTRAO; IDENTIFICAO PROJE-                  ro fim do romance. De fato, ele havia redigido
TIVA; OBJETO, RELAO DE; PROJEO; SEXUALI-                 uma primeira verso de Se eu fosse voc...,
DADE.                                                        pessimista, na qual Fabien, depois de voltar a
                                                             ser ele mesmo, tornava a se encontrar com o
                                                             diabo: "A histria no acabava nunca, era o
identificao projetiva                                      inferno." Na segunda verso, ao contrrio, re-
al. Projektionsidentifizierung; esp. identificacin
                                                             conciliou o heri com Deus e o fez morrer feliz.
proyectiva; fr. identification projective; ing. projec-
                                                              Melanie Klein (org.), Os progressos da psicanlise
tive identification                                          (Londres, 1952), Rio de Janeiro, Zahar, 1978; Inveja e
Conceito introduzido em 1946 por Melanie Klein*              gratido: um estudo das fontes do inconsciente, Rio de
para designar um modo especfico de projeo* e              Janeiro, Imago, 1974  Julien Green, Si j'tais vous...
                                                             (1947), Paris, Fayard, 1994; "La Question pose"
identificao* que consiste em introduzir a prpria
                                                             (1970), in Oeuvres compltes, III, Paris, Gallimard,
pessoa no objeto para prejudic-lo.                          "Bibliothque de la Pliade", 1973, 1392-4; "Entretien
   Foi numa comunicao de 1946, apresenta-                  avec lisabeth Roudinesco", Le Figaro, 17 de dezem-
da  British Psychoanalytical Society (BPS) sob              bro de 1991  Jean Laplanche e Jean-Bertrand Ponta-
                                                             lis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo,
o ttulo de "Notas sobre alguns mecanismos                   Martins Fontes, 1991, 2 ed.  R.D. Hinshelwood, Di-
esquizides", que Melanie Klein criou a noo                cionrio do pensamento kleiniano (Londres, 1991), P.
de identificao projetiva. Ela vinculou esse                Alegre, Artes Mdicas, 1992.
mecanismo ao sadismo* infantil: a criana no
quer simplesmente destruir a me, porm apos-                 ESQUIZOFRENIA; INTROJEO; OBJETO (BOM E
sar-se dela. "Isso leva a uma forma de identifi-             MAU); OBJETO, RELAO DE; PARANIA; PSICOSE.
cao que estabelece o prottipo de uma relao
de objeto* agressiva. Proponho para esses
processos o nome de `identificao projetiva'."              Ignotus, Hugo, n Vegelsberg
   A identificao projetiva  uma das modali-               (1859-1949)
dades da projeo* no sentido freudiano, mas                escritor hngaro
tambm um mecanismo de natureza psictica                       Redator-chefe da revista Nyugat (Ocidente),
encontrado em todos os sujeitos. Por isso,                   amigo de Sandor Ferenczi* e tradutor das obras
convm relacion-lo ao processo binrio: posi-               de Sigmund Freud*, esse ensasta foi um agente
o depressiva/posio esquizo-paranide*.                   muito ativo na introduo da psicanlise* na
   A melhor ilustrao da natureza clnica da                Hungria*. Foi um dos co-fundadores, em maio
identificao projetiva encontra-se num artigo               de 1913, da Sociedade Psicanaltica de
de 1955, que tem por ttulo "A propsito da                  Budapeste. A partir de 1919, exilou-se em Vie-
identificao", no qual Melanie Klein comenta                na* e depois em Berlim. Em 1938, emigrou para
um romance de Julien Green, Se eu fosse voc...,             os Estados Unidos*, onde permaneceu dez anos
publicado em 1947. Nessa obra, o escritor conta              antes de voltar a Budapeste. Em 1924, Ferenczi
a histria de um Fausto moderno, Fabien, que                 lhe dirigiu estas palavras: "Onde esto os tem-
faz um pacto com o diabo a fim de poder                      pos de outrora, tempos felizes antes da guerra,
                                                                                          Igreja     367

sob Francisco-Jos, poca sem histria, quando             Por outro lado, Freud apaixonou-se, tal co-
um poema, uma palavra certa, uma idia cien-           mo Jean Martin Charcot*, pelas possesses de-
tfica podiam agir sobre a vida de homens ma-          monacas. Assim, em 1897, encomendou a seu
duros com a fora de um verdadeiro choque              editor o Malleus maleficarum, terrvel manual
emocional?"                                            publicado em latim, em 1487, por Jacob Spren-
                                                       ger e Heinrich Krammer, e depois utilizado pela
 Sandor Ferenczi, "Ignotus, o compreensivo", Psica-
                                                       Inquisio, com a aprovao do papa Inocncio
nlise III, Obras completas (1919-1926), S. Paulo,
Martins Fontes, 1993, 253-4.                           VIII, para mandar para a fogueira as supostas
                                                       feiticeiras. Mais tarde, em 1909, numa discus-
                                                       so com Hugo Heller* durante uma reunio da
Igreja                                                 Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras*, ele
                                                       exps suas idias sobre a questo, fazendo do
    A histria das relaes entre a psicanlise*
                                                       diabo uma personificao das pulses sexuais
e a Igreja Catlica Romana  inseparvel, em
                                                       recalcadas. Por fim, em 1923, publicou um
seus primrdios, da histria da implantao do
                                                       artigo, "Uma neurose demonaca do sculo
freudismo* na Itlia*. Comea em 1921, com a
                                                       XVII", no qual estudou a histria de Chris-
campanha antipansexualista do padre Agostino
                                                       topher Haitzmann*, um pintor da Baviera que
Gemelli (1878-1959), grande organizador de
                                                       foi exorcizado depois de ter sido seduzido pelo
uma medicina mental adaptada aos princpios
                                                       diabo e tomado de convulses. Nesse episdio,
religiosos, e prossegue durante o entre-guerras
                                                       Freud contrastou os benefcios da psicanlise,
com a cruzada antifreudiana e judeofbica do
padre Wilhelm Schmidt (1868-1954), figura de           capaz, a seu ver, de curar as neuroses, com as
proa da escola antropolgica vienense. Depois          prticas religiosas e ocultas de antigamente,
de 1945, ela implica trs papas, Pio XII, Paulo        pouco compatveis com o Aufklrung.
VI e Joo XXIII, e dois pases, a Frana*, por             Se Freud encarava a religio dessa maneira,
um lado (onde os padres e inmeros intelectuais        embora se interessasse pela histria das reli-
catlicos criam um vasto movimento psicoter-          gies e pelos grandes casos de possesso demo-
pico de ajuda aos religiosos), e, por outro, o         naca, a Igreja teve desde logo uma atitude
Mxico (onde um padre de origem belga tenta            hostil perante sua doutrina, no apenas em ra-
fazer com monges uma experincia de anlise            zo dessa assimilao da religio a uma neurose
coletiva). Essa histria tem inicialmente como         e dessa condenao do exorcismo, mas sobre-
pano de fundo a ascenso do fascismo, depois           tudo porque a psicanlise repousava numa
a Guerra Fria e o desenvolvimento do jdanovis-         concepo da sexualidade* e da famlia inacei-
mo na Rssia* e, por ltimo, a expanso do             tvel para ela. Foi assim que a Igreja a rejeitou,
lacanismo*.                                            vinculando-a a um pansexualismo*.
    O tema da religio  onipresente na obra de            Todavia, no decorrer do sculo XIX, a Igreja
Sigmund Freud*, quer ele trate da origem das           havia adotado progressivamente os princpios
sociedades, como em Totem e tabu*, quer da             da psiquiatria dinmica* e da revoluo pine-
histria do monotesmo, em seu ltimo livro,           liana, deixando de considerar a loucura* uma
Moiss e o monotesmo*. Mas Freud era ateu e           possesso. Alm disso, a encclica Rerum nova-
materialista. Por isso  que, a seu ver, a religio    rum, promulgada em 1891 pelo papa Leo XIII,
como prtica  uma neurose*, por ele associada         valorizava as pesquisas cientficas em detri-
 iluso. Alis, j em 1907, em seu artigo "Atos       mento do obscurantismo. Chegava at a incen-
obsessivos e prticas religiosas", ele compara a       tivar os cristos a elaborarem uma racionali-
neurose obsessiva* a uma religio rstica, isto        dade passvel de fazer frente, na Europa, ao
, ao que ele denomina de vertente "patolgica"        advento dos modernos Estados leigos, cuja le-
da religio, fazendo desta, de um modo geral,          gitimidade seria preciso reconhecer um dia.
uma "neurose obsessiva universal". Do mesmo                Foi nesse contexto de uma oposio muito
modo, em sua opinio, a histeria*  uma obra           firme ao freudismo, porm de uma aceitao
de arte deturpada, e a parania*, uma teoria ou        dos princpios da psiquiatria dinmica, que o
uma filosofia que fracassa.                            padre Agostino Gemmelli fundou, em 1921, a
368     Igreja

Escola de Psicologia Experimental, no seio da        Choisy (1903-1979), jornalista amiga de Ren
Universidade Catlica do Sagrado Corao, em         Laforgue* e ex-analisanda de Charles Odier*,
Milo. Mdico e monge franciscano, ele fora          que, em 1946, criou a revista Psych; o padre
aluno de Emil Kraepelin* e queria integrar os        Bruno de Marie-Jsus, responsvel pela revista
trabalhos da psicologia na neo-escolstica.          Les tudes Carmlitaines; Albert Pl, padre
Procurando insuflar no catolicismo uma teoria        dominicano que criou, em 1947, o Supplment
realista da conscincia, apoiava-se no janetismo     de La Vie Spirituelle, onde publicou artigos
e num dualismo vago, que conferia tanto espao       sobre o freudismo*; Louis Beirnaert*, padre
ao corpo quanto ao esprito.                         jesuta que se tornou psicanalista e lacaniano; e
    O combate contra o freudismo assumiu fei-        ainda como o abade Marc Oraison (1914-1979),
o nitidamente mais poltica com a interven-        que publicou, em 1952, uma tese de teologia
o do padre Wilhelm Schmidt, que exerceu, de        dedicada  vida crist e aos problemas da sexua-
1927 a 1939, a funo de diretor do Museu            lidade.
Pontifical de Etnologia de Latro, em Roma.              Sem ter sequer sido analisado, Oraison pra-
Voltando-se contra Totem e tabu* e contra O          ticava terapias para ajudar os padres aflitos ou
futuro de uma iluso*, ele denunciou o freudis-      os fiis que esbarravam na rigidez do dogma.
mo como uma teoria nociva, to responsvel           Em seu livro intitulado Vie chrtienne et pro-
quanto o comunismo* pela destruio da fam-         blme de la sexualit, apoiou-se sobretudo nas
lia crist. A partir da, no parou de desancar as   teses de Angelo Hesnard* para abordar frontal-
duas doutrinas, acusadas de haverem assinado         mente a trplice questo da castidade, do dis-
um pacto de "entendimento amigvel". Diante          cernimento das vocaes e da sexualidade "sem
desses ataques, Freud hesitou em publicar a          pecado". Atravs de diversos estudos de caso,
terceira parte de seu livro sobre Moiss, redigi-    onde se revelou um evidente fascnio pela
do em Viena* antes do Anschluss: temia, com          homossexualidade*, Oraison relativizou a no-
efeito, que ele reavivasse a hostilidade da Igreja   o de pecado, fazendo da sexualidade uma
catlica austraca, em cujo seio o padre Schmidt     funo da existncia humana. A partir da, dis-
tinha grande influncia.                             tinguiu a verdadeira vocao da falsa. Segundo
    Depois da Segunda Guerra Mundial, a expe-        ele, a primeira repousava sobre a graa divina e
rincia dos padres operrios, conduzida na           permitia ao padre escolher livremente seu des-
Frana* por jesutas abertos ao marxismo, ex-        tino de castidade, ao passo que a segunda provi-
primiu, em termos mais gerais, uma aspirao         nha de um pavor da sexualidade, que conduzia
a que a Igreja reavaliasse suas posies em          o postulante pela via de uma renncia neurtica.
relao  modernidade e, em especial,  psica-           Em outras palavras, Oraison procurou intro-
nlise. Ora, nessa poca, aos olhos da Santa S,     duzir a percia psicolgica no seio da Igreja a
o freudismo era uma doutrina to perigosa            fim de eliminar do sacerdcio os eventuais
quanto o marxismo. No entanto, se de fato            "doentes sexuais" (neurticos, perversos ou psi-
condenou e proibiu a experincia dos padres          cticos) que houvessem escolhido a religio
operrios, Pio XII foi muito prudente a respeito     no por vocao, mas para obedecer a uma
das teorias freudianas. Entre 1952 e 1956, cer-      escolha pulsional. Essa posio tinha o sentido
tamente continuou, como Gemelli e Schmidt, a         de uma maior laicizao da vida religiosa e de
fustigar o pansexualismo* freudiano e a reafir-      uma melhor definio da f num mundo cristo
mar a doutrina tradicional da Igreja, segundo a      perpassado pela crise das vocaes. Assim co-
qual a sexualidade se fundamenta no "pecado",        mo a Igreja acabara aceitando uma concepo
mas no proferiu nenhuma proibio oficial:          no demonaca da loucura, ela tambm devia,
nem do freudismo como tal, nem das experin-         segundo Oraison, aplicar os princpios da psi-
cias de psicoterapia praticadas por padres dese-     canlise  experincia sacerdotal para melhor
josos de tratar os problemas levantados pelo         apreender sua norma e sua patologia e conferir
celibato e pela castidade.                            espiritualidade todo o seu lugar. Mas, como
    Na Frana, contudo, inmeros cristos in-        definir,  luz da psicanlise, a essncia da ver-
surgiram-se contra Roma, tais como Maryse            dadeira f e distingui-la do contedo neurtico
                                                                                       Igreja     369

ou perverso da falsa vocao, posto que o freu-         Convm dizer que, entre outubro de 1962,
dismo considera qualquer atitude religiosa uma      data da abertura do Conclio Vaticano II, e junho
neurose?                                            de 1963, data do incio do pontificado de Paulo
    Apoiado por Pio XII, o Santo Ofcio respon-     VI, a experincia do mosteiro beneditino da
deu a essa questo ordenando que o livro do         Ressurreio, perto de Cuernavaca, que logo se
padre francs fosse includo no Index, no mo-       celebrizou, provou que a psicanlise trazia uma
mento mesmo em que seu autor participava, em        resposta, seno para a questo da religio, ao
Roma, ao lado de Beirnaert e Pl, de um con-        menos para a do celibato e da castidade dos
gresso organizado por Maryse Choisy. Oraison        padres. Nesse mosteiro mexicano, o padre Gr-
foi obrigado a "corrigir seus erros" na segunda     goire Lemercier arrastara sessenta monges para
edio de seu livro e, em 1955, fez sua autocr-    uma terapia de grupo conduzida por dois
tica publicamente. Sua condenao no ps fim       psicanalistas (um homem e uma mulher) da
ao conflito. Assim  que numerosos padres           International Psychoanalytical Association*
franceses comearam a se analisar, seguidos por     (IPA). Ao cabo de dois anos, o prprio Lemer-
outros na Blgica* e, mais tarde, na Amrica        cier e quarenta monges abandonaram o hbito,
Latina, terra de escolha de uma teologia da         fosse para se casar, fosse para manter relaes
libertao da qual surgiria mais uma inter-         sexuais.
rogao sobre o marxismo e as novas formas de           Depois de condenar a experincia de Cuer-
espiritualidade crist. Durante vinte anos, entre   navaca e fechar o mosteiro, Paulo VI adotou
1955 e 1975, alguns padres renunciaram ao           perante o freudismo, em 1973, uma postura de
hbito e se tornaram psicanalistas, outros exer-    neutralidade hostil, que doravante seria o credo
                                                    de uma Igreja respeitadora da laicizao do
ceram a psicanlise sem tirar o hbito, e outros
                                                    saber: "Prezamos esse setor j clebre dos es-
ainda, aps a anlise, viveram com mulheres ou
                                                    tudos antropolgicos", disse ele, "embora nem
praticaram clandestinamente uma homos-
                                                    sempre o consideremos coerente consigo mes-
sexualidade at ento recalcada.
                                                    mo, nem invariavelmente confirmado por ex-
    Em 1957, um ano antes do incio do ponti-
                                                    perincias satisfatrias e salutares, nem de acor-
ficado de Joo XXIII, a Sagrada Congregao         do com a cincia dos coraes que temos en-
dos religiosos levou em conta essa situao ao      contrado na escola da espiritualidade catlica."
editar sua nova constituio, a Sedes sapientiae,       Oskar Pfister*, um pastor protestante que se
sobre a formao apostlica. O artigo 33 desse      tornou psicanalista, havia aceitado, em 1909, a
texto, dedicado  admisso dos candidatos ao        tese da primazia da sexualidade e proposto a
noviciado, tornou obrigatria a percia psiqui-    idia de que a verdadeira f podia tornar-se uma
trica a fim de afastar do sacerdcio os pos-        proteo contra a neurose. Freud, alis, escre-
tulantes portadores de taras e doenas mentais.     veu a esse respeito: "A psicanlise  to pouco
Essa medida normativa permitiu a criao de         religiosa quanto irreligiosa.  um instrumento
organismos destinados ao discernimento das          sem partido que pode ser usado por religiosos e
vocaes. E, por intermdio deles, uma prtica      leigos a servio da libertao dos seres sofre-
at ento clandestina pde ser oficializada. Foi    dores. Muito me impressiona que eu mesmo
assim que se criou, em 1959, impulsionada por       no tenha pensado na extraordinria ajuda que
Pl e Beirnaert, a Associao Mdico-Psicol-       o mtodo psicanaltico  passvel de levar  cura
gica de Ajuda aos Religiosos (AMAR), des-           das almas, mas isso decorre, sem dvida, do fato
tinada ao clero regular. Ela desempenhou um         de que, sendo um terrvel herege, todo esse
papel importante, no apenas orientando os          campo de idias me  estranho."
candidatos ao sacerdcio para ordens que                Esse campo no foi estranho a Jacques La-
conviessem  sua personalidade, mas tambm          can*, que era to ateu quanto Freud, nem a
difundindo um saber freudiano entre padres          Franoise Dolto*, que era crist praticante. O
provenientes do mundo inteiro. Em 1966, veio        papel de ambos foi considervel nas relaes
 luz uma outra associao, desta vez destinada     que se instauraram, na Frana, entre o catolicis-
ao clero secular.                                   mo e a psicanlise, primeiro no interior da
370       imagem do corpo

Sociedade Francesa de Psicanlise (SFP),                     psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Ja-
oriunda da primeira ciso* do movimento freu-                neiro, Jorge Zahar, 1988; Jacques Lacan. Esboo de
                                                             uma vida, histria de um sistema de pensamento (Pa-
diano, e depois, na cole Freudienne de Paris*               ris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994 
(EFP). Fundada por Daniel Lagache*, a SFP                    Yosef Hayim Yerushalmi, Le Mose de Freud. Judasme
atraiu os universitrios e os no mdicos, dentre            terminable, judasme interminable (Yale, 1991), Paris,
eles padres que encontraram na doutrina laca-                Gallimard, 1993  Charles Malamoud, "Psicanlise e
niana idias filosficas ou at teolgicas que               cincia das religies", in Pierre Kaufmann (org.), Dicio-
                                                             nrio enciclopdico de psicanlise: o legado de Freud
estavam ausentes da de Freud.
                                                             e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
    Iniciado por Alexandre Kojve (1902-1968)                1996, 584-93  Mlanie Arnal, Marc Oraison, l'glise et
e Alexandre Koyr (1892-1964) na histria das                la psychanalyse (1914-1979), mestrado de histria,
religies, fascinado como Georges Bataille                   Universidade Paris I, 1993-1994  Philippe Levillain
(1897-1962) pelo misticismo feminino, e apai-                (org.), Dictionnaire historique de la papaut, Paris,
                                                             Fayard, 1994.
xonado pela arte barroca e pela grandeza do
catolicismo romano, Lacan tinha conscincia                   ESPIRITISMO; FREUDO-MARXISMO; HISTRIA DA
-- em agosto de 1953, no momento da redao                  PSICANLISE; JUDEIDADE; LAIR LAMOTTE, PAU-
de sua famosa conferncia sobre a funo da                  LINE; QUESTO DA ANLISE LEIGA, A.
fala e da linguagem -- da expanso das idias
freudianas fora do meio mdico. Por isso, vol-
tou seu olhar para as duas instituies rivais que
se abriam para a psicanlise nos anos cinqenta:             imagem do corpo
a Igreja catlica e o Partido Comunista Francs.             al. Krperschema; esp. imagen del cuerpo; fr.
No hesitou em pedir a seu irmo, Marc-Fran-                 image du corps; ing. body schema
ois Lacan (1908-1994), monge beneditino,
                                                             Termo cunhado por Paul Schilder* em 1923 e ins-
que lhe conseguisse uma audincia com o papa.
                                                             pirado na noo de esquema corporal, proposta
E, se o encontro no se deu, a EFP contou em
                                                             em 1911 pelo neurologista ingls Henry Haed
suas fileiras com diversos jesutas que lhe dei-
                                                             (1861-1940).
xaram sua marca, dentre eles o grande historia-
dor do misticismo, Michel de Certeau (1926-                      Paul Schilder empregou esse termo para de-
1986).                                                       signar uma representao ao mesmo tempo
                                                             consciente e inconsciente da posio do corpo
 Sigmund Freud, "Atos obsessivos e prticas religio-        no espao, considerado sob trs aspectos: o de
sas" (1907), ESB, IX, 121-36; SE, IX, 115-27; in L'Ave-      um suporte fisiolgico, o de uma estrutura libi-
nir d'une illusion (1927), Paris, PUF, 1971; "Uma neu-       dinal e o de uma significao social.
rose demonaca do sculo XVII" (1923), ESB, XIX,
91-138; GW, XIII, 317-53; SE, XIX, 69-105; OC, XVI,              Sem se referir a Schilder, Franoise Dolto*
213-51; La Naissance de la psychanalyse (Londres,            retomou o termo em 1984, numa perspectiva
1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm Fliess,           lacaniana, para designar "a encarnao simb-
1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986  Correspondance
                                                             lica inconsciente do sujeito desejante", ou seja,
de Sigmund Freud avec le pasteur Pfister (1909-1939)
(Frankfurt, 1963), Paris, Gallimard, 1966  Wilhelm          uma representao inconsciente do corpo, dis-
Schmidt, "Der dipus-K der Freudschen Psychoana-             tinta do esquema corporal, que seria sua repre-
lyse und die Ehegestaltung des Bolschevismus. Eine           sentao consciente ou pr-consciente. (VR)
kritische Prfung ihre ethnologischen Grundlagen", Na-
tionalwirtschaft, 2, 1929, 401-36  Marc Oraison, Vie
chrtienne et problme de la sexualit (1950), Paris,         Paul Ferdinand Schilder, A imagem do corpo (Lon-
Fayard, 1970  Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966),        dres, 1935), S. Paulo, Martins Fontes, 1994, 2 ed. 
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998  Grgoire Lemercier       Franoise Dolto, A imagem inconsciente do corpo (Pa-
e Franoise Verny, Dialogue avec le Christ, Paris,           ris, 1984), S. Paulo, Perspectiva, 1992  Grard Guille-
Grasset, 1966  Michel David, La Psicoanalisi nella          rault, Le Corps psychique, Paris, ditions Universi-
cultura italiana (1966), Turim, Boringheri, 1990  Pierre    taires, 1989.
Legendre, L'Amour du censeur, Paris, Seuil, 1974 
Michel de Certeau, L'criture de l'histoire, Paris, Galli-
mard, 1975  Franoise Dolto, O Evangelho  luz da            EGO PSYCHOLOGY; ESTDIO DO ESPELHO; IMA-
psicanlise, 2 vols. (Paris, 1977), Rio de Janeiro, Ima-     GINRIO; IMAGO; INCORPORAO; INTROJEO;
go, 1979, 1981  lisabeth Roudinesco, Histria da           SELF PSYCHOLOGY.
                                                                                             imago        371

imaginrio                                             fuso com o corpo da me, e o real como um
al. Imaginre; esp. imaginario; fr. imaginaire; ing.   resto impossvel de simbolizar.
imaginary                                                 Lacan conferiu ao simblico, at 1970, um
                                                       lugar dominante em sua tpica. A ordem das
Termo derivado do latim imago* (imagem) e empre-
                                                       instncias era esta: S.I.R. Depois dessa data, ele
gado como substantivo na filosofia e na psicologia
                                                       construiu uma outra organizao, centrada na
para designar aquilo que se relaciona com a ima-
                                                       primazia do real (e portanto, da psicose*), em
ginao, isto , com a faculdade de representar
coisas em pensamento, independentemente da
                                                       detrimento dos outros dois elementos. S.I.R.
realidade.
                                                       transformou-se ento em R.S.I.
    Utilizado por Jacques Lacan* a partir de 1936,      Jacques Lacan, Os complexos familiares na forma-
o termo  correlato da expresso estdio do espe-      o do indivduo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987;
lho* e designa uma relao dual com a imagem do        "O estdio do espelho como formador da funo do eu"
semelhante. Associado ao real* e ao simblico* no      (1949), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge
mbito de uma tpica, a partir de 1953, o imaginrio   Zahar, 1998, 96-103; "Le Symbolique, l'imaginaire et le
                                                       rel" (1953), Bulletin de l'Association Freudienne, 1,
se define, no sentido lacaniano, como o lugar do
                                                       1982, 4-13; O Seminrio, livro 1, Os escritos tcnicos
eu* por excelncia, com seus fenmenos de iluso,      de Freud (1953-1954) (Paris, 1975), Rio de Janeiro,
captao e engodo.                                     Jorge Zahar, 1979; O Seminrio, livro 2, O eu na teoria
                                                       de Freud e na tcnica da psicanlise (1954-1955)
    Foi inspirando-se ao mesmo tempo nos               (Paris, 1978), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985; O
trabalhos do psiclogo Henri Wallon (1879-             Seminrio, livro 3, As psicoses (1955-1956) (Paris,
1962), na fenomenologia hegeliana e hus-               1981), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988, 2a. ed.; O
serliana e no conceito de Umwelt, extrado de          Seminrio, livro 4, A relao de objeto (1956-1957)
                                                       (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995; Le
Jakob von Uexkll (1864-1944), que Jacques             Sminaire, livre XXII, R.S.I. (1974-1975), indito 
Lacan construiu sua primeira teoria do imagi-          Franoise Dolto, "Notes sur le stade du miroir", 16 de
nrio. Esse bilogo alemo servira-se do termo         junho de 1936, indito  Bertrand Ogilvie, Lacan. A
Umwelt para definir o mundo tal como vivido            formao do conceito de sujeito (Paris, 1987), Rio de
                                                       Janeiro, Jorge Zahar, 1988  lisabeth Roudinesco,
por cada espcie animal. No comeo do sculo,
                                                       Histria da psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986),
revolucionara o estudo do comportamento (in-           Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jacques Lacan.
clusive do sujeito* humano), mostrando que o           Esboo de uma vida, histria de um sistema de pen-
pertencimento a um meio devia ser pensado              samento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Le-
como a internalizao desse meio em cada es-           tras, 1994  Jol Dor, Introduo  leitura de Lacan, t.
                                                       II (Paris, 1992), P. Alegre, Artes Mdicas, 1996  Dylan
pcie. Da a idia de que o pertencimento de um        Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian Psy-
sujeito a seu ambiente j no podia ser definido       choanalysis, Londres, Routledge, 1996.
como um contrato entre um indivduo livre e
uma sociedade, mas sim como uma relao de              CASTRAO, COMPLEXO DE; COMPLEXO; DIPO,
dependncia entre um meio e um indivduo.              COMPLEXO DE; EU IDEAL; FANTASIA; FORACLUSO;
    Esse emprstimo tomado de Uexkll levou            IDENTIFICAO; IDENTIFICAO PROJETIVA; IMA-
Lacan a construir, em 1938, em Os complexos            GEM DO CORPO; INTROJEO; NOME-DO-PAI; OB-
familiares, sua teoria do imaginrio: no mais         JETO (PEQUENO) a; OUTRO; PROJEO.
um simples fato psquico, porm uma imago,
isto , um conjunto de representaes inconsci-
entes que aparecem sob a forma mental de um            imago
processo mais geral. Num primeiro momento,             Termo derivado do latim (imago: imagem) e intro-
Lacan mostrou que o estdio do espelho era a           duzido por Carl Gustav Jung*, em 1912, para de-
passagem do especular para o imaginrio, e             signar uma representao inconsciente atravs da
depois, em 1953, veio a definir o imaginrio           qual um sujeito designa a imagem que tem de seus
como um engodo ligado  experincia de uma             pais.
clivagem* entre o eu (moi) e o eu ([je] o sujeito).        Foi em 1906 que o escritor suo Carl Spit-
O simblico foi ento definido como o lugar do         teler (1845-1924) publicou seu romance Imago,
significante* e da funo paterna, o imaginrio        que obteve sucesso considervel no seio da
como o das iluses do eu, da alienao e da            comunidade psicanaltica nascente. Simulta-
372      Imago

neamente marcado pelo nietzscheanismo e pelo                Revista criada por Sigmund Freud* em 1912
espiritualismo ps-romntico, o autor contava            e dirigida por ele, juntamente com Hanns
a histria de um poeta (Viktor) que inventava            Sachs* e Otto Rank*. O ttulo foi tomado de
para si uma mulher imaginria (Imago),                   emprstimo ao romance publicado em 1906
conforme a seus desejos, para faz-la ocupar em          pelo escritor suo Carl Spitteler (1845-1924),
suas fantasias* e devaneios o lugar da burguesa          Prmio Nobel de literatura de 1919. Esse livro
bastante real e muito conformista a quem ele             teve tamanha repercusso no meio psicanaltico
amava com um amor infeliz. Esse tema da                  que tambm deu origem a um conceito. Em
mulher a um s tempo inspiradora e destrutiva            1939, a revista Imago fundiu-se com a Interna-
fascinava o meio psicanaltico, que j havia             tionale rztliche Zeitschrift fr Psychoanalyse*
celebrado, em 1903, o lanamento de Gradiva,             (IZP).
o famoso romance comentado por Sigmund
Freud*. Ele seria encontrado intacto entre os             IMAGO.
surrealistas.
    Jung cunhou a noo de imago (paterna ou
materna) a partir da leitura desse romance. Sob          incesto
sua pena, o termo evoluiria para dar origem 
                                                         al. Inzest; esp. incesto; fr. inceste; ing. incest
anima ou arqutipo caracterstico da parte femi-
nina da alma do sujeito.                                 Chama-se incesto a uma relao sexual, sem coer-
    Em sua primeira teoria do imaginrio*, de            o nem violao, entre parentes consangneos
1938, e sobretudo em Os complexos familiares,            ou afins adultos (que tenham atingido a maioridade
Jacques Lacan* associou a imago ao com-                  legal), no grau proibido pela lei que caracteriza
plexo*. O complexo, cujo elemento cons-                  cada sociedade: em geral, entre me e filho, pai e
                                                         filha, irmo e irm. Por extenso, a proibio pode
titutivo  a imago, era, segundo ele, o fator que
                                                         estender-se s relaes sexuais entre tio e sobri-
permitia compreender a estrutura de uma ins-
                                                         nha, tia e sobrinho, padrasto e enteada, madrasta
tituio familiar, presa entre a dimenso cultural
                                                         e enteado, sogra e genro, sogro e nora.
que a determina e os laos imaginrios que a
organizam. Assim, uma hierarquia em trs pa-                 Na quase totalidade das sociedades co-
tamares formou o modelo de uma interpretao             nhecidas,  exceo de alguns casos, dentre eles
do desenvolvimento individual: nela encontra-            os faras do Egito ou a antiga nobreza havaiana,
mos o complexo de desmame, o complexo de                 o incesto sempre foi severamente castigado e,
intromisso e o complexo de dipo*, ou seja,             mais tarde, proibido. Por isso  que tantas vezes
trs posies, no sentido kleiniano do termo.             ocultado e sentido como uma tragdia por
Essa estrutura complexo-imago prefigurou o               quem se entrega a ele. A proibio  a vertente
que viria a ser a tpica* do real*, do imaginrio        negativa de uma regra positiva: a obrigao da
e do simblico*.                                         exogamia. Nas sociedades democrticas do fim
                                                         do sculo XX, aplica-se menos ao ato sexual
 Carl Spitteler, Imago, Jena, Diederichs, 1906  Carl   incestuoso em si do que ao casamento. O ato 
Gustav Jung, Mtamorphoses de l'me et ses sym-          reprovado pela opinio pblica e sempre vivido
boles (Leipzig-Viena, 1912, Paris, 1931), Paris, Bu-     como uma tragdia proveniente da desrazo ou
chet-Chastel, 1953  Jacques Lacan, Os complexos
familiares na formao do indivduo (Paris, 1984), Rio   conducente  loucura* ou ao suicdio*, porm
de Janeiro, Jorge Zahar, 1987.                           j no  punido como tal, caso no seja apresen-
                                                         tada nenhuma queixa por um dos parceiros. As
 DELRIOS E SONHOS NA "GRADIVA" DE JENSEN;               leis modernas, com efeito, no intervm na vida
ESTDIO; ESTDIO DO ESPELHO; POSIO DEPRES-             sexual dos adultos maiores de idade. Punem
SIVA/POSIO ESQUIZO-PARANIDE; SONHO.                   apenas a pedofilia (incestuosa ou no), o es-
                                                         tupro e o exibicionismo ou atentado ao pudor.
                                                         Quanto ao casamento incestuoso,  proibido por
Imago                                                    lei em todos os pases e nenhuma filiao 
(Revista para a aplicao da psicanlise s cin-        admissvel para a criana nascida de uma rela-
cias do esprito)                                        o dessa natureza: somente a me, nesse caso,
                                                                                   incesto     373

pode reconhecer o filho, declarando-o de pai       essa gnese o florilgio da diversidade das cul-
desconhecido.                                      turas, Lvi-Strauss mostrou que a proibio do
    O fato de o incesto sempre ter sido proibido   incesto consumou a passagem da natureza para
na maioria das sociedades, quer por um castigo     a cultura: "Ela no  nem puramente de origem
corporal, quer por uma proibio legal, eviden-    cultural nem puramente de origem natural. E
cia claramente o carter universal do tabu. Nes-   tampouco  uma dosagem de elementos com-
sas condies, qualquer discurso sobre o inces-    psitos, parcialmente retirados da natureza e
to apresenta-se, antes de mais nada, como uma      parcialmente da cultura. Nesse sentido, ela per-
reflexo sobre sua proibio e sobre a neces-      tence  natureza, pois  uma condio geral da
sidade do fundamento tico desta, a fim de         cultura, e, por conseguinte, no h por que nos
garantir a passagem da natureza para a cultura.    surpreendermos por v-la extrair da natureza
    Trs argumentos foram invocados pelos an-      seu carter formal, isto , a universalidade."
troplogos e socilogos para explicar a exis-          Se a proibio do incesto  uma necessidade
tncia dessa proibio. Lewis Morgan (1818-        estrutural inerente  passagem da natureza para
1881) sublinhou que ela era uma maneira de         a cultura, ela tambm , do ponto de vista
proteger a sociedade dos efeitos nefastos da       freudiano, a expresso necessria da culpa do
consanginidade. Havelock Ellis* e Edward          homem por um desejo incestuoso recalcado.
Westermarck (1862-1939) afirmaram em se-               Note-se que o movimento psicanaltico,
guida que a proibio se explicava pelo senti-     preocupado com os bons costumes, tendeu
mento de repulsa ante o ato incestuoso. Por fim,   sempre a mascarar as tragdias de sua histria
mile Durkheim (1858-1917) props compre-          -- e em especial as transgresses sexuais, a
end-la como a sobrevivncia de um conjunto        loucura e os suicdios dos membros de sua
de regras que impunham s sociedades a lei da      comunidade. Entretanto, a partir de 1925, os
exogamia.                                          discpulos de Freud transpuseram para a Inter-
    Foi por intermdio da tragdia de dipo*       national Psychoanalytical Association* (IPA) a
que Freud abordou essa questo numa carta de       regra da proibio do incesto, proibindo, sob
outubro de 1897 a Wilhelm Fliess*: "Todo es-       pena de expulso, as prticas endogmicas:
pectador foi, um dia, em germe, na imaginao,     proibio de analisar membros da prpria fam-
um dipo." Quinze anos depois, em Totem e          lia ou de uma mesma famlia (filhos, pais,
tabu*, contradisse todos os trabalhos antropo-     cnjuges, sobrinhos, sobrinhas); proibio de
lgicos de sua poca, mostrando que a proibi-      qualquer forma de relao sexual ou mesmo
o tinha como origem no o horror inspirado       afetiva com os pacientes; e proibio de mis-
pelo incesto, mas o desejo* que ele suscitava.     turar a anlise com a vida privada, analisando,
Atravs dessa inverso essencial, que inscreveu    por exemplo, um amante ou uma amante. Na-
a proibio no cerne da cultura e da relao do    turalmente, muitas vezes essas regras foram
sujeito com a lei, Freud deu incio ao debate      transgredidas, justamente por aqueles que se
sobre a universalidade do complexo de dipo.       colocavam como mestres da virtude. Todavia,
Sua perspectiva era evolucionista e se apoiava     sua existncia nunca foi questionada por ne-
na lenda darwinista da horda selvagem.             nhuma instituio freudiana, qualquer que fos-
    Depois das disputas entre Bronislaw Mali-      se sua tendncia.
nowski* e Geza Roheim*, foi preciso esperar            Com Marie Bonaparte*, Freud teve a opor-
pela publicao de As estruturas elementares       tunidade de abordar a questo da proibio do
do parentesco, por Claude Lvi-Strauss, em         incesto no terreno clnico. Em seu Dirio, na
1949, para que o problema da proibio fosse       data de 28 de abril de 1932, a princesa anotou
colocado de outra maneira que no num quadro       que seu filho, Pedro da Grcia (1908-1979),
evolucionista ou atravs de uma oposio entre     ento em anlise com Rudolph Loewenstein*,
culturalismo* e universalismo. Em vez de bus-      escrevera-lhe uma carta em que lhe confiden-
car a gnese da civilizao numa hipottica        ciava sua tentao do incesto: "Se eu passasse
renncia dos homens  prtica do incesto (hor-     a noite contigo, talvez isso me curasse." Em 29
ror ao ato), ou, ao contrrio, de contrastar com   de abril, ela escreveu dizendo que sua prpria
374      inconsciente

tentao do incesto havia-se extinguido nos           sociedades modernas, ele nunca poderia ter ela-
braos de seu amante. Por fim, em 30 de abril,        borado uma doutrina em que a transgresso, o
a princesa registrou que Freud respondera            desejo e a proibio mantivessem tamanha re-
carta em que ela lhe pedira que esclarecesse a        lao de proximidade.
justificativa da proibio.                               Na Viena do fim do sculo, era preciso co-
    Essa carta foi publicada por Ernest Jones*        ragem para inventar tal dialtica do desejo e da
em 1957, fora do contexto em que tinha sido           proibio no mago daquela sociedade vitoria-
redigida. Prudente, Freud comeou sublinhan-          na em que o incesto era to mais violento e
do que a razo habitual do "tabu" era insufi-         ocultado na medida em que era oficialmente
ciente para justificar a proibio. Depois, com-      reprovado e ainda punido por lei. O prprio
parou o incesto ao canibalismo, sublinhando           Freud experimentou, em diversas ocasies, esse
que, se nada proibia um sujeito de comer carne        famoso desejo incestuoso: primeiro com sua
humana, nenhuma sociedade moderna autori-             jovem me (Amalia Freud*), como mostram
zava um homem a matar seu vizinho para devo-          sua auto-anlise* e a interpretao que ele fez
r-lo. Por fim, ele sublinhou que o incesto era       de seus prprios sonhos, depois com a cunhada
um ato anti-social, tal como o seria a revogao      (Minna Bernays*), que foi sua "irm querida",
das restries sexuais necessrias  manuteno       tambm com a filha mais velha (Mathilde Hol-
da civilizao. Na verdade, Freud deu a Marie         litscher*), quando abandonou a teoria da sedu-
Bonaparte uma interpretao* que justificava a        o*, e, por fim, com sua filha caula (Anna
proibio sem proibir o ato em si.                    Freud*), quando resolveu tom-la em anlise.
    Desse modo, ele engajou no campo clnico          E foi justamente por ter se mantido a vida inteira
o poder simblico de uma fala capaz de situar a       como um marido fiel, capaz de se proibir qual-
relao do sujeito com a lei. E  bem possvel        quer transgresso sexual, que ele pde desenca-
que, sem essa fala, a princesa houvesse passado       var com tamanha fora os detalhes mais ntimos
ao ato: "Seria possvel", disse Freud, "que al-       da vida sexual infantil e adulta.
gum que houvesse escapado  influncia dos            Sigmund Freud, "Sobre a mais geral das degradaes
recalques filogenticos praticasse o incesto sem      da vida amorosa" (1912), ESB, XI, 163-78; GW, VIII,
nenhum prejuzo, mas no h meio de termos            78-91; SE, XI, 177-190; in La Vie sexuelle, Paris, PUF,
certeza disso. Essas heranas, muitas vezes, so      1969, 55-66; Totem e tabu (1913), ESB, XIII, 17-192;
                                                      GW, IX; SE, XIII, 1-161; Paris, Gallimard, 1993; La
mais poderosas do que tendemos a supor, e,            Naissance de la psychanalyse (Londres, 1950), Paris,
alm disso, a transgresso  acompanhada por          PUF, 1956  Marie Bonaparte, Cahiers noirs, 1925-
sentimentos de culpa contra os quais somos            1939, indito (arquivos lisabeth Roudinesco)  Ernest
totalmente impotentes." Podemos aproximar             Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N.
                                                      York, 1953, 1955, 1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989
esse juzo do que ele enunciara num artigo de          Claude Lvi-Strauss, As estruturas elementares do
1912 sobre a vida amorosa: "Para ser realmente        parentesco (Paris, 1949), Petrpolis, Vozes, 1976 
livre e, portanto, feliz na vida amorosa,  preciso   Franoise Hritier, Les Deux soeurs et leurs mres.
ter superado o respeito pela mulher e ter se          Anthropologie de l'inceste, Paris, Odile Jacob, 1994 
                                                      Laure Razon, L'nigme de l'inceste, Paris, Denol,
familiarizado com a representao do incesto          1996.
com a me ou a irm."
    O exemplo de Marie Bonaparte atesta que            CASTRAO, COMPLEXO DE; RANK, OTTO.
Freud foi o grande teorizador da proibio e da
culpa. Ele mostrou que, a partir do momento em
que o incesto (entre adultos que dessem seu           inconsciente
consentimento) deixasse de ser punido por lei,        al. Unbewusste; esp. inconsciente; fr. inconscient;
a proibio psquica s faria tornar-se mais          ing. unconscious
importante. Se Freud no tivesse compreendido         Na linguagem corrente, o termo inconsciente 
que a exigncia da proibio internalizada era        utilizado como adjetivo, para designar o conjunto
o nico contrapeso possvel para a decadncia         dos processos mentais que no so consciente-
igualmente necessria da antiga autoridade pa-        mente pensados. Pode tambm ser empregado
terna e, em outras palavras, para o advento das       como substantivo, com uma conotao pejorativa,
                                                                                    inconsciente      375

para falar de um indivduo irresponsvel ou louco,        O pensamento inconsciente foi ento domes-
incapaz de prestar contas de seus atos.                   ticado, quer para ser integrado na razo, quer
     Conceitualmente empregado em lngua inglesa          para ser rejeitado para a loucura*.
pela primeira vez em 1751 (com a significao de              No sculo XVIII, com a expanso da primei-
inconscincia), pelo jurista escocs Henry Home
                                                          ra psiquiatria dinmica*, desenvolveu-se a
Kames (1696-1782), o termo inconsciente foi de-
                                                          idia, j avanada por Pascal e Spinoza, de que
pois vulgarizado na Alemanha*, no perodo romn-
                                                          a autonomia da conscincia seria necessaria-
tico, e definido como um reservatrio de imagens
mentais e uma fonte de paixes cujo contedo
                                                          mente limitada por foras vitais incognoscveis
escapa  conscincia*.                                    e, com freqncia, destrutivas. Nessa perspec-
     Introduzido na lngua francesa por volta de 1860     tiva, abriu-se ento o caminho para uma tera-
(com a significao de vida inconsciente) pelo            putica fundamentada na teoria do magnetis-
escritor suo Henri Amiel (1821-1881), foi includo      mo. Empregada por Franz Anton Mesmer*, ela
no Dictionnaire de l'Acadmie Franaise em 1878.          levaria, no fim do sculo seguinte, a se encarar
     Em psicanlise*, o inconsciente  um lugar           o inconsciente como uma dissociao da cons-
desconhecido pela conscincia: uma "outra ce-             cincia: subconscincia ou automatismo men-
na". Na primeira tpica* elaborada por Sigmund            tal (ou psicolgico*), atingvel atravs do hi-
Freud*, trata-se de uma instncia ou um sistema           pnotismo (hipnose*) ou da sugesto*.
(Ics) constitudo por contedos recalcados que                Por outro lado, ao longo de todo o sculo
escapam s outras instncias, o pr-consciente* e         XIX, desde Wilhelm von Schelling (1775-
o consciente* (Pcs-Cs). Na segunda tpica, deixa          1854) at Friedrich Nietzsche (1844-1900),
de ser uma instncia, passando a servir para qua-
                                                          passando por Arthur Schopenhauer (1788-
lificar o isso* e, em grande parte, o eu* e o supereu*.
                                                          1860), a filosofia alem levou em conta uma
    A historiografia* cientfica, desde Lancelot          viso do inconsciente oposta  do racionalismo
Whyte at Henri F. Ellenberger*, tem demons-              e sem uma relao direta com o ponto de vista
trado que Freud no foi o primeiro pensador a             teraputico da psiquiatria dinmica. Ela enfati-
descobrir o inconsciente ou a inventar essa pa-           zou o lado sombrio da alma humana e procurou
lavra para defini-la. No entanto, foi ele, sem            fazer emergir a face tenebrosa de uma psique
dvida, quem acabou por fazer dele o principal            imersa nas profundezas do ser. Foi nesse hori-
conceito de sua doutrina, conferindo-lhe uma              zonte que se perfilaram os trabalhos da psico-
significao muito diferente da que fora dada             logia experimental, da medicina e da fisiologia:
por seus predecessores. Com Freud, de fato, o             Johann Friedrich Herbart*, Hermann von
inconsciente deixou de ser uma "supraconsci-              Helmholtz*, Gustav Fechner*, Wilhelm Wundt
ncia" ou um "subconsciente", situado acima               (1832-1920), ou ainda Carl Gustav Carus
ou alm da conscincia, e se tornou realmente             (1789-1869), que seria um dos primeiros a des-
uma instncia a que a conscincia j no tem              tacar a importncia das funes sexuais na vida
acesso, mas que se revela a ela atravs do                psquica.
sonho*, dos lapsos*, dos jogos de palavras, dos               Misturando essas duas tradies -- psiquia-
atos falhos* etc. O inconsciente, segundo                 tria dinmica e filosofia alem --, Freud inven-
Freud, tem a particularidade de ser ao mesmo              tou uma concepo indita do inconsciente.
tempo interno ao sujeito* (e a sua conscincia)           Para comear, efetuou uma sntese do ensino de
e externo a qualquer forma de dominao pelo              Jean Martin Charcot*, Hippolyte Bernheim* e
pensamento consciente.                                    Josef Breuer* que o conduziu  psicanlise, e,
    Desde a Antigidade, a idia da existncia            num segundo momento, forneceu um arcabou-
de uma atividade diversa do funcionamento da              o terico ao funcionamento do inconsciente, a
conscincia sempre foi objeto de mltiplas re-            partir da interpretao* do sonho.
flexes. Entretanto, foi com Ren Descartes                   Em 1893, em sua "Comunicao prelimi-
(1596-1650) que se postulou o princpio de um             nar", retomada em 1895 para servir de abertura
dualismo entre o corpo e a mente, que levou a             a seus Estudos sobre a histeria*, Freud e Breuer
fazer da conscincia (e do cogito) o lugar da             evocaram a "dissociao" da conscincia: "Es-
razo, em contraste com o universo da desrazo.           tudando mais de perto esses fenmenos [his-
376     inconsciente

tricos], convencemo-nos cada vez mais do fato       do que eu desejaria. (...) Segundo Lipps, o
de que a dissociao do consciente, chamada de       consciente seria apenas um rgo sensorial, o
`dupla conscincia' nas observaes clssicas,       contedo psquico, uma simples ideao, e to-
existe rudimentarmente em todas as histerias. A      dos os processos psquicos seriam inconscien-
tendncia para essa dissociao e, atravs dela,     tes. H uma concordncia at os mnimos deta-
para o surgimento dos estados de conscincia         lhes; talvez a bifurcao de onde partiro minhas
anormais que reunimos sob o nome de estados          novas idias venha a se revelar mais tarde."
`hipnides' seriam, nessa neurose, um fenme-            Temores e dvidas dissiparam-se rapida-
no fundamental." Mesmo que, oito anos depois,        mente. Em novembro de 1899 foi publicada A
em 1905, no relato do caso Dora (Ida Bauer*),        interpretao dos sonhos, cujo ltimo captulo
Freud tenha rejeitado a idia de estado hipnide,    serviria de contexto para o enunciado da primei-
que atribuiu a Breuer, podemos discernir nessa       ra tpica do aparelho psquico.
declarao os primrdios da idia freudiana do           Dessa vez, Lipps foi realmente mencionado
inconsciente. Seu aparecimento explcito data        entre os autores que haviam abandonado a psi-
da famosa carta de 6 de dezembro de 1896 a           cologia, incapaz de superar a equivalncia entre
Wilhelm Fliess*, na qual evocou pela primeira        o psiquismo e o consciente, e reconhecido no
vez o aparelho psquico, j formulando as ins-       inconsciente o fundamento da vida psquica;
tncias constitutivas do que viria a ser a primei-   entretanto, essa filiao se interrompeu no mo-
ra tpica: o consciente, o pr-consciente e o        mento em que Freud falou do desejo* que "en-
inconsciente.                                        contramos em nosso inconsciente". Ele esclare-
    A idia e o termo inconsciente ainda torna-      ceu de imediato essa construo com o posses-
ram a surgir nessa correspondncia em diversas       sivo, deliberadamente utilizada para indicar que
ocasies no decorrer dos anos seguintes. Em          j no se tratava do inconsciente dos filsofos,
1898, numa carta datada de 10 de maro, Freud        nem tampouco "do de Lipps". Efetuou-se a a
situou o nascimento do inconsciente entre 1 e 3      ruptura que estava em gestao havia muitos
anos de idade, perodo no qual "se forma a           anos: partindo do inconsciente descritivo caro
etiologia de todas as psiconeuroses". Numa ou-       ao romantismo alemo do comeo do sculo
tra carta, datada de 7 de julho, ele d uma          XIX, e do qual Eduard von Hartmann (1842-
definio divertida do inconsciente: falando do      1906) fizera uma recapitulao em seu livro
estado em que se encontra seu livro A interpre-      Filosofia do inconsciente, lanado em 1868 e
tao dos sonhos*, escreve: "Meu trabalho foi-       clebre na poca, Freud definiu "seu" inconsci-
me inteiramente ditado pelo inconsciente,            ente de maneira original (no mais como o
segundo a clebre frase de Itzig, o cavaleiro        inverso do consciente). "A observao da vida
amador: `-- Para onde est indo, Itzig? -- No       normal de viglia" validaria essa concepo
tenho a menor idia. Pergunte a meu cavalo!'"        clssica do inconsciente. Mas "a anlise das
Muito mais tarde, ao desenvolver em O eu e o         formaes psicopatolgicas [da vida cotidiana]
isso* diversos aspectos da segunda tpica,           e do sonho" fez o inconsciente surgir como
Freud tornou a se referir  metfora do cavaleiro    "uma funo de dois sistemas bem distintos". A
e de seu cavalo para ilustrar a relao hierrqui-   partir de ento seria preciso conceber, ao lado
ca complexa que existe entre o eu e o isso.          do consciente, dois tipos de inconsciente, am-
     medida que se foi desenvolvendo seu tra-       bos inconscientes no sentido descritivo, porm
balho sobre o sonho, ele no pde disfarar seu      muito diferentes quanto  sua dinmica e quanto
medo de ser superado por um concorrente,             ao futuro de seus contedos: os do inconsciente
Theodor Lipps (1851-1914), professor de psi-         propriamente dito nunca poderiam chegar 
cologia em Munique e autor de um livro, Os           conscincia, ao passo que os contedos do ou-
fatos fundamentais da vida psquica, publicado       tro, por isso denominado de pr-consciente,
em 1883. Em 31 de agosto de 1898, Freud              podiam atingi-la sob certas condies, em espe-
escreveu a Fliess a esse respeito: "Encontrei em     cial aps o controle de uma espcie de censura*.
Lipps os meus prprios princpios, expostos              Nos anos seguintes, esse quadro terico seria
com extrema clareza, um pouco melhor, talvez,        enriquecido, mas no sofreria nenhum retoque
                                                                             inconsciente      377

fundamental. Depois, na esteira da introduo      em especial a da comicidade ou do riso provo-
do conceito de narcisismo*, as preocupaes        cados por alguns lapsos ou chistes, ndices da
metapsicolgicas voltariam ao primeiro plano       irrupo de elementos do processo primrio no
e, em 1915, Freud dedicaria um longo artigo de     processo secundrio.
sua metapsicologia* ao inconsciente.                   Entre 1920 e 1923, Freud empreendeu sua
    At ento, o inconsciente era concebido por    reformulao terica que levou  instaurao de
ele como institudo pelo recalque*, e seu con-     uma segunda tpica, cujas instncias so o eu,
tedo era assimilado ao recalcado, excetuado       o supereu* e o isso. O inconsciente perdeu ento
este dado extra-individual: o "ncleo do incons-   sua qualidade de substantivo, transformando-se
ciente", fundamento da fantasia* originria, ar-   numa maneira de qualificar as trs instncias da
ticulado com a hiptese filogentica. Com o        segunda tpica: o isso, o eu e o supereu.
artigo de 1915, as coisas mudaram radicalmen-          Caber, nesse caso, falarmos de uma dis-
te, prefigurando as linhas gerais da segunda       sociao do conceito de inconsciente? Embora
tpica. "Tudo o que  recalcado", esclareceu       Freud insistisse na manuteno do inconsciente
Freud logo no comeo de seu artigo, "tem, ne-      como eixo essencial de sua nova conceituao,
cessariamente, que permanecer inconsciente,        algumas correntes do freudismo* (o annafreu-
mas queremos deixar claro, logo de sada, que      dismo* e a Ego Psychology*) interpretaram a
o recalcado no abrange tudo o que  inconsci-     segunda tpica, progressivamente, num sentido
ente.  o inconsciente que tem a maior extenso    redutor, privilegiando a parte consciente do eu.
entre os dois; o recalcado  uma parte do incon-   Nessa perspectiva, o eu devia tornar-se, graas
sciente." A seqncia desse artigo  um guia       ao tratamento psicanaltico, a instncia mais
para quem quer conhecer os contedos genri-       forte da personalidade, em detrimento do isso e
cos e as leis de funcionamento do inconsciente,    da parte inconsciente do eu. Assim ficou enco-
entendendo-se que somente o tratamento psica-      berto o reconhecimento dessa parcela inconsci-
naltico, na medida em que permite, uma vez        ente do eu por parte de Freud ("e Deus sabe que
superadas as resistncias*, uma transposio ou    parcela importante do eu", exclamou ele em O
uma traduo do inconsciente em consciente,        eu e o isso), que constitua um avano terico
pode levar o sujeito a tomar conhecimento dos      essencial.
elementos concretos de seu inconsciente.               Outras correntes -- as representadas por
    Os contedos do inconsciente no so as        Melanie Klein* ou Karen Horney* -- conser-
pulses* como tais, pois estas nunca podem         varam o inconsciente freudiano no centro de
tornar-se conscientes, mas o que Freud denomi-     suas concepes, porm deslocando sua aten-
na de "representantes-representaes", uma es-     o para a relao arcaica com a me, em detri-
pcie de representantes das pulses, baseados      mento da sexualidade* e do plo paterno.
em traos mnmicos. Esses contedos, fanta-            Em 1953, em sua conferncia sobre o simb-
sias e roteiros em que as pulses esto fixadas    lico*, o imaginrio* e o real*, e tambm em
buscam permanentemente descarregar-se de           "Funo e campo da fala e da linguagem em
seus investimentos* pulsionais, sob a forma de     psicanlise", Jacques Lacan* desenvolveu uma
"moes de desejo". Entre esses contedos in-      concepo radicalmente diferente do incons-
conscientes, as diferenas concernem apenas       ciente, apoiado em sua teoria do significante*.
natureza e  fora do investimento pulsional.      Ele definiu o inconsciente como "o discurso do
Esse mecanismo de investimento, cujas formas       outro*" e, mais tarde, como o Outro (com
essenciais foram definidas por ocasio do es-      maiscula), lugar de um significante puro onde
tudo do trabalho do sonho -- a condensao*,       se marca a diviso (clivagem*) do sujeito*.
o deslocamento* e a figurao --, constitui o      Dois anos depois, Lacan esclareceu sua posi-
processo primrio, sendo o processo secundrio     o, optando por uma traduo indita da cle-
formado pelo sistema pr-consciente, mais es-      bre frase de Freud, Wo Es war, soll Ich werden,
tvel e mais organizado. A diferena de funcio-    enunciada em 1933 nas Novas conferncias
namento e a incompatibilidade entre os dois        introdutrias sobre psicanlise*: "Onde era is-
sistemas so reconhecveis sob diversas formas,    so devo eu advir." Com essa traduo, Lacan
378      incorporao

pretendeu restituir ao inconsciente freudiano         sentao topolgica do inconsciente, expressa
seu lugar central. J no se tratava de privilegiar   por meio de ns borromeanos*.
o eu para torn-lo autnomo (Ego Psychology),
mas de fazer emergir, na trilha do isso, o advento     Sigmund Freud e Josef Breuer, Estudos sobre a
                                                      histeria (1895), ESB, II; GW, I, 77-312; SE, II; Paris,
de um "eu" ([je] ou sujeito do inconsciente)
                                                      PUF, 1956  Sigmund Freud, Briefe an Wilhelm Fliess,
distinto do eu [moi].                                 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; A interpretao
    Em 1958, numa exposio no Colquio de            dos sonhos (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642;
Royaumont, intitulada "A direo do tratamen-         SE, IV-V, 1-621; Paris, PUF, 1967; "Uma nota sobre o
                                                      inconsciente na psicanlise" (1912), ESB, XII, 327-38;
to e os princpios de seu poder", Lacan enfatizou     GW, VIII, 430-9; SE, XII, 255-66; in Mtapsychologie,
que o inconsciente tinha "a estrutura radical da      Paris, Gallimard, col. "Ides", 1968, 75-187; "O incons-
linguagem". Essa idia seria retomada em              ciente" (1915), ESB, XIV, 191-233; GW, X, 263-303;
1972-1973, no seminrio Mais, ainda, no ense-         SE, XIV, 159-204; OC, XIII, 205-43; O eu e o isso
                                                      (1923), ESB XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX,
jo de um enunciado famoso: "O inconsciente           12-59; OC, XVI, 255-301; Novas conferncias introdu-
estruturado como uma linguagem", seguido de           trias sobre psicanlise (1933), ESB, XXII, 15-226;
uma outra formulao: "A linguagem  a con-           GW, XV; SE, XXII, 5-182; OC, XIX, 83-268; Esboo de
                                                      psicanlise (1938), ESB, XXIII, 168-246; GW, XVII,
dio do inconsciente." A idia lacaniana de
                                                      67-138; SE, XXIII, 139-207; Paris, PUF, 167  Jol Dor,
uma primazia da linguagem -- e, portanto, do          Introduo  leitura de Lacan, t.I (Paris, 1985), P.
significante -- repousa no dado primordial de         Alegre, Artes Mdicas, 1992  Henri F. Ellenberger,
que o indivduo no aprende a falar, mas  ins-       Histoire de la dcouverte de l'inconscient (N. York,
                                                      Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard,
titudo (ou construdo) como sujeito pela lin-        1994  Henri Ey (org.), L'Inconscient. VIe Colloque de
guagem. A criana, portanto,  sujeitada logo de      Bonneval, Paris, Descle de Brouwer, 1966  Jacques
sada a uma ordem terceira, a ordem simblica,        Lacan, "Le Symbolique, l'imaginaire et le rel" (1953),
cujo esteio original  a metfora do Nome-do-         Bulletin de l'Association Freudienne, 1982, 1, 4-13;
                                                      "Funo e campo da fala e da linguagem em psican-
Pai*. Por ser captada num universo significante,      lise" (1953), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,
a criana comea a falar muito antes de saber         Jorge Zahar, 1998, 238-324; "A coisa freudiana ou
conscientemente o que sua fala diz: "A lingua-        Sentido do retorno a Freud em psicanlise" (1955),
gem, portanto", escreve Jol Dor, "aparece co-        ibid., 402-37; "A direo do tratamento e os princpios
                                                      de seu poder" (1958), ibid, 591-652; "Posio do incons-
mo a atividade subjetiva pela qual dizemos algo       ciente" (1960), ibid., 843-64; "Prefcio" a Anika Rifflet-
totalmente diferente do que acreditamos dizer         Lemaire, Jacques Lacan, Bruxelas, Dessart, 1970, 5-
naquilo que dizemos. Esse `algo totalmente di-        16; O Seminrio, livro 20, Mais, ainda (1972-1973), Rio
                                                      de Janeiro, Jorge Zahar, 1989, 2 ed.  Jean Laplanche,
ferente' institui-se, fundamentalmente, como o        O inconsciente e o id (Paris, 1981), S. Paulo, Martins
inconsciente que escapa ao sujeito falante, por       Fontes, 1992  Jean Laplanche e Serge Leclaire, "L'In-
estar constitutivamente separado dele."               conscient: une tude psychanalytique" (1960), in Henri
    Foi no Colquio de Bonneval, em 1960, que         Ey (org.), L'Inconscient. VIe Colloque de Bonneval,
                                                      Paris, Descle de Brouwer, 1966, 95-130 e 143-77
a tese lacaniana da primazia da linguagem sobre       (discusso)  Serge Leclaire, Psychanalyser, Paris,
o inconsciente viu-se discutida por dois dos          Seuil, 1968  Jacques Mousseau e Pierre-Franois
mais brilhantes discpulos do mestre: Serge Le-       Moreau (orgs.), L'Inconscient, Paris, Retz, CEPL, 1976
claire* e Jean Laplanche. Em sua exposio             Jacques Nassif, Freud. L'Inconscient (1977), Paris,
                                                      Flammarion, col. "Champs", 1992  lisabeth Roudi-
intitulada "O inconsciente: um estudo psicana-        nesco, Histria da psicanlise na Frana, vol.2 (Paris,
ltico", cada um desses dois autores formulou         1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jacques
uma posio diferente. Enquanto Leclaire de-          Lacan. Esboo de uma vida, histria de um sistema de
                                                      pensamento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das
monstrou, atravs de um caso clnico (o "Ho-          Letras, 1994  Lancelot Whyte, L'Inconscient avant
mem do Licorne"), a validade da proposio da         Freud (N. York, 1960), Paris, Payot, 1971.
primazia do significante, Laplanche, ao contr-
rio, inverteu-a, sustentando a idia de que "o
inconsciente  a condio da linguagem".
    Posteriormente, Lacan introduziria um certo       incorporao
nmero de transformaes em sua concepo,            al. Einverleibung; esp. incorporacin; fr. incorpora-
chegando, j no fim da vida, a uma repre-             tion; ing. incorporation
                                                                  Independentes, Grupo dos            379

Termo introduzido por Sigmund Freud*, em 1915,           Sob mais de um aspecto, o desenvolvimento
para designar um processo pelo qual um sujeito*      desse Grupo dos Independentes inscreveu-se na
faz com que um objeto penetre, fantasisticamente,    tradio filosfica e poltica inglesa, que se
no interior de seu corpo.                            caracteriza pela recusa das categorias totaliza-
    Prxima do termo introjeo*, introduzido        doras e da militncia doutrinria. Podemos re-
por Sandor Ferenczi* em 1909, a incorporao         sumi-la com o lema adotado pela nao brit-
est relacionada com o envoltrio corporal.  o      nica quando ela se libertou do autoritarismo
interior do corpo que  visado, com trs objeti-     catlico: "Nada de entusiasmo, se Deus qui-
vos: dar prazer a si mesmo atravs da penetra-       ser!" A originalidade desse grupo, nico no
o do objeto em si, destruir o objeto e assimilar   mundo, est em ele haver conseguido fazer
as qualidades do objeto.                             escola, graas  qualidade de seus clnicos e a
    O termo incorporao foi amplamente reto-        seus trabalhos sobre a relao de objeto* e a
mado por Melanie Klein* e sua escola.                contratransferncia*.
                                                         Os Independentes beneficiaram-se desde
 Sigmund Freud, "As pulses e suas vicissitudes"    cedo da contribuio de Donald Woods Winni-
(1915), ESB, XIV, 137-68; GW, V, 443-65; SE, XIV,
109-40; OC, XII, 163-85.                             cott*. De formao kleiniana, ele sempre man-
                                                     teve distncia da influncia de Melanie Klein,
 ESTDIO DO ESPELHO; IDENTIFICAO; IMAGEM           recusando-se a se submeter  sua tirania. Preten-
DO CORPO; OBJETO, RELAO DE; POSIO DE-            dendo-se acima de tudo freudianos, os Indepen-
PRESSIVA/POSIO ESQUIZO-PARANIDE; PROJE-           dentes procuraram manter-se imparciais em re-
O; PULSO.                                         lao a cada um dos dois campos. Entretanto,
                                                     no puderam evitar aproximar-se das idias
                                                     kleinianas, que, no correr dos anos, prevalece-
Independentes, Grupo dos                             ram na Gr-Bretanha* sobre as de Anna Freud.
                                                     Testemunho disso so os trabalhos de analistas
    O conflito entre Anna Freud* e Melanie           como Ella Sharpe*, Ronald Fairbairn*, John
Klein* a propsito da psicanlise de crianas*       Bowlby*, Masud Khan* ou, ainda, Enid e Mi-
tivera incio quando Melanie Klein ainda estava      chael Balint*.
em Berlim, no crculo de Karl Abraham*; iria
                                                         A partir da dcada de 1980, a calma restabele-
ampliar-se quando da instalao de Klein em
                                                     cida favoreceu a integrao do Grupo dos In-
Londres, em 1926, a convite de Ernest Jones*,
                                                     dependentes. Ele acabou mesmo dominando as
e atingir seu paroxismo aps a chegada da
                                                     instituies, sem contudo obscurecer por com-
famlia Freud ao solo ingls, em 1939.
                                                     pleto as idias de Melanie Klein, que continuaram
    Enquanto as bombas alems iluminavam o           muito presentes, sobretudo na Tavistock Clinic.
cu londrino e destroavam os prdios da capi-           Mas os apaziguamentos e concesses tam-
tal, os confrontos ou Grandes Controvrsias*         bm tiveram como conseqncia o enfraqueci-
campeavam entre os representantes dos dois           mento da exigncia terica, o que favoreceu o
cls. A discusso dizia respeito a questes te-     retorno  psicologia e  psico-sociologia, muito
ricas e  formao dos analistas. No fim da          distintas da conceituao freudiana.
guerra, essa batalha da psicanlise na Inglaterra
foi encerrada com um lady's agreement, labo-          Phyllis Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie
riosamente negociado, que estipulava a livre         Klein (1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Pearl King
escolha de sua formao por cada candidato,          e Riccardo Steiner (orgs.), Les Controverses Anna
                                                     Freud/Melanie Klein, 1941-1945 (Londres, 1991), Pa-
com a obrigao de que ele fizesse uma segunda       ris, PUF, 1996  ric Rayner, Le Groupe des "Indpen-
superviso* conduzida por um supervisor no          dants" et la psychanalyse britannique (Londres, 1990),
pertencente a nenhum dos dois grupos.                Paris, PUF, 1994  Donald Woods Winnicott, Lettres
    Assim nasceu o centro, ou middle group, que      vives (Londres, 1987), Paris, Gallimard, 1989  Julia
                                                     Borossa, Narratives of the Clinical Encounter and the
iria transformar-se no Grupo dos Indepen-            Transmission of Psychoanalytic Knowledge, tese,
dentes, ao qual logo se ligaria um nmero cres-      Cambridge, Newnham College, 1995.
cente de jovens analistas repelidos pelo secta-
rismo dos annafreudianos e dos kleinianos.            ANNAFREUDISMO; CISO; KLEINISMO.
380     ndia

ndia                                                servio mdico do exrcito colonial. Entre 1910
    A tradio mdica indiana (ou Ayurveda)          e 1914, ocupou vrios postos na ndia e foi
elaborou uma etiologia das doenas mentais           analisado por Ernest Jones*, a quem dirigiu em
prxima da que fez o corpus hipocrtico. Assim,      1910 uma comunicao sobre um caso clnico:
a seu modo, essa medicina tradicional concebia       "Primeira psicanlise de um sujeito indiano".
a loucura* no sob a categoria de uma possesso      Julgando o texto demasiado elementar, Jones
demonaca, como aconteceu durante muito              recusou-se a public-lo. Apesar disso, Berke-
tempo no Ocidente cristo, mas como uma pa-          ley-Hill participou, em 1913, da criao da
tologia. Nessa perspectiva, a loucura era consi-     London Psychoanalytic Society. Durante a Pri-
derada uma acentuao delirante ou manaca de        meira Guerra Mundial, serviu o imprio brit-
fenmenos ditos normais. O obstculo  intro-        nico na frica Oriental e, em 1919, assumiu a
duo do saber psiquitrico ocidental no conti-      direo do Hospital Psiquitrico de Ranci, a
nente indiano no foi pois de ordem religiosa,       noroeste de Calcut. Depois de seu casamento
como em outros pases, e, a partir do incio do      com uma mulher de religio hindusta, instalou-
sculo XIX, as duas medicinas coexistiram. Foi       se definitivamente no pas. Outros mdicos co-
nesse terreno que as idias freudianas comea-       mearam ento a tratar pacientes pelo mtodo
ram a se introduzir a partir de 1920.                freudiano, principalmente Claud Bangar Daly
    A ndia foi o primeiro pas da sia, e o nico   (1884-1950), que escreveu textos sobre o "com-
com o Japo*, em que a prtica institucional da      plexo de menstruao".
psicanlise* pde se implantar, alis de maneira          Bose que deve ser considerado o organi-
muito reduzida, em um contexto cultural no-         zador do movimento psicanaltico na ndia.
ocidental. Essa implantao, realizada por ape-      Proveniente de uma grande famlia de Bengala,
nas um homem, Girndrashekhar Bose*, e por           comeou a tratar de doentes mentais em 1914,
alguns psiquiatras coloniais, ficou limitada a       depois de passar pela prtica do hipnotismo*.
duas grandes cidades, Calcut e Bombaim, e a         Formou um crculo de discpulos e fundou em
algumas dzias de clnicos, durante setenta          1922 a Sociedade Psicanaltica Indiana, da qual
anos.                                                foi presidente at a morte. Dez anos depois, a
    A introduo do freudismo no territrio in-      Sociedade criou um instituto e em 1940 contri-
diano se operou por dois caminhos distintos: um      buiu para a instalao de um pequeno hospital,
colonial e outro de inspirao indiana. Era na       o Lumbini Park Mental Health Hospital, em um
provncia de Bengala, onde o colonialismo in-        imvel que pertencia a um dos irmos de Bose.
gls estava instalado desde 1757, que estava         Em 1947, foi tambm Bose que criou a revista
localizado o maior nmero de instituies rela-      da Sociedade, Samiska.
tivas  educao,  medicina e ao urbanismo, e           Enquanto Bose procurava elaborar uma
ali os primeiros psicanalistas indianos comea-      doutrina do psiquismo que levasse em conta as
ram a tratar de pacientes tambm indianos. To-       particularidades culturais ligadas ao hindusmo,
dos pertenciam  elite ocidentalizada, adepta        Berkeley-Hill promovia, ao contrrio, um dife-
dos costumes e do saber europeus.                    rencialismo de tipo colonial, afirmando, por
    No comeo do sculo XIX, a reforma asilar        exemplo, que o sujeito indiano se distinguia
que atingia toda a Europa foi introduzida na         estruturalmente do sujeito ocidental por uma
ndia. Hospitais foram construdos para acolher      patologia especificamente anal. Em resumo,
doentes mentais pertencentes a todas as classes      pensava que o indiano era inferior ao europeu
da sociedade: europeus, anglo-indianos, aris-        por causa da interrupo do seu desenvolvimen-
tocratas ou simples soldados com saudade da          to psquico no estdio* anal.
metrpole. Esses asilos se tornaram depois ins-          Em 1947, a ndia conquistou a indepen-
tituies estatais, administradas por mdicos        dncia e seu territrio foi dividido em dois
militares do exrcito britnico.                     Estados: a ndia, governada por uma elite
    Um deles, Owen Berkeley-Hill (1879-              nacionalista que aderia a uma filosofia poltica
1944), filho de mdico, estudou em Oxford, em        secularizada, e o Paquisto, dominado pelo Isl
Gttingen e em Nancy, antes de se integrar ao        e pelo esprito religioso. Isolado em Lahore,
                                                             Inibies, sintomas e angstia           381

Israil Latif, um mdico amigo de Bose, criou        Owen Berkeley-Hill, "The anal-erotic factor in the
                                                   religion, philosophy and character of the Hindus", IJP,
sozinho um pequeno grupo e uma revista, The
                                                   2, 1921, 306-38; "Hindu-Moslem unity", IJP, 6, 1925,
Journal of Psychoanalysis, em 1953. Foi o          282-7; All too Human. An Unconventional Autobiogra-
primeiro analista de um homem que iria tornar-     phy, Londres, Peter Davies, 1939  Claud Bangar Daly,
se clebre no seio da British Psychoanalytic       "Hindu-Mythologie und Kastrationkomplex", Imago, 13,
                                                   1927, 145-98  C.V. Ramana, "On the early history and
Society (BPS): Masud Khan*.
                                                   development of psychoanalysis in India", Journal of the
    Nacionalista moderado, Bose conduzia os        American Psychoanalytic Association, 12, 1964, 110-
tratamentos em bengali, usava roupas indianas      34  T.C. Sinha "Development of psycho-analysis in
e mantinha distncia das modas de pensamento       India", IJP, 47, 1966, 427-39  Sudhir Kakar, "Conside-
ocidentais. Assim, ao invs de procurar univer-    raes sobre a histria e o desenvolvimento da psica-
                                                   nlise na ndia", Revista Internacional da Histria da
salizar a questo edipiana, criando uma moda-      Psicanlise, 2 (1989), Rio de Janeiro, Imago, 1992,
lidade especfica de complexo, como propunha       439-44; Chamans, mystiques et mdecins (N. York,
Heisaku Kosawa* com o mito de Ajase, prefe-        1982), Paris, Seuil, 1997; "Encounters of the psycho-
riu estudar a relao do sujeito com a me,        logical kind: Freud, Jung and India", The Psychoanaly-
                                                   tic Study of Society, 19, 1994, 263-72  Christiane
abstraindo o pai. Nessa perspectiva reivin-        Hartnack, "British psychoanalysts in colonial India", in
dicava menos as teses kleinianas do que a cul-     Psychology in Twentieth Century Culture and Society,
tura do hindusmo, povoada de uma multido         Cambridge, Ash and Woodward, 1987, 233-51; "Vish-
de divindades femininas e masculinas que exer-     nou on Freud's desk", Social Research, 57, 4, 1990,
                                                   921-49  Roger-Pol Droit, L'Oubli de l'Inde. Une amn-
ciam a autoridade atravs de uma identidade        sie philosophique, Paris, PUF, 1989  Stanley Kurtz, All
fluida e mal definida.                             the Mothers are One. Hindu, India and the Cultural
    O advento da independncia acentuou os         Reshaping of Psychoanalysis, N. York, Columbia Uni-
conflitos entre as duas correntes antagonistas,    versity Press, 1992  Guy Mazars, La Mdecine in-
                                                   dienne, Paris, PUF, col. "Que sais-je?", 1995.
colonial de um lado, culturalista do outro, en-
quanto os clnicos se formavam em um quadro         ETNOPSICANLISE; FANON, FRANTZ; GR-
elitista. Ao longo dos anos, enquanto a psican-   BRETANHA; HISTRIA DA PSICANLISE.
lise continuava a ser o apangio de um pequeno
grupo, as teorias kleinianas tiveram um certo
impacto, ao passo que as de Jacques Lacan* se      Inglaterra
desenvolveram nos anos 1970, essencialmente         GR-BRETANHA.
na universidade, nos departamentos de literatu-
ra e de cinema.
    A coexistncia de duas formas de diferen-      Inibies, sintomas e angstia
cialismo, um colonial (que tendia a afirmar a      Livro de Sigmund Freud*, publicado em alemo,
inferioridade da cultura indiana em relao       em 1926, sob o ttulo Hemmung, Symptom und
cultura inglesa), outro nativo (que procurava      Angst. Traduzido para o francs pela primeira vez
promover a indianidade), constituiu finalmente     em 1951, por Paul Jury (1878-1953) e Ernest Fraen-
um obstculo para o desenvolvimento da psica-      kel, sob o ttulo Inhibition, symptme et angoisse,
                                                   depois em 1965, por Michel Tort, sem modificao
nlise na ndia. Depois da independncia, os
                                                   do ttulo, e por ltimo em 1992, por Jol Doron e
poucos discpulos formados por Bose pros-
                                                   Roland Doron, tambm sem alterao do ttulo.
seguiram suas pesquisas no caminho traado,        Traduzido para o ingls em 1927, por L. Pierce
mas no puderam evitar a estagnao do movi-       Clark (et al.), sob o ttulo Inhibition, Symptom and
mento. T.C. Sinha, e depois Sudhir Kakar e o       Anxiety, depois em 1935, por H.A. Bunker, sob o
antroplogo Stanley Kurtz redefiniram por sua      ttulo The Problem of Anxiety, e novamente em
vez o culturalismo* indiano, dando-lhe como        1936, por Alix Strachey*, sob o ttulo Inhibitions,
misso resistir  mundializao das formas de      Symptoms and Anxiety. Esta ltima traduo foi
saber oriundas do Ocidente, inclusive o univer-    retomada por James Strachey, com algumas mo-
salismo freudiano. No plano clnico, foram as      dificaes, em 1959.
teses de Melanie Klein* e de Wilfred Ruprecht         Nessa obra, desprovida de uma verdadeira
Bion* que acabaram se impondo no fim dos           unidade e composta de reflexes clnicas sobre
anos 1970.                                         temas variados, Freud aborda, em primeiro lu-
382     Inibies, sintomas e angstia

gar, a questo da inibio e do sintoma. Algu-       gnese da angstia a um coito insatisfatrio. Ela
mas observaes, em especial sobre as inibies      , portanto, como sublinham Jean Laplanche e
alimentares (bulimia, anorexia), seriam objeto       Jean-Bertrand Pontalis, "a manifestao do fato
de elaboraes considerveis pelos discpulos        de que uma quantidade de energia no foi
de Freud, das mais variadas tendncias.              controlada".
    Na medicina, o sintoma  um distrbio que            Em 1908, em seu prefcio ao livro de Wil-
remete a um estado mrbido. Quanto  inibio,       helm Stekel* intitulado Os estados nervosos de
ela  definida, em geral, como uma limitao da      angstia e seu tratamento, Freud muda de opi-
atividade emocional ou fisiolgica. Freud no        nio e relaciona a angstia s fantasias uterinas.
se afasta dessas concepes, mas as adapta  sua     No ano seguinte, numa nota acrescentada a A
doutrina. Define a inibio como uma limitao       interpretao dos sonhos*, faz do nascimento
normal das funes do eu*, e o sintoma como          o prottipo do afeto de angstia. Foi essa idia
uma manifestao (ou sinal) da modificao           que Rank retomou, em 1924, fazendo do nasci-
patolgica dessas mesmas funes. O sintoma          mento um verdadeiro trauma. Da intensidade
pode estar ou no ligado a uma inibio e, em        do trauma e, portanto, da quantidade de angs-
geral,  o substituto de uma satisfao pulsional    tia surgida durante essa situao primordial,
no ocorrida: tal como o sonho* e o ato falho*,      decorreria, segundo ele, a evoluo do sujeito
 uma formao de compromisso entre as repre-        para a normalidade ou a patologia.
sentaes recalcadas e as instncias recalcado-          Em 1924, a discusso em torno do tema do
ras. Assume formas particulares, de acordo com       trauma real reativou o debate sobre a teoria da
o tipo de patologia: converso, na histeria*, e      seduo*: conviria compreender a gnese das
deslocamento* para um objeto externo, na fo-         neuroses e das psicoses como conseqncia de
bia.                                                 choques realmente sofridos (abusos sexuais,
    Freud distingue cinco funes sujeitas a ini-    violncias diversas, traumas de guerra etc.), ou,
bies: funo sexual, alimentao, locomoo,       ao contrrio, sustentar a idia de que os traumas
trabalho social e inibies especficas. A inibi-    esto ligados a questes psquicas?
o sexual masculina assume quatro formas:               Freud se posicionou em relao a Rank,
impotncia psquica, falta de ereo, ejaculao     criando trs termos: (1) a angstia diante de um
precoce e falta de ejaculao. A inibio sexual     perigo real (Realangst); (2) a angstia autom-
feminina decorre essencialmente da histeria          tica (automatische Angst); (3) o sinal de angs-
(assim como a inibio da marcha). A inibio        tia (Angstsignal). No primeiro caso, a angstia
no trabalho tanto remete  histeria quanto          do sujeito caracteriza-se por aquilo que a moti-
neurose obsessiva.                                   va, isto , por um perigo externo que tem como
    Em seguida, Freud examina a perturbao          causa a imaturidade biolgica do ser humano;
da funo alimentar, caracterizada pela inape-       no segundo caso,  uma reao a uma situao
tncia, por um lado (anorexia), e pela intensifi-    traumtica de origem social, atravs da qual o
cao do apetite, por outro (bulimia): "A com-       organismo se defende espontaneamente; no ter-
pulso a comer  motivada pela angstia da           ceiro,  a reproduo, sob forma atenuada, de
inanio; essa questo, todavia, tem sido pouco      uma situao traumtica que foi primitivamente
estudada. O sintoma do vmito  conhecido            vivenciada. O sinal de angstia, portanto,  um
como uma defesa histrica contra a alimenta-         mecanismo puramente psquico, que funciona
o. A recusa do alimento, decorrente da angs-      como um smbolo mnmico e permite ao eu*
tia,  prpria dos estados psicticos (delrios de   reagir atravs de uma defesa*.
envenenamento)."                                         Essa teoria faz com que se leve em conta a
    A parte principal do livro  dedicada  teoria   realidade do trauma no sentido kantiano de
da angstia. Freud responde, em particular, s       evidenciar o valor paradigmtico da angstia
teses desenvolvidas por Otto Rank* em O trau-        ligada  separao da me. Permite tambm no
ma do nascimento.                                    atribuir ao prprio parto (separao biolgica)
    No que se costuma chamar de sua primeira         o valor de um trauma em si: "O fato de o homem
teoria da angstia (1896-1907), Freud associa a      ter em comum com os outros mamferos o
                                                             Inibies, sintomas e angstia           383

processo do nascimento, ao passo que tem em         muito tempo e familiares desde sempre". Essa
relao aos animais o privilgio de uma predis-     impresso de estranheza surge na vida cotidiana
posio particular para a neurose, no depe em     e na criao esttica quando certos complexos
favor da doutrina de Rank. Mas a objeo prin-      infantis recalcados so abruptamente des-
cipal continua a ser a de que essa doutrina paira   pertados. Manifesta-se ento em diversos temas
no ar em vez de se apoiar numa observao           angustiantes: o medo da castrao*, a figura do
slida. No dispomos de nenhum bom estudo           duplo, o movimento do autmato. Essas trs
que estabelea uma relao incontestvel entre      modalidades do estranho tm como trao co-
um nascimento difcil e prolongado e o desen-       mum a reativao das foras primitivas que a
volvimento de uma neurose."                         civilizao parecia ter esquecido e que o in-
    Note-se que esse esclarecimento fez-se          divduo supunha haver superado. Na figura do
necessrio em 1926, em virtude de os psicote-       duplo ou do autmato, suspeita-se de que um
rapeutas norte-americanos haverem tomado ao         ser aparentemente inanimado esteja vivo e se
p da letra as teses de Rank, obrigando ele         presume que um objeto sem vida seja animado.
mesmo, alis, a insistir no aspecto "psicolgi-     Quanto  angstia de castrao, ela se revela nas
co" do trauma: "Clarence Obendorf*, por             descries de cloacas, vampiros, membros de-
exemplo", escreveu James Lieberman, "contes-        vorados ou corpos desarticulados, prprios da
tou a teoria porque seu prprio nascimento fora     literatura fantstica e do mundo do sonho.
particularmente traumtico do ponto de vista            Entre os herdeiros de Freud, foram os
obsttrico: o frceps lhe havia amassado o cr-     fenomenologistas, de um lado, e os repre-
nio e ele ficara entre a vida e a morte durante     sentantes da escola inglesa, de outro, que zela-
meses (...). Assim, recomendou que se acompa-       ram por vincular, atravs da leitura das obras de
nhassem crianas nascidas de partos difceis        Kierkegaard e Heidegger, a questo da angstia
para efetuar um estudo a esse respeito."            psquica do homem  de sua angstia exis-
    Em 1932, em suas Novas conferncias in-         tencial. A contribuio de Jacques Lacan* ins-
trodutrias sobre psicanlise*, Freud acabou        creve-se nessa mesma perspectiva. Apoiando-
dando razo a Rank ao destacar que ele tivera o     se no Unheimlich, ele efetivamente mostrou
mrito de compreender a idia da separao          que a angstia surge quando o sujeito  confron-
primordial da me.                                  tado com a "falta da falta", ou seja, com uma
    Sejam quais forem suas qualidades clnicas,     alteridade onipotente (pesadelo, duplo alie-
Inibies, sintomas e angstia  o livro mais       nante, estranheza inquietante) que o invade a
fraco de Freud. Isso decorre da recusa do autor     ponto de destruir nele qualquer faculdade de
a vincular a questo da angstia s inter-          desejar*.
rogaes da filosofia moderna. Assim  que, em
seu prefcio, Freud emite sobre a filosofia co-      Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
                                                    ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
locaes bastante genricas: "Sou hostil  fabri-   Paris, PUF, 1967; "O estranho" (1919), ESB, XVII,
cao de vises de mundo", diz. "Deixemo-las        275-314; GW, XII, 229-68; SE, XVII, 217-256; in L'In-
para os filsofos, que professam abertamente        quitante tranget et autres essais, Paris, Gallimard,
que a viagem da vida  impossvel sem um            1985, 209-63; O eu e o isso (1923), ESB XIX, 23-76;
                                                    GW, XIII, 237-89; SE, XIX, 12-59; OC, XVI, 255-303;
Baedecker [guia] que lhes d informaes sobre      "Inibies, sintomas e angstia" (1926), ESB, XX, 89-
todas as coisas. Aceitemos com humildade o          106; GW, XIV, 113-205; SE, XX, 87-172; OC, XVII,
desprezo com que os filsofos nos avaliam, do       208-87  Otto Rank, Le Traumatisme de la naissance
alto de suas exigncias sublimes."                  (Viena, 1924), Paris, Payot, 1928  Ernest Jones, A
                                                    vida e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953,
    A noo de angstia, no sentido da angstia     1955, 1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Jacques
existencial,  mais bem explicitada por Freud       Lacan, Le Sminaire, livre X, L'Angoisse (1962-1963),
em textos que no versam diretamente sobre          indito  Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis,
esse assunto, como "O estranho", por exemplo.       Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo,
                                                    Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Jean Kestemberg, Eve-
Nesse texto de 1919, Freud chama de Unheim-         lyne Kestemberg e Simone Decobert, La Faim et le
liche ("estranha familiar") a impresso assus-      corps. Une tude psychanalytique de l'anorexie men-
tadora que "se liga s coisas conhecidas h         tale, Paris, PUF, 1972  Ginette Raimbault e Caroline
384      injeo de Irma, sonho da

Eliacheff, Les Indomptables, Paris, Odile Jacob, 1989     William Alanson White Psychoanalytic Socie-
 Laurence Igoin, La Boulimie et son infortune, Paris,
                                                          ty, fundada por Harry Stack Sullivan*, a Deut-
PUF, 1985  E. James Lieberman, La Volont en acte.
La Vie et l'oeuvre d'Otto Rank (N. York, 1985), Paris,    sche Psychoanalytische Gesellschaft (DPG),
PUF, 1991  Bernard Brusset e Catherine Couvreur          reconstituda por Felix Boehm*, e a Sociedad
(orgs.), La Boulimie, monografias da Revue Franaise      Mexicana de Psicoanalisis, marcada pelos ensi-
de Psychanalyse, Paris, PUF, 1991  Marie-Claude          namentos de Erich Fromm*. Tal como a Inter-
Lambotte, "Angstia", in Pierre Kaufmann (org.), Dicio-
nrio enciclopdico de psicanlise: o legado de Freud
                                                          nationale Fderation der Arbeitskreise fr Tie-
e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,       fenpsychologie*, criada por Igor Caruso*, a
1996, 36-44.                                              IFPS  uma federao em que cada sociedade
                                                          conserva sua autonomia.  influente em nume-
 ANLISE EXISTENCIAL; BAUER, IDA; BOWLBY,                 rosos pases latino-americanos (Iracy Doyle*)
JOHN; ESTDIO DO ESPELHO; FERENCZI, SANDOR;
                                                          e na Escandinvia*, em especial a Finlndia.
GRAF, HERBERT; INCONSCIENTE; PSICANLISE DE
CRIANAS; RECALQUE; SEXOLOGIA: TRADUO                    INTERNATIONALE FDERATION DER          ARBEITS-
(DAS OBRAS DE SIGMUND FREUD); WINNICOTT,                  KREISE FR TIEFENPSYCHOLOGIE.
DONALD WOODS.

                                                          International Journal of
injeo de Irma, sonho da                                 Psycho-Analysis (IJP)
 IRMA, INJEO DE.                                           Fundado por Ernest Jones* em 1920, o IJP
                                                          foi a primeira revista psicanaltica em lngua
                                                          inglesa. Aps a destruio da psicanlise* pelo
instinto
                                                          nazismo* na Alemanha* e na ustria, bem
 PULSO.                                                  como a extino concomitante das revistas em
                                                          lngua alem fundadas por Sigmund Freud*, o
                                                          IJP tornou-se o rgo oficial da International
instituio (psicanaltica)
                                                          Psychoanalytical Association* (IPA).
 ANLISE DIDTICA; ASSOCIATION MONDIALE DE
PSYCHANALYSE; BERLINER PSYCHOANALYTIS-
CHES INSTITUT; CISO; COLE FREUDIENNE DE
                                                          International Psychoanalytical
PARIS; FEDERAO EUROPIA DE PSICANLISE;
                                                          Association (IPA)
FEDERAO PSICANALTICA DA AMRICA LATINA;
INTERNATIONAL PSYCHOANALYTICAL ASSOCIA-                       Fundada em Nuremberg em 30 de maro de
TION; SOCIEDADE PSICOLGICA DAS QUARTAS-                  1910, por Sandor Ferenczi* e Sigmund Freud*,
FEIRAS.                                                   a internacional freudiana chamou-se, a princ-
                                                          pio, Internationale Psychoanalytische Vereini-
                                                          gung (IPV). Trabalhou usando a sigla IPV at
Instituto Psicanaltico de Berlim                         1936, data em que a quase totalidade dos
 BERLINER PSYCHOANALYTISCHES INSTITUT.                    psicanalistas da Europa continental exilou-se na
                                                          Gr-Bretanha* e nos Estados Unidos*. Tornou-
                                                          se ento anglfona e assumiu oficialmente o
International Federation of                               nome de International Psychoanalytical As-
Psychoanalytic Societies (IFPS)                           sociation (IPA). A partir de 1945, a sigla inglesa
(Federao Internacional de Sociedades Psicana-           IPA generalizou-se no seio de todas as socie-
lticas)                                                  dades psicanalticas a ela filiadas,  exceo de
   Fundada em Gttingen, na Alemanha*, aps               duas sociedades francesas: a Sociedade Psica-
a Segunda Guerra Mundial, a International Fe-             naltica de Paris (SPP, 1926) e a Associao
deration of Psychoanalytic Societies (IFPS) ti-           Psicanaltica da Frana (APF, 1964). Esses dois
nha por objetivo reunir sociedades psicanalti-           grupos, com efeito, recusaram-se a reconhecer
cas de inspirao freudiana, mas no integradas           a validade de uma sigla anglfona e obtiveram
na International Psychoanalytical Association*            o privilgio de usar uma sigla francesa: API
(IPA). A princpio, agrupou trs associaes: a           (Associao Psicanaltica Internacional).
                                                   International Psychoanalytical Association    385

    A IPA teve, sucessivamente, quatro publi-            Durante o quarto congresso, que se realizou
caes oficiais: a Zentralblatt fr Psychoana-       em Munique em setembro de 1913, seis socie-
lyse. Medizinische Monatschrift fr Seelenkun-       dades psicanalticas j faziam parte da futura
de* (1910-1913), a Internationale rztlische         IPA: (1) a Wiener Psychoanalytische Vereinig-
Zeitschrift fr Psychoanalyse (IZP, 1913-            ung (WPV), criada por Freud em 1908 para
1939), a Internationale Zeitschrift fr Psychoa-     substituir a Sociedade Psicolgica das Quartas-
nalyse und Imago* (IZP-IMAGO, 1939-1941)             Feiras* (1902-1908); (2) a Sociedade Sigmund
e, por fim, o International Journal of Psycho-       Freud de Zurique, criada por Jung em 1907 e
analysis* (IJP), fundado por Ernest Jones* em        dissolvida em 1913; (3) a Deutsche Psychoana-
1920 e que substituiu os trs peridicos ante-       lytische Gesellschaft (DPG), fundada por Karl
riores a partir de 1941.                             Abraham* em 1908; (4) a New York Psychoa-
    Foi em Salzburgo, em 1908, que teve lugar        nalytic Society (NYPS), fundada por Abraham
a primeira grande reunio dos "psiclogos freu-      Arden Brill* em 1911; (5) a American Psychoa-
dianos". Quarenta e duas pessoas, provenientes       nalytical Association* (APsaA), fundada por
de seis pases -- Estados Unidos, ustria, Gr-      Jones e James Jackson Putnam* em 1911; e (6)
Bretanha, Alemanha*, Hungria* e Sua* --,           a Sociedade Psicanaltica de Budapeste, criada
participaram dela. Dois anos depois, durante o       por Ferenczi em 1913 (dissolvida em 1948).
encontro em Nuremberg, imps-se a neces-                 Depois da partida de Jung e da dissoluo da
sidade de criar uma verdadeira associao, ca-       Sociedade de Zurique, a stima componente da
paz de unir os grupos psicanalticos dos dife-       IPA seria a London Psychoanalytical Society,
rentes pases. Considerou-se ento que o pri-        criada por Jones em 1913 e substituda em 1919
meiro congresso da IPV fora o encontro de            pela British Psychoanalytical Society (BPS).
Salzburgo, e o segundo, o de Nuremberg. De-          Em seguida vieram outras: a Nederlandse Ve-
sejoso de fazer a psicanlise sair do gueto vie-     reniging voor Psychoanalyse (NVP, 1917), a
nense, a fim de que no fosse assemelhada a          Sociedade Sua de Psicanlise (SSP, 1919), a
uma "cincia judia", Freud resolveu confiar a        Associao Psicanaltica Russa (1922-1928), a
direo da IPV a um no judeu: Carl Gustav           Sociedade Psicanaltica Indiana (1922), a So-
Jung*. Trs anos depois, este romperia com o         ciet Psicoanalitica Italiana (SPI, 1925), dis-
freudismo, como fizera antes dele Alfred             solvida em 1938 e reconstituda em 1946, a
Adler*.                                              Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP, 1926) e
    Em seu texto inaugural de 1910, Ferenczi         a Sociedade Brasileira de Psicanlise (SBP,
dividiu o movimento psicanaltico em trs gran-      1927). A elas se juntaram a Sociedade Psicana-
des pocas: a chamada poca "herica" (1896-         ltica Japonesa (1932), os dois grupos escan-
1907), durante a qual Freud se vira sozinho em       dinavos (dano-noruegus e fino-sueco, 1934),
Viena*, cercado por alguns discpulos; a cha-        a Associacin Psicoanalitica Argentina (APA,
mada poca "de Jung" (1907-1909), que fora           1942) e, por ltimo, a Association des Psycha-
marcada pela implantao da psicanlise no           nalystes de Belgique* (1949), que se transfor-
campo da psicologia experimental; e a chamada        maria, em 1960, na Sociedade Belga de Psica-
poca "norte-americana" (1909-1913), iniciada        nlise (SBP).
com a viagem de Freud para alm-mar. Ferenczi            Podemos dividir a histria da IPA em quatro
afirmou a necessidade da disciplina e da racio-      grandes perodos (por conveno, os his-
nalizao, advertindo contra os perigos que          toriadores fazem-na comear em 1910). Entre
qualquer organizao encerra: "Conheo bem a         1910 e 1925, ela foi apenas um organismo de
patologia das instituies e sei com que fre-        coordenao dos diferentes grupos locais que
qncia, nos grupos polticos, sociais e cient-     gozavam de grande autonomia no que concerne
ficos, imperam a megalomania pueril, a vai-           formao dos psicanalistas. Entre 1925 e
dade, o respeito por frmulas vazias, a obedin-     1933, mudou radicalmente de feio, ao ser
cia cega e o interesse pessoal, em lugar de um       instaurada a obrigatoriedade da anlise didti-
trabalho consciencioso, dedicado ao bem co-          ca* e da superviso*. A partir da, transformou-
mum."                                                se numa organizao centralizada, dotada de
386     International Psychoanalytical Association

regras de formao e admisso que visavam                A IPA da dcada de 1990 compe-se de
normatizar as anlises e afastar da formao os      quatro tipos de grupos, organizados de acordo
analistas "selvagens" ou transgressores, consi-      com uma hierarquia precisa -- os grupos de
derados psicticos demais, gurus demais ou           estudos (study groups), as sociedades provis-
feiticeiros demais para terem o direito de clini-    rias (provisional societies), as sociedades-
car. Foram igualmente proibidas todas as prti-      membro (component societies) e as associaes
cas ditas "incestuosas": proibio de o analista     regionais (regional associations) -- e de trs
analisar os membros de sua famlia e os de uma       tipos de membros: os titulares (members), os
mesma famlia, e proibio de manter relaes        associados (associate members) e os membros
sexuais com pacientes, qualquer que fosse sua        individuais (direct associate members). O ttulo
forma. Note-se que, atravs de uma deciso           de membro titular ou associado  adquirido
tomada no seio do Comit Secreto* em dezem-          mediante a adeso pessoal a um grupo de es-
bro de 1921, o acesso  profisso de psicanalista    tudos, a uma sociedade-membro ou a uma so-
foi definitivamente recusado aos homos-              ciedade provisria. O ttulo de membro in-
sexuais. Essa regra nunca foi abolida.               dividual  outorgado pela direo da IPA em
    Entre 1933 e 1965, largamente dominada           casos muito precisos: inexistncia de socie-
pela lngua inglesa e pelas grandes correntes de     dades num determinado pas, crise transitria
um freudismo que j no tinha nada a ver com         de um grupo ameaado de ciso etc. Somente a
o classicismo vienense (annafreudismo*, klei-        APsaA beneficia-se da condio de associao
nismo*, Independentes*, Ego Psychology*,             regional, composta no por membros, mas por
                                                     sociedades (sociedades-membros, provisrias,
Self Psychology*), a IPA teve que enfrentar,
                                                     grupos de estudos). Quanto  Associao Bra-
primeiro, o advento do nazismo*, e, depois, a
                                                     sileira de Psicanlise* (ABP), ela no  mais
continuao da terrvel batalha em torno da
                                                     que um simples agrupamento dos cinco compo-
anlise leiga*, iniciada em 1926 e que dividiu a
                                                     nentes brasileiros (sociedades e grupos de es-
Europa e os Estados Unidos. A partir de 1935,
                                                     tudos) da IPA. Note-se que os alunos em forma-
a IPA entrou na era das grandes cises*, que
                                                     o nas sociedades da IPA no so computados
afetaram inicialmente os Pases Baixos* e a
                                                     como membros. Em geral, so to numerosos
Gr-Bretanha (as Grandes Controvrsias*), de-        quanto estes.
pois as sociedades norte-americanas e, por fim,          A essas quatro categorias de sociedade so-
a Frana e a Argentina. Tornou-se ento um           mam-se os institutos de formao, construdos,
organismo de gesto dos interesses profissio-        a partir de 1920, com base no modelo do Berli-
nais das diferentes sociedades que lhe eram fi-      ner Psychoanalytisches Institut* (BPI). Eles po-
liadas e, para essa finalidade, proveu-se de ml-    dem fazer parte da IPA independentemente de
tiplos comits, comisses e subcomisses. Foi        suas ligaes com esta ou aquela sociedade.
dentro desse esprito que imps um quadro tc-           Por ltimo, ao lado da potncia da APsaA
nico rgido para a formao dos psicanalistas.       existem duas federaes: a Federao Psicana-
    Por fim, a partir de 1965, a IPA foi perpas-     ltica da Amrica Latina* (FEPAL), que rene
sada por mltiplas crises e, aos poucos, deixou      todas as sociedades psicanalticas da Amrica
de ser a nica potncia institucional do freudis-    Latina, e a Federao Europia de Psicanlise*
mo no mundo. No apenas sofreu a concor-             (FEP), que rene as da Europa.
rncia da considervel expanso das escolas de           Desde 1908, os congressos pontuam a vida
psicoterapia*, como, alm disso, perdeu o            da IPA. Realizam-se a cada dois anos, nas dife-
monoplio da legitimidade freudiana: com efei-       rentes cidades do mundo onde a psicanlise foi
to, outras correntes freudianas desenvolveram-       implantada. At 1975, eles foram organizados
se fora dela, em especial o lacanismo*, os cr-      na Europa; dessa data em diante, realizaram-se
culos de psicologia profunda de Igor Caruso*         alternadamente no continente americano (norte
(Internationale Fderation der Arbeitskreise fr     e sul) e no europeu.
Tiefenpsychologie) e toda sorte de grupos in-            A partir de 1934, os presidentes da IPA, em
dependentes e sem esteio institucional.              geral eleitos para um mandato renovvel de dois
                           Internationale Fderation der Arbeitskreise fr Tiefenpsychologie           387

anos, foram ingleses ou norte-americanos,             O nmero dos freudianos no membros da
exceo de um francs (Serge Lebovici) e um         IPA  difcil de determinar. A Association Mon-
argentino (Horacio Etchegoyen). Foi Ernest          diale de Psychanalyse* (AMP) rene 1.800
Jones, o mais hbil poltico da histria do freu-   membros. Quanto aos outros freudianos (laca-
dismo, quem passou mais tempo  frente da           nianos ou no),  difcil conhecer seu nmero:
associao (de 1934 a 1949). Ele foi o grande       cerca de 3.500 na Frana, menos de 1.000 na
organizador de suas instituies e o artfice de    Argentina e 1.500 no Brasil, ou seja, aproxima-
sua expanso.                                       damente 6.000 psicanalistas freudianos (no
    Neste final do sculo XX, a IPA est implan-    pertencentes  IPA) nesses trs pases.
tada em 32 pases: Alemanha, Argentina*, Aus-
                                                     Sndor Ferenczi, "Sobre a histria do movimento
trlia*, ustria (Viena*), Blgica, Brasil*, Ca-
                                                    psicanaltico" (1911), in Psicanlise I, Obra completas,
nad*, Chile, Colmbia, Espanha*, Estados           1908-1912 (Paris, 1968), S. Paulo, Martins Fontes,
Unidos*, Frana*, Gr-Bretanha*, Grcia,            1991, 145-54  Die Freudianer auf dem 13. Internatio-
Hungria*, ndia*, Israel, Itlia*, Japo*, Mxi-    nalen psychoanalytischen Kongress 1934 in Luzern,
                                                    Viena e Munique, Verlag internationale Psychoana-
co, Pases Baixos, Escandinvia* (Dinamarca,        lyse, 1990  Peter Kutter (org.), Psychoanalysis Inter-
Sucia, Finlndia e Noruega), Peru, Portugal,       national. A Guide to Psychoanalysis throughout the
Srvia, Sua, Tchecoslovquia, Uruguai e Ve-       World, vol.1, Stuttgart, Frommann-Holzboog, 1992 
nezuela.                                            lisabeth Roudinesco, Jacques Lacan. Esboo de
                                                    uma vida, histria de um sistema de pensamento
    Nesses pases distribuem-se uma associao      (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994 
regional, 45 sociedades (membros ou provis-        La Psychanalyse et l'Europe de 1993, monografias da
rias), nove grupos de estudos e 49 institutos,      Revue Franaise de Psychanalyse, Paris, PUF, 1993
                                                     Roster. The International Psychoanalytical As-
para aproximadamente 10.500 membros (titu-
                                                    sociation Trust, 1996-1997.
lares ou associados). Se somarmos os alunos,
isso elevar a cerca de 20.000 o nmero de
                                                     DOSUZKOV, THEODOR; EMBIRICOS, ANDREAS;
psicanalistas (da IPA) no mundo. Todos esses        HAAS, LADISLAV; HISTRIA DA PSICANLISE; HIS-
institutos, grupos e sociedades pautam-se no        TORIOGRAFIA; HOMOSSEXUALIDADE; KOURETAS,
artigo 2 dos estatutos da IPA, que estipula que     DIMITRI; NAZISMO; SACHS, WULF.
"o termo psicanlise relaciona-se com uma teo-
ria da estrutura e funcionamento da personali-
dade, com a aplicao dessa teoria nos campos
do conhecimento e, por fim, com uma tcnica         Internationale Fderation der
psicoterpica especfica. Esse conjunto de co-      Arbeitskreise fr Tiefenpsychologie
nhecimentos repousa sobre as descobertas fun-       (Confederao Internacional dos Crculos de Tra-
damentais de Sigmund Freud, que esto em sua        balho sobre a Psicologia Profunda)
origem".                                                Foi em Viena*, em 1947, que Igor Caruso*
    De inspirao legitimista, a IPA se baseia,     criou o primeiro crculo de trabalho da psicolo-
portanto, em Freud e na psicanlise. Mas admite     gia profunda (Wiener Arbeitskreis fr Tiefen-
em seu seio todas as divergncias doutrinais e      psychologie), que logo se estendeu a diversas
todas as correntes que se pautam no freudismo.      cidades da ustria, como Innsbruck, Linz, Kla-
Em contrapartida, probe a transgresso das         genfurt e Salzburgo, e se transformou nos s-
regras tcnicas, que se caracterizam pela obri-     terreichische Arbeitskreise fr Psychoanalyse
                                                    (AP). Os "crculos Caruso" formaram ento
gatoriedade de que todo candidato se submeta
                                                    uma associao internacional, a Internationale
a uma anlise, cuja durao, periodicidade e
                                                    Fderation der Arbeitskreise fr Psychologie
didata responsvel so controlados e impostos
                                                    (IFAP). De inspirao freudiana, esta  in-
por comisses e por um sistema de padroniza-
                                                    fluente em numerosos pases, em especial na
o mundial: a durao das sesses  fixada em      Argentina*, no Brasil* e no Mxico.
50 minutos, o nmero de sesses em quatro por
semana, e o nmero de supervises (alm da           INTERNATIONAL FEDERATION OF PSYCHOANA-
anlise didtica) em duas.                          LYTIC SOCIETIES.
388      Internationale Psychoanalytische Vereinigung

Internationale Psychoanalytische                        cao. Contudo, ao enfatizar o esteio do simbo-
Vereinigung (IPV)                                       lismo na pessoa humana, ele fez do sonho a
 INTERNATIONAL      PSYCHOANALYTICAL ASSOCIA-           expresso da vida fantasstica do homem e a
TION.                                                   traduo de seu desejo inconsciente. Em funo
                                                        disso construiu uma tcnica de interpretao
                                                        que tinha que ser parte integrante da prpria
Internationale Zeitschrift fr                          tcnica psicanaltica*, isto , da dinmica da
Psychoanalyse und Imago                                 anlise: "Afirmo", escreveu ele num artigo de
(IZP-IMAGO)                                             1911, "que a interpretao dos sonhos no deve
    Em 1913, aps o conflito com Carl Gustav            ser praticada ao longo do tratamento psicanal-
Jung*, Sigmund Freud* criou a Internationale            tico como uma arte em si, mas que seu manejo
rztlische Zeitschrift fr Psychoanalyse (IZP),         est sujeito s regras tcnicas a que deve obe-
para substituir o Jahrbuch fr psychoanaly-             decer a totalidade do tratamento."
tische und psychopathologische Forschung-                   Nesse sentido, a interpretao no deve
en*. Essa revista tornou-se o rgo oficial do          decorrer de um delrio, nem de uma selvageria
Internationale Psychoanalytische Vereinigung            nem de uma mania. No  um jogo gratuito nem
(IPV), o ancestral da International Psychoana-          fruto de um gozo* ou de um princpio de pra-
lytical Association* (IPA), at 1939, data em           zer*. Por isso, deve ser manejada em funo de
que no mais foi publicada em Viena*, porm             um certo nmero de regras, dentre elas o cuida-
em Londres. Em seguida (em 1939), fundiu-se             do de no ceder a uma atitude supersticiosa,
com a revista Imago*, dando origem  Interna-           paranica, interpretativa ou sugestiva, segundo
tionale Zeitschrift fr Psychoanalyse und Ima-          a qual tudo seria interpretvel. Em A psicopa-
go (IZP-IMAGO), que deixaria de ser publicada           tologia da vida cotidiana*, ao falar dos parani-
em 1941. Foi ento que o International Journal          cos, Freud indica claramente o que a interpreta-
of Psycho-Analysis* (IJP), fundado por Ernest           o no deve ser: estes, diz ele em sntese,
Jones* em 1920, tornou-se o rgo oficial da            interpretam os pequenos detalhes do comporta-
IPA.                                                    mento corriqueiro da vida alheia e, com fre-
                                                        qncia, do mostras de uma lucidez maior que
interpretao                                           a do sujeito normal. Essa qualidade, entretanto,
al. Deutung; esp. interpretacin; fr. interprtation;
                                                        tem como contrapartida um desconhecimento
ing. interpretation                                     radical deles mesmos.
                                                            Se Freud define dessa maneira negativa o
Termo extrado do vocabulrio corrente e utilizado
por Sigmund Freud* em A interpretao dos so-
                                                        que a interpretao no deve ser na psicanlise,
nhos* para explicar a maneira como a psicanlise*
                                                         porque essa noo abrange muitas variaes,
pode dar uma significao ao contedo latente do        desde a simples explicao significativa at o
sonho*, a fim de evidenciar o desejo* inconsciente      delrio, passando pela selvageria e pela mania.
de um sujeito*.                                             Na nosografia psiquitrica, chama-se delrio
    Por extenso, o termo designa qualquer inter-       de interpretao a uma forma de delrio crnico,
veno psicanaltica que vise a fazer um sujeito        caracterizada pela preponderncia de um tema
compreender a significao inconsciente de seus         persecutrio e de um raciocnio mono-ideativo,
atos ou de seu discurso, quer estes se manifestem       que impele o sujeito a proceder a construes
atravs de um dito, um lapso*, um sonho, um ato         alucinatrias, convencido de que todas as
falho*, de uma resistncia*, da transferncia* etc.     manifestaes da realidade externa se referem
    Como sublinham Jean Laplanche e Jean-               a ele.
Bertrand Pontalis, a interpretao acha-se no               Se esse delrio de interpretao  prprio da
cerne da doutrina e da tcnica freudianas. Desde        psicose* em geral e da parania* em particular,
a publicao de A interpretao dos sonhos,             a interpretao selvagem  uma das modali-
Freud sempre se pautou numa longa tradio              dades de funcionamento da transferncia* na
filosfica (de Aristteles ao romantismo ale-           anlise. E, para caracteriz-la, Freud emprega o
mo) que afirma que o sonho tem uma signifi-            termo psicanlise selvagem. J em 1901, em seu
                                                                              interpretao      389

artigo sobre a psicoterapia*, ele cita uma decla-   tas (Edward Glover*, Heinz Kohut* e muitos
rao feita por Hamlet aos dois cortesos (Ro-      outros), permitiu que os adversrios de Freud
senkranz e Guildenstern) encarregados pelo rei      se apoiassem em tolices publicadas por autores
de vigi-lo: "Julgais", indaga o prncipe, "que     medocres para apresentar a doutrina vienense
sou mais fcil de tocar do que uma flauta?          como uma nova variedade de charlatanismo:
Chamai-me do instrumento que quiserdes, pois,       vidncia, astrologia, ocultismo*, supersties
se podeis desafinar-me, ainda assim no me          etc.
podeis tocar". Depois, em 1910, a propsito de          Consciente do perigo, tambm Jacques La-
um mdico novato que cometera o erro de             can*, em 1958, no contexto de sua teoria do
explicar "selvagemente" a uma paciente que ela      significante*, tratou de revisar essa noo e sua
sofria de falta de atividade sexual, ele d pela    utilizao tcnica. Colocou nfase na neces-
primeira vez o nome de "psicanlise selvagem"       sidade de interrogar incessantemente, no correr
a um erro tcnico cometido pelos praticantes        da anlise, o desejo* do analisando, sem no
ignorantes, que consiste em atirar no rosto do      entanto despejar sobre ele verdades j prontas.
paciente, logo no primeiro encontro, os segre-      Mas seus discpulos, por seu turno, cederam 
dos que eles adivinharam. Nesse caso, seja ela      mania da interpretao. Enquanto os freudianos
"verdadeira" ou "falsa", a interpretao  ina-     faziam surgir por toda parte smbolos sexuais e
ceitvel, j que provm de um completo desco-       os kleinianos "adivinhavam" por trs de todo
nhecimento da estrutura psquica do sujeito, de     discurso o dio arcaico  me, os lacanianos
suas resistncias e de seu recalque.                inventaram um novo jargo interpretativo, feito
    Em 1929, numa carta ao historiador francs      de trocadilhos, matemas* e ns borromeanos*.
Maxime Leroy (1873-1957), que lhe pedira que
                                                        Se a doutrina freudiana teve tanta dificul-
interpretasse trs sonhos de Ren Descartes
                                                    dade para se proteger dessa paixo, foi porque
(1596-1650), Freud sublinhou a dificuldade
                                                    o mecanismo da interpretao  inerente a seu
que tinha em trabalhar com tal material na
                                                    sistema de pensamento. Por isso  que Freud
ausncia do principal interessado. Nessa mes-
                                                    sempre procurou temperar a onipotncia da
ma perspectiva, condenou as tentativas de
"diagnstico relmpago", assimilando-as a um        interpretao com um outro processo: a cons-
verdadeiro abuso de poder.                          truo.
    Freud sempre foi atento  mania de interpre-        Foi em 1937 que ele conferiu a esse termo
tao, tais eram os estragos que ela provocava.     um verdadeiro contedo terico, definindo-o
(Seus primeiros discpulos da Sociedade Psico-      como uma elaborao que o analista certamente
lgica das Quartas-Feiras*, alis, no escapa-      deve realizar na anlise (tal como um cientista
ram a ela.) Essa mistura de psicanlise selva-      em seu laboratrio) para reconstituir literal-
gem, delrio interpretativo e utilizao dogm-     mente a histria infantil e inconsciente do su-
tica da doutrina freudiana, para fins de explica-   jeito. Nesse aspecto, pode-se dizer que a cons-
o da realidade, manifestou-se desde muito         truo , ao mesmo tempo, a quintessncia da
cedo entre os que pretendiam servir-se do freu-     interpretao e uma crtica da interpretao, na
dismo* para fazer surgir verdades ocultas de um     medida em que permite restabelecer de modo
texto ou de um indivduo.                           coerente a significao global da histria de um
    O gozo interpretativo, longe de regredir        sujeito em vez de se ater  apreenso de alguns
diante das advertncias de Freud, chegou at a      detalhes sintomticos. Freud usava permanen-
aumentar de intensidade  medida que o movi-        temente esse processo de construo, tanto em
mento interessou-se pela clnica das psicoses e     suas anlises (na da Serguei Constantinovitch
dos bordelines*. Para tratar desses casos, o        Pankejeff*, por exemplo, durante a qual literal-
analista, amide tambm marcado pela loucu-         mente inventou a cena do "coito a tergo") quan-
ra*, era levado a manejar a interpretao em        to em suas hipteses sobre a metapsicologia*
plena transferncia fusional com o analisando.      ou a pulso de morte*, ou ainda em suas obras
Da seu carter desenfreado. Essa paixo, que       literrias sobre Leonardo da Vinci (1452-1519)
alis foi denunciada pelos prprios psicanalis-     ou Moiss.
390      Interpretao dos sonhos, A

    Duas correntes filosficas comentaram a no-                Expressando sua admirao por esse "livro
o freudiana de interpretao. A primeira, re-            extraordinrio", Henri F. Ellenberger* lamen-
presentada por Karl Popper (1902-1994) e seus              tou no podermos "ter uma idia da impresso"
herdeiros, afirmou que a psicanlise, na medida            que ele produziu ao ser lanado.
em que no  refutvel, no pode ser promovida                 Em sua investigao da gnese de Die
 categoria de cincia. A segunda, prxima de              Traumdeutung, percorrendo o labirinto dos so-
Paul Ricoeur e da fenomenologia, reivindicou               nhos, das descobertas e dos impasses atestados
para o freudismo o estatuto positivo de uma                pelas cartas a Wilhelm Fliess*, Didier Anzieu
hermenutica, passvel de fornecer  filosofia             salientou que o ttulo alemo evoca muito mais
os instrumentos de uma verdadeira crtica das              a interpretao popular dos sonhos das adivi-
iluses da conscincia*.                                   nhadoras do futuro e da astrologia (Stern-
                                                           deutung) do que um tratado cientfico.
 Sigmund Freud, "Sobre a psicoterapia" (1905), ESB,           A interpretao dos sonhos, e no do sonho*
VII, 267-82; GW, V, 13-26; SE, VII, 255-68; in La
Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953, 9-23;
                                                           em geral, como esclarece Freud em 1935 numa
"Psicanlise selvagem" (1910), ESB, XI, 207-16; GW,        nota acrescentada a sua autobiografia ("Um
VIII, 118-25; SE, XI, 221-7; OC, X, 205-15; "O manejo      estudo autobiogrfico"*),  um livro-ponte, que
da interpretao de sonhos na psicanlise" (1911),         funciona  maneira de um balseiro. Abandonan-
ESB, XII, 121-32; GW, VIII, 350-7; SE, XII, 89-96; in La
Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953, 43-50;
                                                           do como que a contragosto as margens povoa-
"Alguns sonhos de Descartes: uma carta a Maxime            das de cientistas loucos e artistas visionrios do
Leroy" (1929), ESB, XXI, 235-9; GW, XIV, 558-60; SE,       romantismo alemo, Freud se dirige para a mar-
XXI, 203-4; OC, XVIII, 231-3, "Construes em anlise"     gem ainda aprazvel do modernismo cientfico,
(1937), ESB, XXIII, 291-308; GW, XVI, 243-56; SE,
XXIII, 255-69; in Rsultats, ides, problmes, II, 1921-
                                                           o da sexualidade revelada e da fala no refreada.
1938, Paris, PUF, 1985, 269-83  Edward Glover, La             O interesse de Freud por seus prprios so-
Technique de la psychanalyse (Londres, 1928), Paris,       nhos j era antigo no momento em que ele se
PUF, 1958  Jacques Lacan, Le Sminaire, livre VI, Le      lanou nessa aventura. Algumas cartas a sua
Dsir et son interprtation (1958-1959), indito  Karl
Popper, Conjectures et rfutation. La Croissance du
                                                           noiva, Martha Bernays (Freud*), confirmam
savoir scientifique (Londres, 1963), Paris, Payot, 1985    isso, em especial a de 19 de julho de 1883, onde
 Paul Ricoeur, Da interpretao -- Ensaio sobre Freud     ele fala de um "caderno de anotaes pessoais
(Paris, 1965), Rio de Janeiro, Imago, 1977  Jean          sobre os sonhos" composto a partir de sua ex-
Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da
                                                           perincia. Esse interesse desenvolveu-se na es-
psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,
1991, 2 ed.  Ren Major, "The language of interpre-      cuta dos pacientes. Livres das restries da
tation", IJP, 1, 1974, 425-35.                             hipnose* e da sugesto*, eles falavam e conta-
                                                           vam seus sonhos. Em 1894, Freud anunciou
 GRODDECK, GEORG; LEONARDO DA VINCI E                      orgulhosamente a Josef Breuer* que sabia in-
UMA LEMBRANA DE SUA INFNCIA; MOISS E O                  terpretar sonhos. Numa carta de 4 de maro de
MONOTESMO; PSICANLISE APLICADA.                          1895, confiou a Wilhelm Fliess sua tese sobre
                                                           o sonho como realizao de um desejo*,
                                                           contando-lhe o sonho* de Rudi Kaufmann, um
                                                           jovem mdico, sobrinho de Breuer, que detes-
Interpretao dos sonhos, A
                                                           tava acordar cedo. Certa manh, ele havia alu-
Livro de Sigmund Freud*, publicado em novembro             cinado uma tabuleta de hospital que levava seu
de 1899 sob o ttulo Die Traumdeutung, porm
                                                           nome. Assim, voltara a dormir, convencido de
datado de 1900 pelo editor. Traduzido para a lngua
                                                           j estar no trabalho.
francesa pela primeira vez em 1926, por Ignace
Meyerson (1888-1983), sob o ttulo La Science des
                                                               Em meados de julho de 1875, passando uma
rves. Traduo revista e ampliada em 1967 por
                                                           temporada com a famlia nas montanhas de
Denise Berger, e reeditada sob o ttulo L'Interpr-        Viena*, Freud teve um sonho, o chamado "so-
tation des rves. Traduzido para o ingls pela pri-        nho da injeo de Irma"*, do qual forneceu uma
meira vez, em 1913, por Abraham Arden Brill*, sob          interpretao parcial no Projeto para uma psi-
o ttulo The Interpretation of Dreams, e depois por        cologia cientfica. Esse seria o exemplo inaugu-
James Strachey*, em 1953, sem alterao do ttulo.         ral e um dos mais importantes de seu livro.
                                                             Interpretao dos sonhos, A        391

    O ano de 1896 foi marcado, para ele, pela     sonhos era portador de "toda uma psicologia
morte de seu pai, Jacob Freud*. No prefcio      das neuroses", como ele escreveu a Fliess em 7
segunda edio de Die Traumdeutung, em            de julho de 1897. No outono de 1897, ao voltar
1908, Freud indicou como esse trabalho fora       da viagem  Itlia durante a qual no conseguiu
uma maneira de reagir quele acontecimento,       chegar a Roma, Freud endereou ao amigo
"a parte mais dilacerante da vida de um ho-       berlinense sua clebre declarao: "No acredi-
mem". Durante os meses seguintes, esse tema       to mais em minha neurotica." Contudo, no fim
da morte do pai e as lembranas ligadas a ele     dessa mesma carta, enunciou esta constatao
apareceram como a fonte de diversos sonhos,       no menos essencial: "Nesse desmoronamento
sobretudo os que Freud denominou "sonhos de       geral, s a psicologia permanece intacta. O
Roma". Entre essas lembranas, a da humi-         sonho certamente conserva seu valor, e tenho
lhao que o pai lhe contara haver sofrido como   um apreo cada vez maior por meus primrdios
judeu estava ligada ao quarto desses sonhos       na metapsicologia*. Que pena, por exemplo,
romanos, no qual se manifestara seu desejo de     que a interpretao dos sonhos no baste para
ver realizar-se em Roma, em vez de Praga, um      se ganhar a vida!"
encontro previsto com Fliess. "Minha nostalgia        Nas semanas seguintes, Freud registrou o
por Roma", escreveu Freud numa carta a este       que tinham sido seus sentimentos amorosos por
ltimo, datada de 3 de dezembro de 1897, "tem     sua me e descobriu a universalidade do mito
um carter profundamente neurtico. Est liga-    edipiano, realizao, como o sonho, de desejos
da a meu amor ginasiano por Anbal, o heri       infantis inconscientes, tudo isso constituindo
semita; de fato, tal como ele, mais uma vez no   coisas que ele registraria no captulo V de Die
pude, este ano, ir do lago Trasmeno at Roma."   Traumdeutung.
O relato da humilhao paterna provocara no           Uma primeira verso do livro foi preparada
jovem Sigmund uma transposio da admira-         no comeo do ano de 1898. Freud mergulhou
o para o personagem de Anbal. Didier An-       sem reservas no trabalho, mas, em julho, esbar-
zieu sublinhou que essa identificao* com        rou no que tornou a chamar de "psicologia do
Anbal foi a primeira das identificaes heri-   sonho", o futuro captulo VII. Sua ateno foi
cas de Freud, que "so, ao mesmo tempo, iden-     ento retida por outros fenmenos, estra-
tificaes masoquistas", coisa de que ele se      nhamente comparveis ao sonho -- os esque-
aperceberia alguns meses depois por ocasio de    cimentos, os atos falhos* e as lembranas enco-
seu encontro com o mito edipiano. Fliess, es-     bridoras*, que constituiriam o material de um
clareceu ainda Anzieu, representou na poca       prximo livro, A psicopatologia da vida coti-
uma imagem paterna que frustrou Freud em um       diana*. No outono, s voltas com a dvida, foi
desejo cujo sonho constituiu a realizao.        tomado por um sentimento de morte e anunciou
    Os progressos de sua reflexo sobre a din-   a Fliess, em 23 de outubro, o abandono de seu
mica das psiconeuroses e a etiologia da his-      projeto: "O livro sobre os sonhos foi irremedia-
teria* caminharam pari passu com suas primei-     velmente posto de lado. Falta-me o estmulo
ras dvidas sobre a teoria da seduo*. O sonho   para preparar sua publicao, e suas lacunas na
afigurou-se ento a Freud como o nico meio       psicologia, bem como as que ainda subsistem
de avanar para a soluo da qual ele tinha o     no exemplo analisado a fundo, atrapalham mi-
pressentimento. Em 16 de maio de 1897, escre-     nha concluso. Esses so obstculos que ainda
veu a Fliess: "Tudo borbulha e fermenta dentro    no pude superar." A esperana renasceu logo
de mim e estou apenas  espera de novos im-       no incio de 1899. Em 3 de janeiro, sempre
pulsos (...) tenho-me sentido obrigado a traba-   dirigindo-se a Fliess, declarou: "(...) cintila uma
lhar na questo dos sonhos; ali me sinto muito    luz, e certamente surgir alguma outra coisa nos
seguro, ainda mais que voc me incentiva."        prximos dias. (...) o esquema do sonho pode
    Aos poucos, a teoria do sonho como realiza-   ter uma utilizao muito geral e (...) a chave da
o de um desejo* inconsciente* foi estendida     histeria est realmente includa no sonho. Agora
 elaborao das fantasias* e ao aparecimento     tambm entendo por que, apesar de todos os
dos sintomas. O projeto de um livro sobre os      meus esforos, no pude solucionar a questo
392     Interpretao dos sonhos, A

do sonho. Se esperar mais um pouco, consegui-        anlise que fez de seus prprios sonhos, Freud
rei descrever o processo psquico dos sonhos de      revelou muito mais detalhes concernentes  sua
tal modo que nele se inclua o processo de for-       vida ntima do que fez em sua autobiografia, por
mao dos sintomas histricos. Portanto, es-         exemplo, sem dvida  abusivo ver nesse livro,
peremos."                                            como sustentaram alguns comentaristas, "uma
    A partir do ms de maio de 1899, Freud           forma ingnua e distorcida de autobiografia"
empenhou-se integralmente na redao do li-          (Peter Gay) ou "uma autobiografia disfarada"
vro,  custa de um trabalho extenuante. Em 11        (Henri F. Ellenberger). Octave Mannoni* des-
de setembro de 1899, pde enfim escrever a           loca justificadamente essa questo, explicando
Fliess: "Terminei, isto , o manuscrito inteiro      que nenhum dos sonhos utilizados por Freud,
foi despachado. Podes imaginar em que estado         nem os dele nem os de terceiros, pode ser objeto
me encontro: o de um aumento da depresso, o         de uma interpretao exaustiva, j que "todo
que  normal depois de qualquer exaltao."          sonho tem um umbigo atravs do qual se comu-
Concluda sua impresso por volta de 20 de           nica com o desconhecido". Alm disso, observa
outubro, Die Traumdeutung foi posta  venda          Mannoni, quando Freud analisa seus prprios
em 4 de novembro de 1899.                            sonhos, faz questo da discrio que  devida a
    Freud inaugurou nesse livro um mtodo ao         outrem. "Assim, a anlise do sonho da injeo
qual se manteria fiel nos livros seguintes, o que    de Irma detm-se exatamente no ponto em que
ele dedicaria  psicopatologia e o que intitularia   Freud nos dissera o bastante para compreen-
de Os chistes e sua relao com o inconscien-        dermos que sua prpria mulher estava em jogo."
te*. Tratava-se de construir a teoria de seu ob-         Que Die Traumdeutung tenha sido o primei-
jeto a partir de sua experincia clnica e das       ro dos 23 livros publicados pelo autor no foi
observaes colhidas a seu redor. No caso, a         obra do acaso. Freud esclareceu essa prioridade
formao do sonho, o trabalho do sonho e sua         nas primeiras pginas de sua anlise do caso
interpretao, que demonstravam a solidez de         Dora (Ida Bauer*), que publicou em 1905. Era
fundamento da tese da realizao de um desejo        impossvel, disse, avanar na compreenso das
inconsciente, foram estudados a partir de exem-      psiconeuroses sem ter previamente efetuado
plos de sonhos, alternadamente utilizados como       "um estudo laborioso e aprofundado dos so-
ponto de partida, fontes de formulao de inter-     nhos".
rogaes e como ponto de chegada, ilustrao             Podemos discernir trs partes em A interpre-
da correo das hipteses propostas.                 tao dos sonhos. O captulo inaugural, resenha
    As mltiplas reformulaes de que o livro        bibliogrfica detalhada dos trabalhos sobre o
seria objeto -- Peter Gay observou que, ao cabo      sonho efetuados antes de Freud, constitui a
de algumas edies, o sexto captulo por si s       primeira parte. O mtodo de interpretao dos
tornou-se to extenso quanto os cinco primeiros      sonhos, a teoria da formao do sonho, sua
-- dificultaram vez por outra o acesso a ele, e      funo e o trabalho do sonho compem a segun-
as tradues, por outro lado, s conseguiram         da parte, ou seja, cinco captulos essenciais,
verter de maneira imperfeita as mltiplas face-      modificados diversas vezes. Por ltimo, a ter-
tas do percurso de Freud, quer se tratasse de        ceira parte compe-se do clebre captulo VII,
certas sutilezas tericas, quer de aluses s di-    dedicado  exposio da teoria do funciona-
versas culturas de que ele estava impregnado,        mento do aparelho psquico, no qual Freud
ou de detalhes que remetiam  vida vienense da       expe as instncias de sua primeira tpica*,
poca.                                               consciente*, pr-consciente* e inconsciente.
    A despeito desses obstculos, Die Traum-             Freud s escreveu o primeiro captulo de seu
deutung continua a ser um livro excepcional,         livro seguindo as insistentes recomendaes de
cujo autor  simultaneamente o sonhador, o           Fliess. Alis, durante aquele vero de 1899, no
intrprete, o terico e o narrador. Para levar a     deixou de participar ao amigo o quanto a reda-
cabo sua empreitada, Freud utilizou 223 so-          o desse pensum o irritava, nem tampouco
nhos: 47 seus e 176 provenientes de pacientes        dissimulou suas dvidas quanto  utilidade da-
ou pessoas de seu crculo. Se  fato que, na         quela compilao enfadonha. Essa ligeira dis-
                                                               Interpretao dos sonhos, A       393

cordncia foi rapidamente solucionada. Em 6         ra o sonho uma totalidade, mas um conjunto de
de agosto de 1899, Freud reconheceu que o           elementos que devem ser abordados separada-
problema no era o lugar conferido a essa lite-     mente.
ratura sobre o sonho, mas, acima de tudo, essa           As dificuldades prprias desses dois mto-
prpria literatura, que, como ele escreveu, "nos    dos, a precariedade de sua fidedignidade, a falta
desagrada". A insero daquele levantamento         de garantia ligada s "chaves", sejam elas quais
era um mal necessrio destinado a "evitar for-      forem, tudo isso atacava a credibilidade da pr-
necer aos pontfices um machado com que ra-         pria idia de interpretao.
char de alto a baixo este pobre livro". Na reali-        Constatando esse impasse, Freud anunciou
dade, esse incidente e as comunicaes agri-        que "pudera dar um passo adiante". Ocorrera-
doces a que ele deu ensejo fizeram parte, com       lhe a idia, ao escutar os pacientes lhe contarem
outros incidentes contemporneos, do incio da      seus sonhos da mesma forma que seus sintomas
deteriorao do relacionamento entre os dois        mrbidos, que o sonho, a exemplo da fantasia*
amigos.                                             e do sintoma, era um estado psquico passvel
    Desde o comeo do segundo captulo, Freud       de constituir, tambm ele, o ponto de partida de
se empenhou em sublinhar a originalidade de         associaes livres.
sua abordagem. Primeiro, distinguiu entre as             Por razes de convenincia, ligadas  natu-
concepes que ignoram at a prpria idia de       reza de uma exposio escrita, Freud foi levado
interpretao*, por no considerarem o sonho        a escolher seus prprios sonhos como material
como um ato mental, mas como um fato som-          de trabalho, ainda que isso implicasse, para ele,
tico, e as concepes oriundas do bom senso
                                                    momentos de incmodo difceis de assumir. A
popular e das crenas tradicionais, nas quais
                                                    fim de apresentar seu mtodo interpretativo,
reconheceu uma prioridade verdadeira por elas
                                                    referiu-se sem maiores rodeios a um de seus
tocarem "mais de perto na verdade do que
                                                    sonhos, o chamado "sonho da injeo de Ir-
nossas doutrinas atuais". Para essas antigas
                                                    ma*", o primeiro, recordou, a ser objeto de uma
concepes, o sonho tem uma significao
                                                    anlise pormenorizada. Nessa oportunidade,
oculta a ser descoberta. Freud discerniu nelas
                                                    Freud estabeleceu um protocolo que permane-
um cuidado de interpretao que havia permi-
                                                    ceria imutvel ao longo de todo o livro.
tido, atravs dos sculos, o desenvolvimento de
dois mtodos.                                            Antes da narrativa do sonho propriamente
    O primeiro, a interpretao simblica, trata    dito aparece o "relato preliminar", um resumo
o sonho como uma totalidade que ela se esfora      mais ou menos detalhado do contexto recente
por substituir por outro contedo, anlogo po-      ou antigo, dos lugares, acontecimentos e pes-
rm mais inteligvel. Esse mtodo, observou         soas a que o sonho faz referncia. O relato do
Freud, convm muito aos sonhos artificiais, os      sonho constitui o segundo tempo do protocolo.
que so inventados pelos romancistas e pelos        A anlise do sonho, baseada nas associaes
poetas. A propsito disso, citou numa nota um       evocadas por cada um de seus elementos, marca
romance de Wilhelm Jensen (1837-1911), Gra-         o terceiro tempo, pontuado por observaes
diva, ao qual dedicaria, em 1907, um estudo         tericas e metodolgicas.
especfico, intitulado Delrios e sonhos na              A anlise do sonho sobre Irma permite a
"Gradiva" de Jensen*. A interpretao simb-        Freud afirmar que o sonho "... tem um sentido
lica exige dons particulares, dos quais j falava   (...) que no , em absoluto, a expresso de uma
Aristteles, mas no tem nenhuma serventia ao       atividade fragmentada do crebro", e que 
ser confrontada com sonhos confusos. Um             sempre a realizao de um desejo do dia ante-
segundo mtodo, chamado por Freud de mto-          rior ao sonho.
do de decifrao, trata o sonho como um texto            Mas, no haveria outros sonhos alm dos
codificado ou "cifrado", no qual cada sinal ou      desejantes? Que dizer dos sonhos de contedo
elemento pode ser traduzido caso possuamos          penoso nos quais no se v o menor indcio de
uma chave fixa, a "chave dos sonhos". Esse          realizao de um desejo e que parecem contra-
mtodo, diversamente do anterior, no conside-      dizer a tese defendida?
394     Interpretao dos sonhos, A

    Para responder a essa objeo, Freud enun-     tecimento aps o qual ainda no tivemos uma
cia uma distino essencial entre o contedo       noite de sono". Mais exatamente, as fontes de
manifesto do sonho, seu relato por parte do        nossos sonhos podem estar inscritas num pas-
sonhador acordado, e o contedo latente do         sado mais ou menos distante, porm, para que
sonho, progressivamente revelado atravs de        o sonho se produza,  preciso que sejam ligadas
sua anlise, isto , do estabelecimento da rela-   a uma impresso ou um acontecimento da vs-
o entre as associaes evocadas por cada         pera. Para ilustrar essa tese, Freud recorre so-
elemento do contedo manifesto. Mas por que        bretudo a seu chamado sonho da "monografia
alguns sonhos -- que, submetidos  anlise,        de botnica", do qual fornece o seguinte relato:
revelam ser realmente sonhos desejantes -- no     "Eu tinha escrito uma monografia sobre uma
exprimem mais claramente esse desejo?  que        certa planta. O livro estava diante de mim e eu
o sonho  o lugar de uma deformao. O conte-     virava precisamente numa pgina dobrada em
do manifesto  uma deformao do contedo          que havia uma prancha colorida. Cada exem-
latente, o que equivale a dizer que o contedo     plar continha um espcime seco da planta, como
latente dissimula-se por trs do contedo          um herbrio."
manifesto. Essa deformao  a marca de uma            Esse sonho torna a ser utilizado no mesmo
defesa* contra o desejo veiculado pelo sonho.      captulo a propsito do material infantil. Per-
Freud compara a deformao do sonho  poli-        mite ento deixar claro que um desejo reprimi-
dez, que muitas vezes consiste em disfarar        do da vspera s pode dar margem a um sonho
pensamentos agressivos ou negativos atravs de     quando se associa a um desejo reprimido da
frmulas amveis. Portanto, efetua-se no sonho     infncia. Por fim, Freud torna a utiliz-lo no
uma censura* inconsciente a uma moo de           captulo VI, para ilustrar o mecanismo de con-
desejo: "quanto mais severa  a censura", es-      densao*.
creve Freud, "mais completo  o disfarce".             "Fomos os nicos", escreve ele no incio
    Um sonho de contedo doloroso, portanto,       desse captulo VI, tantas vezes reformulado, "a
pode ser a realizao de um desejo: o contedo     levar em conta uma coisa diferente", a no nos
doloroso  produto do travestimento,  a defor-    contentarmos com o relato manifesto do sonho
mao do que o sonhador desejava. Para ilustrar    para interpret-lo. Se o sonho  de fato um ato
essa tese, Freud analisa um certo nmero de        psquico carregado de sentido,  preciso, para
sonhos cujo contedo manifesto  explicita-        demonstrar isso, ir alm de seu contedo
mente penoso.  o caso do chamado sonho da         manifesto, de modo a atingir seu contedo la-
"bela aougueira", que ilustra o processo de       tente. Da a indagao central que  objeto desse
identificao* histrica e que seria comentado     captulo: qual  a natureza da relao entre
por Jacques Lacan* em 1958. Como confirmam         contedo manifesto e pensamentos latentes?
essas diversas anlises, a deformao do sonho     Por quais processos "estes produziram aquele",
 realmente obra da censura e, desse modo,         de que  feito esse "trabalho do sonho"?
Freud pode aperfeioar sua tese sobre a essncia       "O sonho  um rbus, e nossos predecessores
do sonho: "O sonho  a realizao (disfarada)     cometeram o erro de querer interpret-lo como
de um desejo (reprimido, recalcado)."              um desenho. Por isso  que ele lhes pareceu
    Quais so as fontes do sonho e de onde         absurdo e sem valor."
provm seu material? Essas perguntas so ob-           Ser possvel dizermos que o contedo
jeto do captulo V, por sua vez dividido em        manifesto seria uma traduo dos pensamentos
quatro sees, respectivamente consagradas        latentes, texto original escrito numa outra ln-
antigidade do material onrico, s fontes de      gua? Freud emprega o verbo traduzir (bertra-
origem infantil, s fontes somticas e, por fim,   gen), mas Octave Mannoni salienta que essa
ao que Freud denomina de "sonhos tpicos".         representao do trabalho do sonho  um tanto
    A questo da antigidade do material do        reducionista. Ele prope a idia de recons-
sonho  a mais importante das que so aborda-      tituio, ilustrada por uma bela imagem: tratar-
das nesse captulo. Como afirma Freud, nossos      se-ia, explica o autor, de reconstituir o latim
sonhos so sempre provocados "por um acon-         original (os pensamentos latentes) a partir da
                                                             Interpretao dos sonhos, A       395

verso, contedo manifesto, de um "mau alu-        mum. Por outro lado, a identificao funciona
no", e de encontrar, por exemplo, o texto la-      no sonho como um meio de o sonhador se
tente, summa diligentia, a partir do texto         disfarar: " a prpria pessoa do sonhador",
manifesto, "o auge da diligncia". Esse trabalho   sublinha Freud, "que aparece em cada um de
permitiria evidenciar "por quais leis os maus      seus sonhos, e no encontrei nenhuma exceo
alunos traduzem o latim, da maneira como a         a essa regra. O sonho  absolutamente egosta."
anlise do sonho nos informa sobre o trabalho          E h um quarto processo responsvel pela
do inconsciente".                                  formao do sonho, a elaborao secundria.
    Essas leis so em nmero de quatro, mas a      Freud constata que, em alguns casos, o conte-
nfase  depositada nas duas mais fundamen-        do de um sonho no provm unicamente dos
tais, o trabalho de condensao e o trabalho de    pensamentos do sonho, mas que uma funo
deslocamento*, dois processos inerentes ao         psquica, por intermdio de nosso pensamento
funcionamento do inconsciente e que encontra-      consciente, de nossas fantasias*, pode fornecer
mos em outras formaes.                           ao sonho outros elementos. Essa instncia ps-
    A hiptese do processo de condensao foi      quica, que habitualmente exerce uma funo de
sugerida a Freud em 1898 pela constatao do       censura, parece capaz de produzir, vez por ou-
laconismo e da pobreza do contedo manifesto       tra, adendos ou acrscimos ao sonho, facil-
de alguns sonhos comparados  riqueza dos          mente reconhecveis pelo fato de serem, em
pensamentos latentes desses mesmos sonhos          geral, timidamente introduzidos por meio da
quando analisados. Examinando diversos             expresso "como se...".
exemplos de sonhos, Freud mostra que a con-            Em 1914, Freud fez um acrscimo subs-
densao se organiza em torno de alguns dos        tancial a seu sexto captulo. Retomando uma
termos do contedo manifesto, espcie de pon-      seo do captulo anterior, dedicada aos "so-
tos de sutura sob os quais se efetuou uma fuso    nhos tpicos", categoria na qual havia agrupado
entre diversos pensamentos latentes muito dife-    sonhos que supostamente teriam a mesma sig-
rentes entre si. O mecanismo da condensao,       nificao para todo o mundo, ele dedicou uma
quando se efetiva a propsito de palavras ou       longa exposio, ilustrada por numerosos
nomes, pode levar  formao de palavras ou        exemplos devidos a Wilhelm Stekel*, daquilo
nomes novos, s vezes de ressonncia cmica.       a que chamou "figurao por smbolos". Subi-
    Freud identifica um segundo mecanismo na       tamente, Freud parece haver-se apercebido do
formao do sonho, ao qual d o nome de            perigo representado por essa abordagem, pas-
deslocamento. O deslocamento resulta de trans-     svel de levar  constituio de uma nova
ferncias da intensidade psquica de alguns ele-   "chave dos sonhos" e de abolir o alcance da
mentos para outros, de tal maneira que alguns      ruptura constituda por seu prprio mtodo de
deles, ricos, tornam-se sem interesse, podendo     interpretao. Alis, ele d mostras de prudn-
assim escapar  censura, enquanto outros se        cia: se  verdade que, confrontados com alguns
descobrem supervalorizados.                        sonhos, os sujeitos podem ver-se na impos-
    Em seguida, Freud estuda um terceiro me-       sibilidade de fazer associaes ou de descobrir
canismo, os processos de figurao no sonho.       outras associaes que no sejam smbolos re-
Ele mostra que o sonho, via real de acesso ao      pertoriados e impessoais, "no h como, por
inconsciente, no pode representar relaes l-    motivos de crtica cientfica, nos entregarmos
gicas entre os elementos que o compem (alter-     ao bel-prazer do intrprete, como fez a Antigi-
nativas, contradies ou causalidades), mas        dade e como procedem as estranhas explicaes
pode, em contrapartida, modific-las ou ma-        de Stekel. Por isso  que seremos levados a
qui-las, cabendo  interpretao a tarefa de      combinar duas tcnicas: vamos apoiar-nos nas
restabelecer essas relaes apagadas pelo traba-   associaes de idias do sonhador e suprir o que
lho do sonho. Nessa mesma seo, torna a falar     faltar com o conhecimento dos smbolos do
da importncia da identificao no sonho, meio     interpretador".
pelo qual duas pessoas podem ser uma s ou ser         Mas isso no impede, "formulados esses
representadas por uma s coisa que lhes  co-      limites e essas ressalvas", que Freud se empe-
396     Interpretao dos sonhos, A

nhe na enumerao comentada e ilustrada de um           Apoiando-se em trabalhos norte-america-
verdadeiro catlogo, dosado apenas pelo enun-       nos, Henri F. Ellenberger contestou radical-
ciado de uma advertncia que esclarece que,         mente essa "lenda". O estudo atento dos fatos
embora as duas tcnicas devam complementar-         por Norman Kiell sugere moderao. As cifras
se, "a traduo em smbolos intervm apenas a       no confirmam as afirmaes de Freud: segun-
ttulo de auxlio". Essa seo da Traumdeutung      do Kiell, houve 22 resenhas da obra entre 1899
raramente  comentada pelos analistas, a no ser    e 1902 e 20 entre 1903 e 1915. Incontes-
para censurar Freud por ela. Conviria, sem d-      tavelmente, alguns artigos foram negativos ou
vida, ir alm disso para questionar o sentido       at desagradveis, fato que Ellenberger ignora
dessa espcie de digresso, j identificvel na     ou sobre o qual silencia. Na verdade, parece
poca do Projeto, mas tambm em outras po-         haver um mal-entendido na origem dessas apre-
cas e sob outras formas, quer se trate das ten-     ciaes antagnicas. Os meios prezados por
taes interpretativas, das aplicaes aproxima-    Freud, aqueles dos quais ele esperava entusias-
                                                    mo, foram incontestavelmente os menos apres-
tivas ou ainda das "fantasias filogenticas".
                                                    sados a saudar o acontecimento. Outros crcu-
    O ltimo captulo de Die Traumdeutung
                                                    los, entretanto, filosficos, literrios ou arts-
constitui um livro  parte, um tratado cujo poder
                                                    ticos, aos quais Freud no atribua grande im-
e alcance evocam os das obras da reformulao       portncia, expressaram sua aprovao. Esse
da dcada de 1920, Alm do princpio de pra-        mal-entendido no poderia ser mais bem ilus-
zer* ou O eu e o isso*. Ali, Freud estabelece sua   trado do que pelo que aconteceu entre Freud e
concepo do aparelho psquico, retomando           o movimento surrealista francs. Freud nunca
inmeros elementos contidos nos "manuscri-          compreendeu, como  atestado sobretudo pelo
tos" enviados a Fliess ao longo dos anos prece-     relato da visita que lhe foi feita por Andr
dentes. Pela primeira vez, desenvolve sua           Breton (1896-1966) em 1921, o sentido da "re-
concepo do inconsciente, a oposio entre         voluo surrealista", para a qual A interpreta-
processo primrio e processo secundrio, prefi-     o dos sonhos constituiu um brevirio, emble-
gurao da oposio entre princpio de reali-       ma da "revoluo freudiana".
dade* e princpio de prazer*, e sua concepo
do recalque*.                                        Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
                                                    ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
    Durante muito tempo, prevaleceu a idia de      Paris, PUF, 1967; "Fragmento da anlise de um caso
que a Traumdeutung teve uma acolhida prec-         de histeria" (1905), ESB, VII, 5-129; GW, V, 163-286;
ria. Ratificada pelo prprio Freud, essa apresen-   SE, VII, 1-122; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,
tao dos fatos foi retomada por Ernest Jones*      1954, 1-91; A psicopatologia da vida cotidiana (1901),
                                                    ESB, VI; GW, IV; SE, VI; Paris, Payot, 1973; Os chistes
e por geraes de analistas. Em seu prefcio       e sua relao com o inconsciente (1905), ESB, VIII;
segunda edio, em 1908, Freud evocou o "si-        GW, VI, 1-285; SE, VIII; Paris, Gallimard, 1988; La
lncio de morte" que acolhera seu livro. Em         Naissance de la psychanalyse (Londres, 1950), Paris,
                                                    PUF, 1956; Briefe an Wilhelm Fliess, 1887-1904,
1909, no primeiro ps-escrito acrescentado ao       Frankfurt, Fischer, 1986; "Observaes sobre a teoria
captulo 1, novamente participou sua amargura       e a prtica da interpretao de sonhos" (1923), ESB,
e se queixou de que seu trabalho no fora evo-      XIX, 139-58; GW, XIII, 301-14; SE, XIX, 109-21; OC,
cado pelos outros autores nem levado em consi-      XVI, 165-79; Um estudo autobiogrfico (1925), ESB,
                                                    XX, 17-88; GW, XIV, 33-96; SE, XX, 7-70; OC, XVII,
derao pelos crticos. Quanto aos que o rese-      51-122; Correspondance, 1873-1919 (Londres, 1960),
nharam, seus artigos "so to repletos de incom-    Paris, Gallimard, 1966  Sarane Alexandrian, "Le Rve
preenso e mal-entendidos, que eu no poderia       dans le surralisme", Nouvelle Revue de Psychana-
responder aos crticos de outro modo seno          lyse, 1972, 5, 27-50  Didier Anzieu, A auto-anlise de
                                                    Freud e a descoberta da psicanlise (Paris, 1959), P.
pedindo-lhes que releiam o livro. Talvez eu         Alegre, Artes Mdicas, 1989; "tude littrale d'un rve
devesse simplesmente dizer: que o leiam". Ain-      de Freud", Nouvelle Revue de Psychanalyse, 1972, 5,
da em 1925, ele escreveu em sua autobiografia:      83-100  Andr Breton, Les Vases communicants
                                                    (1932), Paris, Gallimard, col. "Ides", 1977  Henri F.
"A interpretao dos sonhos, publicada em
                                                    Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'inconscient
1900, mal chegou a ser mencionada nas revistas      (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris,
especializadas."                                    Fayard, 1994  Peter Gay, Freud: uma vida para o
                                                                                                    inveja     397

nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo, Companhia das           Sndor Ferenczi, Psicanlise I, Obras completas,
Letras, 1995  Andr Green, "De l'Esquisse  L'Inter-         1908-1912 (Paris, 1968), S. Paulo, Martins Fontes,
prtation des rves: coupure et clture", Nouvelle Re-        1991.
vue de Psychanalyse, 1972, 5, 155-80  Alexander
Grinstein, On Sigmund Freud's Dreams, Detroit,                 AUTISMO; PARANIA; POSIO DEPRESSIVA/PO-
Wayne State University Press, 1968; "Un rve de               SIO ESQUIZO-PARANIDE.
Freud: Les Trois Parques", Nouvelle Revue de Psycha-
nalyse, 1972, 5, 57-82  Ernest Jones, A vida e a obra
de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955, 1957),
Rio de Janeiro, Imago, 1989  Norman Kiell, Freud             introverso
without Hindsight. Review of his Work 1893-1939,              al. Introversion; esp. introversin; fr. introversion;
Madison, International Universities Press, 1988  Jac-        ing. introversion
ques Lacan, "A direo do tratamento e os princpios
de seu poder" (1958), in Escritos (Paris, 1966), Rio de       Termo criado por Carl Gustav Jung*, em 1910, para
Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 591-652  Octave Manno-           designar o retraimento da libido* para o mundo
ni, Freud, uma biografia ilustrada (Paris, 1968), Rio de      interno do sujeito*.
Janeiro, Jorge Zahar, 1994; Clefs pour l'imaginaire ou
l'Autre Scne, Paris, Seuil, 1969  Jean-Bertrand Pon-         AUTISMO; AUTO-EROTISMO; NARCISISMO.
talis, "La Pntration du rve", Nouvelle Revue de
Psychanalyse, 1972, 5, 257-72  Nicolas Rand e Maria
Torok, Questions  Freud, Paris, Les Belles Lettres-
Archimbaud, 1995  lisabeth Roudinesco, Histria da          inveja
psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de            al. Neid; esp. envidia; fr. envie; ing. envy
Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
                                                              Termo introduzido por Melanie Klein*, em 1924,
 FRANA.                                                      para designar um sentimento primrio e inconsci-
                                                              ente de avidez em relao a um objeto que se quer
                                                              destruir ou danificar. A inveja aparece desde o
                                                              nascimento e  inicialmente dirigida contra o seio
introjeo                                                    da me. Na posio esquizo-paranide ou depres-
                                                              siva*, a inveja ataca o objeto bom* para dele fazer
al. Introjektion; esp. introjeccion; fr. introjection; ing.   um objeto mau, assim produzindo um estado de
introjection                                                  confuso psictica.
Termo introduzido por Sandor Ferenczi* em 1909,                   Como quase todos os termos do vocabulrio
para designar, em simetria com o mecanismo de                 kleiniano, inveja ope-se a um outro: gratido.
projeo* e introverso* (ensimesmamento auto-                Na concepo freudiana clssica, a inveja s 
ertico), a maneira como um sujeito* introduz                 estudada no contexto da gnese da sexualidade
fantasisticamente objetos de fora no interior de              feminina* e na categoria de inveja do pnis.
sua esfera de interesse.                                      Ora, Melanie Klein deu-lhe extenso bem
    Foi num artigo intitulado "Transferncia e                maior e central na histria da relao de objeto*.
introjeo" que Ferenczi comparou o psiquis-                  Assim, o domnio do dio, da morte, da des-
mo do neurtico ao do psictico: "... enquanto                truio e, sobretudo, da agressividade primria
o paranico projeta para o exterior as emoes                 repensado de maneira mais arcaica, mais ra-
que se tornaram penosas, o neurtico procura                  dical e mais interna ao sujeito* do que no
incluir em sua esfera de interesse uma parcela                freudismo* clssico. Se  verdade que Sigmund
to grande quanto possvel do mundo externo                   Freud* foi o grande teorizador da sexualidade*
para dela fazer objeto de fantasias conscientes               humana, podemos dizer que Melanie Klein,
ou inconscientes (...). Proponho chamar esse                  como alis tambm Jacques Lacan*, foi a gran-
processo, inverso  projeo, de introjeo."                 de clnica da agressividade e da relao odiosa
    Sigmund Freud* adotaria o termo, prximo                  do homem com seu semelhante.
de incorporao*, mas foram sobretudo Mela-                       O termo gratido s apareceu em 1957, para
nie Klein* e os kleinianos que o retomaram para               definir a natureza interativa e dialtica do dua-
descrever todos os mecanismos ligados  rela-                 lismo amor/dio. Na perspectiva kleiniana, a
o de objeto*, segundo uma trilogia: introje-                existncia da gratido no permite que se impo-
o, projeo e reintrojeo de objetos, identi-              nha o menor limite  natureza invasiva da inve-
ficao* projetiva.                                           ja. Da o crescente ceticismo de Melanie Klein
398      inveja do pnis

quanto  prpria possibilidade de um resultado           ximaram-se dela. Otto aplicou-lhe ento uma
teraputico positivo nas anlises em que a rela-         injeo de cido de trimetilamina.
o de objeto primria foi vivida de um modo                 O "sonho da injeo de Irma" foi comentado
destrutivo.                                              em treze pginas por Freud e, mais tarde, em
                                                         dezenas de ocasies, por psicanalistas de todas
 Melanie Klein, Psicanlise da criana (Londres,
                                                         as tendncias. Tal como a auto-anlise* de
1932), S. Paulo, Mestre Jou, 1975, 2 ed.; Contri-
buies  psicanlise (Londres, 1948), S. Paulo, Mes-    Freud, tornou-se um mito por conter uma es-
tre Jou, 1970; Inveja e gratido: um estudo das fontes   pcie de romance familiar* das origens e da
do inconsciente (Londres, 1957), Rio de Janeiro, Ima-    histria da psicanlise*. Nele se encontram Os-
go, 1974  Hanna Segal, Introduo  obra de Melanie     kar Rie* (Otto), cunhado de Wilhelm Fliess* e
Klein (Londres, 1973), Rio de Janeiro, Imago, 1975 
Phyllis Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie Klein,   mdico da famlia Freud, Ernst von Fleischl-
(1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992  R.D. Hinshel-      Marxow* (Leopold), Josef Breuer* (o Dr. M.)
wood, Dicionrio do pensamento kleiniano (Londres,       e, por fim, a prpria Irma, condensao de
1991), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992.                   Emma Eckstein* e Anna Lichtheim (?-1938),
                                                         filha de Samuel Hammerschlag (?-1904), pro-
                                                         fessor e benfeitor de Freud. Transformada em
inveja do pnis                                          professora primria depois de sua viuvez, Anna
 SEXUALIDADE FEMININA.                                   Lichtheim foi uma das pacientes preferidas de
                                                         Freud (que deu o prenome dela a sua filha).
                                                             Em julho de 1897, Ida Bondy (1869-1941),
investimento                                             mulher de Fliess e ex-paciente de Breuer, estava
al. Besetzung; esp. comando, destinacin; fr. inves-     grvida do filho mais velho, Robert Fliess*, que
tissement; ing. cathexis                                 se tornaria psicanalista. Nessa ocasio, Martha
Termo extrado por Sigmund Freud* do vocabul-           Freud* tambm estava grvida de sua ltima
rio militar para designar uma mobilizao da ener-       filha, Anna Freud*, que seria analisada pelo
gia pulsional que tem por conseqncia ligar esta        prprio pai. A filha de Rie, Marianne, terceira e
ltima a uma representao, a um grupo de repre-         ltima da fratria, tornar-se-ia psicanalista (Ma-
sentaes, a um objeto ou a partes do corpo. No          rianne Kris*) depois de uma anlise com Freud.
Brasil tambm se usa "catexia".                          Viria a se casar com Ernst Kris*, futuro editor,
                                                         em 1950, com Anna Freud, sua analista, e Marie
 LIBIDO; OBJETO, RELAO DE; PULSO.
                                                         Bonaparte*, de uma verso expurgada das car-
                                                         tas de Freud a Fliess, publicada sob o ttulo de
IPA                                                      O nascimento da psicanlise. Margarethe, uma
                                                         outra filha de Rie, segunda da fratria, tornou-se
 INTERNATIONAL      PSYCHOANALYTICAL ASSOCIA-
                                                         psicanalista e se casou com Hermann Nun-
TION.
                                                         berg*, que se encarregaria da edio das Atas
                                                         da Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras*,
                                                         primeira instituio da histria do freudismo*.
Irma, injeo de
    Na noite de 23 para 24 de julho de 1897,              Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
enquanto passava uma temporada no castelo de             ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
Bellevue, perto de Viena*, Sigmund Freud*                Paris, PUF, 1967; La Naissance de la psychanalyse
                                                         (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
teve um sonho* que relatou em A interpretao            Fliess, 1887-1904, Frankfurt , Fischer, 1986 
dos sonhos* e ao qual deu o ttulo de "sonho da          Freud/Fliess: correspondncia completa, 1887-1904
injeo de Irma". Foi nessa ocasio que come-            (Cambridge, 1985), Rio de Janeiro, Imago, 1997 
ou a interpretar seus sonhos.                           Didier Anzieu, A auto-anlise de Freud e a descoberta
                                                         da psicanlise (Paris, 1959), P. Alegre, Artes Mdicas,
    Esse sonho ps em cena um Freud que ob-              1989  lisabeth Roudinesco, Genealogias (Paris,
servava manchas acinzentadas na boca de uma              1994), Rio de Janeiro, Relume Dumar, 1996.
mulher de nome Irma. Chamou em seu socorro
o Dr. M., que confirmou o diagnstico de infec-           ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; FILIAES; GERA-
o. Dois outros amigos, Leopold e Otto, apro-           O; INTERPRETAO; REAL; SEDUO, TEORIA DA.
                                                                                              isso      399

Isaacs, Susan, ne Fairhurst                             isso
(1885-1948)                                              al. Es; esp. ello; fr. a; ing. id
pedagoga e psicanalista inglesa                          Termo introduzido por Georg Groddeck* em 1923
    Nascida no Lancashire, Susan Isaacs es-              e conceituado por Sigmund Freud* no mesmo ano,
tudou filosofia na Universidade de Manchester,           a partir do pronome alemo neutro da terceira
e psicologia em Cambridge. Ensinou lgica,               pessoa do singular (Es), para designar uma das
pedagogia e psicologia, antes de se voltar para          trs instncias da segunda tpica* freudiana, ao
a psicanlise* e integrar-se  British Psychoa-          lado do eu* e do supereu*. O isso  concebido
nalytical Society (BPS) em 1921. Analisada               como um conjunto de contedos de natureza pul-
inicialmente por Otto Rank*, por John Carl               sional e de ordem inconsciente. A traduo france-
                                                         sa foi introduzida por douard Pichon* e a inglesa,
Flugel (1884-1955) e Joan Riviere*, tornou-se
                                                         por James Strachey*. No Brasil tambm se usa
depois uma fiel discpula de Melanie Klein*,
                                                         "id".
ficando ao mesmo tempo muito prxima de
Donald Woods Winnicott*. Diretora, entre                     A introduo do conceito de isso por Freud
1924 e 1927, da Malting House School de                  na teoria psicanaltica est intrinsecamente li-
Cambridge, escola experimental destinada s              gada  grande reformulao dos anos de 1920-
crianas at sete anos, foi a primeira terapeuta         1923. Sabemos que esta se caracterizou pela
a introduzir os mtodos psicanalticos no cam-           modificao da teoria das pulses, pela elabo-
po do desenvolvimento infantil. Dessa expe-              rao de uma nova psicologia do eu, que levava
rincia, extraiu duas obras, que tiveram uma             em conta suas funes inconscientes de defesa*
influncia importante no campo da educao               e recalque*, e pela definio de uma nova tpi-
das crianas pequenas.                                   ca, na qual o isso veio a ocupar o lugar que fora
    A Malting House foi objeto de um escndalo           do inconsciente* na tpica anterior.
permanente at o seu fechamento, a ponto de                  Foi em seu ensaio O eu e o isso* que Freud
ser chamada de "bordel pr-genital". Freqen-            introduziu o termo pela primeira vez, insistindo
tada pelos filhos da burguesia no-conformista           na solidez de fundamento da acepo definida
de Cambridge, favorecia a expresso aberta dos           por Groddeck: a de uma vivncia passiva do
interesses sexuais precoces, com a condio de           indivduo, confrontado com foras desco-
que fossem canalizados sob os olhos vigilantes           nhecidas e impossveis de dominar.
da cincia. Esse escndalo no impediu Susan                 A primeira tpica era uma descrio cmoda
Isaacs de continuar uma longa e ilustre carreira         dos processos psquicos. Permitia distinguir en-
de pedagoga, paralelamente  sua atividade psi-          tre o consciente* e duas modalidades de incons-
canaltica. Membro do Instituto Real de Antro-           ciente, o inconsciente propriamente dito, cujos
pologia, foi tambm diretora do departamento             contedos s raramente (ou nunca) podiam ser
do desenvolvimento da criana na Universi-               transformados em pensamentos conscientes, e
dade de Londres.                                         o pr-consciente*, feito de pensamentos la-
    Susan Isaacs inventou a grafia phantasy para         tentes, passveis de se tornar ou de voltar a se
distinguir phantasia* de fantasia* (fantasy).            tornar conscientes.
                                                             Aos poucos, a partir de 1915, ao preo de
 Susan Isaacs, Intellectual Growth in Young Children,   lenta maturao fundamentada na experincia
Londres, Routledge, 1930; Social Development in          clnica, Freud chegou  concluso de que gran-
Young Children, Londres, Routledge, 1933; "Natureza      des partes do eu e do supereu eram inconscien-
e funo do fantasma" (1948), in Melanie Klein (org.),   tes. Da em diante, tornou-se impossvel afir-
Os progressos da psicanlise (Londres, 1952), Rio de
Janeiro, Zahar, 1978  D.E.M. Gardner, Susan Isaacs,     mar a existncia de uma identidade entre o eu e
Londres, Methuen Educational, 1969  Phyllis Gros-       o consciente, de um lado, e o recalcado e o
skurth, O mundo e a obra de Melanie Klein (1986), Rio    inconsciente, de outro. Assim, foi preciso revi-
de Janeiro, Imago, 1992  R.D. Hinshelwood, Dicion-     sar por completo a concepo das relaes
rio do pensamento kleiniano (Londres, 1991), P. Ale-
gre, Artes Mdicas, 1992  Les Controverses Anna
                                                         consciente-inconsciente expressa pela primeira
Freud/Melanie Klein (Londres, 1991), Pearl King e        tpica. Da a introduo do termo isso para
Riccardo Steiner (org.), Paris, PUF, 1996.               designar o inconsciente, considerado um reser-
400      Itlia

vatrio pulsional desorganizado, assimilado a            Logique du fantasme (1966-1967), indito, sesso de
                                                         11 de janeiro de 1967.
um verdadeiro caos, sede de "paixes in-
domadas" que, sem a interveno do eu, seria
um joguete de suas aspiraes pulsionais e               Itlia
caminharia inelutavelmente para sua perdio.
    Ao mesmo tempo, o eu perdeu sua autono-                  Atormentado pela dvida, desejando tran-
                                                         qilidade, Sigmund Freud* escreveu a Wilhelm
mia pulsional, tornando-se o isso a sede da
                                                         Fliess* em 14 de agosto de 1897: "Para isso, 
pulso* de vida e da pulso de morte. Diversa-
                                                         da Itlia que eu precisaria." Entre 1876 e 1923,
mente de sua abordagem descritiva da primeira
                                                         Freud foi cerca de vinte vezes  Itlia. Roma,
tpica, a abordagem dinmica da segunda no
                                                         Florena, Orvietto, Pompia, a Antigidade ro-
instaurou nenhuma separao radical entre as
                                                         mana e os artistas do Renascimento, Leonardo
instncias que a compunham: os limites do isso
                                                         da Vinci e Michelangelo seriam referncias
deixaram de ter a preciso dos que marcavam a
                                                         maiores na obra freudiana, o que no impediu a
separao entre o inconsciente e o sistema               psicanlise* de encontrar muitas dificuldades
consciente-pr-consciente, e o eu deixou de ser          para se implantar e desenvolver nesse pas.
estritamente diferenciado do isso no qual o                  Durante a primeira parte do sculo XX, o
supereu mergulha suas razes.                            cenrio intelectual, ideolgico e poltico italia-
    No contexto da trigsima primeira das No-            no estava dominado por correntes de pensamen-
vas conferncias introdutrias sobre psican-            to que tinham em comum, acima de suas dife-
lise*, que versava sobre "A decomposio da              renas, a rejeio s idias freudianas.
personalidade psquica", Freud inaugurou uma                 O idealismo espiritualista, de inspirao he-
reflexo sobre os respectivos futuros do eu e do         geliana, de Benedetto Croce (1866-1952) e de
isso e sobre a misso que, sob esse ponto de             Giovanni Gentile (1875-1944), que dominou
vista, cabia  psicanlise*. Nesse contexto,             inteiramente a filosofia italiana at o fim dos
enunciou sua clebre frase "Wo Es war, soll Ich          anos 1930, concebia a psicologia como uma
werden", que daria margem a diversas leituras,           ramificao da filosofia. Tornando-se ministro
por sua vez articuladas com as modalidades de            da educao, no incio da era mussolinista, Gen-
interpretao da segunda tpica. Uma primeira            tile concretizou essa idia, suprimindo a psico-
leitura, a da Ego Psychology*, privilegiou o             logia do ensino secundrio e reduzindo a duas
papel do eu, considerado como tendo que do-              as ctedras de psicologia experimental no ensi-
minar o isso ao trmino de uma anlise bem               no superior. Os objetivos e as pretenses do
conduzida. Inversamente, Jacques Lacan* for-             pensamento freudiano eram combatidos por to-
neceu da frase freudiana uma traduo baseada            dos os meios, inclusive pelo recurso a formas
em sua teoria da linguagem. Enfatizou a emer-            de psicologia afastadas tanto do positivismo
gncia dos desejos inconscientes para os quais           quanto das idias freudianas, a psicologia de
a anlise deve abrir caminho, em oposio s             Alfred Adler* e a de Pierre Janet*. Gentile
defesas do eu, posio esta que ele recapitulou          opunha assim o subconsciente janetiano ao in-
em 1967 por meio de uma formulao que se                consciente* freudiano, e Croce, por sua vez, se
tornou famosa: "isso fala!"                              parece ter favorecido em 1930 a traduo e a
                                                         publicao de Totem e tabu*, no escondia sua
 Sigmund Freud, "O inconsciente" (1915), ESB, XIV,      atrao pelas idias de Carl Gustav Jung*.
191-233; GW, X, 263-303; SE, XIV, 159-204; OC, XIII,         Herdeira das teorias organicistas de Cesare
205-43; O eu e o isso (1923), ESB XIX, 23-76; GW,
XIII, 237-89; SE, XIX, 12-59; OC, XVI, 255-301; Novas
                                                         Lombroso (1835-1909), cuja repercusso tinha
conferncias introdutrias sobre psicanlise (1933),     sido considervel nos meios universitrios e
ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE, XXII, 5-182; OC, XIX,     mdicos, a corrente de pensamento positivista,
83-268  Jacques Lacan, "A coisa freudiana ou Sentido    em luta contra a filosofia idealista, favoreceu o
do retorno a Freud em psicanlise" (1955), in Escritos   desenvolvimento de uma psicologia experi-
(Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 402-
37; O Seminrio, livro 11, Os quatro conceitos fun-      mental, que se inscrevia na perspectiva aberta
damentais da psicanlise (1964) (Paris, 1973), Rio de    pelos trabalhos de Wilhelm Wundt (1833-
Janeiro, Jorge Zahar, 1979; O Seminrio, livro 14, La    1920). Ao mesmo tempo, os psiquiatras insatis-
                                                                                          Itlia    401

feitos com a orientao estritamente organicista      psicanlise da revista Psyche, da qual era um
se encaminharam para a escola alem de Emil           dos animadores.
Kraepelin* em Munique.                                    Modena e Assagioli tinham descoberto a
    A psicanlise aparecia ento como pura es-        psicanlise graas a Ernest Jones*, que encon-
peculao metafsica, acusada de no ter valor        traram em Munique quando faziam um estgio
cientfico.                                           no servio de Kraepelin.
    No plano poltico, os pensadores e burocra-           A esses pioneiros, cujo interesse pela psica-
tas mussolinistas parecem ter ignorado, inicial-      nlise desapareceu bastante rapidamente,  pre-
mente, a existncia das teses freudianas, assim       ciso acrescentar o nome de Sante De Sanctis
como seus raros representantes italianos. Mas,        (1862-1935), psiquiatra e psiclogo de origem
desenvolvendo sua ideologia voluntarista, fun-        romena que mais tarde promoveu a vinda de
dada no mito da virilidade conquistadora e da         Edoardo Weiss* a Roma e publicou em 1890
"s latinidade", o regime fascista logo se ops       uma compilao da literatura dedicada ao so-
aos valores do freudismo*. A partir de 1934, o        nho (que Freud citou em A interpretao dos
advento de Hitler e a adeso do ditador italiano      sonhos* e no fim de seu ensaio Sobre o sonho*).
s teses racistas e anti-semitas dos nazistas acar-       s vsperas da guerra, enquanto um senti-
retaram o desaparecimento da psicanlise na           mento antigermnico, e mais especificamente
Itlia.                                               anti-austraco, se instalava no conjunto do pas,
    Poderosa e triunfante at meados dos anos         Freud observava com lucidez em seu ensaio "A
1950, a Igreja* catlica, que soube compor-se         histria do movimento psicanaltico", que "na
com o regime fascista, condenou todas as outras       Itlia, depois de um comeo muito promissor,
doutrinas: o liberalismo, o positivismo, o idea-      a participao no movimento cessou".
lismo e, evidentemente, a psicanlise, reprova-           Em virutde de sua situao geogrfica e po-
da por seu atesmo, pela importncia que atri-        ltica, que a submeteu ao domnio austraco at
bua  sexualidade* (o pansexualismo*), por           1918, a cidade de Trieste, via de passagem entre
sua adeso s teses darwinianas e pela idia de       a Mitteleuropa e a Pennsula Italiana que Freud
culpa inconsciente, oposta  noo teolgica de       usou vrias vezes, era o cenrio de uma ativi-
pecado.                                               dade intelectual especfica. O bilingismo per-
    Foi em 1908, ou seja, um ano antes da morte       mitia a seus habitantes ter acesso direto  cultu-
de Lombroso, que o nome de Freud foi evocado          ra alem e austraca, e conseqentemente aos
pela primeira vez na Itlia. Dois artigos, um de      trabalhos de Freud; alm disso, a prioridade que
Luigi Baroncini, psiclogo no Hospital Psi-           as autoridades do imprio dos Habsburgo dava
quitrico de Imola, o outro de Gustavo Modena,        aos diplomas austracos sobre os diplomas ita-
psiquiatra em Ancona, baseados em informa-            lianos incitava os estudantes a deixarem a ci-
es parciais, apresentaram de maneira favor-        dade juliana para se formarem em Berlim ou em
vel, mas muito prudente, os trabalhos de Freud,       Munique, mas de preferncia em Viena, o que
que foi informado desse primeiro sinal de reco-       fez, especialmente, o jovem Edoardo Weiss.
nhecimento na Itlia por Karl Abraham* em                 Depois da Primeira Guerra Mundial, a Itlia,
uma carta datada de 4 de outubro de 1908. Ao          humilhada por seus feitos blicos pouco glorio-
mesmo tempo, um mdico veneziano instalado            sos, estava dominada por um ressentimento
em Florena, Roberto Assagioli, animava um            nacionalista que anunciava a chegada do re-
grupo de reflexo sobre a sexualidade. Consa-         gime fascista. Por sua vez, os meios intelectuais
grou sua tese  psicanlise e participou, em          estavam amplamente conquistados pelas idias
1910, do Congresso de Nuremberg. Publicou             positivistas. Nesse contexto, Marco Levi-Bian-
depois diversos artigos de introduo  psica-        chini*, psiquiatra judeu originrio da regio de
nlise na Rivista di Psicologia, que seria at        Pdua que decidira j em 1909 divulgar a psi-
1917 uma das tribunas mais abertas s idias          canlise nos meios psiquitricos italianos, apa-
freudianas, na revista cultural La Vce, onde         receu como pioneiro. Esprito fervilhante mas
apresentou as teses de Freud sobre a sexuali-         confuso, Levi-Bianchini desenvolveu uma ati-
dade, e em um nmero especial dedicado               vidade considervel, que o levou a dar  psica-
402      Itlia

nlise seus primeiros fundamentos institucio-             O movimento psicanaltico italiano nascente
nais sob a forma de revistas e colees. Em           -- a Sociedade Italiana de Psicanlise foi reco-
1925, quando era diretor do Hospital Psiqui-         nhecida pela International Psychoanalytical As-
trico de Teramo, pequena cidade dos Abruzos,          sociation* (IPA) em 1935 -- no teve tempo de
fundou a primeira Societ Psicoanalitica Italia-      se desenvolver. Logo foi asfixiado e destrudo
na (SPI).                                             pelos ataques conjugados da Igreja catlica e do
    No mesmo ano, Weiss apresentou os grandes         regime fascista.
eixos da teoria psicanaltica ao Congresso Na-            Desde 1925, a Igreja combatia as teses freu-
cional de Psiquiatria. Sua interveno, acolhida      dianas, baseando-se nas de Janet e Blondel. A
com grande reserva, foi duramente criticada por       partir de 1932, os idelogos fascistas se ins-
Enrico Morselli (1852-1929), presidente da So-        piraram nos clichs da teoria da hereditarie-
ciedade Italiana de Psiquiatria. Este publicou        dade-degenerescncia* para denunciar o car-
alguns meses depois uma suma em dois vo-              ter mrbido e desmoralizante das idias freudia-
lumes, intitulada La psicoanalisi. Longe de           nas. E, se em 1934, foram as autoridades fascis-
apresentar objetivamente as teses freudianas a        tas que tomaram a deciso de proibir a jovem
um pblico que ignorava tudo sobre elas, a obra       Rivista Italiana de Psicanalisi, essa medida foi
de Morselli pretendia ser um ensaio crtico que       efetivamente inspirada pelo Vaticano, aconse-
tomava emprestado aos adversrios franceses           lhado pelo padre Wilhelm Schmidt (1868-
da psicanlise, a Charles Blondel principalmen-       1954), jesuta vienense, adversrio determina-
te, uma parte de seus argumentos. Transforma-         do da psicanlise muito conhecido de Freud,
va Freud em um Sat lbrico e suas teses sobre        que o designaria explicitamente como o res-
a sexualidade em um catlogo pornogrfico.            ponsvel por essa medida em uma carta a Ar-
Para denunciar o carter decadente e pernicioso       nold Zweig*.
do freudismo, Morselli desenvolveu uma argu-              Nesse contexto, um homem influente, o
                                                      frade franciscano Agostino Gemelli (1878-
mentao organicista e explorou sem pudor a
                                                      1959), psiquiatra, discpulo de Lombroso, alu-
sensibilidade nacionalista fascistizante, assim
                                                      no de Kraepelin* e admirador de Janet, fun-
como a ideologia da pretensa "virgindade lati-
                                                      dador em 1921 da Universidade Catlica de
na", que ele dizia protegida das "perverses
                                                      Milo, que o ministro Gentile reconheceria ofi-
germnicas" graas  piedade religiosa. Acu-
                                                      cialmente em 1923, desempenhou um papel dos
sando o recebimento do livro, Freud respondeu
                                                      mais obscuros. Se, nessa poca, no se declara-
amavelmente a seu autor e lamentou suas reser-
                                                      va explicitamente adversrio da psicanlise --
vas em relao  "nossa jovem cincia", sem to-       o que faria depois da Segunda Guerra Mundial,
davia medir a influncia que, apesar de sua me-       pois at tomara partido a favor de Weiss e dos
diocridade intelectual, esse livro teria na Itlia.   seus alunos atacados por filsofos crocianos --,
    Foi em torno de Weiss, instalado em Roma          Gemelli no interveio a seu favor em 1934, a
a partir de 1931, que se formaram os verdadei-        despeito de sua posio junto  Cria romana e
ros pioneiros da psicanlise, entre eles Emilio       de seu trnsito nos crculos fascistas.
Servadio*, Nicola Perrotti* e Cesare Musatti*,            Em 1938, enquanto o pequeno grupo de
que seria aluno e depois assistente de Vittorio       Weiss estava a ponto de dispersar-se, Gemelli
Benussi*.                                             publicou o primeiro nmero da revista que ele
    Fundada em 1932 por Weiss, a Rivista Ita-         comprara de Levi-Bianchini, Archivi di Neuro-
liana di Psicoanalisi publicou artigos de Jones,      logia, Psichiatria e Psicoanalisi, depois de
de Marie Bonaparte*, de Paul Federn*, tra-            substituir a ltima palavra do ttulo por Psicote-
dues de Freud por Weiss e por Servadio,             rapia. Na verdade, com um grande senso de
assim como trechos acirrados de uma violenta          oportunidade poltica, Gemelli tinha feito sua,
controvrsia com alguns representantes da nova        desde essa poca, a posio da Igreja catlica
gerao crociana. Nesse mesmo ano, ocorreu a          romana que, ao contrrio da Igreja da Frana,
reforma da SPI, cuja sede ficaria a partir de         recusava qualquer compromisso com a psican-
ento em Roma.                                        lise.
                                                                                        Itlia    403

    Durante ainda alguns anos, a SPI tentou          autor do Leopardo, que provavelmente foi ana-
sobreviver. Em 1936, por ocasio do 80 aniver-      lisada por Felix Boehm* em Berlim.
srio de Freud, a Bibliotca Psicoanalitica In-          O segundo congresso da SPI se realizou
ternazionale publicou o que restou como nica        igualmente em Roma, em 1950. Foi dedicado
coletnea de textos dos psicanalistas daquele        ao tema da agressividade.
tempo. Simultaneamente, os psicanalistas ita-            Durante esses anos, Cesare Musatti se imps
lianos acolhiam em Roma o pediatra berlinense        como patrono da psicanlise na Itlia, graas
Ernst Bernhardt, que deixara Berlim para esca-       principalmente  sua intensa atividade editorial
par s perseguies dos nazistas. Bernhardt          e institucional.
abandonaria posteriormente as idias de Freud,           Com a morte do papa Pio XII em 1959 e a
adotando as de Jung, e fundaria a escola jun-        de Gemelli no mesmo ano, terminava um pero-
guiana italiana, que em reconhecimento por           do marcado, por um lado, pela flexibilizao da
essa acolhida sempre manteria relaes pacfi-       posio pontifical diante da idia de psicotera-
cas com a SPI.                                       pia*, expresso no mbito de duas intervenes,
    A partir de 1937, a censura aumentou sua         em 1952 e em 1953, e, por outro lado, por
presso e as perseguies se multiplicaram. Em       condenaes radicais da psicanlise, enuncia-
1938, as leis anti-semitas proibiram que os ju-      das por filsofos catlicos, apoiadas e amplia-
deus exercessem profisses liberais. Os              das por Gemelli.
psicanalistas foram obrigados a se esconder e a
                                                         No Conclio Vaticano II, ouviu-se pela pri-
viver de expedientes (foi o caso de Musatti e de
                                                     meira vez o nome de Freud pronunciado sob a
Perrotti), ou ento a exilar-se (como fariam,
                                                     cpula da Baslica de So Pedro. O Vaticano
especialmente, Servadio e Weiss, o primeiro na
                                                     decidira abrir-se  psicanlise, abertura efetua-
ndia*, o segundo nos Estados Unidos*).
                                                     da tambm no plano universitrio pelo sucessor
    Em setembro de 1939, por uma estranha
                                                     de Gemelli em Milo, Leonardo Ancona, amigo
astcia da histria e do esprito, que certamente
                                                     de Musatti, que publicou em 1963 La psicoa-
teria feito Freud sorrir, o L'osservatore romano,
                                                     nalisa, obra de reabilitao das idias de Freud
jornal do Vaticano, foi o nico rgo de impren-
                                                     e de apresentao das terapias de grupo, que
sa italiano a anunciar sua morte.
    Com o fim da guerra, a reformulao polti-      teriam um imenso sucesso na Itlia.
ca e ideolgica, que fez da Itlia uma pea-             O renascimento do movimento psicanaltico
chave na geopoltica da guerra fria, transformou     italiano, sancionado em 1969 pela integrao
radicalmente a paisagem intelectual do pas.         oficial da SPI  IPA (que realizou nesse ano seu
    As duas grandes correntes de pensamento          congresso em Roma), no deve, entretanto,
hostis, que dividiam os espritos, se abriram        mascarar os limites e fraquezas da sua implan-
para a psicanlise: a Igreja catlica, por um        tao.
lado, abalada durante os anos 1960 pelo ter-             Ao contrrio do que ocorria na Frana na
remoto que foi o Conclio Vaticano II; por outro     mesma poca, a psicanlise tinha pouca in-
lado, o marxismo, cujas certezas seriam ques-        fluncia nos meios intelectuais, nos quais do-
tionadas pelo radicalismo das revoltas polticas     minava o pensamento marxista que, por seu
dos anos 1970.                                       fechamento a qualquer forma de psicologia,
    Em 1946, realizou-se em Roma o primeiro          aparecia paradoxalmente como herdeiro da fi-
congresso da SPI, estimulado por Joachim Fles-       losofia idealista de antes da guerra. Certamente
cher, aluno de Weiss, que acabava de publicar        por causa do sofrimento de sua mulher, acome-
um livro, Psicanalisi della vita istintiva, depois   tida de uma depresso crnica, Antonio Grams-
de ter ficado na clandestinidade durante toda a      ci (1891-1937), fundador do Partido Comunista
guerra. Perrotti era o presidente da nova socie-     Italiano, sempre tivera um interesse ambguo
dade, Musatti vice-presidente, e entre os mem-       mas real por tudo o que dizia respeito ao fun-
bros presentes, alm de Servadio, que voltara        cionamento psquico. Mas esse detalhe foi
da ndia, estavam a princesa de Lampedusa,           ignorado por seus sucessores, exclusivamente
Alessandra Tomasi (1897-1982), mulher do             preocupados com a figura do intelectual coleti-
404     Itlia

vo e militante, para quem s deveriam ter im-      que a psicanlise no se preocupava verdadei-
portncia o poltico e o social.                   ramente com a nova gerao. A obra mestra de
    O exemplo mais impressionante dessa for-       Matte-Blanco, Unconscious as Infinite Set, pu-
ma de resistncia  psicanlise foi dado pela      blicada em Londres em 1973, s seria traduzida
experincia conduzida por Franco Basaglia*.        para o italiano em 1981.
Hostil  psicanlise, Basaglia criou uma cor-          A maneira pela qual as idias de Jacques
rente de pensamento, sntese do marxismo fe-       Lacan* foram recebidas e utilizadas mostra
nomenolgico lukacsiano, da herana binswan-       igualmente essa ambigidade. O Lacan crtico
geriana da Escola de Frankfurt e do existen-       da Ego Psychology* e da ordem mdica foi
cialismo sartriano, que tinha como objetivo o      privilegiado (no mbito da "luta anti-imperia-
fechamento dos hospitais psiquitricos e a cria-   lista") em detrimento do Lacan terico, preocu-
o de comunidades teraputicas territoriais.      pado em reelaborar as condies da prtica e da
Essa verso italiana da antipsiquiatria inglesa    escuta psicanalticas. Alis, se a Frana*, na
desenvolveu a tese de que a doena mental era      poca, exportava suas idias, foi a temtica da
determinada pelas condies sociais. A conjun-     liberao do desejo, tal como expressa por
tura poltica garantiria, em 1979, uma vitria     Gilles Deleuze e Flix Guattari* no Anti-dipo,
para essa revolta psiquitrica sob a forma da      que conquistou a adeso dos radicais.
promulgao da lei 180, mas a deficincia dos          Em oposio a essa espcie de neo-freudo-
meios econmicos postos a servio da reforma       marxismo, desenvolveu-se, s custas de uma
limitaria consideravelmente seu alcance.           nova ambigidade, a aventura do analisando de
    Confinada na sua ortodoxia ipesta, isolada    Lacan Armando Verdiglione, cuja repercusso
das correntes intelectuais em plena efervescn-    internacional eclipsaria os trabalhos menos rui-
cia, a SPI no conseguia ter um papel motor na     dosos, porm mais rigorosos, de jovens psica-
tempestade ideolgica que se aproximava. A         nalistas lacanianos como Giacomo Contri, Ser-
realizao, em 1969, ao lado do congresso ofi-     gio e Virginia Finzi, entre outros. Psicanalista,
cial da IPA, de um contra-congresso dirigido       editor, organizador de colquios multidiscipli-
principalmente por Elvio Fachinelli*, psicana-     nares atravs do mundo, Verdiglione, cujo
lista milans, constituiu a primeira manifes-      sucesso foi to intenso quanto os ataques e
tao de envergadura nessas turbulncias.          processos que sofreu posteriormente, fracassou
    A partir dessa data, sob a liderana de Mas-   em sua tentativa de implantar o pensamento
simo Fagiolo, Giovanni Jervis, Enzo Morpurgo,      lacaniano e o estruturalismo na Itlia.
Diego Napolitani, todos eles psicanalistas ou          No limiar dos anos 1980, em uma conjuntura
psiquiatras adeptos da contestao e desejosos     marcada pela volta triunfante do positivismo
de explodir os quadros rgidos da SPI, as formas   por um lado (sob a forma das neurocincias e
de experincias teraputicas mais diversas se      da cultura eletrnica), e do espiritualismo, por
multiplicaram, a maioria dentro de uma pers-       outro (religioso ou ecologista), a psicanlise,
pectiva militante. Todas essas iniciativas eram    mesmo tendo se desenvolvido no plano ins-
dominadas pelo radicalismo poltico que carac-     titucional, no conseguiu libertar-se totalmente
terizou o clima intelectual italiano dos anos      do provincianismo que caracterizou a vida in-
1970.                                              telectual italiana durante toda a primeira parte
    Mas essas aberturas favoreceram bem mais       do sculo XX.
a psicologia em geral do que a psicanlise.            A SPI, com aproximadamente 500 mem-
Assim, embora a SPI fosse objeto de crticas       bros, rene a maioria dos psicanalistas italianos,
radicais, seu poder nunca seria ameaado pela      cuja formao realiza em seus institutos de
fundao de uma organizao rival, capaz de        Milo e Roma. Essa implantao e essa organi-
constituir o quadro institucional de uma reno-     zao, internacionalmente reconhecidas, no
vao psicanaltica. A discrio que cercava,      podem ocultar o fato de que no existe escola
naquele momento, os trabalhos do psicanalista      de pensamento psicanaltico italiano, e o es-
e lgico chileno Ignacio Matte-Blanco*, radi-      sencial dos trabalhos publicados  influenciado
cado em Roma durante longos anos, mostrava         pelas correntes da psicanlise inglesa, quer se
                                                                                                  Itlia     405

trate das idias de Melanie Klein*, de Donald            abordagens incompatveis. O difcil papel de Edoardo
Woods Winnicott*, de Masud Khan* ou de                   Weiss", Revista Internacional da Histria da Psican-
                                                         lise, 1 (1988), Rio de Janeiro, Imago, 1990, 199-216 
Wilfred Ruprecht Bion*. Essa fraqueza , pro-            Didier Anzieu, A auto-anlise de Freud e a descoberta
vavelmente, uma das causas da forte e rpida             da psicanlise (1959), P. Alegre, Artes Mdicas, 1989
implantao na Itlia das diversas formas de              Sergio Benvenuto, "A glance at psychoanalysis in
psicoterapia: terapias familiares*, cognitivistas        Italy", indito  Paolo Boringhieri, "L'dition des Opere
ou ainda terapias coletivas as mais diversas.            di Sigmund Freud", Revue Internationale d'Histoire de
                                                         la Psychanalyse, 4, 1991, 323-9  Contardo Calligaris,
    Por sua vez, os lacanianos italianos, dis-           "Petite histoire de la psychanalyse en Italie", Critique,
persos em muitos grupos ou escolas, no conse-           333, fevereiro de 1975  Jacquy Chemouni, Histria do
guiram estruturar-se. Assim, no conseguem               movimento psicanaltico (Paris, 1990), Rio de Janeiro,
dialogar com a SPI ou com os junguianos,                 Jorge Zahar, 1991  Marco Conci, "Psychoanalysis in
herdeiros de Bernhardt, que so particular-              Italy: a reappraisal", Int. Forum Psychoanal., 3, 1994,
                                                         117-26  Michel David, La psicoanalisi nella cultura
mente influentes nos meios culturais e arts-            italiana (1966), Turim, Bollati Boringhieri, 1990; "La
ticos, como mostrou, entre outras celebridades,          Psychanalyse en Italie", in Roland Jaccard (org.), His-
o cineasta Federico Fellini.                             toire de la psychanalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982,
                                                         259-313  Franco Fornari, "Aventures de la psychana-
                                                         lyse", Silex, 5-6. 1978  Antonietta e Grard Haddad,
 Sigmund Freud, A interpretao de sonhos (1900),
ESB, IV-V, 1-660; GW, I-II, 1-642; SE, IV-V, 1-621;      Freud en Italie. Psychanalyse du voyage, Paris, Albin
Paris, PUF, 1967; Sobre os sonhos (1901), ESB, V,        Michel, 1995  Jacques Nobcourt, "Freud et le `Tris-
671-751; GW, II-III, 643-700; SE, V, 629-989; Paris,     keles'", Critique, 435-6, 1983; "La Transmission de la
Gallimard, 1988; "A histria do movimento psicanalti-   psychanalyse freudienne en Italie via Trieste", ibid 
co" (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV,     Arnaldo Novelletto, "Italy", in Peter Kutter (org.), Psy-
7-66; Paris, Gallimard, 1991; La Naissance de la psy-    choanalysis International. Guide to Psychoanalysis
chanalyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Corres-     throughout the World, vol.1, Stuttgart-Bad Cannstatt,
pondance, 1873-1939, Paris, Gallimard, 1966  Sig-       Frommann-Holzboog, 1992, 195-213  Michele Ran-
mund Freud e Karl Abraham, Correspondance, 1907-         chetti, "Les Oeuvres compltes et l'dition des Opere
1926 (Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard, 1969          di Sigmund Freud", Revue Internationale d'Histoire de
Sigmund Freud e Arnold Zweig, Correspondance,            la Psychanalyse, 4, 1991, 331-55  Giorgio Voghera,
1927-1939 (Frankfurt, 1968), Paris, Gallimard, 1973     Gli anni della psicoanalisa, Pordenone, Studio Tesi,
Anna Maria Accerboni, "Psicanlise e fascismo. Duas      1980.
                                                        J
Jackson, John Hughlings                                       schaft (DPG), fazendo parte de seu comit de
(1835-1911)                                                   ensino. Militante social-democrata, comeou
mdico e neurologista ingls                                  desde 1933 a lutar contra o nazismo* na rede de
    Fundador da neurologia moderna, Hugh-                     resistncia Neu Beginnen (Comear de novo),
lings Jackson foi durante quarenta e cinco anos               sem que a International Psychoanalytical As-
mdico no National Hospital de Londres. Em                    sociation* (IPA) nem a DPG soubessem de seu
1884, elaborou a teoria da dissoluo das                     engajamento.
funes nervosas pela doena, retomada em                         Quando foi detida pela Gestapo, e depois
parte por Sigmund Freud* e introduzida na                     presa a 25 de outubro de 1935, Ernest Jones*,
Frana* pelo psiclogo Thodule Ribot (1839-                  que estava implementando a poltica de "salva-
1916). Na histria do saber psiquitrico, o jack-             mento" da psicanlise na Alemanha* com a
sonismo teria um papel considervel nos Es-                   colaborao de Felix Boehm* e de Carl Mller-
tados Unidos*, servindo de substrato para a                   Braunschweig*, ficou ao mesmo tempo furioso
implantao das teses freudianas. Na Frana,                  e consternado, a ponto de pensar que ela teria
seria utilizado por Henri Ey*, para a elaborao              enlouquecido: a DPG, para agradar aos novos
da noo de organo-dinamicismo.                               dignitrios do regime, proibira a seus membros
    A tese jacksoniana afirmava a prioridade da               analisarem pacientes engajados na Resistncia.
hierarquia das funes sobre a sua organizao                    Temendo que Edith Jacobson fosse enviada
esttica. Considerava as funes psquicas co-                para um campo de concentrao, Jones provi-
mo dependentes umas das outras, de cima para                  denciou sua defesa, consultando um advogado
baixo. Assim, a dissoluo das atividades supe-               nazista. Foi acusada de alta traio e condenada
riores acarretava uma liberao ou um desliga-                a dois anos e meio de priso. Em 1937, aprovei-
mento das atividades inferiores anteriormente                 tando uma permisso para submeter-se a uma
controladas por elas.                                         cirurgia, fugiu para Praga, de onde foi para os
                                                              Estados Unidos*. Reuniu-se ento  New York
 John Hughlings Jackson, "Evolution and dissolution          Psychoanalytic Society (NYPS).
of the nervous system", reed., in Selected Writings,
Londres, 1931  Jacques Nassif, Freud, l'inconscient,          Edith Jacobson, Le Soi et le monde objectal, Paris,
Paris, Galile, 1977.                                         PUF, 1975; Les Dpressions. tats normaux, nvroti-
                                                              ques et psychotiques, Paris, Payot, 1985  Les Annes
 BABINSKI, JOSEPH; CONTRIBUIO  CONCEP-                     brunes. La Psychanalyse sous le IIIe Reich, textos
O DAS AFASIAS; SULLIVAN, HARRY STACK.                       traduzidos e apresentados por Jean-Luc Evard, Paris,
                                                              Confrontation, 1984  Geoffrey Cocks, La Psychoth-
                                                              rapie sous le IIIe Reich (Oxford, 1985), Paris, Les Belles
                                                              Lettres, 1987  Regine Lockot, Erinnern und Durchar-
Jacobson, Edith (1897-1978)
                                                              beiten, Frankfurt, Fischer, 1985  Ici la vie continue de
mdica e psicanalista americana                               manire surprenante, seleo de textos traduzidos por
   Grande especialista em relao de objeto*,                 Alain de Mijolla, Paris, Association Internationale d'His-
em self (Self Psychology*), em depresso e em                 toire de la Psychanalyse (AIHP), 1987  Ludger M.
                                                              Hermanns, "Condies e limites da produtividade cien-
borderlines*, Edith Jacobson nasceu na Alta                   tfica dos psicanalistas na Alemanha de 1933 a 1935",
Silsia. Em 1928, depois de estudar medicina,                 Revista Internacional da Histria da Psicanlise, 1
aderiu  Deutsche Psychoanalytische Gesell-                   (1988), Rio de Janeiro, Imago, 1990, 67-86  Karen

                                                        406
                                                                                       Janet, Pierre     407

Brecht, "A psicanlise na Alemanha nazista: adaptao      especialista em urologia e apaixonado por psi-
 instituio, relaes entre psicanalistas judeus e no
                                                           cologia, que comeou a se interessar pelos fen-
judeus", ibid., 87-98  Russel Jacoby, Otto Fenichel.
Destins de la gauche freudienne (N. York, 1983), Paris,    menos do sonambulismo e das personalidades
PUF, 1986.                                                 mltiplas*. Nomeado professor para o liceu do
                                                           Havre em 1883, ficou conhecendo, dois anos
 COMUNISMO; FENICHEL,          OTTO; FREUDO-MAR-           depois, o doutor Gilbert, que lhe apresentou
XISMO; GRING, MATTHIAS        HEINRICH; RITTMEIS-
                                                           Lonie. Magnetizada no passado, essa campo-
TER, JOHN.
                                                           nesa revivia, sob hipnose*, as faanhas de anti-
                                                           gos magnetizadores, cujas obras haviam cado
                                                           no esquecimento. Assim, recebia facilmente
Jahrbuch fr psychoanalytische
und psychopathologische                                    sugestes*, s quais obedecia com perfeio.
Forschungen                                                    No dia 30 de novembro de 1885, quando o
(Anais de pesquisas psicanalticas e psicopatol-
                                                           jovem Freud estava em Paris, Paul Janet apresen-
gicas)                                                     tou  Sociedade de Psicologia Fisiolgica de Paris
    Criado em 1909, por iniciativa de Sigmund              um relatrio de seu sobrinho sobre o "caso Lo-
Freud* e Eugen Bleuler*, o Jahrbuch foi a                  nie". O trabalho foi acolhido com entusiasmo por
primeira revista oficial do movimento psicana-             Jean Martin Charcot*. Durante vrios anos, os
ltico, antes da criao da Internationaler Psy-           apaixonados por espiritismo*, principalmente
choanalytischer Verlag (IPV), futura Internatio-           Charles Richet (1850-1935) e Frederick Myers*,
nal Psychoanalytical Association* (IPA).                   visitaram a "vidente" do Havre. Esta teve depois
Deixou de existir em 1913, aps o conflito entre           um curioso destino. Em 1895, foi levada pelo
Freud e Carl Gustav Jung*, e Freud criou a                 doutor Gilbert, ardoroso partidrio de Dreyfus, at
Internationale rztlische Zeitschrift fr Psy-             Mathieu Dreyfus, que procurava ento as "pro-
choanalyse (IZP), que em seguida (em 1939)                 vas" da inocncia de seu irmo, o capito Alfred
fundiu-se com a revista Imago* para dar origem             Dreyfus (1859-1935). Mathieu instalou Lonie
 Internationale Zeitschrift fr Psychoanalyse             em sua casa em Paris e adquiriu o hbito de
und Imago (IZP-IMAGO), que deixaria de ser                 hipnotiz-la. Quando ela se encontrava em estado
publicada em 1941. Surgiu ento o Internatio-              de sonambulismo, explicava os "segredos" do
nal Journal of Psycho-analysis* (IJP), fundado             caso que ningum conhecia ainda: assim, ela afir-
por Ernest Jones* em 1920, que se tornaria o               mou que o verdadeiro culpado era um oficial do
rgo oficial da IPA.                                      Ministrio da Guerra que tinha contato com um
                                                           agente alemo.
                                                               Em junho de 1889, Janet defendeu sua tese
Janet, Pierre (1859-1947)                                  de filosofia sobre o automatismo psicolgico,
mdico e psiclogo francs                                 diante de uma banca presidida por mile Bou-
    Terico do automatismo* psicolgico e fun-             troux (1845-1921), mestre incontestvel da fi-
dador na Frana* da corrente da anlise psico-             losofia francesa, professor de Henri Bergson
lgica, Pierre Janet foi, como Thodore Flour-             (1859-1941) e anti-hegeliano. Em agosto, fez
noy* e Sigmund Freud*, seu grande rival, um                parte, com Hippolyte Bernheim*, August Fo-
dos principais artfices da segunda psiquiatria            rel* e Jules Djerine (1849-1917), do comit de
dinmica*. At 1915, seus trabalhos foram mais             organizao do Congresso Internacional de
clebres que os de Freud, comentados no mun-               Hipnotismo, do qual participaria um mdico
do inteiro por todos os especialistas em doenas           ainda desconhecido: Sigmund Freud.
nervosas.                                                      Foi ento que Janet, j conhecido pela pu-
    Nascido em Paris, Pierre Janet era de uma              blicao de sua tese, comeou a estudar medi-
famlia de classe mdia, que cultivava o racio-            cina e passou uma boa parte de seu tempo no
nalismo e os valores republicanos. Desde a in-             Hospital da Salptrire. Em 1893, defendeu sua
fncia, admirava o seu tio, professor de filoso-           tese de medicina, O estado mental das his-
fia, que o ajudou a fazer uma brilhante carreira           tricas (estigmas e acidentes mentais), diante
universitria. Foi com seu irmo, Jules Janet,             de uma banca composta por Charcot e Richet.
408     Janet, Pierre

Sua reputao se estendeu ento alm da Fran-           Quanto  histeria*, Janet a considerava uma
a, e a sua teoria da histeria* se imps. Freud     doena puramente psicolgica. Em sua opinio,
tomou conhecimento dela e insistiu com Josef        era uma afeco funcional ligada a uma cons-
Breuer* para que publicasse os Estudos sobre a      tituio hereditria. Quer fosse denominada tu-
histeria*. Queria demonstrar que Janet no era      berculose "psquica" quer sfilis "mental", ela
o primeiro estudioso a elaborar uma nova abor-      no recebia nenhuma etiologia sexual. Mos-
dagem desse campo. A querela das prioridades        trava, no doente, um "estreitamento do campo
comeou nessa data, quando Janet se tornara,        da conscincia", causado por uma "fraqueza
na Frana e no estrangeiro, o grande especialista   psicolgica". A anlise da histeria levou Janet a
em doenas nervosas.                                abordar "a outra" grande neurose*: a neuras-
    Entre 1889 e 1893, criou seu mtodo de psi-     tenia*. Substituiu o termo pelo de psicastenia*,
coterapia*, ao qual deu o nome de anlise psico-    que inclui a neurose obsessiva*.
lgica. Ele se baseava em trs regras fundamen-         A partir de 1903, tornando-se professor no
tais: exame do doente face a face e sem testemu-    Collge de France, Janet se dedicou a fazer a
nhas, anotao rigorosa das palavras pronuncia-     sntese de suas teorias. Exps o essencial destas
das (ou mtodo da caneta), explorao dos an-       em As medicaes psicolgicas, A medicina
tecedentes e dos tratamentos aos quais o doente     psicolgica e enfim em Da angstia ao xtase.
fora submetido. Janet fundamentava sua anlise      Em 1904, fundou com Georges Dumas (1866-
psicolgica na investigao consciente, e no       1946) o Journal de Psychologie Normale et
na escuta de um discurso inconsciente. Embora
                                                    Pathologique, e em 1913, foi eleito membro da
reconhecesse a existncia de um "deslocamento
                                                    Academia de Cincias. Durante muitos anos,
afetivo", no procurou aprofundar essa noo,
                                                    acumulou observaes e publicou estatsticas
ao contrrio de Freud, com a transferncia*.
                                                    referentes a mais de 3.500 doentes: um "traba-
Enfim, contra a tradio do romantismo ale-
                                                    lho de formiga", que tinha como objetivo "pro-
mo, reivindicou, em lugar da palavra "incon-
                                                    var" a existncia dos fenmenos psquicos.
sciente"*, a palavra "subconsciente", originria
                                                    Nessa perspectiva, continuou a experimentar os
da filosofia da conscincia* e da herana do
                                                    princpios de sua anlise psicolgica em muitos
cartesianismo francs.
                                                    pacientes, entre os quais a clebre Madeleine
    Essa substituio ocorreu em duas etapas.
                                                    Lebouc (Pauline Lair Lamotte*) e o escritor
Em um primeiro tempo, em O automatismo
psicolgico (1889), Janet utilizou a palavra "in-   Raymond Roussel (1877-1933).
consciente". Mas, quatro anos depois (1893),            Desde 1895, Janet rejeitava cruamente os
em O estado mental das histricas, optou defi-      trabalhos de Freud. Sua atitude deu origem a
nitivamente por "subconsciente". Da o fato de      uma corrente antifreudiana particularmente
nunca ter levado em conta o mecanismo do            violenta, que consistia em explicar, por um lado,
recalque*. O automatismo psicolgico janetia-       que Freud roubara os conceitos janetianos,
no era bastante prximo da noo de escrita         dotando-os de uma nova denominao, e, por
automtica, criada por William James (1842-         outro lado, que sua doutrina era a expresso de
1910) e que se tornaria clebre graas aos sur-     um esprito vienense obcecado pela sexuali-
realistas. Tratava-se realmente de definir uma      dade*. Janet assumia assim a famosa tese do
atividade espontnea ou "inferior" da conscin-     genius loci, popularizada pelo psiquiatra ale-
cia: associaes pr-organizadas.                   mo Adolf Albrecht Friedlnder (1870-1949),
    Note-se que o automatismo psicolgico de        quando de um congresso internacional de me-
Janet era diferente do automatismo mental de        dicina realizado em Budapeste em 1909. Ata-
Gatan Gatian de Clrambault*. Para o primei-       cando violentamente a psicanlise, Friedlnder
ro, o automatismo era interno  conscincia, ao     explicou que esta devia seu sucesso  mentali-
passo que para o segundo ele era constitudo por    dade vienense, que atribua uma importncia
um conjunto de sintomas que surgiam fora da         considervel aos fenmenos da sexualidade.
conscincia do sujeito,  maneira da irrupo de    Essa tese se tornara, em alguns anos, o cavalo
um delrio.                                         de batalha dos antifreudianos, que culpavam a
                                                                                     Janet, Pierre        409

psicanlise* por todos os pecados de um pre-         Paris, em 1885, j havia sido iniciado por
tenso pansexualismo*.                                Breuer, entre 1880 e 1882, na questo da etio-
    Em Londres, em 1913, reuniram-se todos os        logia das neuroses histricas.
representantes da psiquiatria dinmica, da Sua*,       Em 1937, douard Pichon* escreveu a
dos Estados Unidos* e da Gr-Bretanha*, por          Freud para lhe pedir que recebesse Janet, que
ocasio do XVII Congresso Internacional de Me-       estava de passagem por Viena*. Freud respon-
dicina. Janet intitulou o relatrio que apresentou   deu em uma carta enviada a Marie Bonaparte*
como "A psico-anlise". Segundo ele, Freud e         e publicada por Jones: "No, no receberei
Breuer tinham modificado "algumas palavras na        Janet. No posso deixar de acus-lo de ter-se
descrio psicolgica que fizeram. Chamaram de       comportado injustamente em relao  psican-
psico-anlise o que eu chamara de anlise psico-     lise e em relao a mim, pessoalmente, e de
lgica. Chamaram de complexus o que eu chama-        nunca ter feito nada para reparar isso. Ele foi
ra de sistema psicolgico para designar o conjunto   bastante burro para dizer que a etiologia sexual
de fenmenos psicolgicos e de movimentos seja       das neuroses s podia germinar na atmosfera de
dos membros, seja das vsceras, que ficavam as-      uma cidade como Viena. Depois, quando os
sociados para constituir a lembrana traumtica.     escritores franceses espalharam o boato de que
Batizaram com o nome de catarse* o que eu            eu teria assistido a suas conferncias e roubado
designara como uma dissociao ou uma desin-         suas idias, caberia a ele, com apenas uma
feco moral".                                       palavra, pr fim a esses comentrios, pois na
    Nessa poca, Janet apresentava assim Freud       verdade nunca falei com ele nem nunca ouvi
e Breuer como plagirios e fazia a psicanlise       falar dele durante o perodo Charcot [...]. No,
passar por uma obscenidade vienense. E embo-         no o receberei." Graas a uma carta de
ra no fosse nem chauvinista, nem nacionalista,      douard Pichon a Henri Ey*, datada de 14 de
contribuiu para a difuso da tese prenunciada        junho de 1939, sabe-se que, apesar de tudo, em
por Angelo Hesnard*, segundo a qual a teoria         abril de 1937, Janet bateu  porta da casa de
freudiana era demasiado "germnica" para             Freud. Foi despachado pela governanta, que lhe
adaptar-se ao "gnio latino". Desde sua volta de     respondeu que o professor estava ausente.
Londres, no parou de atacar o freudismo*.            Pierre Janet, "Note sur quelques phnomnes de
Comparou os psicanalistas a detetives que ater-      somnambulisme", Bulletin de la Socit de Psycholo-
rorizavam os doentes, perseguindo os seus trau-      gie Physiologique, 1, 1885, 24-32; L'Automatisme psy-
mas, e, em 1919, em As medicaes psicolgi-         chologique (1889), Paris, ditions de la Socit Pier-
                                                     re-Janet, 1973; L'tat mental des hystriques (Paris,
cas, afirmou que a psico-anlise era "um inqu-      1893-1894, 1911), Marselha, Laffitte-Reprints, 1983;
rito criminal, que tinha que descobrir um culpa-     Nvroses et ides fixes, 2 vols., Paris, Alcan, 1903; Les
do, um acontecimento passado responsvel pe-         Nvroses, Paris, Flammarion, 1909; "La Psycho-ana-
los distrbios atuais, o reconhecia e o perseguia    lyse", relatrio para o XVII Congresso Internacional de
                                                     Medicina de Londres, Journal de Psychologie, XI, mar-
sob todos os seus disfarces."                        o-abril de 1914, 97-130; Les Mdications psychologi-
    Em Londres, a exposio de Janet foi mal         ques, Paris, Alcan, 1919; La Mdecine psychologique
recebida. Com efeito, nessa data, os trabalhos       (1923), Paris, ditions de la Socit Pierre-Janet,
de Freud tinham conquistado o mundo cientfi-        1980; De l'angoisse  l'extase. tudes sur les
                                                     croyances et les sentiments, t.1, Paris, Alcan, 1926, t.2,
co ocidental e sua escola se tornara um podero-      ibid., 1928; L'Amour et la haine, Paris, Maloine, 1932 
so movimento internacional. Alm disso, todos        A.A. Friedlnder, "Hysterie und moderne Psychoana-
os especialistas em doenas nervosas sabiam          lyse", Psychiatrie, atas do XVI Congresso Internacional
que Freud tomara um caminho diferente do de          de Medicina, Budapeste, 1909, seo XII, 146-72 
                                                     Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, vol.
Janet. A acusao de desvio das noes janetia-      3 (N. York, 1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Henri
nas era pois inadmissvel.                           F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'incons-
    Freud nunca perdoou a Janet seus ataques de      cient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974),
1913. Em 1925, em sua autobiografia (Um es-          Paris, Fayard, 1994  Henri-Jean Barraud, Freud et
                                                     Janet, Toulouse, Privat, 1971  Claude M. Prvost, La
tudo autobiogrfico*), ele o responsabilizou         Psycho-philosophie de Pierre Janet, Paris, Payot,
pelas acusaes feitas contra ele pela imprensa      1973; Janet, Freud et la psychologie clinique, Paris,
francesa e reafirmou que quando estivera em          Payot, 1973  lisabeth Roudinesco, Histria da psica-
410      Japo

nlise na Frana, 2 vols. (Paris, 1982 e 1986), Rio de    ram aos Estados Unidos*, a Viena* e a Londres,
Janeiro, Jorge Zahar, 1989 e 1988  Jacqueline Carroy,
Hypnose, suggestion et psychologie, Paris, PUF, 1991
                                                          e atravs da assimilao das teses ocidentais
 Jean-Denis Bredin, L'Affaire, Paris, Fayard-Julliard,   pela cultura japonesa.
1993  "Lettre d'douard Pichon  Henri Ey du 14 juin         Kenji Otsuki*, homem de letras e tradutor
1939", Bulletin du Centre de Documentation Henri-F.-      de literatura alem, foi o primeiro a mencionar
Ellenberger, 6, 2 trimestre de 1994.
                                                          o nome de Sigmund Freud* em um artigo de
 CLAUDE, HENRI; DELAY, JEAN; FAVEZ-BOUTO-                 1912 dedicado ao esquecimento e  memria.
NIER, JULIETTE; LAGACHE, DANIEL; PSICOLOGIA               Dois anos depois, Yoshihide Kubo (1883-
CLNICA.                                                  1942), professor de psicologia na Universidade
                                                          de Hiroshima Bunri, publicou uma srie de
                                                          artigos sobre o sonho*, antes de ir para a Uni-
Japo                                                     versidade Clark de Worcester, onde Stanley
    "Em quinze anos, de 1853 a 1868, escreveu             Grandville Hall*, que recebera Freud em 1905,
Maurice Pinguet," o Japo atravessou a crise              o iniciou nas teses freudianas. Ao retornar, em
mais grave de sua histria, to aguda e profunda          1917, publicou o primeiro grande livro japons
quanto a Revoluo Francesa." Esse perodo, a             de introduo  psicanlise*. Falava da sexua-
era Meiji, nome do imperador que foi um de                lidade* infantil, do chiste, dos atos falhos*, dos
seus iniciadores, viveu o desmoronamento da               lapsos*, da psicanlise aplicada*, sem esquecer
ordem feudal, depois de mais de dois sculos de           de mencionar todos aqueles que criticaram
reinado dos shoguns da dinastia Tokugawa. A               Freud: Pierre Janet*, Alfred Adler*. Para tradu-
ordem feudal era simbolizada pelo personagem              zir a palavra psicanlise, props seishinbunseki:
do samurai. Nele, encarnavam-se os ideais do              seishin contm dois caracteres (ou kanji) e sig-
Japo ancestral, e entre suas mltiplas prer-             nifica alma, e bunseki, tambm com dois carac-
rogativas estava o seppuku, o direito de se sui-          teres, significa anlise.
cidar com um sabre, por eviscerao da esquer-                Como Kubo, o psiquiatra Kiyoyasu Marui
da para a direita, segundo um ritual imutvel.            (1886-1953) foi aos Estados Unidos em 1916,
    Ora, com a instaurao dos princpios do              e junto a Adolf Meyer* pde constatar o impac-
Cdigo de Napoleo e dos valores do capitalis-            to da psicanlise no saber psiquitrico america-
mo ocidental, essa prtica da morte voluntria            no da poca. Em 1919, foi nomeado professor
foi moralmente banida da sociedade japonesa.              de psiquiatria na Universidade Tohuku de Sen-
Mas sobretudo no momento em que se implan-                dai, no nordeste do Japo, onde desempenhou
tava nas novas universidades imperiais a noso-            um papel maior na implantao do freudismo*.
grafia psiquitrica alem, proveniente do ensi-
                                                              Nesse nterim, o psiclogo Yaekichi Yabe foi
no de Emil Kraepelin*, ela foi progressivamen-
                                                           Gr-Bretanha*, onde fez um estgio sob a
te assimilada a uma doena da alma, ou consi-
derada como a expresso melanclica de um                 direo de Ernest Jones*. Em 1928, com Kenji
niilismo individual. Menos de um sculo depois            Otsuki, criou em Tquio o primeiro Instituto
da revoluo pineliana, o Japo entrava assim             Psicanaltico Japons, que seria filiado  Inter-
na era da psiquiatria dinmica*, julgando o               national Psychoanalytical Association* (IPA)
herosmo feudal, ou seja, uma de suas tradies,          em 1932, no Congresso de Wiesbaden. Em
como uma psicopatologia*.                                 maio de 1930, Yabe foi visitar Freud em Viena
    Como em outros pases, a psicanlise* se              e constatou o interesse que ele tinha pelos obje-
implantou no Japo, no incio do sculo XX,               tos chineses e asiticos: dois kannons, trs bu-
sobre um substrato de saber psiquitrico. Ao              das, camelos, cavalos, estatuetas etc. Os dois
contrrio da ndia*, segundo pas do continente           discutiram as analogias entre a noo de pul-
asitico a se interessar pelas idias freudianas,         so* de morte e a doutrina do budismo. Yabe
o Japo no conheceu nem a colonizao nem                voltou depois  Gr-Bretanha, para fazer uma
o isolamento. A psiquiatria se desenvolveu ali,           anlise com Edward Glover*. Em 1933, Marui
como o pensamento psicanaltico, graas s                foi a Viena para um tratamento de um ms com
viagens de estudos que alguns pioneiros fize-             Paul Federn*.
                                                                                        Japo      411

    Durante esse perodo de expanso, as resis-       e organizou o movimento freudiano em seu
tncias  psicanlise foram as mesmas que nos         pas.
outros pases. Tinham como alvo o pretenso                Depois de 1935, em reao contra a era
pansexualismo* de Freud. Assim como na                Meiji e a ascenso do movimento comunista
Frana* a teoria da sexualidade era julgada           internacional, o Japo sonhou com a volta da
excessivamente "germnica" para se adaptar           antiga ordem. A instaurao de um regime mi-
cultura dita "latina", e na Sucia excessivamen-      litar de tendncia fascista foi favorecida pelo
te "latina" para ser assimilada pelos pases nr-     advento, na Europa, dos regimes ditatoriais e
dicos, ela foi recebida no Japo como exces-          pela crise econmica que se apoderou do pas
sivamente "ocidental" para ser aceita por uma         depois da quebra da bolsa de Wall Street. Foi
sociedade de tradio budista.                        ento que o nacionalismo radical pregou o re-
    Enquanto em Tquio a psicanlise se desen-        nascimento das virtudes guerreiras do antigo
volvia graas a Yabe inicialmente, e depois a         samurai. Aliando-se  Alemanha*, o Japo en-
Otsuki, que lhe sucedeu  frente do grupo,            trou na guerra em 1941, o que provocou a
Marui estabelecia em Sendai um crculo de             retrao completa das atividades freudianas.
jovens psiquiatras, entre os quais se destacava       Foi necessrio que esse sonho feudal fosse ani-
aquele que seria o pai fundador do freudismo          quilado e que os principais responsveis mili-
japons: Heisaku Kosawa*. Em 1932, este foi           tares se suicidassem (segundo o rito do antigo
a Viena*, onde permaneceu por um ano, para            seppuku, sob os muros do palcio imperial,
ser analisado por Freud e por Richard Sterba*.        depois do bombardeio de Hiroshima), para que
Voltando ao Japo, criou com Marui, em Sen-           o Japo adotasse definitivamente os princpios
dai, em 1933, um grupo de estudos que logo se         da democracia, com um esprito de abertura
filiou  IPA. Iniciou, em especial, uma vasta         para o Ocidente semelhante ao da era Meiji. O
reflexo sobre as condies de implantao do         movimento freudiano retomou ento seu desen-
freudismo no Japo, inventando o complexo de          volvimento.
Ajase, espcie de complexo de dipo* revisto              Depois que Otsuki sucedeu a Yabe  frente
e corrigido  luz do budismo.                         do instituto de Tquio, seus membros se dis-
    Tratava-se de levar em conta as diferenas        persaram por no ter sido possvel integrar os
entre a organizao da famlia ocidental, na          psiquiatras. Em 1953, com a morte de Marui,
qual a criana era destinada a tornar-se um           Kosawa assumiu a direo do grupo de Sendai
sujeito* emancipado da sua me atravs de uma         e, com o consentimento de Anna Freud* e de
identificao* paterna, e a da famlia japonesa,      Ernest Jones, deslocou seu centro para Tquio.
na qual o pertencimento ao cl predominava            Dois anos depois, formou a Nippon Seishin-
sobre a identidade individual. Da a depen-           Bunseki Kyoukai (Sociedade Japonesa de Psi-
dncia culpada (ou amae) do homem japons             canlise, NSBK), que se tornou uma sociedade
em relao  sua me (complexo de Ajase), e           componente da IPA. Reuniu cerca de trinta
uma simbiose especfica, atravs da qual esse         membros, e apenas no fim dos anos 1990. Pa-
vnculo se tornava uma espcie de "valor mo-          ralelamente, foi criada, sempre sob a gide de
ral", como diria mais tarde Maurice Pinguet:          Kosawa, a Associao Psicanaltica Japonesa,
"Nosso pensamento [ocidental] culpa a depen-          no filiada  IPA e aberta a todas as tendncias
dncia (captao, castrao*) e joga o erro so-       da psiquiatria dinmica: do neofreudismo* 
bre a me possessiva e o pai abusivo. A ten-          farmacologia, passando pelas diversas terapias
dncia japonesa  estabelecer uma intimidade          e pela anlise existencial*. Essa associao aca-
estreita e culpar a independncia, jogando o          baria reunindo 1.500 membros.
erro sobre o filho infiel e frvolo [...]. Em suma,       Todo esse perodo foi marcado por uma
o supereu* japons  a conscincia do vnculo,        intensa atividade de traduo. Assim, os japo-
o supereu ocidental a conscincia da lei."            neses puderam ler em sua lngua as obras dos
    A partir de meados dos anos 1930, a histria      grandes autores da saga freudiana: Wilfred Ru-
da psicanlise no Japo foi dominada pela figu-       precht Bion*, Anna Freud*, Heinz Hartmann*,
ra de Kosawa, que fez escola, formou discpulos       e principalmente Melanie Klein* e Donald
412     Japo

Woods Winnicott*, que tiveram especial suces-      nos trabalhos dos kleinianos e de Heinz Kohut*.
so pelo interesse que dedicaram  questo do       Procurou mostrar a especificidade da amae ja-
vnculo arcaico com a me. A obra de Carl          ponesa, menos na diferena cultural do que em
Gustav Jung* tambm fez muitos adeptos, gra-       sua relao com todas as formas de simbiose
as  atividade pioneira de H. Kawai. Formado      materna descritas pelos ps-freudianos.
em Zurique, este se tornou em 1965 o primeiro          No fim dos anos 1960, enquanto os meios
psicoterapeuta junguiano de lngua japonesa.       psiquitricos japoneses eram perpassados pelas
Como os freudianos, interessou-se particular-      interrogaes nascidas da antipsiquiatria*, um
mente por essa famosa neurose de dependncia       jovem filsofo, Tagatsuku Sasaki, aluno de Doi
(amae), que considerava uma especificidade da      Takeo, comeou a se interessar pela obra de
sociedade japonesa dita matriarcal.                Jacques Lacan*. Em 1969, iniciou a traduo
    A questo da amae tomou, alis, uma exten-     integral dos Escritos, e foi atravs desse imenso
so considervel para todos os discpulos for-     trabalho de reflexo sobre a lngua terica da
mados por Kosawa, e particularmente para seus      psicanlise, e principalmente sobre a maneira
dois principais herdeiros: Do Takeo e Keigo       de transpor os conceitos freudianos para uma
Okonogi. A partir de 1956, Do Takeo assumiu       cultura nova, que o lacanismo* se implantou em
as teses do mestre sobre o complexo de Ajase,      terras japonesas.
mas as infletiu em um sentido culturalista. Na         Lacan, ao contrrio de Freud, era fascinado
mesma medida em que Kosawa se inscrevera           pelo Japo. Em 1963, descobriu maravilhado as
em uma perspectiva universalista, mostrando        grandes obras da estaturia budista, nos templos
que o complexo de Ajase era uma variante do        de Kioto e Nara. No corao do Extremo Orien-
complexo de dipo prpria da organizao es-       te, onde Alexandre Kojve (1902-1968), seu
pecfica da famlia japonesa, Takeo se interes-    professor de filosofia, acreditara ter cruzado o
sou principalmente pela problemtica da dife-      conceito hegeliano de "fim da histria", Lacan
rena cultural. Em 1950, quando de sua primei-     foi seduzido pelo refinamento dessa cultura
ra permanncia na costa oeste dos Estados Uni-     ancestral. Em sua busca do absoluto, privilegi-
dos, sentiu um verdadeiro choque: se ficou         ando o matema* e os ns borromeanos*, quis
ofuscado pela riqueza da Amrica, logo se sen-     dar corpo a uma representao formalizada do
tiu estranho a esse modo de pensamento, que        lao social, a fim de construir um modelo de
privilegiava a tica individualista em detrimen-   liberdade humana fundado no primado da es-
to do sentimento de vinculao. Depois de pas-     trutura e do "coletivo". Tambm ele, de certa
sar pela clnica de Karl Menninger* em Topeka,     forma, foi tomado, como Kosawa, por uma
no Kansas, seguiu uma formao psicanaltica       reflexo sobre a amae.
em So Francisco, orientando-se depois para a          Em 1971, Lacan voltou ao Japo para uma
psiquiatria transcultural.                         viagem de estudos, no momento em que Sasaki
    Posteriormente, Do Takeo tentou explicar      acabava a traduo da primeira parte dos Escri-
as razes do relativo fracasso da implantao do   tos. Ao retornar, imps-se o dever de definir a
freudismo no Japo. Segundo ele, o freudismo,      "coisa japonesa", esse modo especfico de go-
doutrina judaico-crist, era inassimilvel por     zo* que ele atribua ao "sujeito japons" e cuja
uma sociedade de tradio budista e xintosta,     manifestao detectava na escrita. Transcreveu
na qual o desejo de emancipao subjetiva no      com um simples trao horizontal a pureza dessa
tinha lugar. Mesmo continuando a ser freudia-      caligrafia, impossvel de atingir, segundo ele,
no, ele adotava assim, nesse debate clssico, a    pelo sujeito ocidental. A esse trao, ou "letra",
posio que fora a da escola culturalista anglo-   deu o nome de littoral.
americana, de Bronislaw Malinowski* a Ruth             No fundo, Lacan apenas atualizava a tese da
Benedict (1887-1948).                              famosa "diferena" japonesa, fundada no vn-
    Por sua vez, Keigo Okonogi prosseguiu a        culo materno, tal como ela fora exposta, desde
reflexo sobre o complexo de Ajase, baseando-      1932, por Kosawa. Mas em vez de situar a
se na obra de Marianne Krll dedicada a Rebek-     diferena na organizao das identificaes,
ka Freud*, segunda esposa de Jacob Freud*, e       Lacan a localizava no significante*. Foi por isso
                                                                                     Jekels, Ludwig         413

que Sasaki, seu discpulo e tradutor, fez escola         rice Pinguet, La Mort volontaire au Japon, Paris, Galli-
                                                         mard, 1984  Keigo Okonogi, "Japan", Psychoanalysis
dedicando-se a transcrever em termos lacania-
                                                         International. A Guide to Psychoanalysis throughout
nos o que Kosawa j designara como a                     the World, vol.2, Peter Kutter (org.), Stuttgart, From-
caracterstica da identidade japonesa: uma rela-         mann-Holzboog, 1995, 123-42  Takatsugu Sasaki,
o especfica de dependncia  me e ao grupo.          Chichioya hahaoya okite [O pai, a me e a lei], Tquio,
Em um livro publicado em 1980, Chichioya                 Serika, 1980; Kai no uchidenokozuchi [O pequeno
                                                         malho mgico do prazer], Tquio, Asahi Shuppan,
hahaoya okite (O pai, a me e a lei), fez do             1980  Jacques Lacan, "Avis au lecteur japonais", 2 de
sujeito japons um ser dilacerado entre a onipo-         janeiro de 1972, Lettre Mensuelle de l'ECF, setembro
tncia dita imaginria da me e a fraqueza               de 1981; Le Sminaire, livre XVIII, D'un discours que
aparente do pai, reduzido a uma funo de                ne serait pas du semblant (1970-1971), indito, sesso
                                                         de 12 de maio de 1971; "Lituraterre", Littrature, 3,
simulacro. Nesse mesmo ano, enquanto acaba-              outubro de 1971  Jacques-Alain Miller (org.), Lacan et
va a traduo integral dos Escritos, publicou            la chose japonaise, Paris, Analytica, 1988  lisabeth
outra obra, Kai no uchidenokozuchi (O pequeno            Roudinesco, Jacques Lacan. Esboo de uma vida,
malho mgico do prazer), na qual divulgava os            histria de um sistema de pensamento (Paris, 1993),
principais temas do pensamento lacaniano. Ao             S. Paulo, Companhia das Letras, 1994.
longo dos anos, vrios grupos lacanianos se               ANTROPOLOGIA; CULTURALISMO; ETNOPSICA-
constituram no Japo. Como os outros freudia-           NLISE; HISTRIA DA PSICANLISE; HISTORIOGRA-
nos de todas as tendncias, eles no cessaram            FIA; HORNEY, KAREN; PATRIARCADO; SUICDIO.
de se interrogar sobre as condies especficas
da organizao mental do sujeito japons.
    Seja ela pensada sob a categoria da amae             Jekels, Ludwig, n Louis Jekeles
japonesa, seja sob a expresso "coisa japonesa",         (1861-1954)
essa questo remete certamente menos  dife-
                                                         psiquiatra e psicanalista americano
rena real da famlia nipnica do que  maneira
pela qual os psicanalistas japoneses procura-                Discpulo da primeira gerao vienense,
ram, conscientemente ou no, adaptar o freudis-          Ludwig Jekels criou em 1897, em Bistrai, na
mo a uma cultura no-ocidental. Formulando               Silsia, um sanatrio para doentes nervosos.
esse paradigma da dependncia e do vnculo               Em 1908, participou do congresso da Interna-
materno, eles fizeram as mesmas perguntas que            tional Psychoanalytical Association* (IPA) em
o freudismo ocidental. De 1896 a 1920, Freud             Salzburgo e, no ano seguinte, dos trabalhos da
e seus discpulos da primeira gerao tomaram            Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras*,
efetivamente a funo paterna e a paternidade            que se tornou a Wiener Psychoanalytische Ver-
como objeto de reflexo, e a partir de 1920, com         einigung (WPV). Foi analisado por Sigmund
o impulso dado por Melanie Klein, a reflexo             Freud*, primeiro como paciente, depois como
se deslocou para o estudo da relao com a me.          aluno. Depois da morte de Oskar Rie*, tornou-
                                                         se seu principal parceiro no jogo de cartas.
 Yoshihide Kubo, Seishinbuseki ho (A psicanlise),          Nascido em Lemberg, na Galcia polonesa,
Kinsei shinrigaku Bunko III, Shinrigaku Kenkyukai,       era filho de um advogado judeu. Seu nome
1917  James Clark Moloney, Understanding the Japa-      ficou associado  introduo das idias freudia-
nese Mind, N. York, Philosophical Library, 1954  Do
                                                         nas na Polnia. Com efeito, foi o primeiro
Takeo, "Some aspects of japanese psychiatry", Ameri-
can Journal of Psychiatry, vol.3, 1955, 691-5; Le Jeu    tradutor das obras do mestre para o polons, e
de l'indulgence (Tquio, 1971), Paris, L'Asiathque,     abriu seu sanatrio  prtica da psicanlise*.
1988  D.T. Suzuki, Erich Fromm e Richard de Martino,        Jekels sempre se mostrou pessimista quanto
Bouddhisme zen et psychanalyse (N. York, 1963),           validade teraputica da psicanlise. Muito
Paris, PUF, 1971  George A. de Vos (org.), Socialisa-
tion for Achievement. Essays on the Cultural Psycho-     cedo, confidenciou a Richard Sterba*: "Um dia
logy of the Japanese, Berkeley, Los Angeles, Londres,    desses ainda vamos pagar caro pelas esperanas
University of California Press, 1973  M. Yamamura,      que depositamos na eficcia da nossa terapia."
"Reviewing the 25 years of the Japan psychoanalytical    Ele profetizou, como disse Sterba, que "o p-
association", Japanese Journal of Psychoanalysis, 24,
4, 1975, 215-9  Tooru Takahashi, "La Psychanalyse
                                                         blico se sentiria enganado pela nossa certeza
au Japon", in Roland Jaccard (org.), Histoire de la      quanto ao poder curativo do mtodo analtico.
psychanalyse, Paris, Hachette, 1982, 363-81  Mau-       Eu no conhecia Ludwig Jekels o bastante para
414      Jelliffe, Smith Ely

saber se devia atribuir essa observao a um              ESCANDINVIA; HISTRIA DA PSICANLISE; NAR-
acesso de depresso momentnea ou a uma                  CISISMO; VIENA.
atitude depressiva em geral. Todavia, no me
lembro de t-lo visto rir."
    De qualquer forma, esse freudiano da pri-            Jelliffe, Smith Ely (1866-1945)
                                                         mdico e psicanalista americano
meira hora exibia o famoso niilismo teraputico
que caracterizava a sociedade vienense do fim                Como Georg Groddeck*, Felix Deutsch* ou
do sculo. E ele no se enganava sobre o futuro          Franz Alexander*, Smith Ely Jelliffe se interes-
da psicanlise: tornando-se americano, ele pde          sou igualmente pela psicanlise*, pela botnica
                                                         e pela medicina psicossomtica*, da qual foi um
assistir  realizao de suas predies nos Es-
                                                         dos pioneiros nos Estados Unidos*, enquanto
tados Unidos*.
                                                         defendia, contra Abraham Arden Brill*, os prin-
    A pedido de Freud, partiu para Estocolmo na          cpios da anlise leiga*. Nascido em Nova York,
primavera de 1934, com a misso de formar                de um pai que dirigia o liceu batista da cidade,
didatas na jovem Sociedade Fino-Sueca de Psi-            orientou-se rapidamente para a medicina e foi
canlise. Entretanto, no vero de 1937, deixou           para a Europa em 1890, onde seguiu o ensino
o pas sem ter cumprido a tarefa. Voltou a Vie-          de Jean Martin Charcot*. Apaixonado pelas
na* e depois emigrou para os Estados Unidos,             teorias de Darwin e da geologia, foi influencia-
passando pela Austrlia*. Freud o recomendou             do por William Alanson White*, que despertou
a Smith Ely Jelliffe*: "Entre os imigrantes que          seu interesse pelo freudismo, e por Adolf
esto em Nova York, encontra-se o doutor Je-             Meyer*, que lhe apresentou a escola de psiquia-
kels, que  no s um analista ilustre, mas um           tria sua.
bom amigo meu. Gostaria de que voc pudesse                  Em 1912, integrou-se ao movimento psica-
fazer algo para facilitar sua vida, enviando-lhe         naltico. Lanou ento, com White, The Psy-
pacientes."                                              choanalytic Review, primeiro rgo freudiano
    Nos Estados Unidos, Jekels continuou muito           de lngua inglesa no continente americano. Em
pessimista, mas adaptou-se  prtica americana.          1921, foi a Viena* para visitar Sigmund Freud*.
Na verdade, considerava que todo sujeito                Trocou com ele, depois, uma longa correspon-
portador de um masoquismo* instintivo,  base            dncia. Fez uma anlise com Otto Rank*.
                                                             Ardente polemista de esprito rabelaisiano,
de regresso oral, e gostava de enfatizar que
                                                         Jelliffe publicou mais de 400 textos at 1937.
esse dado fundamental constitua a quarta ferida
                                                         Foi um psicanalista renomado em Nova York.
narcsica infligida ao homem (as trs primeiras
foram descritas por Freud). Jekels tambm se              Smith Ely Jelliffe, "Psychopathology and organic di-
interessou pela psicanlise aplicada* (publicou          sease", Arch. Neurol. Psychiat., 1922, 8, 639-51;
                                                         Sketches in Psychosomatic Medicine, "Nervous and
um artigo sobre Napoleo, desse ponto de vista)          mental disease monograph series", Washington e N.
e pelo marxismo.                                         York, Nervous and Mental Disease Publishing Compa-
                                                         ny, 69, 1939  Smith Ely Jelliffe e Elida Evans, "Psoria-
 Ludwig Jekels, "Le Tournant dcisif de la vie de Na-   sis as an hysterical conversion symptom", New York
polon" (1914), RFP, III, 1929; "Psychoanalysis and      Medical Journal 104, 1916, 1077-86; "Psychotherapy
                                                         and tuberculosis", American Review, 119, 3, 417-28 
dialectics", Psychoanalytical Review, 28, 1941; Selec-
                                                         Abram Arden Brill, "In memoriam: Smith Ely Jelliffe", J.
ted Papers, Londres, N. York, Imago Publishing, 1952
                                                         Nerv. Ment. Dis., 106, 1947, 221-7  N.D.C. Lewis,
 Edmund Bergler, "Ludwig Jekels (1867-1954)", IJP,
                                                         "Smith Ely Jelliffe, 1866-1945. Medicina psicossomti-
vol.XXXVI, 71-3  Richard Sterba, Rminiscences d'un     ca na Amrica", in Franz Alexander, Samuel Eisenstein
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schen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener psychoa-      tats-Unis. Autour de James Jackson Putnam (Lon-
nalytischen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen,         dres, 1968), Nathan G. Hale (org.), Paris, Gallimard,
Diskord, 1992.                                           1978, 17-86  Nathan G. Hale, Freud and the Ameri-
                                                                                      Jones, Ernest      415

cans. The Beginnings of Psychoanalysis in the United       bastante invejoso de seu analista, Sandor Fe-
States, t.I, 1876-1917 (1971), N. York, Oxford Univer-
                                                           renczi*, clnico bem melhor que ele e discpulo
sity Press, 1995; Freud and the Americans. The Rise
and Crisis of Psychoanalysis in the United States, t.II,   preferido de Freud. Entretanto, conseguiu que
1917-1985, N. York, Oxford, Oxford University Press,       a psicanlise europia sobrevivesse diante do
1995.                                                      poder crescente dos Estados Unidos*.
                                                               Nascido em Gowertown, no Pas de Gales,
 QUESTO DA ANLISE LEIGA, A.
                                                           Jones era filho de um engenheiro de minas, que
                                                           comeara sua carreira como funcionrio de escri-
Jones, Ernest (1879-1958)                                  trio de um negociante de carvo. Autoritrio e
                                                           incapaz de admitir que podia errar, acreditava na
psiquiatra e psicanalista ingls
                                                           superioridade dos adultos sobre as crianas. No
    Fundador da psicanlise* na Gr-Breta-
                                                           admitia nenhuma insubordinao. Sua mulher era
nha*, criador do Comit Secreto*, artfice do
                                                           conservadora, piedosa e fortemente ligada  cul-
debate sobre a antropologia*, organizador e
                                                           tura galesa: "Nasci em 1 de janeiro de 1879,
presidente da International Psychoanalytical
                                                           escreveu Jones, em uma aldeia chamada Rhosfe-
Association* (IPA) durante dois perodos cru-
                                                           lyn. Fui o primeiro e nico filho. A grande estrada
ciais (1920-1924 e 1934-1949), excelente ne-
                                                           de ferro do Oeste rebatizou a aldeia como Gower
gociador durante as Grandes Controvrsias*,
                                                           Road, nome que meu pai conseguiu mudar depois
pioneiro da historiografia* psicanaltica e da
                                                           para o hbrido Gowertown."
traduo* inglesa da obra freudiana (por James
Strachey*), Ernest Jones teve um papel consi-                  Desde muito cedo, o pequeno Jones co-
dervel na histria poltica do freudismo*. Du-            nheceu perfeitamente todas as prticas sexuais,
rante muitos anos, foi o lder incontestvel do            no hesitando em falar francamente: "A prtica
movimento, e, se porventura se comprometeu                 do coito j me era familiar aos seis ou sete anos
com o nazismo, acreditando assim "salvar" a                de idade, escreveu em sua autobiografia; de-
psicanlise* na Alemanha*, tambm ajudou os                pois, eu a interrompi e s a retomei depois dos
emigrantes alemes, austracos e hngaros a                24 anos; esse era um hbito bastante comum
encontrar acolhimento nos pases anglfonos,               entre as crianas da aldeia."
Estados Unidos* e Inglaterra. Sigmund Freud*                   Depois de estudar na Universidade de Car-
no gostava dele, mas ao longo dos anos, em-               diff, orientou-se para a medicina, foi aluno de
bora desaprovando muitas vezes as suas inicia-             John Hughlings Jackson* e instalou-se em Lon-
tivas, confiou nele para administrar os assuntos           dres. Graas a seu futuro cunhado, Wilfred Bal-
polticos do movimento, especialmente depois               len Lewis Trotter (1872-1939), cirurgio hono-
da partida de Max Eitingon* para a Palestina.              rrio do rei Jorge V, erudito ilustre e apaixonado
    A despeito de sua personalidade difcil, de            por filosofia, interessou-se pelos textos de
sua linguagem crua, das complicaes de sua                Freud e comeou a aprender alemo para ler a
vida amorosa, que lhe valeram a hostilidade das            Interpretao dos sonhos*.
ligas puritanas, e da maneira direta com que                   Em 1903, entrou para o North Eastern Hos-
falava do erotismo ou dos defeitos do corpo,               pital, do qual seria demitido seis meses depois
Jones era um homem insinuante e principal-                 por insubordinao. Rotulado como "indivduo
mente um trabalhador infatigvel, preocupado               problemtico", teve posteriormente muita difi-
em dominar todos os campos do saber. Tinha                 culdade para se integrar a outros servios hos-
paixo pela "causa analtica" e queria defend-            pitalares. Interessado pela hipnose*, a neurolo-
la  sua maneira, se necessrio contra o prprio           gia e as doenas mentais, comeou a praticar
Freud, o que explica seu apoio s inovaes                espontaneamente a psicanlise em 1906. No
kleinianas e sua ambivalncia em relao                  ano seguinte, foi a Amsterd para o primeiro
anlise leiga*.                                            congresso de neurologia, psiquiatria e assis-
    Conservador, pragmtico e racionalista, mos-           tncia aos alienados, e ficou conhecendo Carl
trou-se injusto para com Otto Rank* e Wilhelm              Gustav Jung*, que o convidou a trabalhar na
Reich*, intratvel com a "esquerda freudiana" (na          clnica do Hospital Burghlzli, dirigida por Eu-
Rssia*, por exemplo) e com os homossexuais, e             gen Bleuler*. Em 1908, encontrou-se com
416     Jones, Ernest

Freud pela primeira vez, no congresso da IPA        uma de suas amigas, Lina. Ao longo das ses-
em Salzburgo.                                       ses, Freud se apegou a Loe Kann. Quando
    Sua nova orientao e a rudeza com que          Jones comeou o seu tratamento com Ferenczi,
evocava os problemas da sexualidade* na In-         ignorava que a sua companheira estava prestes
glaterra, ainda muito vitoriana, lhe valeram no-    a deix-lo para se casar com um americano
vos problemas. Denunciado publicamente pelo         chamado Herbert Jones (apelidado Jones II), e
irmo de uma de suas pacientes, desejosa de         tambm que Freud informava Ferenczi de tudo
divorciar-se depois de uma anlise, Jones foi       o que ocorria durante as sesses de Loe.
depois acusado de ter falado de maneira in-             A partir do ms de junho, Ferenczi, por sua
decente com duas crianas pequenas, que estava      vez, descreveu a Freud o desenrolar do trata-
submetendo a um teste. Registrou-se queixa          mento de Jones: "Jones  muito agradvel como
contra ele, que passou uma noite na priso, antes   amigo e colega. Na anlise, seu excesso de
de ser absolvido de qualquer suspeita pela jus-     bondade constitui um obstculo; seus sonhos se
tia e pela imprensa.                               resumem a ironizar-me e ridicularizar-me, o que
    No obstante, decidiu deixar a Gr-Bretanha     ele tem que admitir sem que consiga acreditar
e radicar-se no Canad*, com sua jovem com-         realmente nessas particularidades de seu car-
panheira Loe Kann, que ele fazia passar por sua     ter, ocultas nele. Parece tambm temer que eu
esposa. Foi o incio de uma longa correspon-        lhe conte tudo o que fico sabendo na anlise.
dncia com Freud: 671 cartas no total. Como         Assim, peo-lhe que nunca mencione nossa
observou Ernst Falzeder, faltam, nessa corres-      correspondncia diante da sra. Jones [...]. Ele
pondncia "a intimidade, a amplitude, o dina-       no se permite nenhuma dependncia, o que 
mismo e o carter trgico que caracterizam          compensado depois por uma tendncia para as
outras correspondncias de Freud [...]. O estilo    intrigas, para os triunfos secretos e para a perf-
inimitvel de Freud sofre com isso...". Na ver-     dia. Creio que as semanas passadas lhe sero
dade, tem-se a impresso de que o tom de Freud      proveitosas. J o acho um pouco menos modes-
 de um "homem de negcios". De qualquer            to, isto , mais franco com os outros e consigo
forma, se Freud via em Jones o aliado indis-        mesmo." Freud lhe respondeu, em 9 de julho:
pensvel, este se apresentava a ele como o          "O que voc escreveu sobre Jones me alegra
Thomas Henry Huxley (1825-1895) de Charles          muito. Agora, sinto-me menos culpado quanto
Darwin, isto , como o primeiro discpulo da        ao resultado do processo com sua mulher, a
doutrina freudiana em solo ingls.                  partir do momento em que a vejo expandir-se
    Depois de passar cinco anos em Toronto e        na liberdade. Apeguei-me extraordinariamente
ser mais uma vez alvo de acusaes "sexuais",       a Loe e junto dela desenvolvi um sentimento
Jones voltou a Londres em julho de 1912 tendo       muito caloroso, completamente inibido sexual-
criado a American Psychoanalytic Association*       mente, como raramente aconteceu antes (pro-
(APsaA) e feito um importante trabalho de im-       vavelmente graas  idade)." Loe se tornaria
plantao das idias freudianas no Canad e nos     amiga de Anna Freud*.
Estados Unidos. Em junho de 1913, a conselho            Em junho de 1914, sem dizer a Jones, Freud
de Freud, passou dois meses em Budapeste,           assistiu em Budapeste ao casamento de Loe
para fazer uma anlise didtica* com Ferenczi.      com Herbert Jones. Um ms depois, Anna
Foi ento que se formou um daqueles imbr-          Freud, com 18 anos, fez uma viagem a Londres.
glios transferenciais caractersticos dos primei-   Ernest Jones a acolheu e a levou para visitar os
ros anos da prtica psicanaltica.                  melhores lugares da cidade, no hesitando em
    A pedido de Jones, Freud aceitou analisar       cortej-la. Prevenido por Loe, a quem Anna
Loe Kann. Sofrendo de clculos renais que a         contava tudo, Freud interveio duramente, para
obrigavam a sucessivas operaes, a jovem ti-       impedir a filha de ceder  seduo de seu novo
nha adquirido o hbito de tomar morfina. As-        discpulo: "Sei de fonte segura [isto , atravs
sim, tornou-se toxicmana. Alis, suas relaes     de Loe], escreveu ele, que o doutor Jones tem a
com Jones haviam se degradado, principal-           sria inteno de te fazer a corte.  a primeira
mente quando este comeou uma relao com           vez que isso te acontece e no tenho nenhuma
                                                                              Jones, Ernest       417

inteno de te dar a liberdade de escolha de que        Confrontado com a questo da anlise leiga,
gozaram tuas irms." E acrescentou que Jones        em especial com Abraham Arden Brill*, que
no seria um bom marido para ela.                   barrava o acesso dos no-mdicos  New York
    Quarenta e nove anos depois, em uma carta       Psychoanalytic Society (NYPS), Jones tentou
de 3 de julho de 1953, Jones declararia a Anna:     uma conciliao no congresso da IPA em Ox-
"Ele [Freud] parece ter esquecido a existncia      ford, em 1929. Brill cedeu e aceitou a filiao
da pulso* sexual, pois eu a achei e ainda a acho   dos no-mdicos, mas no Congresso de Wies-
muito atraente.  verdade, eu queria substituir     baden, em 1932, o assunto ressurgiu. Uma nova
Loe, mas no tinha nenhum ressentimento para        regulamentao foi ento adotada, estipulando
com ela, sua partida foi para mim um alvio. De     que os critrios de seleo dos candidatos
qualquer forma sempre amei voc, e de uma           dependeriam, a partir de ento, das sociedades
maneira bastante honrosa."                          locais, que se tornavam mais autnomas.
    Em 1916, Jones casou-se com Morfydd                 Em dezembro de 1935, Jones aceitou presidir
Owen (1891-1918), uma jovem artista, profes-        a sesso da Deutsche Psychoanalytische Gesell-
sora na Royal Academy of Music. Destinava-se        schaft (DPG) durante a qual os membros judeus
 carreira de pianista e compositora, mas mor-      foram obrigados a se demitir. Adepto da tese do
reu bruscamente, dois anos depois, de uma crise     "salvamento", apoiava assim a poltica de Felix
de apendicite.                                      Boehm* e de Carl Mller-Braunschweig*, que
    Foi em 1919, aos 40 anos de idade, que Jones    resultaria na integrao dos freudianos ao Deut-
conseguiu formar uma famlia, casando-se com        sche Institut fr Psychologische Forschung, fun-
Katherine Jolk, uma vienense de origem tcheca,      dado por Matthias Heinrich Gring*.
que Hanns Sachs* lhe apresentou e com quem              Em 1949, depois de atravessar a turbulncia
teria quatro filhos: Gwenith, morta de pneumo-      das Grandes Controvrsias e de participar da
nia com a idade de oito anos, Mervyn, Nesta e       reintegrao na IPA dos antigos terapeutas ale-
Lewis. Katherine Jones, Gwenith e Mervyn            mes colaboracionistas, Jones se aposentou.
foram analisados por Melanie Klein* em 1926.        Apesar de uma trombose coronariana, comeou
    A partir de 1913, a vida de Jones se misturou   a redigir a primeira grande biografia, em trs
estreitamente  histria do movimento psicana-      volumes, dedicada  vida e  obra de Freud.
ltico ingls e internacional. Durante a Primeira   Alm de todos os livros publicados, conseguiu
Guerra Mundial, prosseguiu suas atividades,         localizar e ler cerca de 5.000 cartas manuscritas
mas por causa da publicao de diversos artigos     da correspondncia de Freud, dando assim sua
no Jahrbuch fr psychoanalytische und psy-          contribuio a Kurt Eissler, que estava coletan-
chopathologische Forschungen*, foi acusado          do os arquivos e realizando entrevistas com os
pelo Times de colaborao com o inimigo. To-        grandes discpulos da primeira hora. Esse traba-
davia, depois de um inqurito feito pela            lho gigantesco, redigido em sete anos e baseado
Scotland Yard, foi oficialmente autorizado a        em uma impressionante quantidade de docu-
receber, atravs da Sua, peridicos em lngua     mentos, faria de Jones o fundador da his-
alem. Assim, conseguiu manter contato com          toriografia freudiana. Traduzida no mundo in-
os psicanalistas dos pases beligerantes. Em        teiro, essa obra serviria de ponto de partida para
1919, fundou a British Psychoanalytical Socie-      todos os trabalhos posteriores da historiografia
ty (BPS). No ano seguinte, criou o International    erudita. Antes mesmo de concluir o terceiro
Journal of Psycho-Analysis* (IJP) e, em 1922,       volume, Jones teve que se submeter com urgn-
no congresso da IPA em Berlim, lanou o gran-       cia  exerese de um tumor vesical. Em 1957,
de debate sobre a sexualidade feminina*, que        mesmo tendo tido um segundo ataque corona-
durante muito tempo dividiria a escola inglesa      riano, nada deixava transparecer de seu estado
e a escola vienense. Enfim, em 1926, ajudou         e foi ao congresso da IPA em Paris.
Melanie Klein a instalar-se definitivamente em          Morreu em 11 de fevereiro de 1958, com a
Londres. Deu assim uma slida base  BPS e         mesma coragem do heri do livro que acabava
psicanlise de crianas* na Gr-Bretanha. Com       de escrever. Suas cinzas repousam no cremat-
isso, irritou profundamente Freud e sua filha.      rio de Golders Green, prximas s de Freud.
418      judeidade

 Ernest Jones, Thorie et pratique de la psychanalyse     hassidismo, movimento pietista judaico de re-
(Londres, 1948), Paris, Payot, 1969; Hamlet et Oedipe
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(Londres, 1949), Paris, Gallimard, 1967; Essais de
psychanalyse (Londres, 1950), Paris, Payot, 1966; Es-      mesma poca; e o judasmo reformado, ins-
sais de psychanalyse applique, I, Essais divers, II,      pirado no protestantismo (primeiro na Alema-
Psychanalyse, folklore et religion (Londres, 1923-         nha*, depois nos Estados Unidos*), que incita
1964), Paris, Payot, 1973; Free Associations. Memoirs
                                                            prtica liberal da religio. A estes se juntam
of a Psychoanalyst, N. York, Basic Books, 1959; A vida
e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953,         todos os movimentos nascidos depois do fim do
1955, 1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Vincent         sculo XIX: o judasmo humanista e leigo, que
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1992  Riccardo Steiner, "` uma nova forma de di-        mo reconstrutivista (tambm norte-americano),
spora...' A poltica de emigrao dos psicanalistas se-    nascido em 1922, que considera o judasmo
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Freud", Revista Internacional da Histria da Psican-      uma cultura religiosa fundamentada num nacio-
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Sigmund Freud e Sandor Ferenczi, Correspondncia,              Chama-se judeidade ao fato e  maneira de
vol.I, 2 tomos, 1908-1914 (Paris, 1992), Rio de Janeiro,   algum se sentir ou ser judeu, independentemente
Imago 1994, 1995  The Complete Correspondance of
Sigmund Freud and Ernest Jones, 1908-1939, Andrew          do judasmo. O sentimento de judeidade ou de
R. Paskauskas (org.), introduo por Riccardo Steiner,     identidade judaica  uma maneira de ele continuar
Cambridge, Londres, Harvard University Press, 1993        a se pensar judeu no mundo moderno, a partir do
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1994, 115-6.                                               agnstico, humanista, leigo ou ateu. Essa reivin-
                                                           dicao de judeidade rejeita a idia de pertenci-
 AFNISE; ANDERSSON, OLA; AUSTRLIA; AUTO-                 mento enunciada pela jurisprudncia rabnica
ANLISE; BERNFELD, SIEGFRIED; BIBLIOTECA DO                (Halakha, nascida da Torah), que designa como
CONGRESSO; BREUER, JOSEF; DIPO, COMPLEXO                  judia qualquer pessoa nascida de me judia ou
DE; ELLENBERGER, HENRI F.; NDIA; JUDEIDADE;               qualquer pessoa convertida ao judasmo nas con-
KEMPER, WERNER; PAPPENHEIM, BERTHA; RIVIE-                 dies exigidas pela lei religiosa.
RE, JOAN; SCHUR, MAX; TELEPATIA.                               Como sublinha Jacques Le Rider, os intelec-
                                                           tuais judeus vienenses descobriram-se numa
                                                           situao particular de crise no fim do sculo
judeidade                                                  XIX, quando foram confrontados com o choque
a l. Judesein; e sp . judeidad; f r. judit; ing.         do anti-semitismo, que substituiu a antiga ju-
jewishness                                                 deofobia religiosa por uma forma dita "cientfi-
    Chama-se judasmo  religio monotesta                ca" de hierarquia das "raas". Provenientes das
dos judeus, bem como  doutrina e s institui-             comunidades disseminadas pelos imprios cen-
es judaicas.                                             trais, emancipados desde longa data do judas-
    No judasmo distinguem-se vrios grandes               mo tradicional e identificados com a cultura e a
movimentos: a emancipao, que comeou no                  lngua alems, eles foram brutalmente relem-
sculo XVII, com o reconhecimento dos direi-               brados de sua identidade por seus inimigos, em
tos civis; a Haskalah, ou movimento judaico do             especial Houston Stewart Chamberlain (1855-
Iluminismo, que se afirmou no fim do sculo                1927), Georg von Schoenerer (1842-1921) e
XVIII e foi acompanhado por uma assimilao                Karl Lueger (1844-1910), que queriam exclu-
progressiva; o judasmo ortodoxo, nascido em               los do corpo social, e pelos diferentes movimen-
1795, hostil  Haskalah e  emancipao; o                 tos de renovao judaica que se desenvolveram
                                                                                     judeidade      419

como reao ao anti-semitismo, em particular           cincia judaica  inconcebvel. Os resultados
o de Theodor Herzl (1860-1904). Nesse mo-              cientficos tm que ser idnticos, seja qual for
mento, eles tiveram que reinventar a definio         a maneira de apresent-los. Quando essas dife-
da palavra judeu e o sentido de sua judeidade.         renas se refletem na apreenso dos parmetros
A essa necessidade correspondeu uma plurali-           cientficos objetivos,  porque alguma coisa no
dade de atitudes: converso, renegao, dio           est funcionando direito."
judeu de si mesmo, sionismo, rejeio da as-               Cnscio do fato de que seus primeiros disc-
similao e do Iluminismo, retorno ao judas-          pulos vienenses eram todos judeus, Freud temia
mo, culto do comunitarismo e do diferencialis-         que sua nova cincia fosse assimilada a uma
mo, ou adoo do ideal universalista.                  "questo judaica", isto , a um particularismo
    Ao contrrio de numerosos intelectuais ju-         sujeito s leis do genius loci. Nada lhe causava
deus vienenses, como Karl Kraus* ou Otto               mais horror do que ouvir seus adversrios reduzi-
Weininger*, Sigmund Freud* tinha horror ao             rem a psicanlise* a um produto do "esprito
dio judeu de si mesmo (Jdischer Selbsthass)          judaico" ou da "mentalidade vienense".
e  fuga para a converso. Descrente e hostil s           Contudo, em vez de afirmar claramente essa
prticas religiosas, rejeitava as tradies, os        posio, ele iria oscilar entre duas atitudes que
ritos e as festas e, no seio de sua prpria famlia,   contradiziam sua concepo da cientificidade
combatia as atitudes religiosas de sua mulher          da psicanlise. At 1913, manteve Jung  testa
(Martha Freud*). No entanto, nunca renegou             da International Psychoanalytical Association*
sua judeidade e a reivindicou todas as vezes que       (IPA) e reivindicou a "desjudaizao" do movi-
se confrontou com o anti-semitismo. Testemu-           mento, em nome da cincia: "Nossos colegas
nho disso, se necessrio,  a lembrana infantil       arianos so-nos realmente indispensveis", es-
que implicava seu pai (Jacob Freud*), relatada         creveu a Karl Abraham* em 26 de dezembro de
por ele na Interpretao dos sonhos*.                  1908, "e sem eles a psicanlise cairia presa do
    Se adotou uma atitude de cientista universa-       anti-semitismo."
lista e de judeu espinosista (caracterstica do            Depois do rompimento com Jung, Freud deu
chamado Aufklrung sombrio), como mostra               meia volta e afirmou que a judeidade do movi-
Yirmiyahu Yovel, nem por isso Freud foi pou-           mento no poderia criar obstculos  inveno
pado das oscilaes e ambivalncias prprias           de uma cincia universal. A Enrico Morselli
da crise da identidade judaica no fim de sculo.       (1852-1929), escreveu: "No sei se o senhor
Esta se refletiu no vocabulrio que empregou.          tem razo em ver na psicanlise um produto
Com efeito, no hesitou em falar de "raa judai-       direto do esprito judaico, mas, se assim fosse,
ca", "pertencimento racial" ou diferenas entre        eu no me sentiria nem um pouco envergo-
os judeus e os "arianos". Alm disso, muitas           nhado. Apesar de alheio h muito tempo 
vezes designou os no judeus como "arianos".           religio de meus ancestrais, no perdi o senti-
Nada o obrigava a retomar dessa maneira a              mento de pertencer a meu povo e me solidarizar
terminologia de sua poca, e poderia igual-            com ele, e penso com satisfao que o senhor
mente ter-se mantido distante de tal vocabul-         mesmo se define como aluno de um de meus
rio. Em Freud, entretanto, a utilizao dessas         companheiros de raa, o grande Lombroso."
expresses nunca desembocou num diferencia-                nico no judeu da primeira gerao* freu-
lismo terico, como em Carl Gustav Jung*.              diana depois da partida de Jung, Ernest Jones*,
Alis, numa carta a Sandor Ferenczi*, datada           que era gals e, como costumava dizer, perten-
de 8 de julho de 1913, ele se posicionou clara-        cia a uma "raa oprimida", sentia-se prximo
mente contra qualquer psicologia dos povos ou          dos judeus vienenses da primeira gerao freu-
das mentalidades: "Decerto existem grandes             diana, que Carl Gustav Jung costumava chamar
diferenas entre o esprito judaico e o esprito       de "ciganos". No sendo judeu, entretanto, teve
ariano. Podemos observ-las todos os dias. Da         que enfrentar, durante o perodo do Comit, o
vm, com certeza, aqui e ali, pequenas discre-         fanatismo "anti-ariano" que se manifestou
pncias na maneira de conceber a vida e a arte.        contra Jung: "Todos eles eram extremamente
Mas a existncia de uma cincia ariana e uma           sensveis ao anti-semitismo, inclusive Freud",
420      Juliusburger, Otto

contaria ele a Vincent Brome. "s vezes, ele               Gallimard, 1969  Sigmund Freud e Sandor Ferenczi,
                                                           Correspondncia completa, vol.I, 1908-1914, (Paris,
[Freud] me olhava com um jeito irnico: que 
                                                           1992), Rio de Janeiro, Imago, 1994, 1995  Ernest
que voc est fazendo entre ns, voc, um no              Jones, "Psychologie de la question juive" (1945), in
judeu cuja lngua materna no  o alemo? Na               Essais de psychanalyse applique, I, Essais divers
condio de judeu, Freud no havia escapado               (Londres, 1923-1964), Paris, Payot, 1973, 230-244 
perseguio, muito pelo contrrio, e era movido            David Bakkan, Freud et la tradition mystique juive (New
                                                           Jersey, 1958), Paris, Payot, 1977  Carl Schorske, Viena,
a inverter esse movimento. Numa ou duas oca-               fin-de-sicle (N. York, 1981), S. Paulo, Companhia das
sies, houve quem duvidasse de mim, e chega-               Letras, 1990  Vincent Brome, Les Premiers disciples de
ram at a me colocar sob suspeita; assim, desco-           Freud (Londres, 1967), Paris, PUF, 1978  William M.
bri-me em conflito com os outros e, pelo menos             Johnston, L'Esprit viennois. Une histoire intellectuelle
                                                           et sociale, 1848-1938 (N. York, 1972), Paris, PUF, 1985
uma vez, achei que o fato de no ser judeu tinha            Allan Janik e Stephen Toulmin, Wittgenstein, Vienne
alguma coisa a ver com isso."                              et la modernit (N. York, 1973), Paris, PUF, 1978 
    Jones foi acusado de anti-semitismo por seus           Marthe Robert, D'Oedipe  Mose, Paris, Calmann-L-
adversrios em virtude de uma conferncia, "A              vy, 1974  Marianne Krll, Sigmund Freud, fils de Jacob
                                                           (Munique, 1979), Paris, Gallimard, 1983  Sabina
psicologia da questo judaica", proferida num
                                                           Spielrein entre Freud et Jung, dossi descoberto por
colquio dedicado aos judeus e aos "gentios" em            Aldo Carotenuto e Carlo Trombetta (Roma, 1980),
1945. Nessa ocasio, com efeito, declarou que os           edio francesa de Michel Guibal e Jacques Nob-
judeus eram to responsveis pelo anti-semitismo           court, Paris, Aubier-Montaigne, 1981  Ren Major, De
quanto os anti-semitas, em razo de sua arrogncia         l'lection. Freud face aux idologies allemande, am-
                                                           ricaine et sovitique, Paris, Aubier, 1986  Peter Gay,
e de sua concepo de povo eleito. E acrescentou           Um judeu sem Deus (1987), Rio de Janeiro, Imago,
que eles tinham uma particularidade: "O nariz              1992  Dictionnaire encyclopdique du judasme (Jeru-
hitita, que tanto evoca uma deformidade e que,             salm, 1989), Paris, Cerf-Robert Laffont, col. "Bou-
infelizmente, os judeus adquiriram em suas an-             quins", 1993  Yirmiyahu Yovel, Spinoza et autres h-
                                                           rtiques (1989), Paris, Seuil, col. "Libre examen", 1991
danas; por um azar, ele est associado a um gene           Jacques Le Rider, Modernit viennoise et crises d'i-
dominante." Nessa ocasio, de fato, Jones ali-             dentit (1990), Paris, PUF, 1994  Yosef Hayim Yerus-
nhou-se com as posies clssicas da psicologia            halmi, Le Mose de Freud. Judasme terminable et
dos povos, que quase sempre levam a esse tipo de           interminable (Yale, 1991), Paris, Gallimard, 1993  Mi-
derrapagem (como aconteceu, com muito maior                chel Plon, "Freud et les psychanalystes franais", in
                                                           Michel Drouin (org.), L'Affaire Dreyfus de A  Z, Paris,
gravidade, com Jung).                                      Flammarion, 1994  Slim Abou, "L'Universel et la re-
    Quando o nazismo* fez da psicanlise uma               lativit des cultures", in L'Ide d'humanit. Colloque des
"cincia judaica", Freud reivindicou sua judei-            intellectuels juifs, Paris, Albin Michel, 1995.
dade. Registremos, a ttulo de lembrete, que
                                                            ANTROPOLOGIA; ETNOPSICANLISE; GNERO;
quase todos os psicanalistas judeus que no
                                                           GRING, MATTHIAS HEINRICH; HISTRIA DA PSICA-
conseguiram emigrar pereceram nos campos de                NLISE; HOMOSSEXUALIDADE; IGREJA; ITLIA; JA-
extermnio nazistas.                                       NET, PIERRE; MAUCO, GEORGES; PANSEXUALIS-
    Foi em 1938, em Moiss e o monotesmo*,                MO; SOCIEDADE PSICOLGICA DAS QUARTAS-FEI-
que Freud formulou sua terceira tese sobre a               RAS; SPIELREIN, SABINA.
questo judaica, afirmando a existncia de uma
possvel transmisso hereditria do sentimento
de judeidade. Esse livro daria margem a mlti-
                                                           Juliusburger, Otto (1867-1952)
plas interpretaes.
                                                           psiquiatra e psicanalista americano
    A questo da judeidade atravessa toda a
histria da psicanlise, assim como a do cultu-                Com Ivan Bloch (1872-1922), Heinrich
ralismo* e do universalismo. Encontra-se na                Krber e Magnus Hirschfeld*, Otto Juliusbur-
origem de um bom nmero de clivagens no seio               ger foi um dos fundadores da Associao Psica-
das sociedades psicanalticas.                             naltica de Berlim, criada em 1908 por Karl
                                                           Abraham*. Deixou essa associao e emigrou
 Sigmund Freud, Moiss e o monotesmo (1939), ESB,        para os Estados Unidos* em 1941, instalando-
XXIII, 1-167; GW, XVI, 103-246; SE, XXIII, 1-137; Paris,   se em Nova York.
Gallimard, 1986  Sigmund Freud e Karl Abraham,
Correspondance, 1907-1926 (Frankfurt, 1965), Paris,         ALEMANHA.
                                                                          Jung, Carl Gustav       421

Jung, Carl Gustav (1875-1961)                        com Bleuler, experimentava o teste de as-
psiquiatra suo, fundador da psicologia analtica   sociao verbal* que o levaria  psicanlise.
    Fundador de uma escola de psicoterapia*,             Em abril de 1906, enviou a Freud os seus
amigo e discpulo de Sigmund Freud* de 1907          Diagnostisch Assoziationsstudien (Estudos
a 1913, introdutor com Eugen Bleuler* da psi-        diagnsticos de associao), inaugurando as-
canlise* na Sua alem, especialista em            sim uma longa correspondncia: um total de
psicoses* e fascinado pelo orientalismo, Carl        359 cartas. Para Freud, esse encontro foi de
Gustav Jung realizou uma obra to abundante          importncia crucial, pois abria para a psican-
quanto a de Freud, cuja traduo em francs est     lise o "novo continente" das psicoses*. Logo se
muito longe de ser concluda. Dezenas de obras,      iniciou um grande debate entre Freud, Jung e
artigos e comentrios foram escritos sobre           Bleuler sobre o estatuto da esquizofrenia* (que
Jung, e o junguismo se implantou em vrios           ainda era chamada dementia praecox), e sobre
pases: Gr-Bretanha*, Estados Unidos*, It-         a questo do auto-erotismo* e do autismo*.
lia* e Brasil*.                                          Quando encontrou Freud, Jung j tinha uma
    Nascido em 26 de julho de 1875, em Kess-         concepo do inconsciente* e do psiquismo,
will, no canto de Turgvia, Carl Gustav Jung        herdada de Thodore Flournoy*, de Janet e de
era descendente de uma longa linhagem de             todos os artfices da subconscincia. No s no
pastores. Seu av paterno, Carl Gustav Jung          compartilhava as hipteses vienenses, como
(1799-1864), dito Senior, mdico originrio de       tambm estava em desacordo com a concepo
Mannheim, encontrara refgio na Sua em             freudiana da sexualidade* infantil, do com-
1819 e se tornou reitor da Universidade de           plexo de dipo* e da libido*. O que o aproxi-
Basilia. Uma lenda tenaz fazia dele o filho         mava de Freud era, por um lado, o fascnio por
natural de Johann Wolfgang Goethe (1749-             uma obra na qual acreditava encontrar a confir-
1832). Contava-se na famlia que Sophie Zie-         mao de suas hipteses sobre as idias fixas
gler-Jung tivera uma ligao com o escritor e        subconscientes, as associaes verbais e os
que o filho ilegtimo dessa aventura fora depois     complexos*, e por outro lado, a atrao por um
reconhecido por seu marido, Franz Ignaz Jung,        ser excepcional com o qual podia se medir. Jung
pai de Carl Gustav Senior. Quanto a Samuel           era homem de uma poderosa inteligncia, habi-
Preiswerk (1799-1871), av materno de Carl           tado por um mundo interior feito de sonhos*,
Gustav Junior, tambm era pastor e adepto do         de introspeco, de busca de si mesmo e de
espiritismo*. Com sua prima, Hlne Preis-           gosto pelo oculto. Era dotado de grande fora
werk* e sua me, milie Preiswerk-Jung (1848-        fsica, apreciava os contatos humanos, os exer-
1923), o jovem Carl Gustav tambm adquiriu o         ccios corporais e o convvio das mulheres;
hbito de se dedicar ao espiritismo.                 dizia-se polgamo. Interessado desde sempre
    Em 1895, Jung comeou a estudar medicina         pelos espritas, loucos, marginais e excntricos,
em Basilia. Em 1900, tonou-se assistente de         gostava dos personagens fora do comum. Tam-
Bleuler na clnica do Hospital Burghlzli e, dois    bm apreciava contar histrias, espalhar boatos,
anos depois, defendeu tese sobre o caso de uma       confundir razo e desrazo, fazer sesses es-
jovem mdium, que depois se revelou ser H-          pritas, construir mitos e interpretaes*. E, se
lne Preiswerk. Em 1903, foi a Paris, para se-       tomava o partido de Freud, era antes de tudo
guir os cursos de Pierre Janet* e ao voltar          porque considerava seus adversrios como m-
casou-se com Emma Rauschenbach, filha de             dicos retrgrados, incapazes de conceber uma
um rico industrial de Schaffhouse, com quem          nova teoria psquica.
teria cinco filhos: Agathe, Anna, Franz, Ma-             Durante sete anos, entusiasmou-se pelo as-
rianne, Emma.                                        pecto espiritual da aventura psicanaltica. Mas,
    Emma Rauschenbach-Jung (1882-1955)               em contato com o movimento, elaborou uma
tornou-se discpula do marido, depois de ser         doutrina completamente estranha ao sistema de
analisada por ele. Em 1905, Jung foi nomeado         pensamento freudiano, embora se alimentasse
Privatdozent, no momento em que, em contato          dele. E  evidente que esse encontro permitiu a
422     Jung, Carl Gustav

Jung tornar mais claras suas divergncias com       e estou cansado de lutar. Estamos todos em
o freudismo*.                                       perigo. Os suos nos salvaro, eles me salvaro
    Quanto a Freud, o apego e o amor que ele        e a todos vocs." Fritz Wittels* transcreveu
dedicava a Jung mostravam uma vontade deter-        essas palavras em sua biografia de Freud.
minada de tirar a psicanlise do gueto da judei-        Em 1912, o conflito entre Freud e Jung se
dade* vienense. Se Sandor Ferenczi* era para        tornou evidente, quando Jung preparou a publi-
ele o melhor dos filhos, aquele que mais amaria     cao de Metamorfoses da alma e seus smbo-
(com Otto Rank*), Carl Gustav Jung teria outro      los, que teria muitas reedies. A discordncia
destino. Estranho  tribo vienense, mas de cul-     foi completa a respeito da teoria da libido. Mas
tura alem (e conseqentemente mais prximo         a gota d'gua foi um acontecimento menor.
dele do que Ernest Jones*), era de fato conside-    Freud foi visitar Ludwig Binswanger*, operado
rado como um filho enfim capaz de reinar sobre      de um tumor maligno e no passou por Ks-
a causa analtica, e at de conduzi-la a outras     nacht, que ficava apenas a cinqenta quilme-
conquistas. Sem nenhuma dvida, Freud sus-          tros de Kreuzlingen. Jung interpretou esse gesto
peitava que Jung era anti-semita. Mas, pelas        como uma ofensa. Depois de vrias disputas,
necessidades da causa, queria absolutamente         durante as quais Jung tentou convencer Freud
reconciliar os judeus e os anti-semitas, como       da necessidade de dessexualizar sua doutrina
escreveu em uma carta a Karl Abraham*, a 23         (nem que fosse, disse ele, para que ela fosse
de julho de 1908: "Presumo que o anti-semitis-      mais bem acolhida), a ruptura se consumou em
mo contido dos suos se refere um pouco a          1913. Freud tomou a iniciativa de romper, de-
voc [...]. Ns devemos, como judeus [...], mos-    pois de ter uma sncope em Munique durante o
trar um certo masoquismo, estar dispostos a que     jantar do congresso da IPA.
nos prejudiquem um pouco."                              A partir de 1914, Jung se demitiu progres-
    Entre 1907 e 1909, tornando-se o prncipe       sivamentee de todas as suas funes. Nas socie-
herdeiro da causa, Jung fundou a Sociedade          dades psicanalticas j formadas, os junguianos
Sigmund Freud de Zurique e o Jahrbuch fr           se separaram dos freudianos para organizar seu
psychoanalytische und psychopathologische           prprio movimento. Mas este nunca teria a am-
Forschungen*, animou o debate sobre a demn-        plitude do de Freud.
cia precoce atravs do "caso Otto Gross*," en-          Depois de um longo perodo de crise interior
frentou as peripcias de sua paixo por Sabina      e depresso, que coincidiu com a durao da
Spielrein*, e enfim acompanhou Freud quando         Primeira Guerra Mundial, Jung iniciou a elabo-
este fez uma viagem de conferncias aos Es-         rao de sua obra. Deu o nome de psicologia
tados Unidos*. Alis, voltaria a esse pas em       analtica  corrente de pensamento em que se
1912, obtendo um grande sucesso. Em 1909,           baseia seu mtodo de psicoterapia. Com essa
deixou o Hospital Burghlzli para se dedicar       denominao, pretendia significar que a psique
sua clientela particular e retirou-se para uma      no tinha nenhum substrato biolgico. Quanto
bela casa espaosa, construda segundo seus          clnica, ela tinha como objetivo reconduzir o
planos e situada em Ksnacht, perto do lago de      sujeito  realidade e libert-lo de seus "segredos
Zurique. Ficaria ali durante toda a vida.           patognicos", segundo a expresso de Moritz
    Em 1910, em Nuremberg, foi eleito primeiro      Benedikt*. O mtodo junguiano se inscrevia
presidente da Internationale Psychoanalytische      assim na continuidade das antigas "curas de
Vereinigung (IPV), futura International Psy-        alma" dos pastores protestantes.
choanalytical Association* (IPA). Aos vienen-           Em 1919, Jung elaborou a noo de arquti-
ses invejosos, Freud declarou: "Vocs so ju-       po, oriunda da noo de imago*, para definir
deus na maioria, e por isso inaptos para conquis-   uma forma preexistente inconsciente que deter-
tar amigos para a nova doutrina. Os judeus          mina o psiquismo e provoca uma representao
devem se contentar com um papel modesto, que        simblica que aparece nos sonhos, na arte ou na
consiste em preparar o terreno.  absolutamente     religio. Os trs principais arqutipos so o
essencial que eu estabelea laos com os meios      animus (imagem do masculino), a anima (ima-
cientficos menos restritos. No sou mais jovem     gem do feminino) e o selbst (si-mesmo), verda-
                                                                           Jung, Carl Gustav       423

deiro centro da personalidade. Os arqutipos         pie") e publicado na Zentralblatt fr Psychothe-
constituem o inconsciente coletivo, base da psi-     rapie (ZFP) assumiu posies nitidamente anti-
que, estrutura imutvel, espcie de patrimnio       semitas. Essa revista da AGP acabava de pas-
simblico prprio de toda a humanidade. Essa         sar ao controle de Matthias Heinrich Gring*.
representao da psique  complementada por              Depois de distinguir o inconsciente "ariano"
"tipos psicolgicos", isto , caractersticas in-    do inconsciente "judeu", Jung afirmou que o
dividuais articuladas em torno da alternncia        primeiro possua um "potencial superior ao
introverso*/extroverso, e por um processo de       segundo", e acrescentou que o judeu "tem algo
individuao, que conduz o ser humano  uni-         do nmade e  incapaz de criar uma cultura que
dade de sua personalidade atravs de uma srie       lhe seja prpria: todos os seus instintos e seus
de metamorfoses (os estdios* freudianos). A         dons exigem, para se desenvolver, um povo-
criana emerge assim do inconsciente coletivo        hospedeiro mais ou menos civilizado". Jung
para ir at a individuao, assumindo a anima        acusava a psicologia mdica de ter aplicado aos
e o animus.                                          alemes categorias judaicas. Enfim, evocando
    Com a noo de arqutipo, Jung se afastou        a lembrana de Freud, observou que este sus-
radicalmente do universalismo freudiano, mes-        peitava que ele, Jung, fosse anti-semita: "Essa
mo desejando encontrar o universal nas grandes       suspeita emanava de Freud. Ora, Freud, no
mitologias religiosas. Na verdade,  antes com       compreende nada da psique alem, como alis
a idia de pattern, prxima dos culturalistas,       os seus epgonos germnicos. O grandioso fe-
que se pode comparar o arqutipo. E Jung a           nmeno do nacional-socialismo, que o mundo
aprofundou, alis, ao se interessar cada vez         inteiro contempla com olhos admirados, os es-
mais pelo estudo etnolgico das civilizaes         clareceu?"
ditas "arcaicas". Por ocasio de vrias viagens,         Atacado em fevereiro de 1934 pelo psiquia-
que o levariam at tribos indgenas ou africanas     tra suo Gustav Bally (1893-1966), que se
(Mxico, Qunia), adotou as teses da psicologia      surpreendia com o fato de que Jung pudesse
dos povos e afirmou que existiam diferenas          presidir uma associao que tinha a funo de
radicais entre as "raas", as culturas e as men-     eliminar os judeus e os adversrios do nacional-
talidades.                                           socialismo, este tentou justificar-se em maro
    Foi nessa poca que foi criado em Ascona,        do mesmo ano em um artigo intitulado "Zeitge-
perto do Lago Maior, um grupo de intercmbio         nssisches", no qual evocava as diferenas en-
entre as filosofias orientais e ocidentais. Tomou    tre as "raas" e as "psicologias": "Deveramos
o nome de Eranos, e reuniu todos os anos, em         realmente pensar que uma tribo que atravessa a
torno de Jung, intelectuais, psiclogos, historia-   histria h milhares de anos como povo eleito
dores das religies e das cincias, entre os quais   por Deus no tivesse sido levada a uma tal idia
Lancelot White, Henry Corbin (1903-1978)             por uma disposio psicolgica particular? En-
(1903-1978) e Mircea Eliade (1907-1986).             fim, se no existe diferena, o que faz com que
    Em 1933, quando se tornou um chefe de            os judeus sejam reconhecidos? Diferenas psi-
escola, Jung aceitou substituir Ernst Kretsch-       colgicas existem entre todas as naes e todas
mer*  frente da Allgemeine rztliche Gesell-        as raas, e at entre os habitantes de Zurique, de
schaft fr Psychotherapie (AGP, Sociedade           Basilia e de Berna [...].  por isso que combato
Alem de Psicoterapia). Reunindo membros de          toda psicologia uniformizante quando pretende
vrios pases, mas baseada na Alemanha e logo        a universalidade, como a de Freud e a de Adler,
sob controle nazista, a AGP tornou-se com           por exemplo."
Jung uma associao realmente internacional.             O percurso de Jung ficaria pois marcado por
Os psicoterapeutas judeus podiam aderir a ela        esse episdio. Fundando suas hipteses doutri-
a ttulo individual, mesmo sendo excludos da        nrias sobre uma tipologia psicolgica, no po-
filial alem. Jung pretendia assim proteg-los.      dia evitar que o seu discurso assumisse tons
    Entretanto, em janeiro de 1934, em um texto      racistas e anti-semitas. E se esse anti-semitismo
intitulado "A situao presente da psicoterapia"     jamais tomaria a forma de um engajamento
("Zur gegenwrtigen Lage der Psychothera-            militante, suas afirmaes inigualitrias leva-
424      Jung, Carl Gustav

riam a que sua doutrina fosse utilizada pela               rneo (1936, GW, X), Petrpolis, Vozes, 1988; "Docu-
poltica de nazificao da psicoterapia alem.             ments indits en franais" (1933-1937, GW, X, sob o
                                                           ttulo Zivilisation im bergang), Cahiers Jungiens de
   A comunidade internacional junguiana se                 Psychanalyse (CJP), 82, primavera de 1995; 5-35; "Zur
dividiria sobre a questo da responsabilidade de           gegenwrtigen Lage der Psychotherapie", Zentralblatt
Jung, e foi Andrew Samuels, psicoterapeuta                 fr Psychotherapie, 7, 1934, 1-16 (no traduzidos em
junguiano, membro da Sociedade Londrina de                 CJP); Psicologia e religio (1938-1940, GW, XI), Pe-
Psicologia Analtica, que redigiu em 1992 um               trpolis, Vozes, 1979; Psicologia do inconsciente
                                                           (1943, GW, VII), Petrpolis, Vozes, 1978; Psychologie
dos comentrios mais notveis sobre esse pero-            du transfert (1946, GW, XVI), Paris, Albin Michel, 1980;
do doloroso da histria. Dizendo-se ele prprio            Essays on Contemporary Events. Reflections on Nazi
adepto do culturalismo*, mostrou que foi a                 Germany (1946), Princeton, Princeton University Pres-
tentativa de instaurar uma psicologia das naes           s, 1989, precedido de um prefcio de Andrew Samuels;
que conduziu Jung a aderir  ideologia nazista             Aion (1950-1951, GW, VIII, IX), Paris, Albin Michel,
                                                           1983; Resposta a J (1952), Petrpolis, Vozes, 1979;
e conclamou os "ps-junguianos" a reconhecer               Ma vie (Zurique, 1962), Paris, Gallimard, 1966; Conflits
a verdade.                                                 de l' me enfantine. La Rumeur. L'Influence du pre,
   Na Frana*, no nmero especial dos Cahiers              Paris, Aubier-Montaigne, 1935; O eu e o inconsciente,
Jungiens de Psychanalyse dedicado a esse epi-              Petrpolis, Vozes, 1978; Phnomnes occultes, Paris,
sdio, o artigo da Zentralblatt de janeiro de              Aubier-Montaigne, 1939; Le Mythe moderne, Paris,
                                                           Gallimard, 1961; Mysterium conjunctionis, I e II (GW,
1934 ("Zur gegenwrtigen Lage der Psychothe-               XIV), Petrpolis, Vozes, 1990; Correspondance, 1906-
rapie") foi suprimido da lista dita "completa"             1961, 5 vols., Paris, Albin Michel, 1992-1997; Carl
das declaraes de Jung entre 1933 e 1936, o               Gustav Jung parle. Rencontres et entretiens, Paris,
que permitiu aos diversos comentadores isentar             Buchet-Chastel, 1985  Freud/Jung: correspondncia
Jung de qualquer suspeita de anti-semitismo.               completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993 
                                                           Fritz Wittels, Freud, l'homme, la doctrine, l'cole (Viena,
   Carl Gustav Jung morreu em sua casa de Ks-             Leipzig, Zurique, 1924), Paris, Alcan, 1929  Gustav
nacht em 6 de junho de 1961. Suas cinzas foram             Bally, "Deutschstammige Psychoterapie", Neue Zcher
depositadas no tmulo da famlia, que ele prprio          Zeitung, 343, 27 de fevereiro de 1934  Richard Evans,
decorara. Nessa poca, seus adversrios continua-          Entretiens avec Carl Gustav Jung, Payot, 1964  Henri
vam a trat-lo de colaboracionista, enquanto seus          F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'incon-
                                                           scient (N. York, Londres, 1970, Villeburbanne, 1974),
amigos e prximos afirmavam que ele nunca
                                                           Paris, Fayard, 1994; Mdecines de l'me. Essais d'his-
participara da menor tomada de posio em favor            toire de la folie et des gurisons psychiques, Paris,
do nazismo ou do anti-semitismo.                           Fayard, 1995  Andr Virel (org.), Vocabulaire des psy-
                                                           chothrapies, Paris, Fayard, 1977  Vincent Brome,
 Carl Gustav Jung, Gesammelte Werke, 20 vols. (com        Carl Gustav Jung. L'Homme et le mythe (Londres,
um ndice e um volume de bibliografia), Zurique, Ra-       1978), Paris, 1986  Peter Homans, Jung in Context,
scher Verlag, e Olten, Walter Verlag, 1960-1991; The       Chicago, The University of Chicago Press, 1979  A
Collected Works, 21 vols. (com um ndice, um volume        Critical Dictionary of Jungian Analysis, Andrew Sa-
de bibliografia e um suplemento), Londres, Routledge       muels, Bani Shorter e Fred Plaut (orgs.), Londres, N.
e Paul Kegan, 1957-1983; A energia psquica (1902-         York, Routledge e Paul Kegan, 1986  Linda Donn,
1934, GW, I, VIII), Petrpolis, Vozes, 1983; Mtamor-      Freud et Jung. De l'amiti  la rupture (N. York, 1988),
phoses de l'me et ses symboles (Leipzig-Viena, 1912-      Paris, PUF, 1995  Sonu Shamdasani, "A woman called
1952, GW, IV, V, Paris, 1931, sob o ttulo Mtamor-
                                                           Frank", A Journal of Archetype and Culture, 50, prima-
phoses et symboles da libido), Paris, Buchet-Chastel,
                                                           vera de 1990, 26-56  Andrew Samuels, Jung and the
1953; Tipos psicolgicos (1921, GW, VI), Petrpolis,
                                                           Post-jungians, Londres, Routledge e Paul Kegan,
Vozes, 1991; Dialectique du moi et de l'inconscient
                                                           1985; "Psychologie nationale, national-socialisme et
(1928, GW, VII), Paris, Gallimard, 1964; Commentaire
                                                           psychologie analytique: rflexions sur Jung et l'antis-
sur le mystre de la fleur d'or (1929, GW, XIII), Paris,
Albin Michel, 1978; La Gurison psychologique (1929-       mitisme", Revue Internationale d'Histoire de la Psycha-
1934, GW, IV, X, XVI), Paris, Buchet-Chastel, 1953;        nalyse, 5, Paris, 1992, 183-221  Yosef Haiym Yerus-
Problmes de l'me moderne (1929-1948, GW, VIII, X,        halmi, Le Mose de Freud. Judasme terminable et
XV, XVII), Paris, Buchet-Chastel, 1961; L'Homme  la       interminable (New Haven, 1991), Paris, Gallimard,
dcouverte de son me (1931-1948, GW, VIII, XVI),          1993  Cahiers Jungiens de Psychanalyse, "Jung et
Paris, Albin Michel, 1987; Psicologia e alquimia (1935-    l'histoire, les annes 30", 82, primavera de 1995.
1936, GW, XII), Petrpolis, Vozes, 1991; Les Racines
de la conscience (1934-1954, GW, IX, XIII), Paris,          CINCO LIES DE PSICANLISE; GROSS, OTTO;
Buchet-Chastel, 1970; Aspectos do drama contempo-          SPIELREIN, SABINA.
                                               K
Kardiner, Abram (1891-1981)                                   Nessa poca, os estrangeiros afluam a Vie-
antroplogo e psicanalista americano                      na para se analisar com o fundador da psican-
                                                          lise. Assim, Freud no recebia mais "casos"
    Ao contrrio de Margaret Mead*, Bronislaw
                                                          como outrora, e todos os seus pacientes eram
Malinowski*, Geza Roheim* ou Georges De-
                                                          alunos em formao: suos, ingleses, america-
vereux*, Abram Kardiner no foi um etnlogo
                                                          nos. Dividia o tempo entre seus escritos e suas
de campo, mas um clnico da antropologia*,
                                                          anlises didticas, entre as quais a de sua filha
que se apoiava nos trabalhos etnogrficos dos
                                                          Anna Freud*. Certo dia, Kardiner lhe pergun-
seus amigos e contemporneos, Ruth Benedict
                                                          tou que julgamento fazia sobre a sua prtica e
(1887-1948), Cora Dubois e Ralph Linton
                                                          sobre si mesmo: "Gosto dessa pergunta, respon-
(1893-1953), para propor uma anlise global
                                                          deu Freud, porque, falando francamente, os
das modalidades de adaptao do homem                    problemas teraputicos no me interessam mui-
sociedade. Foi com eles, e numa perspectiva               to. Agora, estou impaciente demais. Sofro com
culturalista*, que Kardiner desenvolveu du-               um certo nmero de dificuldades que me impe-
rante o perodo entre as duas guerras a corrente          dem de ser um grande analista. Alm disso, sou
Cultura e Personalidade, que foi uma das vias             excessivamente pai. Em segundo lugar, trato
de implantao da psicanlise* nos Estados                demais de teoria [...]. Em terceiro lugar, no
Unidos*, ao lado do neofreudismo*.  idia                tenho pacincia para ficar com as pessoas por
freudiana de uma estruturao psquica prpria            muito tempo. Canso-me delas e prefiro estender
a cada sujeito*, ele opunha a de uma es-                  a minha influncia."
truturao psicolgica caracterstica dos mem-                Voltando a Nova York, Kardiner organizou
bros de uma mesma cultura, chamando-a de                  um seminrio sobre a psicologia das sociedades
personalidade bsica.                                     ditas "primitivas", no Instituto Psicanaltico li-
    Nascido em Nova York, Kardiner se orien-              gado  New York Psychoanalytical Society
tou inicialmente para a psiquiatria, antes de             (NYPS) e ensinou nas Universidades de Cor-
fazer um primeiro tratamento com Horace                   nell e Columbia. Foi nesse contexto que abor-
Frink*, analisado por Sigmund Freud* e cujo               dou a antropologia. Estudou muitos trabalhos
destino seria trgico. Insatisfeito com essa ex-          de campo e reuniu em torno de si brilhantes
perincia, Kardiner foi ento a Viena*, onde              etnlogos, que expuseram as suas pesquisas:
durante quase dois anos, 1921 e 1922, fez sua             Benedict, Linton, Edward Sapir (1884-1939)
formao com Freud. Dessa experincia maior,              etc.
extraiu, no fim da vida, uma obra fascinante,                 Essa problemtica marcou sua primeira
Minha anlise com Freud, que  o mais belo                obra, que ele dedicou em 1939 ao indivduo e 
testemunho escrito sobre a rotina da prtica do           sociedade. Desenvolveu a noo de personali-
mestre. Nela, descobre-se um Freud indito,               dade bsica, que seria utilizada com a de pattern
que fala de seu desejo*, de seu pessimismo, do            por todos os representantes da antropologia
suicdio*, da loucura*, de seu complexo pater-            americana de orientao culturalista, principal-
no, da sua contratransferncia* e de seu interes-         mente Margaret Mead. Para ele, tratava-se de
se pelo valor teraputico da psicanlise.                 pr em evidncia o papel das instituies ditas
                                                    425
426       Katharina, caso

"primrias" (sistema educativo) e "secund-                 No adotou a nacionalidade brasileira, mas teria
rias" (sistemas de crenas) na formao das re-             o ttulo de "cidad honorria do Rio de Janeiro".
gras de conduta que cada sociedade considera                    Inicialmente grafloga, casou-se com Kem-
fundamentais e que agem sobre o indivduo.                  per em 1934 e foi no seio do Instituto Gring
    Em 1937, Cora Dubois utilizou o teste de                que fez sua formao psicanaltica, com Harald
Hermann Rorschach* em um estudo com habi-                   Schultz-Hencke*. Em 1948, emigrou para o
tantes das ilhas de Alor (Indonsia). Ajudado               Brasil*, com o marido e trs filhos, Jochen,
por Emil Oberholzer*, Kardiner efetuou um                   Mathias e Christian, participando no Rio da
trabalho de interpretao desse material para               criao da Sociedade Psicanaltica do Rio de
provar a validade das suas teses. Depois, es-               Janeiro (SPRJ). Tornou-se membro desta, mas
tudou tambm a personalidade bsica do negro                em 1962, uma comisso de inqurito foi nomea-
americano e do americano mdio.                             da para examinar o seu "caso". Era acusada de
    Com Sandor Rado*, cujas orientaes no                 nunca ter sido analisada segundo os critrios da
compartilhava, criou em 1942 a Associao de                International Psychoanalytical Association*
Medicina Psicanaltica, provocando uma                      (IPA). Na verdade, era sua formao com
segunda ciso* no seio de NYPS. Cinco anos                  Schultz-Hencke que no era aceita, pois este
depois, ambos estabeleceram um instituto psi-               fora excludo da IPA depois da Segunda Guerra
canaltico de formao, integrado  faculdade               Mundial. A comisso recomendou a Katrin que
de medicina de Columbia. Este foi reconhecido               fizesse uma superviso* em Buenos Aires, com
pela American Psychoanalytical Association*                 Marie Langer*. Depois de muitos conflitos,
(APsaA). Mas, em 1955, Kardiner se separou                  demitiu-se da SPRJ. Na mesma poca, separou-
de Rado e abriu uma clnica psicanaltica. Entre            se de Werner Kemper.
1961 e 1968, ensinou na Universidade Emory,                     Tomou ento um outro caminho. Seu encon-
em Atlanta. Morreu em 1981 em Nova York.                    tro com Igor Caruso* foi determinante. Em
 Abram Kardiner, L'Individu dans la socit. Essai         maro de 1969, criou, com quatro de seus ex-
d'anthropologie psychanalytique (N. York, 1939), Paris,     pacientes e quatro outros clnicos, o Crculo
Gallimard, 1969; Introduction  l' thnologie (Cleveland,   Psicanaltico da Guanabara, ligado  Internatio-
1961), Paris, Gallimard, 1966; Mon analyse avec Freud       nale Fderation der Arbeitskreise fr Tiefen-
(N. York, 1977), Paris, Belfond, 1976  Abram Kardiner,
Ralph Linton et al., The Psychological Frontiers of         psychologie*. Dois anos depois, com Hlio Pel-
Society, N. York, Columbia University Press, 1945          legrino*, organizou os Encontros Psicodinmi-
Olivier de Sardan, "Abram Kardiner", Encyclopaedia          cos, cujo objetivo era receber casais em situao
universalis, vol.9, 1968, 626-7.                            difcil.
 CULTURALISMO;        HORNEY, KAREN; TOTEM E TA-                Dessa experincia coletiva nasceu em 1973
BU.                                                         a famosa Clnica Social de Psicanlise, des-
                                                            tinada a promover tratamentos para os carentes,
                                                            adultos e crianas, psicticos e neurticos. Mar-
Katharina, caso                                             cados pelos trabalhos de Sandor Ferenczi*, de
 ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; HM, AURELIA.                    Melanie Klein* e de Donald Woods Winni-
                                                            cott*, os praticantes da Clnica, entre os quais
                                                            Chaim Samuel Katz, fizeram dela o laboratrio
Kemper, Ana Katrin, ne Van                                 de um freudismo* anti-dogmtico e libertrio.
Wickeren (1905-1979)                                            Em 1974, em plena ditadura militar, a SPRJ
psicanalista alem                                          fez presso sobre Katrin Kemper para que a
    Nascida em Bochum, na Alemanha*, o des-                 clnica mudasse de nome e se tornasse Clnica
tino de Ana Kemper foi estranho e o seu itine-              Social de Psicoterapia. Esse pedido visava mar-
rrio enigmtico. O mistrio se deve ao silncio            ginalizar uma experincia julgada pouco orto-
que ela manteve sobre as circunstncias de sua              doxa, no momento em que a Associao Brasi-
vida entre 1933 e 1944, quando seu esposo                   leira de Psicanlise* (ABP) queria impor uma
Werner Kemper* colaborava com o regime                      lei que permitia limitar o exerccio da psican-
nazista, ao lado de Matthias Heinrich Gring*.              lise aos mdicos e aos membros das instituies
                                                                             Kemper, Werner        427

filiadas  IPA. Katrin Kemper recusou-se a                 Membro em 1933 da Deutsche Psychoana-
fazer essa concesso. Depois de sua morte, a           lytische Gesellschaft (DPG), Kemper foi anali-
Clnica recebeu o seu nome, em homenagem              sado por Mller-Braunschweig e supervisiona-
atividade que ali realizara.                           do por Boehm, Otto Fenichel* e Ernst Sim-
    No plano teraputico, desenvolveu a psica-         mel*. Estranha filiao, aproximando dois fu-
nlise de crianas*, baseando-se na idia de que       turos partidrios do nazismo e dois repre-
o analista devia estimular a transferncia* e a        sentantes da "esquerda freudiana"! Depois da
contratransferncia* atravs de passagens ao           demisso forada dos psicanalistas judeus, tor-
ato*. Assim, no hesitava, em certas situaes,        nou-se professor no Instituto Psicanaltico de
em andar de quatro, para instaurar com a criana       Berlim e posteriormente no Deutsche Institut
uma relao que no fosse simplesmente a da            fr Psychologische Forschung (Instituto Ale-
palavra. Na mesma perspectiva, adotou algu-            mo de Pesquisa Psicolgica e Psicoterapia, ou
mas teses de Schultz-Hencke sobre a possibili-         Gring Institut), fundado por Matthias Heinrich
dade de desinibir o eu* pela rememorao afe-          Gring*. A partir de 1942, tomou a direo da
tiva. Todavia, no recusou, como ele fizera, o         policlnica do Instituto e permaneceu nesse pos-
conceito de inconsciente* freudiano.                   to at o fim da guerra. Nunca explicou qual foi
                                                       o seu papel na deteno, pela Gestapo, do mili-
 Ana Katrin Kemper, "Reaes contratransferenciais    tante comunista John Rittmeister*, que fora seu
de influncia decisiva para a comunicao verbal num
caso de mutismo de criana de 3 a 4 anos", Estudos     analisando.
de Psicanlise, 6, 1973  Helena Besserman Vianna,         Segundo o depoimento dado por Mller-
No conte a ningum..., Rio de Janeiro, Imago, 1994.   Braunschweig a John Rickman* em 1946,
                                                       Kemper teria sido analista da mulher de Mat-
 ANLISE DIDTICA; ANLISE LEIGA; DOYLE, IRA-          thias Gring. Alis, ele teria sido membro do
CY; INIBIES, SINTOMAS E ANGSTIA; KLEINISMO;         Partido Comunista Alemo, no mesmo momen-
NAZISMO; NEUROSE; PSICOSE; PSICOTERAPIA.
                                                       to em que declarava sua adeso ao nazismo. De
                                                       qualquer forma, conseguiu convencer Ri-
                                                       ckman, que viera interrog-lo em 1946 sobre
Kemper, Werner (1899-1976)                             seu passado, de que tivera uma atitude positiva
psicanalista alemo                                    em relao  psicanlise entre 1933 e 1945.
    Sem a poltica de "salvamento" da psican-         Disse que conseguira preservar a integridade do
lise*, defendida por Ernest Jones* na Alema-           freudismo* sob o nazismo, graas  influncia
nha* depois da tomada do poder pelos nazistas,         que tinha sobre a mulher de Gring, atravs do
Werner Kemper teria sido um funcionrio obs-           tratamento desta. Ao contrrio de Mller-
curo. Mas, graas  orientao adotada pela            Braunschweig e de Boehm, Kemper foi o nico
International Psychoanalytical Association*            terapeuta que Rickman julgou apto a formar
(IPA) em 1933, ele fez parte, com Felix                didatas, no mbito da reconstruo da psican-
Boehm*, Carl Mller-Braunschweig* e Harald             lise na Alemanha. Fez dele um perfil elogioso,
Schultz-Hencke*, dos psicoterapeutas alemes           sem nunca interrog-lo sobre suas ambigi-
que decidiram fazer carreira sob o nazismo*,           dades, seus silncios e sua capacidade de mani-
quando a profisso foi proibida a todos os ju-         pular os enigmas.
deus do pas. Ernest Jones ratificou essa situa-           Entretanto, por vrias vezes Kemper se de-
o de fato e depois recusou-se, em 1945, a            clarou favorvel s teses nacional-socialistas,
qualquer depurao, mais preocupado com a              por ocasio de tomadas de posio de tipo
questo de saber quem no passado fora um bom           eugenista e quanto a problemas de sade pbli-
ou um mau freudiano, quem era adleriano e              ca. Como diretor do Instituto, participou da
conseqentemente "desviante", quem tinha um            elaborao das diretrizes da Wehrmacht em
bom currculo etc. Querendo estender o freudis-        relao s neuroses de guerra*. Assim, foi um
mo para alm da Europa*, decidiu enviar Wer-           funcionrio zeloso da poltica de seleo inau-
ner Kemper para o Brasil a fim de fazer uma            gurada pelo III Reich, que consistia em enviar
nova carreira.                                         para a morte, em batalhes disciplinares, os
428     Kemper, Werner

sujeitos que apresentassem "anomalias psqui-            Cansado de conflitos, Burke voltou para a
cas". Entre estas, estavam a angstia, a astenia     Inglaterra em 1953, no mesmo ano em que
e a hipocondria.                                     Kemper fundou a Sociedade Psicanaltica do
    Depois da capitulao da Alemanha, Kem-          Rio de Janeiro (SPRJ), que seria reconhecida
per se transformou em militante marxista e           pela IPA dois anos depois. Em 1959, os alunos
participou, com Schultz-Hencke, de uma reu-          de Burke formaram por sua vez uma segunda
nio de psiquiatras na parte leste de Berlim,        sociedade, rival da primeira, que assumiu o
ocupada pelas tropas soviticas. Contribuiu as-      nome de Sociedade Brasileira de Psicanlise do
sim para a reconstruo, na Repblica Demo-          Rio de Janeiro (SBPRJ).
crtica Alem (DDR), de uma escola de psico-             Marcada pelo no-dito e pela ocultao do
terapia* de tipo pavloviano, visando liquidar o      passado de seu principal fundador, a SPRJ
freudismo. Depois de colaborar com o nazismo         atravessaria tormentas idnticas s que pertur-
para a destruio da psicanlise por motivo de       baram o movimento psicanaltico alemo de-
judeidade*, contribua com igual zelo para a         pois de 1945, quando foi reconstrudo sem a
poltica stalinista de rejeio s teses freudia-    menor depurao. Do mesmo modo que na
nas, que iria estender-se a todos os pases domi-    Alemanha vrios pesquisadores revelaram
nados pelo socialismo de inspirao sovitica        progressivamente, a partir dos anos 1980, as
depois da partilha de Yalta.                         atividades daqueles que colaboraram com G-
    Em dezembro de 1948, Kemper se instalou          ring, a experincia da ditadura militar no Brasil
no Rio de Janeiro, em companhia de sua mulher        constituiu ocasio para reconsiderar o itinerrio
Ana Katrin* e seus trs filhos: Jochen, Matthias     de Werner Kemper.
e Christian. Como quase todos os ex-colabora-            Separado da mulher no comeo dos anos
dores dos nazistas, dissimulou cuidadosamente        1960, Kemper voltou para a Alemanha em
seu passado para seus prximos e principal-          1967, sem nunca ter assumido a nacionalidade
mente para seus filhos, enfatizando que tinha        brasileira. Redigiu uma autobiografia apolog-
sido "obrigado" a trabalhar no Instituto Gring      tica, na qual tentava explicar que, durante o
sob pena de sanes. Sua mulher tambm silen-        perodo nazista, protegera judeus e ajudara Wil-
ciou sobre as antigas atividades do esposo, que      helm Reich* e John Rittmeister. Durante esse
pde assim comear uma nova vida freudiana           tempo, Ana Katrin Kemper, sempre muda a
em um outro continente.                              respeito do passado, tornou-se militante da es-
    Na mesma poca, um psicanalista de outra         querda brasileira, feminista e hostil  ditadura.
origem, Mark Burke*, tambm foi instalar-se          Em 1971, criou com o escritor e psicanalista
no Rio de Janeiro, com o apoio de Jones. Judeu       Hlio Pellegrino* uma clnica social aberta aos
polons naturalizado ingls, combateu contra o       trabalhadores e desfavorecidos, a Clnica Social
nazismo* nas fileiras do exrcito britnico e        de Psicanlise Ana Katrin Kemper.
ignorava o passado do colega. Ambos comea-              Em 1973, o passado de Kemper comeou a
ram a formar alunos a fim de criar no Rio uma        emergir em funo de um caso que iria dilacerar
segunda grande sociedade psicanaltica brasi-        a SPRJ durante vinte anos. Em outubro desse
leira, depois daquela fundada por Durval             ano, o jornal clandestino Voz Operria revelou
Marcondes* em So Paulo. Logo surgiram               que um mdico militar, Amlcar Lobo Moreira
conflitos entre os dois. Depois de denunciar o       da Silva, psicanalista em formao com Leo
comportamento "patolgico" de Burke, Kem-            Cabernite, era um torturador a servio da dita-
per foi acusado de "exerccio ilegal da medici-      dura instaurada em 1964. Ora, Cabernite, psica-
na". Sua mulher, que praticava a psicanlise,        nalista judeu, didata e presidente nessa poca da
no foi aceita como didata; era acusada de           SPRJ, tinha sido analisado por Werner Kemper.
nunca ter sido analisada. Mas ela diria que fizera   Dez anos depois, com a publicao dos traba-
sua formao com Harald Schultz-Hencke. O            lhos dos historiadores alemes sobre o Instituto
que ela fez durante o perodo nazista permanece      Gring, as atividades de Kemper comearam a
ainda mais enigmtico do que as atividades do        ser conhecidas na Europa. Mas s vrios anos
esposo.                                              depois, estabeleceu-se uma ligao, no Brasil,
                                                                                           Khan, Masud          429

entre as antigas atividades de Kemper sob o                   ciedade Sua de Psicanlise (SSP). Participou,
nazismo e o fato de que ele acabara formando                  em 1923, dos trabalhos da Wiener Psychoana-
um discpulo que se tornou cmplice de um                     lytische Vereinigung (WPV) e apresentou nessa
torturador, durante uma anlise com objetivo                  ocasio uma comunicao sobre o erotismo
didtico. Essa fato seria sublinhado pelo                     oral. Aderiu  Sociedade Psicanaltica de Ber-
psicanalista francs Ren Major.                              lim. No momento da nazificao da Deutsche
    Com a idade de 40 anos, Jochen Kemper,                    Psychoanaytische Gesellschaft (DPG), foi proi-
filho de Werner, tornou-se psicanalista. Aderiu               bida de ensinar, por ser "judia estrangeira", e
ao Crculo Psicanaltico do Rio de Janeiro                    depois excluda, em 1935, junto com todos os
(CPRJ), fundado em 1969 por um grupo ligado                   outros psicanalistas judeus, que emigraram pa-
 sua me e filiado  Internationale Fderation               ra a Gr-Bretanha* ou para os Estados Unidos.
der Arbeitskreise fr Tiefenpsychologie*. Co-                 Salomea Kempner ficou em Berlim at 1940, e
rajosamente, tentou defender a memria do pai,                posteriormente desapareceu no gueto de Vars-
recusando-se a tomar conhecimento dos docu-                   via.
mentos publicados pelos historiadores alemes
sobre o Instituto Gring. Foi Helena Besserman                 Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psychoa-
                                                              nalyse. Die Mitglieder der psychologischen Mittwoch-Ge-
Vianna, psicanalista de esquerda, ligada a Ana                sellschaft und der Wiener psychoanalytischen Vereinig-
Katrin Kemper e membro da SBPRJ, que reve-                    ung von 1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992.
laria, em 1994, todo esse caso de famlia, em
um livro que afirma que a direo da IPA, em                   ALEMANHA; JUDEIDADE; NAZISMO.
1973, sob a presidncia do psicanalista francs
Serge Lebovici, recusou-se a admitir a cumpli-
cidade de Cabernite com os torturadores.                      Khan, Mohammed Masud Raza
 Werner Kemper, Psychotherapie in Selbstdarst-
                                                              (1924-1989)
ellungen, Berna, Stuttgart, Viena, Hans Huber Verlag,         psicanalista ingls
1973  Les Annes brunes. La Psychanalyse sous le                 Amigo de Donald Woods Winnicott* e
IIIe Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-
Luc Evard, Paris, Confrontation, 1984  Chaim S. Katz         membro, como este, da British Psychoanalytic
(org.), Psicanlise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus,        Society (BPS), Masud Khan nasceu em Jhelum,
1985  Geoffrey Cocks, La Psychothrapie sous le IIIe         na ndia ainda colonial. Seu pai era um rico
Reich (Oxford, 1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987        proprietrio de terras, criador de cavalos, e sua
Ren Major, De l'lection, Paris, Aubier, 1986  Ici la vie
continue de manire surprenante, seleo de textos
                                                              me uma jovem cortes e bailarina, que tinha
traduzidos por Alain de Mijolla, Paris, Association Inter-    19 anos no momento em que nasceu Masud.
nationale d'Histoire de la Psychanalyse (AIHP), 1987         Seu casamento tinha provocado escndalo.
Ludger M. Hermanns, "Condies e limites da produti-              O jovem estudou letras na Universidade de
vidade cientfica dos psicanalistas na Alemanha de
                                                              Pundjab, em Faisalabad e Lahore, e defendeu
1933 a 1935", Revista Internacional da Histria da
Psicanlise, 1 (1988), Rio de Janeiro, Imago, 1990,           uma tese sobre um romance de James Joyce
67-86  Karen Brecht, "A psicanlise na Alemanha              (1882-1941), Ulisses. A morte da irm, seguida
nazista: adaptao  instituio, relaes entre psica-       de perto pela do pai, levou Masud Khan a fazer
nalistas judeus e no judeus", ibid., 87-98  "Compte         uma psicoterapia com um mdico que o es-
rendu du sjour du docteur John Rickman  Berlin pour
interroger les psychanalystes, 14 e 15 octobre 1946",         timulou a se informar sobre as atividades da
Revue Internationale de l'Histoire de la Psychanalyse,        BPS. Foi assim que ele chegou a Londres em
1, 1988  Helena Besserman Vianna, No conte a                1946, sendo logo aceito em formao psicana-
ningum..., Rio de Janeiro, Imago, 1994.                      ltica antes mesmo de comear os seus estudos
                                                              na Universidade de Oxford.
                                                                  Depois das Grandes Controvrsias*, teve
Kempner, Salomea (1880-194?)                                  como mestres os membros mais prestigiosos da
mdica e psicanalista alem                                   BPS: Anna Freud* e Melanie Klein* como
   Nascida em Plock, na Polnia, de famlia                   supervisoras, Ella Sharpe* e John Rickman*
judia, Salomea Kempner estudou medicina na                    como analistas. Os dois ltimos morreram antes
Sua* e tornou-se membro, em 1919, da So-                    do trmino do tratamento, e Masud Khan fez
430      Kingsley Hall

ento uma outra anlise com Donald Winnicott.          (1913-1994), ento presidente da IPA, no qual
Recebeu o ttulo de didata em 1959.                    no se mencionavam os motivos do debate. O
    Sua carreira no seio da International Psy-         autor declarava apenas que Masud Khan tivera
choanalytical Association* (IPA) foi impres-           "relaes sociais" com seus pacientes. Dentro
sionante. Editor da International Psychoanaly-         do mesmo esprito e sem abordar diretamente
tic Library, do International Journal of Psycho-       os verdadeiros problemas ligados  natureza
Analysis*, e co-editor da Nouvelle Revue de            transgressora de tal prtica, seu amigo Jean-
Psychanalyse, foi tambm um didata muito req-          Bertrand Pontalis lhe prestou uma vibrante ho-
uisitado, que formou alguns dos analistas mais         menagem, dedicando-lhe um nmero especial
conhecidos do Grupo dos Independentes*. Seus           da Nouvelle Revue de Psychanalyse.
escritos foram notveis, principalmente O Self
                                                        Masud Khan, Le Soi cach (Londres, 1974), Paris,
oculto e Figuras da perverso. Acima de tudo,          Gallimard, 1979; Figures de la perversion (Londres,
Masud Khan soube contar os casos, no                  1979), Paris, Gallimard, 1981; Passion, solitude et folie
hesitando em descrever os pacientes e o prprio        (Londres, 1983), Paris, Gallimard, 1985; Quando a
                                                       primavera chegar (Londres, 1988), S. Paulo, Escuta,
analista. Em seus trabalhos, encontra-se uma
                                                       1991  Adam Limentani, "Obituary: Masud R.Khan
exposio original das grandes questes da cl-        (1924-1989)", International Journal of Psycho-Analy-
nica: a regresso*, a transferncia*, os border-       sis, 73, 1992, 155-9  Nouvelle Revue de Psychana-
lines*. Por sua reflexo sobre as relaes entre       lyse, "In Memoriam", Paris, Gallimard, 40, 1989  Judy
o paciente e o analista, Masud Khan se inscreve        Cooper, Speak of me as I am. The Life and Work of
                                                       Masud Khan, Londres, Karnac, 1993  Julia Borossa,
na linhagem de Sandor Ferenczi.                        Narratives of the Clinical Encounter and the Transmis-
    Durante os anos 1970, sua prtica comeou          sion of Psychoanalytic Knowledge, tese, Cambridge,
a ser contestada no seio da BPS. Masud Khan            Newnham College, 1995.
tinha a aparncia de um prncipe e reivindicava
seus gostos de aristocrata. No-conformista e
extravagante, no hesitava em exibir sua fortu-        Kingsley Hall
na e suas aventuras sexuais, das quais algumas          ANTIPSIQUIATRIA;      COOPER, DAVID; LAING, RO-
                                                       NALD.
com pacientes suas. Levantaram-se queixas
contra ele e, em 1975, depois de muita hesita-
o, a comisso de ensino da BPS lhe retirou o         Klajn, Hugo (1894-1981)
ttulo de didata. Nesse momento, era portador          mdico e psicanalista iugoslavo
de um cncer de pulmo. Durante quinze anos,
                                                          Analisado por Paul Schilder*, Hugo Klajn
lutou corajosamente contra a doena, conti-
                                                       praticou a psicanlise em Belgrado e foi tradu-
nuando a escrever, a fazer seu trabalho de ana-        tor das obras de Sigmund Freud* em servo-
lista e protestando contra a esclerose da BPS, na      croata. Apaixonado por literatura, arte e cultura,
qual sempre se sentiu um estrangeiro.                  tambm foi diretor de teatro.
     Em 1988, em sua ltima obra, When Spring
Comes, dedicada a sete estudos de caso, descre-         Jacquy Chemouni, Histria do movimento psicanal-
via-se a si mesmo insultando um analisando judeu       tico (Paris, 1990), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991.
e homossexual com tendncias suicidas. Jus-             BETLHEIM, STJEPAN; HISTRIA DA PSICANLISE;
tificava essa atitude como um modo especfico de       SUGAR, NIKOLA.
utilizar a contratransferncia* na tcnica do trata-
mento. O livro causou escndalo e muitos mem-
bros da BPS afirmaram que Masud Khan enlou-            Klein, Melanie, ne Reizes
quecera, embora a sua prtica, prxima do mana-        (1882-1960)
gement winnicottiano, no tivesse se modificado.       psicanalista inglesa
Tambm foi acusado de ser bissexual. Da as               Melanie Klein foi o principal expoente do
violentas crticas, s vezes baseadas em boatos,       pensamento da segunda gerao* psicanaltica
que resultaram em sua excluso.                        mundial. Deu origem a uma das grandes cor-
     S trs anos depois de sua morte foi reabili-     rentes do freudismo*, o kleinismo*, e graas a
tado por um necrolgio de Adam Limentani               Ernest Jones*, que a chamou para a Gr-Breta-
                                                                             Klein, Melanie     431

nha*, contribuiu para o desenvolvimento consi-          As dificuldades econmicas que se segui-
dervel da escola inglesa de psicanlise*.          ram  morte do pai parecem ter sido a causa de
Transformou totalmente a doutrina freudiana         sua renncia aos estudos de medicina, que ela
clssica e criou no s a psicanlise de crian-     decidira empreender com o objetivo de ser psi-
as*, mas tambm uma nova tcnica de trata-         quiatra. Essas mesmas dificuldades explica-
mento e de anlise didtica*, o que fizera dela     riam igualmente seu casamento precipitado, em
uma chefe de escola. Sua obra, composta es-         1903, com Arthur Klein, engenheiro de carter
sencialmente de cerca de cinqenta artigos e de     sombrio, que ela conhecera dois anos antes e do
um livro, A psicanlise de crianas, foi tradu-     qual se divorciaria em 1922. Em 1910, por
zida em quinze lnguas e reunida em quatro          insistncia de Melanie, cronicamente deprimi-
volumes. Acrescenta-se uma Autobiografia            da, o casal, cujo desentendimento era alimenta-
indita e uma importante correspondncia. A         do pelas incessantes intervenes de Libussa,
traduo francesa, realizada em parte por Mar-      se fixou em Budapeste. Em 1914, sua me
guerite Derrida,  de excepcional qualidade.        morreu e nasceu seu terceiro filho, Erich Klein
Muitas obras foram dedicadas a Melanie Klein,       (futuro Eric Clyne), que ela analisaria, como
entre as quais as de Hannah Segal, sua principal    Hans e Melitta, o irmo e a irm mais novos.
comentadora, e a de Phyllis Grosskurth, sua         Mas esse ano de 1914 foi tambm o de sua
bigrafa. Um dicionrio dos conceitos kleinia-      primeira leitura de um texto de Sigmund
nos foi realizado por R.D. Hinshelwood em           Freud*, Sobre os sonhos*, e do incio de sua
1991.                                               anlise com Sandor Ferenczi*.
    Nascida em Viena* em 30 de maro de 1882,           Melanie Klein logo comeou a participar
de pai judeu polons, originrio de Lemberg, na     das atividades da Sociedade Psicanaltica de
Galcia, que se tornou clnico geral graas a uma   Budapeste, da qual se tornou membro em 1919.
ruptura com pais tradicionalistas, e de me judia   Antes, em 28 e 29 de setembro de 1918, sob a
                                                    presidncia de Karl Abraham*, o V Congresso
eslovaca, cuja famlia, erudita e culta, era do-
                                                    da International Psychoanalytical Association*
minada por uma linhagem de mulheres, Mela-
                                                    (IPA) se realizou nessa cidade, que Freud consi-
nie Klein, pouco desejada, foi a quarta entre os
                                                    derava como o centro do movimento psicanal-
filhos desse casal que no se entendia. Quando,
                                                    tico. Era a primeira vez que Melanie Klein via
por sua vez, se tornou me, tambm sofreria em
                                                    Freud. Escutou-o ler, na tribuna, sua comunica-
sua vida particular as intruses de sua me,
                                                    o "Os novos caminhos da teraputica psica-
Libussa, personalidade tirnica, possessiva e
                                                    naltica" e, fortemente impressionada, tomou
destruidora.                                        conscincia de seu desejo de se consagrar 
    A juventude de Melanie foi marcada por          psicanlise. Em julho de 1919, levada por Fe-
uma srie de lutos, muito provavelmente res-        renczi, apresentou, diante da Sociedade Psica-
ponsveis pela culpa, cujos vestgios se encon-     naltica de Budapeste, seu primeiro estudo de
tram em sua obra terica.                           caso, dedicado  anlise de uma criana de
    Tinha quatro anos quando sua irm Sidonie       cinco anos, que na realidade era o seu prprio
morreu de tuberculose com a idade de 8 anos;        filho Erich. Uma verso reformulada dessa in-
tinha 18 quando o pai, debilitado h longos         terveno, na qual ela dissimulou a identidade
anos, desapareceu, deixando-a com a me; ti-        do jovem paciente chamando-o de Fritz, cons-
nha 20 quando seu irmo Emmanuel, que a             tituiu seu primeiro escrito, publicado no Inter-
influenciara muito e a quem estava ligada por       nationale Zeitschrift fr Psychoanalyse*. Um
uma relao de tons incestuosos, morreu esgo-       ano depois, uma terceira verso desse trabalho
tado pela doena, pelas drogas e pelo desespero.    apareceu em Imago*: "A criana de que se trata,
Phyllis Grosskurth observou que Melanie se          Fritz, escreveu ela,  um menino cujos pais, que
casou pouco depois desse falecimento, pelo          so de minha famlia, habitam na minha vizi-
qual se sentia culpada, o que, acrescentou, "pro-   nhana imediata. Isso permitiu encontrar-me
vavelmente tinha sido o objetivo perseguido         muitas vezes, e sem nenhuma restrio, com a
por Emmanuel".                                      criana. Alm do mais, como a me segue todas
432     Klein, Melanie

as minhas recomendaes, posso exercer uma           psicanaltica do funcionamento psquico desde
grande influncia sobre a educao de seu fi-        o nascimento (como queria Melanie Klein)?
lho."                                                    Em Berlim, Melanie fez amizade com Alix
    O terror branco e a onda de anti-semitismo       Strachey*, tambm analisanda de Abraham.
que assolavam Budapeste depois do fracasso da        Com a ajuda do marido, James Strachey*, que
ditadura comunista de Bela Kun (1886-1937)           estava em Londres, Alix introduziu Melanie na
obrigaram os Klein a deixar a capital e a exilar-    British Psychoanalytical Society (BPS). Graas
se. Em 1920, Melanie Klein participou em Haia        tambm ao apoio de Ernest Jones, fez uma srie
do Congresso Internacional da IPA. Ali, encon-       de conferncias em Londres, em julho de 1925.
trou Hermine von Hug-Hellmuth* e principal-          Essa permanncia na Inglaterra a encantou, a
mente, graas  recomendao de Ferenczi,            ponto de despertar nela o desejo de se es-
Karl Abraham. Este acabava de fundar, com a          tabelecer alm-Mancha, o que se realizaria mais
ajuda de Max Eitingon*, a famosa policlnica         cedo do que ela imaginava em virtude da morte
do Berliner Psychoanalytisches Institut* (BPI),      de Karl Abraham em dezembro de 1925. A
onde eram acolhidos muitos pacientes trauma-         pedido de Jones, que a convidou a passar um
tizados pela guerra. Atrada pela personalidade      ano na Inglaterra, Melanie Klein deixou Berlim
de Abraham e pela vitalidade do grupo de             em setembro de 1926. Sua instalao em Lon-
analistas que o cercava, Melanie Klein se ins-       dres marcou efetivamente a abertura das hos-
talou, em 1921, na capital alem. Um ano de-         tilidades entre a escola vienense e a escola
pois, tornou-se membro da Deutsche Psychoa-          inglesa: quaisquer que fossem os esforos de
nalytische Gesellschaft (DPG) e, em setembro         Jones para convenc-lo de que as teses kleinia-
                                                     nas se inscreviam na lgica das suas, Freud,
de 1922, assistiu ao VII Congresso da IPA,
                                                     desejando apoiar Anna, manifestaria um des-
durante o qual participou das primeiras discus-
                                                     contentamento crescente.
ses sobre a questo da sexualidade feminina*,
                                                         Em Londres, Melanie Klein experimentou
depois da contestao das teses freudianas por
                                                     suas teorias, tratando dos filhos perturbados de
Karen Horney*.
                                                     alguns de seus colegas: o filho e a filha de Jones,
    No comeo de 1924, Melanie Klein come-           por exemplo. Sua personalidade invasiva pro-
ou uma segunda anlise, com Karl Abraham,           vocou  sua volta paixes e repulsas. Em maro
de quem adotaria algumas idias para desenvol-       de 1927, Anna Freud fez uma comunicao ao
ver suas prprias perspectivas sobre a organiza-     grupo berlinense da DPG. Na verdade, tratava-
o do desenvolvimento sexual. Em abril, no          se de um verdadeiro ataque contra as teses
VIII Congresso da IPA em Salzburgo, apresen-         kleinianas em matria de anlise de crianas.
tou uma comunicao altamente controvertida          Houve crticas e Freud irritou-se. A discordn-
sobre a psicanlise de crianas pequenas, na         cia entre ambas no parava de crescer, referin-
qual comeava a questionar certos aspectos do        do-se especialmente  oportunidade da anlise
complexo de dipo*. Foi apoiada por Abraham          de crianas: parte integrante da educao geral
e tambm por Ernest Jones, que, seduzido por         de toda criana, afirmava Melanie Klein; neces-
esse discurso contestatrio, at interviria junto    sria apenas quando a neurose* se manifesta,
a Freud para que este aceitasse levar em consi-      replicava Anna, que circunscrevia a anlise de
derao essas declaraes herticas. Em 17 de        crianas apenas  expresso do mal-estar paren-
dezembro do mesmo ano, Melanie foi a Viena*          tal, enquanto Melanie autonomizava a criana,
para fazer uma comunicao sobre a psicanlise       tanto em sua demanda quanto no tratamento.
de crianas* na Wiener Psychoanalytische Ver-            Em setembro de 1927, durante o X Congres-
einigung (WPV), e nessa ocasio confrontou-se        so Internacional em Innsbruck, o conflito se
diretamente com Anna Freud. O debate estava          ampliou: Klein apresentou uma comunicao,
ento aberto, e trataria do que devia ser a psica-   "Os estdios precoces do conflito edipiano", na
nlise de crianas: uma forma nova e aperfei-        qual expunha explicitamente suas discordn-
oada de pedagogia (posio defendida por An-        cias com Freud sobre a datao do complexo de
na Freud) ou a oportunidade de uma explorao        dipo, sobre seus elementos constitutivos e so-
                                                                             Klein, Melanie     433

bre o desenvolvimento psicossexual diferencia-      suas prprias posies tericas diante de Mela-
do dos meninos e das meninas. Em outubro de         nie.
1927, apoiada pela renovada confiana de                A partir de 1933, Melanie Klein, que sofria
Jones, Melanie foi eleita para a BPS.               os ataques incessantes de Glover e de Melitta,
    Em janeiro de 1929, comeou a tratar de         via com terror a chegada a Londres dos analistas
uma criana autista de quatro anos, filha de um     vienenses e berlinenses que fugiam do nazis-
dos seus colegas da BPS,  qual deu o nome de       mo*. Confidenciou a Donald Woods Winni-
Dick. Logo percebeu que ele apresentava sinto-      cott* que pressentia, na instalao desses refu-
mas que ela nunca havia encontrado. No             giados que lhe eram na maioria hostis, a imi-
expressava nenhuma emoo, nenhum apego,            nncia de um "desastre". Alguns meses depois
e no se interessava pelos brinquedos. Para         da chegada dos Freud a Londres, as hostilidades
entrar em contato com ele, colocou dois trenzi-     irromperam efetivamente. Em julho de 1942, a
nhos lado a lado e designou o maior como "trem      tenso no seio da BPS atingiu um ponto crtico.
papai" e o menor como "trem Dick". Dick fez         Enquanto Londres era bombardeada, tomava-
o trem com o seu nome andar e disse a Melanie:      se a deciso de fazer reunies para discutir os
"Corta!". Ela desengatou o vago de carvo e o      pontos de discordncia cientficos e clnicos.
menino guardou ento o brinquedo quebrado           Assim comeou o perodo das Grandes Contro-
em uma gaveta, exclamando: "Acabou!". A             vrsias*, inaugurado por um ataque violento de
histria desse caso se tornaria clebre, por mos-   Edward Glover contra a teoria e a prtica dos
trar como alguns psicanalistas no conseguem        kleinianos. Ernest Jones, em quem Melanie
dar aos filhos o amor que esperam deles.            Klein acreditava ter um fiel aliado, saa fre-
                                                    qentemente dessa cena, cujos atores eram es-
    Dick continuou a anlise com Melanie Klein
                                                    sencialmente mulheres, umas reunidas em tor-
at 1946, com uma interrupo durante a
                                                    no de Melanie, outras em torno de Anna Freud.
Segunda Guerra Mundial. Quando Phyllis
                                                    Os confrontos assumiram tal intensidade que
Grosskurth se encontrou com ele, ento com
                                                    Donald Woods Winnicott, partidrio de Mela-
cerca de 50 anos, no tinha mais nada a ver com
                                                    nie, interrompeu uma noite os debates para
o menino fechado de outrora. Era at franca-        observar que um ataque areo estava ocorrendo
mente tagarela.                                     e era urgente procurar abrigo.
    Em 1932, Melanie Klein publicou sua pri-            Em novembro de 1946, depois de intermi-
meira obra de sntese, A psicanlise de crian-      nveis negociaes, marcadas principalmente
as, na qual expunha a estrutura de seus futuros    pela demisso de Edward Glover, um lady's
desenvolvimentos tericos, sobretudo o concei-      agreement se produziu -- mas que nem sempre
to de posio (posio esquizo-paranide/posi-      foi respeitado --, resultando na institucionali-
o depressiva*), assim como sua concepo          zao de uma diviso da BPS entre kleinianos,
ampliada da pulso* de morte. Mas, nesse mes-       annafreudianos e Independentes*.
mo ano, que inaugurou um aparente perodo de            Em 1955, Melanie Klein, que nada perdera
calma institucional para ela, sua vida particular   de seu dinamismo e de sua agressividade, inter-
foi perturbada por conflitos que teriam, alguns     veio de maneira esmagadora no Congresso da
anos depois, pesadas repercusses em sua vida       IPA em Genebra, apresentando uma comunica-
profissional. Sua filha Melitta Schmideberg*,       o intitulada "Um estudo sobre a inveja e a
casada com Walter Schmideberg*, amigo da            gratido", na qual desenvolvia o conceito de
famlia Freud e de Ferenczi, tornou-se analista.    inveja*, que articulava com uma extenso da
Sem perceber, Melanie repetiu com sua filha o       pulso de morte,  qual dava um fundamento
comportamento que Libussa tivera com ela. Foi       constitucional. Ao fazer isso, reatava com
por ocasio de uma retomada de anlise com          aquele que sempre considerara o seu mestre,
Edward Glover* que Melitta se afastou de Me-        Karl Abraham. Melanie Klein acabava assim de
lanie. Logo seria publicamente apoiada em sua       dar partida a uma nova controvrsia, que, se no
atitude por seu analista, que no hesitou em        teve a amplitude das precedentes, a levou 
manipular as tenses familiares para reforar       ruptura com Winnicott e com Paula Heimann*,
434      kleinismo

que fora a mais inteligente e a mais ardorosa dos          modificou inteiramente a doutrina e a clnica
adversrios de Glover em 1943.                             freudianas, cunhando novos conceitos e ins-
   Nunca tendo se reconciliado com sua filha               taurando uma prtica original da anlise, da
Melitta, deixando inacabada uma autobiografia              qual decorreu um tipo de formao didtica
parcelar e seletiva, Melanie Klein morreu de               diferente da do freudismo* clssico.
cncer do clon em Londres, a 22 de setembro                   A partir do ensino de Karl Abraham*, Mela-
de 1960.                                                   nie Klein e seus sucessores fizeram escola,
                                                           integrando na psicanlise* o tratamento das
 The Writings of Melanie Klein, R.E. Money Kyrle, B.
Joseph, E. O'Shaughnessy e Hanna Segal (orgs.), 4          psicoses* (esquizofrenia*, borderlines*, dis-
vols., Londres, Hogarth Press, 1975  Melanie Klein, A     trbios da personalidade ou do self), inventando
psicanlise de crianas (Londres, 1932), Rio de Janei-     o prprio princpio da psicanlise de crianas*
ro, Imago, 1997; Amor, dio e separao (Londres,
                                                           (por uma rejeio radical de qualquer pedago-
1937), Rio de Janeiro, Imago, 1975; Ensaios psicana-
lticos (Londres, 1948), Paris, Payot, 1967; Inveja e      gia parental) e, por fim, transformando a inter-
gratido e outros trabalhos (Londres, 1957), Rio de        rogao freudiana sobre o lugar do pai, sobre o
Janeiro, Imago, 1994; Psicanlise da criana (Londres,     complexo de dipo* e sobre a gnese da neu-
1961), S. Paulo, Mestre Jou, 1975; Le Transfert et
autres crits (Londres, 1975), Paris, PUF, 1995; (org.),
                                                           rose* e da sexualidade* numa elucidao da
Os progressos da psicanlise (Londres, 1952), Rio de       relao arcaica com a me, numa evidenciao
Janeiro, Zahar, 1978  Melanie Klein e Joan Riviere,       do dio primitivo (inveja*) prprio da relao
L'Amour et la haine (Londres, 1937), Paris, Payot, 1968    de objeto* e, por ltimo, numa busca da es-
 Hanna Segal, Introduo  obra de Melanie Klein
(Londres, 1968), Rio de Janeiro, Imago, 1975  Phyllis     trutura psictica (posio depressiva/posio
Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie Klein (N.          esquizo-paranide*) que  caracterstica de to-
York, 1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992  R.D. Hins-      do sujeito*. Assim, os kleinianos, tal como os
helwood, Dicionrio do pensamento kleiniano (Lon-          lacanianos, inscreveram a loucura* bem no
dres, 1991), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992  Pearl King
e Riccardo Steiner (orgs.), Les Controverses Anna          mago da subjetividade humana.
Freud/Melanie Klein (Londres, 1991), Paris, PUF,               Por outro lado, definiram um novo mbito
1996.                                                      para a anlise, muito diferente do dos freudia-
                                                           nos, baseado em regras precisas e, em especial,
 IDENTIFICAO PROJETIVA; INVEJA; OBJETO
                                                           num manejo da transferncia* que tende a ex-
(BOM E MAU); OBJETO, RELAO DE; POSIO
DEPRESSIVA/ESQUIZO-PARANIDE.
                                                           cluir da situao analtica qualquer forma de
                                                           realidade material em prol de uma realidade
                                                           psquica* pura, conforme  imagem que o psi-
kleinismo                                                  ctico tem do mundo e de si mesmo. Da a
                                                           criao do termo acting in, decorrente de acting
al. Kleinianismus; esp. kleinismo; fr. kleinisme; ing.
Kleinism
                                                           out*.
    Na histria do movimento psicanaltico,                    O kleinismo define-se, portanto, ao lado do
deu-se o nome de kleinismo, em oposio ao                 lacanismo e diversamente do annafreudismo,
annafreudismo*, a uma corrente representada                como uma verdadeira doutrina, que tem sua
pelos diversos partidrios de Melanie Klein*,              coerncia prpria, um corpo conceitual es-
dentre os quais se incluem os ps-kleinianos               pecfico, um saber clnico autnomo e um modo
que se pautam em Wilfred Ruprecht Bion*. Foi               de formao didtica particular. Como reformu-
depois do perodo das Grandes Controvrsias*,              lao da doutrina freudiana original, ele faz
que desembocara, em 1954, numa clivagem da                 parte do freudismo, do qual reconhece os fun-
British Psychoanalytical Society (BPS) em trs             damentos tericos, os conceitos e a anteriori-
tendncias, que o termo se imps.                          dade histrica.  uma das modalidades interpre-
    Diversamente do annafreudismo, o kleinis-              tativas do freudismo, articulada com o antigo
mo no  uma simples corrente, mas uma escola              suporte biolgico e darwinista deste ltimo.
comparvel ao lacanismo*. Com efeito, cons-                Nessas condies, no revisou os fundamentos
tituiu-se como um sistema de pensamento a                  epistemolgicos dele nem props qualquer teo-
partir de um mestre (no caso, uma mulher) que              ria do sujeito*, como fez o lacanismo.
                                                                                      Kohut, Heinz        435

    No plano poltico, o kleinismo  um dos             Koch foi a primeira psicanalista europia a se
grandes componentes do moderno legitimismo              instalar no continente latino-americano, quan-
freudiano, uma vez que se desenvolveu como              do, no Brasil*, nenhum dos pais fundadores do
escola no interior da International Psychoana-          freudismo (Durval Marcondes*, Francisco da
lytical Association* (IPA), sem contestar a             Rocha* etc.) ainda tinha sido analisado. Depois
idia, prpria do freudismo e da psicanlise, da        de um difcil priplo, chegou ao Brasil em
necessidade de uma organizao universalista            outubro de 1936 e tornou-se uma das figuras
(e no comunitarista) do movimento psicanal-           importantes da Sociedade Brasileira de Psica-
tico.                                                   nlise de So Paulo (SBPSP), que ela contribuiu
    Enquanto o annafreudismo encarna, atravs           para que fosse reconhecida pela IPA. Foi ela
da figura da filha do pai, o vnculo de identidade      quem iniciou na psicanlise o prprio Marcon-
que interligou os membros da antiga dispora            des e a gerao seguinte, particularmente Vir-
vienense exilada nos Estados Unidos* e na               gnia Leone Bicudo e Flvio Rodrigues Dias.
Gr-Bretanha*, o kleinismo  uma doutrina em
expanso, sobretudo nos pases latino-america-           Durval Marcondes, "Homenagem pstuma  Dra.
                                                        Adelheid Koch", Revista Brasileira de Psicanlise (16),
nos (Brasil* e Argentina*), onde ajuda a psica-         119, S. Paulo, 1982.
nlise a enfrentar as outras escolas de psicote-
rapia que comearam a amea-la, a partir da
dcada de 1970, em virtude de sua falta de              Kohut, Heinz (1913-1981)
criatividade.
                                                        psiquiatra e psicanalista americano
    Por ser uma escola de pensamento que alia
um saber clnico a uma teoria, o kleinismo                  Como Wilfred Ruprecht Bion*, Jacques La-
erigiu-se sobre uma crtica da forma dogmtica          can*, Donald Woods Winnicott* e Marie Lan-
do freudismo, para em seguida produzir, no              ger*, Heinz Kohut pertencia  terceira gerao*
prprio interior do freudismo de que nasceu,            psicanaltica mundial. Assim como eles,
uma nova idolatria do mestre fundador, uma              confrontou-se com a esclerose das instituies
historiografia* de tipo hagiogrfico e um novo          da International Psychoanalytical Association*
dogmatismo. E ainda no suscitou, como o                (IPA) e com a necessidade de renovar o freudis-
freudismo, as condies internas para uma cr-          mo* clssico. Foi nessa perspectiva que se tor-
tica a esse dogmatismo.                                 nou, nos Estados Unidos*, um verdadeiro chefe
                                                        de escola e o principal iniciador da corrente da
 Phyllis Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie       Self Psychology*, fundada sobre uma nova cl-
Klein (N. York, 1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992     nica dos distrbios narcsicos.
R.D. Hinshelwood, Dicionrio do pensamento kleinia-         Nascido em Viena* de uma famlia judia
no (Londres, 1991), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992 
Elizabeth Whrigt (org.), Feminism and Psychoanalysis.   culta e amante da msica, Kohut teve uma
A Critical Dictionary, Oxford, Basil Blackwell, 1992.   infncia triste e solitria. Seus pais no se ocu-
                                                        pavam dele e o menino sofria com isso. Tornan-
 ABERASTURY, ARMINDA; ANLISE DIRETA; BLE-              do-se mdico em 1938, depois de uma anlise
GER, JOS; CISO; EGO PSYCHOLOGY; GERAO;              com August Aichhorn*, quis conhecer Sig-
HEIMANN, PAULA; HISTRIA DA PSICANLISE; IN-            mund Freud*. Para isso, no dia da partida do
DEPENDENTES, GRUPO DOS; NEOFREUDISMO; OB-               mestre para o exlio em Londres, Heinz foi para
JETO (BOM E MAU); SEXUALIDADE FEMININA.                 a estao e o saudou, olhando o trem afastar-se.
                                                        Dizem que Freud lhe fez um sinal amistoso,
                                                        cuja lembrana ele guardaria por toda a vida.
Koch, Adelheid Lucy, ne Schwalle                           Obrigado a fugir do nazismo*, instalou-se
(1896-1980)                                             em Chicago, onde fez a sua segunda anlise
psiquiatra e psicanalista brasileira                    com Ruth Eissler-Selke (1906-1989), uma vie-
   Judia berlinense de origem e formada segun-          nense originria de Odessa, ela mesma analisa-
do as regras da International Psychoanalytical          da por Theodor Reik* antes de sua emigrao
Association* (IPA) por Otto Fenichel*, super-           para os Estados Unidos* com o seu esposo Kurt
visionada por Salomea Kempner*, Adelheid                Eissler.
436     Kohut, Heinz

    Kohut tornou-se neurologista em 1944 e          trar a psicanlise em distrbios mistos, ligados
psiquiatra trs anos depois. Integrou-se ento ao   s representaes e  identidade de si. De Freud
prestigioso Instituto de Chicago, fundado por       a Kohut, passava-se assim da idia (freudiana)
Franz Alexander* a partir do modelo do Berli-       da clivagem do eu*  idia (kleiniana) de um
ner Psychoanalytisches Institut*. Seria presi-      objeto clivado, modelando o eu por incorpora-
dente da American Psychoanalytic As-                o* ou introjeo*, e depois  idia (kohutia-
sociation* (APsaA) em 1964, e vice-presidente       na) de um si (self) que se tornou objeto de todos
da IPA entre 1965 e 1973. Renunciou depois s       os investimentos narcsicos. Para ele, o mito de
tarefas administrativas, preferindo dedicar-se     Narciso suplantava o de dipo*, no seio de um
clnica.                                            mundo dominado pela fragmentao definitiva
    Como todos os freudianos de sua gerao,        da famlia patriarcal e pela valorizao de uma
Kohut enfrentou nos anos 1960 uma crise gene-       figura da subjetividade mergulhada na contem-
ralizada na clnica psicanaltica. De fato, nessa   plao infantil e desesperada de si: "A psican-
poca o annafreudismo*, a Ego Psychology* e         lise clssica, escreveu Kohut em 1978, desco-
at o kleinismo* em sua verso dogmtica, no       briu o desespero da criana na profundeza do
permitiam uma soluo clnica para os dis-          adulto -- realidade do passado; a psicologia do
trbios da personalidade que no eram nem de        self descobriu o desespero do adulto na profun-
natureza neurtica nem assimilveis a uma psi-      deza da criana -realidade do futuro."
cose. Assim, era chamados de borderlines*.              Diferentemente de Lacan, que preconizava
Alis, as regras fixas do tratamento clssico,      uma volta aos textos de Freud e desejava garan-
com seus rituais, seus silncios e sua explorao   tir uma nova ortodoxia, Kohut propunha "su-
cirrgica do inconsciente* e da libido*, davam      perar" ou ir alm da doutrina original. E do
uma imagem desastrosa da psicanlise*. Era          mesmo modo que Lacan forjou uma nova teoria
pois urgente instaurar uma verdadeira revolu-       do sujeito* a partir da lingstica e da filosofia,
o cultural no interior do establishment freu-     Kohut construiu uma nova teoria do eu*,
diano a fim de que o tratamento reencontrasse       acrescentando ao Ich freudiano (traduzido em
a sua inspirao humanista: "A preocupao          ingls por ego), uma noo de self que no era
com a humanizao e a desumanizao no            estranha  de falso self, introduzida por Winni-
estranha, escreveu Agns Oppenheimer (1948-         cott em 1960.
1997), ao que Kohut viveu no momento do                 Tendo sofrido na infncia a falta de afeio
nazismo."                                           materna, constatou em meados dos anos 1950
    Formado no seio de uma dispora desejosa        que muitos distrbios psquicos tinham como
de se adaptar ao pragmatismo da psiquiatria         causa uma deficincia arcaica do self. Esta ocor-
americana, Kohut se revoltava portanto contra       ria em sujeitos que no tiveram uma me sufi-
um sistema clnico e terico que, pensava ele,      cientemente amorosa e que assim eram inca-
levava a psicanlise a um impasse normativo e       pazes, em sua vida social, de chegar a uma
adaptativo. Procurava resgatar a paixo que         relao verdadeira com seus prximos. Es-
animou os primeiros freudianos da Sociedade         tavam "vazios" e, para mascarar o ncleo cen-
Psicolgica das Quartas-Feiras*. Da o apelido      tral de sua mutilao original, construam para
que lhe deram: Mister Psicanlise.                  si uma armadura: um si falso, de carter pura-
    A primeira gerao freudiana fizera da          mente defensivo. Esses sujeitos se caracteriza-
sexualidade* a chave da elucidao das neu-         vam por seu mal-estar relacional, sua vulnera-
roses*. Depois dela, os kleinianos situaram o       bilidade constante, sua incapacidade de ins-
dio e a destruio no centro de toda relao de    taurar relaes duradouras com os outros. Ora
objeto*: para eles, tratava-se de inventar um       cediam a um excesso de arrogncia, ora a um
tratamento psicanaltico apropriado  psicose*.     sentimento de inferioridade.
Herdeiro dessas duas tendncias, e marcado              Com esses pacientes, a anlise clssica no
pelos problemas da sociedade americana (puri-       funcionava. Assim, Kohut preconizou, como
tanismo, individualismo, liberalismo), Kohut        Otto Rank* e Sandor Ferenczi*, a introduo
props uma terceira via, que consistia em recen-    no tratamento da "empatia" do analista, a fim
                                                                                 Kohut, Heinz       437

de permitir ao analisando, atravs de uma trans-       estruturado por uma imago parental idealizada.
ferncia* "criativa", avanar na direo de uma        Nessa perspectiva, Kohut transformava o per-
restaurao do seu self.                               sonagem de Hamlet em um heri no edipiano,
    Depois de definir a empatia, em 1959, como         mas narcsico, cujo self enfraquecido no resis-
um elemento central da tcnica psicanaltica*,         tiu s tragdias de uma sociedade que perdera
Kohut introduziu em 1964 o termo self (ou si)          seus valores. Do mesmo modo, fazia de Hitler
grandioso. Definiu assim a imago* parental             um doente narcsico invadido pela obsesso do
idealizada, isto , uma instncia pulsional, an-       "micrbio judeu". Quanto a dipo, este se tor-
terior ao ideal do eu*, onde se condensa um            nava, na verso kohutiana, um homem ferido e
imaginrio* exibicionista tendo que superar os         humilhado, aniquilado pelo desejo* de morte
ferimentos e humilhaes antigamente infligi-          de seus pais.
dos ao si arcaico. Ao terror e  angstia, suce-           Em 1972, quando era portador, havia um
dem, graas ao si grandioso, atividades criativas      ano, de leucemia, e quando sua me morreu
compensadoras. Da a necessidade de instaurar          depois de sofrer de distrbios psicticos, teve
no tratamento uma "transferncia narcsica"            que enfrentar os ataques da ortodoxia freudiana
destinada a fazer o paciente retornar a um nar-        e principalmente os de Anna Freud*. Depois de
cisismo* normal. O analista devia ento abster-        aceitar suas inovaes, a filha do mestre decla-
se de toda ingerncia interpretativa, e deixar o       rou que estas eram "antipsicanalticas". Deve-
paciente regredir para o estdio do "si arcaico        se dizer que, na IPA, Kohut aparecia como um
fragmentado". Kohut distinguia trs espcies           "guru": no s no respeitava as regras clssicas
de relaes transferenciais: em primeiro lugar,        do tratamento, como tambm fez escola, levan-
a transferncia idealizante, proveniente da mo-
                                                       do consigo muitos alunos em formao. Alm
bilizao da imago parental idealizada; depois
                                                       disso, analisava em termos narcsicos a evolu-
a transferncia em espelho, proveniente do si
                                                       o do movimento psicanaltico. Em 1970, qua-
grandioso; enfim a contratransferncia* do
                                                       lificou assim a esclerose institucional de "defe-
analista, que respondia  transferncia ideali-
                                                       sa narcsica" contra a criatividade, e em 1971,
zante.
                                                       mostrou que os filhos dos psicanalistas sofriam
    O narcisismo segundo Kohut era portanto
                                                       de distrbios de identidade pelo menos to
um equivalente da pulso* de morte freudiana.
                                                       graves quanto os dos pacientes de quem eles
Era uma doena da personalidade, uma patolo-
gia, e levava a uma "raiva" de destruio do           tratavam.
outro*, que era apenas a contrapartida do medo             Em 1979, clebre nos Estados Unidos, pro-
que o self tinha de ser vtima de seu prprio          vocou um verdadeiro escndalo clnico, publi-
aniquilamento.                                         cando um extraordinrio relato de caso, "As
    A partir de 1970, Kohut estendeu sua anlise       duas anlises do Sr.Z.", do qual alguns elemen-
do narcisismo a fenmenos coletivos (ou self           tos apresentavam fortes semelhanas com os de
grupal), interessando-se principalmente pela           sua prpria histria. Tratava-se de um homem
maneira pela qual se construam as relaes            de 25 anos, rfo de pai, morando com a me.
paranides nos grupos compostos de um chefe            Foi analisado pela primeira vez para tratar de
e seus adeptos. Observe-se que ele prprio no         angstias, de fantasias masturbatrias e de aces-
evitaria ser atingido por aquilo que denunciava.       sos de raiva e de depresso. Durante o primeiro
Muito narcsico, no suportava as crticas que         tratamento, Kohut interpretou em termos edi-
lhe dirigiam e constituiu em torno de si um            pianos a fixao regressiva do seu paciente a
squito de fiis, apegados  sua imagem e  sua        uma me onipotente. Quatro anos depois do fim
pessoa. Obcecado pela sua teoria, aplicava-a          do tratamento, o mesmo paciente voltou, en-
literatura,  histria,  poltica, a ponto alis de   quanto sua me sofria de um delrio alucinat-
atribuir todas as neuroses a uma patologia nar-        rio. Mas Kohut tinha mudado de teoria. Conse-
csica. A cada vez, o esquema era o mesmo: no          qentemente, ao invs de "edipianizar" o Sr.Z,
lugar da deficincia arcaica do eu, o sujeito,         ele deixou agir a transferncia idealizante e a
segundo Kohut, reconstrua um si grandioso             mobilizao do si grandioso.
438      Koller, Carl

    Essa publicao, primeira do gnero, valori-          vel dela para lutar contra seus acessos de neu-
zava sem reservas a problemtica transferen-              rastenia e d-la  sua noiva Martha Bernays
cial, em detrimento da potncia doutrinria.              (Freud*) e ao seu amigo Ernst von Fleischl-
Alm disso, mostrava claramente a natureza das            Marxow*.
querelas psicanalticas caractersticas da pr-               Em 1883, procurando fazer uma grande des-
pria interpretao*. Foi por isso que o caso              coberta para tornar-se clebre, Freud fez expe-
suscitou muitos comentrios e levantou nume-              rincias com o alcalide da coca. Em 1884,
rosas polmicas. A maioria dos colegas e ami-             publicou um artigo no qual recomendava o uso
gos de Kohut, assim como sua mulher e seu                 da cocana para vmitos e distrbios da diges-
filho, pensou que o "caso" tratado no era outro          to. Redigiu depois cinco outros textos sobre o
seno o do prprio autor. Ruth Eissler teria sido         tema. Foi ele quem sugeriu a seus colegas
a analista do primeiro tratamento, enquanto a             oftalmologistas Leopold Knigstein (1850-
pretensa segunda etapa seria uma auto-anlise*,           1924) e Carl Koller o uso da cocana. Em 15 de
feita por Kohut quando da doena de sua me e             setembro de 1884, Koller fez no Congresso de
do aparecimento de sua leucemia.                          Oftalmologia de Heidelberg uma conferncia
    Kohut morreu em Chicago, aos 68 anos. Seu             que lhe traria notoriedade, fazendo dele o "pai"
filho se tornou historiador e publicou um livro           da anestesia local. O episdio da cocana, que
sobre Guilherme II, inspirado nas teorias do pai.         reaparece no famoso sonho da "Injeo de Ir-
                                                          ma*", foi comentado pelo prprio Freud em sua
 Heinz Kohut, "Formes et transformations du narcis-
sisme" (1966), in Harold P. Blum (org.), Dix ans de
                                                          autobiografia e suscitou mltiplas interpre-
psychanalyse en Amrique, Paris, PUF, 1981, 117-45;       taes por parte dos historiadores do freudis-
Le Soi (N. York, 1971), Paris, PUF, 1991; A restaurao   mo* e dos psicanalistas, principalmente de
do self (N. York, 1977), Rio de Janeiro, Imago, 1988;     Siegfried Bernfeld*.
The Search for the Self I e II, N. York, International
Universities Press, 1978; Les Deux analyses de M. Z.
(1979), Paris, Navarin, 1985; Analyse et gurison (Chi-    Sigmund Freud, Cocaine Papers, Robert Byck (org.),
cago, 1984), Paris, PUF, 1991; The Search of the Self     anotado por Anna Freud, N. York, Stonehill Publishing
III, Madison, International Universities Press, 1990     Co., 1974  Siegfried Bernfeld, "Freud's studies on
Charles B. Strozier, "Glimpses of a life. Heinz Kohut",   cocaine, 1884-1887", Journal of the American Psy-
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(org.), N. York, Guilford Press, 1985  Geoffrey Cocks
(org.), The Curve of Life. The Correspondance of Heinz
Kohut, 1923-1983, Chicago, The University of Chicago
Press, 1994  Philip Cushman, Constructing the Self,
Constructing America. A Cultural History of Psychothe-
                                                          Kosawa, Heisaku (1897-1968)
rapy, N. York, Addison-Wesley, 1995  Agns Oppen-        psiquiatra e psicanalista japons
heimer, Kohut et la psychologie du self, Paris, PUF,
1996.
                                                              No Japo*, onde as idias freudianas tive-
                                                          ram uma difuso ao mesmo tempo limitada e
 ANLISE DIRETA; ANLISE EXISTENCIAL; ESTDIO             tardia (depois de 1950), Heisaku Kosawa ocu-
DO ESPELHO; IDENTIFICAO; IMAGEM DO CORPO;               pou certamente o lugar de um mestre. Esse
OBJETO, RELAO DE; PROJEO; SULLIVAN, HAR-              pioneiro foi o nico de sua gerao a receber em
RY STACK.                                                 Viena* uma formao psicanaltica clssica, e
                                                          tambm soube refletir sobre as condies es-
                                                          pecficas de introduo da teoria freudiana em
Koller, Carl (1857-1944)                                  seu pas. Assim, fez escola no Japo como
mdico americano                                          psiquiatra, como psicanalista didata e como
   De origem vienense e tendo emigrado para               fundador de uma doutrina original, atravs da
os Estados Unidos*, Carl Koller era um oftal-             qual o Oriente dialogava com o Ocidente, e a
mologista amigo de Sigmund Freud*. Foi o pri-             tradio budista com o judeu-cristianismo. Sem
meiro a utilizar as propriedades analgsicas da           abandonar os princpios do universalismo freu-
cocana para operar um olho sob anestesia local.          diano, lanou as bases de uma pesquisa compa-
Freud tambm se apaixonara por essa droga, a              rativa sobre as diferenas entre a famlia japo-
ponto de consumir uma quantidade consider-               nesa e a famlia ocidental, e props interpretar
                                                                         Kosawa, Heisaku        439

os mitos da Grcia antiga, to comentados por       soube da verdade por Daibadatta, o inimigo de
Sigmund Freud*,  luz das lendas budistas.          Buda. Ficou to acabrunhado que tentou matar
    Inicialmente estudante na Universidade de       Idaike. Ento, teve um grande sentimento de
Tohuku, em Sendai, descobriu o freudismo*           culpa e foi atingido por uma terrvel doena de
graas ao ensino do grande psiquiatra Kiyoyasu      pele (eczema). O mau cheiro que se formou
Marui (1886-1953), que se formara nos Estados       sobre seu corpo tornou impossvel qualquer
Unidos* junto a Adolf Meyer*. Em 1925, es-          relao com os outros. Apesar dessa punio e
tabeleceu contato com Freud e Paul Federn*          dos cuidados atentos de Idaike, Ajase no recu-
para ir a Viena, onde finalmente permaneceu de      perou seu equilbrio. Tentou mais uma vez ma-
1932 a 1933. Analisado primeiro por Freud*, a       tar a me que, procurando tranqilidade, pediu
quem ofereceu uma soberba estampa de Kiyos-         conselho a Buda. As palavras de Buda a mergu-
chi Yoshida representando o Monte Fuji-Yama,        lharam em um longo conflito interior, ao fim do
fez uma segunda etapa, didtica, com Richard        qual, depois de anos de sofrimento, Ajase ficou
Sterba*, e uma superviso com Federn.               em paz consigo mesmo. Recobrou a sade e
    Antes de voltar a seu pas, Kosawa confiou      tornou-se um soberano respeitado.
a Freud um trabalho sobre o complexo* de                Segundo outras verses do mito, o prncipe
Ajase (ou Azaje), que ele acabava de redigir e      Ajase, tornando-se rei, aprisionou o pai e, de-
que iria tornar-se um clssico da literatura psi-   pois da morte deste, ouviu sua voz no cu. Foi
canaltica japonesa. Mas o mestre vienense no      at Buda para lhe pedir ajuda, pois tinha medo
se interessou por essa pesquisa consagrada a um     de ir para o inferno. Buda o recebeu com com-
prncipe mtico, cuja histria remontava  lenda    paixo.
budista do Kanmuryojukyo. Entretanto, essa              Analisando o mito como Freud fizera com
lenda se aparentava a todas que Otto Rank*          dipo, Kosawa deu o nome de complexo de
reunira em sua grande obra de 1909, O mito do       Ajase a um complexo de dependncia do filho
nascimento do heri. Alis, ela reforava a tese    em relao  me. Encontrava ali o fundamento
freudiana do romance familiar*, pois o perso-       da organizao da famlia japonesa, na qual as
nagem de Ajase se assemelhava muito aos he-         relaes de dependncia, disciplina, submisso,
ris que fascinavam os pioneiros da Sociedade       sacrifcio de si e simbiose da criana com a me
Psicolgica das Quartas-Feiras*: dipo*, Ham-       predominavam sobre a idia de individualidade
let, Moiss, Lohengrin etc.                         ou de liberdade. Esse complexo resultava por-
    Eis o mito: no antigo reino da ndia*, a        tanto, segundo ele, de um sentimento de culpa
rainha Idaike, esposa do rei Binbashara, temia      que no tinha como origem o assassinato do pai
perder a beleza e conseqentemente o amor do        pelos filhos, mas a dependncia culpada e hostil
marido. Consultou uma vidente, que lhe disse        dos filhos em relao  me. Pacientes japo-
que um sbio que vivia na floresta morreria         neses marcados pela amae (dependncia), isto
dentro de trs anos e se tornaria seu filho por     , por uma tradio social ainda feudal,
reencarnao. Impaciente e egosta, Idaike no      manifestaram esses traos no tratamento.
esperou ficar grvida e matou o sbio. Antes de         A criao do complexo de Ajase apenas
morrer, este fez a seguinte predio: "Teu filho    demonstrava como cada cultura se apropria do
reencarnado matar um dia o prprio pai."           mito edipiano das origens imprimindo-lhe uma
Idaike ficou grvida no mesmo momento do            modulao peculiar. Era por isso que, atravs
assassinato. Temendo a clera do sbio reencar-     dele, se desenhavam as condies de uma im-
nado em seu ventre, decidiu matar o filho,          plantao possvel da psicanlise* fora da esfe-
dando-o  luz no alto de uma grande torre. Mas      ra judaico-crist: uma espcie de freudismo
este sobreviveu  queda, quebrando um dedo, o       oriental.
que lhe valeu o apelido de Ajase: prncipe do           A ascenso do fascismo e a exploso da
dedo quebrado. (A palavra Ajatasaru significa,      Segunda Guerra Mundial impediram a conti-
em snscrito, ao mesmo tempo dedo quebrado          nuao dos trabalhos de Kosawa, que retomou
e rancor pr-natal.) Depois de uma infncia         suas atividades profissionais em 1945, no Japo
feliz, durante a qual idealizou a me, Ajase        transtornado pela derrota e pela capitulao do
440      Kouretas, Dimitri

regime militar. A partir de ento, contribuiu para        grupo de estudos reconhecido pela International
o desenvolvimento da psiquiatria e da psican-            Psychoanalytical Association* (IPA).
lise que marcou a sociedade nipnica durante a
segunda metade do sculo e fez do Japo uma                FEDERAO EUROPIA DE PSICANLISE; FRAN-
                                                          A; HISTRIA DA PSICANLISE; TRIANDAFILIDIS,
terra de acolhimento para todas as doutrinas
                                                          MANOLIS.
vindas dos Estados Unidos*: Ego Psychology*,
Self Psychology*, farmacologia etc.
    Em 1953, com a morte de Marui, Kosawa
                                                          Kraepelin, Emil (1856-1926)
assumiu a direo do grupo de estudos de Sen-
                                                          psiquiatra alemo
dai, filiado  International Psychoanalytical As-
sociation* (IPA) desde 1933 e criou a Nippon                  Fundador da nosografia psiquitrica do s-
Seishin-Bunseki Kyoukai (Sociedade Psicana-               culo XX e criador dos termos demncia precoce
ltica Japonesa), cujo desenvolvimento foi mui-           e psicose manaco-depressiva*, Emil Kraepelin
to limitado, pois reunia apenas cerca de trinta           foi aluno, em Leipzig, de Wilhelm Wundt
membros em 1997. Ali, fez escola, esclarecendo            (1832-1920), cujos mtodos de psicologia ex-
suas teorias sobre a amae, formou didatas e               perimental adotou. Em 1878, defendeu uma
discpulos rigidamente freudianos, realizando             tese sob a orientao de Bernhard von Gudden
ao mesmo tempo atividades de didata, professor            (1824-1886), com o tema "O lugar da psicolo-
e clnico na Associao Psicanaltica Japonesa,           gia na psiquiatria". A partir de 1903, ocupou a
no filiada  IPA, muito mais poderosa em                 ctedra de psiquiatria de Munique, dirigindo
nmero de aderentes e aberta a todas as outras            tambm a Kniglische Psychiatrische Klinik,
correntes da psiquiatria dinmica*.                       que conquistaria graas a ele um renome inter-
                                                          nacional.
 Sigmund Freud, Chronique la plus brve. Carnets
                                                              Desde essa data, apaixonado pelo compara-
intimes, 1929-1939, anotado e apresentado por Mi-         tivismo, foi a Java a fim de estudar a presena
chael Molnar (Londres, 1992), Paris, Albin Michel, 1992   entre os indgenas das patologias mentais obser-
 Heisaku Kosawa, "Two types of guilt consciousness       vadas na Europa. Nessa ocasio, forjou a
-- Oedipus and Azase", Tokyo Journal os Psychoana-
lysis (Seishin Bunseki), maro-abril de 1935  James
                                                          expresso "psiquiatria comparada" para desig-
Clark Moloney, "Understanding the paradox of Japa-        nar o que se tornaria a etnopsiquiatria e a etnop-
nese psychoanalysis", IJP, vol. XXXIV, 4, 1953, 292-      sicanlise*: "Kraepelin  descrito como um
303  Keigo Okonogi, "Dr. Heisaku Kosawa as a great       personagem reservado, escreveu Pierre Morel,
pioneer of Japanese psychoanalysis", Japanese Jour-       meticuloso, respeitador da ordem e da autori-
nal of Psychoanalysis, 15, 4, 1969, 1-15; "Japan", in
Peter Kutter (org.)., Psychoanalysis International. A     dade, grande admirador de Bismarck."
Guide to Psychoanalysis throughout the World, vol.2,          Esse conservador ps ordem e clareza na
Stuttgart, 1995, 123-42.                                  compreenso da loucura*, construindo uma
                                                          classificao racional das doenas ditas men-
 ANTROPOLOGIA; CULTURALISMO; HISTRIA DA                  tais. Distinguia trs grupos fundamentais de
PSICANLISE; MOISS E O MONOTESMO; OTSUKI,               psicoses*: a parania*, a loucura manaco-
KENJI; TOTEM E TABU.                                      depressiva, que se tornaria depois psicose ma-
                                                          naco-depressiva, a demncia precoce, que
                                                          compreendia a psicose alucinatria crnica, ca-
                                                          racterizada por um delrio mal sistematizado, a
Kouretas, Dimitri (1901-1985)                             hebefrenia, ou psicose da adolescncia, com
mdico e psicanalista grego                               excitao intelectual e motora (tagarelice, neo-
    Analisado por Andreas Embiricos*, Dimitri             logismos, maneirismos), a catatonia, que se
Kouretas aderiu primeiramente s teses de Al-             reconhecia pelo negativismo do sujeito*: mu-
fred Adler*, antes de se tornar freudiano e par-          tismo, recusa da alimentao, reaes es-
ticipar da criao do primeiro grupo psicanal-           tereotipadas. Segundo Kraepelin, a parania
tico grego. Depois da excluso de Embiricos               diferia da demncia precoce pelo fato de que,
desse grupo, permaneceu em seu pas para es-              nesta ltima, a personalidade corporal do sujei-
timular a prtica da psicanlise* em torno de um          to era lesada: foras estranhas pareciam agir
                                                                                            Kraus, Karl       441

sobre o organismo, sobre as sensaes e sobre               frenia", foi o terico da noo de loucura his-
o pensamento,  maneira da telepatia*.                      trica, que seria retomada posteriormente sob a
    Mesmo inovador, Kraepelin continuava                    expresso "psicose histrica", depois que
apegado  tradio da psiquiatria medicalizada              Sigmund Freud* e seus alunos, Karl Abraham*
que considerava o louco no como um sujeito,                principalmente, diferenciaram a esquizofrenia
mas como um objeto a observar e um indivduo                como psicose* e a histeria* como neurose*.
perigoso. Assim, o sistema kraepeliniano foi                    Mas foi sobretudo com sua obra Psychopa-
contestado pelos artfices da psiquiatria dinmi-           thia sexualis, publicada em 1886 e traduzida no
ca* e pelos adversrios do niilismo teraputico:            mundo inteiro, que Krafft-Ebing se tornou c-
principalmente por Eugen Bleuler*, inventor                 lebre. Fazia uma descrio extraordinria, a
do termo esquizofrenia*, e mais tarde pelos                 partir de casos precisos, de todas as formas
representantes da antipsiquiatria*.                         possveis de perverses* sexuais: uma espcie
    Houve realmente uma era kraepeliniana na                de catlogo sofisticado, do qual Freud adotou
histria da psiquiatria, como houve uma era                 vrias noes e que o Marqus de Sade no teria
pineliana, que marcou o apogeu do alienismo.                desaprovado.
Nesse aspecto, comparou-se o sistema de pen-
samento freudiano com a classificao de Krae-               Richard von Krafft-Ebing, Manuel de psychiatrie
                                                            (1879), Paris, Baillire, 1897; Psychopathia sexualis
pelin.                                                      (Stuttgart, 1886, Paris, 1907), Paris, Payot, 1969 
    Entretanto, se Sigmund Freud* adotou parte              Jacques Postel (org.), La Psychiatrie, Paris, Larousse,
dos conceitos do mestre de Munique, inscreveu               1994.
sua clnica em uma trajetria radicalmente in-
versa  sua. Fundando sua prtica na escuta do               FETICHISMO; HISTERIA; HOMOSSEXUALIDADE;
                                                            SADOMASOQUISMO; SEXUALIDADE; TRANSEXUA-
sujeito, situava-se na posio oposta a Kraepe-
                                                            LISMO.
lin, que era herdeiro de uma clnica do olhar
fundada na prevalncia do corpo, na ausncia
do doente. Kraepelin pensava, efetivamente,
                                                            Kraus, Karl (1874-1936)
que a ignorncia da lngua e da fala do paciente
                                                            escritor austraco
garantia, na medicina mental, a melhor obser-
vao.                                                          Jornalista, escritor, polemista e fundador do
                                                            jornal Die Fackel (A Tocha), que se opunha 
 Emil Kraepelin, Compendium der Psychiatrie, Leip-         Neue Freie Presse, Karl Kraus foi uma das
zig, Abel, 1883; Introduction  la psychiatrie clinique     grandes figuras da modernidade vienense do
(Leipzig, 1901), Paris, Vigot, 1907; Leons cliniques
sur la dmence prcoce et la psychose maniaco-
                                                            fim do sculo XIX. Judeu e adepto do dio de
dpressive (Leipzig, 1907), Toulouse, Privat, 1970; La      si judeu, foi contrrio a Dreyfus e se converteu
Folie maniaque-dpressive (Leipzig, 1909), Grenoble,        ao catolicismo, que depois renegou. Denunciou
Jrme Millon, 1993  Paul Bercherie, Os fundamentos        a corrupo da imprensa e a feminilizao da
da clnica (Paris, 1980), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
                                                            arte e da sociedade, que poderiam reduzir a
1989  Jacques Postel (org.), La Psychiatrie, Paris,
Larousse, 1994  Pierre Morel (org.), Dicionrio biogr-    sociedade a nada, e adotou as teses da bis-
fico psi (Paris, 1996) Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.   sexualidade*. Mas, ao contrrio de Otto Wei-
                                                            ninger*, de quem era prximo, pensava que os
                                                            princpios feminino e masculino deviam com-
Krafft-Ebing, Richard von                                   plementar-se.
(1840-1902)                                                     Analisado por Fritz Wittels*, que fez uma
psiquiatra austraco                                        interpretao* selvagem em seu caso por oca-
   Nascido em Mannheim, Richard von Krafft-                 sio de uma reunio da Sociedade Psicolgica
Ebing foi no s um dos fundadores da sexolo-               das Quartas-Feiras*, declarando-o portador de
gia*, como tambm um ilustre professor de                   uma frustrao* edipiana, Kraus sempre criti-
psiquiatria em Viena*, para onde foi nomeado                cou os aspectos ridculos da psicanlise* e as
em 1889. Trs anos depois, tornou-se titular da             manias de seus adeptos nefitos. Inventou al-
ctedra de Theodor Meynert*. Antes da inven-                guns maravilhosos aforismos, que se tornariam
o, por Eugen Bleuler*, da palavra "esquizo-               clebres: "A psicanlise  aquela doena do
442      Kretschmer, Ernst

esprito da qual ela prpria se considera o rem-       os "grandes magros" (tipo leptossmico) na
dio", ou ainda: " a ele [Freud] que cabe o             categoria da esquizofrenia*, e os "pequenos
mrito de ter dado uma organizao  anarquia           gordos" (tipo pcnico) na categoria da psicose
do sonho, mas ali tudo acontece como na us-            manaco-depressiva*. Foi como clnico da cau-
tria."                                                  salidade psquica que ele marcou a psiquiatria
                                                        moderna, e principalmente a obra de Jacques
 "Karl Kraus", nmero especial da revista L'Herne,     Lacan*, que lhe prestou homenagem em sua
1975  Carl Schorske, Viena, fin-de-sicle (N. York,
1981), S. Paulo, Companhia das Letras, 1990  Allan     tese de medicina de 1932.
Janik e Stephen Toulmin, Wittgenstein, Vienne et la
modernit (N. York, 1973), Paris, PUF, 1978  Jacques    Ernst Kretschmer, Paranoa et sensibilit. Contribu-
Le Rider, Modernit viennoise et crises de l'identit   tion au problme de la paranoa et  la therie psychia-
(1990), Paris, PUF, 1994.                               trique du caractre (Berlim, 1918), Paris, PUF, 1963;
                                                        La Structure du corps et du caractre (Berlim, 1921),
 JUDEIDADE; VIENA.                                      Paris, Payot, 1830  Jacques Lacan, Da psicose para-
                                                        nica e suas relaes com a personalidade (1932), Rio
                                                        de Janeiro, Forense Universitria, 1987  Paul Berche-
                                                        rie, Os fundamentos da clnica (Paris, 1980), Rio de
Kretschmer, Ernst (1888-1964)                           Janeiro, Jorge Zahar, 1989  Jacques Postel (org.), La
psiquiatra alemo                                       Psychiatrie, Paris, Larousse, 1994.

    Nascido em Wurstenrot e filho de pastor,
Ernst Kretschmer teve de enfrentar, como mui-
tos psiquiatras da sua gerao*, a questo das
                                                        Kris, Ernst (1900-1957)
neuroses de guerra*. Em 1915, quando era m-
dico militar em Tbingen, foi obrigado a man-           psicanalista americano
dar de volta  frente de batalha soldados com               Embora seja conhecido como um dos fun-
traumas psquicos que, normalmente, teriam              dadores da Ego Psychology*, com Heinz Hart-
que ser tratados. Todavia, ao contrrio de Jo-          mann* e Rudolph Loewenstein*, foi principal-
seph Babinski* e de Julius Wagner-Jauregg*,             mente no campo da arte que Ernst Kris produziu
no aderiu ao ideal patritico do exrcito que          trabalhos interessantes.
servia.                                                     Nascido em Viena*, em uma famlia da bur-
    Em 1929, publicou uma obra sobre os ho-             guesia judaica, estudou filosofia e foi, como seu
mens de gnio que exaltava a importncia da             amigo Otto Kurz (1908-1975) e como Ernst
"mistura de raas" para a evoluo da humani-           Gombrich, aluno de Julius von Schlosser
dade. Quatro anos depois, em virtude de sua             (1866-1938), o clebre representante da escola
hostilidade ao nazismo*, foi obrigado a se de-          vienense de histria da arte. Nomeado res-
mitir da Allgemeine rztliche Gesellschaft fr          ponsvel pelo departamento de escultura e artes
Psychotherapie (AGP, Sociedade Alem de                aplicadas do museu de Viena, tornou-se o me-
Psicoterapia), que presidia havia sete anos. Carl       lhor especialista em jias gravadas e entalhes
Gustav Jung* o substituiu em suas funes e             do Renascimento, tema sobre o qual publicou
Matthias Heinrich Gring* liquidou a socie-             um estudo exemplar em 1929.
dade em 1936. Depois da Segunda Guerra Mun-                 Paralelamente, aderiu  Wiener Psychoana-
dial, apoiado pelas autoridades francesas e ame-        lytische Vereinigung (WPV), depois de seu ca-
ricanas por suas posies claras a respeito do          samento com Marianne Rie, que se tornaria
nacional-socialismo, Kretschmer desempe-                psicanalista com o nome de Marianne Kris*.
nhou um papel maior na reconstruo da psi-             Assim, fez parte do crculo ntimo que cercava
quiatria alem, nas Universidades de Marburgo           a famlia de Sigmund Freud*. Analisado por
e de Tbingen.                                          Helene Deutsch* entre 1924 e 1927, praticou a
    Terico de uma morfotipologia que ques-             psicanlise* sem abandonar suas atividades no
tionava o constitucionalismo de Emil Kraepe-            museu. Antes das nove da manh e depois das
lin* e que se inspirava em certas hipteses             seis da tarde, recebia seus pacientes, e durante
freudianas, relacionou diferentes modos de or-          o dia trabalhava em seu escritrio no museu de
ganizao da personalidade: assim, classificou          Viena.
                                                                               Kris, Marianne         443

    Em 1932, redigiu um estudo sobre o escultor    na. Em 1945, participou da criao da revista
barroco austraco Franz Xaver Messerschmidt,       The Psychoanalytic Study of the Child, e cinco
cuja obra evocava a tradio fisiognomnica: o     anos depois, com Marie Bonaparte* e Anna
artista esculpira uma srie de bustos retratando   Freud*, assinou o prefcio de O nascimento da
diversos tipos de personalidade. Atravs de uma    psicanlise, verso expurgada das cartas de
anlise minuciosa dos rostos, Kris evidenciou a    Freud a Wilhelm Fliess*.
loucura* do escultor. Dois anos depois, com a
colaborao de Kurz, publicou uma obra dedi-        Ernst Kris, Psychanalyse de l'art (N. York, 1952),
                                                   Paris, PUF, 1978  Ernst Kris e Otto Kurz, L'Image de
cada ao nascimento da noo de artista na his-     l'artiste, lgende, mythe et magie. Un essai historique
tria da arte. Os dois autores mostravam que       (Viena, 1934, New Haven, 1979), Paris, Rivages, 1987;
essa noo fora construda atravs dos mitos e     Caricature, Harmondsworth, Middlesex, King Penguin
lendas veiculados por bigrafos ou hagigra-       Books, 1940  Ernst Kris e Ernst Gombrich, "The prin-
                                                   ciples of caricature" (1938), in Psychanalyse de l'art,
fos, que descreviam o artista como um heri que    op. cit.  Ernst Gombrich, "Souvenirs de collaboration
desafiava, desde a infncia at a maturidade, as   avec Ernst Kris", in Vienne, 1880-1938. La Joyeuse
normas de seu tempo.                               apocalypse, catlogo da exposio editado por Jean
    Prosseguindo nesse caminho ao mesmo            Clair, Paris, Centre Pompidou, 1986  Ernst Gombrich
                                                   e Didier Eribon, Ce que l'image nous dit. Entretiens sur
tempo interpretativo e evolucionista, Kris fez     l'art et la science, Paris, Adam Biro, 1991.
com Ernst Gombrich um estudo sobre a carica-
tura. Para explicar seu aparecimento tardio, su-
punha, como o prprio Gombrich observou em
uma entrevista com Didier Eribon, que ela nas-     Kris, Marianne, ne Rie (1900-1980)
cera com o fim da magia: "Enquanto a inteno      mdica e psicanalista americana
agressiva, dizia ele, esteve ligada a uma ameaa       Por sua histria e sua genealogia familiar,
de ordem mgica, era inconcebvel brincar com      Marianne Kris era filha da psicanlise*, e at
a fisionomia de um dignitrio como faria Ber-      mesmo uma herona daquilo que se poderia cha-
nini em sua caricatura do papa, por exemplo.       mar de romance familiar* da psicanlise. Seu pai,
Enquanto a humanidade se submeteu ao medo          Oskar Rie*, era o parceiro de Sigmund Freud* no
da magia, transformar a imagem de algum no       jogo de cartas e mdico da famlia. Sua me,
era, no sentido prprio, uma brincadeira. A        Melanie Rie, ne Bondy, era irm de Ida Bondy
caricatura s pde nascer quando a magia des-      (1869-1941), ex-paciente de Josef Breuer*, que se
apareceu [...]. Kris, como o prprio Freud [...]   casara com Wilhelm Fliess* em 1892.
estava sob o domnio de uma interpretao              Ligada assim  histria do nascimento da
evolucionista da histria humana, concebida        psicanlise, Marianne Rie, judia vienense de
como um longo percurso desde a irracionalida-      origem, estudou medicina antes de se orientar
de primitiva at o triunfo da razo."              para o freudismo*. Com Franz Alexander*, fez
    Finalmente, Gombrich e Kris escreveriam        sua formao didtica em Berlim, em 1927. Ao
juntos apenas um artigo sobre esse tema. E em      voltar, integrou-se  Wiener Psychoanalytische
1940, Gombrich publicou uma obra importante        Vereinigung (WPV) e conheceu Ernst Kris*,
sobre a caricatura, redigida somente por ele,      com quem se casou.
mas assinada tambm por Kris.                          Supervisionada por Anna Freud*, de quem
    Fugindo do nazismo*, Kris e sua famlia        se tornou amiga, logo foi adotada por Sigmund
chegaram a Londres ao mesmo tempo que os           Freud, que a chamava de "minha filha". Em
Freud. Foi logo trabalhar na rdio britnica,      1938, emigrou para a Gr-Bretanha* com toda
para analisar o contedo dos programas nacio-      a famlia e, dois anos depois, deixou definitiva-
nal-socialistas. Em 1940, emigrou para os Es-      mente a Europa, para se instalar em Nova York,
tados Unidos*, onde prosseguiu suas atividades     onde se tornou membro da New York Psychoa-
de denncia do totalitarismo. Depois, com sua      nalytic Society (NYPS), continuando uma bri-
mulher, integrou-se  New York Psychoanalytic      lhante carreira de psicanalista de adultos e
Society (NYPS), onde se tornou um dos repre-       crianas, no mbito da Ego Psychology* e do
sentantes mais ardorosos da ortodoxia freudia-     annafreudismo*. Segundo o costume ins-
444      Kulovesi, Yrj

taurado por Freud, deu  sua filha um nome de            Young-Bruehl, Anna Freud: uma biografia (Londres,
                                                         1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992  lisabeth Roudi-
que ela gostava particularmente: Anna.                   nesco, "Sartre, lecteur de Freud", Les Temps Mo-
    Guardi da historiografia oficial, impediu           dernes, 531-3, outubro-dezembro de 1990, 589-613.
Marilyn Monroe (1926-1962), sua analisanda,
de aceitar o papel de Anna O., ao lado de Mont-           FILIAO; IRMA, INJEO DE; PAPPENHEIM, BER-
gomery Clift (1920-1966), no filme Freud, alm           THA.
da alma, de John Huston, realizado em 1962 a
partir do roteiro de Jean-Paul Sartre (1905-1980),
sobre as origens da psicanlise (Fliess, Breuer,         Kulovesi, Yrj (1887-1943)
teoria da seduo* etc.). O cineasta fora repelido       mdico e psicanalista finlands
por Anna Freud, que no tolerava o menor desvio             Pioneiro do freudismo na Finlndia, Kulo-
na hagiografia com a qual ela homenageava o pai,         vesi era filho de um alfaiate. Durante toda a
e Marianne Kris, por sua vez, adotou a mesma             vida, preocupou-se em estender s classes po-
atitude, sem nem mesmo ler o roteiro do filsofo         pulares os benefcios dos mtodos de inspirao
nem a sinopse do cineasta.                               psicanaltica. Em 1924, foi a Viena* pela pri-
    Antes de se suicidar, a atriz deixou  sua           meira vez. Analisado por Paul Federn*, aderiu
analista uma importante soma de dinheiro, pe-             Wiener Psychoanalytische Vereinigung
dindo-lhe que a confiasse a uma obra de sua              (WPV) em 1931. Colaborou na Internationale
escolha. Marianne Kris doou a quantia  Hamp-            Zeitschrift fr Psychoanalyse* e participou de
stead Clinic, e Anna lhe respondeu com estas             um grupo de estudos da Escandinvia* com
palavras: "Estou realmente pesarosa por Mari-            Alfhild Tamm* e Harald Schjelderup*, que re-
lyn Monroe. Sei exatamente o que voc sente,             sultaria, em 1934 -- no Congresso da Interna-
pois me aconteceu a mesma coisa com um de                tional Psychoanalytical Association* (IPA) de
meus pacientes, que tomou cianureto antes que            Lucerna --, no reconhecimento da Finsk-
eu voltasse dos Estados Unidos h alguns anos.           Svenska Psykoanalytika Frening (Sociedade
Repassa-se tudo na cabea, sem parar, a fim de           Fino-Sueca de Psicanlise). Tornou-se membro
descobrir o que se poderia ter feito de melhor e         desta em 1935.
isso traz um terrvel sentimento de derrota. Mas,           Em 1933, redigiu a primeira obra de inicia-
voc sabe, penso que nesses casos somos ver-             o  psicanlise* em lngua finlandesa. Contri-
                                                         buiu tambm para implantar as idias freudia-
dadeiramente vencidos por algo mais forte do
                                                         nas nos meios literrios finlandeses.
que ns e contra o qual a anlise, apesar de seu
poder,  uma arma fraca demais."                          Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psychoa-
                                                         nalyse. Die Mitglieder der Psychologischen Mittwoch-Ge-
 Jean-Paul Sartre, Freud, alm da alma (Paris, 1984),   sellschaft und der Wiener Psychoanalytischen Vereini-
Rio de Janeiro, N. Fronteira, 1987, 2 ed.  Elisabeth   gung von 1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992.
                                                L
Lacan, Jacques, n Jacques-Marie                           complexes familiaux), outro, "L'tourdit", foi
(1901-1981)                                                publicado na revista Scilicet, fundada por La-
psiquiatra e psicanalista francs                          can. Enfim, duas entrevistas foram realizadas,
    Dentre os grandes intrpretes da histria do           uma por Robert Georgin para a Rdio Televiso
freudismo*, Jacques Lacan foi o nico a dar               Belga ("Radiophonie"), outra por Jacques-
obra freudiana uma estrutura filosfica e a tir-          Alain Miller, para um filme do servio de pes-
la de seu ancoramento biolgico, sem com isso              quisas da ORTF, realizado por Benot Jacquot
cair no espiritualismo. O paradoxo dessa inter-            (Tlvision). Jacques Lacan escreveu apenas
pretao inovadora nica  que ela reintroduziu            um livro, sua tese de medicina de 1932 publi-
na psicanlise* o pensamento filosfico ale-               cada sob o ttulo Da psicose paranica em suas
mo, do qual Sigmund Freud* se tinha volun-                relaes com a personalidade, na qual relatou
tariamente afastado. Essa poderosa contribui-              o caso de Marguerite Anzieu*.
o fez de Lacan o nico verdadeiro mestre da                  Seus outros artigos, assim como suas nume-
psicanlise na Frana*, o que lhe valeu muita              rosas intervenes em colquios ou na cole
hostilidade. Mas se alguns de seus ferozes ad-             Freudienne de Paris* (EFP) esto dispersos em
versrios foram injustos, ele se prestou  crtica         vrias revistas. Sua correspondncia  quase
ao cercar-se de discpulos pedantes, que contri-           inexistente: 247 cartas recenseadas por lisa-
buram para obscurecer um ensino certamente                beth Roudinesco em 1993. A obra de Lacan est
complexo e muitas vezes enunciado em uma                   traduzida em 16 lnguas, e Jol Dor realizou a
lngua barroca e sofisticada, mas perfeitamente            melhor bibliografia do conjunto de ttulos, pu-
compreensvel (pelo menos at 1970).                       blicados e inditos.
    Lacan sofria de inibies na escrita e preci-              Jacques Lacan reinterpretou quase todos os
sou de ajuda para publicar seus textos e trans-            conceitos freudianos, assim como os grandes
crever o famoso seminrio pblico, que se rea-             casos (Herbert Graf*, Ida Bauer*, Serguei
lizou de 1953 a 1979. Nove seminrios entre                Constantinovitch Pankejeff*, Ernst Lanzer* e
vinte e cinco foram "estabelecidos" e publica-             Daniel Paul Schreber*) e acrescentou ao corpus
dos por seu genro, Jacques-Alain Miller, entre             psicanaltico sua prpria conceitualidade.
1973 e 1995. O vigsimo sexto seminrio, do                    Existem dois dicionrios dos conceitos laca-
ano 1978-1979,  "silencioso", pois Lacan no              nianos: um em ingls, realizado por Dylan
mais podia falar.                                          Evans, outro em espanhol, por Ignacio Garate
    Jacques Lacan redigiu cerca de 50 artigos,             e Jos Miguel Marinas. Alguns dos mais belos
em geral oriundos de conferncias: 34 deles, os            comentrios da obra de Lacan foram escritos
mais importantes, foram reunidos pelo editor               por filsofos: Louis Althusser (1918-1990),
Franois Wahl em 1966, em uma imponente                    Jacques Derrida, Christian Jambet, Jean-
obra de 900 pginas, intitulada crits,  qual se          Claude Milner e Bernard Sichre.
devem acrescentar as "variantes" realizadas em                 Nascido em Paris, em 14 de abril de 1901,
1994 por Angel de Frutos Salvador. Um grande               em uma famlia de fabricantes de vinagres de
artigo de Lacan, publicado em 1938, foi editado            Orlans (os Dessaux), Jacques-Marie mile La-
em livro por Jacques-Alain Miller em 1984 (Les             can pertencia  mdia burguesia catlica e
                                                     445
446     Lacan, Jacques

conservadora. Como se fizera com seus outros        nosa (Marguerite Anzieu), da qual fez um caso
irmos, acrescentou-se ao seu nome o da Vir-        de parania* de auto-punio (o caso Aime).
gem Maria. Progressivamente, renunciaria a es-          Magnfica sntese de todas as aspiraes
se nome, nos diversos textos escritos no perodo    freudianas e anti-organicistas da nova gerao
entre-guerras. Seu pai, Alfred Lacan (1873-         psiquitrica francesa dos anos 1920, esse traba-
1960) era um homem fraco, esmagado pelo             lho foi imediatamente considerado uma obra-
poder de seu prprio pai, mile Lacan (1839-        prima por Ren Crevel (1900-1935), Salvador
1915). Quanto  sua me, milie Baudry (1876-       Dal (1904-1989) e Paul Nizan (1905-1940),
1948), mais intelectual, era inteiramente volta-    principalmente, que apreciaram a utilizao fei-
da para a religio. Esse clima familiar, at mes-   ta por Lacan dos textos romanescos da paciente
mo banal, horrorizava o jovem Lacan.                e da fora doutrinria de sua posio quanto 
    Depois dele, viriam uma irm, Madeleine,        loucura* feminina. No ano seguinte, na revista
nascida em 1903, um irmo, Raymond, morto           Le Minotaure, Lacan dedicou um artigo ao
na infncia e enfim Marc-Franois (1908-            crime cometido em Mans por duas domsticas
1994), que teria por ele grande afeio. Em         (as irms Papin) contra suas patroas. Viu nesse
1929, Marc-Franois se tornou monge benedi-         ato, de uma intensa selvageria, uma mistura de
tino e entrou para a abadia de Hautecombe,          delrio a dois, de homossexualidade* latente,
situada s margens do lago do Bourget.              mas antes de tudo o surgimento de uma reali-
    Depois de estudos no Colgio Stanislas, La-     dade inconsciente que escapava s prprias
                                                    protagonistas. Desse drama Jean Genet (1910-
can rompeu com o catolicismo. Com a idade de
                                                    1986) tirou uma pea, Les Bonnes, e Claude
16 anos, admirava a tica de Baruch Spinoza
                                                    Chabrol um filme, sessenta anos depois, La
(1632-1677). Um ano depois, voltou-se para o
                                                    Crmonie.
nietzschesmo, e durante algum tempo ficou
                                                        Se era estimado como um brilhante intelec-
fascinado com Charles Maurras (1868-1952),
                                                    tual fora dos meios psicanalticos franceses,
cujo estetismo e gosto pela lngua adotou. En-
                                                    Lacan sofreu por no ser reconhecido pela So-
fim, interessou-se pela vanguarda literria. Al-
                                                    ciedade Psicanaltica de Paris (SPP), na qual
fred Lacan, que desejava que seu filho mais         seus trabalhos no eram levados em conta e seu
velho assumisse a sucesso de seus negcios e       anticonformismo causava irritao.
desse um impulso decisivo ao comrcio de mos-           Sua anlise com Loewenstein durou seis
tarda, no compreendia nem aprovava sua evo-        anos e meio, e acabou com um fracasso e um
luo. Quanto a milie Lacan, ignorava tudo         desentendimento duradouro entre ambos. Fi-
sobre a vida que o filho levava, fora dos cami-     nalmente, graas  interveno de douard Pi-
nhos da religio e do conformismo burgus.          chon*, Lacan foi titularizado em 1938. Pichon
    Na Paris dos anos 1920, este aspirava          reconhecia seu gnio e queria fazer dele, apesar
glria, comparava-se a Rastignac, freqentava       de seu hegelianismo, o herdeiro de uma tradio
a livraria de Adrienne Monnier e os surrealistas,   "francesa" do freudismo. Lacan nunca obede-
assistia com entusiasmo  leitura pblica do        ceria a essa injuno.
Ulisses de James Joyce (1882-1941), ligando-            Em 1934, casou-se com Marie-Louise Blon-
se a escritores e poetas. Tornando-se residente     din (1906-1983), irm de seu amigo Sylvain
no Hospital Sainte-Anne, onde foi aluno de          Blondin (1901-1975), apelidada Malou. A via-
Henri Claude* ao mesmo tempo que seu amigo          gem de npcias foi na Itlia*. Pela primeira vez,
Henri Ey*, orientou-se para a psiquiatria,          Lacan descobriu com encantamento a cidade de
seguindo os ensinamentos de Georges Heuyer          Roma, pela qual se apaixonou, como Freud.
(1884-1977), Georges Dumas (1866-1946) e            Mas a cidade antiga lhe interessava menos do
Gatan Gatian de Clrambault*, cujo estilo          que a Roma catlica e barroca. Durante horas,
deixaria nele uma forte marca. Em junho de          contemplou os xtases de Bernini e a arquitetura
1932, comeou sua anlise didtica* com Ru-         das igrejas e dos monumentos.
dolph Loewenstein* e, no fim do ano, publicou           Desde o incio, o casamento foi insatisfat-
sua tese sobre a histria de uma mulher crimi-      rio. Malou acreditara ter-se casado com um
                                                                             Lacan, Jacques        447

homem perfeito, cuja fidelidade conjugal es-         (1898-1956) e Erwin Piscator (1893-1966). A
taria  altura de seus sonhos de felicidade. Ora,    irm mais velha de Sylvia, Bianca, se casou
Lacan no era esse homem, nem nunca seria.           com o poeta surrealista Theodor Frankel, a mais
Trs filhos nasceram: Caroline (1937-1973),          nova, Rose, com Andr Masson (1896-1987) e
Thibaut, Sibylle.                                    a terceira, Simone, com Jean Piel, diretor da
    A partir de 1936, Lacan iniciou-se na filoso-    revista Critique.
fia hegeliana, no seminrio que Alexandre Ko-            Quando a guerra comeou, Sylvia se refu-
jve (1902-1968) dedicou  Fenomenologia do          giou na zona livre. A cada quinze dias, Lacan a
esprito. Ficou conhecendo Alexandre Koyr           visitava. Em Paris, ele interrompeu toda sua
(1892-1964), Georges Bataille (1897-1962) e          atividade pblica, recebendo apenas sua clien-
Raymond Queneau (1903-1976). Freqentou a            tela particular. Sem pertencer  Resistncia,
revista Recherches Philosophiques e participou       manifestou claramente hostilidade a todas as
das reunies do Collge de Sociologie. Desses        formas de anti-semitismo. Tinha horror do re-
anos de grande riqueza cultural e terica, tirou     gime de Vichy e de tudo o que se referisse, de
a certeza de que a obra freudiana devia ser relida   perto ou de longe,  Colaborao.
"ao p da letra" e  luz da tradio filosfica          Entretanto, era principalmente com sua vida
alem.                                               privada que ele se preocupava durante os dois
    Em 1936, cruzou pela primeira vez a histria     primeiros anos de guerra. Em setembro de
do freudismo internacional indo a Marienbad          1940, Lacan encontrou-se em uma situao
para o Congresso da International Psychoana-         insustentvel. Anunciou  sua mulher legtima,
lytical Association* (IPA). Nesse congresso,         que estava grvida de oito meses, que Sylvia,
apresentou uma exposio sobre o estdio do          sua companheira, tambm esperava um filho.
espelho*. Mas Ernest Jones cortou-lhe a pala-        Malou pediu o divrcio imediatamente e foi em
vra apenas com dez minutos de sua exposio.         plena crise de depresso que deu  luz, a 26 de
Foi em seguida para Berlim assistir aos Jogos        novembro, uma menina  qual deu o nome de
Olmpicos. O triunfo do nazismo* provocou            Sibylle. "Quando eu nasci, escreveria esta em
nele um sentimento de repugnncia.                   1994, meu pai no estava mais conosco. At
    Em 1938, a pedido de Henri Wallon (1879-         poderia dizer que, quando fui concebida, ele j
1962) e de Lucien Febvre (1878-1956), fez um         estava em outro lugar [...]. Sou o fruto do deses-
balano sombrio das violncias psquicas pr-        pero. Alguns diro que sou fruto do desejo, mas
prias da famlia burguesa em um verbete da           no creio nisso." Oito meses depois, em 3 de
Encyclopdie franaise. Constatando que a psi-       julho de 1941, Sylvia deu  luz a quarta dos
canlise nascera do declnio do patriarcado*,        filhos de Lacan, Judith, registrada com o sobre-
Lacan apelava para a revalorizao de sua fun-       nome de Bataille. S poderia usar o nome do
o simblica no mundo ameaado pelo fascis-         pai em 1964. Essa impossibilidade de transmitir
mo.                                                  o sobrenome seria uma das determinaes in-
    Desde 1937, apaixonou-se por Sylvia Ma-          conscientes da elaborao do conceito lacania-
kls-Bataille (1908-1993). Separada nessa po-       no de Nome-do-Pai*.
ca de Georges Bataille mas continuando a ser             No incio do ano de 1941, Lacan instalou-se
sua esposa, atuou em um filme de Jean Renoir         na rue de Lille n 5. Ficaria ali at a morte. Em
(1894-1979), Une partie de campagne. Era me         dezembro, seu casamento com Marie-Louise
de uma menina, Laurence Bataille (1930-              Blondin foi desfeito por divrcio e em 1943
1986), que se tornaria uma notvel psicanalista.     Sylvia se instalou no n 3 da mesma rua com
    Proveniente de uma famlia judia romena,         suas duas filhas, Laurence e Judith. Em julho
Sylvia Bataille integrou-se  alegre equipe do       de 1953, divorciada de Georges Bataille desde
grupo Octobre, com Jacques-Bernard Brunius,          agosto de 1946, casou-se com Lacan, na prefei-
Raymond Bussires e Joseph Kosma. Sob a              tura de Tholonet, perto de Aix-en-Provence.
direo de Jacques (1900-1977) e Pierre Pr-         Durante muitos anos, a pedido de Malou, Lacan
vert, os outubristas procuravam renovar o teatro     no revelaria aos filhos de seu primeiro casa-
popular, inspirando-se em Bertolt Brecht             mento a existncia do segundo lar, onde criava
448     Lacan, Jacques

duas filhas, a sua e a de Bataille. Essa confuso       Em 1951, Lacan comprou uma casa de cam-
teria conseqncias dramticas para as duas         po, a Prvt, situada em Guitrancourt, a cerca
famlias.                                           de cem quilmetros de Paris. Retirava-se para
    "Lacan no tinha absolutamente, como ob-        l aos domingos, para trabalhar e tambm para
jetivo, reinventar a psicanlise, escreveu Jac-     receber seus pacientes ou dar recepes. Ado-
ques-Alain Miller. Pelo contrrio, situou o co-     rava fazer teatro para os amigos, fantasiar-se,
meo de seu ensino sob o signo de um `retorno       danar, divertir-se e s vezes usar roupas extra-
a Freud'; apenas perguntou, a respeito da psica-    vagantes. Nessa casa, colecionou um nmero
nlise: sob que condio ela  possvel?" Em        considervel de livros que, ao longo dos anos,
1950, Lacan comeou esse retorno aos textos de      formaram uma imensa biblioteca, cuja simples
Freud, baseando-se, ao mesmo tempo, na filo-        consulta demonstra o tamanho de sua paixo
sofia heideggeriana, nos trabalhos da lings-      pelo trabalho intelectual. Em um cmodo que
tica saussuriana e nos de Lvi-Strauss. Da pri-     dava para o jardim, organizou um escritrio
meira, adotou um questionamento infinito so-        repleto de objetos de arte. No jirau que domina-
bre o estatuto da verdade, do ser e de seu des-     va a pea nica, pendurou o famoso quadro de
velamento; da lingstica, extraiu sua concep-      Gustave Courbet (1819-1877) A origem do
o do significante* e de um inconsciente*          mundo, que comprou a conselho de Bataille e
organizado como uma linguagem; do pensa-            de Masson.
mento de Lvi-Strauss deduziu a noo de sim-           Como todos os outros pases, depois da
blico*, que utilizou em uma tpica* (simbli-      Segunda Guerra Mundial, a Frana freudiana
co, imaginrio*, real*: S.I.R.), assim como uma     entrou na era dos conflitos, das crises e das
releitura universalista da interdio do incesto*   controvrsias. A primeira ciso* francesa se
e do complexo de dipo*.                            produziu em 1953, e se desenrolou em torno da
    Revalorizando o inconsciente e o isso*, em      criao de um novo instituto de psicanlise e da
detrimento do eu*, Lacan atacou uma das gran-       questo da anlise leiga*. Tendo como lder
de correntes do freudismo, a Ego Psychology*,       Sacha Nacht*, os adeptos da ordem mdica se
da qual seu ex-analista se tornara um dos repre-    opunham aos universitrios liberais, que cerca-
sentantes, e que ele assimilava a uma verso        vam Daniel Lagache* e defendiam os alunos do
edulcorada e adaptativa da mensagem freudia-        instituto, revoltados com o autoritarismo de
na. Chamava-a de "psicanlise americana" e lhe      Nacht.
opunha a peste*, isto , uma viso subversiva           Contestado, ao longo dessa crise, pela sua
da teoria freudiana, centrada na prioridade do      prtica das sesses de durao varivel (ou ses-
inconsciente. Como fizera no perodo entre-         ses curtas), que questionavam o ritual da du-
guerras, Lacan continuou ento a estabelecer        rao obrigatria (45-50 minutos), imposto pe-
fortes relaes fora do meio psicanaltico: com     los padres da IPA, Lacan ficou do lado dos
Roman Jakobson (1896-1982), Claude Lvi-            universitrios. Certamente, mostrava-se favo-
Strauss, Maurice Merleau-Ponty (1908-1961).         rvel  anlise leiga, mas no compartilhava
Graas a Jean Beaufret (1907-1982), de quem         nenhuma das teses de Lagache sobre a psicolo-
era analista, encontrou-se com Martin Heideg-       gia clnica*. Recusando qualquer idia de as-
ger (1889-1976).                                    similao da psicanlise a uma psicologia qual-
    Na SPP, Lacan atraiu muitos alunos, fasci-      quer, considerava os estudos de filosofia, de
nados pelo seu ensino e desejosos de romper         letras ou de psiquiatria como as trs melhores
com o freudismo acadmico da primeira gera-         vias de acesso  formao dos analistas. Reatou
o francesa. Comeou ento a ser reconhecido       assim com o programa projetado por Freud,
ao mesmo tempo como didata e como clnico.          quando do congresso da IPA em Budapeste, em
Seu senso agudo da lgica da loucura*, sua          1918.
abordagem original do campo das psicoses* e             Violentamente hostil a Lacan e impres-
seu talento lhe valeram, ao lado de Franoise       sionada com a agitao de seus alunos, Marie
Dolto*, um lugar especial aos olhos da jovem        Bonaparte*, mesmo favorvel  anlise leiga,
gerao psiquitrica e psicanaltica.               deu apoio ao grupo de Nacht, provocando assim
                                                                           Lacan, Jacques        449

a partida dos liberais e da grande maioria dos      IPA. A partir de 1953, iniciaram-se negociaes
alunos. Lagache fundou ento a Sociedade            com a executiva central, para que esse segundo
Francesa de Psicanlise (SFP, 1953-1963), for-      grupo francs fosse filiado. Nessa poca, nin-
mada por Lacan, Dolto, Juliette Favez-Bouto-        gum pensava em se emancipar da legitimidade
nier*, e pelos principais representantes da ter-    freudiana, muito menos Lacan. Apoiados por
ceira gerao psicanaltica francesa: Didier An-    ele, Granoff, Leclaire e Perrier formaram uma
zieu, Jean Laplanche, Jean-Bertrand Pontalis,       "trica", cuja tarefa era negociar a reintegrao
Serge Leclaire*, Franois Perrier*, Daniel          da SFP. Depois de anos de discusso e intercm-
Wildlcher, Jenny Aubry*, Octave Mannoni*,          bio, o comit executivo da IPA recusou a Lacan
Maud Mannoni e Moustapha Safouan.  exce-           e a Dolto o direito de formar didatas. As razes
o de Wladimir Granoff, todos estavam (ou          dessa recusa eram complexas. Lacan era acusa-
tinham estado) em anlise ou em superviso*         do de transgresso das regras tcnicas, princi-
com Lacan. Quando do primeiro congresso da          palmente das que determinavam a durao das
SFP, que se realizou em Roma em setembro de         sesses. Quanto a Dolto, o problema era, em
1953, Lacan fez uma notvel interveno,            parte, sua maneira de praticar a psicanlise de
"Funo e campo da fala e da linguagem na           crianas*, mas tambm sua formao didtica:
psicanlise" (ou "Discurso de Roma"), na qual       nessa poca, os alunos de Ren Laforgue* fo-
exps os principais elementos de seu sistema de     ram convidados a fazer uma nova anlise.
pensamento, provenientes da lingstica es-             A segunda ciso ("excomunho", como di-
trutural e de influncias diversas, oriundas da     ria Lacan) do movimento psicanaltico ocorreu
filosofia e das cincias. Elaborou vrios concei-   durante o inverno de 1963. Foi vivida como um
tos (sujeito, imaginrio, simblico, real, signi-   desastre por todos os membros da SFP, tanto
ficante), que desenvolveria ao longo dos anos       pelos alunos quanto pelos negociadores: Le-
enriquecendo-os com novas formulaes clni-        claire, Lacan, Granoff, Perrier, e Pierre Turquet
cas e depois lgico-matemticas: foracluso*,       pela Gr-Bretanha*.
Nome-do-Pai, matema*, n borromeano*,                   Em 1964, a SFP foi dissolvida e Lacan fun-
sexuao*.                                          dou a cole Freudienne de Paris (EFP), enquan-
    Graas a seu amigo Jean Delay*, obteve um       to a maioria de seus melhores alunos se posi-
anfiteatro no Hospital Sainte-Anne. Durante         cionou ao lado de Lagache, na Associao Psi-
dez anos, duas vezes por ms, realizou ali seu      canaltica da Frana (APF), reconhecida pela
seminrio, comentando sistematicamente todos        IPA. Obrigado a deslocar seu seminrio, Lacan
os grandes textos do corpus freudiano e dando       foi acolhido, graas  interveno de Louis
assim origem a uma nova corrente de pensa-          Althusser, em uma sala da cole Normale Su-
mento: o lacanismo*. O "Discurso de Roma"           prieure (ENS), na rue d'Ulm, onde pde pros-
foi publicado no primeiro nmero de La Psy-         seguir seu ensino.
chanalyse, revista da SFP. A cada ano, Lacan            Em um artigo de 1964, Althusser fez um
daria a essa revista o texto de suas melhores       belo retrato de Lacan, bastante preciso. Apreen-
conferncias, que eram uma espcie de resumo        deu muito bem suas grandezas e fraquezas, seu
dos temas do seminrio. Tambm publicaria           rigor terico, sua dor nos combates: "Da a
nela artigos de Martin Heidegger, mile             paixo contida, escreveu ele, a conteno
Benveniste, Jean Hyppolite (1907-1968) e mui-       apaixonada da linguagem de Lacan, que s
tos outros.                                         pode viver e sobreviver em estado de alerta e
    Durante dez anos, o ensino de Lacan deu         preveno. Linguagem de um homem as-
 comunidade freudiana francesa um desenvol-        sediado e condenado, pela fora esmagadora
vimento considervel: "nossos mais belos            das estruturas e das corporaes, a prever seus
anos", diriam os ex-combatentes desse grupo         golpes, a pelo menos fingir que responde a eles
em crise e desse movimento em busca de reco-        antes de receb-los, desencorajando assim o
nhecimento.                                         adversrio de abat-lo sob os seus [...]. Tendo
    Ao deixar a SPP, os fundadores da SFP           que ensinar a teoria do inconsciente a mdicos,
tinham perdido, sem se dar conta, sua filiao     analistas ou analisados, Lacan lhes d, na ret-
450     Lacan, Jacques

rica de sua fala, o equivalente mimtico da        que na editora lhe aconselharam reunir tudo em
linguagem do inconsciente, que , como todos       um nico grosso volume [...]. Voc ver, disse
sabemos, em sua essncia ltima, Witz, trocadi-    ele, fazendo um gesto com a mo, vai soltar."
lho, metfora, bem ou malsucedida: o equiva-       Lacan voltou aos Estados Unidos em 1976, para
lente da experincia vivida em sua prtica, seja   fazer uma srie de conferncias nas universi-
ela de analista ou de analisado."                  dades da costa leste. A leitura de sua obra ficaria
    Na ENS, Lacan conquistou um novo audit-       limitada aos intelectuais, s feministas e aos
rio, uma parte da juventude filosfica francesa,   professores de literatura francesa.
 qual Althusser confiou o cuidado de trabalhar        Confrontado com o gigantismo da EFP, La-
seus textos. Entre eles, encontrava-se Jacques-    can tentou resolver os problemas de formao
Alain Miller, que se casou com Judith Lacan em     com a introduo do passe*, novo procedimen-
1966. Tornou-se redator dos seminrios do so-      to de acesso  anlise didtica. Aplicado a partir
gro, seu executor testamentrio e o iniciador, a   de 1969, provocou a partida de um grupo de
partir de 1975, de uma corrente neolacaniana no    analistas oponentes (Perrier, Piera Aulagnier*,
prprio interior da EFP.                           Jean-Paul Valabrega), que formaram uma nova
    Em 1965, com o estmulo de Franois Wahl,      escola: a Organizao Psicanaltica de Lngua
Lacan fundou a coleo "Champ Freudien" nas        Francesa (OPLF) ou Quarto Grupo. Essa ciso,
ditions du Seuil e, no ano seguinte, em 15 de     a terceira da histria do movimento francs,
dezembro de 1966, publicou os Escritos. A obra     marcou a entrada da EFP em uma crise ins-
mostrava os vestgios de sua difcil elaborao:   titucional que resultou em sua dissoluo a 5 de
reescrita do prprio Lacan, correes mltiplas    janeiro de 1980, e depois na disperso do mo-
de Wahl, comentrios de Miller. Lacan recebeu      vimento lacaniano em cerca de vinte as-
enfim a consagrao esperada e merecida:           sociaes.
5.000 exemplares foram vendidos em 15 dias,            Em 1974, Lacan dirigiu, na Universidade de
antes mesmo que aparecessem resenhas na im-        Paris-VIII, no departamento de psicanlise,
prensa. Mais de 50.000 exemplares foram ven-       fundado por Serge Leclaire em 1969, um ensino
didos na edio comum e a venda da edio de       do "Campo freudiano", cuja responsabilidade
bolso bateria todos os recordes para um conjun-    confiou a Jacques-Alain Miller. Encorajou en-
to de textos to difceis: mais de 120.000 exem-   to a transformao progressiva de sua doutrina
plares o primeiro volume, mais de 55.000 o         em um corpo de doutrina fechado, enquanto
segundo. Doravante, Lacan seria reconhecido,       trabalhava para fazer da psicanlise uma cincia
celebrado, odiado ou admirado como um pen-         exata, baseada na lgica do matema* e na topo-
sador de envergadura, e no mais apenas como       logia dos ns borromeanos*.
um mestre da psicanlise. Sua obra seria lida e        Atingido por distrbios cerebrais e por uma
comentada por inmeros filsofos, entre os         afasia parcial, Lacan morreu em 9 de setembro
quais Michel Foucault (1926-1984) e Gilles         de 1981, na Clnica Hartmann de Neuilly, de-
Deleuze (1925-1995).                               pois da ablao de um tumor maligno do clon.
    Antes mesmo do aparecimento do seu opus            Certo dia, quando conversava com sua ami-
magnum, Lacan foi aos Estados Unidos*,             ga Maria Antonietta Macciocchi, Lacan lhe fez
convidado para o simpsio sobre o es-              uma confidncia: "Ah, minha cara, os italianos
truturalismo organizado em outubro de 1966         so to inteligentes! Se eu pudesse escolher um
por Ren Girard e Eugenio Donato, na Univer-       lugar para morrer, seria em Roma que eu gos-
sidade Johns Hopkins, de Baltimore: "Em Bal-       taria de acabar os meus dias. Conheo todos os
timore, escreveu Derrida, ele me falou sobre       ngulos de Roma, todas as fontes, todas as
como pensava que o leriam, especialmente eu,       igrejas... Se no fosse Roma, eu me contentaria
                                                   com Veneza ou Florena: eu sou sob o signo da
depois de sua morte [...]. A outra inquietao
                                                   Itlia."
que ele me confidenciou se referia aos crits,
que ainda no tinham sido publicados, mas que       Jacques Lacan, Da psicose paranica e suas re-
logo o seriam. Lacan estava preocupado, um         laes com a personalidade (1932), Rio de Janeiro,
pouco descontente, pareceu-me, com aqueles         Forense Universitria, 1987; Os complexos familiares
                                                                                                 lacanismo          451

(1938), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987; Escritos           rate e Jos Miguel Marinas, Lacan en castellano, Ma-
(Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998; "Ra-        dri, Quipu Ediciones, 1996  Wladimir Granoff, "Entre-
diophonie", Scilicet, 203, 1970, 55-99; "L'tourdit", Sci-    tien sur Jacques Lacan: le fil russe", L'Infini, 57, prima-
licet, 4, 1973, 5-52; Televiso (Paris, 1974), Rio de         vera de 1997.
Janeiro, Jorge Zahar, 1993; O Seminrio, 25 livros
(1953-1979), 9 publicados: 1, Os escritos tcnicos de          ASSOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE;
Freud (1953-1954), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979;         BEIRNAERT, LOUIS; BION, WILFRED RUPRECHT;
2, O eu na teoria de Freud e na tcnica da psicanlise        BOUVET, MAURICE; CHISTES E SUA RELAO COM
(1954-1955), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985; 3, As
                                                              O INCONSCIENTE, OS; CRIMINOLOGIA; DESEJO; DI-
psicoses (1955-1956), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
1988, 2 ed.; 4, A relao de objeto (1956-1957), Rio         FERENA SEXUAL; FANTASIA; GOZO; GUATTARI, F-
de Janeiro, Jorge Zahar, 1995; 7, A tica da psicanlise      LIX; HARTMANN, HEINZ; IGREJA; JAPO; KLEINISMO;
(1959-1960), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995, 2 ed;        KOHUT, HEINZ; MASOTTA, OSCAR; PSICOPATO-
8, A transferncia (1960-1961), Rio de Janeiro, Jorge         LOGIA DA VIDA COTIDIANA, A; SELF PSYCHOLOGY;
Zahar, 1992; 11, Os quatro conceitos fundamentais da          SEXUALIDADE FEMININA; TCNICA PSICANALTICA.
psicanlise (1964), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995,
2 ed.; 17, O avesso da psicanlise (1969-1970), Rio
de Janeiro, Jorge Zahar, 1992; Mais, ainda (1972-
1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989 2 ed.  Louis       lacanismo
Althusser, "Freud et Lacan", in crits sur la psychana-       al. Lacanianismus; esp. lacanismo; fr. lacanisme;
lyse, Paris, Stock, 1993, 15-53  Anika Lemaire, Jac-
                                                              ing. Lacanianism
ques Lacan (1969), Bruxelas, Pierre Mardaga, 1977 
Guy Lardreau e Christian Jambet, L'Ange, Paris, Gras-             Na histria do movimento psicanaltico,
set, 1976  Jacques-Alain Miller, "Jacques Lacan"             chama-se lacanismo a uma corrente representa-
(1979), Ornicar?, 24, outono de 1981, 35-44  Bernard         da pelos diversos partidrios de Jacques La-
Sichre, Le Moment lacanien, Paris, Grasset, 1983 
                                                              can*, sejam quais forem suas tendncias. Foi
Jean-Claude Milner, Les Noms indistincts, Paris, Seuil,
1983; A obra clara (Paris, 1995), Rio de Janeiro, Jorge       entre 1953 e 1963 que ganhou corpo, na Fran-
Zahar, 1996  Alain Juranville, Lacan e a filosofia (Paris,   a*, a reformulao lacaniana, que depois de-
1984), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987  Philippe           sembocou, com a criao da cole Freudienne
Julien, Pour lire Jacques Lacan (Toulouse, 1985), Pa-         de Paris* (EFP), em 1964, num vasto movimen-
ris, Seuil, col. "Points", 1995  Jol Dor, Introduo 
leitura de Lacan, 2 tomos (Paris, 1985, 1992), P. Alegre,
                                                              to institucional e, em seguida, numa nova forma
Artes Mdicas, 1992, 1996; Nouvelle bibliographie des         de internacionalizao, num rompimento defi-
travaux de Jacques Lacan, Paris, EPEL, 1994  lisa-          nitivo com a International Psychoanalytical As-
beth Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana,           sociation* (IPA). Depois da morte de Lacan, em
vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988;
                                                              1981, o lacanismo fragmentou-se numa multi-
Jacques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um
sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,                plicidade de tendncias, grupos, correntes e
Companhia das Letras, 1994  Marcelle Marini, Lacan:          escolas que formam uma poderosa nebulosa,
a trajetria do seu ensino (Paris, 1986), P. Alegre, Artes    implantada de maneiras diversas em muitos
Mdicas  Franois Roustang, Lacan, de l'quivoque           pases.
l'impasse, Paris, Minuit, 1986  Bertrand Ogilvie, La-
can. A formao do conceito de sujeito (Paris, 1987),             Tal como o annafreudismo*, o kleinismo* e
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988  John P. Muller e          vrias outras correntes externas ou internas 
William Richardson (orgs.) The Purloined Poe, Balti-          IPA, o lacanismo pertence  constelao freu-
more, The Johns Hopkins University Press, 1988               diana, na medida em que se reconhece na dou-
Pierre Rey, Uma temporada com Lacan: relato (Paris,
1989), Rio de Janeiro, Rocco, 1990  Mikkel Borch-Ja-
                                                              trina fundada por Sigmund Freud* e se dis-
cobsen, Lacan, le matre absolu, Paris, Flammarion,           tingue claramente das outras escolas de psico-
1990  Angel de Frutos Salvador, Los Escritos de Jac-         terapia* por sua adeso  psicanlise*, ou seja,
ques Lacan. Variantes textuales, Madri, Siglo XXI,            ao tratamento pela fala como lugar exclusivo do
1990  Jacques Derrida, "Pour l'amour de Lacan"               tratamento psquico, e aos grandes conceitos
(1990), in Rsistances de la psychanalyse, Paris, Ga-
lile, 1996  Judith Miller, Album Jacques Lacan. Vi-         freudianos fundamentais: o inconsciente*, a se-
sages de mon pre, Paris, Seuil, 1991  Malcolm Bo-           xualidade*, a transferncia*, o recalque* e a
wie, Lacan, Londres, Fontana, 1991  Sibylle Lacan,           pulso*.
Un pre, Paris, Gallimard, 1994  Patrick Guyomard,               Entretanto, diversamente do annafreudis-
"Jacques Lacan", in Le Nouveau dictionnaire des au-
teurs, II, Paris, Bompiani-Laffont, 1994, 1759-61  Dy-
                                                              mo*, da Ego Psychology* e da Self Psycholo-
lan Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian Psy-        gy*, o lacanismo no  uma simples corrente,
choanalysis, Londres, Routledge, 1996  Ignacio Ga-           mas uma verdadeira escola. Com efeito, cons-
452     lacanismo

tituiu-se como um sistema de pensamento, a           do eu, do ego, do self etc.), isto , introduzindo
partir de um mestre que modificou inteiramente       uma filosofia do sujeito e do ser bem no corao
a doutrina e a clnica freudianas, no s forjando   do freudismo. Alm disso, para pensar o incons-
novos conceitos, mas tambm inventando uma           ciente, apoiou-se no mais num modelo biol-
tcnica original de anlise da qual decorreu um      gico (darwinista), mas num modelo lingstico.
tipo de formao didtica diferente da do freu-          Pretendendo-se mais freudiano do que as
dismo* clssico. Nesse sentido,  comparvel         diferentes correntes do freudismo dos anos cin-
ao kleinismo, nascido dez anos antes; na ver-        qenta, e pretendendo at mesmo expuls-las
dade, aparenta-se sobretudo com o prprio freu-      em nome de um retorno  pureza originria, o
dismo, o qual reivindica em linha direta,  parte    lacanismo ocupa, portanto, um lugar nico na
os outros comentrios, leituras ou interpre-         histria da psicanlise da segunda metade do
taes da doutrina vienense.                         sculo XX. No apenas no  separvel, como
    O lacanismo acha-se, portanto, numa situa-       teoria, da obra original da qual pretende ser o
o excepcional. Lacan foi, com efeito, o nico      comentrio, como est condenado a se transfor-
dos grandes intrpretes da doutrina freudiana a      mar na prpria essncia do freudismo cuja ban-
efetuar sua leitura no para "ultrapass-la" ou      deira reergue, assimilando-o a uma revoluo
conserv-la, mas com o objetivo confesso de          permanente ou a uma peste* subversiva. Donde
"retornar literalmente aos textos de Freud". Por     o seguinte paradoxo: o lacanismo s existe por
ter surgido desse retorno, o lacanismo  uma         se constituir historicamente como um freudis-
espcie de revoluo s avessas, no um              mo e, mais ainda, como a essncia do "verda-
progresso em relao a um texto original, mas        deiro" freudismo. Por isso, s pode fundar-se
uma "substituio ortodoxa" desse texto.             acrescentando o prprio nome de Freud a sua
    Assim, o lacanismo situa-se na direo in-       trajetria e suas instituies.
versa  das outras tendncias do freudismo, em            por isso que, depois de ser expulsa da IPA,
especial de todas as suas variaes norte-ame-       lugar supremo da legitimidade freudiana, a cor-
ricanas, pejorativamente qualificadas de "psi-       rente lacaniana viu-se obrigada, a partir de
canlise norte-americana". Por esse vocbulo,        1964, a criar um novo modelo de associao,
Jacques Lacan e, depois dele, seus discpulos e      mais legtimo do que a antiga legitimidade:
herdeiros designam o neofreudismo*, o anna-          assim, chamou de escola o que era denominado
freudismo e a Ego Psychology. Todas essas            de sociedade ou associao, para expressar o
correntes remetem, segundo eles, a uma               carter platnico de sua reformulao, e se apo-
concepo "desviada" da psicanlise, isto , a       derou do adjetivo "freudiano", para deixar bem
uma doutrina centrada no eu* e esquecida do          claro que se pautava no verdadeiro mestre, e no
isso*, a uma viso adaptativa ou culturalista do     em seus herdeiros.
indivduo e da sociedade.                                No plano poltico, o lacanismo implantou-se
    O lacanismo tem em comum com o kleinis-          maciamente, exportando o modelo ins-
mo o fato de haver estendido a clnica das           titucional francs, em dois pases do continente
neuroses* a uma clnica das psicoses*, e de ter      latino-americano -- a Argentina* e o Brasil*
levado mais longe do que o freudismo clssico        --, onde, no entanto, fragmentou-se numa cen-
a interrogao sobre a relao arcaica com a         tena de grupos e tendncias, e onde coabita com
me. Nesse sentido, inscreveu a loucura* bem         um kleinismo muito poderoso no interior da
no cerne da subjetividade humana. Mas, ao            Federao Psicanaltica da Amrica Latina*
contrrio do kleinismo, perseguiu, sem aboli-la,     (FEPAL), ramo latino-americano da IPA. Ob-
a interrogao sobre o lugar do pai, a ponto de      teve uma penetrao importante na parte fran-
ver na deficincia simblica deste a prpria         cfona do Canad*. Na Europa, o lacanismo
origem da psicose. Da seu interesse pela para-      conheceu um progresso varivel, conforme os
nia*, mais do que pela esquizofrenia*. Por          diferentes pases. Foi na Frana que se implan-
outro lado, o lacanismo procedeu a uma com-          tou melhor. Na dcada de 1990, recensearam-se
pleta reformulao da metapsicologia* freudia-       cerca de cinqenta grupos e escolas, dis-
na, inventando uma teoria do sujeito* (distinto      tribudos pela totalidade do territrio.
                                                                         Lafora, Gonzalo Rodriguez            453

    O legitimismo lacaniano  encarnado, na                Elizabeth Whrigt (org.), Feminism and Psychoanalysis.
                                                           A Critical Dictionary, Oxford, Basil Blackwell, 1992 
Frana, por Jacques-Alain Miller, executor tes-
                                                           Pierre Kaufmann (org.), Dicionrio enciclopdico de
tamentrio e genro de Jacques Lacan.  ele                 psicanlise: o legado de Freud e Lacan (Paris, 1993),
quem dirige, alm disso, a internacional laca-             Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996  Jean-Louis Hen-
niana, a Association Mondiale de Psychana-                 rion, La Cause du dsir. L'Agalma de Platon  Lacan,
lyse* (AMP).                                               Paris, Point Hors Ligne, 1993  Jean-Claude Milner, A
                                                           obra clara. Lacan, a cincia, a filosofia (Paris, 1995),
    Fora da Frana, da Espanha e dos pases da             Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997  Bruce Fink, O
Amrica Latina, e especialmente nos pases                 sujeito lacaniano: entre a linguagem e o gozo (N.
anglfonos (Estados Unidos*, Gr-Bretanha*,                Jersey, 1965), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998 
Austrlia*), o lacanismo pouco se expandiu.                Dylan Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian
                                                           Psychoanalysis, Londres, Routledge, 1996  Ignacio
Mas, em alguns casos, desenvolveu-se na uni-               Garate e Jos Miguel Marinas, Lacan en Castellano,
versidade, nos departamentos de filosofia e li-            Madri, Quipu Ediciones, 1996.
teratura, onde a obra de Lacan  ensinada e
comentada, independentemente de qualquer                    AUBRY, JENNY; CISO; DOLTO, FRANOISE; FO-
formao psicanaltica.  o que acontece em                RACLUSO; GOZO; HISTRIA DA PSICANLISE; IMA-
muitas universidades norte-americanas.                     GINRIO; JAPO; LECLAIRE, SERGE; MATEMA; N
                                                           BORROMEANO; NOME-DO-PAI; OBJETO (PEQUENO)
    Quando comeou a se implantar como m-
                                                           a; PERRIER, FRANOIS; QUESTO DA ANLISE LEI-
todo clnico, por volta de 1970, o lacanismo
                                                           GA, A; REAL; SEXUALIDADE FEMININA; SIGNIFICAN-
enveredou no mundo inteiro pelo caminho da                 TE; SIMBLICO; TCNICA PSICANALTICA.
psicologia clnica*, assim se tornando, frente a
um freudismo amplamente medicalizado, o ins-
trumento de uma expanso da anlise leiga* no              Lafora, Gonzalo Rodriguez
campo das diversas escolas de psicoterapia e,              (1886-1971)
em alguns casos, at no interior da IPA.                   psiquiatra espanhol
     interessante notar que emergiram cor-                    Nascido em Madri, Gonzalo Rodriguez La-
rentes separatistas a partir de 1990, tendendo a           fora foi um dos introdutores das teses freudia-
fazer do lacanismo um movimento externo ao                 nas na Espanha*. Formado em psiquiatria em
freudismo, embora sem renegar este ltimo.                 Berlim, Paris e Munique, publicou em 1914
Testemunho disso , por exemplo, o primeiro                artigos favorveis  psicanlise* e fundou em
dicionrio publicado em lngua inglesa sobre o             1925 o Instituto Mdico-Pedaggico e o Sana-
assunto, em 1996. Seu ttulo e seu contedo do            trio de Carabanchel.
a entender que existiria uma "psicanlise laca-                Como muitos psiquiatras pelo mundo,
niana" (coisa que Lacan jamais desejou).                   contribuiu para divulgar a psicanlise, abordan-
    Assim como o kleinismo, o lacanismo gerou              do-a de maneira crtica. Acusava Sigmund
um fenmeno de idolatria do mestre fundador,               Freud* pelo que se convencionou chamar de
uma hagiografia, um dogmatismo especfico e                pansexualismo*, pelo carter dogmtico de sua
algumas "smulas" que fazem o inventrio de                teoria, que devia, segundo ele, ser reexaminado
seus conceitos e sua histria.                              luz da experincia e considerava a psicanlise
                                                           uma psicoterapia* entre outras, comparando-a
 Bice Benvenuto e Roger Kennedy, The Work of Jac-
ques Lacan, Londres, Free Association Books, 1986         at  confisso.
Jol Dor, Introduo  leitura de Lacan, 2 tomos (Paris,       Em 1923, fez em Buenos Aires conferncias
1985, 1992), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992, 1996;         de divulgao, que contriburam fortemente pa-
Nouvelle bibliographie des travaux de Jacques Lacan,       ra a difuso da obra freudiana na Argentina*.
Paris, EPEL, 1994  lisabeth Roudinesco, Histria da
psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de
                                                               Em 1938, fugindo do regime franquista, exi-
Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jacques Lacan. Esboo          lou-se no Mxico e s voltou  Espanha no fim
de uma vida, histria de um sistema de pensamento          de sua vida.
(Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994 
Slavoj Zizek, Looking Awry. An Introduction to Lacan        Gonzalo Rodriguez Lafora, "Teoria psicoanalitica de
through Popular Culture, Boston, Massachusetts Uni-        Freud", Revista de Medicina y Ci. Praticas, 116, 3, 1917
versity Press, 1991  Judith Miller, Album Jacques          Francisco Carles Egea, La introduccin del psicoan-
Lacan. Visages de mon pre, Paris, Seuil, 1991            lisis en Espaa (1893-1922), tese para a obteno do
454      Laforgue, Ren

grau de doutor em medicina, Universidade de Murcia,       dente em um hospital psiquitrico de Es-
1983  Hugo Vezzetti, "Psychanalyse et psychiatrie 
                                                          trasburgo. Ali, revelou-se um notvel clnico da
Buenos Aires", L'Information Psychiatrique, 4, abril de
1989, 398-411.                                            esquizofrenia*. Defendeu uma tese sobre esse
                                                          tema, iniciando-se nos trabalhos da escola de
 ORTEGA Y GASSET, JOS.                                   Zurique: Eugen Bleuler*, Carl Gustav Jung*.
                                                              Em 1922, casou-se com Paulette Erikson,
                                                          filha de um farmacutico de Colmar. Com ela,
Laforgue, Ren (1894-1962)                                foi instalar-se em Paris, onde encontrou Eug-
psiquiatra e psicanalista francs                         nie Sokolnicka*, que o analisou, assim como
                                                          Ren Allendy* e douard Pichon*. Logo reuniu
    Fundador do movimento psicanaltico
                                                           sua volta todos aqueles que se tornariam, em
francs, Ren Laforgue teve um destino to
                                                          1926, os fundadores da Sociedade Psicanaltica
tumultuado quanto a maioria dos pioneiros eu-
                                                          de Paris (SPP).
ropeus de sua gerao. Como muitos deles, sua
infncia foi difcil e ele encontrou na psican-              Nesse nterim, em 1923, Henri Claude* lhe
lise* um meio de enfrentar problemas pessoais.            confiou um posto de assistente no Hospital
Foi um notvel clnico das psicoses e um exce-            Sainte-Anne. Ali, sucedeu a Eugnie Sokol-
lente praticante do inconsciente*,  maneira de           nicka, que acabava de ser dispensada porque
Sandor Ferenczi*. Deixou tambm sua marca                 no era mdica. Comeou ento uma longa
na histria, formando um bom nmero de                    correspondncia com Sigmund Freud*, que se
psicanalistas franceses, entre os quais Franoise         prolongaria at 1937.
Dolto*, sua principal herdeira.                               Em novembro de 1925, um drama o atingiu
    Laforgue nasceu em Thann, na Alscia,                 duramente: sua mulher teve que se submeter a
quando essa provncia ainda pertencia  Alema-            uma histerectomia, que a impediu de ser me.
nha*. Da o paradoxo: o primeiro freudiano da             Laforgue tentou esconder-lhe a verdade durante
Frana* foi alemo antes de ser francs e intro-          muito tempo e enviou-a para anlise a Sokol-
duziu a psicanlise no pas mais germanfobo              nicka. Posteriormente, Paulette Erikson se tor-
da Europa, onde a doutrina vienense era consi-            naria psicanalista, depois de uma superviso
derada uma "cincia boche".                               com Heinz Hartmann*.
    Laforgue era de uma famlia modesta, mar-                 As cartas trocadas entre Freud e Laforgue
cada por problemas de filiao. Seu pai, oper-           continham muitas informaes sobre o incio do
rio gravador, no era legalmente filho de seu             movimento psicanaltico francs: criao da
prprio pai, e sua me, com tendncia  depres-           Revue Franaise de Psychanalyse e do grupo
so e ao suicdio, era filha ilegtima, cujos pais        Evoluo Psiquitrica, discusso sobre a noo
no puderam se casar por causa dos conflitos              da escotomizao, apreciao da anlise de Ma-
entre catlicos e protestantes. Assim, ela nave-          rie Bonaparte*, enviada por Laforgue a Freud.
gava entre trs religies. Mandava o filho ora               A entrada em cena da princesa na histria do
igreja catlica, ora ao culto protestante.  noite,       movimento francs foi de uma importncia
na falta de sinagoga, fazia com que ele recitasse         considervel. A partir de 1925, ajudada por
suas oraes em hebraico.                                 Rudolf Loewenstein* e adulada por Freud, ela
    Durante toda a vida, Laforgue foi um revol-           suplantou Laforgue no papel de lder desse fr-
tado. Depois de receber uma educao rgida               gil grupo parisiense, dividido em duas ten-
que no lhe convinha, foi enviado a um severo             dncias: os internacionalistas de um lado, dese-
internato, de onde fugiu. Foi em Berlim, na casa          josos de impor as regras tcnicas da Internatio-
de Franz Oppenheimer, um fisiologista reputa-             nal Psychoanalytical Association* (IPA)  for-
do, que encontrou refgio e orientou-se para a            mao didtica, os chauvinistas do outro, deci-
medicina e a psiquiatria. Em 1913, descobriu a            didos a fundar uma "psicanlise francesa", livre
doutrina vienense lendo A interpretao dos               de qualquer "germanidade".
sonhos* e, um ano depois, foi mobilizado pelo                 Laforgue no conseguiu dominar os confli-
exrcito alemo para a frente leste. Quando a             tos e perdeu progressivamente sua autoridade.
Alscia voltou a ser francesa, Laforgue foi resi-         Seu amigo douard Pichon o acusava de no
                                                                           Laforgue, Ren       455

saber exercer o comando, e seus adversrios de      graas aos vrios depoimentos dos que ele pro-
ser uma espcie de guru, obcecado por uma           tegera e principalmente porque, nessa poca,
imensa necessidade de reconhecimento, inca-         no existia prova alguma dessa estranha cola-
paz de escapar  sua neurose* de fracasso e         borao fracassada. Apesar da absolvio do
excessivamente preocupado consigo mesmo             tribunal em 1946, os boatos persistiam. Para
para fazer-se respeitar.                            seus inimigos, Laforgue se tornara um colabo-
    Depois de separar-se de Paulette Erikson em     racionista infame, ou mesmo um anti-semita.
1938, casou-se com Delia Clauzel, sua ex-pa-        Para os amigos, prontos  hagiografia, conti-
ciente. Filha de diplomata, pertencia  grande      nuava um pioneiro herico, ou mesmo um
burguesia de direita e era apaixonada por orien-    Resistente. O exame minucioso dos arquivos, e
talismo e esoterismo. Atravs dela, afastou-se      principalmente da correspondncia com G-
progressivamente do freudismo* clssico, para       ring, exumados pela primeira vez em 1986 por
voltar-se para questes espiritualistas. Para c-   lisabeth Roudinesco, mostraram que, se La-
mulo de infelicidade, Delia deu  luz, em 1942,     forgue foi maldito pelo movimento psicanalti-
uma filha deficiente, que morreria quatro anos      co, isso se deveu menos  sua pretensa colabo-
depois.                                             rao com o inimigo, da qual ningum tinha
    Foi ento que comeou o perodo mais negro      provas na poca, do que  sua prtica didtica,
da vida de Laforgue. Mobilizado para Saint-         considerada transgressora e inadaptada s nor-
Brieuc em 1939 e como sempre incapaz de             mas da IPA.
escolher o seu lado, acreditou que a vitria            Em 1950, no primeiro congresso mundial de
alem era certa e que era preciso "entender-se"     psiquiatria, organizado por Henri Ey*, Lafor-
com o inimigo para no submeter a psicanlise       gue comeou a denunciar o fanatismo das so-
ao bel-prazer dos nazistas. Enquanto o conjunto     ciedades psicanalticas. Trs anos depois, no
do movimento francs cessou toda atividade          momento da ciso de 1953, pediu demisso da
pblica, tendo alguns emigrado, outros passado      SPP, para integrar-se s fileiras da nova Socie-
para a clandestinidade, outros ainda  espera de    dade Francesa de Psicanlise (SFP), fundada
dias melhores, Laforgue fez contato com Mat-        por Daniel Lagache* e Juliette Favez-Bouto-
thias Heinrich Gring* e comeou uma impor-         nier*.
tante correspondncia com ele. Props-lhe pu-           Algum tempo depois, fugindo das querelas
blicar novamente a Revue Franaise de Psy-          parisienses, instalou-se em Casablanca, onde
chanalyse sob tutela alem e criar em Paris um      criou um pequeno crculo de discpulos no cen-
instituto "arianizado", a partir do modelo do       tro do qual ocupou o lugar de um mestre depos-
Instituto de Berlim.                                to mas admirado, dividido entre o amor ao
    A tentativa fracassou. Os nazistas desconfia-   exlio e a saudade da ptria perdida. Estudou a
vam desse freudiano da primeira hora, membro        mentalidade das populaes autctones e
da Liga Contra o Anti-Semitismo e hostil s         interessou-se pelo problema da redeno. Mas,
teses do nacional-socialismo. No vero de           principalmente, adotou as teses diferencialistas
1942, pressentindo a vitria dos Aliados, Lafor-    da psiquiatria colonial francesa, segundo as
gue mudou outra vez de orientao. Refugiado        quais a "mentalidade nativa" seria "inferior" 
em sua casa de Chabert, no sul da Frana,           ocidental, dita "civilizada", extraindo disso
protegeu judeus e fugitivos do Servio de           anlises psicopatolgicas, ao afirmar, por
Trabalho Obrigatrio (STO), facilitou a partida     exemplo, que os mtodos educativos em vigor
para o estrangeiro de Oliver Freud* e sua es-       entre os rabes favoreciam o aparecimento de
posa, e dirigiu o tratamento de Eva Freud*, filha   um "eu paranico". Compartilhava esse tipo de
do casal, que se recusou a deixar o territrio      anlise com a frao chauvinista da primeira
francs.                                            gerao francesa. Essa temtica levara, efetiva-
    Com a Libertao, conduzido diante de um        mente, Angelo Hesnard*, douard Pichon etc.,
tribunal de depurao por John Leuba (1884-         a recusar a "germanidade" das teorias freudia-
1952), novo presidente da SPP e germanfobo         nas, em nome da "francidade" das suas. Entre-
convicto, Laforgue foi imediatamente solto,         tanto, no se pode considerar Laforgue um ver-
456      Lagache, Daniel

dadeiro racista ou um anti-semita, como era seu            filosofia e a psicologia, e da sntese entre esta e
discpulo e amigo Georges Mauco*, que cola-                a psicanlise. Tornou-se assim, pela universi-
borou com o nazismo*. Laforgue morreu das                  dade, o lder de uma corrente favorvel  anlise
seqelas de uma cirurgia.                                  leiga* (ou Laenanalyse), mas que permitia,
   As obras de psicanlise aplicada* que ele               principalmente, o acesso macio dos psiclogos
dedicou a Talleyrand e a Baudelaire, assim co-              profisso de psicanalistas.
mo seus textos clnicos, foram esquecidos.                     Essa poltica levou Lagache, depois de uma
                                                           primeira ciso*, a fundar, em 1953, a Sociedade
 Ren Laforgue, Relativit de la ralit, Paris, Denol
e Steele, 1932; Psychopathologie de l'chec, Genebra,
                                                           Francesa de Psicanlise (SFP), no seio da qual
Mont-Blanc, 1963; Au-del du scientisme, Genebra,          conviveria durante dez anos com o seu maior
Mont-Blanc, 1963; Rflexions psychanalytiques, Ge-         rival: Jacques Lacan. Teriam, em 1958, um
nebra, Mont-Blanc, 1965  "La Correspondance entre         debate terico sobre a noo de personalidade.
Freud et Laforgue, 1923-1937", apresentada por Andr
Bourguignon, Nouvelle Revue de Psychanalyse, 15,
                                                           Depois de uma segunda ciso, seria co-fun-
primavera de 1977, 236-314  lisabeth Roudinesco,         dador, em 1964, da Associao Psicanaltica da
Histria da psicanlise na Frana, 2 vols. (Paris, 1982,   Frana (APF), ao lado dos psicanalistas mais
1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989, 1988; "Ren      prestigiosos da terceira gerao, entre os quais
Laforgue ou la Collaboration manque, Paris-Berlin,
1939-1942. Documents concernant l'histoire de la psy-
                                                           Didier Anzieu, Wladimir Granoff, Jean La-
chanalyse en France durant l'Occupation", Cahiers          planche, Jean-Bertrand Pontalis.
Confrontation, 16, outono de 1986, 243-78; "Rponse            Nascido em Paris, Daniel Lagache era de
 Alain de Mijolla  propos de l'affaire Laforgue", Fr-   uma famlia burguesa, originria da Picardia.
nsie, 6, 1988, 219-29; "Kollaboration? Ren Laforgue
et Matthias Heinrich Gring", Psyche, 42, dezembro de
                                                           Seu pai, advogado, morreu quando ele tinha 13
1988, 1041-80  Alain de Mijolla, "A psicanlise e os      anos e, muito jovem, sofreu com a preferncia
psicanalistas na Frana entre 1949 e 1945", Revista        da me pelo irmo mais novo. Concebeu um
Internacional da Histria da Psicanlise, 1 (1988), Rio    terrvel cime, patologia  qual iria dedicar,
de Janeiro, Imago, 1990, 147-98  Jean-Pierre Bourge-
ron, Marie Bonaparte et la psychanalyse,  travers ses
                                                           durante toda a vida, um interesse clnico.
lettres  Ren Laforgue et les images de son temps,            Em 1924, ingressou na cole Normale Su-
Genebra, Champion-Slatkine, 1993  Jalil Bennani, La       prieure, na mesma classe que Jean-Paul Sartre
Psychanalyse au pays des saints, Casablanca, Le            (1905-1980), Paul Nizan (1905-1940), Ray-
Fennec, 1996.
                                                           mond Aron (1905-1983) e Georges Cangui-
 ANTROPOLOGIA; BJERRE, POUL; CISO; ETNO-                  lhem (1904-1995). Como muitos normaliens de
PSICANLISE; FANON, FRANTZ; FRANA; IGREJA;                sua gerao, assistiu s apresentaes de doen-
JUNG, CARL GUSTAV; NDIA; MANNONI, OCTAVE;                 tes de Georges Dumas (1866-1946), amigo de
TCNICA PSICANALTICA.                                     Pierre Janet violentamente hostil s teses freu-
                                                           dianas. Professor de filosofia, residente dos hos-
                                                           pitais psiquitricos e chefe de clnica de doenas
Lagache, Daniel (1903-1972)                                mentais e do encfalo, foi aluno de Gatan
psiquiatra e psicanalista francs                          Gatian de Clrambault* na enfermaria especial.
    Como Sacha Nacht*, Franoise Dolto*,                   Enfim, em 1934, defendeu sua tese de medicina
Maurice Bouvet* e muitos outros, Daniel La-                sobre as alucinaes verbais.
gache pertencia  segunda gerao* psicanal-                  Como todos os clnicos franceses de sua
tica francesa. Na histria da psicanlise* na              gerao -- Jacques Lacan, Henri Ey*, Paul
Frana*, desempenhou um papel importante,                  Schiff* etc. -- participou da reformulao da
ao mesmo tempo como herdeiro de Pierre Ja-                 psiquiatria dinmica* e centrou seus primeiros
net*, no campo da psicologia clnica*, e como              trabalhos no estudo das psicoses passionais e da
introdutor da psicanlise na universidade.                 parania*. Ao mesmo tempo que Lacan, mais
Contra Nacht, que preconizava o vnculo da                 velho que ele dois anos, iniciou-se nos textos
psicanlise com a medicina, e contra Lacan*,               alemes, interessou-se pela loucura feminina e
que queria desvincular a psicanlise da psicolo-           pela criminologia*, descobriu a obra de Karl
gia, atravs de um retorno rigoroso aos textos             Jaspers (1883-1969), a fenomenologia e seguiu
freudianos, foi o artfice da separao entre a            os cursos de Henri Claude*.
                                                                              Lagache, Daniel         457

    Ao contrrio de Lacan e de Nacht, relatou       e Lacan, esse artigo seria utilizado pelos alunos
seu tratamento com Rudolph Loewenstein* em          de Louis Althusser (1918-1990) na cole Nor-
um artigo publicado em ingls em 1966, no qual      male Suprieure, no mbito de uma reformula-
fornecia muitas informaes sobre sua infncia      o filosfica dos conceitos freudianos hostis a
e sua vida privada. Essa anlise se desenrolou      toda forma de psicologia.
entre 1933 e 1936, sob condies difceis, o que        Paralelamente a seus trabalhos pessoais e s
levaria Lagache a fazer uma segunda etapa,          suas atividades universitrias, Lagache desen-
com Maurive Bouvet.                                 volveu um vasto programa editorial, criando, na
    Depois de uma primeira comunicao  So-        Presses Universitaires de France (PUF), a "Bi-
ciedade Psicanaltica de Paris (SPP) sobre o        blioteca de Psicanlise e de Psicologia Clnica",
trabalho do luto, Lagache foi nomeado, em           que se tornaria a "Biblioteca de Psicanlise".
1937, matre de confrences de psicologia na        Nela, publicou 42 volumes, entre os quais obras
Faculdade de Estrasburgo, onde sucedeu a            de Freud, a biografia deste por Ernest Jones* e,
Charles Blondel, outro professor violentamente      enfim, as obras dos grandes autores americanos
hostil  psicanlise, amigo do historiador Marc     ainda ignorados pelo pblico francs: Melanie
Bloch (1886-1944). Em Paris, em junho de            Klein*, Heinz Hartmann*, Otto Fenichel*, Ed-
1938, conheceu Sigmund Freud* na recepo           ward Glover*, Helene Deutsch*, Ren Spitz*
dada em honra deste por Marie Bonaparte*,           etc. O carro-chefe de sua coleo seria o famoso
antes do exlio em Londres.                         Vocabulrio da psicanlise, realizado sob sua
    Em 1947, sucedeu a Paul Guillaume na c-        direo por Laplanche e Pontalis e traduzido
tedra de psicologia geral. Foi ento que iniciou    hoje em mais de vinte lnguas.
sua tese O cime amoroso, passando ao mesmo             Embora no tivesse tido, como didata, papel
tempo a desempenhar papel de primeiro plano         equivalente ao de Lacan ou de Nacht, Lagache
no seio do movimento psicanaltico francs.         tambm foi um tcnico do tratamento e um
Dois anos depois, em sua aula inaugural, A          supervisor. Trabalhou muito a questo da trans-
unidade da psicologia, reatualizou o termo          ferncia* e, depois de Edward Bibring*, teori-
"psicologia clnica", que cara em desuso de-       zou a noo de mecanismos de separao, no
pois que Janet quis dotar a psicologia de uma       mbito de sua doutrina da personalidade: "Sua
"medicina" que no devesse nada ao ensino           qualidade psicanaltica principal, escreveu Di-
mdico. Mas, enquanto Janet era um antifreu-        dier Anzieu, foi a firmeza. Certamente, sabia
diano convicto, Lagache se tornara, nessa data,     temper-la com momentos de benevolncia.
um freudiano de estrita obedincia. Da uma         Mas o que todos os seus alunos aprenderam, a
posio insustentvel, pois ela consistia em        comear por mim, foi a importncia da regula-
querer integrar o freudismo ao janetismo, em        ridade dos horrios, de uma durao fixa e
virtude do princpio da unidade da psicologia       suficientemente longa das sesses, da manuten-
como cincia. Segudo Lagache, era preciso uni-      o da austeridade das regras e da situao
ficar o ramo dito naturalista da psicologia,        diante das demandas manipulatrias do pa-
compreeendendo o behaviorismo e as teorias da       ciente, de uma interpretao por etapas, precisa,
aprendizagem (com a estatstica e a experimen-      sbria, concreta."
tao), e o seu ramo dito humano, reunindo a
psicologia clnica e a psicanlise, esta definida    Daniel Lagache, Oeuvres compltes (1932-1968), 5
como ultraclnica. Ele fazia ambas derivarem        vols., edio estabelecida e apresentada por Eva Ro-
                                                    senblum, Paris, PUF, 1977-1982  Jacques Lacan, Es-
da fenomenologia de Karl Jaspers.
                                                    critos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998
    Em 1956, em uma clebre conferncia pro-         Georges Canguilhem, tudes d'histoire et de philoso-
nunciada no Collge Philosophique, Georges          phie des sciences, Paris, Vrin, 1968  Didier Anzieu,
Canguilhem, embora amigo de longa data de           "Daniel Lagache (1903-1972)", Bulletin de Psycholo-
Lagache, destruiu esse programa, tratando a         gie, 305, XXVI, 10-11, 532-42  Documents et Dbats,
                                                    "Hommage  Daniel Lagache", 11, maio de 1975 
psicologia de "filosofia sem rigor", de "tica      lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na Fran-
sem exigncia" e de "medicina sem controle".        a, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
Dez anos depois, aps a ruptura entre Lagache       1988; "Situation d'un texte: qu'est-ce que la psycholo-
458      Laing, Ronald David

gie?", in Georges Canguilhem, philosophe, historien   1967, Laing comparou trs figuras, o louco, o
des sciences, Paris, Albin Michel, 1993, 135-45.
                                                      criminoso e o revolucionrio. Apresentou-os
 FREUDISMO; LACANISMO.                                como aventureiros da mstica, que contestam
                                                      uma ordem social fundada no dio e na depre-
                                                      ciao do homem pela tecnologia.
Laing, Ronald David (1927-1989)                          Em 1972, depois de uma permanncia na
                                                      ndia*, Ronald Laing evoluiu para o orientalis-
psiquiatra e psicanalista ingls
                                                      mo, encontrando no budismo e nas teorias da
    Poeta, escritor, militante de todas as causas     reencarnao uma filosofia do sofrimento e da
a favor dos marginais, dos excludos, dos opri-       subjetividade capaz, segundo ele, de subverter
midos e dos povos colonizados, Ronald Laing           o racionalismo ocidental.
 uma das mais belas figuras desse movimento
                                                         Em sua autobiografia de 1985, reconheceu
de revolta que abalou durante vinte anos, de
                                                      o fracasso de seus mtodos de tratamento da
1950 a 1970, o conjunto dos ideais da burguesia
                                                      esquizofrenia* e renegou a maioria das suas
ocidental. Marcado simultaneamente pelo hei-
                                                      teses anteriores.
deggerianismo, pelo existencialismo e pela ex-
perincia com a mescalina e o LSD, procurou            Ronald Laing, O eu dividido (1960), Petrpolis, Vozes,
durante toda a vida, atravs de uma longa via-        1975; A poltica da famlia (1964), S. Paulo, Martins
gem no interior do eu, o meio de compreender          Fontes; La Politique de l'exprience (1967), Paris,
                                                      Stock, 1979; Laos (1970), Petrpolis, Vozes, 1976;
o grande enigma da loucura* humana.                   Sagesse, draison et folie. La Fabrication d'un psychia-
    Nascido em Glasgow, foi psiquiatra no exr-       tre (1985), Paris, Seuil, 1986.
cito britnico e membro do Grupo dos Indepen-
dentes*, no seio da British Psychoanalytical           ANTIPSIQUIATRIA; PSICOSE; PSICOTERAPIA INS-
Society (BPS), antes de fundar com David Co-          TITUCIONAL.
oper* o movimento antipsiquitrico ingls.
Ambos criaram assim a Philadelphia As-
sociation and Mental Health Charity, assim co-        Lair Lamotte, Pauline (1853-1918),
mo o Hospital de Kingsley Hall, onde eram             caso Madeleine Lebouc
acolhidos esquizofrnicos.                                Tal como Augustine* ou Blanche Wittmann,
    Prximo de Donald Woods Winnicott*, de            Pauline Lair Lamotte foi, sob o nome de Made-
quem foi aluno, e analisado por Charles Ry-           leine Lebouc, uma das histricas mais clebres
croft, afastou-se do freudismo* clssico e da         do Hospital da Salptrire*. Seu caso foi es-
psiquiatria no fim dos anos 1950, construindo         tudado por Pierre Janet*.
uma doutrina do self inspirada ao mesmo tempo             Nascida em Mayenne, ela provinha da m-
nas noes winnicottianas, no existencialismo         dia burguesia republicana. Aos 20 anos de
sartriano e nas teses de um outro dissidente          idade, dois anos depois da Comuna de Paris,
clebre: Harry Stack Sullivan*.                       partiu para Londres ao descobrir a misria do
    Como todos os artfices do movimento anti-        operariado. Recusando-se a se curvar s exign-
psiquitrico, Laing via na loucura a histria de      cias da religio oficial, deu livre curso a uma
uma passagem, de uma situao e no de uma            fala carregada de misticismo, identificando-se
doena: "uma estratgia inventada pelo sujeito        com o destino errante do subproletariado urba-
para viver uma situao impossvel de ser vivi-       no. Seus escritos "inspirados", como mais tarde
da". Em sua obra de 1960, O eu dividido, mos-         ocorreria com os de Marguerite Anzieu*, evo-
trava que quando o indivduo se sente estranho        cam irresistivelmente alguns textos de Arthur
a si mesmo, fabrica um "falso self*" para lutar       Rimbaud (1854-1891): "Sim, senti o cheiro dos
contra o desespero.                                   cadveres putrefatos", escreveu ela, "e vi correr
    Na mesma perspectiva, a loucura no era           o sangue nos regatos da noite."
nada mais, em sua opinio, do que uma reao              Internada na Salptrire em 1896, em decor-
racional do homem diante de um mundo que              rncia de estigmas, contraturas e xtases, foi
perdera a razo. Quanto ao homem dito normal,         tratada por Janet, que reduziu sua histria a uma
este seria apenas um doente que se ignora. Em         patologia de origem histrica, chegando a iden-
                                                                          Lampl-de Groot, Jeanne            459

tific-la com a de outra "louca", Teresa de vi-              Em 1921, Lampl partiu para se formar em
la, qualificada por ele de "padroeira das his-            Berlim, onde fez uma anlise com Hanns
tricas". Essa postura restritiva, que negava             Sachs*, enquanto Jeanne De Groot, psiquiatra
qualquer coerncia terica no discurso mstico,           neerlandesa, comeava no ano seguinte, em
correndo o risco de dissolver a loucura* na               Viena*, um tratamento com Freud que duraria
patologia, valeu a Janet crticas terrveis: pri-         trs anos. Em 1925, Hans Lampl casou-se com
meiramente, da parte dos surrealistas, que, sem           ela.  medida que ela se aproximava de Freud
citarem Madeleine, celebraram em 1928 a "be-              e se tornava uma de suas discpulas preferidas,
leza convulsiva" das histricas da Salptrire, e         ele dava livre curso a seu cime e atacava o que
depois, da parte do padre Bruno de Jsus-Marie,           considerava como idolatria. Freud, temendo
que, em 1931, distinguiu o verdadeiro mis-                para Jeanne esses acessos de perseguio, suge-
ticismo de Teresa de vila, baseado numa es-              riu-lhe ento uma anlise. Ele recusou.
piritualidade livre de qualquer iluso, da loucu-             Em 1938, fugindo do nazismo*, Jeanne
ra mstica de Pauline, ancorada no gozo da                Lampl-De Groot* e seu marido se instalaram
abjeo e, portanto, na incapacidade de ter aces-         em Haia. Ali, atravessaram as diferentes crises
so ao conhecimento mstico.                               que afetavam o movimento psicanaltico dos
    A verdadeira histria de Pauline foi trazida          Pases Baixos*. Tornaram-se muito amigos de
 luz pela primeira vez em 1993, por Jacques              Anna. Hans morreu em 1958 em um grave
Matre.                                                   acidente de carro, ao qual sua mulher sobrevi-
                                                          veu.
 Pierre Janet, De l'angoisse  l'extase, vol.1, Paris,
Alcan, 1926  Henri F. Ellenberger, Histoire de la d-     Maria Montessori, "Dr. Hans Lampl", Obituary, IJP,
couverte de l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Vil-   vol.XLI, 1960  lisabeth Young-Bruehl, Anna Freud:
leurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994  Michel de Cer-    uma biografia (1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992 
teau, La Fable mystique, Paris, Gallimard, 1982  Jac-    Sigmund Freud, Chronique la plus brve. Carnets in-
ques Matre, Une inconnue clbre. La Madeleine           times, 1929-1939, anotado e apresentado por Michael
Lebouc de Janet, Paris, Anthropos, 1993.                  Molnar (Londres, 1992), Paris, Albin Michel 1992  Elke
                                                          Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psychoana-
                                                          lyse. Die Mitglieder der Psychologischen Mittwoch-Ge-
 CHARCOT, JEAN MARTIN; ESPIRITISMO; HIS-
                                                          sellschaft und der Wiener Psychoanalytischen Ver-
TERIA; IGREJA; PERSONALIDADE MLTIPLA; SUR-               einigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992.
REALISMO.



                                                          Lampl-de Groot, Jeanne,
Lampl, Hans (1889-1958)                                   ne De Groot (1895-1987)
mdico e psicanalista neerlands                          mdica e psicanalista neerlandesa
   Judeu vienense e colega de classe de Martin                Nascida em Schieden, na Holanda, Jeanne
Freud*, Hans Lampl concluiu seu curso de                  De Groot foi, antes mesmo de casar-se com
medicina em 1912, orientando-se para a anato-             Hans Lampl*, uma das mulheres preferidas de
mo-patologia, a serologia e a bacteriologia.              Sigmund Freud*, com Marie Bonaparte*, Ruth
Desde 1916, interessou-se pela psicanlise*.              Mack-Brunswick* e Joan Riviere*. Depois de
Dois anos depois, apaixonou-se por Anna                   ter sido aluna de Gerbrandus Jelgersma (1859-
Freud* e decidiu casar-se com ela. Esta come-             1942), decidiu escrever a Freud a fim de co-
ou ento a ser analisada pelo pai, que se opu-           nhec-lo. Em 1922, foi a Viena* para analisar-
nha formalmente a esse casamento. Freud tinha             se com ele. O tratamento durou trs anos, com
afeto por Lampl, mas temia seu carter, chegan-           seis sesses de 55 minutos por semana. Em
do a pensar que sofria de parania*. Anna obe-            1927, participou do grande debate sobre a
deceu. Mais tarde, ela se felicitaria por ter obe-        sexualidade feminina*, defendendo o ponto de
decido ao pai e manteve com Lampl uma exce-               vista monista da escola vienense.
lente amizade. Este era um homem cheio de                     Em Berlim, encontrou Hans Lampl, que se
encanto e humor, amante da arte, da boa cozinha           tornaria seu esposo. Ambos ficaram em Viena
e das viagens.                                            at 1938, quando, para fugir do nazismo*, ins-
460      Landauer, Karl

talaram-se em Haia, nos Pases Baixos*, onde             pecialmente Max Horkheimer (1895-1973), de
ainda vivia a me de Jeanne. Esta aderiu ento           quem foi analista. Depois da chegada ao poder
 Nederlandse Vereniging voor Psychoanalyse              dos nazistas, emigrou para os Pases Baixos*,
(NVP), que acabava de reintegrar em suas filei-          onde entrou em conflito com seus colegas
ras a sociedade rival, formada em 1933 por               neerlandeses, que no quiseram integr-lo 
Johan H.W. Van Ophuijsen*. Ali, teve um papel            Nederlandse Vereniging voor Psychoanalyse
importante.                                              (NVP) porque os seus diplomas mdicos no
    Instalada em Amsterd em 1943, formou um             eram reconhecidos na Holanda. Preso em 1943,
grupo ao qual transmitiu sua fora de convic-            foi deportado para o campo de extermnio de
o, sua ortodoxia e a lembrana muito viva de           Bergen-Belsen, onde morreu em janeiro de
sua longa cumplicidade com Freud. Alis, era             1945.
muito prxima de Anna Freud* e de toda a
corrente vienense no exlio. Em 1947, quando              Les Annes brunes. La Psychanalyse sous le IIIe
                                                         Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-Luc
era uma das personalidades mais poderosas da             Evard, Paris, Confrontation, 1984  Ici la vie continue
legitimidade freudiana, enfrentou uma ciso*             de manire surprenante, seleo de textos traduzidos
que dava prosseguimento aos conflitos de antes           por Alain de Mijolla, Paris, Association Internationale
da guerra, que Ren De Monchy* conseguira                d'Histoire de la Psychanalyse (AIHP), 1987.
acalmar. J.H. Van der Hoop e Westerman Hols-
                                                          ALEMANHA; NAZISMO; OPHUIJSEN, JOHAN VAN.
tijn fundaram uma nova associao, de ins-
pirao mais liberal, a Nederlandse Genoot-
schap voor Psychoanalyse (NGP), que nunca
                                                         Langer, Marie, ne Glas (1910-1987)
seria integrada  International Psychoanalytical
                                                         psiquiatra e psicanalista argentina
Association* (IPA).
    Jeanne Lampl-De Groot continuou a formar                 Figura eminente do movimento psicanalti-
muitos psicanalistas na tradio do freudismo*           co latino-americano, Marie Langer, apelidada
clssico. Ao lado de Anna Freud, Marianne                Mimi por seus prximos, adotou as trs grandes
Kris* e Dorothy Burlingham*, foi considerada             doutrinas do engajamento intelectual do sculo
pelas jovens geraes da psicanlise* como               XX: freudismo*, marxismo, feminismo. Orgu-
uma das "quatro grandes damas" da famlia                lhosa, inteligente e corajosa, to sensvel ao
freudiana. Os 47 artigos que compem sua obra,           sofrimento psquico quanto  misria econmi-
e dos quais muitos se referem  sexualidade e           ca, lutou durante toda a vida contra o fascismo
feminilidade, foram reunidos em 1965 e depois            e a esclerose do freudismo ort odoxo,
atualizados vinte anos mais tarde, quando da             conservando ao mesmo tempo suas qualidades
celebrao de seu nonagsimo aniversrio.                de clnica.
                                                             Nascida em Viena*, em uma famlia da gran-
 Jeanne Lampl-De Groot, Collected Papers of Jeanne      de burguesia judaica assimilada, Marie Glas
Lampl-De Groot, N. York, International Universities      pertencia  gerao* de jovens austracos cuja
Press, 1965; Souffrance et jouissance, Paris, Aubier,
1983  Ilse Bulhof, Freud en Nederland, Ambo, Baarn,
                                                         infncia foi marcada pela guerra e pela lenta
1983  Paul-Laurent Assoun, "Freud et la Hollande", in   agonia do velho mundo austro-hngaro. Sua
Harry Stroeken, En analyse avec Freud (1985), Paris,     me, mulher culta, sofria com sua judeidade* a
Payot, 1987, 200-35.                                     ponto de dar  filha um nome catlico, por no
                                                         poder batiz-la. Segundo Marie, ela se parecia
                                                         com a Dora de Sigmund Freud* (Ida Bauer*).
Landauer, Karl (1887-1945)                               Como tinha como amante Eugen Steinach, um
mdico e psicanalista alemo                             amigo de seu marido, gostava de manter a d-
   Nascido em Munique em uma famlia judia,              vida sobre o nascimento da sua filha. Tratada de
Karl Landauer estudou medicina antes de ir a             bastarda, Marie pensou durante muito tempo
Viena* para fazer uma anlise com Sigmund                que seu pai legal talvez no fosse seu verdadeiro
Freud*. Aderiu  Wiener Psychoanalytische Ve-            progenitor. De qualquer forma, aos 13 anos
reinigung (WPV), e depois instalou-se em                 revoltou-se contra a famlia e, depois de uma
Frankfurt, onde se ligou a vrios filsofos, es-         crise religiosa, tornou-se resolutamente atia.
                                                                              Langer, Marie      461

    Apoiada por seu pai, estudou em uma escola       frente de batalha, conheceu seu segundo mari-
particular dirigida por uma mulher excepcional,      do, Max Langer, cirurgio militar encarregado
Frau Schwarzwald, militante feminista e social-      de vrios hospitais de campanha. Com a derrota
democrata formada em Zurique, no incio do           dos republicanos, partiram juntos para o Uru-
sculo, entre os revolucionrios russos no ex-      guai, depois de uma passagem pelo sul da Fran-
lio. E foi em contato com essa mulher que Marie      a*.
comeou a ler as obras de Freud e de Marx.               Seu percurso de freudiana e marxista no
    Depois de duas ligaes amorosas, aceitou        continente latino-americano a levou primeiro a
um casamento apressado com um jovem da               Montevidu, onde fez conferncias no Comit
burguesia catlica e conservadora, enquanto          de Solidariedade com os republicanos espa-
sua famlia se encontrava arruinada pela grande      nhis, e depois a Buenos Aires, onde se instalou
crise de 1930. Comeou ento a estudar medi-         em 1942. Logo que chegou, fez contato com
cina e provocou escndalo no seu meio, com           Angel Garma*, que viera da Espanha depois de
suas idias e o seu comportamento de mulher          passar dois anos na Frana. Integrada ao grupo
livre. Voltando a Viena em 1932, depois de uma       argentino, participou, com Garma, Celes Cr-
viagem  Alemanha*, divorciou-se e aderiu ao         camo* e Enrique Pichon-Rivire*, da fundao
Partido Comunista Austraco, no mesmo mo-            da Asociacin Psicoanaltica Argentina (APA),
mento em que este se tornava clandestino.            da qual seria membro durante 29 anos.
Desde as revoltas socialistas de 1927 e sob a            Para no entrar em conflito com a APA,
presso da extrema direita e dos meios fascistas,    como acontecera com a WPV, decidiu separar
o governo populista da jovem Repblica aus-          radicalmente suas atividades polticas de sua
traca decretara fora-da-lei todos os partidos de    prtica clnica. S Pichon-Rivire, em razo de
esquerda. Marie passou assim  luta clandes-         sua simpatia antiga pela Repblica espanhola,
tina.                                                foi informado dos laos clandestinos de Marie
    Inicialmente anestesista, encaminhou-se de-      com o Partido Comunista Argentino. Depois de
pois para a psiquiatria, no servio de Heinz         uma segunda anlise de superviso com Crca-
Hartmann*, a quem pediu que a analisasse.            mo, lanou-se em trabalhos clnicos.
Alegando o preo muito elevado de suas ses-              Me de um primeiro filho chamado Tomas
ses, este a enviou para o div de Richard           -- teria depois trs outros, Martin, Ana, Vero-
Sterba*. Durante essa primeira formao did-        nica -- Marie Langer se interessou pela con-
tica, Marie participou dos trabalhos da Wiener       dio das mulheres de sua gerao, preocupa-
Psychoanalytische Vereinigung (WPV), da              das em conciliar o duplo desejo de emancipao
qual nunca foi membro, em virtude de suas            e de maternidade. Em 1951, publicou Materni-
atividades polticas. Para no se chocar com o       dad y sexo, que se tornaria um clssico da
regime ditatorial do chanceler Dollfuss (1892-       literatura psicanaltica argentina. Nesse livro,
1934), que perseguia os militantes clandestinos,     relatava o caso de uma paciente estril que
Paul Federn* proibira qualquer engajamento           engravidara depois de nove meses de tratamen-
aos alunos da WPV, sob pena de excluso,             to.
aceitando at que um policial assistisse s reu-         Dedicava-se sobretudo a uma longa reflexo
nies. Marie se recusou a se submeter a essa         histrica e terica sobre a sexualidade femini-
imposio. Denunciada por uma analisanda,            na*. Levando em considerao as posies de
no tardou a ser excluda das fileiras dos alunos,   Karen Horney* e do culturalismo*, afastou-se
apesar da interveno em seu favor de Kurt           do relativismo partindo para uma concepo
Eissler. Foi ento a Berlim, para acompanhar o       unitria do corpo biolgico e do corpo psquico
seminrio de Helene Deutsch* e fazer uma             fundada na medicina psicossomtica* e no klei-
superviso* com Jeanne Lampl-de Groot*.              nismo*. Conclua, ao contrrio de todas as teses
    Mas o nazismo* a obrigou a se exilar, e          feministas da segunda metade do sculo, que do
como a guerra civil comeava na Espanha*,            ponto de vista do inconsciente existia na mulher
decidiu continuar ali sua luta, como mdica          uma relao constante entre a aceitao do or-
anestesista nas Brigadas Internacionais. Na          gasmo e do prazer e o desejo de maternidade.
462     Langer, Marie

Segundo ela, s a psicanlise podia servir de       tudante de psiquiatria que desejava apoiar os
mediao entre a cultura e o determinismo bio-      prisioneiros torturados. Este relatava a situao
lgico. Foi a partir desse trabalho que Marie       em cartas cifradas enviadas  sua me e Marie
Langer adotou a causa do feminismo, estudan-        as decodificava, dando depois suas instrues
do os mitos que cercavam a vida de Eva Duarte       pelos mesmos meios.
Pern (1919-1952), a legendria Evita.                  Ameaada por um esquadro da morte de-
    Personalidade rebelde, Marie sempre criti-      pois da volta de Pern ao poder, emigrou para
cou a esclerose da instituio, exigindo que a      o Mxico para continuar sua luta. A partir de
psicanlise no se limitasse a exerccios formais   1976, a Argentina naufragou no terror, sob o
visando reproduzir geraes de terapeutas           mando do general Videla. Em 1981, Marie for-
conformistas. Como Wilhelm Reich* outrora,          mou a Brigada Mxico-Nicargua de interna-
desejava que o freudismo estivesse no centro de     cionalistas para a sade mental e lanou um
todas as transformaes sociais do sculo. De       plano de desenvolvimento de mtodos curati-
1959 a 1970, enquanto o caudilhismo ia de           vos inspirados na psicanlise. Como observou
golpes de Estado a derrubadas de coronis, teve     Nancy Caro Hollander, esse trabalho de solida-
um papel considervel na APA, despertando as        riedade se estendeu a todas as formas de repres-
conscincias e formando alunos para a contes-       so que assolavam a Amrica Latina: "Marie
tao da ordem dominante.                           Langer e seu grupo notaram os efeitos psicol-
    Em 1966, Ana, sua filha mais velha, pediu-      gicos da represso poltica e do exlio forado.
lhe que participasse de um encontro universit-     Observaram, entre os refugiados, a multiplica-
rio de ex-combatentes das Brigadas Internacio-      o dos casos daquilo que eles chamam de `dor
nais. Para a jovem, que se tornara militante co-    gelada'. As pessoas atingidas eram incapazes de
mo a me, o objetivo era organizar comits de       chorar a perda dos que amavam." Na verdade,
solidariedade em prol do Vietn em luta contra      elas apresentavam sintomas mltiplos: desper-
o "imperialismo americano". Marie aceitou.          sonalizao, distrbios psicossomticos etc.
    Trs anos depois, fez parte do Grupo Plata-         Enfim, em 1986, Marie Langer foi a Cuba
forma que, com o incio das grandes revoltas        encontrar-se com Fidel Castro a fim de organi-
estudantis, visava transformar de cima a baixo      zar na ilha um colquio sobre psicanlise e
a poltica da psicanlise e as modalidades de       suicdio*. "Voc  a prima de Freud, disse ele,
formao dos terapeutas. Em 1971, no congres-       a famosa austraca!" E pediu-lhe que preparasse
so da IPA em Viena, sua cidade natal, pronun-       um strudel. Ela comeou a fazer a massa mas
ciou uma conferncia intitulada "Psicanlise        logo desistiu: "Eu sou feminista, disse ela, e
e/ou Revoluo", na qual apelava para uma           voc me manda para a cozinha. Alm disso,
mutao radical da sociedade: "Desta vez, disse     voc disse que leu as obras de Freud e  menti-
ela, no renunciaremos nem a Freud nem a            ra." Atingida por um cncer de pulmo, morreu
Marx." Foi duramente criticada por Hanna Se-        em Buenos Aires, onde seu amigo Fernando
gal, guardi da ortodoxia kleiniana, e a publica-   Ulloa, companheiro de todas as lutas, foi o seu
o de sua conferncia foi recusada pela direo    ltimo confidente.
da IPA. Demitiu-se ento da APA, com 30 di-
datas e 20 alunos em formao do Grupo Do-           Marie Langer, Maternidade e sexo (1951), P. Alegre,
cumento. A ciso* foi um desastre para o freu-      Artes Mdicas; Fantasias eternas a la luz del psicoa-
dismo argentino: ela ocorria no momento em          nlisis, B. Aires, Nova, 1957; "Vicisitudes del movimien-
                                                    to psicoanaltico argentino", in Franco Basaglia (org.),
que se operava no pas uma radicalizao das
                                                    Razn, locura y sociedad, Mxico, Siglo Veintiuno,
lutas contra a dominao militar.                   1978; (org.), Cuestionamos I, II, B. Aires, Granica,
    A partir da volta ao poder de Juan Pern        1971, 1972  Marie Langer, Jaime del Palacio e Enrique
(1895-1974) em 1973, grupos paramilitares co-       Guinsberg, Memoria, historia y dilogo psicoanalitico,
mearam a perseguir os adversrios polticos,       Mxico, Folios, 1983  Hugo Vezzetti, "Isabel I, Lady
                                                    Macbeth, Eva Pern", Punto de Vista, 52, agosto de
praticando o seqestro e a tortura. Marie Langer    1995, 44-8; "Marie Langer. Psicoanlisis y maternidad",
procurou ento intervir atravs da psicanlise.     indito  lisabeth Roudinesco, entrevista com Fernan-
Supervisionou assim o trabalho de um es-            do Ulloa, 12 de outubro de 1995.
                                                                             Lanzer, Ernst      463

 ABERASTURY, ARMINDA; BLEGER, JOS; COMU-          sensao de que nutria mais simpatia e empatia
NISMO; DIFERENA SEXUAL; FREUDO-MARXISMO;          pelo Homem dos Ratos do que em relao a
GNERO; RACKER, HEINRICH.                          Dora ou ao Homem dos Lobos. Se Freud foi um
                                                   procurador com Dora, foi um educador amis-
                                                   toso com Lanzer."
Lanzer, Ernst (1878-1914),                             Nascido em Viena*, numa famlia judia da
caso Homem dos Ratos                               mdia burguesia, Ernst Lanzer era o quarto
                                                   rebento de uma fratria que contava sete. Seu pai,
    Segundo grande tratamento psicanaltico
                                                   Heinrich Lanzer, amara inicialmente uma mu-
conduzido por Sigmund Freud*, depois de Do-
                                                   lher pobre, mas acabara se casando com a rica
ra (Ida Bauer*) e antes do Homem dos Lobos
(Serguei Constantinovitch Pankejeff*), a his-      Rosa Saborsky, futura me de Ernst. Em 1897,
tria do Homem dos Ratos , sem sombra de          este iniciou seus estudos de direito. Logo se
dvida, a mais elaborada, a mais estruturada e     apaixonou por uma prima pouco abastada, Gi-
a mais rigorosamente lgica. A anlise durou       sela Adler, a quem comeou a cortejar contra a
cerca de nove meses, de outubro de 1907 a julho    vontade do pai, que preferia uma mulher rica
de 1908, e Freud falou dela em cinco oportuni-     para seu filho. Para cmulo da infelicidade, a
dades nas reunies da Sociedade Psicolgica        moa teve que se submeter a uma ovariectomia,
das Quartas-Feiras*, antes de apresentar o caso    o que a impediu de ser me.
no primeiro congresso da International Psy-            Depois da morte de Heinrich, ocorrida em
choanalytical Association* (IPA) em Salzbur-       1898, Ernst, tal como o pai, abraou a carreira
go, em 26 de abril de 1908, num relatrio verbal   militar, ingressando no terceiro regimento de
de cinco horas. Em suas memrias, publicadas       atiradores tiroleses do exrcito imperial. Foi em
em 1959, Ernest Jones* narra o acontecimento:      1901 que comeou a ser dominado por estra-
"Sentado na ponta da longa mesa  qual todos       nhas obsesses sexuais e mrbidas. Com efeito,
estvamos acomodados, ele falou em sua voz         manifestava um gosto especial por funerais e
baixa, mas ntida, como numa conversa. Come-       ritos de morte, adquirira o hbito de olhar seu
ou s oito horas da manh e ns o escutamos       pnis num espelho para se certificar de seu grau
com profunda ateno. s onze, fez uma pausa,      de ereo, e tinha inmeras tentaes suicidas,
sugerindo que j tnhamos ouvido o bastante.       baseadas em censuras e acusaes dirigidas
Mas estvamos todos to interessados, que          contra si mesmo, prontamente acompanhadas
insistimos em que continuasse, o que fez at a     por resolues beatas e oraes. Ora queria
uma da tarde."                                     cortar sua garganta, ora planejava afogar-se.
    Durante esse mesmo ano, Freud ajudou seu           Em 1905, portanto, aos 27 anos de idade,
amigo Max Graf* a analisar o filho (Herbert        sofria de uma grave neurose obsessiva. Embora
Graf*), o que lhe permitiu comprovar a exati-      houvesse rejeitado o projeto dos pais, que que-
do de suas teses de 1905 sobre a sexualidade*     riam faz-lo casar-se com uma mulher rica,
infantil. E, com o destino dramtico desse ho-     ainda no conseguira decidir-se a casar com
mem obcecado, que parecia um personagem do         Gisela. Consultou ento o clebre psiquiatra
romance de Joseph Roth (1894-1939) intitula-       Julius Wagner-Jauregg*, por causa de uma
do A marcha de Radetzky, finalmente deparou        compulso a se apresentar numa prova sempre
com um caso de neurose obsessiva* conforme         cedo demais e despreparado. O mdico respon-
a suas hipteses e digno de ser narrado. Em        deu-lhe que a obsesso era muito salutar e no
ambas as anlises, lidou com aquilo que o          fez nada pelo rapaz.
apaixonava: a relao entre um filho e um pai.         Foi durante o vero de 1907 que se produzi-
    A identidade do Homem dos Ratos foi reve-      ram os dois grandes acontecimentos que ocu-
lada pela primeira vez em 1986, pelo psicanalis-   pariam o cerne de sua anlise com Freud. Em
ta canadense Patrick Mahony, num notvel           julho, durante um exerccio militar na Galcia,
trabalho de pesquisa: "Ao compararmos as           ouviu o cruel capito Nemeczek, adepto dos
contratransferncias de Freud com seus princi-     castigos corporais, contar a histria de um su-
pais pacientes", escreveu Mahony, "temos a         plcio oriental que consistia em obrigar o pri-
464     Lanzer, Ernst

sioneiro a se despir e a se ajoelhar no cho com    o?", escreveu Freud. "No, no era isso.
o dorso curvado para a frente. Nas ndegas do       Amarrava-se o condenado (ele se exprimia de
homem fixava-se ento, por meio de uma cor-         maneira to obscura, que no pude depreender
reia, uma grande vasilha furada onde um rato se     de pronto em que posio o supliciado era amar-
agitava. Privado de alimento e atiado por um       rado), e se virava sobre suas ndegas uma vasi-
pedao de ferro em brasa introduzido num ori-       lha em que eram introduzidos ratos, os quais --
fcio da vasilha, o animal procurava fugir da       ele se levantara e manifestava todos os sinais do
queimadura e penetrava no reto do supliciado,       horror e da resistncia -- se enfiavam. `No
infligindo-lhe feridas sangrentas. Ao cabo de       nus', tive que completar." E Freud acrescenta:
mais ou menos meia hora, morria sufocado, ao        "A cada momento do relato, observava-se em
mesmo tempo que o prisioneiro.                      seu rosto uma expresso complexa e bizarra,
    Nesse dia, Lanzer perdeu seu pincen du-        expresso que eu no saberia traduzir de outra
rante um exerccio. Telegrafou a seu oculista,      maneira seno como o horror a um gozo* que
em Viena, para lhe encomendar outro, que de-        ele mesmo ignorava."
veria ser enviado pela volta do correio. Dois           Ao contrrio do que se passaria na anlise de
dias depois, recebeu o objeto por intermdio do     Serguei Pankejeff ou de Marie Bonaparte*,
mesmo capito, que lhe informou que as des-         Freud no inventou, no caso de Lanzer, uma
pesas postais deveriam ser reembolsadas ao          cena sexual original. Neste, ele agiu verdadei-
tenente David, funcionrio do correio.              ramente como um terapeuta desejoso de fazer
    Obrigado a fazer o reembolso, Lanzer teve       seu paciente confessar seus tormentos, ainda
ento um comportamento delirante em torno do        que tivesse que tranqiliz-lo, afirmando-lhe
tema obsedante do pagamento da dvida. A            que no tinha nenhum pendor para a crueldade.
histria do suplcio misturou-se com a da dvida    Foi atravs dessa tcnica da confisso, na qual
e fez surgir na memria do Homem dos Ratos          ocupou para Lanzer o lugar de um pai, que
um outro episdio envolvendo dinheiro. Um           Freud conseguiu relacionar o complexo paterno
dia, seu pai contrara uma dvida de jogo: fora     com a obsesso dos ratos. Enunciou a hiptese
salvo da desonra por um amigo que lhe empres-       de que, por volta dos seis anos de idade, o
tara a soma necessria para o pagamento. Hein-      pequeno Ernst teria praticado uma m ao de
rich havia tentado, findo o seu servio militar,    ordem sexual, relacionada com a masturbao,
reencontrar esse homem, mas no conseguira          e teria sido castigado pelo pai. Lanzer aceitou
faz-lo. Por isso, a dvida com certeza nunca       essa interpretao, que correspondia a suas lem-
fora paga.                                          branas, e evocou uma outra cena, contada por
    Foi esse homem, obcecado por ratos e por        sua me, da poca em que ele tinha quatro anos.
uma dvida, que entrou no consultrio do Dr.        Nessa ocasio, depois de haver mordido al-
Freud no dia 1o de outubro de 1907. Entrou de       gum, levara uma surra do pai. Furioso, havia-o
imediato no jogo da associao livre* e come-       xingado, cumulando-o de nomes de objetos:
ou espontaneamente a evocar lembranas             "`Seu' lmpada! `Seu' guardanapo!" Heinrich
sexuais que remontavam a seus seis anos de          exclamara ento: "Ou esse menino vai se tornar
idade. Todas as noites, Freud redigia o dirio      um grande homem, ou ser um grande crimino-
dessa anlise, para reproduzir seus dilogos        so."
com exatido. Em muito pouco tempo, Lanzer              Ao relatar essa cena, da qual no tinha ne-
entrou na histria dos ratos. Entretanto, no       nhuma lembrana, Lanzer duvidou dos senti-
suportando descrever os detalhes do suplcio,       mentos de dio que teria nutrido pelo pai. Cedo,
levantou-se de repente do div e suplicou a         porm, em seus sonhos e associaes, comeou
Freud que o poupasse dessa tarefa. Com firme-       a insultar grosseiramente seu terapeuta, de
za, este o obrigou a prosseguir em seu relato, ao   quem, ao mesmo tempo, reivindicava um cas-
mesmo tempo que lhe expunha sua concepo           tigo. Esse episdio permitiu rapidamente a
da resistncia*. O paciente manifestou imedia-      Freud mostrar a seu paciente como a "dolorosa
tamente uma incapacidade de pronunciar certas       via da transferncia" levava, de fato, a uma
palavras. "Estaria querendo falar de empala-        confisso do dio inconsciente pelo pai.
                                                                                           lapso       465

    E Freud tratou de resolver o enigma: fora o    trando que ela era o prprio modelo da estrutura
relato do castigo pelos ratos, disse ele, em es-   complexa e da dilacerao originria pelas
sncia, que havia redespertado o erotismo anal     quais todo sujeito se liga a uma constelao
de Lanzer e lhe recordara a antiga cena da         simblica cujos elementos se permutam e se
mordida, narrada por sua me. Fazendo-se de-       repetem de gerao em gerao, como o memo-
fensor de uma punio corporal atravs dos         rial de uma histria genealgica.
ratos, o capito assumira para o doente o lugar
                                                    Sigmund Freud, "Notas sobre um caso de neurose
do pai e atrara para si uma animosidade com-      obsessiva" (1909), ESB, X, 159-258; GW, VII, 381-463;
parvel  que outrora tinha reagido  crueldade    SE, X, 151-249; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,
de Heinrich. Segundo Freud, o rato revestiu-se     1954, 199-261; L'Homme aux rats. Journal d'une ana-
ali da significao do dinheiro e, portanto, da    lyse (notas de Freud transcritas por Elza Ribeiro Ha-
                                                   welka), Paris, PUF, 1974  Les Premiers psychanalys-
dvida, que se manifestou na anlise por uma       tes, Minutes de la Socit Psychanalytique de Vienne,
associao verbal, "florim/rato" ou "quota/ra-     1906-1918, 4 vols. (1962-1975), Paris, Gallimard,
to", j que, desde o incio do tratamento, o       1976-1983  Ernest Jones, Thorie et pratique de la
paciente adquirira o hbito de contar o mon-       psychanalyse (Londres, 1913, Paris, 1925), Paris,
                                                   Payot, 1969; Free Associations. Memoirs of a
tante dos honorrios dizendo: "Tantos florins,     Psychoanalyst, N. York, Basic Books, 1959  Claude
tantos ratos."                                     Lvi-Strauss, As estruturas elementares do parentes-
    Em 1910, Ernst Lanzer casou-se com sua         co (Paris, 1949), Petrpolis, Vozes, 1976  M. Kanzer,
querida Gisela e, em 1913, tornou-se advogado.     "The transference neurosis of the Rat Man", Psychoa-
                                                   nalytic Quarterly, 21, 1952, 181-9  Elizabeth R. Zetzel,
Convocado pelo exrcito imperial em agosto de      "1965: Additional notes upon a case of obsessional
1914, foi feito prisioneiro pelos russos em no-    neurosis, Freud, 1909", IJP, XLVII, 1966, 123-9  Ren
vembro e morreu sem ter tido tempo de apro-        Major, "Interprtation 1907. Contribution  l'tude de la
veitar os benefcios proporcionados por sua        technique analytique", Revue Franaise de Psychana-
                                                   lyse, 35, 1971, 527-42  Samuel D. Lipton, "The advan-
anlise. Numa nota de 1923, Freud acrescentou
                                                   tages of Freud's technique as shown in his analysis of
estas palavras: "O paciente a quem a anlise que   the Rat Man", IJP, LVIII, 1977, 255-79  Patrick J.
acaba de ser relatada restituiu a sade psquica   Mahony, Freud et l'Homme aux rats (New Haven e
foi morto durante a Grande Guerra, como tantos     Londres, 1986), Paris, PUF, 1990  Peter Gay, Freud,
                                                   uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo,
jovens valorosos em quem era possvel deposi-
                                                   Companhia das Letras, 1995  Jacques Lacan, "Le
tar muitas esperanas."                            mythe individuel du nvros ou Posie et vrit dans
    O caso do Homem dos Ratos foi considera-       la nvrose" (1953), Ornicar?, 17-18, 1979, 289-307 
do a nica terapia perfeitamente bem-sucedida      lisabeth Roudinesco, Jacques Lacan. Esboo de
                                                   uma vida, histria de um sistema de pensamento
de Freud. Decerto isso no foi por acaso, j que
                                                   (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994.
Freud foi o inventor do termo neurose obses-
siva, j que descreveu a si mesmo, numa carta       TRS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALI-
a Carl Gustav Jung*, como o prottipo do neu-      DADE.
rtico obsessivo, e j que considerava essa neu-
rose o objeto mais "interessante e mais fecundo
da pesquisa psicanaltica". Sob esse aspecto,      lapso
como sublinhou Patrick Mahony, o encontro          al. Versprechen; esp. lapsus; fr. lapsus; ing. slip of
entre Freud e o Homem dos Ratos " uma             the tongue
verso vienense do drama de Sfocles que ope      Termo latino utilizado na retrica para designar um
dipo*  Esfinge". Ele ps em cena a essncia      erro cometido por inadvertncia, quer na fala (lap-
do amor edipiano pela me e do dio pelo pai.      sus linguae), quer na escrita (lapsus calami), e que
    Dentre os inmeros comentrios feitos sobre    consiste em colocar outra palavra no lugar da que
esse caso figura o de Jacques Lacan*, de 1953,     se pretendia dizer.
"O mito individual do neurtico". Aplicando            Com respeito a esse tipo de erros, reperto-
uma grade de leitura retirada das Estruturas       riados por todos os dicionrios dos processos
elementares do parentesco, de Claude Lvi-         literrios, Sigmund Freud* foi o primeiro a
Strauss, Lacan conferiu um estatuto de mito       mostrar que eles tm uma significao oculta e
neurose obsessiva do Homem dos Ratos, mos-         devem ser relacionados com as motivaes in-
466      Lechat, Fernand

conscientes de quem os comete.  o caso da           Paris (SPP), com homens e mulheres da terceira
mulher que conta que seu marido, enfermo, no        gerao* francesa, principalmente Jean La-
est sujeito a nenhum regime: "Ele pode comer        planche e Anne-Lise Stern. Progressivamente,
e beber tudo o que eu quiser." Em alemo, Freud      Serge Leclaire se tornou discpulo de um mestre
emprega Versprechen (falha, insuficincia) para      excepcional, Jacques Lacan, que admirou sem
designar o que chamamos lapso.                       servilismo nem submisso. Seria o primeiro
                                                     lacaniano da histria.
 ATO FALHO; CHISTES E SUA RELAO COM O
                                                         Em 1953, quando da primeira ciso* do
INCONSCIENTE, OS; PSICOPATOLOGIA DA VIDA CO-
                                                     movimento psicanaltico francs, seguiu a fra-
TIDIANA, A; TRADUO (DAS OBRAS DE SIGMUND
FREUD).                                              o dita liberal e universitria, representada por
                                                     Daniel Lagache*, Franoise Dolto e Jacques
                                                     Lacan, e participou assim da criao da Socie-
Lechat, Fernand (1895-1959)                          dade Francesa de Psicanlise (SFF, 1953-1963).
psicanalista belga                                   Seria o seu secretrio e depois o presidente.
                                                     Entre 1961 e 1965, gozou do estatuto de mem-
    Nascido em Mont-sur-Marchienne, na Bl-
gica*, Fernand Lechat exerceu vrias profis-         bro a ttulo pessoal da International Psychoana-
ses, entre as quais a de securitrio, antes de se   lytical Association* (IPA).
interessar pelas idias freudianas. Tornando-se          Com Wladimir Granoff e Franois Perrier*,
psicotcnico, ficou conhecendo Maurice Du-           dedicou ento os melhores anos de sua vida 
gautiez* e tomou-o como modelo: supervises          luta pela integrao da SFP  IPA. A ele coube
na Frana com John Leuba (1884-1952) e Marie         a tarefa de conduzir as negociaes secretas
Bonaparte*, anlise com Ernst Paul Hoff-             com a direo da internacional freudiana, que
mann*. Como Dugautiez, seria afastado da So-         rejeitava no o lacanismo como doutrina, mas
ciedade Belga de Psicanlise, que fundara em         a tcnica psicanaltica* transgressora inaugura-
1947.                                                da por Lacan e fundada na noo de sesso de
                                                     durao varivel, tambm chamada sesso cur-
                                                     ta.
Leclaire, Serge, n Liebschutz                           Finalmente, em 1963, a poltica praticada
(1924-1994)                                          por Leclaire resultou na ruptura definitiva entre
psiquiatra e psicanalista francs                    o lacanismo* e a legitimidade freudiana. Deses-
    Originrio de uma famlia judia, Serge Le-       perado com esse fracasso, mas profundamente
claire nasceu em Estrasburgo, com o nome de          fiel e animado por uma forte paixo pelo sonho
Serge Liebschutz. Durante seus estudos secun-        proftico e o espiritualismo, seguiu Lacan na
drios, ficou conhecendo Wladimir Granoff,           fundao da cole Freudienne de Paris* (EFP),
que se tornaria psicanalista como ele. A partir      cujos estatutos redigiu em parte. Tornando-se o
dos acordos de Munique, seu pai, fundador de         clnico mais apreciado da Frana* freudiana,
uma malharia, deixou a Alscia com toda a sua        tentaria durante 30 anos unificar a comunidade
famlia para fazer uma longa viagem, que o           psicanaltica francesa, sempre em processo de
levou a Marselha. Ali, conseguiu documentos          disperso e conflitos.
falsos em nome de Leclaire e, com a Libertao,          Em 1969, depois de criar o primeiro depar-
adotou legalmente esse sobrenome, que seria          tamento de ensino da psicanlise na universi-
aceito por seu filho.                                dade francesa (Paris-VIII), seria tambm, em
    Depois de estudar psiquiatria, Leclaire ou-      1983, o nico psicanalista de envergadura a
viu falar pela primeira vez em psicanlise* por      ousar enfrentar os riscos do "tratamento ao vi-
um monge hindu, que lhe aconselhou a procurar        vo" pela televiso, no programa Psy-show.
Franoise Dolto*. Conheceu ento seu colega          Quando essa experincia revelou seus limites
Granoff no Hospital da Salptrire e se engajou,     (vulgaridade e exibicionismo perverso), renun-
com ele, na via do freudismo. Durante trs anos,     ciou a ela. Em 1989, pela ltima vez, trabalhou
fez sua formao didtica com Jacques Lacan*,        pelo seu sonho unificador, criando a As-
relacionando-se, na Sociedade Psicanaltica de       sociation pour une Instance des Psychanalystes
                                              Leonardo da Vinci e uma lembrana de sua infncia            467

(APUI), destinada a proteger a psicanlise de              Leonardo da Vinci e uma lembrana
seus velhos demnios: as terapias corporais, a             de sua infncia
hipnose* e o ocultismo*.                                   Livro de Sigmund Freud*, publicado em alemo em
    A obra escrita de Serge Leclaire reflete seus          1910, sob o ttulo Ein Kindheitserinnerung des
ideais. Na linhagem direta do ensino lacaniano,            Leonardo da Vinci. Traduzido para o francs pela
ele soube permanecer como um clnico de obe-               primeira vez por Marie Bonaparte*, em 1927, sob o
dincia freudiana, dotado de um belo humanis-              ttulo Un souvenir d'enfance de Lonard de Vinci,
mo e de um esprito de tolerncia herdado da               e depois, em 1987, por Janine Altounian, Odile
filosofia iluminista. A partir de Freud, sabemos           Bourguignon, Andr Bourguignon (1920-1996),
                                                           Pierre Cotet e Alain Rauzy, sem modificao do
que os relatos de casos, para evitar a mediocri-
                                                           ttulo. Traduzido para o ingls pela primeira vez por
dade da literatura piegas, devem ser construdos
                                                           Abraham Arden Brill*, em 1916, sob o ttulo Leonar-
 maneira da fico. Nesse aspecto, Leclaire foi
                                                           do da Vinci, e depois, por Alan Tyson, em 1957, sob
um dos raros psicanalistas franceses, com Mi-              o ttulo Leonardo da Vinci and a Memory of his
chel de M'Uzan, a saber descrever seus casos               Childhood.
na tradio inglesa, como mostra seu livro inau-
                                                               Assim como Anbal ou Moiss, Leonardo da
gural Psicanalisar, no qual  exposta pela pri-
                                                           Vinci (1452-1509) pertence ao panteo de gran-
meira vez a histria do Homem do Licorne: uma
                                                           des homens e heris aos quais Freud consagrava
neurose obsessiva* descrita a partir da concep-
                                                           uma admirao particular.
o lacaniana do significante. Leclaire a apre-
sentou pela primeira vez no Colquio de Bon-                   Numa carta a Wilhelm Fliess* de 9 de outu-
neval, durante o outono de 1960, organizado                bro de 1898, ele manifestou seu interesse por
por Henri Ey*, no Hospital de Bonneval.                    alguns pormenores da vida desse gnio do Re-
                                                           nascimento. Observou que Leonardo era ca-
                                                           nhoto e que no se conhecia nenhuma histria
 Serge Leclaire, Psychanalyser, Paris, Seuil, 1968;
Dmasquer le rel, Paris, Seuil, 1971; On tue un enfant,
                                                           de amor a seu respeito. Dez anos depois, em 17
Paris, Seuil, 1975; Rompre les charmes, Paris, Inter-      de outubro de 1909, mal retornara dos Estados
ditions, 1981; O pas do outro, (Paris, 1991), Rio de     Unidos*, escreveu a Carl Gustav Jung* para lhe
Janeiro, Jorge Zahar, 1991; crits pour la psychana-       comunicar uma descoberta: o enigma do carter
lyse, 1, 1954-1993, Estrasburgo, Arcanes, 1996  li-
                                                           de Leonardo tornara-se transparente para ele, de
sabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana,
vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.    uma hora para outra. A seu ver, Leonardo se
                                                           tornara sexualmente inativo ou homossexual
                                                           depois de haver convertido sua sexualidade
                                                           inacabada (infantil) numa pulso* de saber.
                                                           Freud acrescentou que acabara de encontrar a
lembrana encobridora                                      mesma problemtica num neurtico des-
al. Deckerinnerung; esp. recuerdo encubridor; fr.          provido de talento.
souvenir-cran; ing. screen memory                             Pouco depois, lanou-se ao trabalho e redi-
   Expresso composta e empregada por Sig-                 giu o livro entre janeiro e maro de 1910, para
mund Freud* num artigo autobiogrfico de                   public-lo em maio. Entrementes, em abril,
1899 e, posteriormente, em A psicopatologia da             sempre igualmente ambivalente a respeito de
vida cotidiana*, para designar uma lembrana               sua produo, escreveu a Ernest Jones*: "No
infantil insignificante que, por deslocamento*,            deposite muitas esperanas nesse Leonardo que
passa a mascarar uma outra lembrana recalca-              sair no ms que vem. No espere encontrar
da ou no guardada.                                        nele o segredo da Virgem dos rochedos nem a
                                                           soluo para o problema da Gioconda; para que
 Sigmund Freud, "Lembranas encobridoras" (1899),         o livro lhe agrade, no tenha expectativas ele-
ESB, III, 333-58; GW, I, 529-54; SE, III, 299-322; OC,     vadas demais."
III, 255-76.                                                   Essa  uma bela denegao, pois Freud na
                                                           verdade se interessou pelo sorriso de Mona
 FLUSS, GISELA; FREUD, PAULINE; RECALQUE;                  Lisa, a mulher do florentino Francesco del
TRADUO (DAS OBRAS DE SIGMUND FREUD).                     Giocondo: quis at captar sua quintessncia,
468     Leonardo da Vinci e uma lembrana de sua infncia

estudando o desenvolvimento psicolgico e in-       perfeito acordo com as perspectivas tericas
telectual do pintor, cujo destino, segundo disse,   desenvolvidas em 1905, nos Trs ensaios sobre
no poderia escapar s "leis que regem com          a teoria da sexualidade*, e em 1908, em seu
igual rigor as condutas normais e patolgicas".     artigo "Sobre as teorias sexuais das crianas", e
    Consciente de que sua obra corria o risco de    ilustradas durante a anlise do Pequeno Hans
provocar um escndalo, ao abordar a sexuali-        (Herbert Graf*).
dade* de um dos mais clebres criadores do              Entretanto, persistiam algumas interrogaes:
mundo, Freud advertiu o leitor de que todo          por que um abutre, e como articular isso com a
ensaio biogrfico deve evitar os falsos pudores     homossexualidade* de Leonardo? Para respon-
e no silenciar sobre a vida sexual do heri        der a essas perguntas, Freud presume que Leo-
escolhido. Pois bem, acrescentou, pouco se sabe     nardo da Vinci tenha-se inspirado em mitos da
sobre a de Leonardo, que manifestava uma frie-      civilizao egpcia. Com efeito, a palavra
za evidente e rara num artista habituado a pintar   "me" era escrita nela por meio de um pictogra-
a beleza feminina.                                  ma que remetia  imagem do abutre, animal cuja
    O "pouco" de que dispunha Freud eram            cabea representava uma divindade materna e
algumas leituras: uma importante biografia de       cujo nome se pronunciava como Mut (prximo,
Edmondo Solmi, publicada em 1908, a de Gior-        nesse aspecto, do alemo Mutter, me). Por
gio Vasari (1511-1574) e, acima de tudo, um         outro lado, prossegue Freud, nas lendas de ins-
romance histrico de Dmitri Sergueievitch Me-       pirao crist, o abutre  uma espcie que s
rejkovski (1865-1941). Nesse livro, o escritor      existe no gnero feminino. Num certo perodo,
russo traou um retrato de Leonardo, imaginan-      esses abutres fmeas param em pleno vo,
do que um aluno mantinha um dirio sobre o          abrem a vagina e so fecundados pelo vento.
mestre. Em todos esses textos, faltava um ele-      Encarnam, assim, a virgem imaculada.
mento central, concernente  sexualidade do             A reminiscncia do abutre e a conotao
pintor. Freud acabou por encontr-lo nos Ca-        sexual passiva ligada a ela so ento relaciona-
dernos de Leonardo da Vinci. Ali, com efeito,       das  infncia do grande pintor. Filho ilegtimo,
descobriu esta frase, a propsito do interesse do   criado pela me, Leonardo foi objeto exclusivo
pintor pelo vo dos pssaros: "Parece que eu j     do amor desta. No houve um pai com quem se
estava predestinado a me interessar fun-            identificar no momento da emergncia de sua
damentalmente pelo abutre, pois me ocorre co-       sexualidade. Freud estabelece uma relao de
mo primeirssima lembrana que, quando eu           causalidade entre a relao infantil do pintor
ainda estava no bero, um abutre desceu at         com a me e sua homossexualidade posterior:
mim, abriu-me a boca com a cauda e bateu            "No nos arriscaramos a inferir uma relao
vrias vezes em meus lbios com essa mesma          dessa ordem a partir da reminiscncia deforma-
cauda."                                             da de Leonardo se no soubssemos, pelos
    Freud resolve ento submeter essa "fantasia     exames psicanalticos de nossos pacientes
do abutre em Leonardo" a uma escuta psicana-        homossexuais, que tal relao existe, e que  at
ltica. Discerne nessa lembrana o vestgio de      mesmo uma relao essencial e necessria."
uma felao, que no passa da repetio de uma          Freud manifesta nesse ponto sua simpatia
situao mais antiga: "Na idade da amamenta-        pelos homossexuais e, em seguida, no intuito de
o, segurvamos na boca o mamilo da me ou         desenvolv-las, retoma as etapas da organiza-
da ama-de-leite para sug-lo. A impresso org-     o da sexualidade infantil e as modalidades
nica produzida em ns por esse primeiro gozo*       dessa organizao que so passveis de levar um
vital ficou, sem dvida, indelevelmente marca-      sujeito masculino  homossexualidade. Depois,
da (...). Agora podemos compreender por que         interpreta esta ltima como um fechamento na
Leonardo remeteu aos anos em que foi ama-           fase de auto-erotismo* durante a qual o in-
mentado a lembrana da experincia pretensa-        divduo s consegue amar substitutos de sua
mente vivida com o abutre."                         prpria pessoa. Nesse ponto, fala pela primeira
    O jbilo de Freud  compreensvel: ele aca-     vez do narcisismo*, que mais tarde se transfor-
bara de descobrir nisso uma reminiscncia em        maria num conceito.
                                       Leonardo da Vinci e uma lembrana de sua infncia        469

    Resta, pois, o enigma do sorriso da Mona       interpretao freudiana. Freud, escreveu o autor
Lisa. Para Freud, esse famoso sorriso  o de       da carta, parecia haver-se fiado, em sua leitura
Catarina, a me de Leonardo. Assim, as belas       dos Cadernos de Leonardo da Vinci, numa
cabeas de crianas so reprodues de sua         verso alem, na qual o termo italiano nibbio
prpria pessoa infantil, e as mulheres sor-        fora traduzido pela palavra alem Geier, que
ridentes, rplicas de sua me, que outrora es-     significa abutre. Ora, o italiano nibbio significa
tampara esse sorriso pelo qual se havia apaixo-    "milhafre", e no "abutre".
nado.                                                  Essa observao crtica foi solenemente ig-
    Freud procede a uma outra aproximao.         norada pelos meios psicanalticos da poca, e
Observa, com efeito, que o quadro de Leonardo      Ernest Jones apenas a registrou, trinta anos
da Vinci que fica cronologicamente mais prxi-     depois, em meia dzia de linhas andinas. Co-
mo da Gioconda  Santana, a Virgem e o meni-       mo escreveu Jean-Bertrand Pontalis, em seu
no, onde aparecem Santana, Maria e o menino        prefcio a uma das edies francesas do livro:
Jesus. Depois de observar que esse tema rara-      "Foi preciso, acima de tudo, que Meyer Scha-
mente surge na pintura italiana, Freud discerne    piro, o grande historiador da arte, publicasse seu
no quadro, que representa duas mulheres junto      estudo intitulado `Leonardo e Freud' para que
a um menino, o vestgio de uma outra lembran-      a comunidade psicanaltica se mexesse." Se, em
a infantil de Leonardo. Mais ou menos aos trs    seu trabalho publicado em 1956, Schapiro deu
anos de idade, este se haveria encontrado com      mostras de um imenso respeito por Freud e se
o pai, que tornara a se casar; assim, teria tido   absteve de qualquer polmica, ainda assim res-
duas mes, como o menino Jesus do quadro,          saltou que o erro de Freud fora real e se devera
cercado por duas jovens de sorriso delicado.       a uma leitura superficial da lembrana regis-
Como explicar de outra maneira aquela transfi-     trada nos Cadernos. Schapiro sublinhou que a
gurao de Santana? -- indaga Freud. Porven-       evocao desse tipo de lembrana era um
tura a me de Maria, e portanto, av de Cristo,    procedimento retrico corriqueiro, na poca de
no aparece no quadro to moa quanto a filha?     Leonardo, para descrever pressgios, de modo
    Peter Gay observa que Freud nunca teve a       que no se tratava de uma verdadeira lembran-
pretenso de haver explicado a genialidade de      a.
Leonardo da Vinci: quando muito, procurou              A crtica era impossvel de rechaar, mas
esclarecer o processo de sublimao* que levou     Kurt Eissler, diretor dos Arquivos Freud* e
ao desenvolvimento das pulses de inves-           figura eminente da ortodoxia psicanaltica, de-
tigao e ao adormecimento das pulses             cidiu batalhar mais uma vez contra os advers-
sexuais. Sublinhou tambm um trao de carter      rios do mestre. Longe de reconhecer os erros de
particular de Leonardo: a tendncia a jamais       Freud e de encontrar neles material para uma
concluir as obras iniciadas, na qual Freud viu o   reflexo sobre os riscos inerentes  psicanlise
efeito de uma identificao com o pai que aban-    aplicada*, Eissler fez questo de justificar o
donara o filho em sua mais tenra infncia.         conjunto do procedimento de Freud, colocan-
    Em 3 de julho de 1910, Freud escreveu a        do-se, portanto, a servio de uma historiogra-
Karl Abraham*: "Recebi a primeira crtica do       fia* oficial. Pontalis assim resumiu a essncia
Leonardo, a de Havelock Ellis* no Journal of       da argumentao eissleriana: "O erro  mnimo:
Mental Science:  amvel, como sempre. O           substituir `milhafre' por `abutre' no altera a
texto agrada a todos os amigos, e tenho a expec-   essncia em si da fantasia nem sua significao
tativa de que provoque averso em todos os que     sexual de avidez oral e passividade. O erro 
no esto conosco."                                pontual: no contesta o conjunto das contri-
    Em 1923, um leitor especializado no Renas-     buies do livro, quer elas digam respeito ao
cimento italiano escreveu  direo do Burling-    narcisismo, ali introduzido pela primeira vez,
ton Magazine for Connoisseurs, onde se publi-      [quer]  gnese da homossexualidade masculi-
cara um artigo elogioso sobre o livro de Freud.    na (...) trata-se menos de um erro que de um
O correspondente apontou um erro que lhe           lapso* [como se, acrescenta Pontalis com hu-
parecia pr seriamente em dvida a validade da     mor, um lapso no fosse tambm um erro...]
470      Levi-Bianchini, Marco

(...). Que importa um erro factual, refira-se ele      Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
                                                      (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
ao abutre ou aos acontecimentos infantis, se a
                                                      Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; Trs en-
lgica interna -- da construo ou da fantasia,       saios sobre a teoria da sexualidade (1905), ESB, VII,
seu homlogo -- e a lgica do texto que a             129-237; GW, V, 29-145; SE, VII, 123-243; Paris, Gal-
registra funcionam? Felizes dos psicanalistas,        limard, 1987; "Delrios e sonhos na Gradiva, de Jen-
                                                      sen", ESB, IX, 17-96; SE, IX, 1-95; Paris, Gallimard,
que sempre caem de p!"
                                                      1986, 9-23; "Sobre as teorias sexuais das crianas"
     A crtica de Schapiro no parou por a. O his-   (1908), ESB, IX, 213-32; GW, VII, 171-188; SE, IX,
toriador sublinhou um outro erro de Freud, este       205-26; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 14-27;
mais grave, a propsito do quadro que repre-          "Escritores criativos e devaneio" (1908), ESB, IX, 149-
senta Santana, a Virgem e o menino. Esse tema,        62; GW, VII, 213-33; SE, IX, 141-53; in L'Inquitante
                                                      tranget et autres essais, Paris, Gallimard, 1985,
explicou ele, longe de ser raramente abordado         29-46; "Anlise de uma fobia em um menino de cinco
na poca de Leonardo da Vinci, como Freud             anos" (1909), ESB, X, 15-152; GW, VII, 243-377; SE,
pareceu supor, era, ao contrrio, um dos temas        X, 1-147; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF, 1954,
prediletos do Renascimento italiano. Assim, o         93-198; Leonardo da Vinci e uma lembrana de sua
                                                      infncia (1910), ESB, XI, 59-126; GW, VIII, 128-211;
culto a Santana foi particularmente desenvolvi-       SE, XI, 57-137; OC, X, 79-164; "Notas psicanalticas
do, por iniciativa do papa Sexto IV (1414-            sobre um relato autobiogrfico de um caso de parania
1484), entre 1481 e 1510. E Schapiro d uma           (Dementia paranodes)" (1911), ESB, XII, 23-104; GW,
aula de rigor: "A primeira coisa a fazer, quando      VIII, 240-316; SE, XII, 1-79; OC, X, 225-304  Sigmund
                                                      Freud e Karl Abraham, Correspondance, 1907-1926
se quer explicar uma nova imagem artstica,          (Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard, 1969  Sigmund
estabelecer sua prioridade (...). Quanto a esse       Freud e Sandor Ferenczi, Correspondance, 1914-
aspecto, o psicanalista deve dirigir-se  discipli-   1919, Paris, Calmann-Lvy, 1966  Freud/Jung: corres-
na da histria da arte e aos campos culturais         pondncia completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro,
                                                      Imago, 1983  Freud/Lou Andreas-Salom: correspon-
vizinhos, a histria da religio e da vida social."   dncia completa, pref. de Ernst Pfeiffer (Frankfurt,
      difcil no nos interrogarmos sobre o fun-     1966, N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1975  Les
damento do apego de Freud a esse ensaio, sobre        Premiers psychanalystes, Minutes de la Socit Psy-
o qual ele diria, em cartas simultaneamente           chanalytique de Vienne (1962), Paris, Gallimard, 1976
                                                       Kurt R. Eissler, Lonard de Vinci. tude psychanaly-
endereadas a Lou Andreas-Salom* e Sandor            tique (N. York, 1961), Paris, PUF, 1980  Peter Gay,
Ferenczi*, em fevereiro de 1919, que " a nica       Freud: uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988),
coisa bonita que escrevi".                            S. Paulo, Companhia das Letras, 1995  Ernest Jones,
     Segundo Peter Gay, alm do fascnio de           A vida e a obra de Sigmund Freud (N. York, 1953), Rio
                                                      de Janeiro, Imago, 1989  Norman Kiell, Freud without
Freud pelo grande homem do Renascimento,              Hindsight. Review of his Work 1893-1939, Madison,
existem razes mais subterrneas. Gay cita uma        International Universities Press, 1988  Jean Laplan-
carta a Jung, escrita em 2 de dezembro de 1909,       che, A sublimao (Paris, 1980), S. Paulo, Martins
logo depois da apresentao, na qual Freud            Fontes, 1989  Philippe Levillain (org.), Dictionnaire
                                                      historique de la papaut, Paris, Fayard, 1994  Dmitri
afirma ter-se livrado de uma "obsesso" ao            S. Merejkovski, Le Roman de Lonard de Vinci (S.
fazer uma exposio sobre Leonardo na Socie-          Petersburgo, 1902), Paris, Gallimard, 1934  Meyer
dade Psicolgica das Quartas-Feiras*. Os ves-         Schapiro, "Lonard et Freud" (1956), in Style, artiste et
tgios dolorosos do relacionamento com Fliess         socit, Paris, Gallimard, 1982  Giorgio Vasari, La Vie
                                                      des meilleurs peintres, sculpteurs et architectes italiens
e seu reavivamento por ocasio do rompimento          (1550, Florena, 1919), vol.V, traduzido sob a direo
com Alfred Adler* atestam a persistncia, em          de Andr Chastel, Paris, Berger-Levrault, 1983.
Freud, do que ele prprio identificou como
sendo "as mesmas coisas paranicas".                   BIBLIOTECA DO CONGRESSO; DIPO, COMPLE-
     O interesse fundamental desse livro  de         XO DE; HOMOSSEXUALIDADE; ITLIA; PSICOSE; SE-
ordem terica. A Lembrana, com efeito, foi           XUALIDADE.
prenunciadora do estudo, ento em andamento,
sobre as Memrias de um doente dos nervos, de
Daniel Paul Schreber*, onde Freud enunciou            Levi-Bianchini, Marco (1875-1961)
sua tese essencial de que a tendncia recalcada       psiquiatra italiano
para a homossexualidade  um componente                  Psiquiatra judeu originrio da regio de P-
fundamental da parania*.                             dua, Marco Levi-Bianchini comeou em 1909
                                                                                               libido     471

a divulgar a psicanlise nos meios da psiquiatria        libido
italiana atravs de artigos e de tradues aproxi-       Termo latino (libido = desejo*), inicialmente utiliza-
mativas.                                                 do por Moriz Benedikt* e, mais tarde, pelos fun-
    Esprito efervescente e confuso, que acaba-          dadores da sexologia* (Albert Moll* e Richard von
ria manifestando simpatia pelo regime fascista,          Krafft-Ebing*), para designar uma energia prpria
esse incansvel militante da causa psicanaltica         do instinto sexual, ou libido sexualis.
era a encarnao do que Michel David chamou                  Sigmund Freud* retomou o termo numa acep-
de "um no-psicanalista involuntrio": incapaz,          o inteiramente distinta, para designar a manifes-
                                                         tao da pulso* sexual na vida psquica e, por
como a maioria de seus antecessores, de apreen-
                                                         extenso, a sexualidade* humana em geral e a
der a essncia da conceitualidade freudiana, na
                                                         infantil em particular, entendida como causalidade
verdade jamais se arriscou a realizar uma an-           psquica (neurose*), disposio polimorfa (perver-
lise. Entretanto, a atividade institucional de Le-       so*), amor-prprio (narcisismo*) e sublimao*.
vi-Bianchini foi considervel e to apreciada
em Viena* que Sigmund Freud* respondeu a                     Foi com a introduo da palavra libido que
Edoardo Weiss* que desejava convenc-lo dos              Sigmund Freud construiu o que desde ento
perigos da ambivalncia e da inabilidade desse           passou a ser chamado de sua teoria da sexuali-
psiquiatra italiano, que "muitas vezes o conti-          dade, enunciada de maneira programtica em
nente precede o contedo".                               1905 nos Trs ensaios sobre a teoria da sexua-
                                                         lidade*. Esse livro princeps seria reformulado
    Em 1915, quando dirigia o Hospital Psiqui-
                                                         a cada reedio, em funo da evoluo das
trico de Nocera Inferiore, na regio napolitana,
                                                         teses do autor sobre o assunto, em especial  luz
Levi-Bianchini fundou a "Biblioteca Interna-
                                                         de sua reflexo de 1914 sobre o narcisismo, 
cional de Psicanlise", na qual publicou algu-
                                                         luz, em 1920, de Mais-alm do princpio de
mas de suas tradues da obra freudiana, prin-           prazer*, no contexto da instaurao da segunda
cipalmente a das Cinco lies de psicanlise,            tpica, centrada no eu* e no isso*, e, por ltimo,
para a qual Freud redigiu um breve prefcio,              luz da Psicologia das massas e anlise do eu*,
como mencionou em uma carta de 9 de novem-               em 1921. Num artigo de 1923 sobre psicanlise
bro de 1914 a Sandor Ferenczi*. Em 1920, criou           e libido, destinado a uma enciclopdia sobre a
o Archivio Generale di Neurologia e Psichia-             sexologia, o prprio Freud redigiria um his-
tria, que transformou no ano seguinte em Archi-          trico muito claro da gnese desse conceito em
vio Generale di Neurologia, Psichiatria e Psi-           sua teoria. Assim, nessa teoria, a sexualidade
coanalisi, revista na qual Weiss colaborou. En-          como tal s se torna um conceito atravs das
fim, em 1925, quando acabava de ser nomeado              diferentes etapas pelas quais Freud expe o
diretor do Hospital Psiquitrico de Teramo, pe-          termo libido.
quena cidade dos Abruzos na qual o filho de                  No fim do sculo XIX, todos os cientistas e
Freud, Martin, passara uma parte da sua conva-           os mdicos da alma, alemes, franceses e in-
lescena em 1919, Levi-Bianchini fundou a                gleses, estavam obcecados pela sexualidade, e
Societ Psicoanalitica Italiana (SPI), da qual           todos buscavam uma nova definio da identi-
Weiss era ento o nico membro autentica-                dade do homem que levasse em conta suas
mente psicanalista.                                      prticas sexuais efetivas, fossem elas conside-
                                                         radas "normais" ou "patolgicas". Sob esse
 Michel David, La psicoanalisi nella cultura italiana   aspecto, o nascimento da sexologia (ou cincia
(1966), Turim, Bollatti Boringhieri, 1990  Sigmund      da atividade sexual) est ligado ao da crimino-
Freud e Edoardo Weiss, Lettres sur la pratique psycha-
nalytique (1970), Toulouse, Privat, 1975  Sigmund
                                                         logia* (cincia do comportamento criminal)
Freud e Sandor Ferenczi, Correspondance, 1914-           como construo de uma nova antropologia*,
1919 (1992), Paris, Calmann-Lvy, 1996.                  fundamentada na hereditariedade-degeneres-
                                                         cncia*: em ambos os casos, trata-se de definir
 BENUSSI, VITTORIO; FREUD, MARTIN; ITLIA;               o homem a partir de seu "instinto biolgico"
MUSATTI, CESARE; PERROTTI, NICOLA; PSIQUIA-              (sua "raa", sua hereditariedade, seu sexo) e de
TRIA DINMICA; SERVADIO, EMILIO.                         integrar nele um componente degenerativo ou
472     libido

destrutivo (o crime, as perverses sexuais). Da    literrio, no qual o haviam encerrado os sex-
a idia de dar um novo nome (homossexualida-        logos, para dela fazer um componente essencial
de*)  forma mais conhecida e mais antiga de        da sexualidade como fonte do conflito psquico,
"inverso", a fim de contrast-la com uma nova      para integr-la na definio da pulso e na
norma: a heterossexualidade.                        relao de objeto* (libido objetal) e, por fim,
    A adoo da palavra libido pelos cientistas     para lhe encontrar uma identidade narcsica (a
do fim do sculo XIX remete  construo dessa      libido do eu), a partir de 1914. Ao trmino desse
nova maneira de dizer e pensar a sexualidade,       percurso, portanto, Freud teria tomado empres-
ornando-a com um jargo. De fato, os termos         tada a terminologia da sexologia para abrir
latinos sempre tiveram uma funo ambiva-           caminho para uma nova concepo do Eros
lente na histria da psicopatologia, da medicina    platnico, na qual a libido, identificada com a
e da psiquiatria. Sob um vu de cincia e erudi-    pulso sexual, tornou-se uma pulso de vida
o, eles descrevem uma realidade bruta (o          (Eros), em oposio  pulso de morte (Thana-
corpo, a morte, o amor, a doena etc.) carregada    tos). O escndalo da teoria freudiana da libido,
de proibies e segredos, e cujo contedo se        que seria chamada de pansexualismo*, veio,
pretende mascarar do principal interessado: o       portanto, do fato de Freud haver normalizado
prprio homem, transformado em doente               um campo do qual a cincia e a medicina se
sexual, criminoso, invertido etc.                   haviam apropriado em detrimento do principal
    Foi nessa perspectiva de apropriao erudita    interessado, o prprio sujeito. Ao abandonar a
das coisas da sexualidade que os sexlogos          hipnose*, Freud devolveu ao sujeito a liberdade
utilizaram a palavra libido para descrever todas    da fala e reavivou a esperana de cura, em
as variaes possveis da atividade sexual hu-      oposio ao niilismo teraputico. Do mesmo
mana, no sentido de atividade genital. O empre-     modo, ao retirar a libido sexualis do jardim dos
go generalizado desse termo indica, alis, o        sexlogos, Freud fez dela o principal determi-
rompimento que se efetuou nessa poca entre         nante da psique humana. Da a obsesso com a
esse novo discurso sobre a sexualidade (como        sexualidade que observamos na maneira como
libido sexualis) e a antiga terminologia filos-    ele conduziu suas trs grandes anlises, de Ida
fica, baseada no Eros (amor) platnico, da qual     Bauer*, Ernst Lanzer* e Serguei Constantino-
foram conservados apenas um adjetivo -- er-        vitch Pankejeff*, e como "dirigiu" a do Peque-
geno --, para designar uma zona do corpo ou         no Hans. Entre seus primeiros discpulos, Fritz
uma atividade ligada  excitao sexual, e um       Wittels* e Isidor Sadger*, assim como em Her-
substantivo -- auto-erotismo* --, para definir      mine von Hug-Hellmuth*, essa obsesso des-
uma emoo sexual sem objeto.                       cambaria para o delrio interpretativo, o qual,
    A sexologia e seus grandes representantes --    por sua vez, viria a alimentar o horror dos
de Havelock Ellis* a Magnus Hirschfeld* --          antifreudianos  libido freudiana.
instauraram uma concepo geral da libido               Essa modificao da libido sexualis no se
sexualis cujo objetivo era compreender e des-       efetuou linearmente, mas atravs de conflitos,
crever a sexualidade sob todas as suas formas,      reformulaes, sofrimentos, cises* e dios que
quer para sancion-la, quer para reivindic-la      com freqncia levaram Freud a se mostrar
como uma "diferena" positiva. Da os catlo-       feroz e intolerante para com seus prximos e
gos,  maneira de Cuvier (1769-1832) ou Sade        seus adversrios. Alfred Adler* e Carl Gustav
(1740-1814), que descrevem as mltiplas prti-      Jung* pagaram o preo dessa intransigncia.
cas de uma sexualidade desde ento exibida aos          Num primeiro momento, em junho de 1894,
olhos dos juristas, dos mdicos e dos higienis-     num manuscrito enviado a Wilhelm Fliess*,
tas. Se essa eflorescncia alimentou fartamente     Freud empregou o termo no sentido de uma
o pensamento freudiano, isso no quer dizer que     libido psquica. Nessa poca, ele ainda atribua
Freud no tenha inventado nada nesse campo.          histeria* uma causalidade sexual, decorrente
    A iniciativa de Freud consistiu, em primeiro    de uma seduo* vivida na infncia, e, tal como
lugar, em retirar a libido desse jardim das del-   Jean Martin Charcot*, definiu uma zona his-
cias, a um tempo perverso, genital, normativo e     terognica, ou seja, uma regio do corpo que era
                                                                                         libido     473

libidinalmente investida e cuja excitao era         objetivo no sexual, onde investe objetos so-
acompanhada por um prazer sexual capaz de             cialmente valorizados: a arte, a literatura, o
levar ao ataque histrico. Da Freud passou para      intelectualismo, a atividade passional.
a noo de zona ergena, que tomou empres-                A essa teoria da sublimao, que ele desen-
tada dos sexlogos. Aps o abandono da teoria         volveria em 1910, em Leonardo da Vinci e uma
da seduo, em 1897, a causalidade sexual ser-        lembrana de sua infncia*, Freud acrescentou
viu para explicar o conflito psquico produtor        uma descrio das zonas ergenas, caracters-
da neurose: o histrico sofria de reminiscncias      ticas da atividade libidinal. Se a libido pode se
e, depois, de fantasias* e sonhos*, cujo conte-      deslocar quanto ao objeto e quanto ao objetivo,
do convinha explorar atravs da psicanlise*.         ela tambm pode diversificar-se quanto  sua
Para isso, era preciso voltar  infncia e, portan-   fonte de excitao: h, portanto, uma diversifi-
to, s primeiras experincias sexuais do sujeito.     cao das zonas ergenas, que se distribuem por
Foi assim que Freud se orientou, por volta de         quatro regies do corpo: oral, anal, uretro-geni-
1900, para a elucidao da sexualidade infantil,      tal e mamria. A cada zona correspondem uma
que, a partir da publicao dos Trs ensaios, em      ou mais atividades erticas, dentre as quais
1905, tornou-se o eixo da sexualidade humana.         Freud situou os atos mais simples da vida coti-
    Num primeiro tempo, ele fez da libido uma         diana das crianas: suco do polegar ou do seio
"energia", isto , a manifestao dinmica, na        da me, defecao e masturbao. Chegou at
vida psquica, do impulso (ou pulso) sexual.         a estender a noo de erotogenia ao corpo intei-
Isso o levou a esta grande redefinio: a libido      ro, inclusive os rgos internos.
j no era sexualis, no mais constitua uma              Dessa descrio da libido como diversifica-
atividade somtica, mas era um desejo sexual          o em zonas ergenas decorreu uma organiza-
que procurava satisfazer-se, fixando-se em ob-        o "evolucionista" da sexualidade (a teoria dos
jetos. Se era um desejo, tinha uma essncia           estdios*), to central na reformulao freudia-
nica: da a adoo freudiana, a partir de 1905,      na quanto a relao objetal. De fato, se  preciso
da tese do monismo sexual, segundo a qual a           retornar  infncia para compreender a gnese
libido seria de natureza masculina, quer se           da sexualidade adulta,  porque a libido se
manifestasse no homem ou na mulher.                   organiza de maneira diferenciada com respeito
    Em janeiro de 1909, numa reunio da Wie-          a cada zona, conforme as etapas da vida. A cada
ner Psychoanalytische Vereinigung (WPV) de-           idade, a cada estdio corresponde uma modali-
dicada ao diabo e a suas manifestaes na his-        dade da relao de objeto. Depois de mltiplas
tria, Freud justificou essa teoria de um modo        reformulaes, Freud distinguiu quatro deles: o
muito estranho: "Conviria ainda chamar aten-          estdio oral, o estdio anal, o estdio flico e o
o para o fato de que o demnio  uma perso-         estdio genital. Posteriormente, a teoria dos
nalidade masculina por excelncia, o que sus-         estdios seria reformulada muitas vezes pelas
tenta uma tese da teoria da sexualidade segundo       diversas escolas.
a qual a libido, onde quer que aparea,  sempre          Se h uma diversificao das zonas erge-
masculina (a nica criatura diablica feminina        nas, isso significa que a pulso sexual (cuja
 a av do demnio)." A tese do monismo, que          manifestao  a libido) divide-se em pulses
seria contestada pela escola inglesa, no contex-      parciais: duas delas esto ligadas a regies do
to do grande debate dos anos vinte sobre a            corpo (pulso oral e pulso anal), enquanto as
sexualidade feminina*, ficou ligada para Freud        outras se definem por seu alvo (a pulso de
a essa idia de que o diabo personifica, na           dominao, por exemplo). No contexto da libi-
tradio ocidental, um componente essencial e         do objetal de 1905, toda pulso parcial busca
recalcado da sexualidade humana.                      satisfao no prprio corpo. Da a introduo
    Todavia, a libido, que  uma dimenso fun-        da noo de auto-erotismo, tomada de Have-
damental da pulso, fixa-se em objetos: essa          lock Ellis, mas rejeitada por Eugen Bleuler*
libido objetal pode deslocar-se em seus inves-        (que substituiria esse termo por autismo*).
timentos*, mudando de objeto e de objetivo.              Que Freud tenha preferido o termo auto-ero-
ento sublimada, ou seja, derivada para um            tismo permite compreender o piv da discusso
474     libido

com Jung, que sobreveio a partir de 1906, ou        reencontrado, o do amor platnico, simultanea-
seja, um ano aps a publicao dos Trs ensaios,    mente desejo, sublimao e sexualidade em
e que levaria ao rompimento entre os dois ho-       todas as suas formas humanas (homos-
mens e... a duas novas definies da libido.        sexualidade*, bissexualidade*). Compreende-
    Jung rejeitou a idia freudiana, consideran-    se, portanto, por que ele tambm se oporia a
do que a libido era um "impulso" voluntrio.        Wilhelm Reich*, herdeiro da sexologia, que
Foi em 1911, com a publicao de uma primeira       quis ressexualizar a libido no contexto de uma
verso do que iria transformar-se em As meta-       teoria biolgica da satisfao orgstica.
morfoses da alma e seus smbolos, que a diver-          Em Mais-alm do princpio de prazer, onde
gncia tornou-se manifesta. Jung revisou a to-      se organizou um novo dualismo pulsional (pul-
talidade da teoria freudiana, rejeitou o com-       so de vida/pulso de morte), a libido foi as-
plexo de dipo* e a idia do desejo incestuoso*,    similada a Eros: "A libido de nossas pulses
recusou qualquer origem sexual na neurose e,        sexuais coincide com o Eros dos poetas e fil-
por ltimo, identificou a libido com uma ener-      sofos, que mantm a coeso de tudo aquilo que
gia psquica sem pulso sexual: uma libido          vive." E, no Esboo de psicanlise*, os dois
originria, que poderia ser sexualizada ou des-     termos se fundiram: "toda a energia de Eros, que
sexualizada. Alm disso, em 1910, renunciando       doravante denominaremos de libido."
ao auto-erotismo, inventou a noo de introver-         No entanto, a imagem de Eros no aboliu a
so*, para designar o retraimento da libido para    de libido,  qual Freud se apegava acima de
o mundo interno do sujeito.                         tudo, na medida em que, sendo uma palavra
    No mesmo ano, numa conferncia intitulada       latina, ela traduzia a universalidade do conceito
"A concepo psicanaltica da perturbao psi-      de sexualidade e, desse modo, no exigia uma
cognica da viso", Freud falou em pulso do        transcrio em outras lnguas. Sob esse aspecto,
eu para designar, por oposio  pulso sexual,     ao conservar esse termo em latim, Freud sub-
aquilo que, em 1905, inclua na categoria das       verteu o velho jargo dos especialistas. Fez da
funes de autoconservao do eu.                   libido o mbil de um escndalo, que apareceria,
    Da libido do eu para a pulso do eu h apenas   a partir de 1910, nas mltiplas resistncias
um passo, e Freud o deu em seus trabalhos de        opostas  psicanlise em todos os pases, sendo
metapsicologia* de 1914-1915, onde se enun-         ela sempre e por toda parte qualificada de dou-
ciou um novo dualismo pulsional (pulso do          trina pansexualista: "germnica" demais aos
eu/pulso sexual), logo questionado pelo artigo     olhos dos franceses, "latina" demais para os
"Sobre o narcisismo: uma introduo". Nessa         escandinavos, "judaica" demais para o nazis-
resposta a Jung sobre a dupla problemtica da       mo* e "burguesa" demais, enfim, para o comu-
introverso e da libido, a oposio libido do       nismo, ou seja, tal como para Jung, sempre
eu/libido do objeto veio substituir o antigo dua-   "sexual" em demasia.
lismo pulsional, e a pulso do eu foi pronta-        Sigmund Freud, "A concepo psicanaltica da pertur-
mente assimilada ao amor-prprio e, portanto,       bao psicognica da viso" (1910), ESB, XI, 197-206;
a uma libido do eu, logo reconvertida em libido     GW, VIII, 94-102; SE, XI, 209-18; OC, X, 177-87;
narcsica, termo que abriu caminho para todas       "Sobre o narcisismo: uma introduo" (1914), ESB,
                                                    XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV, 73-102; in La Vie
as teorias da Self Psychology*, para uma            sexuelle, Paris, PUF, 1969, 80-105; "A histria do mo-
concepo da neurose narcsica, intermediria       vimento psicanaltico" (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X,
entre a neurose e a psicose, e para a abordagem     44-113; SE, XIV, 7-66; Paris, Gallimard, 1991; "Dois
terica dos borderlines*.                           verbetes de enciclopdia: (A) Psicanlise, (B) A teoria
                                                    da libido" (1923), ESB, XVIII, 287-307; GW, XIII, 211-
    V-se, portanto, o caminho percorrido por       33; SE, XVIII, 235-59; OC, XVI, 181-208; "A organiza-
Freud. Contrariando os sexlogos, que a redu-       o genital infantil da libido (uma interpolao na teoria
ziam ao sexual no sentido genital, ele estendeu     da sexualidade)" (1923), ESB, XIX, 179-88; GW, XIII,
a libido a uma pulso sexual generalizada, e,       293-8; SE, XIX, 141-5; OC, XVI, 303-9; "Tipos libidinais"
                                                    (1931), ESB, XXI, 251-8; GW, XIX, 509-13; SE, XXI,
opondo-se a Jung, que, ao contrrio, pretendia      215-20; OC, XIX, 1-6; La Naissance de la psychanalyse
dissolv-la numa instncia assexual, inscreveu-     (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956  Freud/Jung: cor-
a como componente central de um Eros enfim          respondncia completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro,
                                                                      Libeault, Ambroise Auguste            475

Imago, 1983  Les Premiers psychanalystes, Minutes         de sugesto* por fixao do olhar e injuno de
de la Socit Psychanalytique de Vienne, II, 1908-1910
                                                           dormir fora inventado em 1813 pelo padre por-
(N. York, 1967), Paris, Gallimard, 1978, 121-7  Richard
von Krafft-Ebing, Psychopathia sexualis (Stuttgart,        tugus Jos Custdio de Faria (1756-1819).
1886, Paris, 1907), Paris, Payot, 1969  Albert Moll,      Como o marqus Armand de Puysgur (1751-
Untersuchungen ber die Libido sexualis, Berlim, Fis-      1825), Faria abandonara completamente a idia
chers Medizinische Buchhandlung, H. Kornfeld, 1897         de fluido magntico e adotara noes de
 Havelock Ellis, tudes de psychologie sexuelle, vol.1
(Londres, 1897), Paris, Mercure de France, 1904  Carl
                                                           concentrao e de sono lcido, julgando que o
Gustav Jung, Les Mtamorphoses de l'me et ses             sono artificial provinha da vontade do paciente
symboles (Leipzig-Viena, 1912, Paris, 1931), Paris,        e no da do hipnotizador. Assim, abrira o cami-
Buchet-Chastel, 1953; Ma vie (Zurique, 1962) Paris,        nho para tratamentos por sugesto hipntica,
Gallimard, 1966  Ernest Jones, A vida e a obra de
Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955, 1957),
                                                           que no precisavam mais de um suporte tang-
Rio de Janeiro, Imago, 1989  Jean Laplanche e Jean-       vel (o fluido), para demonstrar a eficcia tera-
Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris,      putica de uma relao dual, que James Braid
1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Henri F.   (1795-1860) classificou na categoria do hipno-
Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'inconscient    tismo e que Sigmund Freud* teorizou mais
(N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris,
Fayard, 1994  Frank J. Sulloway, Freud, Biologist of      tarde sob o termo "transferncia"*.
the Mind, N. York, Basic Books, 1979.                          Na histria da primeira psiquiatria dinmi-
                                                           ca*, Libeault foi assim, depois de Puysgur,
 FETICHISMO; SADOMASOQUISMO; TRANSEXUA-                    Faria e Braid, o quarto grande pioneiro do aban-
LISMO.                                                     dono do magnetismo mesmeriano e um dos
                                                           inventores do hipnotismo moderno, que daria
                                                           origem s diversas psicoterapias* da segunda
Library of Congress                                        psiquiatria dinmica, entre as quais a mais bri-
 BIBLIOTECA DO CONGRESSO.                                  lhante e a mais inovadora: a psicanlise*.
                                                               Em 1882, Hippolyte Bernheim* foi visit-
                                                           lo. Converteu-se s suas idias, declarou-se seu
Libeault, Ambroise Auguste                                aluno e seu amigo, e introduziu a sugesto na
(1823-1904)
                                                           medicina oficial hospitalar-universitria, opon-
mdico francs
                                                           do-se logo a Jean Martin Charcot*, grande mes-
    Pai espiritual da Escola de Nancy, Auguste             tre da escola da Salptrire, empenhado em uma
Libeault era o dcimo segundo filho de uma                nova abordagem da histeria*.
famlia de camponeses lorenos. Quando es-                      Em sua autobiografia de 1925, Sigmund
tudava medicina, descobriu o magnetismo, em                Freud evocou a lembrana desse mdico
um relatrio de 1848, redigido por Henri-Marie             impressionante: "Com a inteno de aperfei-
Husson (1772-1853), e se entusiasmou por esse              oar minha tcnica hipntica, no vero de 1889
mtodo, em uma poca em que era condenado                  fui a Nancy, onde passei vrias semanas. Vi o
pelo conjunto dos mdicos na Europa. Tornan-               velho Libeault, que era comovente no trabalho
do-se clnico rural em Pont-Saint-Vincent, per-            que fazia com as mulheres e as crianas pobres
to de Nancy, tratou gratuitamente dos pobres               da populao operria."
pelo mtodo do sono artificial. Acusado de
charlatanismo por seus colegas, adquiriu entre-             Auguste Libeault, Du sommeil et des tats analo-
tanto uma grande reputao como hipnotizador,              gues, considrs surtout au point de vue de l'action du
                                                           moral sur le physique, Paris, Masson, 1866  Henri F.
tratando tanto as doenas orgnicas (lceras,              Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'inconscient
tuberculose pulmonar) quanto as afeces ps-              (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris,
quicas. Dois anos depois, criou em Nancy a                 Fayard, 1994  Lon Chertok e Raymond de Saussure,
famosa clnica do doutor Libeault, na qual                Naissance du psychanalyste (1973), Paris, Synthla-
recebeu muitos doentes.                                    bo, col. "Les empcheurs de penser en rond", 1997 
                                                           Pierre Morel (org.), Dicionrio biogrfico psi (Paris,
    Sua tcnica era sempre a mesma: adormecia              1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
os pacientes, pedindo-lhes que o olhassem fixa-
mente nos olhos, e lhes ordenava que tivessem               ESPIRITISMO; ESTUDO AUTOBIOGRFICO, UM;
cada vez mais vontade de dormir. Esse mtodo               HIPNOSE; MESMER, FRANZ ANTON.
476     Lieben, Anna von

Lieben, Anna von, ne von Todesco                   tativas, porm sem melhores resultados do que
(1847-1900), caso Ccilie M.                        eu."
    Anna von Lieben foi uma das pacientes de            Em 1986, o historiador Peter Swales identi-
Sigmund Freud* e Josef Breuer* cujo caso           ficou Frau Ccilie pela primeira vez e formulou
relatado nos Estudos sobre a histeria*, sob o       a hiptese de que se trataria de Anna von Lie-
nome de Frau Ccilie M. Sofrendo de violentas       ben, uma rica aristocrata vienense que fora ini-
                                                    cialmente tratada por Jean Martin Charcot* e
nevralgias faciais, a doente fora tratada sem
                                                    Theodor Meynert*. Segundo Swales, entre
resultado por todos os mtodos habituais: esco-
                                                    1889 e 1893, ela fez uma longa anlise com
va eltrica, guas alcalinas, laxantes etc. De-
                                                    Freud, no decorrer da qual ele elaborou os prin-
pois, um dentista a submetera a uma cruel ope-
                                                    cpios do mtodo psicanaltico. Na grande saga
rao cirrgica, a extrao de sete dentes per-
                                                    dos casos princeps, Anna von Lieben pode ser
feitamente sadios, sem obter o menor resultado.     encarada, portanto, como a primeira mulher
Foi ento que Freud utilizou a hipnose* e lanou    psicanalisada da histria do freudismo*. Desse
sobre as dores uma "proibio sumamente enr-       modo, teria sido a "mestra" de Freud, sua pri-
gica". Um ano depois, a paciente apresentou         ma-donna, entregando-lhe o inconsciente*
mltiplos sintomas histricos. Freud utilizou       "numa bandeja de prata".
novamente a hipnose e, em seguida, recorreu 
fala. Frau Ccilie explicou ento uma antiga         Sigmund Freud, "Um estudo autobiogrfico" (1925),
cena traumtica, uma briga conjugal em que seu      ESB, XX, 17-88; GW, XIV, 33-96; SE, XX, 7-70; OC,
                                                    51-122  Peter Swales, "Freud, his teacher, and the
marido a havia insultado. Ao narrar esse acon-
                                                    birth of psychoanalysis", in Paul E. Stepansky (org.),
tecimento, ela ps a mo no rosto e exclamou:       Freud, Appraisals and Reappraisals, vol.1, N. Jersey,
"Foi como uma bofetada no rosto."                   The Analytic Press, 1986, 3-83  Lisa Appignanesi e
    Freud notou que as dores cessaram em razo      John Forrester, Freud's Women, N. York, Basic Books,
                                                    1992.
de um processo de simbolizao (ou converso
simbolizante). Feita essa descoberta, deu conti-     AUGUSTINE; CATARSE; ECKSTEIN, EMMA; HIS-
nuidade ao tratamento e conseguiu fazer a pa-       TERIA; HISTORIOGRAFIA; LIBEAULT, AUGUSTE;
ciente contar as afrontas que havia sofrido desde   MOSER, FANNY; HM, AURELIA; PAPPENHEIM,
sua infncia. Assim, aos 15 anos de idade, ela      BERTHA; SEXUALIDADE; SUGESTO.
havia sentido uma violenta dor de cabea quan-
do a av a fitara com seu olhar penetrante, que
lhe havia "penetrado" no crebro. Frau Ccilie      Loewald, Hans (1906-1993)
permitiu a Freud compreender a relao entre        psiquiatra e psicanalista americano
um sintoma histrico e uma simbolizao. Era
                                                        Nascido na Alscia de um pai judeu que
pela linguagem que eram provocados, segundo         morreu muito cedo, Hans Loewald foi educado
ele, os acessos de nevralgia. Nesse ataque his-     em Berlim por sua me. Em Freiburg, onde
trico, havia uma converso das palavras num        estudou filosofia como aluno de Martin Heideg-
fenmeno somtico.                                  ger (1889-1976), ficou profundamente chocado
    Durante o vero de 1889, quando passou          com a aproximao deste com o partido nazista.
uma temporada em Nancy, Freud fez-se                Deixou ento a Alemanha* e foi para Roma,
acompanhar por Frau Ccilie e pediu a Hippo-        onde estudou medicina e psiquiatria. Fugindo
lyte Bernheim* que a hipnotizasse: "Era uma         do fascismo italiano, tentou em vo tornar-se
histrica de grande distino", disse, "genial-     cidado francs, emigrando em 1939 para os
mente dotada, que fora entregue a meus cuida-       Estados Unidos*.
dos porque ningum sabia o que fazer com ela.           Fez sua formao psicanaltica no Instituto
Em minha ignorncia da poca, eu atribua o         da Baltimore-Washington Psychoanalytic So-
fato de ela ter recadas sistemticas de tempos     ciety (que se cindiria em duas sociedades dis-
em tempos ao fato de sua hipnose nunca haver        tintas) e publicou os seus primeiros artigos psi-
atingido o grau de sonambulismo acompanhado         canalticos no incio dos anos 1950. Tornou-se
de amnsia. Assim, Bernheim fez diversas ten-       ento uma das figuras eminentes da escola psi-
                                                                       Loewenstein, Rudolph            477

canaltica da Nova Inglaterra, em New Haven,         Hans Loewald, Papers on Psychoanalysis, New Ha-
                                                    ven, Yale University Press, 1980; "La Psychanalyse en
e ensinou psiquiatria na Universidade Yale.
                                                    tant qu'art et la dimension imaginaire de la situation
    Na introduo que redigiu, em 1980, para a      analytique" (1974), in Harold P. Blum (org.), Dix ans de
publicao de um volume que reunia suas prin-       psychanalyse en Amrique. Anthologie du Journal of
cipais contribuies, lembrou que a filosofia foi   the American Psychoanalytic Association, Paris, PUF,
                                                    1981, 309-28  Martin Heidegger, Ser e tempo, 2 vols.
o seu "primeiro amor". Declarou sua dvida
                                                    (1927), Petrpolis, Vozes, 1988  Alan Bass, comuni-
intelectual para com a filosofia de Heidegger, a    cao indita ao Colquio de Cerisy sobre o tema
permanncia de sua adeso a algumas das teses       "Depuis Lacan", julho de 1996  Phyllis Tyson e Robert
essenciais do autor de Ser e tempo (Sein und        L. Tyson, Teorias psicanalticas do desenvolvimento
Zeit), e mencionou mais uma vez sua ruptura         (New Haven, Londres, 1990), P. Alegre, Artes Mdicas,
                                                    1993.
definitiva com o mestre da Floresta Negra.
    Nem que seja apenas a ttulo da sua cultura      ANLISE EXISTENCIAL; OBJETO, RELAO DE;
filosfica e dessa inspirao heideggeriana,        OBJETO TRANSICIONAL; SELF PSYCHOLOGY.
Hans Loewald foi uma figura de exceo no
mundo psicanaltico americano, cujas opes
positivistas recusou, mostrando-se particular-      Loewenstein, Rudolph (1898-1976)
mente crtico em relao  corrente da Ego          psiquiatra e psicanalista americano
Psychology*.                                            Nascido em Lodz, Rudolph Loewenstein era
    Sua formao filosfica, a acuidade de sua      de uma famlia judia radicada na Galcia polo-
leitura de Freud, sua recusa a qualquer reduo     nesa integrada ao imprio russo. Estudou medi-
da segunda tpica* freudiana, sua concepo         cina e, fugindo do anti-semitismo, emigrou para
deliberadamente no-biolgica da teoria das         Zurique, onde refez seu curso de medicina e
pulses e o seu interesse particular pela pulso*   descobriu a nova psiquiatria bleuleriana. Inte-
de morte, o privilgio que atribua  linguagem     ressado pela psicanlise*, foi ento a Berlim,
so caractersticas que confirmaram a idia de      onde, pela terceira vez, recomeou os seus es-
um parentesco entre a abordagem de Loewald          tudos.
e o sistema de pensamento desenvolvido por              Analisado por Hanns Sachs*, no tardou a
Jacques Lacan*. Mas essa comparao deve ser        realizar um velho sonho, instalando-se na Fran-
matizada por diferenas irredutveis, quer se       a, ptria dos direitos humanos. Graas a Marie
trate da adeso de Loewald aos padres da           Bonaparte*, de quem foi amante durante um
International Psychoanalytical Association*         curto perodo, obteve sua naturalizao, depois
(IPA) em matria de prtica psicanaltica, ou da    de refazer pela quarta vez seus estudos de me-
ausncia, em seus trabalhos, de referncia ex-      dicina. Em Paris, onde chegou em 1925, encon-
plcita ou de aplicao direta de sua cultura       trou os pioneiros do freudismo francs e parti-
filosfica.                                         cipou da fundao do grupo da Evoluo Psi-
    Loewald desenvolveu uma problemtica de         quitrica* e da Sociedade Psicanaltica de Paris
inspirao fenomenolgica, centrada na din-        (SPP), ao lado de Ren Laforgue*, Eugnie
mica da organizao pr-edipiana, no narcisis-      Sokolnicka*, douard Pichon* etc.
mo* primrio e na proximidade existente du-             Entre 1926 e 1939, apoiado por Marie Bo-
rante esse perodo do desenvolvimento psqui-       naparte, Raymond de Saussure* e Charles
co entre o eu* e a realidade. Em um de seus         Odier*, Loewenstein se tornou o representante
artigos traduzidos para o francs, expe a idia    da corrente ortodoxa da SPP, e depois, diante de
de que a prtica psicanaltica  uma arte, e a      Laforgue, foi o principal didata do grupo pari-
neurose* de transferncia*  comparada ao           siense. Como tal, formou os trs grandes repre-
registro da teatralidade. O lugar de interveno    sentantes da segunda gerao psicanaltica
do analista  constitudo, segundo Loewald,         francesa: Sacha Nacht*, Daniel Lagache* e
pelo espao transicional entre a fantasia* inte-    principalmente Jacques Lacan*, com o qual as
rior e a realidade, espcie de terceiro lugar,      relaes foram difceis, conflituosas.
comparvel ao terreno dos jogos elaborado por           Loewenstein teria permanecido francs e
Donald Woods Winnicott*                             desempenharia na Frana um papel importante,
478      logoterapia

se a guerra no o tivesse obrigado a uma nova           tempos e cuja origem  buscada ora na magia
emigrao. Depois de ser mobilizado, em 1939,           (possesso demonaca ou divina), ora no cre-
pelo exrcito francs, refugiou-se na casa de           bro ou nos humores (medicina hipocrtica), ora,
Marie Bonaparte em Saint-Tropez, e dali pas-            ainda, nos movimentos da alma (psicologia).
sou para a Sua, onde se encontrou com Heinz           Foi com Descartes e a famosa primeira frase das
Hartmann*, tambm no exlio e acolhido por              Meditaes que se concretizou, no sculo XVII,
Saussure. Em 1942, os trs se integraram  New          a idia de que a loucura talvez fosse inerente ao
York Psychoanalytical Society (NYPS). No ano            prprio pensamento: "E como poderia eu negar
seg uin te, Loewenstein assumiu a res-                  que estas mos e este corpo so meus, a no ser
ponsabilidade pelo ensino no instituto depen-           que me compare queles insensatos cujo cre-
dente da sociedade e, de 1959 a 1961, foi o seu         bro  to perturbado e ofuscado pelos negros
presidente. Exerceu tambm, em 1957-1958, as            vapores da bile, que eles constantemente as-
funes de presidente da poderosa American              seguram ser reis, quando so muito pobres, estar
Psychoanalytic Association* (APsaA).
                                                        vestidos de ouro e prpura, quando esto nus,
   Depois de redigir artigos tcnicos durante o
                                                        ou imaginam ser cntaros ou ter um corpo de
tempo que passou na Frana, participou, no
                                                        vidro? Mas, qual! Eles so loucos, e eu no seria
contexto da grande expanso do movimento
                                                        menos extravagante se me pautasse por seus
psicanaltico americano, da elaborao da cor-
rente da Ego Psychology*, da qual Heinz Hart-           exemplos."
mann foi o fundador. Publicou tambm uma                    H trs maneiras de pensar o fenmeno da
obra sobre o anti-semitismo.                            loucura desde que ela foi arrancada do universo
                                                        da magia ou da religio: a primeira consiste em
 Rudolph Loewenstein, "La Technique psychanalyti-      introduzi-la no quadro nosolgico construdo
que", Revue Franaise de Psychanalyse, II, 1, 1928,     pelo saber psiquitrico e consider-la uma psi-
113-34; "Remarques sur le tact dans la technique psy-
chanalytique", Revue Franaise de Psychanalyse, IV,     cose* (parania*, esquizofrenia*, psicose ma-
2, 1930-1931, 266-75; Psychanalyse de l'antismi-       naco-depressiva*); a segunda visa elaborar
tisme, Paris, PUF, 1952  lisabeth Roudinesco, His-    uma antropologia* de suas diferentes manifes-
tria da psicanlise na Frana, 2 vols. (Paris, 1982;   taes de acordo com as culturas (etnopsiquia-
1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989; 1988; Jac-
ques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um          tria, etnopsicanlise*, sociologia, psiquiatria
sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,          transcultural); a terceira, finalmente, prope
Companhia das Letras, 1994.                             abordar a questo pelo ngulo de uma escuta
                                                        transferencial da fala, do desejo* ou da vivncia
 ESTADOS UNIDOS; FRANA; TCNICA PSICANA-
LTICA.
                                                        do louco (psiquiatria dinmica*, anlise exis-
                                                        tencial*, fenomenologia, psicanlise*, antipsi-
                                                        quiatria*).
logoterapia                                                 De fato, essas trs maneiras de conceber a
 ANLISE EXISTENCIAL.                                   loucura sempre se cruzaram.  difcil, com efei-
                                                        to, conceber a verdade da loucura indepen-
                                                        dentemente da razo que a pensa, mesmo que
loucura                                                 essa verdade ultrapasse a razo. E, se a psican-
al. Wahnsinn; esp. locura; fr. folie; ing. madness      lise nasceu de um grande desejo de tratar e curar
    Quer ela seja chamada de furor, mania, de-          as doenas nervosas, ela sempre se implantou,
lrio, fria, frenesi ou alienao, quer o insano       ao mesmo tempo, no campo do tratamento da
seja designado por um termo popular (doido,             loucura, numa reao contra o niilismo terapu-
pancada, degringolado, maluco, biruta, tant),          tico de uma psiquiatria mais preocupada em
a loucura sempre foi considerada como o outro           classificar entidades clnicas do que em escutar
da razo. Extravagncia, perda do juzo, pertur-        o sofrimento dos enfermos. Testemunho disso,
bao do pensamento, divagao do esprito,             se necessrio, foi a experincia princeps de
domnio das paixes, tais so as imagens dessa          Eugen Bleuler* na Clnica do Burghlzli, em
doena que atinge os homens desde a noite dos           Zurique.
                                                                                    Lucy, Miss        479

    Os discpulos e sucessores de Freud (sobre-    Henri Ey*, esse livro abriu caminho para uma
tudo Karl Abraham*, Melanie Klein* e seus          nova abordagem historiogrfica da loucura, cu-
alunos) foram os primeiros a elaborar uma cl-     jo impacto podemos avaliar pela acolhida ne-
nica da loucura. Jacques Lacan*, por seu lado,     gativa que ele recebeu e pelas mltiplas resis-
foi o nico dentre os herdeiros de Freud a         tncias que suscitou. Ele foi, sem sombra de
realizar uma verdadeira reflexo filosfica so-    dvida, o ponto de partida para uma inverso
bre o estatuto da loucura. Desde 1932, preconi-    de perspectiva entre a razo e a loucura, a qual
zou em sua tese que o saber psiquitrico fosse     foi levada em conta na quase totalidade dos
repensado segundo o modelo do inconsciente*        trabalhos posteriores sobre o assunto, fossem
freudiano e, em 1946, comentou a famosa frase      eles foucaultianos ou no. Entretanto, essa
das Meditaes, sustentando que a fundao do      abordagem no surtiu nenhum efeito no trata-
pensamento moderno por Descartes no ex-           mento psiquitrico da loucura, que evolui cada
clua o fenmeno da loucura.                       vez mais, neste fim do sculo XX, para um
    Por volta de 1960, a generalizao da farma-   niilismo teraputico e um organicismo compa-
cologia no tratamento das doenas mentais ps      rveis aos que Freud combateu cem anos atrs.
fim  nosografia oriunda de Emil Kraepelin* e
 abordagem freudo-bleuleriana, substituindo o      Jacques Lacan, "Formulaes sobre a causalidade
manicmio pela camisa-de-fora qumica, a cl-     psquica" (1946), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Ja-
nica pelo diagnstico comportamental e a escu-     neiro, Jorge Zahar, 1998, 152-95  Michel Foucault,
                                                   Doena mental e psicologia (Paris, 1954), Rio de Ja-
ta do sujeito pela "tecnologizao" dos corpos.    neiro, Tempo Brasileiro, 1975; Histria da loucura na
Da o esfacelamento do vnculo dialtico e cr-    idade clssica (Paris, 1962), S. Paulo, Perspectiva,
tico que unia as trs antigas maneiras de pensar   1978  Jacques Derrida, "Cogito e a histria da loucura"
a loucura.  dessa crise e dessa ruptura que d    (1964), in A escritura e a diferena (Paris, 1967), S.
conta o livro de Michel Foucault (1926-1984)       Paulo, Perspectiva, 1971; "Fazer justia a Freud" (Pa-
                                                   ris, 1992), in lisabeth Roudinesco, Georges Cangui-
intitulado Histria da loucura na idade cls-      lhem, Ren Major e Jacques Derrida, Leituras da
sica: "Este livro no pretendeu fazer a histria   histria da loucura, Rio de Janeiro, Relume Dumar,
dos loucos ao lado das pessoas sensatas, perante   1994, 53-107  Alphonse de Waelhens, "Folie (phno-
elas, nem tampouco a histria da razo em sua      mnologie)", Encyclopaedia universalis, 7, 1968, 92-95
oposio  loucura. Tratava-se de escrever a        Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de
                                                   l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
histria da separao incessante mas sempre        1974), Paris, Fayard, 1994  Jeanne Favret-Saada,
modificada entre elas." Partindo dessa idia de    Les Mots, la mort, les sorts. La Sorcellerie dans le
separao, tomada da "parte maldita" de            bocage, Paris, Gallimard, 1977  Gladys Swain, Le
Georges Bataille (1897-1962), Foucault como        Sujet de la folie, Toulouse, Privat, 1977; Dialogue avec
que inventou sua cena primria*: separao         l'insens, Paris, Gallimard, 1994  Gladys Swain e
                                                   Marcel Gauchet, La Pratique de l'esprit humain, Paris,
entre a desrazo e a loucura, entre a loucura      Gallimard, 1980  Jacques Postel, Gense de la psy-
ameaadora dos quadros de Bosch e a loucura        chiatrie, Paris, Le Sycomore, 1981  Jackie Pigeaud,
domesticada do discurso de Erasmo, entre uma       La Maladie de l'me, Paris, Les Belles Lettres, 1989 
conscincia crtica (onde a loucura se transfor-   lisabeth Roudinesco, "Leituras da histria da loucura.
                                                   Introduo", in lisabeth Roudinesco et al., Leituras da
ma em doena) e uma conscincia trgica (onde
                                                   histria da loucura, op. cit., 7-32.
ela se abre para a criao, como em Goya, Van
Gogh ou Artaud), e separao interna, enfim, no
                                                    BINSWANGER, LUDWIG; BORDERLINES; ELLEN-
cogito cartesiano, onde a loucura  excluda do
                                                   BERGER, HENRI F.; FORACLUSO; HAITZMANN,
pensamento no momento em que deixa de pr          CHRISTOPHER; HISTERIA; MELANCOLIA; PSICOTE-
em perigo os direitos deste ltimo.                RAPIA INSTITUCIONAL; SCHREBER, DANIEL PAUL;
    A propsito do cogito, Foucault tomou, nes-    SELF PSYCHOLOGY; ZILBOORG, GREGORY.
se ponto, uma posio inversa  de Lacan, o que
lhe valeu uma crtica argumentada por parte de
Jacques Derrida.
    Precipitando o declnio da psiquiatria cls-   Lucy, Miss (caso)
sica por um ato "psiquiatricida", como diria        ESTUDOS SOBRE A HISTERIA.
480     Luria, Aleksandr Romanovitch

Luria, Aleksandr Romanovitch                        Psychoanalyse*. Em 1925, com seu amigo Lev
(1902-1977)                                         Semenovitch Vygotski (1896-1934), redigiu
mdico e neuropsiclogo russo                       um prefcio para a traduo russa de Mais-alm
   Nascido em Kazan, Aleksandr (ou Alexan-          do princpio de prazer*.
dre) Romanovitch Luria estudou medicina                Participou depois das discusses entre os
antes de se voltar para a psicologia. Apaixonado    freudo-marxistas e os antifreudianos sobre a
pelas cincias sociais e pelo socialismo utpico,   questo do materialismo da psicanlise*. De-
entrou em correspondncia com Sigmund               senvolveu ento a idia de que a psicanlise
Freud* com a idade de 19 anos e, em maro de        podia integrar-se a um sistema de psicologia
1922, decidiu fundar a Sociedade Psicanaltica      "monista". Sonhava construir uma ponte entre
de Kazan. Composta na maioria de mdicos e          a nova cincia do psiquismo e a psicologia
compreendendo sete mulheres -- caso raro na         experimental. Sua ltima contribuio para a
poca -- essa sociedade se integrou depois         psicanlise data de 1928. Posteriormente, Luria
que foi formada em Moscou por Moshe Wulff*          tornou-se um dos grandes especialistas no es-
e Ivan Dimitrievitch Ermakov*, para tornar-se       tudo do crebro, principalmente das funes
a Associao Psicanaltica Russa.                   corticais superiores.
   Em sua primeira apresentao para o crculo         Durante uma reunio em 1974 na Sociedade
de Kazan, Luria falou da psicologia do ves-         dos Psiclogos de Moscou, evocou com humor
turio e da diferena sexual*: "Os motivos in-      e emoo as lembranas de sua juventude freu-
conscientes do vesturio diferem no homem e         diana.
na mulher. Os motivos primitivos que determi-
nam a forma da roupa feminina so de natureza        Aleksandr Romanovitch Luria, "Russische psychoa-
sexualmente passiva, enquanto que, no homem,        nalytische Vereinigung", IZP, 1, 1924, 113-5; 2, 1924,
                                                    126-37; 1, 1926, 125-6; 2, 1926, 227-9; 2, 1927, 226-7;
eles so de natureza ativa. Encontram-se os         "La Psychanalyse en tant que systme de psychologie
motivos femininos em momentos de enfraque-          moniste" (em russo), in M. Kornilov, Psychologie et
cimento da censura (festa, dana, carnaval) e os    marxisme, Moscou, Institut de Psychologie Exprimen-
motivos masculinos nas fileiras do exrcito e       tale, 1925; "Die moderne Psychologie und der dialek-
                                                    tische Materialismus", Unter dem Banner des Marxis-
entre os revolucionrios."                          mus [Sob a bandeira do marxismo], 2, 1928, 506-24 
   No mesmo ano, comparou a doutrina psica-         Jean Marti, "La Psychanalyse en Russie (1909-1930)",
naltica e seus mtodos com as teorias reflexo-     Critique, 346, maro de 1976, 199-237  Alberto Ange-
lgicas de Vladimir Bekhterev (1857-1927),          lini, La psicoanalisi in Russia, Npoles, Liguori Editore,
concluindo que essas duas escolas podiam se         1988.
aproximar no terreno do materialismo. Instalan-
do-se em Moscou no outono de 1923, trabalhou
ainda para o desenvolvimento do movimento
psicanaltico russo, publicando vrios artigos      luto
de informao na Internationale Zeitschrift fr      MELANCOLIA.
                                             M
Mack-Brunswick, Ruth, ne Mack                           como se faz em uma anlise de superviso*.
(1897-1946)                                              Mark tinha um caso com uma jovem, mas final-
psiquiatra e psicanalista americana
                                                         mente, em 1928, depois de quatro anos de trata-
                                                         mento, decidiu casar-se com Ruth. Freud e Os-
    Como Marie Bonaparte* e Jeanne Lampl-
                                                         car Rie* foram escolhidos como testemunhas.
De Groot*, Ruth Mack-Brunswick pertencia ao
                                                             Enquanto isso, Ruth se tornara uma verda-
"crculo das mulheres" de Sigmund Freud*. Foi
sua paciente e depois tornou-se uma de suas              deira freudiana, especializada no tratamento
discpulas mais fervorosas, a tal ponto que logo         das psicoses* e apaixonada pela questo das
entrou na intimidade familiar do mestre e viu-se         relaes pr-edipianas. Como recusava as teses
finalmente sob sua dependncia, um pouco                de Melanie Klein*, Freud a apoiava, enviando-
maneira de sua filha Anna Freud*. Entretanto,            lhe muitos pacientes entre seus prximos: Max
teve um destino bem mais trgico que os outros           Schur* e sua mulher em 1924, Muriel Gardi-
alunos de Freud. Sua anlise foi um desastre e           ner* e Serguei Constantinovitch Pankejeff* (o
sua morfinomania, combinada a muitas doen-               Homem dos Lobos) em 1926, assim como Ro-
as, impediu-a de desenvolver seus verdadeiros           bert Fliess*, filho de Wilhelm Fliess*, e Karl
talentos de clnica e terica.                           Menninger*.
    Nascida em Chicago e proveniente da rica                 Logo depois do casamento, Ruth e Mark
burguesia judaica, era filha de um brilhante             voltaram por um ano aos Estados Unidos*,
jurista e filantropo. Diplomada pelo Radcliffe           onde nasceu sua filha, chamada Mathilde em
College, estudou posteriormente medicina e               homenagem a Mathilde Hollister*. Ao voltar,
psiquiatria, na escola mdica do Colgio de              ambos retomaram seus tratamentos com Freud.
Tuft. Casando-se muito jovem com um mdico,              Os sintomas de Mark pioravam e os de Ruth
Hermann Blumgart, cujo irmo, Leonard                    tambm se agravavam. Sofrendo com seus dis-
Blumgart (1881-1951) fora a Viena* para fazer            trbios digestivos, ela tomou o hbito de acal-
uma anlise com Freud, tambm fez essa via-              mar a dor com repetidas injees de morfina. 
gem em 1922 e comeou um tratamento, a fim
                                                         medida que sua anlise avanava, a depen-
de curar-se de uma grave hipocondria.
                                                         dncia transferencial em relao a Freud au-
    Nessa poca, Freud analisava muitos ameri-           mentava, assim como a toxicomania. Doente h
canos, que s vezes permaneciam vrios anos
                                                         vrios anos, o mestre no hesitava em se fazer
em Viena para se tratar ou se tornar psicanalis-
                                                         tratar ora por ela, ora por Max Schur, que se
tas. Foi nessas circunstncias que Ruth Mack
encontrou Mark Brunswick. Ele era primo de               tornaria seu mdico assistente.
sua me e apaixonou-se em segredo por ela des-               Decepcionado com sua incapacidade de cu-
de que assistira a seu casamento. Sofrendo de            rar sua querida discpula, Freud continuou to-
distrbios da personalidade, fazia uma anlise           davia a mant-la sob sua dependncia, manifes-
com Freud ao mesmo tempo que seu irmo                   tando-lhe ao mesmo tempo sentimentos nega-
David, que estudava psicologia. J separada do           tivos e continuando a analisar o seu marido. Em
marido, Ruth ficou encantada com Mark, mais              1937, depois de anos de dramas e conflitos
ainda porque Freud lhe explicava o seu caso,             decorrentes dessa inverossmil confuso, Ruth
                                                   481
482      Madeleine Lebouc, caso

e Mark decidiram divorciar-se, mas logo volta-                Depois da ruptura de 1913, ficou ao lado de
ram a se casar.                                           Jung. Posteriormente aderiu ao Rearmamento
   Em 1938, Ruth acompanhou Freud em seu                  Moral, movimento que visava a "regenerao
exlio em Londres. Depois da morte de Freud,              do homem", fundado por Frank Buchman. Co-
instalou-se em Nova York, onde teve um peque-             mo muitos pioneiros do freudismo, e  maneira
no papel na histria do movimento psicanaltico           dos mdicos higienistas, missionrios, calvinis-
americano. Mark tornou-se alcolatra e sepa-              tas ou puritanos, interessou-se por tcnicas te-
rou-se dela. Ruth comeou ento outra anlise             raputicas que nada mais tinham a ver com a
com Hermann Nunberg*. No momento em que                   psicanlise, assemelhando-se s antigas tera-
parecia curada, foi encontrada morta em seu               pias da alma, de inspirao religiosa ou cultu-
banheiro, depois de uma queda atribuda a uma             ralista. Distinguia trs tipos de curandeiros: o
"crise cardaca induzida por uma pneumonia".              "profano", que recorria  racionalidade, o "m-
                                                          gico" que agia por sugesto*, o "religioso",
 Paul Roazen, Freud e seus discpulos (N. York, 1971),   sobre o qual o doente podia projetar o "arquti-
S. Paulo, Cultrix, 1978.
                                                          po do Salvador", e esse ltimo modelo, bem
                                                          junguiano, tinha sua adeso.
Madeleine Lebouc, caso                                     Alphonse Maeder, "Contribuition  la psychopatholo-
 JANET, PIERRE; LAIR LAMOTTE, PAULINE.                    gie de la vie quotidienne", Archives de Psychologie, VI,
                                                          abril de 1907, 149-52; "Essai d'interprtation de quel-
                                                          ques rves", ibid., 354-75; "Sur le mouvement psycha-
                                                          nalytique, un point de vue nouveau en psychologie",
Maeder, Alphonse (1882-1971)                              L'Anne Psychologique, 1912, XVIII, 389-418; "Lettres
psiquiatra e psicanalista suo                            Sigmund Freud", Le Bloc-notes de la Psychanalyse,
    Foi na clnica do Hospital Burghlzli, junto          8, 1988, 219-26; La Personne du mdecin, un agent
                                                          psychothrapeutique, Neuchtel, Delachaux et Nies-
a Carl Gustav Jung* e no contexto do desenvol-            tl, 1953; De la psychanalyse  la psychothrapie
vimento da nova psiquiatria dinmica* de ins-             appellative, Paris, Payot, 1970  Jean-Pierre Mordier,
pirao bleuleriana, que Alphonse (ou Alfons)             Les Dbuts de la psychanalyse en France, Paris, Mas-
Maeder se apaixonou pelas teses freudianas.               pero, 1981  Marcel Scheidhauer, Le Rve freudien en
                                                          France, Navarin, Paris, 1985  Jacquy Chemouni, "En-
Logo se dedicou a fazer uma auto-anlise* e               tre Vienne et Zurich", Le Bloc-notes de la Psychana-
praticou a tcnica do tratamento interpretando            lyse, 8, 1988, 227-52.
seus sonhos* e seus atos falhos*. A partir de
1907, publicou artigos em francs sobre a dou-             ANTROPOLOGIA; BLEULER, EUGEN; CISO;
trina psicanaltica, nos quais recusava o predo-          ELLENBERGER, HENRI F.; ESTADOS UNIDOS; ET-
mnio da sexualidade*. Teve um papel impor-               NOPSICANLISE; HIPNOSE; PSICOTERAPIA; SUA;
tante na introduo do freudismo* na Frana*,             TCNICA PSICANALTICA.
atravs de Zurique.
    Em 1912, quando comeava a polmica entre
Carl Gustav Jung e Sigmund Freud*, trocou cartas          magnetismo
com este a respeito do sonho e da questo judaica.         BENEDIKT, MORIZ; BERNHEIM, HIPPOLYTE;
Freud o acusara de no compreender nada do                BREUER, JOSEF; CATARSE; CHARCOT, JEAN MAR-
simbolismo* do sonho e de ser anti-semita. Nessa          TIN; ESPIRITISMO; HIPNOSE; HISTERIA: JANET, PIER-
data, o debate sobre a judeidade* ou a no-judei-         RE; LIBEAULT, AUGUSTE; MESMER, FRANZ AN-
dade da psicanlise* estava no cerne do conflito          TON; PERSONALIDADE MLTIPLA; PSICOTERAPIA;
interno na International Psychoanalytical As-             PSIQUIATRIA DINMICA; SUGESTO.
sociation* (IPA) e Freud, depois de ter afirmado a
opinio contrria, dizia que a psicanlise* era
"assunto dos semitas". Maeder, como Jung, acre-           Mahler, Gustav (1860-1911)
ditava na psicologia diferencial dos povos e              compositor austraco
reivindicou contra Freud e os judeus vienenses                Nascido em Kalischt na Bomia, e origin-
uma possvel "identidade crist" (no caso, protes-        rio de uma modesta famlia judia, Gustav Mah-
tante) da psicanlise.                                    ler teve uma infncia marcada pela tragdia. Era
                                                                               Mahler, Margaret          483

o mais velho de doze filhos, dos quais nove           Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, vol.2
                                                     (N. York, 1955), Rio de Janeiro, Imago, 1989  William
morreriam antes da idade adulta. Um de seus          M. Johnston, L'Esprit viennois. Une histoire intellec-
irmos se suicidou. Convertido ao catolicismo,       tuelle et sociale, 1848-1938 (N. York, 1972), Paris, PUF,
foi nomeado regente e depois diretor artstico       1985  Allan Janik e Stephen Toulmin, Wittgenstein,
da pera de Viena* em 1897, onde por dez anos        Vienne et la modernit (N. York, 1973), Paris, PUF,
                                                     1978  Henry-Louis de La Grange, Gustav Mahler.
renovou o teatro lrico e a tradio musical, o      L'ge d'or de Vienne (1900-1907), vol.2, Paris, Fayard,
que lhe valeu muitas inimizades: "Ele foi o          1983; Gustav Mahler. Le Gnie foudroy (1907-1911),
primeiro a reger de p", escreveu William            vol.3, Paris, Fayard, 1984  Ginette Raimbault, Lorsque
Johnston, e um pioneiro na arte de usar "tcni-      l'enfant disparat, Paris, Odile Jacob, 1996.
cas de regncia expressiva, servindo-se das
duas mos ao mesmo tempo, para modular cada
frase". Em 1902, casou-se com uma pianista,
Alma-Maria Schindler (1879-1964), com quem           Mahler, Margaret, ne Schnberger
teve uma filha, Maria-Anna, apelidada Putzi,         (1897-1985)
que morreu em 1907.                                  mdica e psicanalista americana
    Apesar da intensidade de seu trabalho de             Grande especialista no tratamento das psi-
msico e compositor, que se desenvolveu nos          coses* infantis, Margaret Schnberger nasceu
Estados Unidos*, Mahler mergulhou em um              em Sopron, na Hungria*, em uma famlia da
estado melanclico: "O mistrio da morte sem-        burguesia judaica intelectual. Comeou a es-
pre estivera presente em seu esprito, escreveu      tudar pediatria em Budapeste, onde encontrou
Bruno Walter, mas agora estava literalmente          Sandor Ferenczi*, e depois instalou-se em Vie-
sob os seus olhos. Sobre o universo de Mahler,       na*, orientando-se para a psicanlise*.
sobre sua prpria vida, pairava agora a sombra           Analisada por Helene Deutsch* e depois por
sinistra e muito prxima da morte."                  August Aichhorn*, com quem criou um centro
    A conselho de Bruno Walter, que consultara       de orientao infantil, foi supervisionada por
Sigmund Freud* por motivo de inibies, Mah-         dois analistas vienenses, Robert Wlder (1900-
ler aceitou marcar um encontro com o mestre          1967) e Grete Bibring (1899-1977). Em 1933,
da psicanlise*, em frias nos Pases Baixos*.       tornou-se companheira de Aichhorn e partici-
Depois de vrios cancelamentos e atos falhos*,       pou regularmente dos trabalhos da Wiener Psy-
                                                     choanalytische Vereinigung (WPV), iniciando-
a entrevista se realizou em Leiden, em 26 de
                                                     se na psicanlise de crianas* no seminrio de
agosto de 1910. A "anlise" de Mahler durou
                                                     Anna Freud*. Em 1936, casou-se com Paul
quatro horas, o tempo de uma longa caminhada
                                                     Mahler, engenheiro qumico, com quem emi-
pelas ruas da cidade: "Suponho, disse Freud,
                                                     grou primeiro para a Gr-Bretanha*, em 1938,
que sua me se chamava Maria. Algumas de             e para os Estados Unidos*, dois anos depois,
suas frases, nessa entrevista, me fazem pensar       seguindo assim a trajetria clssica dos freudia-
isso. Como  que o sr. se casou com uma mulher       nos de sua gerao*, expulsos da Europa central
com outro nome, Alma, j que a sua me teve,         pelo nazismo*. Em Nova York, fez uma outra
evidentemente, um papel predominante em sua          anlise com Edith Jacobson*, quando soube
vida?" Mahler respondeu que tinha o hbito de        que sua me fora deportada para Auschwitz.
chamar a sua mulher de Maria (e no Alma).               A partir de 1949, dedicou-se  etiologia das
Durante a entrevista, Mahler tambm conse-           psicoses e ao autismo*, publicando vrias obras
guiu compreender por que a sua msica ficava,        coletivas sobre esse tema. Em 1957, criou com
de certo modo, "prejudicada" pela intruso re-       Manuel Furer um centro de acolhimento e pes-
petitiva de uma melodia banal. Na infncia,          quisas sobre o desenvolvimento dos processos
depois de uma cena particularmente violenta          de individuao e de separao, o Masters Chil-
entre seus pais, ele fugira para a rua e ouvira um   dren Center, e um centro teraputico para o
realejo tocar uma melodia popular vienense.          tratamento das psicoses da criana, o Masters
Essa msica se fixara na sua memria e retor-        Therapeutic Nursery. Nessas duas instituies,
nava sob a forma de uma melodia obsessiva.           as crianas eram recebidas com suas mes.
484      Mais-alm do princpio de prazer

    Embora fosse marcada pelos trabalhos de                Geissmann, Histoire de la psychanalyse de l'enfant,
                                                           Paris, Bayard, 1992.
Melanie Klein*, Margaret Mahler se inspirou
primeiramente nas posies de Ren Spitz* e                 ANNAFREUDISMO; AUBRY, JENNY; BETTELHEIM,
nas de Donald Woods Winnicott*. Continuou                  BRUNO; DOLTO, FRANOISE; ESTDIO DO ESPE-
fiel  corrente annafreudiana e s teses da Ego            LHO; HORNEY, KAREN; HUG-HELLMUTH, HERMINE
Psychology*, isto ,  tradio vienense da psi-           VON; KLEINISMO; MORGENSTERN, SOPHIE; OBJE-
canlise, acusando os kleinianos por seu dog-              TO, RELAO DE; SELF PSYCHOLOGY.
matismo e seus excessos de imaginao, que os
levavam, dizia ela, a "inventar" uma vida fan-
tasstica para o lactente.                                 Mais-alm do princpio de prazer
    A partir de suas observaes, criou a noo            Livro de Sigmund Freud*, publicado em 1920 sob
de separao-individuao, para definir um                 o ttulo Jenseits des Lustprinzips. Traduzido para
processo intrapsquico, que se realiza entre o 4          o francs pela primeira vez por Samuel Jankl-
e o 36 meses. A separao  a emergncia da               vitch, em 1927, sob o ttulo Au-del du principe de
criana para fora da fuso simbitica com a                plaisir, revisto por Angelo Hesnard* em 1966 e
                                                           retraduzido por Jean Laplanche e Jean-Bertrand
me, e a individuao  a aceitao, pela crian-
                                                           Pontalis em 1981, sem alterao do ttulo. Nova-
a, de suas prprias caractersticas individuais.
                                                           mente retraduzido sem mudana de ttulo, em 1996,
Da a idia de um "nascimento psicolgico do               por Andr Bourguignon (1920-1996), Pierre Cotet,
indivduo", que leva  emergncia de uma auto-             Alain Rauzy e Janine Altounian. Traduzido para o
nomia do eu*, tal como a define a Ego Psycho-              ingls em 1922 por C.J.M. Hubback, sob o ttulo
logy.                                                      Beyond the Pleasure Principle, e retraduzido por
    Como muitos freudianos exilados nos Es-                James Strachey* em 1950, sem mudana do ttulo.
tados Unidos, Margaret Mahler enfrentou a                      Mais-alm do princpio de prazer, redigido
questo da integrao da psicanlise ao ameri-             entre maro e maio de 1919, modificado du-
can way of life. No hesitou em teorizar sua               rante o inverno de 1920 e publicado no outono
prpria integrao, com a ajuda das noes que             desse mesmo ano, inaugurou o que se denomi-
ela prpria forjara ao longo da sua experincia            nou de "grande reformulao" ou "grande vira-
clnica: "Creio que, nos casos positivos, a emi-           da" dos anos vinte, uma reorganizao terica
grao  seguida de uma segunda individuao,              fundamental  qual outros dois livros, Psicolo-
de um novo nascimento psicolgico e talvez de              gia das massas e anlise do eu*, por um lado,
uma nova viso do mundo [...]. Eis o que foi               e O eu e o isso*, por outro, confeririam suas
para mim a emigrao: ela me arrancou, eu e                dimenses definitivas.
minhas idias sonolentas, dessa cpsula psico-                 As circunstncias em que o livro foi conce-
lgica que era ento Viena; ela me exps a um              bido e o destino inicial que Sigmund Freud
ambiente estranho, cuja novidade agravava as               parecia atribuir-lhe estiveram na origem de
vulnerabilidades da transio. Mas uma vez                 mltiplas ambigidades.
dominadas a angstia e a insegurana iniciais,                 Em maro de 1919, enquanto Freud redigia
ela me levou a tornar-me produtiva e a fazer               a primeira verso de Mais-alm do princpio de
emergir minha teoria do desenvolvimento."                  prazer, Lou Andreas-Salom* escreveu-lhe
                                                           perguntando em que ponto ele estava em sua
 Margaret Mahler e Manuel Furer, Psychose infantile.      metapsicologia*, cujas cinco primeiras partes
Symbiose humaine et individuation (N. York, 1968),         ela havia lido. As outras, como sabemos, nunca
Paris, Payot, 1973;  Margaret Mahler, Fred Pine e Anni
Bergman, Symbiose humaine et individuation. La Nais-
                                                           vieram  luz, mas  lcito supormos, a julgar pela
sance psychologique de l'tre humain (N. York, 1975),      resposta dada por Freud algum tempo depois,
Paris, Payot, 1980  Pamela Tytell e Catherine Tourette-   que ele ainda no havia renunciado inteira-
Turgis, "Margaret S. Mahler, 1897-1985", Encyclopae-       mente a tal projeto nessa ocasio. De fato, jus-
dia universalis, 1986, 576-7  Elke Mhlleitner, Biogra-   tificando-se mediante a alegao da dificuldade
phisches Lexikon der Psychoanalyse. Die Mitglieder
der Psychologischen Mittwoch-Gesellschaft und der          do assunto, da parcialidade de suas experincias
Wiener Psychoanalytischen Vereinigung von 1902-            e de sua falta de inspirao, Freud prometeu
1938, Tbingen, Diskord, 1992  Claudine e Pierre          escrever outras contribuies, caso viesse a so-
                                                           Mais-alm do princpio de prazer      485

breviver, psquica e materialmente,  trgica        sua eventualidade, Freud teve o cuidado de
situao da ustria naqueles tempos subse-           afirmar, numa carta a Max Eitingon* datada de
qentes  derrota. Depois, como que para             18 de julho de 1920: "O Mais-alm foi final-
confirmar essa resoluo, acrescentou que uma        mente concludo. Voc poder confirmar que j
das primeiras contribuies "desse tipo estaria      tinha sido escrito at a metade na poca em que
contida em Mais-alm do princpio de prazer",        Sophie ainda estava viva e florescente." Essa
a propsito do qual declarou esperar, por parte      anotao no impediria Max Schur* de conti-
de sua correspondente, "uma apreciao sint-        nuar a considerar a morte de Sophie como a
tico-crtica".                                       causa essencial da elaborao do conceito de
    Todavia, em julho de 1919, numa nova carta       pulso de morte. Ainda recentemente, Peter
a Lou, amplamente dedicada  evocao do             Gay sustentou essa interpretao, relativizan-
suicdio* de Viktor Tausk*, Freud evocou seu         do-a.
trabalho em andamento num tom completa-                  Mais-alm do princpio de prazer, que Jean
mente diverso: "Agora escolhi como alimento          Laplanche disse ser "o texto mais fascinante e
o tema da morte, ao qual cheguei ao esbarrar         mais desnorteante da obra freudiana", tamanha
numa curiosa idia das pulses, e eis que me         a ousadia e a liberdade nele evidenciadas por
vejo obrigado a ler tudo o que diz respeito a essa   seu autor, foi rejeitado por numerosos psicana-
questo, como, por exemplo, e pela primeira          listas, inclinados a considerar a ousadia como
vez, Schopenhauer. Mas no o leio com prazer."       falta de rigor e a liberdade de tom como uma
Essa  uma frase importante, que ajuda a dis-        deriva especulativa.
cernir a lgica da elaborao em andamento:              O ensaio se apia, de conformidade com a
essa "curiosa idia das pulses" parece cons-        promessa feita a Lou Andreas-Salom, na
tituir, de fato, o indcio de uma modificao de     concepo metapsicolgica desenvolvida em
seu pensamento.                                      1915: examinam-se nele, antes de mais nada, o
    Insatisfeito, sem dvida, com as reformu-        funcionamento do princpio do prazer*, segun-
laes introduzidas em sua teoria das pulses        do o qual o aparelho psquico procura manter
em 1914, ele se viu obrigado a ler, sem prazer,      no nvel mais baixo possvel a quantidade de
a obra de Schopenhauer (1788-1860), e a se           excitao presente, e a subordinao desse prin-
alimentar do tema da morte. Essa declarao,         cpio ao princpio de constncia enunciado por
alis, pode ser entendida como uma resposta          Gustav Theodor Fechner*. Se essas idias j
antecipada queles que, pouco  vontade com a        ocupavam um lugar essencial no Projeto para
idia da pulso de morte ou desejosos de retirar     uma psicologia cientfica e em A interpretao
dela seu peso terico, iriam esforar-se por no     dos sonhos*, esses lembretes iniciais do a
ver nela seno uma noo circunstancial, pro-        Freud o ensejo de repetir que esse princpio
duto do contexto econmico e poltico j evo-        constitui, ao lado das dimenses tpica* e din-
cado pelo prprio Freud, ou efeito dos faleci-       mica, a dimenso econmica da metapsicolo-
mentos ocorridos ao redor dele nessa poca --        gia.
falecimento de Tausk, de Anton von Freund* e,            Essa perspectiva, todavia,  rapidamente
acima de tudo, alguns dias depois, em 25 de          ultrapassada e abandonada em prol de uma
janeiro de 1920, de sua filha Sophie Halber-         discusso sobre os limites da dominao do
stadt*, cuja morte o deixou transtornado, como       princpio de prazer: "A rigor, entretanto, deve-
ele mesmo disse em numerosas cartas a Ludwig         mos dizer que  inexato falar de uma dominao
Binswanger* ou Oskar Pfister*. Essa idia de         do princpio de prazer sobre o curso dos proces-
uma relao causal entre a morte de Sophie e a       sos psquicos. Se tal dominao existisse, a
elaborao do conceito de pulso de morte seria      imensa maioria de nossos processos psquicos
desenvolvida, em especial, em 1923, pelo pri-        seria acompanhada de prazer ou conduziria ao
meiro dos bigrafos de Freud, Fritz Wittels*, a      prazer; ora, a experincia mais genrica contra-
quem Freud daria conhecimento de sua discor-         diz flagrantemente essa concluso. Por isso,
dncia. Preocupado em se opor a essa espcie         deve-se admitir o seguinte: existe no psiquismo
de psicanlise aplicada* e como que prevendo         uma forte tendncia para o princpio de prazer,
486     Mais-alm do princpio de prazer

mas algumas outras foras ou condies se          pois, puxando o barbante, fazia-o voltar, sau-
opem a ela, de modo que o desfecho nem            dando o carretel com um alegre da, "aqui"! Me-
sempre pode corresponder  tendncia para o        diante essa brincadeira, Ernstl parecia transfor-
prazer." A primeira limitao ao predomnio do     mar uma situao em que era passivo, e sofria
princpio de prazer  bastante conhecida: trata-   o perigo ou o desprazer causado pela partida da
se do princpio de realidade*, enunciado desde     me, numa situao da qual era senhor, fosse
1911 no artigo "Formulaes sobre os dois prin-    qual fosse o carter doloroso do que se repetia
cpios do funcionamento mental". Ali, o princ-    nela. A essa primeira interpretao Freud acres-
pio de realidade  concebido como o substituto     centou uma segunda, complementar: o menino,
do princpio de prazer, sob a influncia das       atravs daquela brincadeira, encontrava um
pulses de autoconservao do eu*. Tambm se       meio de exprimir sentimentos hostis, inconfes-
conhece uma segunda limitao, sob a forma do      sveis na presena da me, porm capazes de
recalque* das pulses, que contraria o desen-      satisfazer seu desejo de vingana decorrente da
volvimento unitrio do eu. Talvez parea, escla-   partida dela. Em outras palavras, o menino no
rece ento Freud, que no haveria por que bus-     conseguiria suportar o desagrado acarretado no
car outras limitaes para esse princpio de       jogo pela repetio de uma separao, a no ser
prazer. Mas a observao das reaes psquicas     pelo fato de "um ganho de prazer de outra
a algumas formas de perigo externo -- at esse     natureza, porm direto, estar ligado a essa repe-
momento, tratara-se apenas da organizao re-      tio". Seria lcito concluirmos dessas duas ob-
ferente a pulses e conflitos internos -- leva a   servaes, reunidas sob o rtulo de "perigo
reconsiderar inteiramente esse problema.           externo", pela existncia de tendncias psqui-
    Como primeira forma de perigo externo,         cas mais originrias, situadas alm do princpio
existem as catstrofes naturais, os acidentes      de prazer?
graves ou os atos de guerra, circunstncias ca-        Em vez de responder de imediato, Freud faz
pazes de provocar neuroses traumticas ou neu-     um desvio pela situao analtica, caracterizada
roses de guerra*. Curiosamente, os sonhos que      pelas resistncias* do paciente e por sua trans-
acompanham esses tipos de neuroses remetem         ferncia* para a pessoa do analista. Conscienti-
reiteradamente os sujeitos s circunstncias       zar o que est inconsciente no se revela uma
traumticas de seus acidentes, embora eles no     tarefa simples. Como mostrou a observao, a
pensem no assunto durante o dia. Num primeiro      rememorao voluntria  ineficaz, e o paciente
momento, essa fixao psquica no trauma           obrigado a repetir na anlise o recalque, em
assemelhada por Freud s reminiscncias que,       especial o de sua vida sexual infantil, marcada
juntamente com Josef Breuer*, havia conside-       pela fase edipiana, para conseguir se instalar
rado como a causa fundamental do sofrimento        numa nova neurose*, a neurose de transfern-
dos histricos. Uma segunda forma de perigos       cia, substituta daquela que o fez procurar o
externos  a ilustrada pela brincadeira de algu-   analista. No tratamento, portanto, assistimos de
mas crianas muito pequenas. Freud observou        fato ao aparecimento de um processo idntico
que seu neto (Ernstl), filho de Sophie Halber-     aos que se observam na atividade onrica dos
stadt, costumava divertir-se, quando sua me se    sujeitos afetados por neuroses traumticas ou na
ausentava, atirando para longe da cama os ob-      brincadeira do fort/da, processos estes que
jetos pequenos que estivessem ao alcance de        Freud denomina de compulso  repetio*, e
sua mo. Esse gesto era acompanhado por uma        cuja apreciao adequada implica o ques-
expresso de satisfao que assumia a forma        tionamento da idia de resistncia inconsciente.
vocal de um "o-o-o-o" prolongado, no qual se           Nesse ponto, sem advertir o leitor, e talvez
podia reconhecer o significado alemo fort, isto   sem que ele mesmo se aperceba, Freud se ante-
, "fora". Um dia, conta Freud, o menino se        cipa  reformulao tpica que iria constituir o
entregou a essa mesma brincadeira de sumir         objeto de seu livro O eu e o isso*, assim
usando um carretel de madeira preso a um           fornecendo a prova de que, j em 1919, a grande
barbante: atirava o carretel, acompanhando o       reviravolta terica estava em andamento. Com
movimento com seu famoso "o-o-o-o", e de-          efeito, para avanar no raciocnio esboado,
                                                         Mais-alm do princpio de prazer       487

trata-se de abandonar a oposio conscien-         segundo, da maneira como os efeitos das
te*/inconsciente* e substitu-la pelo confronto    pulses internas se distribuem por um leque de
entre o eu, cuja maior parte  inconsciente, e o   sensaes, que vo do prazer ao desprazer. Tudo
recalque, totalmente inconsciente e sempre         isso se traduz numa prevalncia das sensaes
ameaador para o eu. As resistncias do            de prazer-desprazer e num funcionamento ps-
analisando so de fato inconscientes, mas de-      quico essencialmente dirigido contra essas ex-
vem ser situadas nesse eu que j no  total-      citaes internas, portadoras de desprazer. Da
mente possvel de ser assimilado ao consciente;    a tendncia a tratar as excitaes internas como
a compulso  repetio, que opera notada-         se fossem externas, para poder proteger-se delas
mente na anlise e  fonte de desprazer para o     atravs da pra-excitao:  esse o fundamento
eu, deve ser inscrita, ao contrrio, do lado do    do mecanismo, identificado na observao cl-
recalque.                                          nica da neurose, ao qual se deu o nome de
    Qual , pois, a relao entre essa compulso   projeo*. Todos esses so elementos que per-
 repetio e o princpio de prazer? O desprazer   mitem situar a especificidade do trauma, cons-
no contradiz o princpio de prazer, como j       titudo por excitaes externas suficientemente
mostrou a interpretao da brincadeira do          fortes para furar a pra-excitao e, desse modo,
fort/da, onde a dimenso desprazerosa  com-       criar uma perturbao no aparelho psquico.
pensada pelo prazer ligado  expresso da hos-     Nessa situao, o princpio de prazer j no tem
tilidade. Mas a compulso  repetio tambm       nenhuma serventia e, para o organismo, trata-se
d ensejo a um retorno de experincias ante-       apenas de tentar dominar essa invaso. Isso
riores que no comporta prazer algum. Para
                                                   pressupe uma mobilizao de todas as ener-
ilustrar sua colocao, Freud toma o exemplo
                                                   gias disponveis, que se faz, inevitavelmente,
das pessoas condenadas a conhecer o fracasso
                                                   em detrimento do bom funcionamento dos ou-
reiteradamente, como se obedecessem a uma
                                                   tros sistemas psquicos, sobretudo os normal-
ordem "demonaca". Quanto a esse ponto,
                                                   mente mobilizados para enfrentar o desprazer
Freud se apia em observaes que fez algumas
                                                   ocasionado pelas excitaes internas. Nessa
semanas antes de iniciar a redao do Mais-
                                                   perspectiva, pode-se formular a hiptese de que
alm, quando estava terminando seu artigo so-
bre "O estranho", onde abordou o tema do           a neurose traumtica, objeto da observao ini-
duplo e do "eterno retorno do mesmo". Ele          cial, se deveria a uma invaso macia da pra-
reconhece que "efetivamente existe, na vida        excitao.
psquica, uma compulso  repetio que se             O efeito traumtico no  tanto o choque em
coloca acima do princpio de prazer". Mas, qual    si, mas o susto ou a surpresa sentidos, conse-
 sua funo, quais so as condies de sua        qncia de uma falta de angstia, posto que a
interveno e como entender sua relao com o      angstia  o meio atravs do qual os sistemas
princpio de prazer?                               que tm que enfrentar as excitaes externas
    Os adversrios desse texto censuraram-no       so mobilizados. Os sonhos em que os sujeitos
por seu carter especulativo. No entanto, Freud    s voltas com uma neurose traumtica revivem
adverte seu leitor quanto a isso, e a seqncia    a situao do acidente "tm por objetivo o
de sua exposio , com efeito, pura es-           domnio retroativo da excitao", recriam uma
peculao motivada pelo desejo de saber, mes-      situao em que a angstia, que foi insuficiente
mo com o risco de errar. Todos so livres, diz     na realidade, acha-se agora bastante presente.
ele, para acompanh-lo ou no ir adiante.          Aqui comeamos a perceber a possvel exis-
    Todavia, antes de se entregar a essa "es-      tncia de um modo de funcionamento do apare-
peculao", Freud prope um resumo recapitu-       lho psquico que  independente do princpio de
lativo, primeiro, do tratamento diferencial que    prazer. Esses sonhos constituem uma exceo 
o aparelho psquico d s excitaes externas,     lei do sonho como realizao de desejo: obede-
filtradas pelo que ele denomina de "pra-exci-     cem  compulso  repetio, que, por sua vez,
tao" (Reizschutz), uma espcie de aparelho       est a servio do desejo inconsciente de permitir
que envolve o organismo para proteg-lo, e         que o recalcado retorne.
488      Mais-alm do princpio de prazer

    Alm da especificidade de cada uma dessas          signadas pelo termo Eros, que renem as
situaes, as manifestaes da compulso  re-         pulses sexuais e as pulses do eu, s pulses
petio, tanto na brincadeira infantil como no         de morte, s vezes denominadas de pulses de
tratamento psicanaltico, apresentam o mesmo           destruio, ou, quando se trata de especificar a
carter pulsional independente do princpio de         orientao delas para o exterior, pulses de
prazer. Mas, qual  a natureza da relao entre        agresso. Nesse contexto, atribui-se s pulses
o pulsional e a compulso  repetio?                 de morte uma posio funcional, e elas no mais
    Para responder a essa pergunta, Freud  le-        decorrem do registro do inefvel. Se as pulses
vado a dar mais um passo:  o ponto decisivo           de vida no escapam por completo ao movi-
do livro. Aos enunciados em forma de esboo            mento regressivo geral, na medida em que sua
sucede-se uma afirmao explcita: "A pulso           satisfao implica um retorno a um estado an-
seria um impulso, inerente ao organismo vivo,          terior, nem por isso so menos resistentes s
em direo ao restabelecimento de um estado            influncias externas e, mais ainda, s outras
anterior (...) seria (...) a expresso da inrcia na   pulses, inteiramente voltadas para a morte.
vida orgnica." Freud tem plena conscincia da             O que se tem a  uma concepo global da
ousadia que h em reconhecer no ser vivo a             vida psquica cujo funcionamento seria ritmado
existncia de uma dimenso conservadora. Da           por um movimento pendular que faz alternar
a continuao do ensaio ser dedicada  busca de        certas pulses, premidas a atingirem a meta
argumentos e provas capazes de corroborar essa         final da vida, com outras que esto mais volta-
hiptese.                                              das para fazer o percurso dessa vida durar.
    Se a observao de certos comportamentos               Em seu penltimo captulo, Freud examina
animais e o estudo de alguns processos embrio-
                                                       as crticas que esse trabalho parece fadado a
lgicos atestam a existncia dessas foras
                                                       provocar. Comea procurando, no campo da
conservadoras, como explicar sua coexistncia
                                                       biologia, argumentos passveis de invalidar a
com as foras vitais responsveis pelo desen-
                                                       hiptese da existncia de pulses de morte. 
volvimento do organismo? A contradio  ape-
                                                       uma busca intil, que o leva a retornar, dessa
nas aparente: esses movimentos vitais, essas
                                                       vez numa perspectiva positiva, s diferentes
foras do desenvolvimento, so desvios no
                                                       etapas da construo da teoria analtica, a fim
"caminho que leva  morte", e so sempre do-
minados pelas pulses conservadoras, senhoras          de reafirmar a solidez de fundamento do dualis-
do desenvolvimento global do organismo, sub-           mo pulsional. Nesse processo, ele responde si-
metido a uma finalidade regressiva. Todo ser           multaneamente s acusaes de pansexualis-
vivo  convocado a morrer, enuncia Freud, e            mo* e  concepo junguiana de uma libido
acrescenta: "A meta de toda vida  a morte e,          geral, no sexual, reafirmando a permanncia
olhando para trs, o no vivo existia antes do         de sua concepo dualista e sua recusa a ceder
vivo."                                                 ao monismo junguiano.
    At esse ponto, a concepo freudiana ins-             O fato, porm,  que ainda no foi possvel
creve-se de modo bem amplo na esteira daque-           fornecer nenhuma prova conclusiva da exis-
las desenvolvidas por numerosas correntes da           tncia das pulses de morte. Essa constatao
filosofia alem dos sculos XVIII e XIX, desde         de uma "obscuridade" que se mantm na teoria
Gothulf Heinrich von Schubert (1780-1860),             das pulses agiria como um incentivo  conti-
que afirmava a coexistncia, no homem, de uma          nuao da busca. Da o exame de questes ainda
"nostalgia do amor" e uma "nostalgia da                no elaboradas, como a do dio e a do sadismo,
morte", at Friedrich Nietzsche (1844-1900),           que s encontrariam suas respostas definitivas
passando por Novalis (1772-1801) e,  claro,           em 1924, no artigo "O problema econmico do
por Arthur Schopenhauer, a quem Freud se               masoquismo". Esse retorno tambm d a Freud
refere explicitamente.                                 a oportunidade de citar o trabalho de Sabina
    A originalidade da contribuio freudiana          Spielrein* sobre o componente sdico da pulso
reside na construo de um novo dualismo pul-          sexual, que, j em 1911, ela caracterizava por
sional, que ope as pulses de vida, ainda de-         sua dimenso destrutiva.
                                                            Mais-alm do princpio de prazer            489

    As ltimas pginas do livro atestam o nvel       algumas das ligaes e relaes assim desco-
de exigncia de Freud, a angstia inerente ao         bertas lhe pareceram "dignas de considerao".
trabalho terico e a coragem intelectual do               Pela altivez de seu tom, o ltimo captulo
cientista.                                            anuncia a firmeza de que Freud daria mostra em
    Freud empenha-se em encontrar argumen-            seguida, sobretudo em O mal-estar na cultura*
tos que corroborem sua construo terica tanto       e no Esboo de psicanlise*, frente aos ataques
no que concerne s pulses de morte quanto           do qual esse avano terico seria objeto. Empe-
compulso  repetio que atua nas pulses            nhado em defender seu ponto de vista, ele es-
sexuais, a fim de fundamentar a idia da domi-        clarece em poucas linhas, como se esse fosse
nao mxima e geral das pulses de morte.            um argumento esquecido, que, diversamente
Retomando o reconhecimento inicial do princ-         das pulses de vida, ruidosas em suas buscas e
pio de constncia como fundamento econmico           perigosas em razo das tenses internas que
do princpio de prazer, ele assim ratifica a idia,   provocam, as pulses de morte so silenciosas
enunciada pela psicanalista inglesa Barbara           e, como tais, mais difceis de localizar. Este
Low (1877-1955), de um princpio do nirvana.          ltimo comentrio inspirou-lhe uma profisso
Este lhe parece exprimir "a tendncia predomi-        de f epistemolgica que condenou sem apela-
nante da vida psquica e, talvez, da vida nervosa     o as crenas cientficas. E conferiu a esse
em geral", visando " reduo,  constncia e        livro o toque final de modernidade a que grande
eliminao da tenso de excitao interna".           parte do pensamento do sculo XX no deixaria
Freud pensa encontrar nesse funcionamento um          de render homenagens.
de seus "motivos mais poderosos para acreditar
na existncia das pulses de morte". Esse per-         Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
curso, novamente qualificado de "especulao"         ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
                                                      Paris, PUF, 1967; "Formulaes sobre os dois princ-
por seu autor, termina numa evocao do Ban-          pios do funcionamento mental" (1911), ESB, XII, 277-
quete de Plato, no qual Freud julga poder            90; GW, VIII, 230-8; SE, XII, 213-26; in Rsultats,
discernir o enunciado de uma primazia origin-        ides, problmes, vol.I, Paris, PUF, 1984, 135-43, "O
ria de uma pulso destrutiva, cujos efeitos po-       estranho" (1919), ESB, XVII, 275-314; GW, XII, 229-
                                                      68; SE, XVII, 217-56; in L'Inquitante tranget et
deriam ser atenuados, se no apagados, pela           autres essais, Paris, Gallimard, 1985, 209-63; Mais-
ao das pulses sexuais. Essa passagem  que         alm do princpio do prazer (1920), ESB, XVIII, 17-90;
viria a ser comentada por Jacques Derrida em          GW, XIII, 3-69; SE, XVIII, 1-64; OC, XV, 273-339;
La Carte postale.                                     Psicologia das massas e anlise do eu (1921), ESB,
                                                      XVIII, 91-184; GW, XIII, 73-161; SE, XVIII, 65-143; OC,
    Cansado dessa busca de argumentos, Freud          XVI, 1-83; O eu e o isso (1923), ESB XIX, 23-76; GW,
acaba dizendo com toda a clareza o que pensa,         XIII, 237-89; SE, XIX, 12-59; OC, XVI, 255-301; "O
o que sente e o que lhe parece essencial. Certo       problema econmico do masoquismo" (1924), ESB,
de no haver convencido ningum, confessa             XIX, 199-216; GW, XIII, 371-83; SE, XIX, 139-45; OC,
                                                      XVII, 9-23; O mal-estar na cultura (1930), ESB, XXI,
que ele prprio no est seguro, mas o faz para       81-178; GW, XIV, 421-506; SE, XXI, 64-145; OC, XVIII,
negar prontamente ao afeto qualquer valor na          245-333; Esboo de psicanlise (1938), ESB, XXIII,
discusso cientfica. O essencial continua a ser      168-246; GW, XVII, 67-138; SE, XXIII, 139-207; Paris,
a curiosidade... e os riscos que ela leva a correr.   PUF, 1967; Novas conferncias introdutrias sobre
                                                      psicanlise (1933), ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE,
Reconhecendo de bom grado o que pode haver            XXII, 5-182; OC, XIX, 83-268; La Naissance de la
de intuitivo e at de parcial em seu trabalho,        psychanalyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956;
Freud nem por isso mostra-se menos decidido           Briefe an Wilhelm Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fis-
a no ceder, esclarecendo com humor que a             cher, 1986  Sigmund Freud e Ludwig Binswanger,
                                                      Correspondance, 1908-1938 (Frankfurt, 1992), Paris,
autocrtica no exige a "tolerncia para com as       Calmann-Lvy, 1995  Correspondance de Sigmund
opinies divergentes".                                Freud avec le pasteur Pfister, 1909-1939 (Frankfurt,
    Na medida em que o desenvolvimento da             1963), Paris, Gallimard, 1966  Freud/Lou Andreas-Sa-
biologia trazia o risco de destruir essa bela         lom: correspondncia completa (Frankfurt, 1966, N.
                                                      York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1975  Jacques
construo especulativa, podemos indagar-nos          Derrida, La Carte postale, Paris, Aubier-Flammarion,
por que razes Freud se permitiu exp-la ao           1980  Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte
pblico. Simplesmente, respondeu ele, porque          de l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
490      Mal-estar na cultura, O

1974), Paris, Fayard, 1994  Sandor Ferenczi, "Pref-     O futuro de uma iluso*. Como que para subli-
cio da edio hngara de Mais-alm do princpio de
                                                          nhar a continuidade entre as duas obras, comea
prazer" (1923), Psicanlise III, Obras completas, 1919-
1926 (Paris, 1974), S. Paulo, Martins Fontes, 1993,       registrando, para critic-lo, um comentrio que
223-4  Les Premiers psychanalystes, Minutes de la        a leitura de O futuro de uma iluso havia suge-
Socit Psychanalytique de Vienne, vol.I, 1906-1908       rido a seu amigo Romain Rolland*. Escrevendo
(N. York, 1962), Paris, Gallimard, 1976  Peter Gay,
                                                          a Freud para lhe agradecer pela remessa do
Freud: uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988),
S. Paulo, Companhia das Letras, 1995  Jean La-           livro, o autor de Acima da confuso lastimara
planche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psi-     que, no texto, no se abordasse a questo da
canlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991,   origem do "sentimento religioso". Com esse
2 ed.  Jean Laplanche, Vida e morte em psicanlise      termo Rolland designava uma "sensao reli-
(Paris, 1970), P. Alegre, Artes Mdicas, 1985  Ernest
Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N.      giosa", isto , o "fato simples e direto da sensa-
York, 1953, 1955, 1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989      o do `eterno'", e a qualificava de "sentimento
 Max Schur, Freud: vida e agonia, uma biografia, 3       ocenico".
vols. (N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1981           Freud rejeita de imediato a idia de que tal
Sabina Spielrein, Entre Freud et Jung (Roma, 1980),
Paris, Aubier, 1981  Michel de M'Uzan, De l'art  la     sensao possa constituir a essncia da religio-
mort, Paris, Gallimard, 1977.                             sidade: a seu ver, ela , em vez disso, uma
                                                          repetio do sentimento de plenitude que o beb
                                                          experimenta antes da separao psicolgica da
                                                          me, sentimento de plenitude este que 
Mal-estar na cultura, O
                                                          caracterstico do eu* primrio, do eu-prazer do
Livro de Sigmund Freud* publicado em 1930, sob            qual o eu adulto, um eu apequenado pelo encon-
o ttulo Das Unbehagen in der Kultur. Traduzido
                                                          tro com o princpio de realidade, sente saudade
pela primeira vez para o francs em 1934, por
                                                          periodicamente. Se acreditamos encontrar nes-
Charles Odier*, sob o ttulo Malaise dans la civili-
sation, e depois, em 1994, por Pierre Cotet, Ren
                                                          se "sentimento ocenico" a fonte da neces-
Lain e Johanna Stute-Cadiot, sob o ttulo Le Ma-         sidade religiosa,  por esquecermos que essa
laise dans la culture. Traduzido para o ingls por        necessidade no  primria, que no passa de
Joan Riviere*, em 1930, sob o ttulo Civilization and     uma reformulao da necessidade de proteo
its Discontents, retomado sem modificao por             pelo pai: o "sentimento ocenico" evocado por
James Strachey* em 1961.                                  Romain Rolland, definitivamente,  apenas
   Durante muito tempo, O mal-estar na cultu-             uma tendncia ao restabelecimento do narcisis-
ra foi considerado proveniente da categoria de            mo* ilimitado que  especfico do eu primrio.
escritos freudianos qualificados, no sem uma                 Feito esse esclarecimento, Freud recapitula
certa condescendncia, de sociolgicos ou an-             brevemente as teses desenvolvidas em O futuro
tropolgicos. Longe de ratificar esse ponto de            de uma iluso: lembra que a vida humana se
vista, Jacques Lacan*, no seminrio do ano de             caracteriza pelo fato de que os objetivos do
1959-1960, dedicado  tica da psicanlise, fa-           princpio de prazer*, a busca do gozo* mximo
lou dele como um "livro essencial", no qual               e a evitao da dor, no podem ser atingidos, em
Freud realizara "a sntese de sua experincia" e          razo da prpria "ordem do universo". Decorre
discorrera sobre a tragdia da condio humana.           da que o homem est muito mais apto a viven-
Peter Gay, por seu turno, estima que O mal-es-            ciar a infelicidade: aquela que lhe  infligida
tar na cultura  o texto "mais sombrio" de                pelo sofrimento do corpo, pela hostilidade do
Freud, aquele em que se aborda sem disfarce e             mundo externo e pela insatisfao que lhe pro-
no tom mais grave a questo da "misria huma-             porcionam as relaes com os outros. Assim
na",  qual a crise econmica, a quebra da bolsa          como o princpio de prazer submete-se ao prin-
de Nova York, ocorrida dias antes de Freud                cpio de realidade* ao se confrontar com o
entregar o manuscrito a seu editor, e a ascenso          mundo externo, o homem, frente a esses obs-
do partido hitlerista na Alemanha conferem to-            tculos, renuncia  felicidade, para a qual ob-
da a sua amplitude.                                       viamente no foi feito, e procura meios de ate-
   Com esse ensaio, Freud pretende estender              nuar ou eliminar o sofrimento. Freud faz o
cultura em geral o exame que fez da religio em           levantamento de trs meios essenciais, a neu-
                                                                     Mal-estar na cultura, O      491

rose*, a intoxicao e a psicose*, cujas formas      que se fundamentam numa negao da cons-
so prprias a cada indivduo.  precisamente        tatao formulada por Hobbes, num desco-
essa especificidade que a religio procura supri-    nhecimento voluntrio da universalidade da
mir ao propor uma modalidade uniforme de             hostilidade dos homens uns para com os outros,
adaptao  realidade cujas caractersticas so      numa recusa a levar em conta a agressividade e
uma desvalorizao da vida terrena, a subs-          a crueldade inerentes ao gnero humano, di-
tituio do mundo real por um mundo delirante        menses estas cuja permanncia  demonstrada
e uma inibio intelectual.                          tanto pela histria quanto pela atualidade.
    Dentre as trs causas do sofrimento humano,           o exame dessa dimenso da agressividade,
Freud opta por estudar nesse ensaio a que nasce      da hostilidade e da crueldade que constitui o
do carter insatisfatrio das relaes humanas.      eixo central da seqncia da reflexo de Freud.
 papel da cultura, por meio das instituies que        Se a agressividade  inerente  natureza
a materializam -- o Estado, a famlia --, reme-      humana,  por tambm ser fonte de prazer e,
diar essa causa de sofrimento, mas, na medida        como tal, ser complementar ao amor. Testemu-
em que os remdios propostos pela cultura so        nho disso so as tentativas que se fazem de unir
coercitivos e se afiguram outros tantos limites      os homens por laos amorosos desviados de seu
 busca do prazer, ela logo se evidencia como        objetivo sexual. Elas s podem ser bem-sucedi-
uma nova fonte de sofrimento. E, nessa con-          das, com efeito, sob a condio de aban-
dio,  objeto de recusas, freqentemente           donarem outros homens, que se transformam
acompanhadas de apelos por um retorno ao             no alvo da agressividade. Freud depara, nesse
estado natural e elogios ao estilo de vida dos       ponto, com a problemtica desenvolvida em
primitivos, que no dependiam dos progressos         Psicologia das massas e anlise do eu* e, em
da tecnologia moderna.                               particular, com a dimenso do "narcisismo das
    Freud afirma que  possvel explicar essa        pequenas diferenas", que Lacan reformulou,
rejeio da cultura, mas se recusa a justific-la,   em "Situao da psicanlise e formao do
porque ela se fundamenta no esquecimento do          psicanalista em 1956", falando de "terror
carter protetor desta ltima. Esse esquecimen-      conformista". Para dar um fundamento terico
to , antes de mais nada, o da j antiga cons-       a essa dimenso da agressividade, Freud pre-
tatao feita por Hobbes (1588-1679) e confir-       vine o leitor da necessidade de levar em conta
mada por Freud sem hesitao: "O homem  o           a parte da teoria psicanaltica cuja elaborao
lobo do homem." Ora, essa dimenso, que seria        lhe deu maior dificuldade: a teoria das pulses.
preciso nomear e teorizar, d uma razo de ser       Nesse ponto, a meta do ensaio torna-se explci-
ao aspecto coercitivo da cultura e confere          ta: trata-se de analisar a natureza do "mal-estar"
organizao social seu estatuto de compromis-        com a ajuda da dualidade pulsional forjada
so precrio: o homem no pode viver plena-           alguns anos antes, em Mais-alm do princpio
mente feliz nela, mas no consegue sobreviver        de prazer*, a dualidade que ope amor e dio,
sem ela. O homem e a mulher, portanto, esto         Eros e morte.
presos num antagonismo: precisam dos outros,             Esses confrontos pulsionais imperam tanto
mas sonham viver afastados dessa sociedade           na vida inconsciente do indivduo quanto em
que lhes limita as pulses sexuais. Para tentar      sua vida social. Da esta definio da cultura e
aplacar os sofrimentos de que esse antagonismo       de seu desenvolvimento: "O combate da es-
 fonte, a cultura se esfora por criar vnculos     pcie humana pela vida."
substitutos: laos amorosos, laos libidinais            Cabe, portanto, apreender por que meios a
desviados de seus objetivos sexuais.  o caso        cultura pode conseguir controlar essa agres-
do mandamento que o cristianismo retomou            sividade, manifestao explcita da pulso* de
sua maneira -- "Amars o prximo como a ti           morte. Um deles  identificvel na histria do
mesmo" --, bem como o da utopia comunista,           desenvolvimento psicolgico do homem: nesta
sobre a qual Freud proferiu uma condenao           se constata, com efeito, que a agressividade 
inapelvel nesse contexto. Essas tentativas s       voltada contra o eu, introjetada nele, para ento
podem estar fadadas ao fracasso, na medida em        ser retomada por uma parte do eu, o supereu*,
492     Malinowski, Bronislaw

que se coloca em oposio  parte restante do        perdio? Freud se recusa a dar a essa pergunta
eu. O supereu, essa "conscincia moral", mani-       a resposta consoladora que esperam e esto
festa em relao ao eu, portanto, a agressividade    prontos a fornecer os revolucionrios e os
que o eu desejaria exprimir a respeito dos ou-       pietistas, reunidos numa mesma iluso. Deixa a
tros, e a tenso que assim se instala entre o eu e   questo em aberto, atribuindo a agitao e
o supereu d margem ao "sentimento conscien-         angstia crescentes de seus contemporneos 
te de culpa".  possvel, por conseguinte, afir-     sua capacidade tecnolgica de exterminarem
mar que a cultura domina a agressividade dos         uns aos outros, at o ltimo deles. "E agora",
indivduos fazendo com que ela seja vigiada por      conclui, " de se esperar que a outra das duas
intermdio de um intruso, o supereu, que fun-        `potncias celestes', o Eros eterno, empenhe um
ciona como um governador dentro de "uma ci-          esforo para se afirmar na luta que trava contra
dade conquistada".                                   seu adversrio no menos imortal."
    O que acontece com esse sentimento de                Um ano depois, em 1931, havendo o partido
culpa, que surge com tamanha constncia, quer        nazista acabado de obter quase 39% dos votos
o mal tenha sido praticado, quer tenha perma-        nas eleies, Freud acrescentou, como que para
necido em estado de inteno? Na verdade, ele        se livrar de um resto de otimismo: "Mas, quem
tem uma origem dupla. Para comear,  produto        pode presumir o sucesso e o desfecho?"
da angstia sentida pela criana diante da auto-
                                                      Sigmund Freud, O mal-estar na cultura (1930), ESB
ridade paterna (origem externa): temendo no         XXI, 81-178; GW, XIV, 421-506; SE, XXI, 64-145; OC,
mais ser amada, a criana  levada a renunciar       XVIII, 245-333; Psicologia das massas e anlise do eu
a satisfazer as pulses, guiadas unicamente pela     (1921), ESB, XVIII, 91-184; GW, XIII, 73-161; SE, XVIII,
busca do prazer. Mas, quando a autoridade           65-143; OC, XVI, 1-83; O futuro de uma iluso (1927),
                                                     ESB, XXI, 15-81; GW, XIV, 325-80; SE, XXI, 5-56; OC,
internalizada no supereu, por intermdio da in-      XVIII, 141-97, Mais-alm do princpio de prazer (1920),
trojeo* da agressividade que suscitava, a ori-     ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69; SE, XVIII, 1-64; in
gem do sentimento de culpa passa a ser interna:      Essais de psychanalyse, Paris, Payot, 1981, 41-115 
desse momento em diante, j no  possvel           Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.
                                                     York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995 
mascarar do supereu aquilo que persiste no eu        Jacques Lacan, O Seminrio, livro 8, A transferncia
do desejo de satisfazer a pulso. O sentimento       (1960-1961) (Paris, 1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
de culpa, gerado pela cultura (representada pelo     1992; Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge
supereu), permanece ento predominantemente          Zahar, 1998  Henri Vermorel e Madeleine Vermorel,
                                                     Sigmund Freud et Romain Rolland, Correspondance,
inconsciente e, na maioria das vezes,  vivido       1923-1936, Paris, PUF, 1993.
sob a forma de um mal-estar ao qual se atribuem
outras causas.                                        TRADUO (DAS OBRAS DE SIGMUND FREUD).
    Se o supereu realmente desempenha o papel
que acaba de lhe ser reconhecido no processo
cultural, no poderamos ficar tentados a falar      Malinowski, Bronislaw (1884-1942)
de civilizaes ou pocas "neurticas", que cla-     antroplogo ingls
mariam por solues teraputicas? Freud, que            Fundador da antropologia funcionalista mo-
em inmeras outras ocasies revelou-se um            derna, criador da pesquisa "de campo" e defen-
adepto, s vezes audacioso demais, do racioc-       sor dos princpios do culturalismo*, Bronislaw
nio analgico, demonstra aqui extrema prudn-        Malinowski era de uma famlia catlica da
cia, lembrando que os conceitos, assim como os       grande burguesia polonesa. Nascido em Crac-
seres humanos, "no podem ser arrancados sem         via, e sdito do Imprio Austro-Hngaro, come-
perigo da esfera em que nasceram e se desen-         ou a estudar fsica, matemtica e filosofia em
volveram". De fato, havendo chegado a esse           sua cidade natal, sob a autoridade de mestres
ponto de seu ensaio, Freud sente com clareza         formados segundo a tradio positivista de
que a questo que se coloca diante dele j no       Ernst Mach (1838-1916) e de Richard Avena-
est ligada  cincia, mas ao prognstico. Sero     rius (1843-1896). Depois de fazer, em Leipzig,
essas sociedades civilizadas capazes de domi-        o curso de psicologia experimental de Wilhelm
nar a pulso destrutiva, passvel de lev-las       Wundt (1833-1920), orientou-se para a etnolo-
                                                                      Malinowski, Bronislaw       493

gia. Contra esse mestre alemo, que privilegia-      Sozinho "no corao das trevas", observava-se
va a "psicologia dos povos", comeou a estudar,      a si mesmo tanto nos desejos erticos que sentia
a partir das fontes escritas disponveis, o fun-     pelas mulheres indgenas ou por suas amantes
cionamento da famlia entre os aborgenes aus-       longnquas, quanto na sensao de ter que en-
tralianos. Foi ento que partiu para a Inglaterra,   frentar foras instintivas comuns a todos os
onde se desenrolavam os grandes debates fun-         homens. Nesse contexto, persuadiu-se da futi-
dadores dessa nova rea. Na Universidade de          lidade das hipteses de Lucien Lvy-Bruhl
Cambridge, em 1910, tornou-se aluno de               (1857-1939) sobre a mentalidade primitiva e
Charles Seligman (1873-1940), de Williams            renunciou ao postulado de uma conscincia
Rivers (1864-1922) e de Edward Westermarck           coletiva, para aderir a um novo humanismo,
(1862-1939).                                         fundado na anlise do homem vivo.
    Adepto de uma concepo neopositivista da            Complementou essa anlise com a elabora-
unidade da cincia, marcado pelos trabalhos de       o do mtodo da "observao participante",
mile Durkheim (1858-1917), que introduzira          verdadeiro programa para a etnologia moderna,
o estudo do funcionamento das sociedades             centrado na experincia de campo. Com Mali-
renunciando  metafsica de suas origens, Ma-        nowski, o trabalho do antroplogo no se resu-
linowski recusava o modelo do evolucionismo          mia mais a uma pesquisa erudita sobre a origem
darwiniano sobre o qual Sigmund Freud* se            dos mitos e das religies,  maneira de James
baseara em Totem e tabu*. Escolhendo o empi-         Frazer (1854-1941); tornava-se uma cincia da
rismo, privilegiava um mtodo fundado na des-        observao, ligada a uma aventura inicitica
crio correta e exata dos fatos, conservando ao     pela qual o pesquisador punha em jogo sua
mesmo tempo a idia, cara a Durkheim, segun-         prpria subjetividade em uma relao transfe-
do a qual toda sociedade  um sistema integra-       rencial com o objeto observado. Da a proximi-
do, em que cada elemento tem um papel "fun-          dade com a psicanlise*.
cional": costume, instituio, norma etc.
                                                         Enquanto Malinowski se iniciava no campo
    Todavia, para estudar esse funcionamento,
                                                     pelo desejo*, pela fantasia* e pelo sonho*,
faltava ao jovem Malinowski a experincia de
                                                     Seligman descobria a psicanlise tratando das
campo. Graas a seu mestre Seligman, reuniu
                                                     neuroses de guerra*. Em 1917, dirigiu uma
os fundos necessrios  organizao de uma
                                                     documentao a seu aluno pedindo-lhe que tes-
misso etnogrfica  Nova Guin e deixou a
Inglaterra no momento em que irrompia a Pri-         tasse junto aos indgenas a validade da tese
meira Guerra Mundial. Como cidado aus-              freudiana segundo a qual o sonho  a expresso
traco, tornava-se bruscamente "inimigo" dos         de um desejo recalcado. Mas nessa data, Mali-
ingleses. Alm disso, no momento em que rea-         nowski se preparava para deixar as ilhas Tro-
lizava seu sonho de chegar a esse mundo mela-        briand.
nsio to estranho ao seu, encontrou-se diante           Voltando a Londres, inteiramente transfor-
da grande querela das naes, que transformaria      mado por sua experincia na Oceania, foi no-
radicalmente a sociedade ocidental.                  meado responsvel pelos cursos de antropolo-
    Para Malinowski, a experincia de campo          gia social. Foi ento que, ao longo de uma bela
junto aos povos ditos "primitivos" foi uma ver-      carreira universitria que o levaria aos Estados
dadeira busca de identidade. Longe dos campos        Unidos*, tomou parte ativa nos debates sobre
de batalha, sonhava com a Europa dilacerada:         as relaes entre a antropologia e a psicanlise,
ora se sentia polons e odiava a Inglaterra,         criticando as teses enunciadas por Freud em
identificando-se com as minorias oprimidas ou        Totem e tabu.
colonizadas, ora rejeitava sua Polnia natal para        Apaixonado pela vida sexual dos melan-
afirmar sua anglofilia. Como mostra seu Di-         sios, Malinowski abordou a obra freudiana sem
rio, que seria publicado muito tempo depois de       a menor reticncia. E foi ao procurar, ao mesmo
sua morte, ele se dedicou durante quatro anos,       tempo, aplicar os conceitos da psicanlise 
primeiro na regio dos Mailu, depois nas ilhas       antropologia e modific-los  luz dos dados da
Trobriand, a uma espcie de auto-anlise*.           etnografia, que ele deslizou para uma crtica e
494     Mann, Thomas

uma reviso da doutrina do dipo* e do univer-      dres em 1938, seria um dos primeiros intelec-
salismo freudiano.                                  tuais da comunidade inglesa a lhe manifestar
     Observara que, entre os trobriandeses, a       sua admirao e a procurar ajud-lo. Pouco tempo
existncia de uma estrutura social de tipo ma-      depois, instalou-se nos Estados Unidos, onde
trilinear levava ao no-reconhecimento do pa-       morreu bruscamente de um acidente cardaco.
pel do pai na procriao: a criana era concebida
                                                     Bronislaw Malinowski, Argonautas do Pacfico oci-
pela me e pelo esprito do ancestral, enquanto     dental (Londres, 1922), S. Paulo, Abril Cultural, 1984;
o lugar do pai ficava vazio. Por conseguinte, a     La Sexualit et sa rpression dans les socits primi-
figura da lei era encarnada pelo tio materno,       tives (Londres, 1927), Paris, Payot, 1932; La Vie
sobre quem se concentrava a rivalidade da           sexuelle des sauvages au nord-ouest de la Mlansie
                                                    (Londres, 1929), Paris, Payot, 1930; Trois essais sur la
criana. A proibio do incesto* se referia        vie sociale des primitifs (Londres, 1926, Paris, 1933),
irm e no  me. Malinowski no negava a           Paris, Payot, 1968; Les Jardins de corail (Londres,
existncia de um complexo nuclear, mas afir-        1935), Paris, Maspero, 1974; Uma teoria cientfica da
mava sua variabilidade em funo da constitui-      cultura (North Carolina, 1944), Rio de Janeiro, Zahar,
                                                    1983; Les Dynamiques de l'volution culturelle (Lon-
o familiar segundo as diferentes formas de        dres, 1945), Paris, Payot, 1970; Magic, Science and
sociedades. Assim, tornava caducas as duas hi-      Religion (1948), N. York, Doubleday, 1954; Journal
pteses freudianas de um dipo universal e de       d'ethnographe (Londres, 1967), Paris, Seuil, 1985 
um parricdio original. A primeira s se aplicava   Michel Panoff, Bronislaw Malinowski, Paris, Payot,
                                                    1972  Ernest Jones, Essais de psychanalyse appli-
a sociedades de tipo patrilinear e a segunda no    que, vol.II (Londres, 1951), Paris, Payot, 1973  Jean
explicava a diversidade das culturas, pois, efe-    Poirier, Histoire de l'ethnologie, Paris, PUF, 1974 
tivamente, nenhuma transio da natureza para       George W. Stocking, "L'Anthropologie et la science de
a cultura explicava tal diversidade.                l'irrationnel. La Rencontre de Malinowski avec la psy-
                                                    chanalyse freudienne" (1983), Revue Internationale
    Foi Ernest Jones* quem se encarregou, em        d'Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991, 449-491  Ber-
1924, a convite de Seligman, de criticar a posi-    trand Pulman, "Ernest Jones et l`anthropologie", Revue
o de Malinowski. Afirmou que a ignorncia         Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991,
da paternidade entre os trobriandeses era apenas    493-521.
uma renegao tendenciosa da procriao pa-
                                                     ANTROPOLOGIA; AUSTRLIA; DIFERENA SE-
terna. Conseqentemente, o complexo de dipo        XUAL; KARDINER, ABRAM; MEAD, MARGARET; PSI-
descrito por Freud era mesmo universal, pois o      CANLISE APLICADA.
sistema matrilinear, com seu complexo avuncu-
lar, exprimia pela negativa uma tendncia edi-
piana recalcada.                                    Mann, Thomas (1875-1955)
    Essa defesa ortodoxa das teses freudianas       escritor alemo
no resolvia o problema das relaes entre a            Thomas Mann nasceu em Lbeck, no norte
antropologia e a psicanlise, nem a questo do      da Alemanha*, em 6 de junho de 1875, de me
universalismo edipiano, nem a da oposio en-       mestia de origem brasileira, cuja beleza exti-
tre patriarcado e matriarcado. E Jones perdeu a     ca e sensual inspiraria ao romancista alguns de
batalha, na medida em que no lhe cabia ques-       seus personagens femininos mais fascinantes, e
tionar a autoridade etnogrfica que Malinowski      de um pai originrio de uma das mais ilustres
adquirira com sua experincia de campo e com        famlias protestantes da cidade.
seus mtodos de observao. Para que o debate           Em 1892, depois da morte de seu pai, difi-
pudesse ser relanado em novas bases, seria         culdades financeiras levaram a famlia a ins-
preciso esperar pelos trabalhos de Geza Ro-         talar-se em Munique, onde Thomas Mann pu-
heim*, primeiro psicanalista a se tornar etnlo-    blicou sua primeira novela em 1894. Aquele que
go, isto , a adquirir a competncia necessria     se tornaria um dos maiores escritores alemes
para contestar as teses culturalistas e funciona-   do sculo XX conheceu o sucesso desde 1901,
listas a partir de uma experincia de campo.        com seu romance Os Buddenbrook, grandioso
    Apesar da intensidade dos conflitos, Mali-      painel da decadncia de uma famlia burguesa,
nowski sempre teria uma atitude respeitosa em       amplamente inspirado na histria de sua prpria
relao a Freud, e, quando este chegou a Lon-       famlia paterna.
                                                                            Mann, Thomas        495

    Em 1905, casou-se com Katja Pingsheim,          aliou-se s foras de esquerda, empenhando
com quem teria seis filhos: Erika, que se torna-    todo o seu prestgio nas campanhas eleitorais,
ria escritora e recolheria as confidncias da me   multiplicando as conferncias para a juventude,
no fim de sua vida; Klaus, tambm escritor, que     colaborando com os sindicatos para impedir a
se suicidaria em 1949 em Cannes, depois de          volta da barbrie. Consternado, tomou consci-
concluir Le Tournant, sua segunda autobiogra-       ncia de uma reviravolta histrica: o nazismo
fia; Golo, jornalista; Monika, nascida em 1910,     triunfante tomava para si, de modo caricatural
no ano do suicdio* de Carla, uma das irms de      mas eficaz, os valores da Alemanha romntica
Thomas Mann; Elisabeth e Michael.                   aos quais ele era to apegado. O justo combate
    Herdeiro do mundo prometeico da literatura      dos filsofos romnticos se tornou anacrnico;
romntica alem, Thomas Mann foi ligado du-         no era mais hora para a apologia do instinto e
rante toda a vida  filosofia de Arthur Schopen-    do irracional contra a alienao moderna; era
hauer (1788-1860),  de Friedrich Nietzsche         preciso mobilizar todas as foras disponveis
(1844-1890) e ao universo wagneriano. Esse          para socorrer a civilizao ameaada.
fascnio pelas grandes epopias lricas, pelos          Sem questionar a sinceridade e a fora desse
sbios loucos e pelos mgicos, sua hostilidade      engajamento, parece, entretanto, que ele no foi
pelas formas de pensamento racionais, sus-          to espontneo e enrgico quanto se relata ge-
peitas, a seus olhos, de reducionismo, estavam      ralmente. Em 1996, sua filha Erika, que foi uma
na origem dos erros e das ambigidades que          Resistente ao nazismo desde a primeira hora,
caracterizariam sua relao com a poltica e a      publicou um livro de memrias no qual trans-
psicanlise*.                                       creveu cartas trocadas com o pai, entre 1933 e
    O dio que Thomas Mann sentia pelos va-         1936. Algumas dessas cartas mostram a demora
lores do mundo ocidental, do qual exclua a         do escritor, ento na Sua*, em assumir uma
Alemanha, quer se tratasse do parlamentaris-        posio pblica contra os novos senhores de seu
mo, do internacionalismo, dos ideais socialistas    pas. A seu irmo Klaus, Erika escreveu: "Cabe
e mais ainda da psicologia, o levou a tomar         a ns, apesar de nossa juventude, uma pesada
partido pelo imperialismo prussiano j em           responsabilidade, na pessoa do nosso pai me-
1914. A guerra lhe parecia ento uma cruzada        nor." Em fevereiro de 1936, Thomas Mann
em defesa da cultura germnica. Assim, indis-       publicou em um jornal suo uma tomada de
ps-se com seu irmo mais velho, Heinrich           posio isenta de ambigidade, que o reconci-
(1871-1950), tambm escritor e jornalista,          liaria com a filha, como prova o telegrama que
apaixonado pela Frana* e pela Itlia*, que se      ela lhe dirigiu: "Obrigada, parabns, bno."
engajou em 1914 contra o empreendimento                 Considerando-se os temas dominantes da
militarista da Alemanha guilhermina. Em 1918,       obra de Thomas Mann, a doena, a sexuali-
Thomas Mann, amargurado com a derrota               dade* e a morte, poder-se-ia pensar que seu
alem, publicou uma obra-prima panfletria,         encontro com a obra freudiana foi rpido e
Consideraes de um apoltico, de tom populis-      simples. Ora, no foi nada disso.
ta e nacionalista, na qual atacava novamente,           Contraditrio em suas declaraes, Thomas
com incrvel violncia, a psicologia sob todas      Mann at se desculparia, em uma carta de 3 de
as suas formas, que acusava de cultivar a evi-      janeiro de 1930 a Sigmund Freud*, pelo carter
dncia e de no respeitar a arte e a criao.       tardio de sua compreenso da teoria psicanal-
    Em 1924, depois de se reconciliar com o         tica e de sua adeso aos valores de que ela era
irmo, publicou uma de suas obras mais cle-        portadora, enquanto havia declarado, em 1925,
bres, A montanha mgica (Der Zauberberg),           que sua novela Morte em Veneza, publicada em
que lhe valeu uma reputao internacional: o        1912, havia sido escrita sob a influncia direta
escritor alemo mais conhecido do mundo re-         de Freud. Na verdade, ele sempre cultivou a
cebeu o Prmio Nobel de literatura em 1929.         ambigidade quanto a esse ponto.
Durante esses anos, suas opinies polticas mu-         Na primeira parte de sua vida e de sua obra,
daram. Desde o surgimento dos primeiros sin-        seu dio a toda espcie de psicologia, seu temor
tomas anunciadores da ascenso do nazismo*,         de v-la apoderar-se da arte e da literatura, se
496     Mann, Thomas

no permitem formular a tese de uma ignorn-         tica como uma obra reacionria e mostrando
cia absoluta da descoberta freudiana, explicam       principalmente que a filosofia de Schopen-
entretanto sua distncia em relao  psican-       hauer, na verdade, retornava aos valores to
lise e a ironia com a qual a comentava. Quanto       elogiados por Petrarca, Erasmo e Voltaire.
a isso, Jean Finck observou: "Em um primeiro             Thomas Mann retomou essa bandeira e fez
tempo, Thomas Mann desloca para a psican-           o elogio de Totem e tabu*, que acabava de reler.
lise, pelo menos parcialmente, suas suspeitas        Esse livro, escreveu ele, "nos incita mais do que
em relao  ao supostamente desmoraliza-          a uma simples meditao sobre a espantosa
dora e inimiga da vida que ele atribui  psicolo-    origem psquica do fenmeno religioso e sobre
gia."                                                a natureza profundamente conservadora de toda
    Por outro lado,  verdade, e o prprio Tho-      reforma." Freud, explorador das profundezas,
mas Mann reconheceria, que, por sua cultura e        se inscrevia evidentemente na linhagem dos
suas leituras, por seu amor  filosofia romntica    pensadores dos sculos precedentes que, em vez
alem, ele estava preparado para abordar as          de ignorar ou idolatrar a face noturna do ser,
idias freudianas. Alis, nunca deixaria de en-      lanaram as premissas de seu conhecimento.
fatizar, s vezes excessivamente, a filiao, evi-   No acreditemos, prosseguiu o autor de Mrio,
dente para ele, entre Schopenhauer e Freud.          o mgico, que Freud, por explorar o obscuro,
Mas s em meados dos anos 1920, quando se            analisar o glauco e visitar a cloaca, fosse um
esboava sua virada poltica, Thomas Mann se         obscurantista.
confrontou francamente com a obra de Freud,              Defendendo assim o pensamento freudiano,
cuja influncia  evidente em Jos e seus ir-        Thomas Mann estava de pleno acordo consigo
mos, esse grande afresco iniciado em 1926.          mesmo. O inconsciente freudiano era, efetiva-
    A partir de ento, seu interesse, sua simpatia   mente, o golpe fatal para essa psicologia cls-
e at sua admirao pela psicanlise, e talvez       sica que ele detestava, e o anti-racionalismo de
mais ainda pela pessoa de Freud, se expres-          Freud "equivale a compreender a superioridade
sariam de maneira sonora, quase como um en-          afetiva e dominante do instinto sobre o esprito;
gajamento moral.                                     ele no equivale a uma prosternao admirado-
    Dois textos clebres ilustram esse reco-         ra diante dessa superioridade, a uma ironia do
nhecimento: "Freud e o futuro", escrito em           esprito". O narcisismo e a pulso de morte eram
1936, por ocasio do 80 aniversrio do inven-       reconhecidos, nas entrelinhas, por Thomas
tor da psicanlise, e "Freud e o pensamento          Mann, na obra de Novalis e "o que se chamou
moderno", publicado em 1929, ano do Prmio           erroneamente de pansexualismo* de Freud, a
Nobel, sem dvida um dos textos mais admir-         sua teoria de libido, , em resumo e sem qual-
veis redigidos sobre Freud, como certas linhas       quer mstica, um romantismo que se tornou
de Stefan Zweig*.                                    cientfico." E Mann encontrou tons beethove-
    "Freud e o pensamento moderno"  um texto        nianos, como os do Hino  alegria, para
de combate filosfico e poltico.  maneira de       concluir sua anlise: a psicanlise " essa forma
Nietzsche, sob cuja inspirao ele inscreveu seu     de irracionalismo moderno que resiste clara-
percurso, Thomas Mann revia algumas de suas          mente a todo abuso reacionrio que se faz dele.
posies anteriores, mas principalmente, como        Ela , declaramo-nos convictos, uma das pedras
verdadeiro estrategista da luta das idias, des-     mais slidas que contriburam para edificar o
montava a utilizao pervertida que as foras        futuro, morada de uma humanidade libertada,
das trevas faziam dos valores ligados  cultura      que chegou ao conhecimento."
(e singularmente daqueles provenientes do ro-            Em 1930, por ocasio de uma reedio de
mantismo alemo).                                    sua autobiografia, Freud acrescentou algumas
    Em sua poca, Nietzsche tinha analisado e        linhas  guisa de concluso, pelas quais ele
criticado a trajetria dos pensadores alemes        aceitava enfim que o classificassem entre os
que acreditavam discernir nos valores do Auf-        grandes pensadores da humanidade. Ao fazer
klrung os germes do progresso, apelando para        isso, era Thomas Mann quem ele saudava: "Foi
que se deixasse de considerar a filosofia romn-     em 1929, lembrava, que Thomas Mann, um dos
                                                                               Mannoni, Octave           497

autores que mais tinham vocao para porta-          sem cobrir o rosto com as mos e sair do teatro
voz do povo alemo, me atribuiu um lugar na          correndo!"
histria do esprito moderno, em frases to ricas       Em 1952, Thomas Mann deixou definitiva-
de contedo quanto de amabilidade."                  mente os Estados Unidos e fixou-se na Sua, a
    Em 8 de maio de 1936, quando os nazistas         partir de onde percorreu a Europa fazendo
no faziam mais mistrio de suas intenes,          conferncias, inclusive na Alemanha. Morreu
Thomas Mann pronunciou em Viena* um dis-             em Zurique, em 12 de agosto de 1955.
curso lrico em honra do "psiclogo do incons-
                                                      Thomas Mann, "Freud et la pense moderne", in Sur
ciente [...], verdadeiro filho do sculo de          le mariage. Lessing, Freud et la pense moderne. Mon
Schopenhauer e de Ibsen, entre os quais nas-         temps (1929), Paris, Aubier-Flammarion, 1970, edio
ceu". Demonstrou sua humildade, lembrando            bilnge, 1906-149; "Freud et l'avenir" (1936), in Roland
                                                     Jaccard (org.), Freud. Jugements et tmoignages, Pa-
nessa ocasio que foi mais a psicanlise que
                                                     ris, PUF, 1976, 13-43; "Pourquoi je ne rentre pas en
veio a ele do que ele a ela, e explicou que "mal     Allemagne", in tre crivain allemand  notre poque,
ousava" falar de Freud, que devia ser honrado        ensaios e textos inditos reunidos e apresentados por
"como pioneiro de um humanismo do futuro".           Andr Gisselbrecht, Paris, Gallimard, 1996  Erika
                                                     Mann, Mein Vater, der Zauberer, Frankfurt, Rowohlt,
Um ms depois, em 14 de junho de 1936, foi           1996  Klaus Mann, Le Tournant (1982), Paris, Solin,
visitar Freud para ler-lhe pessoalmente esse         1984  Journal. Les Annes brunes, 1931-1936, Paris,
texto. Max Schur* relatou como esse elogio           Grasset, 1996  "Thomas Mann et les siens", dossier
impressionou Freud, que escreveu, em uma             dirigido por Lionel Richard, Le Magazine Littraire,
                                                     setembro de 1996  Jean Finck, Thomas Mann et la
carta de 17 de junho de 1936 a Arnold Zweig*,        psychanalyse, Paris, Les Belles Lettres, 1982, prece-
como essa visita o emocionara: "Thomas               dido de "Thomas Mann et l'irrationnel" por Jean-Michel
Mann, que fez uma conferncia sobre mim em           Palmier, 5-33  Sigmund Freud, Totem e tabu (1913),
cinco ou seis lugares diferentes, teve a gentileza   ESB, XIII, 17-192; GW, IX; SE, XIII, 1-161; Paris,
                                                     Gallimard, 1993; Um estudo autobiogrfico (1925),
de repeti-la para mim, no domingo, dia 14 deste      ESB, XX, 17-88; SE, XX, 7-70; GW, XIV, 33-96; OC,
ms, para mim pessoalmente, no meu quarto,           XVII, 51-122  Sigmund Freud e Arnold Zweig, Corres-
aqui em Grinzing. Para mim e os meus, que            pondance, 1927-1939 (Frankfurt, 1968), Paris, Galli-
                                                     mard, 1973  Max Schur, Freud: vida e agonia, uma
estavam presentes, foi uma grande alegria."          biografia, 3 vols. (1972), Rio de Janeiro, Imago, 1981.
    Mann deixou a Alemanha e foi para os Es-
tados Unidos em 1938. Ensinou em Princeton,
antes de fixar residncia na Califrnia. Em
                                                     Mannoni, Octave (1899-1989)
1944, adquiriu a nacionalidade americana e
                                                     psicanalista francs
dedicou, a partir dessa data, muito de sua ener-
gia a descobrir as razes do cataclisma cuja             Nascido em Lamotte-Beuvron, Sologne,
                                                     Octave Mannoni era de uma famlia de profes-
responsabilidade coletiva, a seus olhos, cabia a
                                                     sores primrios originrios da Crsega. Seu pai
seu pas natal. Como observou Jean-Michel
                                                     era diretor de uma casa de correo. Depois de
Palmier, essa posio seria duramente criticada
                                                     estudar filosofia, foi nomeado professor no li-
por Bertolt Brecht (1898-1956), que o acusaria
                                                     ceu Gallieni de Tananarive, em Madagascar,
de confundir alemo e nazista.                       onde permaneceu durante vinte anos, de 1925
    Em 1945, em um texto intitulado "Por que         a 1945. Favorvel  independncia da ilha, foi
no volto  Alemanha", explicou seu percurso         chamado a Paris pela administrao. Cinco
intelectual e poltico e seu abandono progres-       anos depois, em 1950, publicou a sua Psicolo-
sivo das razes alems: " verdade, disse ele,       gia da colonizao, que suscitou muitos co-
que a Alemanha se tornou estranha para mim           mentrios. Inspirando-se em Prospero e Cali-
durante todos esses anos. Ho de convir comigo       ban, personagens de A tempestade, de William
que  um pas que d medo." Acusando os              Shakespeare, tentou distinguir a personalidade
alemes em geral por sua participao, mesmo         malgaxe da personalidade colonial europia.
passiva, nessa "pavorosa guerra", exclamou:          Segundo ele, a primeira caracterizava-se por
"Que grau de insensibilidade no foi necessrio      um complexo de dependncia e um sistema
para ouvir o Fidelio na Alemanha de Himmler,         religioso hierrquico, no qual os mortos forma-
498     Mannoni, Octave

vam uma instncia moral superior, um super-         Octave Mannoni respondeu muitas vezes a essa
eu*, que determinava a conduta dos vivos. A         crtica, fosse para defender o seu livro, fosse
segunda, ao contrrio, se singularizava por seu     para rever algumas de suas posies. Orientou-
individualismo e sua emancipao em relao         se depois para a psicanlise*.
a costumes, tradies e religio.                       Depois de um tratamento com Jacques La-
    Ora, a colonizao tecia laos entre os dois    can* e de seu casamento em 1948 com Maud
sistemas. Segundo Mannoni, os malgaxes efe-         Van der Spoel (Maud Mannoni), jovem terapeu-
tuavam uma transferncia* de dependncia que        ta neerlandesa, formada por Maurice Dugau-
os levava a considerar o homem branco (o            tiez*, integrou-se  Sociedade Francesa de Psi-
colonialista) um equivalente do ancestral morto     canlise (SFP) e depois  cole Freudienne de
e a lhe pedir proteo e segurana. Da decorria,   Paris* (EFP), na qual se tornou um brilhante
para o europeu, a idia de que o negro coloni-      didata, publicando ao mesmo tempo textos na
zado era um inferior que aceitava sua inferiori-    revista de Jean-Paul Sartre (1905-1980), Les
dade. Mannoni qualificava de interpretao*         Temps Modernes.
abusiva essa transformao, pelo colonizador,           Em 1966, cinco anos depois da morte de
de um sentimento de dependncia em um com-          Fanon e do fim da guerra da Arglia, tentou, na
plexo de inferioridade, concluindo que a depen-     revista Race, explicar mais uma vez,  luz da
dncia dos negros em relao aos brancos era        sua experincia de analista, os defeitos e as
resultado de um medo recproco de natureza          qualidades de sua Psicologia da colonizao,
projetiva: os brancos projetavam nos indgenas      enfatizando que assumira o risco de desres-
seus prprios pavores, dizia ele, e os negros       peitar certas "msticas teis  causa anticolonia-
projetavam uma transferncia de dependncia         lista". Criticou todavia a utilizao que ele pr-
sobre os brancos. Da a frmula: "O negro  o       prio fizera da noo de dependncia e sua ne-
medo que o branco tem de si mesmo."                 gligncia da questo econmica, e insistiu na
    Mannoni apenas retomava, com um esprito        necessidade de escrever um livro sobre a psico-
universalista, as teses da etnopsicanlise*,        logia da descolonizao.
acrescentando uma interpretao fenomenol-             Anticolonialista, homem de esquerda sens-
gica. A obra era, sem dvida alguma, anticolo-      vel  marginalidade e ao desvio, permaneceu
nialista, mas em razo de seu psicologismo e de     um freudiano erudito, participando at a morte
um certo preciosismo, que dava a entender que       de todas as atividades de sua esposa Maud
as diferenas entre os colonizados e os coloni-     Mannoni, que teria um renome internacional no
zadores, entre o homem branco e o homem ne-         campo da psicanlise de crianas*. A seu lado,
gro, entre o carrasco e a vtima, eram apenas       foi na Frana* um dos defensores das teses da
efeito de uma teatralidade, ou at de uma iluso    antipsiquiatria* inglesa e marcou com sua pre-
de tica, foi recebida erroneamente como um         sena a escola experimental de Bonneuil-sur-
manifesto hostil  libertao dos povos oprimi-     Marne, inaugurada em 1969.
dos. Manonni foi acusado, principalmente por            Publicou muitas obras, entre as quais um
Aim Csaire, de utilizar uma terminologia so-      notvel ensaio sobre Sigmund Freud*, traduzi-
fisticada para comparar os "pobres negros" com      do no mundo inteiro, vrios estudos de crtica
crianas grandes, incapazes de se ocidentalizar.    literria e um artigo no qual propunha chamar
    Foi sobretudo Frantz Fanon* que, em 1952,       de anlise original a auto-anlise* de Freud.
deu um golpe terrvel no autor, em um livro mi-
litante, Pele negra, mscaras brancas, que se        Octave Mannoni, Prospero et Caliban. Psychologie
                                                    de la colonisation (1950), Paris, ditions Universitaires,
tornaria um clssico na luta anticolonial. Psi-     1985; La Machine (1951), Paris, Tchou, 1977; Freud,
quiatra formado na psicoterapia institucional*      uma biografia ilustrada (Paris, 1966), Rio de Janeiro,
por Franois Tosquelles (1912-1994), Fanon          Jorge Zahar, 1994; Clefs pour l'imaginaire ou l'Autre
adotava a tese clssica do culturalismo*, revista   Scne, Paris, Seuil, 1969; Fices freudianas (Paris,
                                                    1978), Rio de Janeiro, Taurus, 1986  Frantz Fanon,
e corrigida pela fenomenologia sartriana, para      Peau noire, masques blancs, Paris, Seuil, 1952  Mi-
mostrar que a psicanlise e seu complexo de         chelle Moreau-Ricaud, "Octave Mannoni (1899-1989)",
dipo* eram incompatveis com a negritude.          Revue Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 3,
                                                                                     Marcuse, Herbert           499

1990, 478-9  Guillaume Surna, "Psychanalyse et            moveu a vinda de Adelheid Koch* de Berlim a
anticolonialisme. L'Influence de Frantz Fanon", ibid., 5,
                                                            So Paulo, a fim de que ela analisasse e formas-
1992, 431-44.
                                                            se didatas segundo os critrios da International
 ANTROPOLOGIA; DIFERENA SEXUAL; MALINO-                    Psychoanalytical Association* (IPA). Foi tam-
WSKI, BRONISLAW; ROHEIM, GEZA.                              bm ele o melhor organizador do movimento,
                                                            depois que este foi reconhecido por Ernest Jo-
                                                            nes*. Assim, deu a So Paulo uma posio de
Marcinowski, Jaroslaw (1868-1935)                           relevo em relao s outras cidades de implan-
mdico alemo                                               ta o do freudismo: Rio de Janeiro, principal-
    Nascido em Breslau, na Polnia, Jaroslaw                mente, mas tambm Salvador, Porto Alegre,
(Johannes) Marcinowski aderiu s idias freu-               Recife etc.
dianas no incio do sculo e dirigiu um sanatrio               Em 1926, publicou um livro sobre o simbo-
de convalescena para doentes nervosos em                   lismo* que abriu caminho para uma crtica
Holstein. Em junho de 1909, escreveu a                      literria de inspirao psicanaltica no Brasil*.
Sigmund Freud* a fim de se reunir ao crculo                No ano seguinte, fundou com Francisco Franco
vienense. Na linguagem militar que lhe era                  da Rocha* a Sociedade Brasileira de Psican-
costumeira, Freud o descreveu assim a Carl                  lise, primeira sociedade freudiana do conti-
Gustav Jung*: "Ele se apresenta como um par-                nente latino-americano, que, depois de dis-
tidrio convicto e como um camarada pronto                  solvida, renasceria para se tornar em junho de
para o combate."                                            1944 o Grupo Psicanaltico de So Paulo e
    Depois da Primeira Guerra Mundial, Marci-               posteriormente, em 1951, no congresso da IPA
nowski comprou uma fazenda em Bad Heil-                     em Amsterdam, a Sociedade Brasileira de Psi-
brunn, na Baviera, que transformou em sanat-               canlise de So Paulo (SBPSP).
rio. Com sua mulher, enfermeira diplomada,                      Em 1928, Marcondes criou a Revista Brasi-
compartilhava a vida de seus pacientes. Lou                 leira de Psicanlise, que foi acolhida com en-
Andreas-Salom* lhe fez uma visita em 1920 e                tusiasmo por Freud. Redigiu muitas obras de
admirou a maneira como era organizado esse                  introduo  psicanlise*. Foi tambm um pio-
local de acolhimento. Marcinowski foi membro                neiro da higiene mental nas instituies esco-
da Wiener Psychoanalytische Vereinigung                     lares e inaugurou a primeira ctedra de psicolo-
(WPV) entre 1919 e 1925, mas foi principal-                 gia na Universidade de So Paulo.
mente um terapeuta da vida comunitria. Escre-
veu inmeros artigos.                                        Marialzira Perestrello, "Histoire de la psychanalyse au
                                                            Brsil des origines  1937", Frnsie, 10, primavera de
 Freud/Lou Andreas-Salom: correspondncia com-            1992, 283-301.
pleta (1912-1913) (Frankfurt, 1966), Rio de Janeiro,
Imago, 1975  Elke Mhlleitner, Biographisches Lexi-         BRASIL; BURKE, MARK; KEMPER, WERNER;
kon der Psychoanalyse. Die Mitglieder der Psycholo-         PORTO-CARRERO, JLIO PIRES; RAMOS DE ARA-
gischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener Psy-           JO PEREIRA, ARTHUR; SPANUDIS, THEON.
choanalytischen Vereinigung von 1902-1938, Tbin-
gen, Diskord, 1992.

                                                            Marcuse, Herbert (1898-1979)
Marcondes, Durval, n Durval                                filsofo americano
Marcondes Bellegarde (1899-1981)                                Nascido em Berlim, Herbert Marcuse foi
psiquiatra e psicanalista brasileiro                        inicialmente aluno de Edmund Husserl (1859-
   Nascido em So Paulo, Durval Marcondes                   1938) e de Martin Heidegger (1889-1976),
deve ser considerado como o fundador do                     antes de participar dos trabalhos do Institut fr
movimento psicanaltico brasileiro. Esse psi-               Sozialforschung, onde encontrou Theodor
quiatra erudito, de estilo aristocrtico, tornou-           Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895-
se um notvel clnico da psicanlise e ocupou               1973) e Leo Lowenthal. Ncleo fundador da
durante toda a vida o lugar mais importante na              futura Escola de Frankfurt, esse instituto de
cena freudiana de seu pas. Foi ele quem pro-               pesquisas sociais foi a origem da elaborao da
500      masoquismo

teoria crtica, doutrina sociolgica e filosfica     principal motor do destino humano, afirmava
que se baseava ao mesmo tempo na psican-             que o eros (ou princpio de prazer*) era a nica
lise*, na fenomenologia e no marxismo para            fora capaz de lutar contra a ordem estabelecida
refletir sobre as condies de produo da cul-       (princpio de realidade*) e contra thanatos, fon-
tura no seio de uma sociedade dominada pela           te de todas as resignaes e de todos os pes-
racionalidade tecnolgica e prestes a naufragar       simismos. Para ele, tratava-se, exatamente co-
na barbrie.                                          mo fazia Jacques Lacan* na mesma poca, mas
    Fugindo do nazismo*, Marcuse deixou a             por outros meios, de dar novamente ao freudis-
Alemanha* e emigrou para os Estados Unidos*           mo* aquele estatuto de doutrina subversiva que
em 1934, onde ensinou em diversas universi-           perdera s custas de edulcorar-se em contato
dades, antes de se tornar professor na de San         com as psicoterapias* higienistas e pragmticas
Diego, na Califrnia. Ao contrrio de Hork-           das sociedades industriais normalizadas.
heimer, s depois do exlio comeou a se inte-            Marcuse preconizava assim uma teoria da
ressar de perto pelo pensamento freudiano: "Foi       libertao que o conduzia a imaginar uma so-
preciso esperar pelo choque e pelas questes          ciedade fundada na superao dos conflitos e na
perturbadoras que tanto a guerra civil espanhola      possvel "pacificao da existncia". Essa uto-
quanto os processos de Moscou suscitaram,             pia o afastava da teoria crtica de Adorno e de
escreveu Martin Jay, para que Marcuse come-           Horkheimer, que permanecia ligada  tese freu-
asse a estudar seriamente Freud. Sua conscin-       diana da pulso de morte. Marcuse conquistou
cia cada vez mais clara das insuficincias do         um sucesso mundial junto aos jovens, no mo-
marxismo, mesmo em sua verso hegeliano-              mento das grandes revoltas estudantis dos anos
marxista, o levou, como Horkheimer e Adorno           1960, depois da publicao de O homem unidi-
antes dele, a refletir sobre os obstculos propria-   mensional. Nesse livro proftico e muito mais
mente psicolgicos que se opem a uma verda-          freudiano, apesar das aparncias, do que Eros e
deira mudana social."                                civilizao, o filsofo, longe de pregar a super-
    Como seus amigos, Marcuse criticava o to-         ao dos conflitos, atacava a unificao das
talitarismo e os fracassos do socialismo, mas         conscincias e do pensamento. Enfatizando que
com isso no admitia os supostos benefcios de        o homem "unidimensional" da sociedade in-
uma sociedade liberal, voltada para a tecnologia      dustrial tinha perdido todo o seu poder de nega-
e o lucro, e alienante para o indivduo  procura     o  fora de se submeter aos imperativos de
de liberdade. Da a idia de desenvolver um           uma falsa conscincia, conclamava as massas a
pensamento crtico fundado no esprito rebelde        reatarem com a tica da grande recusa e a se
e capaz de despertar as conscincias.                 revoltarem contra a ordem social dominante,
    Para compreender a posio de Marcuse,           em nome de uma nova esttica da existncia.
preciso situ-la no contexto da polmica lana-
                                                       Herbert Marcuse, Eros e civilizao (Boston, 1955),
da por Adorno em 1946 contra o neofreudismo*          Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978; L'Homme unidimen-
e o culturalismo*, isto , contra a influncia        sionnel (Boston, 1964), Paris, Minuit, 1968  Paul Ro-
daqueles que -- de Karen Horney* a Erich              binson, The Freudian Left. Wilhelm Reich, Geza Ro-
Fromm* -- "revisavam" a doutrina freudiana,           heim, Herbert Marcuse, N. York, Harper and Row, 1969
                                                       Martin Jay, L'Imagination dialectique. Histoire de l'-
no sentido de uma reduo do isso* em proveito        cole de Francfort, 1923-1950 (Boston, 1973), Paris,
do eu*, de um abandono da teoria das pulses*         Payot, 1977.
e de uma rejeio da sexualidade*. Atravs
dessa supervalorizao do cultural, os revisio-        FREUDO-MARXISMO; MAIS-ALM DO PRINCPIO
nistas apenas reintroduziam, segundo Adorno,          DE PRAZER; REICH, WILHELM.
o princpio de uma adaptao social de acordo
com os ideais da sociedade industrial.
    Em 1955, em Eros e civilizao, Marcuse
retomou essa argumentao, derrubando ao              masoquismo
mesmo tempo a concepo freudiana das pul-            al. Masochismus; esp. masoquismo; fr. masochis-
ses. Em lugar de ver na pulso* de morte o           me; ing. masochism
                                                                  Masotta, Oscar Abelardo        501

Termo criado por Richard von Krafft-Ebing* em       para reivindicar a bastardia (no sentido sartria-
1886, e cunhado a partir do nome do escritor aus-   no), a clivagem*, o desespero e o niilismo.
traco Leopold von Sacher-Masoch (1835-1895),
                                                        Filho de imigrante prussiano e de me aus-
para designar uma perverso* sexual -- fus-
                                                    traca, Arlt teve uma infncia miservel, marca-
tigao, flagelao, humilhao fsica e moral --
em que a satisfao provm do sofrimento vivido
                                                    da pela revolta contra a opresso paterna.
e expresso pelo sujeito* em estado de humilhao.   Tornando-se escritor e jornalista no perodo
   Esse termo pertence essencialmente ao vo-        entre-guerras, criou um comit de apoio aos
cabulrio da sexologia*, mas foi retomado por       republicanos espanhis, ao qual Enrique Pi-
Sigmund Freud* e seus herdeiros no contexto         chon-Rivire aderiu. Seus livros faziam uma
mais genrico de uma teoria da perverso esten-     descrio violenta da pequena burguesia argen-
dida a outros atos, alm das perverses sexuais.    tina, confrontada com personagens de trapacei-
Nesse sentido, foi acoplado ao termo sadismo*       ros, bandidos e prostitutas: um universo como
para dar origem a um novo vocbulo, sadoma-         o dos filmes "noirs", como a atmosfera de
soquismo*, que ento se imps na terminologia       Faulkner, de Dashiell Hammett e de Sartre em
psicanaltica.                                      A nusea.
                                                        A descoberta do estruturalismo e a leitura da
                                                    Antropologia estrutural de Claude Lvi-Straus-
Masotta, Oscar Abelardo                             s determinaram a evoluo de Masotta, que
(1930-1979)                                         abraou, sem renunciar ao niilismo, o culto da
filsofo argentino                                  estrutura. Pichon-Rivire foi o seu iniciador.
    Introdutor do lacanismo* na Argentina* e        Emprestou-lhe nmeros da revista La Psycha-
depois na Espanha*, Oscar Masotta no exer-         nalyse que continham textos de Lacan e convi-
ceu a psicanlise*. Entretanto, por seu ensino e    dou-o, em 1964, a fazer uma exposio no seu
suas iniciativas institucionais, desempenhou        Instituto de Psicologia Social, "Lacan e o in-
um papel de didata junto aos discpulos que         consciente no fundamento da filosofia".
formou com a leitura dos textos de Jacques              Recusando-se a fazer uma carreira universi-
Lacan* e uma prtica lacaniana do tratamento.       tria clssica, Masotta reuniu em torno de si um
    Proveniente da pequena burguesia de Bue-        grupo de estudos freqentado por psiclogos,
nos Aires, viveu uma juventude tipicamente          intelectuais e psicanalistas da APA. Depois, no
portenha, no centro de um grupo de filhos de        Centro Superior de Artes, onde dava cursos,
imigrantes, marxistas e existencialistas, apaixo-   ficou conhecendo Juan-David Nasio, que tam-
nados pela cultura francesa e pelo cinema hol-      bm se interessava pela obra de Lacan e pelos
lywoodiano. Masotta gostava das mulheres.
                                                    textos de Louis Althusser (1918-1990) e de
Seus melhores amigos, Carlos Correas e Jos
                                                    Georges Politzer (1903-1942). Juntos, forma-
Sebreli, eram homossexuais. Rejeitando ener-
                                                    ram em 1968 um grupo lacaniano informal.
gicamente o regime peronista, procuravam,
                                                    Nessa poca, sob a ditadura do general Onga-
atravs da leitura de Sartre e de Merleau-Ponty,
uma filosofia do homem simultaneamente uni-         nia, muitos crculos culturais particulares flo-
versal e radical. Com a idade de 25 anos, Ma-       resciam  margem da universidade, servindo
sotta comeou a publicar artigos em Clase           muitas vezes de refgio a professores expulsos
Obrera, revista do movimento operrio               de seus postos pelo golpe de Estado.
comunista, meio populista, meio marxista.               Depois de criar em 1969 os Cuadernos
    Em 1960, atravessou uma fase de tendncia       Sigmund Freud, primeira revista hispanfona
ao suicdio, uma "doena mental" entre a his-       de difuso do pensamento lacaniano, Masotta,
teria* e a esquizofrenia*, como ele mesmo dis-      apoiado por Serge Leclaire*, Maud e Octave
se, e comeou uma anlise com Jorge Carpinac-       Mannoni*, organizou com eles uma mesa
ci, membro da Asociacin Psicoanaltica Ar-         redonda, da qual participaram vrios membros
gentina (APA). Em sua primeira obra, consa-         da APA: Marie Langer*, Emilio Rodrigu,
grada a Roberto Arlt (1900-1942), publicada         Arminda Aberastury*, Jos Bleger*, Fernando
em 1965, Masotta se identificava com o escritor     Ulloa. O objetivo era legitimar o movimento
502     matema

lacaniano, referindo-se  tradio ecltica do       Oscar Masotta, Sexo y traicin en Roberto Arlt, B.
                                                    Aires, Jorge Alvarez, 1965; Consciencia y estructura,
freudismo* argentino.
                                                    B. Aires, Jorge Alvarez, 1968; Introduccin a la lectura
    Enquanto Masotta comeava a publicar            de Jacques Lacan (1970), B. Aires, Corregidor, 1974;
obras de introduo ao pensamento lacaniano,        Ensayos lacanianos, Madri, Abagrama, 1976; "Sur la
seu grupo aproveitava a crise institucional da      fondation de l'cole Freudienne de Buenos Aires",
                                                    Ornicar?, 20-21, 1980, 227-35  Carlos Correas, La
APA para oferecer uma via clnica aos terapeu-
                                                    operacin Masotta (cuando la muerte tambien fraca-
tas no-mdicos e no-diplomados. Um verda-         sa), B. Aires, Catalogos, 1991  Hugo Vezzetti, "Oscar
deiro movimento lacaniano emergiu desse con-        Masotta y Carlos Correas", Punto de Vista, 41, dezem-
texto, no incio dos anos 1970, ao mesmo tempo      bro de 1991, 35-7  Ral Giordano, Notice historique
que era publicada a traduo espanhola dos          du mouvement psychanalytique en Argentine, dis-
                                                    sertao para o CES de psiquiatria, sob a direo de
crits, realizada por Tomas Segovia e revista       Georges Lantri-Laura, Universidade de Paris-XII, s/d
por Nasio. Este emigrara em 1969, depois de          Analitica del Litoral, 5, Dossier: "La entrada del pen-
uma anlise com Emiliano del Campo, analisa-        samiento de Jacques Lacan en lengua espaola (1)",
do por Jos Bleger, e se integrara  cole Freu-    Santa Fe, 1995.
dienne de Paris* (EFP). Em 1986, criou o seu
prprio grupo: os Seminrios Psicanalticos de
Paris (SPP).                                       matema
    Em 28 de junho de 1974, Masotta fundou,         al. Mathem; esp. matema; fr. mathme; ing. ma-
com 19 psicanalistas, entre os quais Isidoro        theme
Vegh e Germn Leopoldo Garcia, a Escuela            Termo criado por Jacques Lacan*, em 1971, para
Freudiana de Buenos Aires (EFBA), cujos es-         designar uma escrita algbrica capaz de expor
tatutos, estruturas e modalidades de anlise di-    cientificamente os conceitos da psicanlise*, e que
dtica eram calcados nos da EFP. Um ano de-         permite transmiti-los em termos estruturais, como
pois, foi a Paris para apresentar sua escola, no    se tratasse da prpria linguagem da psicose*.
momento em que a comunidade lacaniana j                Foi no mbito de sua ltima reformulao
estava em meio a uma crise de sucesso.             lgica, baseada numa leitura da obra de Ludwig
    Tornando-se membro da EFP, Masotta dei-         Wittgenstein (1889-1951) e orientada para a
xou a Argentina algum tempo antes do golpe de       anlise da essncia da loucura* humana, que
Estado do general Videla. Depois de uma per-        Lacan inventou, simultaneamente, o matema e
manncia em Londres, instalou-se, em 1976,          o n borromeano*: de um lado, um modelo da
em Barcelona, onde desenvolveu uma extraor-         linguagem, articulado com uma lgica da or-
dinria atividade editorial e institucional, lan-   dem simblica*; do outro, um modelo es-
ando as bases de uma implantao do lacanis-       trutural, baseado na topologia e efetuando um
mo na Espanha*, enquanto o fim do regime            deslocamento radical do simblico para o real*.
franquista e o advento da democracia tornavam           A palavra matema foi proposta por Lacan
possvel a restaurao do freudismo nesse pas.     pela primeira vez em 2 de dezembro de 1971.
Em 18 de fevereiro de 1977, criou a Biblioteca      Cunhada a partir do mitema de Claude Lvi-
Freudiana de Barcelona, primeira instituio        Strauss e do termo grego mathema (conheci-
lacaniana hispanfona da Europa, e durante          mento), ela no pertence ao campo da matem-
dois anos, organizou colquios e cursos em v-      tica. Evocando a loucura do matemtico Georg
rias grandes cidades, dando origem a um verda-      Cantor (1845-1918), Lacan explicou que, se
deiro movimento. Em 1979, uma ciso irrom-          essa loucura no era motivada por perseguies
peu na EFBA. De Barcelona, Masotta fundou           objetivas, estava relacionada  prpria incom-
um novo grupo, a Escuela Freudiana de Argen-        preenso matemtica, isto ,  resistncia* pro-
tina, da qual derivariam, atravs de vrias ci-     vocada por um saber julgado incompreensvel.
ses, todos os pequenos grupos do lacanismo         Comparou ento seu ensino ao de Cantor: seria
argentino.                                          a incompreenso em que esbarrava esse ensino
    Grande fumante, morreu em alguns meses,         um sintoma?
com a idade de 49 anos, de um cncer de pul-            Foi para responder a essa pergunta que La-
mo.                                                can inventou o matema. Em 1972 e 1973, for-
                                                                                    Mauco, Georges          503

neceu diversas definies dele, passando do                 Zahar, 1988; Jacques Lacan. Esboo de uma vida,
                                                            histria de um sistema de pensamento (Paris, 1993),
singular ao plural e, depois, do plural ao singu-
                                                            S. Paulo, Companhia das Letras, 1994  Nathalie Char-
lar. Acima de tudo, porm, ele definiu como                 raud, Infini et inconscient. Essai sur Georg Cantor,
decorrentes do matema os quatro discursos (ou               Paris, Anthropos, 1994.
quadrpodes) com que havia organizado a lgi-
ca em seu seminrio do ano de 1969-1970, O                   FORACLUSO; NOME-DO-PAI; PASSE.
avesso da psicanlise: discurso do mestre, dis-
curso universitrio, discurso histrico e discur-
so psicanaltico. Mostrou, ento, que o matema
                                                            Mathilde H., caso
 a escrita "do que no  dito, mas pode ser                 ESTUDOS SOBRE A HISTERIA.
transmitido". Em outras palavras, Lacan colo-
cou-se ao contrrio de Wittgenstein: recusando-
se a concluir pela separao dos incompatveis,             Matte-Blanco, Ignacio (1908-1995)
tentou arrancar o saber do inefvel e lhe conferir          psiquiatra e psicanalista chileno
uma forma integralmente transmissvel. Essa                     Nascido em Santiago do Chile e analisado
forma  justamente o matema, porm o matema                 por Allende Navarro (1890-1981), que formou
no  sede de uma formalizao integral, uma                alguns freudianos no Chile, Ignacio Matte-
vez que pressupe sempre um resto que lhe                   Blanco foi inicialmente um dos representantes
escapa. Assim definido, o matema inclui os                  da escola inglesa de psicanlise*, prxima do
matemas, isto , todas as frmulas algbricas               Grupo dos Independentes*. Entre 1943 e 1966,
que pontuam a histria da doutrina lacaniana e              residiu em Santiago, onde formou um grupo de
permitem sua transmisso: o significante*, o                estudos que seria reconhecido pela Internatio-
estdio do espelho*, o desejo* com seus grafos,             nal Psychoanalytical Association* (IPA). De-
o sujeito*, a fantasia*, o Outro*, o objeto (pe-            pois, emigrou para a Itlia* e instalou-se em
queno) a* e as frmulas da sexuao*.                       Roma, para continuar o seu ensino e suas ativi-
    A incluso dos quatro discursos no matema               dades de clnico. Como vrios freudianos de sua
                                                            gerao*, Matte-Blanco se interessou pelos dis-
teria uma conseqncia poltica. Em 1969, La-
                                                            trbios narcsicos, pela questo do self e pelo
can mostrara que o discurso universitrio era
                                                            tratamento da esquizofrenia*. Nesse contexto,
incompatvel com a psicanlise, ao passo que,
                                                            tentou pensar a organizao inconsciente com
a partir da introduo do matema, sublinhou, ao
                                                            o auxlio da teoria dos conjuntos, a fim de
contrrio, a compatibilidade entre os dois. As-
                                                            definir uma lgica da psicose*.
sim, em 1974, o matema permitiu-lhe apoiar
seus partidrios, em especial Jacques-Alain                  Ignacio Matte-Blanco, The Unconscious as Infinite
Miller, em sua vontade de introduzir a psican-             Sets. An Essay in Bi-Logic, Londres, Duckworth, 1975
lise na universidade francesa, depois da grande              Eric Rayner, Le Groupe des "Indpendants" et la
                                                            psychanalyse britannique (Londres, 1990), Paris, PUF,
onda de contestao de 1968.                                1994.

 Jacques Lacan, O Seminrio, livro 17, O avesso da          KOHUT, HEINZ; LACAN, JACQUES; SULLIVAN,
psicanlise (1969-1970) (Paris, 1991), Rio de Janeiro,
Jorge Zahar, 1992; Le Sminaire, livre XIX, ...Ou pire
                                                            HARRY STACK.
(le savoir du psychanalyste) (1971-1972), indito; "L'-
tourdit", Scilicet, 4, 1973, 5-52; O Seminrio, livro 20,
Mais, ainda (1972-1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,       Mauco, Georges (1899-1988)
1989, 2a. ed.  Nmero especial das Lettres de l'cole
                                                            psicanalista francs
Freudienne sobre o tema "A transmisso" (IX Congres-
so da cole Freudienne de Paris, 9 de julho de 1978),           Nascido em Paris, em um meio de pequenos
25, 2 vols., 1979  Jean-Claude Milner, Les Noms            comerciantes de origem provinciana, Georges
indistincts, Paris, Seuil, 1983; A obra clara. Lacan, a     Mauco foi o nico psicanalista da histria do
cincia, a filosofia (Paris, 1995), Rio de Janeiro, Jorge   freudismo* francs que teve, entre 1939 e 1944,
Zahar, 1997  Marc Darmon, "Mathme", in Grand
dictionnaire de la psychologie, Paris, Larousse, 1991,
                                                            atividades colaboracionistas. No s aderiu ao
454-7  lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise       regime de Vichy e publicou textos violenta-
na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge       mente anti-semitas, como tambm testemu-
504     Mead, Margaret

nhou em agosto de 1941 contra o "perigo ju-         Andr Berge (1902-1996), Juliette Favez-Bou-
deu", diante do Supremo Tribunal de Justia em      tonier*, Franoise Dolto*, Didier Anzieu.
Riom.                                                   Ao longo dos anos, e apesar de um anti-se-
    Depois de estudar histria e obter um posto     mitismo manifesto, que no conseguia disfar-
de professor na cole Normale des Instituteurs      ar, fez-se passar por Resistente e foi reco-
de la Seine, iniciou-se nos trabalhos da pedago-    nhecido nos meios psicanalticos como pionei-
gia psicanaltica, lendo a obra de Ren Spitz* e    ro da psicopedagogia e benfeitor da infncia.
fazendo uma anlise com Ren Laforgue*. Fi-         Coberto de honrarias, publicou vrios livros de
cou conhecido como etngrafo, publicando em         divulgao e foi membro da International Psy-
1933 uma obra pioneira: Os estrangeiros na          choanalytical Association* (IPA) at a morte
Frana, seu papel na atividade econmica. J        atravs de sua filiao  Associao Psicanal-
proclamava teses racistas e nacionalistas sobre     tica da Frana (APF). Seu passado de
a "hierarquia das etnias" e afirmava que alguns     colaboracionista e adepto do anti-semitismo foi
estrangeiros no eram integrveis  sociedade       revelado pela primeira vez pelo historiador Pa-
francesa: entre estes, os africanos, os asiticos   trick Weil em 1991.
e os levantinos.
                                                     Georges Mauco, Les trangers en France, leur rle
    Apesar de seu contedo, essa obra foi aco-      dans la vie conomique, Paris, Armand Colin, 1932;
lhida favoravelmente tanto pela direita (sens-     "L'Immigration trangre en France et le problme des
vel ao preconceito inigualitarista) quanto pelos    rfugis", L'Ethnie Franaise, 6 de maro de 1942,
especialistas em demografia (que encontraram        6-15; "La Situation dmographique de la France", ibid.,
                                                    7 de janeiro de 1943, 15-9; L'Inconscient et la psycho-
nela, pela primeira vez, um estudo real dos laos   logie de l'enfant (1936), Paris, PUF, 1970; Psychana-
entre imigrao e identidade nacional).             lyse et ducation (1968), Paris, Flammarion, col.
    Durante a Ocupao nazista, Mauco passou        "Champs", 1993; L'volution de la psychopdagogie,
do racismo ao anti-semitismo e colaborou com        Toulouse, Pragma-Privat, 1975; Vcu, 1899-1982, Pa-
                                                    ris, mile-Paul, 1982  Patrick Weil, La France et ses
Georges Montandon na revista L'Ethnie Fran-         trangers, Paris, Calmann-Lvy, 1991; "Racisme et
aise, foco da propaganda anti-semita do re-        discrimination dans la politique franaise de l'immigra-
gime de Vichy, na qual todos os artigos visavam     tion, 1938-1945/1974-1995", Vingtime Sicle, 47, ju-
denunciar "o tipo judeu" segundo os critrios       lho-setembro de 1995, 77-102  lisabeth Roudinesco,
                                                    "Georges Mauco (1899-1988): un psychanalyste au
adotados pelo nazismo*. Mauco publicou dois         service de Vichy. De l'antismitisme  la psychopda-
artigos, pretendendo mobilizar a psicanlise*       gogie", L'Infini, 51, outono de 1995, 73-84.
para evidenciar a "neurose judaica".
    No momento da Libertao, conseguiu dis-         ANTROPOLOGIA; FRANA; HESNARD, ANGELO;
simular seu passado colaboracionista e fez-se       JUDEIDADE; MONTESSORI, MARIA; SCHMIDT, VE-
nomear, pelo general de Gaulle, secretrio do       RA; ZULLIGER, HANS.
comit de populao e famlia. Tornou-se ento
um "outro personagem": filantropo, humanista
e preocupado com o bem-estar da infncia e da       Mead, Margaret (1901-1978)
adolescncia em dificuldades. Em 1946, criou        antroploga americana
o primeiro consultrio psicopedaggico da               Aluna de Franz Boas (1858-1942) e de Ruth
Frana, no liceu Claude-Bernard. Foi assim que      Benedict (1887-1948), de quem se tornou ami-
comeou a aventura francesa dos Centros             ga, casada com Gregory Bateson*, que ficou
Claude-Bernard, que se inspiravam em expe-          conhecendo em 1933, quando estudava os
rincias similares realizadas na Sua* com o       Chambouli, na Nova Guin, principal repre-
objetivo de agir sobre a inadaptao escolar        sentante de Cultura e Personalidade, corrente
atravs de intervenes teraputicas fora do        que foi violentamente criticada por Geza Ro-
terreno hospitalar, mdico ou psiquitrico. Nes-    heim* em 1950, Margaret Mead nasceu em
se mbito, militou pela psicanlise leiga* e        Filadlfia em um meio intelectual que se
mobilizou todos aqueles que se interessavam na      interessava pelas cincias sociais. Depois de
Frana pela expanso da psicologia clnica e        estudar psicologia e antropologia*, dedicou-se
pela psicanlise de crianas*: Daniel Lagache*,     ao trabalho de campo, entre 1925 e 1938, para
                                                                                        melancolia       505

estudar duas tribos de ndios americanos e sete         Regard sur mes parents. Une vocation de Margaret
                                                        Mead et de Gregory Bateson (N. York, 1984), Paris,
sociedades da Oceania: uma situada nas ilhas
                                                        Seuil, 1989.
Samoa, na Polinsia, quatro (Mundugumor,
Arapesh, Chambouli, Iatmul) na Nova Guin                DEVEREUX, GEORGES; DIFERENA SEXUAL;
(Melansia Ocidental) e duas outras em Manus            ETNOPSICANLISE; GNERO; KARDINER, ABRAM;
e nas ilhas do Almirantado.                             MALINOWSKI, BRONISLAW; SEXUALIDADE FEMINI-
    Constatando a existncia de diferenas ir-          NA.
redutveis de carter, organizao social, senti-
mentos, costumes e hbitos sexuais no interior
dessas sociedades, Mead criticou todas as teses         melancolia
da antropologia que opunham uma mentalidade             al. Melancholie; esp. melancolia; fr. mlancolie; ing.
dita "primitiva", dos povos no-civilizados,           melancholy
mentalidade ocidental, dita lgica ou racional.         Termo derivado do grego melas (negro) e khol
    Em uma perspectiva culturalista, e adotando         (bile), utilizado em filosofia, literatura, medicina,
um novo ponto de vista sobre a sexualidade* e           psiquiatria e psicanlise* para designar, desde a
as relaes da criana com a me, extrado da           Antigidade, uma forma de loucura* caracterizada
                                                        pelo humor sombrio, isto , por uma tristeza
psicanlise*, recusou o biologismo freudiano e
                                                        profunda, um estado depressivo capaz de con-
a assimilao, feita em Totem e tabu*, do sel-
                                                        duzir ao suicdio*, e por manifestaes de medo e
vagem  criana, assim como a idia de uma
                                                        desnimo que adquirem ou no o aspecto de um
possvel universalidade do complexo de di-             delrio.
po* e dos estdios* da evoluo psquica hu-
                                                            Embora a melancolia ocupe um lugar im-
mana. Preferindo as noes de personalidade
                                                        portante no dispositivo freudiano, os mais belos
bsica ou de pattern (prprias do culturalismo*
                                                        estudos sobre essa questo no foram produzi-
americano) aos conceitos da psicanlise, fez da
                                                        dos pelo discurso psiquitrico ou psicanaltico,
personalidade um reflexo da cultura, con-
                                                        mas pelos poetas, filsofos, pintores e his-
dicionando a educao e tentando criar um
                                                        toriadores, que souberam garantir-lhe um es-
modelo prprio a um grupo ou a uma comuni-
                                                        tatuto terico, social, mdico e subjetivo.
dade. A partir dessa anlise, demonstrou o ca-
rter "cultural" de todo comportamento e de                 Desde a descrio de Homero sobre a tris-
toda identidade. Da a idia de um diferencia-          teza de Belerofonte, heri perseguido pelo dio
lismo generalizado: sexual (entre homem e mu-           dos deuses por ter querido escalar o cu, at a
lher), social (entre as comunidades, as socie-          teorizao do "esprito melanclico" por Aris-
dades, os grupos), psquico (entre as personali-        tteles, passando pelo relato mtico de Hip-
dades subjetivas).                                      crates sobre Demcrito, o filsofo "louco" que
                                                        ria de tudo e dissecava os animais para neles
    Nos anos 1940, como muitos antroplogos
                                                        encontrar a causa da melancolia do mundo, essa
de sua gerao, comeou a aplicar seus mtodos
                                                        forma de deplorao perptua sempre foi, ao
de anlise das sociedades da Oceania s culturas
                                                        mesmo tempo, a expresso mais incandescente
ocidentais e tomou como campo de experincia
                                                        de uma rebeldia do pensamento e a manifes-
a prpria sociedade americana. Foi em Samoa,
                                                        tao mais extrema de um desejo* de auto-ani-
onde reinava a liberdade sexual, que ela decidiu
                                                        quilamento, ligado  perda de um ideal. Da a
lutar para transformar os modelos educativos de
                                                        idia, desenvolvida por Erwin Panofsky (1892-
seu prprio pas. Lutou ento em duas frentes:
                                                        1968), de que a histria da melancolia seria a
contra o racismo e pela integrao das diferen-
                                                        histria de uma transferncia permanente entre
as tnicas e culturais. Nesse sentido, foi tam-
                                                        o campo da doena e o do esprito que contaria
bm adepta de um verdadeiro universalismo,
                                                        a intensa e sombria irradiao do sujeito da
fundado na aceitao das diferenas.
                                                        civilizao s voltas com a deficincia de seu
                                                        desejo.
 Margaret Mead, Moeurs et sexualit en Ocanie
(1928-1933), Paris, Plon, 1963; L'Un et l'autre sexe.
                                                            Foi a teoria hipocrtica dos quatro humores
Les Rles d'homme et de femme dans la socit (N.       que, durante sculos, permitiu descrever, de
York, 1949), Paris, Gonthier, 1966  M.C. Bateson,      maneira mais ou menos idntica, os sintomas
506     melancolia

clnicos dessa doena: nimo entristecido, sen-      a melancolia, portanto, a um desespero do su-
timento de um abismo infinito, extino do           jeito abandonado por Deus.
desejo e da fala, impresso de hebetude, seguida         No fim do sculo XVIII e, em especial, s
de exaltao, alm de atrao irresistvel pela      vsperas da Revoluo Francesa, a melancolia
morte, pelas runas, pela nostalgia e pelo luto.     surgiu como o grande sintoma do tdio des-
Assim, a melancolia era associada  bile negra,      tilado pela velha sociedade. Parecia atingir tan-
ao lado dos outros trs humores: "O sangue           to os jovens burgueses, excludos dos privil-
imita o ar, aumenta na primavera e impera na         gios conferidos pelo nascimento, quanto os de-
infncia. A bile amarela imita o fogo, aumenta       cados na escala social, que haviam perdido
no vero e impera na adolescncia. A melanco-        todos os referenciais. Grassava tambm entre os
lia ou bile negra imita a terra, aumenta no          aristocratas ociosos, privados do direito de fazer
outono e impera na maturidade. A fleuma imita        fortuna. Tdio da felicidade, felicidade do tdio,
a gua, aumenta no inverno e reina na velhice."      sentimento de derriso ou aspirao  felicidade
    Doena da maturidade, do outono e da terra,      de superar o tdio, a melancolia funcionava
a melancolia tambm pode diluir-se nos outros        como um espelho onde se refletiam a falncia
humores e caminhar de mos dadas com a ale-          geral da ordem monrquica e a aspirao 
gria e o riso (o sangue), a inrcia (a fleuma) e o   intimidade pessoal: "Todas as histrias univer-
furor (a bile amarela): atravs dessas misturas,     sais e as buscas das causas me entediam", dizia
portanto, ela afirmaria sua presena em todas as     a escritora Marie Deffand; "esgotei todos os
formas de expresso humana. Da nasceria a           romances, contos e peas teatrais; somente as
idia de uma alternncia cclica entre um estado     cartas, a vida particular e as memrias escritas
e outro (mania e depresso), caracterstica da
                                                     pelos que fazem sua prpria histria ainda me
nosografia psiquitrica moderna.
                                                     divertem e me inspiram certa curiosidade. A
    Entretanto, como humor sombrio, a melan-
                                                     moral e a metafsica provocam-me um tdio
colia estaria ligada  doena de Saturno, deus
                                                     mortal. Que posso dizer-lhes? Vivi demais."
terreno dos romanos, mrbido e desesperado,
                                                     Acreditava-se tambm que alguns climas favo-
identificado com o Cronos da mitologia grega,
                                                     reciam a doena, mais freqente nos pases
que havia castrado o pai (Urano) antes de devo-
                                                     nrdicos do que nas regies meridionais. Por
rar os filhos. Assim, os melanclicos eram cha-
                                                     fim, na mulher, ela era freqentemente aproxi-
mados de saturninos, mas cada poca construiu
sua prpria representao da doena.                 mada da doena dos vapores, ora atribuda ao
    Se o mdico ingls Thomas Willis (1621-          bao, fonte da bile negra, ora ao tero, lugar
1675) foi o primeiro, no sculo XVII, a aproxi-      imaginrio da sexualidade feminina*.
mar a mania da melancolia para definir um ciclo          Com a instaurao do saber psiquitrico no
manaco-depressivo, foi o filsofo Robert Bur-       sculo XIX, a melancolia foi submetida a nu-
ton (1577-1640) quem forneceu, em 1621, com          merosas variaes terminolgicas, inicialmente
Anatomy of Melancholy, a verso cannica de          destinadas a transformar essa estranha "felici-
uma nova concepo da melancolia, j introdu-        dade por estar triste" (como diria Victor Hugo)
zida nos costumes. A partir do fim da Idade          numa verdadeira doena mental, sem floreios
Mdia, com efeito, o termo tornou-se sinnimo        literrios ou filosficos, e depois, a inscrev-la
de uma tristeza sem causa, e a antiga doutrina       numa nova nosografia, dominada pela diviso
dos humores foi progressivamente substituda         entre psicose* e neurose*. Chamada de lipema-
por uma causalidade existencial. Falava-se en-       nia por Jean-tienne Esquirol (1772-1840), a
to de temperamento melanclico, pensando            melancolia assumiu posteriormente o nome de
em Hamlet, que, na virada do sculo, tinha-se        loucura circular, sob a pena de Jean-Pierre Fal-
tornado a imagem por excelncia do drama da          ret (1794-1870), sendo ento aproximada da
conscincia europia: um sujeito entregue a si       mania. No fim do sculo, foi integrada por Emil
mesmo, num mundo perpassado pelo advento             Kraepelin*  loucura manaco-depressiva, fun-
da revoluo copernicana. Embora conservasse         dindo-se em seguida  psicose manaco-depres-
o antigo vocabulrio humoral, Burton assimilou       siva*.
                                                                               Meng, Heinrich          507

    Se os herdeiros da nosografia alem ten-       verdadeira doena de poca. Se esta ltima, no
deram a fazer a melancolia submergir no voca-      entanto, se afigurara aos olhos dos contempo-
bulrio tcnico do discurso psiquitrico, os       rneos como uma revolta do corpo feminino
fenomenologistas conservaram o termo, tam-         contra a opresso patriarcal, a depresso, ao
bm eles efetuando uma aproximao da ma-          contrrio, cem anos depois, parece ser a marca
nia. Foi o que se deu, em particular, com Lud-     de um fracasso do paradigma da revolta, num
wig Binswanger*, que designou a melancolia         mundo desprovido de ideais e dominado por
como uma alterao da experincia temporal, e      uma poderosa tecnologia farmacolgica, muito
a mania, como uma deficincia da relao in-       eficaz no plano teraputico.
tersubjetiva.                                          Por outro lado, existe um dado invarivel na
    Pouco interessado nessa psiquiatrizao do     estrutura melanclica, como mostrou Freud.
estado melanclico, Sigmund Freud* renun-          Ele reside na impossibilidade permanente de o
ciou a aproximar a mania da depresso, prefe-      sujeito fazer o luto do objeto perdido. E  isso,
rindo revigorar a antiga definio da melanco-     sem dvida, que explica a presena do famoso
lia: no uma doena, mas um destino subjetivo.     "temperamento melanclico" nos grandes ms-
    J em 1895 ele se interrogava sobre a me-      ticos, sempre ameaados de se afastar de Deus,
lancolia e, num manuscrito enviado a Wilhelm       nos revolucionrios, sempre  procura de um
Fliess*, aproximou-a do luto, isto , do "pesar    ideal que se esquiva, e em alguns criadores,
por alguma coisa perdida", comparou-a  ano-       sempre em busca de uma auto-superao.
rexia e a relacionou com uma falta de excitao     Sigmund Freud, "Luto e melancolia" (1917), ESB, XIV,
sexual somtica. Foi somente em 1917, entre-       275-92; GW, X, 427-46; SE, XIV, 237-58; OC, XIII,
tanto, que publicou um texto magistral sobre a     259-78; La Naissance de la psychanalyse (Londres,
questo, "Luto e melancolia", fazendo desse        1950), Paris, PUF, 1956  Aristteles, L'Homme de
                                                   gnie, prefcio e apresentao de Jackie Pigeaud,
segundo termo a forma patolgica do primeiro.      Paris, Rivages, 1988  Karl Abraham, "Notas sobre as
Enquanto o sujeito, no trabalho do luto, conse-    investigaes e o tratamento psico-analtico da psicose
gue desligar-se progressivamente do objeto         manaco-depressiva e estados afins", in Karl Abraham,
perdido, na melancolia, ao contrrio, ele se       Teoria psicanaltica da libido. Sobre o carter e o
                                                   desenvolvimento da libido, Rio de Janeiro, Imago,
supe culpado pela morte ocorrida, nega-a e se     1970, 32-50  Ludwig Binswanger, Mlancolie et Manie
julga possudo pelo morto ou pela doena que       (Pfullingen, 1960), Paris, PUF, 1987  Jean Starobinski,
acarretou sua morte. Em suma, o eu* se identi-     Histoire du traitement de la mlancolie des origines 
fica com o objeto perdido, a ponto de ele mesmo    1900, Geigy S.A., Sua, novembro de 1960  Michel
                                                   Foucault, Histria da loucura na idade clssica (Paris,
se perder no desespero infinito de um nada         1961), Petrpolis, Vozes, 1976  Hubertus Tellenbach,
irremedivel.                                      La Mlancolie (Heidelberg, 1961), Paris, PUF, 1979 
    Antes da publicao, Freud enviou esse tex-    Raymond Kibansky, Erwin Panofsky e Fritz Saxl, Sa-
to a Karl Abraham*, grande especialista freu-      turne et la Mlancolie (N. York, 1964), Paris, Gallimard,
                                                   1989  Julia Kristeva, Soleil noir. Dpression et mlan-
diano nas psicoses e, em especial, na melanco-     colie, Paris, Gallimard, 1987  lisabeth Roudinesco,
lia, sob a forma da psicose manaco-depressiva,    Throigne de Mricourt. Une femme mlancolique
 qual dedicaria diversos artigos.                 sous la Rvolution, Paris, Seuil, 1989  Marie-Claude
    Enquanto os freudianos associaram os dados     Lambotte, Le Discours mlancolique, Paris, Anthropos,
                                                   1993  Jacques Hassoun, La Cruaut mlancolique,
da nosografia psiquitrica  reflexo psicanal-
                                                   Paris, Aubier, 1995.
tica sobre o luto, a escola kleiniana, marcada
desde o incio pelo trabalho de Abraham, acen-      ANLISE EXISTENCIAL; ESQUIZOFRENIA; MO-
tuou a problemtica da perda do objeto e da        SER, FANNY; OBJETO, RELAO DE; PARANIA.
posio depressiva* inscrita no mago da rea-
lidade psquica*.
    No fim do sculo XX, a depresso, forma        Meng, Heinrich (1887-1975)
atenuada da melancolia, vai se tornando, nas       mdico e psicanalista suo
sociedades industriais avanadas, uma espcie         Pioneiro da aplicao da psicanlise* ao
de equivalente da histeria* da Salptrire, ou-    campo da higiene mental, que chamava de "hi-
trora exibida por Jean Martin Charcot*: uma        giene psquica", militante socialista e antifas-
508     Menninger, Karl

cista convicto, Heinrich Meng era de uma fam-      rizou-se com seus colegas judeus expulsos pe-
lia de professores primrios protestantes. Nas-     los nazistas. Como eles, tomou o caminho do
ceu na Alemanha*, na aldeia de Hohnhurst,           exlio e instalou-se em Basilia, onde foi criada
perto de Estrasburgo. Com a idade de 2 anos,        para ele a primeira ctedra de "higiene psqui-
contraiu uma longa doena,  qual sobreviveu,       ca", que ocupou at sua aposentadoria em 1956.
segundo ele, "graas ao amor indefectvel e  f        Tornando-se um dos grandes especialistas
religiosa de sua me". Vegetariano, apaixonado      da pedagogia psicanaltica, foi a Israel em 1959
por nutrio, histria das religies, filosofia e   e encontrou-se no s com o filsofo Martin
fisiologia, comeou a estudar medicina em           Buber (1878-1965), que se tornou seu amigo,
Freiburg em 1907. Ali, ouviu falar pela primeira    mas tambm com os organizadores da preven-
vez de Sigmund Freud*, quando de uma confe-         o da delinqncia, que se inspiraram em seus
rncia dada por August Forel*. Depois de fazer      trabalhos.
vrios estgios e uma pesquisa sobre o alcoolis-        No fim da vida, aceitou voltar  Alemanha,
mo, instalou-se em Stuttgart, onde abriu um         para fazer conferncias em vrias universi-
consultrio como clnico geral. Praticou ento      dades.
o hipnotismo, a sugesto* e interessou-se pela
                                                     Heinrich Meng, Strafen und Erziehen, Berne, Huber,
homeopatia.                                         1934; Protection de la sant mentale (Basilia, 1940),
    Pacifista durante a Primeira Guerra Mun-        Paris, Payot, 1944; Leben als Begegnung, Stuttgart,
dial, serviu como mdico nos campos de prisio-      Hippokrates Verlag, 1971  Heinrich Meng e Paul Fe-
neiros e nos hospitais da frente de batalha. Em     dern, Das psychoanalytische Volksbuch, Stuttgart, Hip-
                                                    pokrates Verlag, 1927  Adolf Friedemann, "Heinrich
1918, interessou-se pela psicanlise e comeou      Meng, b.1887, Psicanlise e higiene mental", in Franz
uma correspondncia com Freud. Em Viena*,           Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grotjahn
durante uma permanncia de nove meses, ana-         (orgs.), A histria da psicanlise atravs de seus pio-
lisou-se com Paul Federn*, e assistiu s reu-       neiros (N. York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981 
                                                    Jeanne Moll, "Heinrich Meng", indito.
nies da Wiener Psychoanalytische Vereinig-
ung (WPV). Em 1923, aceitou um posto de              AICHHORN, AUGUST; BERNFELD, SIEGFRIED;
assessor mdico no Kremlin para estudar as          JUDEIDADE; NAZISMO; PFISTER, OSKAR; SUA;
teorias pavlovianas. Tentou em vo aproximar-       ZULLIGER, HANS.
se de Lenin, e deixou Moscou, voltando para
Stuttgart, onde organizou conferncias para
operrios sobre a profilaxia das doenas psqui-    Menninger, Karl (1893-1990)
cas. Dali, foi a Berlim para integrar-se  equipe   psiquiatra e psicanalista americano
da prestigiosa policlnica do Berliner Psychoa-        Nascido em Topeka, no Kansas, e analisado
nalytisches Institut* (BPI), criada por Max Ei-     por Franz Alexander* e Ruth Mack-Brunswi-
tingon* e Ernst Simmel*. Fez ento uma segun-       ck*, Karl Menninger era filho de um homeopata
da anlise com Hanns Sachs*, e seguiu os cur-       de origem berlinense que se casara com uma
sos de Karl Abraham*.                               mulher de religio presbiteriana, fundadora de
    Adepto de uma concepo unitria da medi-       uma escola bblica. Com seu irmo William,
cina, interessou-se por todas as formas de psi-     Karl desempenhou um papel considervel na
coterapia*, visando popularizar as descobertas      histria da implantao da psicanlise* e da
da psicanlise. A partir de 1928, residindo em      psiquiatria dinmica* em solo americano, ao
Frankfurt com Karl Landauer*, dirigiu o Ins-        mesmo tempo como presidente da American
tituto de Psicanlise e trabalhou como psicote-     Psychoanalytic Association* (APsaA) e como
rapeuta com adolescentes portadores de diver-       fundador, a partir de 1926, em pleno corao
sos distrbios, principalmente anorexia. Em         dos Estados Unidos*, do maior centro de for-
1933, depois de se indispor publicamente com        mao psiquitrica e psicanaltica do mundo, ao
Carl Gustav Jung*, cuja atitude em relao ao       qual deu seu nome: a Menninger School of Psy-
nacional-socialismo reprovava, recusou a pol-      chiatry. A ela, foram incorporados o Instituto
tica de "salvamento" da psicanlise na Alema-       Psicanaltico de Topeka, pertencente  Interna-
nha*, preconizada por Ernest Jones*, e solida-      tional Psychoanalytical Association * (IPA) e a
                                                                               Mesmer, Franz Anton            509

extraordinria Menninger Clinic, lugar de pas-             Mdecines de l'me. Essais d'histoire de la folie et des
                                                           gurisons psychiques, Paris, Fayard, 1995.
sagem obrigatria de todos os terapeutas expul-
sos da Europa pelo nazismo* a partir de 1933.
    Grande reformador da psiquiatria tradicio-
                                                           Mesmer, Franz Anton (1734-1815)
nal, Menninger se inspirou ao mesmo tempo na
                                                           mdico austraco
experincia berlinense de Ernst Simmel* e na
tradio sua de Eugen Bleuler*, para militar                 Nascido em Iznang, pequena aldeia da mar-
por um tratamento humanista da loucura* car-               gem alem do Lago de Constana, Franz Anton
                                                           Mesmer foi o iniciador da primeira psiquiatria
cerria. Durante toda a vida, combateu caloro-
                                                           dinmica*. Amigo de Wolfgang Amadeus Mo-
samente pelos direitos das crianas e das mu-
                                                           zart (1756-1791), que lhe inspirou a idia de que
lheres, de todos os oprimidos, qualquer que
                                                           o poder sugestivo da msica podia ser encon-
fosse a cor de sua pele. Enfim, desejou mudar
                                                           trado na experincia magntica, foi muitas
radicalmente o regime das prises. Assim, a sua
                                                           vezes confundido com seu duplo, Joseph Bal-
clebre clnica se tornou, ao longo dos anos, "a
                                                           samo (1743-1795), dito Cagliostro, clebre
Meca da psiquiatria e da psicanlise", o labora-
                                                           aventureiro imortalizado por Alexandre Dumas
trio de todas as teorias e de todas as terapias,
                                                           (1802-1870).
desde a etnopsiquiatria* at a Self Psychology*,
                                                               Esses dois homens no se pareciam, mas
passando pelo freudismo clssico: bela ilus-
                                                           ambos pertenciam s lojas manicas e fre-
trao do seu engajamento internacionalista.
                                                           qentavam os crculos iluministas: "Essas fi-
Georges Devereux* esteve na clnica, assim                 liaes, escreveu Robert Amadou, lhes abriram
como Henri F.Ellenberger*, que fez dela uma                as portas dos meios mais cultos do sculo das
descrio idlica: " difcil encontrar palavras,          Luzes. Mas Cagliostro [...] s tocou no magne-
escreveu em 1952, para expressar a extraordi-              tismo por acidente e se apresentava como um
nria perfeio dessa organizao [...]. Nela, h          alquimista fazedor de ouro e um necromante
uma multido de mdicos vindos de todos os                 invocador de fantasmas. Sob essa mscara, era
pases, alemes, austracos, hngaros, suos,             um prestidigitador hbil e um escroque de rica
holandeses, russos, tchecos, e muitos mais [...].          imaginao. Mesmer era autenticamente mdi-
No se percebe nenhuma revalidade entre eles               co da Faculdade de Viena* e conhecedor da
e os de origem americana [...]. Na verdade, h             fsica, da filosofia e da teologia do seu tempo.
vrias coisas diferentes, embora ligadas: a fun-           Acrescentara aos seus conhecimentos cincias
dao propriamente dita (a `kaaba' dessa Me-               proibidas, como a astrologia e a qumica. Como
ca), que antigamente era uma casa de sade                 Fausto, sabia coisas demais, e no tinha gnio
particular, da qual se originou todo o resto,              suficiente para tirar delas um sistema coerente
pouco a pouco. Depois, o Winter Veteran Hos-               e aceitvel pelos sbios que conheciam as des-
pital, gigantesco estabelecimento de 1.400                 cobertas de Newton."
doentes, com um imenso pessoal. H quilme-                    Em 1773, Mesmer popularizou a doutrina
tros e quilmetros de galerias, e no incio s se          do magnetismo animal, que daria origem ao
pode andar com um guia..."                                 hipnotismo (hipnose*) inventado por James
    Foi no esprito dessa experincia menninge-            Braid (1795-1860),  sugesto* e  teoria freu-
riana que se inspiraram vrios filmes hollywoo-            diana da transferncia*. Afirmava que as doen-
dianos dos anos 1950, dedicados  expanso da              as nervosas provinham de um desequilbrio na
psicanlise nos Estados Unidos: por exemplo,               distribuio de um "fluido universal", que cir-
A casa do doutor Edwards, de Alfred Hitchcock              culava no organismo humano e animal. Com
(1899-1980) ou ainda A febre no sangue de Elia             Oesterline, uma jovem de 29 anos, que sofria
Kazan.                                                     de distrbios histricos, vmitos, sufocaes e
                                                           cegueira, experimentou pela primeira vez um
 Karl Menninger, Man against Himself, N. York, Har-       tratamento dito magntico.
court and Brace, 1938  Nathan G.Hale, Freud and the
Americans, 1917-1985. The Rise and Crisis of Psy-
                                                               Mesmer deu assim um contedo racional 
choanalysis in the United States, t.II, N. York, Oxford,   teoria fludica. Afirmava que o fluido se aparen-
Oxford University Press, 1995  Henri F. Ellenberger,      tava ao "m", do qual j se serviam os mdicos
510     metfora

para extirpar do corpo (por imantao) o mal       restabelecer os vnculos entre os homens, pela
psquico (histeria*, melancolia*), de que so-      fora de um fluido. Graas  sua famosa "tina",
friam os pacientes, em geral mulheres, mas         ele tratava coletivamente dos numerosos doen-
enfatizando que o m no era o verdadeiro         tes que acorriam  sua suntuosa manso. Em
agente da cura. A virtude curativa provinha,       uma tina cheia d'gua eram depositados peda-
segundo ele, do prprio mdico, portador de um     os de vidro, pedras e hastes metlicas, cujas
fluido magntico, emanando, por exemplo, do        pontas tocavam os pacientes, ligados entre si
brilho dos seus olhos. Para restabelecer o equi-   por uma corda, que permitia a circulao do
lbrio da circulao fludica, devia-se pr o      fluido.
doente em estado de sonambulismo e provocar            Em 1784, uma comisso composta de peri-
nele estados convulsivos, por uma srie de ma-     tos da Academia de Cincias e da Sociedade
nipulaes, chamadas passes magnticos.            Real de Medicina, entre os quais Benjamin
    Atacado por todas as academias da Europa,      Franklin (1706-1790) e Antoine de Lavoisier
Mesmer conquistou todavia um sucesso estron-       (1743-1794), condenou o mesmerismo e suas
doso com os seus tratamentos magnticos. Na        prticas, assim como a teoria do fluido, e decla-
Baviera, na Eslovquia, na Subia, na Hun-         rou que os efeitos teraputicos obtidos por Mes-
gria*, na Sua* e em Viena, curou doenas         mer se deviam ao poder da imaginao humana.
psquicas, acreditando na ao do seu fluido. A    Nessa data, o marqus Armand de Puysgur
23 de novembro de 1775, a pedido do prncipe-      (1751-1825) demonstrou na sua aldeia de Bu-
eleitor da Baviera, preocupado em combater o       zancy a natureza psicolgica, e no fludica, da
poder da Igreja* em nome das Luzes e em pr        relao teraputica, substituindo o tratamento
fim s prticas de feitiaria, Mesmer foi convi-   magntico por um estado de "sono desperto" ou
dado a confrontar-se com o padre Johann Jo-        "sonambulismo".
seph Gassner (?-1779). Humilde sacerdote rural         Em 1931, quando Sigmund Freud* leu a
e clebre exorcista de Wrtemberg, Gassner         obra que Stefan Zweig* acabava de dedicar a
praticava a expulso do mal "demonaco" do         Mesmer e  histria da "cura pelo esprito",
corpo das histricas, depois de ter experimenta-   atribuiu o devido lugar a esse mdico das Luzes
do o mtodo no seu prprio corpo, por ocasio      na histria da inveno da sugesto: "Penso,
de um confronto com o diabo. Ora, na presena      como voc, que a verdadeira natureza da sua
da corte e das autoridades, Mesmer provocou e      descoberta, isto , a sugesto, ainda no est
curou convulses em um doente, sem recorrer        identificada." Isso se faria pelos trabalhos da
ao exorcismo. Declarou que Gassner era um          historiografia* erudita.
homem honesto, mas curava os seus doentes
sem saber, graas ao magnetismo: "Foi assim,        Franz Anton Mesmer, Le magntisme animal, obras
                                                   publicadas por Robert Amadou, Paris, Payot, 1971 
escreveu Henri F. Ellenberger*, que Franz An-      Robert Darnton, La fin des Lumires. Le mesmrisme
ton Mesmer operou em 1775 a guinada decisiva       et la Rvolution (Cambridge, 1968), Paris, Perrin, 1984
do exorcismo para a psicoterapia* dinmica."        Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de
    Em Viena, Mesmer tratou, pelo magnetis-        l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
                                                   1974), Paris, Fayard, 1994  tienne Trillat, Histoire de
mo, de Maria-Theresia Paradis, uma jovem           l'hystrie, Toulouse, Privat, 1986  Sigmund Freud e
musicista de 18 anos. Em um primeiro tempo,        Stefan Zweig, Correspondance (Frankfurt, 1987), Pa-
ela recobrou a viso, mas a sua cura foi contes-   ris, Rivages, 1995.
tada e ela voltou  cegueira. Abalado com esse
fracasso, Mesmer mergulhou na depresso e           BERNHEIM, HIPPOLYTE; ESPIRITISMO; HAITZ-
depois deixou a ustria, para instalar-se em       MANN, CHRISTOPHER; LIBEAULT, AUGUSTE; PSI-
Paris.                                             CANLISE.
    Ali, a partir de 1778, e at as vsperas da
Revoluo, o magnetismo fez um enorme
sucesso. Tornando-se uma espcie de mago,
Mesmer formou discpulos, que fundaram a           metfora
Sociedade da Harmonia Universal, destinada a        CONDENSAO; SIGNIFICANTE.
                                                                               metapsicologia        511

metapsicologia                                        uma espcie de modelo formal para a futura
al. Metapsychologie; esp. metapsicologa; fr. mta-   metapsicologia, o objetivo no  nos encer-
psychologie; ing. metapsychology                      rarmos nela, mas avali-la e estabelecer que as
                                                      construes filosficas (mitolgicas, religio-
Termo criado por Sigmund Freud*, em 1896, para
                                                      sas), assim como todas as formas de crenas e
qualificar o conjunto de sua concepo terica e
                                                      delrios que delas podem derivar, no cons-
distingui-la da psicologia clssica. A abordagem
                                                      tituem outra coisa seno uma "psicologia pro-
metapsicolgica consiste na elaborao de mode-
los tericos que no esto diretamente ligados a
                                                      jetada no mundo externo". E Freud esclarece
uma experincia prtica ou a uma observao cl-      imediatamente: "O conhecimento obscuro dos
nica; ela se define pela considerao simultnea      fatores e fatos psquicos do inconsciente (em
dos pontos de vista dinmico, tpico* e econ-        outras palavras, a percepo endopsquica des-
mico.                                                 ses fatores e fatos) reflete-se (...) na construo
    Foi numa carta a Wilhelm Fliess*, datada de       de uma realidade supra-sensvel que a cincia
13 de fevereiro de 1896, que Freud utilizou pela      retransforma numa psicologia do inconsciente.
primeira vez, e sem maiores explicaes, o            Poderamos atribuir-nos a tarefa de decompor,
termo metapsicologia: "A psicologia -- ou me-         colocando-nos nesse ponto de vista, os mitos
lhor, a metapsicologia -- preocupa-me ininter-        relativos ao paraso e ao pecado original, ao mal
ruptamente." Menos de dois meses depois, em           e ao bem,  imortalidade etc., e de traduzir a
2 de abril de 1896, sempre se dirigindo a Fliess,     metafsica em metapsicologia."
forneceu um primeiro esclarecimento sobre "al-            Passados uns quinze anos, no artigo dedica-
gumas questes metapsicolgicas" que lhe pa-          do ao inconsciente*, Freud d uma definio
reciam ligadas em um "nvel superior"  sim-          precisa do termo metapsicologia: "Proponho
ples "psicologia das neuroses": reconheceu            falar de apresentao metapsicolgica quando
que, para ele, na passagem da medicina para a         lograrmos descrever um processo psquico em
psicologia, tratava-se de realizar seu desejo ini-    suas relaes dinmica, tpica e econmica. 
cial de se dedicar aos conhecimentos filosfi-        de se prever que, no atual estado de nossos
cos, no sendo a atividade teraputica mais do        conhecimentos, s consigamos faz-lo com res-
que uma conseqncia anexa e imprevista dessa         peito a pontos isolados."  essa mesma defini-
mudana de orientao. A psicologia clssica e        o, enunciada com maior vigor, que vamos
a psicologia da conscincia no podiam ser            encontrar nas primeiras linhas de Mais-alm do
objeto de uma iniciativa intelectual cuja reali-      princpio de prazer*: "Cremos que um modo
zao requeria um quadro terico e uma forma          de exposio em que tentemos apreciar o fator
de cientificidade que, pautando-se no encami-         econmico, alm dos fatores tpico e dinmico,
nhamento filosfico, levassem a pensar a arti-         o mais completo que podemos conceber na
culao dos processos psquicos com os fun-           atualidade, e que ele merece ser destacado pelo
damentos biolgicos.                                  termo metapsicologia."
    Numa outra carta a Fliess, datada de 10 de            A nos atermos a essas definies, seria pre-
maro de 1898, Freud evocou o trabalho em             ciso agruparmos sob o rtulo de metapsicologia
andamento sobre a interpretao* dos sonhos e         uma grande parte da obra freudiana.  um pou-
escreveu: "Parece-me que a explicao atravs         co mais restritivo o uso que guarda como escri-
da realizao de um desejo fornece uma soluo        tos metapsicolgicos o "Projeto para uma psi-
psicolgica, mas no uma soluo biolgica, e         cologia cientfica", o stimo captulo de A in-
sim metapsicolgica." E acrescentou entre pa-         terpretao dos sonhos*, as "Formulaes so-
rnteses: "Alis,  preciso que me digas seria-       bre os dois princpios do funcionamento men-
mente se posso dar  minha psicologia, que            tal", o ensaio "Sobre o narcisismo: uma intro-
desemboca no pano de fundo do consciente, o           duo", e ainda Mais-alm do princpio de pra-
nome de metapsicologia."                              zer*, O eu e o isso* e o Esboo de psicanlise*.
    Essas anotaes encontraram uma forma de              Um outro uso, introduzido por Freud, pre-
expresso mais elaborada em A psicopatologia          tende que agrupemos sob essa denominao os
da vida cotidiana*: se a metafsica constitui         cinco textos metapsicolgicos que ele comeou
512     metapsicologia

a redigir em 1915. Esses cinco textos -- "As        lgica leva Freud a ultrapassar seu tema inicial
pulses e suas vicissitudes"*, "Recalque"*, "O      para nele incluir as "neuroses narcsicas" (psi-
inconsciente", "Suplemento metapsicolgico         coses*). No decorrer dessa "aventura", Freud se
teoria dos sonhos" e "Luto e melancolia" --,        permite desenvolver hipteses que considera
publicados entre 1915 e 1917, participaram do       um punhado de "fantasias". Nesse ponto, depa-
projeto de Freud de escrever seus Elementos         ra novamente com a questo da hereditariedade
para uma metapsicologia, doze ensaios que           dos traos adquiridos e com a famosa lei, cha-
teriam constitudo uma espcie de testamento.       mada lei da recapitulao, atribuda a Ernst
A primeira redao do conjunto foi concluda        Heinrich Haeckel*, referncias das quais ele j
no incio do ms de agosto de 1915. Algumas         se servira amplamente nos Trs ensaios sobre a
cartas a Lou Andreas-Salom*, datadas do ou-        teoria da sexualidade* e em Totem e tabu*. No
tono de 1915 e da primavera de 1916, assim          momento em que redige o esboo desse dcimo
como uma carta a Karl Abraham* de 11 de             segundo ensaio, sua reflexo filogentica  es-
novembro de 1917, atestam que, no esprito de       timulada por Ferenczi, que, por sua vez, estava
Freud, os ltimos sete textos teriam que ser        entregue a uma especulao "bioanaltica". Os
seriamente reformulados para que pudessem ser       dois homens desenvolvem profusamente essas
publicados. Podemos formular a hiptese de          questes em sua correspondncia dos anos de
que, nesse momento, Freud estava comeando          1915-1917. Em especial, so as teses de Jean-
a conceber uma abordagem diferente: a que           Baptiste Lamarck (1744-1829) que retm sua
daria origem, nos anos do ps-guerra, ao que se     ateno, a ponto de nascer a idia de uma obra
denominou de "grande reformulao", caracte-        comum dedicada ao tema "lamarckismo e psi-
rizada pela introduo de uma nova dualidade        canlise": no comeo do ano de 1917, Freud
pulsional e de uma nova tpica, que marcaram        remete a Ferenczi um "Esboo para o trabalho
uma ruptura com as idias do projeto metapsi-       sobre Lamarck". Rapidamente, contudo, e mes-
colgico.                                           mo sem abandonar suas referncias  filog-
    No se havendo encontrado os manuscritos        nese, a Haeckel e a Lamarck, cujos vestgios
dos sete ensaios no publicados, imps-se a         encontramos em seus ltimos trabalhos (Moiss
hiptese de sua destruio pelo prprio Freud.      e o monotesmo* e Esboo de psicanlise),
    Em 1983, quando fazia em Londres o levan-       Freud abandona esses projetos, entregando a
tamento dos documentos deixados por Sandor          direo deles a seu discpulo hngaro, que lhes
Ferenczi* aos cuidados de Michael Balint*, Ilse     dedicaria uma elaborao em seu livro Thalas-
Grubrich-Simitis encontrou um manuscrito de         sa. Ensaio sobre a teoria da genitalidade, pu-
Freud: o esboo do ltimo dos doze ensaios          blicado em 1924.
metapsicolgicos, dedicado s neuroses de               A fragilidade de certas referncias freudia-
transferncia*. Uma carta a Ferenczi anunciava      nas, quer se trate do princpio de constncia de
o envio do texto e deixava a critrio do des-       Gustav Theodor Fechner*, e, em termos mais
tinatrio a opo de "jog-lo fora ou guard-lo".   genricos, dos dados da psicofsica de sua poca
    O texto compe-se de uma primeira parte         -- os quais, de resto, ele trata apenas como
dedicada aos seis fatores -- recalque, contra-      hipteses --, quer se trate das especulaes
investimento*, formao substitutiva, forma-        lamarckianas -- que ele tem menos disposio
o de sintoma, relao com a funo sexual e       a colocar em dvida --, constituiu, para um
predisposio  neurose -- que interferem nas       grande nmero de psicanalistas, muito antes da
trs neuroses de transferncia: histeria* de        publicao desse manuscrito perdido, um argu-
angstia (fobia*), histeria de converso e neu-     mento para duvidar da validade e da utilidade
rose obsessiva*. Na segunda parte, Freud aban-      da metapsicologia.
dona o terreno clnico e a perspectiva ontoge-          Esses questionamentos deram ensejo a um
ntica para estudar o papel das predisposies      enfraquecimento da teoria psicanaltica, ilus-
hereditrias na etiologia das neuroses.  o co-     trado, em particular, pela corrente norte-ameri-
meo do que Ilse Grubrich-Simitis denomina de       cana da Ego Psychology*. E foi em reao a
"aventura da reconstituio filogentica", cuja     esses desvios que Jacques Lacan* empreendeu
                                                                                          Meyer, Adolf        513

seu "retorno a Freud", que acabaria desembo-               (Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard, 1969  Paul-Lau-
                                                           rent Assoun, Metapsicologia freudiana: uma introdu-
cando na substituio do apoio biolgico freu-
                                                           o (Paris, 1993), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996 
diano pelo recurso  lingstica moderna e, mais           Sandor Ferenczi, "A metapsicologia de Freud" (1922),
tarde,  lgica formal e  topologia matemtica.           in Psicanlise IV, Obras completas, 1927-1933 (Paris,
    Freud tinha plena conscincia de que seu               1974), S. Paulo, Martins Fontes, 1994, 223-34;
                                                           "Thalassa, ensaio sobre teoria da genitalidade" (1924),
objetivo assinttico, a teorizao da articulao
                                                           in Psicanlise III, Obras completas, 1919-1926 (Paris,
do psiquismo com o substrato biolgico, colo-              1974), S. Paulo, Martins Fontes, 1993, 255-326  Ilse
cava todo o conjunto de seu trabalho  merc               Grubrich-Simitis, "Metapsicologia e metabiologia", in
das futuras descobertas da biologia, que um dia            Sigmund Freud, Neuroses de transferncia: uma sn-
                                                           tese (1915; Frankfurt, 1985), Rio de Janeiro, Imago,
poderiam fazer ruir o edifcio que ele construra
                                                           1987  Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de
pacientemente. Entretanto, longe de desanimar              Janeiro, Jorge Zahar, 1998  lisabeth Roudinesco,
diante dessa perspectiva, ele parece haver                 Jacques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um
considerado que a reflexo metapsicolgica,                sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,
com suas inevitveis especulaes, constitua a            Companhia das Letras, 1994  Freud/Lou Andreas-Sa-
                                                           lom: correspondncia completa, pref. de Ernst Pfeiffer
nica defesa epistemolgica em condies de                (Frankfurt, 1966, N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago,
erguer uma barreira contra as derivas psicolo-             1975  Daniel Widlcher, Mtapsychologie du sens,
gizantes ou organicistas que, j em sua poca,             Paris, PUF, 1986.
constituam o principal perigo para essa nova
                                                            INCONSCIENTE; MATEMA: N BORROMEANO;
cincia.  assim que podemos entender esta sua             PULSO; RECALQUE; TPICA.
declarao tardia, sob a forma de uma profisso
de f: "Sem especular nem teorizar -- eu quase
diria fantasiar -- metapsicologicamente, no se            mtodo catrtico
d um passo adiante."                                       CATARSE.
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; A interpre-   metonmia
tao dos sonhos (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III,      CONDENSAO; DESLOCAMENTO; SIGNIFICAN-
1-642; SE, IV-V, 1-621; Paris, PUF, 1967; A psicopato-     TE; SONHO.
logia da vida cotidiana (1901), ESB, VI; GW, IV; SE, VI;
Paris, Payot, 1973; Trs ensaios sobre a teoria da
sexualidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145;
SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; Totem e tabu     Meyer, Adolf (1866-1950)
(1913), ESB, XIII, 17-192; GW, IX; SE, XIII, 1-161;        psiquiatra americano
Paris, Gallimard, 1993; "As pulses e suas vicissitudes"
                                                               Filho de pastor e fundador da escola ameri-
(1915), ESB XIV, 137-68; GW, X, 209-32; SE, XIV,
109-40; OC, XIII, 161-85; "Recalque" (1915), ESB XIV,      cana de psiquiatria dinmica*, Adolf (ou
169-90; GW, X, 247-61; SE, XIV, 141-58; OC, XIII,          Adolph) Meyer foi um dos pioneiros da intro-
188-201; "O inconsciente" (1915), ESB, XIV, 191-233;       duo da psicanlise* nos Estados Unidos*.
GW, X, 263-303; SE, XIV, 159-204; OC, XIII, 205-43;        Nascido na Sua*, em Niederweningen, perto
"Suplemento metapsicolgico  teoria dos sonhos"
(1915), ESB, XIV, 253-74; GW, X, 411-26; SE, XIV,
                                                           de Zurique, iniciou-se na psiquiatria na clnica
217-35; OC, XIII, 243-58; "Luto e melancolia" (1915-       do hospital Burghlzli, com August Forel*.
1917), ESB, XIV, 275-92; GW, X, 427-46; SE, XIV,           Depois de uma permanncia em Londres, onde
237-58; OC, XIII, 259-78; Neuroses de transferncia:       seguiu os cursos de Hughlings Jackson*, e de-
uma sntese (1915) (Frankfurt, 1985), Rio de Janeiro,      pois em Paris, onde assistiu ao de Jean Martin
Imago, 1987; GW, Nachtragsband, 1987, 634-51; Pa-
ris, Gallimard, 1986; "Anlise terminvel e intermin-
                                                           Charcot*, emigrou para os Estados Unidos em
vel" (1937), ESB, XXIII, 247-90; GW, XVI, 59-99; SE,       1893. At 1896, foi patologista no Illinois Eas-
XXIII, 209-53; in Rsultats, ides, problmes, vol.2,      tern Hospital for the Insane, em Kankakee.
1921-1938, Paris, PUF, 1985, 231-68; Esboo de psi-        Depois dessa experincia, ensinou na Clark
canlise (1938), ESB, XXIII, 168-246, GW, XVII, 67-        University de Worcester, onde Sigmund Freud*
138; SE, XXIII, 139-207; Paris, PUF, 1967; Moiss e o
monotesmo (1939), ESB, XXIII, 1-167; GW, XVI, 103-
                                                           iria em 1909, a convite de Stanley Hall*. Foi
246; SE, XXIII, 1-137; Paris, Gallimard, 1986  Sigmund    tambm chefe de clnica no Worcester Insane
Freud e Karl Abraham, Correspondance (1907-1926)           Hospital, onde James Jackson Putnam* e Wil-
514       Meyers, Donald Campbell

liam James constataram que ele estudava cada                 Jacques Postel e Claude Qutel (org.), Nouvelle
                                                            histoire de la psychiatrie, Toulouse, Privat, 1983.
caso como um todo. Na verdade, na tradio da
escola de Zurique, que deu origem a essa nova
psiquiatria dinmica, da qual Freud e Eugen                 Meyers, Donald Campbell
Bleuler* foram tambm artfices, ele conside-               (1863-1927)
rava a origem da doena mental ao mesmo                     mdico canadense
tempo como uma reao a um meio patognico
                                                                Nascido em Trenton, na provncia de Onta-
e como uma estrutura, na qual se misturavam a
                                                            rio, Donald Campbell Meyers estudou medici-
organognese e a psicognese.
                                                            na e neurologia no Trinity College Medical
    Entre 1902 e 1910, dirigiu o New York State             School de Toronto, antes de ir  Europa, princi-
Psychiatric Institute, onde introduziu, para o              palmente  Frana*, para acompanhar os cursos
tratamento da demncia precoce (esquizofre-                 de Jean Martin Charcot*. Voltando em 1894, foi
nia*), os testes associativos de Carl Gustav                o primeiro canadense a aplicar os princpios da
Jung* e a tcnica da psicanlise. Assim, esse               psicanlise* ao tratamento das neuroses* e a
instituto se tornou um dos centros mais impor-              abrir uma sala para os doentes nervosos no
tantes da difuso das idias freudianas nos Es-             hospital geral de Toronto. Depois, fundou uma
tados Unidos. Muitos foram os psiquiatras, en-              clnica particular. Severamente criticado por
tre os alunos de Meyer, que tomaram depois o                essa inovao pelo psiquiatra Edward Ryan, foi
caminho da psicanlise. Em 1913, continuou a                firmemente convidado pelo governo da provn-
ensinar em Baltimore, na John Hopkins Univer-               cia de Ontario a fazer parte de uma comisso de
sity, onde tambm os seus alunos de psiquiatria             observao e estudos de psiquiatria na Europa,
se orientaram para o freudismo*. Embora fosse               na qual seria o rival de Charles Kirk Clarke*.
ele prprio membro da American Psychoanaly-
tic Association* (APsaA), no adotou a teoria                Alan Parkin, An History of Psychoanalysis in Canada,
                                                            Toronto, The Toronto Psychoanalytic Society, 1987.
freudiana do inconsciente* e convenceu-se de
que s o pensamento consciente poderia favo-                 AUSTRLIA; CANAD; GLASSCO, GERALD STIN-
recer a integrao do homem na sociedade.                   SON; JONES, ERNEST.
Nisso, representava perfeitamente os ideais des-
sa psicanlise  americana, de todas as ten-
dncias, centrada, apesar da sua adeso  dou-              Meynert, Theodor (1833-1892)
trina vienense, na prioridade da conscincia e              psiquiatra alemo
numa concepo da adaptao estranha ao freu-                   Esse mestre da psiquiatria vienense, amante
dismo original.                                             da msica, da arte e da literatura, foi, como
    Em 1907, depois da publicao da obra de                Hermann Nothnagel*, aluno de Karl Rokitanski
um ex-doente mental, que explicava como fora                (1804-1878). A partir de 1873 at a morte,
curado, Meyer comeou a definir um programa                 ocupou o posto de mdico-chefe do hospital
de higiene mental, fundado na preveno das                 psiquitrico da cidade. Personagem de carter
desordens da alma no meio hospitalar. De acor-              difcil e ambivalente, era conhecido por suas
do com a tica protestante, que inspirou tanto a            cleras passionais, e talvez essa atitude no
escola sua de psiquiatria dinmica, de Forel a            tenha sido estranha ao interesse que ele dedicou
Bleuler, passando por Jung e Oskar Pfister*, foi             amentia, ou seja, a confuso mental. Grande
um pedagogo cujos princpios morais agiram                  anatomista do crebro, inspirou-se no modelo
perfeitamente bem em um pas marcado pela                   herbartiano para diferenciar o crtex superior,
tradio puritana.                                          do qual fez uma instncia socializada, do crtex
                                                            inferior, de natureza primitiva ou arcaica. Essa
 L'Introduction de la psychanalyse aux tats-Unis. Au-     descrio lhe possibilitou formular, depois de
tour de James Jackson Putnam (Londres, 1968), Na-           Wilhelm Griesinger (1817-1869), a hiptese de
than G. Hale (org.), Paris, Gallimard, 1978, 17-86 
Nathan G. Hale, Freud and the Americans. The Begin-
                                                            um eu* primrio e de um eu secundrio, que
nings of Psychoanalysis in the United States, 1876-         seria retomada por Freud em 1895, no seu "Pro-
1917, t.I, (1971), N. York, Oxford University Press, 1995   jeto para uma psicologia cientfica", e depois
                                                                        Meynert, Theodor        515

pelos fundadores da Ego Psychology*. Segun-        Para evidenci-la, Charcot recorria ao hipnotis-
do Meynert, o eu primrio era a parte genetica-    mo: as paralisias traumticas apresentavam
mente primeira e inconsciente da vida mental,      realmente, segundo ele, uma sintomatologia
que se manifestava no momento em que a crian-      idntica  das paralisias produzidas sob hipno-
a tomava conscincia da separao entre o seu     se*. Ao contrrio da escola francesa, a escola
corpo e o ambiente. O eu secundrio era, ao        vienense recusava essa doutrina, apegando-se 
contrrio, o instrumento de um controle da per-    concepo clssica da histeria masculina,
cepo.                                            organicista e hereditarista.
     Querendo reduzir todos os fenmenos psi-          Foi nesse contexto que, a 15 de outubro de
colgicos a um substrato orgnico, Meynert         1886, Freud fez a famosa conferncia sobre a
acabou por elaborar uma verdadeira "mitologia      histeria masculina (no publicada), para a So-
cerebral". Por conseguinte, adotou o ponto de      ciedade dos Mdicos de Viena, na presena de
vista do niilismo teraputico, desprezando os      Meynert e de Heinrich von Bamberger (1822-
tratamentos da alma e no procurando curar os      1888), durante a qual exps aos mdicos vie-
alienados que estavam sob seus cuidados.           nenses as teses de Charcot, s quais acabava de
     Sigmund Freud* foi seu aluno em 1883.         aderir. E no seu entusiasmo, atribuiu ao mestre
Passou cinco meses na sua clnica psiquitrica,    da Salptrire a paternidade da noo de histeria
onde, pela nica vez na sua vida, teve a ocasio   masculina, j conhecida em Viena. Da uma
de observar vrias dezenas de doentes mentais      terrvel confuso.
hospitalizados: "H uma grande diferena, es-           controvrsia sobre a histeria masculina,
creveu Albrecht Hirschmller, entre a maneira      acrescentava-se uma outra, sobre o hipnotismo.
pela qual Freud aborda os casos estritamente       No s Meynert recusava as teses de Charcot,
neurolgicos e os casos psiquitricos, no senti-   mas tambm considerava o hipnotismo como
do moderno do termo. No que se refere aos          uma "psicose produzida experimentalmente", e
primeiros, ele se mostra um clnico perspicaz      condenava os mtodos teraputicos fundados
[...], mas no consegue abordar os doentes gra-    na sugesto*. Em sua opinio, o sujeito em
vemente psicticos de um ponto de vista psico-     estado de hipnose se tornava uma criatura de-
lgico."                                           generada, sem razo nem vontade. Assim, a
     Graas a Meynert e ao apoio dado por Noth-    crtica meynertiana da escola francesa -de Char-
nagel e Ernst von Brcke*, Freud obteve, em        cot a Hippolyte Bernheim* -- anunciava a que
setembro de 1885, o ambicionado posto de           o prprio Freud faria depois sobre esses dife-
Privatdozent. Todavia, as relaes entre ambos     rentes mtodos, quando renunciou  hipnose.
foram conflituosas. Freud no acreditava no            Em 1932, Maria Dorer foi a primeira a
modelo neuro-anatmico de Meynert; alm dis-       demonstrar o papel de Meynert na gnese de
so, no gostava desse homem colrico, des-         alguns conceitos freudianos. Foi em parte atra-
provido, a seus olhos, de autoridade. Em Paris,    vs dele que Freud tomou conhecimento dos
durante o inverno de 1885-1886, encontrou o        modelos elaborados por Johann Friedrich Her-
mestre que procurava, Jean Martin Charcot*.        bart*, um dos fundadores da psicologia moder-
Depois dessa viagem  Frana, Freud entrou na      na.
controvrsia entre Viena* e Paris, a respeito da       Na Interpretao dos sonhos*, Freud rela-
hipnose* e da natureza da histeria* masculina:     tou que, em 1892, seu velho mestre, s vsperas
a partir de ento, sua oposio a Meynert se       da morte, lhe confiou, sob segredo, que ele
tornou cada vez mais violenta.                     prprio era um caso de histeria masculina. As-
     Charcot distinguia uma forma clssica de      sim, havia mentido durante toda a vida, ator-
histeria masculina, determinada pela heredita-     mentado por seus sintomas e seu sofrimento.
riedade, e uma forma "ps-traumtica", na qual     Da nasceu a lenda, retomada por Ernest Jones*
a hereditariedade no tinha nenhum papel. As-      e pela historiografia* freudiana oficial, segundo
similava os sintomas desta (principalmente as      a qual Meynert e os mdicos vienenses teriam
paralisias) a distrbios funcionais, desprovidos   negado a existncia da histeria masculina, en-
de substrato hereditrio ou de leso orgnica.     quanto que s Freud teria sido capaz de
516       Middle Group

demonstrar o seu mecanismo. Em 1968, Henri                   Munique, para onde voltara. Refugiado na Su-
F.Ellenberger* restabeleceu a verdade,                       a, formou-se em Zurique, na clnica do hospital
duvidando da "confidncia" de Meynert e res-                 Burglzli, com Eugen Bleuler*. Emigrou para
tituindo a complexidade de um debate atravs                 a Frana em 1915, engajando-se no exrcito
do qual Freud conseguiu construir uma nova                   como mdico militar. Em 1925, ao lado de sua
definio da histeria.                                       mulher Franoise Minkowska e de Paul Schiff*,
    Inspirando-se na biografia de Jones, Jean-               foi um dos fundadores do grupo da Evoluo
Paul Sartre (1905-1980) fez de Meynert, no seu               Psiquitrica. Marcado pela filosofia de Husserl
Roteiro Freud, um admirvel personagem de                    e pela anlise existencial* de Ludwig Binswan-
mdico romntico, excntrico, alcolatra e neu-              ger*, introduziu a fenomenologia no saber psi-
rtico, obcecado pela m-f e torturado pelos                quitrico francs, desempenhando assim um
sintomas da doena histrica, cuja natureza fun-             papel de primeiro plano para a gerao seguinte,
cional ele tanto quisera desconhecer.                        principalmente para Jacques Lacan* e Henri
                                                             Ey*. Sua mulher introduziu na Frana o teste de
 Theodor Meynert, "L'Amentia", in Christine Lvy-Frie-      Hermann Rorschach*.
sacher, Meynert, Freud, l'Amentia, Paris, PUF, 1983 
Jacques Postel (org.), La Psychiatrie, Paris, Larousse,       Eugne Minkowski, Trait de psychopathologie, Pa-
1994  Sigmund Freud, "Esquisse d'une psychologie            ris, PUF, 1966  Henri F. Ellenberger, "La Psychopatho-
scientifique" (1895), in La Naissance de la psychana-        logie d'Eugne Minkowski", Dialogue, vol.IX, Montreal,
lyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Um estudo            1970, n 1, 93-100  lisabeth Roudinesco, Histria da
autobiogrfico (1925), ESB, XX, 17-88; GW, XIV, 33-          psicanlise na Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Ja-
96, SE, XX, 7-70; Paris, Gallimard, 1984  Maria Dorer,      neiro, Jorge Zahar, 1989.
Historische Grundlagen der Psychoanalyse, Leipzig,
Felix Meiner, 1932  Ernest Jones, A vida e a obra de
Sigmund Freud, vol.1 (N. York, 1953), Rio de Janeiro,
Imago, 1989  Henri F. Ellenberger, Mdecines de             Mitscherlich, Alexander (1908-1982)
l'me. Essais d'histoire de la folie et des gurisons        mdico e psicanalista alemo
psychiques, Paris, Fayard, 1995  William M. Johnston,
L'Esprit viennois. Une histoire intellectuelle et sociale,
                                                                 Intelectual de esquerda, praticante da medi-
1848-1938 (1972), Paris, PUF, 1985  Frank J. Sullo-         cina psicossomtica*, fundador da prestigiosa
way, Freud, Biologist of the Mind, N. York, Basic Books,     revista Psyche, iniciador de uma longa reflexo
1979  Jean-Paul Sartre, Freud, alm da alma (Paris,         sobre o nazismo* e a psicanlise*, Alexander
1984), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986  Lucille B.
                                                             Mitscherlich foi o grande renovador do freudis-
Ritvo, A influncia de Darwin sobre Freud (1990), Rio
de Janeiro, Imago, 1992  Albrecht Hirschmller,             mo* na Alemanha* vencida dos anos 1950,
"Freud, Meynert et Mathilde", Revue Internationale           enquanto comeavam a florescer mltiplas
d'Histoire de la Psychanalyse, 6, 1993, 271-286.             escolas de psicoterapia* e a poltica de Ernest
                                                             Jones* consistia em uma reintegrao  Inter-
 EU; HAECKEL, ERNST; HERBART, JOHANN FRIE-                   national Psychoanalytical Association * (IPA)
DRICH; INCONSCIENTE; PSICOSE; RECALQUE.
                                                             dos ex-colaboradores do Gring-Institut. A esse
                                                             respeito, por seus numerosos trabalhos e pelo
                                                             seu no-conformismo, ocupou, na terceira ge-
Middle Group                                                 rao* psicanaltica mundial, um lugar compa-
 INDEPENDENTES, GRUPO DOS.                                   rvel ao de Heinz Kohut* nos Estados Unidos*,
                                                             ao de Wilfred Ruprecht Bion na Gr-Bretanha*
                                                             ou ao de Marie Langer* na Argentina*.
Minkowski, Eugne (1885-1972)                                    Nascido em Munique, Mitscherlich era o
psiquiatra francs                                           filho nico de um engenheiro qumico herdeiro
    Proveniente de um meio de judeus lituanos                de uma longa linhagem de qumicos clebres,
ortodoxos, Eugne Minkowski, nascido em So                  especialmente Eilhard Mitscherlich (1794-
Petersburgo, tinha sete anos quando seus pais                1963), que descobriu a isomorfia dos cristais.
se estabeleceram em Varsvia. Estudou medici-                As relaes entre Alexander e seu pai Harbord
na e filosofia em Munique, e depois partiu para              foram difceis e angustiantes: "Meu pai, escre-
Kazan, onde encontrou a sua mulher. A decla-                 veu ele na sua autobiografia, era um alemo
rao de guerra de 1914 o surpreendeu em                     nacionalista e reacionrio, que negava tudo o
                                                                  Mitscherlich, Alexander      517

que era novo, sem com isso apresentar solues     ministro da sade e da alimentao no Land
para a nova realidade poltica."                   Reno-Sarre. Logo deixou esse posto, depois de
    Educado segundo princpios autoritrios e      um conflito com as autoridades francesas, que
rgidos, Alexander logo contestou as opinies      tomaram o lugar dos americanos e cujos mto-
paternas, apoiando-se na me, mulher alegre e      dos ele desaprovava. Um ano depois, assistiu
bem disposta. Em 1928, na Universidade de          em Nuremberg ao processo dos mdicos acusa-
Munique, orientou-se para a histria, sob a di-    dos de crimes de guerra e de crimes contra a
reo de um professor judeu, Paul Johachim-        humanidade. Diante de todas essas atrocidades,
sen. Fazendo uma pesquisa sobre a imagem de        decidiu consagrar-se  criao de um nova me-
Lutero na historiografia alem, descobriu que      dicina humanista, livre de qualquer tecnologia
esse personagem tinha tantos rostos diferentes     que coagisse corpos e espritos. Da o seu
quanto bigrafos. Foi nessa poca que se           interesse pela psicossomtica, mtodo segundo
interessou pela obra freudiana, lendo Leonardo     o qual o sujeito  levado, com o mdico, a
da Vinci e uma lembrana da sua infncia*, e       estabelecer uma ligao entre o seu ser e o
se tornou amigo do escritor Ernst Jnger, cujas    soma. Pelas mesmas razes, dedicou-se a uma
opinies de direita compartilhou durante algum     longa reflexo sobre o passado nazista da
tempo.                                             Alemanha. Essas duas orientaes fariam dele
    Em 1932, com a morte de Johachimsen, o         um marginal nos meios mdicos e universit-
sucessor deste, Karl Alexander von Mller, que     rios, e um pensador clebre no seu pas e no
se recusava a aceitar os estudantes que tivessem   estrangeiro, pela sua coragem e pela originali-
um professor judeu, impediu Mitscherlich de        dade dos seus trabalhos.
preparar o seu doutorado. O jovem deixou ento         Na Sua*, conheceu a mulher que seria a
a universidade, instalou-se em Berlim com a        sua terceira esposa e principal colaboradora:
sua primeira mulher e a sua filha e abriu uma      Margarete Nielsen. Mdica de origem dinamar-
livraria, comeando ao mesmo tempo a estudar       quesa, foi formada em anlise em Londres, por
medicina. No crculo de Jnger, ficou co-          Michael Balint*. Atravs dela, interessou-se
nhecendo Ernst Niekisch, que dirigia um grupo      mais ainda pelo freudismo, e principalmente
de estudantes "nacional-bolchevique".              pelos trabalhos da escola inglesa. Juntos, fun-
    O advento do nazismo* o obrigou a fechar       daram em 1947 a revista Psych, que seria
a livraria, a deixar a Alemanha e a refugiar-se    durante 40 anos o nico lugar de expresso da
em Zurique, onde sua mulher deu  luz dois         psicanlise em um pas esvaziado do seu poten-
outros filhos, uma menina e um menino. Em          cial criador, pela emigrao macia dos judeus
1937, voltou a Munique para ajudar Niekisch,       freudianos em 1935. No incio, era uma revista
foi detido pela Gestapo e preso durante oito       de psicologia das profundezas e de antropolo-
meses. Libertado, teve a ocasio de passar o       gia, mas progressivamente, sob a influncia de
resto da guerra como assistente de Viktor von      Mitscherlich, que fora analisado em Londres
Weiszcker na clnica de Heidelberg, onde co-      por Paula Heimann*, ela se transformou em
nheceu Karl Jaspers (1883-1969), que vivia         revista de psicanlise e de psicanlise aplica-
uma situao de "exlio interior" desde a sua      da*.
demisso em 1937: "Mitscherlich, escreveu              Fundador da clnica psicossomtica de Hei-
Jacques Le Rider, sofreu a amarga experincia      delberg em 1950, professor oito anos depois na
da resistncia ignorante  psicanlise, como       universidade, fundador, em 1960, do Sigmund
faziam os grandes mandarins da universidade        Freud Institut de Frankfurt, onde elaborou todas
alem. Apesar de longas discusses, ele no        as suas reflexes sobre a Alemanha do ps-
conseguiu convenc-lo a corrigir o julgamento      guerra, iniciador de uma nova edio alem das
sumrio que a sua Psicopatologia geral fazia       obras de Sigmund Freud* (os Studiengabe),
sobre a teoria freudiana."                         Mitscherlich salvou a honra da psicanlise no
    Em 1945, depois de um segundo casamento        seu pas, aderindo  Deutsche Psychoanaly-
e do nascimento de outro filho, Mitscherlich foi   tische Vereinigung (DPV), filiada  Internatio-
nomeado pelo exrcito americano de ocupao        nal Psychoanalytical Association * (IPA), ins-
518      Moiss e o monotesmo

taurando laos estreitos com os filsofos da              moriam Alexandre Mitscherlich", Psyche, 4, 37, abril de
                                                          1983, e 10, 37, outubro de 1983  Hans Martin Lohman,
Escola de Frankfurt e reunindo na sua revista os
                                                          Psychoanalyse und National-Sozialismus, Frankfurt,
mais prestigiosos nomes da dispora freudiana,            Fischer, 1984; Alexander Mitscherlich, Hamburgo, Ro-
exilada nos quatro cantos do mundo.                       wohlt, 1987  Ilse Grubrich-Simitis, "Histoire de l'dition
    Em 1970, fez um julgamento muito pes-                 des oeuvres de Freud en langue allemande" (1989),
simista sobre a situao do freudismo na                  Revue Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 4,
                                                          1991, 13-71.
Alemanha Ocidental, chegando a acusar os seus
compatriotas de ter inteiramente ignorado essa             ALEXANDER, FRANZ; BOEHM, FELIX; FENICHEL,
nova doutrina: "Sejamos claros e falemos fran-            OTTO; FREUDO-MARXISMO; GRING, MATTHIAS
camente: a cincia da psicanlise fundada por             HEINRICH; MARCUSE, HERBERT; MLLER-BRAUN-
Freud ficou inacessvel e estranha aos alemes            SCHWEIG, CARL; RITTMEISTER, JOHN; SCHULTZ-
-- no digo apenas a um grande nmero, mas               HENCKE, HARALD.
maioria dos alemes; ou melhor, aos alemes.
Eles desenvolveram contra ela uma antipatia
coletiva, da qual se glorificaram por muito tem-          Moiss e o monotesmo
po."                                                      Livro de Sigmund Freud, publicado em Amsterdam
    No seu livro sobre a sociedade sem pais,              em 1939, em alemo, sob o ttulo Der Mann Moses
publicado em 1963, interessou-se pelo rebaixa-            und die monotheistische Religion. Drei Abhandl-
mento da funo paterna nas sociedades ociden-            ungen. Traduzido para o francs pela primeira vez
tais, aderindo assim,  sua maneira, s preocu-           por Anne Berman (1889-1979), em 1948, sob o ttulo
paes de Jacques Lacan* e da escola kleiniana,           Mose et le monothisme, e mais tarde, em 1986,
isto , da terceira gerao psicanaltica. Em             por Cornlius Heim, sob o ttulo L'Homme Mose et
                                                          la religion monothiste. Trois essais. Traduzido
1967, em O luto impossvel, dedicou-se a uma
                                                          para o ingls pela primeira vez em 1939, por Kathe-
espcie de psico-histria, analisando atravs da
                                                          rine Jones, sob o ttulo Moses and Monotheism, e
apresentao dos distrbios psicossomticos de
                                                          depois por James Strachey*, em 1964, sob o ttulo
alguns pacientes, o recalque* coletivo das lem-           Moses and Monotheism. Three Essays.
branas do III Reich na Repblica Federal
Alem. O livro causou escndalo, e mais ainda                 Livro do exlio, simultaneamente publicado
porque, no ano seguinte, Mitscherlich defendeu            em Amsterdam e Londres no mesmo ano da
o movimento estudantil em revolta contra a                morte do autor, Moiss e o monotesmo  uma
sociedade de consumo. At denunciou, em                   das obras mais audaciosas de Sigmund Freud*,
1970, a brutal represso policial e estatal, que          uma das mais comentadas e tambm a que
atingia os estudantes que se tornaram terroris-           suscitou, ao lado de Totem e tabu*, da qual  a
tas. Via nisso apenas dio e intolerncia.                conseqncia lgica, as maiores polmicas en-
                                                          tre os especialistas. O livro  uma obra-prima,
    Atingido pela doena de Parkinson, lutou at
                                                          e o historiador Salo Wittmayer Baron no se
o fim, apesar do pessimismo e da depresso, e
                                                          enganou ao classific-lo, desde sua publicao,
morreu no auge da sua glria, cercado de res-
                                                          de "esplndido castelo suspenso no ar", e ao
peito.
                                                          declarar: "Quando um pensador da estatura de
                                                          Freud se posiciona quanto a uma questo que
 Alexander Mitscherlich, Vers la socit sans pres
(Munique, 1963), Paris, Gallimard, 1969; Krankheit als    lhe  de interesse vital, o mundo deve escut-
Konflikt. Studien zur psychosomatische Medizin, I e II,   lo."
Frankfurt, Suhrkamp, 1966 e 1967; L'Ide de paix et           Fazia muito tempo que Freud era obcecado
l'agressivit humaine (Frankfurt, 1969), Paris, Galli-    pela figura do profeta que havia arrancado seu
mard, 1970; Versucht, die Welt besser zu verstehen,
Frankfurt, Suhrkamp, 1970; Ein Leben fr die Psychoa-     povo da letargia, impondo-lhe leis, apontando-
nalyse. An Merkungen zu meiner Zeit, Frankfurt, Suhr-     lhe a terra prometida e decretando os princpios
kamp, 1980; Gesammelte Schriften, I-X, Frankfurt,         de uma nova espiritualidade. Diante da escalada
Suhrkamp, 1983  Alexander Mitscherlich e Margarete       do anti-semitismo, Freud se indagou mais uma
Mitscherlich, Le Deuil impossible (Munique, 1967), Pa-
ris, Payot, 1972  Jacques Le Rider, "La Psychanalyse
                                                          vez como o judeu se tornara judeu e por que
en Allemagne", in Roland Jaccard (org.), Histoire de la   havia atrado sobre si um dio eterno. Logo
psychanalyse, Paris, Hachette, 1982, 106-43  "In Me-     encontrou um estilo e concebeu um projeto:
                                                                    Moiss e o monotesmo         519

escrever um "romance histrico". Ao querer           tica da fidelidade, calcada num sentimento de
demonstrar que Moiss era egpcio, ele no           pertencer  judeidade*. O artigo sobre Moiss
pretendia chocar o catolicismo austraco, que        traduziu essa reviravolta e a ambivalncia do
protegia os judeus do nazismo*, nem despojar         autor ante sua prpria judeidade: frente  traio
simbolicamente o povo judeu de seu evento            dos seus, o profeta controlou sua clera e salvou
fundador (a sada do Egito e o recebimento da        a unidade do povo em nome de uma nova
Torah no Sinai), no momento em que o regime          doutrina,  qual passou desde ento a se dedicar.
hitlerista comeava a persegui-lo. Inicialmente          Mas, que doutrina? Qual  a especificidade
publicados sob a forma de artigos, os trs en-       desse monotesmo judaico que, atravs das
saios foram reunidos em livro depois que Freud       eras, induz a tamanho sentimento de participa-
se instalou em Londres.                              o num grupo, mesmo quando desaparece
    Numa carta a Lou Andreas-Salom*, datada         qualquer vestgio de prtica religiosa? Que si-
de 6 de janeiro de 1935, Freud resumiu o             gnifica ser judeu, quando j no se recorre ao
contedo de seu livro e concluiu com as se-          judasmo?
guintes palavras: "As religies devem seu po-            Em 1922, Ernst Sellin havia publicado um
der coercitivo ao retorno do recalcado, so re-      livro que causara grande rebulio: Moiss e sua
miniscncias de processos arcaicos desapareci-       significao para a histria israelita e judaica.
dos e altamente eficazes da histria da humani-      Historiador berlinense, especializado na Bblia,
dade. J afirmei isso em Totem e tabu. E agora       ele pertencia  escola exegtica alem. Segundo
o condenso numa frmula: o que fortalece a           a tradio do protestantismo liberal, do qual era
religio no  sua verdade real, mas sua verdade     um dos representantes, julgava que a pregao
histrica."                                          moral resumida nos Dez Mandamentos era a
    Foi atravs de Roma e do catolicismo que         prpria essncia da revelao bblica. Por isso,
Freud abordou pela primeira vez a histria de        considerava Moiss o fundador da religio de
Moiss, ao visitar, em 1909, a igreja de S. Pietro   Israel.
in Vincoli, onde se encontra a esttua esculpida         Partindo de uma leitura interpretativa dos
por Michelangelo (1475-1564) para o tmulo           livros dos profetas, Sellin propusera a hiptese
do papa Julio II: "Nenhuma obra produziu em          de que Moiss teria sido vtima de um assas-
mim efeito mais intenso." Em 1914, ele publi-        sinato coletivo cometido por seu povo, que teria
cou um artigo annimo em que invertia a inter-       rejeitado sua mensagem e preferido o culto dos
pretao clssica. A tradio via nessa obra a       dolos. Transformada numa tradio esotrica,
imagem de um Moiss descido do Sinai,                a doutrina mosaica teria ento sido transmitida
segurando as tbuas da Lei e prestes a atir-las     por um crculo de iniciados, cujos sucessores
no cho, por ter descoberto seu povo adorando        seriam os profetas do sculo VIII a.C.: Osias,
o bezerro de ouro. Pois bem, Freud mostrou           Isaas, Ams e Miquias. Nesse terreno nasce-
que, ao contrrio, Michelangelo havia repre-         riam a f exibida por Jesus, tambm ele um
sentado um Moiss engolindo sua clera e             profeta assassinado, e, mais tarde, o cris-
apertando as tbuas contra o peito, pois elas        tianismo.
corriam o risco de se quebrar. E, com efeito, o          Nem era preciso tanto para fascinar Freud,
escultor havia forjado um Moiss absoluta-           que havia adotado, em Totem e tabu, uma tese
mente inslito.                                      mais ou menos similar. A isso ele acrescentou
    No comentrio, entretanto, Freud falou de        o tema da naturalidade egpcia de Moiss, afir-
algo alm da esttua: apontou para sua prpria       mado pela tradio do Aufklrung e por escri-
situao na histria do movimento psicanalti-       tores, historiadores e egiptlogos preocupados
co, e isso no escapou a ningum. Depois de          em fornecer uma interpretao histrica, e no
procurar fazer de Carl Gustav Jung* o garante        mais religiosa, da histria do profeta. Alis,
de uma psicanlise desjudaizada (a fim de            Freud viu nisso a ilustrao de suas hipteses e
demonstrar a seus adversrios que ela no era        das de Otto Rank* sobre o romance familiar*.
uma "cincia judaica"), Freud havia mudado de        No caso de Moiss, elas confirmavam a natura-
idia, reivindicando, com seu movimento, uma         lidade egpcia, invertendo a lenda do menino
520      Moiss e o monotesmo

encontrado: a "verdadeira" famlia era a do               Mas Freud iria ainda mais longe, arriscando-
fara, e a famlia de adoo, a dos hebreus.          se a reexaminar a seu modo uma grande tese do
    Eis a essncia do livro: o monotesmo no        anti-semitismo. Com efeito, ele afirmou que o
uma inveno judaica, mas egpcia, e o texto          dio aos judeus era alimentado pela crena
bblico s fez deslocar sua origem, pos-              destes na superioridade do povo eleito e pela
teriormente, para um tempo mtico, atribuindo         angstia de castrao suscitada pela circunciso
sua fundao a Abrao e seus descendentes. Na         como sinal da eleio. Esse rito, segundo Freud,
realidade, ele proveio do fara Amenfis IV,          visava enobrecer os judeus e faz-los des-
que fez dele uma religio, baseada no culto ao        prezarem os outros, os incircuncisos.
deus solar Aton. Para banir o antigo culto, ele           Nessa mesma perspectiva, Freud tomou ao
se fez denominar de Aquenaton. Seguindo-se a          p da letra a principal queixa do antijudasmo,
ele, Moiss, alto dignitrio egpcio e partidrio     ou seja, a recusa dos judeus a admitirem o
do monotesmo, assumiu a chefia de uma tribo          assassinato de Deus: "O povo judeu", disse ele,
semita e deu ao monotesmo uma forma es-              "obstina-se em negar o assassinato do pai, e os
piritualizada. Para distingui-la das outras, intro-   cristos no param de acus-lo de deicida. Aqui,
duziu o rito egpcio da circunciso, com isso         porm, conviria acrescentar: `Ns (os cristos)
pretendendo mostrar que Deus teria "eleito",          fizemos a mesma coisa, mas o confessamos e
atravs dessa "aliana", o povo escolhido por         desde ento fomos redimidos.'" Freud concluiu
Moiss. Mas o povo no suportou a nova reli-          que essa recusa expunha os judeus ao res-
gio, matou o homem que se pretendia profeta          sentimento dos outros povos: "Atrevo-me a
e recalcou a lembrana do assassinato, que re-        afirmar que, ainda hoje, o cime em relao ao
tornou com o cristianismo: "O antigo Deus",           povo que se pretende o filho primognito, favo-
escreveu Freud, "o Deus-Pai, passou para o            recido por Deus Pai, no foi superado pelos
segundo plano. Cristo, seu filho, assumiu seu         outros."
lugar, como teria querido fazer, numa poca               Depois de afirmar que os judeus eram res-
passada, cada um dos filhos rebelados. Paulo,         ponsveis pelo antijudasmo dos cristos, Freud
continuador do judasmo, foi tambm seu des-          explicou que o anti-semitismo das naes mo-
truidor. Se logrou xito, isso certamente se deu      dernas era um deslocamento, para os judeus, de
porque, primeiro, graas  idia de redeno, ele     um dio referente ao cristianismo: "Os povos
conseguiu conjurar o espectro da culpa humana,        que hoje se entregam ao anti-semitismo s se
e segundo, abandonou a idia de que o povo            cristianizaram tardiamente e, em muitos casos,
judeu era o povo eleito e renunciou ao sinal          foram obrigados a faz-lo por uma coero
visvel dessa eleio: a circunciso. Assim, a        sangrenta. Dir-se-ia que todos foram `mal bati-
nova religio pde tornar-se universal e se diri-     zados'; sob uma tnue capa de cristianismo,
gir a todos os homens."                               continuaram, como seus ancestrais, apaixona-
    Mais uma vez, Freud contou nesse livro a          dos por um politesmo brbaro. No superaram
histria de "sua" descoberta do inconsciente*,        sua averso pela nova religio, mas a desloca-
universalizada mediante a renncia a qualquer         ram para a fonte de onde lhes veio o cris-
apoio numa religio eletiva. Mais do que isso,        tianismo (...). Seu anti-semitismo, no fundo, 
entretanto, exps a histria de sua relao am-       um anticristianismo, e no surpreende que, na
bivalente com sua prpria judeidade. Ao desju-        revoluo nacional-socialista alem, essa rela-
daizar Moiss, ele mostrou como o criador ou          o ntima entre as duas religies monotestas
o fundador -- numa palavra, o "grande ho-             encontre expresso to clara no tratamento hos-
mem" --  sempre um exilado: quer um estra-           til de que ambas so objeto."
nho na cidade, quer em ruptura com sua poca,             A novidade do procedimento freudiano, por-
quer dividido em seu prprio ntimo.  sob essa       tanto, consistiu em expor as razes inconscien-
condio que ele consegue inverter a tradio,        tes do anti-semitismo a partir do prprio judas-
suplantar a religio do pai, ter acesso a uma         mo, e no mais como um fenmeno externo a
outra cultura e criar novas formas.                   ele. Essa foi sua maneira de retomar a proble-
                                                                     Moiss e o monotesmo              521

mtica de Totem e tabu,  qual Moiss e o           racteres adquiridos fora invalidada por August
monotesmo deu prosseguimento.                      Weismann (1834-1914) j no fim do sculo
    Se a sociedade fora realmente gerada por um     XIX, e definitivamente abandonada em 1930.
crime cometido contra o pai, pondo fim ao reino     Para fundamentar o princpio de sua judeidade
desptico da horda selvagem, e pela instaurao     perptua e transmissvel, portanto, Freud foi de
de uma lei em que a figura simblica do pai fora    encontro no somente a toda a cincia de sua
revalorizada, isso queria dizer que o judasmo      poca, mas tambm  sua prpria concepo do
obedecia ao mesmo roteiro. Aps o assassinato       inconsciente.
de Moiss, ele havia gerado o cristianismo,             Situado sob o signo da paixo, esse testa-
baseado no reconhecimento da culpa: o mono-         mento do grande homem deu margem a mlti-
tesmo, portanto, era a histria interminvel da    plas interpretaes, contraditrias e, muitas ve-
instaurao dessa lei do pai, sobre a qual Freud    zes, extravagantes. Trs orientaes principais
erigiu toda a sua doutrina da proibio do inces-   se configuraram. A primeira, que se deveu a
to* e do dipo -- a ponto, alis, de se esquecer    David Bakkan, inscreveu a doutrina freudiana
de mencionar, em sua obra de 1939, o artigo que     na tradio de laicizao da mstica judaica; a
Karl Abraham*, seu mais fiel discpulo, dedi-       segunda, de Marthe Robert (1916-1996) a Peter
cara a Amenfis IV. Esse texto de 1912 expu-        Gay, evidencia, ao contrrio, um Freud ateu,
sera a religio do fara como uma reforma da        descentrado de sua judeidade e s voltas com a
herana paterna essencialmente suscitada por        problemtica dupla da dissidncia spinozista e
uma influncia materna, a da me de Amenfis.       da integrao na cultura alem. Finalmente, a
Porventura o esquecimento desse detalhe no         terceira, mais interpretativa (Ilse Grubrich-Si-
remeteu ao grande debate que ops o kleinis-        mitis), situa o Moiss como um devaneio que
mo* ao freudismo* clssico, a partir dos anos       ajudou Freud a superar a angstia causada pelas
vinte?                                              perseguies nazistas.
    Freud obedeceu a uma ordem de retornar             Em 1991, o historiador Yosef Hayim Yerus-
Bblia e  religio de seus pais. Mas, longe de     halmi ps-se " escuta de Freud" para publicar
adotar a soluo da converso como resposta ao      o comentrio mais erudito e mais completo que
anti-semitismo, redefiniu-se como "um judeu         j se escreveu sobre esse livro. Ele sublinha que
sem Deus". Sem ceder ao dio judeu de si            Freud fez da psicanlise o prolongamento de
mesmo, desvinculou o judasmo do sentimento         um judasmo sem Deus: uma judeidade "inter-
de judeidade caracterstico dos judeus des-         minvel".
crentes, que rejeitavam a Aliana e a eleio.       Sigmund Freud, "O Moiss de Michelangelo" (1914),
    No exato momento em que desjudaizou             ESB, XIII, 253-78; GW, X; SE, XIII, 209-38; in L'Inqui-
Moiss, ele conferiu  judeidade, entendida co-     tante tranget et autres textes, Paris, Gallimard, 1985,
mo essncia e como marca de incluso, uma           83-125; Moiss e o monotesmo (1939), ESB, XXIII,
                                                    1-167; GW, XVI, 103-246; SE, XXIII, 1-137; Paris,
situao de perenidade. Esse sentimento, pelo       Gallimard, 1986  Freud/Lou Andreas-Salom: corres-
qual um judeu se mantm judeu em sua subje-         pondncia completa, pref. de Ernst Pfeiffer (Frankfurt,
tividade, mesmo sendo descrente, era experi-        1966, N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1975 
mentado pelo prprio Freud, que no hesitou         Karl Abraham, "Amenhotep IV (Echnaton). Contribu-
                                                    tion psychanalytique  l'tude de sa personnalit et du
em assimil-lo a uma herana filogentica.          culte monothiste d'Aton" (1912), in Oeuvres com-
    Tal como em Totem e tabu, e sempre preo-        pltes, I, 1907-1914, Paris, Payot, 1965, 232-57  Ernst
cupado com um modelo biolgico, Freud               Sellin, Mose und seine Bedeutung fr die israelitische
apoiou-se na chamada tese "neolamarckista" da       Religionsgeschichte, Le ipz ig , A. De ic he rt s ch e
                                                    Verlagsbuchhandlung, 1922  Salo Wittmayer Baron,
hereditariedade dos caracteres adquiridos, para     "Moses and monotheism", sinopse, American Journal
afirmar que a judeidade era transmitida de ge-      of Sociology, 45, 1939, 471-7  David Bakkan, Freud
rao para gerao, "pelos nervos e pelo san-       et la tradition mystique juive (N. Jersey, 1958), Paris,
gue", ou seja, por intermdio de um inconsci-       Payot, 1977  Marthe Robert, D'Oedipe  Mose, Paris,
                                                    Calmann-Lvy, 1974  Ren Major, De l'lection. Freud
ente hereditrio.                                   face aux idologies allemande, amricaine et soviti-
    Tomada por Darwin do evolucionismo              que, Paris, Aubier, 1986  Norman Kiell, Freud without
lamarckista, a tese da hereditariedade dos ca-      Hindsight. Review of his Work 1893-1939, Madison,
522      Moll, Albert

International Universities Press, 1988  Peter Gay, Um    dade do grande pblico de imaginar que algu-
judeu sem Deus (1987), Rio de Janeiro, Imago, 1992 
                                                          mas idias possam tambm ser expressas em
Jacques Le Rider, Modernit viennoise et crises d'iden-
tit (1990), Paris, PUF, 1994  Yosef Hayim Yerushalmi,   um nmero restrito de pginas."
Le Mose de Freud. Judasme terminable et intermina-
ble (New Haven, 1991), Paris, Gallimard, 1993  Ilse       Albert Moll, Untersuchungen ber die Libido sexualis,
Grubrich-Simitis, Freuds Moses Studie als Tagtraum.       Berlim, Fischers Medizinische Buchhandlung, H.Korn-
Ein biographischer Essay (1990), Frankfurt, Fischer,      feld, 1897; Das Sexualleben des Kindes, Berlim,
1994.                                                     H.Walter, 1908  Les Premiers psychanalystes, Mi-
                                                          nutes de la Socit psychanalytique de Vienne, II,
 PATRIARCADO.                                             1908-1910 (N. York, 1967), Paris, Gallimard, 1978 
                                                          Frank J. Sulloway, Freud, Biologist of the Mind, N. York,
                                                          Basic Books, 1979.

Moll, Albert (1862-1939)                                   HOMOSSEXUALIDADE; LIBIDO; SEDUO, TEORIA
mdico alemo                                             DA.

    Com Richard von Krafft-Ebing* e Havelock
Ellis*, Albert Moll foi um dos fundadores da
sexologia*. Filho de um comerciante judeu,                Monchy, Ren de (1893-1969)
estudou medicina e neurologia em Berlim, Vie-             mdico e psicanalista neerlands
na e Paris, onde freqentou, como Sigmund                    Filho de uma famlia de comerciantes, Ren
Freud*, o salo de Jean Martin Charcot*, antes            De Monchy encontrou-se com Sigmund Freud*
de iniciar-se na prtica da sugesto*, com Hip-           pela primeira vez no congresso da International
polyte Bernheim* em Nancy. Em 1889, publi-                Psychoanalytical Association * (IPA) em Haia,
cou um livro sobre a hipnose* que o tornou                em 1920. Em 1934, depois da partida de Johan
clebre no mundo inteiro, e depois consagrou-             Van Ophuijsen* para os Estados Unidos*, ten-
se ao tratamento das perverses* sexuais. Em              tou resolver os terrveis conflitos ocorridos nos
1897, publicou Untersuchungen ber die Libi-              Pases Baixos* entre a Nederlandse Vereniging
do sexualis, obra monumental em que, ao                   voor Psychoanalyse (NVP), fundada em 1917,
contrrio dos seus antecessores, inclua o cam-           e a nova Vereniging voor Psychoanalyse in
po das perverses sexuais no da sexualidade*              Nederland (VPN), criada no ano anterior. Pri-
dita normal, marcando assim uma etapa impor-              meiro nitidamente hostil aos imigrantes judeus,
tante na histria da sexologia. Sublinhava tam-           fez declaraes anti-semitas. Depois, mudou
bm que era preciso desconfiar das acusaes              completamente de opinio, aps um ano pas-
de abuso sexual feitas pelas crianas contra os           sado em Viena*, fazendo uma anlise com Ruth
adultos.                                                  Mack-Brunswick*. Foi nessa poca tambm
    Freud inspirou-se nessa obra para a elabora-          que casou-se em primeiras npcias com Vera
o da sua teoria da sexualidade infantil, mas            Palmstierna, judia sueca, membro fundador da
modificou completamente a sua perspectiva,                Associao Psicanaltica Fino-Sueca.
estendendo a noo de sexualidade a um outro                 Com o apoio de Freud, que visitou em 1938,
domnio, diferente da genitalidade, e inventan-           conseguiu fundir os dois grupos, recriando uma
do a idia de uma "disposio perversa polimor-           NVP unificada.
fa". Descontente, Moll publicou em 1908 um                   Em 1939, escreveu a Anna Freud*, ento em
livro dedicado  sexualidade da criana, na qual          Londres, para lhe propor que fosse morar em
no mencionava a importncia dos Trs ensaios             Amsterdam, onde a situao seria menos peno-
sobre a teoria da sexualidade*. Freud ofendeu-            sa para ela. Ele sabia de suas dificuldades com
se e, por ocasio de uma sesso da Sociedade              Melanie Klein*. Em 1943, como sua mulher
Psicolgica das Quartas-Feiras*, atacou violen-           no podia mais praticar a psicanlise* na
tamente o sexlogo, atribuindo a si mesmo a               Holanda, instalaram-se em Estocolmo, onde ele
descoberta da sexualidade infantil: "Ele [Moll]           se tornou, por sua vez, um estrangeiro como
 um indivduo mesquinho, rancoroso e limita-             aqueles que ele outrora quisera banir.
do. Nunca exprime uma opinio firme [...].                   Na Sucia, teve ento um papel determi-
Soube servir-se de uma vantagem: a incapaci-              nante, em razo da sua posio na IPA e do seu
                                                                              Moreno, Jacob Levy            523

status de grande profissional da clnica freudia-       ro, no seu pas, a dar s idias freudianas um
na. Em 1952, voltou  Holanda, continuando a            lugar importante, primeiro na Bahia e depois no
manter contato com analisandos suecos.                  Rio de Janeiro, onde dirigiu o hospital nacional
                                                        de alienados. Foi tambm um reformador dos
 Nigel Moore, "Psychoanalyse in Scandinavia, Part
                                                        asilos. Humanizou os mtodos de tratamento
one, Sweden and Findland", The Scandinavian Psy-
choanalytical Review, 1, vol.1, Copenhague, 1978  C.   dos doentes mentais, principalmente suprimin-
Brjnkgreve, Psychoanalyse in Nederland, Amsterdam,      do os instrumentos clssicos do confinamento.
De Arbeiderspers, 1984  H. Groen-Prakken, "The         No praticou pessoalmente a psicanlise*, mas
psychoanalytical society and the analyst", The Dutch    criou em 1928, no Rio de Janeiro, a primeira
Annual of Psychoanalysis, 1993  Per Magnus Johans-
son, entrevista com Maj De Monchy, 1994.                filial da Sociedade Brasileira de Psicanlise,
                                                        fundada no ano anterior por Durval Marcon-
 ESCANDINVIA.                                          des*, em So Paulo.
                                                         A. Passos, Juliano Moreira, vida e obra, Rio de Janei-
                                                        ro, So Jos, 1975  Marialzira Perestrello, "Histoire de
Monografias de Psicanlise Aplicada                     la psychanalyse au Brsil des origines  1937", Frn-
 SCHRIFTEN ZUR ANGEWANDTEN SEELEN-                      sie, 10, primavera de 1992, 283-301.
KUNDE.



Montessori, Maria (1870-1952)                           Moreno, Jacob Levy, n Jacob Levy
                                                        (1889-1974)
mdica e pedagoga italiana
                                                        psiquiatra americano
    Herdeira da tradio das Luzes, Maria
Montessori comeou a aplicar os seus mtodos               Nascido em Bucareste, Jacob Levy era de
educativos para jardins de infncia em 1906,            uma famlia judia sefardita. Seu pai, Moreno
nos bairros populares de Roma, onde as mu-              Nissim Levy (1858-1925), de origem blgara
lheres trabalhavam. Ali, fundou a Casa dei              mas de nacionalidade turca at a independncia
Bambini (Casa das Crianas). Seu mtodo, que            da Bulgria em 1878, se especializara no co-
consistia em deixar a criana livre para aprender       mrcio de objetos funerrios. Passava o tempo
por si mesma e sem constrangimentos, foi a              viajando nos Blcans e navegando no Mar Ne-
origem de muitas experincias similares, de             gro. Por volta de 1896, instalou-se em Viena*
inspirao psicanaltica ou no. Foi na escola          com sua famlia e, em 1904, estabeleceu-se em
Montessori de Viena*, a Haus des Kinder, que            Berlim. Seus negcios na empresa funerria
Anna Freud* se iniciou na pedagogia. Em 1937,           foram desastrosos.
graas  contribuio financeira de Edith Ja-              Infeliz na Alemanha*, seu filho decidiu vol-
ckson (1895-1977), uma ex-analisanda ameri-             tar a Viena, onde estudou psiquiatria sob a
cana de Freud, Anna criou a sua nursery, des-           direo de Otto Ptzl (1877-1962), aluno e
tinada s crianas pequenas, e obedecendo ao            assistente de Julius Wagner-Jauregg*, apaixo-
modelo Montessori.                                      nando-se ao mesmo tempo pela filosofia e prin-
                                                        cipalmente pelo teatro.
 BETTELHEIM, BRUNO; PSICANLISE DE CRIAN-                  Em 1921, criou o teatro de improvisao
AS; SCHMIDT, VERA.                                     (Stegreiftheater), no qual durante trs anos ex-
                                                        perimentou com atores a idia da interpretao
                                                        espontnea ou improviso catrtico, que serviria
Moreira, Juliano (1873-1933)                            de base para a sua futura reflexo sobre o psico-
psiquiatra brasileiro                                   drama*. Depois de uma passagem difcil pela
   Nascido em Salvador, Bahia, mas de cultura           cidade termal de Bad Vslau, onde comeou a
germnica, Juliano Moreira era um mdico ne-            tomar-se por um "fazedor de milagres" e a de-
gro. Amigo pessoal de Emil Kraepelin*, intro-           senvolver o que ele chamava de sua "megalo-
duziu a sua nosografia das doenas mentais no           mania existencial", realizou o sonho da sua vida
Brasil*, depois de uma viagem  Europa e de se          -- e o do seu pai -- emigrando para os Estados
formar em psiquiatria dinmica*. Foi o primei-          Unidos* em dezembro de 1925. Apresentou
524      Morgenstern, Sophie

suas idias em Filadlfia, onde recebeu a apro-           Morgenstern, Sophie,
vao de William Alanson White*. Instalou-se              ne Kabatschnik (1875-1940)
depois em Beacon, s margens do Hudson, onde              psiquiatra e psicanalista francesa
abriu uma clnica psiquitrica e, em 1936, gra-               Nascida em Grodno, na Polnia, Sophie
as ao dinheiro da mulher do ator Franchot Tone           Morgenstern foi a primeira psicanalista de
(1903-1968), fundou o primeiro teatro de tera-            crianas na Frana, ao lado de Eugnie Sokol-
pia psicodramtica. Posteriormente, fez uma               nicka*. Teve, como esta, um destino trgico.
carreira internacional, popularizando o psico-            Inicialmente mdica voluntria na clnica do
drama e a sociometria (estudo das reaes de              hospital Burghlzli*, junto a Eugen Bleuler*,
rejeio em organizaes grupais). Mudando de             conheceu Eugne Minkowski*, que reencon-
continente e de nacionalidade, Jacob Levy                 trou em Paris em 1924.
transformou a sua identidade, tomando como                    Assistente de Georges Heuyer (1884-1977),
sobrenome o nome do seu pai. A partir de ento,           durante quinze anos, membro da Sociedade
fez-se chamar J.L.Moreno. Alis, inspirou uma             Psicanaltica de Paris e do grupo da Evoluo
incrvel lenda sobre suas origens, falsificando a         Psiquitrica, desenvolveu teses sobre o dese-
sua data de nascimento e contando que sua me             nho, o brinquedo e a relao das crianas com
o dera  luz em um navio, durante uma tempes-             os pais, que a situam na linhagem do ensino de
tade, ao fazer a travessia do Mar Negro. Passou           Anna Freud*. Foi amiga de Franoise Dolto*,
ento por ser um "messias do Danbio", mira-              que sempre a reconheceu como inspiradora. Em
culosamente salvo das guas.                              1937, publicou Psicanlise infantil. Essa obra,
    Do mesmo modo, inventou um encontro em                acompanhada de um prefcio elogioso de
Viena com Sigmund Freud* e atribuiu a si pr-             Heuyer, era dedicada  memria de sua nica
prio a glria de ter fundado uma nova doutrina,           filha, Laure, morta depois de uma cirurgia. So-
superior  psicanlise*: "Doutor Freud, teria ele         phie Morgenstern nunca se recuperou dessa
declarado naquele dia, eu comeo onde o sr.               perda. No dia da chegada dos nazistas a Paris,
parou. O sr. se encontrou com pessoas no am-              16 de junho de 1940, ela decidiu suicidar-se,
biente artificial do seu escritrio. Quanto a mim,        como outros judeus imigrantes. Esse suicdio*
eu as encontro na rua, em suas casas, no seu              no foi mencionado na nota oficial que lhe
ambiente natural. O sr. analisa os seus sonhos,           consagrou Georges Parcheminey (1888-1953)
o sr. os decompe em mil pedaos. Eu lhes dou             em L'volution psychiatrique, assim como foi
a coragem de sonhar mais, de explorar concre-             banida desse artigo qualquer referncia  sua
tamente os seus conflitos e de ser criadores."            judeidade*. O autor mencionava simplesmente
    No fim da vida, sofrendo de distrbios car-           que essa mulher, de origem "polonesa" se ex-
dacos, Moreno encenou a sua prpria morte,               tinguira "tranqilamente" em Paris, depois de
segundo os princpios do psicodrama. Parou de             ter "perdido acidentalmente sua filha".
comer, s falava alemo e romeno, e recebeu
durante trs semanas,  sua cabeceira, todos os            Sophie Morgenstern, Psychanalyse infantile. Symbo-
                                                          lisme et valeur clinique des crations imaginatives chez
seus fiis, vindos do mundo inteiro.                      l'enfant, Paris, Denol, 1937  lisabeth Roudinesco,
    Foi o historiador romeno Gheorghe Bratescu            Histria da psicanlise na Frana, vol.1 (Paris, 1982),
que, pela primeira vez em 1975, invalidou as              Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989  Mireille Fleury,
                                                          Sophie Morgenstern. lments de sa vie et de son
lendas forjadas por Moreno.
                                                          oeuvre, dissertao para o CES de psiquiatria, Univer-
                                                          sidade de Bordeaux-II, 1988.
 Jacob Levy Moreno, Fondements de la sociomtrie
(Washington, 1934, Paris, 1954), Paris, PUF, 1970;
Psychothrapies de groupe et psychodrame (Beacon),
Paris, Retz, 1975; "The autobiography of J.L.Moreno       Moser, Fanny, ne von Sulzer-Wart
MD (Abridget)", Journal of Group Psychotherapy, Psy-      (1848-1925), caso Emmy von N.
chodrama and Sociometry, 42, 1, 1989  Gheorghe              Juntamente com Anna O., Lucy R., Kathari-
Bratescu, "The date and birth place of J.L. Moreno",
Group Psychotherapy and Psychodrama, 28, 1975, 2-3
                                                          na, Frau Ccilie M. e Elisabeth von R., Emmy
 Ren Marineau, J.L. Moreno et la troisime rvolution   von N.  uma das pacientes cuja histria foi
psychanalytique, Paris, Mtailli, 1989.                  apresentada por Josef Breuer* e Sigmund
                                                                                      mulheres        525

Freud* nos Estudos sobre a histeria*. Freud         vida foi uma mescla de romance policial com
relata haver utilizado o mtodo catrtico (ca-      narrativa balzaquiana.
tarse*) pela primeira vez no tratamento dessa           Aos 23 anos, ela desposou um negociante
livoniana de 40 anos, sobre cuja verdadeira         riqussimo, quarenta anos mais velho e j pai de
identidade silenciou. Viva e me de duas fi-       dois filhos, o qual, ao morrer, legou-lhe toda a
lhas, tambm elas afetadas por distrbios ner-      sua fortuna. Por isso, foi acusada de t-lo enve-
vosos, essa mulher manifestava uma grave fo-        nenado. A suspeita de assassinato lhe pesou a
bia* ante a viso de certos animais. A anlise      tal ponto que ela nunca conseguiu realizar seu
durou seis semanas, durante as quais Freud lhe      mais caro anseio: ser recebida nos sales da
fez massagens no corpo, prescreveu-lhe banhos       aristocracia europia. Levou uma vida errante,
e procurou, atravs do sono artificial, da hipno-   teve amantes entre seus mdicos e acabou se
se* e de um dilogo catrtico, libert-la de seus   apaixonando por um rapaz que lhe roubou parte
afetos dolorosos. Afirmou t-la curado. Em 1o       de sua fortuna.
de maio de 1889, numa crise de pnico, ela lhe          Suas duas filhas foram marcadas, cada qual
ordenou que se afastasse e no a tocasse mais:       sua maneira, pelos significantes da neurose
"Fique tranqilo", disse, "no fale comigo...       materna: uma se especializou em zoologia e a
No toque em mim!"                                  outra se rebelou contra os valores da classe
    Na histria oficial e mtica das origens da     dominante da qual era um produto puro. Tor-
psicanlise*, atribuiu-se a Emmy von N., por-       nou-se militante comunista e, mais tarde, tam-
tanto, a inveno da cena psicanaltica, assim      bm se interessou pelos animais, havendo pu-
como se atribuiu a Anna O. a inveno do            blicado, em 1941, uma coletnea de histrias
tratamento psicanaltico (por "limpeza de cha-      destinadas s crianas.
min"). Emmy fabricou, segundo se disse, as             Recentes trabalhos questionam os diferentes
proibies necessrias a uma nova tcnica de        diagnsticos de histeria ou melancolia feitos
tratamento, fundamentada na retirada do olhar.      por Freud e seus sucessores e propem que, na
Depois dela, o mdico tornou-se psicanalista e      verdade, Fanny Moser sofria da doena dos
se instalou fora da viso do doente, renunciando    tiques convulsivos descritos por Georges Gilles
a toc-lo e se obrigando a escut-lo.               de La Tourette (1857-1904). Nesse debate, res-
    Foi em Amsterdam, em 1965, no congresso         surge com vigor a antiga querela que sempre
da International Psychoanalytical Association*      ops os adeptos da psicognese aos da organo-
(IPA), que o historiador sueco Ola Andersson*       gnese.
exps o verdadeiro destino de Fanny Moser.
Levando em conta o que havia acontecido com          Ola Andersson, Freud avant Freud. La Prhistoire de
Ernest Jones* depois da divulgao da identi-       la psychanalyse (Estocolmo, 1961), Paris, Synthlabo,
                                                    col. "Les empcheurs de penser en rond", 1997  Henri
dade de Bertha Pappenheim* (Anna O.), ele           F. Ellenberger, Mdecines de l'me. Essais d'histoire
aguardou quatorze anos para publicar sua co-        de la folie et des gurisons psychiques, Paris, Fayard,
municao, na qual, alis, no revelou o nome       1995.
de Emmy von N. Em 1977, apoiando-se no
trabalho de Andersson, o historiador Henri F.
Ellenberger* publicou a primeira reviso do
caso, fornecendo a identidade da moa e             mulheres
acrescentando um estudo sobre o destino de
                                                     ANDREAS-SALOM, LOU; BAUER, IDA; BER-
suas duas filhas, Fanny (filha) e Mentona.
                                                    NAYS, MINNA; BONAPARTE, MARIE; DEUTSCH, HE-
    Graas a esses trabalhos, sabemos que Fan-      LENE; DOLTO, FRANOISE; FREUD, AMALIA;
ny Moser no inventou a famosa cena da psica-       FREUD, ANNA; FREUD, MARTHA; HALBERSTADT,
nlise moderna -- mesmo que a frase seja            SOPHIE; HOLLITSCHER, MATHILDE; HORNEY, KA-
autntica -- e que nunca foi curada de sua          REN; HUG-HELLMUTH, HERMINE VON; KLEIN, ME-
neurose*, nem por Freud nem por seus suces-         LANIE; LANGER, MARIE; PAPPENHEIM, BERTHA;
sivos mdicos. Fanny Moser, alis, era mais         PSICANLISE DE CRIANAS; SEXUALIDADE FEMINI-
sujeita  melancolia* do que  histeria*, e sua     NA; VIENA; WEININGER, OTTO.
526      Mller-Braunschweig, Carl

Mller-Braunschweig, Carl                                  Em 1950, acreditando escapar  desonra que
(1881-1958)                                            pesava sobre a DPG, por causa do seu passado
psicanalista alemo
                                                       nazista, Mller-Braunschweig se separou de
                                                       Boehm e criou uma nova sociedade, a Deutsche
    Com Felix Boehm*, Werner Kemper* e Ha-
                                                       Psychoanalytische Vereinigung (DPV), que foi
rald Schultz-Hencke*, Carl Mller-Braun-
                                                       integrada  IPA no ano seguinte, no congresso
schweig foi um dos psicanalistas colaboradores
                                                       de Amsterdam, enquanto a DPG ficava defini-
do Deutsche Institut fr Psychologische For-
                                                       tivamente afastada. Entretanto, as duas socie-
schung (ou Gring-Institut, ou Instituto Alemo
                                                       dades rivais propagaram durante quarenta anos
de Pesquisa Psicolgica e Psicoterapia), fun-
                                                       a mesma viso apologtica do passado, visando
dado por Matthias Heinrich Gring* em 1936,
                                                       justificar a antiga poltica de colaborao.
no mbito da nazificao da psicanlise* na
Alemanha* e da poltica de "salvamento" desta,          Les Annes brunes. La Psychanalyse sous le IIIe
defendida por Ernest Jones*.                           Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-Luc
    Analisado por Karl Abraham* e por Hanns            Evard, Paris, Confrontation, 1984  Chaim S.Katz
                                                       (org.), Psicanlise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus,
Sachs*, tornou-se secretrio do comit de ensi-        1985  Geoffrey Cocks, La Psychothrapie sous le IIIe
no da Deutsche Psychoanalytisches Gesell-              Reich (Oxford, 1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987 
schaft* (DPG) de 1923 a 1933 e membro em               Regine Lockot, Erinnern und Durcharbeiten, Frankfurt,
1930 do Berliner Psychoanalytisches Institut*          Fischer, 1985  Ici la vie continue de manire surpre-
                                                       nante, seleo de textos traduzidos por Alain de Mijolla,
(BPI). Freudiano do crculo mais ntimo, es-           Paris, Association Internationale d'Histoire de la Psy-
pecialista em metapsicologia* e nas relaes           chanalyse (AIHP), 1987  Ludger M.Hermanns, "Con-
entre psicanlise e filosofia, foi o principal art-   dies e limites da produtividade cientfica dos
fice da poltica de manuteno da DPG sob o            psicanalistas na Alemanha de 1933 a 1935", Revista
                                                       Internacional da Histria da Psicanlise, 1 (1988), Rio
regime hitlerista, desde o advento do nazismo*.
                                                       de Janeiro, Imago, 1990, 67-86  Karen Brecht, "A
Em 1935, obrigou os judeus da DPG a pedirem            psicanlise na Alemanha nazista: adaptao  ins-
demisso, para que esta pudesse "arianizar-se",        tituio, relaes entre psicanalistas judeus e no ju-
e participou dos trabalhos do Gring-Institut.         deus, ibid., 87-98  "Compte rendu du sjour du docteur
Depois de manobras visando garantir a autono-          John Rickman  Berlin pour interroger les psychana-
                                                       lystes, 14 et 15 octobre 1946", Revue Internationale de
mia da Wiener Psychoanalytische Vereinigung            l'Histoire de la Psychanalyse, 1, 1988, 157-63.
(WPV) e das Edies Psicanalticas de Viena*,
foi proibido de ensinar e se indips com Gring.        BJERRE, POUL; JUNG, CARL GUSTAV; LAFOR-
A partir de 1938, teve crises de depresso. Em         GUE, REN; MAUCO, GEORGES; MITSCHERLICH,
1946, com Felix Boehm e o apoio de Jones e             ALEXANDER.
Anna Freud*, reconstruiu a psicanlise na
Alemanha, sem preocupar-se com depuraes.
    Entretanto, quando John Rickman* foi a             Musatti, Cesare (1897-1989)
Berlim para interrogar os poucos psicanalistas         psicanalista italiano
que tinham permanecido na Alemanha sob o                   Nascido em Dolo, na provncia de Veneza,
nazismo, a fim de avaliar a sua capacidade de          de me catlica e pai judeu, advogado, militante
formar candidatos didatas, julgou Mller-              socialista e antifascista que fora eleito senador,
Braunschweig, assim como Boehm, inapto para            Cesare Musatti estudou matemtica e filosofia
exercer essa funo, no por sua colaborao           na universidade de Pdua, onde encontrou Vit-
com Gring, mas por razes de deteriorao             torio Benussi*, professor de psicologia experi-
psquica. O representante da International Psy-        mental, que tambm fazia conferncias sobre
choanalytical Association * (IPA), notvel re-         psicanlise*. Tornou-se seu assistente e seu
formador da psiquiatria inglesa durante a guer-        sucessor em 1928. Sua relao com a psican-
ra, participou efetivamente de uma poltica de         lise parece, entretanto, mais antiga. Como in-
reconstruo da DPG, consistindo no em jul-           dica o ttulo de um dos seus livros, ele se apre-
gar os psicanalistas em funo do seu engaja-          sentava, com humor, como o "irmo gmeo da
mento no nazismo, mas em avaliar a sua suposta         psicanlise", fazendo referncia assim  sua
normalidade psquica.                                  data de nascimento: 20 de setembro de 1897.
                                                                                 Musatti, Cesare          527

Naquele dia, Sigmund Freud* passara de trem          em 1980 e permanece como modelo no plano
diante da sua casa natal, vindo de Pdua. No dia     filolgico. Essa atividade institucional e edito-
seguinte, em Viena*, redigiu a sua clebre de-       rial, ao lado de uma produo prolfica, fez de
clarao a Wilhelm Fliess*: "No acredito mais       Musatti o verdadeiro "pai" da psicanlise na
na minha neurotica."                                 Itlia, embora ele recusasse esse ttulo, que
    Professor e diretor do Instituto de Psicologia   gostaria de atribuir a Edoardo Weiss.
Experimental, Musatti participou, com Emilio             Nos anos 1960, Musatti foi confrontado com
Servadio*, Nicola Perrotti* e alguns outros, do      aquilo que considerava um duplo perigo para a
pequeno grupo que se constituiu em torno de          psicanlise na Itlia*: ou que esta se tornasse
Edoardo Weiss* em Roma, para formar a nova           um discurso de consolao, na perspectiva do
Societ Psicoanalitica Italiana (SPI). De 1932 a     humanismo cristo originrio do conclio Vati-
1934, deu um ciclo de cursos sobre a psican-        cano II, ou que se transformasse em arma a
lise, que constituiria o fundamento do seu futu-     servio de uma revoluo social e poltica, con-
ro tratado. O contedo desse livro, e tambm as      duzida  luz de um marxismo liberalizado. Ao
origens judaicas do autor, formariam, em 1938,       mesmo tempo, Musatti, que em 1949-1950 mi-
a matria da acusao principal que resultou na      litara por uma psicanlise livre de qualquer
sua excluso da universidade.                        ideologia, especialmente por ocasio de uma
    Ensinando psicologia durante alguns meses        violenta polmica nas colunas do dirio
na universidade livre de Urbino, autorizado a        comunista L'Unit com o filsofo marxista An-
permanecer na Itlia, trabalhou mais ou menos        tonio Banfi (que acusava a psicanlise de ser
clandestinamente durante a guerra na empresa         apenas uma ideologia burguesa pansexualista),
Olivetti, onde fundou o primeiro laboratrio de      tornou-se o defensor intransigente de uma psi-
psicologia industrial.                               canlise perfeitamente de acordo com as nor-
    Em 1945, Musatti reintegrou-se ao ensino         mas da International Psychoanalytical As-
superior, como professor de psicologia na uni-       sociation * (IPA), e como tal cada vez menos
versidade de Milo. Fez pesquisas sobre ques-        subversiva. Por isso foi, a partir dos anos 1970,
tes de epistemologia e sobre o estudo experi-       um dos mais combativos adversrios da difuso
mental da percepo do espao, do movimento          das idias de Jacques Lacan* na Itlia. Assim,
e da viso das cores. Fato notvel, esse interesse   era considerado o representante das idias mais
contnuo pela psicologia experimental nunca          conservadoras, ao passo que continuara sendo
lhe pareceria contraditrio com seu trabalho de      um homem de esquerda, com sua liberdade de
                                                     expresso, no que era fiel  tradio familiar.
psicanalista. Sempre procuraria fundar a uni-
dade da psicologia sobre a noo de racionali-           No fim da vida, usando o seu talento peda-
dade. Entretanto, bem rapidamente seu interes-       ggico e o seu carisma, Musatti multiplicou as
se pela psicanlise predominou sobre as suas         intervenes na mdia, popularizando as idias
outras atividades: retomou seus cursos na uni-       psicanalticas por meio de artigos de difuso e
versidade de Pdua e publicou em 1949 o cle-        de crnicas televisadas, que lhe valeram uma
bre Trattato di Psicoanalisi, apresentao rigo-     imensa fama e um enorme capital de simpatia.
rosa e ortodoxa da teoria freudiana, acompa-
                                                      Sergio Benvenuto, A glance at psychoanalysis in Italy,
nhada por alguns exemplos dos seus prprios          indito  Paolo Boringhieri, "L'dition des Opere di
trabalhos. Em 1955, voltou a publicar a Rivista      Sigmund Freud", Revue Internationale d'Histoire de la
italiana di psicoanalisi. Esta substituiu as duas    Psychanalyse, 4, 1991, 323-30  Contardo Calligaris,
efmeras revistas nascidas depois da Liberao,      "Petite histoire de la psychanalyse en Italie", Critique,
                                                     333, fevereiro de 1975, 175-95  Michel David, La
Psicoanalisi, fundada por Joachim Flescher, e        Psicoanlisi nella cultura italiana (1966), Turim, Bollati
Psyche, fundada por Perrotti. Ela se tornou          Boringhieri, 1990  Sigmund Freud, La Naissance de
assim novamente o rgo oficial da SPI, da qual      la psychanalyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956;
Musatti seria presidente entre 1951 e 1955 e de      Briefe an Wilhelm Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fis-
                                                     cher, 1986  Cesare Musatti, Trattato di Psicoanalisi
1959 a 1963. Em 1963, comeou a dirigir, para        (1949), Turim, Boringhieri, 1977; Mia sorella gemella la
o editor Boringhieri, em Turim, a edio das         psicoanalisi, Roma, Editori Riuniti, 1982; (org.), Opere
obras completas de Freud, que ficou terminada        di Sigmund Freud, 12 vols., Turim, Boringhieri, 1967-
528       Museu Freud

1980  Arnaldo Novelletto, "Italy", in Peter Kuetter (org.),   ingls da corrente da psiquiatria dinmica*,
Psychoanalysis International. Guide to psychoanalysis
                                                               herdada do magnetismo mesmeriano, que leva-
throughout the world, Stuttgart, Frommann-Holzboog,
1992, 195-213  Michele Ranchetti, "Les Oeuvres com-           ria ao hipnotismo, atravs da experincia do
pltes et l'dition des Opere di Sigmund Freud", Revue         espiritismo*, isto , da busca de um mais-alm
Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991,         da conscincia* (ou eu subliminar). Preocupa-
330-56  Antonio Alberto Semi (org.), Trattato di psicoa-      do em provar experimentalmente a existncia
nalisi, vol.2, XXXVI-XLI, Milo, Raffaello Cortina, 1988
 Silvia Vegetti Finzi, Storia della psicoanalisi, Milo,
                                                               do mundo espiritual, admitia a hiptese da vida
Mondadori, 1986; "Cesare Musatti, 1897-1989", Ency-            depois da morte e a possibilidade de comunica-
clopaedia Universalis, 1990.                                   o com os espritos dos mortos. Assim, foi um
                                                               dos tericos do automatismo mental* e por isso
 COMUNISMO; FREUDISMO; FREUDO-MARXISMO;                        um dos pioneiros da histria da descoberta do
IGREJA; LACANISMO; PANSEXUALISMO.
                                                               inconsciente*. Tambm foi o primeiro autor
                                                               ingls a falar dos trabalhos de Sigmund Freud*
Museu Freud                                                    na Gr-Bretanha*. Thodore Flournoy* e An-
                                                               dr Breton (1896-1966) se inspiraram nas suas
 FREUD MUSEUM.
                                                               teses.

                                                                Frederick Myers, La Personnalit humaine, ses sur-
Myers, Frederick William Henry
                                                               vivances, ses manifestations supra-normales (Lon-
(1843-1901)                                                    dres, 1903), Paris, Alcan, 1919  Jean Starobinski,
psiclogo e escritor ingls                                    "Freud, Breton, Myers", L'Arc, 34, 1968, 87-96.
   Fundador, em 1882, da Society for Psychical
Research e inventor da palavra "telepatia"*,                    HIPNOSE; PERSONALIDADE MLTIPLA; PREIS-
Frederick Myers foi o principal representante                  WERK, HLNE; SUGESTO.
                                              N
Nacht, Sacha (1901-1977)                                    Clnico notvel, sempre preocupado com o
psiquiatra e psicanalista francs                        que chamava de "eficcia teraputica", foi tam-
    Como Maurice Bouvet*, Daniel Lagache*,               bm um excelente didata. Sacha Nacht deixou
Franoise Dolto* e Jacques Lacan*, de quem               a sua marca na Frana*, formando muitos
foi amigo, Sacha Nacht pertencia  segunda               psicanalistas da terceira gerao francesa. Na
gerao* dos psicanalistas franceses. Nascido            SPP, cujo instituto reorganizou, ocupou-se du-
em Racaciuni, na Romnia*, era de uma famlia            rante toda a sua vida do ensino da psicanlise e
de judeus convertidos. Em 1919, emigrou para             de sua transmisso aos alunos. Seus trabalhos
Paris, a fim de continuar seus estudos de medi-          abordaram a tcnica psicanaltica*, o eu* e o
cina, j comeados no seu pas, e em 1922,               masoquismo*.
descobriu a obra freudiana, quando da repre-              Sacha Nacht, Le Masochisme (1938), Paris, Payot,
sentao da pea de Henri Lenormand (1882-               1975; De la pratique  la thorie psychanalytique,
1951), O comedor de sonhos. Aluno de Henri               Paris, PUF, 1950; La Psychanalyse d'aujourd'hui, 2
Claude* e mdico dos hospitais psiquitricos,            vols., Paris, PUF, 1956; La Prsence du psychanalyste,
                                                         Paris, PUF, 1963  Denise Saada, S. Nacht, Paris,
fez uma anlise aos 27 anos com Rudolph                  Payot, 1972  lisabeth Roudinesco, Histria da psica-
Loewenstein*, tornando-se assim, no seio da              nlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro,
Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP), o mais           Jorge Zahar, 1988.
jovem titular de sua gerao. Foi o nico a ter
um contato pessoal com Sigmund Freud*. Logo
aps o congresso da International Psychoana-             Naesgaard, Sigurd (1885-1956)
lytical Association * (IPA) em Marienbad, em             psicanalista dinamarqus
1936, Nacht foi a Viena* para pedir a Freud que              De formao filosfica, Sigurd Naesgaard
o analisasse. Este aceitou, mas como Nacht no           se interessou pelas idias freudianas depois da
falava alemo e o mestre no entendia mais o             Primeira Guerra Mundial. Foi um pioneiro em
francs para conduzir o tratamento, foi encami-          seu pas, onde a psicanlise* teve apenas pou-
nhado para Heinz Hartmann*.                              cos representantes. Em 1922, defendeu uma
    Recusando-se a emigrar e tambm a usar a             tese de doutorado sobre "a estrutura da consci-
estrela amarela, Nacht ficou na Frana durante           ncia", e depois comeou a praticar a psican-
a Ocupao nazista. Em 1942, engajou-se em               lise, sem ter recebido nenhuma formao. Ge-
uma rede da Resistncia. Depois da guerra,               neroso e apaixonado pelo freudismo*, era de
tornou-se, na SPP, adversrio declarado da an-          certa forma adepto da psicanlise selvagem e
lise leiga* e lder da corrente mdica, desejan-         no hesitava em assumir riscos considerveis,
do, como muitos psicanalistas americanos da              principalmente com pacientes psicticos. Em
IPA, reservar apenas para os mdicos a prtica           agosto de 1931, participou, com Alfhild
do tratamento. Da o papel "conservador" que             Tamm*, Harald Schjelderup* e Yrj Kulovesi*
desempenhou quando da ciso* de 1953, diante             da famosa reunio dos psicanalistas escandina-
de Daniel Lagache, que representava a corrente           vos, que levaria  criao de duas sociedades,
liberal e universitria, aberta  anlise leiga          uma reunindo a Sucia e a Finlndia, outra a
(Laienanalyse).                                          Dinamarca e a Noruega.
                                                   529
530      narcisismo

    Em 1933, publicou uma obra em dois vo-              logista Paul Ncke (1851-1913) introduziu o termo
lumes sobre a psicanlise, que enviou a                 em alemo.
Sigmund Freud*. No mesmo ano, aproximou-                    Na tradio grega, o termo narcisismo desig-
se de Wilhelm Reich*, quando este permaneceu            na o amor de um indivduo por si mesmo. A
em Copenhague de maio a novembro. Reich lhe             lenda e o personagem de Narciso foram celebri-
props que fizesse uma anlise, mas ele recusou         zados por Ovdio na terceira parte de suas Me-
porque no sentia necessidade disso. Enviou-            tamorfoses.
lhe um paciente, que se suicidou depois de                  Filho do deus Cfiso, protetor do rio do
algumas semanas de tratamento. Esse suicdio*           mesmo nome, e da ninfa Lirope, Narciso era de
provocou escndalo, precipitando a partida de           uma beleza mpar. Atraiu o desejo de mais de
Reich, j tratado de "porngrafo" pela imprensa         uma ninfa, dentre elas Eco, a quem repeliu.
dinamarquesa. No dia 10 de novembro, o                  Desesperada, esta adoeceu e implorou  deusa
psicanalista Erik Carsten se dirigiu a Freud para       Nmesis que a vingasse. Durante uma caada,
tomar a defesa de Reich, dizer que Naesgaard            o rapaz fez uma pausa junto a uma fonte de
era louco e que sua atividade prejudicava consi-        guas claras: fascinado por seu reflexo, sups
deravelmente a psicanlise. Alm disso, pedia           estar vendo um outro ser e, paralisado, no mais
ao mestre de Viena* que assumisse uma posio           conseguiu desviar os olhos daquele rosto que
clara sobre a obrigao, para os clnicos, de           era o seu. Apaixonado por si mesmo, Narciso
recorrer  anlise didtica*. Freud no respon-         mergulhou os braos na gua para abraar aque-
deu, limitando-se a confirmar que Reich era             la imagem que no parava de se esquivar. Tor-
realmente psicanalista, apesar de sua "ideologia        turado por esse desejo impossvel, chorou e
poltica".                                              acabou por perceber que ele mesmo era o objeto
    Como muitos outros pioneiros de sua gera-           de seu amor. Quis ento separar-se de sua pr-
o*, Naesgaard se desviou do freudismo cls-           pria pessoa e se feriu at sangrar, antes de se
sico e organizou formaes de terapeutas "sel-          despedir do espelho fatal e expirar. Em sinal de
vagens", estimulando, por exemplo, alguns de            luto, suas irms, as Niades e as Dades, corta-
seus pacientes a praticarem a psicanlise. Para         ram os cabelos. Quando quiseram instalar o
isso, criou uma associao, Psychoanalytisk             corpo de Narciso numa pira, constataram que
Samfund, na qual ensinou, e para a qual convi-          havia se transformado numa flor.
dou alguns oradores estrangeiros. Redigiu tam-              At o fim do sculo XIX, o termo narcisismo
bm cerca de trinta livros sobre educao, psi-         foi utilizado pelos sexlogos para designar se-
cologia e filosofia.                                    letivamente uma perverso sexual caracteriza-
 Reich parle de Freud (N. York, 1967), Paris, Payot,   da pelo amor dedicado pelo sujeito* a si mesmo.
1970  Reimer Jensen e Henning Paikin, "On psychoa-         Em 1908, Isidor Sadger* falou do narcisis-
nalysis in Denmark", Scandinavian Psychoanalytic Re-    mo, a propsito do amor prprio, como uma
view, vol.3, 1980, 103-16.
                                                        modalidade de escolha de objeto* nos homos-
 ESCANDINVIA                                           sexuais; distinguiu-se de Havelock Ellis ao
                                                        considerar o narcisismo no como uma perver-
                                                        so*, mas como um estdio normal da evoluo
narcisismo                                              psicossexual do ser humano.
al. Narzissmus; esp. narcisismo; fr. narcissisme;           O termo narcisismo surgiu pela primeira vez
ing. narcissism                                         na pena de Freud numa nota acrescentada em
                                                        1910 aos Trs ensaios sobre a teoria da sexua-
Termo empregado pela primeira vez em 1887, pelo
psiclogo francs Alfred Binet (1857-1911), para
                                                        lidade*. Falando dos "invertidos" e, portanto,
descrever uma forma de fetichismo* que consiste
                                                        ainda no utilizando a palavra "homossexual",
em se tomar a prpria pessoa como objeto sexual.        Freud escreveu que eles "tomam a si mesmos
O termo foi depois utilizado por Havelock Ellis*, em    como objetos sexuais" e, "partindo do narcisis-
1898, para designar um comportamento perverso           mo, procuram rapazes semelhantes  sua pr-
relacionado com o mito de Narciso. Em 1899, em          pria pessoa, a quem querem amar tal como sua
seu comentrio sobre o artigo de Ellis, o crimino-      me os amou".
                                                                                  narcisismo       531

    Em 1910, em seu ensaio "Leonardo da Vinci        uma enriquece, a outra empobrece, e vice-ver-
e uma lembrana de sua infncia" (1910), e em        sa. Nessa perspectiva, a libido de objeto, em seu
1911, no estudo que fez sobre o caso Schreber*,      desenvolvimento mximo, caracteriza o estado
Freud, a exemplo de Sadger, considerou o nar-        amoroso, ao passo que, inversamente, em sua
cisismo um estdio* normal da evoluo               expanso mxima, a libido do eu fundamenta a
sexual.                                              fantasia* do fim do mundo no paranico.
    Foi em 1914, em "Sobre o narcisismo: uma             O desenvolvimento terico constitudo por
introduo", que o termo adquiriu o valor de um      esse texto implicou uma primeira reformulao
conceito. Fenmeno libidinal, o narcisismo           da teoria das pulses*, desaparecendo a separa-
passou ento a ocupar um lugar essencial na          o entre pulses do eu e pulses sexuais e
teoria do desenvolvimento sexual do ser huma-        sendo o eu definido como "um grande reserva-
no. A elaborao desse texto apoiou-se no es-        trio de libido".
tudo das psicoses* e, principalmente, na contri-         Antes desse avano terico, porm, Freud
buio da Karl Abraham*. Sem utilizar essa           deparou com um obstculo a propsito do nar-
palavra, o berlinense, num texto de 1908 que         cisismo primrio no momento de definir a rela-
versava sobre a demncia precoce, havia des-         o deste com o auto-erotismo* que fora iden-
crito o processo de desinvestimento do objeto e      tificado nos Trs ensaios sobre a teoria da
convergncia da libido* para o sujeito: "O           sexualidade. Assim, postulou um desenvolvi-
doente mental dedica a si mesmo, como objeto         mento do eu em dois tempos, com "uma nova
sexual nico, toda a libido que o homem normal       ao psquica" seguindo-se ao auto-erotismo,
volta para o meio vivo ou animado. A superes-        para que fosse possvel atingir o estdio do
timao sexual diz respeito to-somente a ele."      narcisismo primrio. Quando queremos es-
Freud adotaria essa definio da psicose na          tabelecer uma correspondncia entre esse de-
vigsima sexta lio das Conferncias introdu-       senvolvimento e a evoluo pulsional, a pas-
trias sobre psicanlise*.                           sagem das pulses sexuais parciais para sua
    No texto de 1914, a observao do delrio de     unificao, somos levados a considerar que o
grandeza no psictico levou Freud a definir o        narcisismo infantil ou primrio  contempor-
narcisismo como a atitude resultante da trans-       neo da constituio do eu.
posio, para o eu* do sujeito*, dos investimen-         Como se pode constatar, e o prprio Freud
tos libidinais antes feitos nos objetos do mundo     o reconheceu, a questo da localizao do nar-
externo. Freud observou ento que esse movi-         cisismo primrio levanta inmeras dificul-
mento de retirada s pode produzir-se num            dades. Ele , segundo Freud, mais difcil de
segundo tempo, este precedido de um inves-           observar que de deduzir. Todavia, a ttulo de
timento dos objetos externos por uma libido          observao indireta, Freud destacou a admira-
proveniente do eu. Assim, podemos falar de um        o parental por "his majesty the baby" como
narcisismo primrio, infantil, que a observao      sendo a manifestao, nos pais, de seu prprio
das crianas, bem como a dos "povos primiti-         narcisismo primrio abandonado, em cujo lugar
vos", ambos caracterizados por sua crena na         constituiu-se progressivamente seu ideal do eu.
magia das palavras e na onipotncia do pensa-        "O amor dos pais", escreveu Freud, "to tocante
mento, viria confirmar. O narcisismo primrio        e, no fundo, to infantil, no  outra coisa seno
diria respeito  criana e  escolha que ela faz     seu narcisismo renascido, que, a despeito de sua
de sua pessoa como objeto de amor, numa etapa        metamorfose em amor de objeto, manifesta ine-
precedente  plena capacidade de se voltar para      quivocamente sua antiga natureza."
objetos externos.                                        No contexto da elaborao da segunda tpi-
    Assim, Freud  levado, no que constitui um       ca*, Freud retornou a essa questo da localiza-
dos pontos fortes desse texto, a considerar a        o do narcisismo primrio, que foi ento situa-
existncia permanente e simultnea de uma            do como o primeiro estado da vida -- anterior,
oposio entre a libido do eu e a libido do          portanto,  constituio do eu --, caracterstico
objeto, e a formular a hiptese de um movimen-       de um perodo em que o eu e o isso* so
to de gangorra entre as duas, de tal sorte que, se   indiferenciados, e cuja representao concreta
532     narcisismo

poderamos conceber, por conseguinte, sob a          trbios narcsicos, contribuiu para o desenvol-
forma da vida intra-uterina. Como assinalam          vimento da corrente da Self Psychology*. Em
Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, essa        contraste com essas concepes, Melanie
nova formulao teve por conseqncia apagar         Klein*, postulando a existncia primria de re-
qualquer distino entre o auto-erotismo o nar-      laes de objeto, foi levada a rejeitar tanto a
cisismo, e " difcil discernir, do ponto de vista   idia de narcisismo primrio quanto a de estdio
tpico, o que  investido no narcisismo primrio     narcsico, falando to-somente em estados nar-
entendido dessa maneira".                            csicos ligados a retornos da libido para objetos
    A definio do narcisismo secundrio  me-       internalizados.
nos problemtica e a formulao da segunda               Foi sobre o ponto at hoje confuso da loca-
tpica no modifica sua concepo, muito em-         lizao do narcisismo primrio e de sua relao
bora, a partir da redao de Mais-alm do prin-      com a constituio do eu que se fundamentou a
cpio de prazer*, Freud viesse a abandonar cada      concepo lacaniana do estdio do espelho*,
vez mais esse conceito, cuja ausncia convm         desenvolvida em 1949. Para Jacques Lacan*, o
assinalarmos no Esboo de psicanlise*. O nar-       narcisismo originrio constitui-se no momento
cisismo secundrio ou narcisismo do eu, portan-      em que a criana capta sua imagem no espelho,
to, no incio da dcada de 1920, mantm-se           imagem esta que, por sua vez,  baseada na do
como o resultado, manifesto na clnica da psi-       outro, mais particularmente da me, cons-
cose, da retirada da libido de todos os objetos      titutiva do eu. O perodo de auto-erotismo, por-
externos. Mas o narcisismo secundrio no se         tanto, corresponde  fase da primeira infncia,
limita a esses casos extremos, uma vez que o         perodo das pulses parciais e do "corpo des-
investimento libidinal do eu coexiste, em todo       pedaado", marcado por aquele "desamparo
ser humano, com os investimentos objetais,           originrio" do beb humano cujo retorno sem-
havendo Freud postulado a existncia de um           pre possvel constitui uma ameaa, a qual se
processo de equilbrio energtico entre as duas      encontra na base da agressividade.
formas de investimento que participam de Eros,           Articulada com a teoria lacaniana, que reco-
a pulso de vida, e de seu combate contra as         nhece a existncia do narcisismo primrio antes
pulses de morte. Por outro lado, e isso atesta o    mesmo do estdio do espelho, a reflexo de
carter incontornvel que teve esse conceito na      Franoise Dolto* situou as razes do narcisismo
evoluo da teoria freudiana do desenvolvi-          no momento da experincia privilegiada que 
mento psquico, o narcisismo constitui, desde o      constituda pelas palavras maternas, mais cen-
texto de 1914, o primeiro esboo do que viria a      tradas na satisfao de desejos do que no aten-
se transformar no ideal do eu*.                      dimento de necessidades.
    A despeito de suas insuficincias e de seu
estatuto ambguo, o conceito de narcisismo ser-       Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da sexua-
                                                     lidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145; SE,
viu de ponto de partida para inmeras elabo-         VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; Leonardo da Vinci
raes ps-freudianas.                               e uma lembrana de sua infncia (1910), ESB, XI,
    Efetuando uma anlise espectral do conceito      59-126; GW, VIII, 128-211; SE, XI, 63-129; OC, X,
de narcisismo, Andr Green, em 1976, fez o           79-164; "Notas psicanalticas sobre um relato autobio-
                                                     grfico de um caso de parania (Dementia para-
recenseamento do "destino do narcisismo" de-         noides)" (1911), ESB, XII, 23-104; GW, VIII, 240-316;
pois de Freud, sublinhando que os psicanalistas      SE, XII, 1-79; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF, 1954,
"dividiram-se em dois campos conforme sua            263-321; Totem e tabu (1913), ESB, XIII, 17-192; GW,
posio a respeito da autonomia do narcisis-         IX; SE, XIII, 1-161; Paris, Gallimard, 1993; "Sobre o
                                                     narcisismo: uma introduo" (1914), ESB, XIV, 89-122;
mo". Em nome da defesa dessa autonomia,              GW, X, 138-70; SE, XIV, 73-102; in La Vie sexuelle,
convm assinalar a contribuio do psicanalista      Paris, PUF, 1969, 80-105; Conferncias introdutrias
francs Bela Grunberger, que concebeu o nar-         sobre psicanlise (1916-1917), ESB, XV-XVI; GW, XI;
cisismo como uma instncia psquica da mesma         SE, XV-XVI; Paris, Payot, 1973; Mais-alm do princpio
                                                     de prazer (1920), ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69;
ordem que as instncias freudianas da segunda        SE, XVIII 1-64; in Essais de psychanalyse, Paris,
tpica, e a do psicanalista norte-americano          Payot, 1981, 41-115; Psicologia das massas e anlise
Heinz Kohut*, que, a partir da clnica dos dis-      do eu (1921), ESB, XVIII, 91-184; GW, XIII, 73-161; SE,
                                                                                             nazismo       533

XVIII, 65-143; OC, XVI, 1-83, O eu e o isso (1923), ESB      modo, ele procurava livrar-se, alm das demais
XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX, 1-59; in Essais
de psychanalyse, 219-52, Paris, Payot, 1981; Esboo
                                                             "raas inferiores", de todos os homens conside-
de psicanlise (1938), ESB, XXIII, 168-246; GW, XVII,        rados "tarados" ou incmodos para o corpo
67-138; SE, XXIII, 139-207; Paris, PUF, 167  Karl           social. Assim, a homossexualidade* e a loucu-
Abraham, "Les Diffrences psychosexuelles entre              ra* foram tratadas pelo nacional-socialismo co-
l'hystrie et la dmence prcoce" (1908), in Oeuvres
compltes, vol.I, 1907-1914, Paris, Payot, 1965  Lou
                                                             mo equivalentes da judeidade*, tudo isso com
Andreas-Salom, L'Amour du narcissisme, Paris, Gal-          base na teoria da hereditariedade-degeneres-
limard, 1980  Dictionnaire des personnages, Paris,          cncia*.
Laffont, col. "Bouquins", 1986  Franoise Dolto, No             Em 1939, criaram-se institutos de eutansia
jogo do desejo. Ensaios clnicos (Paris, 1981), S. Pau-
lo, tica, 1996; A imagem inconsciente do corpo (Paris,      para executar, por meio de venenos diversos,
1984), S. Paulo, Perspectiva, 1992  Pierre Dessuant,        trs categorias de pessoas: os doentes que so-
Le Narcissisme, Paris, PUF, col. "Que sais-je?", 1994        friam de distrbios mentais ou neurolgicos
 Andr Green, "Le Narcissisme primaire, structure ou
                                                             (esquizofrnicos, dementes senis, epilticos
tat?", L'Inconscient, 1966, 1, 127-56, 1967, 2, 89-116;
"Un, Autre, Neutre: valeurs narcissiques du mme",           etc.); os pacientes hospitalizados por mais de
Nouvelle Revue de Psychanalyse, 1976, 13, 37-79             cinco anos; os alienados criminais e, com eles,
Bela Grunberger, Le Narcissisme. Essais de psycha-           todos os sujeitos visados pela legislao racista.
nalyse, Paris, Payot, 1971; "tude sur le narcissisme",
Revue Franaise de Psychanalyse, 1965, 29, 5-6;
                                                             Foi na antiga priso de Brandemburgo-Havel,
Narcisse et Anubis, Paris, Des Femmes, 1989  Heinz          transformada em instituto de eutansia, que se
Kohut, Le Soi (N. York, 1971), Paris, PUF, 1991             deu, em janeiro de 1940, a primeira tentativa de
Jacques Lacan, "O estdio do espelho como formador           execuo mediante o uso de gs, o que demons-
da funo do eu, tal como nos  revelada na experin-
cia psicanaltica" (1949), in Escritos (Paris, 1966), Rio    trou a "superioridade" desse processo em rela-
de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 96-103; O Seminrio,          o s drogas e s outras tcnicas habitualmente
livro 1, Os escritos tcnicos de Freud (1953-1954)           empregadas.
(Paris, 1975), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979 
Marie-Claude Lambotte, "Narcisismo", in Pierre Kauf-
                                                                 Dentre todas as escolas de psiquiatria din-
mann (org.), Dicionrio enciclopdico de psicanlise: o      mica*, a psicanlise* foi a nica a receber como
legado de Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro,       tal a qualificao de "cincia judaica", to te-
Jorge Zahar, 1996, 347-56  Jean Laplanche e Jean-           mida por Sigmund Freud*.  nesse contexto
Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris,
1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed. Jacques
                                                             que se pode compreender por que o nazismo
Le Rider, Modernit viennoise et crises d'identit, Paris,   acrescentou a seu projeto a destruio radical
PUF, 1990  Michle Montrelay, "Narcissisme", Ency-          da psicanlise, de seu vocabulrio, seus concei-
clopaedia universalis, vol.11, 552-4  Guy Rosolato, "Le     tos, suas obras, seu movimento, suas ins-
Narcissisme", Nouvelle Revue de Psychanalyse, 1976,
13, 5-36  Jol Schmidt, Dictionnaire de la mythologie       tituies e seus praticantes.
grecque et romaine, Paris, Larousse, 1985  Donald               Esse projeto foi progressivamente realizado,
Woods Winnicott, O brincar e a realidade (Londres,           sob a direo de Matthias Heinrich Gring*,
1971), Rio de Janeiro, Imago, 1979.
                                                             com a colaborao de psicoterapeutas de todas
 HOMOSSEXUALIDADE; IDENTIFICAO; IMAGEM                     as tendncias (junguianos, freudianos, adleria-
DO CORPO.                                                    nos etc.), que concordaram em servir aos prin-
                                                             cpios de uma nova "psicologia ariana" e em
                                                             trabalhar, a partir de maio de 1936, no Deutsche
narco-anlise                                                Institut fr psychologische Forschung (Instituto
 PSICOTERAPIA.                                               Alemo de Pesquisa Psicolgica e Psicotera-
                                                             pia), mais conhecido pelo nome de Instituto
                                                             Gring. Desse instituto, instalado em Berlim,
nazismo                                                      baniu-se tudo o que pudesse evocar qualquer
    Desde sua chegada ao poder, Adolf Hitler                 forma de judeidade: a palavra psicanlise no
(1889-1945) aplicou a doutrina nacional-socia-               mais devia ser pronunciada. A prtica da psico-
lista (ou nazismo), da qual um dos objetivos                 terapia* foi proibida aos judeus e nenhum tra-
principais era a eliminao de todos os judeus               tamento podia ser conduzido com pacientes
da Europa como "raa inferior". Do mesmo                     judeus.
534       necessidade

   O nazismo transformou radicalmente o mo-                  midade freudiana encarnada pela International
vimento psicanaltico, expulsando da Europa                  Psychoanalytical Association* (IPA), o que sig-
(Alemanha*, Hungria*, Itlia* e ustria) a                   nifica que renunciou a alguns dos grandes con-
quase totalidade dos psicanalistas -- judeus, em             ceitos freudianos (sexualidade*, pulso*, recal-
sua maioria --, que emigraram para os Estados                que*, transferncia* etc.), ou ento os modifi-
Unidos*, a Gr-Bretanha* ou os pases latino-                cou a ponto de se instalar nas margens do freu-
americanos. E os que no conseguiram fugir                   dismo. Para os neofreudianos, o freudismo fi-
pereceram em campos de concentrao.                         gura como uma doutrina original que, embora
                                                             historicamente reivindicada, deve ser "ultrapas-
 Hannah Arendt, Origens do totalitarismo (1951), S.         sada". Os neofreudianos, com efeito, contestam
Paulo, Companhia das Letras, 1989; Le Systme tota-
litaire, Paris, Seuil, col. "Points", 1972  Eugen Kogon,    o dogmatismo freudiano e seu universalismo.
Hermann Langbein e Adalbert Rukerl, Les Chambres             Da o carter avulso e atomizado desse movi-
 gaz, secret d'tat (Frankfurt, 1983), Paris, Minuit,       mento, que, em virtude de suas convices cul-
1984  Les Annes brunes. La Psychanalyse sous le            turalistas, sempre rejeitou o prprio princpio de
IIIe Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-
Luc Evard, Paris, Confrontation, 1984  On forme des
                                                             uma organizao centralizada, de esprito inter-
psychanalystes. Rapport original sur les dix ans de          nacionalista.
l'Institut Psychanalytique de Berlin, apresentao de            Entre os principais representantes do neo-
Fanny Colonomos, Paris, Denol, 1985  Chaim S.              freudismo figuram Karen Horney*, Erich
Katz (org.), Psicanlise e nazismo, Rio de Janeiro,
                                                             Fromm* e Harry Stack Sullivan*.
Taurus, 1985  Geoffrey Cocks, La Psychothrapie
sous le IIIe Reich (Oxford, 1985), Paris, Les Belles             Os filsofos da Escola de Frankfurt, em
Lettres, 1987  Regine Lockot, Erinnern und Durchar-         especial Theodor Adorno (1903-1969) e Her-
beiten, Frankfurt, Fischer, 1985  Ici la vie continue de    bert Marcuse*, criticaram duramente o neofreu-
manire surprenante, seleo de textos traduzidos por        dismo a partir de 1946, assimilando-o a um
Alain de Mijolla, Paris, Association Internationale d'His-
toire de la Psychanalyse (AIHP), 1987  Ian Kershaw,         "revisionismo".
Hitler. Um perfil do poder (N. York, 1991), Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, 1993; "Nazisme et stalinisme",          ALEMANHA; EGO PSYCHOLOGY; HISTORIOGRA-
Le Dbat, 89, maro-abril de 1996, 177-91.                   FIA; LACANISMO; SELF PSYCHOLOGY.

 BJERRE, POUL; BOEHM, FELIX; COMUNISMO;
JONES, ERNEST; JUNG, CARL GUSTAV; KEMPER,                    neopsicanlise,
WERNER; LAFORGUE, REN; MAUCO, GEORGES;                       PSICOTERAPIA; SCHULTZ-HENCKE, HARALD.
MLLER-BRAUNSCHWEIG, CARL; SCHULTZ, JO-
HANNES; SCHULTZ-HENCKE, HARALD.

                                                             neurastenia
                                                             al. Neurasthenie; esp. neurastenia; fr. neurasth-
necessidade                                                  nie; ing. neurasthenia
 DESEJO.
                                                             Termo introduzido em 1879 pelo neurologista nor-
                                                             te-americano George Beard (1839-1883), para des-
                                                             ignar um estado de fadiga psicolgica e fsica
neofreudismo                                                 acompanhada de diversos distrbios funcionais e
al. Neofreudianismus; esp. neofreudismo; fr. no-            prpria da sociedade industrial do Novo Mundo.
freudisme; ing. neofreudianism
    Na histria do movimento psicanaltico,                   JANET, PIERRE; NEUROSE; PSICASTENIA.
deu-se o nome de neofreudismo a escolas de
psicoterapia* simultaneamente diferentes entre
si e em dissidncia com o freudismo*. Essas                  neurose
escolas inspiraram-se no culturalismo* e na                  al. Neurose; esp. neurosis; fr. nvrose; ing. neuro-
psicologia individual de Alfred Adler*. Contra-              sis
riamente ao annafreudismo* e ao kleinismo*, a                Termo proposto em 1769 pelo mdico escocs
corrente neofreudiana desenvolveu-se, aps                   William Cullen (1710-1790) para definir as doenas
cises* ou rupturas individuais, fora da legiti-             nervosas que acarretavam distrbios da persona-
                                                                                       neurose      535

lidade. Foi popularizado na Frana* por Philippe        a psicastenia*, onde se manifestava um rebaixa-
Pinel (1745-1826) em 1785. Retomado como con-           mento da funo de adaptao  realidade.
ceito por Sigmund Freud* a partir de 1893, o termo          Aps seu encontro com Charcot, Freud tam-
 empregado para designar uma doena nervosa            bm comeou a definir a histeria como uma
cujos sintomas simbolizam um conflito psquico
                                                        neurose, porm numa perspectiva inteiramente
recalcado, de origem infantil.
                                                        diversa da de Janet. Ele desvinculou definitiva-
    Com o desenvolvimento da psicanlise*, o con-
                                                        mente a histeria da presuno uterina, associan-
ceito evoluiu, at finalmente encontrar lugar no
interior de uma estrutura tripartite, ao lado da psi-
                                                        do-lhe uma etiologia sexual e um enraizamento
cose* e da perverso*.                                  no inconsciente*. A partir da e aps a publica-
    Em conseqncia disso, do ponto de vista freu-      o dos Estudos sobre a histeria*, em 1895, a
diano, classificam-se no registro da neurose a his-     histeria no sentido freudiano tornou-se o prot-
teria* e a neurose obsessiva*, s quais  preciso       tipo, para o discurso psicanaltico, da neurose
acrescentar a neurose atual, que abrange a neu-         como tal. Esta passou desde ento a ser definida
rose de angstia e a neurastenia*, e a psiconeu-        como uma doena nervosa na qual, antes de
rose, que abarca a neurose de transferncia* e a        mais nada, um trauma intervinha. Da a idia,
neurose narcsica.                                      defendida por Freud, de que os pacientes afeta-
    A expresso neurose de carter provm da            dos pela neurose histrica, em geral mulheres,
terminologia de Edward Glover* e da doutrina de         teriam sofrido sevcias sexuais reais em sua
Wilhelm Reich*, enquanto a noo de neurose de          infncia. Mais tarde, depois do abandono dessa
fracasso foi cunhada por Ren Laforgue*, e a de         chamada teoria da seduo*, em 1897, a neu-
neurose de abandono, pela psicanalista sua Ger-       rose tornou-se uma afeco ligada a um conflito
maine Guex (1904-1984).
                                                        psquico inconsciente, de origem infantil e do-
    O termo neurose foi inventado por William           tado de uma causa sexual. Ela resulta de um
Cullen, durante a segunda metade do sculo              mecanismo de defesa* contra a angstia e de
XVIII, e atesta a renovao do olhar clnico que        uma formao de compromisso entre essa de-
pusera em voga a abertura de cadveres e, por-          fesa e a possvel realizao de um desejo*.
tanto, a observao "direta" e post mortem dos              Paralelamente, a partir de 1894, Freud ado-
rgos que tinham sofrido de diversas patolo-           tou o termo psiconeurose, que depois aban-
gias. Da a idia de criar uma palavra genrica         donaria, para ampliar a definio da neurose.
para designar o conjunto dos problemas da               De um lado, classificou fenmenos de defesa
sensibilidade e da motricidade que no apresen-         (ou psiconeuroses de defesa) decorrentes de
tavam febre nem relao com qualquer rgo.             uma situao edipiana (fobia*, obsesses, his-
    Assim nasceu a definio moderna da neu-            teria), e de outro, problemticas narcsicas (ou
rose, que permitiu construir uma nosografia pe-         psiconeuroses narcsicas), decorrentes de uma
la negativa, incluindo em seu campo o domnio           situao pr-edipiana. As primeiras seriam ca-
das doenas para as quais a nova medicina ana-          talogadas como neuroses e as ltimas se clas-
tomopatolgica no encontrava nenhuma ex-               sificariam na categoria das psicoses, com as
plicao orgnica. Philippe Pinel logo retomou          novas definies, no incio do sculo XX, da
o termo e, um sculo depois, Jean Martin Char-          parania* e da esquizofrenia*.
cot* o popularizou, fazendo da histeria uma                 Ao lado da histeria e no quadro das psico-
doena funcional (e, portanto, uma neurose),            neuroses de defesa, Freud instaurou, j em
enquanto seu aluno Pierre Janet* orientou-se            1894, uma definio da neurose obsessiva:
para a idia de uma pura causalidade psquica.          "Foi-me preciso comear meu trabalho por uma
Na terminologia janetiana, que marcaria todos           inovao nosogrfica. Ao lado da histeria, en-
os clnicos franceses do entre-guerras, a neu-          contrei razes para situar a neurose das obses-
rose tornou-se uma doena da personalidade,             ses (Zwangsneurose) como uma afeco aut-
caracterizada por conflitos psquicos que per-          noma e independente, embora a maioria dos
turbavam as condutas sociais. Janet distinguiu          autores classifique as obsesses entre as sn-
dois tipos de neuroses: a histeria, na qual apa-        dromes que constituem a degenerescncia men-
recia uma reduo do campo da conscincia, e            tal ou as confunda com a neurastenia." Quatro
536     neurose atual

anos depois, em 1898, Freud empregou o termo        nos Estados Unidos* e na Gr-Bretanha*, com
neurose atual para designar a neurose de angs-     o aparecimento, por um lado, da noo de bor-
tia (ou excitabilidade nervosa) e a neurastenia,    derlines*, e por outro, das novas concepes da
que no eram, segundo ele, da alada do trata-      neurose provenientes dos trabalhos de Donald
mento psicanaltico. Tratava-se, nesses casos,      Woods Winnicott* e Heinz Kohut*, centraliza-
de neuroses em que o conflito provinha da           dos na questo do self.
atualidade do sujeito, e no de sua histria
                                                     Sigmund Freud, "As neuropsicoses de defesa"
infantil, e nas quais o sintoma no se manifes-     (1894), ESB, III, 57-74, GW, 1, 57-74; SE, III, 41-61;
tava de maneira simbolizada.                        OC, III, 1-18; "Obsesses e fobias (seu mecanismo
    Entre 1914 e 1924, Freud conservou a defi-      psquico e sua etiologia)" (1895), escrito em francs,
nio clssica que dera  neurose nos primr-       ESB, III, 89-98; GW, I, 343-53; SE, III, 69-82; OC, III,
                                                    19-29; "A hereditariedade e a etiologia das neuroses"
dios de suas descobertas e de suas experincias     (1896), escrito em francs, ESB, III, 165-86; SE, III,
clnicas. Todavia, aps os grandes debates com      141-56; OC, III, 105-21; "Novos comentrios sobre as
Carl Gustav Jung* e Eugen Bleuler* sobre a          neuropsicoses de defesa" (1896), ESB, III, 187-216;
dissociao, o auto-erotismo* e o narcisismo*,      GW, I, 377-403; SE, III, 157-85; OC, III, 121-46; "A
                                                    sexualidade na etiologia das neuroses" (1898), ESB,
e depois, com a entrada em cena da segunda          III, 289-317; SE, III, 259-85; OC, III, 215-41; "Sobre o
tpica*, organizada em torno da trilogia            narcisismo: uma introduo" (1914), ESB, XIV, 89-122;
composta pelo eu*, isso* e supereu*, Freud deu      GW, X, 138-70; SE, XIV, 73-102; in La Vie sexuelle,
uma organizao estrutural ao par formado pela      Paris, PUF, 1969, 80-105; "Neurose e psicose" (1924),
                                                    ESB, XIX, 189-98; GW, XIII, 387-91; SE, XIX, 149-53;
neurose e pela psicose, s quais acrescentou a
                                                    OC, XVII, 1-9; "A perda da realidade na neurose e na
perverso.                                          psicose" (1924), ESB, XIX, 229-38; GW, III, 363-8; SE,
    Partindo da distino entre o narcisismo*       XIX, 183-7; OC, XVII, 35-43; La Naissance de la psy-
primrio, no qual o sujeito investe a libido* por   chanalyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956  Pierre
                                                    Janet, Les Nvroses, Paris, Flammarion, 1909  Ed-
ela mesma, e o narcisismo secundrio, onde h
                                                    ward Glover, "The neurotic character", IJP, VII, 1926,
uma retirada da libido para as fantasias*, Freud    11-30  Germaine Guex, La Nvrose d'abandon, Paris,
passou a definir a oposio entre neurose e         PUF, 1950  Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis,
psicose como o resultado de duas atitudes pro-      Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo,
venientes de uma clivagem* do eu. Na neurose,       Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Jacques Postel, "N-
                                                    vrose", in Grand dictionnaire de la psychologie, Paris,
h um conflito entre o eu e o isso e a coabitao   Larousse, 1991, 512-4  Georges Lantri-Laura, "N-
de uma atitude que contraria a exigncia pulsio-    vrose et psychose: questions de sens, questions d'his-
nal com outra que leva em conta a realidade, ao     toire", Autrement, 117, outubro de 1990, 23-31.
passo que, na psicose, h uma perturbao entre
o eu e o mundo externo, que se traduz na             REPETIO, COMPULSO ; SELF PSYCHOLOGY.
produo de uma realidade delirante e alucina-
tria (a loucura*).
    Freud completou esse edifcio estrutural in-    neurose atual
troduzindo nele um terceiro elemento: a perver-      NEUROSE.
so. Aps ter feito da neurose, em 1905, nos
Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade*, o
"negativo da perverso", ele caracterizou esta      neurose criadora
ltima como uma manifestao bruta e no             ELLENBERGER, HENRI F.
recalcada da sexualidade infantil (perversa po-
limorfa). Nessa perspectiva, os trs termos aca-
bariam sendo reunidos: a neurose como resulta-      neurose de abandono
do de um conflito com recalque*, a psicose           NEUROSE.
como reconstruo de uma realidade alucinat-
ria, e a perverso como renegao* da castra-
o*, com uma fixao na sexualidade infantil.      neurose de angstia
    A partir da dcada de 1950, esse modelo do       FOBIA; INIBIES, SINTOMAS E ANGSTIA; NEU-
freudismo clssico foi questionado, em especial     ROSE.
                                                                           neurose de guerra        537

neurose de carter                                    serem falsos doentes e, portanto, mentirosos,
 GLOVER, EDWARD; NEUROSE; REICH, WIL-                 desertores e maus patriotas.
HELM.                                                     Foi nesse contexto que se deu em Viena*,
                                                      em 1920, por ocasio de uma estrondosa pol-
                                                      mica, o primeiro grande debate sobre o estatuto
neurose de defesa                                     da neurose de guerra. O poder dos Habsburgo
 DEFESA; HISTERIA; NEUROSE; NEUROSE OBSES-            havia desmoronado e, no mapa da Europa, co-
SIVA.                                                 mo sublinhou Stefan Zweig*, a ustria j no
                                                      passava de um "claro crepuscular, uma sombra
                                                      acinzentada, incerta e sem vida, da antiga mo-
neurose de destino                                    narquia imperial". O processo, que seria intei-
 REPETIO, COMPULSO .                              ramente exumado por Kurt Eissler, comeou
                                                      com uma queixa apresentada pelo tenente Wal-
                                                      ter Kauders contra o psiquiatra Julius Wagner-
neurose de fracasso
                                                      Jauregg*, acusado de haver utilizado um trata-
 LAFORGUE, REN; REPETIO, COMPULSO .
                                                      mento  base de eletricidade para cuidar de
                                                      soldados afetados por neurose de guerra e, na
neurose de guerra                                     verdade, considerados simuladores. Freud foi
                                                      ento convocado, na condio de perito, a com-
al. Kriegsneurose; esp. neurosis de guerra; fr. n-
vrose de guerre; ing. war neurosis
                                                      parecer perante uma comisso de inqurito a
    A neurose de guerra no  em si uma enti-         fim de dar seu parecer sobre a eventual preva-
dade clnica. Provm da categoria da neurose          ricao de Wagner-Jauregg.
traumtica, definida em 1889 por Hermann                  Em seu parecer, Freud mostrou-se muito
Oppenheim (1858-1919), que a descreveu co-            moderado com respeito ao psiquiatra, mas, em
mo uma afeco orgnica consecutiva a um              contrapartida, criticou com grande violncia
trauma real, provocando uma alterao fsica          no apenas o mtodo eltrico, mas tambm a
dos centros nervosos, por sua vez acompanhada         tica mdica dos que o utilizavam. Lembrou
por sintomas psquicos: depresso, hipocon-           que o dever do mdico, sempre e em toda parte,
dria, angstia, delrio etc.                           se colocar a servio do doente, e no de
   Sabemos do uso que Sigmund Freud* fez              qualquer poder estatal ou blico, e estigmatizou
dessa neurose em sua discusso da etiologia da        a idia de simulao, inadequada a qualquer
histeria*, a partir da doutrina funcionalista de      definio da neurose, fosse esta de origem trau-
Jean Martin Charcot*: a idia de trauma foi en-       mtica ou psquica: "Todos os neurticos so
to transposta do domnio fsico e orgnico para      simuladores", disse: "simulam sem saber, e essa
o plano psquico, a fim de se abrir para uma           sua doena."
nova concepo da neurose, inicialmente fun-              A progressiva implantao da psicanlise*
damentada na teoria da seduo* e, mais tarde,        nos diferentes pases ocidentais transformou a
na do conflito defensivo. Assim, a neurose tor-       viso psiquitrica sobre a questo da neurose de
nou-se uma afeco puramente psquica, fazen-         guerra, e foi na Gr-Bretanha*, durante a
do caducar a idia de simulao, tanto para os        Segunda Guerra Mundial, que se desenvolveu
adeptos do organicismo quanto para os parti-          uma nova reflexo em torno das teses de John
drios do funcionalismo ou da causalidade ps-        Rickman* e Wilfred Ruprecht Bion*, enquan-
quica.                                                to, na Alemanha*, diversos psicanalistas parti-
   Com a Primeira Guerra Mundial, o intermi-          ciparam, sob a direo de Matthias Heinrich
nvel debate sobre a origem traumtica da neu-        Gring*, da elaborao de uma psicoterapia*
rose foi reiniciado. Os psiquiatras de toda parte,    de guerra a servio do nacional-socialismo.
com efeito, tiveram seus servios solicitados             Historicamente, a questo da neurose de
pelas hierarquias militares, que procuravam           guerra  to antiga quanto a guerra em si. A idia
desmascarar os simuladores, alvo da suspeita,         de que as sangrentas tragdias da histria pos-
como outrora acontecera com os histricos, de         sam induzir em sujeitos "normais" modifi-
538      neurose de transferncia

caes da alma ou do comportamento remonta                 neurose fbica
 noite dos tempos. Todos os trabalhos do sculo            FOBIA; HISTERIA; NEUROSE.
XX sobre os traumas ligados  guerra,  tortura,
 priso ou s situaes extremas confirmam a
formulao freudiana: esses traumas so, a um              neurose narcsica
s tempo, especficos de uma dada situao e                AUTISMO; NARCISISMO; NEUROSE; PARANIA;
reveladores, em cada indivduo, de uma histria            PSICOSE; SELF PSYCHOLOGY.
que lhe  peculiar. Em outras palavras, os cha-
mados perodos de "distrbios" menos favore-
cem a ecloso da loucura* ou da neurose do que             neurose obsessiva
o esgotamento dos sintomas destas, retransfor-             al. Zwangsneurose; esp. neurosis obsessiva; fr.
mados num trauma. Assim, o suicdio* explci-              nvrose obsessionnelle; ing. obsessional neurosis
to e a melancolia* so menos freqentes quando             Forma fundamental de neurose* identificada por
a guerra autoriza o herosmo da morte, e as                Sigmund Freud* em 1894, a neurose obsessiva (ou
neuroses so to mais numerosas e manifestas               neurose de coero) , ao lado da histeria*, a
quanto mais a sociedade na qual se exprimem                segunda grande doena nervosa da classe das
tem todas as aparncias de estabilidade. Charcot           neuroses, segundo a doutrina psicanaltica. Tem
teatralizou a histeria quinze anos depois da               como origem um conflito psquico infantil e uma
Comuna de Paris, no momento em que a sere-                 etiologia sexual caracterizada por uma fixao da
nidade republicana parecia haver triunfado so-             libido* no estdio* anal. No plano clnico, manifes-
bre as "convulses" revolucionrias, e Freud               ta-se atravs de ritos conjuratrios de tipo religio-
identificou as causas sexuais da neurose,                  so, sintomas obsedantes e uma ruminao mental
                                                           permanente, na qual intervm dvidas e escrpu-
renunciando ao trauma real, no seio de uma
                                                           los que inibem o pensamento e a ao.
sociedade aparentemente imersa na quietude
imvel de seu sonho burgus.                                   O alienista francs Jules Falret (1824-1902)
                                                           introduziu o termo obsesso para sublinhar o
 Sigmund Freud, "Introduo a A psicanlise e as
                                                           fenmeno de ascendncia atravs do qual o
neuroses de guerra" (1919), ESB, XVII, 259-64; GW,         sujeito*  assediado por idias patolgicas e por
XII, 321-4; SE, XVII. 205-10; in Rsultats, ides, pro-    uma culpa que o persegue e o obceca a ponto de
blmes, I, 1890-1920, Paris, PUF, 1984; Mais-alm do       fazer dele um morto vivo. Em seguida, o termo
princpio do prazer (1920), ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII,
3-69; SE, XVIII, 1-64; in Essais de psychanalyse, Paris,
                                                           foi traduzido para o alemo por Richard von
Payot, 1981, 41-115  Sandor Ferenczi, "Psicanlise        Krafft-Ebing*, que optou por usar a palavra
das neuroses de guerra" (1918), in Psicanlise III,        Zwang, que remete a uma idia de coero e
Obras completas, 1919-1926 (Paris, 1974), S. Paulo,        compulso: o sujeito se obriga a agir e a pensar
Martins Fontes, 1993, 13-30  Kurt Eissler, Freud sur le   contra sua vontade. Foi a Freud, entretanto, que
front des nvroses de guerre (Viena, 1979), Paris, PUF,
1992.                                                      coube o mrito de, pela primeira vez, conferir
                                                           um contedo terico  antiga clnica das obses-
                                                           ses, no apenas situando a doena no registro
 BABINSKI, JOSEPH; BETTELHEIM, BRUNO; PUL-
                                                           da neurose, mas tambm fazendo dela, frente 
SO.
                                                           histeria, o segundo grande componente da es-
                                                           trutura neurtica humana.
                                                               Enquanto a histeria era conhecida desde a
neurose de transferncia                                   Antigidade, a obsesso apareceu tardiamente
                                                           na clnica das doenas nervosas. No entanto, as
 NEUROSE; TRANSFERNCIA.                                   duas entidades esto ligadas  histria da reli-
                                                           gio no Ocidente. Ambas, com efeito, aparen-
                                                           tam-se com os antigos fenmenos de possesso
                                                           e com a diviso entre a alma e o corpo. No caso
neurose demonaca (ou diablica)                           da histeria, a possesso  mais sonamblica,
 HAITZMANN, CHRISTOPHER; HISTERIA; IGREJA;                 passiva, inconsciente e "feminina":  o dem-
OCULTISMO.                                                 nio que se apodera de um corpo de mulher para
                                                                          neurose obsessiva         539

tortur-lo. Na obsesso, ao contrrio, ela  ativa   passou ento a ser uma neurose que afeta tanto
e "masculina":  o prprio sujeito que  inter-      os homens quanto as mulheres e que tem como
namente torturado por uma fora diablica, em-       origem um conflito psquico. A principal mu-
bora permanea lcido quanto a seu estado. De        dana apareceu, na verdade, com a publicao
um lado, a mulher, assimilada a uma feiticeira,      em 1905 dos Trs ensaios sobre a teoria da
 culpada atravs de um corpo diablico, ofere-      sexualidade*, onde Freud evidenciou a sexua-
cido  luxria, e de outro, o homem  invadido       lidade infantil, a perverso* polimorfa e o ero-
por uma sujeira moral que o obriga a se tornar       tismo anal, que suscitariam uma impres-
seu prprio inquisidor. A histeria  uma arte        sionante hostilidade por parte dos adversrios
"feminina" da seduo e da converso, e a            da psicanlise*, donde a acusao de pansexua-
obsesso, um rito "masculino" comparvel a           lismo* levantada contra Freud.
uma religio.                                            Entre 1907 e 1926, Freud transformou sua
     Essa diferena entre o feminino e o mascu-      concepo da neurose obsessiva. Na histria do
lino, entre o ativo e o passivo, entre o corpo       Homem dos Ratos,  o erotismo anal que domi-
convulsivo e a conscincia culpada, encontra-        na a organizao sexual do obsessivo, e essa
se na maneira como Freud contrasta, numa carta       analidade acha-se igualmente presente, assinala
a Wilhelm Fliess* de outubro de 1895, a neu-         Freud, nas "prticas religiosas". Constatando a
rose obsessiva com a histeria: "Imagine s:          analogia entre a religio (cujos rituais so por-
pressinto, entre outras coisas, o seguinte con-      tadores de um sentido) e o cerimonial da obses-
dicionamento estrito: no que concerne  his-         so (onde esses mesmos rituais correspondem
teria, que ocorreu uma experincia sexual pri-       apenas a uma significao neurtica), ele pas-
mria (antes da puberdade) em meio ao asco e
                                                     sou a caracterizar a neurose como uma religio
ao susto, e, no que concerne  neurose obses-
                                                     individual e a religio como uma obsesso uni-
siva, que essa experincia se deu com prazer
                                                     versal.
(...). A histeria  a conseqncia de um pavor
                                                         Em 1913, Freud retomou essa temtica com
sexual pr-sexual. A neurose obsessiva  a
                                                     a publicao de um livro, Totem e tabu*, e de
conseqncia de um prazer sexual pr-sexual,
que depois se transforma em recriminao."           um artigo, "A predisposio para a neurose
Assim, at 1897, no contexto da teoria freudia-      obsessiva". Comparada  histeria, definida co-
na da seduo* (trauma sexual infantil), a           mo uma linguagem pictrica, e  parania*,
sexualidade* das meninas desenrola-se sob o          vista como uma filosofia fracassada, a neurose
signo da passividade e do pavor, e a dos meni-       de compulso foi novamente colocada sob o
nos, sob o signo de um prazer ativo, vivido          signo da religio: "As neuroses, por um lado,
como um pecado.                                      apresentam concordncias impressionantes e
     Depois do abandono da teoria da seduo,        profundas com as grandes produes sociais da
Freud s voltou  questo da neurose obsessiva       arte, da religio e da filosofia; por outro, apare-
em 1907: apresentou ento  Sociedade Psico-         cem como distores destas. Poderamos ar-
lgica das Quartas-Feiras*, pela primeira vez,       riscar-nos a dizer que uma histeria  a imagem
o comeo da histria de um doente afetado por        distorcida de uma criao artstica, uma neurose
essa neurose: Ernst Lanzer*, celebrizado sob o       de compulso, a de uma religio, e um delrio
nome de Homem dos Ratos. Essa exposio              paranico, a de um sistema filosfico." Toda-
magistral serviria de modelo para todos os co-       via, a obsesso deveria ser igualmente relacio-
mentrios posteriores consagrados  noo de         nada a uma regresso da vida sexual a um
obsessividade.                                       estdio* anal, tendo por corolrio um sentimen-
     Apesar de manter uma certa correlao entre     to de dio que  caracterstico da prpria cons-
passividade e histeria, por um lado, e atividade     tituio do sujeito humano. Isso porque, segun-
e obsesso, por outro, Freud rejeitou es-            do Freud,  o dio, antes do amor, que estrutura
sencialmente essa bipolarizao e a substituiu       o conjunto das relaes entre os homens,
por uma explicao etiolgica baseada em sua         obrigando-os a se defenderem dele atravs da
nova teoria da sexualidade. A neurose obsessiva      elaborao de uma moral.
540      neurose traumtica

    Em 1926, em Inibies, sintomas e angs-          efeito,  um caso de neurose obsessiva -- a
tia*, essa teoria foi reformulada  luz da segun-     questo da Esfinge), doente desde os onze anos,
da tpica* e da noo de pulso* de morte. O          diante da revelao dos fatos sexuais."
desencadeador da neurose obsessiva foi ento             Tal como a histeria, portanto, a neurose
caracterizado como sendo o medo que o eu*             obsessiva  correlata da histria da psicanlise*,
tem de ser punido pelo supereu*. Enquanto o           em sua tentativa clnica e antropolgica de dar
supereu age sobre o eu  maneira de um juiz           uma resposta ao enigma da diferena sexual* e
severo e rgido, o eu  obrigado a resistir s        da organizao da famlia e das sociedades.
pulses destrutivas do isso*, desenvolvendo
formaes reativas que assumem a forma de              Sigmund Freud, "As neuropsicoses de defesa"
                                                      (1894), ESB, III, 57-74; GW, 1, 57-74; SE, III, 41-61;
sentimentos de escrpulo, ou a de piedade, lim-       OC, III, 1-18; "Obsesses e fobias: seu mecanismo
peza e culpa. Por isso, o sujeito  mergulhado        psquico e sua etiologia" (1895), escrito em francs,
num verdadeiro inferno do qual nunca consegue         ESB, III, 89-98; GW, I, 343-53; SE, III, 69-82; OC, III,
escapar.                                              19-29; "A hereditariedade e a etiologia das neuroses"
                                                      (1896), escrito em francs, ESB, III, 165-86; SE, III,
    Pois bem, esse inferno no  outra coisa          141-56; OC, III, 105-21; "Novos comentrios sobre as
seno a verso patolgica de um sistema ins-          neuropsicoses de defesa" (1896), ESB, III, 187-216;
titucional patriarcal e judaico-cristo do qual,      GW, I, 377-403; SE, III, 157-85; OC, III, 121-46; "A
alis, Freud tanto enaltece as fraquezas quanto       sexualidade na etiologia das neuroses" (1898), ESB,
                                                      III, 289-316; SE, III, 259-85; OC, III, 215-41; "Atos
os mritos. De fato, em sua anlise do Homem          obsessivos e prticas religiosas" (1907), ESB, IX, 121-
dos Ratos e, mais tarde, em Totem e tabu, ele         36; SE, IX, 115-27; in L'Avenir d'une illusion (1927),
liga os progressos da cincia e da razo ao           Paris, PUF, 1971; "A predisposio para a neurose
advento do patriarcado*, com isso mostrando           obsessiva" (1913), ESB, XII, 399-414; GW, VIII; SE,
                                                      XII, 313-26; in Nvrose, psychose et perversion, Paris,
que o freudismo*, como expresso dessa cin-          PUF, 1973, 189-97; "Notas sobre um caso de neurose
cia e dessa razo, pode servir de proteo contra     obsessiva" (1909), ESB, X, 159-62; GW, VII, 381-463;
as diversas tentativas de abolio da famlia e       SE, X, 151-249; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,
contra o inelutvel declnio do pai na sociedade      1954, 199-261; "Sobre o narcisismo: uma introduo"
                                                      (1914), ESB, XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV,
ocidental do sculo XX. Em 1938, na ltima            73-102; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 80-105;
etapa da reflexo que ele conduziu em paralelo        "Neurose e psicose" (1924), ESB, XIX, 189-98; GW,
sobre a religio e a lgica da estrutura obsessiva,   XIII, 387-91; SE, XIX, 149-53; OC, XVII, 1-9; "A perda
Freud exps abertamente, com Moiss e o               da realidade na neurose e na psicose" (1924), ESB,
                                                      XIX, 229-38; GW, III, 363-8; SE, XIX, 183-7; OC, XVII,
monotesmo*, a ambivalncia amor-dio que             35-43; La Naissance de la psychanalyse (Londres,
era, a seu ver, sintomtica da "relao com o         1950), Paris, PUF, 1956  Freud/Jung: correspon-
pai". E essa ambivalncia remete,  claro,           dncia completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago,
funo da proibio do incesto*, sustentada           1993  Pierre Janet, Les Obsessions et la psychas-
                                                      thnie, 2 vols., Paris, Alcan, 1903  Confrontations
pelo pai no mundo judaico-cristo.                    Psychiatriques, nmero especial sobre as obsesses,
    Assim, a neurose obsessiva inventada por          20, 1981  Patrick J. Mahony, Freud et l'Homme aux
Freud sempre seria, para ele, um verdadeiro           rats (New Haven e Londres 1986), Paris, PUF, 1990 
objeto de fascinao, na medida em que pe em         Evelyne Pewzner, L'Homme coupable. La Folie et la
                                                      faute en Occident, Toulouse, Privat, 1992  Charles
cena a essncia da relao edipiana. Numa carta       Baladier, "Neurose obsessiva", in Pierre Kaufmann
de 1907 a Carl Gustav Jung*, Freud pintou um          (org.), Dicionrio enciclopdico de psicanlise: o lega-
retrato de si mesmo sob as feies de um obses-       do de Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro,
sivo e encarou seu herdeiro como histrico: "Se       Jorge Zahar, 1996, 358-66.
voc, que  um homem sadio, reala o tipo
histrico, devo reivindicar para mim o tipo            ANTROPOLOGIA; ESQUIZOFRENIA; FUTURO DE
                                                      UMA ILUSO, O; IGREJA; PSICASTENIA.
obsessivo." Noutro texto, a propsito de um
rapaz que estava em tratamento, ele caracteri-
zou a histria de dipo como um caso de neu-
rose obsessiva: "Trata-se de um indivduo su-         neurose traumtica
mamente dotado, de tipo edipiano, amor pela            HISTERIA; NEUROSE DE GUERRA; PSICOS-
me, dio pelo pai (o prprio dipo antigo, com       SOMTICA, MEDICINA; SEDUO, TEORIA DA.
                                                                                      Nome-do-Pai           541

n borromeano                                          simbolizando um elemento da trilogia (real/
al. Borromische Knoten; esp. nudo borromeano;         simblico/imaginrio), comearam a assumir
fr. noeud borromen; ing. Borromean knot               um lugar considervel no ensino lacaniano. Em
                                                       1975, Lacan acrescentou ao trptico uma quarta
Expresso introduzida por Jacques Lacan*, em
                                                       volta, para a qual cunhou uma palavra-valise,
1972, para designar as figuras topolgicas (ou ns
                                                       "santhomem" [sinthome, combinando sympt-
tranados) destinadas a traduzir a trilogia do sim-
blico*, do imaginrio* e do real*, repensada em
                                                       me e homme, alm de aludir a saint], em home-
termos de real/simblico/imaginrio (R.S.I.) e, por-
                                                       nagem ao Finnegans Wake, de James Joyce
tanto, em funo da primazia do real (isto , da       (1882-1941). Tratava-se de designar o escritor
psicose*) em relao aos outros dois elementos.        por seu "sintoma", isto , por sua teoria da
                                                       criao, a "epifania" ou xtase mstico, retirada
    Foi no mbito de sua ltima retomada lgi-
                                                       de S. Toms ("santo homem").
ca, apoiada numa leitura da obra de Ludwig
                                                           Em 1979, afetado por distrbios cerebrais,
Wittgenstein (1889-1951) e voltada para a an-
                                                       Lacan tornou-se afsico a ponto de no mais
lise da essncia da loucura* humana, que Lacan
                                                       conseguir exprimir-se a no ser pela exibio
inventou simultaneamente o matema* e o n
                                                       de seus jogos topolgicos, dos quais participava
borromeano: de um lado, um modelo de lingua-
                                                       um grupo de jovens matemticos franceses de
gem articulado com uma lgica da ordem sim-
                                                       alto nvel, empolgados com os derradeiros lam-
blica; de outro, um modelo estrutural, fun-
                                                       pejos de inspirao de um mestre atormentado.
damentado na topologia e efetuando um deslo-
camento radical do simblico para o real.               Jacques Lacan, Le Sminaire, livre XVIII, D'un dis-
    Desde 1950, juntamente com seu amigo               cours qui ne serait pas du semblant (1970-1971),
Georges T. Guilbault, Lacan vinha-se entregan-         indito; Le Sminaire, livre XIX, ...Ou pire (le savoir du
do a exerccios topolgicos que se asseme-             psychanalyste) (1971-1972), indito; O Seminrio, li-
                                                       vro 20, Mais, ainda (1972-1973), Rio de Janeiro, Jorge
lhavam aos jogos com nmeros e s peri-                Zahar, 1989, 2 ed; Le Sminaire, livre XXI, Les non-
odicidades que Sigmund Freud* e Wilhelm                dupes errent (1973-1974), indito; Le Sminaire, livre
Fliess* faziam no chamado perodo da auto-             XXII, R.S.I. (1974-1975), indito; Le Sminaire, livre
anlise*. Essa atividade ldica consistia em atar      XXIII, Le Sinthome (1975-1976), indito; Le Sminaire,
                                                       livre XXIV, L'Insu que sait de l'une-bvue s'aile  mour-
pedaos de barbante indefinidamente, em en-            re (1976-1977), indito; Le Sminaire, livre XXV, Le
cher bias de criana, tranar e recortar, em          Moment de conclure (1977-1978), indito  Jean-
suma, em transcrever uma doutrina em figuras           Claude Milner, Les Noms indistincts, Paris, Seuil, 1983;
topolgicas. Assim, a banda de Moebius, sem            A obra clara. Lacan, a cincia, a filosofia (Paris, 1995),
avesso nem direito, forneceu a imagem do su-           Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997  Pierre Soury,
                                                       Chanes et noeuds, 3 vols., 1988, org. de Michel Thom
jeito* do inconsciente*, assim como o toro ou          e Christian Lger  lisabeth Roudinesco, Jacques
a cmara de ar designavam um furo ou uma               Lacan. Esboo de uma vida, histria de um sistema de
hincia, isto , um "lugar constitutivo que, no        pensamento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das
entanto, no existe".                                  Letras, 1994.
    Durante 25 anos, essas figuras tiveram to-
                                                        FORACLUSO;         NOME-DO-PAI; PASSE; TCNICA
somente uma funo ilustrativa na doutrina la-
                                                       PSICANALTICA.
caniana, e foi em 9 de fevereiro de 1972 que
surgiu pela primeira vez no discurso lacaniano
a expresso n borromeano, que remetia  his-
tria da ilustre famlia Borromeu. As armas            Nome-do-Pai
dessa dinastia milanesa, com efeito, compu-            al. Name-des-Vaters; esp. nombre del padre; fr.
nham-se de trs anis em forma de trevo, sim-          nom-du-pre; ing. name-of-the-father
bolizando uma trplice aliana. Se um dos anis        Termo criado por Jacques Lacan* em 1953 e
se retirasse, os outros dois ficariam soltos, e        conceituado em 1956, para designar o significante*
cada um remetia ao poder de um dos trs ramos          da funo paterna.
da famlia.                                                Esse conceito no tem, na doutrina lacania-
    A partir dessa data, os exerccios topolgi-       na, o mesmo estatuto que os demais. Com efei-
cos baseados no tranado de ns, cada qual             to, no foi retirado de um corpus existente. Tem
542     Nome-do-Pai

sua fonte primordial e inconsciente na vida de      encarna a lei. Por conseguinte, se a sociedade
Lacan e em sua experincia pessoal e dolorosa       humana, como sublinha Lacan,  dominada pe-
da paternidade.                                     lo primado da linguagem, isso quer dizer que a
    Primeiro, como filho, ele teve de suportar as   funo paterna no  outra coisa seno o exer-
falhas de seu pai, Alfred Lacan (1873-1960),        ccio de uma nomeao que permite  criana
esmagado pela tirania de seu prprio pai, mile     adquirir sua identidade.
Lacan (1839-1915). Em seguida, havendo-se               Lacan passou ento a definir essa funo
tornado pai pela quarta vez em julho de 1941,       como "funo do pai", depois, "funo do pai
nos tempos mais sombrios da Ocupao, Lacan         simblico" e, ainda mais tarde, "metfora pater-
no pde dar seu nome a sua filha, que foi          na", o que o levou a interpretar o complexo de
registrada em cartrio com o sobrenome Ba-          dipo no mais em referncia a um modelo de
taille, uma vez que sua me, Sylvia Bataille        patriarcado* ou matriarcado, mas em funo de
(1908-1993), ainda era a esposa legtima de         um sistema de parentesco*. Em 1956, quando
Georges Bataille (1897-1962). Esse imbrglio        de seu seminrio sobre as psicoses* e seu co-
infernal do nome do pai, decorrente da legisla-     mentrio sobre a parania* de Daniel Paul
o francesa sobre a filiao, duraria at 1964 e   Schreber*, ele conceituou a funo em si,
o mergulharia, como manifestou Lacan em di-         grafando-a como Nome-do-Pai. O conceito foi
versas ocasies, numa culpa terrvel.               ento associado ao de foracluso*. Evocando a
    Testemunhos disso, se necessrio fosse, so     natureza da relao de Daniel Paul Schreber
seu seminrio de 1961-1962 sobre a identifica-      com o pai, Lacan fez da psicose do filho uma
o*, ao longo do qual atacou violentamente         "foracluso do nome-do-pai". Mais tarde, es-
seu av paterno, "... aquele personagem hor-        tendeu esse prottipo  prpria estrutura da
rvel graas ao qual tive acesso, em idade pre-     psicose.
coce,  funo fundamental de maldizer a                Mediante essa interpretao inteiramente
Deus", e, mais tarde, suas conferncias de 1975     indita do caso, Lacan foi o primeiro dos co-
sobre James Joyce (1882-1941), nas quais,           mentadores de Freud a teorizar o vnculo exis-
evocando a relao do escritor com sua filha        tente entre o sistema educacional de um pai e o
esquizofrnica, ele falou, dissimuladamente, de     delrio de um filho.  possvel que essa idia lhe
seu prprio drama de pai.                           tenha ocorrido a partir da lembrana da relao
    Tal como Sigmund Freud*, Lacan foi acos-        entre seu pai (Alfred) e seu av (mile), drama-
sado pela questo da paternidade. Em 1938, em       ticamente vivida por ele.
seu artigo magistral sobre a famlia, mostrou           Nessa perspectiva e no mbito da teoria
que a psicanlise* nascera, em Viena*, de um        lacaniana do significante, a transio edipiana
sentimento de declnio da imago* paterna e da       da natureza para a cultura efetua-se da seguinte
vontade freudiana de revaloriz-la. Lacan ado-      maneira: sendo a encarnao do significante,
tou o mesmo modelo de reformulao simbli-         por chamar o filho por seu nome, o pai intervm
ca da paternidade, embora integrando as teses       junto a este como privador da me, dando ori-
kleinianas referentes s relaes arcaicas com a    gem ao ideal do eu* na criana. No caso da
me.                                                psicose, essa estruturao no se d. Sendo
    Foi em 1953, num comentrio do caso do          ento foracludo o significante do Nome-do-
                                                    Pai, ele retorna no real* sob a forma de um
Homem dos Ratos (Ernst Lanzer*), que surgiu
                                                    delrio contra Deus, encarnao de todas as
pela primeira vez em sua pena o sintagma do
                                                    imagens malditas da paternidade.
nome do pai (sem hfens). Apoiando-se num
livro de Claude Lvi-Strauss, As estruturas ele-     Jacques Lacan, Os complexos familiares na forma-
mentares do parentesco, publicado em 1949,          o do indivduo (Paris, 1984), Rio de Janeiro, Jorge
Lacan mostrou que o dipo* freudiano podia          Zahar, 1987; "Le Mythe individuel du nvros ou Posie
ser pensado como uma passagem da natureza           et vrit dans la nvrose" (1953), Ornicar?, 17-18,
                                                    1979, 289-307; O Seminrio, livro 3, As psicoses
para a cultura. Segundo essa perspectiva, o pai     (1955-1956) (Paris, 1981), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
exerce uma funo essencialmente simblica:         1988, 2 ed.; Le Sminaire, livre IX, L'identification
ele nomeia, d seu nome, e, atravs desse ato,      (1962-1963), indito; Le Sminaire, livre XXI, Les non-
                                                 Novas conferncias introdutrias sobre psicanlise         543

dupes errent (1973-1974), indito; "Joyce, le symp-          por Rose-Marie Zeitlin, sob o ttulo Nouvelles
tme, I" (1975), in Jacques Aubert (org.), Joyce avec        confrences d'introduction  la psychanalyse, e
Lacan, Paris, Navarin, 1987, 21-9; "Joyce, le symp-          novamente em 1995, por Janine Altounian, Andr
tme, II" (1975), ibid., 31-6; Le Sminaire, livre XXIII,
                                                             Bourguignon (1920-1996), Pierre Cotet, Alain Rau-
Le Sinthome (1975-1976), indito, publicao parcial
in Ornicar?, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 1976-1977  lisabeth       zy e Rose-Marie Zeitlin, sob o ttulo Nouvelle suite
Roudinesco, Jacques Lacan. Esboo de uma vida,               des leons d'introduction  la psychanalyse. Tra-
histria de um sistema de pensamento (Paris, 1993),          duzido para o ingls pela primeira vez em 1933, por
S. Paulo, Companhia das Letras, 1994; "Bataille entre        W.J.H. Sprott, e depois em 1964, por James S-
Freud et Lacan: une exprience cache", in Denis             trachey*, sob o ttulo New Introductory Lectures on
Hollier (org.), Georges Bataille aprs tout, Paris, Belin,
                                                             Psycho-Analysis.
1995, 191-212.
                                                                 No incio do ano de 1932, a situao econ-
 ANTROPOLOGIA; FALOCENTRISMO; FREUD,                         mica da Internationaler Psychoanalytischer
ERNST; FREUD, JACOB; FREUD, MARTIN; IMAGIN-                 Verlag, a editora fundada por Freud em 1918
RIO; MOISS E O MONOTESMO; SEXUALIDADE FE-                  graas a uma doao de seu amigo hngaro
MININA; SIMBLICO; TOTEM E TABU.                             Anton von Freund*, estava no fundo do poo,
                                                             em conseqncia da grande crise de 1929. Para
                                                             tentar sanear as finanas da empresa, Freud teve
Noruega                                                      a idia de escrever uma nova srie de confern-
 ESCANDINVIA.                                               cias, com base no modelo das Conferncias
                                                             introdutrias sobre psicanlise*, sabendo, en-
                                                             tretanto, que dessa vez no poderia proferi-las
Nothnagel, Hermann (1841-1905)                               em pblico, em virtude de sua doena.
mdico alemo                                                    A continuidade entre as duas sries de confe-
   Aluno do grande anatomista Karl Rokitans-                 rncias  evidente. No apenas ela se materia-
ky (1804-1878), Hermann Nothnagel, que viera                 liza na numerao das novas lies, a primeira
da Prssia, exerceu as funes de professor de               das quais leva o nmero 29, como tambm se
medicina interna na Universidade de Viena*, de               manifesta pela permanncia dos objetivos: no
1892 a 1905. Hostil ao niilismo teraputico                  mascarar nada da complexidade das questes
preconizado por seu mestre e por uma parte do                abordadas, no dissimular coisa alguma das
corpo mdico vienense, foi um clnico huma-                  lacunas e incertezas persistentes.
nista, estimado por seus alunos e preocupado                     Ao longo dessas sete conferncias, como
com o sofrimento dos doentes. Isso no o im-                 testemunham a clareza do estilo e a firmeza da
pediu de basear o seu ensino no diagnstico                  argumentao, Freud est convencido, como
antomo-patolgico, interessando-se pela pato-               atesta uma carta de 27 de novembro de 1932 a
logia do sistema nervoso, do corao e dos                   Arnold Zweig*, de que acaba de escrever seu
rgos digestivos. Sigmund Freud* trabalhou                  ltimo livro. Ele expressa essa mesma idia,
como "aspirante" em sua clnica durante seis                 com uma ponta de ironia, numa carta a Max
meses e meio, de outubro de 1882 a abril de                  Eitingon* datada de 20 de maro de 1932,
1883.                                                        afirmando que "sempre se deve estar fazendo
                                                             alguma coisa, mesmo com o risco de ser inter-
 Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, vol.1
(N. York, 1953), Rio de Janeiro, Imago, 1989.
                                                             rompido -- mais vale isso", esclarece, "do que
                                                             desaparecer em estado de preguia".
                                                                 Embora intitule a primeira dessas confern-
Novas conferncias introdutrias                             cias de "Reviso da teoria do sonho", Freud
sobre psicanlise                                            reconhece explicitamente que, nesse campo,
Livro de Sigmund Freud* publicado em alemo, em              "no houve nenhuma descoberta nova" nos l-
1933, sob o ttulo Neue Folge der Vorlesungen zur            timos quinze anos. Obviamente, ele ignora ou
Einfhrung in die Psychoanalyse. Traduzido para              pretende ignorar a repercusso que teve sua
o francs pela primeira vez em 1936, por Anne                Interpretao dos sonhos* no movimento sur-
Berman (1889-1979), sob o ttulo Nouvelles conf-            realista, bem como a importncia que lhe atri-
rences sur la psychanalyse, mais tarde, em 1984,             buiu Andr Breton (1896-1966). Concentrado
544     Novas conferncias introdutrias sobre psicanlise

em sua descoberta, ele se felicita pelo fato de    rias de sonhos, os sonhos de punio e os sonhos
suas concepes sobre o sonho* haverem resis-      de angstia. Por no constiturem a realizao
tido  prova do tempo. Havendo o estudo do         de uma moo pulsional, os sonhos de punio
sonho permitido que Freud desse o passo "que       lhe parecem uma resposta positiva a um requi-
leva de um procedimento psicoterpico a uma        sito daquela instncia que, quando das verses
psicologia das profundezas",  normal que ele      precedentes da teoria do sonho, ainda no era
seja o objeto da primeira aula dessa coletnea.    conhecida: o supereu*. Quanto aos sonhos de
Valendo-se, como faz com freqncia, de uma        angstia, ligados aos acontecimentos traumti-
metfora de ressonncias militares, Freud subli-   cos, que sabemos haverem constitudo, em
nha que, com a teoria do sonho, a psicanlise*     Mais-alm do princpio de prazer*, o ponto de
tomou "um novo pedao de terra, conquistado        partida da idia da compulso  repetio*,
da crendice popular e do misticismo". A origi-     premissa da conceituao da pulso* de morte,
nalidade da contribuio da psicanlise nesse      Freud se mantm prudente. Em 1923, ele consi-
domnio conferiu ao sonho, diz ainda Freud, o      derava esses sonhos como a nica verdadeira
papel de um schibboleth, uma espcie de senha      exceo a sua tese. Dez anos depois, acha bas-
ou sinal de reconhecimento mediante o qual se      tante difcil "adivinhar" qual moo de desejo
efetua a separao entre os adeptos da psican-    seria passvel de se satisfazer com o retorno de
lise e aqueles para quem ela ser eternamente      acontecimentos penosos, e admite que sua tese,
incompreensvel.                                   por mais correta que seja, ainda assim venha a
    Mas, se nada veio enriquecer esse tema, por    passar por modificaes ligadas  existncia de
que repetir sua apresentao? Simplesmente         outras foras psquicas contraditrias: "Se os
porque, examinando bem o que fazem e dizem         senhores levarem em conta estas ltimas ob-
a esse respeito "as pessoas pretensamente cul-     jees", aconselha -- ou admite -- Freud, "ao
tas", dentre elas "os inmeros psiquiatras e       menos digam que o sonho tenta ser uma reali-
psicoterapeutas que cozinham sua sopa em nos-      zao de desejo."
sa fogueira", parece que, na maioria das vezes,        A segunda conferncia trata da questo do
A interpretao dos sonhos foi mal lida, ou no    ocultismo*, objeto de vivas controvrsias no
foi lida de todo.                                  movimento psicanaltico durante a dcada de
    Aps uma recapitulao dos grandes avan-       1920-1930. Sempre ambivalente, ora Freud se
os expostos naquela obra pioneira -- a dis-       recusa a abordar a questo, conformando-se
tino entre o contedo manifesto e os pensa-      com os desejos de Ernest Jones* e Max Eitin-
mentos latentes do sonho, a funo do recalque*    gon*, preocupados em preservar a res-
e das resistncias* na formao do sonho, e os     peitabilidade cientfica da psicanlise, ora
processos essenciais do trabalho do sonho, a       concorda em promover as manifestaes do
condensao* e o deslocamento* --, Freud           irracional, convencido de que a psicanlise tem
retorna  questo da simbolizao sem renun-       interesse em abordar essas zonas de sombra que
ciar s correspondncias que, a seu ver, cons-     o mundo anglo-americano pretende deixar en-
tituem um elo entre a atividade psquica incons-   tregue aos adeptos do espiritismo*.
ciente individual e o registro do patrimnio            parte suas trocas epistolares, suas discus-
cultural da humanidade, em especial sob a for-     ses e suas sesses de espiritismo com Sandor
ma dos mitos e lendas.                             Ferenczi*, Freud abordou a questo do ocultis-
    Em seguida, responde s objees que lhe       mo, em pelo menos duas ocasies, sob a rubrica
foram feitas a propsito de sua tese sobre o       mais geral da telepatia, na dcada de 1920. A
sonho como realizao de um desejo* incons-        conferncia intitulada "Sonho e ocultismo" no
ciente, contestada por seus adversrios com a      se afasta das linhas gerais dessas duas inter-
existncia dos sonhos de punio e dos sonhos      venes, muito pelo contrrio. Com efeito, em
de angstia.                                       1932, Freud j no est fazendo uma primeira e
    Tal como fizera num artigo de 1923, escrito    inexperiente tentativa. A questo do poder foi
por ocasio de uma reedio de A interpretao     resolvida, na International Psychoanalytical
dos sonhos, Freud diferencia essas duas catego-    Association* (IPA), em favor da corrente anglo-
                                          Novas conferncias introdutrias sobre psicanlise       545

americana, e o ancio j no teme as reprimen-       pai. Feliz no casamento, essa mulher no conse-
das do Comit Secreto*.                              guira ter filhos, ou seja, no soubera fazer com
    Numa declarao de princpios no isenta de      que seu marido fosse pai. Ao descobrir a es-
ironia, ele anuncia querer desvincular-se de to-     terilidade do marido, havia mergulhado numa
dos os preconceitos, em especial da "pusilani-       intensa depresso. Durante uma viagem de pas-
midade escolar" que refreia o exerccio da re-       seio a Paris, escondida do marido, ela fora
flexo. Trata-se, pois, de proceder com os fen-     consultar um vidente, que lhe predissera que ela
menos ocultos como em relao a qualquer             teria dois filhos aos 32 anos. A profecia no se
objeto da cincia, antes de mais nada es-            havia realizado, mas a paciente lembrava-se
tabelecendo a existncia deles, para ento tentar    dela com prazer. Freud desloca-se ento pelo
explic-los.                                         terreno psicanaltico para interpretar a profecia:
    Trs tipos de dificuldade, intelectual, psico-   a me da paciente havia-se casado muito tarde
lgica e histrica, criam obstculos a esse pro-     e se vira com dois filhos aos 32 anos. O dito do
cedimento. Manejando alternadamente o bom            vidente podia ser entendido da seguinte manei-
senso e o humor, Freud chama a ateno, em           ra: "Console-se, a senhora ainda  muito moa.
primeiro lugar, para a deformao intelectual        Ter o mesmo destino que sua me, que tambm
que consiste, para no discutir uma proposio       teve de esperar muito tempo para ter filhos, e
bizarra, em julgar quem o faz. A esse respeito,      ter dois filhos aos 32 anos." Ter o mesmo
ele lembra os ataques que sofreu nos primrdios      destino que a me significava, para essa pa-
da psicanlise. Quanto  credulidade humana,         ciente, tomar o lugar da me junto ao pai que
freqentemente invocada para rejeitar o ocul-        ela tanto prezava. Tal profecia s poderia cumu-
tismo*, ela de modo algum constitui uma infor-       l-la de satisfao. Mas, como explicar a intro-
mao sobre a natureza do objeto. Por fim, a         duo do nmero 32 pelo adivinho, que no
proximidade entre o ocultismo e as religies         tinha nenhum conhecimento dessa histria?
no deve levar a que se rejeite o primeiro a         So duas as respostas possveis, diz Freud, no
pretexto de uma desconfiana em relao a            sem uma certa malcia: ou a histria  falsa, ou
estas ltimas.                                       houve, efetivamente, uma transmisso de pen-
    Afastados esses obstculos, Freud se volta       samento! Na realidade, a hiptese que ele
para os pretensos sonhos telepticos (uma pes-       conserva  diferente: ao contar essa histria a
soa sonha com um acontecimento que se produz         seu analista, 16 anos depois de ela se haver
na realidade). Admitindo a hiptese de uma           produzido (Freud no destaca o fato de que 32
mensagem teleptica cuja recepo fosse favo-         mltiplo de 16),  lcito supor que a paciente
recida pelo estado de sono, ainda assim ele          tenha retirado o nmero 32 de seu inconsciente,
submete esse fenmeno ao trabalho de interpre-       para inscrev-lo em sua lembrana.
tao psicanaltica e demonstra que a dimenso           O estudo de outros exemplos desemboca na
teleptica funciona, na realidade, como um re-       mesma concluso: a interpretao psicanaltica
sduo diurno, modificado pelo trabalho do so-        permite, na maioria das vezes, explicar fenme-
nho. Aps o exame de um certo nmero de              nos que com demasiada facilidade so atribu-
exemplos, impe-se a concluso: como tal, o          dos ao ocultismo. Isso no impede que algumas
sonho teleptico continua hermtico e somente        histrias inviabilizem uma anlise exces-
o trabalho psicanaltico do sonho permite            sivamente apressada, como  o clebre caso do
apreender seu sentido. No sendo o sonho, por-       Dr. David Forsyth*. Havendo mais uma vez
tanto, um instrumento til para confirmar a          conseguido dar conta, com a ajuda da psican-
existncia dos fenmenos ocultos, convm             lise, do sentido da sucesso de coincidncias
abordar esses fenmenos fora dos sonhos, a fim       que adornam esse caso, Freud reconhece, no
de verificar se a explicao psicanaltica  capaz   entanto, a existncia de um resduo inexplic-
de dar conta deles.                                  vel. Chega a admitir que, segundo seu "senti-
    Dentre a srie de exemplos submetidos ao         mento, a balana pende, tambm nesse caso,
exame figura a histria de uma paciente que          para a transmisso de pensamento". Para cor-
havia experimentado um apego fortssimo pelo         roborar esse juzo, ele se apressa a citar um certo
546     Novas conferncias introdutrias sobre psicanlise

nmero de observaes idnticas feitas por He-      rental e lhe permite situar o supereu como her-
lene Deutsch*. Prevendo as objees que no         deiro do dipo*. Nessa oportunidade, Freud
deixaro de lhe ser dirigidas, Freud permite que    esclarece a relao entre o supereu e o ideal do
desponte sua paixo pela aventura e pelo            eu*. Eu e supereu so, em grande parte, ins-
maravilhoso, sua curiosidade e sua audcia in-      tncias inconscientes, o que implica uma revi-
telectuais que, cerca de trinta anos antes, ha-     so fundamental da concepo psicanaltica das
viam-no levado a se lanar na epopia psicana-      relaes entre consciente* e inconsciente.
ltica, em companhia de Wilhelm Fliess*. No        Freud explica como, a partir de um ques-
apenas se confessa incapaz de se alinhar sisu-      tionamento da primeira tpica*, ele foi levado
damente sob a bandeira do racionalismo, como        a introduzir, em 1923, o conceito do isso*, para
exorta seus leitores "a pensar com mais bene-       designar o inconsciente em sua perspectiva di-
volncia na possibilidade objetiva da transmis-     nmica.  a essa instncia, bem como s re-
so de pensamento e, por isso mesmo, da tele-       laes entre o isso e o eu, que  dedicado o final
patia".                                             dessa conferncia.
    Num discurso proferido por ocasio do oc-           Coloca-se a questo da relao conflitiva
togsimo aniversrio de Freud, Thomas Mann*         que se estabelece entre essas duas instncias.
referiu-se  terceira dessas novas conferncias:    Para esclarec-la, Freud escreve uma frase que
a inspirao que nela se manifesta, sua forma e     se tornaria clebre no mundo inteiro, e cujas
seu contedo, e a descrio que nela se faz do      diversas tradues cristalizariam as fraturas do
"mundo mental do inconsciente e do isso", tudo      movimento psicanaltico: "Wo Es war, soll Ich
atesta, para o grande escritor, que Freud  filho   werden". Trata-se de designar a nova tarefa que
do "sculo dos Schopenhauers e dos Ibsens em        compete  cultura atravs da psicanlise, e cuja
cujo meio nasceu".                                  importncia lhe parece to grande para a huma-
    Em poucas linhas, Freud resume o longo          nidade quanto a secagem do Zuiderzee.
caminho percorrido pela psicanlise: a ateno          Na Frana*, Anne Berman optou, em 1936,
inicialmente voltada para os sintomas, que abriu    por uma traduo* de tipo adaptativo, baseada
caminho para o inconsciente*, a vida pulsional      na prevalncia do eu: "O eu deve desalojar o
e a sexualidade*, o conflito entre as moes        isso." Vinte anos depois, numa conferncia so-
inconscientes e as resistncias e, por fim, a       bre a "coisa freudiana", feita em Viena em 1955,
grande virada, caracterizada pelo papel es-         Jacques Lacan* contestou essa traduo e pro-
sencial atribudo ao eu*, que at ento perma-      ps uma nova transcrio: "Ali, onde isso era
necera inscrito na perspectiva da psicologia po-    eu devo advir." Desse modo, ele expressou a
pular.  da nova concepo do eu que se trata,      primazia do isso em relao ao eu: ali onde isso
acima de tudo. Essa conferncia, portanto,          era o eu deve ser. Posteriormente, duas novas
constitui uma exposio definitiva e magistral      tradues foram preservadas, uma em 1984
das teses que foram desenvolvidas nas grandes       ("Ali onde era isso deve advir eu") e outra em
obras da dcada de 1920, em especial Mais-          1995 ("Ali onde era isso, eu deve advir").
alm do princpio de prazer e O eu e o isso*.           James Strachey, por sua vez, recorreu na
Apoiando-se em observaes clnicas e               traduo inglesa  tese inversa  de Lacan,
aprimorando as elaboraes especulativas que        optando pela idia de que o eu deve vir no lugar
tanto lhe foram censuradas, Freud retorna a sua     do isso: "Where id was, there ego shall be."
descoberta da clivagem do eu, que permitira o           A quarta conferncia  dedicada  angstia
surgimento de uma nova instncia -- uma ins-        e  vida pulsional. A questo da angstia fora
tncia observadora, que prepara para o julga-       objeto de uma das aulas da primeira coletnea.
mento e a sano, sem se reduzir  simples          Freud retoma suas linhas gerais para expor no-
conscincia moral --, que assumiria o nome de       vamente, com maior clareza do que em Ini-
supereu*.                                           bies, sintomas e angstia*, as modificaes
    O estudo das etapas de formao desse su-       por que passou a abordagem dessa questo
pereu leva Freud a sublinhar o papel essencial      desde a introduo da segunda tpica. Dora-
da identificao* precoce com a estrutura pa-       vante, somente o eu pode produzir e sentir
                                        Novas conferncias introdutrias sobre psicanlise      547

angstia. Isso leva a distinguir trs formas de    nada perturbe sua tese da libido* nica e sua
angstia: a angstia real (correspondente         concepo falicista. Por isso  que ele seria
dependncia do eu em relao ao mundo exter-       criticado, em particular ao ser novamente dis-
no), a angstia neurtica (resultante da depen-    cutida a questo da sexualidade feminina, a
dncia do eu em relao ao isso) e a angstia      partir do congresso de Amsterdam organizado
moral (produzida pela relao do eu com o          sobre o assunto, em 1958, por iniciativa de
supereu). Em seguida, ele reformula sua            Jacques Lacan, assim como, mais tarde, em
concepo das relaes entre a angstia, a cas-    todos os trabalhos feministas.
trao* e o recalque. Nesse ponto, Freud presta        A conferncia seguinte trata de trs questes
uma insistente homenagem a Otto Rank*, a           de ordem prtica. Primeiro, Freud evoca o lugar
quem "a psicanlise deve muitas belas contri-      da psicanlise e sua acolhida na sociedade, bem
buies", e que teve o mrito, em especial, de     como as reaes dos psicanalistas frente a essa
mostrar a importncia do ato do nascimento         realidade. Renova suas advertncias contra a
como primeira separao da me. Essa evoca-        utilizao abusiva do saber psicanaltico, contra
o vem corroborar o que muitos outros in-         todas as formas de interpretao* selvagem e,
dcios permitem presumir, ou seja, que, diferen-   em termos mais gerais, contra o proselitismo.
temente das rupturas havidas com Alfred            Em seguida, detm-se no reconhecimento e
Adler* ou Carl Gustav Jung*, sem dvida            justificao das modalidades de inscrio da
Freud mais sofreu do que desejou aquela que o      conduta analtica nos campos das "cincias do
afastou de Rank.                                   esprito". Esse  um pleito em favor dos diver-
    Se o tema da angstia foi objeto, portanto,    sos aspectos de que pode revestir-se a psican-
de uma profunda reformulao terica, Freud        lise aplicada*, sendo a nfase colocada nas
lembra que o campo das pulses no teve des-       questes pedaggicas e educativas, para as
tino melhor, tendo sido e continuando a ser        quais ele foi sensibilizado tanto por Anna
ainda maiores as dificuldades quanto a esse        Freud* quanto por August Aichhorn*. Os pro-
aspecto. As etapas da transformao da teoria      blemas relativos  psicanlise como terapia
das pulses so passadas em revista, o que d a    compem a terceira parte dessa conferncia.
Freud o ensejo de insistir naquela pulso de       Embora tome o cuidado de relembrar seu pe-
morte que "no pode estar ausente de nenhum        queno entusiasmo pela terapia, Freud aproveita
processo de vida". Quanto a isso, Freud faz        a oportunidade para prestar alguns esclareci-
questo de reafirmar sua postura, deixando cla-    mentos sobre questes tcnicas, tais como as
ro que no fica nem um pouco aborrecido por        indicaes de utilizao da psicanlise ou a
ver censurado o perfil filosfico de sua coloca-   durao do tratamento, que ele toma o cuidado
o, uma vez que a filosofia de que se trata  a   de frisar que, na maioria das vezes,  impossvel
do grande Schopenhauer.                            de abreviar. Se o valor teraputico da psican-
    Com a quinta conferncia, Freud retorna a      lise no existisse, conclui Freud, "ela no teria
um terreno onde nunca se sentiu muito  von-       sido descoberta no contato com os doentes e no
tade: o da sexualidade feminina*, uma faceta       se teria desenvolvido durante mais de trinta
do que ele denomina, em termos mais gerais, "o     anos".
enigma da feminilidade". Como no texto de              A ltima lio constitui um dos textos mais
1931 consagrado a esse tema, ele d mostras de     clebres de Freud. A reflexo que ele desen-
prudncia e diz querer referir-se, essencialmen-   volve ali  apenas parcialmente nova, mas
te, s pesquisas conduzidas por suas "colegas"     pretende ser uma resposta definitiva a uma
que se debruaram sobre o assunto. Sem regis-      pergunta freqentemente formulada: constitui
trar claramente suas intenes, Freud parece       a psicanlise uma viso de mundo (Weltan-
querer corrigir sua concepo, conferindo um       schauung), ou conduz ela a isso? Destacando
papel essencial  me na instaurao e na reso-    que o termo Weltanschauung  especificamente
luo do complexo de dipo*, bem como na           alemo e que s com muita dificuldade se presta
evoluo do complexo de castrao na menina        a uma traduo* rigorosa, Freud procura defi-
-- mas com a condio de que esse texto em         nir, antes de mais nada, o que designa por esse
548     Novas conferncias introdutrias sobre psicanlise

termo: "... uma Weltanschauung  uma cons-         pensar to inexorvel quanto o foi, em sua
truo intelectual que, de maneira homognea,      poca, a da religio."
resolve todos os problemas de nossa vida a            Freud conclui essa ltima conferncia mo-
partir de uma hiptese que tudo domina, na         derando seu entusiasmo pela Weltanschauung
qual, por conseguinte, nenhum problema se          cientfica, cnscio da insatisfao que no pode
mantm em aberto, e onde tudo aquilo por que       deixar de ser provocada por um procedimento
nos interessamos encontra um lugar determina-      dogmtico, demasiadamente submetido s exi-
do."                                               gncias da verdade e professando uma recusa
    Depois, ele responde  pergunta formulada      de qualquer iluso.
e sua posio  clara: como procedimento cien-
tfico, como "psicologia do inconsciente", a        Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
                                                   ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
psicanlise no  nem pode ser uma concepo       Paris, PUF, 1967; Conferncias introdutrias sobre
do mundo, no pode fazer sua a Weltan-             psicanlise (1916-1917), ESB, XV-XVI; GW, XI; SE,
schauung da cincia, cuja definio  muito        XV-XVI; Paris, Payot, 1973; Mais-alm do princpio de
menos ambiciosa. Muitos so os que censuram        prazer (1920), ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69; SE,
                                                   XVIII, 1-64; in Essais de psychanalyse, Paris, Payot,
a Weltanschauung cientfica por no ser porta-     1981, 41-115, "Psicanlise e telepatia" (1941), ESB,
dora de nenhuma esperana, porquanto ela           XVIII, 217-38; GW, XVII, 27-44; SE, XVIII, 177-93; OC,
desconhece as exigncias do esprito humano.       XVI, 99-118; "Sonhos e telepatia" (1922), ESB, XVIII,
Para Freud, essas objees so inaceitveis,       239-70; GW, XIII, 165-91; SE, XVIII, 197-220; OC, XVI,
                                                   119-44; "Observaes sobre a teoria e a prtica da
uma vez que ignoram o papel da psicanlise, o      interpretao de sonhos" (1923), ESB, XIX, 139-58;
qual consiste, justamente, em ela se encarregar,   GW, XIII, 301-14; SE, XIX, 109-21; OC, XVI, 165-79;
dentro do continente cientfico, da parte do       O eu e o isso (1923), ESB, XIX, 23-76; GW, XIII,
psiquismo.                                         237-89; SE, XIX, 12-59; OC, XVI, 255-301; O futuro de
                                                   uma iluso (1927), ESB, XXI, 15-80; GW, XIV, 325-80;
    Nem a arte, bastante inofensiva, nem a filo-   SE, XXI, 5-56; OC, XVIII, 141-97; Inibies, sintomas
sofia, cheia de boas intenes, mas muitas vezes   e angstia (1925), ESB, XX, 107-98; GW, XIV, 113-205;
incoerente e por demais hermtica, constituem      SE, XX, 87-172; OC, XVII, 203-86; O mal-estar na
inimigos da cincia: somente a religio            cultura (1930), ESB, XXI, 81-178; GW, XIV, 421-506;
                                                   SE, XXI, 64-145; OC, XVIII, 245-333; "Sexualidade
desempenha esse papel, pois tem um poder           feminina" (1931), ESB, XXI, 259-82; GW, XIV, 517-37;
gigantesco e "dispe das mais fortes emoes       SE, XXI, 225-243; OC, XIX, 7-29; Novas conferncias
dos seres humanos". A religio tranqiliza os      introdutrias sobre psicanlise (1933), ESB, XXII, 15-
homens, dando-lhes a iluso de poder responder     226; GW, XV; SE, XXII, 5-182; OC, XIX, 83-268 
                                                   Sigmund Freud e Arnold Zweig, Correspondance
a suas perguntas mais angustiantes. Em algu-       (1927-1939) (Frankfurt, 1968), Paris, Gallimard, 1973
mas pginas, Freud entrega-se a uma crtica         Piera Aulagnier-Spairani, "Remarques sur la fminit
sistemtica da religio, tal como fizera em al-    et ses avatars", in id., Jean Clavreul, Franois Perrier,
guns de seus livros anteriores, novamente          Guy Rosolato e Jean-Paul Valabrega, Le Dsir et la
                                                   perversion, Paris, Seuil, 1967, 53-89  Franoise Dolto,
aproximando a infncia do indivduo e a da         A sexualidade feminina (1982), S. Paulo, Martins
humanidade. Embora lamentando sua incom-           Fontes, 1996, 3 ed.  Wladimir Granoff e Franois
petncia, ele envereda em seguida pela crtica     Perrier, Le Dsir et le fminin (1964), Paris, Aubier,
de uma outra concepo de mundo, cujo ques-        1991  Wladimir Granoff, Franois Perrier e Jean-Mi-
                                                   chel Rey, L'Occulte, objet de la pense freudienne,
tionamento j esboou em O futuro de uma           Paris, PUF, 1983  Marie-Christine Hamon, Pourquoi
iluso* e O mal-estar na cultura*. Assim ava-      les femmes aiment-elles les hommes et non pas plutt
liando a fora e a fraqueza do marxismo, es-       leur mre?, Paris, Seuil, 1992; Fminit mascarade,
creve o seguinte: "Por sua realizao no bolche-   Paris, Seuil, 1994  Luce Irigaray, Speculum de l'autre
                                                   femme, Paris, Minuit, 1974  Ernest Jones, A vida e a
vismo russo, o marxismo terico adquiriu agora     obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955,
o vigor, a coerncia e o carter excludente de     1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Norman Kiell,
uma Weltanschauung, bem como, ao mesmo             Freud without Hindsight. Review of his Work 1893-
tempo, uma inquietante semelhana com aquilo       1939, Madison, International Universities Press, 1988
                                                    Sara Kofman, L'nigme de la femme, Paris, Galile,
que ele combate. Inicialmente concebido, ele       1980  Julia Kristeva, La Rvolution du langage poti-
prprio, como parte da cincia (...), [o marxis-   que, Paris, Seuil, 1974  Jacques Lacan, "A coisa
mo] decretou, no entanto, uma proibio de         freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psican-
                                                                                Nunberg, Hermann          549

lise" (1955), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,   Margarethe, que se tornaria psicanalista, depois
Jorge Zahar, 1998, 402-37; O Seminrio, livro 11, Os
quatro conceitos fundamentais da psicanlise (1964)
                                                           de um tratamento no div de Freud.
(Paris, 1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979; Le           Praticante ortodoxo do freudismo*, Nun-
Sminaire, livre 14, La Logique du fantasme (1966-         berg foi o primeiro, no congresso da Internatio-
1967), indito, sesso de 11 de janeiro de 1967           nal Psychoanalytical Association * (IPA) em
Thomas Mann, "Freud et l'avenir" (1936), in Roland
Jaccard (org.), Freud, jugements et tmoignages, Pa-
                                                           Budapeste, em 1918, a propor que uma das
ris, PUF, 1976, 13-43  Michle Montrelay, L'Ombre et      condies exigidas para a profisso de psicana-
le nom, Paris, Minuit, 1977.                               lista fosse uma anlise prvia. Essa moo, que
                                                           definia o estatuto de uma possvel anlise did-
 DIFERENA SEXUAL; FOBIA; FREUD, AMALIA.
                                                           tica*, foi rejeitada por Otto Rank* e por Sandor
                                                           Ferenczi*.
Nunberg, Hermann (1883-1970)                                   As contribuies de Nunberg para a edifica-
psiquiatra e psicanalista americano
                                                           o da doutrina freudiana tratam essencialmen-
    Nascido em Brendzin, na Galcia, provncia             te da funo do eu*, do processo de cura e da
da Polnia ligada ao imprio russo, Hermann                experincia do tratamento. Ao contrrio dos
Nunberg era de uma famlia judia culta, na qual            outros representantes do neofreudismo*, Nun-
se falava alemo. Fez os estudos secundrios               berg aceitava a noo de pulso* de morte.
em Cracvia, depois foi a Zurique, para a clni-               Em 1913, emigrou para os Estados Unidos*,
ca do Hospital Burghlzli*, a fim de estudar               primeiro para Filadlfia e depois para Nova
psiquiatria com Eugen Bleuler* e Carl Gustav               York, onde se integrou  New York Psychoana-
Jung*. Iniciou-se na hipnose* e continuou a sua            lytic Society com muita dificuldade. Abraham
formao em outras clnicas suas, em Schaff-             Arden Brill* lhe pediu que condenasse a anlise
hausen e em Waldau. Voltando a Cracvia,                   leiga* e formasse apenas mdicos. Ele negou,
trabalhou no sanatrio de Ludwig Jekels*, onde             o que no o impediu de se tornar presidente da
descobriu a obra freudiana.                                sociedade em 1950. Foi a ele que Paul Federn
    Em 1915, tornou-se membro da Wiener Psy-               confiou a publicao das Minutas da Sociedade
choanalytische Vereinigung (WPV), depois de                Psicanaltica de Viena.
uma anlise com Paul Federn*. Antes, assistira
s reunies como convidado, e enriqueceu o                  Hermann Nunberg, Principes de psychanalyse. Leur
crculo freudiano com seu conhecimento da                  application aux nvroses (Berlim, 1932), Paris, PUF,
                                                           1957; Memoirs, recollections, ideas, reflections, N.
escola psiquitrica de Zurique. Em 1932, publi-            York, The Psychoanalytic Research and Development
cou uma obra intitulada Princpios de psican-             Fund, 1969  Bertram D.Lewin, "Obituary Hermann
lise. Sua aplicao s neuroses, para a qual               Nunberg, 1884-1970", IJP, 51, 1970, 421-3.
Sigmund Freud* redigiu um prefcio. Ele j
fazia parte do crculo ntimo de Freud, porque              IRMA, INJEO DE; SOCIEDADE PSICOLGICA
se casara em 1929 com a filha de Oskar Rie*,               DASQUARTAS-FEIRAS.
                                             O
Oberholzer, Emil (1883-1958)                            qual ele se via em uma carruagem puxada por
psiquiatra e psicanalista americano                     dois cavalos, um negro e um branco. Freud
    Analisado por Sigmund Freud*, Emil Ober-            interpretou o sonho explicando a Oberndorf que
holzer foi co-fundador, com Oskar Pfister*,             ele nunca se casaria, pois no conseguia deci-
Hermann Rorschach* e Hans Walser, da Socie-             dir-se entre uma mulher branca e outra negra.
dade Sua de Psicanlise (SSP), em 1919. Hos-          "Essa interpretao* ps Oberndorf fora de si",
til  anlise leiga*, fundou em 1927, com o             escreveu Kardiner, "e eles discutiram sobre esse
psiquiatra Rudolf Brun (1885-1969), a As-               sonho durante meses, at que Freud encerrou a
sociao Mdica de Psicanlise,  qual aderiram         anlise."
vrios membros da SSP. Freud tomou o partido                Oberndorf sempre se mostrou hostil  an-
de Oskar Pfister e da SSP, e a nova associao          lise leiga*. Por isso foi, como Brill, um dos
no foi reconhecida pela International Psychoa-         representantes mais ortodoxos do freudismo*
nalytical Association* (IPA). Ela deslocou-se           americano, baseado em uma assimilao pura e
quando Oberholzer emigrou para os Estados               simples da psicanlise* ao saber psiquitrico.
Unidos com sua mulher, Mira Oberholzer-                 Em 1953, redigiu a primeira obra oficial sobre
Gingburg (1887-1949). Ambos se tornaram                 a histria da psicanlise nos Estados Unidos.
membros da New York Psychoanalytic Society
                                                         Clarence P. Oberndorf, A History of Psychoanalysis
(NYPS).
                                                        in America, N. York, Grune and Stratton, 1953  Abram
                                                        Kardiner, Mon analyse avec Freud (N. York, 1978),
 SUA.
                                                        Paris, Belfond, 1978.

                                                         HISTORIOGRAFIA; QUESTO DA ANLISE LEIGA, A.
Oberndorf, Clarence Paul
(1882-1954)
psiquiatra e psicanalista americano
                                                        objeto
    Originrio de uma famlia do Alabama, no
sul dos Estados Unidos*, e criado por uma bab           OBJETO (BOM E MAU); OBJETO (PEQUENO) a;
                                                        OBJETO, RELAO DE; OBJETO TRANSICIONAL; PUL-
negra, Oberndorf foi para a Europa, a fim de
                                                        SO; TRS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALI-
estudar psiquiatria. Foi aluno de Emil Kraepe-
                                                        DADE.
lin* e um dos fundadores, com Abraham Arden
Brill*, da New York Psychoanalytic Society
(NYPS). Posteriormente, foi eleito por duas
vezes presidente da American Psychoanalytic             objeto (bom e mau)
Association* (APsaA).                                   al. Gutes, bses Objekt; esp. objeto (bueno y malo);
    Analisado por Sigmund Freud* em Viena,              fr. bon, mauvais objet; ing. good, bad object
em 1921, fazia parte dos americanos que o               Termo introduzido por Melanie Klein*, em 1934,
mestre tratava com desprezo. Abram Kardiner*            para designar uma modalidade da relao de obje-
relatou um episdio a esse respeito. Oberndorf          to* tal como aparece na vida fantasstica da crian-
se indisps com Freud desde o primeiro dia de           a, e que remete a uma clivagem* do objeto em bom
sua anlise, quando lhe contou um sonho* no             e mau (por exemplo, me boa, me m), conforme

                                                  550
                                                                            objeto (pequeno) a          551

esse objeto seja sentido como frustrante ou grati-   niano, passa pela posio depressiva para sair
ficante.                                             do estado persecutrio (paranico) que  pr-
    Essa idia teria grande futuro, abrindo cami-    prio da perda da me como objeto parcial.
nho, aps 1945, para uma reformulao geral
da idia do objeto em psicanlise*, da qual tanto     Melanie Klein, "Uma contribuio  psicognese dos
                                                     estados manaco-depressivos" (1934), in Contri-
decorreriam o objeto transicional* de Donald         buies  psicanlise (Londres, 1948), S. Paulo, Mes-
Woods Winnicott* quanto o objeto (pequeno)           tre Jou, 1970  Karl Abraham, "Breve estudo do desen-
a* de Jacques Lacan*.                                volvimento da libido, visto  luz das perturbaes men-
    Foi a partir da reflexo de Karl Abraham*        tais" (1924), in Teoria psicanaltica da libido. Sobre o
                                                     carter e o desenvolvimento da libido, Rio de Janeiro,
sobre os estdios* da libido* que Melanie Klein      Imago, 1970  Hanna Segal, Introduo  obra de
introduziu simultaneamente, numa mesma               Melanie Klein (Londres, 1973), Rio de Janeiro, Imago,
conferncia, os conceitos de posio depres-         1975  Phyllis Grosskurth, O mundo e a obra de Mela-
siva* e de objeto (bom e mau). Sigmund Freud*        nie Klein (1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992  R.D.
                                                     Hinshelwood, Dicionrio do pensamento kleiniano
s se interessara pelo objeto no contexto de sua     (Londres, 1991), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992.
teoria das pulses* e dos estdios (no sentido
evolucionista), reservando ao eu* a caracters-       IDENTIFICAO PROJETIVA; INTROJEO; INVEJA.
tica da clivagem. Preocupado em ampliar a
clnica psicanaltica, estendendo-a ao campo
dos distrbios mentais, Abraham revisou os           objeto parcial
conceitos freudianos para tentar descrever as         OBJETO (BOM E MAU); OBJETO (PEQUENO) a;
relaes arcaicas da criana com seu meio,           OBJETO, RELAO DE; OBJETO TRANSICIONAL; PUL-
nica maneira de compreender a origem pre-           SO; TRS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALI-
coce dos estados psicticos. Assim, desmem-          DADE.

brou a noo clssica de objeto e de estdio e
substituiu o objeto total pelo objeto parcial. Em
seus Trs ensaios sobre a teoria da sexuali-
                                                     objeto (pequeno) a
                                                     al. Objekt (klein) a; esp. objeto (pequeo) a; fr. objet
dade*, Freud havia mostrado a importncia
                                                     (petit) a; ing. object (little) a.
disso ao sublinhar a existncia no de objetos
parciais, mas de pulses* parciais. Estas,           Termo introduzido por Jacques Lacan*, em 1960,
segundo ele, tomam por objeto algumas partes         para designar o objeto desejado pelo sujeito* e que
                                                     se furta a ele a ponto de ser no representvel, ou
do corpo ou matrias desligadas do corpo: o
                                                     de se tornar um "resto" no simbolizvel. Nessas
seio, as fezes (matria fecal) ou o fetiche.
                                                     condies, ele aparece apenas como uma "falha-
    Em 1934, partindo da reviso de Abraham,         a-ser", ou ento de forma fragmentada, atravs de
Melanie Klein introduziu a clivagem no objeto        quatro objetos parciais desligados do corpo: o
a fim de cindi-lo em objeto bom e mau. O objeto      seio, objeto da suco, as fezes (matria fecal),
parcial, tal como o seio, por exemplo, foi ento     objeto da excreo, e a voz e o olhar, objetos do
clivado num seio ideal, objeto do desejo da          prprio desejo*.
criana (objeto bom), e num seio persecutrio,           A concepo lacaniana do objeto (pequeno)
objeto de dio e de medo, percebido como             a, como "causa do desejo que se furta ao sujei-
fragmentado.                                         to", proveio diretamente da reflexo de 1936
    Essa terminologia permitiu repensar radi-        sobre o estdio do espelho* e de uma concepo
calmente o campo da realidade psquica* e            da relao de objeto* elaborada em 1956-1957,
mostrar a que ponto o universo fantasstico          e baseada na considerao da trilogia priva-
infantil, povoado por angstia, terror, dio e       o/frustrao*/castrao*. Elemento prepon-
idealizao, encontra-se no somente na psi-         derante de uma terminologia especfica, relati-
cose*, na qual o sujeito no consegue ver sua        va  alteridade, o objeto (pequeno) a , portanto,
me como um objeto total e continua a apreen-        uma das variaes do outro* no interior do par
d-la  maneira de uma clivagem entre o bom e        formado pelo grande Outro e pelo pequeno
o mau objetos, mas tambm na evoluo nor-           outro: "H dois outros por distinguir, pelo me-
mal, uma vez que todo sujeito, no sentido klei-      nos dois -- um outro com maiscula e um outro
552     objeto, relao de

com minscula, que  o eu. O Outro,  dele que      cuja vida amorosa divide-se entre um "amor
se trata na funo da fala."                        celestial" e um "amor terreno": "Onde elas amam,
    Por outro lado, o conceito de objeto (peque-    no desejam, e onde desejam, no conseguem
no) a  inseparvel das idias de objeto bom e      amar. Elas buscam objetos aos quais no tenham
mau* e de objeto transicional*, tais como as        necessidade de amar, a fim de manter sua sensua-
encontramos em Melanie Klein* e Donald              lidade longe de seus objetos amorosos."
Woods Winnicott*. A criao lacaniana de uma            A partir de 1967, com a introduo do "pas-
nova categoria de objeto, portanto, entra no        se" e conforme a importncia que foi sendo
mbito das discusses sobre a relao de objeto     adquirida pelo conceito de real* na trilogia do
conduzidas pela escola inglesa de psicanlise*      simblico*, do real e do imaginrio*, Lacan
durante a segunda metade do sculo XX.              transformou esse pequeno a (esse nada que
    Partindo da idia de pulso parcial, que le-    sempre falta ali onde  esperado) num resto (um
vou Freud, nos Trs ensaios sobre a teoria da       resto heterogneo) impossvel de simbolizar. O
sexualidade*, a distinguir as fezes e o seio como   objeto do desejo identificou-se, assim, com o
objetos especificamente investidos, Lacan, em       gozo* puro, com aquilo que se desvincula do
sua conferncia de 1960 sobre a dialtica do        simblico e do significante* para "cair", mesmo
desejo, referiu-se ao objeto parcial de Karl        com o risco de ressurgir no real sob forma
Abraham* e ao objeto bom e mau de Melanie           alucinatria (foracluso*). Da a idia de que o
Klein para introduzir outros dois objetos do        trmino de uma anlise coloca o psicanalista
desejo, o olhar e a voz: "Observemos que esse       didata na posio do objeto (pequeno) a: ele
trao do corte no  menos evidentemente pre-       desaparece, cai, para deixar que o sujeito adve-
valente no objeto descrito pela teoria analtica:   nha em sua verdade.
mamilo, cbalo, falo* (objeto imaginrio), fluxo
                                                     Sigmund Freud, "Sobre a mais geral das degra-
urinrio. (Lista impensvel se no lhe forem        daes da vida amorosa" (1912), ESB, XI, 163-78; GW,
acrescentados o fonema, o olhar, a voz -- o         VIII, 78-91; SE, XI, 177-90; in La vie sexuelle, Paris,
nada.)"                                             PUF, 1969, 55-66  Jacques Lacan, O Seminrio, livro
    Passados alguns meses, na sesso de 1o de       4, A relao de objeto (1956-1957) (Paris, 1994), Rio
                                                    de Janeiro, Jorge Zahar, 1995; "Subverso do sujeito
fevereiro de 1961 de seu seminrio sobre a          e dialtica do desejo no inconsciente freudiano" (1960),
transferncia*, parcialmente dedicado a um co-      in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
mentrio sobre o Banquete de Plato, Lacan in-      1998, 807-42; O Seminrio, livro 8, A transferncia
troduziu pela primeira vez seu objeto (pequeno)     (1960-1961) (Paris, 1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
                                                    1992; Le Sminaire, livre X, L'Angoisse (1962-1963),
a. Sabemos que esse grande dilogo sobre o          indito; O Seminrio, livro 11, Os quatro conceitos
amor gira em torno da questo do Agalma, de-        fundamentais da psicanlise (1964) (Paris, 1973), Rio
finido por Plato como o paradigma de um ob-        de Janeiro, Jorge Zahar, 1979; Le Sminaire, livre 12,
jeto que representa a idia do Bem. Assim, La-      Problmes cruciaux de la psychanalyse (1964-1965),
                                                    indito; O Seminrio, livro 17, O avesso da psicanlise
can define esse Agalma como o bom objeto            (1969-1970) (Paris, 1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
kleiniano, que ele reconverte prontamente no        1992  Jean-Louis Henrion, La Cause du dsir. L'Agal-
objeto (pequeno) a: objeto do desejo que se es-     ma de Platon  Lacan, Paris, Point Hors Ligne, 1993 
quiva e que, ao mesmo tempo, remete  prpria       Dylan Evans, An Introductory Dictionary of Lacanian
                                                    Psychoanalysis, Londres, Routledge, 1996.
causa do desejo. Em outras palavras, a verdade
do desejo permanece oculta para a conscincia,
porque seu objeto  uma "falta-a-ser". Em mar-
o de 1965, Lacan resumiria essa proposio         objeto, relao de
num aforismo deslumbrante: "O amor  dar o          al. Objektbeziehung; esp. relacin de objeto; fr.
que no se tem a algum que no o quer."            relation d'objet; ing. object-relation
    Sem dvida alguma, ele estava pensando          Expresso empregada pelos sucessores de Sig-
nesse momento no artigo de 1912 intitulado          mund Freud* para designar as modalidades fan-
"Sobre a mais universal das degradaes da vi-      tassticas da relao do sujeito* com o mundo
da amorosa", no qual Freud mostra como fun-         externo, tal como se apresentam nas escolhas de
ciona o objeto do desejo em algumas pessoas         objeto que esse sujeito efetua.
                                                                           objeto, relao de      553

    Para compreender a extenso adquirida na             O kleinismo* e o lacanismo*, portanto, tm
psicanlise* por essa problemtica durante a         em comum uma intensa vontade de apreender
segunda metade do sculo XX,  preciso partir        a vida fantasstica e inconsciente do homem
da concepo freudiana da pulso* e seu objeto,      fora do evolucionismo biolgico. Da a subs-
aquilo atravs do que ela procura atingir seu        tituio da noo de estdio pela de relao de
alvo, "a saber, um certo tipo de satisfao",        objeto e a nfase depositada no papel primordial
sublinham Jean Laplanche e Jean-Bertrand             da me, enquanto Freud sempre havia privile-
Pontalis. "Pode tratar-se de uma pessoa ou de        giado o pai.
um objeto parcial, de um objeto real ou de um            Depois da Segunda Guerra Mundial e das
objeto fantasstico."                                Grandes Controvrsias* que dividiram em trs
    Para Freud, no existe como tal nenhuma          correntes a British Psychoanalytical Society
conceituao da relao, e a questo da relao      (BPS), a clnica das relaes de objeto assumiu
do sujeito com o objeto  pensada sob a catego-      tamanha amplitude que, ao mesmo tempo,
ria dos estdios*, no sentido evolucionista e        ultrapassou o kleinismo e o annafreudismo*:
biolgico do termo. Em 1924, Karl Abraham*           falou-se ento de uma Object-Relations School
reviu essa teoria, dividindo os diferentes es-       (escola das relaes de objeto), ilustrada pelos
tdios at lhes atribuir uma posio (estrutural),   trabalhos de Michael Balint*, Wilfred Ruprecht
em vez de um encaminhamento biolgico, e             Bion*, Ronald Fairbairn*, Donald Woods Win-
introduzindo a idia de que as atividades do         nicott* e, em termos mais gerais, pelo grupo dos
sujeito so moldadas pelos prprios objetos, ou,     Independentes*. A contribuio kleiniana con-
mais precisamente, pela maneira como o sujeito       tinuou presente, mas a anlise das relaes ob-
                                                     jetais deixou de visar unicamente a realidade
se constri numa relao com objetos parciais.
                                                     psquica ou fantasstica; estendeu-se ao estudo
    Abriu-se assim caminho para uma inverso
                                                     de todas as formas de ambiente (familiar, social
radical da perspectiva freudiana. Em vez de
                                                     etc.). Da por diante, tratar-se-ia de compreen-
pensar a evoluo do sujeito de acordo com os
                                                     der as modalidades da insero do eu na cultura
sucessivos rearranjos da relao pulsional e
                                                     (Ego Psychology*, neofreudismo*), a fenome-
sexual com o objeto, passou-se a procurar mos-
                                                     nologia das transies entre o no-eu e o eu
trar como se organiza estruturalmente a ativi-       (objeto transicional*), e os distrbios narcsicos
dade fantasstica precoce, conforme os tipos de      ligados  radicalizao do individualismo, num
relaes objetais. Em 1934, seguindo-se a            mundo ocidental dominado pela razo econ-
Abraham, Melanie Klein abandonou a noo de          mica (Self Psychology*). A relao de objeto,
estdio em favor da de posio e, ao mesmo           portanto, tornou-se a grande palavra de ordem
tempo, inventou o conceito de objeto (bom e          da idade urea da psicanlise anglfona.
mau)*. A nfase foi ento colocada na cliva-             Na verdade, a ampliao do mbito dessa
gem* do objeto, e no mais do eu*.                   expresso acompanhou a expanso da prpria
    Passados dois anos, em 1936, Jacques La-         psicanlise. Ao se tornar uma prtica de massa,
can* seguiu o mesmo caminho, teorizando a            o freudismo* da segunda metade do sculo foi
idia walloniana do estdio do espelho*. Tanto       no apenas confrontado com cises*, mas tam-
num caso como no outro, tratou-se, para o            bm forado a repensar sua doutrina atravs de
movimento psicanaltico, de explorar as bases        uma reflexo sobre a maneira pela qual o ho-
da personalidade humana: o si mesmo (self)           mem constri sua personalidade em suas re-
como imagem ou relao com outrem (o ou-             laes com o meio.
tro*), com o objeto como incorporado, introje-           Na Frana*, foi esse espao crescente confe-
tado, projetado, persecutrio ou, ao contrrio,      rido ao fenmeno "relacional" que Lacan ata-
gratificante. No plano teraputico, o objetivo       cou em seu seminrio de 1956-1957, o mesmo
foi introduzir a tcnica psicanaltica no campo      ano em que se celebrou o centenrio do nasci-
da educao infantil e lutar contra o niilismo       mento de Freud. Preocupado em resgatar o
teraputico da psiquiatria no terreno do trata-      objeto em si (no sentido freudiano), mas tam-
mento da loucura* e do autismo*.                     bm em poupar os autores ingleses a quem
554       objeto transicional

admirava e em quem se inspirava, Lacan criti-                    Essa notvel conceituao -- de uma reali-
cou violentamente os clnicos da escola france-              dade observvel por qualquer pai ou me na
sa, em especial Maurice Bouvet*, membro da                   criana pequena que guarda junto de si por
Socit Psychanalytique de Paris (SPP) e autor               vrios anos um objeto de eleio, muitas vezes
de um artigo sobre a relao de objeto, inspirado            se recusando a larg-lo -- inscreve-se no
nos trabalhos anglo-saxes.                                  contexto da elaborao da questo da relao de
    Lacan forneceu ento sua concepo pessoal               objeto* pelo kleinismo*. Foi proposta pela pri-
da relao de objeto, a meio caminho entre o                 meira vez durante uma conferncia da British
freudismo clssico, o kleinismo e as teses de                Psychoanalytical Society (BPS), em 30 de maio
Winnicott. Formulando a questo do objeto em                 de 1951.
termos de falta e de perda, ele instaurou uma                    Notvel clnico da infncia, Winnicott si-
espcie de geometria varivel da objetalidade,               tuou o objeto transicional na rea da iluso e da
na qual intervinham trs modalidades relacio-                brincadeira. Embora seja "possudo" pelo beb
nais: a privao, a frustrao* e a castrao*,              como substituto do seio, esse objeto no  reco-
hierarquizadas conforme trs ordens, o real*, o              nhecido como fazendo parte da realidade exter-
imaginrio* e o simblico*. A privao foi de-               na:  a "primeira propriedade `no-eu'". Por
finida como a falta real de um objeto simblico,             isso, est destinado a proteger a criana da
a frustrao, como a falta imaginria de um ob-              angstia da separao no processo de diferen-
jeto real (uma reivindicao infindvel), e a cas-           ciao entre o eu* e o no-eu. Um objeto 
trao, como a falta simblica de um objeto                  transicional por marcar a passagem, na criana,
imaginrio (resoluo do enigma da diferena                 de um estado em que ela se encontra unida ao
sexual*: o pnis falta na mulher, mas sem por is-            corpo da me para um estado em que  capaz de
so inferioriz-la). Trs anos depois, tal como seus          reconhecer a me como diferente de si e sepa-
predecessores, Lacan introduziria sua prpria                rar-se dela: h a uma transio da relao fu-
concepo do objeto: o objeto (pequeno) a*.                  sional (no-eu) para uma simbolizao da rea-
                                                             lidade objetal (eu).
 Karl Abraham, "Breve estudo do desenvolvimento da
libido, visto  luz das perturbaes mentais" (1924), in         Foi de uma leitura fenomenolgica da cul-
Teoria psicanaltica da libido. Sobre o carter e o desen-   tura crist que surgiu essa concepo do objeto
volvimento da libido, Rio de Janeiro, Imago, 1970           transicional, como mostra Winnicott em seu
Melanie Klein, "Uma contribuio  psicognese dos           prefcio de 1971 a O brincar e a realidade, onde
estados manaco-depressivos" (1934), in Contribuies
 psicanlise (Londres, 1948), S. Paulo, Mestre Jou,         evoca a clebre controvrsia sobre a transubs-
1970  Jacques Lacan, O Seminrio, livro 4, A relao de     tanciao. Winnicott faz da transformao do
objeto (1956-1957) (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge      po e do vinho em corpo e sangue de Cristo um
Zahar, 1995  Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis,       fenmeno de tipo transicional.
Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Mar-
tins Fontes, 1991, 2 ed.  R.D. Eric Rayner, Le Groupe
des "Indepndants" et la psychanalyse britannique (Lon-       Donald Woods Winnicott, "Objetos transicionais e
dres, 1990), Paris, PUF, 1994  R.D. Hinshelwood, Dicio-     fenmenos transicionais" (1953), in Da pediatria  psi-
nrio do pensamento kleiniano (Londres, 1991), P. Ale-       canlise (Londres, 1958), Rio de Janeiro, Francisco
gre, Artes Mdicas, 1992.                                    Alves, 1970; O brincar e a realidade (Londres, 1971),
                                                             Rio de Janeiro, Imago, 1979.


objeto transicional                                           ESTDIO; ESTDIO DO ESPELHO; IMAGINRIO; OB-
al. bergangsobjekt; esp. objeto transicional; fr.           JETO (BOM E MAU); OBJETO (PEQUENO) a; SELF (FAL-
objet transitionnel; ing. transitional object                SO E VERDADEIRO); SELF PSYCHOLOGY; SIMBLICO.

Expresso criada em 1951 por Donald Woods Win-
nicott* para designar um objeto material (brinque-
do, animal de pelcia ou pedao de pano) que tem
para o beb e a criana um valor eletivo, que lhe
                                                             Oceania
permite efetuar a transio necessria entre a pri-           ANTROPOLOGIA; AUSTRLIA; ETNOPSICANLI-
meira relao oral com a me e uma verdadeira                SE; HISTRIA DA PSICANLISE; MALINOWSKI, BRO-
relao de objeto.                                           NISLAW; ROHEIM, GEZA.
                                                                                   hm, Aurelia       555

ocultismo                                               hm, Aurelia, ne Kronich
al. Okkultismus; esp. ocultismo; fr. occultisme; ing.   (1875-1929), caso Katharina
occultism                                                   Aurelia Kronich  uma das pacientes de
    Movimento neo-espiritualista que rene              Sigmund Freud*, cujo caso  apresentado sob
taumaturgos, filsofos, magos e msticos, o             o nome de Katharina nos Estudos sobre a his-
ocultismo surgiu no fim do sculo XIX, numa             teria*. Sob a forma de um dilogo, Freud relata
reao contra o positivismo dos saberes lecio-          um encantador encontro que tiveram em 1893
nados nas universidades dos pases ocidentais.          nos Alpes austracos (o Raxalpe), quando se
Tratava-se de uma tentativa que almejava reunir         encontrava de frias. Em uma taberna, uma
num sincretismo popular, difundido por dife-            jovem garonete, com a idade de 18 anos, pede
rentes seitas, temas comuns s religies ociden-        conselhos ao doutor Freud a propsito de seus
tais e orientais. O objetivo desse movimento era        sintomas "nervosos"; falta de ar, vertigens, sen-
a ressurreio dos chamados saberes ocultos ou          sao de sufocamento. Questionada por ele,
recalcados, tanto atravs da cincia oficial            evoca a cena de seduo* traumatizante  qual
quanto das religies institudas como igrejas.          assistira dois anos antes entre seu tio, o dono do
    Na histria da psicanlise* e de suas origens,      albergue, e sua prima Franziska. Estavam os
empregam-se o adjetivo oculto ou o substantivo          dois deitados um sobre o outro em uma cama e,
ocultismo para designar um campo do ir-                 ao ver esse espetculo, Katharina teve acessos
racional que , ao mesmo tempo, interno e               de vmitos e de vertigens. Foi em seguida
externo  doutrina freudiana, e no qual so             contar a cena  sua tia, que decidiu ento aban-
situados o espiritismo* e a telepatia*.                 donar o marido, enquanto Franziska encontra-
                                                        va-se grvida dele.
 NOVAS CONFERNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE                     Explorando suas lembranas, Katharina
PSICANLISE.
                                                        descobre cenas anteriores. Lembra que, quando
                                                        tinha 14 anos, seu tio tentara igualmente sedu-
                                                        zi-la. Freud conclui, de acordo com sua teoria
Odier, Charles (1886-1954)                              da seduo de antes de 1896: "Desse ponto de
psiquiatra e psicanalista suo                         vista, o caso de Katharina  tpico. Em todas as
                                                        anlises de histeria* fundadas em traumas
    Formado em psiquiatria em Viena*, por Ju-
                                                        sexuais, descobrimos que certas impresses
lius Wagner-Jauregg*, e analisado em Berlim,
                                                        sentidas em uma poca pr-sexual, e que no
entre 1923 e 1928 por Karl Abraham* e Franz
                                                        haviam tido efeito algum sobre a criana,
Alexander*, Charles Odier teve uma trajetria
                                                        conservam mais tarde seu poder traumatizante
clssica na histria do freudismo.
                                                        enquanto lembrana, uma vez que a moa ou a
    De famlia protestante originria da Nor-           mulher tenha adquirido a noo da sexuali-
mandia e refugiada na Sua* depois da revo-            dade."
gao do Edito de Nantes, participou do nasci-
                                                            Em 1924, acrescentar uma nota para escla-
mento da psicanlise em Genebra e depois, em
                                                        recer que Katharina no era a sobrinha, mas a
1926, com Raymond de Saussure*, da fundao
                                                        filha do dono do albergue.
da Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP), onde
formou didatas.                                             Albrecht Hirschmller e Gerhard Fichtner
                                                        foram os primeiros a revelar em 1985 a verda-
    Durante a Segunda Guerra Mundial, voltou
                                                        deira identidade de Katharina. Tratava-se de
 Sua e instalou-se em Lausanne, onde publi-
                                                        Aurelia Kronich, a segunda filha de um casal
cou muitos artigos clnicos, nos quais desenvol-
                                                        de ricos hoteleiros vienenses. O pai, Julius Kro-
veu uma teoria psicogentica do eu, inspirada
                                                        nich, seduziu efetivamente Barbara Gschl, sua
nas teses de Jean Piaget (1896-1980). Morreu
                                                        sobrinha por aliana, quando esta tinha 25 anos.
prematuramente, de cncer de fgado.
                                                        Em seguida, desposou-a e teve com ela dois
 lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na
                                                        filhos. Quanto a Aurelia, casou-se com um hn-
Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge      garo, teve seis filhos e depois voltou a viver em
Zahar, 1989.                                            1903 em seus Alpes austracos, onde morreu
556       Ophuijsen, Johan H.W. van

vinte e seis anos mais tarde. Peter Swales consi-           que no conseguiu funcionar adequadamente,
derou esse "caso princeps" como a primeira                  em razo de vrios conflitos. Foi fechado dois
psicanlise selvagem.                                       anos mais tarde. Em 1933, pediu demisso da
                                                            NVP, que se recusava a admitir em suas fileiras
 Gerhard Fichtner e Albrecht Hirschmller, "Freuds         os imigrantes que fugiam do nazismo*, notada-
`Katharina'. Hintergrund Entstehungsgeschichte und
Bedeutung einer frhen psychoanalytischen Kranken-          mente August Watermann*, Karl Landauer*,
geschichte", Psyche 39, 1985, 220-40  Peter Swales,        Theodor Reik*. Fundou ento uma nova socie-
"Freud, Katharina and the first `wild analysis'", in Paul   dade, a Vereniging voor Psychoanalyse in
E. Stepansky (org.), Freud, Appraisals and Reapprai-        Nederland (VPN), logo reconhecida pela IPA,
sals, N. Jersey, The Analytic Press, vol.3, 1988, 81-167
 Lisa Appignanesi e John Forrester, Freud's Women,
                                                            e que se fundiu em 1938 com a antiga NPV,
N. York, Basic Books, 1992.                                 graas  interveno de Ren De Monchy*.
                                                                Em 1934, Ophuijsen emigrou para a frica
                                                            do Sul, e um ano depois foi para os Estados
Ophuijsen, Johan H.W. van                                   Unidos*. Instalou-se em Detroit, e depois em
(1882-1950)                                                 Nova York.
psiquiatra e psicanalista americano                          Johan H.W. Van Ophuijsen, "Contribution au com-
    Nascido em Sumatra, Johan van Ophuijsen                 plexe de masculinit chez la femme" (1917), in Fmi-
                                                            nit mascarade. tudes psychanalytiques, textos reu-
foi um dos pioneiros da psicanlise* nos Pases
                                                            nidos por Marie-Christine Hamon, Paris, Seuil, 1994,
Baixos e um clnico notvel. Toda a sua vida foi            13-27  Ilse Bulhof, Freud en Nederland, Ambo, Baarn,
marcada pelos conflitos institucionais particu-             1983  Paul-Laurent Assoun, "Freud et la Hollande", in
larmente vivos da Sociedade Psicanaltica                   Harry Stroeken, En analyse avec Freud (1985), Paris,
Neerlandesa, que ele enfrentou com coragem e                Payot, 1987, 200-35.
inteligncia.                                                CISO; QUESTO DA ANLISE LEIGA, A.
    Depois de estudar medicina em Leiden e de
passar pela clnica do Hospital Burghlzli em
Zurique, fundou em 1917 a Nederlandse Vere-                 oral, estdio
niging voor Psychoanalyse (NVP), com August                  ESTDIO .
Strke*, Jan van Emden*, o psiquiatra Gerbran-
dus Jelgersma (1859-1942), o hipnotizador Al-
bert Willem van Renthergem (1845-1939) e o                  organodinamicismo
neurologista A. van der Chijs (1875-1926).                   EY, HENRI.
    Em 1918, fez oposio a Jelgersma a res-
peito da admisso dos no-mdicos  NVP. Este
recusava os psicanalistas leigos e logo se as-              orgonoterapia (ou vegetoterapia)
sociou a alguns junguianos para fundar um                    PSICOTERAPIA; REICH, WILHELM.
novo grupo, que se tornaria em 1934 a As-
sociao Neerlandesa de Psicopatologia e Psi-
canlise Psiquitrica.                                      Ortega y Gasset, Jos (1883-1955)
    Dois anos depois, Ophjuisen organizou o                 filsofo espanhol
congresso da International Psychoanalytical                     Inventor de um sistema de pensamento (o
Association * (IPA) em Haia e, em 1922, foi                raciovitalismo), parcialmente inspirado na filo-
Alemanha* para fazer sua formao didtica no               sofia heideggeriana, Jos Ortega y Gasset foi
Berliner Psychoanalytisches Institut* (BPI)                 um dos intelectuais espanhis mais clebres de
com Karl Abraham*. Interessou-se especial-                  sua gerao e, em companhia de alguns psiquia-
mente pela melancolia*, pela perseguio, pelo              tras, um dos primeiros introdutores do freudis-
sadismo* e pelos distrbios da sexualidade*                 mo* na Espanha*.
masculina.                                                      Nascido em Madri, em uma famlia da m-
    Depois de ser vice-presidente e tesoureiro da           dia burguesia, foi aluno dos jesutas, antes de se
IPA, criou em Haia, em 1930, um instituto de                iniciar na filosofia alem, permanecendo em
psicanlise, segundo o modelo do de Berlim,                 Leipzig, Berlim e Marburgo entre 1905 e 1907.
                                                                    Ossipov, Nikola Ievgrafovitch     557

Trs anos depois, comeou a ensinar na Univer-            Ossipov, Nikola Ievgrafovitch
sidade de Madri, o que faria at 1936.                    (1877-1934)
    Fundador, em 1923, da Revista de Occi-                psiquiatra e psicanalista russo
dente, consagrou uma parte de sua energia a                   Aluno do grande psiquiatra Wladimir Petro-
difundir no seu pas as diversas correntes da             vitch Serbski (1858-1917), Nikola Ossipov foi
filosofia alem do sculo XX. Foi assim que               um dos pioneiros da psicanlise na Rssia*.
comeou a se interessar pelas teorias freudia-            Depois de sua excluso da Universidade de
nas. Em 1911, publicou um artigo, "A psican-             Moscou em 1899, por ter participado de uma
lise, uma cincia problemtica", no qual propu-           greve de estudantes, continuou seus estudos de
nha uma interpretao fenomenolgica do pen-              psiquiatria na Sua*, em Berna, Zurique e
samento freudiano. Dez anos depois, decidiu               Basilia. Consternado com o niilismo terapu-
publicar, pela editora de Jos Ruiz Castillo, as          tico, interessou-se logo pela hipnose*, pelo tra-
obras completas de Sigmund Freud* em lngua               tamento moderno das neuroses* e depois, a
espanhola. Confiou esse trabalho a Luis Lopez             partir de 1907, pelas teses de Sigmund Freud*.
Ballesteros e logo recebeu a aprovao de                 Voltando a Moscou, apoiado por Serbski, criou
Freud, que tinha um bom conhecimento da                   com dois colegas uma "ambulncia teraputi-
literatura espanhola, a partir de sua correspon-          ca", que ele mesmo dirigia duas vezes por se-
dncia com seu amigo Eduard Silberstein* a                mana. Comeou assim a popularizar o trata-
respeito do Dom Quixote. Dezessete volumes                mento psicanaltico das neuroses e a difundir as
foram publicados at 1934. No prefcio do                 idias freudianas. Em 1909, com Moshe Wulff*
primeiro volume, Ortega y Gasset enfatizava a             e Nicolas Vyrubov (1869-?), fundou a revista
importncia do saber freudiano para o campo               Psychotherapia.
da psiquiatria, acrescentando que a doutrina                  Durante o vero de 1910, foi a Viena* para
vienense tinha um belo futuro.                            encontrar-se com Freud e tambm passou por
    Entretanto, esse empreendimento de tradu-             Zurique, onde esteve com Eugen Bleuler* e
o, nico no gnero por sua qualidade e pre-             Carl Gustav Jung*.
cocidade, no permitiu ao freudismo difundir-                 Quando Serbski foi demitido pelo regime
se na Espanha. A guerra civil e principalmente            tzarista por causa de suas opinies liberais,
a vitria do franquismo marcaram uma pausa                Ossipov o seguiu com a maioria de seus cole-
na implantao da psicanlise no pas. O pr-             gas. Fundaram juntos uma pequena associao
prio Ortega y Gasset desinteressou-se. Depois             de psiquiatras independentes, cujos membros
de residir no estrangeiro at 1945, voltou a              se reuniam s sextas-feiras, para "freudianizar".
Madri, onde continuou a ensinar. Durante esse             "As sesses das `pequenas sextas-feiras' logo
tempo, o interesse pela psicanlise se deslocou           se tornaram muito apreciadas", escreveu Jean
para o continente latino-americano, sobretudo             Marti, "e freqentadas por muitas pessoas."
para a Argentina*, onde outro editor deveria                  Ao contrrio de Wulff*, de Vera Schmidt* e
assumir, para novas obras completas de Freud,             de Ivan Dimitrievitch Ermakov*, ele no acei-
o trabalho realizado na Espanha antes da guerra.          tou o novo poder sovitico e emigrou para Praga
                                                          em 1921, sem participar da criao da Socie-
 Jos Ortega y Gasset, "Prlogo a la primera edicin"    dade Psicanaltica da Rssia. Assim, foi o pri-
(1922), in Sigmund Freud, Obras completas, t.1, Madri,    meiro freudiano da nova Tchecoslovquia, sa-
Biblioteca Nueva, 1948  Francisco Carles Egea, La        da do desmantelamento do Imprio Austro-
introduccin del psicoanlisis en Espaa (1893-1922),     Hngaro, e formou em Praga alguns alunos,
tese de doutorado em medicina, Universidade de Mur-
cia, 1983  Hugo Vezzetti, "Freud en langue es-
                                                          antes da chegada de Otto Fenichel*, que anali-
pagnole", Revue Internationale d'Histoire de la Psycha-   saria Theodor Dosuzkov*. Como Ermakov, de
nalyse, 4, 1991, 189-207.                                 quem foi o maior rival, interessou-se pela lite-
                                                          ratura e estudou as obras de Gogol, Dostoievski
 HISTRIA DA PSICANLISE; LAFORA, GONZALO                 e Puchkin. Conservador mas liberal, simulta-
RODRIGUEZ; TRADUO (DAS OBRAS DE SIGMUND                 neamente antitzarista e antibolchevista, fez in-
FREUD).                                                   terpretaes psicanalticas sobre o fenmeno
558       Otsuki, Kenji

revolucionrio, comparando "uma nao em                    Molnar (Londres, 1992), Paris, Albin Michel, 1992 
                                                            Jacquy Chemouni, Histria do movimento psicanaltico
estado de direito a um indivduo em estado de
                                                            (Paris, 1990), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991  Keigo
viglia e uma nao em estado de revoluo a                Okonogi, "Japan", in Psychoanalysis International. A
um indivduo em estado de sonho*". Enfatizava               Guide to Pschoanalysis throughout the World, vol.2,
que o sonho e a revoluo eram uma manifes-                 Peter Kutter (org.), Stuttgart, 1995, 123-42.
tao de narcisismo* em graus diversos.
                                                             KOSAWA, HEISAKU.
 Nikola Ievgrafovitch Ossipov, La Vie et la mort. Essai
biographique, editado por Bem, Dosuzkov, Losski, Pra-
ga, 1935  Jean Marti, "La Psychanalyse en Russie           outro
(1909-1930)", Critique, 346, maro de 1976, 199-237 
Alberto Angelini, La psicoanalisi in Russia, Npoles,       al. Andere (der); esp. otro; fr. Autre; ing. other
Liguori Editore, 1988  Alexandre Etkind, Histoire de la    Termo utilizado por Jacques Lacan* para designar
psychanalyse en Russie (1993), Paris, PUF, 1995.            um lugar simblico -- o significante*, a lei, a lingua-
                                                            gem, o inconsciente, ou, ainda, Deus -- que deter-
 COMUNISMO; FREUDO-MARXISMO; LURIA, ALEK-
                                                            mina o sujeito*, ora de maneira externa a ele, ora
SANDR ROMANOVITCH; ROSENTHAL, TATIANA;
                                                            de maneira intra-subjetiva em sua relao com o
SPIELREIN, SABINA; ZALKIND, ARON BORISSO-
                                                            desejo*.
VITCH.
                                                                Pode ser simplesmente escrito com maiscula,
                                                            opondo-se ento a um outro com letra minscula,
                                                            definido como outro imaginrio ou lugar da alteri-
Otsuki, Kenji (1891-1952)
                                                            dade especular. Mas pode tambm receber a grafia
psicanalista japons
                                                            grande Outro ou grande A, opondo-se ento quer ao
    De formao literria, Kenji Otsuki (ou Oht-            pequeno outro, quer ao pequeno a, definido como
ski) foi um dos primeiros japoneses a divulgar              objeto (pequeno) a*.
a literatura psicanaltica entre os seus compa-
triotas. Criou com Yaekichi Yabe o Instituto                    Como todos os freudianos, Lacan situou a
Psicanaltico de Tquio, filiado  International            questo da alteridade, isto , da relao do ho-
Psychoanalytical Association * (IPA) no Con-                mem com seu meio, com seu desejo* e com o
gresso de Wiesbaden em 1932, e depois fundou                objeto, na perspectiva de uma determinao
a primeira revista freudiana no Japo*, a Seis-             inconsciente. Mais do que os outros, entretanto,
hin-Bunseki. Principalmente, foi o mais notvel             procurou mostrar o que distingue radicalmente
tradutor das obras de Sigmund Freud* em ln-                o inconsciente freudiano -- como outra cena*,
gua nipnica, com a publicao, em 1931, de                 ou como lugar terceiro que escapa  conscin-
Psicopatologia da vida cotidiana*, e em 1932                cia* -- de todas as concepes do inconsciente
de uma coletnea de trs textos, sob o ttulo               oriundas da psicologia. Por isso  que cunhou
Contribuio  psicologia da vida amorosa.                  uma terminologia especfica (Outro/outro) para
Em 1933, publicou A tcnica psicanaltica. Es-              distinguir o que  da alada do lugar terceiro,
creveu regularmente a Freud para inform-lo de              isto , da determinao pelo inconsciente freu-
suas atividades, e este o estimulou a vencer as             diano (Outro), do que  do campo da pura
resistncias: "O que voc diz a respeito das                dualidade (outro) no sentido da psicologia.
resistncias que encontra no me surpreende",                   Foi em 25 de maio de 1955, no contexto da
escreveu ele em 20 de maio de 1933. " exata-               elaborao progressiva de sua tpica do simb-
mente isso que devemos esperar, mas estou                   lico*, do imaginrio* e do real*, durante o se-
convencido de que voc deu uma base slida                 minrio anual dedicado a O eu na teoria de
psicanlise no Japo e que ela no corre o risco            Freud e na tcnica da psicanlise, que Lacan
de desaparecer."                                            introduziu pela primeira vez o termo grande
                                                            Outro, distinguindo-o do pequeno outro: "H
 Kenji Otsuki, "Womanliness of the japanese spirit",       dois outros por distinguir, pelo menos dois --
Tokyo Journal of Psychoanalysis (Seishin-Bunseki),          um outro com maiscula e um outro com mi-
julho-agosto de 1940; "Character defects of the japa-
nese and their cause", ibid., maro-abril de 1941 
                                                            nscula, que  o eu. O Outro,  dele que se trata
Sigmund Freud, Chronique la plus brve. Carnets in-         na funo da fala." Antes disso, em 1953, em
times, 1929-1939, anotado e apresentado por Michael         "Funo e campo da fala e da linguagem em
                                                                                       outro     559

psicanlise", e depois, em fevereiro de 1954, em    estabeleceu um vnculo entre o desejo, o sujeito,
sua resposta ao filsofo Jean Hyppolite (1907-      o significante* e a questo do Outro. Em 1955,
1968), Lacan ainda confundia os dois termos,        em "A coisa freudiana ou Sentido do retorno a
inicialmente sublinhando que "o inconsciente        Freud em psicanlise", ele definiu o Outro co-
do sujeito  o discurso do outro" e, mais tarde,    mo o lugar onde se constitui o sujeito. Tratava-
que "o inconsciente  o discurso do Outro".         se, pois, de mostrar que este ltimo  repre-
    Em sua concepo do estdio do espelho*         sentado pelo significante numa cadeia que o
de 1936, retomada em 1938 em Os complexos           determina. Em maio de 1956, em seu seminrio
familiares, Lacan foi buscar essa idia no psi-     sobre as psicoses, Lacan falou do "Outro abso-
clogo Henri Wallon (1879-1962), transfor-          luto" como sendo aquele de quem "nunca po-
mando-a  luz da filosofia hegeliana. Tratava-      demos saber se no est nos enganando". A
se, na ocasio, a partir de uma teoria da alteri-   questo era mostrar de que forma Deus  inter-
dade centrada no especular e no imaginrio, de      pelado no discurso delirante de Daniel Paul
designar o outro como um outro si-mesmo, ou         Schreber*, ou seja, na loucura* e, em termos
como uma representao do eu* marcada pela          mais genricos, nessa forma "lgica" de loucu-
prevalncia da relao dual com a imagem do         ra que  a parania*. Schreber, o louco mstico,
semelhante. A isso se juntou, atravs da leitura    transforma-se em mulher para se submeter ao
da Fenomenologia do esprito, de Hegel, feita       coito com Deus. Atravs de sua histria, vemos
pelo filsofo Alexandre Kojve (1902-1968), a       que, na loucura, a relao extasiada com o
idia de uma dialtica da negatividade, segundo     Outro s  possvel, segundo Lacan, mediante
a qual todo reconhecimento do outro passa por       um auto-aniquilamento do sujeito e um surgi-
uma luta de morte. Nesse caso, o outro no tem      mento da heterogeneidade radical de um Outro
nenhuma existncia, j que o desejo do homem        absoluto, na figura de um Deus apavorante.
se define, antes de mais nada, como o desejo            Decorridos mais dois anos, em "A psican-
que todo indivduo tem de fazer com que seu         lise e seu ensino", Lacan acrescentou a essa
desejo seja reconhecido de maneira absoluta,        definio a idia de uma relao de comunica-
mesmo que anulando o outro (outrem) num             o inversa: "O inconsciente  o discurso do
processo de mortificao.                           Outro no qual o sujeito recebe, sob a forma
    Aps 1949, data em que, impulsionado por        invertida que equivale  promessa, sua prpria
sua leitura das Estruturas elementares do pa-       mensagem esquecida." Assim como no h ga-
rentesco, de Claude Lvi-Strauss, Lacan teori-      rantia da existncia da linguagem fora da pr-
zou sua noo de simblico, surgiu uma nova         pria linguagem, no h transparncia da comu-
concepo da alteridade, que desembocou na          nicao. A linguagem no  um instrumento,
inveno do termo "grande Outro" e se separou       mas a condio de produo de qualquer forma
de todas as concepes ps-freudianas da rela-      de comunicao.
o de objeto* que estavam em vigor na poca.           Em 1957, em "A direo do tratamento e os
Alm das representaes do eu, especulares ou       princpios de seu poder", Lacan ampliou sua de-
imaginrias, o sujeito  determinado, segundo       finio na relao transferencial. O Outro tor-
Lacan, por uma ordem simblica designada            nou-se ento a outra cena (o inconsciente) des-
como "lugar do Outro" e perfeitamente distinta      crita por Freud, mas compreendida, segundo a
do que  do mbito de uma relao com o outro.      terminologia lacaniana, como o "lugar de des-
Da a idia, afirmada nesse mesmo seminrio         dobramento da fala" onde o "desejo do homem
do ano de 1954-1955, de que "no existe meta-        o desejo do Outro". O sujeito se pergunta "que
linguagem". Em outras palavras, no existe          quer o Outro?" e, nessa interrogao, interroga
determinao anterior  linguagem que possa         sua prpria identidade, sobretudo a sexual.
garantir a existncia de uma linguagem.                 Mas h uma verdadeira tragdia do desejo,
    No contexto de sua concepo estruturalista     que Lacan sempre comenta de maneira muito
dos anos da maturidade (1950-1965), na qual a       hegeliana, indo buscar seus exemplos na litera-
teoria do inconsciente freudiano foi revista e      tura. Durante o ano de 1958-1959, em seu se-
corrigida  luz da lingstica saussuriana, Lacan   minrio O desejo e sua interpretao, ele toma
560     outro

por objeto de estudo, acompanhando Ernest           (suplemento). O Outro torna-se ento "o Outro
Jones*, o personagem de Hamlet, e em 1964-          sexo", isto , o lugar a partir do qual se enuncia
1965, interessa-se pela aposta de Pascal em seu     uma diferena para cada sujeito. No misticismo
seminrio Problemas cruciais para a psican-        cristo, que confina com a loucura, Deus  o
lise. Em ambos os casos, Lacan elabora va-          suporte de um gozo que podemos qualificar de
riaes sobre o tema da metalinguagem impos-        feminino. O mstico, com efeito, experimenta
svel e da falta de uma referncia original pas-    um gozo, mas nada sabe dizer dele. Relaciona-o
svel de garantir o exerccio da verdade: "No      com Deus como lugar do Outro. Sob esse as-
existe Outro do Outro." Com efeito, a pea de       pecto, o discurso mstico  "feminino": produz-
Shakespeare pe em cena a impossibilidade de        se no homem -- em So Joo da Cruz, por
agir. Hamlet no se decide a matar Claudio, o       exemplo -- apesar do falo*, quando surge a
assassino de seu pai e amante de sua me, e no     idia de que h um "mais-alm" da funo
consegue amar Oflia. Quanto ao pai morto, ele      flica. Assim como Schreber, paranico, trans-
 condenado a vagar  procura de um resgate         forma-se em mulher para copular com Deus, o
impossvel.                                         mstico faz a experincia da passagem por um
    Em seu clebre dilogo do artigo III dos        suplemento para chegar a Deus. Aqui vemos de
Pensamentos, Pascal conclui pela necessidade        que maneira, para cunhar seus conceitos, Lacan
que o homem tem de apostar na existncia de         utilizou sua cultura crist -- catlica, romana e
Deus: "Pesemos o ganho e a perda, fazendo a         barroca --, mais ou menos do modo como
opo de que Deus existe. Estimemos estes dois      Freud mobilizara sem parar os ensinamentos
casos: se ganhares, ganhars tudo; se perderes,     provenientes da tradio judaica.
no perders nada." Tal como a propsito de             No contexto da reformulao lgica de seus
Hamlet, Lacan sublinha aqui a tragdia do de-       prprios conceitos, Lacan tenderia a dar um con-
sejo na histria do cristianismo: a aposta pasca-   tedo cada vez mais algbrico a sua teoria do
liana  uma tentativa desesperada do jansenis-      Outro, utilizando grafos. Assim, a partir de 1960,
mo de resolver a questo da ausncia. Esta se       em "Subverso do sujeito e dialtica do desejo",
d  semelhana da ausncia do pai, cuja funo     comeou a traduzir as frmulas "O desejo do
reduziu-se no Ocidente. H, pois, uma ausncia      homem  o desejo do Outro" e "No existe Outro
no lugar do Outro. O Outro (Deus ou o pai) no      do Outro", fazendo girar em torno de um eixo as
responde, no d nenhuma garantia. A aposta de      funes S (sujeito, que pode ser ou no "barrado"),
Pascal  menos a afirmao da certeza da salva-     s (significante), a e A. Essa lgebra  que pas-
o atravs da graa do que uma interrogao        saramos progressivamente a encontrar, muitas
pattica do sujeito diante da ausncia de Deus      vezes utilizada de maneira dogmtica, nas obras
e de sua encarnao impossvel no lugar do          dos diferentes grupos lacanianos.
Outro.                                               Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de Janei-
    Essa tese  retomada em 1968-1969, no           ro, Jorge Zahar, 1998; Os complexos familiares na
seminrio De um Outro ao outro, bem como em         formao do indivduo (Paris, 1984), Rio de Janeiro,
1975, em Mais, ainda. Neste ltimo seminrio,       Jorge Zahar, 1987; O Seminrio, livro 1, Os escritos
                                                    tcnicos de Freud (1953-1954) (Paris, 1975), Rio de
Lacan estabelece a ligao entre sua teoria da      Janeiro, Jorge Zahar, 1979; O Seminrio, livro 3, As
sexualidade feminina* como "suplemento" im-         psicoses (1955-1956) (Paris, 1981), Rio de Janeiro,
possvel de simbolizar e a questo da relao       Jorge Zahar, 1988, 2 ed.; O Seminrio, livro 20, Mais,
exttica com o Outro. A partir de um comentrio     ainda (1972-1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989,
                                                    2 ed.; Le Sminaire, livre VI, Le Dsir et son interpr-
sobre a escultura de Bernini denominada O x-       tation (1958-1959), indito: os trechos referentes a
tase de Santa Teresa, ele mostra que a diferena    Hamlet aparecem em Ornicar?, 24, 1981, 25, 1982, e
sexual*, segundo a concepo freudiana de uma       26-27, 1983; Le Sminaire, livre XII, Problmes cru-
libido* nica,  uma questo de significao. O     ciaux de la psychanalyse (1964-1965), indito; Le S-
                                                    minaire, livre XVI, D'un Autre  l'autre (1968-1969),
homem e a mulher ocupam, cada um deles, uma         indito.
funo significante, e s se distinguem sexual-
mente em referncia a um significante da dife-       DIPO, COMPLEXO DE; EU; OBJETO (BOM E MAU);
rena: entre funo flica e gozo* feminino         OBJETO TRANSICIONAL.
                                                P
Pases Baixos                                                 Depois do trabalho pioneiro de August Str-
    Em 1907, Hugo Heller* solicitou a Sigmund             cke*, que comeou a traduzir as obras de Freud
Freud* que lhe enviasse uma lista de seus dez             para o neerlands*, um grupo se formou em tor-
livros preferidos. Freud incluiu na seleo de            no de Jan Van Emden*, com Gerbrandus Jel-
seus autores favoritos o nome de um escritor              gersma (1849-1952), A. Van der Chijs (1875-
neerlands, Edward Douwes Dekker (1820-                   1926) e Albert Willem Van Renterghem (1845-
1887), mais conhecido pelo pseudnimo de                  1939).
Multatuli. Racionalista, ateu, revoltado e atin-              Professor na Universidade de Leiden, Jel-
gido por uma certa mania de perseguio,                 gersma teve um papel importante em 1914, ao
maneira de August Strindberg, Multatuli lutou             intitular o seu discurso reitoral "Vida psquica
contra o colonialismo quando era funcionrio              no-sabida". Declarava-se favorvel  psican-
em Java. "Freud apreciava em especial", escre-            lise, o que motivou o seguinte comentrio de
veu Paul-Laurent Assoun, "o modo ao mesmo                 Freud, um ano depois: "O primeiro reconheci-
tempo realista e racionalista com o qual Multa-           mento oficial da interpretao do sonho* e da
tuli abordava a questo da relao das crianas           psicanlise foi obra do psiquiatra Jelgersma,
com a sexualidade*."                                      reitor da Universidade de Leiden, em seu dis-
    Entretanto, no foi sob o signo da revolta e          curso inaugural de 9 de fevereiro de 1914."
da defesa da liberdade sexual que a psican-                  S no fim da Primeira Guerra Mundial, a 24
lise* se implantou nos Pases Baixos no in-              de maro de 1917, Johan Van Ophuijsen* fun-
cio do sculo, quando os valores dominantes               dou em Amsterdam a Nederlandse Vereniging
eram o conformismo burgus, o utilitarismo, o             voor Psychoanalyse (NVP), com os membros
egosmo individual e a aceitao dos princ-              do grupo de Van Emden: treze pessoas no total,
pios mais rigorosos do protestantismo. Assim,             e nem um nico no-mdico. Seis tinham efe-
a situao neerlandesa da psicanlise era bas-            tuado uma formao psicanaltica, dos quais
tante peculiar na Europa, pois a histria do              cinco com Carl Gustav Jung*, porque o preo
movimento foi essencialmente marcada pelas                de suas sesses era a metade das de Freud. Em
relaes conflituosas e as cises* entre clnicos         1920, o congresso da International Psychoana-
preocupados com o sucesso profissional e fi-              lytical Association* (IPA) se realizou em Haia.
nanceiro, que se tornaram ao longo dos anos os            Jelgersma e Strcke participaram dele.
melhores especialistas no training (formao                  J em 1921, o grupo holands sofreu graves
didtica).                                                conflitos, a respeito da anlise leiga*. Como nos
    Como em todos os pases da Europa, as teses           Estados Unidos*, s os mdicos, amplamente
freudianas foram introduzidas principalmente              majoritrios, eram considerados como mem-
por via mdica e se chocaram com a mesma                  bros plenos. Os outros, no tendo nem direi-
resistncia* que em outros lugares: eram acu-             to de voto, nem o de assistir s reunies admi-
sadas do que os seus adversrios chamavam de              nistrativas, no possuam nenhum status.
pansexualismo*. A expanso da psicanlise fi-             Ophuijsen defendeu ento a obrigao, para
cou limitada a trs cidades da provncia da               todos os membros, de se submeterem a uma
Holanda: Amsterdam, Haia, Leiden.                         anlise didtica*. Mas como no existia ne-
                                                    561
562     Pases Baixos

nhum didata na Holanda e a permanncia no           lados. Assim, criticou duramente a estreiteza de
estrangeiro custava excessivamente caro, o pro-     esprito dos neerlandeses e sua falta de genero-
jeto foi rejeitado.                                 sidade. Decepcionado, Ophuijsen deixou a Ho-
    Os conflitos e as dificuldades de integrao    landa e foi para os Estados Unidos, enquanto
dos candidatos levaram Jelgersma a fundar ou-       Reik tambm se exilava.
tra sociedade: a Sociedade de Leiden para a             Em 1934, Ren De Monchy* sucedeu a
Psicanlise e a Psicopatologia, que se tornaria a   Ophuijsen na direo da VPN, na qual se mos-
Associao Neerlandesa, em 1934. Esse novo          trou inicialmente muito hostil aos imigrantes
grupo tomou parte ativa na difuso do freudis-      judeus, como mostra uma carta nitidamente
mo*, no mesmo momento em que muitos psi-            anti-semita dirigida a Westerman Holstijn, e
quiatras neerlandeses manifestavam sua hos-         citada por H. Groen-Prakken. Dava a entender
tilidade em relao  nova doutrina.                que os judeus tinham oprimido "silenciosamen-
    Incansvel, Ophuijsen, que j trabalhara pe-    te" os "arianos" e que a vez destes tinha chega-
la anlise leiga, criou em Haia, em 1930, um        do: "Compreendo a atitude do nacional-socia-
Instituto de Psicanlise, a partir do modelo do     lismo na Alemanha, embora no concorde com
Berliner Psychoanalytisches Institut* (BPI), e      tudo. A opresso judia silenciosa de uma nao
para inaugur-lo, convidou Theodor Reik*. Ao        ariana  naturalmente inaceitvel. Estarei ao
fim de dois anos, o instituto fechou as portas,     lado de vocs quando quiserem impedir a ins-
porque s atraa os no-mdicos. Nessa data,        talao dos judeus aqui."
Jelgersma aposentou-se da universidade, pondo           Depois de sua permanncia em Viena* e de
fim  produtiva colaborao entre as atividades     seu casamento, mudou completamente de opi-
psicanalticas e o ensino do freudismo. Seu su-
                                                    nio e tentou unificar as duas sociedades
cessor no era favorvel s teses vienenses. Em
                                                    neerlandesas, uma em Amsterdam, outra em
1932, a situao da psicanlise nos Pases Bai-
                                                    Haia. Em 1938, realizou-se um acordo, que
xos se tornara desastrosa, tanto pelos conflitos
                                                    resultou na integrao da NVP  NPV. Todavia,
entre os prprios clnicos quanto por razes ex-
                                                    os problemas da prtica leiga no ficaram resol-
ternas. A NVP tinha ento apenas 21 membros.
                                                    vidos com isso. Os no-mdicos no obtiveram
    A partir de 1933, com a chegada dos exilados
                                                    exatamente o mesmo status legal que os mdi-
expulsos pelo nazismo*, principalmente Theo-
                                                    cos e foram obrigados a receber apenas casos
dor Reik, Karl Landauer*, August Watermann*
                                                    julgados "no-patolgicos", o que, nos planos
e m ai s t ard e Ann y Rosenb erg-Kat an,
psicanalista de crianas, os conflitos se agrava-   clnico e terico, era evidentemente absurdo.
ram. Dois grupos se defrontaram com violncia,          Criticado tanto por sua prtica quanto por
cada um deles apoiado por um fundador pres-         seus trabalhos tericos, Westerman Holstijn de-
tigioso da primeira gerao: de um lado, os         mitiu-se da NVP. Quanto a Watermann e a
partidrios da integrao  IPA, dirigidos por      Landauer, morreram na deportao: um em
Ophuijsen e favorveis  anlise leiga; do outro,   Auschwitz, o outro em Bergen-Belsen. Anny
os adeptos da psicanlise mdica, defendidos        Rosenberg-Katan e seu marido, Maurits Katan,
por Jelgersma e hostis  admisso dos imi-          emigraram para os Estados Unidos.
grantes na NVP.                                         Em 1945, a NVP foi reconstituda, mas
    No outono, Ophuijsen decidiu corajosa-          Holstijn recusou-se a fazer parte dela e em 1947,
mente combater pelos estrangeiros, mas sua          depois de uma ciso, criou o seu prprio grupo
proposta foi rejeitada por Jelgersma. Ficando       com J.H. Van der Hoop, um ex-analisando de
em minoria, demitiu-se da NVP e criou em Haia       Jung, a Nederlandse Genootschap voor Psy-
uma segunda sociedade, a Vereniging voor Psy-       choanalyse (NGP). Essa sociedade, que se as-
choanalyse in Nederland (VPN), logo reco-           semelhava muito  que Jelgersma tinha antes da
nhecida pela IPA graas ao apoio de Ernest          guerra, nunca foi admitida na IPA. Entretanto,
Jones*. Preocupado em promover sua poltica         reunia muitos praticantes, em torno de uma
de "salvamento" da psicanlise na Alemanha*,        perspectiva menos ortodoxa e mais aberta do
este tambm procurava proteger os judeus exi-       que a NVP.
                                                                           Palo Alto, Escola de          563

    Chegando  Holanda em 1938, Jeanne              pela aprovao, em 1967, de uma lei de auxlio
Lampl-De Groot* comeou a exercer um papel          social, que autorizava o reembolso dos trata-
maior na NVP durante a guerra. Graas a doa-        mentos psicanalticos. Esse sistema contribuiu
es americanas recolhidas por Hans Lampl*,         amplamente para a implantao do ensino do
ela criou em 1946 um novo instituto de psica-       freudismo na universidade. Em Leiden, em
nlise, inaugurado oficialmente por Anna            Amsterdam, em Rotterdam e em Groningen,
Freud* no ano seguinte, quando do congresso         psicanalistas ocuparam ctedras de psiquiatria
da IPA em Amsterdam.                                e de psicologia clnica*. Quanto  psicanlise
    A NVP tornou-se uma das sociedades mais         de crianas*, esta tomou um impulso impor-
ortodoxas da IPA, do ponto de vista da obedin-     tante nos Pases Baixos, em parte graas ao
cia s regras tcnicas, o que no a impediu de      apoio pessoal de Anna Freud.
abrir-se para todas as correntes: annafreudis-          No fim dos anos 1990, A NVP tinha 213
mo*, kleinismo*, Self Psychology*. Foi duran-       membros, e a NGP 150, para uma populao de
te esse perodo que a psicanlise ultrapassou os    quinze milhes e meio de habitantes, ou seja,
estreitos limites da Holanda, principalmente em     uma densidade de 24 psicanalistas para um
Groningen, onde se formou um terceiro plo          milho de habitantes.
freudiano. Entre 1952 e 1955, foram feitas mo-          Como em quase todos os pases do norte, o
dificaes nos estatutos da NVP, que resolve-       lacanismo* s se implantou na Holanda graas
ram em parte o problema da psicanlise leiga:       ao trabalho minoritrio de alguns intelectuais,
para se tornarem membros titulares, os no-m-      leitores da obra de Jacques Lacan*. Foi o caso,
dicos ficavam a partir de ento obrigados a         notadamente, de A.W.N. Mooij, psiquiatra e
receber uma formao universitria equivalen-       psicanalista em Utrecht, que trabalhou em liga-
te  dos mdicos.                                   o com a Escola Belga de Psicanlise (EBP).
    A partir de 1958, os psicanalistas da NVP, j   Ao contrrio dos lacanianos de todos os outros
com a experincia dos conflitos institucionais,     pases, os raros clnicos holandeses que se filia-
se tornaram, no seio da IPA, grandes tcnicos       ram a essa corrente mantiveram o princpio da
em training. Foi o caso principalmente de Pieter    sesso de 45 minutos.
Jan Van der Leeuw, que teve um papel conside-        Sigmund Freud, "Contribuio a um questionrio sobre
rvel em todos os comits para a unificao das     leitura" (1907) ESB, IX, 251-2; SE, IX, 245-7; A histria
regras da anlise didtica na Europa. Seria elei-   do movimento psicanaltico (1914), ESB, XIV, 16-88; GW,
to presidente da IPA no Congresso de Ams-           X, 44-113; SE, XIV, 7-66; Paris, Gallimard, 1991  J.
                                                    Spanjaard e R.U. Mekking, "Psychoanalyse in die
terdam de 1965, e ocuparia essa funo durante      Niederlanden", in Die Psychologie des 20. Jahrhunderts,
dois mandatos.                                      vol.20, Zurique, Kinder Verlag, 1975  L. Bujhof, Freud en
    Na NVP, os conflitos prosseguiram, ao mes-      Nederland, Baarn, Ambo, 1983  C. Brjnkgreve, Psychoa-
mo tempo que as questes psicanalticas eram        nalyse in Nederland, Amsterdam, De Arbeiderspers,
                                                    1984  Paul-Laurent Assoun, "Freud et la Hollande", in
resolvidas por decises administrativas. Assim,     Harry Stroeken, En analyse avec Freud (1985), Paris,
para evitar a gerontocracia e o mandarinato, a      Payot, 1987, 200-35  Harry Stroeken, "The reception of
sociedade atribuiu automaticamente o ttulo de      psychoanalysis in the Netherlands", The Dutch Annual of
didata a todo clnico com a idade de 50 anos,       Psychoanalysis, vol.1, 1993  H. Groen-Prakken, "The
                                                    Psychoanalytical Society and the analyst", The Dutch
com a nica condio de que pudesse provar          Annual of Psychoanalysis, 1993.
que dedicava mais da metade de seu tempo 
psicanlise. Do mesmo modo, o ttulo de as-          BLGICA; EU E O ISSO, O; FEDERAO EURO-
sociado foi progressivamente concedido a todo       PIA DE PSICANLISE; MAHLER, GUSTAV; NOVAS
clnico que fizesse uma exposio terica e         CONFERNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE PSICAN-
clnica e que tivesse realizado pelo menos trs     LISE; QUESTO DA ANLISE LEIGA, A; ROMNIA;
tratamentos julgados positivos.                     TCNICA PSICANALTICA.
    Essa democratizao foi estimulada pela
criao, em 1958, de uma fundao que permi-
tia aos candidatos  anlise didtica fazer um      Palo Alto, Escola de
emprstimo para pagar sua formao, e depois         BATESON, GREGORY.
564     Pankejeff, Serguei Constantinovitch

Pankejeff, Serguei Constantinovitch                  fora: em vo. Um primo, filho da irm da
(1887-1979), caso Homem dos Lobos                   me, foi internado num manicmio de Praga,
                                                    tambm ele afetado por uma forma de delrio de
    Terceiro e ltimo grande tratamento psica-
                                                    perseguio.
naltico conduzido por Sigmund Freud*, depois
                                                        Em 1896, aos 10 anos de idade, o pequeno
de Dora (Ida Bauer*) e do Homem dos Ratos
                                                    Serguei apresentou os primeiros sinais de uma
(Ernst Lanzer*), a histria do Homem dos Lo-
                                                    neurose grave*. Em 1905, sua irm Anna suici-
bos (Serguei Constantinovitch Pankejeff)  ni-
ca nos anais do freudismo. Comentada inme-         dou-se e, dois anos depois, foi a vez de seu pai
ras vezes por todas as escolas psicanalticas e     tirar a prpria vida. Nessa poca, Serguei fre-
pelos mais diversos autores, tambm o foi pelo      qentava o ginsio. Conheceu uma mulher do
prprio paciente, que, depois de sobreviver s      povo, Matrona, com quem contraiu gonorria
duas guerras mundiais, redigiu uma autobiogra-      (ou blenorragia). Mergulhou ento em acessos
fia que analisava seu prprio caso, revelando       freqentes de depresso, que em pouco tempo,
sua verdadeira identidade. Essa anlise foi tam-    de sanatrios para hospcios e de clnicas de
bm a mais longa das trs: comeou em janeiro       repouso para termas medicinais, levaram-no a
de 1910 e terminou exatamente em 28 de junho        se transformar num doente ideal para o saber
de 1914, data do assassinato, em Sarajevo, do       psiquitrico do fim do sculo. Tratado por Vla-
arquiduque Francisco Ferdinando. O paciente         dimir Bekhterev, que utilizou a hipnose*, por
no ficou "curado": retomou uma "etapa" de          Theodor Ziehen (1862-1950), em Berlim, e fi-
anlise com Freud no ps-guerra e, mais tarde,      nalmente, por Emil Kraepelin*, em Munique,
com uma aluna dele, Ruth Mack Brunswick*.           que emitiu um diagnstico de psicose manaco-
Instalado em Viena depois da derrota do nazis-      depressiva*, Serguei descobriu-se no sanatrio
mo,* foi sustentado pelo movimento psicanal-       de Neuwittelsbach, onde seguiu tratamentos to
tico. Analisado a cada vero por Kurt Eissler,      diversificados quanto inteis -- massagens, ba-
tratado por Wilhelm Solms-Rdelheim e, final-       nhos etc. Ali se apaixonou por uma enfermeira,
mente, ajudado por Muriel Gardiner* na reda-        Teresa Keller, um pouco mais velha do que ele
o de suas memrias, tornou-se um persona-         e me de uma garotinha (Else). Iniciou-se ento
gem mtico: mais o Homem dos Analistas do           um relacionamento passional ao qual se opu-
que o Homem dos Lobos, smbolo, afinal, do          nham sua famlia (porque a moa era plebia) e
carter "interminvel" da anlise freudiana.        seu psiquiatra (convencido de que a sexuali-
    Serguei Constantinovitch Pankejeff nasceu       dade* era o pior dos remdios nos casos de
no sul da Rssia, numa rica famlia da aris-        loucura*). Depois de romper e retomar essa
tocracia rural, e foi criado em Odessa, ao lado     ligao, Pankejeff voltou a Odessa, onde se fez
de sua irm Anna, por trs governantas (Grus-       tratar por um jovem mdico, Leonid Droznes
cha, Nania e Miss Owen) e alguns preceptores.       (1880-19?), que logo decidiu conduzi-lo a Vie-
Sua me, afetada por diversos distrbios psicos-    na para uma consulta com Freud.
somticos, preocupava-se exclusivamente com             Numa frase contundente, Freud estigmati-
sua sade, enquanto o pai, depressivo, levava a     zou o niilismo teraputico de seus colegas psi-
vida ativa de um poltico conhecido por suas        quiatras: "At o momento", disse ele a Panke-
opinies liberais.                                  jeff, "o senhor esteve procurando a causa de sua
    Os membros da famlia, de ambos os lados        doena num urinol." Essa interpretao* tinha
da genealogia, assemelhavam-se a personagens        uma significao dupla. Freud aludia tanto 
de um dos romances de Dostoivski, Os irmos        inutilidade dos tratamentos anteriores quanto 
Karamazov. O tio Pedro, primeiro irmo do pai,      patologia de Serguei, que sofria de distrbios
sofria de parania* e foi tratado pelo psiquiatra   intestinais permanentes, em particular uma
Serguei Korsakov (1854-1900). Fugindo do            constipao crnica. A anlise comeou. Em
contato humano, viveu como um selvagem em           vez de proibir o Homem dos Lobos de rever
meio aos animais e terminou a vida num hos-         Teresa, Freud simplesmente lhe pediu que es-
pcio. O tio Nicolau, segundo irmo do pai, quis    perasse o fim do tratamento. No se ops ao
raptar a noiva de um de seus filhos e despos-la    casamento: "Teresa", disse, " o impulso para a
                                                      Pankejeff, Serguei Constantinovitch        565

mulher." Numa carta a Sandor Ferenczi*, data-      governanta inglesa (Miss Owen) e a criada
da de fevereiro de 1910, Freud assinalou a         (Gruscha). Segundo Freud, que se apoiava nas
violncia das manifestaes transferenciais de     lembranas de Serguei, este fora objeto de uma
seu paciente: "O jovem russo rico que recebi,      tentativa de seduo aos trs anos de idade, por
por causa de uma paixo amorosa compulsiva,        parte de sua irm, Anna, que lhe mostrara seu
confessou-me, aps a primeira sesso, as se-       "pop", ao passo que depois ele se havia exibi-
guintes transferncias: judeu escroque, ele gos-   do diante de Nania, que o repreendera. Mais ou
taria de me agarrar por trs e me cagar na         menos aos 10 anos, por sua vez, ele quisera
cabea. Aos 6 anos de idade, o primeiro sintoma    seduzir a irm, que o havia repelido. Pos-
manifesto consistiu em injrias blasfematrias     teriormente, preferira escolher mulheres de si-
contra Deus: porco, cachorro etc. Quando via       tuao inferior  sua. Afastando-se de todos os
trs punhados de coc na rua, sentia-se mal, por   diagnsticos de melancolia* e psicose* formu-
causa da Santssima Trindade, e procurava an-      lados pelos outros mdicos antes dele, Freud
siosamente um quarto punhado para destruir a       viu nesse caso uma histeria* de angstia com
evocao."                                         fobia* aos animais, que depois se transformara
    Pela primeira vez, Pankejeff teve a impres-    numa neurose obsessiva* ou numa neurose in-
so de ser escutado, e no mais tratado como       fantil, donde o ttulo dado ao texto.
doente. Acima de tudo, manteve com Freud               Foi interpretando um sonho* que Serguei
relaes quase amistosas e acabou por vener-      tivera aos 4 anos de idade, e que fora contado e
lo: no fim do tratamento, Freud tinha muita        desenhado por ele durante a anlise, que Freud
simpatia por ele. Serguei reencontrou-se com       reconstruiu a origem da neurose infantil: "`So-
Teresa e concordou com o casamento, que foi        nhei', disse ele, `que era noite e eu estava dei-
celebrado em Odessa, em 1914. Ele se sentiu        tado em minha cama (...). Eu sabia que era
curado e frisou que a anlise lhe permitira des-   inverno. De repente, a janela se abriu sozinha e,
posar a mulher amada.                              com enorme susto, vi que havia uns lobos sen-
    Duas semanas aps a suspenso do trata-        tados na grande nogueira em frente  janela.
mento, a ustria entrou em guerra com a Rs-       Eram uns seis ou sete. Os lobos era inteiramente
sia*. Freud teve ento a fantasia* de que seu      brancos e mais pareciam raposas ou ces pas-
filho mais velho, Martin Freud*, que acabara       tores, pois suas caudas eram compridas como
de ser convocado, poderia tombar na frente de      as das raposas e eles tinham as orelhas em p,
batalha sob as balas de seu ex-paciente. Foi       como os ces quando prestam ateno a alguma
nesse estado de esprito e em meio  tormenta      coisa. Com grande medo, obviamente, de ser
da guerra que, em dois meses, de outubro a         devorado pelos lobos, gritei e acordei.'"
novembro de 1914, redigiu a histria do caso,          A partir desse sonho e de diversas lembran-
sem jamais utilizar a denominao Homem dos        as do paciente a respeito de sua sexualidade
Lobos. O relato foi publicado em 1918, sob o       infantil, Freud inventou, com detalhes de uma
ttulo "Histria de uma neurose infantil".         preciso inaudita, uma estarrecedora cena pri-
    Contrariamente ao caso do Homem dos Ra-        mria* que se tornaria clebre nos anais da
tos, em que a lgica da anlise fora exposta de    psicanlise, e que seria muitas vezes comenta-
maneira implacvel, Freud se entregou, para        da. Patrick Mahony resumiu-a muito bem: "Nu-
escrever a histria do Homem dos Lobos, a um       ma tarde quente de vero, o pequeno Serguei,
verdadeiro trabalho de criao romanesca, a        ento com 18 meses de idade e sofrendo de
ponto de "inventar", por meio de interpre-         malria, dormia no quarto de seus pais, para
taes, acontecimentos que talvez nunca            onde tambm estes se retiraram, parcialmente
houvessem realmente tido lugar, centrando-se       despidos, a fim de tirar uma sesta; s cinco horas
todo o relato na infncia do paciente e girando    da tarde, provavelmente no auge da febre, Ser-
toda a reconstruo de sua vida em torno de sua    guei acordou e, com a ateno fixa, observou
sexualidade.                                       seus pais, parcialmente trajados com roupas de
    O quadro familiar era composto pela me,       baixo brancas, ajoelhados sobre lenis tam-
pai, irm e trs empregadas: a bab (Nania), a     bm brancos, entregarem-se por trs vezes ao
566     Pankejeff, Serguei Constantinovitch

coito a tergo: reparando nos rgos genitais dos    do dinheiro para ele no crculo de seus discpu-
pais e no prazer estampado no rosto da me, o       los vienenses. Foi ento que Serguei Pankejeff
beb, habitualmente passivo, teve um movi-          comeou a se identificar com a histria de seu
mento intestinal repentino e comeou a chorar,      caso e a se tomar realmente pelo Homem dos
assim interrompendo o jovem casal."                 Lobos. Em 1926, afetado pelos mesmos sinto-
    Dois outros episdios da vida de Serguei        mas, foi novamente consultar Freud, que se
foram objeto de uma srie de interpretaes.        recusou a trat-lo uma terceira vez e o encami-
Um deles dizia respeito a Gruscha, cujas nde-      nhou a Ruth Mack Brunswick. Serguei tornou-
gas, comparadas a asas de borboleta e, depois,      se ento presa de um incrvel imbrglio trans-
ao nmero V romano, remetiam aos cinco lobos        ferencial. No apenas Freud estava analisando,
do sonho e  hora em que teria ocorrido o           ao mesmo tempo, Ruth, o marido dela e o irmo
famoso coito, e o outro episdio estava ligado      deste, como tambm, ainda por cima, nesse ano
a uma alucinao visual. Em sua infncia, Ser-      ele encaminhou para o div de Ruth uma norte-
guei vira seu dedo mnimo ser decepado por um       americana, Muriel Gardiner, que iria tornar-se
canivete, e depois se apercebera da inexistncia    amiga e confidente de Pankejeff  medida que
do ferimento. Freud deduziu disso que seu pa-       se desenrolavam suas respectivas anlises.
ciente manifestara nesse episdio uma atitude           Mais enferma que seu paciente, Ruth Mack
de rejeio (Verwerfung) que consistia em s        Brunswick havia adquirido o hbito de tratar
ver a sexualidade pelo prisma de uma teoria         suas dores vesiculares com morfina. Como toda
infantil: a relao sexual pelo nus.               a gerao* psicanaltica da dcada de 1920,
    Depois desse grande mergulho na infncia        interessava-se pelas psicoses e pelos mecanis-
do paciente, Freud teve certeza de hav-lo cu-      mos pr-edipianos identificados por Melanie
rado. Serguei entrou ento na tormenta da guer-     Klein*. Foi por isso que, depois de haver anali-
ra e sua vida modificou-se por completo. At a      sado Pankejeff de outubro de 1926 a fevereiro
primavera de 1918, morou em Odessa, dividido        de 1927, identificou nele no uma neurose, mas
entre sua me e Teresa, que no se davam bem.       uma parania. Em 1928, ela publicou uma
Retomou os estudos e recebeu seu diploma de         segunda verso do caso, sob o ttulo de "Suple-
advogado. Pouco depois, Teresa foi obrigada a       mento  histria de uma neurose infantil". Pela
sair da Rssia para ir ao encontro da filha, que    primeira vez, atribuiu ao paciente o nome que
morreu em Viena, onde Serguei foi juntar-se        passaria desde ento a design-lo: o Homem
mulher. A Revoluo de Outubro o havia ar-          dos Lobos. Mack Brunswick o descreveu como
ruinado e o ex-aristocrata transformou-se num       um homem perseguido, antiptico, avarento,
outro homem, um emigrante pobre e sem recur-        srdido, hipocondraco e obcecado com sua
sos, obrigado a aceitar um emprego numa             imagem, em especial com uma pstula que lhe
companhia de seguros, no qual permaneceria          corroa o nariz. Atravs desse novo diagnstico,
at se aposentar.                                   o movimento psicanaltico dividiu-se em dois
    As mudanas ocorridas em sua vida mergu-        campos: os partidrios da psicose, de um lado,
lharam-no numa nova depresso, que o obrigou        e os da neurose, de outro.
a retornar a Freud. Este o acolheu de bom grado,        A ecloso da Segunda Guerra Mundial trans-
presenteou-o sem demora com o texto de seu          formou mais uma vez a triste vida de Pankejeff.
caso, que acabara de publicar, e em seguida         Em 1938, dias depois da entrada dos nazistas
tomou-o novamente em anlise, de novembro           em Viena, ele encontrou sua mulher morta no
de 1919 a fevereiro de 1920. Segundo ele, essa      apartamento do casal: tinha-se suicidado.
"ps-anlise" serviu para liquidar um resto de          A partir de 1945 e por todo o resto de sua
transferncia* no analisado e finalmente curar     vida, o Homem dos Lobos, ainda e sempre
o paciente.                                         melanclico, foi auxiliado pelo movimento
    Na realidade, este continuava a apresentar os   freudiano de uma maneira a um tempo indita
mesmos sintomas, at mesmo agravados em             e espetacular. Estimulado por Muriel Gardiner
decorrncia da situao financeira precria.        e subvencionado por uma "penso" fornecida
Quanto a esse aspecto, Freud o ajudou, coletan-     por Kurt Eissler em nome dos Arquivos
                                                                                      pansexualismo         567

Sigmund Freud, ele tratou de redigir suas me-                zer, Conversas com o Homem dos Lobos (Hamburgo,
                                                             1980), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993  Patrick
mrias e comentar a histria de seu caso na
                                                             Mahony, Les Hurlements de l'Homme aux loups (N.
prpria linguagem do discurso psicanaltico.                 York, 1984), Paris, PUF, 1995.
Elas foram publicadas em 1971, traduzidas no
mundo inteiro e mil vezes comentadas.                         ABRAHAM, NICOLAS; FORACLUSO; PAPPEN-
    Passados alguns anos, contrariando a opi-                HEIM, BERTHA; TRS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA
nio dos guardies do templo freudiano, Panke-               SEXUALIDADE.
jeff concordou em responder a uma longa
entrevista de uma jornalista vienense, Karin
Obholzer, que o fez contar sua vida num outro                pansexualismo
estilo, mais direto e menos compassado. Ele                  al. Pansexualismus; esp. pansexualismo; fr. pan-
ento declarou que a famosa cena do coito a                  sexualisme; ing. pansexualism
tergo certamente nunca haveria acontecido,
                                                                 Em filosofia, o prefixo pan  ligado a um
porque, na Rssia, as crianas jamais dormiam
                                                             grande nmero de termos, em dois sentidos
no quarto dos pais. Sempre venerando o talento
                                                             principais. Em primeiro lugar, assinala que no
teraputico de Freud, ele tomou o partido do
                                                             existe nada fora do que  designado pelo termo
diagnstico enunciado por este e se ps contra
                                                             ligado a esse prefixo, e equivale, em segundo,
o de Ruth Mack Brunswick. Bem diante do
                                                             ao adjetivo "universal", unido ao termo de que
nariz e das barbas dos psicanalistas da Interna-
                                                             se trata.
tional Psychoanalytical Association* (IPA),
                                                                 Em todos os pases onde a psicanlise* foi
que o haviam transformado numa espcie de
                                                             implantada, o termo pansexualismo  utilizado
arquivo, o Homem dos Lobos metamorfoseou-
                                                             para designar pejorativamente a doutrina freu-
se mais uma vez: tornou-se, a seu prprio res-
                                                             diana da sexualidade*, concebida sob a catego-
peito, mais competente do que a maioria dos
                                                             ria de uma causalidade nica, tanto porque ela
comentadores de seu caso, que no tinham,
                                                             recusaria qualquer explicao do psiquismo fo-
como ele, o privilgio de ser um trecho inalte-
                                                             ra da etiologia sexual quanto pelo fato de que
rvel da obra freudiana.
                                                             se pretenderia universal, isto , aplicvel a todas
    Pankejeff morreu em Viena, assistido por
                                                             as culturas e a todos os indivduos. Nesse as-
seu mdico, o conde Wilhelm Solms-Rdel-
                                                             pecto, os defensores da crtica do pansexualis-
heim, que, em 1945, ao lado de August Aich-
                                                             mo da doutrina freudiana afirmam que esta no
horn* e do baro Alfred von Winterstein*, tinha
                                                             passa da expresso de uma cultura nacional que
sido um dos novos fundadores da antiga Wiener
                                                             almeja dominar as outras.
Psychoanalytische Vereinigung (WPV), traga-
                                                                 A famosa tese do genius loci foi populariza-
da pela guerra. (VR)
                                                             da pelo psiquiatra alemo Adolf Albrecht
 Sigmund Freud, "Histria de uma neurose infantil"
                                                             Friedlnder (1870-1949), por ocasio de um
(1918), ESB, XVII, 19-152; GW, XII, 27-157; SE, XVII,        congresso internacional de medicina realizado
1-122; OC, XIII, 1-119  Sigmund Freud e Sandor              em Budapeste, em 1909. Atacando violenta-
Ferenczi, Correspondncia, 1908-1914, vol.I, 2 tomos         mente a psicanlise, Friedlnder explicou que
(Paris, 1992), Rio de Janeiro, Imago, 1994, 1995            ela devia seu sucesso  mentalidade vienense,
Jacques Lacan, O Seminrio, livro 3, As psicoses
(1955-1956) (Paris, 1981), Rio de Janeiro, Jorge Za-         que atribua uma importncia considervel 
har, 1988, 2 ed.; Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,   sexualidade. Em poucos anos, essa tese, reto-
Jorge Zahar, 1998  Serge Leclaire, " propos de             mada em 1913 por Pierre Janet*, tornou-se o
l'pisode psychotique que prsenta l'Homme aux               cavalo de batalha dos antifreudianos, permitin-
Loups", La Psychanalyse, 4, 1958, 83-111; "Les l-
ments en jeu dans une psychanalyse ( propos de
                                                             do-lhes acusar Sigmund Freud* de todos os
l'Homme aux loups)", Cahiers pour l'Analyse, 5, no-          pecados de um pretenso pansexualismo.
vembro-dezembro de 1966, 1-36  Muriel Gardiner,                 O termo pansexualismo surgiu aps a publi-
L'Homme aux loups par ses psychanalystes et lui-             cao, em 1905, dos Trs ensaios sobre a teoria
mme (N. York, 1971), Paris, Gallimard, 1981  Nicolas
Abraham e Maria Torok, Cryptonymie. Le verbier de
                                                             da sexualidade*. Na Frana*, pas particular-
l'Homme aux loups, precedido por Fors, de Jacques            mente germanfobo, esse pretenso pansexua-
Derrida, Paris, Aubier-Flammarion, 1976  Karin Obhol-       lismo freudiano serviu  tese do genius loci: a
568      Pappenheim, Bertha

teoria sexual foi assimilada a uma viso brbara         processos de catarse e apresentou o caso Anna
da chamada sexualidade "germnica", "nrdi-              O. como o prottipo do tratamento catrtico.
ca", "teutnica" ou "boche". A essa Kultur                   Nos Estudos sobre a histeria, Anna O. 
alem ops-se a luminosidade cartesiana e lati-          descrita como uma jovem inteligente, enrgica
na da "civilizao" francesa, a nica capaz de           e obstinada. Dotada de talento potico, falava
universalidade, ao passo que, nos pases escan-          diversas lnguas e demonstrava grande sensibi-
dinavos*, ao contrrio, acusou-se o freudismo*           lidade em relao aos pobres e aos doentes.
de privilegiar uma concepo "latina" da sexua-          Breuer dividiu em quatro perodos as fases du-
lidade, inaceitvel para a "mentalidade" nrdi-          rante as quais se manifestaram os diversos sin-
ca.                                                      tomas histricos de Anna, ligados  doena e
    No prefcio de 1920 a seu livro, Freud re-           morte de seu pai. Durante a chamada fase de
chaou esse termo: "Em sua sede de frmulas              incubao latente, a paciente ficou sujeita a
bombsticas", disse, "as pessoas chegaram at            alucinaes, contraturas e acessos de tosse. Du-
a falar do `pansexualismo' da psicanlise e a lhe        rante a chamada fase da doena manifesta, de
fazer a censura absurda de que ela explica tudo          11 de dezembro de 1880 a 1 de abril de 1881,
pela sexualidade."                                       ela teve distrbios da viso, da linguagem e da
                                                         motricidade. Misturava diversas lnguas, no
 Adolf Albrecht Friedlnder, "Hysterie und moderne
Psychoanalyse", in Psychiatrie, atas do XVI Congresso    sabia mais se expressar em alemo e acabou
Internacional de Medicina, Budapeste, 1909, seo XII,   escolhendo o ingls. Sua personalidade dividiu-
146-72  Andr Lalande, Vocabulrio tcnico e crtico    se e Breuer a acalmou atravs dos processos do
da filosofia (Paris, 1926), S. Paulo, Martins Fontes,    tratamento pela fala e da "limpeza de chamin".
1993  Jacques Mousseau e Pierre-Franois Moreau
(orgs.), L'Inconscient, Paris, CEPL, 1976.
                                                         Durante a terceira fase, os sintomas se agrava-
                                                         ram: Breuer, ento, fez com que Anna O. fosse
 AUTISMO; CULTURALISMO; JAPO ; JUNG, CARL               internada num sanatrio e a tratou pelo mtodo
GUSTAV; LIBIDO.                                          da auto-hipnose. Por fim, o ltimo perodo ca-
                                                         racterizou-se pelo desaparecimento progres-
                                                         sivo dos sintomas e pela cura. Graas  reme-
Pappenheim, Bertha (1860-1936),                          morao de suas lembranas traumticas, Anna
caso Anna O.                                             O. reencontrou seu verdadeiro eu, tornou a falar
    A histria de Anna O.  um dos mitos fun-            alemo e se curou de sua paralisia. "Deixou
dadores da psicanlise*. O relato do caso dessa          Viena* para fazer uma viagem", escreveu
moa vienense, que contava 21 anos na poca              Breuer, "mas foi preciso muito tempo para que
de sua doena, foi exposto por Josef Breuer* em          recuperasse seu equilbrio psquico. Desde en-
1895, nos Estudos sobre a histeria*. Desde essa          to, goza de perfeita sade."
publicao, mediante a qual os autores propu-                Foi em 1953, no primeiro volume de A vida
seram, ao mesmo tempo, uma nova definio                e a obra de Sigmund Freud, que Ernest Jones*
da histeria* como doena das reminiscncias              revelou pela primeira vez a verdadeira identi-
psquicas, e a inveno de um mtodo de trata-           dade dessa paciente, o que desagradou seus
mento indito (baseado na catarse* e na ab-rea-          herdeiros. Anna O. tornou-se ento Bertha
o*), o caso Anna O. no parou de ser comen-            Pappenheim. Oriunda da burguesia judaica or-
tado, tanto por historiadores quanto por clni-          todoxa, foi criada por uma me rgida e
cos. Uma imensa literatura, em diversas ln-             conformista. Sua famlia era estreitamente liga-
guas, foi consagrada a essa mulher a quem se             da  de Martha Bernays, a noiva de Freud, que
atribuiu a inveno da psicanlise*. Com efeito,         era sua amiga. Aps o tratamento, ela se voltou
tratada por Breuer entre julho de 1880 e junho           para atividades humanitrias. Inicialmente dire-
de 1882, Anna O. deu o nome de talking cure a            tora de um orfanato judaico em Frankfurt, mais
um tratamento que era feito pela fala, e empre-          tarde viajou aos Blcs, ao Oriente Prximo e 
gou o termo chimney sweeping para designar               Rssia* para realizar pesquisas sobre o trfico
uma forma de rememorao por "limpeza de                 de mulheres brancas. Em 1904, fundou o Judis-
chamin". Quanto a Breuer, chamou esses dois             cher Frauenbund (a Liga das Mulheres Judias)
                                                                      Pappenheim, Bertha         569

e, trs anos depois, um estabelecimento de en-      Podes guardar isso para ti, Martchen? No h
sino filiado a essa organizao. Muito apegada      nada de vergonhoso, mas  uma coisa muito
ao judasmo, desenvolveu estudos sobre a situa-     ntima (...). Naturalmente, ouvi isso dele em
o das mulheres judias e dos criminosos ju-        pessoa." Segundo Freud, Mathilde Breuer no
deus. Quando Hitler assumiu o poder, ela se         teria suportado o interesse que seu marido tinha
pronunciou contra a emigrao para a Palestina.     pela paciente e teria adoecido.
Aps a Segunda Guerra Mundial, tornou-se                Se em 1909, em suas cinco conferncias
uma figura lendria na histria das mulheres e      sobre a psicanlise, proferidas na Universidade
do feminismo atravs de sua ao social, a          Clark, em Worcester, Freud falou do caso Anna
ponto de o governo alemo haver honrado sua         O. seguindo a verso dos Estudos sobre a his-
memria com um selo que trazia sua efgie. J       teria, cinco anos depois, ao contrrio, em sua
no fim da vida, havendo-se tornado devota e         contribuio para a histria da psicanlise, ele
autoritria como fora sua me, reeditou antigas     retomou a tese do amor transferencial (implcita
obras de religio e redigiu a histria de uma de    em sua carta de 31 de outubro de 1883): "Ocorre
suas ancestrais.                                    que tenho fortes razes para supor que Breuer,
    Embora revelando a verdadeira identidade        depois de haver afastado todos os sintomas,
de Anna O., Jones narrou uma verso fantasiosa      deve necessariamente ter descoberto, com base
do trmino de seu tratamento com Josef Breuer.      em novos indcios, a motivao sexual dessa
Este, explicou Jones em sntese, ficou assustado    transferncia, mas a natureza geral desse fen-
com o carter sexual da transferncia* amorosa      meno inesperado lhe escapou, de modo que,
da paciente para ele e, em particular, com uma      impressionado com um untoward event, ele
gravidez nervosa (pseudociese) ocorrida nessa       suspendeu por completo sua investigao. Ele
ocasio. Assim, interrompeu o tratamento e          no me deu essas informaes diretamente,
partiu em lua-de-mel para Veneza, onde foi          mas, em diferentes pocas, forneceu-me pontos
concebida sua filha Dora. Dez anos depois, ele      de referncia suficientes para justificar essa
chamou Freud para consult-lo num caso idn-        suposio." Freud sublinha em seguida que
tico. Quando este lhe indicou que os sintomas       Breuer lhe exprimira sua reprovao a propsi-
da doente revelavam uma fantasia* de gravidez,      to da etiologia sexual das neuroses.
Breuer no pde suportar tal repetio de um            Em sua autobiografia de 1925, Freud reto-
acontecimento passado: "Sem dizer uma s            mou essa verso, sublinhando que Breuer havia
palavra, apanhou sua bengala e seu chapu e         interrompido o tratamento em virtude de um
saiu s pressas da casa."                           amor transferencial da paciente por ele. A mes-
    Jones construiu essa verso da histria a       ma idia foi retomada no necrolgio que ele
partir de diversas lembranas de Freud e de um      dedicou a Breuer, no qual esclareceu que a
resumo que Marie Bonaparte* lhe dera de seu         histria do caso fora "abreviada e censurada em
dirio indito. Ora, se consultarmos esse dirio,   considerao  discrio mdica" e que sua
bem como a correspondncia entre Martha Ber-        publicao se tornara necessria por razes
nays e Freud em 1883, exumada por John For-         cientficas: era preciso provar que o tratamento
rester e Peter Swales, constataremos que essa       de Anna O. fora anterior aos conduzidos por
histria de gravidez histrica foi uma recons-      Pierre Janet* com pacientes idnticas. Entre-
truo de Freud,  qual Jones deu legitimidade      tanto, sete anos depois, numa carta de 2 de
arquivstica e mdica ao lhe conferir o nome de     junho de 1932 a Stefan Zweig*, Freud acres-
pseudociese.                                        centou a histria da fantasia da gravidez de
    Numa carta de 31 de outubro de 1883, Freud      Bertha e afirmou que Dora Breuer, a filha de
informou Martha sobre a sade de sua amiga          Josef Breuer, havia confirmado a existncia
Bertha, afirmando que ela estava melhor e vi-       desse fato, depois de interrogar o pai: "Na noite
nha se livrando de seu envenenamento pela           do dia em que todos os sintomas tinham sido
morfina. Depois, acrescentou que Breuer havia       superados, ele voltou a ser chamado; encon-
interrompido o tratamento, "porque este vinha       trou-a delirando, contorcendo-se em cibras no
ameaando a felicidade de seu casamento (...)       baixo ventre. Ao lhe perguntar o que estava
570     Pappenheim, Bertha

acontecendo, ela respondeu: ` o filho que es-       ender quem foi Bertha Pappenheim e por que
tou esperando do Dr. B. que est chegando.'"         seu caso foi relatado dessa maneira. Dora Edin-
    Em 1927, ele fizera essa mesma confidncia       ger havia aconselhado Ellenberger a visitar as
a Marie Bonaparte, que relatou que a "doena"        clnicas da ustria, da Alemanha* ou da Sua*.
de Mathilde Breuer levara a uma tentativa de         Intrigado com uma fotografia de Bertha em
suicdio: "Em 16 de dezembro, em Viena",             trajes de montaria, na qual estava gravada uma
escreveu a princesa, "Freud me contou a his-         palavra ilegvel, ele mandou que a foto fosse
tria de Breuer. Sua mulher tentara suicidar-se      examinada pelo laboratrio da polcia de Mon-
no final do tratamento de Anna = Bertha. A           treal. Viu surgir ento o nome da cidade de
seqncia  conhecida: a recada de Anna, sua        Konstanz, onde ficava o famoso Sanatrio Bel-
fantasia de gravidez e a fuga de Breuer."            levue, em Kreuzlingen, dirigido de pai para
    Essas diferentes verses propostas por Freud     filho pela dinastia dos Binswanger*. Foi l que
ao longo dos anos deixam transparecer, eviden-       descobriu um documento que invalidava a tese
temente, a fragilidade do testemunho humano.         de Jones: um relatrio indito de Breuer sobre
Freud teve lembranas "falsas", reconstruiu os       o caso, muito diferente do relato proposto nos
acontecimentos e os interpretou  sua maneira.       Estudos sobre a histeria. Em 1972, Ellenberger
    A fbula da gravidez nervosa de Anna O.,         publicou sua reviso da histria, que estabele-
todavia, foi aceita como uma certeza pelo            ceu, por um lado, que Dora Breuer nasceu em
conjunto da comunidade freudiana, no importa        11 de maro de 1882, e portanto, no poderia
de qual tendncia. Nascida de uma fala de            ter sido concebida em junho, e por outro, que a
Freud, foi posteriormente utilizada por seu bi-     famosa gravidez nervosa nunca aconteceu.
grafo para fins de histria oficial. Para Jones,         O relatrio de Breuer foi publicado pela
em 1953, a questo era pintar Freud com os           primeira vez em 1978, por Albrecht Hirschml-
traos de um cientista herico, o nico,             ler, seu rigoroso bigrafo, que acrescentou ou-
contrariando a cincia de sua poca, capaz de        tros elementos  pesquisa de Ellenberger. Esse
compreender a etiologia sexual da histeria e         documento apresenta Anna O. com seu sobre-
inventar uma nova teoria da sexualidade*. As-        nome verdadeiro e relata como que o avesso da
sim, foi lanado um descrdito sobre o persona-      histria idlica dos Estudos sobre a histeria.
gem de Breuer, apresentado como indolente e          No apenas a verdadeira paciente no foi curada
ignorante. Quanto a Anna O., tornou-se, ao lado      de seus sintomas histricos durante o tratamen-
de Emmy von N. (Fanny Moser*), uma figura            to, como tambm, alm disso, no foi tratada
mtica das origens do freudismo, curada de sua       pelo mtodo catrtico. Breuer recorreu, em vez
histeria graas ao mtodo catrtico do qual nas-     dele,  hipnose*, e depois, para tratar as doloro-
ceu a psicanlise, triunfalmente.                    sas nevralgias da paciente, a doses importantes
    Em 1963, Dora Edinger, que havia traba-          de cloral e morfina, que a transformaram numa
lhado com Bertha Pappenheim, reuniu as cartas        morfinmana. S muito depois, fora de qual-
e textos desta ltima, alm de alguns testemu-       quer interveno mdica, foi que ela encontrou
nhos. Forneceu sobre Bertha Pappenheim e seu         um certo equilbrio. Em outras palavras, se o
destino posterior uma imagem diferente da for-       tratamento pela fala servia -- s vezes, unica-
necida por Jones, sublinhando, em especial, que      mente -- para fazer desaparecerem alguns sin-
a moa sempre se abstivera de evocar a poca         tomas, de modo algum era um mtodo clara-
de sua vida em que estivera em tratamento com        mente identificado. O mesmo se aplicava 
Breuer. E at, explicou Edinger, "se opunha          "limpeza de chamin", que consistia, para Ber-
com veemncia a qualquer sugesto de trata-          tha, em desafogar seu esprito de histrias ima-
mento psicanaltico para as pessoas das quais se     ginadas nos dias anteriores. Breuer sublinhou
encarregava, para grande surpresa dos que            tambm que o diagnstico de histeria no era
trabalhavam com ela".                                evidente, pensando em diversas doenas cere-
    Foi em 1970 que o historiador Henri F. El-       brais.
lenberger* empreendeu as pesquisas que permi-            Ellenberger concluiu seu levantamento fri-
tiriam revisar a historiografia* oficial e compre-   sando que o famoso "prottipo de uma cura
                                                                        Pappenheim, Bertha         571

catrtica no foi nem cura nem catarse", e talvez        Apesar do trabalho pioneiro de Ellenberger
nem sequer tivesse sido uma histeria. O his-         e da contribuio de Hirschmller, que mostrou
toriador confirmou que Freud e Breuer decidi-        que Bertha Pappenheim superou sua doena
ram publicar a histria desse caso sob a forma       atravs de um engajamento militante do qual foi
de caso princeps a fim de melhor reivindicar,        banida qualquer relao carnal com os homens,
em oposio a Janet, a prioridade na descoberta      os psicanalistas mais srios continuaram a
do tratamento catrtico. Quanto a Bertha             considerar os cnones da historiografia oficial
Pappenheim, Ellenberger a apresentou como            como uma verdade intocvel.
uma trgica mulher do fim do sculo XIX, que             Foi esse o caso, em especial, do psicanalista
conseguiu sublimar sua personalidade ao se           francs Moustapha Safouan, em 1988. Apoian-
engajar numa grande causa a favor do trabalho        do-se num romance de Lucy Freeman dedicado
social e dos direitos da mulher.                     a Anna O., ele formulou a hiptese de que a
    Essa notvel reviso s fez corroborar a         "gravidez nervosa" de Anna O. teria sido in-
idia, progressivamente admitida pelo prprio        duzida por um desejo* inconsciente de Breuer
Freud, de que a cura em psicanlise  uma            de associar trs figuras femininas que tinham o
maneira de o sujeito converter seus sintomas         prenome Bertha: sua filha, sua me e sua pa-
patolgicos numa sublimao*. Acima de tudo,         ciente. Esse raciocnio remeteu, em parte, ao do
ela mostrou que Breuer e Freud conseguiram,          psicanalista norte-americano George Pollock,
em alguns anos, como quase todos os mestres          que havia assinalado, em 1968, a analogia entre
da psicopatologia*, transformar histrias de         esses trs prenomes, concluindo pela repetio,
doentes em fices, isto , em relatos de caso       em Breuer, de uma situao edipiana no resol-
destinados a comprovar a validade de suas            vida. O uso da teoria lacaniana do significante*,
                                                     assim, veio corroborar a lenda inventada por
teses.
                                                     Jones em 1953 e as interpretaes mais cls-
    Em 1978, Albrecht Hirschmller confirmou
                                                     sicas da escola norte-americana.
a hiptese de Ellenberger de que a opo de
                                                         Nos Estados Unidos*, a partir de 1985 e sob
publicar o caso Anna O. nos Estudos sobre a
                                                     o impulso da historiografia revisionista, diver-
histeria tivera por objetivo enfatizar a anterio-
                                                     sos pesquisadores fizeram questo de demons-
ridade do mtodo de Breuer em relao ao de
                                                     trar que Freud era um mistificador. Aproprian-
Janet (que havia lanado O automatismo psico-        do-se do corpo das mulheres para atender s
lgico em 1889). Em 1895, fazia muito tempo          necessidades de sua propaganda, ele teria, a
que Breuer havia abandonado o campo do tra-          princpio com Breuer e depois contra ele, falsi-
tamento catrtico, e estava em discordncia de       ficado a verdade, no intuito de promover a
Freud quanto a diversos pontos. No obstante,        psicanlise como o nico mtodo de cura das
ele fora realmente o inventor desse mtodo, e        doenas psquicas. Depois dele, Jones teria cor-
somente a publicao da histria do tratamento       roborado, sempre em oposio a Breuer, a ima-
de Bertha Pappenheim poderia fornecer a prova        gem oficial do heri solitrio. Nessa perspec-
disso. Ciente das dificuldades que tivera com a      tiva, que negava a prpria idia de uma possvel
moa, no apenas quanto  questo da relao         inovao freudiana, Bertha Pappenheim tor-
transferencial, mas tambm quanto  de sua           nou-se uma simuladora. Segundo Peter Swales
cura, ele hesitou em publicar o relato. Freud        e Mikkel Borch-Jacobsen, adeptos dessa tese, a
insistiu e, como Bertha houvesse deixado a           paciente teria fingido ser histrica para zombar
cidade de Viena, onde era conhecida, Breuer          de seu mdico. Vingana de uma mulher e da
resolveu contar sua histria nos Estudos sobre       identidade feminina contra a cincia dos ho-
a histeria sob a forma de um tratamento catr-       mens! Por desconhecer a histria da conscin-
tico seguido de cura, considerando que, mesmo        cia subjetiva dos cientistas, por reduzir os mitos
que a evoluo da sade de Bertha no fosse          fundadores a mistificaes e por passar do culto
satisfatria, de fato ocorrera, na poca do trata-   positivista do arquivo para a denncia antifreu-
mento, uma cura de certos sintomas histricos        diana, a historiografia revisionista norte-ameri-
por meio de uma psicoterapia de tipo catrtico.      cana, portanto, acabou adotando a propsito de
572      parafrenia

Anna O., em 1995, o mtodo interpretativo                  Christian Heinroth (1773-1843), a partir de um vo-
denunciado por Jones, e acolhendo, em nome                 cbulo cunhado em 1772, e na nosografia francesa,
da defesa da diferena sexual*, as mais retr-             em 1887, por Jules Sglas (1856-1939). Com os
gradas teses dos mdicos do fim do sculo XIX,             trabalhos de Wilhelm Griesinger (1817-1868), Emil
                                                           Kraepelin*, Eugen Bleuler* e, mais tarde, Gatan
que encaravam a histeria como uma simulao.
                                                           Gatian de Clrambault*, a parania tornou-se, ao
 Sigmund Freud e Josef Breuer, Estudos sobre a            lado da esquizofrenia* e da psicose manaco-
histeria (1895), ESB, II; SE, II; Paris, PUF, 1956        depressiva*, um dos trs componentes modernos
Sigmund Freud, "A histria do movimento psicanaltico"     da psicose* em geral. Caracteriza-se por um delrio
(1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV, 7-66;     sistematizado, pela predominncia da interpreta-
Paris, Gallimard, 1991, "Josef Breuer" (1925), ESB,
                                                           o* e pela inexistncia de deteriorao intelectual.
XIX, 349-54; GW, XIV, 562-3; SE, XIX, 279-80; OC,
XVII, 155-7  Marie Bonaparte, Cahiers noirs (dirio),     Nela se incluem o delrio de perseguio, a eroto-
1925-1939, indito (arquivos lisabeth Roudinesco)        mania, o delrio de grandeza e o delrio de cime.
Dora Edinger, Bertha Pappenheim. Leben und Schrif-             Foi nesse sentido que Sigmund Freud* retomou
ten, Frankfurt, 1963  George H. Pollock, "The possible    o termo, em 1911, designando a parania como
significance of childhood object loss in the Josef
                                                           uma defesa* contra a homossexualidade*. Depois
Breuer-Bertha Pappenheim-Sigmund Freud relations-
hip", Journal of the American Psychoanalytical As-         dele, Melanie Klein* e Jacques Lacan* desenvolve-
sociation, 16, 1968, 711-39  Lucy Freeman, L'Histoire     ram para a psicanlise* uma concepo estrutural
d'Anna O. (N. York, 1972), Paris, PUF, 1977  Ernest       da parania, uma aproximando-a da esquizofrenia
Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N.       (posio esquizo-paranide*), no contexto de uma
York, 1953, 1955, 1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989       definio da relao de objeto*, o outro fazendo
 Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de
                                                           dela a prpria essncia do processo psictico.
l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
1974), Paris, Fayard, 1994; Mdecines de l'me. Es-            Essa forma de loucura, que Freud preferia
sais d'histoire de la folie et des gurisons psychiques,
Paris, Fayard, 1995  Albrecht Hirschmller, Josef
                                                           comparar a um sistema filosfico em razo de
Breuer (Berna, 1978), Paris, PUF, 1991  Frank J.          seu modo de expresso lgico e de sua intelec-
Sulloway, Freud Biologist of the Mind, N. York, Basic      tualidade prxima do raciocnio "normal", j
Books, 1979  John Forrester, "The true story of Anna      fora descrita na Antigidade no apenas por
O.", Social Research, vol.53, 2, vero de 1986  Peter
Swales, "Anna O. in Ischl", Werkblatt, 5, 1988, 57-64 
                                                           Hipcrates, mas tambm pelos grandes autores
Moustapha Safouan, A transferncia e o desejo do           trgicos, squilo e Eurpides. No entanto, foi
analista (Paris, 1988) Papirus, 1991  Mikkel Borch-Ja-    preciso esperar pelo sculo XIX e pelos traba-
cobsen, Souvenirs d'Anna O. Une mystification cente-       lhos fundadores da escola alem de psiquiatria
naire, Paris, Aubier, 1995.
                                                           para que o termo viesse a figurar numa clas-
 ANZIEU, MARGUERITE; BAUER, IDA; CINCO LI-                 sificao geral das doenas mentais. Depois de
ES DE PSICANLISE; ECKSTEIN, EMMA; LIEBEN,               Heinroth, que introduziu o termo, Griesinger,
ANNA VON; LOUCURA; HM, AURELIA; PERSONA-                  em 1845, no contexto de uma nosografia
LIDADE MLTIPLA; SEDUO, TEORIA DA; SEXUALI-              organicista, deu a esse tipo de delrio o nome de
DADE FEMININA; ESTUDO AUTOBIOGRFICO, UM;                  Verrcktheit (perturbao do esprito). Seguin-
TRANSFERNCIA.                                             do-se a ele, Kraepelin imps a palavra parania
                                                           para descrever um fenmeno idntico.
                                                               A novidade do sistema de classificao de
parafrenia                                                 Kraepelin decorreu de ele introduzir ordem e
 ESQUIZOFRENIA; PARANIA.                                  clareza na anarquia das nosografias anteriores.
                                                           Ele distinguiu trs grupos de psicoses: a para-
                                                           nia, a demncia precoce e a loucura manaco-
parania                                                   depressiva, ou psicose manaco-depressiva
al. Paranoia; esp. paranoia; fr. paranoa; ing. para-      (herdada da antiga melancolia*). A eles acres-
noia                                                       centou-se um termo intermedirio, a parafrenia,
Termo derivado do grego (para = contra, noos =             que designava um delrio crnico, situado entre
esprito), que designa a loucura* no sentido da            a demncia precoce e a parania.
exaltao e do delrio. Na nosografia psiquitrica             Nesse quadro, Kraepelin definiu a parania
alem, o termo foi introduzido em 1842 por Johann          como o "desenvolvimento insidioso, na depen-
                                                                                   parania      573

dncia de causas internas e segundo uma evo-        serviria de referncia para seus comentadores
luo contnua, de um sistema delirante, dura-      posteriores.
douro e inabalvel, que se instaura com uma             O debate nosogrfico que teve lugar entre os
completa preservao da clareza e da ordem no       trs homens ps em jogo uma violenta relao
pensamento, no querer e na ao". Segundo ele,      transferencial e teve como saldo uma ruptura:
tratava-se de uma doena "constitucional" que       entre Freud e Jung, entre Jung e Bleuler e entre
repousava em dois mecanismos fundamentais:          Freud e Bleuler. Opondo-se ao novo termo,
o delrio de referncia e as iluses de memria,    esquizofrenia, inventado por Bleuler para subs-
ambos produtores de diferentes temas de perse-      tituir a antiga demncia precoce kraepeliniana,
guio, cime e grandeza. Por isso, o paranico     Freud optou pelo termo parania (no sentido de
 um doente crnico que se toma por profeta,        Kraepelin), enquanto Jung preferiu manter a
imperador, grande homem, inventor, reforma-         antiga expresso, demncia precoce. Nessa
dor etc.                                            perspectiva, para Freud, tratava-se no de cons-
    Inspirando-se nessa classificao, que ja-      truir uma nova nosografia psiquitrica, como
mais contestaria, Freud props uma outra abor-      pretendia Bleuler, mas de dar  psicose uma
dagem do mecanismo da parania a partir do          definio que permitisse integr-la no quadro
fim do sculo, notadamente num manuscrito           estrutural da doutrina psicanaltica e, portanto,
remetido a Wilhelm Fliess* em 24 de janeiro de      defini-la em oposio  neurose, de um lado, e
1895. Contornando o problema das clas-               perverso*, de outro. Num primeiro momen-
sificaes e procurando tratar dos pacientes e      to, portanto, Freud retomou o termo parafrenia,
sair do niilismo teraputico que caracterizava a    contrariando Jung, para designar a demncia
psiquiatria da poca, ele alinhou as idias deli-   precoce, e depois, num segundo tempo, incluiu
rantes ao lado das idias obsessivas e deu uma      a esquizofrenia de Bleuler na categoria da pa-
definio da parania inspirada em sua concep-      rania. Por fim, num terceiro momento, aceitou
o da defesa histrica: "A parania crnica, em    a nosografia bleuleriana e renunciou simulta-
sua forma clssica,  um modo patolgico de         neamente a designar a demncia precoce como
defesa, como a histeria*, a neurose obsessiva*      parafrenia e a classificar a esquizofrenia na
e os estados de confuso alucinatria. As pes-      categoria da parania. Assim, deixou o campo
soas tornam-se paranicas por no conseguirem       livre para o possvel desenvolvimento de uma
tolerar algumas coisas -- desde que, natural-       concepo psicanaltica da esquizofrenia -- o
mente, seu psiquismo esteja predisposto a tan-      que seria feito por seus herdeiros, em especial
to." A isso Freud acrescentou um mecanismo          a escola norte-americana da Self Psychology*
de projeo* segundo o qual o paranico se          --, ao mesmo tempo elaborando uma doutrina
defende de uma "representao inconcilivel         da psicose baseada na noo de parania, o que
com o eu*, projetando seu contedo no mundo         ele concretizaria em seu clebre estudo de 1911
externo", e uma definio das modalidades do        dedicado  anlise das Memrias de Daniel
delrio: os paranicos "amam seu delrio como       Paul Schreber*.
amam a si mesmos, esse  o segredo". Numa               Assim, na terminologia freudiana clssica, a
carta de dezembro de 1899, Freud distinguiu a       parania tornou-se o modelo paradigmtico da
histeria da parania, mostrando que a primeira      organizao das psicoses em geral. Ao delrio
 alo-ertica e se manifesta por uma identifica-    de grandeza, de perseguio, de interpretao e
o* com uma pessoa amada, enquanto a               ao auto-erotismo* Freud acrescentou dois gran-
segunda  auto-ertica e cinde o eu em diversas     des elementos: a parania passou desde ento a
pessoas estranhas.                                  ser definida como uma defesa contra a homos-
    Foi somente em 1911, no mbito de sua           sexualidade*, e o paranico no mais foi enca-
grande discusso com Carl Gustav Jung* e            rado como um doente mental no sentido da
Eugen Bleuler*, que Freud, preocupado em            nosografia psiquitrica. A propsito de Schre-
estender o saber psicanaltico ao campo do          ber, com efeito, Freud desenvolveu a idia
tratamento das doenas mentais, foi levado a        originalssima de que o conhecimento delirante
fornecer da parania a definio cannica que       que o louco tem de si mesmo talvez seja to
574     parania

verdadeiro quanto o outro, racional, construdo     paranico. Contudo, tendo que descrever, com
pelo clnico para explicar a loucura. Entretanto,   a histria de Marguerite Anzieu*, seu caso prin-
somente este ltimo reveste-se de um estatuto       ceps, uma loucura criminosa feminina, ele fez
terico.                                            da erotomania um componente central da para-
    Foi ao redigir seu estudo sobre Leonardo da     nia. E faria o mesmo, um ano depois, em seu
Vinci que Freud elaborou uma abordagem da           artigo dedicado ao crime das irms Papin.
homossexualidade que iria servir para a anlise         A partir de 1946, a escola kleiniana orientou-
do caso Schreber, e foi por ocasio do rompi-       se para uma concepo da parania que relacio-
mento com Alfred Adler* e de longas conversas       nava esta ltima a um processo arcaico em que
com Sandor Ferenczi* que lhe ocorreu a idia        j no aparecia o componente homossexual des-
de ligar o conhecimento paranico a um inves-       crito por Freud e Ferenczi. Nessa perspectiva,
timento homossexual, e o conhecimento teri-        todo sujeito, em sua infncia, passa forosa-
co, a uma rejeio desse investimento. Esse         mente por uma fase psictica (ou posio esqui-
rompimento, de fato, reavivara nele o sofrimen-     zo-paranide*), na medida em que a psicose 
to experimentado quando da separao de Flies-      definida como um estado de fixao num es-
s. Da estas duas frases, uma endereada a Fe-      tdio primitivo, ou de regresso a ele. O caso
renczi, numa carta de outubro de 1910 --            Schreber foi ento comentado e revisto  luz das
"Desde o caso Fliess (...), uma parte do inves-     teses kleinianas, principalmente por Ida Macal-
timento homossexual desapareceu e eu me servi       pine e Richard Hunter.
dele para ampliar meu prprio eu. Logrei xito          Dez anos depois, Lacan tomou um rumo
onde o paranico fracassa" --, e a outra dirigida   diferente e, por sua vez, comentou a histria de
a Jung em 1908: "Fliess desenvolveu uma bela        Schreber, em especial em seu seminrio do ano
parania, depois de se livrar de sua inclinao     de 1955-1956 consagrado s psicoses. Contra-
por mim.  a ele que devo essa idia [do com-       riamente  escola kleiniana, conservou o es-
ponente homossexual da parania]."                  sencial da doutrina freudiana, acrescentando-
    Psiquiatra por formao, Jacques Lacan          lhe dois conceitos que ele havia cunhado -- a
abordou a parania e o campo das psicoses em        foracluso* e o Nome-do-Pai* -- e que deram
geral de um modo totalmente diferente do de         origem ao que se convencionou chamar de cl-
Freud. Enquanto o mestre vienense sempre pro-       nica lacaniana da parania e da psicose em
curara levar a loucura quer para o quadro das       geral.
neuroses, quer para o de uma concepo da
                                                     Wilhelm Griesinger, Die Pathologie und Therapie der
psicose que escapava ao discurso psiquitrico,      psychischen Krankheiten, Stuttgart, A. Krable, 1845 
Lacan fez exatamente o contrrio. Havendo           Emil Kraepelin, Compendium der Psychiatrie, Leipzig,
abordado o freudismo pelo caminho da clnica        1883-1915  Jules Sglas, "La Paranoa", Archives de
psiquitrica de inspirao francesa e alem, e      Neurologie, 1887, 221-93  Sigmund Freud, "Notas
                                                    psicanalticas sobre um relato autobiogrfico de um
sendo ele mesmo um grande clnico da psicose,       caso de parania (Dementia paranoides)" (1911), ESB,
Lacan sempre se interessou muito mais pelo          XII, 23-104; GW, VIII, 240-316; SE, XII, 1-79; in Cinq
campo da loucura que pelo das patologias co-        psychanalyses, Paris, PUF, 1954, 263-321, "Um caso
muns. E, dentre as psicoses, a parania  que foi   de parania que contraria a teoria psicanaltica da
                                                    doena" (1915), ESB, XIV, 297-310; GW, X, 234-46;
para ele o modelo paradigmtico da loucura em       SE, XIV, 261-72; OC, XIII, 305-17; "Psicognese de um
geral: Lacan era fascinado pela lgica do dis-      caso de homossexualidade numa mulher" (1920),
curso paranico a ponto de achar que o trata-       ESB, XVIII, 217-38; GW, XII, 309-12; SE, XVIII, 263-5;
mento psicanaltico devia assemelhar-se a uma       in Nvrose, psychose et perversion, Paris, PUF, 1973,
                                                    245-71; "Alguns mecanismos neurticos no cime, na
parania dirigida. Nesse aspecto, desde a publi-    parania e na homossexualidade" (1922), ESB, XVIII,
cao de sua tese de medicina de 1932, dedicada     271-87; GW, V, 387-99; SE, XVIII, 223-32; OC, XVI,
 personalidade paranica, ele se uniu s po-       85-99; La Naissance de la psychanalyse (Londres,
sies de Freud por um caminho que no foi          1950), Paris, PUF, 1956  Freud/Jung: correspon-
                                                    dncia completa, Rio de Janeiro, Imago, 1983 
realmente o de Kraepelin, mas, antes, o de          Sigmund Freud e Sandor Ferenczi, Correspondncia
Gatan Gatian de Clrambault: como Freud, ele       1908-1914, vol.I, 2 tomos (Paris, 1992), Rio de Janeiro,
vinculou a homossexualidade e o conhecimento        Imago, 1994, 1995  Sandor Ferenczi, "O papel da
                                                                                             passe       575

homossexualidade na patognese da parania", in           na psicanlise* uma reflexo sobre os sistemas
Psicanlise I, Obras completas, 1908-1912 (Paris,
                                                          de parentesco, substituindo as interrogaes do
1968) S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 153-72  Eugen
Bleuler, Dementia praecox ou groupe des schizophr-       freudismo* e do kleinismo* sobre os respecti-
nies (Leipzig, 1911), Paris, EPEL-GREC, 1993  Ga-       vos lugares do pai e da me no complexo de
tan Gatian de Clrambault, Oeuvre psychiatrique, 2        dipo* por uma teorizao da funo paterna
vols., Paris, PUF, 1942; L'rotomanie, Paris, Synthla-   no inconsciente* do sujeito*.
bo, col. "Les empcheurs de penser en rond", 1993 
Richard Hunter e Ida Macalpine, Three Hundred Years        ANTROPOLOGIA; INCESTO; MALINOWSKI, BRO-
of Psychiatry, Oxford, Oxford University Press, 1963 
                                                          NISLAW; MOISS E O MONOTESMO; NOME-DO-PAI;
Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio
da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,   PATRIARCADO; SEXUALIDADE FEMININA; SIGNIFI-
1991, 2 ed.  Chawki Azouri, "J'ai russi l o le       CANTE; TOTEM E TABU.
paranoaque choue", Paris, Denol, 1990  Jacques
Postel e Nicolle Kress-Rosen, "Paranoa", in Grand
dictionnaire de la psychologie, Paris, Larousse, 1991,
543-6  Jacques Postel, La Psychiatrie, Paris, Larous-
                                                          passagem ao ato
se, 1994  Pierre Kaufmann, "Parania", in id. (org.),     ACTING OUT.
Dicionrio enciclopdico de psicanlise: o legado de
Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro, Jorge
Zahar, 1996, 390-8  Jacques Lacan, Da psicose para-
nica e suas relaes com a personalidade, Rio de         passe
Janeiro, Forense Universitria, 1987; O Seminrio,        al. Passe/bergang; esp. pase; fr. passe; ing. pass
livro 3, As psicoses (1955-1956) (Paris, 1981), Rio de    Termo empregado em 1967 por Jacques Lacan*
Janeiro, Jorge Zahar, 1988, 2 ed.  lisabeth Roudi-
nesco, Jacques Lacan. Esboo de uma vida, histria        para designar um processo de travessia que
de um sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,      consiste em o analisando (passante) expor a
Companhia das Letras, 1994  Luiz Eduardo Prado de        analistas (passadores), que prestaro contas dis-
Oliveira, Schreber et la paranoa. Le meurtre de l'me,   so a um jri dito de credenciamento, aqueles den-
Paris, L'Harmattan, 1996.                                 tre os elementos de sua histria que sua anlise o
                                                          levou a considerar como suscetveis de dar conta
 AUTISMO; CRIMINOLOGIA; LEONARDO DA VINCI
                                                          de seu desejo de se tornar analista.
E UMA LEMBRANA DE SUA INFNCIA ; NARCISISMO.
                                                              Na linguagem corrente, o termo passe com-
                                                          porta diversas acepes. Em especial, pode de-
                                                          signar o ato de passar ou avanar, ou ento, o
parentesco                                                lugar ou o momento precisos de uma passagem.
al. Verwandtschaft; esp. parentesco; fr. parent;             Desde o incio dos anos cinqenta, Lacan
ing. kinship                                              contestou os padres de acesso  anlise did-
    O estudo do parentesco foi iniciado em 1861           tica* enunciados por Max Eitingon* em 1925,
pelo jurista ingls Henry Maine (1822-1888), e            no congresso da International Psychoanalytical
a expresso "sistema de parentesco" foi intro-            Association* (IPA) de Bad-Homburg.
duzida em 1871, pelo antroplogo norte-ame-                   Em 1964, ao fundar a cole Freudienne de
ricano Lewis Henry Morgan (1818-1881), para               Paris* (EFP), Lacan aboliu a clssica distino
designar um conjunto estruturado de atitudes              entre anlise pessoal (ou teraputica) e anlise
fixadas pelas normas sociais e observadas pelos           didtica, instituindo um regulamento que no
indivduos aparentados por sangue ou por casa-            obrigava os candidatos a escolherem seus dida-
mento. Os trabalhos antropolgicos sobre os               tas numa lista de titulares estabelecida de ante-
sistemas de parentesco baseiam-se no qudru-              mo, como  a norma na quase totalidade das
plo estudo da aliana (o casamento), dos laos            sociedades psicanalticas da IPA.
de filiao*, da genealogia e das geraes*.                  Essa abolio visou restituir uma significa-
Conforme a orientao adotada (evolucionis-               o real ao desejo* de cada sujeito* de se tornar
mo, funcionalismo, estruturalismo etc.), cada             analista. Em vez de se conformar com um curso
escola privilegia um elemento em relao a                preestabelecido, portanto, este ficou livre para
outro.                                                    escolher um analista a seu critrio, fosse entre
    Foi Jacques Lacan*, marcado pelos traba-              os membros da EFP, fosse noutros grupos. Po-
lhos de Claude Lvi-Strauss, quem introduziu              deria ento ser aceito nas fileiras da EFP, de
576      passe

acordo com o processo de admisso definido            proposio, que faria correr muita tinta, frisava
pelos estatutos, mas sem ser obrigado a refazer       que a passagem para o ser-analista decorre de
uma "etapa" de anlise com um didata reco-            uma prova subjetiva ligada  transferncia, a
mendado pela instituio.                             qual, do lado do analisando, leva a uma "des-
    Com essa transformao, Lacan sublinhou           tituio subjetiva", e, do lado do analista, leva
que a anlise pessoal podia ou no revelar-se         a um "des-ser". Essa prova assemelha-se, de
didtica a posteriori*. Ningum pode decidir          certo modo, ao que Georges Bataille (1897-
"de antemo" sobre a validade didtica de uma         1962) chamava de experincia dos limites.
psicanlise. Trata-se, pois, de restituir pertinn-       Longe de ficar reduzida a uma sano ins-
cia a duas perguntas formuladas por Sigmund           titucional, a idia de trmino da anlise, que era
Freud* desde a origem do movimento: por que           to cara a Freud, retransformou-se, portanto,
algum se torna psicanalista? Como acontece           num objeto terico que precisava ser traba-
isso?                                                 lhado. Em vez da sacrossanta liquidao da
    Foi em 9 de outubro de 1967, aps uma crise       transferncia*, a qual, segundo as regras cls-
na EFP, que Lacan decidiu conferir um carter         sicas, supe-se que marque a concluso de uma
institucional a essa noo de passagem. Por           anlise bem-sucedida, Lacan descreveu um
isso, proferiu um discurso memorvel, no qual         processo mais sutil: o de uma dupla prova sub-
props "fundamentar, numa condio suficien-          jetiva (analisando/analista), na qual aparece um
temente duradouro para ser submetido  expe-          estado de perda, de castrao ou at mesmo de
rincia, as garantias com que nossa Escola po-        depresso melanclica.
der autorizar por sua formao um psicanalista           E, se ele preservou a denominao "psican-
-- e, portanto, responder por ele".                   lise didtica", foi para lhe dar uma nova signi-
    O passe foi ento definido como um rito de        ficao, baseada numa inverso: a ordem ins-
passagem, que permitia a um simples membro            titucional, que ele (Lacan) chamava de "psica-
(ME) que houvesse feito uma anlise ter acesso        nlise em extenso", devia, com efeito, ser sub-
ao ttulo de analista da escola (AE), at ento       metida ao primado da teoria, isto ,  "psican-
reservado aos que tinham sido oficialmente "ti-       lise em intenso", nica maneira de evitar a
tulados" quando da fundao da EFP. O proces-         esclerose burocrtica que costuma ser induzida
so era assim: o candidato ao passe (chamado           pela hierarquia tradicional entre professores e
passante) tinha de fazer um depoimento sobre          alunos.
o que fora sua anlise perante dois analistas             O processo almeja, alis, eliminar qualquer
(chamados passadores), estes encarregados de          idia de hierarquia entre o ttulo de AME e o de
transmitir o contedo desse testemunho ao jri        AE, podendo o AME ser um excelente clnico,
de credenciamento. Esse jri era composto por         sem que se haja interrogado sobre a famosa
membros eleitos pela assemblia geral da EFP          passagem, ao passo que se presume que um ME
e que j houvessem recebido o ttulo de AE. A         sem a mnima experincia teraputica pode re-
"proposio de outubro" distinguiu a noo de         velar-se capaz, no passe, de fazer uma contri-
gradus da noo de hierarquia e inscreveu o           buio terica sobre a questo da anlise did-
trmino da anlise numa dialtica do "des-ser"        tica.
e da "destituio subjetiva". Lacan denominou             A proposio de Lacan foi amplamente dis-
de "queda do sujeito suposto saber" a situao        cutida na EFP. Sedutora para alguns, incom-
de fim de anlise pela qual o analista fica na        preensvel para outros, suscitou a hostilidade de
posio de "resto" ou de objeto (pequeno) a*,         vrios membros da escola, eleitos ou nomeados
depois de ter sido investido, ao longo de toda a      segundo o antigo processo. Esses deram rapida-
anlise, de uma onipotncia imaginria ou             mente a conhecer sua opinio sobre os riscos da
"suposto saber".                                      permissividade e os perigos de um processo que
    Lacan props ento uma frmula que s             permitisse a qualquer analisando ser postulante
apareceria na segunda verso de sua proposta          ao ttulo de AE.
-- a nica a ser publicada (em 1968): "O psica-           Em 6 de dezembro de 1967, Lacan respon-
nalista s se autoriza por si mesmo." Com essa        deu s crticas, mas anunciou sua deciso de
                                                                                     patriarcado        577

deixar que a discusso prosseguisse. No queria     utopia: "Que pode haver na cachola de algum
impor esse procedimento  fora. Mas, com os        para que ele se autorize a ser analista? Eu quis
acontecimentos de maio de 1968, resolveu sub-       ter depoimentos, e naturalmente no tive ne-
met-lo  votao numa assemblia geral,            nhum (...)  claro que esse passe  um completo
convencido que estava de colher a maioria dos       fracasso." Quanto s causas do malogro, elas
votos: com efeito, a moo foi acolhida com         nunca seriam objeto de uma reflexo terica.
entusiasmo pela quarta e quinta geraes* psi-      Os diversos grupos provenientes da dissoluo
canalticas francesas, que acabavam de partici-     da EFP contentaram-se ou em retomar o proce-
par da revolta estudantil e, como nas outras        dimento do passe, ou em renunciar a ele, sem
sociedades da IPA, desejavam transformar de         que essas atitudes dessem margem a qualquer
ponta a ponta as formaes habituais.               texto de peso.
    A instaurao do passe na EFP provocou a
                                                     Jacques Lacan, "Situao da psicanlise e formao
partida de trs grandes discpulos de Lacan:        do psicanalista em 1956" (1956), in Escritos (Paris,
Franois Perrier*, Piera Aulagnier* e Jean-Paul     1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 461-97;
Valabrega. Juntos, eles fundaram a Organisa-        "Acte de fondation" (1964), Annuaire de l'cole Freu-
tion Psychanalytique de Langue Franaise            dienne de Paris, 1965; "Proposition du 9 octobre 1967
                                                    sur le psychanalyste de l'cole", Scilicet, 1968, 1,
(OPLF) ou Quarto Grupo. Tambm em des-              14-30. Verso inicial publicada em Analytica, 8, suple-
acordo com o passe, Guy Rosolato havia-se           mento a Ornicar?, 15, 1978; "Discours  l'EFP", Scili-
aliado s fileiras da Association Psychanalyti-     cet, 2-3, 1970, 9-29; "L'Exprience de la passe", Lettres
que de France (APF) algum tempo antes.              de l'cole Freudienne, 23, 1978; "Sur l'exprience de
                                                    la passe" (1978), Ornicar?, 25, 1982; "Note italienne"
    Em pouco tempo, as falhas dessa proposi-        (1973), Ornicar?, 25, 1982, 7-10  Marie-Magdeleine
o, suas aproximaes e suas ambigidades          Chatel, "Passe", in Pierre Kaufmann (org.), Dicionrio
tornaram sua aplicao aleatria e irregular.       enciclopdico de psicanlise: o legado de Freud e
Atacada de gigantismo, a EFP no conseguiu          Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996,
                                                    398-413  Jacques-Alain Miller, "Introduction aux para-
impedir o desenvolvimento da esclerose que o
                                                    doxes de la passe", Ornicar?, 12-13, 1977  lisabeth
passe supostamente combateria.                      Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana, vol.2
    Em 1973, durante as assemblias da EFP,         (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jac-
procedeu-se a uma primeira avaliao. Sem           ques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um
                                                    sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,
mascarar seu desencanto, Lacan sublinhou que
                                                    Companhia das Letras, 1994  Moustapha Safouan,
pelo menos se havia "passado alguma coisa".         Jacques Lacan et la question de la formation des
No que tinha razo. Foi dentro desse esprito       analystes, Paris, Seuil, 1983.
que ele endereou sua "nota italiana" a trs de
seus discpulos, Muriel Drazien, Giacomo             FRANA; HISTRIA DA PSICANLISE.
Contri e Armando Verdiglione. Sugeriu que se
pudesse constituir um grupo unicamente
composto por analistas que tivessem feito o         patriarcado
passe e sido nomeados AE depois desse proces-       al. Patriarchat; esp. patriarcado; fr. patriarcat; ing.
so. Sem dvida alguma, estava sonhando com          patriarchy
uma sociedade ideal, parecida, talvez, com a            O patriarcado  um sistema poltico-jurdico
famosa Sociedade Psicolgica das Quartas-Fei-       em que a autoridade e os direitos sobre os bens
ras*: uma academia de eleitos. Como quer que        e as pessoas obedecem a uma regra de filiao*
fosse, como sublinharia Marie-Magdeleine            chamada patrilinear, isto , concentram-se nas
Chatel, Lacan desejava que esse novo modelo         mos do homem que ocupa a posio de pai
de grupo no ficasse imerso nos ritos ins-          fundador, sobretudo nas sociedades ocidentais.
titucionais clssicos.                              Entretanto, o sistema patriarcal raramente se
    Em 1978, quando das novas assemblias da        apresenta com toda essa pureza, na medida em
EFP, o fracasso do passe foi constatado pelo        que coexiste, em numerosas sociedades, com
prprio Lacan, que o comparou a um "impasse"        uma filiao matrilinear, que decide sobre a
e deplorou que a massificao do lacanismo          pertena do indivduo referindo-se a laos ge-
tivesse criado obstculos  realizao dessa bela   nealgicos que passam pelas mulheres.
578      pavlovismo

    O debate sobre a oposio entre o patriarca-      sociedade ocidental. Essa tese, alis, era
do e o matriarcado foi contemporneo das hi-          compartilhada pelos filsofos da Escola de
pteses evolucionistas do sculo XIX, desde           Frankfurt, como atesta uma brilhante carta de
Henry Lewis Morgan (1818-1881) at Friedrich          Max Horkheimer (1895-1973) endereada, em
Engels (1820-1895), passando por Johann Ja-           1942, a Leo Lowenthal: "Foi justamente a de-
kob Bachofen (1815-1887). Tericos e juristas         cadncia da vida familiar burguesa que permitiu
julgavam que o patriarcado era uma forma tar-          sua teoria chegar ao novo estdio que aparece
dia de organizao social que sucedera a um           em Mais-alm do princpio de prazer* e nos
estdio mais primitivo, ou matriarcado. Engels        textos que vieram depois."
via no advento do patriarcado a grande derrota            A partir de 1949, marcado pelos trabalhos de
do sexo feminino, enquanto Bachofen, cujo             Claude Lvi-Strauss, Lacan introduziu na psi-
pensamento influenciou intensamente os escri-         canlise uma teoria do significante* que deslo-
tores vienenses do fim do sculo, acossados           cou o estudo da configurao edipiana para o
pela decadncia do pai, profetizava o declnio        campo da reflexo sobre o lugar dos sistemas
irreversvel do patriarcado, smbolo da               de parentesco* no inconsciente do sujeito*.
conscincia ocidental, e estigmatizava os peri-
                                                       Johann Jakob Bachofen, Le Droit maternel. Re-
gos de um matriarcado que encarnasse a onipo-         cherche sur la gyncocratie de l'Antiquit dans sa
tncia irracional das foras da natureza.             nature religieuse et juridique (1861), Lausanne, L'ge
    Nenhuma sociedade teve realmente a expe-          d'Homme, 1996  Friedrich Engels, L'Origine de la
                                                      famille, de la proprit prive et de l'tat (1884), Paris,
rincia do matriarcado assim definido. No en-
                                                      ditions Sociales, 1983  Jacques Lacan, Os com-
tanto, essa tese permaneceu como um dos mitos         plexos familiares na formao do indivduo (Paris,
fundadores dos sistemas de pensamento moder-          1984), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987  Martin Jay,
nos: ora o reino do matriarcado  apresentado         L'Imagination dialectique. Histoire d l'cole de Franc-
como fonte de caos, anarquia e desordem, e se         fort, 1923-1950 (Boston, 1973), Paris, Payot, 1977.
ope ao do patriarcado, sinnimo de razo e            ANTROPOLOGIA; COMPLEXO; FREUD, JACOB;
cultura, ora se d o inverso, e o reino do matriar-   IMAGO; INCESTO; NDIA; JAPO ; JUDEIDADE; MALI-
cado  descrito como um paraso natural que o         NOWSKI, BRONISLAW; MOISS E O MONOTESMO;
patriarcado teria destrudo atravs de seu des-       NOME-DO-PAI; SEXUALIDADE FEMININA; TOTEM E
potismo autoritrio.                                  TABU; WEININGER, OTTO.
    Como as do culturalismo* e da diferena
sexual*, essa questo atravessa toda a histria
da psicanlise*. Em Sigmund Freud*, entretan-         pavlovismo
to, coloca-se menos em termos de oposio              COMUNISMO; FREUDO-MARXISMO; RSSIA.
histrica ou mtica do patriarcado ao matriarca-
do do que como uma reflexo estrutural em
torno do complexo de dipo*.                          pedofilia
    Nas diferentes escolas, as atitudes variam         HOMOSSEXUALIDADE; PERVERSO; SEXOLOGIA;
com respeito  estrutura edipiana conforme se         TRS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE.
privilegiem as respectivas posies do pai e da
me dentro da configurao parental. Se o freu-
dismo* clssico tende a privilegiar o papel do        pedologia
pai, o kleinismo*, ao contrrio, faz toda a teoria        Esse termo foi cunhado na Rssia*, depois
edipiana pender para o lado do plo materno,          da Revoluo de outubro, para designar uma
atravs de uma nova concepo da relao de           "cincia da infncia" que almejava criar um
objeto*. Quanto a Jacques Lacan*, ele integra         "novo homem" sovitico. Seus principais re-
as duas tendncias: relaes arcaicas com a           presentantes foram pedagogos e psiclogos co-
me, por um lado, e revalorizao simblica da        mo Pavel Petrovitch Blonski (1884-1941) e
funo paterna, por outro. Desde 1938, em Os          Stanislas Theophilovitch Chatski (1878-1948),
complexos familiares, ele observa que a psica-        ou ainda Aron Borissovitch Zalkind*. Depois
nlise nasceu do declnio da funo paterna na        de ter sido o emblema de uma utopia revolucio-
                                                                           Pellegrino, Hlio     579

nria e servido de filtro para a implantao de     son Rodrigues (1912-1980) e sua filiao  f
freudismo* e sua avaliao, no decorrer das         catlica permitiram a Pellegrino escapar por
discusses dos anos de 1924-1930 entre anti-        pouco da condenao. Isso no o impediu de
freudianos e freudo-marxistas, a pedologia foi      prosseguir suas atividades militantes e foi assim
condenada como um desvio por deciso do             que, em 1971, criou, com Ana Katrin Kemper,
comit central do Partido Comunista da Unio        a famosa Clnica Social de Psicanlise, des-
Sovitica em 4 de julho de 1936.                    tinada a oferecer tratamento analtico aos mais
 COMUNISMO; PFISTER, OSKAR; PSICANLISE DE
                                                    carentes. Na mesma perspectiva poltica, fun-
CRIANAS; SCHMIDT, VERA.
                                                    dou em 1979, com outros militantes, o Partido
                                                    dos Trabalhadores, que se tornaria um dos com-
                                                    ponentes maiores da esquerda brasileira.
Pellegrino, Hlio (1924-1988)                            Sempre preocupado em reagir contra a es-
psiquiatra e psicanalista brasileiro                clerose das instituies, decidiu, com dois de
    Nascido em Belo Horizonte e filho de m-        seus colegas, Eduardo Mascarenhas (1942-
dico, Hlio Pellegrino pertencia  quarta gera-     1997) e Wilson de Lyra Chebabi, criticar firme-
o* do freudismo* mundial e foi uma das            mente os princpios da anlise didtica* pr-
grandes figuras da psicanlise* no Brasil*.         prios da IPA, o preo exorbitante dos tratamen-
Profundamente cristo, interessou-se pelo des-      tos, a discriminao poltica de que eram vti-
tino dos pobres e dos oprimidos, militou contra     mas os membros e a ignorncia generalizada
a ditadura e empenhou-se em um combate de           quanto  leitura das obras de Sigmund Freud*.
esquerda para promover os valores de uma            Todas essas crticas foram resumidas em um
psicanlise social, humanista e libertria. Foi     artigo de grande repercusso, escrito por Rober-
simultaneamente clnico, poeta e homem de           to Mello e publicado a 23 de setembro de 1980
cultura, prximo de muitos escritores, princi-      no Jornal do Brasil, sob o ttulo "Os bares da
palmente de Mrio de Andrade (1893-1945),           psicanlise".
com quem se correspondia. Casado pela pri-               Sem citar o nome da SPRJ, os trs protago-
meira vez na Igreja*, teve sete filhos, dos quais   nistas denunciavam, em entrevistas que acom-
dois se tornariam psicanalistas.                    panhavam o artigo, o estado desastroso de sua
    Em 1952, depois de estudar medicina e psi-      instituio. A resposta no se fez esperar. Um
quiatria, instalou-se no Rio de Janeiro e fez a     ms depois, Pellegrino e Mascarenhas foram
sua primeira anlise com Iracy Doyle*, no Ins-      excludos da SPRJ, por terem formulado suas
tituto de Medicina Psicolgica. Depois da           crticas no exterior da associao. Na verdade,
morte de Doyle, prosseguiu sua formao com         eram acusados de falarem de "coisas proibidas"
Ana Katrin Kemper*. Em 1956, tornou-se              (a ditadura) e de pr em perigo um ensino
membro da Sociedade Psicanaltica do Rio de
                                                    acadmico, fundado na rotina e no clientelismo.
Janeiro (SPRJ). Permaneceu nela at sua morte,
                                                         De fato, Pellegrino tomara partido em um
sem ser reconhecido oficialmente como didata
e tornou-se tambm membro titular, em 1978,         caso que devastava a SPRJ desde 1971: a acei-
da Sociedade de Psicoterapia Analtica de Gru-      tao, por Leo Cabernite, nas fileiras dos alu-
po do Rio de Janeiro. Esse grupo reunia vrios      nos da sociedade, de Amlcar Lobo Moreira da
dissidentes da SPRJ.                                Silva (1939-1997), oficial de polcia e tortura-
    Em 1968, quatro anos depois da instaurao      dor a servio da ditadura. " claro", escreveu
do poder militar, comeou a insurgir-se contra      Pellegrino em uma carta de maro de 1981,
o regime, situando a psicanlise do lado da luta    "que o nome da SPRJ foi denegrido e maculado
pela liberdade. Um ano depois, denunciou aber-      [...]."
tamente a ditadura em artigos publicados no              O caso foi levado aos tribunais, e depois de
Correio da Manh. Essa atitude corajosa lhe         um processo os excludos foram reintegrados 
valeu uma priso de dois meses e um processo        SPRJ. Quanto a Cabernite, este replicou em um
por violao da lei dita de "segurana nacio-       artigo de outubro de 1986 que Pellegrino queria
nal". O testemunho do grande dramaturgo Nel-        desacredit-lo por "razes pessoais" e que o
580       pnis

"caso" Lobo servia de pretexto para um ataque               pnis, inveja do (Penisneid)
generalizado  psicanlise pelos seus inimigos.              FALO; FALOCENTRISMO; INVEJA; SEXUALIDADE
    O engajamento de Pellegrino marcou pro-                 FEMININA.
fundamente a jovem gerao brasileira, princi-
palmente Joel Birman e Jurandir Freire Costa.
    Embora tivesse redigido mais de 500 arti-               Pequeno Hans
gos, Pellegrino publicou durante a vida apenas               GRAF, HERBERT.
uma coletnea de suas melhores crnicas publi-
cadas na imprensa. Duas outras obras foram
editadas a ttulo pstumo.                                  Peraldi, Franois (1938-1993)
    No plano terico, Pellegrino afastou-se do              psicanalista francs
freudismo clssico, misturando uma perspec-                     No foi na Frana*, mas no Canad*, e
tiva kleiniana sobre a prioridade das relaes              principalmente em Montreal, que Franois Pe-
pr-edipianas a uma anlise poltica fundada na             raldi marcou a histria do lacanismo*. De ori-
necessidade de um pacto social libertador. As-              gem corsa, comeou a estudar medicina em
sim, via no perodo anterior ao dipo* uma                  Paris, mas logo se orientou para a psicanlise*,
espcie de estado selvagem, dominado pelo                   fazendo um tratamento com objetivo didtico
reino das pulses* anrquicas, psicticas ou                com Simone Decobert, na Sociedade Psicana-
perversas, comparvel ao da ditadura e da bar-              ltica de Paris (SPP). Intelectual brilhante, Pe-
brie. Segundo ele, esse estado devia ser subs-             raldi pertencia  quarta gerao* psicanaltica
titudo por um pacto social edipiano, necessrio            francesa, para a qual o engajamento no freudis-
ao desenvolvimento da cultura e da democracia.              mo* era fundado na paixo intelectual, na crti-
    De acordo com essa posio, Pellegrino pro-             ca radical da ordem estabelecida e na contes-
punha uma inovao prxima da de Sandor                     tao violenta das instituies psiquitricas e
                                                            psicanalticas.
Ferenczi*. Chamava de "tcnica da intimidade"
                                                                Esse engajamento s podia resultar na rup-
(intimizao) uma tcnica psicanaltica* que
                                                            tura ou no exlio. Aluno de Roland Barthes
permitia ao terapeuta e ao paciente abordarem
                                                            (1915-1980), leitor de Louis Althusser (1918-
o recalque* atravs de uma relao afetiva si-
                                                            1990), de Michel Foucault (1926-1984) e de
tuada aqum da comunicao verbal. Da uma
                                                            Gilles Deleuze (1925-1995), no conseguiu en-
concepo da linguagem na qual a lngua seria               contrar seu lugar no universo estreito da SPP.
a garantia simblica de uma ordem social, en-               Homossexual, no tinha nenhuma possibilida-
quanto a fala seria o domnio prprio da inven-             de de tornar-se psicanalista. Depois de ser cate-
o subjetiva.                                              goricamente recusado, voltou-se para a cole
    Hlio Pellegrino morreu de ataque cardaco.             Freudienne de Paris* (EFP), mais liberal em
                                                            relao  homossexualidade*. Ali, continuou
 Hlio Pellegrino, Crise na psicanlise, Rio de Janeiro,   sua formao didtica por uma superviso*
Graal, 1982; A burrice do demnio, Rio de Janeiro,          com Serge Leclaire* e fez uma slida amizade
Rocco, 1988; Minrios domados, Rio de Janeiro, Roc-
co, 1993  Roberto Mello, "Os bares da psicanlise",
                                                            com Michle Montrelay, Franoise Dolto* e
Jornal do Brasil, 23 de setembro de 1980  Helena           Luce Irigaray. Em 1969, comeou a praticar a
Besserman Vianna, No conte a ningum..., Rio de            psicanlise, depois de uma experincia de psi-
Janeiro, Imago, 1994.                                       coterapia institucional* com crianas psicti-
                                                            cas, na regio do Jura.
 BRASIL, KEMPER, WERNER; KLEINISMO.                             Sensvel a todas as formas de exlio e de
                                                            cosmopolitismo, apaixonado por cinema, jazz
                                                            e cultura americana, logo se sentiu mal na at-
                                                            mosfera do lacanismo parisiense dos anos 1970,
pnis                                                       quando o ensino do mestre se inclinava para o
 FALO; FALOCENTRISMO; SEXUALIDADE FEMINI-                   dogmatismo e para o culto da personalidade.
NA.                                                         Principalmente, os seus costumes e seu modo
                                                                              Peraldi, Franois         581

de vida chocavam o conformismo burgus. Sa-        de trs novas revistas: Frayages, Trans, Fili-
bia-se que era apaixonado por sadomasoquis-        grane. Quanto  sua homossexualidade, esta
mo* e causava espanto a presena de um pton       no o prejudicou de modo algum em sua prtica
em seu apartamento em Paris.                       da psicanlise. Peraldi no foi nem um militante
    Da mesma forma que os pioneiros do freu-       do movimento gay, exibindo comportamentos
dismo, como Ernest Jones* no incio do sculo,     extravagantes, nem um homossexual envergo-
Peraldi sonhava conquistar a Amrica, para im-     nhado, preocupado em normalizar-se. Assim,
plantar ali a grande renovao do freudismo        evitou criar qualquer coisa que se assemelhasse
promovida por Jacques Lacan*.                      a um crculo de jovens iniciados e tratava de
    Depois de pensar em ensinar literatura na      todos, no apenas de homossexuais. Nesse pon-
Universidade Harvard e de fazer contatos com       to, foi um clnico de um gnero novo. Capaz,
intelectuais americanos, principalmente Wil-       ao mesmo tempo, de no se envergonhar de sua
liam Richardson e John Muller, futuros fun-        diferena e de experimentar o extremo em ma-
dadores em Boston do Lacanian Forum, deixou        tria sexual, nunca transgrediu as regras da tica
a Frana em 1974 para tentar inventar "outra       analtica, o que lhe garantiu uma tima reputa-
cena" para a psicanlise. No ano seguinte, em      o nessa cidade, obcecada por abusos sexuais
Montreal, abriu um seminrio de iniciao ao       de todos os tipos: "Quando os boatos afirmam
pensamento lacaniano, no departamento de           que sou homossexual, e voc sabe que eles no
lingstica e traduo da universidade.            se privam disso", explicou ele a Jean Forest em
    Seu talento de orador lhe permitiu exercer     1988, "eles no dizem nada quanto  minha
um verdadeiro magistrio com os jovens estu-       sexualidade*, pois justamente aqueles de quem
dantes de lngua francesa e inglesa. No s Pe-    vm esses boatos e aqueles e aquelas que os
raldi foi um notvel professor, mas tambm se      transmitem ignoram tudo sobre a minha vida
revelou um surpreendente clnico, capaz de for-    particular, que sempre separei radicalmente da
mar discpulos sem nunca ceder  idolatria to     minha vida pblica e profissional; em contra-
caracterstica dos pequenos grupos ps-lacania-    partida, eles so uma tentativa de controlar
nos. Ao longo dos anos, desempenhou um papel       aquilo que o meu discurso `a-doxal' ou para-
maior tanto na universidade, onde orientava        doxal pode ter de ameaador, precisamente
teses, quanto no hospital ou em sua clnica par-   quando ataco a doxa, a fala especular e alienante
ticular, e encontrou assim seu lugar na "mar-      dos aparelhos de poder."
gem" psicanaltica de Quebec, entre todos              Franois Peraldi morreu de AIDS aos 55
aqueles (psiclogos annimos ou estudantes         anos. Quando descobriu a doena, tornou-se
sem orientao), que no conseguiam integrar-      colrico, violento, no aceitando a morte.
                                                   Continuou a trabalhar at o ltimo suspiro,
se  Sociedade Canadense de Psicanlise
                                                   redigindo a crnica de sua genealogia familiar.
(SCP).
                                                   Desejava transmitir a seus sobrinhos e amigos
    Mestre dotado de virtudes socrticas, Peral-
                                                   fragmentos da sua histria imersa no sculo.
di no quis fundar, todavia, nem uma instituio
                                                   "Franois sabia receber como um prncipe, es-
nem um sistema de pensamento.  tirania do
                                                   creveu Rgine Robin. Ns nos encontrvamos
chefe, opunha um gosto nietzschiano pela fra-
                                                   pelos quatro cantos do planeta [...]. Ele gostava
ternidade intelectual, como se pode ver na
                                                   de falar sobre suas leituras, nunca sobre seus
maioria de seus artigos. Em seus escritos, e s
                                                   pacientes. Ele os respeitava. Era uma zona proi-
vezes em duas lnguas, falava da morte, das
                                                   bida. Ningum se aventurava nela."
proibies, do sofrimento coletivo do povo do
Quebec, do crime, do sexo e das minorias,          Franois Peraldi, "La Castration sadique-anale de
maneira dos heris dos romances de John Stein-     votre pre", Interprtation, 21, 1978, 87-100; "Poly-
beck (1902-1968).                                  sexuality", in id. (org.), Semiotext (e), vol.4, 10, 1981;
    Longe de fazer escola, contentou-se em ani-    "La Psychanalyse se meurt. La Psychanalyse est
                                                   morte. Vive la GRC psychiatrique", Sant Mentale au
mar um grupo, fundando em 1986 a Rede dos          Qubec, vol.VI, 2, novembro de 1981, 106-17; "Voyage
Cartis, amplamente aberta a psicanalistas de      dans l'entre-deux-morts", Frayages, La Psychanalyse
diversos horizontes, e em participar da criao    est-elle mortelle?, Montral, 1984, 17-39; "L'Exil ac-
582       perlaborao

compli", Frayages, Exil, Montreal, 1985, 173-85; "La         na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge
Marge psychanalytique", Frayages, La Naissance de            Zahar, 1988.
la psychanalyse  Montral, Montreal, 1987, 127-41;
"1760 ou Dolto en terre d'exil", in Quelques pas sur le       FRANA; GOZO.
chemin de Franoise Dolto, Paris, Seuil, 1988, 142-62;
"Le Dsir de la Chose. Lettres  Jean Forest", Moebius,
38, Montreal, 1988, 7-27; "Mais comment peut-on tre
lacanien?", in Gilles Dupuis, Mona Gauthier Cano,            Perrotti, Nicola (1897-1970)
Robert Richard (orgs.), L'Instant freudien. Psychana-        mdico e psicanalista italiano
lyse et culture, Montreal, VLB, 1989, 37-54; "Franco et
sa mort", Trois, vol.6, 3-4, 1991, 212-6;  "Transmission,
                                                                 Nicola Perrotti foi o nico aluno de Edoardo
filiation et institution psychanalytique. Rencontre avec     Weiss* que no era judeu e o nico que estudou
Franois Peraldi", por Marie Hazan, Filigrane, 3, 1994,      medicina. Inicialmente mdico, voltou-se de-
135-61  Chantal Saint-Jarre, "Rompre l'interminable         pois para a psicanlise*, que exerceu inspiran-
silence", Discours social, 6, 3-4, 1994, 155-68 
                                                             do-se nos curandeiros que se encontravam em
Entrevistas com Herv Bouchereau, Rgine Robin,
Jacques Mauger, Claude Boss, Patrick Mahony, Da-            sua regio natal, os Abruzos, a nordeste de
niel Puskas, Jean-Paul Allaire, 21-22 de maio de 1996.       Roma.
                                                                 Atrado pela filosofia da histria e pelas
 ANTIPSIQUIATRIA; BIGRAS, JULIEN; CHENTRIER,                 questes sociais, interveio muito cedo na luta
THODORE; CLARKE, CHARLES KIRK; ESTADOS                      contra o fascismo, publicando j em 1925, na
UNIDOS; GLASSCO, GERALD STINSON; MASOTTA,
                                                             revista marxista Critica Sociale, artigos sobre a
OSCAR; MEYERS, DONALD CAMPBELL; PRADOS,
                                                             psicologia das massas, na linhagem dos traba-
MIGUEL; SLIGHT, DAVID.
                                                             lhos de Sigmund Freud*.
                                                                 Percebendo imediatamente os limites da tra-
                                                             jetria de Marco Levi-Bianchini*, e tambm os
perlaborao
                                                             do pensamento de Pierre Janet*, Perrotti cola-
 ELABORAO.                                                 borou na revista romana Il Saggiatore, na qual
                                                             encontrou jovens intelectuais em luta contra a
                                                             filosofia idealista. Com eles, reuniu-se a Weiss,
Perrier, Franois (1922-1990)                                para lanar as bases da nova Societ Psicoana-
psiquiatra e psicanalista francs                            litica Italiana (SPI).
   Analisado primeiramente por Maurice Bou-                      Sob a influncia de Weiss, Perrotti deu um
vet* e depois por Jacques Lacan*, Franois                   lugar mais importante  psicanlise em sua
Perrier se tornou, com Serge Leclaire*, Wladi-               reflexo social e poltica, tendo como objetivo
mir Granoff, Jean-Bertrand Pontalis e alguns                 ajudar a conscincia humana em crise a escapar
outros, um dos mais brilhantes representantes                ao domnio do discurso idealista, que conside-
da terceira gerao psicanaltica francesa. Em               rava como um obstculo  considerao da
Amsterdam, em 1960, por ocasio de um con-                   sexualidade*.
gresso organizado pela Sociedade Francesa de                     Combatente antifascista durante a guerra,
Psicanlise (SFP), apresentou, com Granoff,                  Perrotti participou em 1943 da reorganizao
um relatrio sobre a sexualidade feminina*,                  do Partido Socialista Italiano, do qual seria um
inspirado em teses de Lacan. Depois da segunda               dos dirigentes no momento da Libertao. Elei-
ciso* da histria do movimento francs, acom-               to deputado em 1948, foi nomeado alto comis-
panhou Lacan na fundao da cole Freudienne                 srio para a higiene, em 1950. Paralelamente,
de Paris* (EFP), mas deixou-a em 1969, em ra-                contribuiu para o renascimento da psicanlise
zo de um desacordo sobre o passe*, para criar,              na Itlia* libertada e tornou-se presidente da
com Piera Aulagnier* e Jean-Paul Valabrega, a                SPI de 1946 a 1951, data em que seu amigo e
Organizao Psicanaltica de Lngua Francesa                 colega de partido Cesare Musatti* lhe sucedeu
(OPLF), tambm chamada Quarto Grupo.                         nesse posto. Em 1948, quando a revista de
                                                             Joachim Flescher, Psicanalisi, deixou de ser
 Franois Perrier, La Chausse d'Antin (1978), Paris,
Albin Michel, 1994  Franois Perrier com Wladimir
                                                             publicada, fundou a revista Psiche, que, durante
Granoff, Le Dsir et le fminin (1979), Paris, Aubier,       algum tempo, teria relaes com sua homnima
1991  lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise         francesa, dirigida por Maryse Choisy (1903-
                                                                                              perverso        583

1979), mas que logo manifestaria a sua sensibi-             Provence, que descreveu de maneira quase
lidade de esquerda, desenvolvendo temas caros               idntica o caso de Estella, uma moa afetada
a Perrotti, como uma psicanlise aplicada* vol-             por diferentes sintomas histricos. Depois dele,
tada para a vida social e artstica, principal-             os representantes da escola francesa de psicolo-
mente para a msica e o cinema.                             gia, Pierre Janet*, Thodule Ribot (1839-1916)
                                                            e Alfred Binet (1857-1911), deram um destaque
 Contardo Calligaris, "Petite histoire de la psychana-     especial a essa noo, fosse descrevendo casos
lyse en Italie", Critique, 333, fevereiro de 1975, 175-95
 Michel David, La psicoanalisi nella cultura italiana      de mulheres videntes, msticas ou espritas, fos-
(1966), Turim, Bollati Boringhieri, 1990; "La Psychana-     se classificando os diferentes tipos de alterao
lyse en Italie", in Roland Jaccard (org.), Histoire de la   da personalidade. Com a segunda psiquiatria
psychanalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982  Arnaldo        dinmica e a macia entrada em cena do hipno-
Novelletto, "Italy", in Peter Kutter (org.), Psychoanaly-
sis International. Guide to Psychoanalysis throughout
                                                            tismo, que levaram  reformulao freudiana e
the World, Stuttgart, Frommann-Holzboog, 1992  Sil-        a uma nova descrio da histeria*, a noo de
via Vegetti Finzi, Storia della psicoanalisi, Milo, Mon-   personalidade mltipla caiu em desuso (por
dadori, 1986.                                               volta de 1910) e foi substituda por conceitos
                                                            provenientes da nosografia bleuleriana ou da
 IGREJA.
                                                            psicanlise: dissociao, clivagem*, desperso-
                                                            nalizao. Foi Thodore Flournoy*, em 1900,
                                                            com a histria da esprita Catherine-lise Ml-
personalidade mltipla                                      ler (1861-1929), quem forneceu uma das me-
al. umgtauschte Persnlichkeit; esp. personalidad           lhores descries da vida dupla.
multiple; fr. personnalit multiple; ing. multiple per-
sonality (disorder)                                          Thodule Ribot, Les Maladies de la personnalit,
                                                            Paris, Alcan, 1888  Pierre Janet, L'Automatisme psy-
Distrbio da identidade que se traduz pela coexis-
                                                            chologique (1889), Paris, Alcan, 1973 (reed.)  Alfred
tncia, num sujeito, de duas ou vrias personali-           Binet, Les Altrations de la personnalit, Paris, Alcan,
dades separadas entre si, cada uma das quais                1892  Thodore Flournoy, Des Indes  la plante Mars
pode assumir, alternadamente, o controle do                 (1990), Paris, Seuil, 1983  Henri F. Ellenberger, His-
conjunto dos modos de ser do indivduo em ques-             toire de la dcouverte de l'inconscient (N. York, Lon-
to, a ponto de faz-lo levar vidas duplas.                 dres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994 
                                                            Jacqueline Carroy, Les Personnalits doubles et mul-
    A noo de personalidade mltipla teve sua              tiples, Paris, PUF, 1993  Nicole Edelman, Voyantes,
origem no magnetismo e provm de uma con-                   gurisseuses et visionnaires en France, 1785-1914,
cepo do inconsciente* anterior  doutrina                 Paris, Albin Michel, 1995.
freudiana. Est ligada aos fenmenos de so-
                                                             BERNHEIM, HIPPOLYTE; BLEULER, EUGEN;
nambulismo, espiritismo* e automatismo men-
                                                            CHARCOT, JEAN MARTIN; ESQUIZOFRENIA; HIPNO-
tal*, do modo como estes apareciam, em mea-
                                                            SE; IMAGEM DO CORPO; MESMER, FRANZ ANTON;
dos e no fim do sculo XIX, na histria da                  SUGESTO .
primeira psiquiatria dinmica*. O primeiro ca-
so foi descrito em 1815 pelo mdico norte-ame-
ricano John Kearsley Mitchell, que narrou a                 perverso
histria de Mary Reynolds, uma jovem de 19                  al. Perversion; esp. perversin; fr. perversion; ing.
anos, afetada por uma completa dissociao*                 perversion
da personalidade. Ela levou duas vidas dife-
                                                            Termo derivado do latim pervertere (perverter), em-
rentes at os 35 anos de idade e, em seguida,
                                                            pregado em psiquiatria e pelos fundadores da
viveu em seu estado secundrio at a morte,                 sexologia* para designar, ora de maneira pejorati-
sem nunca mais sair dele. Em seu primeiro                   va, ora valorizando-as, as prticas sexuais consi-
estado, ela era calma e predominantemente de-               deradas como desvios em relao a uma norma
pressiva, ao passo que, no segundo, mostrava-               social e sexual. A partir de meados do sculo XIX,
se manaca, criativa e transbordante de ativi-              o saber psiquitrico incluiu entre as perverses
dade e imaginao.                                          prticas sexuais to diversificadas quanto o inces-
    Na Frana*, o termo foi empregado em 1840               to*, a homossexualidade*, a zoofilia, a pedofilia, a
pelo Dr. Despine, um clnico geral de Aix-en-               pederastia, o fetichismo*, o sadomasoquismo*, o
584      perverso

travestismo, o narcisismo*, o auto-erotismo*, a co-     suprema do amor, depois encarada como um
profilia, a necrofilia, o exibicionismo, o voyeurismo   vcio satnico pelo cristianismo, e por fim clas-
e as mutilaes sexuais. Em 1987, a palavra per-        sificada como uma degenerescncia pelo saber
verso foi substituda, na terminologia psiquitrica
                                                        psiquitrico do sculo XIX, ela acabou sendo
mundial, por parafilia, que abrange prticas
                                                        reconhecida, em 1974, como uma forma de
sexuais nas quais o parceiro ora  um sujeito*
                                                        sexualidade entre outras, na maioria dos pases
reduzido a um fetiche (pedofilia, sadomasoquis-
mo), ora o prprio corpo de quem se entrega 
                                                        democrticos modernos, a ponto de no mais
parafilia (travestismo, exibicionismo), ora um ani-     figurar no catlogo das novas "parafilias" do
mal ou um objeto (zoofilia, fetichismo).                terceiro Manual diagnstico e estatstico dos
    Retomado por Sigmund Freud* a partir de 1896,
                                                        distrbios mentais (DSM III), editado em 1987
o termo perverso foi definitivamente adotado co-       pela American Psychiatric Association (APA).
mo conceito pela psicanlise, que assim conser-          a Geza Roheim*, e sobretudo a Georges
vou a idia de desvio sexual em relao a uma           Devereux*, que cabe o mrito pela demons-
norma. No obstante, nessa nova acepo, o con-         trao, atravs da etnopsicanlise*, de como se
ceito  desprovido de qualquer conotao pejora-        pode compreender o mecanismo geral desse
tiva ou valorizadora e se inscreve, juntamente com      relativismo cultural em sua relao com o uni-
a psicose* e a neurose*, numa estrutura tripartite.     versalismo.
   Se o conceito de neurose pertence propria-               Sob esse aspecto, a teoria de Freud em ma-
mente ao domnio de eleio da psicanlise, e           tria de perverso (e principalmente de homos-
se o de psicose participa da origem da histria         sexualidade)  to ambivalente quanto sua dou-
da nosologia psiquitrica, o termo perverso            trina da sexualidade feminina*. Por um lado, ele
abrange um campo muito mais amplo, na me-               estende a "disposio perverso-polimorfa" ao
dida em que os comportamentos, as prticas e            homem em geral e, com isso, rejeita todas as
at as fantasias* que ele engloba s podem ser          definies diferencialistas e no igualitrias da
apreendidos em relao a uma norma social               classificao psiquitrica do fim do sculo,
que, por sua vez, induz a uma norma jurdica.           segundo a qual o perverso seria um "tarado" ou
Alm disso, a perverso sempre esteve ligada a          um "degenerado", porm, por outro, ele conser-
todas as formas possveis de arte ertica no            va a idia de norma e de um desvio em matria
Oriente e no Ocidente; por isso, as variaes           de sexualidade*. Da sua impossibilidade de
sobre o tema das perverses so mltiplas,              fazer da perverso uma estrutura universal do
conforme as pocas, os pases, as culturas ou os        psiquismo que ultrapasse o mbito das diversas
costumes. Ora elas so violentamente rejeita-           prticas sexuais ditas perversas.
das, por serem marginalizadas e vistas como                 A classificao das perverses (no plural)
uma abjeo, ora, ao contrrio, so valorizadas         pertence, tradicionalmente, ao campo da psi-
pelos escritores, poetas e filsofos, que as consi-     quiatria e da sexologia, enquanto a psicanlise
deram superiores s chamadas prticas sexuais           faz questo de dar uma definio estrutural ao
normais.                                                conceito de perverso (no singular). Em Freud,
   Assim, em certas regies da frica, admite-          todavia, as coisas no so to simples. Como
se um ritual tribal de mutilao sexual (exciso        atesta sua obra inaugural de 1905, os Trs en-
ou infibulao) que, em contrapartida, seria            saios sobre a teoria da sexualidade*, ele prefere
crime na Europa. O mesmo se aplica  emascu-            empregar o termo no plural (as perverses
lao dos homens no antigo Egito ou na ndia*,          sexuais) e fala com mais freqncia de in-
que tambm pde ser considerada uma perver-             verses do que de perverses. Sua terminologia
so, ao serem os mores tradicionais contestados         sofreria, posteriormente, numerosas inflexes,
quer por um movimento de emancipao que                no sentido de uma interpretao mais estrutural
almejava libertar o corpo das mulheres, quer por        dessa idia.
uma poltica colonial que procurava psiquiatri-             Foi sempre em referncia a um processo de
zar prticas outrora encaradas como costumes.           negatividade e numa relao dialtica com a
Foi esse, alis, o destino da homossexualidade.         neurose que Freud definiu a perverso. Com
Considerada na Grcia antiga como a forma               efeito, de incio, numa carta a Wilhelm Fliess*
                                                                                 perverso       585

de 24 de janeiro de 1897 e, em seguida, nos Trs    gncias do isso*, o psictico renega a reali-
ensaios, ele fez da neurose "o negativo da per-     dade*.
verso". Com isso sublinhou o carter selva-            Em 1927, no contexto de uma discusso
gem, brbaro, polimorfo e pulsional da sexua-       com Ren Laforgue* sobre a questo da esco-
lidade perversa: uma sexualidade infantil em        tomizao, Freud abordou a renegao a partir
estado bruto, cuja libido* se restringe  pulso*   do fetichismo, afirmando que, nessa forma de
parcial. Ao contrrio da sexualidade dos neur-     perverso, o sujeito faz coexistirem duas reali-
ticos, essa sexualidade perversa no conhece        dades: a recusa e o reconhecimento da ausncia
nem a proibio do incesto*, nem o recalque*,       do pnis na mulher. Da uma clivagem do eu
nem a sublimao*.                                  que caracteriza no somente a psicose, mas
    Se a sexualidade perversa no tem limites,     igualmente a perverso. A partir desse ponto, a
porque se organiza como um desvio em relao        perverso se inscreveu numa estrutura tripar-
a uma pulso, a uma fonte (rgo), um objeto e      tite. Ao lado da psicose, definida como a recons-
um alvo. A partir desses quatro termos, Freud       truo de uma realidade alucinatria, e da neu-
distinguiu dois tipos de perverses: as per-        rose, resultante de um conflito interno seguido
verses do objeto e as perverses do alvo. Nas      de recalque, a perverso aparece como uma
perverses do objeto, caracterizadas por uma        renegao ou um desmentido da castrao, com
fixao num nico objeto em detrimento dos          uma fixao na sexualidade infantil.
demais, ele incluiu, por um lado, as relaes           De 1905 a 1927, portanto, Freud passou de
sexuais com um parceiro humano (incesto,            uma descrio das perverses sexuais para uma
homossexualidade, pedofilia, auto-erotismo) e,      teorizao do mecanismo geral da perverso
por outro, as relaes sexuais com um objeto        que j no era apenas o resultado de uma predis-
                                                    posio polimorfa da sexualidade infantil, mas
no humano (fetichismo, zoofilia, travestismo).
                                                    a conseqncia de uma atitude do sujeito huma-
Nas perverses do alvo, distinguiu trs espcies
                                                    no confrontado com a diferena sexual. Nesse
de prticas: o prazer visual (exibicionismo,
                                                    sentido, a perverso existe tanto no homem
voyeurismo), o prazer de sofrer ou fazer sofrer
                                                    quanto na mulher, mas no se distribui da mes-
(sadismo, masoquismo), e o prazer pela
                                                    ma maneira entre os dois sexos no que concerne
superestimao exclusiva de uma zona ergena
                                                    ao fetichismo e  homossexualidade.
(ou de um estdio*), isto , ou da boca (felao,
                                                        A partir dessa definio da perverso, basea-
cunilngua) ou do aparelho genital.
                                                    da na clivagem do eu, os herdeiros de Freud no
    A partir de 1915, Freud fez numerosas mo-       se cansaram de estudar as diferentes formas de
dificaes em sua primeira concepo da per-        prticas sexuais perversas masculinas e femini-
verso, em decorrncia, a princpio, de sua me-     nas, assim retirando da sexologia o privilgio
tapsicologia* e de sua nova teoria do narcisis-     de suas classificaes sofisticadas. Mas, em vez
mo*, e depois, de sua segunda tpica* e sua         de levar o movimento psicanaltico a uma nova
elaborao da diferena sexual*. Assim, passou      abordagem das perverses, esses trabalhos tive-
de uma descrio das perverses sexuais para a      ram, num primeiro momento, de 1930 a 1960,
idia de uma possvel organizao da perverso      o efeito inverso. Tidos como incurveis, ou
em geral como modelo de uma organizao do          submetidos na anlise a uma pretensa normali-
eu* baseada na clivagem*. Num artigo de 1923,       zao de sua sexualidade, os perversos no
"A organizao genital infantil", e depois, em      foram autorizados a praticar a psicanlise em
outro, de 1924, "A perda da realidade na neu-       nenhuma das sociedades integrantes da Interna-
rose e na psicose", Freud introduziu o conceito     tional Psychoanalytical Association* (IPA). Es-
de renegao* (Verleugnung), para mostrar que       sa proibio, que visava essencialmente os
as crianas negam a realidade da falta do pnis     homossexuais, foi sentida como uma grande
na menina, e para afirmar que esse mecanismo        discriminao, especialmente depois de 1972,
de defesa caracteriza a psicose, em oposio ao     quando a homossexualidade deixou de ser as-
mecanismo de recalque que encontramos na            similada pela psiquiatria a uma doena mental
neurose: enquanto o neurtico recalca as exi-       e, quinze anos mais tarde, a uma perverso.
586     perverso

Colocou-se ento, tanto para a psiquiatria quan-   ra estrutura. Amigo de Georges Bataille (1897-
to para a psicanlise, a questo de uma possvel   1962), grande leitor de Sade, de Henry Have-
redefinio do estatuto da perverso em geral e    lock Ellis*, da poesia ertica e da filosofia
das perverses sexuais em particular.              platnica, Lacan foi muito mais sensvel do que
    A implantao da psicanlise nos grandes       Freud, os freudianos e os kleinianos  questo
pases ocidentais teve como conseqncia, efe-     do Eros, da libertinagem e, acima de tudo, da
tivamente, desalienar os perversos e afastar a     natureza homossexual, bissexual, fetichista,
homossexualidade como tal do campo das per-        narcsica e polimorfa do amor. Ele mesmo um
verses sexuais. O aparecimento do termo pa-       libertino, preferia pensar que somente os per-
rafilia no DSM III restringiu o campo das ano-     versos sabem falar da perverso. Da o privil-
malias e desvios a prticas sexuais coercitivas    gio que conferiu desde o incio a duas noes
e fetichistas, baseadas na ausncia de qualquer    -- o desejo e o gozo* --, para fazer da perver-
parceiro humano livre e anuente. Assim, fez-se     so um grande componente do funcionamento
sentir a necessidade de a prpria psicanlise      psquico do homem em geral, uma espcie de
abandonar qualquer forma de terapia "normali-      provocao ou desafio permanente  lei. A fr-
zadora", em prol de uma clnica do desejo*         mula disso foi fornecida em 1962 num artigo
capaz de compreender as escolhas sexuais de        clebre, "Kant com Sade", destinado a servir de
sujeitos cujas prticas libidinais j no eram     apresentao a dois livros de Sade, Justine ou
todas punidas por lei, nem vividas como um         os infortnios da virtude e A filosofia na alcova.
pecado, nem tampouco concebidas como um            Lacan fez do mal, no sentido sadiano, um equi-
desvio em relao a uma norma.                     valente do bem no sentido kantiano, para mos-
    Quanto a esse aspecto, a reviso da doutrina   trar que a estrutura perversa se caracteriza pela
freudiana original j havia comeado por volta     vontade do sujeito de se transformar num objeto
de 1960, antes das transformaes da termino-      de gozo oferecido a Deus, tanto ridicularizando
logia psiquitrica dos anos de 1970-1980.          a lei quanto por um desejo inconsciente de se
    Na teoria kleiniana, a perverso  sempre      anular no mal absoluto e na auto-aniquilao.
descrita em funo de uma norma e de uma           Ao assim retirar a perverso do campo das
patologia, mas qualquer idia de desvio  afas-    perverses sexuais, a corrente lacaniana abriu
tada. Por isso, ela  encarada como um distrbio   caminho para novas perspectivas teraputicas:
da identidade de natureza esquizide, ligado a     no somente a perverso deixou de ser atingida
uma pulso feroz de autodestruio e destruio    pelo diagnstico de incurabilidade, como tam-
do objeto. Longe de ser a expresso de uma         bm o perverso, j no sendo forosamente
"aberrao" sexual, ela se torna a manifestao    catalogado como um pervertido sexual, pde ter
da pulso de morte em estado bruto, a ponto de     acesso  prtica da psicanlise sem constituir
dar origem, no mbito da anlise, a uma reao     um "perigo" para a comunidade. Essa concep-
teraputica negativa (ou perverso da transfe-     o da perverso como estrutura levaria Lacan
rncia*). Quanto  homossexualidade, ela          e sua escola a tratar a homossexualidade no
remetida a uma fixao na posio esquizo-pa-      quadro da perverso.
ranide*, que pode desembocar numa para-               Na poca em que os alunos de Lacan assim
nia*. As perverses sexuais so assimiladas a     comentavam a teoria clssica de Freud, o gran-
uma organizao patolgica do narcisismo. As-      de psicanalista Robert Stoller* questionou-a de
sim, o kleinismo* tende a puxar a perverso        ponta a ponta, em especial ao introduzir a noo
para a psicose, afastando-se do diagnstico de     de diferenciao sexual e de gnero* (gender).
incurabilidade.                                    Seu principal livro, Sex and Gender, publicado
    Foi a Jacques Lacan* e a seus discpulos       em 1968 e traduzido para o francs, dez anos
franceses (Jean Clavreul, Franois Perrier*,       depois, sob o ttulo de Recherches sur l'identit
Piera Aulagnier*, Wladimir Granoff e Guy Ro-       sexuelle, assim como inmeros outros traba-
solato) que coube o mrito, nico na histria de   lhos, renovariam a abordagem clnica do
freudismo, de finalmente retirar a perverso do    conjunto das perverses (em especial do feti-
campo do desvio, para fazer dela uma verdadei-     chismo feminino e do transexualismo*).
                                                                                                    peste       587

    Na perspectiva da psicologia do self*, foi               Robert Stoller, Recherches sur l'identit sexuelle (N.
                                                             York, Londres, 1968), Paris, Gallimard, 1979; L'Excita-
Joyce McDougall, psicanalista francesa, quem
                                                             tion sexuelle (N. York, 1979), Paris, Payot, 1984 
contribuiu, a partir de 1972, com uma das me-                Grard Bonnet, Les Perversions sexuelles, Paris, PUF,
lhores revises da doutrina freudiana da perver-             col. "Que sais-je?", 1983; "Le Sexuel freudien. Une
so. Em seu Plaidoyer pour une certaine anor-                nigme originaire et toujours actuelle", in Les Troubles
malit, ela constatou que a estrutura tripartite             de la sexualit, monografias da Revue Franaise de
                                                             Psychanalyse, Paris, PUF, 1993, 10-46  R.D. Hinshel-
(neurose, psicose, perverso)  rgida demais                wood, Dicionrio do pensamento kleiniano (Londres,
para explicar os distrbios sexuais ligados s               1991), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992  Michel Erlich,
diferentes perturbaes narcsicas do eu [soi].              Les Mutilations sexuelles, Paris, PUF, col. "Que sais-
Por isso, deu o nome de neo-sexualidade e de                 je?", 1991  Jol Dor, "Perverso", in Pierre Kaufmann
sexualidade aditiva a formas de sexualidade                  (org.), Dicionrio enciclopdico de psicanlise: o lega-
                                                             do de Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro,
perversas, prximas da droga e da toxicomania,               Jorge Zahar, 1996, 415-23.
mas que permitem a alguns sujeitos  beira da
loucura* encontrarem o caminho da cura, da                    BISSEXUALIDADE; DENEGAO; FORACLUSO;
criatividade e da auto-realizao.                           GOZO; LIBIDO; OBJETO (PEQUENO) a.

 Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da
sexualidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145;
SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; "Bate-se           peste
numa criana" (1919), ESB, XVII, 225-58; GW, XII,
197-226; SE, XVII, 175-204; in Nvrose, psychose et              Numa conferncia proferida em Viena*, em
perversion, Paris, PUF, 1973, 219-243; "A organizao        1955, Jacques Lacan* afirmou ter ouvido da
genital infantil da libido: uma interpolao na teoria da    boca de Carl Gustav Jung*, a quem acabara de
sexualidade" (1923), ESB, XIX, 179-88; GW, XII, 293-         fazer uma visita, a seguinte histria: em 1909,
8; SE, XIX, 139-45; OC, XVI, 303-9; "O problema
econmico do masoquismo" (1924), ESB, XIX, 199-              ao aportar no continente norte-americano para
216; GW, XIII, 371-83; SE, XIX, 139-45; OC, XVII, 9-23,      ir  Universidade Clark, em Worcester, para ali
"A perda da realidade na neurose e na psicose" (1924),       proferir suas cinco lies de psicanlise,
ESB, XIX, 229-38; GW, III, 363-8; SE, XIX, 183-7; OC,        Sigmund Freud* teria segredado no ouvido de
XVII, 35-43; "Fetichismo" (1927), ESB, XXI, 189-88;
GW, XIV, 311-7; SE, XXI, 147-57; in La Vie sexuelle,
                                                             seu discpulo: "Eles no sabem que lhes es-
Paris, PUF, 1969; "A clivagem do eu no processo de           tamos trazendo a peste." Lacan comentou esse
defesa" (1938), ESB, XXIII, 309-15; GW, XVII, 59-62;         dito, sublinhando que Freud se enganara: ele
SE, XXIII, 271-8; in Rsultats, ides, problmes, II,        havia acreditado que a psicanlise seria uma
Paris, PUF, 1985, 283-7; La Naissance de la psycha-
nalyse (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956  William H.
                                                             revoluo para a Amrica, e, na realidade, a
Gillespie, "Notes on the analysis of sexual perversions",    Amrica  que tinha devorado sua doutrina,
IJP, XXXIII, 397, 1952  Jacques Lacan, "Kant com            retirando-lhe seu esprito subversivo.
Sade" (1963), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,         Na Frana,* acreditou-se que esse dito tinha
Jorge Zahar, 1998, 776-806  The Pathology and Treat-
ment of Sexual Deviation (col.), Oxford, Oxford Univer-
                                                             sido realmente proferido. No entanto, o estudo
sity Press, 1964  Wladimir Granoff e Franois Perrier,      dos textos, da correspondncia e dos trabalhos
Le Dsir et le fminin (1964), Paris, Aubier, 1991  Piera   da totalidade dos comentadores da histria do
Aulagnier-Spairani, Jean Clavreul, Franois Perrier,         freudismo mostra que Jung reservou essa confi-
Guy Rosolato e Jean-Paul Valabrega, Le Dsir et la
perversion, Paris, Seuil, 1967  Piera Aulagnier-Spai-
                                                             dncia unicamente para Lacan. Em todas as
rani, "La Perversion comme structure", L'Inconscient,        partes do mundo, afirma-se que Freud teria
2, 1967  Guy Rosolato, "Gnalogie des perversions",        simplesmente dito: "Eles ficaro surpresos
ibid.  Jean Clavreul, Le Dsir et la loi, Paris, Denol,    quando souberem o que temos a dizer."
1987  Horacio Etchegoyen, "Perversin de transferen-
cia. Aspectos tericos y tcnicos" (1977), in Leon Grin-
                                                                 Propagado por Lacan, esse dito tornou-se,
berg (org.), Prticas psicoanaliticas comparadas en las      na Frana, um mito fundador do freudismo* e
psicosis, B. Aires, Paids, 1977, 58-83  Joyce McDou-       do lacanismo*. Com efeito, a Frana  o nico
gall, Em defesa de uma certa anormalidade (Paris,            pas do mundo onde, atravs dos surrealistas e
1978), P. Alegre, Artes Mdicas, 1991; Thatre du Je,
Paris, Gallimard, 1982  Georges Lantri-Laura, Leitura
                                                             do ensino de Lacan, a doutrina de Freud foi
das perverses: histria de sua apropriao mdica           encarada como "subversiva" e assimilada a
(Paris, 1979), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994            uma "epidemia", parecida com o que fora a
588      Pfister, Oskar

revoluo de 1789 e, pelo menos, irredutvel a           lher, Erika Wunderli, e seu filho, que se tornaria
qualquer forma de psicologia adaptativa.                 psiquiatra. Em 1902, foi designado para a par-
                                                         quia dos Pregadores de Zurique, onde ficou at
 Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de Janei-
                                                         1939. Posteriormente, casou-se pela segunda
ro, Jorge Zahar, 1998  lisabeth Roudinesco, Jacques
Lacan. Esboo de uma vida, histria de um sistema de     vez com uma viva, Martha Zuppinger-Urner,
pensamento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das        que tinha dois filhos, que ele criou como seus.
Letras, 1994; Genealogias (Paris, 1994), Rio de Janei-       Impressionado com o espetculo da degra-
ro, Relume Dumar, 1996.                                 dao moral ligada  industrializao, e princi-
 CINCO LIES DE PSICANLISE; ESTADOS UNI-
                                                         palmente com a incapacidade da velha teologia
DOS; HISTRIA DA PSICANLISE; INCONSCIENTE;
                                                         abstrata e escolstica de responder s angstias
SURREALISMO.                                             do homem moderno, Pfister voltou-se para a
                                                         psicologia. Foi assim que teve a ocasio de
                                                         pedir conselho a Carl Gustav Jung* a respeito
Pfister, Oskar (1873-1956)                               de uma me de famlia, atormentada por cartas
pastor e psicanalista suo
                                                         annimas e inscries insultuosas que encontra-
                                                         va em seu caminho. Jung fez um diagnstico de
    "Oskar Pfister, pastor em Zurique": era as-
sim que se apresentava esse homem original,              estado crepuscular e de mania de perseguio:
quando assinava suas contribuies  psican-            "A ajuda amvel de Jung", escreveu Pfister,
lise*. Recusando todos os dogmas e praticando            "me permitiu progredir na anlise, que prometia
o tratamento de maneira no-conformista, teve            explicar esses comportamentos anormais."
que enfrentar, em seu pas, os adversrios da            Uma slida amizade se estabeleceu entre os
anlise leiga*. Tinha um verdadeiro afeto por            dois, ambos filhos de pastores.
Sigmund Freud*, que o retribua e que sempre                 Atravs de Ludwig Binswanger*, Oskar
confiou nele, apesar de sua desconfiana em              Pfister encontrou-se com Freud em Viena*, em
relao  religio. Pfister soube manter com o           25 de abril de 1909. Presenteou-o com uma
mestre vienense uma relao desprovida de ob-            rplica em prata do Monte Cervin, que Freud
sequiosidade ou idolatria, nunca hesitando em            logo instalou em sua escrivaninha. "Esse peque-
polemizar, quando surgia entre eles uma discor-          no pedao da Sua, homenagem do nico pas
dncia, principalmente a respeito da f: "Freud          onde me sinto ricamente provido dos bens que
tinha por ele [Pfister] uma verdadeira paixo,           so a simpatia do corao e do esprito de
escreveu Ernest Jones*, admirava seus hbitos            homens fortes e bons." Seguiu-se uma bela
fortemente morais, seu altrusmo generoso, as-           correspondncia, da qual apenas uma centena
sim como o seu otimismo em relao  natureza            de cartas foi publicada em 1963 por Anna
humana. A idia de ser amigo de um pastor                Freud* e Ernst Freud*. A censura visava ocultar
protestante, a quem ele podia enderear cartas           a encantadora histria de amor de Pfister com
que comeavam por `Caro homem de Deus'                   uma jovem mulher, da qual este falava muito
certamente devia diverti-lo, ainda mais porque           livremente com Freud, que alis a evocava tam-
o `hertico impertinente', como definia a si             bm livremente em sua correspondncia com
mesmo, sempre podia contar com a tolerncia              Jung e com Sandor Ferenczi*.
do pastor."                                                  Logo Pfister juntou-se  Associao Psica-
    Pioneiro da psicanlise na Sua* alem,             naltica de Zurique (ex-Sociedade Freud), fun-
Pfister aliou a tcnica freudiana  antiga "cura         dada por Jung. Participou depois da implanta-
de almas" (Seelsorge) protestante, com entu-             o das teses freudianas na Sua, que eram
siasmo. Queria tambm transformar a pedago-              denunciadas ali como "perverses vienenses".
gia em uma "pedanlise".                                 Por vrias vezes, teve que submeter-se a severos
    Nascido em Wiedikon, subrbio de Zurique,            inquritos eclesisticos, dos quais sempre saiu
Oskar Pfister, filho de pastor, tinha apenas trs        vitorioso. Sua prtica, que consistia numa mis-
anos quando seu pai morreu. Depois de estudar            tura de cura de almas e tratamento psicanaltico,
teologia e filosofia, teve seu primeiro cargo em         desagradava tanto as autoridades religiosas
Wald, onde se instalou com sua primeira mu-              quanto a hierarquia mdica, o que provocaria
                                                                                  Pfister, Oskar       589

este comentrio de Freud, em um post-scriptum       subestimao quanto  superestimao da pr-
 Questo da anlise leiga*: "O analista no-       tica de Pfister, mas desaprovava as "anlises
mdico, mas que tem uma preparao profis-          abreviadas" (tratamentos curtos).
sional, no ter nenhuma dificuldade em                 Em 1927, quando Freud publicou O futuro
conquistar a estima e a considerao que lhe so    de uma iluso*, Pfister lhe respondeu com um
devidas como pastor de almas secular."              longo artigo crtico, "A iluso de um futuro", no
    Na verdade, Pfister considerava que o papel     qual afirmava que a verdadeira f era uma
do analista-pastor era levar o paciente infeliz a   proteo contra a neurose e que a posio freu-
reconhecer, pelo tratamento, o valor da f crist   diana era, ela prpria, uma iluso, pois passava
e converter-se a ela, depois de se livrar da        ao largo da atitude autntica do cristo. Freud
neurose*. A cura de almas devia pois ser enri-      respondeu: "Em si, a psicanlise no  nem
quecida com a psicanlise.                          religiosa nem irreligiosa.  um instrumento sem
    No momento da ruptura de 1913, Pfister          partido, do qual podem servir-se religiosos e
tomou claramente o partido de Freud: "Aban-         leigos, desde que o faam unicamente a servio
donei completamente a maneira junguiana, dis-       do alvio dos seres que sofrem."
se ele em uma carta de julho de 1922. Essa
`interpretice' que apresenta todas as imundcies     Oskar Pfister, Die psychoanalytische Methode. Eine
como uma gelia espiritual de um gnero ele-        erfahrungswissesnschaftliche systematische Darstel-
                                                    lung, Leipzig, Klinkhardt, 1913; Au viel vangile par un
vado, todas as perversidades como orculos e        chemin nouveau. La Psychanalyse au service de la
mistrios sagrados, e introduz fraudulentamen-      cure d'me (1918), Berna, Bircher, 1920; La Psycha-
te um pequeno Apolo e um pequeno Cristo nas         nalyse au service des ducateurs, Berna, Bircher,
almas extravagantes no vale nada.  o hegelia-     1920; Selbstdarstellung, Leipzig, Felix Meiner, 1927;
                                                    "L'Illusion d'un avenir", (1928), Revue Franaise de
nismo traduzido em psicologia." Em maro de         Psychanalyse, vol.40, 3, 1977, 503-46; Psychoanalyse
1919, criou a Sociedade Sua de Psicanlise        und Weltanschauung, Leipzig, Viena, Internationale
(SSP), com Emil Oberholzer*, Hermann Ror-           Psychoanalytisches Verlag, 1928  Sigmund Freud,
schach* e Hans Walser. Assim, conseguiu re-         "Introduo a The psycho-analytic method, de Pfister"
                                                    (1913), ESB, XII, 415-22; GW, X, 448-50; SE, XII
construir um movimento freudiano na Sua. O        327-31; Correspondance de Sigmund Freud avec le
novo grupo no tardaria a conhecer dificul-         pasteur Pfister, 1909-1939 (Frankfurt, 1963), Paris,
dades de funcionamento. Em 1927, a prtica          Gallimard, 1966  Ernest Jones, A vida e a obra de
no-conformista de Pfister foi contestada, no      Sigmund Freud, vol.2 (N. York, 1955), Rio de Janeiro,
                                                    Imago, 1989  Mireille Cifali, Freud pdagogue, Paris,
s porque no obedecia s regras da Internatio-     Interditions, 1982; "De quelques remous helvtiques
nal Psychoanalytical Association* (IPA), mas        autour de l'analyse profane", Revue Internationale
tambm e principalmente porque Oberholzer e         d'Histoire de la Psychanalyse, 3, 1990, 145-59; "La
Rudolph Brun (1885-1949) eram hostis  an-         Cure des enfants en Suisse. De l'hypnotisme  la
                                                    psychanalyse", tudes Freudiennes, 36, novembro de
lise leiga. Assim, fundaram uma associao          1995, 170-88  Andr Haynal, "Les Suisses. En Psy-
mdica de psicanlise, que s reconhecia mdi-      chanalyse", Le Bloc-notes de la Psychanalyse, 4, 1984,
cos. Raymond de Saussure* tambm tomou              163-70  Pier Cesare Bori, "Oskar Pfister, `pasteur 
partido contra a tcnica de Pfister, mas sem por    Zurich', et analyse laque", Revue Internationale d'His-
                                                    toire de la Psychanalyse, 3, 1990, 129-45  Patrick
isso deixar a SSP: "O sr. pratica psicanlises
                                                    Avrane, "Index de la correspondance de Freud avec le
muito curtas, escreveu-lhe em 1922, e que no       pasteur Pfister", Esquisses Psychanalytiques, 14, ou-
correspondem exatamente ao que Freud enten-         tubro de 1990, 205-13  Peter Widmer, "Situation de la
de atualmente por psicanlise. Da resulta que      psychanalyse en Suisse almanique", Le Bloc-notes
                                                    de la Psychanalyse, 10, 1991, 69-81  Laurent Lethiais,
os mdicos de sua cidade, que fazem questo
                                                    Oskar Pfister et la cure d'me psychanalytique, dis-
de observar a tcnica do nosso mestre de Viena,     sertao de DES de psicologia clnica e patolgica,
tenham grandes dificuldades."                       Universidade de Paris X, junho de 1995.
    Essa tentativa de normalizar a prtica de
Pfister em nome do respeito ao mestre de Viena       ELLENBERGER, HENRI F.; HAITZMANN, CHRIS-
foi inteiramente repelida por Freud, que sempre     TOPHER; IGREJA; MENG, HEINRICH; SCHJELDE-
protegeu o seu caro pastor, sem com isso deixar     RUP, HARALD; TCNICA PSICANALTICA; ZULLI-
de critic-lo. Freud dizia que se opunha tanto     GER, HANS.
590      phantasia

phantasia                                              kleiniana tampouco acarreta uma mudana gr-
al. Phantasie; esp. fantasa; fr. phantasme; ing.      fica.
phantasy.                                                  Em 1989, os responsveis pela nova tradu-
                                                       o* francesa dos livros de Freud, no intuito de
Grafia adotada por Susan Isaacs*, em 1948, para
                                                       criar uma lngua "freudolgica", baniram da
distinguir a chamada fantasia* (fantasy) conscien-
                                                       conceituao psicanaltica a palavra fantasme,
te, escrita com f, da phantasia (phantasy) dita in-
consciente, grafada com ph.
                                                       em favor de fantaisie. Com isso, reduziram um
                                                       conceito a uma palavra. Em francs, com efeito,
    A palavra fantasme foi adotada em francs          a palavra fantaisie no pode abranger a dimen-
pelos primeiros tradutores de Freud (Marie Bo-         so conceitual de fantasme nem tampouco ins-
naparte*, douard Pichon*), a partir do grego          taurar uma distino de tipo kleiniano entre
phantasma (apario, transformada, em latim,           consciente e inconsciente.
em fantasma ou espectro) para traduzir o que,
na palavra alem Phantasie, refere-se a uma             Susan Isaacs, "A natureza e a funo da phantasia",
formao imaginria, isto , a um conceito, e          in Melanie Klein et al., Os progressos da psicanlise
                                                       (Londres, 1952), Rio de Janeiro, Zahar, 1978  Jean
no a uma fantasia no sentido da atividade             Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Fantasia origin-
imaginativa. Assim, onde Freud emprega uma             ria, fantasia das origens, origens da fantasia (Paris,
s palavra alem (Phantasie) para designar             1985), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Vocabulrio
duas coisas diferentes (um conceito, por um            da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,
                                                       1991, 2 ed.  Andr Bourguignon, Pierre Cotet, Jean
lado, e uma atividade, por outro), a lngua fran-      Laplanche e Franois Robert, Traduzir Freud (Paris,
cesa utiliza dois termos: fantasme (ou phan-           1989), S. Paulo, Martins Fontes, 1992.
tasme) e fantaisie. Sob esse aspecto, portanto,
no h em francs nenhuma diferena entre as            SEDUO, TEORIA DA.
duas grafias, que so utilizadas de maneira equi-
valente, inclusive pelos tradutores da obra de
                                                       Pichon, douard (1890-1940)
Melanie Klein*.
                                                       mdico e psicanalista francs
    Alguns autores, como Piera Aulagnier*, sis-
tematizaram a grafia ph, enquanto outros prefe-            Pediatra, mdico hospitalar, gramtico,
riram no estabelecer nenhuma distino. Na            monarquista, idelogo de um absoluto afrance-
                                                       samento da doutrina freudiana, membro da liga
terminologia inglesa, na qual a palavra fantasy
                                                       Action Franaise, douard Pichon foi o perso-
significa, como no alemo, tanto phantasia
                                                       nagem mais original, mais contraditrio e mais
quanto fantasia, o emprego da palavra phantasy
                                                       inteligente da primeira gerao* psicanaltica
s se generalizou entre os ps-kleinianos, a
                                                       francesa. Genro de Pierre Janet*, sem ser jane-
ponto, alis, de substituir a palavra fantasy. H
                                                       tiano, tinha paixo pela psicanlise* sem ser
nisso uma certa lgica, uma vez que o kleinis-         realmente freudiano. Depois de sua anlise com
mo* tende a situar toda a clnica psicanaltica        Eugnie Sokolnicka*, no formou didatas,
do lado da realidade psquica* e dos fenmenos         preferindo a medicina hospitalar  prtica do
mais inconscientes e mais arcaicos.                    consultrio. Se aderiu sem reservas s teses
    Em 1967, Jean Laplanche e Jean-Bertrand            anti-semitas de Charles Maurras (1868-1952),
Pontalis ressaltaram que a distino entre as          foi partidrio de Dreyfus. No publicou ne-
duas grafias, a rigor, era intil, j que, em Freud,   nhum texto suspeito e nunca teve, na vida coti-
o conceito de phantasia pertencia aos dois regis-      diana, a menor atitude anti-semita em relao a
tros, consciente* e inconsciente*. Podemos, no         seus colegas da SPP e do grupo da volution
entanto, dizer que existe uma diferena concei-        Psichiatrique. Ao contrrio de Angelo Hesnard*
tual entre fantasy e phantasy, ou seja, entre os       e de muitos psiquiatras franceses da sua gera-
kleinianos anglfonos e os outros freudianos           o, no foi germanfobo.
anglfonos, ao passo que, na Frana, a adoo              Sua crena na superioridade da "civilizao'
desta ou daquela grafia no  pertinente, a no        francesa sobre todas as outras culturas se devia
ser quando um autor se refere explicitamente          menos ao chauvinismo do que  poltica. Defen-
terminologia kleiniana. Em alemo, a distino         dendo a "civilizao" contra a Kultur, Pichon
                                                                          Pichon, douard       591

reivindicava um catolicismo racionalista, nico     tornando protestante; essa  a razo do meu
capaz, em sua opinio, ao contrrio do judasmo     humilde pedido de adeso [...]. Uma ltima
e do protestantismo, de representar os valores      observao: sou psicanalista. Os resultados ob-
de uma espiritualidade ocidental capaz de servir    tidos pelo mtodo freudiano obrigaram a minha
de contrapeso ao bolchevismo, ao feminismo,         boa-f a aceitar essa disciplina. Escrevi recen-
ao liberalismo, ao nazismo*, aos ideais da re-      temente um artigo para mostrar que a adoo da
voluo de 1789. Da suas posies ultracon-        psicanlise como mtodo teraputico no im-
servadoras em favor da famlia tradicional, do      plicava de modo algum a renncia a qualquer
casamento nico, da virgindade das jovens e da      estilo metafsico, moral ou religioso."
educao das crianas.                                  Durante o perodo entre as duas guerras,
    Pelo seu rigor terico, e apesar do fracasso    publicou muitos artigos, entre os quais trs se
radical de seu programa de afrancesamento da        tornaram essenciais  compreenso da concei-
doutrina vienense, Pichon teve um papel consi-      tualidade prpria ao movimento psicanaltico
dervel na gnese de um freudismo* francs,         francs: "A gramtica como modo de explora-
enfatizando desde ento a relao entre a lin-      o do inconsciente", "Sobre a significao
guagem e o inconsciente*, liderando, no seio da     psicolgica da negao em francs" e "A pessoa
Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP), uma         e a personalidade  luz do pensamento idiom-
comisso para a traduo e a unificao do          tico francs". Esses textos mostram que Pichon
vocabulrio freudiano e introduzindo noes         foi o primeiro, antes de Lacan, a perceber que
que Jacques Lacan* utilizaria posteriormente:       a descoberta freudiana do inconsciente apresen-
a foracluso*, por exemplo. Foi o professor de      tava, para a lingstica saussuriana, uma ques-
pediatria de Franoise Dolto*, que dele herdou      to fundamental. Eles tambm sublinham at
um estilo brilhante e uma maneira de falar em       que ponto a sua posio de gramtico estava em
que se misturavam a tradio da direita maur-       contradio com sua leitura psicanaltica dos
rassiana e um realismo potico sado direta-        textos freudianos. Efetivamente, a idia de uma
mente dos filmes de Jean Renoir (1894-1979).        prioridade da lngua sobre o pensamento levava
    Nascido em Sarcelles, em uma famlia ori-       Pichon a afirmar, na gramtica, o princpio de
ginria da Bourgogne, douard Pichon foi edu-       uma prioridade do inconsciente sobre a
cado em um esprito leigo e republicano. Quan-      conscincia*, ao passo que, em sua abordagem
do criana, foi atingido por um reumatismo          da obra freudiana, negava a existncia de um
articular hereditrio -- do qual morreria -- que    inconsciente "psicolgico". Assim, foi atravs
lhe sugeriu o tema para a sua tese de medicina.     da gramtica que ele teve acesso  natureza do
Com seu tio, Jacques Damourette, grande lite-       inconsciente freudiano. E foi o primeiro a de-
rado, apaixonado por lngua e literatura, come-     tectar, a partir da lngua, uma juno entre a
ou ainda muito jovem a tarefa mais importante      linguagem e o inconsciente, que seria retomada
de sua vida: a edificao de uma gramtica          por Lacan.
descritiva da lngua francesa entre 1911 e 1940.        Em 1938, Pichon polemizou com Lacan a
A obra se intitulava Das palavras ao pensamen-      respeito de um texto intitulado "Os complexos
to e compreeendia sete enormes volumes,             familiares", encomendado a Lacan por Lucien
acompanhados de um Glossrio dos termos             Febvre (1878-1956) e Henri Wallon (1879-
especiais, onde eram listados todos os neologis-    1962), para a Enciclopdie Franaise. Se Pi-
mos inventados pelos dois eruditos.                 chon compartilhava com Lacan a idia de que
    Em 1927, casou-se com Hlne Janet, com         a famlia era um agente da tradio e no da
quem teve um filho, tienne Pichon. Nesse           hereditariedade, rejeitava o procedimento da
mesmo ano, dirigiu a Charles Maurras sua carta      antropologia* cultural, e foi com essa tica que
de adeso  Action Franaise: "Senhor e admi-       recusou o antropologismo lacaniano, que julga-
rvel mestre, no sou um racionalista puro. Seja    va "marxista" e "hegeliano". Do mesmo modo
qual for a beleza, a utilidade que a razo tenha,   que o universalismo de Lacan era baseado,
parece-me que o corao, se ouso expressar-me       desde essa poca, na idia de uma universali-
assim,  mais divino ainda [...]. O papa est se    dade da razo e da cultura diante da natureza,
592       Pichon-Rivire, Enrique

assim tambm o universalismo pichoniano                        do, j tinha cinco filhos de um primeiro casa-
(maurrassiano) repousava sobre a pretensa su-                  mento com a irm de sua segunda mulher, que
perioridade universalizante da civilizao fran-               por sua vez tinha um nico filho, Enrique. Ela
cesa. Pichon admirava Lacan com lucidez e                      criou em Goya a escola profissional e o colgio
pensava que ele era o nico que podia assumir,                 nacional.
depois dele, a funo de idelogo de um freu-                      Com a idade de 19 anos, comeou a estudar
dismo a ser afrancesado.                                       medicina na Faculdade de Buenos Aires. Sem-
                                                               pre melanclico e bebendo para "tratar" de suas
 douard Pichon, "La Grammaire en tant que mode               depresses, interessou-se tanto pela medicina
d'exploration de l'inconscient", L'volution Psychiatri-
que, 1, 1925, 238-57; "Sur la signification psychologi-        quanto pela poltica e pela poesia. Em 1934,
que de la ngation en franais" (1928), Le Bloc-notes          comeou a escrever crticas de arte para a revista
de la Psychanalyse, 5, 1985, 111-33; "La Personne et           Nervio. Tendo descoberto a obra freudiana ao
la personnalit vues  la lumire de la pense idioma-         ler artigos de Carl Gustav Jung* e de Alfred
tique franaise", Revue Franaise de Psychanalyse,
10, 3, 1938, 447-59; "A l'aise dans la civilisation", ibid.,   Adler*, criou na revista uma seo de psican-
10, 1, 1938, 3-49; "La Famille devant M. Lacan" (1938),        lise*.
Cahiers Confrontation, 3, 1980, 179-209  douard                  No hospital de Torres, onde praticava a psi-
Pichon e Jacques Damourette, Des mots  la pense.             quiatria e estudava os problemas sexuais dos
Essai de grammaire de la langue franaise, D'Artrey, 7
vols., Paris, 1911-1940  Jacques Lacan, Os com-               doentes mentais, organizou uma equipe de fu-
plexos familiares (Paris, 1938), Rio de Janeiro, Jorge         tebol. Trabalhou depois no Instituto Charcot e
Zahar, 1987  lisabeth Roudinesco, Histria da psica-         como cronista literrio em um jornal. Durante
nlise na Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro,         todos os seus estudos, teve ao seu lado o amigo
Jorge Zahar, 1989; Jacques Lacan. Esboo de uma
vida, histria de um sistema de pensamento (Paris,             mais caro, Frederico Aberastury, psiquiatra co-
1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994.                   mo ele, cuja irm, Arminda, desposou em 1936.
                                                               No mesmo ano, engajou-se com entusiasmo no
 DENEGAO; FRANA; ISSO; JUDEIDADE; SIGNI-                    comit de apoio aos republicanos espanhis,
FICANTE; TRADUO (DAS OBRAS DE SIGMUND                        com o escritor Roberto Arlt (1900-1942).
FREUD).                                                            Em 1938, ficou conhecendo Arnaldo Ras-
                                                               covsky*. Entusiasmados com a psicanlise,
                                                               ambos sonhavam salv-la do perigo fascista,
Pichon-Rivire, Enrique (1907-1977)                            oferecendo-lhe uma nova terra prometida. Com
psiquiatra e psicanalista argentino                            essa finalidade, reuniram um crculo de eleitos,
   Verdadeiro pai fundador do freudismo* ar-                   que formou o ncleo fundador do freudismo
gentino, Enrique Pichon-Rivire exerceu com o                  argentino: Luiz Rascovsky, irmo de Arnaldo,
seu magistrio oral (conferncias, cursos, semi-               Matilde Wencelblat, sua mulher, Simon Wen-
nrios), muito mais do que por seus escritos                   celblat, irmo desta, Arminda Aberastury*,
(pstumos, na maioria), um extraordinrio po-                  Guillermo Ferrari Hardoy e Luisa Gambier Al-
der de fascnio sobre seus amigos, discpulos e                varez de Toledo. Com os imigrantes, Celes Cr-
contemporneos. Foi o maior analista argentino                 camo*, Angel Garma*, Marie Langer, e seus
e at mesmo -- ao lado de Marie Langer*, de                    amigos, Pichon-Rivire fundou em 1942 a Aso-
quem era muito diferente --, a figura mais                     ciacin Psicoanaltica Argentina (APA), da qual
eminente da escola psicanaltica latino-ameri-                 se afastaria em 1959. Analisado inicialmente
cana.                                                          por Garma e supervisionado por Crcamo, foi
   Nasceu em Genebra, de uma famlia de ori-                   depois para a Gr-Bretanha*, onde fez uma
gem francesa que se estabeleceu em 1911 no                     segunda superviso* com Melanie Klein*.
Chaco e depois em Goya, no norte do pas,                          Como todos os representantes da terceira
regio povoada por ndios guaranis. Ali passou                 gerao* psicanaltica mundial, Pichon-Rivire
uma infncia melanclica, dizendo depois que                   teve acesso  obra freudiana pela leitura e no
seu desejo de ser analista lhe adveio de uma                   por um contato direto com o mestre vienense.
vontade de ver com clareza entre duas culturas.                Por conseguinte, e tambm por amor  indepen-
Seu pai, proprietrio de uma plantao de algo-                dncia, recusando fechar-se num dogma, elabo-
                                                                           Popescu-Sibiu, Ioan             593

rou um ensino muito pouco ortodoxo, permea-         na: a via literria e cultural e a via teraputica
do por mltiplas influncias: uma espcie de        (psicologia, psiquiatria).
paradigma do freudismo argentino.                       Em 1955, entrou em contato com Jacques
    Simultaneamente socialista e adepto da psi-     Lacan*, que o recebeu em sua casa em compa-
quiatria dinmica*, desenvolveu todas as for-       nhia de Tristan Tzara (1896-1963). Interessado
mas de psicoterapias* das psicoses*, que ques-      em sua personalidade e nessa nova maneira de
tionavam a nosografia clssica, o niilismo tera-    pensar o freudismo, ele teria um papel fun-
putico e o confinamento. Assim, orientou-se        damental, dez anos depois, na introduo do
para diversas formas de prticas de grupo, desde    lacanismo* em seu pas, estimulando o jovem
a criao em 1947 do que ele chamava "grupo         filsofo Oscar Masotta* a ler os textos do mes-
operativo", que tinha como tarefa responder s      tre francs.
duas angstias fundamentais da vida social e            Por volta de 1965, desinteressou-se da an-
institucional (o medo e a perda), at a fundao,   lise didtica*, mas o seu seminrio, para o qual
em 1959, da Escola de Psicologia Social, onde       acorria a juventude, continuou a lhe garantir um
pde transmitir no s sua concepo da "doen-      lugar incontestvel de lder intelectual, apesar
                                                    do lcool e dos medicamentos: "Sua vida foi
a nica" (enfermedad nica), mas tambm um
                                                    uma verdadeira deriva, escreveu Masotta, e de
ensino original e aberto s aspiraes da juven-
                                                    qualquer forma ela nos atingiu a todos, de um
tude estudantil.
                                                    modo ou de outro. Ele tinha algo da imagem do
    Com a expresso "doena nica", criada em       Santo, a quem tudo  perdoado".
1947, ele atribua, como observou Hugo Vez-
zetti, um quadro psicossomtico*  psicose em        Enrique Pichon-Rivire, Del psicoanlisis a la psico-
geral, aproximando trs entidades: a melanco-       logia social, I e II, B. Aires, Galerna, 1970; Psicoanlisis
                                                    del conde de Lautramont, B. Aires, Argonauta, 1992
lia*, a epilepsia, a esquizofrenia*. Da primeira,    Zito Lema, Conversacines con Pichon-Rivire, B.
fazia o ncelo central de toda psicose, descre-     Aires, Timerman, 1976  Oscar Masotta, "Sur la fon-
vendo a perda do objeto como um equivalente         dation de l'cole Freudienne de Buenos Aires", Orni-
a uma morte induzida por um supereu* sado-          car?, 20-21, 1980, 227-35  Antonio Cucurullo, Hayde
                                                    Faimberg e Leonardo Wender, "La Psychanalyse en
masoquista; da segunda, derivava, segundo ele,      Argentine", in Roland Jaccard (org.), Histoire de la
o prottipo de uma crise capaz de restaurar         psychanalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982, 395-444 
provisoriamente o equilbrio pulsional; da ter-     Jorge Baln, Cuntame tu vida. Una biografca colec-
ceira, Pichon-Rivire tirava o modelo de todas      tiva del psicoanlisis argentino, B. Aires, Planeta, 1991
                                                     Ral Giordano, Notice historique du mouvement psy-
as formas de regresso para o eu*. Nessa pers-      chanalytique en Argentine, dissertao para o CES de
pectiva, a neurose* e a psicose se diferenciavam    psiquiatria, sob a orientao de Georges Lantri-Lau-
menos por sua estrutura do que pela profun-         ra, Universidade de Paris XII, s/d.  Hugo Vezzetti,
didade das posies regressivas que elas gera-      Aventuras de Freud en el pas de los Argentinos, B.
                                                    Aires, Paidos, 1996  lisabeth Roudinesco, entrevista
vam.                                                com Isidoro Vegh, 16 de fevereiro de 1990.
    Sob a denominao de doena nica es-
tavam pois reunidas vrias tradies clnicas,       FRANA.
que se reencontram no kleinismo*, na antipsi-
quiatria* e na Self Psychology*.
    Marcado pelo surrealismo, Pichon-Rivire        Piggle, Pequena (caso)
encontrou-se com Andr Breton (1896-1966) e          WINNICOTT, DONALD WOODS.
interessou-se pelos dois grandes escritores da
modernidade literria que exprimiram, atravs
de uma nova escrita potica, a idia de mudar o     Plataforma
homem a partir do "Eu  um outro": Arthur            ARGENTINA; CISO; LANGER, MARIE.
Rimbaud (1854-1891) e Lautramont (1846-
1870). Nesse ponto, seus trabalhos contribu-
ram para estabelecer uma ligao entre as duas      Popescu-Sibiu, Ioan (1901-1974)
vias de implantao da psicanlise na Argenti-      psiquiatra e psicanalista romeno
594      Popper, Gisela

   Ioan Popescu-Sibiu, mdico militar, foi,             se submetessem a um tratamento, a fim de
com Constantin Vlad*, um dos dois pioneiros             abstrair-se, no exerccio de suas funes, de
da psicanlise na Romnia*. Em 1927, defen-             qualquer sentimento de vingana.
deu sua tese de medicina sobre a doutrina freu-
diana na Universidade de Iasi. Reeditado at             Jlio Pires Porto-Carrero, Ensaios de psicanlise, Rio
                                                        de Janeiro, Flores e Mano, 1934  Marialzira Peres-
1946, esse trabalho serviu de fonte principal de        trello, "Histoire de la psychanalyse au Brsil des ori-
informao para aqueles que se iniciavam no             gines  1937", Frnsie, 10, primavera de 1992, 283-
freudismo*. Depois da Segunda Guerra Mun-               301.
dial, Popescu-Sibiu criticou o pansexualismo*
freudiano e orientou-se para o que se conven-
cionou chamar de neopsicanlise*, mas partici-          posio depressiva/posio
pou, com Vlad, da criao da Sociedade Rome-            esquizo-paranide
na de Psicopatologia e de Psicoterapia.                 a l. Depressive Einstellung/paranoide-schizoide
                                                        Einstellung; esp. posicin depresiva/posicin es-
 Gheorghe Bratescu, Freud si psihanaliza in Romania,   quizo-paranoid; fr. position dpressive/position pa-
Bucareste, Humanitas, 1994.
                                                        ranode-schizode; ing. depressive position/para-
                                                        noid-schizoid position.
                                                        A idia de posio depressiva foi introduzida por
Popper, Gisela
                                                        Melanie Klein*, em 1934, para designar uma moda-
 FLUSS, GISELA.                                         lidade da relao de objeto* consecutiva a uma
                                                        posio persecutria (ou paranide). Esta inter-
                                                        vm durante o quarto ms de vida e vai sendo
Porto-Carrero, Jlio Pires                              superada ao longo da infncia, sendo depois rea-
(1887-1936)                                             tivada, durante a vida adulta, no luto ou, de maneira
psiquiatra e psicanalista brasileiro                    mais grave, nos estados depressivos.
    Nascido em Olinda, Porto-Carrero foi um                 Em 1942, Melanie Klein introduziu, em lugar da
dos fundadores da psicanlise no Brasil*. Com           idia de posio persecutria, a de posio esqui-
Juliano Moreira*, estabeleceu em 1927, no Rio           zo-paranide, o que permitiu, do ponto de vista
de Janeiro, uma filial da Sociedade Brasileira          evolutivo, definir a passagem da posio esquizo-
de Psicanlise (SBP), criada por Durval                 paranide para a posio depressiva como a mar-
Marcondes* em So Paulo. Psiquiatra da mari-            ca fundamental, em todo sujeito*, da passagem de
                                                        um estado arcaico de psicose* para um funciona-
nha e criminologista, dedicou a sua primeira
                                                        mento normal.
obra, Ensaios de psicanlise, publicada em
1929, a um estudo das teses de Sigmund Freud*               Tal como Sigmund Freud* e Donald Woods
e de seus principais discpulos: Karl Abraham*,         Winnicott*, muitas vezes Melanie Klein erigiu
Wilhelm Stekel*, Carl Gustav Jung*, Alfred              seus conceitos sobre uma oposio binria. Foi
Adler* etc. Quando Freud recebeu o livro, de-           o que aconteceu, em especial, com as idias de
clarou: "Os seus belos Ensaios, que me foram            objeto bom e mau, de inveja e gratido e, final-
dedicados, chegaram exatamente no dia 5 de              mente, das posies (depressiva, de um lado, e
maio e foram para mim o mais feliz presente de          esquizo-paranide, de outro, uma introduzida
aniversrio. O doutor [Max] Eitingon*, de Ber-          em 1934, a outra oito anos depois).
lim, estava me visitando, e mostrei-lhe sua car-            Desde seus primeiros trabalhos, Melanie
ta. Ns nos alegramos com as boas notcias              Klein rejeitou a palavra inglesa phase (estdio*
sobre os jovens do grupo brasileiro e ficamos           [fase]), em favor de posio. Com efeito, a
impressionados com a grande quantidade de               palavra phase pressupe um comeo, um fim e
temas que o seu livro examina."                         uma suspenso definitiva do estado descrito, ou
    Como todos os fundadores do freudismo*              seja, uma durao exata. Ao contrrio, a palavra
brasileiro, Porto-Carrero no foi analisado,            posio mostra com clareza que o estado
considerando-se alis, publicamente, como um            (depressivo, paranide, esquizide) intervm
psicanalista selvagem. Trabalhou pela reforma           num dado momento da existncia do sujeito*,
da justia penal, indo at a propor que os juzes       num estdio preciso do desenvolvimento, mas
                                            posio depressiva/posio esquizo-paranide              595

pode repetir-se depois, estruturalmente, em cer-   de identificao projetiva*, para designar um
tas etapas da vida. Alm disso, o termo exprime    modo especfico de projeo* e identificao*
a idia de que a criana muda de atitude ou        que consiste em introduzir a prpria pessoa no
desloca sua posio quanto  relao de objeto.    objeto para prejudic-lo. Ao mesmo tempo, ela
    Foi depois de haver comeado a estudar as      transformou a noo de posio persecutria no
relaes arcaicas da criana com a me e de ter    conceito de posio esquizo-paranide. Esse
deslocado a clnica freudiana para uma inter-      termo fora empregado em 1941 por Ronald
rogao sobre a origem das psicoses que Mela-      Fairbairn*, grande especialista ingls no trata-
nie Klein introduziu o conceito de posio         mento da esquizofrenia*, para descrever a cli-
depressiva, ao mesmo tempo que o de objeto*        vagem* original do eu. Tratava-se, na ocasio,
(bom e mau), durante uma conferncia de 1934,      de ampliar a clnica psicanaltica, passando de
intitulada "Uma contribuio  psicognese dos     uma teoria do eu para uma psicologia do self.
estados manaco-depressivos". Ela mesma aca-       Em 1942, Melanie Klein tomou emprestado o
bava de atravessar um grave perodo de depres-     termo de Fairbairn para destacar a coexistncia,
so, consecutivo  morte acidental de seu filho    na posio esquizo-paranide, de uma cliva-
Hans. Inspirando-se nos trabalhos de Freud (so-    gem esquizofrnica e uma angstia persecut-
bre o luto e a melancolia*) e de Karl Abraham*     ria, mas sobretudo para mostrar a coerncia
(sobre os estados manacos e depressivos, sobre    interna da construo, para o sujeito, de suas
a depresso primria), ela introduziu progres-     relaes objetais. Klein esclareceria seu pensa-
sivamente no campo da psicanlise o domnio        mento num artigo de 1952, intitulado "Algumas
que a psiquiatria designara na categoria das       concluses tericas a propsito da vida emocio-
doenas mentais. No  de surpreender, portan-     nal dos bebs".
to, que encontremos no par kleiniano posio           Com a conceituao dessas duas noes
depressiva/posio esquizo-paranide os trs       concluiu-se o edifcio da teoria kleiniana das
adjetivos que remetem aos trs grandes compo-      posies, que permite pensar a organizao
nentes modernos da psicose* no sculo XX: a        subjetiva no mais em termos de estdios mais
esquizofrenia (Eugen Bleuler*), a parania         ou menos biolgicos, porm de acordo com um
(Emil Kraepelin*/Freud) e a psicose manaco-       sistema em que o mundo fantasstico do eu, do
depressiva*, herdeira da antiga melancolia*.       self, do objeto, da projeo, da identificao e
    A idia de posio depressiva ilustra o fato   da introjeo* organiza-se numa estrutura coe-
de que o desenvolvimento normal da criana         rente e distinta do mundo da realidade objetiva.
apresenta uma analogia com o quadro clnico        Sob esse aspecto, o pensamento kleiniano as-
da depresso. Ela serve para introjetar no eu*     semelha-se ao pensamento lacaniano, na medi-
um objeto interno suficientemente bom para         da em que ambos, diversamente do sistema
superar o estado persecutrio (paranico) pr-     freudiano, atribuem um espao preponderante
prio da perda da me como objeto parcial.           construo do imaginrio* e ao lugar da lou-
Quando no consegue ver a me como um              cura* no cerne da realidade subjetiva.
objeto total, e tampouco como uma clivagem
                                                    Melanie Klein, Contribuies  psicanlise (Londres,
entre o bom e o mau objetos, a criana corre o
                                                   1948), S. Paulo, Mestre Jou, 1970  Melanie Klein et
risco de evoluir para a psicose (parania ou       al., Os progressos da psicanlise (Londres, 1952), Rio
depresso). No caso inverso, ela supera esse       de Janeiro, Zahar, 1978  Karl Abraham, "Breve estudo
estado de destruio do eu pela posio depres-    do desenvolvimento da libido, visto  luz das pertur-
siva, que assinala, portanto, para qualquer su-    baes mentais" (1924), in Teoria psicanaltica da libi-
                                                   do. Sobre o carter e o desenvolvimento da libido, Rio
jeito preso numa situao pr-edipiana, um mo-     de Janeiro, Imago, 1970  Jean-Bertrand Pontalis, "Nos
mento capital entre o processo de fixao da       dbuts dans la vie selon Melanie Klein", in Aprs Freud,
neurose* e o da psicose.                           Paris, Gallimard, 1968, 191-214  Jean Laplanche e
    Em 1946, numa comunicao apresentada         Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise
                                                   (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed. 
British Psychoanalytical Society (BPS) sob o       Hanna Segal, Dveloppement d'une pense (Londres,
ttulo de "Notas sobre alguns mecanismos es-       1979), Paris, PUF, 1982  Grard Blendonu, L'cole
quizides", Melanie Klein inventou o conceito      de Melanie Klein, Paris, Le Centurion, 1985  R.D.
596      posterioridade

Hinshelwood, Dicionrio do pensamento kleiniano    precluso
(Londres, 1991), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992.
                                                    FORACLUSO.
 BION, WILFRED RUPRECHT; BORDERLINES; ES-
TDIO DO ESPELHO; KOHUT, HEINZ; NARCISISMO;
OBJETO TRANSICIONAL; SELF (FALSO E VERDADEI-       pr-consciente
RO); SULLIVAN, HARRY STACK.
                                                   al. Vorbewusst; esp. preconciente; fr. prconscient;
                                                   ing. preconscious
                                                   Sigmund Freud* utilizou o termo pr-consciente
posterioridade                                     como substantivo para designar uma das trs ins-
 A POSTERIORI.                                     tncias, com as do consciente* e do inconsciente*,
                                                   de sua primeira tpica*. Empregado como adjetivo,
                                                   o termo qualifica os contedos dessa instncia ou
                                                   sistema que, apesar de no estarem presentes na
Prados, Miguel (1894-1969)                         conscincia*, continuam acessveis a ela, diversa-
psiquiatra e psicanalista canadense                mente dos contedos do sistema inconsciente.
                                                       No contexto da segunda tpica freudiana, o
    Nascido em Mlaga, na Espanha*, Miguel
                                                   pr-consciente, distinto do eu* e sobretudo da par-
Prados foi aluno de Emil Kraepelin* antes de se
                                                   te inconsciente deste, inscreve-se, todavia, no do-
engajar, em 1937, no servio de transfuso de      mnio dessa instncia.
sangue do exrcito republicano. Depois da vi-
tria do franquismo, tomou o caminho do exlio         Assim como os termos consciente, incons-
e instalou-se em Londres, onde ficou at 1944,     ciente ou eu, pr-consciente  uma expresso
com sua mulher e suas duas filhas. Dali, partiu    que preexistiu a Freud. Podemos encontr-la
para Montreal e tornou-se professor na Univer-     nas principais obras dos filsofos e psiclogos
sidade McGill. Em 1946, fundou o Crculo           alemes do sculo XIX, principalmente no livro
Psicanaltico de Montreal, primeira instituio    de referncia de Eduard von Hartmann (1842-
freudiana do Canad*, que se enriqueceria, ao      1906), Filosofia do inconsciente, publicado em
longo dos anos, de vrios profissionais forma-     1868.
dos no estrangeiro. Seis anos depois, aps ser         O termo surgiu pela primeira vez na pena de
eleito membro da British Psychoanalytical So-      Freud na famosa carta a Wilhelm Fliess* de 6
ciety (BPS), Prados criou a Sociedade dos          de dezembro de 1896, ao mesmo tempo que a
Psicanalistas Canadenses, que deu continui-        expresso aparelho psquico. Desse momento
dade ao Crculo de Montreal. Em 1953, esta         em diante, a palavra foi alada  categoria de
tomou o nome francs de Socit Canadienne         conceito e recebeu uma definio pormenoriza-
de Psychanalyse e ingls de Canadian Psychoa-      da: o pr-consciente est ligado s representa-
nalytic Society (SCP/CPS). Foi reconhecida co-     es verbais e corresponde "a nosso eu oficial.
mo sociedade componente da International           Os investimentos desse Precs. [mais tarde,
Psychoanalytical Association* (IPA) no             Freud escreveria Pcs] tornam-se conscientes de
Congresso de Paris, em julho de 1957.              acordo com certas leis". No ltimo captulo de
    Depois de desempenhar um papel pioneiro        A interpretao dos sonhos*, o pr-consciente
na fundao do movimento psicanaltico cana-        objeto de definies mais precisas.  concebi-
dense, Miguel Prados voltou  Espanha em           do, a princpio, na reformulao do aparelho
1960. Mas retornou a Montreal para tratar de       psquico, "como o ltimo dos sistemas na ex-
um cncer, do qual morreu com a idade de 74        tremidade motora, para indicar que, desse pon-
anos.                                              to, os fenmenos de excitao podem chegar 
                                                   conscincia sem maior demora, desde que se-
 Arquivos Jean Baptiste Boulanger.                jam atendidas outras condies, como, por
                                                   exemplo, um certo grau de intensidade, uma
 CHENTRIER, THODORE; CLARKE, CHARLES              certa distribuio da funo a que chamamos
KIRK; GLASSCO, GERALD STINSON; MEYERS, DO-         ateno. Ao mesmo tempo, trata-se do sistema
NALD CAMPBELL; SLIGHT, DAVID.                      que contm as chaves da motricidade volunt-
                                                                            Preiswerk, Hlne           597

ria". Por oposio, o inconsciente  situado        ro de seguir seu curso, reaparecendo de manei-
muito "mais atrs: no pode ter acesso             ra deturpada em nossos sonhos: "Chamamos
conscincia a no ser passando pelo pr-            esse processo de pr-consciente", escreve
consciente, e, durante essa travessia, o processo   Freud, "e o consideramos inteiramente nor-
de excitao tem que se curvar a certas modifi-     mal."
caes". No final desse mesmo captulo, quan-          At o fim de sua obra, e em especial no
do Freud estabelece a distino entre sua noo     Esboo de psicanlise*, Freud manteria essa
de inconsciente e a de seus predecessores, o        concepo do pr-consciente, sempre subli-
pr-consciente  considerado inconsciente no        nhando que uma das caractersticas deste rela-
sentido descritivo, mas distingue-se do incons-     ciona-se com sua proximidade das "repre-
ciente no sentido dinmico, freudiano, pelo fato    sentaes de palavra" e, portanto, da lingua-
de que seus contedos podem chegar  consci-        gem.
ncia, "talvez somente depois do controle de
                                                     Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
uma nova censura, mas sem considerao pelo
                                                    (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
sistema inconsciente".                              Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; A interpre-
    Essa distino foi retomada quase 25 anos       tao dos sonhos (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III,
depois, em O eu e o isso*, onde o pr-consciente    1-642; SE, IV-V, 1-621; Paris, PUF, 1967; "O inconsci-
                                                    ente" (1915), ESB, XIV, 191-233; GW, X, 263-303; SE,
 qualificado de inconsciente latente, passvel
                                                    XIV, 159-204; OC, XIII, 205-243; O eu e o isso (1923),
de se tornar consciente e distinto do inconsci-     ESB, XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX, 12-59; OC,
ente recalcado, "que em si, e numa palavra,        XVI, 255-301; Esboo de psicanlise (1938), ESB,
incapaz de se tornar consciente".                   XXIII, 168-246; GW, XVII, 67-138; SE, XXIII, 139-207;
                                                    Paris, PUF, 1967  Pierre Kaufmann, "Pr-consciente",
    Situado entre o inconsciente e o consciente,
                                                    in id. (org.), Dicionrio enciclopdico de psicanlise: o
o pr-consciente separa-se do inconsciente por      legado de Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro,
uma censura* severa. Esta impede o acesso dos       Jorge Zahar, 1996, 424-26  Jean Laplanche e Jean-
contedos inconscientes ao pr-consciente, na       Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris,
medida em que, na extremidade oposta, a cen-        1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.
sura entre o pr-consciente e o consciente 
permevel. A propsito disso, Freud fala ainda
do sistema "pr-consciente/consciente" (Pcs-        Preiswerk, Hlne (1880-1911)
Cs). Em outras palavras, do ponto de vista da           Em sua tese de medicina publicada em 1902,
economia da organizao psquica, caracteriza-      Carl Gustav Jung* relatou a experincia que
da pela busca da menor tenso e pela adaptao      levara a cabo com uma jovem esprita apelidada
ao princpio de realidade*, o pr-consciente no    de S.W., cujo av materno, um pastor protes-
 muito confivel, porquanto  suscetvel de        tante, tinha alucinaes visuais, cujo irmo exi-
deixar que as moes de desejo inconscientes        bia um retardo mental e cuja irm sofria de um
passem para o consciente com demasiada faci-        certo nmero de anomalias mentais. Em sua
lidade.                                             exposio, Jung no poupou o lado paterno,
    Assim, o pr-consciente age como um pro-        sublinhando que a av da paciente era histrica
tetor do consciente: faz triagens e seleciona,      e sujeita a crises de sonambulismo, durante as
com a finalidade de afastar as moes desagra-      quais "fazia profecias". Os pais eram vtimas de
dveis que possam importunar o consciente.          distrbios mentais, dois irmos eram excntri-
Nesse sentido, est ligado ao processo secun-       cos e duas irms apresentavam sintomas his-
drio, mas essa distino, que implica uma          tricos.
correlao entre o inconsciente e o processo            Durante as sesses de espiritismo*, S.W.
primrio,  freqentemente questionada por          revivia vidas anteriores. Tendo lido por acaso
Freud, precisamente quando essa atividade or-       um livro de Justinius Kerner (1786-1862), A
ganizadora se exerce a propsito dos restos         vidente de Prevorst, que relata um caso de
diurnos: nossa ateno, que resulta da atividade    transe magntico, ela comeou a se hipnotizar
pr-consciente, pode muito bem abandonar cer-       e, mais tarde, a falar diversas lnguas. Decorrido
tos pensamentos, mas nem por isso estes deixa-      algum tempo, apaixonou-se por Jung, que pa-
598     Presidente Thomas Woodrow Wilson, O

rou de participar das sesses quando a apanhou      rente das narrativas dos casos feitas pelos
em flagrante delito de fraude. Em sua tese, Jung    cientistas.
referiu-se  esprita de maneira desdenhosa e a
                                                     Carl Gustav Jung, "Para uma psicologia e patologia
reduziu a um puro objeto de observao. Essa
                                                    dos chamados fenmenos ocultos. Um estudo psica-
tese, calorosamente acolhida por Thodore           naltico" (Leipzig, 1902), in A energia psquica (Paris,
Flournoy*, que acabara de ter uma experincia       1956), Petrpolis, Vozes, 1983  Henri F. Ellenberger,
idntica, provocou, no entanto, uma enxurrada       "Carl Gustav Jung et Hlne Preiswerk. tude critique
                                                    avec documents nouveaux" (1993), in Mdecine de
de protestos indignados, em razo da maneira
                                                    l'me. Essais d'histoire de la folie et des gurisons
como foi apresentada a histria de S.W.             psychiques, Paris, Fayard, 1995.
    Em 1975, Stfanie Zumstein-Preiswerk re-
velou a identidade de sua tia, S.W.: tratava-se      ANZIEU, MARGUERITE; HISTERIA; PANKEJEFF,
de Hlne Preiswerk (1880-1911), prima de           SERGUEI CONSTANTINOVITCH; PAPPENHEIM, BER-
Jung. A tese de Jung fora, na realidade, uma        THA; PERSONALIDADE MLTIPLA; RORSCHACH,
autobiografia disfarada, que continha uma ge-      HERMANN; SPIELREIN, SABINA.
nealogia familiar. Samuel Preiswerk (1799-
1871), o av materno de Jung, pastor, telogo,
hebrasta e adepto do espiritismo, passara a vida   Presidente Thomas Woodrow
inteira perto de uma cadeira especial, instalada    Wilson, O
em seu gabinete e reservada ao esprito de sua      Livro de William Christian Bullitt (1891-1967), escri-
primeira mulher, que o "visitava" toda semana.      to em colaborao com Sigmund Freud* e prefa-
Quando ele redigia seus sermes, sua filha mi-     ciado por Sigmund Freud em 1930. Publicado em
                                                    ingls, em Londres e Boston, em 1967, sob o ttulo
lie Preiswerk (1848-1923), a futura me de Carl
                                                    Thomas Woodrow Wilson. A Psychological Study.
Gustav, tinha que se postar de p atrs de sua
                                                    Traduzido para o francs por M. Tadi, em 1967,
cadeira, para impedir que os espritos lessem       sob o ttulo Portrait psychologique de Thomas
por cima de seus ombros. Ela era feia e, depois     Woodrow Wilson. Republicado com a mesma tra-
do casamento, tornou-se uma mulher autoritria      duo, em 1990, sob o ttulo Le Prsident T.W.
e depressiva, que passava o tempo em exerc-        Wilson.
cios de espiritismo. Seu irmo, Rudolf Preis-          Em 1919, William Bullitt, oriundo de uma
werk, teve duas filhas, Hlne e Louise, e foi      famlia abastada de Filadlfia e transformado
com elas e com a me que o jovem Jung adqui-        em assessor do presidente Wilson (1856-1924),
riu o hbito, na adolescncia, de se entregar ao    foi enviado  Rssia numa misso. Entusias-
espiritismo, sem o conhecimento de seu pai, o       mou-se com a revoluo de outubro e negociou
reverendo Paul Jung (1842-1896), que desco-         com Lenin (1870-1924) com vistas ao res-
nhecia as atividades das mulheres da famlia. O     tabelecimento de relaes diplomticas entre os
pai de Paul chamava-se Carl Gustav Jung             dois pases. Wilson rejeitou suas propostas e ele
(1799-1864), dito o Velho. Ilustre personagem       se demitiu. Depois de se casar com Louise
da vida de Basilia, fora preso na juventude por    Bryant, viva de John Reed (autor de Os dez
suas idias polticas e, mais tarde, depois de um   dias que abalaram o mundo), Bullitt atravessou
perodo de exlio, dedicara-se ao tratamento das    um perodo de dez anos de afastamento do
doenas da alma.                                    poder. Fez jornalismo, escreveu um romance de
    Stphanie Zumstein-Preiswerk revelou tam-       sucesso e freqentou o meio cinematogrfico.
bm qual tinha sido o trgico destino de Hlne.       Foi atravs de sua mulher, ento em anlise
Depois de mergulhar num estado de completa          com Sigmund Freud, que se encontrou com este
desintegrao psquica, ela morrera de tubercu-     pela primeira vez, em Berlim, em maio de 1930.
lose em Paris. Nunca havia perdoado o primo         Freud estava passando uma temporada na clni-
por t-la assim usado como cobaia em suas           ca de Tegel (na casa de Ernst Simmel*), e Bullitt
experincias. Em 1993, Henri F. Ellenberger*        o achou deprimido, atormentado por seus sofri-
redigiu um artigo sobre esse episdio, seu lti-    mentos e no mais pensando em outra coisa
mo texto antes de morrer, onde mostrou, mais        seno a morte. Para distra-lo, falou-lhe do livro
uma vez, como o destino dos pacientes  dife-       que estava preparando sobre os quatro protago-
                                                    Presidente Thomas Woodrow Wilson, O           599

nistas do Tratado de Versalhes: Thomas Woo-          Zweig*, Freud declarou estar trabalhando nu-
drow Wilson, Georges Clemenceau (1841-               ma "introduo a um livro de outra pessoa".
1929), David Lloyd George (1863-1945) e Vit-             Em janeiro de 1932, Bullitt enviou a Freud
torio Emanuele Orlando (1860-1952). Foi en-          a soma de 2.500 dlares, a ttulo de adiantamen-
to que o rosto do velho mestre se iluminou.         to pela edio norte-americana, mas eclodiu
Desde seu livro Leonardo da Vinci e uma lem-         uma briga entre os dois. Freud manifestou uma
brana de sua infncia, em relao ao qual           intensa insatisfao e, de repente, modificou o
tinha enfrentado uma cruel escassez de arqui-        texto comum, acrescentando trechos que Bullitt
vos, ele sonhava dedicar um ensaio ao destino        no aprovava. Nem um nem outro jamais reve-
de um personagem sobre o qual dispusesse de          lariam o motivo dessa briga, nem tampouco o
toda a documentao necessria. Assim, props        contedo das partes acrescentadas. Em 28 de
a Bullitt escrever com ele um livro sobre Wilson     maio, Marie Bonaparte* anotou em seu dirio
e o tomou em anlise.                                que o livro com Bullitt estava terminado, mas
    Por que se interessou Freud pelo vigsimo        aguardava as eleies norte-americanas. Com
oitavo presidente dos Estados Unidos*, um            efeito, o diplomata retornara aos Estados Uni-
presbiteriano tacanho, de extrema feira e de        dos para participar da campanha dos democra-
temperamento doentio? A resposta  simples:          tas a favor de Roosevelt. A disputa no parece
Freud no gostava desse homem, a quem julga-         haver afetado Freud em demasia, porque, em 16
va responsvel pelos infortnios da Mitteleuro-      de fevereiro de 1933, ele escreveu a Jeanne
pa. Censurava-o por haver ratificado um tratado      Lampl de Groot*: "Bullitt  o nico norte-ame-
inquo, mediante o qual os vencedores haviam         ricano que entende alguma coisa da Europa e
ditado sua lei aos vencidos. Com efeito, por sua     quer fazer algo por ela. Por isso  que no
submisso aos signatrios francs e ingls, Wil-     consigo esperar que lhe confiem um cargo em
son foi o artfice de um tratado que, humilhando     que ele possa ser eficaz e agir  sua maneira."
a Alemanha* e desarticulando os imprios cen-            Em agosto de 1933, Bullitt foi nomeado por
trais, favoreceria a ascenso do nazismo* e          Roosevelt embaixador dos Estados Unidos na
conduziria  Segunda Guerra Mundial. Por ou-         Unio Sovitica. Em dezembro, Freud declarou
tro lado, Freud lera um livro, publicado em          a Marie Bonaparte: "De Bullitt, nenhuma not-
1920, onde se estudava o estilo dos discursos de     cia; nosso livro no ver a luz."
Wilson.                                                  Segundo Bullitt, os dois decidiram, aps
    Em outubro de 1930, Bullitt levou-lhe cerca      uma viva discusso, esquecer o texto por trs
de 1.500 pginas datilografadas de notas sobre       semanas. Quando se reencontraram, no mo-
a vida e a atividade poltica de Wilson. Freud       mento da partida do diplomata para Moscou,
tomou conhecimento delas e se tornou, ao mes-        chegaram a um acordo no sentido de deixar que
mo tempo, amigo e analista do diplomata. Jun-        o livro comum amadurecesse, a fim de voltarem
tos, os dois discutiram ponto a ponto cada mo-       a ele posteriormente. Cada um dos dois homens
mento importante da vida do presidente. Freud        aps sua assinatura a cada captulo do manus-
redigiu ento um primeiro rascunho de algumas        crito. Em 20 de maio de 1935, Bullitt reapare-
partes do futuro manuscrito, enquanto Bullitt se     ceu em Viena como um meteoro e Freud no
encarregava de outras. Uma vez concludo esse        falou mais do livro.
trabalho, cada um leu a parte do outro, at que          Em 23 de maio de 1936, Marie Bonaparte
os dois pedaos compusessem uma obra co-             passou o dia em Viena com Bullitt e anotou em
mum. Para dar destaque ao livro, Freud concor-       seu dirio: "Ele est vivo! Quer ajudar a Verlag,
dou em que ele fosse lanado nos Estados Uni-        mas no pra de se queixar de que a anlise lhe
dos, sob a responsabilidade de Bullitt. No intui-    tira a alegria de viver." Desencantado com sua
to de no sobrecarregar o texto, os dois autores     estada na URSS, estava  espera de outra no-
resolveram conservar apenas as notas redigidas       meao. Em agosto, foi nomeado embaixador
pelo diplomata a respeito da infncia e adoles-      em Paris e, desse dia em diante, no parou de
cncia de Wilson. Como quer que fosse, em 7          denunciar o perigo nazista. Quando da anexa-
de dezembro de 1930, numa carta a Arnold             o da ustria, assegurou-se do respaldo pes-
600     Presidente Thomas Woodrow Wilson, O

soal de Roosevelt para ir  embaixada da                Assim, portanto, todos os vestgios da cola-
Alemanha em Paris e ameaar os nazistas de          borao entre Freud e Bullitt foram reduzidos a
escndalo, caso eles tocassem na famlia Freud.     cinzas. Schur sugeriu que Bullitt remetesse uma
Quando o mestre vienense chegou a Paris, em         cpia do manuscrito a Anna Freud*, para que
junho de 1938, Bullitt foi receb-lo, juntamente    ele fosse publicado no mbito oficialssimo da
com Marie Bonaparte, e o acompanhou at a           Sigmund Freud Copyrights. Bullitt despachou
estao Saint-Lazare, ponto de partida para seu     o texto sem pedir nenhuma ajuda a Anna, que,
exlio na Gr-Bretanha.                             depois de l-lo atentamente, declarou que so-
    Foi em Londres que os dois homens enfim         mente o prefcio era de autoria de seu pai. O
resolveram sua querela. Segundo a verso de         veredito foi inapelvel. Desse dia em diante,
Bullitt, Freud concordou em suprimir as pas-        Wilson foi banido da comunidade psicanaltica
sagens acrescentadas e o diplomata integrou as      internacional, a ponto de ser considerado ap-
novas modificaes freudianas -- ningum            crifo. Bullitt encarregou-se sozinho, um ano
sabe dizer quais. Tomou-se ento a deciso          antes de morrer, da publicao norte-america-
comum de publicar o livro depois da morte da        na: ela contm uma introduo de Freud, na
segunda mulher de Wilson. Em 17 de novem-           qual este sublinha claramente haver colaborado
bro, Marie Bonaparte indicou em seu dirio que      para o livro, uma outra de Bullitt, notas deste
"os manuscritos de Freud foram remetidos a          sobre a infncia de Wilson e uma elaborao
Bullitt na Amrica".                                comum sobre o destino poltico do personagem.
    A espantosa aventura desse manuscrito           Erik Erikson*, em 1967, e Ilse Grubrich-Simi-
inverossmil no pra por a. Quando da invaso     tis, em 1987 (no prefcio  edio alem), de-
da Frana*, Bullitt permaneceu em Paris e no       ram uma opinio prxima da de Anna Freud.
acompanhou o governo de Paul Reynaud                Por conseguinte, o livro no figura nas edies
(1878-1966) no exlio. Achava, com justa razo,     completas da obra de Freud (inglesa, francesa e
que uma interveno norte-americana no es-         alem).
tava na ordem do dia, mas subestimava o poder           Portanto, as diferentes verses sobre o epi-
de resistncia da Inglaterra, no acreditava no     sdio se contradizem. Enquanto Marie Bona-
da Frana e se enganava quanto s pos-              parte anotou que os manuscritos de Freud ti-
sibilidades de uma aliana com a URSS, atitude      nham sido enviados a Bullitt na Amrica, este
esta que lhe seria censurada pelo general de        declarou a Schur que seu criado os havia quei-
Gaulle. Em 30 de junho de 1940, ele deixou          mado em Paris. Quanto a Freud, ele nunca disse
Paris, para onde voltaria em setembro de 1944,      qual parte do livro tinha redigido, mas sempre
com o grau de comandante do primeiro exrcito       apoiou o projeto, afirmando haver contribudo
francs.                                            para ele. Sem dvida, Anna Freud, Schur e
    Em 1956, Bullitt fez com que o manuscrito       Erikson foram imprudentes ao decidir como
fosse lido por Ernest Jones*, que sublinhou         decidiram a questo da atribuio dos textos.
considerar um privilgio ser seu primeiro leitor:       O livro em si  notvel. Alm do vocabulrio
"Embora se trate de um trabalho em comum",          psicanaltico e conceitual simplista, que se deve
disse, "no  difcil estabelecer uma distino      pena de Bullitt, ele prope uma anlise es-
entre a contribuio analtica de um dos autores    pantosa da loucura de um estadista aparente-
e a contribuio poltica do outro." O bigrafo     mente normal no exerccio de suas funes.
de Freud nada mais disse. Em 1964, Bullitt              Identificado desde a mais tenra idade com a
dirigiu-se a Max Schur*, que estava redigindo       figura de seu "pai incomparvel", um pastor
Freud: vida e agonia. Este se mostrou interes-      presbiteriano e grande pregador de sermes,
sado e lhe perguntou onde estavam as notas e        Wilson a princpio tomou-se pelo filho de Deus,
documentos preparatrios redigidos por Freud.       antes de se converter a uma religio de sua
O embaixador respondeu que, em junho de             prpria lavra, na qual se atribua o lugar de
1940, por descuido, seu criado de quarto os         Deus. Optou por abraar a carreira poltica a fim
havia queimado juntamente com arquivos da           de realizar seus sonhos messinicos. Quando se
embaixada norte-americana.                          tornou presidente, nunca havia transposto as
                                                                                 Prince, Morton        601

fronteiras da Amrica, que considerava, tal co-      quiavel (1469-1527): o contrrio de um grande
mo a Inglaterra de Gladstone, o mais belo pas       homem.
do mundo. No conhecia a geografia da Europa
                                                      Sigmund Freud e William Bullitt, Le Prsident Tho-
e ignorava que nela se falavam diversas lnguas.
                                                     mas Woodrow Wilson (Londres, Boston, 1967), Paris,
Foi assim que, durante as negociaes do Tra-        Payot, 1990  Sigmund Freud, "Introduo" a Sigmund
tado de Versalhes, esqueceu-se da existncia do      Freud e William C. Bullitt, Thomas Woodrow Wilson,
passo de Brenner e entregou  Itlia* os aus-        GW, Nachtragsband, 685-92, OC, XVIII, 362-372;
                                                     Chronique la plus brve. Carnets intimes, 1929-1939,
tracos do Tirol, sem saber que eles falavam
                                                     anotado e apresentado por Michael Molnar (Londres,
alemo. Do mesmo modo, acreditou na palavra          1992), Paris, Albin Michel, 1992  William Bayard Hale,
de um parente que lhe afirmou que a comuni-          The Story of a Style, N. York, B.W. Huebsch, 1920 
dade judaica contava cem milhes de in-              Marie Bonaparte, Cahiers noirs (dirio), 1925-1939,
divduos, distribudos pelos quatro cantos do        indito (arquivos lisabeth Roudinesco)  Ernest
                                                     Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N.
mundo. Odiando a Alemanha, Wilson achava             York, 1953, 1955, 1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989
que seus habitantes viviam como animais sel-          Erik Erikson, "Book Review", International Journal of
vagens.                                              Psychoanalysis, vol.48, 1967, 462-68  Max Schur,
    Para levar adiante sua poltica internacional,   Freud: vida e agonia, uma biografia, 3 vols. (N. York,
                                                     1972) Rio de Janeiro, Imago, 1981.
ele inventou silogismos delirantes. Uma vez
que Deus  bom e a doena  ruim, ele deduziu         LOUCURA; PSICANLISE APLICADA.
que, se Deus existe, a doena no existe. Esse
raciocnio lhe permitiu negar a realidade em
prol de uma crena na onipotncia de seus            Prince, Morton (1854-1929)
discursos. Essa denegao* da realidade o le-        psiquiatra e psicoterapeuta americano
vou, segundo os autores, ao desastre diplom-            Contemporneo de Sigmund Freud* e de
tico. Assim  que ele criou a Sociedade das          Thodore Flournoy*, Morton Prince ocupa, na
Naes antes de discutir as condies de paz,        histria da psicanlise* nos Estados Unidos*, o
mediante o que os vencedores, garantidos pela        lugar correspondente ao de Pierre Janet* na
segurana norte-americana, puderam des-              Frana*. Adversrio declarado do freudismo*,
pedaar a Europa e condenar a Alemanha com           mas brilhante adepto da hipnose*, foi um dos
toda a impunidade.                                   pioneiros da Escola Bostoniana de Psicotera-
    Wilson imaginou, ento, deter em quatorze        pia*, onde, em torno de William James (1877-
pontos a chave da fraternidade universal. Mas,       1910), James Jackson Putnam*, Josiah Royce*
em vez de entrar em negociaes com seus             e alguns outros, elaborou-se, entre 1895 e 1909,
parceiros, discutindo as questes econmicas e       o mtodo de tratamento das doenas nervosas
financeiras, fez-lhes um sermo da montanha.         mais racional e mais cientfico do mundo an-
Depois disso, deixou a Europa, convencido de         glo-saxnico. Foi em Boston, e em parte graas
os haver persuadido e de haver instaurado na          converso freudiana de Putnam, que a doutri-
Terra a paz eterna.                                  na psicanaltica pde desenvolver-se no conti-
    Qualquer que tenha sido o piv da briga          nente americano.
entre Freud e Bullitt, esse livro, desprezado            Nascido em Boston, em uma famlia abas-
pelos historiadores e suspeito de ser apcrifo       tada da Nova Inglaterra, Prince obteve o seu
pela comunidade freudiana, traduz muito bem,         diploma de mdico na Universidade Harvard,
no entanto, uma concepo freudiana da his-          em 1879. Um ano depois, foi  Frana com sua
tria. Com efeito, ele descreve o encontro entre     me, para consultar Jean Martin Charcot*, pois
um destino individual, no qual intervm a de-        esta sofria de distrbios psquicos. Em meados
terminao inconsciente, e uma situao his-         dos anos 1880, interessou-se pela questo das
trica precisa sobre a qual atua essa determina-     personalidades mltiplas*, iniciou-se na suges-
o. Mas o livro tambm faz pensar num deva-         to, encontrou Hippolyte Bernheim*, e des-
neio aristotlico sobre o heri decado. Wilson      cobriu os trabalhos de Janet e os Estudos sobre
 comparado por Freud a Dom Quixote, ou seja,        a histeria*, publicados por Freud e Josef
ao avesso ridculo do Prncipe de Nicolas Ma-        Breuer*, em 1895. A partir de 1902, entrou para
602     princpio de constncia

a Tufts University com o ttulo de professor            Em 1913, publicou uma volumosa obra so-
de doenas do sistema nervoso. Em uma srie         bre o inconsciente, que teve imenso sucesso
de artigos, elaborou ento uma teoria beha-         editorial e lhe permitiu ser considerado o maior
viorista das neuroses*, mostrando que seus sin-     especialista americano em psiquiatria dinmi-
tomas eram provocados por associaes aciden-       ca*. Em 1926, foi nomeado professor associado
tais, que se cristalizavam depois em modelos        do New Department of Abnormal and Dynamic
rgidos.                                            Psychology na universidade. Apesar de sua hos-
    Em 1901, participou em Paris do IV              tilidade pela psicanlise, conservou boas re-
Congresso Internacional de Psicologia, no qual      laes com Putnam, graas a quem moderou
se encontravam Janet, Flournoy, Thodule Ri-        suas crticas, a ponto de admitir, depois da
bot (1839-1916) e muitos outros. Prince apre-       Primeira Guerra Mundial, que a psiquiatria di-
sentou o caso de Sally Beauchamp, uma jovem         nmica devia a Freud duas noes maiores: o
                                                    conflito e o recalque*.
de 23 anos, capaz de assumir at cinco persona-
lidades distintas, e que fora tratada pelo hipno-    Morton Prince, "Gense et dveloppement des `per-
tismo. Um ano depois, ele contou a sua histria     sonnalits' des demoiselles Beauchamp" (1901), in
em um livro dedicado ao fenmeno da dis-            Jacques Postel, La Psychiatrie, Paris, Larousse, 1994,
                                                    385-97; La Dissociation de la personnalit (N. York,
sociao, que teve grande sucesso. Transposto
                                                    Londres, 1908), Paris, Alcan, 1911  A. Murray, "Morton
para o teatro, o relato do caso foi encenado na     Prince. Sketch of his life and work", Journal of Abnormal
Broadway, em salas repletas. Em 1906, tornan-       Psychology, 52, 1956, 291-5  Carl Gustav Jung, Tipos
do-se clebre, Prince fundou o Journal of Ab-       psicolgicos (N. York, 1925), Petrpolis, Vozes, 1991 
                                                    Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'in-
normal Psychology, primeiro peridico de ln-       conscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974),
gua inglesa exclusivamente dedicado  psicote-      Paris, Fayard, 1994  L'Introduction de la psychanalyse
rapia, no qual foram publicadas vrias contro-      aux tats-Unis. Autour de James Jackson Putnam
vrsias a respeito da nova doutrina freudiana.      (Londres, 1968), Nathan G. Hale (org.), Paris, Galli-
                                                    mard, 1978, 17-86  Nathan G. Hale, Freud and the
    Ao contrrio de seu amigo Putnam, Prince        Americans. The Beginnings of Psychoanalysis in the
rejeitou a psicanlise e props um educational      United States, 1876-1917, t.I, (1971), N. York, Oxford
treatment: "O tratamento pode, sempre pde e        University Press, 1995.
poder fazer-se sem a psicanlise; alis, esta se
                                                     BRILL, ABRAHAM ARDEN; CINCO LIES DE
serve do mtodo educativo e no apenas do
                                                    PSICANLISE; MEYER, ADOLF; PANSEXUALISMO.
`princpio da luz do dia'. Desafio qualquer pes-
soa a utilizar a psicanlise sem utilizar ao mes-
mo tempo o mtodo educativo, tal como o
utilizamos." Como muitos eruditos da poca,         princpio de constncia
Prince recusava a teoria freudiana da sexuali-       FECHNER,       GUSTAV; MAIS-ALM DO PRINCPIO
                                                    DE PRAZER.
dade*, no aceitava o simbolismo* do sonho*
e se apegava a uma concepo subconsciente do
inconsciente*. Alm disso, criticava duramente
o fanatismo dos freudianos e sua tendncia a        princpio de Nirvana
construir uma espcie de "cincia crist" de tipo   al. Nirwanaprinzip; esp. principio de Nirvana; fr.
espiritualista. Atacava particularmente Ernest      principe de Nirvana; ing. Nirvana principle
Jones*, que declarava que s o mtodo psica-        Termo derivado do budismo e da filosofia de Arthur
naltico podia dar resultados em matria de         Schopenhauer (1788-1860), proposto pela psicana-
tratamento das doenas nervosas. Assim, enga-       lista inglesa Barbara Low (1877-1955) e posterior-
                                                    mente retomado por Sigmund Freud*, em Mais-
jou-se com Putnam em uma interessante contro-
                                                    alm do princpio de prazer*, para designar uma
vrsia, apresentando em maio de 1912, na Ame-
                                                    tendncia do aparelho psquico a aniquilar qual-
rican Psychopathological Association, um es-        quer excitao e qualquer desejo*.
tudo comparativo sobre o mesmo paciente. De-
pois, sob o pseudnimo de Fiona McLeod, pu-          Barbara Low, Psycho-Analysis. A Brief Account of the
blicou uma crtica radical do freudismo.            Freudian Theory, Londres, Allen & Unwin, 1920.
                                                                                         psicanlise      603

princpio de prazer/princpio de                           psicanlise
realidade                                                  al. Psychoanalyse; esp. psicoanlisis; fr. psychana-
al. Lustprinzip/Realitts-prinzip; esp. principio de       lyse; ing. psychoanalysis
placer/principio de realidad; fr. principe de plai-        Termo criado por Sigmund Freud*, em 1896, para
sir/principe de ralit; ing. pleasure principle/princi-   nomear um mtodo particular de psicoterapia* (ou
ple of reality                                             tratamento pela fala) proveniente do processo ca-
Par de expresses introduzido por Sigmund                  trtico (catarse*) de Josef Breuer* e pautado na
Freud* em 1911, a fim de designar os dois princ-          explorao do inconsciente*, com a ajuda da as-
pios que regem o funcionamento psquico. O pri-            sociao livre*, por parte do paciente, e da inter-
meiro tem por objetivo proporcionar prazer e evitar        pretao*, por parte do psicanalista.
o desprazer, sem entraves nem limites (como o                  Por extenso, d-se o nome de psicanlise:
lactente no seio da me, por exemplo), e o segundo             1. ao tratamento conduzido de acordo com esse
modifica o primeiro, impondo-lhe as restries             mtodo;
necessrias  adaptao  realidade externa.                   2.  disciplina fundada por Freud (e somente a
                                                           ela), na medida em que abrange um mtodo tera-
 Sigmund Freud, "Formulaes sobre os dois princ-        putico, uma organizao clnica, uma tcnica psi-
pios do funcionamento mental" (1911), ESB, XII, 277-       canaltica*, um sistema de pensamento e uma mo-
90; GW, VIII, 230-8; SE, XII, 213-26; in Rsultats,        dalidade de transmisso do saber (anlise didti-
ides, problmes, Paris, PUF, 1984, vol.I, 135-43         ca*, superviso*) que se apia na transferncia* e
Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio
                                                           permite formar praticantes do inconsciente;
da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,
1991, 2 ed.                                                  3. ao movimento psicanaltico, isto , a uma
                                                           escola de pensamento que engloba todas as cor-
 CASTRAO; FECHNER, GUSTAV; GOZO; MAIS-                   rentes do freudismo*.
ALM DO PRINCPIO DE PRAZER; PULSO; REALI-                    Como sublinha Henri F. Ellenberger*, a psi-
DADE PSQUICA.
                                                           canlise  herdeira dos antigos tratamentos
                                                           magnticos inaugurados por Franz Anton Mes-
                                                           mer*, que deram origem, no fim do sculo XIX,
projeo                                                   atravs dos debates sobre a hipnose* e a suges-
al. Projektion; esp. proyeccin; fr. projection; ing.
                                                           to*,  segunda psiquiatria dinmica*. Todavia,
projection                                                 dentre todas as escolas de psicoterapia deriva-
                                                           das de Hippolyte Bernheim* e da Escola de
Termo utilizado por Sigmund Freud* a partir de
                                                           Nancy, ela foi o nico mtodo a reivindicar o
1895, essencialmente para definir o mecanismo da
                                                           inconsciente e a sexualidade* como os dois
parania*, porm mais tarde retomado por todas
                                                           grandes universais da subjetividade humana.
as escolas psicanalticas para designar um modo
de defesa* primrio, comum  psicose*,  neurose*
                                                           No plano clnico, ela  tambm a nica a situar
e  perverso*, pelo qual o sujeito* projeta num           a transferncia como fazendo parte dessa mes-
outro sujeito ou num objeto desejos* que provm            ma universalidade e a propor que ela seja ana-
dele, mas cuja origem ele desconhece, atribuindo-          lisada no prprio interior do tratamento, como
os a uma alteridade que lhe  externa.                     prottipo de qualquer relao de poder entre o
                                                           terapeuta e o paciente e, em carter mais gen-
 Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabu-         rico, entre um mestre e um discpulo. Sob esse
lrio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins      aspecto, a psicanlise remete  tradio socr-
Fontes, 1991, 2 ed.  Joseph Sandler (org.), Projeo,    tica e platnica da filosofia. Por isso  que
identificao, identificao projetiva (Londres, 1988),
P. Alegre, Artes Mdicas, 1989.                            empregou o princpio inicitico da anlise di-
                                                           dtica, exigindo que se submeta  anlise qual-
 ESTDIO DO ESPELHO; IDENTIFICAO; IDENTI-                quer um que deseje tornar-se psicanalista.
FICAO PROJETIVA; IMAGEM DO CORPO; IMAGO;                     Na historiografia* oficial, formulou-se uma
INCORPORAO; INTROJEO; OBJETO, RELAO                  verso lendria do nascimento da psicanlise,
DE; OUTRO; POSIO DEPRESSIVA/POSIO ES-                  atribuindo sua origem a duas mulheres: Bertha
QUIZO-PARANIDE.                                           Pappenheim* e Fanny Moser*.  primeira, tra-
604     psicanlise

tada por Josef Breuer*, atribuiu-se a inveno      entre Freud e Carl Gustav Jung*, a palavra
da terapia pela fala, e da segunda, tratada por     psicanlise se imporia em francs em 1919 (em
Freud, disseram que ela permitiu a inveno de      lugar de psico-anlise), ao lado de Psychoana-
uma clnica da escuta, obrigando o mdico a         lyse, j aceita no alemo em 1909 (em vez de
renunciar  observao direta e a se manter         Psychanalyse) e de psychoanalysis, em ingls
recuado, atrs do paciente. Essa lenda, na qual     (muitas vezes grafada como Psycho-analysis ou
se mesclaram os nomes dos dois autores dos          Psycho-Analysis). Entre 1905 e 1914, Freud
Estudos sobre a histeria*, veicula uma genea-       realizou trs grandes tratamentos psicanalti-
logia da psicanlise que no  estranha aos         cos: com Ida Bauer* (Dora), Ernst Lanzer* (o
enunciados freudianos. Com efeito, Freud foi o      Homem dos Ratos) e Serguei Constantinovitch
iniciador de uma inverso do olhar mdico que       Pankejeff* (o Homem dos Lobos). Alm disso,
consistiu em levar em conta, no discurso da         dirigiu, como se fosse uma superviso do pai do
cincia, as teorias elaboradas pelos prprios       menino (Max Graf*), a anlise de Herbert Graf
doentes a respeito de seus sintomas e seu mal-      (o Pequeno Hans), com isso abrindo caminho
estar. Mediante essa reviravolta, a psicanlise     para a psicanlise de crianas*. Por ltimo, em
esteve na origem dos grandes trabalhos his-         1911, Freud publicou um estudo das Memrias
tricos do sculo XX sobre a loucura* e a           de Daniel Paul Schreber*, do qual fez um caso
sexualidade.                                        de parania*. Essas cinco psicanlises seriam
    Foi num artigo de 1896, redigido em francs     interminavelmente comentadas ao longo de to-
e intitulado "A hereditariedade e a etiologia das   da a histria do freudismo, servindo de corpus
neuroses", que Freud empregou pela primeira         clnico para todo o movimento, do mesmo mo-
vez a palavra psico-anlise: "Devo meus resul-      do que os casos reunidos nos Estudos.
tados ao emprego de um novo mtodo de psi-              J em 1910, em "As perspectivas futuras da
co-anlise, ao processo explorador de Josef         terapia psicanaltica", Freud delimitou um en-
Breuer, um tanto sutil, mas impossvel de subs-     quadre "tcnico" para a anlise, afirmando que
tituir, a tal ponto ele se mostrou frtil para      esta tinha por objetivo vencer as resistncias*.
esclarecer as obscuras vias da ideao incons-      Essa tese seria discutida muitas vezes, e os
ciente."                                            problemas da tcnica seriam objeto de diversos
    Passados oito anos, num texto destinado a       outros artigos, alm de debates e cises* na
um volume coletivo, Freud deu uma excelente         histria do movimento psicanaltico, desde
definio de seu prprio mtodo, alis falando      Sandor Ferenczi* at Jacques Lacan*.
na terceira pessoa e sempre se referindo a              Foi em 1922, em "Dois verbetes de enciclo-
Breuer: "J havendo o mtodo catrtico renun-       pdia: (A) Psicanlise, (B) Teoria da libido",
ciado  sugesto*, Freud deu um passo a mais,       que Freud deu sua definio mais precisa do
rejeitando igualmente a hipnose. Ele trata com      contexto da anlise, sublinhando que seus "pi-
igualdade seus enfermos, do seguinte modo:          lares" tericos eram o inconsciente, o complexo
sem procurar influenci-los de maneira alguma,      de dipo*, a resistncia, o recalque* e a sexua-
faz com que se estendam comodamente num             lidade: "Quem no os aceita no deve incluir-se
div, enquanto ele prprio, retirado do olhar dos   entre os psicanalistas."
pacientes, senta-se atrs deles. No lhes pede          Se os freudianos de todas as tendncias sem-
para fecharem os olhos e evita toc-los, bem        pre concordaram em se reconhecer nessa defi-
como empregar qualquer outro procedimento           nio da psicanlise, nem por isso deixaram de
passvel de lembrar a hipnose. Esse tipo de         combater uns aos outros e de se dividir quanto
sesso se passa  maneira de uma conversa entre      questo da tcnica psicanaltica e da anlise
duas pessoas em estado de viglia, uma das          didtica.
quais  poupada de qualquer esforo muscular            Inspirando-se no modelo darwinista, Freud
e de qualquer impresso sensorial capaz de          quis incluir a psicanlise entre as cincias da
desviar sua ateno de sua prpria atividade        natureza, ou, pelo menos, conferir-lhe um es-
psquica." Aps muitas hesitaes, cuja evolu-      tatuto de cincia dita "natural". Ora, como her-
o podemos acompanhar na correspondncia           deira das medicinas da alma, ela decorria de
                                                                                psicanlise aplicada         605

uma outra tradio da cincia, segundo a qual a           de progresso na terapia psicanaltica" (1918), ESB,
                                                          XVII, 201-16; GW, XII, 183-94; SE, XVII, 157-68; in La
arte de curar consiste menos em provar a vali-
                                                          Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953, 131-41;
dade de uma deduo do que do que em elaborar             "Dois verbetes de enciclopdia: (A) Psicanlise, (B)
um discurso capaz de dar conta de uma verdade             Teoria da libido" (1923), ESB, XVIII, 287-314; GW, XIII,
simblica e subjetiva. E foi justamente por cau-          211-33; SE, XVIII, 235-59; OC, XVI, 181-208 
sa dessa dupla pertena da psicanlise (ao cam-           Freud/Jung: correspondncia completa (Paris, 1975),
                                                          Rio de Janeiro, Imago, 1993  Karl Popper, Conjectures
po das cincias da natureza e ao das artes da             et rfutation. La Croissance du savoir scientifique
interpretao) que sua chamada refutao                  (1962), Paris, Payot, 1985  Jean-Bertrand Pontalis,
"cientfica" produziu-se no campo da terapu-             "Du vocabulaire de la psychanalyse au langage du
tica. Dentre essas refutaes figura a de Karl            psychanalyste" (1963), in Aprs Freud, Paris, Galli-
                                                          mard, 1968, 126-66  Mireille Cifali, "Entre Genve et
Popper (1902-1994), em 1962, na qual se apoia-            Paris: Vienne", Le Bloc-Notes de la Psychanalyse, 2,
ria toda a historiografia* revisionista, que ten-         1982, 91-133  Jean Laplanche, Novos fundamentos
taria mostrar que a doutrina freudiana reduz-se           para a psicanlise (1987), S. Paulo, Martins Fontes,
a uma simples hermenutica e que seu mtodo               1992  Peter Homans, The Ability to Mourn. Disillusion-
 uma tcnica xamanstica de influncia, que              ment and the Social Origins of Psychoanalysis, Chica-
                                                          go, University of Chicago Press, 1989  Roger Lecuyer,
consiste em agir sobre o doente por simples               "Psychanalyse", in Grand dictionnaire de la psycholo-
sugesto.                                                 gie, Paris, Larousse, 1991, 607-9  Michel Plon, "Les
    Essa argumentao no era nova e, j em               Fondements de la psychanalyse", in Mmoires du XXe
1917, no captulo de suas Conferncias intro-             Sicle, 1900-1909, Paris, Bordas, 1991, 27-31.
dutrias sobre psicanlise* dedicado  terapu-            ABSTINNCIA, REGRA DE; ANLISE DIRETA; AN-
tica psicanaltica, Freud havia tentado dar-lhe           LISE EXISTENCIAL; ANNAFREUDISMO; COLE
uma resposta, insistindo mais uma vez na dis-             FREUDIENNE DE PARIS; EGO PSYCHOLOGY; ES-
tncia radical que separava a psicanlise de              PIRITISMO; INTERNATIONAL PSYCHOANALYTICAL
todos os outros mtodos de psicoterapia basea-            ASSOCIATION; KLEINISMO; LACANISMO; METAPSI-
dos na sugesto. Em especial, ele refutou a idia         COLOGIA; PASSE; PSICANLISE APLICADA; PSICO-
de que o mdico, no tratamento pela fala, pudes-          LOGIA DAS MASSAS E ANLISE DO EU; PSICOPATO-
se sugestionar o doente; nesse campo, ele                 LOGIA; PSICOSSOMTICA, MEDICINA; QUESTO DA
reivindicava uma racionalidade baseada na in-             ANLISE LEIGA, A; SELF PSYCHOLOGY; TELEPATIA.
terpretao verdadeira, sublinhando que a solu-
o dos conflitos e a supresso das resistncias*
(a "cura") s vinham quando o terapeuta estava
                                                          psicanlise aplicada
em condies de dar ao paciente representaes
dele mesmo que correspondessem  realidade:               al. angewandte Psychoanalyse; esp. psicoanlisis
                                                          aplicada; fr. psychanalyse applique; ing. applied
"Aquilo que, nas suposies do mdico, no
                                                          psychoanalysis
corresponde a essa realidade  espontaneamen-
te eliminado no decorrer da anlise, devendo ser              Que Sigmund Freud*, desde muito cedo,
retirado e substitudo por suposies mais exa-           teve o sentimento de estar desenvolvendo idias
tas."                                                     passveis de concernir a campos externos ao
    A histria da psicanlise mostra que as resis-        estudo do funcionamento psquico, como a
tncias erguidas contra ela, bem como seus                criao literria ou artstica,  o que testemu-
conflitos internos, sempre foram o sintoma de             nham pelo menos duas de suas cartas a Wilhelm
seu progresso atuante, de sua propenso a fabri-          Fliess*. Na primeira, datada de 15 de outubro
car dogmas e de sua capacidade de refut-los.             de 1897, ele observa que todo leitor ou todo
                                                          espectador da pea de Sfocles foi, um dia, "em
 Sigmund Freud, "A hereditariedade e a etiologia das     germe, na imaginao, um dipo", e acrescen-
neuroses" (1896), escrito em francs, ESB, III, 165-86;   ta: "Mas passou-me uma idia pela cabea: no
SE, III, 141-56; OC, III, 105-21; "Novos comentrios      encontraramos na histria de Hamlet fatos an-
sobre as neuropsicoses de defesa" (1896), ESB, III,       logos?" Na segunda, de 5 de dezembro de 1898,
187-216; GW, I, 377-403; SE, III, 157-85; OC, III,
121-46; "O mtodo psicanaltico de Freud" (1904),
                                                          onde esto em pauta o contista suo Conrad
ESB, VII, 231-8; GW, V, 3-10; SE, VII, 247-54; in La      Ferdinand Meyer (1828-1898) e o entusiasmo
Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953, "Linhas      que a leitura de seus livros proporciona a Freud,
606     psicanlise aplicada

este pede a Fliess "informaes sobre a vida         e das desenvolvidas pela escola francesa de
desse escritor, sobre a ordem de publicao de       psicologia, adepta da teoria da hereditariedade-
seus livros, o que  indispensvel", acrescenta,     degenerescncia*. Dentro dessa perspectiva,
"para interpret-lo".                                explicou Graf,  que se haviam comeado a
    A princpio, foi a Sociedade Psicolgica das     escrever "patografias", "anlises de escritores
Quartas-Feiras* que serviu de contexto para as       com base em experincias patolgicas (...).
exposies e discusses, amide apaixonadas,         Bem diferente  o procedimento de Freud",
que versavam sobre a aplicao da psicanlise        acrescentou ele, "que conduz ao inconsciente*
aos campos literrio, artstico, mitolgico e his-   e mostra que a doena psquica  apenas uma
trico. Assim, durante a reunio de 10 de outu-      variao da pretensa sanidade psquica, que as
bro de 1906, depois que Otto Rank* falou dos         doenas mentais so uma dissociao dos ele-
fundamentos de uma psicologia da criao lite-       mentos psquicos da pessoa sadia". Antes de
rria, Adolf Hutler (1872-1938) o criticou,         expor os princpios do mtodo psicanaltico e
afirmando que s se podia "aplicar a noo de        as regras de "sua aplicao aos artistas", Graf
recalque* aos indivduos, e no  vida psquica      concluiu: "Lombroso trata os escritores da mes-
de um povo". Nessa mesma reunio, Hutler            ma maneira que um tipo de criminoso particu-
rejeitou a idia de uma correspondncia mec-        larmente interessante"; quanto aos "psiclogos
nica entre a vida pessoal do criador e suas obras,   franceses, (eles) s vem no escritor um neur-
advertindo contra o excesso de interpretao*.       tico".
Freud interveio, por seu turno, para criticar o          A discusso deu a Freud o ensejo de mais
uso incorreto que se fizera do conceito de recal-    uma vez dar apoio a Graf, que acabara de lem-
que. Na reunio de 24 de outubro de 1906,            brar, vigorosamente: "Quem quiser conhecer
dedicada  segunda parte da exposio de Rank,       um escritor dever procur-lo em seus livros."
Hutler reiterou suas crticas, embora declaran-     Retomando as teses que desenvolvera dias
do que "aplicar as teorias de Freud a outros         antes, por ocasio de uma conferncia intitulada
domnios e descobrir as ramificaes da sexua-       "O criador literrio e a fantasia", proferida na
lidade na literatura e na mitologia  uma ativi-     residncia do editor Hugo Heller*, -- teses
dade que merece ser incentivada".                    essas que postulavam uma relao de identi-
    Depois, foi Alfred Meisl (1868-1942) quem        dade entre o processo de produo literria e os
assinalou sua discordncia, afirmando que as         mecanismos do devaneio --, Freud lembrou:
teses de Rank eram frgeis demais e que aquele       "Todo escritor que apresenta tendncias anor-
tipo de publicao poderia constituir um perigo:     mais pode ser objeto de uma patografia. Mas
"(1) para a psicologia como cincia e (2) para       esta", insistiu, "nada nos ensina de novo. A
as teorias de Freud", podendo as pessoas servir-     psicanlise, em contrapartida, informa sobre o
se "das deficincias dos livros de Rank para         processo da criao (... [e]) merece ser colocada
rejeitar igualmente as teorias de Freud". Max        acima da patografia."
Graf* recomendou prudncia na interpretao              A empreitada da psicanlise aplicada, por-
de obras literrias, esclarecendo que " somente     tanto, distinta da patografia, debutou desde
quando alguns temas se destacam com muita            muito cedo. Iria dar margem aos mais diversos
nitidez e se repetem com freqncia que pode-        exerccios de interpretao*, desde a psicobio-
mos lig-los  vida sexual". Um ano depois, em       grafia (interpretao das obras em funo da
4 de dezembro de 1907, uma exposio de              vida do autor) at a psicocrtica (interpretao
Isidor Sadger*, dedicada a Meyer, provocou um        psicanaltica dos textos), passando pela psico-
severo confronto, preldio para a elaborao de      histria (interpretao da histria com a ajuda
uma espcie de carta magna enunciada na se-          da psicanlise). O objetivo dessa ampliao da
mana seguinte, em 11 de dezembro de 1907, por        teoria psicanaltica e de seu campo de interpre-
ocasio da exposio de Graf dedicada  "me-         tao no tardou a ser exposto. Ludwig Bins-
todologia da psicologia dos escritores". Graf        wanger* o registrou nas anotaes em que rela-
entregou-se, primeiramente, a uma crtica radi-      tou sua segunda visita a Freud, em 1909: "Freud
cal das teses de Cesare Lombroso (1836-1909)         continua a considerar a psicanlise uma cincia
                                                                        psicanlise aplicada      607

total, o grande e novo meio de pesquisa que ele      no dos recursos editoriais. Foi assim que se
gostaria de ver aplicado  religio,  histria e    criou, em 1907, com a publicao do ensaio de
 arte." Em 1914, em seu artigo "A histria do       Freud intitulado "Delrios e sonhos na Gradiva
movimento psicanaltico", Freud escreveu, a          de Jensen"*, a coleo dos Schriften zur
propsito de A interpretao dos sonhos* e de        angewandten Seelenkunde* (Monografias de
um outro livro, Os chistes e sua relao com o       psicologia aplicada).
inconsciente, que essas duas obras "mostraram            Em pouco tempo, essa srie revelou-se es-
desde logo que os ensinamentos da psicanlise        treita demais para garantir o desenvolvimento
no podem restringir-se ao campo mdico, mas         de um setor em plena expanso. Nasceu ento
so suscetveis de se aplicar a outras diferentes    a idia de uma revista inteiramente dedicada aos
cincias do esprito".                               trabalhos de psicanlise aplicada, "no mdi-
    Era realmente este o objetivo essencial: li-     ca", como Freud deixou claro numa carta a
bertar-se da tutela mdica, escapar ao simples       Jung, datada de 27 de junho de 1911, uma
registro do procedimento teraputico, para no       revista que Hanns Sachs* e Otto Rank fun-
ficar reduzido a servir  psiquiatria, e com isso,   dariam em 1912, que levaria o nome de Imago*
fazer com que a psicanlise -- que Freud fazia       e  qual Freud dedicaria muita energia e recur-
questo de estabelecer que no era uma daque-        sos. Em especial, ele publicaria ali as primeiras
las cincias do esprito (Geisteswissenschaften)     verses de Totem e tabu*, bem como seu estudo
s quais poderia enriquecer -- pudesse encon-        sobre "O Moiss de Michelangelo", publicado
trar seu lugar na ordem das cincias da natureza     anonimamente. Independentemente do que
(Naturwissenschaften). Em mais de uma oca-           possa ter dito Freud -- que, numa carta a Edoar-
sio, Freud fez questo de dar a esse objetivo       do Weiss* de 12 de dezembro de 1933, referiu-
legitimidade terica, lembrando, sobretudo na        se a esse texto falando de um "filho do amor",
trigsima quarta das Novas conferncias intro-       que era tambm um "filho no analtico" --,
dutrias sobre psicanlise*, que, depois de          esse anonimato foi bem um sinal de suas hesi-
compreender o alcance da psicanlise como            taes quanto  validade da psicanlise aplica-
"psicologia das profundezas", ele fora levado a      da. Escrevendo a Karl Abraham* em 6 de abril
admitir que, na medida em que "nada daquilo          de 1914, ele evocou esse estudo, cujo "carter
em que os homens crem ou que executam              diletante" criticou, acrescentando que tal dile-
compreensvel sem o concurso da psicologia",         tantismo era algo a que "dificilmente se escapa
da deviam "resultar espontaneamente apli-           nos trabalhos feitos para a Imago".
caes da psicanlise a numerosos campos do              Numa outra carta ao mesmo Abraham, em 4
saber, em particular aos das cincias do esprito,   de maro de 1915, falando de suas "Conside-
aplicaes estas que se impunham e exigiam ser       raes atuais sobre a guerra e a morte", ele
elaboradas".                                         qualificou o ensaio de "conversa da atuali-
    Essencial para o desenvolvimento da psica-       dade", esclarecendo: "Nada disso deixa de ter,
nlise e para a aquisio de seu estatuto de          claro, reticncias internas."
disciplina cientfica completa, a aventura da            A ambivalncia freudiana a respeito da psi-
psicanlise aplicada seria vivida por Freud co-      canlise aplicada refletiu-se tanto nas contri-
mo uma conquista militar e colonial. A corres-       buies do prprio Freud quanto nas reaes
pondncia com Carl Gustav Jung*, Oskar Pfis-         contrastantes que esse campo tem despertado
ter* ou Sandor Ferenczi*  testemunho disso.         na comunidade psicanaltica.
Instaurou-se, assim, uma logstica, sob a forma          Antes de mais nada, convm assinalar que,
de proclamaes institucionais (a psicanlise        apesar do entusiasmo despertado pela psican-
aplicada figura em lugar de destaque na decla-       lise aplicada no meio freudiano e alm dele,
rao dos objetivos da International Psychoa-        Freud se entregou muito pouco  psicobiografia
nalytical Association* [IPA]), atravs de uma        (a qual execrava, alis, ao ser objeto dela).
busca sistemtica de alianas com especialistas      Exceto por uma breve cooperao num livro de
das cincias do esprito que os psicanalistas s     Rank, O mito do nascimento do heri, onde
conheciam superficialmente e, por fim, em tor-       desenvolveu a idia do romance familiar*, ele
608     psicanlise de crianas

adotou uma postura singular a respeito dessas        parte* e por diversos livros de Ren Laforgue*
questes. Em todos os seus trabalhos conside-        --, e desenvolvendo trabalhos que se articula-
rados da esfera da psicanlise aplicada, com         vam, antes de mais nada, com a teoria e a clnica
efeito, podemos constatar a existncia de um         da anlise, esses psicanalistas almejavam obter
segundo objetivo, este puramente terico, que        para sua disciplina o reconhecimento universi-
na maioria das vezes vem substituir a aplicao      trio que at ento lhe faltara. A outra razo foi
pura e simples.                                      dada por Jacques Lacan* na interveno que fez
    Assim, o estudo sobre Leonardo da Vinci          sobre a questo da psicanlise aplicada, por
(1452-1519) afasta-se das psicobiografias habi-      ocasio de sua resenha crtica do livro de Jean
tuais, marcando um passo adiante na teoria da        Delay* intitulado La Jeunesse d'Andr Gide.
sexualidade, mais particularmente na aborda-             Nesse artigo, Lacan afirmou, em especial:
gem da homossexualidade*. Do mesmo modo,             "A psicanlise s se aplica, em sentido prprio,
Totem e tabu* ultrapassa os limites de suas          como tratamento, e portanto, a um sujeito que
referncias etnolgicas, j obsoletas quando de      fala e que ouve", com isso indicando que qual-
sua publicao. Em Psicologia das massas e           quer outra forma de aplicao s poderia s-lo
anlise do eu*, Freud recorre  psicossociologia     num sentido figurado, isto , imaginrio, basea-
francesa de Gustave Le Bon (1841-1931), mas          do na analogia e, como tal, desprovido de efi-
abandona muito depressa esse contexto, para          ccia.
elaborar o primeiro ensaio terico dedicado aos
                                                      Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
aspectos do que se viria a chamar de fenmeno        (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
totalitrio e lanar, terica e historicamente, as   Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986  Les Pre-
bases da segunda tpica*.  o que acontece           miers psychanalystes, Minutes de la Socit Psycha-
ainda com o livro co-assinado com William C.         nalytique de Vienne, vol.I, 1906-1908, 4 vols. (1962-
                                                     1975), Paris, Gallimard, 1976-1983  Sigmund Freud e
Bullitt (1891-1967), dedicado ao Presidente          Karl Abraham, Correspondance, 1907-1926 (Frankfurt,
Thomas Woodrow Wilson, que se mantm at             1965), Paris, Gallimard, 1969  Freud/Jung: correspon-
hoje como a nica tentativa de compreender os        dncia completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago,
processos subjacentes  emergncia do fenme-        1993  Sigmund Freud e Edoardo Weiss, Lettres sur la
                                                     pratique psychanalytique, precedidas por Souvenirs
no do "grande homem", tema que encontramos           d'un pionnier de la psychanalyse, Toulouse, Privat,
evocado no ltimo livro de Freud publicado em        1975  Sigmund Freud e Ludwig Binswanger, Corres-
sua vida, Moiss e o monotesmo*.                    pondance (1908-1938) (Frankfurt, 1992), Paris, Cal-
    Hoje em dia, a psicanlise aplicada  objeto     mann-Lvy, 1995  Sigmund Freud, "A histria do mo-
                                                     vimento psicanaltico" (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X,
de julgamentos particularmente contrastantes.        44-113; SE, XIV, 7-66; Paris, Gallimard, 1991; Novas
Correntemente utilizada no mundo anglfono           conferncias introdutrias sobre psicanlise (1933),
-- autores to diferentes quanto Ernest Jones*       ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE, XXII, 5-182; OC, XIX,
e Peter Gay classificam uma parcela importante       83-268;  Jacques Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio
                                                     de Janeiro, Jorge Zahar, 1998  Nicholas Rand e Maria
das obras de Freud, todos dois, com o rtulo de      Torok, Questions  Freud, Paris, Les Belles Lettres-
psicanlise aplicada, sem que isso provoque o        Archimbaud, 1995  Guy Rosolato, Pour une psycha-
menor debate --, a expresso "psicanlise apli-      nalyse exploratrice de la culture, Paris, PUF, 1993.
cada"  alvo, na comunidade psicanaltica fran-
cesa, de uma rejeio particularmente violenta.       CRIMINOLOGIA; PRESIDENTE THOMAS WOO-
     possvel propor duas explicaes para a        DROW WILSON, O.

reao francesa. A primeira corresponde  preo-
cupao de alguns psicanalistas, dentre eles
Daniel Lagache*, de restituir  psicanlise uma      psicanlise de crianas (ou infantil)
respeitabilidade que a leviandade de um grande          A psicanlise de crianas no  um campo
nmero de ensaios de psicanlise aplicada a          isolado da psicanlise*. Em todos os pases do
fizera perder. Mantendo-se distantes desse tipo      mundo, a formao exigida para que algum se
de procedimento -- ilustrado na Frana, em           torne psicanalista de crianas  idntica  exigi-
especial, pela psicobiografia de Edgar Allan         da para a prtica com adultos. Se a psicanlise
Poe (1809-1849) que se deveu a Marie Bona-           de crianas mantm desde sempre uma relao
                                                                      psicanlise de crianas      609

particular com a pedagogia, a medicina (pedia-        seauniana da infncia e que a criana tornou-se
tria), a psiquiatria (pedopsiquiatria) e a psicolo-   objeto de um apego especfico, que s faria
gia, no se criou nenhum termo (equivalente          aumentar com os avanos da medicina e, mais
pediatria ou  pedopsiquiatria) para design-la       tarde, com a generalizao da contracepo nas
como especialidade. Oskar Pfister*, que cedo          sociedades industrializadas. Parece evidente
praticou a psicanlise de crianas na Sua*          que, quanto mais diminui a taxa de mortalidade
segundo a tradio dos pastores, inventou o           infantil, mais dolorosa  a perda de uma criana.
termo pedo-anlise para designar a pedagogia          Do mesmo modo, quanto mais a criana 
psicanaltica, mas a palavra no se imps. Nem        conscientemente desejada ou "planejada", mais
por isso deixa de persistir o fato de que os          importante parece tornar-se seu lugar na afeio
psicanalistas de crianas, apesar de serem tam-       parental.
bm psicanalistas de adultos, tm com freqn-            Foi nesse contexto e, mais tarde, no da crise
cia a impresso de serem diferentes dos outros        da famlia burguesa que a psicanlise de crian-
psicanalistas.                                        as deslanchou no comeo do sculo, quando
    Assim como a psicanlise nasceu da medi-          Sigmund Freud*, tendo evidenciado o papel
cina e, depois, da psiquiatria (e da psiquiatria      fundamental da sexualidade* infantil no des-
dinmica*), tambm a prtica da psicanlise de        tino humano, props a seu amigo Max Graf*
crianas  herdeira da filosofia do Iluminismo.       que analisasse seu filho, Herbert Graf* (o Pe-
Em todos os pases, foi introduzida por quatro        queno Hans).
vias: medicina, psiquiatria, psicologia e peda-           Na histria da psicanlise, foi inicialmente
gogia. Na Frana*, tomou o caminho da psi-            s mulheres que coube o papel de analisar crian-
quiatria ou da psicologia, ao passo que, noutros      as. Essa funo, dita "educativa", no as obri-
pases da Europa (em geral protestantes), intro-      gava a fazer estudos mdicos -- em geral reser-
duziu-se mais no terreno da pedagogia e, por-         vados aos homens -- e lhes permitiu, muito
tanto, da anlise leiga*. Por toda parte, mis-        rapidamente, adquirir uma grande liberdade,
turou-se com as disciplinas afins.                    bem como um lugar importante no movimento
     ao encarregado de sade francs Jean-           freudiano. Sob esse aspecto, a anlise de crian-
Marc-Gaspard Itard (1774-1838), admirador de          as favoreceu a emancipao feminina. Mas foi
Philippe Pinel (1745-1826), que devemos a pri-        tambm sede de mltiplos dramas, pois, muitas
meira descrio de um tratamento moral con-           vezes, as psicanalistas da primeira e segunda
duzido com uma criana: Victor de l'Aveyron           geraes* analisaram seus filhos, ou confiaram
(1789-1828). O caso desse "menino selvagem"           essa tarefa a suas colegas mais prximas. Alm
seria considerado o prottipo de um tratamento        disso, entre as psicanalistas de crianas recen-
de psicose* infantil com autismo*. Suscitaria         seou-se um nmero impressionante de mortes
inmeros comentrios e seria levado  tela por        violentas: quatro suicdios* (Arminda Aberas-
Franois Truffaut (1932-1984). Capturado na           tury*, Sophie Morgenstern*, Tatiana Rosen-
mata em 1800, aos 12 anos de idade, Victor foi        thal* e Eugnie Sokolnicka*) e um assassinato
levado ao Instituto de Surdos-Mudos de Paris:         (Hermine von Hug-Hellmuth*).
Itard tentou ensin-lo a falar, sem jamais obter          Depois de Sandor Ferenczi*, que foi um dos
xito.                                                maiores clnicos da infncia no incio do sculo,
    Os trabalhos de Philippe Aris (1914-1984)        e de August Aichhorn*, que cuidou de crianas
sobre a criana e a famlia no Antigo Regime,         delinqentes em Viena*, outros homens dedi-
os de Michelle Perrot sobre a famlia e a vida        caram-se a esse ramo da psicanlise: Erik Erik-
privada, e os de lisabeth Badinter sobre o amor      son*, Ren Spitz*, Donald Woods Winnicott*
materno mostraram que o lugar conferido              e John Bowlby*, em especial.
criana na famlia varia de acordo com as so-             No campo da anlise de crianas, tal como
ciedades e, acima de tudo, modificou-se consi-        no da sexualidade feminina*, duas grandes
deravelmente a partir do sculo XIX, sob o            concepes enfrentaram-se no interior da Inter-
efeito do culto da maternidade. Foi nessa poca       national Psychoanalytical Association* (IPA),
que acabou de se impor uma viso rous-                depois da publicao (em 1909) do caso do
610     psicanlise de crianas

Pequeno Hans: a da escola vienense, repre-           vezes por semana. O aposento  especialmente
sentada por Anna Freud*, seu pai e os primeiros      adaptado para receber crianas. Contm apenas
discpulos deste, e a da escola inglesa, repre-      mveis simples e robustos, uma mesinha e uma
sentada, a partir de 1924, por Melanie Klein*.       cadeira para a criana, uma cadeira para o
Para a escola vienense, a anlise de uma criana     analista e um pequeno div. As paredes so
no deveria comear antes dos 4 anos de idade        lavveis. Cada criana deve ter sua caixa de
nem ser conduzida "diretamente", mas sim por         brinquedos, reservada unicamente para o trata-
intermdio da autoridade parental julgada pro-       mento. Os brinquedos so cuidadosamente
tetora. Sigmund Freud sustentava essa concep-        escolhidos. H casinhas, pequenos bonecos ho-
o com a ajuda de argumentos perfeitamente          mens e mulheres, de preferncia de tamanhos
coerentes, como mostra sua correspondncia           diferentes, animais de fazenda e animais selva-
com Joan Riviere*: "Postulamos como consi-           gens, cubos, bolas, bolas de gude e material:
derao prvia", escreveu em 9 de outubro de         tesoura, barbante, lpis, papel e massa de mo-
1927, "que a criana  um ser pulsional, com         delar. Alm disso, o cmodo deve ser provido
um eu* frgil e um supereu* justamente em vias       de uma pia, posto que a gua desempenha um
de formao. No adulto, trabalhamos com a            papel importante em certas fases da anlise."
ajuda de um eu j firmado. Portanto, no  ser           Freud disse, em 1927, que a experincia teria
infiel  anlise levar em conta, em nossa tcnica,   a palavra final. Pois bem, no mundo inteiro, a
a especificidade da criana, na qual, durante a      experincia parece ter dado razo s teorias
anlise, o eu deve ser apoiado contra um isso*       kleinianas que se impuseram com vigor entre
pulsional onipotente. Ferenczi fez a observao      todos os clnicos da infncia. No obstante, em
muito espirituosa de que, se a Sra. Klein estiver    toda parte elas foram revistas, corrigidas, trans-
certa, na verdade j no haver crianas. Natu-      formadas e modificadas no sentido de uma par-
ralmente, a experincia  que dir a palavra         ticipao maior dos pais no desenrolar da an-
final. At o momento, minha nica constatao        lise. Por outro lado, a herana da escola vie-
 que a anlise sem uma orientao educativa         nense foi colhida por todos os defensores das
s faz agravar o estado das crianas, e tem          experincias sociais e educativas, de Margaret
efeitos particularmente perniciosos nas crianas     Mahler a Bruno Bettelheim*.
abandonadas, anti-sociais."                              Se a Frana*  um dos raros pases em que
    Para Melanie Klein, ao contrrio, era preciso    o kleinismo* no fez escola, ela  marcada, em
abolir todas as barreiras que impediam o             contrapartida, por duas fortes tradies: a pri-
psicanalista de ter acesso diretamente ao in-        meira est ligada  psiquiatria hospitalar e 
consciente* da criana. A proteo de que Freud      Socit Psychanalytique de Paris (SPP), tendo
falava era, a seu ver, um engodo ao qual era         sido conduzida por Serge Lebovici e Ren Diat-
preciso opor uma verdadeira doutrina do infante      kine; a segunda forjou-se a partir da herana das
(a criana de 2-3 anos), isto , da criana que      grandes pioneiras, Eugnie Sokolnicka e So-
ainda no fala mas j no  um beb, uma vez         phie Morgenstern. A princpio, foi representada
que recalcou o beb dentro de si.                    por Franoise Dolto* e, mais tarde, por Jenny
    Se Freud foi o primeiro a descobrir no adulto    Aubry*, Ginette Raimbault e Maud Mannoni,
                                                     todas quatro ligadas a Jacques Lacan* e  cole
a criana recalcada, Melanie Klein, por inter-
                                                     Freudienne de Paris* (EFP).
mdio do interesse que dedicou  psicose e s
relaes arcaicas com a me, foi a primeira a            Fortemente influenciada por Winnicott,
identificar na criana o que j estava recalcado,    Maud Mannoni, cujos trabalhos so conhecidos
isto , o beb. Com isso, ela props no apenas      no mundo inteiro, criou em 1969 a Escola Ex-
uma doutrina, mas tambm um enquadre neces-          perimental de Bonneuil-sur-Marne, que acolhe
srio ao exerccio de tratamentos especifica-        crianas e adolescentes psicticos.
mente infantis: "Ela fornece  criana um en-
                                                      Sigmund Freud, "Anlise de uma fobia em um meni-
quadre analtico apropriado", escreveu Hanna         no de cinco anos" (1909), ESB, X, 15-152; GW, VII,
Segal, "ou seja, os horrios das sesses so         243-377; SE, X, 1-147; in Cinq psychanalyses, Paris,
rigorosamente fixados -- 55 minutos, cinco           PUF, 1954, 93-198, "Lettres de Sigmund Freud  Joan
                                                                                                psicologia       611

Riviere (1921-1939)", apresentadas por Athol Hugues,          uma situao conflitiva, isto , em represent-la
Revue Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 6,        num palco de teatro improvisado.
1993, 429-81  Philippe Aris, L'Enfant et la vie familiale
sous l'Ancien Rgime (1960), Paris, Seuil, 1973 
                                                                  Foi depois de sua emigrao para os Estados
Michelle Perrot, Le Mode de vie des familles bour-            Unidos*, em 1925, que Jacob Levy Moreno
geoises, Paris, Armand Colin, 1961  Maud Mannoni,            inventou o psicodrama, a fim de revelar teatral-
A criana retardada e a me (Paris, 1964), S. Paulo,          mente a verdade do paciente em suas relaes
Martins Fontes; A criana, sua doena e os outros
                                                              com outrem. A sesso psicodramtica divide-se
(Paris, 1967), Rio de Janeiro, Zahar, 1983; Educao
impossvel (Paris, 1973), Rio de Janeiro, Francisco           em trs partes: o encaminhamento, no qual o
Alves, 1988; Un lieu pour vivre. Les Enfants de Bon-          paciente  solicitado a explicar como vivencia
neuil, leurs parents et l'quipe des soignants, Paris,        seu papel, a ao, durante a qual ele representa
Seuil, 1976  Ginette Raimbault, Mdecins d'enfants,          sua vida sob a forma de um drama, e o retorno,
Paris, Seuil, 1973  lisabeth Badinter, L'Amour en
plus, Paris, Flammarion, 1980  Thierry Gineste, Victor       no qual tem que explicar como se "encontrou"
de l'Aveyron, dernier enfant sauvage, premier enfant          no drama. A sesso apela para toda sorte de
fou, Paris, Le Sycomore, 1981  Mireille Cifali, Freud        tcnicas teatrais: inverso de papis, jogos de
pdagogue? Psychanalyse et ducation, Paris, Inter-           espelhos, desdobramento da personalidade e
ditions, 1981.
                                                              utilizao do coro ou do monlogo. Moreno
 ARGENTINA; BRASIL; DIPO, COMPLEXO DE;                       inventou tambm o sociodrama, que  repre-
MAUCO, GEORGES; MONTESSORI, MARIA; PAREN-                     sentado "de grupo para grupo" e pe em cena
TESCO; PATRIARCADO; RAMBERT, MADELEINE;                       conflitos coletivos: drama das minorias negras,
RSSIA; SCHMIDEBERG, MELITTA; SCHMIDT, VE-                    dos prisioneiros, dos marginais etc.
RA; SEXUALIDADE; TRS ENSAIOS SOBRE A TEORIA                      Na psicanlise*, o psicodrama  utilizado
DA SEXUALIDADE; ZULLIGER, HANS.                               como tcnica de eleio no tratamento das psi-
                                                              coses* e dos distrbios narcsicos infantis. Da
                                                              a inveno do termo "psicodrama psicanalti-
psicanlise selvagem                                          co", que fez fortuna em inmeros pases,
 INTERPRETAO.                                               incorporando alguns dos conceitos freudianos,
                                                              como a transferncia*, a projeo* ou a fanta-
                                                              sia*.
psicastenia
Termo introduzido por Pierre Janet* em 1903 para               Jacob Levy Moreno, Fondements de la sociomtrie
substituir "neurastenia"* e designar uma neurose              (Washington, 1934, Paris, 1954), Paris, PUF, 1970;
                                                              Psychothrapies de groupe et psychodrame (Beacon,
equiparvel, no plano clnico, ao que Sigmund
                                                              1946), Paris, Retz, 1975  Ren Marineau, J.L. Moreno
Freud* denominou de neurose obsessiva*.                       et la troisime rvolution psychanalytique, Paris, M-
                                                              taili, 1989  Jean-Franois Rabain, "Le Psychodrame
 Pierre Janet, Les Obsessions et la psychasthnie,           psychanalytique", in Alain de Mijolla e Sophie de Mijol-
vol.1, Paris, Alcan, 1903.                                    la-Mellor, Psychanalyse, Paris, PUF, 1996, 629-41.

                                                               GESTALT-TERAPIA.
psicobiografia
 PSICANLISE APLICADA.
                                                              psicognese
                                                               PSIQUIATRIA DINMICA; PSICOTERAPIA INSTITU-
psicocrtica                                                  CIONAL.
 PSICANLISE APLICADA.

                                                              psico-histria
psicodrama                                                     PSICANLISE APLICADA.
al. Psychodrama; esp. psicodrama; fr. psycho-
drame; ing. psychodrama
Mtodo de psicoterapia* inventado por Jacob Levy              psicologia
Moreno*, derivado da catarse* e que consiste em                BRASIL; EGO PSYCHOLOGY; ESTADOS UNIDOS;
o sujeito* encenar, com um objetivo teraputico,              FRANA; JANET, PIERRE; LAGACHE, DANIEL;
612      psicologia analtica, escola de

MEYER, ADOLF; PSICOLOGIA CLNICA; PSICOPATO-                  Mais tarde, a noo de psicologia clnica foi
LOGIA; PSICOTERAPIA; PSIQUIATRIA DINMICA;                caindo em desuso,  medida que a psicologia,
SELF PSYCHOLOGY.                                          como cincia do sentido ntimo, viu-se suplan-
                                                          tada por um saber freudiano introduzido no
                                                          prprio terreno da psicologia, da psiquiatria e
psicologia analtica, escola de                           da medicina.
 JUNG, CARL GUSTAV; PSICOTERAPIA.                             Todavia, a partir da dcada de 1960, com o
                                                          desenvolvimento da psicanlise de massas e a
                                                          generalizao dos estudos de psicologia, a psi-
psicologia clnica                                        cologia clnica obteve um novo impulso. Daniel
al. klinische Psychologie; esp. psicologa clnica; fr.
                                                          Lagache* restituiu-lhe um vigor particular em
psychologie clinique; ing. clinical psychology            1949, ao impor seu programa de integrao da
                                                          psicanlise* com a psicologia. Seu objetivo era
Prtica teraputica fundamentada na entrevista di-
                                                          separar, na universidade, o ensino da psicologia
reta e no exame de casos a partir da observao
                                                          e o da filosofia, bem como favorecer o acesso
das condutas individuais.
                                                          dos no mdicos  psicanlise. Mas isso redun-
    O termo psicologia clnica foi empregado              dou, pura e simplesmente, na liquidao de um
pela primeira vez em 1896, pelo psiclogo                 ensino verdadeiro do freudismo na universi-
norte-americano Lightner Witmer, que a definia            dade, em prol da psicologia ou de um freudismo
como um mtodo de pesquisa que consistia em               edulcorado. Nesse contexto, a psicologia clni-
examinar, com vistas a uma generalizao, as              ca que se leciona  definida como um estudo de
aptides dos sujeitos e suas deficincias. A              casos individuais cujo mtodo se assenta em
expresso seria utilizada por Sigmund Freud*              trs postulados: a dinmica, a totalidade e a
uma nica vez, numa carta a Wilhelm Fliess*               gnese. O primeiro ponto visa a investigao
de 30 de janeiro de 1899: "Agora", escreveu, "a           dos conflitos, o segundo contempla a totalidade
ligao com a psicologia, tal como se apresenta           inacabada do ser, segundo um modelo sartriano,
nos Estudos [sobre a histeria], saiu do caos.             e o terceiro pretende apreender a histria do
Percebo as relaes com o conflito, com a vida,           sujeito em termos de evoluo e de balano.
com tudo o que eu gostaria de chamar de psico-            Desses trs postulados derivam os objetivos
logia clnica." Se o mtodo psicanaltico repou-          prticos: o psiclogo clnico cura doentes, edu-
sa sobre uma clnica, esta renuncia, no entanto,          ca crianas, aconselha adultos e reclassifica os
 observao direta do doente para interpretar            inadaptados.
os sintomas em funo da escuta do inconsci-
ente*. Considerado o caminho aberto pela In-               Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
terpretao dos sonhos*, portanto, essa noo             (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956  Maurice Reuchlin,
no poderia encontrar lugar no vocabulrio                Histoire de la psychologie, Paris, PUF, col. "Que sais-
                                                          je?", 1957  Daniel Lagache, L'Unit de la psychologie,
freudiano.
                                                          Paris, PUF, 1949  lisabeth Roudinesco, Histria da
    Foi sob o nome de clnica psicolgica que             psicanlise na Frana, 2 vols. (Paris, 1982, 1986), Rio
Pierre Janet* retomou essa idia, numa descen-            de Janeiro, Jorge Zahar, 1989, 1988.
dncia direta da herana da escola francesa de
psicologia e dos ensinamentos de Thodule Ri-              ANLISE LEIGA; BRASIL; ELLENBERGER, HENRI
bot (1839-1916). Para ele, tratava-se de cons-            F.; ESTADOS UNIDOS; FRANA; LACANISMO; PSI-
tituir o campo da psicopatologia* e de dotar a            COTERAPIA; PSIQUIATRIA DINMICA.
psicologia da chamada competncia clnica, re-
tirando da medicina o privilgio desse famoso
olhar exercido junto ao leito do doente. Baseada          Psicologia das massas
na investigao e na abordagem das condutas,              e anlise do eu
a anlise janetiana ocupa-se menos das estrutu-           Livro de Sigmund Freud* publicado em 1921, sob
ras que das funes. Exclui de seu campo dois             o ttulo Massenpsychologie und Ich-Analyse. Tra-
termos que so essenciais  prtica psicanalti-          duzido pela primeira vez para o francs em 1924,
ca: o inconsciente e a transferncia*.                    por Samuel Janklvitch, sob o ttulo Psychologie
                                                      Psicologia das massas e anlise do eu         613

collective et analyse du moi, revisado por Angelo     privilegiando a conotao poltica. Preocupa-
Hernard* em 1966. Nova traduo em 1981 por           dos em manter a ligao com a obra de Le Bon,
Pierre Cotet, Andr Bourguignon (1920-1996),          os autores da nova traduo francesa optaram,
Odile Bourguignon, Janine Altounian e Alain Rau-
                                                      inicialmente, pela palavra foule para traduzir
zy, sob o ttulo Psychologie des foules et analyse
                                                      Massen, antes de voltarem para "massa" em sua
du moi, e mais tarde, em 1991, sob o ttulo Psycho-
                                                      ltima verso, de conformidade com a opo
logie des masses et analyse du moi. Traduzido
para o ingls por James Strachey* em 1922, sob o
                                                      freudiana.
ttulo Group Psychology and the Analysis of the           Desde as primeiras linhas de seu livro, Freud
Ego, retomado sem modificao em 1955.                rejeitou a oposio clssica entre psicologia
    Escrito em 1920, depois de Mais-alm do           individual e psicologia social, ou psicologia das
princpio de prazer*, Psicologia das massas e         massas, salientando que h sempre um outro*
anlise do eu constitui o segundo estgio da          (modelo, objeto, rival) na vida psquica do in-
grande reformulao terica da dcada de 1920,        divduo, e que, portanto, a psicologia individual
da qual O eu e o isso*, publicado em 1923, seria       sempre social. Entretanto, h uma diferena,
a terceira parte.                                     porm no interior da psicologia individual, en-
    Numa carta a Romain Rolland* de 4 de              tre os atos sociais e os atos narcsicos, nos quais
maro de 1923, Freud definiu qual fora seu            a satisfao pulsional escapa aos efeitos da
objetivo: "No que eu considere esse texto par-       alteridade.
ticularmente bem-sucedido", esclareceu, "mas              Que  uma massa, de onde ela retira sua
ele aponta o caminho que vai da anlise do            capacidade de modificar o indivduo, e em que
indivduo para a compreenso da sociedade."           consiste essa mudana? Freud registra, para
    Explicar em termos psicolgicos certos as-        comear, as respostas dadas a essas perguntas
pectos do funcionamento das sociedades huma-          por Gustave Le Bon, de um lado, em seu clebre
nas, em particular o que provm do psiquismo          livro La Psychologie des foules, cuja primeira
do indivduo inserido na massa, correspondia         edio data de 1895, e de outro, por um dos
preocupao que tinham, na poca, escritores          fundadores da psicologia social norte-america-
como Arthur Schnitzler* e Hugo von Hof-               na, William McDougall, em seu livro The
mannsthal (1874-1929), no sentido de esclare-         Group Mind, lanado em 1920.
cer as relaes entre a psique e a poltica. A            Destacando as contribuies positivas des-
inteno sociolgica e poltica desse ensaio, no      ses dois autores, Freud mostra-se reservado, no
qual Freud se refere explicitamente  concep-         entanto, quanto s explicaes que eles forne-
o aristotlica do homem como animal polti-         cem sobre a modificao psicolgica do in-
co, tem sido freqentemente encoberta por tra-        divduo na massa. Observa que esse fenmeno
dues aproximativas. James Strachey, ao tra-         se traduz por uma intensificao do afeto e uma
duzir o termo alemo Massen por group [gru-           inibio do pensamento. Em lugar da "palavra
po], em vez de mass [massa], o que foi deplo-         mgica" sugesto*, que j fora encontrada trin-
rado pela Encyclopedia of Psychoanalysis de           ta anos antes em Hippolyte Bernheim*, e que
Ludwig Eidelberg (1898-1970), optou por uma           Le Bon e McDougall consideravam passvel de
concepo reducionista do social, caracterstica      dar conta dos processos constitutivos de uma
da psicologia social norte-americana, segundo         massa, Freud prope usar o conceito de libido*,
a qual o grupo constitui o modelo, reduzido ou        fonte energtica das pulses* que operam em
experimental, da sociedade. As diversas tra-          tudo o que se relaciona ao amor. Enuncia ento
dues francesas no foram mais precisas. At         a hiptese de que as relaes amorosas cons-
1981, privilegiou-se a dimenso quantitativa,         tituem a essncia da alma das massas e enfatiza
ainda que refutada por Freud, falando-se em           a funo do lder na massa, parmetro este que
psicologia coletiva. Esse foi um travestimento        Le Bon e McDougall haviam negligenciado.
ainda mais digno de nota, na medida em que,           Assim, Freud  levado a distinguir entre as
para traduzir o termo francs foule, utilizado por    massas desprovidas de um lder, s quais chama
Gustave Le Bon (1841-1931), Freud preferiu o          igualmente massas espontneas, prximas do
termo alemo Massen  palavra Menge, assim            estado natural, e as massas dotadas de um lder,
614     Psicologia das massas e anlise do eu

ou massas artificiais, que so produto da cultu-     clara distino entre o eu e o ideal do eu*. Essa
ra. A Igreja* e o exrcito constituem dois exem-     conceituao conduziria  instaurao, em
plos dessas massas organizadas com lderes --        1923, em O eu e o isso*, da segunda tpica*,
massas artificiais, porquanto construdas a par-     onde o ideal do eu se transforma no supereu*.
tir de coeres que criam obstculos  sua dis-          Ao trmino de sua reflexo, Freud es-
soluo espontnea.                                  tabelece que uma massa organizada  produto
    O exame desses dois exemplos evidencia a         de um processo duplo: por um lado, da ins-
existncia de dois eixos estruturais: um eixo        talao, por diversos indivduos, de um mesmo
vertical, no qual se organiza a relao dos mem-     objeto externo no lugar de seu ideal do eu, isto
bros da massa com o lder, e um eixo horizontal,     , da constituio do eixo vertical, que Freud
que representa a relao dos membros da massa        assimila ao vnculo entre o hipnotizado e o
entre si. Vrias observaes depem a favor da       hipnotizador; por outro, da identificao rec-
natureza amorosa desses laos. Para comear,         proca entre esses mesmos indivduos, ou seja, o
em cada um dos dois exemplos, presume-se que         eixo horizontal, assimilvel por Freud a um
o lder (Cristo ou o comandante) ame com o           vnculo amoroso cuja dimenso sexual teria
mesmo amor cada um dos membros da massa.             sido sublimada.
Depois, em caso de desagregao da massa, h             Desconfiando da explicao atravs do fe-
o surgimento de um fenmeno de pnico no             nmeno da sugesto, Freud evidencia, para es-
qual se misturam sentimentos de solido e aban-      clarecer a transformao psquica do indivduo
dono, ligados ao enfraquecimento dos vnculos        na massa, trs mecanismos. A transformao,
constitutivos da massa e geradores de angstia.      diz ele,  produto de uma limitao do narcisis-
Por fim, sempre apoiado na hiptese da nature-       mo, aceita por todos os membros da massa. Essa
za libidinal dos laos constitutivos da massa,       limitao resulta da instalao do lder na posi-
Freud assinala a existncia de um sentimento de      o de ideal do eu de cada um dos membros da
hostilidade ou at de dio por aqueles que no       massa. O vnculo amoroso que se estabelece
so membros dela, e que por isso representam         entre os membros desta age como uma compen-
um perigo para sua coeso.                           sao, em troca do ataque narcsico aceito.
    Essas observaes mostram que o eixo ver-            Mais do que qualquer outro, esse ensaio de
tical, o vnculo com o lder,  determinante em      Freud foi objeto de mltiplas interpretaes
relao ao eixo horizontal, a relao entre os       concernentes ao contexto no qual foi elaborado
membros da massa. E fazem surgir outras per-         e ao esclarecimento que supostamente traria
guntas. Se o lder  indispensvel  manuteno      sobre alguns tipos de regimes polticos.
de uma massa, ele pode ser substitudo, no               No que tange s origens do texto, Jacques
entanto, por uma idia ou por um sentimento          Lacan* ressaltou, em "Situao da psicanlise
negativo e unificador em relao a um objeto         e formao do psicanalista em 1956", que Freud
externo  massa, ficando o exame de todas essas      teorizou, nesse ensaio, fenmenos cujas conse-
questes subordinado  demonstrao, distinta        qncias negativas, se lhe tivessem sido evi-
da simples observao, do carter libidinal dos      dentes dez anos antes, talvez o houvessem leva-
vnculos que constituem a massa.                     do a desconfiar da organizao que ele criara na
    Ao longo dessa demonstrao, Freud  leva-       poca, a International Psychoanalytical As-
do a abandonar por algum tempo seu objeto, a         sociation* (IPA), que supostamente deveria
psicologia das massas, para se referir a reflexes   preservar e transmitir a verdade de sua desco-
tericas anteriores, expostas sobretudo em um        berta. Para Lacan, a natureza dos vnculos de
artigo de 1914 ("Sobre o narcisismo: uma intro-      massa reconhecidos por Freud dera margem, na
duo") e em outro de 1915 ("Luto e melanco-         psicanlise e em sua transmisso,  instaurao
lia"). Assim, por um lado, ele prope uma teo-       de um imperativo que institua como critrio do
rizao completa da questo da identificao*,       trmino da anlise didtica a identificao com
processo que considera o fundamento do eixo          o eu do analista, fonte de um conformismo e
horizontal, e por outro, prope reconsiderar a       uma suficincia que se prestavam a edulcorar o
diferenciao do eu*, a fim de estabelecer uma       carter subversivo da descoberta freudiana.
                                                    Psicologia das massas e anlise do eu        615

     Podemos destacar, a esse respeito, que Freud   Contemporneos do clima ideolgico do ps-
elaborou seu texto quando uma divergncia o         guerra na Frana*, onde a sombra dos regimes
opunha a Karl Abraham*. A discordncia              do Eixo continuava a ameaar todos os discur-
concernia a um aspecto da organizao e fun-        sos, em especial aps o lanamento do livro de
cionamento da comunidade analtica. Em maio         Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Ador-
de 1920, Abraham propusera a Freud que ele          no (1903-1969) intitulado Dialtica do Escla-
fizesse uma escala em Berlim em setembro, em        recimento, esses julgamentos tomaram algu-
seu retorno do Congresso de Haia, para partici-     mas liberdades com a histria. Se o texto freu-
par de um ciclo de conferncias cujo sucesso,       diano de fato antecipou "em pouco" uma forma
dessa maneira, ficaria assegurado. Freud evo-       de autoritarismo poltico, tratou-se menos da
cou um "trabalho difcil" que estava em an-         forma das futuras organizaes fascistas que
damento (tratava-se da Psicologia das massas)       daquela que ento se instalou na URSS, no
e respondeu salientando que a instaurao de        momento mesmo em que Freud redigia esse
um comit deveria ter como efeito que se            ensaio. O autoritarismo iria concretizar-se, em
"[pudesse] prescindir cada vez mais da [sua]        particular, atravs da adoo da famosssima
presena". Abraham, no entanto, insistiu na         "resoluo sobre a unidade do partido", apro-
absoluta necessidade de que Freud fosse a Ber-      vada no X Congresso do partido bolchevista,
lim, explicando que Jones* ou Ferenczi* ainda       em maro de 1921, que proibia a formao de
eram desconhecidos e que sua presena cons-         faces no interior do partido e impossibilitava
tituiria "o alvo das atenes". Freud respondeu-    o debate democrtico. Ela se transformaria no
lhe em 4 de julho, impacientando-se um pouco:       principal instrumento do exerccio da ditadura
"Para agosto tenho em preparao um tema            stalinista que acompanharia a instaurao do
difcil, que exigir uma concentrao integral      "culto da personalidade".
(...). Voc diz que sua manifestao no tem            Uma passagem do texto, situada no fim do
nenhuma chance de xito se eu no estiver           captulo V, permite supor, alis, que Freud es-
presente. Mas essa  justamente a atitude contra    tava perfeitamente ciente da evoluo do comu-
a qual quero lutar." Portanto, foi no exato mo-     nismo* sovitico. Evocando o enfraquecimen-
mento em que se preparava para refletir sobre a     to do sentimento religioso, causa primordial da
natureza da psicologia das massas, sobre a fun-     diminuio da intolerncia e da crueldade ou-
o dos chefes, dos lderes e de outros persona-    trora demonstradas pela Igreja, ele escreveu:
gens supostamente "carismticos", que Freud         "Quando outra ligao de massa surge em lugar
foi levado a se recusar a ocupar esse lugar. A      da ligao religiosa, como hoje parece estar
coincidncia merece ser frisada, mesmo que          sucedendo com a ligao socialista [sozialis-
devamos lembrar a esse respeito que, a Fritz        tischen], da decorre, para com os que esto fora
Wittels*, que postulava a existncia de uma         dela, a mesma intolerncia da poca das lutas
relao entre a morte da filha de Freud (Sophie     religiosas (...)."
Halberstadt*) e a redao de Mais-alm do               Observe-se que os primeiros tradutores fran-
princpio de prazer*, Freud respondeu: "Proba-      ceses, Samuel Janklvitch e Angelo Hesnard,
bilidade nem sempre significa verdade."             utilizaram a expresso "partido extremista" pa-
     Os comentadores da Psicologia das massas,      ra traduzir o sozialistischen de Freud, enquanto
por outro lado, entregaram-se a interpretaes      Strachey, fiel nesse ponto ao texto original,
ambguas. No texto j citado, Lacan circunscre-     falou de socialistic tie [vnculo socialista]. Foi
veu numa frase definitiva o peso do procedi-        preciso esperar por 1981, data da nova traduo,
mento de Freud, nele identificando uma "des-        para que o leitor francs pudesse resgatar o
coberta sensacional", que antecipou "em pouco       sentido dessas linhas, escritas quase quinze
as organizaes fascistas que a tornaram pa-        anos antes da chegada dos nazistas ao poder.
tente". Pouco tempo depois, Jean-Bertrand               Todavia, qualquer que possa ter sido a forma
Pontalis retomou a seu modo a apreciao laca-      de regime poltico em que Freud pensou, sua
niana e falou de uma "primeira explicao psi-      insistncia em privilegiar o eixo vertical da
colgica -- antecipada -- do nazismo*".             relao com o chefe levou-o a desdenhar outros
616       psicologia das profundezas, crculos de trabalho de

modos de funcionamento do social e da poltica,             Free Press, Collier-MacMillan, 1968  Max Horkheimer
                                                            e Theodor Adorno, Dialtica do esclarecimento (N.
estudados sobretudo por Maurice Merleau-
                                                            York, 1944, Frankfurt, 1969), Rio de Janeiro, Jorge
Ponty (1908-1961) a partir das noes do im-                Zahar, 1985  Elias Canetti, Massa e poder (Hamburgo,
provvel e do incerto, e sobre as quais Myriam              1960), S. Paulo, Melhoramentos, 1983  Jean La-
Revault d'Allonnes, filsofa francesa, debru-               planche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psi-
                                                            canlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991,
ou-se recentemente.
                                                            2 ed.  Jacques Lacan, "A psiquiatria inglesa e a
    Em 1938, quando estudava o funcionamento                guerra" (1947), in A querela dos diagnsticos (Paris,
da famlia, constatando o declnio da imago*                1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989; Escritos
paterna na civilizao ocidental, Lacan j subli-           (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998 
nhava o carter caricatural da revalorizao des-           Jacques Le Rider, Modernit viennoise et crises de
                                                            l'identit, Paris, PUF, 1990  Ren Major, De l'lection,
sa imago na ideologia das organizaes fascis-              Paris, Aubier, 1986  Maurice Merleau-Ponty, Les Aven-
tas, as quais, segundo ele, colocavam a pulso              tures de la dialectique, Paris, Gallimard, 1955  Michel
de morte na base do vnculo social. E, sete anos            Plon, "Au-del et en de de la suggestion", Frnsie,
depois, por ocasio de uma viagem de estudos                8, 1989, 89-114  Jean-Bertrand Pontalis, Aprs Freud,
                                                            Paris, Gallimard, 1968  Myriam Revault d'Allonnes,
 Inglaterra, ele descobriu os trabalhos de Wil-            "De la panique comme principe du lien social", Les
fred Ruprecht Bion* e sua utilizao pelo exr-             Temps Modernes, 527, 1990, 39-55; "Le Doute de
cito ingls para consolidar sua unidade. Lacan              Merleau-Ponty", Les Temps Modernes, 531-3, vol.2,
se apercebeu, como escreveria lisabeth Rou-                1990, 551-68  lisabeth Roudinesco, Jacques Lacan.
                                                            Esboo de uma vida, histria de um sistema de pensa-
dinesco, de que "uma teoria do poder do grupo               mento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras,
sem chefe, fundamentada na prevalncia do                   1994  Carl E. Schorske, Viena fin-de-sicle (N. York,
eixo horizontal, era superior a uma teoria do               1981), S. Paulo, Companhia das Letras, 1990.
poder do chefe sobre o grupo, baseada no pri-
                                                             EU; HIPNOSE; PSICANLISE APLICADA; SUGES-
vilgio do eixo vertical". Nessa perspectiva, ele
                                                            TO ; TPICA.
explorou o funcionamento desse eixo horizon-
tal, um tanto negligenciado por Freud, para
mostrar que a liberdade inscrita nele decorria de           psicologia das profundezas,
uma temporalidade que deixa a cada sujeito a                crculos de trabalho de
possibilidade de tornar sua uma deciso lgica.              CARUSO, IGOR; INTERNATIONALE FDERATION
Essa possibilidade, por sua vez,  funo de um             DER ARBEITSKREISE FR TIEFENPSYCHOLOGIE;
tempo para compreender, tempo de meditao                  PSICOTERAPIA.
que antecede o momento de concluir, o da de-
ciso propriamente dita.
                                                            psicologia do eu
 Sigmund Freud e Karl Abraham, Correspondance,
1907-1926 (Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard, 1969 
                                                             EGO PSYCHOLOGY.
Sigmund Freud, Correspondance, 1873-1939 (Lon-
dres, 1960), Paris, Gallimard, 1966; "Sobre o narcisis-
mo: uma introduo" (1914), ESB, XIV, 89-122; GW, X,        psicologia do self
138-70; SE, XIV, 73-102; in La Vie sexuelle, Paris, PUF,
                                                             SELF PSYCHOLOGY.
1969, 80-105; "Luto e melancolia" (1915-1917), ESB,
XIV, 275-92; GW, X, 427-46; SE, XIV, 237-58; OC, XIII,
259-78; Mais-alm do princpio de prazer (1920), ESB,
XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69; SE, XVIII, 1-64; in Essais    psicologia individual, escola de
de psychanalyse, Paris, Payot, 1981, 41-115; Psicolo-        ADLER, ALFRED; PSICOTERAPIA.
gia das massas e anlise do eu (1921), ESB, XVIII,
91-184; GW, XIII, 73-161; SE, XVIII, 65-143; OC, XVI,
1-83; O eu e o isso (1923), ESB, XIX, 23-76; GW, XIII,
237-89; SE, XIX, 12-59; OC, XVI, 255-301  Paul-Lau-        psicopatologia
rent Assoun, "Freud et la politique", Pouvoirs, 11, 1981,   al. Psychopathologie; esp. psicopatologa; fr. psy-
155-81; L'Entendement freudien. Logos et Anank,            chopathologie; ing. psychopathology
Paris, Gallimard, 1984  Charles Bettelheim, Les Luttes
de classes en URSS, 1re priode: 1917-1923, Paris,
                                                               Esse termo foi utilizado, no fim do sculo
Seuil-Maspero, 1974  Ludwig Eidelberg (org.), Ency-        XIX, pela medicina, psicologia, psiquiatria e
clopedia of Psychoanalysis, N. York e Londres, The          psicanlise*, para designar os sofrimentos da
                                                           Psicopatologia da vida cotidiana, A      617

alma e, em termos mais amplos, os distrbios           Freud publicou na mesma revista seu artigo
do psiquismo humano, a partir de uma distino         sobre as "Lembranas encobridoras" e, depois
ou de um deslizamento dinmico entre o normal          disso, em 1901, um terceiro artigo, intitulado
e o patolgico, varivel conforme as pocas.           "Da psicopatologia da vida cotidiana" ("Zur
                                                       Psychopathologie des Alltagslebens"), ttulo
 ANTIPSIQUIATRIA; LOUCURA; PSICOLOGIA CLNI-           posteriormente dado ao volume que reuniu a
CA; PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA, A; PSI-
                                                       essncia dessas trs contribuies.
QUIATRIA DINMICA.
                                                           A psicopatologia da vida cotidiana cons-
                                                       titui, ao lado de A interpretao dos sonhos* e
                                                       Os chistes e sua relao com o inconsciente*,
Psicopatologia da vida cotidiana, A                    um trptico que Ernest Jones* agrupou sob a
Livro de Sigmund Freud*, publicado em 1901 sob         etiqueta de psicanlise aplicada*, com isso
o ttulo Zur Psychopathologie des Alltagslebens.       marcando uma diferena em relao a outros
Traduzido para o francs pela primeira vez por         textos da mesma poca, mais precisamente os
Samuel Janklvitch, em 1922, sob o ttulo Psycho-     dedicados  teoria e  clnica, como os Trs
pathologie de la vie quotidienne, e depois traduzi-    ensaios sobre a teoria da sexualidade* e o
do por Denis Messier sob o ttulo La Psychopatho-
                                                       relato do caso Dora (Ida Bauer*). A opo de
logie de la vie quotidienne. Traduzido para o ingls
                                                       Jones  justificvel, na medida em que esses trs
pela primeira vez em 1914, por Abraham Arden
Brill*, sob o ttulo Psychopathology of Everyday
                                                       livros comportam, efetivamente, caractersticas
Life, e depois por Alan Tyson, em 1960, como The
                                                       prprias da psicanlise aplicada.
Psychopathology of Everyday Life.                          Assim, ao optar por estudar fenmenos cor-
    Em sua biografia de Freud, Peter Gay se            riqueiros, como o sonho, o chiste ou os atos
indaga se o inventor da psicanlise*, para mar-        falhos, todos eles manifestaes psquicas que
car o "ponto de partida" de sua obra, no se           Jacques Lacan* chamaria de "formaes do
haveria sentido tentado a optar pela interpreta-       inconsciente", Freud pretendeu demonstrar, co-
o* desses fatos corriqueiros da vida cotidiana       mo lembrou repetidas vezes ao longo do livro,
que so os esquecimentos, os lapsos* e outros          que o campo de ao da psicanlise no podia
atos falhos*, em lugar da dos sonhos*. Na poca        limitar-se unicamente ao terreno da patologia.
mesma em que estava redigindo A interpreta-                Tratava-se igualmente de indicar, atravs do
o dos sonhos*, com efeito, Freud manifestou          estudo dos lapsos, esquecimentos e atos falhos,
um interesse crescente por esses fenmenos de          o domnio permanente do inconsciente* sobre
aparncia andina. Em 26 de agosto de 1898,            a totalidade da vida consciente. Com isso, Freud
numa carta a Wilhelm Fliess*, disse haver en-          lembrou que sua meta era, "precisamente, cha-
fim apreendido um "pequenino fato" de cuja             mar a ateno para as coisas que todo o mundo
natureza suspeitava j fazia muito tempo: o            conhece e compreende da mesma maneira, ou
esquecimento de um nome e sua substituio             seja, reunir fatos do dia-a-dia e submet-los a
"por algum elemento de um outro que se juraria         um exame cientfico. No vejo por que", pros-
ser o correto e que, sistematicamente, revela-se       seguiu, "haveramos de recusar a esse tipo de
errado". Entretanto, Freud deplorou no poder          saber, que  a cristalizao das experincias da
registrar publicamente essa observao. Um             vida cotidiana, um lugar entre as conquistas da
ms depois, rejubilou-se junto ao mesmo Fliess         cincia".
por "ainda poder explicar facilmente um segun-             Por fim, Freud sustentou a tese do determi-
do exemplo de esquecimento de nome", mas               nismo psquico absoluto, que abriu caminho
tornou a se interrogar: "Como e a quem tornar          para um uso ilimitado da prtica da interpreta-
tudo isso plausvel?" Passaram-se oito dias e ele      o*, contra o qual, mais tarde, ele procuraria
anunciou ter escrito um pequeno artigo sobre           levantar-se, recorrendo principalmente ao
esse exemplo: tratava-se do texto "O mecanis-          processo da construo.
mo psquico do esquecimento", publicado, no                A despeito das avaliaes negativas de
fim do ano de 1898, na revista Monatschrift fr        Freud sobre as primeiras verses de seu traba-
Psychiatrie und Neurologie. No ano seguinte,           lho, entre outras numa carta a Fliess de 8 de
618     Psicopatologia da vida cotidiana, A

maio de 1901, onde declarou esperar que o livro     lhe  fornecido por seu companheiro de viagem,
desagradasse ainda mais aos outros do que a ele     Freud no fica surpreso, mas faz questo de
mesmo, a Psicopatologia da vida cotidiana           investigar as razes de seu esquecimento. Lem-
recebeu, desde sua publicao, uma acolhida         bra-se ento de que, antes de evocar a Itlia com
favorvel do grande pblico. Objeto de 16 arti-     seu interlocutor, os dois haviam conversado
gos, em sua maioria elogiosos, nos quatro anos      sobre a mentalidade dos turcos da Bsnia-Her-
que se seguiram a seu lanamento, o livro foi       zegovina, em especial sobre sua resignao
reeditado a partir de 1907 e, na Frana*, comen-    diante do destino -- por exemplo, sua reao
tado por Henri Claude* em 1913, em L'Enc-          quando um mdico lhes anuncia que a situao
phale, por ocasio de sua quarta edio alem.      de um de seus parentes  desesperadora: "Herr
    A cada reedio, Freud, que desde 1908          [Senhor]",  mais ou menos o que eles dizem
vinha acumulando um nmero considervel de          nessa situao, "no falemos mais disso; sei
exemplos de esquecimentos e lapsos (referindo-      que, se fosse possvel salv-lo, o senhor o sal-
se a isso como sua "coleo"), acrescentava         varia." Freud observa que esses dois nomes,
novos casos ao texto inicial, uns fornecidos por    Bsnia e Herzegovina, assim como a palavra
colegas (Alfred Adler*, Carl Gustav Jung*,          Herr, tm lugar numa cadeia associativa entre
Victor Tausk*, Ernest Jones, Sandor Ferenczi*,      Signorelli-Botticelli e Boltraffio. O Bo de Bs-
Eduard Hitschmann*, Lou Andreas-Salom*,            nia encontra-se nos nomes dos dois pintores que
Otto Rank*, Hans Sachs*, Wilhelm Stekel*,           substituem o nome esquecido e procurado;
Theodor Reik*) e outros provenientes de lei-        quanto ao Herr, podemos encontr-lo em Her-
tores annimos.                                     zegovina, assim como, em sua traduo italiana,
    A psicopatologia da vida cotidiana divide-      em Signorelli. Para explorar as razes incon-
se em doze captulos, dedicados s diferentes       scientes desse esquecimento, Freud procede co-
formas de esquecimentos, lapsos, equvocos,         mo fizera ao analisar seus sonhos: esfora-se
descuidos e os mais variados atos falhos. Freud     por fazer associaes a partir do material
reconhece que essa diviso  essencialmente         manifesto. Lembra-se de ter pensado, ao longo
descritiva, havendo nos fenmenos estudados,        da conversa, num outro aspecto dos costumes
na realidade, uma unidade interna que  atestada    desses turcos da Bsnia: a importncia que eles
pelo livro inteiro. Alis, em suas Conferncias     do ao prazer sexual e seu desespero quando
introdutrias sobre psicanlise*, ele assinalaria   experimentam dificuldades nessa rea, aspecto
que essa unidade era evidenciada, na lngua         esse que Freud no quisera abordar com um
alem, pelo prefixo ver, comum a todas as pa-       desconhecido; ele se recorda tambm de haver
lavras designativas desses "acidentes": das Ver-    pensado, naquele momento, na notcia recebida
sagen (o esquecimento), das Versprechen (os         em Trafoi, no Tirol, de que um de seus pa-
lapsus linguae), das Vergreifen (o equvoco da      cientes, afetado por problemas sexuais incur-
ao), das Verlieren (o extravio de objetos) etc.   veis, havia-se suicidado. A proximidade entre
    O primeiro captulo, que versa sobre o es-      Trafoi e Boltraffio "obriga-me a admitir", es-
quecimento de nomes prprios, abre-se com um        creve Freud, "que, apesar de haver intencional-
exemplo que se tornou clebre e que fora objeto     mente desviado minha ateno, eu estava
do artigo de 1898 dedicado ao mecanismo ps-        sofrendo a influncia dessa reminiscncia". 
quico do esquecimento. Viajando com um              de se notar, nesse exemplo, a especificidade da
companheiro fortuito para uma cidade da Her-        lgica inconsciente que leva a substituir o nome
zegovina, Freud no mais consegue lembrar-se        de Signorelli pelo de um pintor da mesma na-
do nome de Luca Signorelli (1441-1523), o           cionalidade e da mesma poca, Boltraffio, o
autor dos afrescos da catedral de Orvieto que       qual contm os fonemas Trafoi, que remetem
representam os quatro "dias derradeiros". Em        aos temas da morte e da sexualidade*, recalca-
vez disso, vm-lhe  mente dois outros nomes        dos por Freud na conversa que antecedeu seu
de pintores, os de Sandro Botticelli (1467-1516)    esquecimento. "J no me  possvel ver no
e Giovanni Boltraffio (1441-1523), que ele sabe     esquecimento do nome Signorelli", escreve
serem incorretos. Quando o nome procurado           Freud, "um acontecimento acidental. Sou obri-
                                                       Psicopatologia da vida cotidiana, A      619

gado a ver nele o efeito de motivaes psqui-      reproduo houvesse esbarrado numa resistn-
cas. (...) Eu queria, na verdade, esquecer uma      cia*. Da a expresso lembrana encobridora,
outra coisa, e no o nome do mestre de Orvieto;     que pe em jogo,  maneira do que sucede nos
mas, entre essa `outra coisa' e o nome es-          sonhos, um mecanismo de deslocamento*.
tabeleceu-se um elo associativo, de tal sorte que       Uma aproximao da mesma ordem opera-
meu ato voluntrio errou o alvo e, contrariando     se na formao dos lapsos. A propsito destes,
minha vontade, esqueci o nome, quando queria        Freud evoca trabalhos anteriores que faziam do
intencionalmente esquecer a outra coisa". As-       lapso um processo de contaminao resultante
sim, segundo comenta Octave Mannoni*, "o            da proximidade e da semelhana entre duas
nome do pintor italiano, associado a certas         palavras, explicao esta muito prxima do me-
idias de morte e sexualidade recalcadas, foi       canismo de condensao* que ele evidenciara
arrastado junto com elas para o desejo incons-      em seu estudo dos sonhos. O lapso, por seus
ciente. Claro est que, em si mesmas, as idias     efeitos de hilaridade e siderao, por sua es-
de morte e sexualidade no tm esse efeito:         trutura, que  a de uma abreviao, apresenta
Freud no havia esquecido o tema dos afrescos,      afinidades com o chiste; como este e como o
nem os quatro dias derradeiros, dos quais a         sonho,  um instrumento precioso na anlise,
morte faz parte. E nem tampouco as histrias        uma ferramenta "cuja utilizao", escreve
sexuais turcas: o recalque no estava nisso (li-    Freud, "pode desfazer e suprimir os sintomas
gava-se  notcia recebida em Trafoi)".             neurticos".
    Freud enuncia ento as condies neces-             Numa das snteses recapitulativas de que o
srias para se falar no esquecimento no aciden-    livro  pontilhado, Freud observa que, "na tota-
tal de um nome, que so em nmero de trs: a        lidade dos casos, o esquecimento  motivado
tendncia a esquecer esse nome, a existncia de     por um sentimento desagradvel". E evoca en-
um recalque* relativamente recente e a pos-         to um conflito doloroso, ao mesmo tempo que
sibilidade de estabelecer uma associao exter-     deixa escapar uma artimanha de seu prprio in-
na entre o nome em questo e o objeto do            consciente. Com efeito, relata como, no vero
recalque. Entretanto, Freud no se distancia de     de 1901, esqueceu-se de que no fora ele, e sim
uma certa prudncia, esclarecendo, para encer-      Wilhelm Fliess*, quem havia enunciado a hip-
rar esse primeiro captulo, que nem todos os        tese da bissexualidade*. Ainda que,  evocao
casos de esquecimento de nomes prprios po-         dessa lembrana, Freud afirme haver-se torna-
dem ser situados na categoria ilustrada pelo        do "mais tolerante", nem por isso ele deixa de
esquecimento do nome de Signorelli.                 omitir nesse relato o nome de Fliess, falando de
    Quaisquer que sejam os exemplos conserva-       um "amigo" com quem diz ter tido "discusses
dos e a rubrica sob a qual Freud os arrola,        muito animadas sobre questes cientficas".
idntico o processo, que consiste em recorrer ao    Em 1904, a amizade com Fliess j no passava
mtodo das associaes livres para relacionar o     de uma lembrana distante, ainda que, em sua
contedo do esquecimento ou o objeto do ato         essncia, a gestao desse livro se houvesse
falho com um elemento recalcado.                    realizado no contexto daquela amizade. Talvez
    No quarto captulo, discorrendo sobre as        seja essa amizade desaparecida (ou os vestgios
lembranas infantis e as lembranas encobrido-      de culpa que sua destruio possa ter deixado)
ras*, Freud se refere a seu artigo de 1899,         que se manifesta no reaparecimento do nome
modificando-o flagrantemente. As primeiras          de Fliess, algumas pginas adiante, quando da
lembranas, ou as lembranas mais antigas,          evocao do esquecimento de um projeto an-
concernem, na maioria das vezes, a coisas se-       dino. Trata-se do reiterado esquecimento da
cundrias, ao passo que os acontecimentos im-       compra de uma coisa desejada, um papel mata-
portantes parecem no haver deixado nenhum          borro. Buscando as razes desse esquecimen-
vestgio na memria. Tudo se passa, observa         to, Freud  obrigado a reconhecer que, se escre-
Freud, como se houvesse, por intermdio de          ve a palavra mata-borro empregando o termo
uma lembrana andina, uma representao su-        alemo Lschpapier, ele utiliza, para denomi-
bstituta de outras impresses importantes, cuja     nar oralmente esse mesmo papel, a palavra ale-
620     Psicopatologia da vida cotidiana, A

m que  sinnima da primeira, Fliesspapier!       manifestaes provenientes de outrem, mas 
"Ora, Fliess", sublinha Freud, " o nome de um     incapaz de demonstrar uma perspiccia equiva-
de meus amigos de Berlim, nome este ao qual        lente no que concerne a seu prprio inconscien-
se associaram em meus pensamentos, nestes          te. O paranico, explica ainda Freud, projeta na
ltimos dias, idias e preocupaes dolorosas."    vida psquica dos outros o que acontece em sua
    Na medida em que os atos falhos, mais          prpria vida em estado inconsciente, e  por isso
rigorosamente qualificados de atos sintomti-      que d a impresso freqente de estar parcial-
cos, "exprimem algo de que o prprio autor do      mente certo.
ato no desconfia, e que em geral ele tem a            Desenvolvendo sua argumentao, Freud
inteno de guardar consigo, em vez de partici-    formula idias que mais tarde viria a corroborar
p-lo a outrem", podemos afirmar que, na ver-      em O futuro de uma iluso* e O mal-estar na
dade, eles so "atos bem-sucedidos", que tradu-    cultura*. A seu ver, o raciocnio que entra em
zem a realizao consumada de um desejo*           jogo na superstio  reencontrado nas concep-
inconsciente. s vezes, porm, os equvocos e      es mitolgicas do mundo e nas religies mo-
descuidos podem, por suas conseqncias,           dernas, que no so outra coisa, sublinha, seno
ultrapassar o registro do andino. E ento se      "uma psicologia projetada no mundo externo".
coloca a questo de saber se  possvel desco-     Freud acrescenta que "poderamos atribuir-nos
brirmos, atravs da anlise, alguma inteno       a tarefa de decompor, colocando-nos nesse pon-
inconsciente, quando esses atos geram conse-       to de vista, os mitos relativos ao paraso e ao
qncias cuja gravidade pode chegar ao ponto       pecado original, ao mal e ao bem,  imortalidade
de pr em risco a vida do sujeito. Quanto a esse   etc., e de traduzir a metafsica em metapsicolo-
aspecto, Freud mostra-se prudente e formula        gia*".
to-somente hipteses.                                 O paralelismo estabelecido entre os meca-
    A psicopatologia da vida cotidiana encerra-    nismos em ao nos atos falhos, de um lado, e
se com um captulo dedicado  questo do           nos sonhos, de outro, evidencia a inexistncia
determinismo, da crena e da superstio, temas    de uma diferena fundamental entre o homem
que Freud tornaria a evocar numa de suas confe-    neurtico e o homem normal. Assim, Freud 
rncias proferidas nos Estados Unidos* e reu-      levado a declarar que "todos somos mais ou
nidas num pequeno volume intitulado Cinco          menos neurticos", com isso sublinhando a
lies de psicanlise*. Freud assinala que o       proximidade, apontada pelo prprio ttulo do
determinismo psquico, que por antfrase ele       livro, entre o "patolgico" e o "cotidiano".
denomina de "acaso interno", para contrast-lo         Essa proximidade, bem como a ancoragem
com o "acaso externo", no qual as determi-         na vida do dia-a-dia,  que teriam motivado o
naes psquicas acham-se quase totalmente         projeto da Psicopatologia da vida cotidiana.
ausentes,  quase sempre objeto de um desco-       Sob esse aspecto, o livro , sem sombra de
nhecimento espontneo por parte do ser huma-       dvida, o que teria tido a recepo mais
no. O supersticioso, sublinha Freud, funciona      conforme ao esprito em que foi concebido.
s avessas: acredita no acaso interno, no acaso    Duas anedotas atestam esse fato. A primeira
psquico, com isso demonstrando que nada quer      concerne  elaborao do livro. Versa sobre o
saber das manifestaes de seu inconsciente,       erro do garom de um caf que esteve a ponto
mas se recusa a crer no acaso externo, conven-     de fazer Freud pagar uma despesa por um preo
cido que est de poder discernir intenes ou      mais alto do que o exibido. Ao mesmo tempo
relaes que comumente lhe so ocultadas.          em que cometia esse ato falho, o garom come-
Nesse sentido, a superstio constitui uma pro-    teu um segundo, um gesto desastrado que pro-
va a contrario de um conhecimento inconsci-        vocou a queda de uma moeda de valor equiva-
ente e recalcado da motivao dos atos falhos.     lente ao do aumento injustificado. Freud apon-
A superstio  o produto de uma inverso,         tou isso ao interessado, que desapareceu, confu-
comparvel, sob mais de um aspecto, ao modo        so, e depois voltou para pedir desculpas. Freud
de funcionamento do paranico, que rejeita         conta ento que deu ao empregado a soma
qualquer idia do acidental em se tratando das     excedente, a ttulo, segundo escreveu, "de sua
                                                                                            psicose       621

contribuio para a psicopatologia da vida co-             cura: esquizofrenia*, parania* e psicose manaco-
tidiana". A segunda anedota ilustra o sucesso do           depressiva*. A palavra surgiu na Frana* em 1869.
livro, que ultrapassou em muito o crculo dos                  Retomado por Sigmund Freud* como um con-
leitores especialistas: ela relata o prazer que            ceito a partir de 1894, o termo foi primeiramente
Freud sentiu quando, no navio que o conduzia               empregado para designar a reconstruo incon-
aos Estados Unidos, juntamente com Jung e                  sciente, por parte do sujeito*, de uma realidade
                                                           delirante ou alucinatria. Em seguida, inscreveu-
Ferenczi, descobriu um comissrio de bordo
                                                           se no interior de uma estrutura tripartite, na qual
imerso na leitura da Psicopatologia da vida
                                                           se diferencia da neurose, por um lado, e da perver-
cotidiana.
                                                           so*, por outro.
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse               Se o conceito de neurose  parte integrante
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; A interpretao dos
sonhos (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE,
                                                           do vocabulrio da psicanlise*, o da psicose
IV-V, 1-621; Paris, PUF, 1967; "O mecanismo psquico       aparece, a princpio, como um anexo prove-
do esquecimento" (1898), ESB, III, 317-32; GW, I,          niente do saber psiquitrico e adequado a uma
517-27; SE, III, 287-97; OC, III, 241-51; "Lembranas      medicina manicomial, pautada numa concep-
encobridoras" (1899), ESB, III, 333-58; GW, I, 529-54;
                                                           o do sujeito* que se organiza em torno da
SE, III, 299-322; OC, III, 253-76; A psicopatologia da
vida cotidiana (1901), ESB, VI; GW, IV; SE, VI; Paris,     idia de alienao e perda da razo.
Gallimard, 1997; Os chistes e sua relao com o                Nascida de uma escuta "particular" do sofri-
inconsciente (1905), ESB, VIII; GW, VI, 1-285; SE, VIII;   mento humano, inventada por um homem que
Paris, Gallimard, 1988; Cinco lies de psicanlise
(1910), ESB, XI, 13-58; GW, VIII, 3-60; SE, XI, 7-55;
                                                           no era psiquiatra e que no gostava nem dos
OC, X, 1-55  Didier Anzieu, A auto-anlise de Freud e     psicticos, como ele mesmo diria a Istvan Hol-
a descoberta da psicanlise (Paris, 1959), P. Alegre,      los*, nem da loucura carcerria, a psicanlise
Artes Mdicas, 1989  Peter Gay, Freud: uma vida para      desenvolveu-se no terreno de uma medicina de
o nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo, Companhia
das Letras, 1995  Ernest Jones, A vida e a obra de
                                                           consultrio, na qual o dilogo secreto entre o
Sigmund Freud, 3 vols. (N. York, 1953, 1955, 1957),        terapeuta e o paciente primava sobre a preocu-
Rio de Janeiro, Imago, 1989  Norman Kiell, Freud          pao nosogrfica. Sob esse aspecto, a neurose
without Hindsight. Reviews of his Work 1893-1939,          histrica das mulheres da burguesia vienense
Madison, International Universities Press, 1988  Jac-
ques Lacan, Le Sminaire, livre V, Les Formations de
                                                           tratadas por Freud e Josef Breuer* em nada se
l'inconscient (1957-1958), indito  Marcelle Marini,      assemelhava  loucura histrica, muito prxima
Lacan: a trajetria de seu ensino (Paris, 1986), P.        da psicose, posta em cena por Jean Martin Char-
Alegre, Artes Mdicas  Octave Mannoni, Freud. Uma         cot* na Salptrire. Todavia, do ponto de vista
biografia ilustrada (Paris, 1968), Rio de Janeiro, Jorge
Zahar, 1994  Erik Porge, Se compter trois. Le Temps
                                                           doutrinal, as duas formas de doenas nervosas
logique de Lacan, Toulouse, Eres, 1989.                    foram catalogadas sob o rtulo de neurose.
                                                               Freud dedicava toda a sua ateno  neurose,
                                                           considerada curvel, em detrimento da psicose,
                                                           que ele julgava quase sempre incurvel. As trs
psicose
                                                           grandes anlises que ele efetivamente conduziu
al. Psychose; esp. psicosis; fr. psychose; ing. psy-
                                                           foram publicadas como casos de neurose --
chosis
                                                           neurose histrica em Dora (Ida Bauer*), neu-
Termo introduzido em 1845 pelo psiquiatra aus-             rose obsessiva* no Homem dos Ratos (Ernst
traco Ernst von Feuchtersleben (1806-1849) para           Lanzer*) e neurose infantil no Homem dos
substituir o vocbulo loucura* e definir os doentes        Lobos (Serguei Constantinovitch Pankejeff*)
da alma numa perspectiva psiquitrica. As psi-
                                                           --, enquanto seu nico estudo redigido sobre
coses opuseram-se, portanto, s neuroses*, consi-
                                                           um caso de psicose foi o comentrio de um
deradas como doenas mentais da alada da me-
dicina, da neurologia e, mais tarde, da psicotera-
                                                           livro, Memrias de um doente dos nervos, es-
pia*. Por extenso, o termo psicose designou ini-          crito por um homem tomado de parania*,
cialmente o conjunto das chamadas doenas men-             Daniel Paul Schreber*.
tais, fossem elas orgnicas (como a paralisia geral)           Freud soube desde cedo que sua doutrina do
ou mais especificamente mentais, restringindo-se           inconsciente* conquistaria o que ele chamava
depois s trs grandes formas modernas da lou-             de "terra prometida da psiquiatria", trazendo
622     psicose

uma nova viso da loucura e da organizao das     alteridade possvel). Ao lado da psicose, a neu-
doenas mentais. E foram seus discpulos psi-      rose surge como o resultado de um conflito
quiatras, em primeiro lugar Karl Abraham*, em      intrapsquico, enquanto a perverso se apresen-
Berlim, e Carl Gustav Jung*, em Zurique, que       ta como uma renegao* da castrao*.
se ocuparam desse campo, numa poca em que             Da herana de Kraepelin, portanto, Freud
a nosografia elaborada por Emil Kraepelin*         conservou a noo de parania, da qual fez o
ainda dominava o discurso psiquitrico de ln-     principal conceito de qualquer psicose, e mais
gua alem. Em seguida, seus herdeiros norte-       tarde aceitou, depois de hav-la recusado, a
americanos, ingleses, franceses e japoneses, de    definio bleuleriana da esquizofrenia, com
Melanie Klein* a Jacques Lacan*, passando por      uma restrio que o conduziu a situar os sinto-
Paul Federn* e Heisaku Kosawa*, levaram            mas dessa doena no quadro da histeria. Na
adiante uma escuta psicanaltica da loucura, de-   verdade, ao fornecer uma nova representao
pois de serem formados quer no mbito da cor-      da psicose, Freud renunciou a qualquer ambi-
rente berlinense, quer sob os auspcios da Cl-    o nosogrfica. Da o seguinte paradoxo: ele
nica do Burghlzli, dirigida pela famlia Bleu-    diferenciou criteriosamente a psicose das outras
ler*, quer ainda segundo os princpios da feno-    duas entidades (perverso e neurose), mas, ao
menologia psiquitrica proveniente dos traba-      mesmo tempo, apagou o abismo criado pela
lhos de Karl Jaspers (1883-1969) ou Ludwig         psiquiatria entre a norma e a patologia. Sandor
Binswanger*.                                       Ferenczi* caracterizaria de maneira notvel a
     na correspondncia de Freud com Jung         eliminao dessa distino, num texto de 1926
que melhor se apreende a maneira como foi          dedicado  contribuio da psicanlise para o
elaborada a doutrina freudiana da psicose, entre   movimento de higiene mental: "Foi a anlise da
1909 e 1911. Opondo-se a Eugen Bleuler*,           atividade psquica no sonho*", disse ele, "que
Freud escolheu a terminologia de Kraepelin,        fez desaparecer por completo o abismo entre
adotando a idia de uma dissociao da             doena mental e sade mental, at ento consi-
conscincia ( qual denominaria clivagem* do       derado intransponvel. O mais normal dos ho-
eu*), mas privilegiando o conceito de parania,    mens torna-se psictico durante a noite: tem
em oposio  noo de esquizofrenia. A partir     alucinaes, e sua personalidade, tanto no plano
da, ele fez da parania uma espcie de modelo     lgico quanto no tico e no esttico, sofre uma
estrutural da psicose em geral, assim como fi-     transformao fundamental, assumindo, de mo-
zera da histeria o prottipo da neurose no sen-    do geral, um carter mais primitivo."
tido psicanaltico. Em 1911, no momento em             Durante cinqenta anos, os herdeiros de
que Bleuler publicava sua grande obra, Demen-      Freud fariam questo de revisar a totalidade de
tia praecox, Freud lanou suas "Notas psicana-     sua doutrina, ora insistindo, como Lacan, no
lticas sobre um relato autobiogrfico de um       lugar da paternidade na gnese da psicose, ora,
caso de parania (Dementia paranoides)". Pois      ao contrrio, como Melanie Klein, situando a
bem, nesse estudo, ele enunciou uma teoria         origem dela numa relao arcaica com a me.
quase completa do mecanismo do conhecimen-             A partir da dcada de 1960, a reflexo sobre
to paranico, que lhe serviu para definir a psi-   a natureza da loucura preponderou sobre a abor-
cose como um distrbio entre o eu e o mundo        dagem da doena mental em termos de psicose.
externo. Em seguida, no contexto de sua segun-     Disso do testemunho, em especial, os traba-
da tpica* e havendo elaborado uma nova teoria     lhos de Michel Foucault (1926-1984), Henri F.
do narcisismo*, Freud inscreveu a psicose nu-      Ellenberger*, Georges Devereux* e diversos
ma estrutura tripartite, opondo-a  neurose, de    representantes do movimento culturalista e
um lado, e  perverso*, de outro. Ela foi ento   antipsiquitrico.
definida como a reconstruo de uma realidade
alucinatria na qual o sujeito fica unicamente      Sigmund Freud, "Sobre o narcisismo: uma introdu-
                                                   o" (1914), ESB, XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV,
voltado para si mesmo, numa situao sexual        73-102; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 80-105;
auto-ertica: toma literalmente o prprio corpo    "Neurose e psicose" (1924), ESB, XIX, 189-98; GW,
(ou parte deste) como objeto de amor (sem          XIII, 387-91; SE, XIX, 149-53; OC, XVII, 1-9; "A perda
                                                                         psicossomtica, medicina         623

da realidade na neurose e na psicose" (1924), ESB,         moderno da psicose em geral. Caracteriza-se por
XIX, 229-38; GW, III, 363-8; SE, XIX, 183-7; OC, XVII,     perturbaes do humor, que assumem a forma de
35-43  Sigmund Freud e Karl Abraham, Correspon-           uma alternncia entre estados de agitao mana-
dance, 1907-1926 (Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard,
                                                           ca (ou exaltao) e estados melanclicos (tristeza
1969  Freud/Jung: correspondncia completa (Paris,
1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993  Eugen Bleuler,        e depresso).
Dementia praecox ou groupe des schizophrnies                 O mdico ingls Thomas Willis (1621-
(Leipzig, 1911), Paris, EPEL-GREC, 1993  Sandor           1675) foi o primeiro a ligar duas formas de
Ferenczi, "A importncia de Freud para o movimento
da higiene mental" (1926), in Psicanlise III, Obras
                                                           loucura j descritas desde a Antigidade -- a
completas, 1919-1926 (Paris, 1974), S. Paulo, Martins      mania e a melancolia* -- para definir um ciclo
Fontes, 1993, 389-92  Richard Hunter e Ida Macal-         manaco-depressivo, o que ento permitiu reu-
pine, Three Hundred Years of Psychiatry, Oxford, Ox-       nir numa mesma doena mental a mania e a
ford University Press, 1963  Franz Alexander e S. T.      melancolia. Em 1852, o alienista francs Jean-
Selesnick, Histoire de la psychiatrie (N. York, 1966),
Paris, Armand Colin, 1972  Jean Laplanche e Jean-         Pierre Falret (1794-1870) deu o nome de lou-
Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris,      cura circular a essa entidade nica e, em 1899,
1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Henri F.   Emil Kraepelin* designou por loucura manaca
Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'inconscient    depressiva essa loucura circular, que iria trans-
(N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris,
Fayard, 1994; Mdecines de l'me. Essais d'histoire
                                                           formar-se, no quadro de uma nosografia geral
de la folie et des gurisons psychiques, Paris, Fayard,    das psicoses, na psicose manaco-depressiva.
1995  Jacques Lacan, O Seminrio, livro 3, As psi-           A gnese da noo de psicose manaco-
coses (1955-1956) (Paris, 1981), Rio de Janeiro, Jorge     depressiva na nosografia psiquitrica e na cl-
Zahar, 1988, 2a. ed.  Paul Bercherie, Os fundamentos
da clnica (Paris, 1980), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
                                                           nica psicanaltica, de Sigmund Freud* a Mela-
1989  Jacques Postel e Claude Qutel, Nouvelle            nie Klein*, passando por Ludwig Binswanger*,
histoire de la psychiatrie (1983), Paris, Dunod, 1994     prende-se  histria geral da melancolia.
Jackie Pigeaud, La Maladie de l'me, Paris, Les Belles
Lettres, 1989  Georges Lantri-Laura, "Nvrose et          POSIO DEPRESSIVA/POSIO ESQUIZO-PARA-
psychose: questions de sens, questions d'histoire",        NIDE; SUICDIO.
Autrement, 117, outubro de 1990, 23-31  Jean Gar-
rab, Histoire de la schizophrnie, Paris, Seghers,
1992  Gladys Swain, Dialogue avec l'insens, Paris,
Gallimard, 1994  Thierry Vincent, "Pendant que Rome
brle". La Clinique psychanalytique de la psychose de
                                                           psicossntese
Sullivan  Lacan, Estrasburgo, Arcanes, 1996  Daniel      al. Psychosynthese; esp. psicosntesis; fr. psycho-
Paul Schreber, Memrias de um doente dos nervos, S.        synthse; ing. psychosynthesis
Paulo, Paz e Terra, 1995.
                                                               Termo criado em 1907 pelo psiquiatra suo
 ALEMANHA; ANTIPSIQUIATRIA; AUTISMO; BOR-                  Doumeng Bezzola (1868-1936) e, em 1926,
DERLINE; CULTURALISMO; ESTADOS UNIDOS;                     institucionalizado pelo psiquiatra italiano Ro-
ETNOPSICANLISE; FLIESS, WILHELM; FORACLU-                 berto Assagioli (1888-1966), no mbito do Ins-
SO; FRANA; HISTRIA DA PSICANLISE; MELAN-               tituto de Cultura e Terapia Psquica de Roma,
COLIA; NOME-DO-PAI; PSICANLISE DE CRIANAS;               para designar uma variedade de psicoterapia*
PSICOTERAPIA INSTITUCIONAL; PSIQUIATRIA DIN-              pautada numa concepo integral e dinmica do
MICA; REALIDADE PSQUICA; SULLIVAN, HARRY                  ser humano, e que no leva em conta os trs
STACK.                                                     conceitos freudianos em torno dos quais se
                                                           organiza a psicanlise*: inconsciente*, sexua-
                                                           lidade* e transferncia*. O termo foi igual-
psicose manaco-depressiva                                 mente reivindicado, em 1924, pelo mdico sue-
                                                           co Poul Bjerre*.
al. manio-depressive Psychose; esp. psicosis ma-
niaco-depresiva; fr. psychose maniaco-dpressive;
ing. manic-depressive psychosis
Termo cunhado pelo saber psiquitrico do incio            psicossomtica, medicina
do sculo XX, a partir dos termos psicose*, mania          al. psychosomatische Medizin; esp. medicina psi-
e depresso, para designar, ao lado da parania* e         cosomtica; fr. mdecine psychosomatique; ing.
da esquizofrenia*, o terceiro grande componente            psychosomatic medicine
624      psicoterapia

    Nascida com Hipcrates, a medicina psicos-        aperfeioado pelo alienista francs Philippe Pi-
somtica concerne simultaneamente ao corpo e          nel (1745-1826), e do tratamento magntico
ao esprito e, mais especificamente,  relao        inventado por Franz Anton Mesmer*. No pri-
direta entre o soma e a psych. Descreve a            meiro caso, o mdico recorre, no doente, a um
maneira como as doenas orgnicas so provo-          "resto de razo" atravs do qual uma conscin-
cadas por conflitos psquicos, em geral incons-       cia alienada escapa  loucura*, e no segundo,
cientes.                                              ele atribui  existncia de um "fluido" (ou mag-
    Na histria da psicanlise*, diversas cor-        netismo animal) a causa do distrbio psquico.
rentes de medicina psicossomtica desenvolve-             Em 1784, o marqus Armand de Puysgur
ram-se no mundo, inicialmente com Georg               (1751-1825) foi o primeiro a demonstrar a na-
Groddeck*, seu principal inspirador, e depois         tureza psicolgica e no fludica da relao
em torno de Franz Alexander* (Escola de Chi-          teraputica, ao substituir o tratamento magnti-
cago), nos Estados Unidos*, Alexander Mit-            co por um estado de "sono acordado" ou sonam-
scherlich*, na Alemanha, e Pierre Marty (1918-        bulismo, que o mdico escocs James Braid
1993) e Michel de M'Uzan, na Frana* (Escola          (1795-1860) denominaria de hipnose* em
de Paris).                                            1843. Depois disso, foi Bernheim quem subs-
    Enquanto a psiquiatria (campo das doenas         tituiu o hipnotismo (como mtodo de hipnoti-
mentais) serviu de trampolim para a implanta-         zao) pela sugesto, abrindo assim caminho
o das teorias psicanalticas concernentes s        para a idia de uma terapia fundamentada numa
psicoses*, foi atravs da chamada medicina            pura relao psicolgica.
psicossomtica, com freqncia, que a clnica             Abandonando a hipnose, a sugesto e a ca-
freudiana se introduziu na medicina (geral ou         tarse, e depois dando o nome de transferncia*
especializada), em particular nos grandes servi-       relao entre o mdico e o doente, Sigmund
os hospitalares (hematologia, urologia, cance-       Freud* aperfeioou, com a psicanlise*, o ni-
rologia geral, unidades especializadas em AIDS        co mtodo moderno de psicoterapia baseado
etc.) onde a abordagem psicanaltica  indis-         numa explorao do inconsciente* e da sexua-
pensvel ao tratamento dos problemas psqui-          lidade* (libido*), considerados como os dois
cos (especficos ou no) dos sujeitos (crianas       grandes universais da subjetividade humana.
ou adultos) atingidos por doenas orgnicas           No plano clnico, ele  tambm o nico a reivin-
crnicas ou agudas.                                   dicar a transferncia como fazendo parte dessa
 HISTERIA; PULSO.                                    universalidade e a propor que ela seja analisada
                                                      no prprio interior do tratamento, como prot-
                                                      tipo de qualquer relao de poder entre o tera-
psicoterapia                                          peuta e o paciente e, portanto, entre um profes-
al. Psychotherapie; esp. psicoterapia; fr. psycho-    sor e um aluno. Sob esse aspecto, a psicanlise
thrapie; ing. psychotherapy                           herdeira de uma tradio socrtica e platnica
Mtodo de tratamento psicolgico das doenas
                                                      da filosofia. Nessa perspectiva, a psicoterapia
psquicas que utiliza como meio teraputico a re-
                                                      analtica (ou psicanaltica)  uma psicoterapia
lao entre o mdico e o paciente, sob a forma de     que se apia nos princpios tericos da anlise
uma relao ou de uma transferncia*. O hipnotis-     freudiana, sem adotar todas as condies da
mo, a sugesto*, a catarse*, a psicanlise* e todos   tcnica psicanaltica* clssica.
os mtodos teraputicos prprios da histria da           Desde seu nascimento, a psicanlise viu-se
psiquiatria dinmica* esto includos na noo de     em conflito, em todos os pases do mundo, com
psicoterapia.                                         as outras formas de psicoterapia, fosse por se
   A palavra psicoterapia como tal generali-          haver amalgamado com estas a ponto de des-
zou-se no vocabulrio clnico a partir de 1891,       aparecer como tal, fosse por lhes haver oposto
quando Hippolyte Bernheim* publicou Hipno-            uma forte resistncia, provocando cises ou
tismo, sugesto e psicoterapia.                       dissidncias. As outras duas grandes escolas da
   Historicamente, a psicoterapia nasceu, ao          psicoterapia do sculo XX so a escola de psi-
mesmo tempo, do antigo "tratamento moral",            cologia analtica fundada por Carl Gustav
                                                                                   psicoterapia        625

Jung* e a escola de psicologia individual fun-      nizadas segundo o mesmo modelo. Com efeito,
dada por Alfred Adler*, ambas nascidas de           com a morte do mestre, a maioria dos terapeutas
dissidncias com a escola fundada por Freud.        formados em seu serralho se dispersa, quer para
    As outras escolas de psicoterapia do sculo     criar novas escolas, cada qual dotada de um
XX nasceram, de um modo geral, do molde             novo mestre, novas tcnicas e novos mtodos,
freudiano. Tm como ponto em comum rejeitar         quer para se ligar a escolas j existentes.
os trs grandes conceitos freudianos: o incons-         Dentre os principais representantes das ml-
ciente*, a sexualidade* e a transferncia. Ao in-   tiplas escolas de psicoterapia, alguns tiveram
consciente freudiano elas opem um subcons-         um impacto importante, ligado  fora de sua
ciente de natureza biolgica ou uma conscin-       doutrina, como Wilhelm Reich*, Karen Hor-
cia de tipo fenomenolgico;  sexualidade no        ney*, Jacob Levy Moreno*, o criador do psico-
sentido freudiano, preferem uma teoria cultura-     drama*, ou ainda o norte-americano Carl Ro-
lista da diferena sexual*, ou ento, uma biolo-    gers (1902-1987), inventor da chamada anlise
gia dos instintos; e por fim, opem  transfern-   no diretiva, que procura livrar o eu* de todos
cia uma relao teraputica derivada da relao     os seus aspectos psicopatolgicos atravs de
de sugesto. Da a tentao permanente do re-       entrevistas informais. A estes juntam-se os
torno ao hipnotismo. Ligam-se a esse tronco         culturalistas inspirados no neofreudismo*
originrio do hipnotismo e da sugesto, por um      (Abram Kardiner*, Erich Fromm*), a escola de
lado, o chamado mtodo do "sonho acordado           Palo Alto -- onde se firmaram, sob a liderana
dirigido", inventado em 1945 pelo mdico fran-      do antroplogo Gregory Bateson*, as primeiras
cs Robert Desoille (1890-1966), e que deu ori-     experincias de terapia de famlia* -- e a tera-
gem a um movimento, o Groupe International          pia de grupo propriamente dita, com suas ml-
du Rve veill Dirig de Desoille [Grupo           tiplas variantes; seus principais representantes,
Internacional do Sonho Acordado Dirigido de         na histria do freudismo*, foram Trigant Bur-
Desoille] (GIREDD), e, por outro lado, a nar-       row* e Wilfred Ruprecht Bion*.
co-anlise, ou mtodo de explorao do psi-             Outros terapeutas, em contrapartida, desta-
quismo atravs da injeo de barbitricos que       caram-se mais por sua extravagncia do que
provocam um estado de sonolncia. Praticada a       pela qualidade de sua doutrina:  o caso de Poul
partir de 1932 e reativada depois da Segunda        Bjerre*, por exemplo, ou de Harry Stack Sulli-
Guerra Mundial, a narco-anlise no  exclusi-      van*, um brilhante psiquiatra dissidente de to-
vamente da alada do tratamento psquico, uma       das as escolas, simultaneamente culturalista e
vez que junta a este uma farmacologia e uma         defensor de uma abordagem original da esqui-
investigao quase policial do inconsciente do      zofrenia*. Convm tambm notar que dois co-
sujeito.                                            laboradores do Instituto Gring, Harald
    Todas as escolas de psicoterapia do sculo      Schultz-Hencke* e Johannes Heinrich
XX -- havia no mundo 500 delas em 1995 --           Schultz*, deram incio a duas correntes de psi-
so identicamente organizadas. Sejam elas nas-      coterapia: a neopsicanlise, no caso do primei-
cidas de dissidncias, cises ou separaes do      ro, e o training autgeno ou mtodo de relaxa-
freudismo, todas so representadas por um l-       mento, no do segundo.
der, que serve simultaneamente de promotor da
                                                     Hippolyte Bernheim, Hypnotisme, suggestion, psy-
cura, terapeuta e mestre pensante para seu gru-     chothrapie (1891), Paris, Fayard, col. "Corpus des
po. Criadas por homens ou mulheres que tm,         oeuvres de philosophie en langue franaise", 1995 
cada um deles, uma doutrina prpria, e que, tal     Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'in-
como Freud, colocam-se em vida como fun-            conscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
                                                    1974), Paris, Fayard, 1994  Lon Chertok e Raymond
dadores de um sistema de pensamento, essas          de Saussure, Naissance du psychanalyste, Paris,
escolas em geral desaparecem aps a morte de        Payot, 1973  Gladys Swain, Dialogue avec l'insens,
seus fundadores, dos quais, ento, resta apenas     Paris, Gallimard, 1994.
a obra. Se, vez por outra, transmitem uma tra-
dio clnica, elas freqentemente desapare-         ANLISE DIRETA; ANLISE EXISTENCIAL; AN-
cem, deixando espao para outras escolas orga-      LISE TRANSACIONAL; ANNAFREUDISMO; CARUSO,
626     psicoterapia existencial

IGOR; GESTALT-TERAPIA; HISTRIA DA PSICAN-          da em que deslanchou em 1940, em plena resis-
LISE; INTERNATIONAL PSYCHOANALYTICAL AS-             tncia antinazista e, portanto, no cerne de um
SOCIATION; KLEINISMO; LACANISMO.                     engajamento poltico para o qual o tratamento
                                                     da loucura estava associado a uma luta contra a
                                                     barbrie e a tirania. Por isso, ela foi, desde o
psicoterapia existencial                             incio, menos reformista do que as outras cor-
 ANLISE EXISTENCIAL; BINSWANGER, LUDWIG;            rentes, alem, inglesa, sua ou norte-america-
CARUSO, IGOR.                                        na.
                                                         Nascido em Reus, na Catalunha, Franois
                                                     Tosquelles (1912-1994), um militante libert-
psicoterapia institucional
                                                     rio, foi o primeiro inspirador desse movimento.
Expresso criada em 1952 pelo psiquiatra francs
                                                     Depois de fugir do franquismo, ele aceitou um
Georges Daumezon (1912-1979) para designar uma
teraputica da loucura* fundamentada na idia da
                                                     cargo no hospital psiquitrico de Saint-Alban,
causalidade psquica da doena mental (ou psico-     em Lozre, ento dirigido por Paul Balvet, um
gnese), e que visa reformar a instituio asilar,   psiquiatra catlico que logo foi substitudo, em
privilegiando uma relao dinmica entre os          1942, por Lucien Bonnaf, um psiquiatra
profissionais que prestam atendimento.               comunista. Ali se misturavam membros da
    Como seu nome indica, a psicoterapia ins-        Resistncia, loucos, terapeutas e intelectuais de
titucional  uma forma de psicoterapia* que se       passagem, dentre eles o filsofo Georges
exerce no mbito da instituio: hospital geral,     Canguilhem (1904-1995) e o poeta Paul luard
hospital psiquitrico, clnica, escola, hospital-    (1895-1952). Em meio  guerra, a esperana de
dia, apartamento teraputico etc. Sob esse as-       uma libertao prxima conduziu a equipe do
pecto, a psicoterapia institucional diz respeito    hospital a refletir sobre os princpios de uma
histria da psiquiatria dinmica*. A experincia     psiquiatria comunitria que permitisse transfor-
princeps foi a da Clnica do Burghlzli, em          mar as relaes entre os terapeutas e os loucos
Zurique, no incio do sculo XX. Nesse local,        no sentido de uma abertura maior para o mundo
que se tornou lendrio, Eugen Bleuler* elabo-        da loucura. Assim se inventou a psicoterapia
rou, em contato com Carl Gustav Jung* e              institucional francesa, nome este que lhe seria
Sigmund Freud*, uma nova abordagem din-             dado dez anos depois por Georges Daumezon.
mica da loucura* (ou esquizofrenia*). Aps a             Por seu esteio na psiquiatria dinmica e por
criao das primeiras clnicas psicanalticas        sua rejeio dos hospcios rgidos, ela partici-
alems por Georg Simmel* e Max Eitingon*,            pou do grande movimento de higiene mental
desenvolveram-se mltiplas experincias desse        que nasceu, no incio do sculo, da integrao
gnero, em especial nos Estados Unidos* e na         da clnica psiquitrica com a psicanlise. Ins-
Gr-Bretanha*, onde a psicanlise* se implan-        pirou numerosas experincias na Frana, em
tou no campo da psiquiatria e da higiene mental,     especial a da psiquiatria setorial e, mais tarde, a
bem como atravs de locais de atendimento
                                                     da clnica de La Borde, em Cour-Cheverny, a
abertos a todos os doentes mentais, tais como a
                                                     partir de 1953, onde se elaborou, em torno de
Menninger Clinic ou a Tavistock Clinic.
                                                     Jean Oury e Flix Guattari*, uma abordagem ao
    Aps a Segunda Guerra Mundial, a liberali-
                                                     mesmo tempo lacaniana e libertria da loucura.
zao generalizada da instituio psiquitrica
deu origem a numerosos movimentos de
                                                      Georges Daumezon, "La Psychothrapie ins-
contestao dos manicmios, desde a experin-        titutionnelle franaise contemporaine", Anais Portu-
cia das comunidades teraputicas criadas pelo        gueses de Psiquiatria, 4, dezembro de 1952  Georges
psiquiatra anglo-americano Maxwell Jones             Lantri-Laura, Georges Daumezon e Robert Lefort,
(1907-1990), onde foram experimentadas no-           "Psychiatrie", Encyclopaedia universalis, vol.13, Paris,
vas relaes hierrquicas entre terapeutas e         1968, 750-5  Robert Castel, Le Psychanalysme, Paris,
                                                     Minuit, 1973  Franois Tosquelles, ducation et psy-
doentes, at a antipsiquiatria*.                     chothrapie institutionnelle, Paris, Hiatus, 1984  lisa-
    Na Frana*, a psicoterapia institucional pas-    beth Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana,
sou por um desenvolvimento singular, na medi-        vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
                                                                          psiquiatria institucional       627

 ANTIPSIQUIATRIA; BETTELHEIM, BRUNO; BINS-                 Surgido em 1802, o termo psiquiatria gene-
WANGER, LUDWIG; BION, WILFRED RUPRECHT;                ralizou-se no incio do sculo XIX, em subs-
MENNINGER, KARL; MEYER, ADOLF; RICKMAN,                tituio  antiga medicina alienista, da qual
JOHN; SUA; SULLIVAN, HARRY STACK.                    Philippe Pinel (1745-1826), fundador francs
                                                       do manicmio moderno, fora um dos grandes
                                                       representantes na era clssica, ao lado de Wil-
psiquiatria                                            liam Tuke (1732-1822), na Inglaterra, e Benja-
 BINSWANGER, LUDWIG; BLEULER, EUGEN; DE-               min Rush (1746-1813), nos Estados Unidos*.
LAY, JEAN; ELLENBERGER, HENRI F.; EY, HENRI;               Como ramo da medicina, a psiquiatria tor-
KRAEPELIN, EMIL; LOUCURA; PSICOSE; PSICOTE-            nou-se, no correr dos anos e em todos os pases
RAPIA INSTITUCIONAL; PSIQUIATRIA DINMICA.
                                                       do mundo nos quais foi implantada, em lugar
                                                       da demonologia, da feitiaria e das diversas
                                                       tcnicas xamansticas, uma disciplina es-
psiquiatria colonialialista                            pecfica que tem por objeto o estudo, o diagns-
 ANTROPOLOGIA; ETNOPSICANLISE; FANON,                 tico e o tratamento do conjunto das doenas
FRANTZ; HISTRIA DA PSICANLISE; NDIA; LAFOR-         mentais.
GUE, REN; MANNONI, OCTAVE.
                                                           Quanto  psicologia, depois de haver cons-
                                                       titudo um ramo da filosofia dedicado ao estudo
                                                       da alma, ela se transformou, no sculo XIX,
psiquiatria dinmica
                                                       numa disciplina fragmentada, ora ligada  bio-
al. dynamische Psychiatrie; esp. psiquiatra dinmi-
                                                       logia, ora  fisiologia, ora  medicina (psiquia-
ca; fr. psychiatrie dynamique; ing. dynamic psychia-
                                                       tria, neurologia), ora, ainda, s chamadas cin-
try
                                                       cias "sociais". Como saber ensinado nas univer-
    Inicialmente utilizado por Gregory Zil-
                                                       sidades do mundo inteiro, tornou-se, na segun-
boorg*, em 1941, e depois por Henri F. Ellen-
                                                       da metade do sculo XX, juntamente com a
berger*, o termo psiquiatria dinmica  empre-
                                                       psiquiatria e a medicina, uma das principais
gado pelos historiadores, de um modo geral,
                                                       vias de acesso s diferentes prticas teraputi-
para designar o conjunto das escolas e correntes
                                                       cas transmitidas pelas escolas de psiquiatria
que se interessam pela descrio e pela terapia
                                                       dinmica, dentre elas a psicanlise.
das doenas da alma (loucura*, psicose*), dos
nervos (neurose*) e do humor (melancolia*),
                                                        Gregory Zilboorg e George W. Henry, History of
segundo uma perspectiva dinmica, ou seja,             Medical Psychology, N. York, Norton, 1941  Georges
fazendo intervir um tratamento psquico ao lon-        Canguilhem, tudes d'histoire et de philosophie des
go do qual se instaura uma relao de transfe-         sciences, Paris, Vrin, 1968  Georges Lantri-Laura,
rncia* entre o mdico e o doente. Assim, in-          Georges Daumezon e Robert Lefort, "Psychiatrie", En-
                                                       cyclopaedia universalis, vol.13, Paris, 1968, 750-5 
cluem-se na psiquiatria dinmica todas as for-         Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'in-
mas de tratamento psquico que privilegiam a           conscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
psicognese e no a organognese das doenas           1974), Paris, Fayard, 1994  Jacques Postel, Gense
da alma e dos nervos, desde o magnetismo de            de la psychiatrie, Paris, Le Sycomore, 1981  Jan
                                                       Goldstein, Console and Classify, Cambridge, Cam-
Franz Anton Mesmer* at a psicanlise*, pas-           bridge University Press, 1987  Philippe Pignarre, Les
sando pelo hipnotismo* e pelas diversas psico-         Deux mdecines, Paris, La Dcouverte, 1995.
terapias*.
    Vista por esse prisma, a psiquiatria dinmica       FREUDISMO; PSICOLOGIA CLNICA; PSICOPATO-
relaciona-se, em primeiro lugar, com a psiquia-        LOGIA; PSICOSSOMTICA, MEDICINA; PSICOTERA-
tria, da qual toma emprestadas as classificaes       PIA INSTITUCIONAL; QUESTO DA ANLISE LEIGA,
e a clnica; em segundo, com a psicologia, que         A; TRANSFERNCIA.
postula um dualismo da alma e do corpo e
prope tcnicas de observao do sujeito*; e
finalmente, com a tradio dos antigos curan-
deiros, da qual pde emergir a prpria idia de        psiquiatria institucional
uma cura transferencial.                                PSICOTERAPIA INSTITUCIONAL.
628       psiquiatria (ou psicanlise) transcultural

psiquiatria (ou psicanlise)                                  mano como um sistema de pulses suscetveis
transcultural                                                 de entrarem em coliso ou se fundirem umas
 ANTROPOLOGIA; BATESON, GREGORY; COL-                         com as outras, e que tambm ele atribua um
LOMB, HENRI; CULTURALISMO; DEVEREUX, GEOR-                    papel essencial aos instintos sexuais, os quais
GES; ELLENBERGER, HENRI F.; ETNOPSICANLISE;                  distinguia dos instintos de agressividade e de
FANON, FRANTZ; NDIA; JAPO; KARDINER,                        autodestruio.
ABRAM; MANNONI, OCTAVE; MEAD, MARGARET;                           Freud nunca fez mistrio desses antece-
NEOFREUDISMO; ROHEIM, GEZA; WULF, SACHS.                      dentes. Em sua autobiografia de 1925, referiu-
                                                              se a Nietzsche e confessou s o haver lido muito
                                                              tardiamente, por medo de lhe sofrer a influn-
pulso                                                        cia.
al. Trieb, Instinkt; esp. pulsin; fr. pulsion; ing. drive,       Quer se trate de seu aparecimento, de sua
instinct                                                      importncia ou das reformulaes de que viria
Termo surgido na Frana* em 1625, derivado do                 a ser objeto, o conceito de pulso est estreita-
latim pulsio, para designar o ato de impulsionar.             mente ligado aos de libido* e narcisismo*, bem
    Empregado por Sigmund Freud* a partir de                  como s transformaes destes, constituindo
1905, tornou-se um grande conceito da doutrina                tais conceitos trs grandes eixos da teoria freu-
psicanaltica, definido como a carga energtica               diana da sexualidade.
que se encontra na origem da atividade motora do                  Na poca pr-psicanaltica da correspon-
organismo e do funcionamento psquico incon-                  dncia com Wilhelm Fliess* e do "Projeto para
sciente do homem.                                             uma psicologia cientfica" (1895), Freud desen-
    A escolha da palavra pulso para traduzir o               volveu a idia de uma libido psquica, forma de
alemo Trieb correspondeu  preocupao de                    energia que ele situou na origem da atividade
evitar qualquer confuso com instinto e ten-                  humana. J ento estabeleceu uma distino
dncia. Essa opo correspondia  de Sigmund                  entre esse "impulso", cuja origem interna o
Freud*, que, querendo marcar a especificidade                 tornava irrefrevel pelo indivduo, e as exci-
do psiquismo humano, preservou o termo Trieb,                 taes externas, das quais o sujeito* podia fugir
reservando Instinkt para qualificar os compor-                ou se esquivar. Nessa ocasio, Freud atribua a
tamentos animais. Em alemo como em francs                   histeria* a uma causa sexual traumtica, efeito
ou portugus, os termos Trieb e pulso reme-                  de uma seduo* sofrida na infncia.
tem, por sua etimologia,  idia de um impulso,                   A partir de 1897, data em que abandonou
independentemente de sua orientao e seu ob-                 essa teoria, Freud empenhou-se em reformular
jetivo. Quanto  traduo inglesa, parece que foi             sua concepo da sexualidade, mas manteve a
a fidelidade  idia freudiana de uma articulao             idia de que o recalque das moes sexuais era
da psicanlise* com a biologia que norteou a                  a causa de um conflito psquico que conduzia 
escolha que James Strachey* fez da palavra                    neurose*.
instinct, em lugar de drive.                                      Em 1898, a idia de uma sexualidade infantil
    A noo de pulso (Trieb) j est presente                tornou-se explcita. Assim, o texto "A sexuali-
nas concepes da doena mental e de seu                      dade na etiologia das neuroses" deu ensejo 
tratamento desenvolvidas pelos mdicos da psi-                refutao da tese de uma predisposio neuro-
quiatria alem do sculo XIX, preocupados,                    ptica particular, baseada na indicao de uma
como seus colegas ingleses e franceses, com a                 degenerescncia geral, e Freud insistiu no fato
questo da sexualidade*. Assim, autores como                  de que a etiologia da neurose no podia residir
Karl Wilhelm Ideler (1795-1860) ou Heinrich                   seno "nas experincias vividas na infncia e,
Wilhelm Neumann (1814-1884) insistem no                       mais uma vez -- em carter exclusivo --, nas
papel central das pulses sexuais, este ltimo                impresses concernentes  vida sexual. Erra-
considerando a angstia como produto da insa-                 se", disse ele, "ao desprezar por completo a vida
tisfao das pulses.                                         sexual das crianas; ao que eu saiba, elas so
    Por outro lado, sabemos que Friedrich                     capazes de todas as realizaes sexuais psqui-
Nietzsche (1844-1900) concebia o esprito hu-                 cas e de numerosas realizaes somticas." De-
                                                                                    pulso      629

pois de assinalar que essas experincias sexuais   tante no confundir com as pulses clas-
infantis s desenvolviam a essncia de sua ao    sificadas por categoria (cuja existncia Freud
em perodos posteriores da maturao, Freud        sempre rejeitou, como  atestado, por exemplo,
esclareceu: "No intervalo entre a experincia      por sua refutao da idia de uma pulso greg-
dessas impresses e sua reproduo (ou melhor,     ria em Psicologia das massas e anlise do eu*).
o reforo dos impulsos libidinais delas prove-     O carter sexual das pulses parciais, cuja soma
nientes), no apenas o aparelho sexual somtico    constitui a base da sexualidade infantil, define-
mas tambm o aparelho psquico passam por          se, num primeiro momento, por um processo de
um desenvolvimento considervel, e  por isso      apoio* em outras atividades somticas, ligadas
que da influncia dessas experincias sexuais      a determinadas zonas do corpo, as quais, dessa
precoces resulta, ento, uma reao psquica       maneira, adquirem o estatuto de zonas erge-
anormal, e aparecem formaes psicopatolgi-       nas. Assim, a satisfao da necessidade de nu-
cas."                                              trio, obtida atravs do sugar,  uma fonte de
   Em seguida, o material clnico acumulado        prazer, e os lbios se transformam numa zona
em suas anlises levou Freud a constatar que a     ergena, origem de uma pulso parcial. Num
sexualidade nem sempre aparecia explicita-         segundo momento, essa pulso parcial, cujo
mente nos sonhos* e nas fantasias*, surgindo,      carter sexual  assim ligado ao processo de
muitas vezes, sob disfarces que era preciso        erotizao da zona corporal considerada, sepa-
saber decifrar. Por isso ele foi levado a es-      ra-se de seu objeto de apoio para se tornar
tudar as aberraes, as perverses* sexuais e as   autnoma. Funciona ento de maneira auto-
origens da sexualidade, isto , a sexualidade      ertica. Esse registro do auto-erotismo* cons-
infantil.                                          titui a fase preparatria da instaurao do que
   Tal foi o propsito dos Trs ensaios sobre a    Freud chamaria, alguns anos depois, de narci-
teoria da sexualidade*, publicados em 1905.        sismo primrio, resultante da convergncia das
Foi na verso inicial desse livro que Freud        pulses parciais para o eu* inteiro, e no mais
recorreu pela primeira vez  palavra pulso.       apenas para uma zona corporal especfica. Pos-
Num trecho acrescentado em 1910, ele forne-        teriormente, a pulso sexual pode encontrar sua
ceu uma definio geral que, em sua essncia,      unidade atravs da satisfao genital e da fun-
no sofreria nenhuma modificao: "Por pul-        o da procriao.
so, antes de mais nada, no podemos designar          Nos Trs ensaios, Freud esboa uma dis-
outra coisa seno a representao psquica de      tino entre as pulses sexuais e as outras,
uma fonte endossomtica de estimulaes que        ligadas  satisfao de necessidades primrias.
fluem continuamente, em contraste com a es-        Cinco anos depois, em "A concepo psicana-
timulao produzida por excitaes es-             ltica da perturbao psicognica da viso",
pordicas e externas. A pulso, portanto,  um     enuncia seu primeiro dualismo pulsional, opon-
dos conceitos da demarcao entre o psquico e     do as pulses sexuais, cuja energia  de ordem
o somtico." Desde a primeira edio dos Trs      libidinal, s pulses de autoconservao, que
ensaios, o que est em pauta  essencialmente      tm por objetivo a conservao do indivduo:
a pulso sexual, cuja definio, por si s, d a   "Todas as pulses orgnicas atuantes em nossa
medida da revoluo que Freud imps               alma podem ser classificadas, seguindo as pa-
concepo dominante da sexualidade, fosse ela      lavras do poeta, como fome e amor." Essa clas-
a do senso comum ou a da sexologia*. Para          sificao no deve obscurecer o que contrasta
Freud, a pulso sexual, diferente do instinto      esses dois tipos de pulses, uma vez que as
sexual, no se reduz s simples atividades         pulses de autoconservao, tambm denomi-
sexuais que costumam ser repertoriadas com         nadas de pulses do eu, participam da defesa*
seus objetivos e seus objetos, mas  um impulso    do eu contra sua invaso pelas pulses sexuais.
do qual a libido constitui a energia.                  Num texto de 1911, "Formulaes sobre os
   Da infncia  puberdade, a pulso sexual no    dois princpios do funcionamento psquico",
existe como tal, mas assume a forma de um          Freud distribui esses dois grupos pulsionais de
conjunto de pulses parciais, as quais  impor-    acordo com as modalidades de funcionamento
630     pulso

do aparelho psquico: as pulses sexuais encon-     co e o somtico) da pulso, representante ps-
tram-se sob o domnio do princpio de prazer*,      quico das excitaes provenientes do corpo e
enquanto as de autoconservao ficam a servio      que chegam ao psiquismo. Em seguida, enume-
do desenvolvimento psquico determinado pelo        rou e definiu as quatro caractersticas da pulso.
princpio de realidade*.                            A "fora" ou "presso" constitui a prpria es-
    Em 1914, o desenvolvimento do conceito de       sncia da pulso e a situa como o motor da
narcisismo subverteu esse dualismo. A partir de     atividade psquica. O "alvo", isto , a satisfao,
suas prprias observaes sobre as psicoses* e      pressupe a eliminao da excitao que se
da leitura dos trabalhos de Eugen Bleuler*, Karl    encontra na origem da pulso; esse processo
Abraham* e Emil Kraepelin*, Freud constatou         pode comportar "alvos intermedirios" ou at
que, nessas formas patolgicas, estamos na pre-     fracassos, ilustrados pelas pulses -- chamadas
sena de uma retirada da libido dos objetos         de pulses "inibidas quanto ao alvo" -- que se
externos e de uma reverso dessa libido para o      desviam parcialmente de sua trajetria. O "ob-
eu, que assim se transforma, ele prprio, em        jeto" da pulso  o meio de ela atingir seu alvo,
objeto de amor. Essa reformulao freudiana,        e nem sempre lhe est originalmente ligado.
portanto, consistiu numa redistribuio das         (Alfred Adler*, citado por Freud, havia as-
pulses sexuais, por um lado colocadas no eu        sinalado isso ao falar do "entrecruzamento das
-- donde a denominao libido do eu (ou libido      pulses": um mesmo objeto pode servir, simul-
narcsica) -- e, por outro, nos objetos externos,   taneamente, para a satisfao de vrias pulses.)
donde a denominao libido objetal.                 Por ltimo, a "fonte" das pulses  o processo
    Aos poucos, essa nova concepo se imps.       somtico, localizado numa parte do corpo ou
Freud indicou explicitamente, em "Sobre o nar-      num rgo, cuja excitao  representada no
cisismo: uma introduo", que "a distino, na      psiquismo pela pulso.
libido, de uma parte que  prpria do eu e outra        Esse texto de 1915, porm, deu tambm
que se liga aos objetos constitui a conseqncia    ensejo a uma nova elaborao sobre o "devir
inevitvel de uma primeira hiptese que sepa-       das pulses sexuais". Freud conservou o dis-
rava entre si as pulses sexuais e as pulses do    positivo terico baseado no dualismo, mas ain-
eu".                                                da no avaliara a dimenso da mudana que
    Em 1914, ao que parece, Freud tentou aban-      estava efetuando e que conduziria  oposio
donar a concepo dualista em favor de um           entre libido do eu e libido do objeto. Por isso,
retorno a uma perspectiva monista, que o teria      escreveu: " sempre possvel que um estudo
aproximado da idia junguiana de libido origi-      aprofundado das outras afeces neurticas (so-
nria. Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis      bretudo das psiconeuroses narcsicas, as esqui-
observam que Freud s mencionou esse desvio         zofrenias*) nos obrigue a modificar essa formu-
depois de haver estabelecido, em 1920, um           lao e, ao mesmo tempo, a agrupar de outra
novo dualismo, opondo as pulses de vida s         maneira as pulses originrias. Por ora, entre-
pulses de morte. Na verdade, foi somente em        tanto, no conhecemos essa nova formulao
1923, em "Dois verbetes de enciclopdia: (A)        nem tampouco temos argumentos que possam
Psicanlise, (B) Teoria da libido", que ele evo-    contradizer nossa oposio entre as pulses do
cou esse momento de hesitao entre a hiptese      eu e as pulses sexuais."
dualista e a concepo monista.                         As pulses sexuais podem ter quatro des-
    Em 1915, no contexto de seu grande projeto      tinos: a inverso, a reverso para a prpria
de uma metapsicologia*, Freud procedeu, sob         pessoa, o recalque e a sublimao*. Nesse
o ttulo de "As pulses e suas vicissitudes", a     contexto, Freud abordou os dois primeiros des-
uma recapitulao dos conhecimentos adquiri-        tinos e deixou de lado a sublimao. Quanto ao
dos a propsito do conceito de pulso, o qual       recalque, dedicou-lhe um texto especfico em
ele esclareceu que, apesar de ser "ainda bastante   sua coletnea sobre a metapsicologia*.
confuso", nem por isso deixava de ser indis-            Discorrendo sobre a inverso da pulso em
pensvel "na psicologia". Freud relembrou, pri-     seu contrrio, ele distinguiu dois casos ilus-
meiramente, o carter limtrofe (entre o psqui-    trativos. No primeiro, exemplificado pela opo-
                                                                                     pulso      631

sio sadismo*/masoquismo* e voyeuris-              em seus estudos sobre o masoquismo. O es-
mo/exibicionismo, a inverso se efetua quanto       tabelecimento de uma relao entre essas obser-
ao alvo. O segundo, ilustrado pela transforma-      vaes e a constatao de ordem filosfica de
o do amor em dio, concerne  inverso do         que a vida  inevitavelmente precedida por um
contedo. Este ltimo exemplo d ensejo            estado de no-vida conduziu Freud  hiptese
observao de que o dio no pode ser reduzido      de que existe uma pulso cuja finalidade, como
unicamente  imagem invertida do amor. Sem          ele a exprimiu no Esboo de psicanlise*, "
dvida, h que se postular, a esse respeito, a      reconduzir o que est vivo ao estado inorgni-
existncia de uma configurao mais antiga do       co". A pulso de morte tornou-se, assim, o
que o amor, "arqutipo" do que viria a ser, na      prottipo da pulso, na medida em que a es-
pena de Freud, alguns anos depois, a pulso de      pecificidade pulsional reside nesse movimento
morte. A anlise da reverso da pulso para a       regressivo de retorno a um estado anterior. Mas
prpria pessoa permite a Freud discernir a rela-    a pulso de morte no poderia ser localizada ou
o entre o sadismo e o masoquismo, ento           sequer isolada, com exceo, talvez, como 
visto como a reverso de um sadismo origin-        esclarecido em O eu e o isso*, da experincia
rio. Em 1924, Freud transformaria radicalmente      da melancolia*. Por outro lado, Freud subli-
essa concepo, num texto intitulado "O pro-        nhou em 1933, nas Novas conferncias intro-
blema econmico do masoquismo".                     dutrias sobre psicanlise*, que a pulso de
    Em 1920, com a publicao de Mais-alm          morte no pode "estar ausente de nenhum
do princpio de prazer*, Freud instaurou um         processo de vida": ela se confronta permanen-
novo dualismo pulsional, opondo as pulses de       temente com Eros, as pulses de vida, reunio
vida s pulses de morte: a repercusso seria       das pulses sexuais e das pulses outrora agre-
imensa, tanto por seus efeitos no pensamento        gadas sob o rtulo de pulses do eu. "Da ao
filosfico do sculo XX quanto pelas polmicas      conjunta e oposta" desses dois grupos de
e pelas rejeies que essa tese provocaria no       pulses, pulses de morte e pulses de vida,
prprio mago do movimento psicanaltico.           "provm as manifestaes da vida, s quais a
    A particularidade dessa nova elaborao         morte vem pr termo."
conceitual residiu em seu carter especulativo,         A despeito das objees e da oposio,
freqentemente denunciado como uma falha            Freud nunca se deixaria impressionar. Perfeita-
redibitria por seus adversrios. Todavia, foi a    mente cnscio, como declarou em 1926 no
partir da observao da compulso  repetio*      verbete de enciclopdia intitulado "Psican-
que Freud pensou em teorizar aquilo a que           lise", de que "a doutrina das pulses  um
chamou pulso de morte. De origem inconsci-         campo obscuro, at mesmo para a psicanlise",
ente e, portanto, difcil de controlar, essa com-   ele reivindicou essa opacidade como uma
pulso leva o sujeito a se colocar repetitiva-      caracterstica da pulso. "A teoria das pulses
mente em situaes dolorosas, rplicas de ex-       , por assim dizer, nossa mitologia", afirmou
perincias antigas. Mesmo que no se possa          em 1933. "As pulses so seres mticos, porten-
eliminar qualquer vestgio de satisfao libidi-    tosos em sua impreciso."  compreensvel,
nal desse processo, o que contribui para torn-lo   portanto, que os crticos, que alegavam em
difcil de observar em estado puro, o simples       particular a falta de provas empricas para vali-
princpio de prazer no pode explic-lo.            dar a existncia de uma pulso de morte, hajam-
    Assim, Freud reconheceu um carter "de-         lhe parecido incoerentes e o tenham levado a
monaco" nessa compulso  repetio, que           afirmar, em O mal-estar na cultura*: "J no
comparou  tendncia  agresso reconhecida         compreendo que possamos continuar cegos pa-
por Adler em 1908. Naquela poca, entretanto,       ra a ubiqidade da agresso e da destruio no
ele se recusara a lev-la em conta, embora a        erotizadas, deixando de lhes conceder o lugar
anlise do Pequeno Hans (Herbert Graf*) lhe         que elas merecem na interpretao dos fenme-
houvesse demonstrado sua existncia. Freud          nos da vida." Em 1937, Freud tornou a afirmar,
relacionou-a igualmente com a tendncia des-        em "Anlise terminvel e interminvel", que a
trutiva e autodestrutiva que havia identificado     simples evocao do masoquismo, das resis-
632     pulso

tncias* teraputicas ou da culpa neurtica bas-   o encontrado em Freud. Adotando o termo ob-
tava para afirmar "a existncia de um poder na     jeto parcial, proveniente da Karl Abraham* e
vida anmica ao qual, com base em seus objeti-     dos kleinianos, Lacan introduziu dois novos
vos, chamamos pulso de agresso ou de des-        objetos pulsionais, alm das fezes e do seio: a
truio, e que derivamos da originria pulso de   voz e o olhar. E deu-lhes um nome: objetos do
morte da matria animada".                         desejo*.
    A descendncia freudiana no foi unnime
em sua rejeio da ltima elaborao da teoria      Sigmund Freud, "Projeto para uma psicologia cient-
                                                   fica" (1895), ESB, I, 381; SE, I, 281-397; in La Nais-
das pulses. Assim, Melanie Klein* efetuou         sance de la psychanalyse (N. York, 1950), Paris, PUF,
uma inverso completa do segundo dualismo          1956; "A sexualidade na etiologia das neuroses"
pulsional, considerando que as pulses de morte    (1898), ESB, III, 289-316; SE, III, 259-85; OC, III,
participam da origem da vida, tanto na vertente    215-41; Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade
                                                   (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145; SE, VII,
da relao de objeto quanto na do organismo.       123-243; Paris, Gallimard, 1987; Psicologia das mas-
No que concerne ao organismo, as pulses de        sas e anlise do eu (1921), ESB, XVIII, 91-184; GW,
morte contribuem, por intermdio da angstia,      XIII, 73-161; SE, XVIII, 65-143; OC, XVI, 1-83; "A
para instalar o sujeito na posio depressiva*,    concepo psicanaltica da perturbao psicognica
feita de medo e destruio.                        da viso" (1910), ESB, XI, 197-206; GW, VIII, 94-102;
                                                   SE, XI, 209-18; OC, X, 177-86; "Formulaes sobre os
    Em seu seminrio de 1964, Jacques Lacan*       dois princpios do funcionamento mental" (1911), ESB,
considerou a pulso como um dos quatro             XII, 277-90; GW, VIII, 230-8; SE, XII, 213-26; in Rsul-
conceitos fundamentais da psicanlise. Guiado      tats, ides, problmes, Paris, PUF, vol.I, 1984, 135-43,
por uma leitura exigente do texto freudiano de     "Sobre o narcisismo: uma introduo" (1914), ESB,
                                                   XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV, 73-102; in La Vie
1915, o qual ele reintitulou de "As pulses e      sexuelle, Paris, PUF, 1969, 80-105; "As transfor-
suas vicissitudes", Lacan isolou a elaborao      maes da pulso exemplificadas no erotismo anal"
freudiana de suas bases biolgicas e insistiu no   (1917), ESB, XVII, 159-70; GW, X, 402-10; SE, XVII,
carter constante do movimento da pulso, um       125-33; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 106-12; "Dois
                                                   verbetes de enciclopdia: (A) Psicanlise, (B) Teoria da
movimento arrtmico que a distingue de todas       libido" (1923), ESB, XVIII, 308-14; GW, XIII, 211-33;
as concepes funcionais. A abordagem laca-        SE, XVIII, 235-59; OC, XVI, 181-208; "As pulses e
niana da pulso inscreve-se numa abordagem         suas vicissitudes" (1915), ESB, XIV, 137-68; GW, X,
do inconsciente em termos de manifestao da       209-32; SE, XIV, 109-40; OC, XIII, 161-85; "O problema
falta e do no realizado. Nessas condies, a      econmico do masoquismo" (1924), ESB, XIX, 199-
                                                   216; GW, XIII, 371-83; SE, XIX, 139-45; OC, XVII, 9-23;
pulso  considerada na categoria do real*.        Mais-alm do princpio de prazer (1920), ESB, XVIII,
Lembrando o que Freud diz sobre a indepen-         17-90; GW, XIII, 3-69; SE, XVIII, 1-64; in Essais de
dncia do objeto em relao  pulso, e sobre o    psychanalyse, Paris, Payot, 1981, 41-115, Esboo de
fato de que qualquer objeto pode ser levado a      psicanlise (1938), ESB, XXIII, 168-246; GW, XVII,
                                                   67-138; SE, XXIII, 139-207; Paris, PUF, 167; Novas
exercer para ela a funo de um outro, Lacan       conferncias introdutrias sobre psicanlise (1933),
sublinhou que o objeto da pulso no pode ser      ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE, XXII, 5-182; OC, XIX,
assimilado a nenhum objeto concreto. Para          83-268; "Psicanlise" (1926), ESB, XX, 301-14; GW,
apreender a essncia do funcionamento pulsio-      XIV, 299-307; SE, XX, 259-270; in Rsultats, ides,
                                                   problmes, vol.II, Paris, PUF, 1985, 153-160; O mal-
nal,  preciso conceber o objeto como sendo da
                                                   estar na cultura (1930), ESB XXI, 81-178; GW, XIV,
ordem de um oco, de um vazio, designado de         421-506; SE, XXI, 64-145; OC, XVIII, 245-333; "Anlise
maneira abstrata e no representvel: o objeto     terminvel e interminvel" (1937), ESB, XXIII, 247-90,
(pequeno) a*.                                      GW, XVI, 59-99; SE, XXIII, 209-53; in Rsultats, ides,
    Para Lacan, portanto, a pulso  uma mon-      problmes, vol.2, Paris, PUF, 1985, 231-68  Melanie
                                                   Klein, Psicanlise da criana (Londres, 1932), S. Paulo,
tagem, caracterizada por uma descontinuidade       Mestre Jou, 1975, 2 ed.  Jacques Lacan, O Semin-
e uma ausncia de lgica racional, mediante a      rio, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da
qual a sexualidade participa da vida psquica,     psicanlise (1963-1964) (Paris, 1973), Rio de Janeiro,
conformando-se  "hincia" do inconsciente.        Jorge Zahar, 1979  Jean Laplanche e Jean-Bertrand
                                                   Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.
    De fato, Lacan desenvolveu a idia de que a    Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Jean-Bertrand
pulso  sempre parcial. Esse termo deve ser       Pontalis, "L'Utopie freudienne", in Aprs Freud, Paris,
entendido, aqui, num sentido mais geral do que     Gallimard, 1968, 103-20  Jean Laplanche, Vida e
                                                                     Putnam, James Jackson          633

morte em psicanlise (Paris, 1970), P. Alegre, Artes   corajosamente contra a moral sexual da socie-
Mdicas, 1985  Henri F. Ellenberger, Histoire de la
dcouverte de l'inconscient (N. York, Londres, 1970,
                                                       dade americana, particularmente repressora em
Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994.              relao aos que transgrediam as leis ditas sagra-
                                                       das do casamento monogmico ou se recusa-
 DESEJO; OBJETO (BOM E MAU); OBJETO, RELA-             vam a limitar o ato sexual  procriao.
O DE; OBJETO TRANSICIONAL; POSIO DE-                   Espiritualista e moralista, Putnam no gos-
PRESSIVA/POSIO ESQUIZO-PARANIDE.
                                                       tava do materialismo freudiano, recusando o
                                                       biologismo em prol de uma teoria da vontade
                                                       criadora. Foi por isso que, em 1906, qualificou
Putnam, James Jackson                                  de converso sua adeso  doutrina vienense,
(1846-1918)                                            para qual transferiu todo o peso de seu ideal
mdico e psicanalista americano                        religioso e puritano. Sigmund Freud* no
    Pioneiro da psicanlise* nos Estados Uni-          compartilhava suas opinies filosficas e, em
dos*, militante da causa das mulheres (princi-         uma carta de 8 de julho de 1915, a respeito de
palmente pelo seu direito a receber uma forma-         seu livro Human Motives, comunicou-lhe o que
o mdica), James Jackson Putnam nasceu em            pensava da moral em geral e da moral sexual
Boston e, como o escritor Nathaniel Hawthorne          americana em particular: "A moralidade sexual
(1804-1864), descendia de uma ilustre famlia          tal como a sociedade a define -- e no mais alto
puritana da Nova Inglaterra, outrora radicada          grau, a sociedade americana -- me parece ex-
em Salem, capital dos terrores sexuais e da caa       tremamente desprezvel [...]. Quando me per-
s bruxas. Educado na confisso unitarista, re-        gunto por que sempre me esforcei em ter hones-
jeitava o pecado original, mas, como observou          tamente considerao com o outro e, se pos-
o historiador Nathan G. Hale, aceitava "a reali-       svel, benevolncia para com ele, e por que
dade do mal, a necessidade de uma luta moral           nunca renunciei a isso quando notei que me
e o julgamento de Deus. Pensava que era com            prejudicava com esse comportamento [...], no
o esforo para tornar-se melhor e contribuir para      encontro nenhuma resposta [...]. Voc poderia
o progresso -- definido como `o bem do maior           pois citar o meu caso como prova de sua hip-
nmero de pessoas' e `a descoberta da verdade'         tese segundo a qual esses impulsos so uma
-- que o homem se realizava plenamente. Essa           parte essencial de nossa prpria natureza."
concepo do progresso engloba tambm o co-
                                                           Em 1908, Putnam encontrou-se com Ernest
nhecimento cientfico e as verdades no-reco-
                                                       Jones*, ento assistente de psiquiatria em To-
nhecidas".
                                                       ronto, no Canad*, e dez meses depois, assistiu
    Estudou na Harvard Medical School, e de-
                                                       s cinco conferncias feitas por Freud na Clark
pois viajou para a Europa, onde foi aluno de
                                                       University de Worcester, na presena de Wil-
Theodor Meynert* e de Hughlings Jackson*.
Dedicou sua carreira  neurologia. Graas ao           liam James, Adolf Meyer*, Stanley Grandville
seu amigo William James (1877-1910), primei-           Hall* e do grande antroplogo Franz Boas
ro americano a dar ateno aos Estudos sobre a         (1858-1942). Ento, convidou Freud para se
histeria*, Putnam voltou-se para o freudismo*          hospedar em sua casa de campo em Keene
e tornou-se um dos lderes da Escola Bos-              Valley, nos Adirondacks, em companhia de
toniana de Psicoterapia*, ao lado de Josiah            Sandor Ferenczi* e de Carl Gustav Jung*. So-
Royce*, William James e muitos outros.                 bre essa viagem um tanto rstica, ao mago de
    A partir de 1880, estudando as neuroses*           paisagens to bem descritas por Jack London
traumticas em doentes de origem popular,              (1876-1916), Freud enviou  sua famlia uma
constatou que os distrbios no se ligavam            carta humorstica: "Tomamos banho em bacias,
fisiologia, mas a causas psicolgicas. Da seu         bebemos numa espcie de caneca etc. Mas,
interesse pelas teses dinmicas do fim do scu-        naturalmente, no falta nada e descobrimos que
lo: hipnotismo, sugesto* e psicanlise*. Mos-         existem manuais especializados em camping,
trou-se sempre reservado quanto  teoria da            que ensinam a utilizar todo esse equipamento
sexualidade*. Mas nunca a rejeitou e combateu          primitivo".
634     Putnam, James Jackson

    A partir de 1909, Putnam correspondeu-se         choanalytic Association* (APsaA), criada um
regularmente com Freud e publicou 43 artigos,        ano depois da fundao da IPA. Em 1914, pre-
dos quais 22 exclusivamente sobre a psican-         sidiu os destinos da Boston Psychoanalytic So-
lise, que tiveram um papel importante na intro-      ciety (BoPs). Mas, nessa data, a poca herica
duo do freudismo em solo americano, es-            terminara, e foi um novo ator, Abraham Arden
pecialmente no meio mdico. Alis, Putnam            Brill*, que impulsionou o movimento america-
continuou a ocupar-se de neurologia, pratican-       no para o seu segundo componente: o pragma-
do ao mesmo tempo a psicanlise com cerca de         tismo adaptativo.
vinte pacientes portadores de neurose* de
angstia, de histeria* e de distrbios obsessivos.    James Jackson Putnam, Human Motives, Boston,
    Em 1911, aos 65 anos, atravessou o Atlnti-      Little Brown and Co., 1915; Adresses on Psycho-Ana-
co para ir ao congresso da International Psy-        lysis, Londres, International Psychoanalytical Press,
choanalytical Association* (IPA), em Weimar.         1951  Sigmund Freud, "James J. Putnam" (1919),
                                                     ESB, XVII, 337-8; GW, XII, 315; SE, XVII, 71-2; "Pre-
No caminho, deteve-se em Zurique, onde
                                                     fcio a Adresses on psycho-analysis, de J.J. Putman
Freud, hspede de Jung, o recebeu para um            (1921), ESB, XVIII, 324-6; SE, XVIII, 269-70; OC, XVI,
tratamento psicanaltico de seis horas de dura-      21-3  L'Introduction de la psychanalyse aux tats-
o. A amizade que unia ambos no respeito de         Unis. Autour de James Jackson Putnam (Londres,
suas divergncias durou ainda alguns anos. De        1968), Nathan G. Hale (org.), Paris, Gallimard, 1978,
certa forma, ela era uma manifestao dessa          17-86  Nathan G. Hale, Freud and the Americans. The
                                                     Beginnings of Psychoanalysis in the United States,
idade urea da psicanlise, quando as relaes
                                                     1876-1917, t.I (1971), N. York, Oxford, Oxford Univer-
conflituosas nem sempre se transformavam em          sity Press, 1995  Ellie Ragland-Sullivan, "James Ja-
luta institucional.                                  ckson Putnam, 1846-1918", Ornicar?, 47, outubro-de-
    O idealismo putnamiano ficava exces-             zembro, 1988, 88-104.
sivamente prximo de uma mentalidade de ve-
lho censor higienista, para impor-se como um          CINCO LIES DE PSICANLISE; EGO PSYCHO-
componente maior do movimento psicanaltico          LOGY; EMERSON, LOUVILLE EUGNE; JELLIFFE,
americano, ento em plena expanso. Em 1911,         ELY SMITH; NAZISMO; PESTE; WHITE, WILLIAM
Putnam tornou-se membro da American Psy-             ALANSON.
                                                 Q
Questo da anlise leiga, A                                  antiga lei austraca que coibia o "charlatanis-
Livro de Sigmund Freud* publicado em alemo, em              mo". Os aborrecimentos de Reik haviam come-
1926, sob o ttulo Die Frage der Laienanalyse. Tra-          ado dois anos antes, quando o fisiologista Ar-
duzido pela primeira vez para o francs por Marie            nold Durig (1872-1961), membro do Conselho
Bonaparte*, em 1928, sob o ttulo Psychanalyse et            Superior de Sade da cidade de Viena*, solici-
mdecine, foi retraduzido em 1985 por Janine Al-             tara a Freud um parecer especializado sobre a
tounian, Andr Bourguignon (1920-1996), Odile                questo da anlise praticada por no mdicos.
Bourguignon, Pierre Cotet e Alain Rauzy, sob o               Freud registrou esses primeiros incidentes nu-
ttulo La Question de l'analyse profane. Essa tra-
                                                             ma carta a Karl Abraham* datada de 11 de
duo foi ligeiramente revista em 1994 pela mesma
                                                             novembro de 1924, indita em francs, na qual
equipe de tradutores. Traduzido para o ingls pela
primeira vez em 1927, por A.P. Maerker-Branden,
                                                             enunciou sua esperana de que o caso no ti-
sob o ttulo The Problem of Lay-Analysis, foi retra-         vesse maiores conseqncias. Ao que parece,
duzido por Nancy Procter-Gregg em 1947 como                  no havendo a opinio de Freud convencido
The Question of Lay-Analysis e, em 1959, traduzido           seus interlocutores, Reik, ento membro da
por James Strachey* sob o ttulo The Question of             Wiener Psychoanalytische Vereinigung
Lay-Analysis.                                                (WPV), foi proibido de exercer a psicanlise em
    O posfcio, "Nachtwort zur Frage der Laiena-             24 de fevereiro de 1925. Essa proibio inscre-
nalyse", foi publicado em alemo em 1927 e, em               veu-se num clima repressivo, ilustrado pela
1928, acrescentado ao livro. Foi traduzido para o            restrio do acesso  Policlnica Psicanaltica
francs pela primeira vez em 1985 e acrescentado             de Viena unicamente aos detentores de um di-
 segunda edio do livro. A traduo francesa de            ploma de medicina, em conseqncia de um
1994 o restaurou em sua ntegra, incluindo o trecho          parecer do professor Wagner-Jauregg* e dos
suprimido por Freud a conselho de Max Eitingon*
                                                             ataques incessantes da Associao de Analistas
e Ernest Jones*, que o julgavam demasiado ofen-
                                                             Mdicos Independentes, dirigida por Wilhelm
sivo para os norte-americanos. Esta ltima edio
                                                             Stekel*, contra a WPV.
contm, alm disso, notas de 1935, bem como um
ps-escrito do mesmo ano, destinados a uma edi-                  Aps a sano que atingiu Reik, Freud tor-
o norte-americana que nunca chegou a ser pu-               nou a intervir, desta feita junto a Julius Tan-
blicada. Esses documentos, encontrados por Ilse              dler*, professor de anatomia e relator de sade
Grubrich-Simitis, no figuram em nenhuma edio              pblica perante o municpio de Viena. No que
inglesa ou norte-americana. O posfcio foi traduzi-          se presume ter sido o texto dessa interveno
do pela primeira vez para o ingls em 1927, sob o            epistolar, Freud inverteu desde logo a formula-
ttulo "Concluding remarks on the question of lay            o habitual da questo: o "leigo" ou "profano"
analysis", e posteriormente por James Strachey,              no era o analista no mdico, mas "qualquer
em 1950, sob o ttulo "Postscript to a discussion            um que no tenha adquirido uma formao,
on lay analysis".
                                                             tanto terica quanto tcnica, suficiente em psi-
   Foi na primavera de 1926, em conseqncia                 canlise*, e quer possua ou no um diploma de
da queixa de um ex-paciente, que Theodor                     medicina". Para Freud, "a psicanlise, apesar de
Reik* viu-se sob a ameaa de um processo por                 nascida num terreno mdico, h muito tempo j
exerccio ilegal da medicina, em virtude de uma              no constitui um assunto puramente mdico",
                                                       635
636     Questo da anlise leiga, A

e se, por um lado, no se podia nem se devia        havia preocupado em saber quem praticava a
impedir ningum de se interessar por ela, era       psicanlise, uma vez que se era unnime em
somente "fazendo-se analisar e exercendo a          desejar que "ningum a praticasse" -- os cinco
anlise com terceiros", por outro lado, que se      primeiros captulos do livro expem a teoria
podia adquirir "a experincia e a convico em      psicanaltica de maneira didtica, por interm-
psicanlise".                                       dio de perguntas variadas e precisas, obser-
    A julgar pelo reincio do processo contra       vaes crticas e objees que Freud atribui a
Reik, essa segunda providncia de Freud no         seu "interlocutor imparcial".
teve maior sucesso do que a anterior. Foi sem            no fim do quinto captulo que se aborda o
dvida por isso que, sem maiores delongas,          campo institucional, quando o interlocutor, a
num contexto emocional marcado pelo proces-         quem Freud acaba de expor os princpios e as
so do caso Hug-Hellmuth*, que se desenrolara        regras que regem o desenrolar da anlise, inda-
em maro de 1925 e fora amplamente noticiado        ga: "E onde se aprende o que  preciso para
pela imprensa vienense, Freud redigiu seu texto     praticar a anlise?" Freud menciona ento a
A questo da anlise leiga, que tinha por subt-    existncia do Berliner Psychoanalytisches Ins-
tulo Conversas com um interlocutor imparcial,       titut* (BPI), dirigido por Max Eitingon*, fala da
que parece ter sido o fisiologista Arnold Durig,    formao dispensada em Viena, evocando de
o qual, inicialmente, pedira a Freud sua opinio    passagem as mltiplas dificuldades que as auto-
sobre o assunto.                                    ridades criam "para essa jovem iniciativa", e
    O livro foi publicado no outono de 1926. Seu    anuncia a abertura, "dentro em breve", de um
objetivo superou amplamente a simples defesa        terceiro instituto de ensino, em Londres, sob a
de Reik e, em termos mais gerais, dos analistas     direo de Ernest Jones*.
no mdicos. A colocao de Freud inscreve-se           A questo da relao com a medicina come-
num outro debate, o qual, apesar de se referir     a a ser discutida depois que o interlocutor
questo da anlise leiga, trata, na verdade, da     destaca que a psicanlise poderia muito bem ser
formao dos psicanalistas, e concerne, antes de    considerada uma especialidade mdica entre
mais nada, ao prprio movimento psicanaltico       outras. Freud responde que qualquer mdico
internacional. Com efeito, fora em 1925 que o       que observe o conjunto das concepes tericas
presidente da New York Psychoanalytic Society       e das regras evocadas at esse ponto ser bem-
(NYPS), Abraham Arden Brill*, havia anuncia-        vindo, mas que  foroso registrar uma reali-
do sua inteno de romper com Freud em razo        dade totalmente diversa, caracterizada pela luta
dessa questo, e foi no outono de 1926, no          que o conjunto dos mdicos trava contra a an-
momento da publicao do texto de Freud, que        lise. Essa atitude, alm de ser suficiente para
o estado de Nova York declarou ilegal a prtica     retirar do corpo mdico qualquer direito hist-
da anlise por no mdicos. Os pivs do conflito    rico a se pretender proprietrio da psicanlise,
que acabava de eclodir, e que no estava nem        leva Freud a se dirigir, para alm de seu inter-
perto de se encerrar, concerniam, pois, alm da     locutor, ao legislador austraco: "charlato" 
simples relao com a medicina, aos contornos       "quem empreende um tratamento sem possuir
institucionais da psicanlise, a seus fundamen-     os conhecimentos e qualificaes necessrios".
tos epistemolgicos e a seu carter universalis-    Com isso ele esclarece que nessas condies,
ta, garantia de uma questo que a atualidade        em matria de anlise, so os mdicos que
geopoltica logo tornaria premente: a da emi-       compem o grosso do contingente de "char-
grao. Numa palavra -- a de Jean-Bertrand          lates", j que, na maioria dos casos, "praticam
Pontalis em seu prefcio  edio francesa de       o tratamento analtico sem hav-lo aprendido e
1985 --, podemos dizer que, "para Freud, cer-       sem compreend-lo". Dessa maneira, Freud 
tamente, a questo da anlise leiga era a questo   decididamente ofensivo, frisando que a forma-
da prpria anlise".                                o mdica  particularmente mal adaptada 
    Aps uma breve introduo -- que deu a          preparao para o exerccio da psicanlise. De-
Freud o ensejo de assinalar, no sem um certo       sejoso de no abandonar por completo o terreno
humor, que durante muito tempo ningum se           do caso Reik, Freud evoca a questo geral da
                                                                Questo da anlise leiga, A      637

interveno dos poderes pblicos no que              Essa vem a ser uma das questes mais cruciais
concerne  regulamentao da prtica da an-         da histria do movimento psicanaltico: no
lise e adverte contra a propenso para regula-       cerne dos conflitos e das cises*, ela atesta, a
mentar e proibir, que  caracterstica do que        posteriori, a justeza da postura freudiana. Com
acontece na ustria. Ele lembra que, em mat-        efeito, Freud no se enganou: a alternativa m-
ria de psicologia, e at de parapsicologia, o        dico/no-mdico no lhe parecia outra coisa,
importante  respeitar a liberdade intelectual,      como ele disse a Sandor Ferenczi* numa carta
nunca havendo as proibies sufocado o inter-        datada de 11 de maio de 1920, seno a "mscara
esse dos homens pelas coisas misteriosas ou          da resistncia  psicanlise, e a mais perigosa
tidas como tais.                                     de todas".
    Alertado para o fato de que, com respeito a          Reik enfim se beneficiou de um veredito de
essas questes, estava-se longe de haver con-        improcedncia da acusao. Mas est claro que
quistado a unanimidade no seio do movimento          o deveu mais  desqualificao do queixoso do
psicanaltico, Freud toma a dianteira: traa uma     que ao efeito produzido pelo livro de Freud.
distino terica, cujo peso viria depois a mini-        Longe de reduzir as contradies que come-
mizar, entre o estabelecimento de um diagn-         avam a se manifestar nos meios psicanalticos
stico, ato mdico precedente  prescrio de         a propsito dessas questes, o livro de Freud,
uma terapia psicanaltica, e o tratamento em si,     ao contrrio, na verdade s fez refor-las. Re-
que deve sempre ser obra do psicanalista, seja       solveu-se ento organizar, como um preldio ao
ele mdico ou no. No seria possvel, prope        congresso de psicanlise que deveria realizar-se
ento o interlocutor, autorizar aqueles dentre os    em 1927, em Innsbruck, uma discusso geral
analistas no mdicos que j comprovaram seus        sobre o assunto. Introduzido por Jones, o debate
mritos e decidir que, no futuro, a formao         ops, em especial, Freud e Eitingon. O conjunto
mdica ser a norma? Diante dessa ltima ten-        das intervenes foi publicado no mesmo ano,
tativa de compromisso, Freud aborda de frente        no Internationale Zeitschrift fr Psychoana-
a questo da formao dos analistas e afirma         lyse* e no International Journal of Psycho-ana-
que seu objetivo, a criao de uma escola supe-      lysis*. O dossi testemunha a acrimnia dos
rior de psicanlise, pressupe a instaurao de      confrontos e da hostilidade suscitados pela pos-
um ensino que, longe de se limitar unicamente        tura de Freud. Ali vemos desenhar-se uma pri-
aos conhecimentos mdicos, englobe a histria        meira dissenso entre os norte-americanos,
das civilizaes, a mitologia e a literatura, e      unanimemente opostos  prtica da anlise por
repouse no postulado da autonomia do registro        no mdicos, e os europeus, estes divididos
psquico em relao ao substrato fisiolgico.        entre si, tendo Ferenczi, Edward Glover* e John
    Mas o conhecimento livresco no pode bas-        Rickman*, entre outros, a defender a postura
tar aos especialistas das cincias do esprito, em   freudiana de uma psicanlise totalmente aut-
especial os pedagogos, para que eles tenham          noma em relao  medicina, e tendo Jones e
sucesso em sua iniciativa de aplicao; ser         Eitingon, entre outros, embora rejeitando a
preciso que eles mesmos se submetam a uma            idia de que a psicanlise se submetesse a qual-
anlise, e, para tanto, haver necessidade de        quer autoridade, a desejar que ela continuasse a
analistas didatas, dotados de uma formao par-      ser uma profisso mdica.
ticularmente bem acabada, muito distante dos             Aps o congresso de Innsbruck, Freud, cada
conhecimentos mdicos.                               vez mais isolado, redigiu o que viria a se
    Se Freud insiste tanto na questo da forma-      converter no posfcio a esse ensaio. Nessa lti-
o,  que, longe de procurar instalar a psican-    ma interveno, no fez concesso alguma e,
lise numa torre de marfim, ele quer confront-       mais particularmente, atacou seus "colegas
la, ao contrrio, com todas as formas de conhe-      norte-americanos", os quais censurou por uma
cimento. Assim, ao rejeitar o modelo da forma-       argumentao incoerente, que comparou a
o mdica, no se trata de apregoar a improvi-      "uma tentativa de recalque".
sao ou a selvageria, mas de construir e desen-         Essa preocupao de defender a especifici-
volver a especificidade da formao analtica.       dade de sua descoberta, de mant-la irredutvel
638     Questo da anlise leiga, A

a qualquer abordagem cientfica (a medicina)         o de Lacan foi conjuntural, ditada pelo que
ou espiritual (a religio), seria reafirmada por     ele considerava serem os interesses imediatos
Freud em 1938, sem a menor ambigidade,              da psicanlise. No muito tempo depois, ele
quando correu nos Estados Unidos* o boato de         aconselharia seus alunos a estudarem medicina
que ele teria mudado de opinio. "No consigo        ou filosofia, considerando que a proteo da
imaginar", respondeu ele, "de onde possa ter         formao dos psicanalistas e da psicanlise em
vindo esse boato estpido com respeito a minha       si deveria exercer-se, prioritariamente, contra a
mudana de opinio sobre a questo da anlise        psicologia e o psicologismo, os quais ele denun-
praticada por no mdicos. A verdade  que           ciou como uma ameaa muito mais perigosa do
nunca repudiei minhas colocaes e que as            que a medicina. Posteriormente, dentro da pers-
defendo com vigor ainda maior do que antes           pectiva aberta por Freud, Lacan, em especial
diante da evidente tendncia dos norte-ameri-        atravs dos textos dedicados ao ensino e  for-
canos a transformarem a psicanlise numa cria-       mao dos analistas, procurou delimitar a espe-
da da psiquiatria."                                  cificidade do ato psicanaltico e mostrar que, se
     dentro da perspectiva freudiana que con-       o psicanalista s pode ser "leigo", isso se de-
vm considerar a posio de Jacques Lacan*           ve, antes de mais nada, ao fato de seu ato se
sobre esse assunto e, alm dela, os contornos da     inscrever na experincia psicanaltica que ele
"exceo francesa".                                  atravessa.
    No plano jurdico, a prtica da anlise leiga*
foi debatida na Frana por ocasio do caso            Sigmund Freud, A questo da anlise leiga (1926),
                                                     ESB, XX, 211-84; GW, XIV, 209-86; SE, XX, 183-258;
Clark-Williams, que, por suas implicaes,           OC, XVIII, 1-92; "Lettre  un correspondant anonyme",
constituiu um dos pivs do que viria a ser a         Revue Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 3,
primeira ciso do movimento psicanaltico            1990, 13-9  Franoise Carasso, Freud mdecin, Arles,
francs, em 1953. Num primeiro momento,              Actes Sud-INSERM, 1992  Susann Heenen-Wolff, "La
Margaret Clark-Williams, uma psicanalista no        Discussion sur l'`analyse profane'", Internationale Zeit-
                                                     schrift fr Psychoanalyse do ano de 1927, Revue Inter-
mdica que praticava anlises de crianas no         nationale d'Histoire de la Psychanalyse, 3, 1990, 71-88
Centro Claude-Bernard, fundado por Georges            Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.
Mauco*, foi liberada. Todavia, aps um apelo         York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995 
feito contra essa deciso pela Ordem dos Mdi-       Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3
                                                     vols. (N. York, 1953, 1955, 1957), Rio de Janeiro,
cos, a nona vara do tribunal de Paris condenou       Imago, 1989  Harald Leupold-Lwenthal, "Le Procs
a r a uma pena primria, embora reconhecendo        de Theodor Reik", Revue Internationale d'Histoire de la
sua moral e sua competncia. Esse processo           Psychanalyse, 3, 1990, 57-69  Jean-Bertrand Pontalis,
criaria jurisprudncia, at a suspenso da sen-      "Avant-propos", in Sigmund Freud, La Question de
                                                     l'analyse profane, Paris, Gallimard, 1985, 9-21  lisa-
tena pelo tribunal correcional de Nanterre, em
                                                     beth Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana,
9 de fevereiro de 1978, ao trmino do qual a         vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988
independncia da psicanlise em relao  me-         Michel Schneider, "La `question' en dbat", in Sigmund
dicina foi juridicamente reconhecida. Lacan,         Freud, La Question de l'analyse profane, Paris, Galli-
que no deps nesse processo, nem por isso           mard, 1985, 157-97  Georges Schopp, "L'Affaire Clark-
                                                     Williams, ou la question de l'analyse laque en France",
deixou, durante as discusses travadas sobre o       Revue Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 3,
assunto nos crculos psicanalticos e psiquitri-    1990, 199-238  Alain Vanier, "Lacan et la Laienana-
cos, de defender os no mdicos, censurando          lyse", ibid., 275-88.
Sacha Nacht*, ento presidente da Socit Psy-
chanalytique de Paris (SPP), por querer aban-         BONAPARTE, MARIE; FREUDISMO; HISTRIA DA
don-los por completo. Na verdade, essa posi-        PSICANLISE; PSICOTERAPIA.
                                                      R
Racker, Heinrich (ou Enrique)                                    de modo caricatural, a tese do falocentrismo*,
(1910-1961)                                                      para afirmar que as meninas renunciavam 
mdico e psicanalista argentino                                  masturbao porque reconheciam a superiori-
    De origem polonesa, Heinrich Racker es-                      dade do pnis, ou ainda porque transformavam
tudou em Viena*, onde tambm exerceu a arte                      a decepo pela falta do rgo masculino em
da msica. Analisado inicialmente por Jeanne                     uma propenso ao masoquismo*. Essa tese foi
Lampl-De Groot*, emigrou para a Argentina*                       atacada por Karen Horney*.
em 1939 e instalou-se em Buenos Aires, onde                          Em 1915, depois de estudar medicina e di-
retomou a sua formao didtica com Angel                        reito, descobriu a obra de Sigmund Freud*, de
Garma* e depois com Marie Langer*. Membro                        quem se tornou um discpulo fantico. Foi ento
da Asociacin Psicoanaltica Argentina (APA)                     a Viena* para escutar as lies do mestre, e logo
em 1947, interessou-se pela antropologia*, pela                  participou da vida do movimento psicanaltico
filosofia, pela esttica e pela histria das reli-               da Europa Central. Analisado por Erzsebet Re-
gies, antes de se tornar um terico da contra-                  vesz (1887-1923), que fora analisada por Freud,
transferncia*, apontando, em uma perspectiva                    apaixonou-se por ela durante o tratamento e os
bastante prxima da de Paula Heimann* e de                       dois se casaram, depois que Rado se divorciou
Margaret Little, a necessidade de analis-la cor-                de sua primeira mulher. Em 1922, foi a Berlim,
retamente durante o tratamento didtico. De-                     onde comeou uma segunda anlise com Karl
pois de sua morte, seu nome foi dado a um                        Abraham*. Desempenhou ento papel impor-
Centro de Pesquisas e de Formao para a                         tante no comit de formao do Instituto Psica-
Anlise Didtica*, onde tambm foram ensina-                     naltico, tornando-se um dos mais brilhantes
das as grandes obras da histria do movimento                    didatas da International Psychoanalytical As-
psicanaltico.                                                   sociation* (IPA). Formou vrios psicanalistas,
                                                                 entre os quais Wilhelm Reich*, Otto Fenichel*
 Heinrich Racker, Estudos sobre a tcnica psicanal-
tica (B. Aires, 1968) P. Alegre, Artes Mdicas  Horacio         e Heinz Hartmann*. Em Berlim, ficou conhe-
Etchegoyen, Fundamentos da tcnica psicanaltica (B.             cendo Helene Deutsch*, com quem teve uma
Aires, 1993), P. Alegre, Artes Mdicas.                          ligao tumultuada, no momento em que aca-
                                                                 bava de saber da morte brutal de sua mulher.
                                                                 Sofrendo de anemia perniciosa, Erzsebet era
Rado, Sandor (1890-1972)                                         tratada por Felix Deutsch*, que, nessa ocasio,
psiquiatra e psicanalista americano                              deu livre curso ao cime que sentia pelo rival.
   Amigo de Sandor Ferenczi* e co-fundador,                          Depois de ter sido casado com sua primeira
em 1913, da Sociedade Psicanaltica de Buda-                     analista, Rado casou-se com uma de suas ana-
peste, Sandor Rado pertencia  gerao* dos                      lisandas, Emmy, o que contituiu um caso bas-
pioneiros do freudismo*. Amante da boa cozi-                     tante raro de transgresso repetida na histria
nha e grande sedutor de mulheres, gostava de                     das filiaes* psicanalticas.
conquistar as que se encontravam no seu crculo                      Apoiado por Freud, tornou-se em 1924 re-
imediato. Alis, defendia uma concepo ini-                     dator-chefe da Internationale Zeitschrift fr
gualitria da diferena sexual*, retomando at,                  Psychoanalyse*, e trs anos depois, da revista
                                                           639
640      Raknes, Ola

Imago*. Em 1931, a convite de Abraham Arden               nlise atravs de seus pioneiros (N. York, 1966), Rio
Brill*, instalou-se nos Estados Unidos* para              de Janeiro, Imago, 1981  Aaron Karush, "Sandor
                                                          Rado, 1890-1972. Obituary", Psychoanalytic Quarterly,
organizar o novo Instituto da New York Psy-               41, 1972, 613-5  Nathan G. Hale, Freud and the
choanalytic Society (NYPS), a partir do modelo            Americans, The Rise and Crisis of Psychoanalysis in
do Instituto de Berlim, e, quando o nazismo* se           the United States, 1917-1985, t.II, N. York, Oxford,
imps na Alemanha, ajudou muitos psicanalis-              Oxford University Press, 1995  Paul Roazen, Helene
tas da Europa a emigrar para o continente ame-            Deutsch, une vie de psychanalyste (N. York, 1985).
                                                          Paris, PUF, 1990  Janet Sayers, Mes da psicanlise
ricano. Foi nessa poca que comeou a se afas-            (Londres, 1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992 
tar do freudismo.                                         Ernst Falzeder, "Filiations psychanalytiques: la psycha-
    Adepto de um biologismo radical e partid-            nalyse prend effet" (1994) in Andr Haynal (org.), La
rio de uma integrao pura e simples da psica-            Psychanalyse: cent ans dj (Londres, 1994), Gene-
                                                          bra, Georg, 1996, 255-89.
nlise*  medicina, tornou-se um dos grandes
especialistas americanos em toxicomania, em                CISO; HUNGRIA.
alcoolismo, e nas diferentes dependncias qu-
micas e distrbios depressivos. Renunciou aos
princpios clssicos do tratamento, para desen-
volver uma tcnica ativa, de tipo comporta-               Raknes, Ola (1887-1975)
mentalista, fundada na reeducao emocional e             psicanalista noruegus
na renncia  anlise dos mecanismos do recal-                Fillogo e professor universitrio, tradutor
que* e da rememorao do passado. Em setem-               de uma parte da obra de Henri Bergson (1859-
bro de 1935, comeou a criticar a cidade de               1941), Ola Raknes esteve em vrios pases da
Viena, os vienenses no exlio e principalmente            Europa e, ao contrrio de seu compatriota Ha-
Anna Freud*, a tal ponto que Helene Deutsch               rald Schjelderup*, foi um freudiano sempre em
se inquietou com sua sade mental e pensou que            dissidncia. Depois de vrios anos de estudo em
estava se tornando psictico.                             Paris e Londres, voltou para a Noruega. Em
    Depois de conflitos interminveis, princi-            1927, defendeu sua tese de doutorado em Oslo,
palmente com Karen Horney, a direo da                   sobre o tema do encontro com o sagrado,
NYPS lhe recusou o ttulo de didata. Com                  manifestando j um interesse muito vivo pelo
Abram Kardiner*, que no tinha a mesma orien-             freudismo*. Em Berlim, no ano seguinte, orien-
tao que ele, mas cujos cursos eram to fre-             tou-se para a psicanlise*, depois de um trata-
qentados quanto os seus, criou ento, em 1942,           mento com Karen Horney*, cujas teses, na po-
uma Associao de Medicina Psicanaltica.                 ca, comeavam a se afastar do freudismo cls-
Cinco anos depois, ambos estabeleceram um                 sico.
segundo Instituto Psicanaltico de Formao,                  No inco dos anos 1930, ao lado de Schjel-
integrado  Faculdade de Medicina de Colum-               derup, cujo interesse pela psicologia das reli-
bia. Este foi depois reconhecido pela American            gies compartilhava, participou do debate orga-
Psychoanalytical Association* (APsaA). Rado               nizado em Oslo pelos meios psiquitricos, sobre
se afastou ento nitidamente da ortodoxia freu-           a utilidade da psicanlise no tratamento das
diana americana para organizar, na New York               neuroses* e das psicoses*. Em 1933, quando
School of Psychiatry, um programa de ensino               Otto Fenichel* se refugiou na Noruega durante
clnico de inspirao biolgica.                          dois anos, Raknes fez com ele uma segunda
    Em suas memrias inditas, depositadas na             anlise. Depois de participar, em 1934, da fun-
Universidade de Columbia, afirmou que Max                 dao da Sociedade Psicanaltica Dano-Norue-
Eitingon* era meio-irmo de Leonid Eitingon,              guesa, aproximou-se de Wilhelm Reich*, ento
coronel da KGB, o que no era verdade.                    imigrante em Oslo. Tornou-se seu amigo e co-
                                                          laborador. Como outros terapeutas noruegue-
 Sandor Rado, "Psychoanalysis of behavior", Collec-      ses, afastou-se progressivamente da psicanlise
ted Papers of Psychoanalysis, vol.1, N. York, Grune
and Stratton, 1956  Franz Alexander, "Sandor Rado,
                                                          e do freudismo. Em 1947, demitiu-se da Norsk
1890, A teoria adaptacional", in Franz Alexander, Sa-     Psykoanalytisk Forening (NPF), para praticar a
muel Eisenstein e Martin Grotjahn, A histria da psica-   orgonoterapia.
                                                                                            Rank, Otto       641

 Randolf Alnaes, "The development of psychoanalysis        Ramos e outros", in Denise de Oliveira Lima (org.), 60
in Norway. An historical overview", The Scandinavian        anos de psicanlise, Bahia, Agalma, 1993.
Psychoanalytic Review, 2, vol.III, 1980, 55-101.
                                                             BRASIL.
 ESCANDINVIA.

                                                            Rank, Otto, n Rosenfeld (1884-1939)
Rambert, Madeleine (1900-1979)                              psicanalista austraco
psicanalista sua
                                                                Terico da renovao da tcnica psicanalti-
    Filha de pastor, Madeleine Rambert come-                ca*, questionando radicalmente o tratamento
ou a praticar a psicanlise de crianas* no                clssico em favor de uma terapia dita "ativa",
perodo entre as duas guerras. Apoiada por Phi-             brilhante especialista em filosofia, literatura e
lipp Sarasin*, aderiu  Sociedade Sua de Psi-             psicanlise aplicada*, clnico notvel, Otto
canlise (SSP) em 1942. Trs anos depois, pu-               Rank foi o nico autodidata dos discpulos freu-
blicou um livro prefaciado por Jean Piaget                  dianos da primeira gerao*. Esprito indepen-
(1896-1980), A vida afetiva e moral da criana.             dente, hostil a todos os dogmatismos, foi, como
Atravs de relatos de casos, mostrava como a                Sandor Ferenczi*, o artfice da primeira grande
terapia com fantoches podia enriquecer a tcni-             dissidncia interna na International Psychoana-
ca psicanaltica*.                                          lytical Association* (IPA). Ao contrrio de Al-
 Madeleine Rambert, La Vie affective et morale de
                                                            fred Adler*, Carl Gustav Jung* ou Wilhelm
l'enfant. Douze ans de pratique psychanalytique, Neu-       Stekel*, permaneceu freudiano. Sua posio
chtel, Delachaux et Niestl, 1945  Pascal Le Malfan,     crtica se afirmou a partir de 1923, em uma
"Sur Madeleine Rambert", Marionnette et Thrapie,           poca em que o movimento psicanaltico, preo-
julho-setembro de 1996, 4-6.
                                                            cupado com conformismo, normalizao e
 SUA.                                                     pragmatismo, comeava a adotar ideais adapta-
                                                            tivos contrrios ao freudismo* original.
                                                                Nascido em Leopoldstadt, nos arredores de
Ramos de Arajo Pereira, Arthur                             Viena*, Rank era o terceiro e ltimo filho de
(1903-1949)                                                 Simon Rosenfeld, um joalheiro judeu origin-
psiquiatra brasileiro
                                                            rio de Burgenland, e de Karoline Fleischner,
                                                            cuja famlia era da Morvia. Apesar de um bom
    Nascido em Alagoas, Arthur Ramos estudou
                                                            currculo escolar, foi obrigado, aos 14 anos, a
na faculdade de medicina de Salvador, Bahia, e
                                                            entrar em uma escola tcnica, a fim de prepa-
orientou-se para a psiquiatria e a criminologia*,
                                                            rar-se para trabalhar como mecnico. "Foi as-
antes de se interessar pela antropologia*, pelas
                                                            sim, escreveu ele em seu Dirio de adolescente
medicinas tradicionais afro-brasileiras e enfim
                                                            indito, que eu cresci, entregue a mim mesmo,
pela doutrina freudiana. Em 1926, publicou
                                                            sem educao, sem amigos, sem livros."
uma tese sobre a loucura*, na qual citava os
                                                                Atingido muito cedo por um reumatismo
principais representantes da psiquiatria dinmi-
                                                            articular agudo, o jovem Otto sofria tanto com
ca* moderna e criticava o pansexualismo* de
                                                            essa doena dolorosa quanto com sua feira
Sigmund Freud*. Isso no o impediu de trocar
                                                            fsica e com suas relaes violentas com o pai,
com este algumas cartas, entre 1927 e 1932, e
                                                            alcolatra inveterado e sujeito a graves crises
de ser um dos pioneiros da introduo da psica-
                                                            de clera. Alm disso, tendo sido vtima, na
nlise em seu pas, sobretudo na Bahia, como
                                                            infncia, de tentativa de abuso sexual por parte
fizera antes dele Juliano Moreira*.
                                                            de um adulto de seu meio, apresentou sinais de
 Arthur Ramos de Arajo Pereira, Primitivo e loucura,      neurose* por volta dos vinte anos: "Ele sofria
Tese da faculdade de medicina, Bahia, 1926; Loucura         de uma fobia*, escreveu James Lieberman, seu
e crime, P. Alegre, Livraria do Globo, 1937  Gilberto S.   bigrafo, que o impedia de tocar qualquer coisa
Rocha, Introduo ao nascimento da psicanlise no
Brasil, Rio de Janeiro, Forense Universitria, 1989 
                                                            sem luvas. Esse medo patolgico dos micrbios
Marialzira Perestrello, "Importncia da Bahia na difu-      e das relaes sexuais se deve provavelmente 
so da psicanlise no Brasil. Juliano Moreira, Arthur       sua primeira e traumtica experincia do sexo."
642     Rank, Otto

    Tornando-se aprendiz de torneiro, Otto Ro-       ela, que se tornaria psicanalista com o nome de
senfeld continuou sozinho sua formao inte-         Tola Rank (1896-1967) e lhe daria uma filha.
lectual, apaixonando-se por literatura e filoso-         Ao fim da Primeira Guerra Mundial, Rank
fia. Entre seus autores prediletos estavam Frie-     se tornara outro homem. O ex-operrio autodi-
drich Nietzsche (1844-1900), Arthur Schopen-         data morava ento no centro de Viena e pratica-
hauer (1788-1860) e Henrik Ibsen (1828-1906).        va a psicanlise graas a Freud, a quem venera-
Em 1903, adotou o pseudnimo de Rank, um             va como um pai e que lhe enviava pacientes.
personagem de Casa de bonecas. Tomando essa          Alis, fazia parte do pequeno crculo de eleitos
nova identidade, queria afirmar sua indepen-         no seio do Comit Secreto* e dirigia a Verlag,
dncia em relao ao pai, que detestava. Pos-        a editora do movimento psicanaltico, criada
teriormente, converteu-se ao catolicismo a fim       com a ajuda do dinheiro de Anton von Freund*.
de legalizar o seu novo sobrenome. Entretanto,           A derrota dos imprios centrais e a vitria da
completamente ateu e desprovido de qualquer          Europa ocidental sobre a Europa central tive-
sentimento de dio de si judeu, logo renunciou       ram como efeito reduzir a zero a posio
 renegao de suas origens, e nas vsperas de       preponderante, ocupada at ento por Viena e
seu primeiro casamento decidiu reconverter-se        Budapeste na direo da IPA. Apoiado pelos
ao judasmo a fim de assumir sua judeidade*.         berlinenses (Karl Abraham*, Max Eitingon*),
    Foi ao ler a obra de Otto Weininger*, Sexo e     Ernest Jones* dedicou-se a impor os princpios
carter, que ele comeou a se interessar pelas       de uma ortodoxia psicanaltica.
questes abordadas pela psicanlise*. Em 1905,           Foi nesse contexto que surgiram graves
depois da descoberta da Interpretao dos so-        conflitos entre Rank, de um lado, e Jones e
nhos*, ficou conhecendo Alfred Adler, que lhe        Abraham do outro. Melanclico h muitos
possibilitou encontrar-se com Sigmund Freud*         anos, Rank atravessava freqentemente crises
e integrar-se  Sociedade Psicolgica das Quar-      de depresso seguidas de estados de exaltao.
tas-Feiras*. Tornou-se seu secretrio em 1906,       Assim, foi considerado pelos notveis do mo-
depois de apresentar uma exposio inaugural         vimento um "doente mental", sofrendo de psi-
sobre o tema do incesto*, na qual j aparecia a      cose manaco-depressiva*. Muito ciumento da
problemtica do romance familiar*, presente          afeio que Freud lhe dedicava, e preocupado
em seu grande livro publicado em 1909: O mito        em normatizar as modalidades da anlise did-
do nascimento do heri. O interesse apaixonado       tica*, Jones se tornou o principal adversrio de
que dedicou  psicanlise* e o encontro com          Rank no Comit Secreto. Ora, nessa poca, este
Freud, que logo o considerou como seu "filho         comeou a se afastar da doutrina freudiana cls-
adotivo", decidiram o destino do jovem Rank.         sica, publicando, no incio do ano de 1924, um
Comeou a escrever, tornou-se um intelectual,        livro iconoclstico, que o tornaria clebre: O
entrou para a universidade e obteve em 1912 um       trauma do nascimento. Defendia a idia de que,
doutorado de filosofia. Com a idade de 28 anos,      no nascimento, todo ser humano sofria um trau-
j tinha publicado quatro livros sobre literatura,   ma maior, que procurava superar depois, as-
mitos e incesto. Alm disso, foi, de certa forma,    pirando inconscientemente a voltar ao tero
o primeiro arquivista da histria do freudismo:      materno. Em outras palavras, fazia da primeira
foi ele quem se encarregou de transcrever, ao        separao biolgica da me o prottipo da
longo das semanas, as atas das reunies da           angstia psquica. Essa tese, prxima da que
Sociedade das Quartas-Feiras. Esse trabalho          Melanie Klein* comeava a elaborar, seria ado-
considervel foi publicado em quatro volumes         tada, com algumas variaes, por todos os re-
por Hermann Nunberg* entre 1962 e 1975.              presentantes da escola inglesa: no s pelos
    Mobilizado contra a vontade em 1915, ser-        kleinianos, que lhe dariam um contedo dife-
viu como redator em um jornal de Cracvia,           rente, situando a angstia de separao na rela-
cidade situada na parte leste do Imprio Austro-     o ambivalente da criana com o seio da me,
Hngaro. Ali, ficou conhecendo Beata Mincer,         mas tambm pelos Independentes*, de Donald
jovem polonesa, estudante de psicologia, apeli-      Woods Winnicott* a John Bowlby*, que no
dada Tola. Em outubro de 1918, casou-se com          cessariam de estudar o aspecto biolgico e exis-
                                                                                  Rank, Otto       643

tencial do fenmeno de separao. Longe de se        vras em uma carta a Ferenczi: "Ns lhe demos
ater a uma concepo clssica do complexo de         muita coisa, e ele tambm fez muito por ns.
dipo*, Rank j se interessava portanto pela         Assim, estamos quites. Quando de sua ltima
relao precoce (e pr-edipiana) da criana com      visita, no tive a ocasio de lhe expressar a
a me e pela especificidade da sexualidade           afeio particular que sinto por ele. Fui honesto
feminina*. Do interesse dedicado ao pai, ao          e duro. Assim, podemos tir-lo da nossa vida.
patriarcado e ao dipo clssico, ele passava         Abraham tinha razo."
para uma definio do materno e do feminino,             Vtima de uma intensa campanha de cal-
e logo para uma crtica radical do sistema de        nias orquestrada por Jones, Harry Stack Sulli-
pensamento do primeiro freudismo, demasia-           van* e principalmente por Abraham Arden
damente fundado, em sua opinio, no lugar do         Brill*, que o tratou publicamente de desequili-
pai e no falocentrismo*.                             brado, Rank foi excludo da American Psychoa-
    No mesmo ano, em Perspectivas da psica-          nalytic Association* (APsaA), e conseqente-
nlise, Otto Rank atacou, com Ferenczi, a rigi-      mente da IPA, em 10 de maio de 1930, em
dez das regras psicanalticas, e dois anos depois,   condies dramticas. O ataque ocorreu em
em 1926, props uma teoria dita da "terapia          Washington, no meio de uma brilhante assem-
ativa", preconizando tratamentos curtos e limi-      blia de psicanalistas mudos e indiferentes,
tados previamente no tempo, assim como um            dentre os quais Helene Deutsch*, Sandor Ra-
recentramento no presente: ao invs de sempre        do* e Ren Spitz*. Nesse dia, s Franz Alexan-
reconduzir o paciente  sua histria passada e       der* se recusou a participar da execuo do
ao seu inconsciente, interpretando os sonhos e       grande discpulo vienense. Depois, todos os
o complexo de dipo, Rank julgava prefervel         alunos americanos formados por Rank foram
solicitar a vontade consciente deste e aplic-la     intimados a fazer uma nova anlise.
 situao presente, a fim de estimular o seu            Independente, Rank continuou seu trabalho
desejo de se curar-- nica maneira de faz-lo        de analista, sem nunca tornar-se antifreudiano.
sair da passividade masoquista na qual ele se        Instalando-se em Paris com sua mulher e sua
refugiava. Freud se ops s teses de Rank em         filha, ficou conhecendo Anas Nin (1903-
Inibies, sintomas e angstia, e depois revisou     1976), de quem foi o segundo analista. Graas
sua posio em 1933, nas Novas conferncias          ao trabalho de Deirdre Bair, bigrafa de Anas
introdutrias sobre psicanlise, enfatizando         Nin, a histria dessa relao foi conhecida em
que Rank tivera o mrito de ressaltar a impor-       1995.
tncia da separao primeira da me.                     Quando Anas Nin procurou Rank, estava
    Bastou isso para provocar a clera de Jones      saindo de um tratamento desastroso com Ren
que entretanto, na mesma poca, no hesitava         Allendy*, que terminara com um ato de incesto:
em apoiar as teses kleinianas. Como Rank no         ela se tornou amante de seu pai, Joaquin Nin.
era nem mdico nem analisado, Jones e Abra-              Em um primeiro tempo, Rank lhe possibili-
ham se apressaram a explicar que suas teorias        tou, por meio de suas interpretaes, conhecer
eram conseqncia de um conflito no resolvi-        a culpa inconsciente que ela sentia por causa
do com o pai. Freud interveio, obrigando o seu       desse incesto, e afastar-se de seu Dirio, que lhe
discpulo a submeter-se a algumas sesses.           servia de pio. Mas logo ficou perdidamente
    Depois de fingir obedecer e aps um incio       apaixonado por ela e tornou-se seu amante. Ele
de carreira fulgurante nos Estados Unidos*,          a cobria de presentes e lhe ofereceu, como sinal
onde formou psicanalistas e discpulos que se        de fidelidade, o famoso anel que Freud lhe dera
diziam freudianos, Rank foi levado a romper          quando da criao do Comit. Depois da partida
com seu venerado mestre. Em abril de 1926,           de Rank para Nova York, onde atravessou uma
fez-lhe uma ltima visita, levando-lhe as obras      terrvel crise de depresso, ele lhe pediu que
completas de Nietzsche: 23 volumes encader-          viesse encontr-lo. Ela concordou e procurou
nados em couro branco. Abatido pela dor, mas         fazer carreira como analista, com o desejo per-
sempre feroz em sua maneira de romper com os         verso de destruir Rank e a psicanlise. Instalada
melhores amigos, Freud escreveu estas pala-          no mesmo apartamento que ele, recebeu pa-
644      Rascovsky, Arnaldo

cientes e deitou-se com alguns deles em seu                51  Deirdre Bair, Anas Nin. Biographie (N. York, 1995),
                                                           Paris, Stock, 1996.
div, enquanto Rank tratava de seus prprios
analisandos no cmodo ao lado. A aventura ter-              ANLISE EXISTENCIAL; HOMOSSEXUALIDADE;
minou em rompimento, quando Rank, separado                 MELANCOLIA; SEDUO, TEORIA DA.
de Tola, percebeu que Anas no deixaria o ma-
rido. Ela voltou para Paris e renunciou  psica-
nlise.                                                    Rascovsky, Arnaldo (1907-1995)
    Algumas semanas depois da morte de Freud,              mdico e psicanalista argentino
Rank morreu de septicemia consecutiva a uma                     Nascido em Crdoba, em uma famlia de
agranulocitose causada pelos efeitos secun-                judeus russos que imigraram para a Argentina*,
drios das sulfamidas, com as quais se tratava.            Arnaldo Rascovsky viveu em Buenos Aires a
Casado pela segunda vez, feliz e definitiva-               partir de 1914. Orientou-se para a medicina e
mente instalado nos Estados Unidos, desejava               depois para a pediatria e a endocrinologia. Em
viver na Califrnia, mas morreu antes de obter             1936, comeou a se interessar pela psicanlise*
a cidadania americana.                                     ao ler as obras de Sigmund Freud* em alemo e,
    No terceiro volume de sua biografia de                 dois anos depois, ficou conhecendo Enrique Pi-
Freud, Jones continuou a persegui-lo com seus              chon-Rivire*, com quem trabalhou no Hosp-
insultos, tratando-o de psictico, manaco e ci-           cio de Las Mercedes. Entusiasmados com a psi-
clotmico, abrindo caminho para a propagao               canlise e com a idia de salv-la do perigo
de uma lenda segundo a qual ele teria morrido              fascista oferecendo-lhe uma nova terra prome-
em estado de loucura* em um asilo americano.               tida, reuniram uma famlia de eleitos e pioneiros
Apesar das refutaes de sua discpula Jessie              que formou o ncleo fundador da psicanlise na
Taft, publicadas em 1958, foi s com os traba-             Argentina. Entre eles, estavam Luiz Rascovsky,
lhos da historiografia* moderna, e principal-              o irmo de Arnaldo, Matilde Wencelblat, sua
mente os de Henri F. Ellenberger* e seus suces-            mulher, Simon Wencelblat, seu irmo, Arminda
sores, que se atribuiu a Rank o lugar eminente             Aberastury*, esposa de Pichon-Rivire, Guil-
que lhe cabe na histria da psicanlise.                   lermo Ferrari Hardoy e Luisa Gambier Alvarez
                                                           de Toledo.
 Otto Rank, Der Knstler, Viena, Hugo Heller, 1907;            Analisado em 1939 por Angel Garma*, Ras-
Le Mythe de la naissance du hros (Leipzig, Viena,         covsky foi um dos fundadores da Asociacin
1909), Paris, Payot, 1983; Le Traumatisme de la nais-
sance (Viena, 1924), Paris, Payot, 1928; Don Juan et
                                                           Psicoanaltica Argentina (APA), na qual apre-
le double. tudes psychanalytiques (Viena, 1924, Pa-       sentou um trabalho sobre a sexualidade* infan-
ris, 1932), Paris, Payot, 1973  Otto Rank e Hanns         til. Posteriormente, exerceu numerosas funes
Sachs, Psychanalyse et sciences humaines (Viena,           na COPAL (futura FEPAL, Federacin Psico-
1913), Paris, PUF, 1980  Otto Rank e Sandor Ferenczi,     naltica de America Latina*), forjou a noo de
Perspectives de la psychanalyse (Viena, 1924, Paris,
Payot, 1994; La Technique de la psychanalyse (Viena,       psiquismo fetal e interessou-se particularmente
1926), parcialmente traduzido para o francs sob o         pelo infanticdio, inspirando-se em seus traba-
ttulo La Volont du bonheur, Paris, Stock, 1934;          lhos nas teses de Hermann Nunberg*.
Grundzge einer genetischen Psychologie. Auf Grund
der Psychoanalyse der Ichstruktur, 2 vols., Viena, Deu-     Arnaldo Rascovsky, "Esquema autobiografico",
ticke, 1927-1928  Les Premiers psychanalystes, Mi-        Revista de Psicoanalisis, XXXI, 1-2, 1974, 277-321 
nutes de la Socit Psychanalytique de Vienne, 1906-       Ral Giordano, Notice historique du mouvement psy-
1918, 4 vols. (1962-1975), Paris, Gallimard, 1976-1983     chanalytique en Argentine. Dissertao para o CES de
 Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, vol.     psiquiatria, sob a direo de Georges Lantri-Laura,
3 (N. York, 1957), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Jessie    Universidade de Paris XII, s/d.  Jorge Baln, Cun-
Taft, Otto Rank, N. York, The Julian Press, 1958  Henri   tame tu vida. Una biografa colectiva del psicoanlisis
F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'incons-     argentino, B. Aires, Planeta, 1991.
cient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974),
Paris, Fayard, 1994  Jean Laplanche, Problmatiques
II, Paris, PUF, 1980  E. James Lieberman, La Volont      real
en acte. La Vie et l'oeuvre d'Otto Rank (N. York, 1985),   al. Reale (das); esp. real; fr. rel; ing. real
Paris, PUF, 1991  Ernst Falzeder, "1924. Le Trauma-
tisme de la naissance. De nouvelles perspectives en        Termo empregado como substantivo por Jacques
psychanalyse", Psychothrapies, vol.XII, 4, 1992, 241-     Lacan*, introduzido em 1953 e extrado, simulta-
                                                                                          real     645

neamente, do vocabulrio da filosofia e do concei-    e produtiva, e de outro, o heterogneo, lugar de
to freudiano de realidade psquica*, para designar    irrupo do impossvel de simbolizar. Com a
uma realidade fenomnica que  imanente  repre-      ajuda deste ltimo termo, ele especificou a no-
sentao e impossvel de simbolizar.                  o de parte maldita, central em sua elaborao.
    Utilizado no contexto de uma tpica*, o concei-   Depois, entre 1935 e 1936, poca em que, junto
to de real  inseparvel dos outros dois compo-
                                                      com Lacan, acompanhou o seminrio de Ale-
nentes desta, o imaginrio* e o simblico*, e forma
                                                      xandre Kojve (1902-1968) sobre A fenomeno-
com eles uma estrutura. Designa a realidade pr-
                                                      logia do esprito, de Hegel, Bataille inventou o
pria da psicose* (delrio, alucinao), na medida
em que  composto dos significantes* foracludos
                                                      termo heterologia, extrado do adjetivo heter-
(rejeitados) do simblico.
                                                      logo, que serve para designar, em anatomopa-
                                                      tologia, os tecidos mrbidos. A heterologia era,
    A partir da dcada de 1920, aps a revoluo      para ele, a cincia do irrecupervel, que tem por
introduzida na cincia pela teoria da relativi-       objeto o "improdutivo" por excelncia: os res-
dade de Albert Einstein (1879-1955), a clssica       tos, os excrementos, a sujeira. Numa palavra, a
oposio entre o real dado e o real construdo        existncia "outra", expulsa de todas as normas:
transformou-se, e a palavra real passou a ser         loucura*, delrio etc.
correntemente empregada pelos filsofos como              Foi combinando a cincia do real, a hetero-
sinnima de um absoluto ontolgico, um ser-           logia e a noo freudiana de realidade psquica
em-si que escaparia  percepo. E foi nas teses      que Lacan construiu sua categoria do real. Esta
de mile Meyerson (1859-1933) sobre a cin-           fez sua primeira apario em 1953, ainda sem
cia do real que Jacques Lacan buscou sua pri-         ser conceituada, numa conferncia intitulada
meira reflexo sobre o assunto. Em A deduo          "O Simblico, o Imaginrio e o Real". Depois
relativista, livro publicado em 1925 e ao qual        disso, Lacan adquiriu o hbito de escrever as
Lacan se refere desde 1936 em "Para-alm do           trs palavras com maisculas.
princpio de realidade", Meyerson sustentara,             Entre 1953 e 1960, no contexto de sua reto-
com efeito, a existncia de uma semelhana            mada estrutural da obra freudiana, Lacan confe-
entre os objetos criados pela cincia e aqueles       riu a esse real um estatuto muito prximo do
cuja existncia era postulada pela percepo.         que lhe atribura Bataille. Na categoria do sim-
    Entretanto, foi muito mais diretamente de         blico alinhou toda a reformulao buscada no
seu amigo Georges Bataille (1897-1962), e sem         sistema saussuriano e levi-straussiano; na cate-
jamais confess-lo, que Lacan tomou empres-           goria do imaginrio situou todos os fenmenos
tada a noo de real, a partir da qual, incluindo     ligados  construo do eu: antecipao, capta-
a idia (freudiana) de realidade psquica, forjou     o e iluso; e no real, por fim, colocou a
um conceito do qual viria a fazer um dos trs         realidade psquica, isto , o desejo inconsciente
componentes de sua tpica e de sua concepo          e as fantasias* que lhe esto ligadas, bem como
estrutural de um inconsciente* determinado pe-        um "resto": uma realidade desejante, inaces-
la linguagem.                                         svel a qualquer pensamento subjetivo.
    Bataille descobriu a obra de Freud, interes-          A idia de uma cincia do real apareceu
sando-se sobretudo por Mais-alm do princpio         claramente na leitura que Lacan fez do sonho
de prazer*, Psicologia das massas e anlise do        da "injeo de Irma*", por ocasio de seu semi-
eu* e Totem e tabu*, isto , pela pulso de           nrio sobre o eu, no ano de 1954-1955. Comen-
morte* e pela questo do sagrado, da identifi-        tando esse sonho, ele assemelhou a boca de
cao* das massas com o lder e da origem das         Irma a uma assustadora cabea de Medusa e,
sociedades e das religies. Da a publicao, em      em seguida, sublinhou que o real est na origem
1933, de um texto intitulado "A estrutura psi-        e na fonte de uma dvida fundadora necessria
colgica do fascismo", ao mesmo tempo consa-           cincia. Na origem de uma descoberta, disse
grado  ascenso do nazismo* e  anlise das          ele em sntese, no existe um sujeito, e sim uma
sociedades humanas e suas instituies. Ba-           dvida, j que toda descoberta  a expresso de
taille distinguiu dois plos estruturais: de um       um encaminhamento em que o erro se mistura
lado, o homogneo, ou campo da sociedade til         com a verdade. Essa dvida fundadora , para
646     realidade psquica

Lacan, um equivalente do sexo feminino como         R.S.I. (Real, Simblico, Imaginrio) ao trptico
coisa real, impossvel de simbolizar. Em segui-     em que o real  assimilado a um "resto" impos-
da encontramos seu vestgio na concepo la-        svel de transmitir, e que escapa  matematiza-
caniana da sexualidade feminina*: Lacan faz         o.
desta um "suplemento" e lhe atribui um gozo*
                                                     Jacques Lacan, "Para-alm do `Princpio de reali-
que escapa  racionalidade.                         dade'" (1936), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,
    Em 1955-1956, no mbito de sua leitura da       Jorge Zahar, 1998, 77-95; "Le Symbolique, l'Imaginaire
histria de Daniel Paul Schreber* e de sua          et le Rel" (1953), Bulletin de l'Association Freudienne,
concepo de uma clnica da psicose centrada        1, 1982, 4-13; O Seminrio, livro 2, O eu na teoria de
                                                    Freud e na tcnica da psicanlise (1954-1955) (Paris,
na parania*, Lacan elaborou dois conceitos: a      1978), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985; O Seminrio,
foracluso* e o nome-do-pai*. A primeira foi        livro 3, As psicoses (1955-1956) (Paris, 1981), Rio de
definida como o mecanismo especfico da psi-        Janeiro, Jorge Zahar, 1988, 2 ed.; O Seminrio, livro
cose, diferente do recalque*, e que consiste        4, A relao de objeto e as estruturas freudianas (1956-
                                                    1957) (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995;
numa rejeio primordial de um significante         Le Sminaire, livre XXII, R.S.I. (1974-1975), indito 
fundamental para fora do universo simblico do      mile Meyerson, La Dduction relativiste, Paris, Payot,
sujeito. Quanto ao segundo, ele  o conceito da     1925  Georges Bataille, "La Structure psychologique
funo paterna, o significante fundamental, jus-    du fascisme" (1933-1934), in La Critique sociale,
                                                    reimpresso, Paris, La Diffrence, 1985, 159-65 e 205-
tamente aquele que fica foracludo na psicose.      11; "La Valeur d'usage de D.A.F. de Sade (1) et (2)", in
    A partir dessa nova organizao da estrutura    Oeuvres compltes II. crits posthumes, 1922-1940,
do sujeito, tal como aparece na clnica da psi-     Paris, Gallimard, 1970, 57-73; "Dossier `Htrologie'",
cose, o conceito de real adquiriu uma outra         ibid., 167-78  Jean-Claude Milner, Les Noms indis-
                                                    tincts, Paris, Seuil, 1983; A obra clara. Lacan, a cincia,
dimenso. Tornou-se ento o lugar da loucura.       a filosofia (Paris, 1995), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
Com efeito, se os significantes foracludos do      1997  Franois Roustang, Lacan, de l'quivoque 
simblico retornam no real, sem serem integra-      l'impasse, Paris, Minuit, 1986  lisabeth Roudinesco,
dos no inconsciente do sujeito*, isso quer dizer    Jacques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um
                                                    sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,
que o real se confunde com um "alhures" do
                                                    Companhia das Letras, 1994; "Bataille entre Freud et
sujeito. Fala e se exprime em seu lugar atravs     Lacan: une exprience cache", in Denis Hollier (org.),
de gestos, alucinaes ou delrios, os quais ele    Georges Bataille aprs tout, Paris, Belin, 1995, 191-
no controla.                                       212  Claude Lvesque, Le Proche et le lointain, Mon-
                                                    treal, Vlb diteur, 1994.
    A importncia atribuda  psicose como pa-
radigma do psiquismo humano estaria sempre           ESTDIO DO ESPELHO; OBJETO (PEQUENO) a;
ligada, em Lacan,  questo da cincia. A en-      OUTRO; TCNICA PSICANALTICA.
contramos duas filiaes (a cincia do real e a
heterologia) a que ele sempre recorreu (sem
diz-lo claramente) e s quais acrescentou a        realidade psquica
referncia  realidade psquica.                    al. psychische Realitt; esp. realidad psquica; fr.
    A partir de 1970, o interesse cada vez maior    ralit psychique; ing. psychical reality
pela cincia levou Lacan a tentar formalizar sua       Termo empregado em psicanlise* para de-
prpria viso conceitual: de um lado, uma ma-       signar uma forma de existncia do sujeito* que
thesis dos discursos (ou matema*), e de outro,      se distingue da realidade material, na medida
uma topologia (o n borromeano*) destinada a        em que  dominada pelo imprio da fantasia* e
substituir a antiga tpica. Essa vontade de cons-   do desejo*. Historicamente, a idia nasceu do
truir uma cincia do real traduziu-se, ento,       abandono da teoria da seduo* por Sigmund
numa reorganizao dos elementos da antiga          Freud* e da elaborao de uma concepo do
tpica na qual o lugar determinante foi ocupado     aparelho psquico baseada no primado do in-
no mais pelo simblico, mas pelo real. Como        consciente*.
conseqncia disso, a psicose (forma teorizada         Na histria da clnica psicanaltica, a noo
da loucura e lugar da simbolizao impossvel)      de realidade psquica foi objeto de diversas
viu ser-lhe imposta a tarefa de questionar todas    reinterpretaes (em especial por Melanie
as certezas da cincia. Lacan deu o nome de         Klein* e Jacques Lacan*), as quais, na aborda-
                                                                                        recalque       647

gem das psicoses* e da relao de objeto*,              a esse esclarecimento, Freud evoca suas dificul-
conduziram a acentuar a importncia dela, em            dades para ler os livros de Friedrich Nietzsche
detrimento da realidade material.                       (1844-1900), de quem tomou emprestado,
                                                        reconhece, o termo inibio, para discorrer so-
 Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Fantasia
originria, fantasia das origens, origens da fantasia
                                                        bre um mecanismo que coincide com sua
(Paris, 1985), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.       concepo do recalque. Presente na filosofia
                                                        alem do sculo XIX, a idia de recalque tam-
 BION, WILFRED RUPRECHT; CENA PRIMRIA;                 bm o est nos trabalhos de psicologia de Jo-
GOZO; IMAGINRIO; KLEINISMO; LACANISMO; NAR-            hann Friedrich Herbart* e, mais tarde, nos de
CISISMO; PHANTASIA; PRINCPIO DE PRAZER/PRIN-           Theodor Meynert*, que foi um dos mestres de
CPIO DE REALIDADE; REAL; SELF PSYCHOLOGY;              Freud.
TRANSFERNCIA.
                                                            Havendo reconhecido sua dvida, Freud
                                                        acrescenta: "A teoria do recalque , no momen-
                                                        to, o pilar sobre o qual repousa o edifcio da
recalque                                                psicanlise, ou, em outras palavras, seu elemen-
al. Verdrngung; esp. represin; fr. refoulement;       to mais essencial, o qual, por sua vez,  to
ing. repression
                                                        somente a expresso terica de uma experincia
Na linguagem comum, a palavra recalque designa          que se pode repetir quantas vezes se queira,
o ato de fazer recuar ou de rechaar algum ou          quando se empreende a anlise de um neurtico
alguma coisa. Assim,  empregada com respeito a         sem o auxlio da hipnose (...) eu me ergueria
pessoas a quem se quer recusar acesso a um pas
                                                        muito violentamente contra quem pretendesse
ou a um recinto especfico.
                                                        situar a teoria do recalque e da resistncia* entre
    Para Sigmund Freud*, o recalque designa o
                                                        os pressupostos da psicanlise e no entre seus
processo que visa a manter no inconsciente* todas
as idias e representaes ligadas s pulses* e
                                                        resultados (...) a teoria do recalque  uma aqui-
cuja realizao, produtora de prazer, afetaria o        sio do trabalho psicanaltico."
equilbrio do funcionamento psicolgico do in-              A idia de recalque aparece desde muito
divduo, transformando-se em fonte de desprazer.        cedo na elaborao da teoria freudiana do
Freud, que modificou diversas vezes sua definio       aparelho psquico, antes mesmo da carta a Wi-
e seu campo de ao, considera que o recalque          lhelm Fliess* de 6 de dezembro de 1896, na qual
constitutivo do ncleo original do inconsciente. No     ele formula a definio inaugural de sua primei-
Brasil tambm se usa "recalcamento".                    ra tpica*: nessa carta, o recalque  a denomi-
    Freud no foi o inventor da idia de recal-         nao clnica da "falta de traduo" de alguns
que. Ele mesmo reconheceu isso, com muita               materiais que no tm acesso  conscincia*. A
clareza, em suas consideraes sobre "A his-            razo dessa carncia " sempre a produo de
tria do movimento psicanaltico", publicadas           desprazer que resultaria de uma traduo; 
em 1914: "Na teoria do recalque, com certeza            como se esse desprazer perturbasse o pensa-
fui independente; no sabia de nenhuma in-              mento, entravando o processo de traduo".
fluncia que pudesse ter-me aproximado dela e,          Durante esse perodo, a noo de recalque su-
durante muito tempo, tomei essa idia por uma           perps-se com freqncia  de defesa*, embora
idia original, at o dia em que Otto Rank* nos         no lhe fosse assimilada.
mostrou o trecho de Schopenhauer, em O mun-                 Nos artigos de 1894 e 1896 que Freud dedi-
do como vontade e como representao, no qual           cou s neuropsicoses de defesa, o recalque foi
o filsofo se esfora por encontrar uma expli-          como que obscurecido pela noo de defesa,
cao para a loucura*. O que  dito nessa pas-          que permitiu ao autor enunciar uma distino
sagem sobre nossa repulsa a admitir algum               etiolgica entre a histeria*, a neurose obses-
aspecto penoso da realidade coincide to per-           siva* e a parania*. Jean Laplanche e Jean-
feitamente com o contedo de meu conceito de            Bertrand Pontalis esforaram-se por esclarecer
recalque, que  possvel que, mais uma vez, eu          essas relaes complexas e reiteradamente mo-
tenha devido a possibilidade de uma descoberta          dificadas entre defesa e recalque: "(...) a defe-
 insuficincia de minhas leituras." Em seguida         sa", escrevem eles, ", antes de mais nada, um
648     recalque

conceito genrico, que designa uma tendncia        nuam ativos no inconsciente, sob a forma de
geral", e, "se o recalque, por sua vez, tambm      derivados ainda mais prontos a retornar para o
est universalmente presente nas diversas           consciente*, na medida em que se localizam na
afeces e no especifica, como mecanismo de        periferia do inconsciente. O recalque de um
defesa particular, a histeria,  porque todas as    representante da pulso nunca  definitivo, por-
diferentes neuropsicoses implicam um incons-        tanto. Continua sempre ativo, da um grande
ciente separado, o qual, justamente, instaura o     dispndio energtico.
recalque". Em 1926, Freud tornaria a sentir             Na quinta seo do captulo VII de A inter-
necessidade de voltar a esse ponto, em seu livro    pretao dos sonhos*, Freud descreve o recal-
Inibies, sintomas e angstia*, sem contudo        que como um processo dinmico, ligado ao
esclarec-lo de maneira convincente.                processo secundrio que caracteriza o pr-
    Constitutivo do inconsciente, o recalque se     consciente: "Sustentamos firmemente -- essa 
exerce sobre excitaes internas, de origem pul-    a chave da teoria do recalque -- que o segundo
sional, cuja persistncia provocaria um exces-      sistema [o processo secundrio] s pode inves-
sivo desprazer. A propsito disso, Freud esboa     tir uma representao [isto , apoderar-se dela
um desenvolvimento terico j muito elaborado       para encaminh-la para o consciente] quando 
numa carta a Fliess de 14 de novembro de 1897.      capaz de inibir o desenvolvimento do desprazer
Nessa poca, seu fascnio pela teoria "flies-       que pode advir da."
siana" dos perodos  subjacente  sua transfe-         Em 1915, no contexto da metapsicologia*,
rncia*, e ele acredita estar a ponto de comear    o recalque foi objeto de um artigo em que o
aquilo a que denomina sua "auto-anlise*".          inconsciente j no  totalmente assimilado a
Surpreende-se ao prever acontecimentos muito        ele: "Tudo o que  recalcado tem, neces-
antes que eles ocorram: "(...) foi assim que pude   sariamente, que permanecer inconsciente, mas
anunciar-te, neste vero", escreve a seu amigo,     queremos deixar claro, logo de sada, que o
"que estava a ponto de descobrir a fonte do         recalcado no abrange tudo o que  inconscien-
recalque sexual normal (moral, pudor etc.), e       te.  o inconsciente que tem a maior extenso
depois precisei de muito tempo para encontr-       entre os dois; o recalcado  uma parte do incon-
la". Freud expe ento a Fliess suas idias sobre   sciente." Esse esclarecimento pede uma redefi-
as zonas ergenas infantis, que no mais so, na    nio do recalque: e ela se encontra no cerne do
idade adulta, fontes de descarga sexual: a regio   artigo dedicado a esse processo. Ali, Freud co-
anal e, num emprstimo das idias de Fliess, a      mea repetindo que o recalque constitui, para a
regio bucofarngea, regies estas que, em con-     pulso* e seus representantes, "um meio termo
dies normais, j no devem ser fontes de          entre a fuga [resposta apropriada s excitaes
excitao ou de contribuio libidinal, a no ser   externas] e a condenao [que seria o apangio
nos casos de perverso*. Mas essas zonas so        do supereu*]". Depois, distingue trs tempos
passveis de produzir uma descarga sexual, "por     constitutivos do recalque: (1) o recalque pro-
um efeito a posteriori da lembrana". De fato,      priamente dito, ou recalque a posteriori*; (2) o
prossegue Freud, trata-se de uma descarga de        recalque originrio; e (3) o retorno do recalcado
desprazer, "uma sensao interna anloga  re-      nas formaes do inconsciente.
pulsa sentida no caso de um objeto. Para nos            Se quisermos apreender a essncia dessa
exprimirmos com mais crueza, a lembrana            construo freudiana, ser preciso abord-la
desprende hoje o mesmo mau cheiro que um            atravs da questo do recalque originrio.
objeto atual. Assim como desviamos com nojo             O recalque em geral incide sobre os repre-
nosso rgo sensorial (cabea e nariz) dos ob-      sentantes das pulses, os quais, por sua vez, so
jetos ftidos, tambm o pr-consciente* e nossa     objeto de uma retirada do investimento*, isto ,
compreenso consciente desviam-se da lem-           de uma cessao do encarregar-se deles por
brana.  a isso que chamamos recalque".            parte do pr-consciente; nesse caso, o inconsci-
    O recalque no lida com as pulses em si,       ente efetua imediatamente um investimento
mas com seus representantes, imagens ou             substituto, o qual, em contrapartida, requer um
idias, os quais, apesar de recalcados, conti-      "contra-investimento" por parte do pr-cons-
                                                                                 regra fundamental        649

ciente, que esbarra ento na atrao constituda           recusa (da realidade)
por elementos do inconsciente outrora recalca-              RENEGAO.
dos. Este ltimo aspecto levou Freud a postular
a existncia de um recalque precedente, ou
recalque originrio. Esse seria um recalque que            regra fundamental
Freud assimilou a uma fixao, resultante de
                                                           al. Grundregel; esp. regla fundamental; fr. rgle
uma recusa inicial do inconsciente a se encar-
                                                           fondamentale; ing. fundamental rule
regar do representante de uma pulso. O repre-
sentante assim recalcado subsistiria de maneira            Regra constitutiva da situao psicanaltica, se-
inaltervel e permaneceria ligado  pulso. Ob-            gundo a qual o paciente deve esforar-se por dizer
                                                           tudo o que lhe vier  cabea, principalmente aquilo
serve-se que Freud no  nada explcito quanto
                                                           que se sentir tentado a omitir, seja por que razo
 verdadeira origem desse processo: de onde
                                                           for.
provm os elementos de atrao do incons-
ciente que so responsveis por essa primeira                  Em 1904, para atender a um pedido do psi-
fixao? Na falta de uma resposta clara, ele               quiatra Leopold Lwenfeld (1847-1924), que
enuncia a hiptese, em 1926, de uma invaso                estava preparando um livro dedicado aos Fen-
primordial, decorrente de uma fora de excita-             menos obsessivos psquicos, Sigmund Freud*
o particularmente intensa. O retorno do recal-           escreveu um pequeno artigo, intitulado "O m-
cado, terceiro tempo do recalque, manifesta-se             todo psicanaltico de Freud". Nele evocou as
sob a forma de sintomas -- sonhos*, esqueci-               transformaes de seu mtodo, desde seus pri-
mentos e outros atos falhos* --, considerados              meiros trabalhos com Josef Breuer*, e esclare-
por Freud como formaes de compromisso.                   ceu os inconvenientes do recurso  hipnose*,
    Na segunda tpica, o recalque  ligado                que no destrua as resistncias* nem fornecia
parte inconsciente do eu*. E, nesse sentido,               seno informaes parciais, e que s levava a
Freud pode dizer que o recalcado, tal como essa            sucessos provisrios. O mtodo das associa-
parte do eu, funde-se com o isso*. "O recalca-             es livres, ou da livre associao*, permitia
do", escreve ele em O eu e o isso*, "s se separa          atingir com muito maior facilidade, segundo
nitidamente do eu pelas resistncias* do recal-            ele, os elementos que estavam em condies de
que, ao passo que, atravs do isso, pode comu-             liberar os afetos, as lembranas e as representa-
nicar-se com ele."                                         es. Para tanto, era preciso convidar os pacien-
                                                           tes a "se deixarem levar" e "exigir" deles "que
                                                           no [deixassem] de revelar um s pensamento
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
                                                           ou idia, a pretexto de o acharem vergonhoso
Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; "As neu-      ou doloroso".
ropsicoses de defesa" (1894), ESB, III, 57-74; GW, 1,          Em setembro de 1894, Freud comeou timi-
57-74; SE, III, 41-61; OC, III, 1-18; "Novos comentrios   damente a recorrer a esse mtodo e, dessa ma-
sobre as neuropsicoses de defesa" (1896), ESB, III,
187-216; GW, I, 377-403; SE, III, 157-85; OC, III,
                                                           neira, foi levado a escutar os sonhos* que seus
121-46; A interpretao dos sonhos (1900), ESB, IV-V,      pacientes se puseram a lhe contar. Depois disso,
1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621; Paris, PUF,     renunciaria definitivamente  hipnose, em feve-
1967; "A histria do movimento psicanaltico" (1914),      reiro de 1896.
ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV, 7-66; Paris,
                                                               Na segunda das cinco conferncias proferi-
Gallimard, 1991; "Recalque" (1915), ESB, XIV, 169-90;
GW, X, 247-61; SE, XIV, 141-58; OC, XIII, 188-201; "O      das quando de sua viagem aos Estados Unidos*
inconsciente" (1915), ESB, XIV, 191-233; GW, X, 263-       em 1909 em companhia de Carl Gustav Jung*
303, SE, XIV, 159-204; OC, XIII, 205-43; O eu e o isso     e Sandor Ferenczi*, Freud rendeu homenagens
(1923), ESB, XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX,         Escola de Zurique e a Jung, em particular, por
12-59; OC, XVI, 255-301; Inibies, sintomas e angs-
tia (1925), ESB, XX, 107-98; GW, XIV, 113-205; SE,         haverem desenvolvido desde cedo o "teste da
XX, 87-172; OC, XVII, 203-86  Jean Laplanche e            associao verbal*". Em seguida, evocou a
Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psicanlise         "principal regra psicanaltica" -- ainda no
(Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.      "fundamental", nessa ocasio --, que incitava
                                                           o paciente a fazer associaes, e a considerou
 REPRESSO.                                                to importante quanto a interpretao dos so-
650      Reich, Wilhelm

nhos e a explorao dos atos falhos, meios            uma fala "plena", que  dolorosa porque susce-
tcnicos de investigar o inconsciente*. Em            tvel de ser verdadeira. Atravs de seu silncio,
1923, em seus verbetes de enciclopdia "Psica-        o analista deixa transparecer que, mais-alm da
nlise" e "Teoria da libido", sublinhou que a         demanda de cura, o paciente  portador de uma
regra fundamental era indispensvel  realiza-        outra demanda, uma "demanda intransitiva",
o do trabalho psicanaltico.                        que "no comporta nenhum objeto", e na qual
    Por fim, em sua autobiografia ("Um estudo         vm repetir-se os elementos de uma identifica-
autobiogrfico"), Freud retornou  evoluo de        o* primria com a onipotncia materna.
seu mtodo e insistiu na necessidade do respeito          Um sculo depois de sua instaurao, a ques-
 "regra fundamental da psicanlise" para se          to da regra fundamental continua presente.
chegar  associao livre, nico meio de fazer        Alis, o problema pode ser abordado sob um
surgirem as resistncias* e de permitir a consi-      ngulo mais terico, como fez o psicanalista
derao delas como material a ser interpretado.       francs Jean-Luc Donnet, que estudou as res-
    Em 1919, quando exps sua tcnica psica-          sonncias supereuicas do enunciado da regra,
naltica*, Ferenczi lembrou o carter incontor-       em termos de prescrio e obrigatoriedade, e se
nvel da regra fundamental, porm evidenciou          indagou sobre as condies que permitem su-
seus limites: "Todo o mtodo psicanaltico se         perar a contradio entre essas implicaes e o
apia na regra fundamental formulada por              que ele denomina de "privilgio no supereui-
Freud (...). Sob nenhum pretexto devemos tole-        co da interpretao", atributo da neutralidade do
rar qualquer exceo a essa regra, e  preciso        analista.
tirar a limpo, sem indulgncia, tudo aquilo que
                                                       Sigmund Freud, "O mtodo psicanaltico de Freud"
o paciente, seja por que razo for, procurar          (1904), ESB, VII, 257-66; GW, V, 3-10; SE, VII, 255-68;
subtrair da comunicao. Entretanto, depois de        in La Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953;
o paciente ter sido educado, no sem alguma           Cinco lies de psicanlise (1910), ESB, XI, 13-58;
dificuldade, para seguir essa regra ao p da letra,   GW, VIII, 3-60; SE, XI, 7-55; OC, X, 1-55; "Dois ver-
                                                      betes de enciclopdia: (A) Psicanlise, (B) Teoria da
pode suceder que sua resistncia se apodere           libido" (1923), ESB, XVIII, 287-314; GW, XIII, 211-33;
precisamente dessa regra e que ele tente vencer       SE, XVIII, 235-59; OC, XVI, 181-208; "Um estudo
o mdico com suas prprias armas." Ferenczi,          autobiogrfico" (1925), ESB, XX, 17-88; GW, XIV, 33-
que voltaria a essa questo num outro texto,          96; SE, XX, 7-70; Paris, Gallimard, 1984  Jean-Luc
                                                      Donnet, "Surmoi. Le Concept freudien et la rgle fon-
dedicado  psicanlise dos hbitos sexuais, evo-      damentale", monografias da Revue Franaise de Psy-
cou o caso dos "neurticos obsessivos" que            chanalyse, Paris, PUF, 1995  Sandor Ferenczi, "A
agem como se houvessem entendido mal a re-            tcnica psicanaltica" (1919), in Psicanise II, Obras
gra, e que produzem "unicamente" um material          completas, 1913-1919 (Paris, 1970), S. Paulo, Martins
                                                      Fontes, 1992, 357-68; "Psicanlise dos hbitos
absurdo  guisa de associaes.                       sexuais" (1925), in Psicanlise III, Obras completas,
    Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis           1919-1926 (Paris, 1974), S. Paulo, Martins Fontes,
sublinharam que a regra fundamental inscreveu         1993, 327-60  Jacques Lacan, "A direo do tratamen-
o tratamento psicanaltico na ordem da lingua-        to e os princpios de seu poder" (1958), in Escritos
                                                      (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 591-
gem e fez "aparecer como um acting out*" tudo         652  Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Voca-
o que no se relacionasse a ela. Por outro lado,      bulrio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins
na trilha de Ferenczi, esses autores indicaram        Fontes, 1991, 2 ed.
que alguns pacientes podem utilizar a regra
fundamental para demonstrar a impossibilidade          ABSTINNCIA, REGRA DE; ATENO FLUTUANTE;
de sua aplicao rigorosa: "Est claro que a          CONTRATRANSFERNCIA; TCNICA PSICANALTI-
                                                      CA; TRANSFERNCIA.
regra psicanaltica no convida a fazer enuncia-
dos sistematicamente incoerentes, mas a no
fazer da coerncia um critrio de seleo."
    Em 1958, num artigo dedicado  direo do         Reich, Wilhelm (1897-1957)
tratamento, Jacques Lacan* destacou que a re-         psiquiatra e psicanalista americano
gra fundamental leva o paciente a se confrontar          O itinerrio atormentado do maior dis-
com uma fala livre, cujo controle ele no detm:      sidente da segunda gerao* freudiana, prxi-
                                                                             Reich, Wilhelm      651

mo de Wilhelm Fliess* por suas teorias biol-        movimento psicanaltico depois da Primeira
gicas e de Otto Gross* pelo seu destino de           Guerra Mundial.
eterno perseguido, foi narrado de forma carica-         A partir de 1924, Reich se interessou pelas
tural pela historiografia oficial*, sobretudo pelo   obras de Marx e Engels para tentar mostrar a
seu principal representante, Ernest Jones*, res-     origem social das doenas mentais e nervosas.
ponsvel, com Max Eitingon*, Anna Freud* e           Nessa perspectiva, procurava conciliar os
Sigmund Freud*, por sua excluso da Interna-         conceitos marxistas e os da psicanlise. Em
tional Psychoanalytical Association* (IPA). Foi      1927, publicou uma obra de sexologia, A fun-
o criador do freudo-marxismo*, o terico de          o do orgasmo, que dedicou a "meu mestre o
uma anlise do fascismo que marcou todo o            professor Sigmund Freud", e um ensaio, "Da
sculo e o artfice de uma reformulao da           anlise do carter" (que se tornaria depois A
tcnica psicanaltica* que se apoiava em uma         anlise do carcter), no qual se introduzia o
concepo da sexualidade* mais prxima da            essencial de sua divergncia terica e tcnica
sexologia* que da psicanlise*.                      com o freudismo*. Acusava os psicanalistas de
    Nascido em Dobrzcynica, na Galcia, Reich        abandonar a libido* e querer domesticar o sexo,
era de uma famlia judia assimilada e foi edu-       aceitando o princpio de uma adaptao do
cado longe de qualquer tradio religiosa. Com       indivduo aos ideais do capitalismo burgus.
a idade de 14 anos, teve um papel importante         Em um primeiro tempo, embora no comparti-
no suicdio* de sua me, ao revelar ao pai a         lhasse as opinies do jovem, Freud o achou
ligao desta com um de seus preceptores. Trs       simptico: "Temos aqui um doutor Reich, es-
anos depois, Lon Reich morreu de pneumonia,         creveu ele a Lou Andreas-Salom*, um bravo
e seu filho lhe sucedeu  frente da fazenda da       mas impetuoso criador de cavalos-de-batalha,
                                                     que agora venera no orgasmo genital o contra-
famlia e da criao de bovinos.
                                                     veneno de toda neurose*." Essa empatia duraria
    Na Faculdade de Medicina de Viena*, conti-
                                                     pouco, e Freud no tardaria a detestar Reich, a
nuou seus estudos e orientou-se para a psican-
                                                     ponto de querer elimin-lo do movimento psi-
lise. Em 1919, encontrou-se com Freud e, um
                                                     canaltico.
ano depois, participou das reunies da Wiener
                                                        Nesse debate sobre a sexualidade*, que du-
Psychoanalytische Vereinigung (WPV). Ficou
                                                     rava desde o fim do sculo XIX, a posio de
conhecendo ento Annie Pink (que se tornaria         Reich era simtrica  de Carl Gustav Jung*. Se
sua primeira mulher, sob o nome de Annie             este dessexualizava o sexo em benefcio de uma
Reich-Rubinstein*) e Otto Fenichel* (cujas po-       espcie de impulso vital, Reich operava a des-
sies polticas compartilharia durante alguns       sexualizao da libido em benefcio de uma
anos). Nessa poca, apresentou  WPV sua             genitalidade biolgica, fundada no desenvolvi-
primeira comunicao, dedicada a Peer Gynt,          mento de uma felicidade orgstica, da qual a
clebre drama de Henrik Ibsen (1828-1906).           pulso de morte estaria excluda.
Esse heri noruegus  procura de identidade,           Depois de ter sido membro do Partido So-
que acaba por se fazer proclamar Imperador do        cial-Democrata austraco, Reich aderiu em
Egito num asilo de loucos, simbolizava, de certa     1928 ao Partido Comunista e comeou a militar
forma, o mal-estar do ps-romantismo alemo,         com ardor, construindo uma mitologia operria,
com o qual Reich se identificava.                    segundo a qual a genitalidade do proletariado
    Em 1921, comeou a praticar a psicanlise        seria isenta do "micrbio" burgus. No hesitou
sem ser analisado e dirigiu um seminrio de          em afirmar que as neuroses eram mais raras na
sexologia, que teve muito sucesso. Nessa po-        classe operria do que nas camadas superiores
ca, evoluiu para um energetismo que no se           da sociedade. Isso o levou a acentuar ainda mais
harmonizava com a reformulao freudiana             a sua recusa da noo de pulso de morte, j
realizada na segunda tpica*. Da a idia rei-       expressa em A funo do orgasmo. Logo, criou
chiana segundo a qual a hiptese da pulso* de       uma Sociedade Socialista de Informao e de
morte teria sido consecutiva a uma depresso         Pesquisas Sexuais, assim como clnicas de hi-
de Freud, causada pela evoluo ortodoxa do          giene sexual, destinadas  informao dos as-
652     Reich, Wilhelm

salariados. Paralelamente, continuou suas pes-      tantes de extrema esquerda: Marie Langer*
quisas e, em 1929, publicou na revista mosco-       tambm pagaria o preo dessa poltica.
vita Sob a bandeira do marxismo o manifesto              J no ano precedente, por ocasio da publi-
fundador do freudo-marxismo: "Materialismo          cao de um artigo de Reich (sobre o carter
dialtico e psicanlise". Nesse texto, fazia com-   masoquista) no Internationale Zeitschrift fr
paraes entre a doutrina freudiana e o marxis-     Psychoanalyse*, o mestre de Viena julgara
mo, para mostrar, contra os psiclogos bolche-      necessrio fazer algumas ressalvas, precisando
viques que recusavam o carter "idealista" da       em um pargrafo introdutrio: "No mbito da
psicanlise, que esta era uma "cincia natural",    psicanlise, esta revista concede, a todo autor
tendo como objeto a vida psquica do homem.         que lhe dirige um texto para publicao, plena
Por isso, no podia ser assimilada a um fenme-     liberdade para sua opinio; em contrapartida, a
no de "decomposio originrio da burguesia         revista deixa aos autores a responsabilidade das
decadente", como afirmavam seus detratores          opinies que expem. No caso do doutor Reich,
comunistas.                                         o leitor deve ser informado de que o autor 
    Fascinado pela Revoluo, Reich foi  Rs-      membro do partido bolchevista. Ora, sabemos
sia* em setembro de 1929, e informou-se sobre       que o bolchevismo impe, assim como as orga-
os conflitos que opunham os freudo-marxistas        nizaes eclesisticas, limites para a pesquisa
aos antifreudianos. Em Moscou, encontrou-se         [...]. O editor teria feito o mesmo comentrio,
com Vera Schmidt* e teve com ela longas             se lhe apresentassem um texto redigido por um
entrevistas. Nessa poca, era o nico intelectual   membro da SJ (Societas Jesu)."
da Europa a conhecer a realidade dos debates             Assim, foi realmente em razo de sua adeso
russos sobre a psicanlise.                         ao comunismo, e no por uma discordncia
    Ao voltar da viagem, deixou Viena e foi para    tcnica e doutrinria, que Reich foi perseguido
Berlim. Em 1930, fez uma anlise didtica com       pelo movimento freudiano, pelo prprio Freud
Sandor Rado* e integrou-se  Sociedade Psica-       e tambm por Jones, que inicialmente lhe
naltica. Criou ento a Associao para uma         demonstrara simpatia.
Poltica Sexual Proletria, a SEXPOL, atravs            Por seu anticomunismo e seu conservadoris-
da qual desenvolveu uma poltica de higiene         mo, Jones no foi suficientemente sensvel ao
mental dirigida  juventude. Assimilava a luta      perigo que o nazismo* representava para o freu-
sexual  luta de classes e desafiava os costumes    dismo. Assim, aceitou, em 1933-1935, com o
do conformismo burgus e do comunismo.              apoio tcito de Freud, manter uma poltica de
    Isso fez com que irritasse tanto os meios       "salvamento" da psicanlise na Alemanha, que
psicanalticos (muito conservadores na polti-      teria graves conseqncias para a IPA. Ora,
ca) e os comunistas stalinistas (adversrios de     Reich pensava que, ao contrrio, era preciso
suas teses libertrias). Excludo do Partido ale-   lutar at o fim contra o nazismo e preconizava,
mo, no exato momento da tomada do poder por        contra essa poltica de pretenso salvamento, a
Hitler, exilou-se na Dinamarca, onde teve que       dissoluo pura e simples da Deutsche Psy-
enfrentar uma campanha de difamao que o           choanalytische Gesellschaft (DPG) j em 1933.
perseguiria at a Noruega.                          No Congresso de Lucerna, em 1934, Reich foi
    No mesmo ano de seu exlio, decidiu criticar    excludo das fileiras da IPA, exatamente quando
frontalmente a psicanlise clssica, publicando     no era possvel acus-lo de bolchevista, pois
um livro, A anlise do carter, no qual adotava     ele j no era mais membro do Partido
posies idnticas s de Sandor Ferenczi* a         Comunista. Harald Schjelderup* e o grupo no-
respeito da tcnica ativa. Essa obra devia ser      ruegus se opuseram a essa excluso, que teria
publicada pelo Internationaler Psychoanalytis-      srias repercusses na situao da psicanlise
cher Verlag, mas Freud se ops, em razo do         na Escandinvia*.
engajamento poltico de seu autor. Com seus              Essa excluso tambm teria um papel maior
discpulos, Freud optara por uma estratgia que     na evoluo posterior de Reich. Inicialmente,
consistia, por receio de eventuais represlias do   ele juntou-se  esquerda freudiana no-
governo, em excluir de suas fileiras os mili-       comunista, e comeou um dilogo fecundo com
                                                                             Reich, Wilhelm       653

Otto Fenichel*, a despeito de muitos desacor-        romantismo com a tecnologia quantitativa pr-
dos. Entre 1930 e 1933, redigiu a sua mais bela      pria da sexologia.
obra, que se tornaria um clssico: A psicologia          Em 1939, cada vez mais perseguido e sem-
de massas do fascismo. Longe de considerar o         pre decepcionado pelos que o cercavam, Reich
fascismo como produto de uma poltica ou de          deixou a Europa definitivamente com sua nova
uma situao econmica de uma nao ou de            companheira, Ilse Ollendorf, que se tornaria sua
um grupo, via nele a expresso de uma estrutura      segunda mulher e lhe daria um filho. Elsa Lin-
inconsciente e estendia a definio  coletivi-      denberg ficou em Oslo.
dade, para enfatizar que, definitivamente, o fas-        Instalado em um chal no Maine, perto da
cismo se explicava por uma insatisfao sexual       fronteira canadense, realizou o seu sonho: cons-
das massas. Reich retomava assim um tema que         truir e pr em prtica uma teoria orgstica do
fora tratado de outra maneira por Gustave Le         universo, com os meios tecnolgicos da poca.
Bon (1841-1931) e depois por Freud, em Psi-          Foi assim que pensou ter descoberto o "orgnio
cologia das massas e anlise do eu*, mas dan-        atmosfrico" e, para capt-lo, a fim de curar os
do-lhe um contedo radicalmente novo no mes-         seus pacientes da sua impotncia orgstica,
mo momento em que o nazismo se abatia sobre          construiu um centro de pesquisas, ao qual deu
a Alemanha. Essa obra teria repercusso mun-         o nome de Orgonon. Ali, como o Frankenstein de
dial, e a doutrina reichiana seria retomada por      Mary Shelley (1797-1851) revisto e corrigido pela
todos os tericos do freudo-marxismo e pos-          esttica do cinema hollywoodiano, experimentou
teriormente, por volta dos anos 1970, pelos          os seus "acumuladores de orgnio", verdadeiras
movimentos libertrios.                              mquinas destinadas a armazenar a famosa ener-
                                                     gia. Em dezembro de 1940, Reich pediu uma
    A partir de 1933, e principalmente depois de
                                                     entrevista a Albert Einstein (1878-1955), com
sua dupla excluso da IPA e do movimento
                                                     quem conversou durante cinco horas e que se
comunista, Reich se sentiu terrivelmente perse-
                                                     encantou com suas "descobertas", a ponto de
guido. Separou-se de Annie Reich, me de suas
                                                     verificar pessoalmente o funcionamento de um
duas filhas (Eva e Lore), que continuaria sendo
                                                     acumulador. Mas um ms depois, Einstein emitiu
membro da IPA e amiga de Fenichel. Reich
                                                     um veredito negativo sobre a experincia. Reich
viveu durante alguns anos com Elsa Linden-
                                                     protestou, porm Einstein no respondeu s suas
berg, uma bailarina que ele conheceu em Ber-
                                                     cartas. Nova decepo.
lim e que foi a seu encontro em Copenhague,
                                                         A partir de janeiro de 1942, atacado por
onde se tornou adepta de uma psicoterapia*           todos os lados, tratado de charlato pelos psi-
fundamentada nos movimentos corporais.               quiatras e de esquizofrnico pelos meios psica-
    Em 1936, tratado de esquizofrnico pela          nalticos americanos, Reich mergulhou na lou-
comunidade freudiana, Reich afastou-se defini-       cura*, acreditando-se vtima do grande MOD-
tivamente da psicanlise, criando em Oslo um         JU, ou seja, dos "fascistas vermelhos". Esse
Instituto de Pesquisas Biolgicas de Economia        nome, forjado por ele, era derivado de MO
Sexual, no qual se reuniam mdicos, psiclo-         (cenigo), personagem annimo que entregara
gos, educadores, socilogos e assistentes de         Giordano Bruno (1548-1600)  Inquisio, e de
jardins de infncia. Paralelamente, inventou um      DJOU (gachvili), alis Stalin (1879-1953).
novo mtodo, a vegetoterapia, futura orgonote-           Acusado de estelionato por ter comerciali-
rapia. Ligava o tratamento pela palavra  inter-     zado seus acumuladores de orgnio, Reich foi
veno no corpo e apresentava a neurose como         preso depois de um lamentvel processo, e mor-
uma rigidez ou uma retrao do organismo que         reu de ataque cardaco na penitenciria de Le-
era preciso tratar por exerccios de descontrao    wisburg, na Pensilvnia, a 3 de novembro de
muscular, a fim de fazer surgir o "reflexo orgs-    1957. Em maio, quando trabalhava na bibliote-
tico". Depois, atrado pela teoria dos bons (par-   ca da priso, escreveu estas palavras para seu
tculas de energia vital), deu livre curso a seu     filho Peter: "Orgulho-me de estar em to boa
fascnio pelas teorias fsico-biolgicas, tentan-    companhia, com Scrates, Cristo, Bruno, Gali-
do conciliar os temas cosmognicos caros ao          leu, Moiss, Savonarola, Dostoievski, Gandhi,
654      Reich-Rubinstein , Annie

Nehru, Mindszenty, Lutero e todos os que com-             Janeiro, Zahar, 1982; L'Irruption de la morale sexuelle
bateram contra o demnio da ignorncia, os                (Berlim, 1932), Paris, Payot, 1972; Anlise do carter
                                                          (Viena, 1933, N. York, 1945, 1949), S. Paulo, Martins
decretos ilegtimos e as chagas sociais... Voc           Fontes, 1995; Psicologia de massas do fascismo
aprendeu a esperar em Deus assim como ns                 (Copenhague, 1933, N. York, 1946), S. Paulo, Martins
compreendemos a existncia e o reino univer-              Fontes, 1988; The Discovery of the Orgone, 2, The
sais da Vida e do Amor."                                  Cancer Biopathy (N. York, 1948), traduzido para o
    Em 1952, Kurt Eissler realizou para os Sig-           francs sob o ttulo Biopathie du cancer, Paris, Payot,
                                                          1975; Escuta, Z ningum (N. York, 1948), S. Paulo,
mund Freud Archives* uma notvel entrevista               Martins Fontes; L'ther, dieu et le diable (N. York,
com Reich, publicada em 1967 sob o ttulo                 1951), Paris, Payot, 1973; O assassinato de Cristo
Reich fala de Freud. Mas, sem explicaes,                (Maine, 1953), S. Paulo, Martins Fontes, 1995; Reich
Ernst Freud*, levado por Eissler, recusou a               parle de Freud (N. York, 1967), Paris, Payot, 1970;
Mary Higgins, responsvel pela publicao, o              Premiers crits, 2 vols. (N. York, 1979), Paris, Payot,
                                                          1982  Ilse Ollendorf-Reich, Wilhelm Reich (N. York,
direito de citar as cartas que Freud escrevera a          1970), Paris, Belfond, 1970  David Boadella, The
seu ex-discpulo. Estas tiveram at mesmo a sua           Evolution of his Work, Londres, Vision Press, 1973 
consulta proibida na Biblioteca do Congresso*,            L'Arc, nmero especial sobre Wilhelm Reich, 83, 1982
em Washington.                                             Russel Jacoby, Otto Fenichel: destins de la gauche
    Reich tinha uma admirao sem limites por             freudienne (N. York, 1983), Paris, PUF, 1986  lisabeth
                                                          Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana, vol.2
Freud, enquanto Freud se mostrou, para com ele,           (Paris,1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
de uma ferocidade desmedida.  quase certo que
a publicao dessa correspondncia daria ao gran-          ANTIPSIQUIATRIA; GUATTARI, FLIX; PSICOSSO-
de fundador uma imagem pouco semelhante  que             MTICA, MEDICINA; PSICOTERAPIA INSTITUCIONAL.
lhe atribui a hagiografia oficial. Efetivamente,
conhecem-se resumos do contedo provvel des-
sas cartas, que mostram que Freud teve medo de
Reich: de sua loucura, de sua celebridade, de seu         Reich-Rubinstein , Annie,
engajamento poltico. Quanto a seus discpulos,           ne Pink (1902-1971)
estes tudo fizeram para se livrar de um homem que         psiquiatra e psicanalista americana
incomodava seu conformismo, questionava suas                  Nascida em Viena*, de famlia judia, Annie
convices e reatava com as origens "fliessianas"         Pink era filha de uma militante feminista. De-
-- cuja importncia eles queriam apagar -- da             pois de estudar medicina, orientou-se para a
doutrina freudiana.                                       psicanlise* e participou das reunies da Wie-
    Os adeptos de Reich no foram menos sec-              ner Psychoanalytische Vereinigung (WPV). No
trios na adorao de seu grande homem, cuja              Movimento da Juventude Austraca, encontrou
loucura negaram, para apresent-lo como um                Otto Fenichel*, que a apresentou a Wilhelm
heri sem medo e sem mcula, vtima de perse-             Reich*, de quem se tornou mulher depois de um
guies obstinadas.                                       incio de anlise com ele. Fez sua formao
    As teses reichianas tiveram uma grande in-            didtica com Hermann Nunberg* e Anna
fluncia na posteridade, tanto do lado do biolo-          Freud*. Instalou-se em Berlim. Integrada  "es-
gismo, quando retornaram com a gestalt-tera-              querda freudiana" e amiga de Edith Jacobson*,
pia*, quanto nos anos 1965-1975, quando rea-              no aderiu, entretanto, s teses reichianas e
pareceram com a contestao libertria na                 continuou membro da International Psychoana-
maioria dos grandes pases onde a psicanlise             lytical Association* (IPA). Depois de sua sepa-
se implantara.                                            rao de Reich, deixou Berlim e reuniu-se a
                                                          Fenichel, que estava em Praga. Ficou ali at
 Wilhelm Reich, A funo do orgasmo (Leipzig, Viena,
1927), S. Paulo, Brasiliense, 1995; Psicopatogia e        1939 e emigrou para os Estados Unidos*, de-
sociologia da vida sexual (Paris, 1975), S. Paulo, Glo-   pois de se casar com Arnold Rubinstein, um
bal; "Matrialisme dialectique et psychanalyse" (na       historiador judeu de origem russa. Fez uma
revista Unter dem Banner des Marxismus, 1929, e
                                                          longa carreira na New York Psychoanalytical
depois em livro, em Copenhague, 1934), Paris, La
Pense Molle, 1970; A revoluo sexual (Viena, 1930,      Society (NYPS) e prosseguiu suas atividades
Copenhague, 1936, N. York, 1962, Paris, 1968), Rio de     clnicas no Hospital do Monte Sinai.
                                                                                      Reik, Theodor         655

 Annie Reich, Psychoanalytic Contributions, N. York,     aceitou ento analis-lo, em um tratamento in-
International Universities Press, 1973  Russel Jacoby,
                                                          terminvel que se desenrolou em dois tempos.
Otto Fenichel. Destins de la gauche freudienne (N.
York, 1983), Paris, PUF, 1986.                                Em 1925, estourou o caso do processo por
                                                          exerccio ilegal da medicina, que iria tornar
 FREUDO-MARXISMO.                                         Reik clebre e provocar uma verdadeira tem-
                                                          pestade no seio do movimento psicanaltico in-
                                                          ternacional, principalmente entre europeus e
Reik, Theodor (1888-1969)                                 americanos. Acusado de praticar a psicanlise*
                                                          sem ser mdico, Reik foi defendido por Freud,
psicanalista americano
                                                          que publicou nessa ocasio uma obra, A questo
    Esse melmano vienense, apaixonado pelas              da anlise leiga*, na qual defendia os no-m-
melodias de Gustav Mahler*, grande leitor de              dicos, enfatizando o carter leigo da prtica
Goethe e do poeta Richard Beer-Hofmann                    psicanaltica. O caso tomou uma dimenso con-
(1866-1965), erudito em literatura e antropolo-           sidervel no seio da International Psychoanaly-
gia*, tambm era um eminente praticante da                tical Association* (IPA), a ponto de dividir a
psicanlise aplicada*, e tinha tal venerao por          comunidade freudiana: de um lado, os partid-
seu mestre Sigmund Freud* que no conseguia               rios da psicanlise dita mdica (em geral, ame-
impedir-se de imit-lo em todos os aspectos.              ricanos); do outro, seus adversrios (em geral,
Vestia-se como Freud, usava uma barba como                europeus), apoiados por Marie Bonaparte*.
a de Freud e fumava os mesmos charutos que
                                                              Atingido por esse tumulto, Reik se instalou em
Freud. Por isso, no primeiro crculo vienense,
                                                          Berlim em 1928 com a esperana de fazer carreira.
recebeu o apelido de "smile Freud".
                                                          Mas quando os nazistas chegaram ao poder, foi
    Proveniente de uma modesta famlia judia de
                                                          obrigado a emigrar, primeiro para Leiden, na
origem hngara, Theodor Reik sofreu na infncia
                                                          Holanda, e depois para Nova York, onde chegou
com a depresso de sua me e com os conflitos
                                                          em junho de 1938, depois de ter feito uma ltima
entre seu av materno, judeu ortodoxo e sbio
                                                          visita a Freud, tambm exilado em Londres.
talmudista, e seu pai, livre-pensador. Este morreu
                                                              No continente americano, as dificuldades
quando ele tinha 18 anos. Assim, viu-se obrigado
                                                          continuaram. Apesar de sua notoriedade, Reik,
a trabalhar para ajudar a famlia, enquanto sofria
                                                          sem o ttulo de mdico, nunca pde integrar-se
de crises de angstia doentias, que se traduziam
                                                           New York Psychoanalytic Society (NYPS).
por auto-acusaes aberrantes e mortificaes as-
                                                          Como outros psicanalistas emigrados (Wilhelm
cticas. Entretanto, estudou letras e filosofia na
                                                          Stekel* e Franz Alexander*, notadamente),
Universidade de Viena* e dedicou sua tese ao
                                                          contestou os princpios ortodoxos do tratamen-
estudo de um relato de Gustave Flaubert (1821-
                                                          to e pregou a humanizao da tcnica, desen-
1880), A tentao de Santo Anto. Depois, editou
                                                          volvendo a tese do "terceiro ouvido", segundo
cerca de cem publicaes, entre livros e artigos,
                                                          a qual o analista devia usar sua intuio na
em alemo e em ingls.
                                                          relao contratransferencial com o paciente.
    Freud gostava desse homem neurtico, sem-
                                                          Theodor Reik morreu de uma crise cardaca.
pre  procura de um pai, que ele adotou como
um filho espiritual. Em 1911, estimulou-o a
                                                           Theodor Reik, couter avec la troisime oreille.
aderir  Wiener Psychoanalytische Vereinigung             L'Exprience intrieure d'un psychanalyste (N. York,
(WPV), mas recusou-se a analis-lo e enviou-o             1948), Paris, Epi, 1976; Fragment d'une grande
para Karl Abraham*, em Berlim. No sendo                  confession (N. York, 1949), Paris, Denol, 1973; Varia-
mdico e no tendo fortuna pessoal, Reik teve             tions sur un thme de Gustav Mahler (N. York, 1953),
                                                          Paris, Denol, 1972; Trente ans avec Freud (N. York,
dificuldade em ganhar a vida como clnico.                1956), Paris, Denol, 1976  Jean-Marc Alby, Theodor
Assim, foi sustentado por Freud, que lhe dava             Reik. Le Trajet d'un psychanalyste de Vienne "fin-de-
uma soma mensal e pagou a sua anlise com                 sicle" aux tats-Unis, Paris, Clancier-Gunaud, 1985.
Abraham. Ao voltar da Primeira Guerra Mun-
dial, durante a qual serviu no exrcito austraco,         ANLISE DIDTICA; ANLISE LEIGA; CONTRA-
Reik foi acometido de distrbios cardacos, sen-          TRANSFERNCIA; ESTADOS UNIDOS; PASES BAI-
tindo muitas vezes o terror de morrer. Freud              XOS; TCNICA PSICANALTICA.
656       rejeio

rejeio                                                      XIX, 179-88; GW, XIII, 293-8; SE, XIX, 141-5; OC, XVI,
                                                              303-9; "A perda da realidade na neurose e na psicose"
 FORACLUSO.                                                  (1924), ESB, XIX, 229-38; GW, III, 363-8; SE, XIX, 183-7;
                                                              OC, XVII, 35-43; "Algumas conseqncias psquicas das
                                                              diferenas anatmicas entre os sexos" (1925), ESB, XIX,
religio                                                      285-94; GW, XIV, 19-30; SE, XIX, 248-58; OC, XVII,
                                                              189-202; "Fetichismo" (1927), ESB, XXI, 179-88; GW,
 BEIRNAERT, LOUIS; FUTURO DE UMA ILUSO, O;                   XIV, 311-7; SE, XXI, 147-57; in La Vie sexuelle, Paris,
HAITZMANN, CHRISTOPHER; IGREJA; LAIR LAMOT-                   PUF, 1969; "A clivagem do eu no processo de defesa"
TE, PAULINE; PARANIA; PFISTER, OSKAR; SCH-                   (1938), ESB, XXIII, 309-14; GW, XVII, 59-62; SE, XXIII,
REBER, DANIEL PAUL.                                           271-8; in Rsultats, ides, problmes, II, Paris, PUF,
                                                              1985, 283-7  Guy Rosolato, "tude des perversions
                                                              sexuelles  partir du ftichisme", in Le Dsir et la perver-
                                                              sion, Paris, Seuil, 1967, 9-52  Octave Mannoni, "Je sais
renegao                                                     bien mais quand mme", in Clefs pour l'imaginaire, Paris,
al. Verleugnung; esp. desmentida; fr. dni; ing.              Seuil, 1969.
disavowal
                                                               CASTRAO; FORACLUSO; FRUSTRAO; PAN-
Termo criado por Sigmund Freud*, em 1923, para                KEJEFF, SERGUEI CONSTANTINOVITCH; PICHON,
caracterizar um mecanismo de defesa* pelo qual o              DOUARD.
sujeito* se recusa a reconhecer a realidade de uma
percepo negativa e, mais particularmente, a au-
sncia do pnis na mulher. No Brasil tambm se
usam: "desmentido" e "recusa da realidade".
                                                              repetio, compulso 
                                                              al. Wiederholungszwang; esp. compulsin de repe-
    Foi num artigo de 1923 sobre a organizao
                                                              ticin; fr. compulsion de rptition; ing. compulsion
genital infantil que Freud props pela primeira               to repeat; repetition compulsion
vez a idia de renegao. Em seguida, fez dela
um mecanismo prprio do reconhecimento de                     Ainda que s tenha desenvolvido todas as suas
                                                              implicaes tericas em 1920, em Mais-alm do
uma realidade faltosa no contexto da diferena
                                                              princpio de prazer*, Sigmund Freud* relacionou
sexual* e, por fim, aproximou-a com o processo
                                                              desde muito cedo as idias de compulso (Zwang)
da psicose*, em contraste com o recalque*, que
                                                              e repetio (Wiederholung) para dar conta de um
 caracterstico da neurose*. Se o neurtico                  processo inconsciente* e, como tal, impossvel de
recalca as exigncias do isso*, o psictico nega              dominar, que obriga o sujeito* a reproduzir seqn-
a realidade externa para reconstruir uma reali-               cias (atos, idias, pensamentos ou sonhos*) que,
dade alucinatria.                                            em sua origem, foram geradoras de sofrimento, e
    Em 1927, em seu artigo sobre o fetichismo*                que conservaram esse carter doloroso.
e em seguida a uma discusso epistolar com                        A compulso  repetio provm do campo
Ren Laforgue* sobre a escotomizao, Freud                   pulsional, do qual possui o carter de uma insis-
definiu a renegao como um mecanismo per-                    tncia conservadora.
verso atravs do qual o sujeito faz com que
                                                                  A idia de repetio, aproximada desde cedo
coexistam duas realidades contraditrias: a re-
                                                              da de compulso,  uma das dimenses cons-
cusa e o reconhecimento da ausncia do pnis
                                                              titutivas da noo de inconsciente na doutrina
na mulher. Da o fato de a clivagem* do eu no
                                                              freudiana.
mais caracterizar unicamente a psicose, mas
                                                                  Desde 1893, em sua "Comunicao prelimi-
tambm a perverso*.
                                                              nar", Freud e Josef Breuer* frisaram a impor-
    Em 1967, o psicanalista francs Guy Roso-
                                                              tncia da repetio em sua abordagem da his-
lato props traduzir a Verleugnung por dsaveu
                                                              teria*, ao falarem da rememorao de um sofri-
[desmentido, retratao] (em vez de dni), para
                                                              mento moral ligado a um antigo trauma, e
deixar bem caracterizada a dupla operao do
                                                              concluram com o clebre aforismo: " sobre-
reconhecimento e de sua recusa, e para dis-
                                                              tudo de reminiscncias que sofre a histrica."
tinguir a realidade que essa palavra abarca do
                                                                  O termo compulso foi empregado por
mecanismo da denegao*.
                                                              Freud numa carta a Wilhelm Fliess* datada de
 Sigmund Freud, "A organizao genital infantil da libido:   7 de fevereiro de 1894. Nesta, ele falou de sua
uma interpolao na teoria da sexualidade" (1923), ESB,       dificuldade de ligar a neurose obsessiva* 
                                                                    repetio, compulso        657

sexualidade* e evocou, para ilustrar sua colo-      tao sexual lhe desperta vergonha. " no ma-
cao, um caso clnico a propsito do qual falou    nejo da transferncia", escreveu Freud, "que
em "mico compulsiva".                             encontramos o principal meio de barrar a com-
    Em seu "Projeto para uma psicologia cien-       pulso  repetio e transform-la numa razo
tfica", Freud desenvolveu a idia de facilita-     para lembrar. Tornamos essa compulso andi-
o, na qual podemos discernir a prefigurao       na, ou mesmo til, limitando seus direitos, no
da compulso  repetio: algumas quantidades       permitindo que ela subsista seno num domnio
de energia conseguem transpor as barreiras de       circunscrito. Facultamos seu acesso  transfe-
contato, com isso ocasionando uma dor, mas          rncia, essa espcie de arena onde lhe ser
tambm abrindo uma passagem que tender a           permitido manifestar-se com liberdade quase
se tornar permanente e, como tal, fonte de pra-     completa, e onde lhe pediremos que nos revele
zer, apesar da dor sistematicamente reavivada.      tudo o que se dissimula de patognico no psi-
    Quando, em sua carta a Wilhelm Fliess de 6      quismo do sujeito*."
de dezembro de 1896, Freud definiu pela pri-            Em Mais-alm do princpio de prazer*,
meira vez sua concepo do aparelho psquico        observando fatos do cotidiano, como seu neto
e descreveu as superestruturas das "neuropsi-       a brincar incansavelmente de atirar um carretel
coses sexuais", ele constatou a necessidade de      por cima da grade do bero e em seguida apa-
ir mais longe e "explicar por que incidentes        nh-lo de volta, puxando-o pelo barbante e
sexuais, geradores de prazer no momento de sua      pontuando seus gestos com duas exclamaes,
produo, provocam desprazer em certos sujei-       Fort (saiu) e Da (voltou), e tambm observando
tos quando de seu posterior reaparecimento sob      as neuroses de guerra*, nas quais os sujeitos no
a forma de lembranas, ao passo que, em outros,     cessam de reviver episdios dolorosos, Freud
do origem a compulses".                           aprofundou sua reflexo. Se essas formas de
    A idia de uma repetio inexorvel, pas-       compulso  repetio eram realmente o as-
svel de ser assimilada  do destino (mais tarde,   pecto assumido pelo retorno do recalque, era
Freud identificaria neuroses* de destino, prxi-    impossvel sustentar que obedecessem unica-
mas das neuroses de fracasso definidas por          mente  busca do prazer: com efeito, restava
Ren Laforgue*), foi contempornea da desco-        uma espcie de resduo que escapava a essa
berta do dipo, que ele participou a Fliess na      determinao, um "mais-alm do princpio de
carta de 15 de outubro de 1897: "Encontrei em       prazer". Assim, Freud foi conduzido a desen-
mim, como em toda parte, sentimentos amoro-         volver o que ele mesmo reconheceu ser uma
sos em relao  minha me e de cime a             especulao, porm uma especulao a que ja-
respeito de meu pai, sentimentos estes que,         mais renunciaria. Essa compulso, essa fora
penso eu, so comuns a todas as crianas peque-     pulsional que produz a repetio da dor, traduz
nas (...). Se realmente  assim,  compreensvel,   a impossibilidade de escapar de um movimento
a despeito de todas as objees racionais que se    de regresso, quer seu contedo seja des-
opem  hiptese de uma fatalidade inexorvel,      prazeroso ou no. Esse movimento regressivo
o efeito cativante de dipo rei (...). A lenda      levou, por recorrncia, a postular a existncia
grega apoderou-se de uma compulso que todos        de uma tendncia para um retorno  origem, ao
reconhecem, porque todos a sentiram."               estado de repouso absoluto, ao estado de no
    Freud comeou a fazer da compulso  re-        vida, quele estado anterior  vida que pres-
petio um objeto autnomo de sua reflexo em       supe a passagem pela morte.
1914, num artigo intitulado "Recordar, repetir,         Conforme a postura que adotaram diante do
elaborar". De uma anlise para outra, identifi-     conceito de pulso de morte, os analistas freu-
cou a permanncia dessa compulso  repeti-         dianos atriburam maior ou menor importncia
o: ela estaria ligada  transferncia*, mesmo      idia de compulso  repetio, que constitui
no constituindo a totalidade da transferncia.     as premissas daquele.
Ela  uma maneira de o paciente se lembrar,             Por esse ponto de vista, Jacques Lacan*
maneira ainda mais insistente na medida em          ocupou uma posio exemplar, ao fazer da re-
que ele resiste a uma rememorao cuja cono-        petio um dos "quatro conceitos fundamentais
658     represso

da psicanlise", ttulo dado a seu seminrio do     nrio sobre `A carta roubada'", a leitura psica-
ano de 1964. Sensvel ao vnculo postulado por      naltica do conto de Edgar Allan Poe (1809-
Freud entre a repetio e o inconsciente, Lacan     1849) que inaugura o volume dos Escritos.
observou que a repetio inconsciente nunca 
uma repetio no sentido habitual de reprodu-        Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse
                                                    (Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm
o do idntico: a repetio  o movimento, ou      Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986; "As neu-
melhor, a pulsao que subjaz  busca de um         ropsicoses de defesa" (1894), ESB, III, 57-74; GW, 1,
objeto, de uma coisa (das Ding) sempre situada      57-74; SE, III, 41-61; OC, III, 1-18; "Novos comentrios
alm desta ou daquela coisa particular e, por       sobre as neuropsicoses de defesa" (1896), ESB, III,
                                                    187-216; GW, I, 377-403; SE, III, 157-85; OC, III,
isso mesmo, impossvel de atingir. Por exem-
                                                    121-46; "Atos obsessivos e prticas religiosas" (1907),
plo,  impossvel reviver uma impresso vivida      ESB, IX, 121-36; SE, IX, 115-27; in L'Avenir d'une
por ocasio de uma primeira experincia. "Uma       illusion (1927), Paris, PUF, 1971; "Recordar, repetir e
representao teatral", explica Freud em Mais-      elaborar (Novas recomendaes sobre a tcnica da
                                                    psicanlise II)" (1914), ESB, XII, 193-207; GW, X,
alm do princpio de prazer, jamais consegue
                                                    126-36; SE, XII, 145-56; in La Technique psychanaly-
produzir, na segunda vez, a impresso que           tique, Paris, PUF, 1953, 104-15; "O estranho" (1919),
deixou na primeira; com efeito,  difcil fazer     ESB, XVII, 275-314; GW, XII, 229-68; SE, XVII, 217-56;
um adulto que gostou muito de um livro deci-        in L'Inquitante tranget et autres essais, Paris, Gal-
                                                    limard, 1985, 209-63; Mais-alm do princpio de prazer
dir-se a rel-lo prontamente, na ntegra. A novi-
                                                    (1920), ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69; SE, XVIII,
dade  sempre a condio do gozo*." Sabemos         1-64; in Essais de psychanalyse, Paris, Payot, 1981,
que, para Lacan, o gozo encontra sua origem na      41-115; Novas conferncias introdutrias sobre psica-
busca, to repetitiva quanto intil, do momento     nlise (1933), ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE, XXII,
da satisfao de uma necessidade, que s se         5-182; OC, XIX, 83-268; "Anlise terminvel e intermi-
                                                    nvel" (1937), ESB, XXIII, 247-90; GW, XVI, 59-99; SE,
constitui como demanda no s-depois da res-         XXIII, 209-53; in Rsultats, ides, problmes, vol.2,
posta que lhe foi dada.                             Paris, PUF, 1985, 231-68  Sigmund Freud e Josef
    Lacan distingue duas ordens de repetio, as    Breuer, Estudos sobre a histeria (1895), ESB, II; SE, II;
quais analisa numa perspectiva aristotlica: por    Paris, PUF, 1956  Edson Luiz Andr de Sousa, "Repe-
                                                    tio, compulso ", in Pierre Kaufmann (org.), Dicio-
um lado, a tiqu, encontro dominado pelo acaso      nrio enciclopdico de psicanlise: o legado de Freud
-- de certo modo, ela  o contrrio do kairos, o    e Lacan (Paris, 1993), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
encontro que ocorre no "momento oportuno"           1996, 448-53  Kurt Eissler, Freud sur le front des
-- e que podemos assimilar ao trauma, ao            nvroses de guerre (Viena, 1979), Paris, PUF, 1992 
                                                    Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de l'in-
choque imprevisvel e incontrolvel. Esse en-       conscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974),
contro s pode ser simbolizado, esvaziado ou        Paris, Fayard, 1994; "La Notion de kairos en psycho-
domesticado atravs da fala, e sua repetio        thrapie (temps pour comprendre et interprtation vra-
traduz a busca dessa simbolizao. Isso porque,     ie)", in Mdecines de l'me. Essais d'histoire de la folie
                                                    et des gurisons psychiques, Paris, Fayard, 1995,
se esta permite escapar  lembrana do trauma,      239-53  Jacques Lacan, "O seminrio sobre `A carta
ela s pode consumar-se ao reviv-lo ininter-       roubada'" (1955), in Escritos (Paris, 1966), Rio de
ruptamente, como um pesadelo, na fantasia* ou       Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 13-68; O Seminrio, livro
no sonho*. Por outro lado, existe o automaton,      11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanlise
                                                    (1964) (Paris, 1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979
repetio simblica no do mesmo, mas da             Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabul-
origem, prxima da compulso  repetio freu-      rio da psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins
diana, que se articula com a pulso de morte.       Fontes, 1991, 2 ed.  Edgar Allan Poe, "La Lettre
Esse segundo tipo de repetio  inscrito por       vole", in Histoires, Paris, Gallimard, col. "Pliade",
                                                    1940, 45-64.
Lacan, no mbito de sua teoria do significante*,
como depositrio da origem da repetio pela
                                                     RESISTNCIA.
qual todo sujeito  no apenas constitudo, mas
guiado para os diversos "lugares" que ocupar
ao longo de sua vida. Desse processo repetitivo,
segundo o qual o significante atribui ao sujeito    represso
seus lugares, Lacan deu uma das mais belas          al. Unterdrckung; esp.; sofocacin; fr. rpression;
ilustraes que existem, em seu clebre "Semi-      ing. suppression
                                                                                       resistncia     659

Termo empregado em psicologia para designar a             oposies  psicanlise, sejam quais forem suas
inibio voluntria de uma conduta consciente. Em         origens e suas razes explcitas. Convm notar
psicanlise*, a represso  uma operao psquica         que essa postura  coerente com a constatao
que tende a suprimir conscientemente uma idia
                                                          que ele fez desde 1917, qual seja, a de que a
ou um afeto cujo contedo  desagradvel. No
                                                          psicanlise desferiria contra o narcisismo* hu-
Brasil tambm se usa "supresso".
                                                          mano um ataque comparvel s feridas geradas
    Essa operao e a palavra que a designa no           pelas descobertas de Nicolau Coprnico (1473-
devem ser confundidas com o recalque*, que                1543) e Charles Darwin (1809-1882). A aproxi-
decorre de um mecanismo inconsciente.                     mao entre estes, alis, tinha sido feita, uns
    Na lngua inglesa, a palavra repression foi           cinqenta anos antes, por Ernst Haeckel*, como
utilizada por James Strachey*, a conselho de              estabeleceu Paul-Laurent Assoun.
Sigmund Freud*, para traduzir o conceito de
                                                              O processo da resistncia participou, tanto
recalque (Verdrngung). Da a confuso entre
                                                          quanto a transferncia*, do nascimento da psi-
esses dois mecanismos.
                                                          canlise. S que esteve ainda mais diretamente
 Riccardo Steiner, "Une marque internationale univer-    associado a ele. Com efeito, Freud empregou
selle d'authenticit. Quelques observations sur l'his-    essa palavra assim que esbarrou nas primeiras
toire de la traduction anglaise de l'oeuvre de Sigmund    dificuldades na prtica da hipnose* e da suges-
Freud, en particulier sur les termes techniques", Revue
Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991,
                                                          to*, chegando at a reconhecer como "legti-
71-188.                                                   mas" as resistncias dos pacientes confrontados
                                                          com a "tirania da sugesto".
                                                              A passagem para o mtodo psicanaltico
repdio                                                   certamente no ps fim s resistncias, mas elas
 FORACLUSO.                                              mudaram de estatuto. Tornaram-se passveis de
                                                          interpretao* e, portanto, passveis de ser su-
                                                          peradas.
resistncia                                                   Desde os primrdios de sua prtica psicana-
al. Widerstand; esp. resistencia; fr. rsistance; ing.    ltica, a atitude de Freud frente  questo do
resistance                                                tratamento das resistncias assumiu duas for-
Termo empregado em psicanlise* para designar             mas. Se a resistncia foi invariavelmente reco-
o conjunto das reaes de um analisando cujas             nhecida como um entrave ao trabalho analtico,
manifestaes, no contexto do tratamento, criam           em especial sob a forma do desrespeito  regra
obstculos ao desenrolar da anlise.                      fundamental*, a princpio Freud julgou ser pos-
    No vocabulrio freudiano, a palavra resis-            svel transpor esse obstculo, explicando seu
tncia aparece de acordo com trs modalidades:            contedo ao paciente com insistncia e convic-
uma inspira-se na reflexo sobre a tcnica e a            o. Num segundo tempo, ele passou a consi-
prtica analticas, cuja evoluo determinaria a          derar a resistncia como um dado clnico, sin-
do estatuto atribudo s possveis formas de              toma do que estaria recalcado. Assim, ela pas-
resistncia do paciente; a segunda  de ordem             sou a participar do processo de recalque* e a
terica e foi vivamente afetada pela instaurao          depender tanto da interpretao quanto a trans-
da segunda tpica*; a terceira, por fim, imutvel         ferncia*, sob cuja forma freqentemente se
durante toda a vida de Sigmund Freud*,  de               manifesta.
ordem interpretativa. Relaciona-se com as                     No contexto de sua segunda tpica, Freud
manifestaes de hostilidade e as formas de               identificou cinco formas de resistncia: trs
rejeio de que a psicanlise possa ter sido              delas tm sua sede no eu*, uma no isso*, e a
objeto. Quanto a esse ponto, a historiografia             ltima, no supereu*. As resistncias ligadas ao
freudiana  rica em toda sorte de contribuies.          eu podem manifestar-se sob a forma do recal-
    Por este ltimo ponto de vista, a utilizao          que como tal, sob a da resistncia da transfern-
que Freud faz da palavra  totalmente alheia ao           cia, ou ainda como um lucro secundrio ligado
contexto teraputico. Assim, Freud interpreta              persistncia da neurose, sendo a cura vivida
como respostas defensivas (resistncias) as               como um perigo para o eu. A resistncia, cuja
660      Rve veill Dirig, Groupe International du

sede encontra-se no isso, leva  compulso                Rickman, John (1891-1951)
repetio*. Pode ser superada quando o sujeito             psiquiatra e psicanalista ingls
integra uma interpretao (elaborao*). A
                                                               Membro da seita protestante dos quakers,
resistncia do supereu exprime-se em termos de
                                                           que esteve na origem da psicoterapia* baseada
culpa inconsciente e necessidade de punio.
                                                           na dinmica de grupos nos Estados Unidos*,
    Essa classificao atesta a recusa freudiana
                                                           John Rickman  conhecido por seu papel pio-
de reduzir a resistncia unicamente s defesas
                                                           neiro na organizao da psicanlise na Gr-
do eu. Nessa perspectiva, Freud insiste na exis-
                                                           Bretanha*, ao lado de Ernest Jones* e de Ed-
tncia de elementos residuais da resistncia,
                                                           ward Glover*, por seu pacifismo militante, por
elementos irredutveis que ele interpreta de ma-
                                                           sua ao de reformador da psiquiatria em tempo
neiras variadas, mas que podemos situar, a ttulo
                                                           de guerra e, de modo mais geral, por suas idias
de hiptese, do lado da pulso* de morte.
                                                           sobre a psicologia dos pequenos grupos. Depois
    Diversamente dos conceitos de transfern-
                                                           de concluir o curso de medicina em 1916, apre-
cia e contratransferncia*, o de resistncia sus-
                                                           sentou-se como voluntrio para ajudar as vti-
citou muito poucas discusses na descendncia
                                                           mas da guerra na Rssia*. Ao voltar, orientou-
freudiana, com exceo de Melanie Klein*, que
                                                           se para a psiquiatria e depois para a psican-
assimilou a resistncia quase que exclusiva-
                                                           lise*. Em Viena*, em 1920, fez um tratamento
mente a uma transferncia negativa. Essa tese
                                                           de formao com Sigmund Freud*, antes de se
foi um dos temas de debate durante as Grandes
                                                           integrar, quatro anos mais tarde,  British Psy-
Controvrsias* que a opuseram a Anna Freud*.
                                                           choanalytic Society (BPS). Posteriormente, fez
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse           mais duas anlises, uma com Sandor Ferenczi*,
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm       outra com Melanie Klein*. Em 1928, redigiu
Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986  Sigmund      um Index Psychoanalyticus, obra erudita, na
Freud e Josef Breuer, Estudos sobre a histeria (1895),
                                                           qual recenseava e resumia a quase totalidade
ESB, II; SE, II; Paris, PUF, 1956; A interpretao dos
sonhos (1900), ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE,    dos livros e artigos publicados sobre psicanlise
IV-V, 1-621; Paris, PUF, 1967; "Sobre a psicoterapia"      entre 1893 e 1926, um verdadeiro balano do
(1905), ESB, VII, 267-82; GW, V, 13-26; SE, VII, 255-      saber freudiano da poca.
68; in La Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953,
9-23; Conferncias introdutrias sobre psicanlise
                                                               Analisado por trs das mais brilhantes per-
(1916-1917), ESB, XV-XVI; GW, XI; SE, XV-XVI; Paris,       sonalidades do movimento psicanaltico, Ri-
Payot, 1973; "Uma dificuldade da psicanlise" (1917),      ckman no aderiu a nenhum dogma e, embora
ESB, XVIII, 171-84; SE, XVIII; in L'Inquitante trange-   estivesse convencido da correo das teorias
t et autres essais, Paris, Gallimard, 1985; Mais-alm     kleinianas, manteve a independncia em rela-
do princpio de prazer (1920), ESB, XVIII, 17-90; GW,
XIII, 3-69; SE, XVIII, 1-64; in Essais de psychanalyse,    o a um grupo marcado pelo sectarismo e pela
Paris, Payot, 1981, 41-115; Psicologia das massas e        idolatria do seu lder intelectual. Alis, entrou
anlise do eu (1921), ESB, XVIII, 91-184; GW, XIII,        em conflito com os kleinianos, declarando que
73-161; SE, XVIII, 65-143; OC, XVI, 1-83; Inibies,       a figura paterna tinha tanta importncia quanto
sintomas e angstia (1925), ESB, XX, 107-98; GW,
XIV, 113-205; SE, XX, 87-172; OC, XVII, 203-86  Jean
                                                           a da me nas fantasias infantis. Depois das
Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da         Grandes Controvrsias*, afastou-se de Melanie
psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,       Klein e integrou-se ao Grupo dos Indepen-
1991, 2 ed.  Paul-Laurent Assoun, Metapsicologia         dentes*.
freudiana: uma introduo (Paris, 1981), Rio de Janei-
ro, Jorge Zahar, 1996.                                         Durante a Segunda Guerra Mundial, come-
                                                           ou a experimentar o princpio do "grupo sem
 CONTRATRANSFERNCIA; HIPNOSE; NOVAS                       lder", no mbito do War Office Selection Board
CONFERNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE PSICAN-                  (WOSB). Tratava-se de organizar oficiais em
LISE; SUGESTO ; TRANSFERNCIA.                            pequenas clulas, a fim de selecion-los e obter
                                                           deles um melhor rendimento. Cada grupo defi-
                                                           nia o objeto de seu trabalho, sob a direo de
Rve veill Dirig, Groupe                                um terapeuta, que apoiava todos os homens do
International du                                           grupo sem ocupar o lugar de chefe nem o de um
 PSICOTERAPIA.                                             pai autoritrio. Baseado nessa experincia, Ri-
                                                                                   Rittmeister, John      661

ckman instalou, segundo os mesmos princpios,                 Pediatra, parceiro de Sigmund Freud* no
a primeira comunidade teraputica do exrcito              jogo de cartas e cunhado de Wilhelm Fliess*,
no hospital militar de Northfield, perto de Bir-           Oskar Rie foi tambm o mdico da famlia
mingham, para onde eram enviados homens                    Freud em Viena*. Co-autor do artigo de 1891
julgados inteis ou inadaptados.                           "Estudo clnico da hemiplegia cerebral da in-
    Se essa experincia foi um sucesso, a ponto            fncia", apareceu sob o nome de Otto no clebre
de despertar a admirao de Jacques Lacan*,                sonho da "Injeo de Irma"*, relatado em A
ela se revelou desastrosa quando foi tomada                Interpretao dos sonhos*. A partir de 1908,
como modelo por Rickman, por ocasio da                    participou das reunies da Sociedade Psicol-
pesquisa realizada em 1946 em Berlim com os                gica das Quartas-Feiras*. Sua primeira filha,
psicanalistas que haviam prosseguido suas ati-             Margarethe, casou-se com Hermann Nunberg*.
vidades sob o nazismo*, em especial Carl Ml-              Marianne, a mais nova, foi analisada por Freud,
ler-Braunschweig*, Felix Boehm*, Harald                    que a chamou de sua "filha adotiva". Ela se
Schultz-Hencke* e Werner Kemper*. Sem a                    casou com Ernst Kris*, tornou-se psicanalista
menor preocupao com o engajamento polti-                sob o nome de Marianne Kris* e deu  filha o
co desses homens, que haviam todos colabora-               nome de Anna.
do com o nazismo, sob a direo de Matthias
                                                            Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psy-
Heinrich Gring*, Rickman quis saber primei-               choanalyse. Die Mitglieder der Psychologischen Mitt-
ro se eles podiam ser reintegrados  Internatio-           woch-Gesellschaft und der Wiener Psychoanalytis-
nal Psychoanalytical Association* (IPA), a fim             chen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord,
de se tornarem bons psicanalistas didatas. A               1992.
teoria dos pequenos grupos serviu pois, final-
mente, para fazer com que ex-nazistas entras-
sem nas fileiras da IPA, ao invs de favorecer a           Riklin, Franz (1878-1938)
depurao. E foi Werner Kemper quem mais se                psiquiatra suo
beneficiou desse procedimento, em virtude do                  Depois de ter sido secretrio da International
julgamento feito por Rickman sobre a solidez               Psychoanalytical Association* (IPA) e redator
da sua personalidade psquica.                             do Korrespondanzblatt, acompanhou Carl Gus-
                                                           tav Jung* na sua ruptura com Sigmund Freud*
 John Rickman, Index Psychoanalyticus 1893-1926,          em 1913.
Londres, Hogarth Press, 1928; Selected Contributions
to Psycho-Analysis, Londres, Hogarth, 1957; "Compte-
rendu du docteur John Rickman  Berlin pour interroger     Rittmeister, John (1898-1943)
les psychanalystes. 14 et 15 octobre 1946", Revue
Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 1, 1988     psiquiatra e psicanalista alemo
Sylvia M. Payne, "Obituary, Dr. John Rickman", IJP,            A histria de John Rittmeister e de suas
vol.XXXIII, 1954, 54-60  Pearl King, "Sur les activits   relaes com Werner Kemper* durante o III
et l'influence des psychanalystes durant la Deuxime
Guerre mondiale", ibid., 133-51  R.H. Ahrenfeld, Psy-
                                                           Reich  uma das pginas mais sombrias dos
chiatry in the British Army in the Second World War,       anais do freudismo*. Ela  parte da aventura dos
Londres, Routledge, 1955  Phyllis Grosskurth, O mun-      militantes da Orquestra Vermelha, to bem con-
do e a obra de Melanie Klein (N. York 1986), Rio de        tada pelo escritor Gilles Perrault. Imersos na
Janeiro, Imago, 1992  Les Controverses Anna
                                                           organizao stalinista dos partidos comunistas
Freud/Melanie Klein (Londres, 1991), Pearl King e
Riccardo Steiner (orgs.), Paris, PUF, 1996  Eric Ray-     ocidentais, dominados por um Komintern que
ner, Le Groupe des "Indpendants" et la psychanalyse       no hesitava, s vezes, em entreg-los ao inimi-
britannique (Londres, 1990), Paris, PUF, 1994.             go, eles foram entretanto heris da luta antina-
                                                           zista, evoluindo no mundo estranho dos agentes
 BION, WILFRED RUPRECHT; NEUROSE DE GUER-                  duplos, dos espies, das traies e das revira-
RA.                                                        voltas intempestivas.
                                                               Nascido em Hamburgo, em uma velha fam-
                                                           lia de comerciantes abastados, Rittmeister con-
Rie, Oskar (1863-1931)                                     tinuou seus estudos de medicina em Paris, Lon-
mdico austraco                                           dres e Zurique, onde passou pela clnica do
662     Rittmeister, John

Hospital Burghlzli. Instalando-se na Sua*,       escrito um dirio de priso no qual esto estas
interessou-se pelas teses de Carl Gustav Jung*      palavras: "Santo Agostinho e a psicanlise: le-
e filiou-se a crculos marxistas. Em 1933, acu-     var a srio a vida interior. Definir os pecados,
sou o junguismo de ser "porta-voz da alma           remeter a textos. As paixes, etc., sim, mas
alem". Foi ento que se orientou para as idias    incluindo o social e a provncia [...]. Agora,
freudianas, continuando a ser militante na es-      estou sentado aqui [sob a vigilncia dos guar-
querda comunista. Mesmo afirmando-se her-           das], diante do meu ltimo e pequeno quarto de
deiro da tradio do romantismo alemo e do         hora. Estou muito calmo, muito comigo. Fumo
pessimismo de Schopenhauer, Rittmeister ado-        cigarros, ainda recebi um pacotinho de mantei-
tou os princpios do pensamento freudiano em        ga e de cacau [...]."
nome de um humanismo universalista, ao qual             Esse caso contribuiu para desestabilizar a
opunha o egosmo "burgus", mstico e intro-        famlia Gring. Aos olhos de Hitler e da alta
vertido de Jung e seus partidrios.                 hierarquia nazista, Hermann tinha sido incapaz,
    Ameaado de expulso por suas atividades        na realidade, de impedir a Orquestra Vermelha
militantes, foi para a Alemanha*, a fim de conti-   de desenvolver suas atividades de espionagem
nuar na clandestinidade a sua luta contra o         no prprio centro da direo da Luftwaffe.
nazismo*. O instituto "arianizado" fundado por      Quanto a Matthias, este tremia de medo com a
Matthias Heinrich Gring* serviu de "cobertu-       idia de ver suas atividades psicoteraputicas
ra" para as suas atividades. Nele, exerceu fun-     comprometidas pela Gestapo, por causa da in-
es de diretor da policlnica, ao mesmo tempo      filtrao em seu instituto. Foi ento que inverteu
em que prosseguia uma formao psicanaltica        a situao a seu favor, explicando a todos os
com Werner Kemper e entrava para uma orga-          seus colaboradores que Rittmeister era, antes de
nizao de resistncia. Em 1939, casou-se com       tudo, um traidor de seu pas, pois tinha transmi-
Eva Knieper, uma atriz que pertencia  mesma        tido informaes a uma potncia estrangeira em
rede.                                               tempo de guerra. Essa verso da histria, que
    Em 1942, ambos se tornaram membros da           transformava um comunista antinazista em trai-
famosa organizao comunista Orquestra Ver-         dor da ptria, foi aceita pelo conjunto dos psi-
melha, dirigida, da Frana*, por Leopold Trep-      coterapeutas e psicanalistas do Instituto Gring
per e, em Berlim, por Harro Schulze-Boysen,         e, evidentemente, por Felix Boehm*, Kemper,
oficial da aeronutica que conseguira infiltrar-    Harald Schultz-Hencke* e depois por Ernest
se nos servios de informao alemes da Luft-      Jones* e pelo conjunto da direo da Internatio-
waffe, e conseqentemente do marechal Her-          nal Psychoanalytical Association* (IPA).
mann Gring, em benefcio da Unio Sovitica.           Mas aconteceu algo pior: depois da capitu-
     difcil saber em que condies Rittmeister    lao da Alemanha, Kemper e Schultz-Hencke
foi detido pela Gestapo, com sua mulher, em 26      fizeram parte de uma reunio de psiquiatras na
de setembro de 1942. Teria sido denunciado por      parte leste de Berlim ocupada por tropas sovi-
Werner Kemper ou foi simplesmente apanhado          ticas. Contriburam assim para a reconstruo,
na diligncia policial contra a Orquestra Verme-    na Repblica Democrtica Alem (DDR), de
lha, depois da priso de Schulze-Boysen um          uma escola de psicoterapia* de tipo pavloviano,
ms antes? O papel de Werner Kemper neste           visando liquidar o freudismo*. Depois de cola-
caso no ficou, de modo algum, esclarecido.         borar com o nazismo para a destruio da psi-
Kemper analisava tanto Rittmeister quanto Er-       canlise, por causa de sua judeidade*, esses dois
na, mulher de Matthias Heinrich Gring. Em          homens participaram pois, com igual paixo, de
sua autobiografia, ele afirmou ter "protegido"      uma poltica stalinista de rejeio ao freudismo
Rittmeister, usando com Matthias a influncia       que se estenderia a todos os pases dominados
transferencial que adquirira sobre Erna. Mas, se    pelo socialismo real depois da partilha de Ialta.
tivesse sido assim, por que Rittmeister no foi         E o destino herico de Rittmeister foi trans-
prevenido sobre a iminncia de sua deteno?        formado em fico mentirosa. Para os alemes
    Em 13 de maio de 1943, John Rittmeister foi     ocidentais, esse brilhante intelectual freudiano
guilhotinado sem maiores formalidades, tendo        foi considerado durante 40 anos como um es-
                                                                                        Riviere, Joan      663

pio sovitico traidor da ptria, enquanto que,               para fazer outro tratamento com Freud. Jones
para os alemes orientais, tornou-se uma figura               se sentia diminudo diante dela e a considerava
legendria e gloriosa, no do comunismo*, mas                 como uma mulher altiva. Mas apresentou-a a
da epopia stalinista.                                        Freud de modo positivo: " uma tradutora mui-
                                                              to correta [...] e penso que ela compreende a
 Werner Kemper, Psychotherapie in Selbstdarstellun-
gen, Berna, Stuttgart, Viena, Hans Huber Verlag, 1973
                                                              psicanlise melhor do que qualquer um dos
 Gilles Perrault, L'Orchestre rouge, Paris, Fayard,          nossos membros, exceto talvez Flugel."
1976  Les Annes brunes. La Psychanalyse sous le                 Seu perfeito conhecimento das lnguas ale-
IIIe Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-        m e inglesa e seu gosto pela literatura fizeram
Luc Evard, Paris, Confrontation, 1984  Chaim S. Katz
(org.), Psicanlise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus,
                                                              dela uma tradutora muito adequada para a obra
1985  Geoffrey Cocks, La Psychothrapie sous le IIIe         de Freud. E quando esse trabalho foi entregue
Reich (Oxford, 1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987        a James Strachey*, ela o ajudou e fez parte do
Ren Major, De l'lection, Paris, Aubier, 1986  Ici la vie   comit encarregado de realizar o glossrio ter-
continue de manire surprenante, seleo de textos
traduzidos por Alain de Mijolla, Paris, Association Inter-    minolgico.
nationale d'Histoire de la Psychanalyse (AIHP), 1987             A anlise com Freud teve efeito benfico
Ludger M. Hermanns, "Condies e limites da produti-          sobre ela, embora se realizasse, em parte, ao
vidade cientfica dos psicanalistas na Alemanha de
1933 a 1945", Revista Internacional da Histria da
                                                              mesmo tempo que a de Anna Freud*. Entre
Psicanlise, 1 (1988), Rio de Janeiro, Imago, 1990,           Anna, que a invejava, e Jones, que ao mesmo
67-86  Karen Brecht, "A psicanlise na Alemanha              tempo a desmerecia e elogiava os seus mritos,
nazista: adaptao  instituio, relaes entre              Joan encontrou uma sada interessando-se pelos
psicanalistas judeus e no judeus", ibid., 87-98 
"Compte-rendu du docteur John Rickman  Berein
                                                              trabalhos de Melanie Klein*. Tentou ento,
pour interroger les psychanalystes. 14 et 15 octobre          com tato e inteligncia, convencer Freud do
1946", Revue Internationale d'Histoire de la Psychana-        valor das posies kleinianas para a psicanlise
lyse, 1, 1988.                                                de crianas*. Este recusou-se categoricamente
                                                              a escut-la e defendeu sua filha Anna. Todavia,
 BRASIL; CHERTOK, LON; FREUDO-MARXISMO;
                                                              preocupado em no dividir o movimento psica-
JACOBSON, EDITH; LAFORGUE, REN; MAUCO,
GEORGES; MLLER-BRAUNSCHWEIG, CARL;                           naltico, no tomou partido publicamente no
RSSIA.                                                       debate.  por isso que as cartas que trocou com
                                                              Joan Riviere so de grande interesse, particular-
                                                              mente a do dia 9 de outubro de 1927, na qual
Riviere, Joan, ne Verrall                                    afirmava que uma anlise sem objetivo educati-
(1883-1962)                                                   vo podia destruir a criana, entregue assim
                                                              ao seu ser pulsional, sem nenhum apoio do lado
psicanalista inglesa
                                                              do eu*.
    Originria da grande burguesia intelectual
                                                                  Em 1929, no quadro das grandes discusses
inglesa e ligada ao grupo de Bloomsbury, Joan
Riviere era de uma beleza melanclica e vito-                 sobre a sexualidade feminina*, Joan Riviere
riana. Elegante e refinada, exibindo o seu orgu-              redigiu um belo artigo, em parte autobiogrfico,
lho de ser aristocrata, sofria porm de insnia,              sobre a natureza da feminilidade moderna: "A
dores de cabea, angstias e no cessava de se                feminilidade como mascarada". Esse texto se
desvalorizar: "Ela no suporta elogios, diria                 tornaria clebre. A partir de um caso, ela mos-
Sigmund Freud*, assim como no aceita falhas,                 trava que as mulheres intelectuais que tiveram
protestos ou rejeio."                                       pleno sucesso em sua integrao social e em sua
    Depois de vrias internaes em casas de                  vida conjugal e familiar estavam, de certo mo-
sade, fez uma anlise com Ernest Jones* e teve               do, obrigadas a exibir a sua feminilidade como
uma ligao com ele. O tratamento se desenro-                 uma mscara, a fim de melhor dissimular o seu
lou em uma atmosfera difcil. Em 1919, a jovem                verdadeiro poder, e conseqentemente a sua
participou da fundao da British Psychoanaly-                angstia.
tical Society (BPS). Depois, a conselho de Jo-                    Partidria de Melanie Klein, ela saberia
nes, com quem estava em conflito, foi a Viena*                manter sua reserva e nunca ceder  idolatria.
664      Rocha, Francisco Franco da

 Joan Riviere, "La Fminit en tant que mascarade"        pal representante. Sua obra, escrita em trs ln-
(1929), in Fminit mascarade, Estudos psicanalticos
                                                           guas (hngaro, alemo e ingls),  notvel:
reunidos por Marie-Christine Hamon, Paris, Seuil,
1994, 197-215; The Inner World and Joan Riviere.           cerca de doze livros e mais de cento e cinqenta
Collected Papers 1920-1958, Londres, Karnac Books,         publicaes redigidas entre 1911 e 1953.
1991  Joan Riviere e Melanie Klein, L'Amour et la haine       Nascido em Budapeste, em uma famlia de
(Londres, 1937), Paris, Payot, 1968  "Lettres de
                                                           comerciantes judeus abastados, filho nico mi-
Sigmund Freud  Joan Riviere (1921-1939)", apresen-
tadas por Athol Hugues, Revue Internationale d'His-        mado pelo pai, pela me e pelo av, Roheim
toire de la Psychanalyse, 6, 1993, 429-81  Lisa Appi-     teve uma infncia feliz -- fenmeno raro entre
gnanesi e John Forrester, Freud's Women, N. York,          os pioneiros do movimento psicanaltico,  ex-
Basic Books, 1992  Phyllis Grosskurth, O mundo e a        ceo do prprio Sigmund Freud*. Nunca teve
obra de Melanie Klein (N. York, 1986), Rio de Janeiro,
Imago, 1992.                                               filhos e foi ele mesmo uma eterna criana,
                                                           apegado durante toda a vida  sua mulher Llon-
                                                           ka, que se associou  sua obra e nunca deixava
Rocha, Francisco Franco da                                 de brigar com ele em pblico.
(1864-1933)                                                    Grande bebedor e gastrnomo, amava tam-
psiquiatra brasileiro                                      bm os livros e as atividades fsicas. Desde a
   Fundador, em So Paulo, do Hospital do                  juventude, guiado pelo av, devorava obras de
Juqueri, Rocha nunca exerceu a psicanlise*,               mitologia, folclore e etnografia, praticando es-
embora fosse co-fundador, com Durval                       grima e natao. Mais tarde, no trabalho de
Marcondes*, da Sociedade Brasileira de Psica-              campo, ensinou futebol s crianas da Melan-
nlise de So Paulo (SBPSP), primeira socie-               sia. Alimentado pelos contos e lendas hngaros,
dade psicanaltica do Brasil*. Em 1920, publi-             fascinado com as histrias de bebs aban-
cou O pansexualismo* na doutrina de Freud,                 donados, como as que Otto Rank narrou em sua
que teve um grande sucesso. Em uma carta a                 obra sobre o romance familiar*, Roheim logo
Marcondes, escreveu: "Chegar o dia em que a               se questionou sobre os fenmenos psquicos
psicanlise ser algo estabelecido, conhecido,             ligados ao nascimento das crianas,  perda, 
aceito por todos. At seus adversrios diro:              separao. E foi se mantendo nessa problem-
Nunca fui contrrio a ela, sempre a aceitei.               tica que empreendeu o estudo de uma nova
Tenho dvidas sobre um ou dois temas apenas,               disciplina, a antropologia.
mas sempre admirei Freud [...]"                                Depois de fazer estudos clssicos em Leip-
 Francisco da Rocha, O pan-sexualismo na doutrina
                                                           zig e Berlim, apaixonou-se pelos trabalhos psi-
de Freud, S. Paulo, Typografia Brasil de Rotschild,        canalticos. Desde o seu primeiro artigo, em
1920  Marialzira Perestrello, "Histoire de la psychana-   1911, recorreu ao conceito freudiano de com-
lyse au Brsil des origines  1937", Frnsie, 10,         plexo de dipo*. Analisado entre 1915 e 1916,
primavera de 1992, 283-301.
                                                           primeiro por Sandor Ferenczi* e depois por
 PANSEXUALISMO.                                            Wilma Kovacs (1882-1940), comeou logo a
                                                           praticar a psicanlise*, ao mesmo tempo em que
                                                           preparava a publicao de seu primeiro livro
Roheim, Geza (1891-1953)                                   sobre o totemismo australiano, publicado em
antroplogo e psicanalista americano                       1925.
    Primeiro etnlogo a tornar-se psicanalista,                Nesse estudo puramente livresco, Roheim
Geza Roheim tambm foi o nico membro da                   no aderia s posies enunciadas por Freud em
comunidade psicanaltica do perodo entre as               Totem e tabu*. Substitua a perspectiva filoge-
duas guerras a adquirir a competncia neces-               ntica por uma hiptese ontogentica, inspiran-
sria para contestar as teses de Bronislaw Ma-             do-se diretamente nos primeiros trabalhos de
linowski*a partir de uma experincia de campo              Melanie Klein* sobre as relaes arcaicas da
e no mais atravs de debates tericos. Por isso,          criana com a me. Assim, foi sob os auspcios
conferiu verdadeira legitimidade  antropolo-              do kleinismo*, e na linhagem de uma filiao*
gia* psicanaltica e fundou a etnopsicanlise*,            hngara representada por Ferenczi e Imre Her-
da qual foi, com Georges Devereux*, o princi-              mann*, que se desenvolveu a primeira grande
                                                                                Roheim, Geza          665

aplicao da psicanlise  antropologia. Hostil     sua grande sntese sobre a questo, Psicanlise
a todas as ortodoxias, Roheim no se tornaria,      e antropologia. Contra Malinowski e de acordo
com isso, um adepto rgido dos dogmas kleinia-      com Freud e Ernest Jones*, concluiu pela uni-
nos. Durante toda a vida, conservaria sua in-       versalidade do complexo de dipo atravs do
dependncia em relao s diferentes escolas e      lugar do tio materno, admitindo entretanto que
uma slida admirao por Freud, com quem se         as sociedades matrilineares eram organizadas a
encontrou em 1918, no congresso da Internatio-      partir de um modelo pr-edipiano. Mais tarde,
nal Psychoanalytical Association* (IPA) de          classificou as culturas a partir desse modelo
Budapeste.                                          edipiano, mostrando que em cada uma delas o
    Em Australian Totemism, transformou a f-       princpio universal se manifestava, mas de ma-
bula darwiniana da horda selvagem, centrada         neira diferente.
na funo preponderante do pai, em uma es-              Obrigado a emigrar por causa do nazismo,
pcie de digresso sobre os estdios*, as re-       instalou-se em Nova York, trabalhou no
laes de objeto* e as angstias infantis. Segun-   Worcester State Hospital em um caso de esqui-
do ele, as fantasias* de devorao apenas repe-     zofrenia* e continuou seus trabalhos de antro-
tiam uma situao mais antiga de identificao*     pologia psicanaltica. No sendo mdico, man-
com o corpo da me: comer o pai durante o           teve-se afastado da comunidade psicanaltica
festim totmico era pois comer a me. Quanto        americana.
ao totem, Roheim fazia dele tanto uma figura            Em 1950, redigiu um texto programtico,
paterna quanto uma representao da onipotn-       includo em Psicanlise e antropologia, no qual
cia materna.                                        defendia o universalismo freudiano, em nome
    Graas a uma subveno de Marie Bona-           da unidade do gnero humano. Atacava com
parte*, comeou em 1928 o seu primeiro grande       firmeza todos os representantes do neofreudis-
priplo no campo melansio, com a inteno de       mo* culturalista, Abram Kardiner* e Margaret
invalidar a tese da ausncia do complexo de         Mead* particularmente, acusando-os de impor-
dipo nas sociedades matrilineares, defendida       tarem modelos diferencialistas inadequados pa-
por Malinowski. Antes de sua partida, teve com      ra analisar as grandes sociedades ocidentais.
Freud uma discusso sobre outra hiptese de         Conclua que o relativismo cultural, com sua
Malinowski segundo a qual os trobriandeses          auto-satisfao e seus ideais humanistas, era
ignoravam o erotismo anal. Ouviu ento esta         apenas uma forma mascarada de nacionalismo
objeo: "Ser que essa gente no tem nus?"        e de rejeio do outro: "A idia de que as naes
    Durante nove meses, depois de uma pas-          so completamente diferentes umas das outras,
sagem por Aden e Djibuti, Roheim permaneceu         e de que o papel da antropologia  simplesmente
em uma tribo da ilha de Normanby,  qual se         descobrir essas diferenas,  uma manifestao
                                                    de nacionalismo mal dissimulada. Ela constitui
integrou perfeitamente. No campo, longe de
                                                    a contrapartida democrtica da doutrina racial
experimentar o mesmo sofrimento melanclico
                                                    dos nazistas ou da teoria comunista das clas-
de Malinowski e de tantos outros etnlogos,
                                                    ses."
teve logo uma "transferncia positiva" em rela-
                                                        Em 1953, no conseguindo suportar a morte
o a seus anfitries e se comportou com eles
                                                    de sua mulher, deixou-se morrer em um hos-
ao mesmo tempo como um irmo mais velho e
                                                    pital, depois de sofrer uma interveno cirrgi-
como um analista kleiniano, procurando sem-
                                                    ca, sem ter tido a fora de abrir o exemplar de
pre refinar o seu mtodo e interpretar os cos-
                                                    sua ltima obra, As portas do sonho, que um
tumes, mitos, comportamentos, sonhos, jogos
                                                    visitante acabara de lhe trazer. Deixou ins-
de palavras e histrias cotidianas  luz da psi-
                                                    trues para que seu caixo fosse recoberto com
canlise. Ao voltar, atravessando os Estados
                                                    a bandeira hngara e encarregou Raphael Patai,
Unidos*, parou durante algum tempo na Cali-
                                                    historiador do judasmo, de pronunciar a orao
frnia, para estudar os ndios yumas e, em 1932,
                                                    fnebre.
publicou suas observaes em um artigo intitu-
lado "Psicanlise dos tipos culturais primiti-       Geza Roheim, Australian totemism, Londres, Allen e
vos", cuja essncia seria retomada em 1950, em      Unwin, 1925; L'Animisme, la magie et le roi divin (Lon-
666      Rolland, Romain

dres, 1930), Paris, Payot, 1988; L'nigme du sphinx            O entusiasmo e a sede de cultura de Romain
(Londres, 1934), Paris, Payot, 1976; Origine et fonction
                                                           Rolland eram considerveis: grande leitor de
de la culture (N.York, 1943), Paris, Gallimard, 1972;
Hros phalliques et symboles maternels dans la my-         Shakespeare, admirador de Victor Hugo (1802-
thologie australienne (N. York, 1945), Paris, Gallimard,   1885), adepto incondicional da filosofia de Spi-
1970; Psychanalyse et anthropologie (N. York, 1950),       noza, foi o introdutor na ENS da grande litera-
Paris, Gallimard, 1953  Roger Dadoun, Geza Roheim
                                                           tura russa e receberia de Lon Tolstoi (1828-
et l'essor de l'anthropologie psychanalytique, Paris,
Payot, 1972.                                               1910), a quem escreveu duas vezes, uma longa
                                                           carta que o comoveria. Seria tambm o primeiro
 CULTURALISMO.                                             a fazer penetrar no austero recinto da rue d'Ulm
                                                           um piano, instrumento que tocava muito bem,
                                                           segundo Stefan Zweig*. O grande escritor aus-
Rolland, Romain (1866-1944)                                traco, que se tornaria um de seus amigos mais
escritor francs                                           caros, descobrira a existncia de Romain
    Nascido em Clamecy, na regio de Nivre,               Rolland em Roma, no salo de Malvida von
de pai e me provenientes de famlias de not-             Meysenbug. Faria depois um retrato de Romain
rios catlicos, Romain Rolland foi uma criana             Rolland pleno de lirismo: "Tocava piano admi-
de sade frgil, exposto aos desentendimentos              ravelmente, escreveu ele, com uma suavidade
conjugais dos pais sob a forma de uma domina-              que para mim  inesquecvel, acariciando o
o materna rigorista; o pai era uma figura                teclado como se quisesse tirar dele os sons no
apagada, embora fosse patriota e at mesmo                 pela fora, mas apenas pela seduo. Nenhum
muito chauvinista.                                         virtuose -- e ouvi nos crculos mais fechados
    Por insistncia da me, que queria v-lo               Max Reger, Busoni, Bruno Walter -- me pro-
fazer estudos brilhantes, a famlia se instalou            porcionou, a esse ponto, o sentimento de uma
em 1880 em Paris, onde o jovem adolescente                 comunho imediata com os mestres amados.
freqentou os liceus Saint-Louis e Louis-le-               Seu saber nos humilhava por sua extenso e
Grand, antes de ser admitido, em 1886, na pres-            diversidade; de certa forma, como vivia apenas
tigiosa cole Normale Suprieure (ENS) da rue              atravs de seus olhos de leitor, detinha a litera-
d'Ulm, onde fez amizade com Andr Suars                   tura, a filosofia, a histria, os problemas de
(1868-1948), cuja paixo pela msica j                    todos os pases e de todos os tempos. Conhecia
compartilhava.                                             cada compasso da msica; as obras mais esque-
    Professor de histria em 1889, Romain                  cidas de Galuppi, de Telemann, e at composi-
Rolland se afastou do ensino secundrio. No-               tores de sexta ou stima ordem lhe eram fami-
meado para a Escola Francesa de Roma, desco-               liares. Ao lado disso, participava apaixonada-
briu a Itlia*, seus msicos, seus pintores, seus          mente de todos os acontecimentos do presente."
escultores, o Moiss de Michelangelo to caro                  Escritor prolixo, dramaturgo, bigrafo, mu-
a Sigmund Freud*, e apaixonou-se por eles to              siclogo -- sua biografia de Beethoven foi
ardentemente quanto amaria a Alemanha* e o                 durante muito tempo a melhor -- ensasta,
mundo intelectual e artstico germnico depois             moralista, Romain Rolland, como escreveram
de sua volta a Paris em 1891. Em Roma, ficara              Henri e Madeleine Vermorel, entrou, todavia,
conhecendo Malvida von Meysenbug (1816-                    "em um purgatrio que se prolonga: seus ro-
1903), intelectual alem j idosa, que se exilara          mances no so mais lidos, exceto Jean-Chris-
de seu pas quando da revoluo de 1848, pela              tophe, sua obra-prima".
qual tinha tomado partido. No seu salo, que                   Na verdade, salvo por esse roman-fleuve,
recebeu msicos ilustres como Richard Wagner               cuja forma prenunciava as obras de Roger Mar-
(1813-1883) e Franz Liszt (1811-1886), filso-             tin du Gard (1881-1958) e de Jules Romains
fos como Friedrich Nietzsche (1844-1900) ou                (1885-1972), que ele comeou em 1904 e que
ainda Lou Andreas-Salom*, Romain Rolland                  obteve em 1913 o grande prmio da Academia
descobriu a cultura alem e a idia europia, e            Francesa, foi o ensasta, o moralista, o intelec-
tornou-se um fervoroso admirador da obra wag-              tual de engajamentos diversos e o amigo de
neriana.                                                   Freud que passou para a posteridade, ficando o
                                                                           Rolland, Romain       667

escritor em segundo plano. Nesse aspecto, seu       vire (1886-1925), foram os artfices da via
destino pode ser comparado ao de Anatole            literria pela qual o freudismo* entrou na Fran-
France (1844-1924), que foi, entre os escritores    a*. Assim, respondeu com entusiasmo a
franceses, um dos mais apreciados por Freud.        Freud, e o vienense no escondeu sua emoo:
    Em 1892, Romain Rolland se casou com            "[...] at o fim da minha vida, eu me lembrarei
Clotilde Bra, de quem se divorciou dolorosa-       da alegria de poder entrar em contato com o sr.,
mente em 1910. Com esse casamento, ele en-          pois o seu nome est ligado para mim  mais
trara em uma famlia judia abastada dos meios       preciosa de todas as belas iluses: a reunio, no
intelectuais parisienses. Se essa unio lhe trou-   mesmo amor, de todos os filhos dos homens.
xe segurana material, no tranquilizou o jovem     Perteno certamente a uma raa que a Idade
atormentado, apaixonado por ideais nacionalis-      Mdia tornou responsvel por todas as epide-
tas, influenciado pelos escritos de Maurice Bar-    mias nacionais e que o mundo moderno acusa
rs (1862-1923), e que teria muita dificuldade      de ter conduzido o imprio austraco  decadn-
para engajar-se claramente ao lado de seu ami-      cia e a Alemanha  derrota. Essas experincias
go Charles Pguy (1873-1914) e de mile Zola        nos decepcionam e nos tornam pouco inclina-
(1840-1902) no momento do caso Dreyfus.             dos a acreditar nas iluses. Alm disso, ao longo
    Foi essa prudncia em relao ao engaja-        de minha vida (sou dez anos mais velho do que
mento militante que lhe valeu, em 1914, depois      o sr.), uma parte importante do meu trabalho
da morte em combate de Pguy e da publicao        consistiu em destruir as minhas prprias iluses
do seu clebre artigo "Acima da confuso", a        e as da humanidade."
hostilidade dos nacionalistas de ambos os lados         A paixo do universalismo, a adeso aos
do Reno e a admirao dos intelectuais euro-        valores do Iluminismo, o amor por Shakespeare
peus mais prestigiosos. Essa celebridade se es-     e Spinoza foram outras referncias que selaram
tendeu sobre a sua obra inteira e ele obteve em     essa forte amizade.
1916 o Prmio Nobel de literatura.                      Os dois se encontraram apenas uma vez, em
    Em 1922, Rolland fundou a revista Europe.       Viena*, em 14 de maio de 1924, atravs do
Comeou ento a se interessar pelas religies,      amigo comum Stefan Zweig, encantado em
particularmente pelo hindusmo, ao qual dedi-       fazer esse contato entre dois de seus dolos.
cou vrios textos. Percebeu logo a importncia      Nessa ocasio, fez papel de intrprete, pois
do fermento anti-semita na Alemanha atravs         Freud tinha dificuldades de elocuo. A entre-
do desenvolvimento do partido nacional-socia-       vista tratou principalmente de Flaubert e de
lista, do qual seria um adversrio intransigente,   Dostoievski (que Freud supunha histricos, e
aproximando-se progressivamente dos ideais          no epilticos). Certamente tambm se falou da
da revoluo bolchevista de 1917, e tornando-       paixo de Rolland pela ndia*, pois no fim do
se uma figura eminente no movimento                 encontro, Freud, que oferecera ao visitante um
antifascista dos anos 1930.                         exemplar da Introduo  psicanlise*, pediu
    Em fevereiro de 1923, quando apareceram         que lhe enviasse o seu ltimo livro, dedicado ao
os primeiro sinais de seu cncer, Freud, em uma     Mahatma Gandhi (1869-1948). Visita "ines-
carta dirigida ao decorador douard Monod-          quecvel" para Freud, cujo entusiasmo desper-
Herzen, que freqentava os meios psicanalti-       tou algum cime em seu crculo, principal-
cos parisienses, expressou com uma humildade        mente em Theodor Reik*.
bastante surpreendente o seu desejo de entrar           Essa relao calorosa no impediria a ex-
em contato com Rolland: "J que voc  amigo        presso das divergncias, principalmente a res-
de Romain Rolland, escreveu Freud, posso lhe        peito do sentimento religioso e seu estatuto. Em
pedir que transmita a ele a admirao respeitosa    1927, Freud enviou ao amigo um exemplar de
de um desconhecido?" Esse cumprimento               O futuro de uma iluso*, cujo ttulo parece ter
anunciava uma relao cujo calor e afeio          sido inspirado por uma pea de Rolland, Liluli.
foram incomuns. Rolland era daqueles que,           O romancista respondeu enfatizando a correo
como os surrealistas, Pierre Jean Jouve (1887-      da anlise freudiana das religies, mas lamen-
1976), Andr Gide (1869-1951) ou Jacques Ri-        tando a ausncia de considerao do sentimento
668      romance familiar

religioso, da "sensao religiosa", esse "senti-          psychanalystes franais", in Michel Drouin (org.), L'Af-
                                                          faire Dreyfus de A  Z, Paris, Flammarion, 1994, 458-62
mento ocenico", cuja existncia ele constatou
                                                           lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na
nos grandes msticos asiticos e tambm nos               Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Za-
dogmticos da Igreja* crist. Freud pediu-lhe             har, 1998  Henri Vermorel e Madeleine Vermorel,
ento permisso de se referir a esse "sentimento          Sigmund Freud et Romain Rolland. Correspondance
ocenico", cuja crtica pretendia fazer no seu            1923-1936, Paris, PUF, 1993  Stefan Zweig, Romain
                                                          Rolland, sa vie, son oeuvre (Frankfurt, 1929), Paris,
prximo livro, O mal-estar na cultura*. Embo-             ditions Pittoresques, 1929; Le Monde d'hier, souve-
ra o francs tivesse concordado, Freud no o              nirs d'un Europen (Estocolmo 1944), Paris, Belfond,
citaria nominalmente nesse "opsculo", onde               1993.
teorizava sua alergia a qualquer forma de ms-
tica ("a mstica  to fechada para mim quanto
a msica", escreveu a Rolland) e reduzia o                romance familiar
"sentimento ocenico" ao sentimento de pleni-             al. Familienroman; esp. novela familiar; fr. roman
tude caracterstico do eu* primrio, do lactente          familial; ing. family romance
antes da separao psicolgica da me.
                                                          Expresso criada por Sigmund Freud* e Otto Rank*
    Em 1936, para comemorar o aniversrio de
                                                          para designar a maneira como um sujeito* modifica
Romain Rolland, Freud redigiu o seu clebre
                                                          seus laos genealgicos, inventando para si, atra-
texto "Um distrbio de memria na Acrpole",              vs de um relato ou uma fantasia*, uma outra
no qual analisou a relao com a figura paterna           famlia que no a sua.
e a rivalidade entre irmos. Na introduo desse
                                                              Desde 1898, Sigmund Freud havia observa-
ensaio escrito em forma de carta, Freud expres-
                                                          do que os neurticos tendiam, em sua infncia,
sou novamente sua admirao pelo escritor,
                                                          a idealizar os pais e a querer se parecer com eles.
evocando sua humanidade, sua coragem e seu
                                                          A essa primeira identificao seguiam-se o dis-
amor pela verdade, qualidades diante das quais
                                                          cernimento crtico e a rivalidade sexual. Nessa
seu texto lhe parecia pobre: "Tenho dez anos a
                                                          etapa, a imaginao infantil era mobilizada por
mais que voc; minha produo est terminada.
                                                          uma nova tarefa, que consistia em desvalorizar
O que posso lhe oferecer finalmente  apenas
                                                          os pais reais e em substitu-los por outros,
um presente de um homem enfraquecido, que
                                                          fantassticos, de maior prestgio.
outrora conheceu `melhores dias'."
                                                              Em 1909, num artigo escrito especialmente
    Romain Rolland retirou-se para Vzelay,
                                                          para o livro de Otto Rank, O mito do nascimento
onde escreveu uma biografia de Charles Pguy.
                                                          do heri, Freud utilizou a expresso "romance
Morreu em 30 de dezembro de 1944. Assim
                                                          familiar" para designar uma construo incons-
como Freud, tambm no veria a volta dos "dias
                                                          ciente, na qual a famlia inventada ou adotada
melhores".
                                                          pelo sujeito  adornada de todos os elementos
                                                          de prestgio fornecidos pela lembrana dos pais
 Romain Rolland, "Au-dessus de la mle" (1914), in
L'Esprit libre, Paris, Albin Michel, 1953; Jean-Chris-    idealizados da infncia.
tophe (1904-1912), Paris, Albin Michel, 1950  Antoi-         Apoiando-se nessa noo, Rank estudou as
nette Blum, "Romain Rolland (1866-1944)", in Michel       lendas tpicas das grandes mitologias ocidentais
Drouin (org.), L'Affaire Dreyfus de A  Z, Paris, Flam-
                                                          sobre o nascimento dos reis e dos fundadores de
marion, 1994, 271-6  Colette Cornubert, Freud et
Romain Rolland. Essai sur la dcouverte de la pense      religies. Assim, observou que Rmulo, Moi-
psychanalytique par quelques crivains franais, Tese     ss, dipo*, Pris, Lohengrin e at Jesus Cristo
de doutorado em medicina n.453, Paris, Faculdade de       so crianas achadas, abandonadas ou "expos-
Medicina, 1966  Roger Dadoun, "Rolland, Freud et la      tas" a um curso d'gua por pais reais em razo
sensation ocanique", Revue d'Histoire Littraire de la
France, 1976  Sigmund Freud, O futuro de uma iluso
                                                          de alguma previso sombria. Destinados a mor-
(1927), ESB, XXI, 15-80; GW, XIV, 325-80; SE, XXI,        rer, em geral so recolhidos por uma famlia
5-56; OC, XVIII, 141-97; O mal-estar na cultura (1930),   nutriz de classe social inferior. Na idade adulta,
ESB, XXI, 81-178; GW, XIV, 421-506; SE, XXI, 64-145;      recuperam sua identidade originria, vingam-se
OC, XVIII, 245-333; "Um distrbio de memria na
Acrpole" (1936), ESB, XXII, 293-306; GW, XVI, 250-7;
                                                          do pai e reconquistam seus reinos.
SE, XXII, 239-48; Correspondance (1873-1939), Paris,          Essa lenda tpica, frisou Rank, deu origem a
Gallimard, 1966  Michel Plon, "Freud et les              toda sorte de variaes. No caso de Rmulo, a
                                                                                        Romnia         669

ama-de-leite  uma loba, no de Moiss, a fam-        fundadores, os relatos romanceados modernos,
lia de origem  modesta e a de adoo  da            os sistemas delirantes ou religiosos e um meca-
realeza. Na histria de dipo, as duas famlias       nismo fantasstico de natureza subjetiva.
so nobres. Quanto a Jesus, seu destino  singu-
lar, uma vez que o filho proveio do acasalamen-        Sigmund Freud, "O romance familiar do neurtico"
                                                      (1908-1909), ESB, IX, 243-50; GW, VII, 227-31; SE,
to de um deus com uma virgem, a qual  esposa         IX, 235-41; traduo francesa in Otto Rank, Le Mythe
do pai adotivo. No caso de Pris, a figura mtica     de la naissance du hros (Leipzig, Viena, 1909), Paris,
do animal protetor est associada  idia da          Payot, 1983.
realizao de uma previso desastrosa. Pramo
abandona seu segundo filho no nascimento,
porque sua mulher, Hcuba, sonhou que trazia          Romnia
ao mundo uma tocha ardente. O menino, ali-               De todos os pases libertados do jugo do
mentado por uma ursa,  recolhido por um              Imprio Otomano entre 1829 e 1908 (Grcia,
pastor de ovelhas, que lhe d o nome de Pris         Bulgria, Albnia, Montenegro), s a Romnia
(filho da ursa). Estando na origem da guerra de       abrigou em seu territrio um embrio de movi-
Tria, Pris provocaria a runa de sua famlia.       mento psicanaltico, alm da ao de pioneiros
Na histria de Lohengrin, o tema do segredo           solitrios.
patognico, to caro a Moriz Benedikt*, cami-            Independente a partir de 1885 e aberta ao
nha de mos dadas com o do animal protetor e          mundo germnico e hngaro por sua proximi-
da mulher curiosa. Um cavalheiro errante,             dade com o Imprio Austro-Hngaro, ao qual
singrando as guas, salva a herona, casa-se          estavam ligadas a Bucovina e a Transilvnia, a
com ela e lhe d filhos. Promete-lhe felicidade       Romnia, no incio do sculo, cultivava tam-
eterna, desde que ela renuncie a saber quem ele       bm a sua latinidade, interessando-se particu-
 e de onde vem. Em pouco tempo, entretanto,          larmente pelas idias vindas da Frana*. Assim,
a rainha no resiste ao prazer de interrogar o        as obras de Sigmund Freud* eram lidas em
marido. Lohengrin proclama ento publica-             francs, como mostra a transformao do termo
mente que  filho de Parsifal e abandona o reino      romeno psihoanaliza em psihanaliza, logo que
para sempre para se colocar outra vez a servio       "psychanalyse" substituiu "psycho-analyse" na
do Graal em sua embarcao puxada por um              Frana.
cisne.                                                   Foi Gheorghe Preda (1878-1965), mdico
    Aproximando a lenda tpica do mecanismo           militar de Bucareste, que publicou em 1912 o
descrito por Freud, Rank mostrou que os relatos       primeiro artigo em lngua romena sobre a psi-
mticos podem ser lidos como fantasias em que         canlise. Apresentava o simbolismo do sonho*
as situaes reais se invertem. No romance            e o mtodo de psicoterapia* freudiano. No ano
familiar comum  maioria dos indivduos, neu-         seguinte, Matyas Ilian (1885-1941), depois de
rticos ou no,  a criana, de fato, quem se livra   entrar em contato com Otto Rank*, defendeu
da famlia de origem para adotar outra mais           uma tese de doutorado em medicina sobre "O
conforme a seu desejo*, ao passo que, no mito,        estado atual da psico-anlise de Freud".
 o pai que abandona o heri, que  ento                Em 1919, depois da Primeira Guerra Mun-
acolhido por uma famlia adotiva, em geral            dial, o tratado de Saint-Germain atribuiu ao
(salvo algumas excees) menos prestigiosa.           antigo reino da Romnia (Valquia, Moldvia),
    A idia de romance familiar foi utilizada por     dois territrios novos: a Transilvnia e a Bes-
Freud em suas principais obras de psicanlise         sarbia, constituindo assim a Grande Romnia,
aplicada*, em especial em Leonardo da Vinci e         que sempre seria perturbada por querelas de
uma lembrana de sua infncia*, Totem e ta-           minorias nacionais e por um anti-semitismo
bu* e Moiss e o monotesmo*. Ela abriu cami-         particularmente violento.
nho para um amplo debate entre a psicanlise*            Durante dez anos, a transformao do reino
e a antropologia*, a psicanlise e a literatura, e    em democracia parlamentar, em que se organi-
ainda entre a psicanlise e a religio, na medida     zavam eleies livres, contribuiu para o pro-
em que evidenciou uma analogia entre os mitos         gresso do interesse pelas idias freudianas. Alu-
670     Romnia

no de Jean Martin Charcot* e chefe incontes-        tavam qualquer referncia a Freud,  sua dou-
tvel da escola neurolgica romena, Gheorghe        trina e  sua tcnica no nome de seu grupo.
Marinescu (1863-1938) usou sua influncia em        Precauo intil: imediatamente, os funcion-
favor da psicanlise, publicando em 1923 dois       rios do partido os desmascararam, assistindo s
artigos em francs, na Revue Gnerale des           suas reunies, e a Sociedade teve que encerrar
Sciences pures et Appliques.                       suas atividades em 1947.
    Mas foram principalmente Ioan Popescu-Si-           Desenvolveu-se ento, vinda da Rssia*, a
biu* e Constantin Vlad* que introduziram a          campanha jdanoviana contra a psicanlise. As-
psicanlise na Romnia. Como muitos pionei-         similada a uma "cincia burguesa" em nome do
ros, eles praticavam o tratamento sem ter sido      pavlovismo triunfante, foi definitivamente con-
analisados. S com a chegada de Heinrich Win-       denada e desapareceu da Romnia durante 25
nik (1902-1982), vindo da Alemanha* depois          anos. Sem renegar sua adeso ao freudismo,
do advento do nazismo*, a anlise didtica*         Vlad e Popescu-Sibiu se orientaram para outras
surgiu na Romnia. Analisado em Viena* e em         atividades. Seguindo o exemplo de Winnik,
Berlim por Paul Federn*, Jen Harnik e Helene       Schwarz emigrou para Israel.
Deutsch*, Winnik tinha todas as qualidades              Preocupado em assinalar sua independncia
exigidas para formar alunos. Mas, em razo da       em relao ao regime sovitico, Constantin
situao poltica, no conseguiu faz-lo. Emi-      Ceaucescu (1918-1989) no proibiu a publica-
grou para a Palestina em 1941, sem formar um        o, a partir de 1970, de certos livros favorveis
nico terapeuta, e integrou-se  Hachevra Ha-        psicanlise e ao freudismo. Essa relativa aber-
psychoanalytit Be-Israel (HHBI), fundada por        tura permitiu a Popescu-Sibiu e a Victor Sah-
Mosche Wulff* e Max Eitingon*.                      leanu publicarem em 1972 uma obra que se
    Em 1935, depois de um primeiro fracasso,        pretendia "crtica", mas que, na realidade, apre-
Vlad se cercou de mdicos e de psiclogos para      sentava o freudismo como um dos grandes fei-
publicar um peridico, a Revista Romana de          tos da cultura no sculo XX. Posteriormente, o
Psihanaliza, na qual se encontravam artigos         psiquiatra Ion Vianu e o psiclogo Vasile Zam-
clnicos, anlises literrias e uma polmica con-   firescu manifestaram, um em suas lies clni-
tra os partidrios romenos de Alfred Adler*. Es-    cas e outro em seus ensaios e tradues, um
sa publicao teria apenas um nmero. Por vol-      interesse evidente pela psicanlise, nos limites
ta de 1937, a psicoterapia e a psicanlise eram     tolerados pelo regime.
representadas na Romnia por quatro partid-            Desde a queda de Ceaucescu, o movimento
rios de Freud, trs de Stekel*, quatro de Adler,    psicanaltico romeno se reconstituiu, graas ao
trs de Carl Gustav Jung* e um de Otto Rank.        intercmbio com a Frana, os Pases Baixos* e
    Em 1930, o advento da ditadura fascista e       a Sucia. Em fevereiro de 1990, criou-se a
anti-semita de Corneliu Codreanu, cercado de        Societatii Romane de Psihanaliza (SRP), graas
sua "Guarda de Ferro", impediu os psicanalistas     ao trabalho, principalmente, de Eugen Papadi-
freudianos de se organizar em um verdadeiro         ma, que passou alguns anos em Nova York, de
movimento. Quando o rei Carol abdicou em            Vera Sandor, de Alfred Dumitrescu e de Vasile
favor de seu filho Miguel, um regime de terror      Zamfirescu, o nico do grupo a se interessar
instaurou-se sob o comando do marechal Ion          pela obra de Jacques Lacan*. Tradutor, fun-
Antonescu (1882-1946), que faria uma aliana        dador de uma editora (Editurii Trei) e de uma
com a Alemanha nazista e seria fuzilado depois      revista, Psihanaliza, aberta a todas as correntes
da Libertao.                                      do freudismo, Zamfirescu utilizou toda a sua
    Em 1946, logo antes da proclamao da Re-       energia em favor da psicanlise, ensinando tam-
pblica Popular, Vlad e Popescu-Sibiu funda-        bm filosofia na Universidade de Bucareste.
ram, com Justin Neuman (1898-?), Paul                   Favorvel a uma adeso rpida  Internatio-
Schwarz (1904-1965) e Ludwig Berghoff               nal Psychoanalytical Association* (IPA) e pa-
(1897-1986), a Sociedade Romena de Psicopa-         trocinada por terapeutas neerlandeses, grandes
tologia e Psicoterapia. Esses cinco homens pra-     especialistas do training na IPA, a SRP se tor-
ticavam a psicanlise, mas, por prudncia, evi-     nou, no fim do sculo XX, um grupo dinmico
                                                                             Rorschach, Hermann         671

e harmonioso, tendo aspiraes clnicas angl-             se tambm na tcnica da associao verbal*.
fonas e voltado para a tradio de Melanie Klein*,         Posteriormente, tornou-se assistente e depois
de Donald Woods Winnicott* e da Self Psycholo-             diretor de vrios asilos: o de Munsterlingen,
gy*. Conta, em suas fileiras, com quarenta mem-            perto do lago de Constana, o de Munsingen,
bros. As poucas tentativas de implantao do               perto de Berna e em Herisau, no canto de
lacanismo* resultaram em fracasso total.                   Appenzell.
                                                               Poliglota, curioso em relao a todas as cul-
 Gheorghe Marinescu, "Introduction  la psychana-
lyse, I, Expos des thories de Freud", Revue Gnrale     turas, amante das artes e das viagens, sempre 
des Sciences Pures et Appliques, XXXIV, 1923, 456-        procura de um universo diferente do mundo
7; "II, Critique des thories de Freud", ibid., 510-20    visvel, apaixonou-se pela "alma russa" e esteve
Gheorghe Bratescu, "Un test de mentalit: l'attitude des   em Moscou em 1906 e em Kazan em 1909,
Roumains  l'gard de la psychanalyse", Revue Rou-
maine d'Histoire, XXXI, 3-4, 1992, 309-21; Freud si
                                                           onde foi encontrar-se com sua noiva, Olga, que
psihanaliza in Romania, Bucareste, Humanitas, 1994         se tornaria sua esposa e colaboradora.
 Uri Lowental e Yechezkiel Cohen, "Isral", in Peter          Como Sigmund Freud*, foi marcado pela
Kutter (org.), Psychoanalysis International. A Guide to    leitura da obra de Dmitri Merejkovski (1861-
Psychoanalysis throughout the World, vol.1, Stuttgart,
Frommann-Holzboog, 1992, 188-94  La Psychana-             1941), O romance de Leonardo da Vinci, publi-
lyse et l'Europe de 1993, Monografias da Revue Fran-       cado em So Petersburgo em 1902, e particu-
aise de Psychanalyse, Paris, PUF, 1993.                   larmente pelo trecho no qual Giovanni Boltraf-
                                                           fio (1467-1516) conta como o mestre fez surgir,
 BETLHEIM, STJEPAN; COMUNISMO; EMBIRICOS,
                                                            maneira de uma kleksografia, uma "quimera
ANDREAS; FEDERAO EUROPIA DE PSICAN-
                                                           de goela aberta", seguindo com o dedo as man-
LISE; HISTRIA DA PSICANLISE; KOURETAS, DIMI-
TRI; SUGAR, NIKOLA; TRIANDAFILIDIS, MANOLIS.
                                                           chas de umidade que impregnavam um velho
                                                           muro: "Muitas vezes, disse ele, nas paredes, na
                                                           mistura das pedras, nas fissuras, nos desenhos
Rorschach, Hermann (1884-1922)                             mofados feitos pela umidade [...], encontrei
psiquiatra e psicanalista suo                            semelhanas com lugares maravilhosos, com
    Foi o historiador Henri F. Ellenberger*                montanhas, picos escarpados etc."
quem redigiu a biografia desse fascinante m-                  No momento da ruptura entre Jung e Freud,
dico da primeira gerao* freudiana, que se                Hermann Rorschach optou pelo freudismo, o
tornou clebre no mundo inteiro com a inven-               que no o impediu de continuar a usar um
o do famoso teste das manchas de tinta.                  vocabulrio amplamente junguiano. Em 1919,
    Nascido em Zurique em uma velha famlia                fundou com Oskar Pfister* e Emil Oberholzer*
protestante do canto de Turgvia, Hermann                 a Sociedade Sua de Psicanlise (SSP), no seio
Rorschach manifestou muito cedo um gosto                   da qual teve um papel importante. Como muitos
acentuado pelo desenho. Foi apelidado "Klex"               clnicos dessa gerao pioneira, praticou a psi-
por seus colegas de escola, pois era muito hbil           canlise sem ter passado por um div. Foi em
no jogo da kleksografia (jogo das manchas de               Herisau, durante os trs ltimos anos de sua
tinta), difundido entre os alunos e conhecido              curta vida, que redigiu a grande obra que o
desde que Justinius Kerner* (1786-1862) publi-             tornaria clebre: foi publicada em 1921, sob o
cara em 1857 Kleksographien, uma srie de                  ttulo Psychodiagnostik. Rorschach definia o
desenhos obtidos a partir de manchas, e poemas             princpio do teste projetivo, destinado a explo-
inspirados por estas. O jogo consistia em fazer            rar o mecanismo das representaes imagin-
manchas em uma folha de papel, que era dobra-              rias da criana e do adulto, fazendo-os falar por
da de modo que as manchas tomavam formas                   associaes verbais a partir das manchas. Seu
diversas: objetos, animais, plantas etc.                   tratado se inspirava ao mesmo tempo no mto-
    Depois de alguma hesitao, Rorschach se               do junguiano, no estudo experimental de Ker-
orientou para a medicina e estudou psiquiatria             ner e na concepo freudiana do inconsciente*.
com Eugen Bleuler* e Carl Gustav Jung*, na                     O livro expressava plenamente o verdadeiro
clnica do Hospital Burghlzli. Foi ali que se             fascnio de Rorschach pelo domnio do sonho,
entusiasmou pelas idias freudianas, iniciando-            das alucinaes, do delrio e da loucura*. Her-
672      Rosalie H., caso

deiro da tradio romntica alem, procurava          enviar hoje mesmo algumas palavras  viva.
definir duas funes maiores da atividade psi-        Tenho a impresso de que talvez voc o superes-
colgica: a introverso*, por um lado, isto , o      time como analista; pela sua carta, vi com satis-
mundo das imagens interiores, da criao, e           fao a alta estima que voc tem por ele, no
conseqentemente da Kultur, e por outro lado a        plano humano. Evidentemente, ningum me-
extroverso, isto , o domnio da relao social,     lhor que voc poderia escrever o seu elogio
das cores, das emoes, e conseqentemente da         fnebre para a nossa revista. Peo-lhe que o
"civilizao". Nessa perspectiva, pensava que         faa, e o mais rpido possvel."
seu psicodiagnstico era uma chave universal
                                                       Hermann Rorschach, Psychodiagnostic. Mthode et
capaz de decifrar as culturas humanas do pas-         rsultats d'une exprience diagnostique de perception,
sado e do presente. Mas, como todos os pionei-        interprtation libre de formes fortuites (Berna, 1921),
ros suos dessa psiquiatria dinmica* de ins-        Paris, PUF, 1993  Psychodiagnostic. Atlas des
pirao protestante, aspirava tambm a ser um         planches en couleur (Berna, 1921), Paris, PUF, 1976 
                                                      Correspondance de Sigmund Freud avec le pasteur
reformador, um educador racionalista.
                                                      Pfister, 1909-1939 (Frankfurt, 1963), Paris, Gallimard,
    Rorschach foi portanto um cientista moder-        1966  Henri F. Ellenberger, Mdecines de l'me. Es-
no,  maneira de Freud, e um alienista  antiga,      sais d'histoire de la folie et des gurisons psychiques,
ainda impregnado de espiritismo*, de ocultis-         Paris, Fayard, 1995.
mo*, de histrias de adivinhaes e de bolas de
                                                       ESQUIZOFRENIA; LEONARDO DA VINCI E UMA
cristal. Quando utilizava seu teste para tratar dos
                                                      LEMBRANA DE SUA INFNCIA ; SUA.
doentes, no hesitava em lhe mostrar outras
imagens a fim de estimular as suas reaes:
gatos verdes, sapos vermelhos, lenhadores
abatendo rvores com a mo esquerda etc.              Rosalie H., caso
    Se tivesse vivido mais tempo, certamente           ESTUDOS SOBRE A HISTERIA.
teria redigido a outra grande obra que tanto lhe
interessava e na qual trabalhava: uma histria
das seitas suas. Falava disso com entusiasmo        Rosenfeld, Herbert (1909-1986)
aos seus prximos, e conseguira reunir uma bela       psiquiatra e psicanalista ingls
documentao sobre o assunto. Estudando a                 Como Hanna Segal e Wilfred Ruprecht
seita de Waldbruderschaft (Fraternidade da            Bion*, Herbert Rosenfeld foi um dos grandes
Floresta), cujo guru ensinava a seus adeptos o        discpulos de Melanie Klein*. Nascido na
incesto* e a adorao de seu pnis e sua urina,       Alemanha* em uma famlia judia, emigrou para
esboou uma concepo geral do fenmeno,              a Gr-Bretanha* em 1935 e se tornou, no seio
mostrando que as seitas apareciam em regies          da British Psychoanalytical Society (BPS), um
onde o interesse pela poltica estava ausente.        dos principais artfices da clnica psicanaltica
Classificou os discpulos e os profetas, dis-         da esquizofrenia*. Seus trabalhos se referem s
tinguindo os esquizofrnicos dos simples neu-         modalidades especficas da transferncia* no
rticos: quanto maior fosse a loucura do chefe,       tratamento dos psicticos, e sobretudo  nature-
mais a ao transferencial era profunda, e mais       za da identificao projetiva*.
a mitologia ensinada expressava pulses* in-
                                                       Herbert Rosenfeld, Les tats psychotiques (Londres,
conscientes.                                          1965), Paris, PUF, 1976; Impasse et interprtation
    Hermann Rorschach morreu aos 37 anos das          (Londres, 1987), Paris, PUF, 1990.
seqelas de uma crise de apendicite, antes de
poder ser operado. Em uma carta a Freud de 3           FAIRBAIRN, RONALD; KLEINISMO; POSIO DE-
de abril de 1922, Pfister observou que Ror-           PRESSIVA/POSIO ESQUIZO-PARANIDE; PROJE-
schach era o melhor analista do grupo suo e         O; PSICOSE.
que ele aderia s idias freudianas "at nos
menores detalhes". Confiando em seu amigo
pastor, Freud, que no conhecia a obra de Ror-        Rosenthal, Tatiana (1885-1921)
schach, lhe respondeu com estas palavras: "Vou        psiquiatra e psicanalista russa
                                                                         Rssia (e Unio Sovitica)            673

    Como muitas mulheres russas de sua gera-               sidade Harvard em 1882, graas a William
o, Sabina Spielrein* ou Alexandra Kollontai              James (1877-1910), primeiro americano a se
(1872-1952), Tatiana Rosenthal foi marcada ao              interessar pelos Estudos sobre a histeria*, e
mesmo tempo pela emancipao feminina, pelo                ensinou filosofia at 1916. Seu seminrio se
freudismo* e finalmente pelo comunismo e o                 tornou assim um centro de difuso e confronta-
marxismo. Nascida em So Petersburgo em                    o das novas idias no campo da psiquiatria,
uma famlia judia, engajou-se em 1905 no com-              da medicina e da psicanlise*. Com James Ja-
bate pelo movimento operrio. Um ano depois,               ckson Putnam*, Adolf Meyer* e Morton
foi a Zurique, onde descobriu as teorias freudia-          Prince*, fez pesquisas sobre o hipnotismo* e
nas e obteve o ttulo de doutora em psiquiatria.           participou, atravs do crculo dos mdicos e dos
Ao voltar, dedicou toda sua energia  implanta-            psiclogos de Boston, do desenvolvimento das
o da psicanlise* na Rssia*, participando, a            teses freudianas nos Estados Unidos*.
partir de 1911, das reunies da Sociedade Psi-
                                                            L'Introduction de la psychanalyse aux tats-Unis.
colgica das Quartas-Feiras*.                              Autour de James Jackson Putnam (Londres, 1968),
    Foi principalmente no campo da educao e              Nathan G. Hale (org.), Paris, Gallimard, 1978, 17-86 
da psicanlise de crianas* que ela sobressaiu,            Nathan G. Hale, Freud and the Americans. The Begin-
inicialmente em 1919 no Instituto de Pesquisas             nings of Psychoanalysis in the United States, 1876-
                                                           1917, t.I (1971), N. York, Oxford University Press, 1995.
sobre Patologia Cerebral, dirigido pelo clebre
psiquiatra Vladimir Bekhterev (1857-1927), e
depois em uma clnica para crianas especiais.
                                                           Rssia (e Unio Sovitica)
Teve a idia do Lar Experimental, que seria
fundado por Vera Schmidt* e foi a primeira, em                 Foram as reformas do tzar Alexandre II
1920, sete anos antes de Sigmund Freud*, que               (1818-1881) que permitiram que o saber psi-
no a citaria no seu trabalho, a estudar a obra de         quitrico comeasse a se implantar na Rssia
Fiodor Dostoievski (1821-1881) do ponto de                 em fins do sculo XIX. Este descendia tanto da
vista psicanaltico.                                       tradio do alienismo francs quanto da cincia
    Frgil e inquieta desde a juventude, suici-            alem (nosografia e fisiologia).
dou-se aos 36 anos.                                            Aluno de Hermann von Helmholtz* e de
                                                           Emil Heinrich Du Bois-Reymond (1818-1896),
 Sigmund Freud, "Dostoievski e o parricdio" (1927),      Ivan Mikhailovitch Setchenov (1829-1905) pu-
ESB, XXI, 205-24; GW, XIV, 399-418, SE, XXI, 177-94,       blicou em 1863, em So Petersburgo, o seu
OC, XVIII, 207-25  Sara Neidisch, "Die Psychoanalyse      estudo sobre os reflexos do crebro, o que lhe
in Russland whrend der letzten Jahren", Internatio-
nale Zeitschrift fr Psychoanalyse, vol.VII, 1921, 384-5
                                                           valeria ser perseguido pela polcia, pois, nesse
 Jean Marti, "La Psychanalyse en Russie (1909-            livro, rejeitava os princpios da religio. Com
1930)", Critique, 346, maro de 1976, 199-237  Les        efeito, afirmava uma concepo materialista do
Premiers psychanalystes, Minutes de la Socit Psy-        crebro, explicando que toda ao voluntria ou
chanalytique de Vienne, 1906-1918, 4 vols. (1962-
                                                           involuntria era o produto de uma srie de atos
1975), Paris, Gallimard, 1976-1983  Anna Maria Ac-
cerboni, "Tatiana Rosenthal (1885-1921): une brve         reflexos, que se transformavam em pensamen-
saison analytique", Revue Internationale d'Histoire de     tos no homem e em respostas motoras no ani-
la Psychanalyse, 5, 1992, 95-109.                          mal.
                                                               Foi nesse contexto que Ivan Petrovitch Pav-
 COMUNISMO; ERMAKOV, IVAN DIMITRIEVITCH;                   lov (1846-1936) e seu rival Vladimir Bekhterev
FREUDO-MARXISMO; OSSIPOV, NICOLAI IEVGRA-
                                                           (1857-1927) realizaram seus trabalhos de re-
FOVITCH; SUICDIO; WULFF, MOSHE.
                                                           flexologia. Psiquiatra formado na Alemanha* e
                                                           na Frana* com Wilhelm Wundt (1832-1920)
                                                           e Jean Martin Charcot*, Bekhterev obteve em
Royce, Josiah (1855-1916)                                  1893 a ctedra de doenas mentais da Univer-
filsofo americano                                         sidade de So Petersburgo, que ocuparia du-
   Nascido na Califrnia, Josiah Royce foi um              rante vinte anos. Interessado em hipnose* e
dos principais representantes da escola bos-               sugesto*, difundiu na Rssia as idias de Hip-
toniana de psicoterapia*. Entrou para a Univer-            polyte Bernheim*. Pavlov recebeu em 1904 o
674     Rssia (e Unio Sovitica)

Prmio Nobel de medicina por seus trabalhos          novo poder, fundaram em Moscou a Associao
sobre a atividade digestiva e o reflexo con-         Psicanaltica de Pesquisas sobre a Criao Ar-
dicionado, que dariam origem a um modelo de          tstica, da qual participavam tambm o matem-
psicologia materialista, retomado pelos marxis-      tico Otto Schmidt (1891-1956). Paralelamente,
tas, e depois pelo regime comunista, para com-       a partir de uma idia de Tatiana Rosenthal*,
bater as doutrinas ditas "espiritualistas", entre    Vera Schmidt* criou uma associao, Solidarie-
as quais a psicanlise*.                             dade Internacional, e um centro educativo, o Lar
    Se Serguei Korsakov (1854-1900) introdu-         Experimental para Crianas, onde eram aplica-
ziu, no fim do sculo, reformas institucionais       dos mtodos pedaggicos inspirados no mar-
inspiradas nas de Philippe Pinel (1745-1826),        xismo e na psicanlise. Um grande sopro de
foi sem dvida Vladimir Petrovitch Serbski           liberdade dominava todas essas iniciativas, es-
(1858-1917) que teve o papel mais importante         timuladas pela utopia revolucionria.
na implantao, na Rssia, das teses freudianas.         Foi nesse clima de renovao que o jovem
Formado em Viena* e aluno de Theodor Mey-            Aleksandr Romanovitch Luria*, entusiasmado
nert*, militou em Moscou por uma reforma             com as descobertas freudianas sobre a sexuali-
radical da nosografia psiquitrica, opondo-se        dade*, fundou em Kazan, em maro de 1922,
violentamente ao conservadorismo. Dois de            uma Sociedade Psicanaltica que reunia essen-
seus alunos seriam os primeiros freudianos rus-      cialmente mdicos. Dois meses depois, Mosche
sos: Ivan Dimitrievitch Ermakov* e Nikolai           Wulff e Ermakov criaram em Moscou a Socie-
Ievgrafovitch Ossipov*.                              dade Psicanaltica da Rssia, com 15 membros,
    Durante os dez primeiros anos do sculo          entre os quais o psiclogo Pavel Petrovitch
XX, a Rssia desenvolveu uma intensa ativi-          Blonski (1884-1941) e o psiquiatra Yuri Kanna-
dade criadora, acompanhada de uma abertura           bikh. Posteriormente, Stanislas Theophilovitch
mais ampla para o Ocidente: o movimento freu-        Chatski (1878-1948), psiclogo, se juntaria a
diano, tambm em plena expanso, estendeu-se         eles. Iniciaram-se ento negociaes para o
para leste. s vsperas da Primeira Guerra           reconhecimento dos dois grupos, Moscou e Ka-
Mundial, a psicanlise, j bem conhecida pela        zan, pela International Psychoanalytical As-
intelligentsia russa, suscitava debates apaixo-      sociation* (IPA).
nados. A partir de 1911, e at 1918, Leonid              Os membros do Comit Secreto estavam
Drosns (1880-?), psiquiatra de Serguei Cons-        divididos sobre a deciso a tomar. Ernest Jones*
tantinovitch Pankejeff* (o Homem dos Lobos),         no gostava dos marxistas de Moscou (princi-
participou dos trabalhos da Wiener Psychoana-        palmente Vera Schmidt) e apoiava o grupo de
lytische Vereinigung (WPV).                          Kazan, enquanto Freud tinha opinio contrria.
    Em 1914, Mosche Wulff*, formado em Ber-          Quanto a Sandor Ferenczi*, hostil ao comunis-
lim, participou, com Nicolas Vyrubov (1869-?),       mo* desde a experincia da Comuna de Buda-
da criao da revista Psychotherapia, que di-        peste, no tomava posio. No Congresso de
fundia as idias freudianas. Por sua vez, Os-        Berlim, em setembro de 1922, a questo da
sipov, apoiado por Serbski, criou uma ambuln-       filiao foi discutida. Uma objeo administra-
cia teraputica que ele prprio dirigia, em alter-   tiva foi levantada por um participante ingls,
nncia com dois colegas, para popularizar o          que observou que o grupo de Moscou no podia
tratamento psicanaltico. Vrias obras de Sig-       ser admitido, pois a direo da IPA ainda no
mund Freud* foram ento traduzidas (at              tivera conhecimento dos estatutos da Socieda-
1927), notadamente A interpretao dos so-           de. Freud aceitou esse argumento, mas reco-
nhos*, Trs ensaios sobre a teoria da sexuali-       mendou que a filiao dos moscovitas fosse
dade* e Mais-alm do princpio de prazer*,           aceita logo que as condies fossem satisfeitas.
assim como livros de Alfred Adler*, Otto Rank*           Finalmente, em setembro de 1923, foi criada
e Wilhelm Stekel*.                                   em Moscou uma Associao Psicanaltica Rus-
    Em 1921, Ossipov, que se opunha  Revolu-        sa, que reunia os moscovitas e o grupo de Ka-
o, deixou a Rssia e instalou-se em Praga,         zan. Instalado em Moscou, Luria tornou-se o
enquanto Ermakov e Wulff, mais simpticos ao         seu secretrio, Ermakov o presidente, Otto
                                                                Rssia (e Unio Sovitica)       675

Schmidt o vice-presidente. J formavam um              Enquanto Mosche Wulff emigrava para a
total de 20 membros. Recentemente chegada de       Palestina em 1927, os outros freudianos enfren-
Viena, a conselho de Freud, Sabina Spielrein*      tavam o grande debate sobre a edificao do
logo aderiu  nova Associao,  qual se junta-    socialismo, que opunha, no campo da literatura
ram os grupos de Kiev (com Aron Borissovitch       e da filosofia, os partidrios e os adversrios do
Zalkind*), de Odessa (com Wulff e Drosns) e       realismo socialista. O conjunto da intelligentsia
de Rostov (com Spielrein, a partir de 1925): ou    sovitica foi convidado pelo partido a se mobi-
seja, cerca de 30 membros, o que, para a poca,    lizar na nova frente da luta de classes, a fim de
era um nmero muito elevado. O movimento           expurgar os resduos do antigo esprito "idealis-
psicanaltico russo estava ento no apogeu.        ta" e construir o "homem novo" sovitico.
    Muitos intelectuais de vanguarda se apaixo-        No campo da psicologia, a discusso sobre
naram pelo freudismo. Foi o caso do cineasta       o estatuto da psicanlise se desenvolveu no
Serguei Mikhailovitch Eisenstein (1898-1948),      contexto de um pavlovismo triunfante, erigido
que se dedicou a uma espcie de auto-anlise*,     em rbitro do materialismo proletrio. Duas
para melhor compreender suas relaes com-         tendncias apareceram: de um lado, os freudo-
plexas com seu mestre, Vsevolod Meyerhold          marxistas tentavam "salvar" a psicanlise, de-
(1874-1940). Em 1927, quando de sua viagem         monstrando que a doutrina freudiana era com-
 Rssia, Stefan Zweig* encontrou-se com ele e     patvel com os princpios da psicologia mate-
lhe falou com emoo da nova "Escola de Ate-       rialista ou pavloviana, com a condio de supri-
nas", fundada por Freud em Viena. Projetou um      mir a teoria da sexualidade, excessivamente
encontro entre os dois, mas este nunca ocorreu.    "bestial", e a pulso* de morte, excessivamente
    Em 1923, Lon Trotski (1879-1940), que         "pessimista". Luria, Zalkind e Yuri Kannabikh
frequentou em Viena o crculo de Alfred            publicaram artigos nesse sentido, criticando a
Adler*, escreveu a Pavlov para lhe explicar que    antiga orientao, dita "literria", de Wulff, Er-
a psicanlise desistira de acreditar no primado    makov e Ossipov. A outra tendncia se compu-
de um "abismo da alma". Assim, a teoria freu-      nha de antifreudianos autnticos, que se opu-
diana devia ser includa em uma psicologia         nham aos freudo-marxistas, afirmando a in-
materialista, como um caso particular da dou-      compatibilidade absoluta entre o marxismo e a
trina dos reflexos condicionados. Quatro anos      psicanlise. Foi o caso de Valentin Volochinov,
depois, em uma conferncia sobre o tema "So-       aluno do grande terico da literatura Mikhail
cialismo e cultura", inscreveu o freudismo no      Bakhtine (1895-1975), que, em nome de seu
campo do materialismo, despojando-o da teoria      mestre, publicou em 1927 um panfleto, O freu-
da sexualidade*. Trotski considerava a experi-     dismo, no qual executava ao mesmo tempo o
mentao pavloviana superior  "conjectura"        "espiritualismo freudiano" e o "freudismo re-
freudiana, que entretanto no exclua, e decla-    flexolgico" dos partidrios de Freud. (Essa
rou finalmente que a psicanlise era compatvel    obra seria atribuda a Bakhtine na edio fran-
com o marxismo.                                    cesa e a Volochinov na edio italiana.)
    Essa declarao traa o modo pelo qual se          Em 1930, pode-se dizer que a psicanlise
orientava o debate sobre a psicanlise, a partir   fora erradicada da URSS, embora um punhado
da morte de Lenin (1870-1924) e do endureci-       de clandestinos a praticassem ainda durante
mento do regime -- que levaria, alis, ao exlio   algum tempo. Os antigos freudianos se orienta-
de Trotski.                                        ram para outras atividades, enquanto os livros
    Em 1925, o Lar de Crianas de Vera Schmidt     de Sigmund Freud eram relegados a bibliotecas
fechou as portas, e sua associao foi dissolvi-   especializadas. O modelo pavloviano domina-
da. Criticada pelo regime, a experincia no re-   va ento toda a psicologia.
cebia o apoio da IPA, e se encontrava pois du-         No fim dos anos 1940, foi lanada a cruzada
plamente condenada. A partir de 1927, com a        contra a cincia e a arte ditas "burguesas". O
supresso da liberdade de associao e a stali-    momento era de apologia das teses antimen-
nizao do sistema sovitico, o movimento psi-     delianas de Trofim Lyssenko (1908-1976) na
canaltico russo se extinguiu progressivamente.    biologia, e das de Andrei Jdanov (1896-1948)
676     Rssia (e Unio Sovitica)

na literatura (Jdanovchtchina). A psicanlise       autor de um livro sobre o problema do incons-
estava ento oficialmente condenada, mas em         ciente publicado em 1969 e muito representati-
virtude de novos argumentos. Em 1949, o freu-       vo da era ps-pavloviana na URSS. Nessa obra,
dismo no era mais um perigo para o ideal           Bassine propunha reabilitar politicamente o in-
comunista. Entretanto, no contexto da guerra        consciente freudiano, para melhor refut-lo 
fria, era denunciado como uma ameaa prove-         luz dos diferentes conhecimentos da psicologia.
niente do exterior. A psicanlise, ento em plena   Assim, levou em conta os trabalhos de Jacques
expanso nos Estados Unidos*, depois do exlio      Lacan*, desviando-os de sua significao, a fim
em massa de seus praticantes europeus que           de demonstrar que a utilizao da lingstica
fugiam do nazismo*, era percebida pelo campo        permitia afastar-se do inconsciente demasiado
sovitico como um componente da ideologia           "instintual" de Freud, e conseqentemente re-
reacionria a servio do imperialismo america-      novar a psicanlise atravs da psicologia.
no. Os partidos comunistas europeus adotaram            Finalmente, o simpsio ocorreu em Tbilissi,
essa palavra de ordem.                              na Gergia, em outubro de 1979. Foi um verda-
    O processo de desestalinizao no mudou        deiro acontecimento. Contou com a presena de
nada para o estatuto do freudismo na URSS.          Roman Jakobson (1896-1982), que naquela
Entre 1953 e 1970, a poltica de deportao dos     ocasio retornava pela primeira vez a seu pas
oponentes foi substituda por uma forma mais        natal. Tambm pela primeira vez, pesquisado-
sutil de represso: a oposio foi assimilada a     res de muitos pases foram  URSS para falar do
uma doena mental e seus representantes a "es-      inconsciente, em um lugar afastado de Moscou.
quizofrnicos mrbidos". Era no interior dos        Todavia, esse encontro no teria nenhum efeito
muros de um Instituto de Medicina Legal de          sobre a situao geral da psicanlise na URSS.
Moscou, que levava o nome do grande Serbski,        As obras de Freud no seriam reeditadas.
que eram "periciados" os infelizes dissidentes          A chegada ao poder de Mikhail Gorbatchev
atingidos por essa estranha psicose*.               e, depois, a instaurao da poltica da peres-
    Durante vinte anos, o uso dessa terminologia    troika, favoreceram, em contrapartida, a re-
contaminou o conjunto do saber psiquitrico         construo de um movimento psicanaltico rus-
sovitico, tornando-o impermevel a qualquer        so. Em 1989, por iniciativa de um psiquiatra,
influncia nova, e principalmente ao freudismo.     Aron Belkin, foi iniciado um trabalho de retra-
Alm disso, a tradio freudiana, que no mais      duo das obras de Freud e principalmente de
existia na memria coletiva do povo russo e         classificao dos arquivos coletados outrora pe-
que, no Ocidente, tinha muitas vezes a conota-      lo NKVD sobre a atividade dos primeiros freu-
o de dogma e fechamento, no foi retomada         dianos da Rssia. Esses arquivos trariam uma
pelos dissidentes.                                  nova compreenso para a histria da psicanlise
    Foi no campo da psicologia que surgiu um        na Rssia, ainda mal conhecida.
tmido reaquecimento do interesse pelo freudis-         Em fevereiro de 1990, depois de muitos
mo, graas a uma crtica severa do pavlovismo.      contatos com a IPA, Belkin fundou uma As-
    Por volta de 1975, o psiclogo georgiano        sociao Psicanaltica da URSS, que se tornaria
Serge Tzouladz, que estudou psiquiatria em         a Associao Psicanaltica Russa, depois da
Paris e recebeu formao psicanaltica em um        fragmentao do antigo imprio sovitico.
div francs, tomou a iniciativa de organizar na        No fim do sculo XX, a Rssia est nova-
Unio Sovitica um colquio sobre o tema do         mente entre os maiores pases de implantao
inconsciente*. Reuniu liberais opostos  psi-       do freudismo, organizado em duas grandes ten-
quiatria repressora que desejavam instaurar la-     dncias: de um lado, os mdicos, prximos da
os com o Ocidente, especialmente com a Fran-       IPA e dos trabalhos americanos; do outro, os
a, onde o lacanismo* dava uma representao        psiclogos clnicos, muito numerosos e abertos
no-biolgica do inconsciente freudiano.            a todas as escolas de psicoterapia* do mundo
    Tzouladz morreu antes da realizao de seu     ocidental.
projeto, que foi ento assumido por outros, en-         Observe-se que se criou na Litunia, em
tre os quais Lon Chertok* e Philippe Bassine,      1987, depois da independncia do pas, o Grupo
                                                                            Rssia (e Unio Sovitica)           677

de Psicologia Dinmica Lituano, composto de                   vitique", in Roland Jaccard, Histoire de la Psychana-
cerca de 20 membros, formados em psicanlise                  lyse, vol.II, Paris, Hachette, 1982, 187-237  lisabeth
                                                              Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana, vol.2
por didatas da Escandinvia*.                                 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988 
                                                              Angiola Massucco Costa, Psychologie sovitique, Pa-
 Lon Trotski, Literatura e revoluo (Moscou, 1924),        ris, Payot, 1977  Alberto Angelini, La psicoanalisi in
Rio de Janeiro, Zahar  Mikhail Bakhtine, Le Freudisme        Russia, Npoles, Liguori Editore, 1988  Alexandre
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                                                              TRIA DA PSICANLISE; LOUCURA; PEDOLOGIA;
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Tbilissi, Metsniereba Publishing House, 3 vols., 1981        WULF; SOCIEDADE PSICOLGICA DAS QUARTAS-
Jean-Michel Palmier, "La Psychanalyse en Union So-            FEIRAS; WORTIS, JOSEPH.
                                               S
Sachs, Hanns (1881-1947)                                 o por Freud que ps o seu busto diante do div
psicanalista americano                                   onde se deitavam seus pacientes.
   "Hanns Sachs, escreveu William Johnston,                  Em 1925, com Karl Abraham* e contra a
foi o mais ardoroso dos vienenses freudianos             opinio de Freud, que no entendia grande coisa
que se dedicou  esttica. Judeu opulento, nati-         da nova arte cinematogrfica, Sachs participou
vo de Viena*, que desejara tornar-se escritor,           da redao de um roteiro para o filme mudo
temia a tal ponto a publicidade que guardou              realizado em 1926 por Wilhelm Pabst (1885-
segredo sobre sua vida privada, inclusive com            1967), Os mistrios da alma. Nessa obra-prima
Sigmund Freud* e Otto Rank* [...]. Fosse em              do cinema expressionista, o ator Werner Krauss,
Viena, Berlim, ou Boston, Sachs sempre cele-             que fizera em 1919 o papel de Caligari no filme
brou a cidade onde vivia como o lugar mais               de Robert Wiene, interpretou o do professor
                                                         Matthias, homem obcecado por desejos de as-
agradvel do mundo."
                                                         sassinato com sabre e faca, curado pela psica-
   Filho de um jurista de renome em Viena,
                                                         nlise. Foi o primeiro filme inspirado nas teses
Sachs estudou direito, antes de se apaixonar
                                                         freudianas e, quando de sua primeira exibio
pela psicanlise* ao ler A interpretao dos
                                                         em Berlim, foi bem recebido: "De imagem em
sonhos*. Depois de assistir a conferncias de
                                                         imagem, escreveu um jornalista do Film-Ku-
Freud, foi visit-lo, levando-lhe uma traduo           rier, descobre-se o pensamento de Freud. Cada
das Baladas da caserna de Rudyard Kipling                episdio da ao poderia ser uma das propo-
(1865-1936). Em 1909, aderiu  Sociedade Psi-            sies da agora clebre anlise dos sonhos [...].
colgica das Quartas-Feiras* e se tornou um dos          Os discpulos de Freud podem se alegrar. Nada
discpulos ortodoxos do mestre. Membro do                no mundo podia fazer tal publicidade com tanto
Comit Secreto* e fundador, com Otto Rank, da            tato."
revista Imago*, consagrou-se essencialmente a                Em 1932, convidado pela Boston Psychoa-
trabalhos de psicanlise aplicada* e  formao          nalytic Society (BoPS), que tinha carncia de
dos psicanalistas. Assim, foi um dos didatas             didatas, Sachs deixou Berlim e foi para os Es-
mais apreciados da primeira gerao* freudia-            tados Unidos*. No sendo mdico e temendo os
na, mesmo no sendo mdico. Epicurista, gas-             ataques dos americanos contra a anlise leiga*,
trnomo e grande sedutor de mulheres, decidiu            exigiu que lhe garantissem "oito sesses por
manter-se celibatrio, depois de um primeiro             dia". Em Boston, instalou-se na casa de um
casamento.                                               capito da marinha e adotou, com certa exube-
   Instalando-se em Berlim em 1920, formou               rncia, as maneiras da costa leste, fazendo-se
um nmero impressionante de psicanalistas no             servir por um mordomo ingls. Se teve dificul-
Berliner Psychoanalytisches Institut* (BPI).             dade em integrar-se  BoPS, adaptou-se muito
Muitas vezes, viajava em frias com seus                 bem ao modo de vida americano. Em 1933, por
analisandos, estes tambm acompanhados por               ocasio de uma permanncia na Europa, foi
seus analisandos, o que d uma idia dos hbitos         visitar Freud, que se mostrou de uma incrvel
da poca, antes da regulamentao (1925) da              hostilidade, como mostra uma carta dirigida a
anlise didtica*. Sachs tinha tamanha admira-           Jeanne Lampl-De Groot*: "Impresso desfavo-
                                                   678
                                                                                         Sachs, Wulf       679

rvel, escreveu Freud. O lado vulgar que sem-                   Aluno de Ivan Pavlov (1849-1936), deixou
pre esteve presente nele tornou-se ainda mais               a Rssia* depois da revoluo de outubro, para
ntido. Um verdadeiro novo-rico, obeso, muito               estudar medicina, inicialmente na Alemanha*,
satisfeito consigo mesmo, pretensioso, esnobe,              em Colnia, depois em Londres, onde obteve
encantado com a Amrica e fascinado pelo                    seu diploma em 1922. No mesmo ano, emigrou
grande sucesso que obteve."                                 com a famlia para a frica do Sul e instalou-se
    Esse testemunho contrasta singularmente                 em Johannesburgo. Comeou ento uma
com o de Sachs, que fez de seu "mestre e                    confortvel carreira de clnico geral, junto  rica
amigo" um retrato hagiogrfico em 1944.                     burguesia branca.
                                                                Evidentemente, Wulf Sachs no estava con-
 Hanns Sachs, "Metapsychological points of view in         tente com a sua vida. Em 1928, comeou a se
technique and theory", IJP, VI, 1925, 5-12; "Zur Psy-
chologie des Films", Psychoanalytische Bewegung, 1,         orientar para a psiquiatria, tratando de doentes
1929, 122-6; Caligula, Londres, Elin Matthews and           negros psicticos em um hospital de Pretria
Marott, 1931; The Creative Unconscious, Studies in the      para pessoas negras. Foi nesse momento que
Psychoanalysis of Art, Cambridge (Mass.), Science-Art       descobriu as obras de Sigmund Freud*, decidiu
Publications, 1942; Freud, mon matre et mon ami
(Boston, 1944), Paris, Denol, 1977; "Observations of       fazer contato com ele e ir  Europa. Em 1929,
a training analyst", Psychoanalytic Quaterly, 16, 1947,     passou seis meses em Berlim, analisou-se com
157-68  Ernest Jones, "Obituary of Hanns Sachs", IJP,      Theodor Reik* e tornou-se membro, em 1934,
27, 1946, 168-9  Rudolph Loewenstein, "In memoriam         da British Psychoanalytical Society (BPS). Foi
Hanns Sachs", Psychoanalytic Quarterly, 16, 1947,
151-6  Fritz Moellenhoff, "Hanns Sachs 1881-1947. O        nomeado didata titular em 1946.
inconsciente criativo", in Franz Alexander, Samuel              Voltando a Johannesburgo, reuniu um pe-
Eisenstein e Martin Grotjahn (orgs.), A histria da         queno grupo de estudos do pensamento freudia-
psicanlise atravs de seus pioneiros (N. York, 1966),      no, que foi reconhecido pela International Psy-
Rio de Janeiro, Imago, 1981  William M. Johnston,
L'Esprit viennois. Une histoire intellectuelle et sociale   choanalytical Association* (IPA) em 1935, pela
1848-1938 (N. York, 1972), Paris, PUF, 1985  Ronald        sua filiao  BPS. Sachs no mediu esforos
W. Clarke, Freud, the Man and the Cause, Londres,           para promover a psicanlise em seu pas de ado-
Cape Weidenfeld and Nicholson, 1979  Patrick Lacos-        o. No departamento de filosofia da Univers-
te, L'trange cas du professeur M. Psychanalyse 
l'cran, Paris, Gallimard, 1990  Phyllis Grosskurth, O
                                                            sidade de Witswatersrand, ensinou seus prin-
crculo secreto (Londres, 1991), Rio de Janeiro, Imago,     cpios. Seus cursos foram reunidos, em 1934,
1992  Sigmund Freud, Chronique la plus brve. Car-         em um livro dedicado s aplicaes e  prtica
nets intimes 1929-1939, anotado e apresentado por           da psicanlise, para o qual Freud fez um curto
Michael Molnar (Londres, 1992), Paris, Albin Michel,
1992  Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der
                                                            prefcio.
Psychoanalyse. Die Mitglieder der Psychologischen               Em 1937, publicou sua obra principal, Black
Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener Psychoanalyti-         Hamlet. Seu objetivo era destruir as teses da
schen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord,         psiquiatria colonial, que diferenciava e inferio-
1992.
                                                            rizava o homem negro, afirmando que sua psi-
                                                            que no tinha a mesma natureza que a do ho-
                                                            mem branco europeu e que a psique negra e
Sachs, Wulf (1893-1949)                                     "primitiva" nunca teria acesso  perfeio. Na
mdico e psicanalista sul-africano                          mesma perspectiva diferencialista e inigualit-
    Judeu lituano educado em So Petersburgo,               ria, o psiquiatra B.J.F. Laubscher tambm dizia,
mdico e jornalista de esquerda, Wulf (ou Wolf)             baseando-se na psicanlise, que existia uma
Sachs foi, durante a primeira metade do sculo,             similaridade entre um africano dito "normal" e
o nico praticante da psicanlise* no continente            um europeu psictico; ou seja, a clivagem entre
africano. Nesse aspecto, sua posio, seu itine-            a norma e a patologia no atravessava de modo
rrio e seus objetos de estudo so comparveis              idntico os sujeitos pertencentes a comunida-
aos de Girndrashekhar Bose* na ndia*, com a               des, e principalmente a "raas", diferentes.
diferena de que Sachs era um imigrante, for-                   Foi para derrubar esses preconceitos, alis
mado no seio do primeiro freudismo*, e no um               desmentidos por Freud em Totem e tabu*, e
nativo do pas onde exerceu suas atividades.                depois por Geza Roheim*, que Sachs estudou
680     Sachs, Wulf

em Black Hamlet o caso de um feiticeiro, defen-      International Journal of Psycho-Analysis*, de-
dendo a existncia da unicidade do fenmeno          pois de sua morte. Todavia, no momento em que
psictico e neurtico, quaisquer que fossem a        a Europa era dizimada pelo nazismo*, Ernest
raa do sujeito e a natureza de sua comunidade       Jones* pensou em promover a emigrao dos
de origem.                                           clnicos para a frica do Sul, a fim de auxiliar
    ltimo representante de uma grande li-           Sachs -- especialmente Richard Sterba*. Mas
nhagem de curandeiros-feiticeiros, John Cha-         as autoridades de Pretoria se recusaram a lhe
vafambira, imigrante do Zimbbue, vivia na           conceder visto.
misria em Johannesburgo, onde Sachs o en-               Quando de sua instalao na Cidade do Ca-
contrara graas a uma amiga antroploga. Com         bo, Marie Bonaparte* no melhorou as coisas.
a morte de seu pai, sua me se casara com o          Longe de apoiar Sachs, organizou uma confe-
irmo deste, segundo o costume do levirato.          rncia para os psiquiatras, na qual atacou suas
John encontrara-se ento em rivalidade com           posies, segundo ela muito pouco ortodoxas.
esse tio, tambm feiticeiro. Partira com a inten-    Alm disso, em Johannesburgo, Sachs sofreu a
o de retornar  aldeia e vingar-se, demons-        concorrncia de Frederick Perls (1893-1970),
trando ao tio a superioridade de seus poderes de     inventor da gestalt-terapia* e em dissidncia
cura sobre os dele. Sachs comparou o caso de         radical com o freudismo.
Chavafambira ao de Hamlet, observando que                Transformado por sua experincia com Cha-
este sofria de uma neurose* caracterizada pela       vafambira, Sachs procedeu, em 1946, a uma
indeciso e cuja sintomatologia era universal.       reviso de sua obra. Suprimiu algumas pala-
    Black Hamlet se apresentava sob a forma de       vras, que julgava de inspirao excessivamente
um dilogo entre esses dois homens, uma troca        colonial, e principalmente renunciou a interpre-
de saber entre um psicanalista e um feiticeiro,      tar a recusa de agir do feiticeiro como uma
em uma poca em que se preparavam as leis            patologia "hamletiana". Mudou o ttulo e deno-
segregacionistas que levariam  instaurao do       minou a obra de Black Anger. Morreu subita-
apartheid em 1949. Ora, Sachs ficara abalado         mente aos 56 anos, logo antes da entrada em
em suas certezas psicanalticas pelas obser-         vigor do apartheid.
vaes de seu interlocutor, que sofria tanto com         O grupo psicanaltico que fundara desapare-
sua neurose quanto com as perseguies reais         ceu com ele: "Ele era nosso diretor, nosso orga-
de que era vtima. Durante um de seus encon-         nizador, nosso supervisor, escreveu uma tes-
tros, Chavafambira, maltratado pela polcia,         temunha, e para a maioria de ns, o nosso
disse a Sachs: "Veio  minha mente que voc e        analista." Depois da morte de Sachs, tornou-se
o policial so muito semelhantes. Vocs dois         difcil prosseguir atividades psicanalticas na
parecem ser apenas um homem.  uma idia             frica do Sul. A maior parte de seus alunos e
terrvel." Com efeito, essa idia mostrava como      colegas se exilaram, enquanto alguns clnicos
era difcil, seno impossvel, praticar a psican-   continuaram a trabalhar sem nenhum suporte
lise em um pas que no era um Estado de             institucional.
direito, e alm disso fundado na desigualdade.           Em 1979, um Grupo de Estudos Psicanalti-
Sachs sensibilizou-se com isso, ajudou Chava-        cos foi criado em Johannesburgo, sob o patro-
fambira a resistir  opresso e estimulou-o a        cnio da BPS, cuja poltica consistiu em implan-
completar a sua educao ocidental.                  tar o kleinismo* atravs de seminrios e an-
    Essa experincia o transformou. Sempre           lises conduzidos por didatas ingleses.
praticando o freudismo, Sachs engajou-se  es-
                                                      Wulf Sachs, "The insane native: an introduction to a
querda, tornou-se jornalista e aderiu a uma or-      psychological study", The South African Journal of
ganizao sionista.                                  Science, 30, 1933, 706-13; Psychoanalysis: its Mea-
    A obra de Sachs no agradava aos repre-          ning and Practical Application, Londres, Cassel, 1934;
sentantes conservadores da IPA, que afirmavam        Black Hamlet (1937), Baltimore, Londres, Johns Hop-
                                                     kins University Press, 1996  "Notice ncrologique: Wulf
que seu engajamento prejudicava sua prtica          Sachs", IJP, 31, 1950, 288-9  Clia Bertin, La Dernire
clnica e seu esprito cientfico. Isso se percebe   Bonaparte, Paris, Perrin, 1982  Megan Vaughan, Cu-
claramente em seu necrolgio, publicado no           ring their Ills: Colonial Power and African Illness, Cam-
                                                                                    sadomasoquismo           681

bridge, Polity Press, 1991  Sadie Gillespie, "Historical       Em setembro de 1942, no tendo conseguido
notes on the first South African psychoanalytical socie-
                                                            sair de Viena, Isidor Sadger foi deportado para o
ty", Psychoanalytic Psychotherapy in South Africa, 1,
1992, 1-6  Tony Hamburger, "The Johannesburg psy-          campo de concentrao de Theresienstadt, onde
cho-analytic study group: a short history", Psychoana-      foi assassinado pelos nazistas em dezembro.
lytic Psychotherapy in South Africa, 1, 1992, 62-71 
Saul Dubow, Scientific Racism in Modern South Africa,        Freud/Jung: correspondncia completa (Paris,
Cambridge, Cambridge University Press, 1995; "Intro-        1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993  Les Premiers
duction, part I", in Black Hamlet, Baltimore, Londres,      psychanalystes. Minutes de la Socit Psychanalyti-
Johns Hopkins University Press, 1996, 1-37  Jacque-        que de Vienne, 1906-1918, 4 vols. (N. York, 1962-
line Rose, "Introduction, part II", ibid., 38-67.           1975), Paris, Gallimard, 1976-1983  Elke Mhlleitner,
                                                            Biographisches Lexikon der Psychoanalyse. Die Mit-
 ANTIPSIQUIATRIA; ANTROPOLOGIA; COLLOMB,                    glieder der Psychologischen Mittwoch-Gesellschaft
HENRI; DEVEREUX, GEORGES; DIPO, COMPLEXO                   und der Wiener Psychoanalytischen Vereinigung von
DE; ELLENBERGER, HENRI F.; ETNOPSICANLISE;                 1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992.
FANON, FRANTZ.
                                                             KRAUS, KARL; NAZISMO.


Sadger, Isidor Isaak (1867-1942)                            sadismo
mdico e psicanalista austraco                             al. Sadismus; esp. sadismo; fr. sadisme; ing. sa-
    Nascido em Neusandec, na Galcia, provn-               dism
cia polonesa ligada ao imprio russo, Sadger era            Termo criado por Richard von Krafft-Ebing* em
de uma famlia judia. Estudou medicina em                   1886 e forjado a partir do nome do escritor francs
Viena* e aderiu em 1906  Sociedade Psicol-                Donatien Alphonse Franois, marqus de Sade
gica das Quartas-Feiras*, da qual seu sobrinho,             (1740-1814), para designar uma perverso* sexual
Fritz Wittels*, foi tambm um dos participantes             -- pancadas, flagelaes, humilhaes fsicas e
ativos. Verdadeiro grafmano, especialista em               morais -- baseada num modo de satisfao ligado
patografias dos escritores, obcecado pela                   ao sofrimento infligido ao outro.
homossexualidade*, pela perverso*, pelo feti-                 Esse termo proveio essencialmente do voca-
chismo* e pela hereditariedade, adotou as teses             bulrio da sexologia*, mas foi retomado por
freudianas com tal fanatismo que exasperou o                Sigmund Freud* e seus herdeiros no quadro mais
prprio Sigmund Freud*. Em uma carta a Carl                 geral de uma teoria da perverso e da pulso*
Gustav Jung*, de 5 de maro de 1908, Freud o                estendida a outros atos alm das perverses
tratou de "fantico hereditariamente tarado por             sexuais. Nesse sentido, foi acoplado ao termo
ortodoxia, que acredita por acaso na psican-               masoquismo* para formar um novo vocbulo, o
lise, ao invs de acreditar na lei dada por Deus            sadomasoquismo*, que posteriormente se imps
no Monte Sinai-Horeb". Todavia, prestou-lhe                 em toda a terminologia psicanaltica.
homenagem, a respeito de casos que ele apre-
sentou  Sociedade sobre a homossexualidade.
    Sadger aplicava ao p da letra a teoria da              sadomasoquismo
primazia absoluta da sexualidade*, a ponto de               al. Sadomasochismus; esp. sadomasoquismo; fr.
se apegar aos detalhes mais escabrosos e fazer              sado-masochisme; ing. sado-masochism
perguntas absurdas durante os jantares vie-                 Termo forjado por Sigmund Freud*, a partir de
nenses, nos quais chamava de neurtico quem                 sadismo* e masoquismo*, para designar uma per-
quer que ousasse no pensar como Freud. Como                verso* sexual baseada num modo de satisfao
seu sobrinho, foi de uma incrvel misoginia e               ligado ao sofrimento infligido ao outro e ao que
teve realmente um papel negativo na trgica                 provm do sujeito* humilhado.
aventura de Hermine von Hug-Hellmuth*, de                       Por extenso, esse par de termos complemen-
quem era analista, mdico e mentor. Tutor do                tares caracteriza um aspecto fundamental da vida
jovem Rolf Hug, sobrinho de Hermine, no                    pulsional, baseado na simetria e na reciprocidade
hesitou em depor contra ele por ocasio de seu              entre um sofrimento passivamente vivido e um
processo.                                                   sofrimento ativamente infligido.
682     sadomasoquismo

    Em 1905, em seus Trs ensaios sobre a           quismo, esclarece Freud em 1915, a satisfao
teoria da sexualidade*, Freud j observava que      "passa (...) pela via do sadismo originrio, na
"o sdico  sempre e ao mesmo tempo um              medida em que o eu passivo retoma,  maneira
masoquista, o que no impede que o lado ativo       fantasstica, seu lugar anterior, que agora  cedi-
ou o lado passivo da perverso possa predomi-       do ao sujeito estranho"; no sadismo, o sujeito
nar e caracterizar a atividade sexual que preva-    inflige dores ao outro e goza, "ele mesmo,
lece". Para corroborar essa afirmao, ele citou,   masoquisticamente, na identificao com o ob-
numa nota de rodap, Havelock Ellis*, que           jeto sofredor". Entretanto, quando Freud afirma
escrevera em 1903 no terceiro volume de seus        que "um masoquismo originrio que no tenha
Estudos de psicologia sexual: "Todos os casos       sado do sadismo, da maneira como o descrevi,
de sadismo e masoquismo que conhecemos,             parece no ser encontrvel", podemos conside-
inclusive os citados por Richard von Krafft-        rar, com Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pon-
Ebing*, sempre nos fazem encontrar (...) ves-       talis, que sua colocao est um pouco atrasada
tgios das duas categorias de fenmenos no          em relao a seu pensamento.  que, conside-
mesmo indivduo."                                   rando "o par masoquismo-sadismo em seu sen-
    Freud jamais poria em dvida essa articula-     tido prprio, sexual", escrevem esses autores,
o, que ele iria desenvolver e transformar pa-     " realmente o tempo masoquista que j  consi-
ralelamente  sua teoria das pulses*.              derado primrio, fundamental".
    Podemos, portanto, falar de uma concepo           De qualquer modo, foi essa tese, oposta  da
do sadomasoquismo ligada  primeira tpica*,        primeira tpica, que prevaleceu a partir da gran-
cuja expresso mais rematada  fornecida no         de virada dos anos vinte.
artigo metapsicolgico de 1915, "As pulses e           Em 1919, no artigo "Uma criana  espan-
suas vicissitudes". O sadismo  ali concebido       cada", alm de enunciar discretamente as pre-
como primrio, anterior ao masoquismo; expri-       missas das modificaes tericas que estavam
me uma agressividade contra um outro tomado         por vir, Freud estabeleceu mais claramente o
como objeto. Produto de uma mudana no nvel        papel da fantasia no funcionamento do par sa-
do objeto (na qual a prpria pessoa vem substi-     dismo-masoquismo, embora ainda no modifi-
tuir, como alvo da agressividade, o objeto ex-      casse sua tese da primazia do sadismo sobre o
terno), o masoquismo  deduzido, nessa etapa,       masoquismo. Entretanto, atravs da complexa
do sadismo. Freud sublinha a coexistncia de        anlise da fantasia de fustigao, freqente-
dois processos no interior dessa transformao:     mente evocada por seus pacientes, ele introdu-
a reverso da agressividade contra o prprio        ziu a idia de que  sempre a culpa, no interior
sujeito e a inverso do funcionamento ativo em      do ato de recalque*, que constitui o agente da
funcionamento passivo. Do ponto de vista cl-       transformao do sadismo em masoquismo.
nico, se a neurose obsessiva* se caracteriza pelo       Em 1924, por fora da reformulao efetua-
fato de que o sujeito impe a si mesmo o sofri-     da atravs de trs livros essenciais, Mais-alm
mento de que  vtima, o masoquismo se carac-       do princpio de prazer*, Psicologia das massas
teriza pelo fato de que o sofrimento em questo     e anlise do eu* e O eu e o isso*, Freud voltou
 infligido por outrem. Alm disso, nessa pri-       questo do masoquismo, a fim de propor para
meira concepo, o sadismo no  explicita-         ele uma teoria definitiva.
mente inscrito na categoria das pulses* se-            Postulou ento a existncia de um masoquis-
xuais, mas sob a epgrafe da pulso de domina-      mo primrio, originrio e ergeno em referncia
o.  no mbito da transformao do sadismo         pulso de morte, constitudo pela parte da
em masoquismo que se opera a articulao com        pulso de morte que a libido no pde colocar
a sexualidade, s vindo o carter sexual do         a servio da pulso de destruio nem da pulso
sadismo a aparecer por ocasio de uma segunda       sexual, resultando no sadismo propriamente di-
inverso, na qual o masoquismo se retransforma      to. Esse componente no utilizado da pulso de
em sadismo. Essa operao, alis, s pode rea-      morte torna-se, assim, um componente da libi-
lizar-se por intermdio de uma identificao*       do, que j no tem outro objeto seno o ser
com o outro, no registro da fantasia*. No maso-     ntimo do indivduo. Esse masoquismo prim-
                                                                         sadomasoquismo          683

rio, explica ainda Freud, constitui a testemunha,   novos distrbios: "Uma forma de sofrimento",
o vestgio do tempo primitivo em que a pulso       escreve Freud, " aqui substituda por outra, e
de morte e a pulso de vida estavam totalmente      vemos ento que se tratava apenas de poder
misturadas. Como parte da libido, esse maso-        manter uma certa quantidade de sofrimento."
quismo ergeno encontra-se em ao em todos             Essa forma destrutiva de masoquismo resul-
os estdios* do desenvolvimento psicossexual;       ta dos ataques do supereu* ao eu*, mas  impor-
no estdio oral primitivo, assume a forma do        tante distinguir esse sadismo do supereu, geral-
medo de ser devorado pelo pai; depois, na fase      mente consciente, do masoquismo moral, quase
sdico-anal, ressurge sob a forma do desejo         sempre inconsciente e cuja distncia da sexua-
inconsciente de ser espancado pelo pai. Por         lidade  pura aparncia. Assim, na fantasia da
ltimo, manifesta-se pela angstia e pela rene-     criana que apanha de algum, podemos discer-
gao* da castrao*, no momento da fase f-        nir a forma do masoquismo feminino, isto , o
lica. A ttulo dessa constituio do masoquismo     desejo inconsciente de ter relaes sexuais pas-
primrio, convm destacar a possvel manifes-       sivas. A sexualizao da relao com o par pa-
tao de um masoquismo secundrio que vem           rental, superada no fim do dipo* atravs do
superpor-se ao primeiro como resultado da re-       processo que leva ao surgimento de uma cons-
verso da pulso de destruio ou da pulso         cincia moral, substrato parcial daquilo que vir
sdica contra o sujeito.                            a ser o supereu, retorna, desse modo sob a forma
    Ao lado desse masoquismo primrio, Freud        de uma moral ressexualizada. "O sadismo do
distinguiu outras duas formas de masoquismo:        supereu e o masoquismo do eu completam-se
o chamado masoquismo "feminino", que no            mutuamente", escreve Freud, "e se unem para
concerne especificamente  mulher, mas visa a       provocar as mesmas conseqncias."
posio "feminina" compartilhada pelos dois             Do ponto de vista dos estudos clnicos, a
sexos, e o masoquismo moral, ao qual a psica-       literatura psicanaltica  pobre em casos de
nlise deu o nome de "sentimento (inconscien-       masoquismo ergeno que atestem sevcias
te) de culpa".                                      sexuais graves, sem dvida porque a psicanlise
    A maioria dos elementos do masoquismo           deslocou progressivamente o sadomasoquismo
feminino remete  primeira infncia, quando         para o lado da conscincia moral, introduzindo-
eles j repousam num sentimento de culpa,           o no prprio cerne do indivduo "normal". No
como Freud havia mostrado em 1919 em "Uma           tocante a essa pobreza, a escola francesa se
criana  espancada". Assim, o masoquismo           distingue pela riqueza de seus estudos em ma-
feminino  inteiramente baseado no masoquis-        tria de clnica da perverso.
mo primrio, ergeno, caracterizado pela liga-          O artigo publicado em 1972 pelo psicanalis-
o estabelecida entre o prazer, de natureza        ta francs Michel de M'Uzan, sob o ttulo de
libidinal, e a dor, produto da pulso de morte.     "Um caso de masoquismo perverso. Esboo de
    Quer se trate da experincia clnica ou da      uma teoria",  particularmente notvel. A his-
descrio da vida cotidiana, Freud considera        tria desse caso  a de um homem de aparncia
que  a terceira forma de masoquismo, o maso-       tranqila, cujo corpo tatuado, queimado, marti-
quismo moral, fundamentado no sentimento de         rizado e mutilado, bem como as prticas sexuais
culpa, que  a mais importante e a mais des-        perversas a que ele se submetia do margem a
trutiva. Ele se caracteriza, primeiramente, por     um conjunto de reflexes clnicas e tericas que
sua aparente distncia da sexualidade e por um      atestam a solidez de fundamento das teses que
relaxamento dos vnculos com o objeto amado,        Freud expusera em 1924.
voltando-se a ateno para a intensidade do             Em 1967, em sua apresentao do texto de
sofrimento, seja qual for sua procedncia.          Leopold von Sacher-Masoch (1836-1895) inti-
    Freud ressalta que o surgimento dessa ter-      tulado A Vnus de peles, Gilles Deleuze (1925-
ceira forma de masoquismo pode constituir um        1995) coloca-se numa perspectiva inteiramente
grande obstculo ao desenrolar da anlise e        diferente da de Freud. Afirma ele que o maso-
passvel, no caso de aparentes sucessos terapu-    quismo no  o inverso nem o complemento do
ticos, de levar a passagens ao ato que provocam     sadismo, porm "um mundo  parte" que escapa
684       Saint-Alban, Hospital de

a qualquer simbolizao, um mundo heterog-                   Saussure, Raymond de (1884-1971)
neo e repleto de horrores, castigos, crucifica-               psiquiatra e psicanalista suo
es e contratos entre carrascos e vtimas. Essa
                                                                  Nascido em uma localidade belssima, no
tese  tambm a de Georges Bataille (1897-
                                                              seio de Genthold, Raymond de Saussure era de
1962). Jacques Lacan* se inspiraria nela para
                                                              uma famlia protestante da Lorena, que se refu-
forjar seu conceito de gozo* e a ampliaria em
                                                              giara na Sua* depois da revogao do Edito
seu artigo "Kant com Sade".
                                                              de Nantes. Seu ilustre ancestral, o gelogo Ho-
 Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da               race Bndict de Saussure (1740-1799), orga-
sexualidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145;         nizou no sculo XVIII a primeira expedio
SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; "As pulses         cientfica ao cume do Mont Blanc, e seu av,
e suas vicissitudes" (1915), ESB, XIV, 137-68; GW, X,
                                                              Henri de Saussure, fez uma brilhante carreira de
209-32; SE, XIV, 109-140; OC, XIII, 161-185; "Bate-se
numa criana" (1919), ESB, XVII, 225-8; GW, XII,              entomologista. Seu pai, Ferdinand de Saussure
197-226; SE, XVII, 175-204; in Nvrose, psychose et           (1857-1913) foi o fundador da lingstica es-
perversion, Paris, PUF, 1973, 219-43; "O problema             trutural, na qual Jacques Lacan* se basearia
econmico do masoquismo" (1924), ESB, XIX, 199-               para dar continuidade  obra freudiana, adotan-
216; GW, XIII, 371-83; SE, XIX, 139-45; OC, XVII, 9-23
 Charles Baladier, "Masoquismo e sadismo", in Pierre         do principalmente o conceito lingstico de sig-
Kaufmann (org.), Dicionrio enciclopdico de psican-         nificante*.
lise: o legado de Freud e Lacan (Paris, 1993), Rio de             Ferdinand de Saussure  universalmente co-
Janeiro, Jorge Zahar, 1996, 322-5  Gilles Deleuze,           nhecido por seu Curso de lingstica geral, que
Apresentao de Sacher-Masoch, seguido de A Vnus
de peles (Paris, 1967), Rio de Janeiro, Taurus, 1985         entretanto ele nunca escreveu, tendo sido publi-
Richard von Krafft-Ebing, Psychopathia sexualis (Stutt-       cado pela primeira vez em 1915, dois anos
gart, 1886, Paris, 1907), Paris, Payot, 1969  Jacques        depois de sua morte, por seus alunos Charles
Lacan, "Kant com Sade" (1962), Escritos (Paris, 1966),        Bally e Albert Sechehaye. Entre 1906 e 1909,
Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 776-803  Jean
Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da
                                                              no mesmo momento da gestao de seu primei-
psicanlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes,          ro curso de lingstica, apaixonou-se pela poe-
1991, 2 ed.  Michel de M'Uzan, De l'art  la mort, Paris,   sia saturniana. Pensando encontrar nela os ves-
Gallimard, 1977  Wanda Sacher-Masoch, Confession             tgios de uma atividade secreta da subjetividade
de ma vie (Berlim, 1906, Paris, 1907), Paris, Gallimard,
                                                              do poeta, deu o nome de anagramas a fragmen-
1989  Philippe Sollers, Sade contre l'tre suprme,
Paris, Gallimard, 1996.                                       tos fnicos que traduziam, segundo ele, as in-
                                                              tenes conscientes ou inconscientes do autor.
                                                              Amigo do mdico Thodore Flournoy*, inte-
Saint-Alban, Hospital de                                      ressou-se pelo espiritismo* e pela famosa vi-
 PSICOTERAPIA INSTITUCIONAL.                                  dente Catherine-lise Mller (1861-1929).
                                                                  Raymond de Saussure tinha 19 anos quando
                                                              seu pai morreu. Esmagado pela figura paterna,
Salptrire, Hospital da                                      acusava esse pai genial mas ausente de alcoo-
 AUGUSTINE; CHARCOT, JEAN MARTIN.                             lismo e de completo desinteresse pelo lar conju-
                                                              gal. Em 1916, em uma carta a Charles Bally, que
                                                              acabava de editar o Curso de lingstica geral,
Sarasin, Philipp (1888-1968)                                  enfatizou a necessidade de abrir um campo de
psiquiatra e psicanalista suo                               investigao comum  psicanlise e  lings-
    Analisado por Hanns Sachs* e por Sigmund                  tica. Ele no o fez, e foi Lacan quem tomou essa
Freud* entre 1923 e 1925, Philipp Sarasin foi                 direo; da uma relao bastante conflituosa
um dos principais membros da Sociedade Sua                  entre ambos.
de Psicanlise (SPP), que presidiu durante 32                     Depois de estudar letras em Genebra,
anos. Instalando-se em Basilia, teve igualmen-               Raymond de Saussure se orientou para a psico-
te um papel na formao dos psicanalistas fran-               logia e se apaixonou pelas aulas de Thodore
ceses de Estrasburgo.                                         Flournoy sobre as teorias freudianas. Casou-se
                                                              em primeiras npcias com a filha deste, Ariane,
 SUA.                                                       com quem teve dois filhos, unindo assim o
                                                                     Saussure, Raymond de            685

destino das duas grandes famlias da aris-          livros raros e a redigir, com Lon Chertok*,
tocracia de Genebra. Vrios descendentes se         uma obra sobre o nascimento da prtica psica-
tornariam psicanalistas.                            naltica. Nessa rea, foi entretanto Henri F. El-
    Seus estudos de medicina o levaram a Zuri-      lenberger* quem produziria a obra mais inova-
que e depois a Viena*. Foi durante o congresso      dora.
da International Psychoanalytical Association*          No incio da Segunda Guerra Mundial,
(IPA) em Haia, em 1920, que se encontrou com        deixou Paris e foi para Genebra, onde ajudou
Sigmund Freud*. Logo o considerou como um           Heinz Hartmann* e Erich Fromm* a emigra-
mestre e, alguns meses depois, comeou a se         rem. Por sua vez, em 1940, foi para os Estados
analisar com ele. Embora fascinado por Freud,       Unidos*, repetiu os estudos de medicina e inte-
acusou-o de falhas tcnicas: "Primeiramente,        grou-se  New York Psychoanalytical Society
ele [Freud] tinha praticado a sugesto* durante     (NYPS). Ali, encontrou Roman Jakobson
tempo demais para no ter conservado alguns         (1896-1982), que lhe falou da obra de seu pai,
reflexos dela. Quando estava convencido de          mostrando-lhe pela primeira vez os laos pro-
uma verdade, tinha dificuldade em esperar que       dutivos que poderiam aproximar a psicanlise
ela surgisse no esprito de seu paciente; queria    da lingstica. Posteriormente, Jakobson se tor-
persuadi-lo imediatamente, e por causa disso,       nou amigo de Claude Lvi-Strauss e de Lacan.
falava demais. Em segundo lugar, sentia-se lo-      Quanto a Raymond de Saussure, permaneceu
go com que questo terica ele estava preocu-       nos Estados Unidos at 1952 e depois voltou a
pado, pois muitas vezes desenvolvia longa-          Genebra onde, durante muitos anos, teve um
mente os novos pontos de vista que estava           papel importante na expanso da psicanlise na
elaborando em seu pensamento. Isso era um           Sua romnica e na Europa em geral. Criou
benefcio para o esprito, mas nem sempre para      assim, em 1969, a Federao Europia de Psi-
o tratamento." Em 1930, em Berlim, Raymond          canlise* (FEP), destinada a contrabalanar, no
de Saussure fez uma segunda anlise com Franz       interior da IPA, a onipotncia do freudismo
Alexander*, e uma terceira em Paris, pouco          americano.
depois, com Rudolf Loewenstein*.                        O encanto de Raymond de Saussure no
    Depois de aderir  Sociedade Sua de Psi-      escapou a nenhum de seus contemporneos.
canlise (SSP), fundada em maro de 1919 por        Gostava das mulheres, sabia seduzi-las e sem-
Oskar Pfister*, Hermann Rorschach* e Emil           pre se recusou a se submeter ao conformismo
Oberholzer*, Saussure publicou, em 1922, O          calvinista da maioria de seus colegas da SSP.
mtodo psicanaltico. A obra, prefaciada por        Embora fosse um rigoroso defensor da orto-
Freud, foi infelizmente retirada de circulao      doxia da IPA, transgrediu as regras, especial-
porque continha um relato de sonho* que             mente ao casar-se, em terceiras npcias, com
compreendia muitos detalhes sexuais que po-         uma de suas ex-analisandas. Dotado de uma
diam trair a identidade do paciente. De alta        maravilhosa erudio, escreveu muitos artigos
qualidade, esse livro apresentava pela primeira     sobre a histria da psicanlise, sua tcnica e sua
                                                    teoria. Todavia, nos dois primeiros campos que
vez a um pblico francfono uma verso da
                                                    mais o preocupavam, a lingstica e a his-
doutrina freudiana desprovida de qualquer "la-
                                                    toriografia* freudiana, no ocupou, em compa-
tinizao"  maneira de Angelo Hesnard*.
                                                    rao com Lacan e Ellenberger, a posio que
    Foi na Frana*, alis, que Raymond de
                                                    desejaria ter. Morreu de cncer de prstata,
Saussure desenvolveu depois suas atividades,
                                                    depois de uma longa agonia.
participando, em 1926, com seu amigo Charles
Odier*, da criao da Sociedade Psicanaltica        Ferdinand de Saussure, Curso de lingstica geral
de Paris (SPP), da qual mais tarde Henri Flour-     (1915), S. Paulo, Cultrix, 1979  Franoise Gadet,
noy*, seu cunhado, se tornaria membro.              Saussure, une science de la langue, Paris, PUF, 1987
Interessou-se ento pela pr-histria do freudis-    Raymond de Saussure, La Mthode psychanalytique,
                                                    Lausanne, Genebra, Payot, 1922  Raymond de Saus-
mo, por Franz Anton Mesmer*, pelos antigos          sure e Lon Chertok, Naissance du psychanalyste,
magnetizadores, pelos curandeiros, o que o le-      Paris, Payot, 1973  lisabeth Roudinesco, Histria da
varia a adquirir uma fabulosa biblioteca de         psicanlise na Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de
686      Schiff, Paul

Janeiro, Jorge Zahar, 1989; Jacques Lacan. Esboo de       seio dos fiis do crculo vienense, Schilder foi
uma vida, histria de um sistema de pensamento (Pa-
                                                           recebido como um estrangeiro e teve que en-
ris, 1993), S. Paulo, Companhia as Letras, 1994 
Mireille Cifali, "Documents pour une histoire de la psy-   frentar, como acontecera com Freud, um som-
chanalyse. Prsentation de la lettre de Ferdinand de       brio caso de "roubo de idias". Federn* o acu-
Saussure  Charles Bally", Le Bloc-notes de la Psycha-     sou de ter "plagiado" a obra do mestre venerado
nalyse, 5, 1985, 145-9; "Charles Bally et les
                                                           e a de Sandor Ferenczi*, em um livro sobre a
psychanalystes", ibid., 6, 1986.
                                                           hipnose*.
                                                               Em 1928, a convite de Adolf Meyer*, foi aos
Schiff, Paul (1891-1947)                                   Estados Unidos*. A acolhida calorosa que rece-
psiquiatra e psicanalista francs
                                                           beu o estimulou a aceitar o lugar de professor
                                                           de psiquiatria na faculdade de medicina da Uni-
    Filho de um jornalista vienense, amigo de
                                                           versidade de Nova York. Suas teses sobre a
Theodor Herzl (1860-1904), Paul Schiff foi
membro fundador do grupo da vollution Psy-                imagem do corpo, que comeou a elaborar em
chiatrique e membro da Sociedade Psicanaltica             1923, se baseavam na fenomenologia e na ges-
de Paris (SPP). Aluno de Henri Claude* e ana-              talt-teoria, ou teoria da forma. Ele as expressou
lisado por Rudolph Loewenstein*, foi es-                   em 1935, em sua obra magna, A imagem do
pecialista em parania* e militou por uma re-              corpo. Estudo das foras construtivas da psi-
forma humanista da penalidade no campo da                  que, que teve grande impacto sobre o desenvol-
criminologia*, procurando em especial introdu-             vimento do neofreudismo* americano, princi-
zir as teses freudianas nas percias psiquitricas.        palmente sobre todas as doutrinas do self e da
    Foi tambm o nico freudiano de sua gera-              relao de objeto*; os fundadores da Ego Psy-
o a se engajar desde 1940 na Resistncia                 chology* tambm se basearam nela.
antinazista, e a tornar-se mdico militar em                   Nessa poca, muitos freudianos da primeira
vrias frentes, entre 1944 e 1945.                         gerao* no eram analisados, o que no os
                                                           impedia de praticar a psicanlise. Mas quando
 lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na         Schilder, em 1935, quis integrar-se  Internatio-
Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge Za-     nal Psychoanalytical Association* (IPA),
har, 1989.
                                                           alegando sua filiao  WPV, teve que enfrentar,
 CRCAMO, CELES ERNESTO; FRANA.                           no seio da New York Psychoanalytical Society
                                                           (NYPS), a hostilidade de um grupo de jovens
                                                           analistas, liderados por Lawrence Kubie, que
Schilder, Paul Ferdinand (1886-1940)                       desejava proibi-lo de formar alunos, sob o pre-
psiquiatra e psicanalista americano                        texto de que ele no fora analisado. Nesse caso,
    De origem vienense e nascido em uma fam-              foi defendido por Ely Smith Jelliffe* e Abraham
lia de comerciantes judeus, Paul Schilder  co-            Arden Brill*, e recorreu ao julgamento de
nhecido por ter inventado a noo moderna de               Freud.
imagem do corpo* e descrito a doena que leva                  O mestre no lhe deu nenhum apoio, dizen-
o seu nome, uma forma difusa de esclerose em               do que ele no pertencia ao crculo dos primei-
placas. Seus trabalhos, que tratam de psiquiatria          ros discpulos e que, conseqentemente, era por
e de neurologia, se referem essencialmente                sua livre vontade que recusava o prprio princpio
epilepsia,  agrafia,  agnosia,  paralisia geral,        da anlise didtica*. Esse caso beneficiou a jovem
 esquizofrenia* e  despersonalizao. Aluno              gerao americana, desejosa de igualitarismo e de
de Julius Wagner-Jauregg*, recebeu em 1921 o               normatizao. Brill, derrotado, quis demitir-se da
ttulo de Privatdozent e, no ano seguinte, o de            presidncia, mas Ernest Jones* o impediu. Schil-
doutor em filosofia. Interessava-se pela feno-             der fundou ento seu prprio grupo, a New York
menologia husserliana, quando entrou em                    Society of Psychology.
contato com Sigmund Freud*. Este o convidou                    Em dezembro de 1940, quando sua mulher
a aderir  Wiener Psychoanalytische Vereini-               Lauretta Bender dava  luz o terceiro filho, foi
gung (WPV), da qual se tornou membro,                      atropelado por um carro e morreu algumas ho-
recusando-se, entretanto, a ser analisado. No              ras depois.
                                                                       Schjelderup, Harald Krabbe       687

 Paul Ferdinand Schilder, A imagem do corpo (Lon-          crise, j sensivelmente atenuada, apareceu pela
dres, 1935, N. York, 1950), S. Paulo, Martins Fontes,
                                                            ltima vez. A partir da, analisamos ainda por
1994, 2 ed.  Franz Alexander, Samuel Eisenstein e
Martin Grotjahn (org.), A histria da psicanlise atravs   cerca de trs semanas."
de seus pioneiros (N. York, 1966), Rio de Janeiro,              Schjelderup achou que essa anlise com o
Imago, 1981  Paul Roazen, Freud e seus discpulos          pastor lhe oferecera muito mais que a prece-
(N. York, 1971), S. Paulo, Cultrix, 1978  Elke Mhlleit-
                                                            dente, e lhe agradeceu. Ambos, igualmente
ner, Biographisches Lexikon der Psychoanalyse. Die
Mitglieder der Psychologischen Mittwoch-Gesellschaft        interessados em religio e em teologia liberal,
und der Wiener Psychoanalytischen Vereinigung von           tinham reais afinidades. O irmo de Harald,
1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992  Nathan G. Hale,        Kristian Schjelderup (1894-1980) tambm fez
Freud and the Americans, The Rise and Crisis of             uma anlise com Pfister e favoreceu a introdu-
Psychoanalysis in the United States, 1917-1985, t.II, N.
York, Oxford, Oxford University Press, 1995.                o do freudismo na Noruega, antes de se tornar
                                                            bispo no fim da vida. Os dois irmos redigiram
 ANLISE DIDTICA; DOLTO, FRANOISE; ESTDIO                juntos uma obra sobre as relaes da psicologia
DO ESPELHO; FLIESS, WILHELM; WEININGER,                     com a religio, e Harald publicou muitos artigos
OTTO.                                                       clnicos sobre os resultados da terapia psicana-
                                                            ltica.
                                                                Com Alfhild Tamm* e Yrj Kulovesi*, Ha-
Schjelderup, Harald Krabbe                                  rald Schjelderup participou, em agosto de 1931,
(1895-1974)                                                 da famosa reunio dos psicanalistas escan-
psicanalista noruegus                                      dinavos, que levaria, em 1934, no Congresso de
    Esse professor de filosofia da Universidade             Lucerna,  criao de duas sociedades filiadas
de Oslo foi o primeiro psicanalista freudiano da             International Psychoanalytical Association*
Noruega. Como muitos pioneiros, teve curiosi-               (IPA), uma reunindo a Sucia e a Finlndia,
dade por todas as manifestaes do inconscien-              outra a Dinamarca e a Noruega.
te. Da seu interesse pela telepatia* e at pela                Foi ele que convidou Wilhelm Reich* a ir 
parapsicologia. Desde 1922, teve um papel                   Noruega em 1934, para ensinar sua doutrina da
maior na implantao da psicanlise nos meios               anlise do carter na Universidade de Oslo. A
acadmicos noruegueses. Em 1925, depois de                  partir de outubro de 1937, as teses de Reich
se interessar pela hipnose*, foi a Viena*, onde             sobre a revoluo sexual, que tiveram grande
fez um primeiro tratamento de sete meses com                sucesso com os estudantes, foram violenta-
Eduard Hitschmann*, durante o qual ambos se                 mente atacadas pelos professores de medicina
enfrentaram. Seu livro, Psykology, publicado                e de fisiologia da universidade, e o debate foi
em 1927, foi importante para a formao de                  levado para a imprensa. Embora no fosse par-
vrias geraes de psiclogos.                              tidrio de Reich, Schjelderup fez uma anlise
    Schjelderup continuou sua formao em                   com ele. Respeitava sua contribuio e sua
Berlim, com Harald Schultz-Hencke*. Mas foi                 originalidade, observando que suas experin-
principalmente em Zurique, com Oskar Pfis-                  cias se afastavam radicalmente do freudismo.
ter*, que fez um trabalho psicanaltico digno do            Essa posio lcida lhe permitiu compreender
nome, como mostram as confidncias feitas                   que os adversrios da psicanlise se serviam do
pelo pastor a Sigmund Freud, em uma carta de                caso Reich contra a doutrina freudiana. Por sua
21 de outubro de 1927: "O espiritual Harald                 vez, entrou na polmica.
Schjelderup, com 32 anos, professor de filoso-                  Depois da invaso da Noruega pelas tropas
fia e de psicologia, a quem se deve o primeiro              alems, Matthias Heinrich Gring* foi a Oslo
manual de orientao psicanaltica -- que logo              para obter de Schelderup, ento presidente da
ser publicado em alemo -- ficou sete meses                Sociedade Psicanaltica Norueguesa, a criao
com o doutor H. Entretanto, suas penosas dores              de um instituto "arianizado", a partir do modelo
de cabea semanais no pararam de aumentar,                 do de Berlim. Este recusou qualquer poltica de
at que foi obrigado a voltar a Oslo. Ora, neste            colaborao e pediu a dissoluo do grupo.
vero, ele me procurou. Analisamos [sic] seria-             Com outros psicanalistas, entrou para a Resis-
mente, e, ao fim de apenas 15 dias, a ltima                tncia antinazista. Em 1942, foi deportado, com
688      Schloss Tegel, Sanatrio do

seu irmo, para o campo de concentrao de              ela s reconhecia o rgo genital masculino e
Grini, perto de Oslo. Ambos sobreviveram.               deixava os rgos femininos para suas irms."
    Depois da guerra, Harald Schjelderup reto-              Segundo Phyllis Grosskurth, parece que
mou suas atividades de terapeuta em sua Socie-          Melanie temia que sua filha se tornasse sua
dade, na qual, at a morte, tratou de questes          rival. Assim, comportou-se com Melitta como
clnicas e formou analistas. Diante da anlise          sua prpria me fizera com ela prpria, manten-
didtica* e das regras de formao impostas             do-a permanentemente em estado de servido,
pela IPA, adotou, como outrora com Reich, uma           educando-a tambm na paixo pela "causa"
posio flexvel, aceitando, por exemplo, uma           psicanaltica. Desde os 15 anos, Melitta assistia
freqncia de duas sesses semanais, ao invs            reunies da Sociedade Psicanaltica de Buda-
das cinco obrigatrias.                                 peste e devorava textos psicanalticos. Quando
                                                        comeou a estudar medicina, foi para se tornar
 Harald Schjedelrup, Psykologi, Oslo, Gyldendal,       psicanalista. Enfim, seguiu o mesmo itinerrio
1928  Correspondance de Sigmund Freud avec le
pasteur Pfister, 1909-1939 (Frankfurt, 1963), Paris,    da me: da Hungria* para a Alemanha*. Em
Gallimard, 1966  Randolf Alnaes, "The development      Berlim, foi analisada trs vezes pelos astros do
of psychoanalysis in Norway. An historical overview",   movimento, ento em plena expanso: Max
The Scandinavian Psychoanalytic Review, 2 vols., III,   Eitingon*, Karen Horney* e Hanns Sachs*. Foi
1980, 55-101.
                                                        ali que encontrou Walter Schmideberg*, seu fu-
 ALEMANHA; ESCANDINVIA; NAZISMO.                       turo marido. Instalou-se depois em Londres,
                                                        onde foi eleita membro da British Psychoanaly-
                                                        tical Society (BPS). Fez mais uma anlise com
                                                        Ella Sharpe* e comeou a praticar a anlise.
Schloss Tegel, Sanatrio do                                 Em um depoimento pleno de verdade, redi-
 SIMMEL, ERNST.                                         gido em 1971, contou como fora o objeto do
                                                        dio de sua me, que ela tambm odiara, em
                                                        plena BPS transformada em campo de batalha
Schmideberg, Melitta, ne Klein                         pelo sectarismo crescente dos kleinianos e de-
(1904-1983)                                             pois pela chegada dos vienenses a Londres.
mdica e psicanalista americana                         "Durante alguns anos, escreveu ela, gozei de
     difcil no ver nas relaes entre Melitta        certa popularidade. Tinha a reputao de obter
Schmideberg e sua me uma espcie de carica-            bons resultados clnicos, meus artigos eram
tura das paixes que Melanie Klein* teorizou:           considerados contribuies vlidas, pediam-me
dio, inveja*, agressividade, perseguio, iden-        que fizesse conferncias e, numa idade precoce,
tificao projetiva*, objeto bom ou mau. Nas-           fui designada analista didata. Mas logo as coisas
cida dentro da psicanlise* e analisada por sua         mudaram. Fui criticada por dar excessiva aten-
prpria me, Melitta, filha mais velha de Mela-         o ao ambiente concreto e  situao real do
nie Klein, foi realmente a filha trgica da psica-      paciente, e por considerar que um pouco de
nlise, e, mais ainda, a cobaia de uma experin-        estmulo e alguns conselhos podiam, legitima-
cia que daria origem, no s  psicanlise de           mente, fazer parte da teraputica analtica."
crianas* no sentido moderno, mas tambm a                  Apoiada por Edward Glover*, seu quinto
uma das correntes mais ricas na histria do             psicanalista, sustentou uma terrvel batalha
freudismo*.                                             contra as teorias kleinianas, que continuou at
    Em um artigo de 1923 sobre o "Papel da              o momento das Grandes Controvrsias*. Sua
escola no desenvolvimento libidinal da crian-           determinao ainda se acirrou quando Jones*,
a", Melitta aparecia sob o nome de Lisa, jovem         preocupado em neutralizar os conflitos, tentou
de 18 anos, apresentada como um caso. Emba-             convenc-la de que suas reaes eram "parani-
raada nas letras do alfabeto, ela oscilava entre       des". Durante toda a durao dessa grande guer-
o "a" que representava para ela o pai castrado e        ra de cls, sua vida conjugal tomou um aspecto
o "i" que remetia ao pnis detestado. "No que           estranho, com a relao triangular que Walter
se referia a ela prpria, escreveu Melanie Klein,       Schmideberg lhe imps, com sua ligao com
                                                                                 Schmidt, Vera       689

Winifred Bryher, ex-amante homossexual de               filha de Melanie Klein*. Casou-se com ela em
Hilda Doolittle*.                                       Viena, em abril de 1924, e participou de todos
     Em 1945, emigrou para os Estados Unidos*,          os conflitos que opuseram as duas no interior
onde encontrou a outra famlia psicanaltica de         da psicanlise* inglesa.
sua juventude berlinense, seus "primos da                   Embora fosse alcolatra e homossexual, tor-
Amrica". Mas foi uma nova decepo: "Eles              nou-se membro da British Psychoanalytical So-
me pareceram muito mais preocupados com                 ciety (BPS), depois que emigrou para Londres
prestgio, publicidade e honorrios elevados            em 1932. Com a ajuda de Ernest Jones*, fez
[...]. Na Europa, era preciso ter coragem para          com que se instaurassem relaes assduas en-
ser analista. Nos Estados Unidos, nos anos 1950         tre os ingleses e os vienenses, no momento em
e 1960, era preciso ter coragem para no ser."          que o movimento psicanaltico alemo come-
Voltou-se ento para as outras psicoterapias*,          ava a ser dizimado pelos nazistas. Em meados
mas graas a seu conhecimento ntimo da psi-            dos anos 1930, tornou-se amante de Winifred
canlise, constatou que a observao escrupu-           Bryher, ex-amante da poetisa americana Hilda
losa de certas regras freudianas protegia o pa-         Doolittle*, que fora analisada por Freud e de
ciente, enquanto as terapias demasiado ativas           quem ele prprio fora analista durante algum
podiam se revelar nocivas: "Em suma, a recusa           tempo. Filho de um rico armador, Bryher aju-
da teoria freudiana s produzia confuso."              dava os psicanalistas judeus a escaparem do
     Foi ocupando-se de adolescentes delin-             nazismo e enviava os austracos a Schmideberg,
qentes, feridos por suas famlias e pela socie-        para serem analisados. Uma estranha relao
dade, como ela fora pela psicanlise, que Me-           triangular instalou-se entre Winifred, Walter e
litta encontrou enfim os meios de escapar dos           Melitta, at a partida desta para os Estados
furores da saga freudiana. Em 1963, demitiu-se          Unidos. Cada vez mais alcolatra, Schmide-
da BPS e deixou de freqentar os meios psica-           berg retirou-se para a Sua*, onde morreu de
nalticos. Nunca aceitou reconciliar-se com sua         lcera.
me, nem mesmo falar com ela. No dia do
enterro de Melanie, deu uma aula em Londres              Phyllis Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie
                                                        Klein (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992.
exibindo ofuscantes botas vermelhas.
                                                         HOMOSSEXUALIDADE; SCHMIDEBERG, MELITTA.
 Melitta Schmideberg, "Contribution  l'histoire du
mouvement psychanalytique en Angleterre" (1971),
Cahiers Confrontation, 3, primavera de 1980, 11-22 
Phyllis Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie Klein   Schmidt, Vera, ne Yanitskaia
(Paris, 1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992.
                                                        (1889-1937)
                                                        pedagoga e psicanalista russa
                                                            Casada com Otto Schmidt (1891-1956), ma-
Schmideberg, Walter (1890-1954)                         temtico e diretor de editoras estatais, Vera
psicanalista ingls                                     Schmidt era de uma famlia de mdicos. Foi no
    Vienense culto, Walter Schmideberg foi              s pioneira da psicanlise* na Rssia*, mas
educado em uma escola de jesutas para a aris-          tambm uma das grandes figuras do freudo-
tocracia. Destinado  carreira militar, tornou-se       marxismo* europeu. Por iniciativa de Tatiana
capito no exrcito austro-hngaro, antes de se         Rosenthal*, e com o apoio de Ivan Dimitrie-
interessar pela hipnose* e pela psicologia. Du-         vitch Ermakov*, criou em Moscou, em agosto
rante a guerra, encontrou Max Eitingon*. Este           de 1921, uma casa pedaggica, o Lar Experi-
o apresentou a Sigmund Freud* e a Sandor Fe-            mental para Crianas. Cerca de 30 crianas de
renczi*. Em 1919, assistiu s reunies da Wie-          dirigentes e funcionrios do Partido Comunista
ner Psychoanalytische Vereinigung (WPV), e              foram acolhidos a, a fim de serem educados
dois anos depois partiu para Berlim, onde aju-          segundo mtodos que combinavam os princ-
dou Eitingon a instalar a Policlnica. No con-          pios do marxismo e os da psicanlise. A expe-
gresso da International Psychoanalytical As-            rincia do Lar tinha como quadro um Instituto
sociation* (IPA) em 1922, encontrou Melitta,            de Psicanlise, fundado ao mesmo tempo que a
690     Schnitzler, Arthur

Associao Psicanaltica de Pesquisas sobre a        que nomeou uma comisso de inqurito para
Criao Psicanaltica, que assumiu o nome de         investig-lo. Depois de um longo processo, e a
Solidariedade Internacional.                         despeito do apoio provisrio de Nadejda
    O sistema de educao tradicional fundado        Kroupskaia, mulher de Lenin, a experincia
nos maus-tratos e nas punies corporais foi         chegou ao fim em condies complexas. Foi o
abolido e o ideal da famlia patriarcal severa-      prprio Otto Schmidt, curador do Lar, que de-
mente criticado, em proveito de valores educa-       cidiu com sua mulher, em novembro de 1924,
tivos que privilegiavam o coletivo. As demons-       encerrar suas atividades. Em agosto de 1925, o
traes afetivas, beijos e carcias, eram subs-      instituto Solidariedade Internacional foi oficial-
titudas por relaes ditas "racionais", as crian-   mente liquidado.
as tinham uma educao leiga e eram autori-             Vera Schmidt praticou a anlise em Moscou,
zadas a satisfazer sua curiosidade sexual. Quan-     com crianas e adultos. Em 1927, representou sua
to aos educadores, eram convidados a no re-         associao no Congresso da IPA, reunido em
primir a masturbao e a instaurar com as crian-     Innsbruck. Dois anos depois, recebeu a visita de
as relaes igualitrias. O programa previa que     Wilhelm Reich*, que a criticou por seu ideal
todos deviam ser analisados.                         adaptativo, mas com quem ela fez uma relao de
    O ideal pedaggico preconizado por Vera          amizade. A partir dessa data, a situao tornou-se
Schmidt era a manifestao viva do esprito          difcil para o movimento psicanaltico russo, que
novo dos anos 1920, em que se concretizava,          cessou suas atividades em 1930. Entretanto, ape-
depois da Revoluo de Outubro, o sonho de           sar das dificuldades, parece que Vera conseguiu
uma fuso possvel entre a liberdade individual      receber pacientes particularmente. Vera Schmidt
e a liberao social: uma verdadeira utopia pe-      morreu de pneumonia.
daggica (ou pedologia*), que combinava a                Otto Schmidt continuou, como observou
paixo freudiana e o ideal marxista.                 Jean Marti, "a servir a cincia sovitica, explo-
    Em setembro de 1923, Vera e Otto Schmidt         rando o rtico e desenvolvendo, a partir de
foram a Berlim e a Viena*, para pedir que Karl       1944 e at a morte, uma teoria cosmognica
Abraham* e Sigmund Freud* apoiassem o Lar            segundo a qual a Terra e outros planetas se
e a Sociedade Psicanaltica da Rssia, fundada       [formaram] a partir de poeira csmica, numa
em 1922 e que rivalizava com a de Kazan. Ao          poca em que o sol atravessava, no espao, uma
voltar, relatando a discusso, que se referira       nuvem de poeira".
principalmente  maneira de tratar o complexo
de dipo* no interior de uma educao de tipo         Vera Schmidt e Wilhelm Reich, Pulsions sexuelles et
                                                     ducation du corps, Paris, UGC, col. "10/18", 1979 
coletivo, pensaram que o apoio do Comit Se-         Wilhelm Reich, A revoluo sexual (Copenhague,
creto* estava garantido.                             1936, Frankfurt, 1966), Rio de Janeiro, Zahar, 1982 
    Na verdade, o Comit estava muito dividido       Jean Marti, "La Psychanalyse en Russie (1909-1930)",
quanto  atitude a adotar. Ernest Jones* apoiava     Critique, 346, maro de 1976, 199-237  lisabeth
                                                     Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana, vol.2
Kazan contra Moscou, e Sandor Ferenczi* no          (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988 
queria mais ouvir falar, depois do fracasso da       Alberto Angelini, La psicoanalisi in Russia, Npoles,
Comuna de Budapeste, da menor experincia            Liguori Editore, 1988  Alexandre Etkind, Histoire de la
em terreno comunista. S Freud se dispunha a         psychanalyse en Russie (1993), Paris, PUF, 1995 
                                                     lisabeth Roudinesco, entrevista com Irina Manson, 1
ajudar os Schmidt.                                   de janeiro de 1997.
    Isolada do debate sobre a psicanlise de
crianas*, Vera Schmidt nunca foi realmente           COMUNISMO; LURIA, ALEKSANDR ROMANOVI-
apoiada em seu empreendimento pela Interna-          TCH; SPIELREIN, SABINA; ZALKIND, ARON BORIS-
tional Psychoanalytical Association* (IPA), cu-      SOVITCH.
ja direo era excessivamente conservadora pa-
ra aceitar uma experincia desse tipo, com os
riscos e excessos que comportava. Pelas mes-
mas razes, o Lar tambm foi criticado pelos         Schnitzler, Arthur (1862-1931)
funcionrios do ministrio sovitico da Sade,       mdico e escritor austraco
                                                                              Schreber, Daniel Paul         691

     Nascido em Viena*, Arthur Schnitzler era              et sociale 1848-1938 (N. York, 1972), Paris, PUF, 1985
                                                            Andr Haynal, "Freud, la psychanalyse et son creu-
filho de um clebre laringologista judeu e estu-
                                                           set", Psychanalyse et science. Face  face, Lyon,
dou medicina. Como Sigmund Freud*, estudou                 Csura, 1991, 149-61.
a hipnose* com Hippolyte Bernheim* e foi
aluno de Theodor Meynert* antes de se interes-
sar pela psicanlise*. Chefe do movimento                  Schreber, Daniel Paul (1842-1911)
Jung Wien (Jovem Viena), foi, com Hugo von
Hofmannsthal (1874-1929) e Stefan Zweig*,                      Embora a anlise que Sigmund Freud* fez
um dos grandes escritores vienenses do fim do              do caso de Daniel Paul Schreber (1842-1911)
sculo. Certos casos freudianos (Ida Bauer*,               no tenha se originado, como as de Dora (Ida
por exemplo), parecem ter sado de seus ro-                Bauer*), do Homem dos Ratos (Ernst Lanzer*)
mances: "Freud e Schnitzler, escreveu William              ou do Homem dos Lobos (Serguei Cons-
Johnston, compartilhavam muitos traos do es-              tantinovitch Pankejeff*), de um tratamento
teticismo vienense. Individualistas obstinados             real, as "Notas psicanalticas sobre um relato
[...], rejeitavam a cidade e preferiam o campo,            autobiogrfico de um caso de parania", publi-
mas no poderiam viver em outro lugar seno                cadas em 1911, sempre foram consideradas
Viena. Ambos eram viajantes atentos, assimi-               uma exposio ainda mais notvel, pelo fato de
lando com avidez impresses novas."                        Freud nunca se haver encontrado com esse
     A morte, a sexualidade*, a neurose*, o mo-            paciente. Ela foi comentada, questionada e rein-
nlogo interior, o desvelamento da alma, o sui-            terpretada por toda a literatura psicanaltica de
cdio* formavam em Schnitzler a trama de um                lngua inglesa e alem. Na Frana*, foi particu-
impressionismo literrio, ao qual Freud foi to            larmente revisitada em vista da importncia
sensvel que expressou numa carta de 1922 o                atribuda  parania* na histria do pensamento
receio que lhe inspirava um encontro com o seu             lacaniano.
duplo: "Vou lhe fazer uma confisso que peo                   Nascido em julho de 1842, Daniel Paul
guardar s para voc, em considerao a mim,               Schreber pertencia a uma famlia ilustre da
e no compartilhar com nenhum amigo nem es-                burguesia protestante alem, composta de juris-
tranho. Uma pergunta me atormenta: na verda-               tas, mdicos e pedagogos. Seu pai, o Dr. Daniel
de por que, durante todos estes anos, nunca pro-           Gottlieb (Gottlob) Moritz Schreber (1808-
curei freqent-lo e conversar com voc [...]?             1861), havia-se celebrizado pela inveno de
Penso que o evitei por uma espcie de medo de              teorias educativas de extrema rigidez, baseadas
me encontrar com meu duplo. No que eu tenha               no higienismo, na ginstica e na ortopedia. Em
tendncia a me identificar facilmente com um               seus manuais, amplamente difundidos na Ale-
outro ou que eu tenha desejado minimizar a                 manha*, ele propunha corrigir os defeitos da
diferena de talentos que nos separa, mas, ao              natureza e remediar a decadncia das socieda-
mergulhar em suas esplndidas criaes, sem-               des, criando um novo homem: um esprito puro
pre pensei encontrar nelas, por trs da aparncia          num corpo sadio. Zeloso de uma renovao da
potica, as hipteses, os interesses e os resulta-         alma alem, ele foi tambm promotor de lotea-
dos que eu sabia serem meus." Depois de ob-                mentos operrios ajardinados e, nessa con-
servar que Schnitzler era, como ele, um inves-             dio, viria a ser apoiado pela social-democra-
tigador das profundezas psquicas, Freud acres-            cia e, mais tarde, resgatado pelo nacional-socia-
centou: "Perdoe-me por recair na psicanlise,              lismo. Em 1861, trs anos depois de lhe cair
mas s sei fazer isso. Sei apenas que a psican-           uma escada na cabea, morreu de uma lcera
lise no  um meio para tornar-se amado."                  perfurada.
                                                               Em 1884, Daniel Paul Schreber, jurista re-
 Arthur Schnitzler, Mademoiselle Else, Paris, Stock,      nomado e presidente da corte de apelao da
1980; Thrse, Paris, Stock, 1981; Le Lieutenant Gus-      Saxnia, deu sinais de distrbios mentais, de-
tel, Paris, Calmann-Lvy, 1983; La Ronde, Paris,           pois de ser derrotado na eleio em que se
Stock, 1984; Une jeunesse viennoise, Paris, Hachette,
1987  Sigmund Freud, Correspondance, 1873-1939
                                                           apresentara como candidato do partido conser-
(Londres, 1960), Paris, Gallimard, 1966  William M.       vador. Foi ento tratado pelo neurologista Paul
Johnston, L'Esprit viennois. Une histoire intellectuelle   Flechsig (1847-1929), que em duas ocasies
692     Schreber, Daniel Paul

mandou intern-lo. Promovido a presidente do        mediante a qual Daniel Paul, que no tivera
tribunal de apelao de Dresden em 1893,            nenhum filho para se consolar da morte do pai,
Schreber foi interditado sete anos depois, sendo    tentou reconciliar-se com a imagem de um pai
seus bens colocados sob tutela. Redigiu ento       transformado em Deus.
suas Memrias de um doente dos nervos, publi-           Embora enfatizasse o carter tirnico de
cadas em 1903. Graas a esse livro, pde sair       Gottlieb, Freud no fez nenhuma aproximao
do hospcio e recuperar seus bens, no por ter      entre o sistema educativo do pai e a gnese da
provado que no era louco, mas por ter sabido       parania do filho, conquanto j houvesse obser-
demonstrar ao tribunal que sua loucura* no         vado analogias entre os delrios paranicos e os
podia ser tomada como um motivo jurdico de         grandes sistemas que visam reformar a natureza
confinamento. Em abril de 1910, ele morreu no       humana. Em outras palavras, ele viu na "cura"
manicmio de Leipzig. Alguns meses depois,          do filho a conseqncia de um complexo pater-
ao comear a redigir seus comentrios sobre a       no basicamente positivo.
autobiografia de 1903, Freud ignorava se o              Essa falha do dispositivo freudiano foi de-
autor delas ainda estava vivo.                      nunciada desde os primeiros comentrios do
    As Memrias de Schreber apresentam o sis-       caso. Em 1955, Ida Macalpine e seu filho, Ri-
tema delirante de um homem perseguido por           chard Hunter, ambos alunos de Edward Glover*
Deus. Tendo vivido sem estmago e sem ves-         e dissidentes da British Psychoanalytical Socie-
cula e havendo tambm "comido sua laringe",         ty (BPS), redigiram para a traduo inglesa das
ele achava que o fim do mundo estava prximo        Memrias um prefcio que estigmatizou a ne-
e que ele prprio era o nico sobrevivente, em      gligncia freudiana das teorias educativas de
meio a um mundo de enfermeiros e doentes            Gottlieb.  tese freudiana eles opuseram uma
designados como "sombras de homens feitos s        interpretao kleiniana do caso. A seu ver, a
pressas". Deus falava com ele na "lngua fun-       parania de Schreber tivera como origem uma
damental" (a lngua dos nervos) e lhe confiou a     regresso profunda a um estdio primitivo de
misso salvadora de se transmudar em mulher         libido* indiferenciada, que teria reativado fan-
e gerar uma nova raa. Incessantemente rege-        tasias* infantis de procriao.
nerado pelos raios que o tornavam imortal e que         Depois dessa reviso, outros comentadores
emanavam dos "vestbulos do cu", Schreber          empreenderam trabalhos que reconstruram
era tambm perseguido por pssaros "miracu-         progressivamente toda a genealogia da famlia
lados", que eram lanados contra ele depois de      Schreber, ora numa perspectiva histrica ou
serem enchidos de "veneno de cadver": esses        sociolgica, ora para reexaminar a teoria freu-
pssaros lhe transmitiam os "restos" das antigas    diana da parania. De maneira geral, a escola
almas humanas. Enquanto esperava ser meta-          kleiniana criticou a postura freudiana quanto ao
morfoseado em mulher e engravidado por              lugar do pai na constelao do dipo e procurou
Deus, Schreber urrava contra o sol e resistia aos   deslocar a questo da origem das psicoses para
compls do Dr. Flechsig, designado como um          a vertente da relao arcaica e "esquizide" com
"assassino de alma" que abusara sexualmente         a me.
dele, antes de abandon-lo  putrefao.                Foi no outono de 1955, no contexto de seu
    Deslumbrado com a extraordinria lngua         seminrio sobre as psicoses, que Jacques La-
schreberiana, Freud analisou o caso para            can*, por sua vez, revisou o caso, depois de
demonstrar, frente a Eugen Bleuler* e Carl Gus-     tomar conhecimento do trabalho de Macalpine
tav Jung*, a validade de sua teoria da psicose*.    e Hunter. Sua perspectiva, como sempre contr-
Por isso, nos urros de Schreber contra Deus viu     ria  dos kleinianos, levou-o mais longe do que
a expresso de uma revolta contra o pai, na         Freud na questo da possvel curabilidade das
homossexualidade* recalcada, a fonte do del-       psicoses. Entretanto, embora se ocupasse das
rio, e, por ltimo, na transformao do amor em     relaes arcaicas com a me, Lacan no situou
dio, o mecanismo essencial da parania. A          a origem das psicoses do lado materno, mas,
ecloso do delrio pareceu-lhe menos uma en-        antes, do lado da deficincia paterna. Assim,
trada na doena do que uma tentativa de cura,       numa descendncia direta do freudismo* cls-
                                                    Schriften zur angewandten Seelenkunde                 693

sico, ele fez questo de revalorizar a funo         Daniel Paul Schreber, Memrias de um doente dos
                                                     nervos (Leipzig, 1903), S. Paulo, Paz e Terra, 1995 
simblica do pai, para melhor assinalar os efei-     Sigmund Freud, "Notas psicanalticas sobre um relato
tos nefastos ligados a seu lugar "faltoso". Da a    autobiogrfico de um caso de parania (Dementia
elaborao de dois grandes conceitos: a foraclu-     paranoides)" (1911), ESB, XII, 23-104; GW, VIII, 240-
so* e o Nome-do-Pai*.                               316; SE, XII, 1-79; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,
                                                     1954, 263-321  Le Cas Schreber. Contributions psy-
    Por essa tica, em vez de considerar a para-     chanalytiques de langue anglaise, coletnea organiza-
nia como uma defesa* contra a homos-                da, traduzida e apresentada por Luiz Eduardo Prado
sexualidade*, Lacan a situou sob a dependncia       de Oliveira, Paris, PUF, 1979; Schreber et la paranoa,
estrutural da funo paterna. Assim, props re-      textos reunidos e apresentados por Luiz Eduardo Pra-
                                                     do de Oliveira, Paris, L'Harmattan, 1996  Jacques
ler realmente os escritos de Gottlieb M. Schre-      Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge
ber, a fim de evidenciar o vnculo genealgico       Zahar, 1998; O Seminrio, livro 3, As psicoses (1955-
entre as teses pedaggicas do pai e a loucura do     1956) (Paris, 1981), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988,
                                                     2a. ed.; "Prsentation des Mmoires du prsident
filho. Nesse quadro, a parania de Daniel Paul
                                                     Schreber en traduction franaise" (1966), Ornicar?, 38,
Schreber pde ser definida, em termos lacania-       julho-setembro de 1986, 5-9  Guy Rosolato, Essais
nos, como uma "foracluso do Nome-do-Pai".           sur le symbolique, Paris, Gallimard, 1969  Octave
Em outras palavras, como o seguinte encadea-         Mannoni, Clefs pour l'imaginaire ou l'Autre Scne,
                                                     Paris, Seuil, 1969  Maud Mannoni, Educao impos-
mento: o nome de D.G.M. Schreber, isto , a          svel (Paris, 1973), Rio de Janeiro, Francisco Alves,
funo do significante* primordial encarnado         1988, 2 ed.  D. Devreese, H. Isral, J. Qualckelbeen,
pelo pai nas teorias educativas que visavam          Schreber indit (1984), Paris, Seuil, 1986  Han Isral,
reformar a natureza humana, fora rejeitado (ou       Schreber pre et fils, Paris, Seuil, 1986  Chawki Azouri,
                                                     J'ai russi l o le paranoaque choue, Paris, Denol,
foracludo) do universo simblico do filho, e        1990  Zvi Lothane, In Defense of Schreber: Soul
havia retornado no real* delirante do discurso       Murder and Psychiatry, Hillsdale e Londres, Analytic
do narrador das Memrias.                            Press, 1992  lisabeth Roudinesco, Jacques Lacan.
                                                     Esboo de uma vida, histria de um sistema de pen-
    Com essa interpretao, Lacan foi o primei-      samento (Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Le-
ro dos comentadores do caso a teorizar o vncu-      tras, 1994  Eric Santner, A Alemanha de Schreber
lo existente entre o sistema educativo do pai e      (Princeton, 1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.
o delrio do filho: na pena de Daniel Paul apa-
recia um universo povoado de instrumentos de          CLIVAGEM DO EU; DIPO, COMPLEXO DE; ESQUI-
                                                     ZOFRENIA; OBJETO, RELAO DE; POSIO DE-
tortura, estranhamente semelhantes aos apare-
                                                     PRESSIVA/POSIO ESQUIZO-PARANIDE.
lhos de normalizao descritos nos manuais que
traziam na capa o nome de D.G.M. Schreber,
aquele "nome do pai" excludo ou censurado
                                                     Schriften zur angewandten
das Memrias ou da "memria" do filho.               Seelenkunde (Monografias de
    Em 1992, o comentrio de Freud foi radical-      psicanlise aplicada)
mente contestado por um psicanalista norte-
                                                         As atas da Sociedade Psicolgica das Quar-
americano, Zvi Lothane, membro da Internatio-        tas-Feiras*, preparadas por Otto Rank* e
nal Psychoanalytical Association* (IPA). Ele         confiadas por Sigmund Freud* em 1938 a Paul
acusou freudianos e kleinianos de haverem fa-        Federn*, que seria seu editor em 1962, junta-
bricado integralmente diagnsticos falsos (pa-       mente com Hermann Nunberg*, comeam pelo
rania e esquizofrenia) e, dessa maneira, de         relato da reunio de quarta-feira, 10 de outubro
haverem infligido aos Schreber, pai e filho, uma     de 1906. Naquela noite, Freud se desculpou
"vergonha" e um "assassinato moral" em nome          com seus colegas por no poder fazer-lhes a
de uma pretensa homossexualidade latente. Lo-        leitura, em virtude de um atraso do editor Hugo
thane "reabilitou" Daniel Paul, fazendo dele um      Heller*, do texto que havia redigido para apre-
melanclico cuja loucura beirava a genialidade,      sentar uma nova coleo destinada a acolher
e Gottlieb Moritz, em quem viu o grande pen-         ensaios de psicanlise aplicada*.
sador de uma medicina humanista, injus-                  A criao dessa coletnea atendeu a uma
tamente chamado de tirano pelos psicanalistas        crescente demanda do pblico. De fato, durante
e psiquiatras.                                       os anos de 1906-1907, grande parte das noites
694      Schultz-Hencke, Harald

de quarta-feira foi dedicada a trabalhos dessa             1986, precedido por "La Jeune fille", de Jean-Bertrand
                                                           Pontalis, 9-23  Freud/Jung: correspondncia completa
ordem, apresentaes de biografias psicanalti-
                                                           (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993  Les Pre-
cas e confrontos sobre os riscos de um excesso             miers psychanalystes. Minutes de la Socit Psycha-
de interpretao psicanaltica a propsito de              nalytique de Vienne, I, 1906-1908 (1962), Paris, Galli-
tudo. Ao longo dessas discusses, Freud se                 mard, 1976.
afigura dividido entre seu desejo de ver a psica-
nlise desenvolver-se e conquistar novos cam-
pos e o de dotar sua descoberta de um estatuto             Schultz-Hencke, Harald (1892-1953)
de cientificidade  prova de tudo.
                                                           mdico e psicanalista alemo
    A coletnea foi inaugurada pelo ensaio de
Freud intitulado "Delrios e sonhos na Gradiva                 Como Felix Boehm*, Carl Mller-Braun-
de Jensen"*. Seguiram-se trabalhos de Carl                 schweig* e Werner Kemper*, Harald Schultz-
Gustav Jung*, Karl Abraham*, Otto Rank, Isi-               Hencke foi um dos psicanalistas que colabora-
dor Sadger*, Franz Riklin*, Oskar Pfister*,                ram com o Deutsche Institut fr Psychologische
Max Graf*, Ernest Jones*, Adolf Josef Storfer              Forschung (ou Gring Institut, ou Instituto Ale-
(1888-1944), Hermine von Hug-Hellmuth*, e                  mo de Pesquisas Psicolgicas e Psicoterapia),
ainda o ensaio de Freud denominado "Leonardo               fundado por Matthias Heinrich Gring* em
da Vinci e uma lembrana de sua infncia"*. A              1936, no quadro da nazificao da psicanlise*
partir do terceiro volume, a coleo, que em               na Alemanha* e da poltica de "salvamento"
1913 j contava com quinze deles, passou a ser             desta, promovida por Ernest Jones*.
editada por Franz Deuticke, cuja editora estava                Nascido em Berlim, sua me era grafloga
instalada em Viena* e em Leipzig.                          e seu pai fsico e qumico. Participou dos com-
    Curiosamente, esse acontecimento foi des-              bates da Primeira Guerra Mundial e passou da
prezado pelos historiadores e bigrafos, que               medicina para a psicanlise depois de um trata-
raramente fazem meno ao texto de apresen-                mento com Sandor Rado*. Logo se ops s
tao de Freud, includo no primeiro volume da             teses freudianas sobre a sexualidade*, orientan-
coleo e tambm na Standard Edition (mas                  do-se, j em 1927, para a doutrina de Alfred
ausente dos Gesammelte Werke e indito em                  Adler*, exibindo opinies socialistas. Como
francs).                                                  Poul Bjerre* anteriormente, pretendeu ser fun-
                                                           dador de uma escola de psicoterapia*,  qual
    Nesse texto, Freud esclarece que a coleo
                                                           deu o nome de neopsicanlise ou neoanlise.
ser dirigida "ao mais vasto pblico instrudo,
                                                           Em 1926, fundou a Allgemeine rztliche Ge-
que, sem ter formao em filosofia ou em me-
                                                           sellschaft fr Psychotherapie (AGP), socie-
dicina, ainda assim  capaz de aquilatar o esfor-
                                                           dade que agrupava psiquiatras e psicanalistas.
o da cincia da alma humana no sentido de
                                                           Depois do advento do nazismo*, criou a Socie-
levar a uma compreenso profunda da vida
                                                           dade Alem dos Clnicos Gerais para a Psicote-
humana". Os livros dessa coleo, prossegue
                                                           rapia (DAGP), cujo objetivo era ensinar uma
ele, constituiro exemplos da aplicao dos co-
                                                           psicoterapia de acordo com as concepes na-
nhecimentos psicolgicos a questes de arte,
                                                           cional-socialistas. Personagem medocre, fraco
literatura e histria das civilizaes e das reli-
                                                           e vaidoso, aderiu ao nazismo* e colaborou com
gies. Cada volume ter seu estilo prprio, ora
                                                           Gring, menos por engajamento militante do
decorrendo da abordagem especulativa, ora da
                                                           que por oportunismo.
investigao exata, mas todos devero evitar os
levantamentos ou a compilao. Por ltimo,                     Depois da capitulao da Alemanha,
Freud esclarece que cada autor ser responsvel            Schultz-Hencke tomou parte, com Kemper, em
por seu texto e que a coleo, "aberta  expres-           uma reunio de psiquiatras na parte leste de
so de opinies divergentes", dar "a palavra             Berlim ocupada pelas tropas soviticas. Nessa
mxima variedade de pontos de vista e de prin-             ocasio, defendeu os princpios da neopsican-
cpios da cincia contempornea".                          lise, segundo ele nica capaz de superar as
                                                           querelas do freudismo, e exibiu opinies de
 Sigmund Freud, "Delrios e sonhos na Gradiva de          esquerda favorveis ao marxismo e ao comu-
Jensen", ESB, IX, 17-96; SE, IX, 1-95; Paris, Gallimard,   nismo. Assim, contribuiu, em nome do combate
                                                                                           Schur, Max        695

contra a ortodoxia freudiana, para a recons-                pital-dia, praticou a hipnose* e a sugesto*,
truo, na Repblica Democrtica Alem                      desenvolvendo tratamentos curtos em funo
(DDR), de uma escola de psicoterapia* de tipo               dos interesses ideolgicos e econmicos do
pavloviano, visando liquidar o freudismo. De-               regime.
pois de colaborar com o nazismo para a des-
truio da psicanlise por causa de judeidade*,              Johannes H. Schultz, Le Traitement autogne. M-
                                                            thode de relaxation par auto-dconcentration concen-
apoiou com igual zelo a poltica stalinista de
                                                            trative (Berlim, 1932), Paris, PUF, 1965, adaptado por
rejeio s teses freudianas, que iria se estender          R. Durant de Bousingen e Y. Becker  Geoffrey Cocks,
a todos os pases dominados pelo socialismo                 La Psychothrapie sous le IIIe Reich (Oxford, 1985),
real aps a partilha de Ialta.                              Paris, Les Belles Lettres, 1987.
    Posteriormente, como Kemper, tambm no
foi molestado por seu passado nazista, mas feroz-            ALEMANHA; LAFORGUE, REN; MAUCO, GEOR-
mente criticado pelos freudianos da International           GES; NAZISMO.
Psychoanalytical Association* (IPA), particular-
mente Jones e Mller-Braunschweig, pelo carter
"desviacionista" de sua neopsicanlise.                     Schur, Max (1897-1969)
                                                            mdico e psicanalista americano
 Les Annes brunes. La Psychanalyse sous le IIIe
Reich, Textos traduzidos e apresentados por Jean-Luc            Nascido em Stanislau, na Polnia, e origin-
Evard, Paris, Confrontation, 1984  Chaim S. Katz           rio da burguesia judaica, Max Schur estudou na
(org.), Psicanlise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus,      Universidade de Viena*. Aos 18 anos, assistiu
1985  Geoffrey Cocks, La Psychothrapie sous le IIIe
Reich (Oxford, 1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987 
                                                            s conferncias de Sigmund Freud* sobre psi-
Regine Lockot, Erinnern und Durcharbeiten, Frankfurt,       canlise* e logo comeou seus estudos de me-
Fischer, 1985  Ici la vie continue de manire surpre-      dicina. Especializou-se em medicina interna e
nante, seleo de textos traduzidos por Alain de Mijolla,   iniciou uma anlise com Ruth Mack-Bruns-
Paris, Association Internationale d'Histoire de la Psy-     wick* em 1924. Trs anos depois, tornou-se
chanalyse (AIHP), 1987.
                                                            mdico pessoal de Marie Bonaparte* e, no ano
 COMUNISMO; JACOBSON, EDITH; JUNG, CARL                     seguinte, esta insistiu para que Freud o tomasse
GUSTAV; KEMPER, ANA KATRIN; KRETSCHMER,                     como mdico, no lugar de Felix Deutsch*. Uma
ERNST; LAFORGUE, REN; MAUCO, GEORGES;                      nova vida comeou ento para Max Schur, que
NEOFREUDISMO; RITTMEISTER, JOHN.                            acompanhou Freud durante toda a sua longa
                                                            doena, at 1939. Em 23 de setembro, em Lon-
                                                            dres, a seu pedido e com o consentimento de
Schultz, Johannes Heinrich                                  sua filha Anna Freud*, administrou a Freud por
(1884-1970)                                                 trs vezes consecutivas uma dose de trs centi-
mdico alemo                                               gramas de morfina, o que ps fim a seu sofri-
   Criador, em 1932, do mtodo do treinamen-                mento.
to autgeno, do qual se originaram todas as                     Depois, emigrou para os Estados Unidos* e
outras psicoterapias* fundadas no relaxamento,              integrou-se  New York Psychoanalytic Society
Johannes Schultz foi aluno de Otto Binswanger               (NYPS). Continuando a praticar a medicina,
(1852-1929), tio de Ludwig Binswanger*,                     orientou-se para a profisso de psicanalista.
antes de se orientar para as teses de Carl Gustav           Depois de Ernest Jones*, foi o segundo grande
Jung*. Desde 1933, aderiu ao nacional-socia-                bigrafo de Freud. Publicou em 1972 uma obra
lismo por convico e por oportunismo, e inte-              notvel, Freud: vida e agonia, que relatava com
grou-se ao corpo motorizado dos SA. Como                    muitos detalhes a evoluo do cncer do mestre
Harald Schultz-Hencke*, Werner Kemper* ou                   e interpretava seus textos em funo de sua
Felix Boehm*, contribuiu para a nazificao da              relao com a morte.
psicanlise* e das outras correntes da psicote-
                                                             Max Schur, Freud: vida e agonia, uma biografia, 3
rapia, sob a direo de Matthias Heinrich G-               vols. (N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1981 
ring, em Berlim. No Gring Institut, exerceu                Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N.
sobretudo as funes de organizador do hos-                 York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995 
696      Sechehaye, Marguerite

Ernst Federn, Tmoin de la psychanalyse (Londres,   prprios a histria de seu caso, fora da nosogra-
1990), Paris, PUF, 1994.
                                                    fia e das patografias do saber psiquitrico.
 HISTORIOGRAFIA.
                                                     Marguerite Sechehaye, Journal d'une schizophrne,
                                                    Paris, PUF, 1950  lisabeth Roudinesco, entrevista
                                                    com Mario Cifali, 15 de fevereiro de 1996.
Sechehaye, Marguerite, ne Burdet
(1887-1964)
psicanalista sua
    Especialista na abordagem psicanaltica da      seduo, teoria da
esquizofrenia*, Marguerite Sechehaye era de         al. Verfhrungstheorie; esp. teora de la seduccin;
uma famlia protestante de imigrantes das C-       fr. thorie de la sduction; ing. theory of seduction
vennes. Na Universidade de Genebra, fez os              Na histria da psicanlise*, a questo do
cursos de Ferdinand de Saussure (1857-1913),        abandono da teoria da seduo por Sigmund
e foi parcialmente a partir de suas anotaes que   Freud*, em 1897, nunca deixou de ser objeto de
Charles Bally e Albert Sechehaye, alunos de         conflitos interpretativos.
Saussure, redigiram o famoso Curso de lings-          A palavra seduo remete, antes de mais
tica geral.                                         nada,  idia de uma cena sexual em que um
    Aos 19 anos de idade, casou-se com Seche-       sujeito*, geralmente adulto, vale-se de seu po-
haye e orientou-se para o Instituto Jean-Jacques    der real ou imaginrio para abusar de outro
Rousseau, fundado por douard Claparde*.           sujeito, reduzido a uma posio passiva: uma
Ligada, por seu casamento, a duas ilustres fa-      criana ou uma mulher, de modo geral. Em
mlias de Genebra, fez uma formao psicana-        essncia, a palavra seduo  carregada de todo
ltica de um ano com Raymond de Saussure*.          o peso de um ato baseado na violncia moral e
No perodo entre as duas guerras, participou do     fsica que se acha no cerne da relao entre a
desenvolvimento do movimento psicanaltico          vtima e o carrasco, o senhor e o escravo, o
suo, freqentando os principais repre-            dominador e o dominado. Foi exatamente dessa
sentantes freudianos da psicanlise de crianas:    representao da coero que Freud partiu ao
Melanie Klein*, Donald Woods Winnicott*,            construir, entre 1895 e 1897, sua teoria da sedu-
Anna Freud*, Ren Spitz*. Nessa poca, come-        o, segundo a qual a neurose* teria como
ou a conceber um mtodo original para o tra-       origem um abuso sexual real. Essa teoria apoia-
tamento da esquizofrenia, fundado na "realiza-      va-se simultaneamente numa realidade social e
o simblica". Foi estimulada em suas pesqui-      numa evidncia clnica. Nas famlias, e s vezes
sas por Sigmund Freud*.                             at na rua, as crianas muitas vezes so vtimas
    Em 1950, publicou uma obra inaugural,           de violaes por parte dos adultos. Pois bem, a
Dirio de uma esquizofrnica, que tinha a ori-      lembrana desses traumas  to penosa que
ginalidade de associar o depoimento da doente       todos preferem esquec-los, no v-los ou re-
(Rene) ao comentrio do terapeuta. A primeira      calc-los.
parte do livro era redigida como uma "auto-ob-          Escutando as histricas do fim do sculo que
servao" do caso pela prpria paciente, en-        lhe confidenciavam essas histrias, Freud deu-
quanto na segunda a autora apresentava uma          se por satisfeito com a prova do discurso delas
"interpretao" da introspeco da paciente.        e construiu sua primeira hiptese do recalque*
Esta se chamava, na realidade, Louisa Duess e,      e da causalidade sexual da histeria* com base
depois dessa aventura, foi adotada por Margue-      na teoria da seduo. Achou que era por terem
rite, cujo nome ela assumiu. Mais tarde tambm      sido realmente seduzidas que essas histricas
se tornou psicanalista.                             eram afetadas por distrbios neurticos. Assim,
    Traduzido no mundo inteiro, esse documen-       emitiu dvidas sobre o pai de um modo geral,
to anunciava muitas interrogaes da dcada         sobre Jacob Freud* em particular e... sobre ele
seguinte, principalmente as da antipsiquiatria*     mesmo: porventura no havia tambm experi-
sobre o estatuto da loucura* e sobre a possibi-     mentado desejos* culpados em relao a suas
lidade, para os loucos, de expressarem por si       prprias filhas?
                                                                          seduo, teoria da      697

    Foi atravs de sua relao com Wilhelm               Dada a importncia capital desse abandono
Fliess*, adepto de uma teoria biolgica da bis-      no que tange ao nascimento da psicanlise, a
sexualidade* e de uma concepo da sexuali-          questo da teoria da seduo foi objeto de de-
dade* fundamentada no "trao" real, que Freud        bates e comentrios particularmente animados.
renunciou progressivamente  teoria da sedu-             Trs tendncias se desenharam entre os freu-
o. De fato, esbarrou numa realidade ir-            dianos. A primeira, representada pelos orto-
redutvel: nem todos os pais eram violadores, e,     doxos, nega a existncia de sedues reais em
no entanto, as histricas no estavam mentindo       prol de uma supervalorizao da fantasia e, por
quando se diziam vtimas de uma seduo. Era         conseguinte, leva a que o psicanalista nunca se
foroso, portanto, formular uma hiptese que         ocupe, na anlise, dos abusos sofridos por seus
pudesse dar conta dessas duas verdades contra-       pacientes, tanto na infncia quanto em sua vida
ditrias. Freud percebeu duas coisas: ora as         atual. Note-se que o kleinismo*, sem negar a
mulheres inventavam, sem mentir nem simular,         existncia de sedues reais, levou muito longe
cenas de seduo que no haviam acontecido,          a preponderncia da realidade psquica, fazen-
ora, quando essas cenas haviam tido lugar, elas      do os traumas derivarem de uma relao de
no explicavam a ecloso de uma neurose.             objeto* baseada numa seduo imaginria de
    Para dar coerncia a tudo isso, Freud subs-      tipo sdico, e julgada muito mais violenta do
tituiu a teoria da seduo pela da fantasia*, o      que o trauma real: da a inveno do objeto*
que pressups a elaborao de uma doutrina da        bom e mau e, mais tarde, do conceito de phan-
realidade psquica* baseada no inconsciente*.        tasia* (grafada com ph em vez de f).
Todos os seus contemporneos haviam pensado              A segunda tendncia  representada pelos
em sair da idia da causalidade real e passar para   adeptos do biologismo e das teorias "fliessia-
uma "outra cena". Mas Freud foi o primeiro a         nas" da sexualidade, desde a sexologia* at
apontar sua localizao, resolvendo o enigma         Alice Miller e a neurobiologia, passando por
das causas sexuais: elas eram fantassticas,         Wilhelm Reich*. Ela consiste em negar a exis-
mesmo quando havia um trauma real, uma vez           tncia da fantasia e em remeter qualquer forma
que o real da fantasia no  da mesma natureza       de neurose ou psicose* a uma causalidade trau-
que a realidade material. Note-se que, no mo-        mtica, isto , a uma violao (do pensamento
mento em que deu esse passo, Freud estava            ou do corpo) realmente sofrida na infncia. Os
prestes a se libertar, ele mesmo, da seduo de      partidrios dessa posio acusam os freudianos
Fliess, o qual, no entanto, nunca fora um parti-     de mentirem sobre a realidade social e, acima
drio convicto de sua teoria da seduo.             de tudo, de no levarem a srio as queixas e
    Freud anunciou haver renunciado  teoria da      confisses dos pacientes que so vtimas
seduo numa carta de 21 de setembro de 1897         de violaes, pancadas, torturas morais e fsicas
endereada a Fliess: "No acredito mais em           ou abusos diversos. Eles acabaram substituindo
minha neurotica, o que no h de ser compreen-       a anlise por uma tecnologia da confisso e
svel sem uma explicao." Segue-se ento um         procurando fazer os pacientes "confessarem",
longo comentrio sobre as dvidas, hesitaes        atravs da sugesto* ou sob hipnose*, tanto
e suspeitas que o haviam conduzido ao caminho        os traumas reais quanto os maus-tratos imagi-
da verdade. E ele conclui que corre o risco de       nrios.
decepcionar a humanidade e de no ficar rico             A terceira tendncia, a nica que se mostra
nem clebre, uma vez que renunciou a uma             conforme  tica e  teoria freudianas, bem
prova falsa que, no obstante essa falsidade,        como  realidade social, aceita simultanea-
convinha a todo o mundo: "Eis-me obrigado a          mente a existncia da fantasia e a do trauma. No
ficar quieto, a permanecer na mediocridade, a        plano clnico, tanto com crianas quanto com
fazer economias e a ser atormentado por preo-        adultos, o psicanalista deve ser capaz de dis-
cupaes, e  ento que me volta  cabea uma        cernir e levar em conta as duas ordens de reali-
das historinhas de minha antologia: `Rebeca,         dade, muitas vezes superpostas. Na verdade, 
tire o vestido, voc no  mais noiva ne-            to grave desprezar o abuso real quanto confun-
nhuma.'"                                             dir a fantasia com a realidade. Sob esse aspecto,
698      seduo, teoria da

a negao da ordem psquica  sempre uma                  Nem era preciso tanto para exasperar a orto-
mutilao to grave para o sujeito quanto a           doxia freudiana. Max Eitingon* e Abraham
negao de um trauma real.                            Arden Brill* tiveram a pretenso de impedir
    Na histria do movimento psicanaltico, es-       Ferenczi de ler sua comunicao no congresso,
se problema  ainda mais complexo, na medida          enquanto o prprio Freud tentou dissuadi-lo de
em que os psicanalistas da primeira gerao*          public-la. Quanto a Jones, recusou-se a publi-
foram acusados, sobretudo nos pases purita-          car o texto no International Journal of Psycho-
nos, de haverem, eles mesmos, abusado sexual-         analysis* (IJP), temendo que recomeasse o
mente de seus pacientes. Foi o que aconteceu          debate do qual ele prprio fora o piv. Na
com Ernest Jones* na Gr-Bretanha* e no Ca-           verdade, todos quatro eram to hostis a essa
nad*. Nesses pases,  comum assimilarem-se          renovao da teoria da seduo quanto  evolu-
a um abuso de poder tanto as interpretaes*          o ferencziana em matria de tcnica ativa. Na
selvagens quanto as relaes sexuais livremente       opinio deles, a denncia da hipocrisia psicana-
consentidas, quando um dos parceiros ocupa            ltica trazia o risco de prejudicar a "causa".
em relao ao outro um lugar de "dominador"               A histria da teoria da seduo transformou-
(professor/aluno, mdico/paciente), ou ainda as       se num verdadeiro escndalo no incio da dca-
relaes transgressoras (incesto*).                   da de 1980, quando Kurt Eissler e Anna Freud*
    Do ponto de vista clnico, foi Sandor Ferenc-     decidiram confiar a publicao integral das car-
zi* quem levou mais longe a discusso psicana-        tas de Freud a Fliess a um acadmico norte-
ltica dessa questo, ao apresentar ao congresso      americano, devidamente formado no serralho
da International Psychoanalytical Association*        da ortodoxia. Nascido em Chicago em 1941,
                                                      Jeffrey Moussaeff Masson ps-se a ler os ar-
(IPA) realizado em Wiesbaden, em 1932, uma
                                                      quivos interpretando-os de maneira selvagem,
interveno que seria publicada sob o ttulo de
                                                      com a idia de que eles esconderiam uma ver-
"Confuso de lngua entre os adultos e a crian-
                                                      dade oculta, e afirmou que Freud renunciara por
a". Nele, Ferenczi fustigou a hipocrisia da
                                                      covardia  teoria da seduo. No se atrevendo
corporao analtica e suas atitudes de "neutra-
                                                      a revelar ao mundo as atrocidades cometidas
lidade benevolente", mostrando que ela repetia
                                                      pelos adultos com as crianas, Freud teria in-
a hipocrisia parental. Em conseqncia disso,         ventado a fantasia para mascarar uma realidade;
longe de se curar ou se libertar, o paciente se       seria, portanto, pura e simplesmente, um fals-
trancafiava na anlise.                               rio. Em 1984, Masson publicou um livro sobre
    Sem abolir a dimenso da fantasia, Ferenczi       o assunto, O real escamoteado, que foi um dos
reivindicou que se levasse em conta, na e atra-       maiores best-sellers psicanalticos norte-ameri-
vs da psicanlise, a existncia de sedues          canos da segunda metade do sculo.
reais: "At crianas pertencentes a famlias              O livro, apoiado na tradio do puritanismo,
honradas e de tradio puritana, com mais fre-        veio corroborar as teses da historiografia*
qncia do que nos atrevemos a pensar, so            revisionista. Tratou-se, com efeito, de mostrar
vtimas de violncias e violaes. Ora so os         que a mentira freudiana havia pervertido a
prprios pais que buscam dessa maneira pato-          Amrica, tornando-se aliada de um poder ba-
lgica um substituto para suas insatisfaes, ora     seado na opresso: colonizao das crianas
so pessoas de confiana, membros da mesma            pelos adultos, dominao das mulheres pelos
famlia (tios, tias, avs), ora, ainda, so os pre-   homens, tirania do conceito sobre o impulso
ceptores ou a criadagem domstica que abusam          vital etc. Vtima de uma seduo, a Amrica
da ignorncia ou da inocncia das crianas. A         deveria agora libertar-se do jugo da psicanlise,
objeo, qual seja, a de que se trata de fantasias    confessando ao mundo que todo homem  sem-
infantis, isto , de mentiras histricas, lamenta-    pre vtima de um abuso.
velmente perde fora em conseqncia do n-               Depois desse episdio, a corrente revisionis-
mero considervel de pacientes em anlise que         ta norte-americana entregou-se a um des-
confessam, eles mesmos, haver chegado s vias         pedaamento no apenas da doutrina freudiana,
de fato com crianas."                                acusada de abuso de poder, mas tambm do
                                                                                    Self Psychology          699

prprio Freud, transformado num cientista dia-            self falso e verdadeiro
blico e num demnio sexual, culpado de re-               esp. self falso y verdadero; fr. self faux et vrai; ing.
laes abusivas dentro de sua prpria famlia e           false self/true self
em seu div.                                              A expresso "falso self" foi cunhada por Donald
    No contexto dos anos noventa, portanto, o             Woods Winnicott* em 1960, para designar uma
retorno  teoria da seduo foi, inicialmente,            distoro da personalidade que consiste em enve-
uma reao contra a ortodoxia psicanaltica, e,           redar, desde a infncia, por uma vida ilusria (o eu
mais tarde, o grande sintoma de uma forma                 inautntico), a fim de proteger, atravs de uma
norte-americana de antifreudismo, na qual se              organizao defensiva, o verdadeiro self (o eu au-
                                                          tntico). O falso self, portanto,  o meio de algum
misturaram a vitimologia, o culto fantico s
                                                          no ser ele mesmo de acordo com diversas gra-
minorias oprimidas e a apologia de uma tecno-
                                                          daes, que chegam at a uma patologia de tipo
logia da confisso, amplamente apoiada na far-            esquizide, na qual o falso self  instaurado como
macologia.                                                sendo a nica realidade, com isso vindo expressar
                                                          a ausncia do self verdadeiro.
 Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse              O termo self (falso e verdadeiro) imps-se na
(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; Briefe an Wilhelm      lngua francesa sob sua forma inglesa, embora seja
Fliess, 1887-1904, Frankfurt, Fischer, 1986 
                                                          ocasionalmente traduzido por soi [eu, si mesmo].
Freud/Fliess: correspondncia completa, 1887-1904,
Jeffrey Moussaieff Masson (org.) (Cambridge, 1985),           Foi num artigo de 1960, intitulado "Dis-
Rio de Janeiro, Imago, 1997  Sandor Ferenczi, "Confu-    toro do eu em funo do self verdadeiro e
so de lngua entre os adultos e a criana" (1932), in
Psicanlise IV, Obras completas, 1927-1933 (Paris,        falso", que Donald W. Winnicott introduziu seu
1982), S. Paulo, Martins Fontes, 1994, 97-107  Jean      clebre "falso self", que faria fortuna na histria
Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Fantasia origin-     do freudismo*. Como sempre acontece em sua
ria, fantasias das origens, origens da fantasia (Paris,   obra, o conceito foi construdo de maneira lu-
1985), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988  Jean-Paul      minosa a partir de um caso clnico (a histria de
Sartre, Freud, alm da alma (Paris, 1984), Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1982  Alice Miller, Le Drame
                                                          uma mulher que tinha a impresso de nunca
de l'enfant dou (Frankfurt, 1979), Paris, PUF, 1983     haver existido), sendo depois estendido a uma
Jeffrey Moussaeff Masson, Atentado  verdade (Paris,     compreenso geral da natureza existencial do
1984), Rio de Janeiro, Jos Olympio, 1984  Ilse Gru-     "autntico" e do "inautntico", na qual a relao
brich-Simitis, "Metapsicologia e metabiologia", in        com a me revela-se decisiva.
Sigmund Freud, Neuroses de transferncia: uma sn-
                                                              Winnicott extraiu dessa observao um en-
tese (Frankfurt, 1985), Rio de Janeiro, Imago, 1994;
"Trauma or drive -- Drive and trauma", in Albert J.       sinamento fecundo para a tcnica psicanaltica*
Solnit, Peter B. Neubauer, Samuel Abrams e A. Scott       e mostrou como desarticular, na transferncia*,
Dowling (orgs.), The Psychoanalytic Study of the Child,   os numerosos artifcios com que o falso self
New Haven, Yale University Press, vol.XLIII, 1988,        encobre o verdadeiro, a ponto de tornar a pr-
3-32  Janet Malcolm, Tempte aux Archives Freud, (N.
                                                          pria anlise inoperante.
York, 1984), Paris, PUF, 1986  Marceline Gabel (org.),
Les Enfants victimes d'abus sexuels, Paris, PUF, 1992      Donald W. Winnicott, O ambiente e os processos de
 rik Porge, Vol d'ides, Paris, Denol, 1994.           maturao (Londres, 1960), P. Alegre, Artes Mdicas,
                                                          1983  Claude Geets, Winnicott, Paris, dition Univer-
 BIBLIOTECA DO CONGRESSO; CENA PRIMRIA;                  sitaire, 1981.
DIFERENA SEXUAL; ESTADOS UNIDOS; ESTUDOS
SOBRE A HISTERIA; FETICHISMO; FLIESS, ROBERT;
GNERO; LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANA                 self grandioso
DE SUA INFNCIA ; PAPPENHEIM, BERTHA; PSICA-               KOHUT, HEINZ.
NLISE DE CRIANAS; RANK, OTTO; SADOMASO-
QUISMO.
                                                          Self Psychology
                                                          esp. self psychology; fr. self psychologie ou psycho-
                                                          logie du soi; ing. Self Psychology
self                                                        Inicialmente utilizada por Heinz Hartmann*
 SELF PSYCHOLOGY.                                         em 1950, no contexto da Ego Psychology*, para
700     Self Psychology

diferenciar o eu* como instncia psquica (tra-     mediante a introduo de uma teoria da subje-
duzido em ingls por ego) do eu como a prpria      tividade alheia  metapsicologia*. No teve
pessoa, a noo de self (si mesmo) foi depois       nenhum impacto na Frana*, onde o terreno
empregada para designar uma instncia da per-       fora ocupado pela teoria lacaniana e pela psico-
sonalidade no sentido narcsico: uma repre-         terapia institucional*, nem tampouco no mundo
sentao de si por si mesmo, um auto-inves-         germnico, onde a anlise existencial*, prove-
timento libidinal.                                  niente de Ludwig Binswanger* e retomada por
    O termo foi retomado em 1960 pela escola        Igor Caruso* e pelos fenomenologistas, respon-
inglesa de psicanlise*, com Donald Woods           dia mais ou menos s mesmas interrogaes. E
Winnicott*, e pela escola norte-americana, com      quase no teve eco na Amrica Latina (Argen-
Heinz Kohut*, isto , pela terceira gerao*        tina*, Brasil*), onde apenas o lacanismo, o
internacional da histria do freudismo*. Para os    kleinismo* e o ps-kleinismo se desenvolve-
ingleses, tratava-se de acrescentar  segunda       ram nos regimes ditatoriais, a partir de proble-
tpica* freudiana um complemento fenomeno-          mticas idnticas.  interessante constatar que
lgico da pessoa ou do ser, isto , uma instncia   esse vasto movimento de busca de identidade
da personalidade constituda posteriormente ao      correspondeu, nos Estados Unidos*,  ltima
eu, numa relao com a me e numa relao           tentativa crtica de salvar a doutrina psicanal-
com o semelhante. O self serviu ento para
                                                    tica da crise de identidade pela qual ela foi
delimitar a dimenso narcsica do sujeito*, es-
                                                    atingida, em razo de sua ortodoxia e da dis-
tivesse esta sadia ou destruda e fosse o self
                                                    seminao das psicoterapias*. Nascido da
verdadeiro ou falso. Por meio disso, a noo
                                                    contestao dos modelos adaptativos, o movi-
permitiu abordar distrbios da identidade tidos
                                                    mento da Self Psychology extinguiu-se no incio
como "inacessveis" a uma psicanlise centrada
                                                    da dcada de 1990, com a grande reao puri-
no eu. Entre os norte-americanos, a conotao
                                                    tana norte-americana, simultaneamente oriun-
fenomenolgica desapareceu e o self transfor-
mou-se numa noo puramente emprica, que           da do conservadorismo, do cognitivismo, do
serviu basicamente para definir uma clnica         organicismo e dos diferentes comunitarismos
especfica dos distrbios narcsicos: o "self       hostis ao universalismo freudiano.
grandioso" de Kohut, por exemplo, ou o "eu
                                                     D.C. Levin, "The Self: A contribution to its place in
fraco" de John Rosen, terico da anlise direta*.
                                                    theory and technique", IJP, 1, 1969, 40-51  Heinz
    Nessa dupla condio, a partir da dcada de     Kohut, Anlise do Self (N. York, 1971), Rio de Janeiro,
1960, o termo erigiu-se como paradigma de           Imago, 1988  A restaurao do self (N. York, 1977),
uma corrente do freudismo anglfono, a Self         Rio de Janeiro, Imago, 1988  Arnold Goldberg (org.),
Psychology. Depois de se desenvolver em opo-        Progress in Self Psychology, 2 vols., N. York, Guilford
                                                    Press, 1985  Agns Oppenheimer, "La Psychologie du
sio s deficincias de uma Ego Psychology
                                                    self en question", Psychanalyse  l'Universit, 12, 47,
demasiadamente centrada na adaptao e na           1987, 487-96; "La Psychologie du self, dix ans aprs",
clnica das neuroses*, ela formou ento uma         ibid. 13, 51, 1988, 503-13; Kohut et la psychologie du
nebulosa de contornos imprecisos, onde se vi-       self, Paris, PUF, 1996  Philip Cushman, Constructing
ram misturados todos os clnicos norte-ameri-       the Self, Constructing America. A Cultural History of
                                                    Psychotherapy, N. York, Addison-Wesley Publishing
canos e ingleses especializados em distrbios
                                                    Company, 1995  Nathan G. Hale, Freud and the
da personalidade, na despersonalizao, nos         Americans. The Rise and Crisis of Psychoanalysis in
borderlines* na neurose narcsica e na esquizo-     the United States, 1917-1985, t.II, N. York, Oxford,
frenia*, fossem eles kleinianos, ps-kleinianos,    Oxford University Press, 1995.
annafreudianos ou antipsiquiatras, e pertences-
sem ou no  International Psychoanalytical
Association* (IPA).                                  ANTIPSIQUIATRIA; BION, WILFRED RUPRECHT;
    Contempornea do lacanismo*, a corrente         DIFERENA SEXUAL; ESTDIO DO ESPELHO; FE-
da psicologia do self foi, como ele, uma tenta-     DERN, PAUL; GNERO; IMAGEM DO CORPO; LAING,
tiva de renovar o freudismo clssico, atravs de    RONALD; NARCISISMO; SELF (FALSO E VERDADEI-
um confronto com o tratamento das psicoses e        RO); SUJEITO; SULLIVAN, HARRY STACK.
                                                                                        sexologia        701

Servadio, Emilio (1904-1995)                        um dos terapeutas italianos mais ativos e mais
psicanalista italiano                               conhecidos.
    Nascido em Sestri-Ponente, na provncia de          Em 1953, por ocasio do XXVI Encontro de
Gnova, de formao jurdica, Emilio Servadio       Psicanalistas de Lnguas Romnicas, no qual
logo se interessou pela psicologia, pela hipno-     Jacques Lacan* exps o seu texto "Funo e
se* e pelas questes sobre as relaes entre a      campo da fala e da linguagem na psicanlise",
                                                    apresentou um relatrio sobre o "Papel dos con-
filosofia e o estudo dos processos mentais. Mui-
                                                    flitos pr-edipianos" que seria traduzido para o
to jovem, leu a produo cientfica francesa,
                                                    francs. No comeo dos anos 1960, com o pro-
Jean Martin Charcot*, Hippolyte Bernheim*,
                                                    fessor Leonardo Ancona, atacou as conseqn-
Joseph Babinski* e tambm Pierre Janet*, cuja
                                                    cias da condenao da psicanlise pelo padre
averso pelas teses de Sigmund Freud* criticou
                                                    Agostino Gemelli (1878-1959). De 1963 a 1969,
severamente. Influenciado inicialmente pelas        foi presidente da Societ Psicoanalitica Italiana
idias do psiquiatra Enrico Morselli (1852-         (SPI). Preocupado em proteger a psicanlise da
1929), que combateria violentamente a psica-        invaso das psicoterapias de grupo na Itlia, fun-
nlise (e mais especialmente Edoardo Weiss*),       dou em 1981 a Sociedade Italiana de Psicoterapia
Servadio se apaixonou pela parapsicologia. De-      Psicanaltica, destinada a reunir os praticantes que
pois de se tornar psicanalista, continuou a se      no tivessem formao psicanaltica.
interessar ativamente por essas questes, a pon-
to de se tornar um especialista de renome mun-       Emilio Servadio, "La psicoanalisi in Italia. Cenno
dial. Nunca se preocupou com as crticas e          storico", Rivista di Psicoanalisi, 11, 1965; "Rle des
                                                    conflits proedipiens", Revue Franaise de Psychana-
reservas que lhe faziam, a esse respeito, os seus
                                                    lyse, 1954  Contardo Callligaris, "Petite histoire de la
amigos psicanalistas italianos, Cesare Musatti*     psychanalyse en Italie", Critique, 333, fevereiro de
e Franco Fornari* principalmente.                   1975  Michel David, La psicoanalisi nella cultura italia-
    Desde 1924, em um artigo dedicado  "me-        na (1966), Turim, Bollati Boringhieri, 1990; "La Psycha-
                                                    nalyse en Italie", in Roland Jaccard (org.), Histoire de
dicina psicolgica", citou Freud, de quem tra-      la psychanalyse, vol.II, Paris, Hachette, 1982  Arnaldo
duziria algumas obras, reconhecendo na psica-       Novelletto, "Italy", in Peter Kuetter (org.), Psychoana-
nlise o mrito de ter aberto um novo campo         lysis International. Guide to Psychoanalysis throughout
para a experincia e a pesquisa metapsicolgi-      the World, Stuttgart-Bad Cannstatt, Frommann-Holz-
                                                    boog, 1992, 195-213  Silvia Vegetti Finzi, Storia della
cas.                                                psicoanalisi, Milo, Mondadori, 1986.
    Mas foi o encontro com aquele que se tor-
naria seu analista, Weiss, que o levou a se          IGREJA.
orientar definitivamente para a psicanlise.
Tornando-se analista, fez parte do pequeno gru-
po de pioneiros que se reuniam em torno de          sesso curta
Weiss, na sua casa em Roma, na Via dei Grac-
                                                     TCNICA PSICANALTICA.
chi. Uma certa rivalidade com Nicola Perrotti*,
que dirigia o Instituto de Psicanlise em Roma,
levou Servadio a fundar na mesma cidade o
Centro de Psicanlise. Vtima, como muitos          sexologia
outros, das leis anti-semitas, Servadio deixou a    al. Sexologie; esp. sexologa; fr. sexologie; ing.
Itlia em 1938 e exilou-se em Bombaim, mas          sexology
nunca teria um papel determinante para o freu-      Disciplina ligada  biologia, que toma por objeto de
dismo* na ndia*.                                   estudo a atividade sexual humana com um objetivo
    Ao voltar em 1946, reassumiu suas ativi-        descritivo e teraputico.
dades de psicanalista. Notvel clnico, multipli-      A palavra sexologia apareceu pela primeira
cando as contribuies sobre as questes rela-      vez na lngua inglesa em 1867 e, depois, na
tivas  primeira infncia,  homossexualidade*      lngua francesa, em 1911, num livro francs
e aos efeitos das drogas alucingenas, apaixo-      dedicado  determinao do sexo das crianas
nado por teoria literria, Servadio se tornaria     antes do nascimento. A partir de 1920, comeou
702     sexologia

a integrar os dicionrios, os tratados especiali-   do, estes fizeram dele um dos fundadores da
zados e o vocabulrio corrente.                     sexologia. No obstante, a perspectiva de um e
    A sexologia, ou "cincia do sexual", cons-      dos outros nunca seria a mesma. Ao elaborar
tituiu-se no fim do sculo XIX, com os traba-       uma teoria universal da sexualidade humana
lhos eruditos dos trs pais fundadores dessa        baseada na noo de libido*, com a qual trans-
doutrina: Richard von Krafft-Ebing*, que lan-       formou o significado da oposio entre a norma
ou em 1886 seu clebre livro Psychopathia          e a patologia, Freud distinguiu teoricamente sua
sexualis, Albert Moll*, que publicou em 1897        doutrina de qualquer forma de estudo compor-
sua Libido sexualis, e Havelock Ellis*, autor, a    tamental, assim como se afastou clinicamente,
partir de 1897, de um compndio sobre a ques-       atravs do mtodo psicanaltico, de todas as
to, intitulado Estudos de psicologia sexual. Em    psicoterapias* pautadas nas idias de pesquisa
seguida, com Magnus Hirschfeld* e Ivan Bloch        ou de conduta.
(1872-1922), desenvolveu-se uma escola alem            Logo aps a Primeira Guerra Mundial, em
de sexologia cujo objetivo era estudar o com-       especial sob a influncia das teses de Wilhelm
portamento sexual humano e lutar pela igual-        Reich*, a sexologia comeou a deixar o campo
dade de direitos em matria de prtica sexual.      das descries literrias ou mdico-legais:
Simultaneamente interessada no higienismo, na       transformou-se num movimento poltico, cen-
nosografia e na descrio das "aberraes", ela     tralizado na idia da liberao sexual, e criou
se preocupava menos com a teraputica do que        um modelo de psicoterapia que tinha por objeto
com a erudio e a pesquisa literria sobre as      a funo do orgasmo, isto , a mensurao e a
diferentes formas de prticas e identidades         descrio dos fenmenos psquicos, fisiolgi-
sexuais: homossexualidade*, heterossexualida-       cos e biolgicos ligados s diferentes modali-
de, bissexualidade*, perverso*, travestismo,       dades do ato sexual, inclusive a masturbao.
transexualismo*, zoofilia etc. Foi com essa             Depois da Segunda Guerra Mundial, a sexo-
perspectiva que se criou em Berlim, em 1913,        logia teve um avano considervel nos Estados
a Sociedade Mdica de Cincia Sexual e Eug-        Unidos*. Saiu do campo do engajamento liber-
nica, que seria dissolvida pelos nazistas.          trio, trocando-o pelo da adaptao, e substituiu
    Tal como a criminologia*, a sexologia cons-     o estudo das inverses e das anomalias por uma
truiu-se, no fim do sculo XIX, no terreno da       descrio psicossociolgica dos comportamen-
teoria da hereditariedade-degenerescncia*,         tos sexuais de massa, enquanto preservava a
quando os mdicos e juristas de lngua alem        idia da terapia orgstica.  nessa perspectiva
comearam a encampar o domnio antes "pri-          que convm situar o trabalho taxionmico de
vado" da sexualidade* humana, no intuito de         Albert Kinsey, autor de uma srie de pesquisas
definir, cientfica e juridicamente, as condies   publicadas entre 1948 e 1953 sobre o compor-
de uma possvel relao entre a norma e a           tamento sexual dos norte-americanos, bem co-
patologia no seio de uma sociedade s voltas        mo o livro que William Masters e Virginia
com o declnio da funo paterna tradicional.       Johnson publicaram em 1966, dedicado ao mes-
Tratava-se, pois, de instaurar uma nova diviso     mo assunto. Esses trabalhos pragmticos, reali-
entre a ordem jurdica, encarregada de sancio-      zados por ginecologistas, psiclogos ou bilo-
nar os desvios julgados perigosos ou criminosos     gos, tentaram dar uma fundamentao clnica 
para a sociedade burguesa industrial, e a ordem     sexologia do orgasmo e da masturbao, mas
psiquitrica, cujo objetivo era o tratamento e a    contriburam, acima de tudo, para divulgar as
preveno (higienista ou eugenista) da loucura*     teses dos partidrios de uma liberalizao dos
sexual, fosse ela criminosa ou simplesmente         costumes.
desviante.                                              Com essa expanso, a sexologia normati-
    O nascimento da sexologia, portanto, foi        zou-se e foi dominada pela proliferao de psi-
contemporneo ao da psicanlise*. Sigmund           coterapias. Abandonou para sempre o paraso
Freud* reconheceu sua dvida para com os se-        polimorfo no qual habitava a sexualidade per-
xlogos ao publicar, em 1905, seus Trs ensaios     versa que fora descrita em palavras latinas pelos
sobre a teoria da sexualidade*; do mesmo mo-        pais fundadores. Ao encantador catlogo de
                                                                              sexuao, frmulas da           703

toda sorte de anomalias, que tanto fascinara os                 No contexto de sua ltima reformulao
cientistas do fim do sculo XIX, ainda prxi-               lgica, na qual apareceram as idias de mate-
mos da literatura de Sade (1740-1814) e de                  ma* e n borromeano*, Jacques Lacan cons-
Sacher-Masoch (1836-1895), sucedeu-se uma                   truiu, em 1973, um matema da identidade
tcnica descritiva e mecanizada do dever orgs-             sexual, mediante o qual tentou superar o falicis-
tico, sem nenhuma relao com a prpria natu-               mo freudiano e estabelecer sua prpria concep-
reza da sexualidade. Nesse sentido, a partir do             o da sexualidade feminina e da diferena
fim da dcada de 1970, a sexologia no mais                 sexual.
contribuiu verdadeiramente para o co-                           Utilizando o quadrado lgico de Apuleio,
nhecimento, ao contrrio do que havia aconte-               Lacan enunciou o que denominou de frmulas
cido na poca da descoberta freudiana. Foram                da sexuao, ou seja, quatro proposies lgi-
os estudos da histria da sexualidade, nascidos             cas. As duas primeiras so proposies univer-
dos trabalhos do filsofo Michel Foucault                   sais, uma afirmativa -- "Todos os homens tm
(1926-1984) e do historiador Philippe Aris                 o falo*" -- e uma negativa: "Nenhuma mulher
(1914-1984), que trouxeram para a psicanlise,              tem o falo". Essas duas proposies resumem,
para a antropologia*, para a psicopatologia* e              segundo Lacan, a posio freudiana da libido*
para todos os campos das cincias humanas                   masculina nica, sendo o falo assimilado ao
uma renovao comparvel  insuflada por                    rgo sexual masculino. Segundo Lacan, entre-
Freud na virada do sculo, quando ele criou sua             tanto, essa posio  inaceitvel, pois avaliza a
doutrina contrariando as classificaes da                  fantasia* de uma complementaridade entre ho-
sexologia, ainda que se alimentasse de suas                 mens e mulheres e desemboca numa concepo
descries, seu vocabulrio e suas fantasias.               do Um como negao da diferena e excluso
                                                            da castrao*, como quando se diz, por exem-
 Richard von Krafft-Ebing, Psychopathia sexualis
(Stuttgart, 1886, Paris, 1907), Paris, Payot, 1969 
                                                            plo, a "humanidade" ou o "gnero humano".
Albert Moll, Der Hypnotismus, Berlim, Fischer's Medi-           Vm ento as outras duas frmulas. Uma 
zinische Buchhandlung, H. Kornfeld, 1889; Untersu-          particular negativa: "Todos os homens, menos
chungen ber die Libido Sexualis, Berlim, Fischer's         um, esto submetidos  castrao." Nesse caso,
Medizinische Buchhandlung, H. Kornfeld, 1897  Ha-
velock Ellis, tudes de psychologie sexuelle, vol.I (Lon-
                                                            o conjunto dado, "todos os homens", s pode
dres, 1897), Paris, Mercure de France, 1904  Albert        existir logicamente se existir um outro elemen-
Kinsey (org.), Le Comportement sexuel de l'homme            to, distinto do conjunto: no caso, o pai origin-
(Filadlfia, 1948), Paris, Pavois, 1948; Le Comporte-       rio da horda primitiva (Totem e tabu*), que pode
ment sexuel de la femme (Filadlfia, 1953), Paris,
                                                            possuir todas as mulheres.
Amiot-Dumant, 1954  W.H. Masters e V.E. Johnson,
Les Ractions sexuelles (Boston, 1966), Paris, Laffont,         A ltima frmula  uma particular negativa:
1968  Frank J. Sulloway, Freud, Biologist of the Mind,     "No existe nenhum X que constitua uma ex-
N. York, Basic Books, 1979  Sexualits occidentales        ceo  funo flica." Na medida em que no
(1982), sob a direo de Philippe Aris e Andr Bjin,
Paris, Seuil, col. "Points", 1984.
                                                            existe, para o conjunto feminino, um equiva-
                                                            lente do pai originrio que escape  castrao
 DIFERENA SEXUAL; FETICHISMO; GNERO; MA-                  -- o pelo-menos-um do conjunto dos homens
SOQUISMO; PANSEXUALISMO; REICH, WILHELM;                    --, todas as mulheres tm um acesso ilimitado
SADISMO; SEXUALIDADE FEMININA; STOLLER, RO-                  funo flica. Existe, portanto, uma dis-
BERT.                                                       simetria entre os dois sexos.
                                                                Foi a partir destas duas ltimas frmulas que
                                                            Lacan definiu as formas masculina e feminina
sexuao, frmulas da                                       de seu conceito de gozo*.
al. Formeln der Sexuierung; esp. frmulas de la
sexuacin; fr. formules de la sexuation; ing. formu-         Jacques Lacan, O Seminrio, livro 17, O avesso da
lae of sexuation                                            psicanlise (1969-1970) (Paris, 1991), Rio de Janeiro,
                                                            Jorge Zahar, 1992; Le Sminaire, livre XIX, ... Ou pire
Proposies lgicas formuladas por Jacques La-              (le savoir du psychanalyste) (1971-1972), indito; O
can* para traduzir a diferena sexual* e a sexuali-         Seminrio, livro 20, Mais, ainda (1972-1973), Rio de
dade feminina*.                                             Janeiro, Jorge Zahar, 1989, 2 ed.  Jol Dor, Introdu-
704       sexualidade

o  leitura de Lacan, t.II (Paris, 1992), P. Alegre, Artes   em 1897, depois de, atravs do ensino de Jean
Mdicas, 1996.
                                                               Martin Charcot* e Josef Breuer*, haver atribu-
 FALOCENTRISMO; GNERO; OUTRO; PATRIAR-                        do  histeria* uma etiologia sexual.
CADO.                                                              A partir de 1905, com a publicao de seus
                                                               Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade*,
                                                               Freud estendeu sua reflexo ao campo da sexua-
sexualidade                                                    lidade infantil, o que lhe permitiu dar um novo
                                                               estatuto s chamadas perverses*: homos-
al. Sexualitt; esp. sexualidad; fr. sexualit; ing.
sexuality                                                      sexualidade*, fetichismo* etc. O estudo dos
                                                               grandes casos (Ida Bauer*, Herbert Graf*, Ernst
    A idia de sexualidade  de tamanha impor-
                                                               Lanzer* e Serguei Constantinovitch Panke-
tncia na doutrina psicanaltica que, com justa
                                                               jeff*), por ltimo, conferiu uma base experi-
razo, pde-se afirmar que todo o edifcio freu-
diano assentava-se sobre ela. Como conseqn-                  mental  doutrina da sexualidade. Aps a intro-
cia, a idia aceita de que os psicanalistas dariam             duo da idia de narcisismo*, em 1914, e em
uma significao sexual a qualquer ato da vida,                seguida  inveno da segunda tpica*, a ques-
a qualquer gesto, qualquer palavra, levou os ad-               to da sexualidade tornou-se um piv de confli-
versrios de Sigmund Freud* a fazerem de sua                   tos nos debates do movimento psicanaltico
doutrina a expresso de um pansexualismo*. Na                  internacional. Da as discusses sobre a sexua-
realidade, as coisas no so to simples assim.                lidade feminina* e a diferena sexual*, entre
    Todos os cientistas do fim do sculo XIX                   1924 e 1960, e, mais tarde, sobre o transexua-
preocupavam-se com a questo da sexualidade,                   lismo* e o gnero*.
na qual viam uma determinao fundamental da                       A doutrina freudiana clssica da sexualidade
atividade humana. Assim, faziam da sexuali-                    foi criticada em todos os pases e rejeitada pelos
dade uma evidncia e do fator sexual a causa                   dois mais clebres dissidentes do movimento
primria da gnese dos sintomas neurticos.                    freudiano, Carl Gustav Jung* e Alfred Adler*.
Da a criao da sexologia* como cincia bio-                  Em seguida, foi revisada de ponta a ponta pelos
lgica e natural do comportamento sexual.                      sucessores de Freud em funo da questo do
    Impregnado das mesmas interrogaes que                    narcisismo: primeiro por Melanie Klein* e, de-
seus contemporneos, Freud, no entanto, foi o                  pois, pelos partidrios da Self Psychology*, de
nico dentre eles a inventar no a prova do                    Heinz Kohut* a Donald Woods Winnicott*. O
fenmeno sexual, mas uma nova conceituao,                    kleinismo* substituiu a etiologia sexual pro-
capaz de traduzir, nomear ou at construir essa                priamente dita pelo impacto da relao arcaica
prova. Por isso, ele efetuou uma verdadeira                    com a me, privilegiando mais o dio do que o
ruptura terica (ou epistemolgica) com a sexo-                sexo como causa primria da neurose e, acima
logia, estendendo a noo de sexualidade a uma                 de tudo, da psicose*. Quanto  segunda cor-
disposio psquica universal e extirpando-a de                rente, ela mais formulou sua interrogao sobre
seu fundamento biolgico, anatmico e genital,                 a constituio da identidade sexual (o gnero,
para fazer dela a prpria essncia da atividade                ou gender) do que sobre a etiologia em si.
humana. Portanto,  menos a sexualidade em si                      Freud no inventou uma terminologia parti-
mesma que importa na doutrina freudiana do                     cular para distinguir os dois grandes campos da
que o conjunto conceitual que permite repre-                   sexualidade: a determinao anatmica, por um
sent-la: a pulso*, a libido*, o apoio* e a                   lado, e a representao social ou subjetiva, por
bissexualidade*.                                               outro. No obstante, por sua nova concepo,
    A elaborao dessa nova conceituao foi                   ele mostrou que a sexualidade tanto era uma
iniciada a partir de uma experincia clnica                   representao ou uma construo mental quan-
pautada na escuta do sujeito*. Em contato com                  to o lugar de uma diferena anatmica. Em con-
Wilhelm Fliess*, Freud adotou a tese da bis-                   seqncia disso, sua doutrina transformou total-
sexualidade,  qual conferiu um contedo psqui-               mente a viso que a sociedade ocidental tinha
co. Mais tarde, aderiu  idia da origem traumtica            da sexualidade e da histria da sexualidade em
da neurose* (teoria da seduo*),  qual renunciou             geral. Foi por isso que a expanso do freudis-
                                                                              sexualidade feminina       705

mo* no Ocidente deu origem, a partir de 1970,                mulheres foram assumindo nele um lugar cen-
e muitas vezes em oposio  psicanlise*, aos               tral.
diferentes trabalhos franceses, ingleses e norte-                No fim do sculo XIX, como mostram os
americanos sobre a histria da sexualidade, e                estudos de casos publicados por Sigmund
sobretudo ao trabalho inaugural de Michel Fou-               Freud*, Josef Breuer*, Pierre Janet* ou Tho-
cault (1926-1984), A vontade de saber. Na es-                dore Flournoy*, assim como as experincias de
teira de sua Histria da loucura, com efeito, o              Jean Martin Charcot* na Salptrire, as mu-
filsofo francs mostrou que a prpria idia de              lheres eram apresentadas no discurso da psico-
sexualidade fora construda no sculo XIX pelo               patologia* como doentes. Histricas, loucas ou
discurso mdico, a fim de instaurar uma nova                 hipnotizadas, elas foram, inicialmente, quais-
diviso entre a norma e o desvio, no momento                 quer que fossem suas origens sociais, objetos
em que desmoronava o ideal do patriarcado*.                  destinados a serem observados a fim de fazer
Foucault incluiu nesse discurso a doutrina freu-             progredir o saber mdico. Depois, com o grande
diana da sexualidade, embora reconhecendo                    movimento de emancipao do entre-guerras,
que esta permitira escapar dele. Da sua situa-              que comeou a libertar as mulheres da alienao
o paradoxal -- ao mesmo tempo, uma teoria                  religiosa, social e sexual que lhes pesava nos
normalizadora e um instrumento de contes-                    ombros, elas ocuparam na instituio freudiana
tao permanente dessa norma.                                um lugar completo, tornando-se mdicas ou
                                                             psicanalistas e, acima de tudo, psicanalistas de
 Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da              crianas. Foi ento que participaram da refor-
sexualidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145;
SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987  Michel Fou-       mulao da teoria freudiana clssica no que
cault, Histria da sexualidade, vol.I, A vontade de          concerne  sexualidade*,  diferena sexual* e
saber, vol.II, O uso dos prazeres, vol.III, O cuidado de      libido*.
si (Paris, 1976-1984), Rio de Janeiro, Graal, 1985              A partir de 1905, com a publicao de seus
Frank J. Sulloway, Freud, Biologist of the Mind, N. York,
Basic Books, 1979  John Boswell, Christianisme, to-         Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade*,
lrance sociale et homosexualit. Les Homosexuels en         Sigmund Freud repensou a questo da sexuali-
Europe occidentale des dbuts de l're chrtienne au         dade humana. Buscando seus modelos na bio-
XIVe sicle (Chicago, 1980), Paris, Gallimard, 1985         logia darwiniana, defendeu a tese de um monis-
Jean-Louis Flandrin, Le Sexe et l'Occident, Paris,
Seuil, 1981  Sexualits occidentales, sob a direo de      mo sexual e de uma essncia "masculina" da
Philippe Aris e Andr Bjin, Paris, Seuil, col. "Points",   libido humana. Essa tese, baseada na observa-
1984  Thomas Laqueur, La Fabrique du sexe. Essai            o clnica que ele fizera das teorias sexuais
sur le genre et le corps en Occident (1990), Paris,          infantis, no tinha por objetivo descrever a di-
Gallimard, 1992  Lynn Hunt, Le Roman familial de la
Rvolution franaise (Berkeley, 1992), Paris, Albin Mi-      ferena sexual a partir da anatomia, nem tam-
chel, 1995  lisabeth Badinter, XY: sobre a identidade      pouco decidir a questo da condio feminina
masculina (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Nova Frontei-       na sociedade moderna. Na perspectiva da libido
ra, 1994, 2 ed.  Sander L. Gilman, The Case of             nica, Freud mostrou que, no estdio infantil, a
Sigmund Freud. Medicine and Identity at the Fin de
Sicle, Baltimore, Londres, The Johns Hopkins Univer-        menina desconhece a existncia da vagina e faz
sity Press, 1993.                                            o clitris desempenhar o papel de um homlogo
                                                             do pnis. Por isso, tem ento a impresso de ter
 ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; PAPPENHEIM,                       sido provida de um rgo castrado. Em funo
BERTHA.                                                      dessa dissimetria, articulada em torno de um
                                                             plo nico de representaes, o complexo de
                                                             castrao*, segundo Freud, no se organiza da
                                                             mesma maneira nos dois sexos. O destino de
sexualidade feminina                                         cada um deles  diferente no apenas pela ana-
al. weibliche Sexualitt; esp. sexualidad feminina;          tomia, mas tambm em razo das repre-
fr. sexualit fminine; ing. female sexuality                sentaes ligadas  existncia dessa anatomia.
   Na histria do freudismo*, a questo da                   Na puberdade, a existncia da vagina eviden-
sexualidade feminina dividiu o movimento psi-                cia-se para ambos os sexos: o menino v na
canaltico a partir de 1920  medida que as                  penetrao uma meta para sua sexualidade, en-
706     sexualidade feminina

quanto a menina recalca sua sexualidade clito-     Todavia, a partir de 1920, foi contestada por
ridiana. Antes disso, porm, quando se d conta    outras mulheres, da chamada escola inglesa:
de que a menina no se parece com ele, o           Melanie Klein* e Josine Mller (1884-1930).
menino interpreta a ausncia do pnis como         Em 1927, no congresso da International Psy-
uma ameaa de castrao para ele prprio. No       choanalytical Association* (IPA) realizado em
momento do complexo de dipo*, desliga-se da       Innsbruck, onde se desenrolou o grande debate
me para escolher um objeto do mesmo sexo.         sobre a questo, Ernest Jones* levou-lhes seu
    A sexualidade da menina se organiza, segun-    apoio numa exposio intitulada "A fase pre-
do Freud, em torno do falicismo: ela quer ser      coce do desenvolvimento da sexualidade femi-
um menino. No momento do dipo, deseja um          nina". Criticou a extravagncia da hiptese
filho do pai, e esse novo objeto  investido de    freudiana da ausncia, na menina, do sentimen-
um valor flico. Ao contrrio do menino, a         to da vagina. Por isso, ops um dualismo 
menina tem que se desligar de um objeto do         noo de libido nica. A essa escola inglesa
mesmo sexo, a me, por um objeto de sexo           liga-se a posio de Karen Horney*, que sus-
diferente. Em ambos os sexos, o apego  me       tentava, j em 1926, que a pretensa ignorncia
o elemento primrio. Vemos, pois, que, ao          da vagina era fruto de um recalque*, e que o
defender o monismo sexual, Freud considerava       apego ao clitris servia a finalidades defensivas.
errnea a afirmao da natureza instintiva da      Assim, a escola inglesa assumiu o risco de
sexualidade: a seu ver, no existiria nem um       corroborar a idia de uma natureza feminina,
instinto materno, no sentido estrito, nem uma      isto , de um diferencialismo anatmico, ao
raa feminina.                                     passo que Freud a esvaziara parcialmente, cor-
    A existncia de uma libido nica no exclui    rigindo o biologismo do sculo XIX mediante
a existncia da bissexualidade. Com efeito, na     o recurso ao modelo do sexo nico. De fato, ele
perspectiva freudiana, nenhum sujeito  deten-     apregoava a indiferenciao inconsciente dos
tor de uma pura especificidade masculina ou        dois sexos sob a categoria de um nico princpio
feminina. Em outras palavras, se existe um         masculino e de uma organizao edipiana em
monismo sexual, isso significa que, no incons-     termos de dissimetria.
ciente* e nas representaes inconscientes do          Em sua organizao edipiana da sexualidade
sujeito* (seja ele homem ou mulher), a diferen-    feminina, Freud (e foi esse o seu principal erro)
a entre os sexos no existe. A bissexualidade,    desconsiderou todo o campo das relaes arcai-
que  o corolrio dessa organizao monista da     cas com a me. Sob esse aspecto, o debate
libido, concerne, portanto, a ambos os sexos.      referente  sexualidade feminina foi da mesma
No apenas a atrao de um sexo pelo outro no     natureza do que se desenvolveu sobre a psica-
decorre de uma complementaridade, como tam-        nlise de crianas*. Hostil s teses kleinianas e
bm a bissexualidade desfaz a prpria idia de     revoltado com a maneira como sua filha Anna
tal organizao. Da as duas modalidades de        fora tratada pelos partidrios de Klein, Freud
homossexualidade*: a feminina, quando a me-        no queria admitir que a supremacia que ele
nina permanece "grudada" na me, a ponto de        atribua ao pai na famlia o impedia de apreen-
escolher um parceiro do mesmo sexo, e a mas-       der a natureza profunda das relaes entre a
culina, quando o menino efetua uma escolha         filha e a me. Em outras palavras, mesmo que
similar, a ponto de renegar a castrao materna.   seu monismo fosse teoricamente justificado, ele
    Atravs desse monismo, Freud inspirou-se       no explicava nem a realidade concreta da
simultaneamente em Galeno (em seu modelo           sexualidade feminina nem a gnese da femini-
do sexo nico) e na biologia do sculo XIX,        lidade. Alem disso, sua concepo do clitris
preocupada em estabelecer uma diferena radi-      como homlogo de um pnis pequenino mais
cal entre os sexos a partir da anatomia.           remetia  sua atrao intelectual pelas mulheres
    Essa tese freudiana da chamada escola vie-     a quem sentia como "masculinas" ou "flicas"
nense foi defendida por mulheres, em especial      do que  realidade da feminilidade. Sandor Fe-
Marie Bonaparte* e Helene Deutsch*, Jeanne         renczi* foi o primeiro a assinalar, em 1932, em
Lampl-De Groot* e Ruth Mack-Brunswick*.            seu Dirio clnico, que essa masculinizao da
                                                                           sexualidade feminina           707

sexualidade feminina por Freud explicava-se           da igualdade entre os sexos um domnio reser-
pela relao deste com sua me, Amalia Freud*.        vado s mulheres, a pretexto de esse combate
    Entretanto, Freud teve a honestidade de cor-      ter por meta a emancipao delas.
rigir sua doutrina no sentido das posies klei-          Na realidade,  como se, para edificar sua
nianas. Testemunho disso, se necessrio, so          doutrina, Freud tivesse tido que se abster de
seus dois artigos de 1931 e 1933, um sobre a          qualquer compromisso militante e rejeitar as
sexualidade feminina e o outro sobre a femini-        aspiraes igualitrias do movimento feminis-
lidade. No primeiro, ele manteve sua concepo        ta. No entanto, sob alguns aspectos, sua teoria
da relao entre o clitris e a vagina, mas reco-     biolgica da libido nica assemelhava-se  dou-
nheceu implicitamente que as analistas podiam         trina jurdica de Antoine de Caritat, marqus de
compreender melhor do que ele a questo da            Condorcet (1743-1794), o grande terico da
sexualidade feminina, na medida em que ocu-           emancipao das mulheres. Com mais de um
pavam na anlise o lugar de um substituto ma-         sculo de intervalo, tratou-se, tanto para o fil-
terno; no segundo, admitiu que era impossvel         sofo francs quanto para o cientista vienense,
compreender a mulher "se no levarmos em              de mostrar que o campo do feminino devia ser
considerao [a] fase do apego pr-edipiano          pensado como parte integrante do universal
me": de fato, tudo o que h na relao com o         humano e, portanto, sob a categoria de um
pai provm, por transferncia*, desse apego           universalismo, o nico capaz de dar um fun-
primrio.                                             damento verdadeiro ao igualitarismo. Para
     notvel constatar que o debate contradit-      Freud, com efeito, a existncia de uma diferen-
rio que perpassou o movimento freudiano no            a anatmica entre os sexos no desembocava
entre-guerras, opondo os partidrios do monis-        numa concepo naturalista, uma vez que essa
mo sexual aos adeptos do dualismo, foi contem-        famosa diferena, ausente no inconsciente*,
porneo da manifestao do movimento                  atesta, para o sujeito, uma contradio es-
feminista, que levou, atravs do sufragismo,         trutural entre a ordem psquica e a ordem ana-
emancipao poltica e jurdica das mulheres.         tmica. Assim, podemos perceber por que, por
A partir de 1945, foi em torno do livro de            sua teoria do monismo e da no concordncia
Simone de Beauvoir (1908-1986), O segundo             entre o psquico e o anatmico, Freud se aproxi-
sexo, e das teses de Jacques Lacan*, Michel           mou dos ideais do igualitarismo universalista,
Foucault (1926-1984) e Jacques Derrida que o          de Descartes ao Iluminismo.
debate sobre a sexualidade feminina, em parti-            Sob esse aspecto, e apesar das aberraes de
cular nos Estados Unidos*, evoluiu para uma           sua doutrina original, ele foi um pensador da
interrogao mais radical sobre a diferena en-       emancipao e da liberdade, alm de autor de
tre os sexos e, mais tarde, sobre a distino entre   uma teoria da sexualidade que, embora
o sexo e o gnero* (gender).                          desembaraasse o homem do peso de suas
    Pouco preocupado com o feminismo, Freud           razes hereditrias, no pretendia libert-lo dos
mostrou-se misgino em algumas ocasies e,            grilhes de seu desejo*.
em muitas, conservador. A nos atermos s apa-
rncias, podemos ver nele um cientista estreito,       Franois Poulain de La Barre, De l'galit des deux
                                                      sexes (1673), Paris, Fayard, col. "Corpus des oeuvres
um bom burgus, um marido ciumento e um pai           de philosophie en langue franaise", 1984  Sigmund
incestuoso: em suma, um representante da auto-        Freud, "Algumas conseqncias psquicas das dife-
ridade patriarcal tradicional. Entretanto,  ma-      renas anatmicas entre os sexos" (1925), ESB, XIX,
neira cartesiana como o fizera, em 1673, o            309-24; GW, XIV, 19-30; SE, XIX, 248-58; OC, XVII,
                                                      189-202; "Sexualidade feminina" (1931), ESB, XXI,
filsofo Franois Poulain (Poullain) de La Bar-       259-82; GW, XIV, 517-37; SE, XXI, 225-43; OC, XIX,
re (1647-1725), em seu clebre livro Da igual-        7-29; Novas conferncias introdutrias sobre psican-
dade entre os dois sexos,  sem dvida neces-         lise (1933), ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE, XXII,
srio ultrapassarmos esse tipo de aparncia e         5-182; OC, XIX, 83-268  Sandor Ferenczi, Dirio
                                                      clnico, janeiro-outubro de 1932 (Paris, 1985), S. Paulo,
concluirmos que talvez seja to intil chamar         Martins Fontes, 1990  Melanie Klein, Contribuies 
Freud de "falocrata", a pretexto de ele no ter       psicanlise (Londres, 1948), S. Paulo, Mestre Jou,
sido feminista, quanto fazer do combate a favor       1970  Ernest Jones, Thorie et pratique de la psycha-
708       sexualidade infantil

nalyse (Londres, 1948), Paris, Payot, 1969  Karen          a Londres, integrou-se  British Psychoanalyti-
Horney, Psicologia feminina (N. York, 1967), Rio de
                                                            cal Society (BPS), da qual se tornou membro
Janeiro, Civilizao Brasileira, 1972  Wladimir Granoff,
La Pense et le fminin, Paris, Minuit, 1975  Mous-        titular em 1923. Tratou ento de questes tcni-
tapha Safouan, A sexualidade feminina na doutrina           cas e clnicas, expondo casos e insistindo na
freudiana (Paris, 1976), Rio de Janeiro, Zahar, 1977       contratransferncia*. Demonstrou tambm um
Sergio Benvenuto, La strategia freudiana, Npoles,          talento especial para relatar o contedo de uma
Liguori Editore, 1984  A.L. Thomas, Denis Diderot e
Madame d'pinay, Qu'est-ce qu'une femme?, prefcio
                                                            sesso, extraindo-lhe o essencial. Realizou pa-
de lisabeth Badinter, Paris, POL, 1989  Helene            ralelamente trabalhos literrios sobre o Hamlet.
Deutsch, Psychanalyse des fonctions sexuelles de la         No congresso da International Psychoanalytical
femme (N. York, 1991), Paris, PUF, 1994  Lisa Appi-        Association* (IPA) de 1928 em Oxford, apre-
gnanesi e John Forrester, Freud's Women, N. York,
Basic Books, 1992  Fminit mascarade, estudos
                                                            sentou um trabalho inspirado nas teses kleinia-
psicanalticos reunidos por Marie-Christine Hamon,          nas, que defendia a hiptese de que a arte era
Paris, Seuil, 1994  lisabeth Roudinesco, Histria da      uma sublimao* enraizada nas primeiras iden-
psicanlise na Frana, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Ja-      tificaes* parentais. Teria um papel modera-
neiro, Jorge Zahar, 1988  Michel de Manassein (org.),      dor durante as Grandes Controvrsias*, depois
De l'galit des sexes, Paris, Centre National de Docu-
mentation Pdagogique, 1995  Joyce McDougall, As           de ter sido analista de Melitta Schmideberg* em
mltiplas faces de Eros (Paris, 1996), S. Paulo, Martins    condies particularmente difceis.
Fontes, 1997.
                                                             Ella Sharpe, Collected Papers on Psycho-Analysis,
 ANTIPSIQUIATRIA; ANTROPOLOGIA; CULTURALIS-                 Londres, Hogarth Press, 1978.
MO; ESTADOS UNIDOS; ESTUDOS SOBRE A HISTE-
RIA; FALO; FALOCENTRISMO; FETICHISMO; HISTE-
RIA; JUDEIDADE; NOVAS CONFERNCIAS INTRODU-                 Sigmund Freud Archives (SFA)
TRIAS SOBRE PSICANLISE; PATRIARCADO; PER-                 ou Arquivos Freud
VERSO; RENEGAO; SEXUAO, FRMULAS DA.                    BIBLIOTECA DO CONGRESSO.


sexualidade infantil                                        significante
 SEXUALIDADE; TRS ENSAIOS SOBRE A TEORIA                   al. Signifikant; esp.; signifiante; fr. signifiant; ing.
DA SEXUALIDADE.                                             signifier
                                                            Termo introduzido por Ferdinand de Saussure
                                                            (1857-1913), no quadro de sua teoria estrutural da
sexualidade masculina                                       lngua, para designar a parte do signo lingstico
 BISSEXUALIDADE; DIFERENA SEXUAL; FALO;                    que remete  representao psquica do som (ou
FETICHISMO; HOMOSSEXUALIDADE; PERVERSO;                    imagem acstica), em oposio  outra parte, ou
SEXUALIDADE; SEXUALIDADE FEMININA.                          significado, que remete ao conceito.
                                                                Retomado por Jacques Lacan* como um con-
                                                            ceito central em seu sistema de pensamento, o
Sharpe, Ella Freeman (1875-1947)                            significante transformou-se, em psicanlise*, no
psicanalista inglesa                                        elemento significativo do discurso (consciente ou
   Nascida perto de Cambridge, Ella Freeman                 inconsciente) que determina os atos, as palavras e
                                                            o destino do sujeito*,  sua revelia e  maneira de
Sharpe foi iniciada desde a infncia na leitura
                                                            uma nomeao simblica.
de Shakespeare por seu pai. Depois da morte
deste, tornou-se professora de ingls. Em 1917,                 Em seu Curso de lingstica geral, Ferdi-
deprimida com a morte de muitos alunos du-                  nand de Saussure divide o signo lingstico em
rante a guerra, encontrou auxlio psicolgico               duas partes. Denomina de significante a ima-
com James Glover (1882-1926), na clnica m-                gem acstica de um conceito e chama de signi-
dico-psicolgica de Brunswick Square. Apai-                 ficado o conceito em si. Assim, a palavra rvore
xonou-se imediatamente pela psicanlise, aban-              no remete, do ponto de vista lingstico, 
donou o ensino e foi a Berlim, onde fez uma                 rvore real (o referente), mas  idia de rvore
anlise didtica* com Hanns Sachs*. Voltando                (o significado) e a um som (o significante) que
                                                                                  significante     709

 pronunciado com a ajuda de seis fonemas:           vendo numa problemtica heideggeriana da
.r.v.o.r.e. O signo lingstico, portanto, une um   verdade ontolgica; num segundo tempo, de
conceito a uma imagem acstica, e no uma            1956 a 1961, Lacan apoiou-se nas teses propos-
coisa a um nome.                                     tas por Roman Jakobson (1896-1982) a prop-
    Por outro lado, o signo faz parte de um          sito dos eixos da linguagem, para conferir um
sistema de valores. O valor de um signo se mede      estatuto lgico  teoria do significante. Aban-
por sua relao com todos os outros signos e         donou ento a referncia  ontologia heidegge-
resulta, negativamente, da presena simultnea       riana.
deles na lngua, que  concebida como a totali-          Assim  o "estruturalismo" lacaniano, que
dade sincrnica (ou seja, estrutural) de todos os    se assenta na idia de que a verdadeira liberdade
signos que nela se encontram. Diferentemente         humana provm da conscincia que o sujeito
do valor, a significao se deduz da ligao que     pode ter de no ser livre em virtude da determi-
existe entre um significante e um significado.       nao inconsciente. Aos olhos de Lacan, a for-
    Desejoso de dar um fundamento estrutural e       ma freudiana de uma conscincia de si dividida
linguajeiro  concepo freudiana do inconsci-       (ou de uma clivagem* do eu) era mais subver-
ente*, Lacan apoiou-se nessa lingstica saus-       siva do que a crena -- por exemplo, sartriana
suriana para mostrar que a segunda tpica* (do       -- numa possvel filosofia da liberdade.
eu*, supereu* e isso*) no  da alada da bio-           Foi Michel Foucault (1926-1984), sem d-
logia nem da psicologia. O modelo saussuriano        vida, quem melhor resumiu o que foi para a
da lngua (ou estruturalismo lingstico) est       gerao dos anos 1950-1960 a passagem de
para Lacan, portanto, como estava o modelo
                                                     uma filosofia da liberdade subjetiva para uma
darwiniano da biologia (ou evolucionismo) pa-
                                                     concepo estrutural do sujeito: "A novidade
ra Sigmund Freud*.
                                                     foi a seguinte: descobrimos que a filosofia e as
    Com a Ego Psychology* e, posteriormente,
                                                     cincias humanas viviam numa concepo
com a Self Psychology*, os herdeiros anglfo-
                                                     muito tradicional do sujeito humano, e que no
nos de Freud quiseram superar ou abandonar o
                                                     bastava dizer, ora, com uma, que o sujeito era
modelo biolgico do mestre a fim de puxar sua
                                                     radicalmente livre, ora, com as outras, que era
segunda tpica* para a vertente de uma psico-
                                                     determinado pelas condies sociais. Descobri-
logia, isto , de uma teoria do eu, da pessoa ou
da representao fenomenolgica do outro. A          mos que era preciso procurar libertar tudo o que
partir de 1950, Lacan rejeitou esse procedimen-      se escondia por trs do emprego aparentemente
to, que qualificou de psicologista, e props uma     simples do pronome `eu'. O sujeito: uma coisa
outra leitura dos textos freudianos, mais literal,   complexa, frgil, da qual  difcil falar, e sem a
que consistia em criticar o "cientificismo" bio-     qual no podemos falar."
lgico de Freud, restituir ao inconsciente sua           Saussure situou o significado acima do sig-
primazia, em oposio  conscincia*, e acres-       nificante e separou os dois por uma barra, de-
centar ao eu uma teoria da determinao do           nominada da significao. Lacan inverteu essa
sujeito pelo significante.                           posio e colocou o significado abaixo do si-
    A noo lacaniana do sujeito (do desejo*)        gnificante, ao qual atribuiu uma funo primor-
recorre, ao mesmo tempo,  filosofia hegeliana,      dial. Depois, tornando a levar em conta a idia
 qual Lacan teve acesso atravs do ensino de        de valor, ele sublinhou que toda significao
Alexandre Kojve (1902-1968), e aos comen-           remete a uma outra significao. Deduziu disso
trios de Alexandre Koyr (1892-1964) sobre o        que o significante est isolado do significado
cogito cartesiano.                                   como uma letra, um trao ou uma palavra sim-
    Quanto  teoria do significante, ela foi ela-    blica, desprovida de significao mas determi-
borada em dois tempos. Entre 1949 e 1956,            nante, como funo, para o discurso ou o des-
repousou numa leitura dos textos de Saussure         tino do sujeito. A esse sujeito, no mais as-
dedicados ao signo lingstico, bem como nos         similvel a um eu, Lacan chamou "sujeito do
de Claude Lvi-Strauss consagrados  funo          inconsciente". Ele no seria um sujeito "pleno",
simblica (o simblico*), tudo isso se inscre-       mas representado pelo significante, isto , pela
710     significante

letra onde se marca o assentamento do incons-        rei: a simples posse, e no a utilizao da carta,
ciente na linguagem.                                  que criava a ascendncia. Para explicar sua
    Mas esse sujeito  tambm representado por       descoberta ao narrador, Dupin conta a histria
uma cadeia de significantes na qual o plano do       de um garoto e um jogo de par ou mpar. Um
enunciado s corresponde ao plano da enuncia-        dos jogadores segura na mo um certo nmero
o pelos "pontos de basta". Lacan deu o nome        de bolas de gude e pergunta ao outro: par ou
de ponto de basta ao momento pelo qual, na           mpar? Quando o sujeito acerta a resposta, ga-
cadeia, um significante se ata ao significado        nha uma bola; quando erra, perde uma. E Dupin
para produzir uma significao. Essa  a nica       acrescenta: "O menino de quem estou falando
operao que detm o deslizamento da signifi-        ganhava todas as bolas de gude da escola. Na-
cao, fazendo com que os dois planos se unam        turalmente, tinha um princpio de adivinhao,
pontualmente. Da a idia de que a "pontuao"       que consistia na simples observao e avaliao
 uma maneira de intervir no desenrolar de uma       da esperteza de seus adversrios."
sesso de anlise, cortando-a, interrompendo-a           O "Seminrio sobre `A carta roubada'", que
com uma produo significativa: uma interpre-        em 1966 serviria de abertura aos Escritos, atesta
tao* verdadeira. Assim, a teoria do signifi-       a maneira como Lacan passou de uma teoria da
cante justifica o princpio da sesso de durao     funo simblica (do inconsciente), calcada em
varivel (chamada de "sesso curta"), introdu-       Lvi-Strauss, para uma "lgica" do signifi-
zida por Lacan como uma inovao na tcnica          cante. Segundo ele, uma carta [letre, letra] sem-
psicanaltica*.                                      pre chega a sua destinao, porque a carta, isto
    Foi em seu seminrio de 30 de maio de 1955       , o significante, tal como se inscreve no incons-
que Lacan ilustrou essa teoria do significante       ciente, determina a histria do sujeito e sua
atravs do comentrio de um conto de Edgar           relao ou no-relao com outrem. Nenhum
Allan Poe (1809-1849), "A carta roubada". A          sujeito  o dono da carta (de seu destino) e,
histria se passa na Frana da Restaurao. O        quando acredita s-lo, corre o risco de se deixar
cavalheiro Auguste Dupin tem que resolver um         apanhar no mesmo engodo que os policiais do
enigma. A pedido do chefe de polcia, consegue       conto ou o ministro.
recuperar uma carta comprometedora, furtada              A obra saussuriana no fornece todas as
da rainha e escondida pelo ministro. Colocada        chaves da leitura lacaniana do inconsciente
em evidncia entre os arcos da lareira do escri-     freudiano. Em 1957, em sua conferncia sobre
trio, ela  visvel, na verdade, para quem quiser   "A instncia da letra no inconsciente", Lacan
v-la. Mas os policiais no a descobrem, porque      acrescentou dois elementos  sua teoria: a me-
esto aprisionados no engodo da psicologia. Em       tfora e a metonmia. Deveu-as a uma leitura
vez de procurar a prova que lhes surge diante        dos Fundamentals of Language, publicados por
dos olhos, eles atribuem intenes aos ladres.      Roman Jakobson e Morris Halle em Haia. Um
J Dupin, por sua vez, prefere agir de maneira       artigo contido nessa coletnea, "Dois aspectos
totalmente diversa, pedindo polidamente uma          da linguagem e dois tipos de afasia", retomado
audincia ao ministro. Enquanto conversa com         em 1963 nos Ensaios de lingstica geral, per-
ele, observa o aposento com olhar atento, depois     mitiu-lhe organizar estruturalmente sua hip-
de tomar o cuidado de dissimular seus olhos por      tese do inconsciente-linguagem. Jakobson des-
trs de culos opacos. Discerne imediatamente        tacou a estrutura bipolar da linguagem, graas
o objeto, retira-o sem que o ladro se aperceba       qual o ser falante realiza, sem que se aperceba,
e o substitui por outro, idntico. Assim, o minis-   dois tipos de atividade: uma est relacionada
tro ignora que seu segredo foi desvendado.           com a similaridade e concerne  seleo dos
Continua a se acreditar dono do jogo e da rainha,    paradigmas ou "unidades de lngua", enquanto
pois possuir a carta  deter um poder sobre seu      a outra remete  contigidade e concerne 
destinatrio. Entretanto, ele no sabe que j no    combinao sintagmtica dessas mesmas uni-
a detm, enquanto a rainha, desse momento em         dades. Na atividade de seleo, escolhemos ou
diante, sabe que seu mestre cantor no poder        preferimos uma palavra a outra: por exemplo,
exercer nenhuma presso sobre ela diante do          empregamos o vocbulo bon em oposio a
                                                                                       significante       711

touca ou gorro. Na atividade de combinao, ao       por outro, atravs da qual o sujeito  repre-
contrrio, relacionamos duas palavras que for-       sentado.
mam uma continuidade: para descrever a roupa             Em 1975, numa conferncia intitulada "O
de um indivduo, por exemplo, associamos o           fator da verdade", Jacques Derrida comentou
termo saia  palavra blusa etc.                      essa teoria do significante, criticando a leitura
    A partir disso, Jakobson mostra que os dis-      que Lacan fizera do conto de Edgar Allan Poe
trbios da linguagem resultantes de uma afasia       e mostrando que uma carta no chega to sim-
privam o indivduo ora da atividade de seleo,      plesmente a sua destinao. Ele sublinhou que,
ora da de combinao. Depois, ele convoca a          na prpria redao do "Seminrio sobre `A carta
antiga retrica a servio da lingstica para        roubada'", Lacan referira a si mesmo a in-
sublinhar que a atividade seletiva da linguagem      divisibilidade da carta, isto , o "todo" ou o
no  outra coisa seno o exerccio de uma           "um" de sua doutrina: um dogma da unidade.
funo metafrica, e que a atividade combina-        Ao "dogma" do significante, que corre o risco
tria assemelha-se ao processo da metonmia.         de se organizar como uma "posta-restante" para
Os distrbios da primeira impedem o sujeito de       recolocar no "rumo certo o que ficou em sus-
recorrer  metfora, enquanto os da segunda lhe      penso, aguardando ser reclamado", Derrida
impedem qualquer atividade metonmica. Ja-           ops o esfacelamento e a desconstruo do Um.
kobson salienta que esses dois processos encon-      Esse debate sobre a "primazia do significante"
tram-se no funcionamento do sonho* descrito          e sua possvel desconstruo por uma leitura
por Freud. Situa o simbolismo na atividade           derridiana veio a ser o ponto de partida, nos
metafrica, enquanto inclui a condensao* e o       Estados Unidos*, de uma vasta polmica sobre
deslocamento* na atividade metonmica.               o estruturalismo, o lacanismo* e o ps-es-
    Retomando essa demonstrao, Lacan               truturalismo.
transcreve de uma outra maneira a concepo
freudiana do trabalho do sonho. Se este se ca-        Jacques Lacan, "Funo e campo da fala e da
                                                     linguagem em psicanlise" (1953), in Escritos (Paris,
racteriza por uma atividade de transposio en-      1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 238-324; "O
tre um contedo latente e um contedo manifes-       seminrio sobre `A carta roubada'" (1955), ibid., 13-66;
to (A interpretao dos sonhos*), essa operao      "A instncia da letra no inconsciente ou a razo desde
pode ser traduzida, em termos lingsticos, co-      Freud" (1957), ibid., 496-533; "Subverso do sujeito e
                                                     dialtica do desejo no inconsciente freudiano" (1960),
mo o deslizamento do significado sob o signifi-
                                                     ibid., 807-42; O Seminrio, livro 2, O eu na teoria de
cante. Existem, pois, duas vertentes da incidn-     Freud e na tcnica da psicanlise (1954-1955) (Paris,
cia do significante sobre o significado; a primei-   1978), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985; O Seminrio,
ra  uma condensao ou "superposio dos            livro 3, As psicoses (1955-1956) (Paris, 1981), Rio de
significantes" (palavras-valise, personagens         Janeiro, Jorge Zahar, 1988, 2. ed.  Edgar Allan Poe,
                                                     "La Lettre vole", in Histoires, Paris, Gallimard, col.
compsitos), enquanto a outra se assemelha a         "Pliade", 1940, 45-64  Ferdinand de Saussure, Curso
uma "virada" da significao (a parte pelo todo      de lingstica geral (1915), S. Paulo, Cultrix, 1979 
ou a contigidade) e designa um deslocamento.        Roman Jakobson, Essais de linguistique gnrale,
    Assim, ao contrrio de Jakobson, Lacan as-       Paris, Minuit, 1963  Jean-Luc Nancy e Philippe La-
                                                     coue-Labarthe, Le Titre de la lettre, Paris, Galile, 1973
simila a noo freudiana de condensao a uma         Michel Plon, La Thorie des jeux. Une politique
metfora e o deslocamento a uma metonmia.           imaginaire, Paris, Maspero, 1976  Jacques Derrida,
Trs frmulas passam ento a descrever, segun-       La Carte postale, Paris, Flammarion, 1980  Jol Dor,
do Lacan, a incidncia do significante no signi-     Introduo  leitura de Lacan, 2 tomos (Paris, 1985,
                                                     1992), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992, 1996  lisabeth
ficado: (1) a frmula geral descreve a funo
                                                     Roudinesco, Histria da psicanlise na Frana, vol.2
significante, partindo da barra de resistncia      (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jac-
significao; (2) a frmula da metonmia traduz      ques Lacan. Esboo de uma vida, histria de um
a funo de conexo dos significantes entre si,      sistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo,
com a eliso do significado remetendo ao obje-       Companhia das Letras, 1994  Franoise Gadet, Saus-
                                                     sure, une science de la langue, Paris, PUF, 1987  John
to do desejo que falta na cadeia (significante);     P. Muller e William Richardson (orgs.), The Purloined
(3) a frmula da metfora fornece a chave para       Poe, Baltimore, The Johns Hopkins University Press,
uma funo de substituio de um significante        1988  Didier ribon, Michel Foucault e seus contem-
712      Silberer, Herbert

porneos (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,   jovem desconhecido, provavelmente um dege-
1996.
                                                       nerado bastante fino. Seu pai  uma personali-
 ANTROPOLOGIA; BONAPARTE, MARIE; CHISTES               dade vienense, conselheiro municipal e homem
E SUA RELAO COM O INCONSCIENTE, OS; ES-              dinmico. Mas o seu caso  bom e torna aces-
TDIO DO ESPELHO; FANTASIA: FORACLUSO; GO-            svel uma parte do trabalho do sonho."
ZO; IMAGINRIO; LANZER, ERNST; NOME-DO-PAI;                Na WPV, Silberer manteve excelentes re-
NOVAS CONFERNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE                 laes com Wilhelm Stekel*. Depois da partida
PSICANLISE; OBJETO (PEQUENO) a; OUTRO; PARA-          deste, continuou a v-lo, enquanto suas relaes
NIA; PSICOPATOLOGIA DA VIDA COTIDIANA A; PSI-         com Freud e o grupo vienense se tornavam
COSE; REAL; SCHREBER, DANIEL PAUL.                     conflituosas. Apesar de seu carter difcil, S-
                                                       tekel lhe enviou pacientes. Entre julho de 1920
                                                       e junho de 1922, ambos foram co-diretores da
Silberer, Herbert (1882-1923)                          revista Psyche and Eros, publicada em Nova
escritor e psicanalista austraco
                                                       York. Eles a deixaram quando ela se tornou
                                                       abertamente antifreudiana.
    Membro da Wiener Psychoanalytische Ver-
                                                           Na noite de 11 para 12 de janeiro de 1923,
einigung (WPV) a partir de 1910, Herbert Sil-
                                                       Herbert Silberer se suicidou, enforcando-se em
berer pertencia  pequena burguesia catlica
                                                       um quarto fechado a chave. Sua mulher no
vienense. Seu pai, Viktor Silberer, era proprie-
                                                       conseguiu salv-lo.
trio de um jornal esportivo. Tambm ele prati-
cante de esportes, estimulou os primeiros vos             Em 1976, Paul Roazen comparou o destino
de balo no seu pas e por isso  considerado o        de Silberer ao de Viktor Tausk* e quis res-
fundador da aeronutica austro-hngara.                ponsabilizar Freud por esse suicdio*, enquanto
                                                       Stekel, no necrolgio que dedicou ao amigo,
    Filho nico, Herbert Silberer teria que suce-
                                                       evitou faz-lo.
der ao pai. Gostava de esportes, ganhou cam-
peonatos de natao e at se apresentou como            Herbert Silberer, "Rapport sur une mthode permet-
ciclista acrobata. Mas enquanto estava na car-         tant de provoquer et d'observer certains phnomnes
reira de jornalista, voltou-se, como autodidata,       hallucinatoires symboliques" (1909), Ornicar?, 31, Na-
para a psicologia, a filosofia e enfim a psican-      varin, inverno de 1984, 28-40  Wilhelm Stekel, "In
                                                       memoriam H erbert Silberer", Fortschritte der
lise*. Interessou-se inicialmente pelo simbolis-
                                                       Sexualwissenschaft und Psychoanalyse, I, 1924, 408-
mo do sonho* e depois pela magia e pela alqui-         20  Paul Roazen, Freud e seus discpulos (N. York,
mia. Na mesma medida em que o pai era um               1971), S. Paulo, Cultrix, 1986  Bernd Nitzschke, "Freud
homem ativo, o filho foi marcado pela solido          e Herbert Silberer. Hipteses referentes ao destinatrio
e pela depresso com tendncias ao suicdio.           de uma carta de Freud em 1922", Revista Internacional
                                                       da Histria da Psicanlise, 2 (1989), Rio de Janeiro,
    Como muitos jovens intelectuais da poca,          Imago, 1992, 249.
era apaixonado pela busca de uma outra vida e
de um alm da conscincia, e procurou na nova
doutrina freudiana uma explicao para seus
prprios problemas. Assim, fez pesquisas con-          Silberstein, Eduard (1856-1925)
sigo mesmo sobre os estados transitrios entre            Por volta dos 13 anos de idade, Sigmund
a viglia e o sono. Seu primeiro artigo, "Relat-      Freud* fez amizade com Eduard Silberstein,
rio sobre um mtodo para provocar e observar           que tinha a mesma idade que ele. Filho de um
certos fenmenos alucinatrios simblicos", foi        banqueiro judeu romeno estabelecido em Jassy
publicado por Freud em 1909 no Jahrbuch*.              e depois em Braila, s margens do Danbio, foi
Segundo ele, o texto de Silberer complementa-          educado por um pai parcialmente louco, intei-
va sua teoria do sonho. Posteriormente, Silberer       ramente submetido  ortodoxia talmdica. No
escreveu cerca de 50 artigos.                          suportando essa educao rgida, o jovem as-
    Entretanto, Freud sempre desconfiou da pa-         pirava ao livre pensamento. Foi nesse contexto
tologia do jovem. Em uma carta a Carl Gustav           que se tornou condiscpulo de Freud no Real-
Jung*, datada de 19 de julho de 1909, chamou-o         gymnasium de Viena* e depois no Obergymna-
de "dgnr" (em francs): "Silberer  um             sium.
                                                                        Silberstein, Eduard      713

    Ento, formaram-se laos entre as famlias     sar de sua promessa de felicidade eterna. Atra-
dos dois adolescentes, que se tornaram os me-      vs desse colquio, Cervantes faz uma crtica
lhores amigos do mundo. Durante dez anos,          feroz das perverses humanas e das injustias
entre 1871 e 1881, trocaram cartas que revelam     sociais de sua poca.
muitos aspectos da personalidade de Freud na           Sigmund Freud escolheu o nome de Cipio
adolescncia: ele surge como um materialista       e tinha um prazer maldoso em comentar os
anti-religioso, sensual e revoltado, adepto da     infortnios de seu condiscpulo Eduard-Ber-
emancipao das mulheres, apaixonado por Gi-       ganza. No era por acaso que a revolta desses
sela Fluss* e pensando seriamente em se tornar     dois adolescentes judeus se expressava por essa
um grande filsofo. Suas cartas tambm mos-        aspirao a uma outra identidade,  qual Freud
tram o que foi a cultura vienense de Freud e       daria mais tarde o nome de romance familiar*.
como ele foi marcado pelo saber de sua poca:      Para eles, tratava-se, na Viena* do fim do scu-
pelo pensamento alemo, por um lado, atravs       lo, de superar os pais atravs do acesso ao
da filosofia de Ludwig Feuerbach (1775-1833)       estatuto de intelectual (filsofo, erudito, escri-
e da psicologia de Johann Friedrich Herbart*, e    tor). E a iniciao se efetuava aqui na lngua do
por outro lado pelo ensino direto de dois mes-     autor de Dom Quixote, isto , do escritor que
tres, Franz Brentano* e Ernst von Brcke*.         soube descrever com a maior lucidez a loucura
    Fervorosos admiradores de Cervantes            extrema de se tomar por um outro.
(1547-1616), Freud e Silberstein decidiram             Progressivamente, Eduard Silberstein e
aprender a lngua espanhola sem gramtica nem      Sigmund Freud se perderam de vista, mas sem
professor, baseando-se unicamente em textos        romper os laos que os uniram na adolescncia.
literrios. Criaram ento uma instituio que      Silberstein obteve seu diploma de jurista, tor-
batizaram de Academia Castellana e que, em         nou-se militante socialista, voltou para a Rom-
certos aspectos, anunciava a famosa Sociedade      nia e exerceu, sem convico, a profisso de
Psicolgica das Quartas-Feiras*, na qual Freud     banqueiro. Em 1884, Freud se lembrava dele
reuniria, a partir de 1902, os seus primeiros      com ternura: "No ano passado ainda, escreveu,
discpulos vienenses. A Academia era um lugar      ele tinha um barco no Danbio, fazia-se chamar
de discusso, onde os dois adolescentes se de-     de `capito' e convidava todos os amigos para
dicavam a prazeres intelectuais subterrneos,      passeios, durante os quais eles faziam o papel
mais prximos da iniciao do que do ensino        de remadores."
propriamente dito. Trocavam cartas em alemo           O "capito" romeno no teve sorte em suas
e s vezes em espanhol, recheando as duas          relaes amorosas. Casou-se com uma jovem
lnguas com palavras  maneira de um cdigo        melanclica, Pauline Theiler, que ele mandou
secreto. E para marcar sua adorao pela litera-   para Viena em 1891, para se tratar com seu
tura picaresca, adotaram nomes tirados do c-      ex-colega. No dia da consulta, ela pediu  em-
lebre "Colquio dos ces" das Novelas exem-        pregada que a acompanhava que a esperasse em
plares de Miguel de Cervantes.                     baixo. Depois, ao invs de subir at o consult-
    Nesse relato, Cervantes apresenta o co Ber-   rio de Freud, jogou-se do terceiro andar do
ganza, narrador inveterado, e o co Cipio,        prdio.
filsofo cnico e amargo. Ambos so filhos da          Posteriormente, Silberstein apaixonou-se
feiticeira Montiela,  qual devem sua impres-      por outra mulher, Anna Sachs, originria da
sionante faculdade de dissertar sobre as er-       Litunia, com quem se casou. Tiveram uma
rncias da alma humana. Depois de muitas           filha, Theodora. A filha desta, Rosita Brauns-
aventuras, que os levam do universo da pros-       tein Vieyra, faria uma visita a Anna Freud* em
tituio  corte dos reis, passando pelas dife-    Londres, em 1982, para saber como a primeira
rentes classes da sociedade, Berganza acaba no     mulher de seu av se suicidara.
Hospital de Valladolid, onde conta sua vida a          Em Braila, Eduard Silberstein, homem do Ilu-
Cipio, no quarto de Campuzano, heri infeliz      minismo, militou durante toda a vida pela eman-
que contraiu uma doena venrea depois de ser      cipao das mulheres, pelos direitos civis dos
abandonado pela esposa, uma ex-meretriz, ape-      judeus e das minorias. Conservou cuidadosa-
714      simblico

mente as cartas de Freud. Estas foram muito                 Nos artigos que consagrou  descoberta
bem traduzidas para o francs por Cornlius             freudiana, Lvi-Strauss comparou a tcnica da
Heim.                                                   cura xamanstica ao tratamento psicanaltico.
                                                        Na primeira, disse ele em sntese, o feiticeiro
 Sigmund Freud, Lettres de jeunesse (1989), Paris,     fala e provoca a ab-reao*, ao passo que, no
Gallimard, 1990.
                                                        segundo, esse papel compete ao mdico que
 HISTORIOGRAFIA; TRADUO (DAS OBRAS DE                 escuta no interior de uma relao em que  o
SIGMUND FREUD).                                         doente quem fala. Alm dessa comparao, L-
                                                        vi-Strauss mostrou que, nas sociedades ociden-
                                                        tais, constituiu-se uma "mitologia psicanalti-
simblico                                               ca" que serve de sistema de interpretao*:
                                                        "Vemos, assim, surgir um perigo considervel:
al. Simbolische; esp. simblico; fr. symbolique; ing.
                                                        o de que o tratamento, longe de levar  resoluo
symbolic
                                                        de um distrbio preciso, sempre respeitando o
Termo extrado da antropologia* e empregado co-         contexto, reduza-se  reorganizao do univer-
mo substantivo masculino por Jacques Lacan*, a          so do paciente em funo das interpretaes
partir de 1936, para designar um sistema de repre-
                                                        psicanalticas". Quando a cura sobrevm pela
sentao baseado na linguagem, isto , em signos
                                                        adeso de uma coletividade a um mito fun-
e significaes que determinam o sujeito  sua
revelia, permitindo-lhe referir-se a ele, consciente
                                                        dador, isso significa que tal sistema  dominado
e inconscientemente, ao exercer sua faculdade de        por uma eficcia simblica. Da a idia, propos-
simbolizao.                                           ta em sua "Introduo  obra de Marcel Mauss",
    Utilizado em 1953 no quadro de uma tpica*, o       de que aquilo a que chamamos inconsciente*
conceito de simblico  inseparvel dos de imagi-       no seria seno um lugar vazio onde se consu-
nrio* e real*, formando os trs uma estrutura.         maria a autonomia da funo simblica: "Os
Assim, designa tanto a ordem (ou funo simbli-        smbolos so mais reais do que aquilo que sim-
ca) a que o sujeito est ligado quanto a prpria        bolizam. O significante precede e determina o
psicanlise*, na medida em que ela se fundamenta        significado."
na eficcia de um tratamento que se apia na fala.          Em 1953, Lacan apoiou-se nessa definio
    Embora tenha surgido desde 1936, no co-             para construir sua tpica do simblico, do real
mentrio de Jacques Lacan sobre a noo de              e do imaginrio,  qual acrescentou a noo de
estdio do espelho*, tomada de emprstimo do            parentesco*, extrada das Estruturas elemen-
psiclogo Henri Wallon (1879-1962), o termo             tares do parentesco. Com isso, pde analisar a
"simblico" s foi conceituado a partir de 1953.        famlia e, portanto, o complexo de dipo* no
Lacan ento o inscreveu numa trilogia, ao lado          quadro de um sistema estrutural, e no mais na
do real e do imaginrio.                                perspectiva evolucionista da passagem do ma-
    A idia de conferir uma funo simblica            triarcado para o patriarcado*, ou da horda sel-
aos elementos de uma cultura (crenas, mitos,           vagem para a sociedade ( maneira de Totem e
ritos) e de lhes atribuir um valor expressivo          tabu*).
caracterstica da prpria disciplina antropolgi-           Essa inverso de perspectiva (passagem do
ca. Mas foi na Frana*, com os trabalhos de             matriarcado para o parentesco) foi atestada por
Marcel Mauss (1872-1950), que se impuseram,             Lacan quando ele denominou de "funo sim-
frente ao funcionalismo e ao culturalismo* das          blica" o princpio inconsciente nico em torno
escolas inglesa e norte-americana, as noes de         do qual se organiza a multiplicidade das si-
"funo simblica" e "eficcia simblica". De-          tuaes particulares de cada sujeito. Na catego-
pois de Mauss, Claude Lvi-Strauss desenvol-            ria do simblico ele introduziu toda a reformu-
veu essa questo, a partir de 1949, trazendo para       lao tomada de emprstimo ao sistema de L-
a antropologia conceitos elaborados pela lin-           vi-Strauss: assim, o inconsciente freudiano foi
gstica moderna, em particular por Ferdinand           repensado como lugar de uma mediao com-
de Saussure (1857-1913) em seu Curso de lin-            parvel  do significante* no registro da lngua.
gstica geral, postumamente publicado.                 Na categoria do imaginrio foram alinhados os
                                                                                      Simmel, Ernst          715

fenmenos ligados  construo do eu*: capta-           Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 197-213; "Funo e campo
                                                        da fala e da linguagem em psicanlise" (1953), ibid.,
o, iluso, antecipao. Por fim, na categoria
                                                        238-324; "Le Symbolique, l'Imaginaire et le Rel"
do real foi colocado o "resto": uma realidade           (1953), Bulletin de l'Association Freudienne, 1, 1982,
desejante que  inacessvel a qualquer simboli-         4-13; O Seminrio, livro 1, Os escritos tcnicos de
zao.                                                  Freud (1953-1954) (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Jorge
                                                        Zahar, 1979; O Seminrio, livro 2, O eu na teoria de
    Em "Funo e campo da fala e da linguagem
                                                        Freud e na tcnica da psicanlise (1954-1955) (Paris,
em psicanlise", Lacan inscreveu uma doutrina           1978), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985; O Seminrio,
da anlise em seu sistema estrutural fazendo            livro 3, As psicoses (1955-1956) (Paris, 1981), Rio de
referncia a um texto de 1945, "O tempo lgico          Janeiro, Jorge Zahar, 1988, 2 ed.; O Seminrio, livro
e a assero de certeza antecipada", que expu-          4, A relao de objeto (1956-1957) (Paris, 1994), Rio
                                                        de Janeiro, Jorge Zahar, 1995; "Intervention sur l'expo-
nha sua concepo da liberdade atravs de uma           s de Claude Lvi-Strauss", Bulletin de la Socit
parbola lgica que punha em cena trs prisio-          Franaise de Philosophie, 3, 1956, 113-9; Le Smi-
neiros diante do diretor do presdio. Segundo           naire, livre XXII, R.S.I. (1974-1975), indito  Ferdinand
Lacan, o analista ocupa na anlise o lugar desse        de Saussure, Curso de lingstica geral (1915), S.
                                                        Paulo, Cultrix, 1979  Franoise Dolto, "Notes sur le
diretor:  aquele que promete a liberdade (ou a         stade du miroir", 16 de junho de 1936, indito  Claude
cura) a seu paciente, convidando-o a resolver,          Lvi-Strauss, As estruturas elementares do parentes-
tal como a Esfinge com dipo, o enigma da               co (Paris, 1949), Petrpolis, Vozes, 1976; "A eficcia
condio humana. O analista  mesmo um mes-             simblica" (1953), in Antropologia estrutural, Rio de
tre socrtico, mas sua mestria  limitada por           Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975, 215-36; "Introduction
                                                         l'oeuvre de Marcel Mauss", in Marcel Mauss, Socio-
duas fronteiras: por um lado, ele no sabe prever       logie et anthropologie (1950), Paris, PUF, col. "Qua-
qual ser o "tempo para compreender" de cada            drige", 1993, IX-LII  Jean Laplanche e Jean-Bertrand
sujeito; por outro, ele prprio est inscrito numa      Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.
ordem simblica. Se o homem fala porque o               Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Anika Lemaire,
                                                        Jacques Lacan (1969), Bruxelas, Mardaga, 1977  Jol
smbolo o fez homem, o analista no  mais do           Dor, Introduo  leitura de Lacan, 2 tomos, (Paris,
que um "suposto mestre":  um "praticante da            1985 e 1992), P. Alegre, Artes Mdicas, 1992 e 1996.
funo simblica". Lacan diria, mais tarde, que
ele  um "sujeito suposto saber". Seja como for,         LACANISMO; MALINOWSKI, BRONISLAW; MATE-
ele decifra uma fala, assim como um comenta-            MA: N BORROMEANO; OBJETO (PEQUENO) a; OU-
dor interpreta um texto.                                TRO; SAUSSURE, RAYMOND DE; TCNICA PSICA-
                                                        NALTICA.
    O conceito de simblico  inseparvel de
uma srie composta por outros trs conceitos: o
significante, a foracluso* e o Nome-do-Pai*.           simbolismo
O significante  de fato a prpria essncia da
                                                        al. Symbolik; esp. simbolismo; fr. symbolisme; ing.
funo simblica (sua "letra"), a foracluso  o        symbolism
processo psictico pelo qual o simblico desa-
                                                        Sistema de representao baseado em smbolos e
parece, e o Nome-do-Pai  o conceito mediante
                                                        destinado a exprimir crenas e transmitir tradies
o qual a funo simblica integra-se numa lei
                                                        e ritos.
que significa a proibio do incesto*.
                                                            Em psicanlise*, o termo simbolismo (ou sim-
    No contexto de sua reformulao estrutural,         blica, no feminino)  empregado criticamente a
Lacan conferiu ao simblico, at 1970, um               propsito dos sonhos*.
lugar dominante em sua tpica. A ordem das
                                                         INTERPRETAO DOS SONHOS, A.
instncias era ento S.I.R. Depois dessa data,
ele construiu uma lgica diferente, depositando
a nfase na primazia do real (e portanto, da            Simmel, Ernst (1882-1947)
psicose*), em detrimento dos outros dois ele-           psiquiatra e psicanalista americano
mentos. S.I.R. transformou-se ento em R.S.I.
                                                           Nascido em Breslau (Wroclaw), numa re-
                                                        gio da Polnia integrada ao imprio alemo,
 Jacques Lacan, Os complexos familiares na forma-
o do indivduo (Paris, 1984), Rio de Janeiro, Jorge
                                                        Ernst Simmel passou toda a infncia em Berlim,
Zahar, 1987; "O tempo lgico e a assero de certeza    onde sua me dirigia uma agncia de empregos.
antecipada" (1945), in Escritos (Paris, 1966), Rio de   At 1914, praticou a psiquiatria em um bairro
716     Simmel, Ernst

pobre da cidade e foi encarregado da direo de     Serviu de modelo para a organizao das gran-
um hospital psiquitrico militar durante a Pri-     des clnicas americanas. Vinte e cinco pacientes
meira Guerra Mundial. Foi ento que comeou         eram tratados todos os dias, entre 1927 e 1930,
a se familiarizar com a hipnose* e com as teorias   e Freud internou-se ali quando foi tratar-se de
freudianas, utilizando, no tratamento dos trau-     cncer em Berlim. Quando Simmel teve dificul-
mas ligados  guerra, um manequim no qual os        dades financeiras, foi ajudado pela generosa
pacientes podiam descarregar sua agres-             Marie Bonaparte*, por Dorothy Burlingham*,
sividade. Em 1918, publicou um livro sobre          por Raymond de Saussure* e pelo prprio
esse assunto, que foi elogiado por Sigmund          Freud, que lhe ofereceu um dos anis do Comit
Freud* em uma carta a Karl Abraham* de 17 de        Secreto* e assinou, com Albert Einstein (1879-
fevereiro: "Pela primeira vez, escreveu, um m-     1955), um apelo dirigido ao Ministro da Cultura
dico alemo se situa inteiramente, sem con-         da Alemanha*.
descendncia protetora, no terreno da psican-          A despeito de todos os esforos do movi-
lise*, defende a causa de sua utilidade eminente    mento freudiano, a clnica teve que fechar as
na terapia das neuroses de guerra*, prova-o com     portas em 1931. Simmel pensou ento em reno-
exemplos, e tambm mostra uma perfeita              var a experincia na Califrnia. Mas em 1933,
honestidade na questo da etiologia sexual.        foi preso pela Gestapo em razo de sua filiao
verdade que ele no seguiu a psicanlise em          Associao dos Mdicos Socialistas. Graas a
todos os pontos, limita-se, no fundo, a um ponto    Ruth Mack-Brunswick*, que pagou um resgate
de vista catrtico, procede por hipnose [...].      aos nazistas, conseguiu fugir para a Blgica e
Creio que um ano de formao faria dele um          para a Inglaterra, de onde foi para a costa oeste
bom analista."                                      dos Estados Unidos*, com a ajuda de Franz
    Em outubro, Simmel comeou uma anlise          Alexander* e Hanns Sachs*. As dependncias
com Abraham, que diminuiu o entusiasmo de           do Tegel foram ento ocupadas pelos SA.
Freud: "Ele no ultrapassou, de forma ne-               Em 1942, Simmel foi presidente da San
nhuma, o ponto de vista Breuer*/Freud. Tem          Francisco Psychoanalytical Society (SFPS), re-
fortes resistncias -- das quais ele prprio tem    cm-fundada por Siegfried Bernfeld* em 1941,
apenas uma idia confusa -- diante da sexuali-      e criou cinco anos depois, em Los Angeles, uma
dade* [...]. Talvez ele evolua."                    nova sociedade, dotada de um Instituto Psica-
    Apaixonado pela medicina hospitalar, Sim-       naltico, organizado conforme o modelo do de
mel integrou-se ao movimento psicanaltico,         Berlim: a Los Angeles Psychoanalytic Society
participando, com Max Eitingon*, da criao         (LAPS). Com Otto Fenichel* e Bernfeld, mili-
do Berliner Psychoanalytisches Institut* (BPI)      tou no seio da American Psychoanalytic As-
e da fundao da Policlnica. Neles desenvol-       sociation* (APsaA) pela anlise leiga*. Como
veu seminrios e anlises de superviso*, ocu-      eles, tinha saudades da velha Europa, lamentan-
pando-se tambm da redao de uma obra co-          do o aspecto "mecanicista" da psicanlise 
                                                    americana. Isso no o impediu de se tornar,
letiva sobre as neuroses de guerra*, que conti-
                                                    como muitos outros pioneiros do freudismo na
nha artigos dos pioneiros como Ernest Jones*,
                                                    Alemanha, um dos melhores representantes da
Sandor Ferenczi*, e outros, cujo prefcio Freud
                                                    psicanlise no continente norte-americano. Te-
redigiu.
                                                    ve uma clientela florescente, principalmente
    Com a morte de Abraham, em 1925, Simmel
                                                    nos meios do cinema hollywoodiano, que
foi eleito presidente da Sociedade Psicanaltica
                                                    atraam todos os intelectuais europeus persegui-
Berlinense, e no ano seguinte criou o seu sana-
                                                    dos pelo nazismo*.
trio, no Schloss Tegel, segundo o modelo das
                                                        Em 1993, na Alemanha, vrios eruditos do
grandes clnicas da poca: Bellevue, Burghlzli
                                                    freudismo, como Michael Schrter, Ludger Her-
etc. Ernest Freud foi encarregado da reforma
                                                    manns e Ulrich Schultz-Venrath, redescobriram e
interna da construo. O "castelo" de Tegel se
                                                    fizeram uma nova apresentao de sua obra.
tornou assim um dos centros de introduo dos
mtodos freudianos no tratamento das toxico-         Ernst Simmel, Kriegsneurosen und psychische Trau-
manias, das psicoses* e das neuroses* graves.       ma: Ihre gegenseitigen Beziehungen, dargestellt auf
                                                                                     Sobre os sonhos          717

Grund psychoanalytischer, hypnotischer Studien, Mu-          Luz, onde ela passava as frias, para continuar
nique e Leipzig, Otto Nemnich, 1918; Psychoanalysis
                                                             as sesses, que duravam duas horas.  a ele que
and the War Neuroses (Berlim, 1919), Londres, Inter-
national Psycho-Analytical Press, 1921; "Psychoana-          se atribui a frmula "Freud tornou o sexo res-
lytical treatment in a sanitarium", IJP, 1929, 10, 70-89;    peitvel e Melanie Klein tornou a agressividade
"The psychoanalytical sanitarium and the psychoana-          respeitvel." Em 1936, deixou Montreal e foi
lytical movement", Bull. Menninger Clinic, 1, 1937,          para Chicago, onde permaneceu at o fim de sua
133-43; "Self-preservation and the death instinct", Psy-
choanalytic Quarterly, 13, 1944, 160-85; Psychoana-
                                                             vida.
lyse und ihre Anwendungen. Ausgewhlte Schriften,
Frankfurt, Fischer, 1993  Franz Alexander, Samuel            Alan Parkin, An History of Psychoanalysis in Canada,
Eisenstein e Martin Grotjahn (orgs.), A histria da          Toronto, The Toronto Psychoanalytic Society, 1987 
psicanlise atravs de seus pioneiros (N. York, 1966)        Phillys Grosskurth, O mundo e a obra de Melanie Klein
Rio de Janeiro, Imago, 1981  Ici la vie continue de         (1986), Rio de Janeiro, Imago, 1992.
manire surprenante, seleo de textos traduzidos por
Alain de Mijolla, Paris, Association Internationale d'His-    CLARKE, CHARLES KIRK; GLASSCO, GERALD
toire de la Psychanalyse (AIHP), 1987  Nathan G.            STINSON; MEYERS, DONALD CAMPBELL.
Hale, Freud and the Americans, The Rise and Crisis of
Psychoanalysis in the United States, 1917-1985, t.II, N.
York, Oxford, Oxford University Press, 1995  Sigmund
Freud, "Introduo a A psicanlise e as neuroses de          Sobre os sonhos
guerra" (1919), ESB, XVII, 259-64; GW, XII 321-4; SE,        Ensaio de Sigmund Freud* publicado pela primeira
XVII, 205-10; Chronique la plus brve, Carnets intimes
                                                             vez em alemo, em 1901, sob o ttulo ber den
1929-1939, anotado e apresentado por Michael Molnar
(Londres, 1992), Paris, Albin Michel, 1992  Sigmund         Traum, numa coletnea dirigida por Leopold L-
Freud e Karl Abraham, Correspondance, 1907-1926              wenfeld (1847-1924) e Hans Kurella (1858-1916),
(Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard, 1969.                   intitulada Grenzfragen des Nerven und Seelenle-
                                                             bens. Reeditado em 1911, sob a forma de uma
                                                             brochura independente, acrescido de notas, diver-
                                                             sos pargrafos e um captulo sobre o simbolismo
Slight, David (1899-1985)                                    dos sonhos. Traduzido para o francs pela primei-
psiquiatra e psicanalista americano                          ra vez por Hlne Legros, em 1925, sob o ttulo Le
    Foi na regio francfona do Canad* que                  Rve et son interprtation, e mais tarde, em 1988,
David Slight desempenhou um papel impor-                     por Cornlius Heim, sob o ttulo Sur le rve. Tradu-
tante na histria da psicanlise* nesse pas. De             zido para o ingls por James Strachey*, em 1953,
origem escocesa, chegou a Montreal em 1926                   sob o ttulo On Dreams.
e, dois anos depois, foi nomeado diretor do                      Embora seu grande livro, A interpretao
consultrio externo da Universidade McGill.                  dos sonhos*, tenha sido relativamente bem aco-
Durante o vero de 1928, partiu em frias pelo               lhido pelos especialistas em psicopatologia,
mar Bltico, e comeou uma anlise didtica*                 Sigmund Freud* ficou terrivelmente decepcio-
com Franz Alexander*. Prosseguiu-a em Ber-                   nado com as treze crticas publicadas em diver-
lim e depois em Chicago, aps a emigrao de                 sas revistas mdicas entre 1899 e 1901. En-
Alexander para os Estados Unidos*. Instalan-                 quanto sua expectativa era que essa publicao
do-se como clnico em Montreal durante dez                   lhe trouxesse uma extraordinria celebridade e
anos, Slight preparou o terreno para a criao               uma boa clientela, esse livro magnfico, elabo-
do primeiro grupo psicanaltico canadense, que               rado por ele com vinte anos de antecedncia em
seria reconhecido pela International Psychoa-                relao a seu sculo, no foi saudado, naquela
nalytical Association* (IPA) depois da Segunda               ocasio, como o monumento maior de um gran-
Guerra Mundial. Membro da American Psy-                      de cientista, mas como um bom livro, escrito
choanalytic Association* (APsaA) em 1932,                    por um bom autor, e ao qual, no entanto, convi-
quis ir a Viena* para continuar sua formao                 nha dirigir algumas crticas.
com Anna Freud* na rea de psicanlise de                        Nesse contexto e por sugesto de Wilhelm
crianas*. Mas, a conselho de Edward Glover*,                Fliess*, Freud concordou em escrever uma ver-
ficou em Londres e fez um tratamento pouco                   so abreviada de Die Traumdeutung (57 pgi-
ortodoxo com Melanie Klein*. Durante o ve-                   nas) para uma obra coletiva dirigida pelo psi-
ro, encontrou-se com ela em Saint-Jean-de-                  quiatra Leopold Lwenfeld. Durante toda a pri-
718     sobredeterminao

mavera do ano de 1901, terminou com dificul-         Sigmund Freud, "Sobre os sonhos" (1901), ESB, V,
                                                    671-751; GW, III, 643-700; SE, V, 629-86; Paris, Galli-
dade a redao desse texto e, no momento da         mard, 1988, com prefcio de Didier Anzieu  Didier
correo, esqueceu-se de enviar suas provas ao      Anzieu, A auto-anlise de Freud e a descoberta da
editor. Em A psicopatologia da vida cotidiana*,     psicanlise (1959), P. Alegre, Artes Mdicas, 1989 
Freud analisa esse seu esquecimento como um         Norman Kiell, Freud without Hindsight. Review of his
                                                    Work 1893-1939, Madison, International Universities
medo de lesar o editor de A interpretao dos       Press, 1988.
sonhos e, a propsito desse assunto, evoca as
censuras que lhe fizera Jean Martin Charcot* na
ocasio em que ele havia acrescentado notas        sobredeterminao
traduo de seu livro, sem a autorizao do         al. berdeterminierung; esp. sobredeterminacin;
autor.                                              fr. surdtermination; ing. overdetermination
    Nesse opsculo, Freud deu continuidade a        Termo empregado em filosofia e psicologia para
seu trabalho de anlise de seus prprios sonhos,    designar, conforme as modalidades prprias de
em especial com o chamado sonho da "table           cada objeto, uma pluralidade de determinaes
d'hte": "Uma reunio social,  mesa ou table       que geram um dado efeito. Essa palavra foi utiliza-
d'hte (...) Come-se espinafre. (...) A sra. E.L.   da por Sigmund Freud*, em particular, na Interpre-
est sentada ao meu lado, vira-se inteiramente      tao dos sonhos*.
para mim e coloca a mo com familiaridade em            Se, para Freud, a noo de sobredetermina-
meu joelho. Afasto sua mo, num gesto de            o no tem o estatuto dos processos de con-
defesa. Ento, ela diz: `O senhor sempre teve       densao* e deslocamento* no trabalho do so-
olhos to bonitos (...)'. Vejo ento, vagamente,    nho*, acha-se estreitamente ligada a eles.
algo como o desenho de dois olhos, ou o contor-         A sobredeterminao  um efeito do trabalho
no de um par de culos (...)."                      de condensao. Freud expe isso a propsito
    Freud interpreta esse sonho como a expres-      da anlise que faz de seu sonho da "monografia
so de sua dificuldade de ter dvidas, de recla-    botnica": ele mostra que, nesse sonho, os ele-
mar o que lhe  devido e de fazer as coisas por     mentos "botnica" e "monografia" so ns, so
obrigao. Quando era pequeno, ele no gos-         pontos de condensao nos quais alguns pensa-
tava de espinafre: ora, o sonho mostra que,         mentos latentes do sonho puderam cristalizar-
apesar disso,  preciso com-lo. E.L.  identifi-   se, por se prestarem a mltiplas interpretaes:
cada como Bertha, a filha de Josef Breuer*, ao      "Podemos explicar de mais uma outra maneira
qual Freud devia dinheiro. Por ltimo, os culos    o fato que esclarece tudo isso, e dizer: cada um
remetem ao mdico oftalmologista Hans Ro-           dos elementos do sonho  sobredeterminado, 
                                                    como que representado diversas vezes nos pen-
senberg. Freud o presenteara com uma terrina
                                                    samentos do sonho."
antiga, decorada com um occhiale, isto , um
                                                        Ao estudar as modalidades do trabalho de
contorno de pinturas de olhos, que servia de
                                                    deslocamento, Freud constatou que a freqn-
proteo contra o mau-olhado. O mdico estava
                                                    cia dos elementos do sonho no estava cor-
"em dvida" com ele, que lhe encaminhara uma        relacionada  sua importncia. Para dar conta
cliente para que ele lhe prescrevesse culos.       dessa aparente contradio, explicou que somos
    Em 1988, o psicanalista francs Didier An-      "levados a supor que, no trabalho do sonho,
zieu deu uma interpretao diferente a esse         manifesta-se um poder psquico que, por um
sonho, que exprimiria a dificuldade de Freud de     lado, despoja elementos de alto valor psquico
redigir o livro. No lugar de E.L. ele viu, simul-   de sua intensidade, e, por outro, graas  sobre-
taneamente, Ida Bauer* (o caso Dora), cujo          determinao, confere um valor maior a ele-
tratamento Freud estava comeando nessa po-        mentos de menor importncia, de sorte que
ca, e Minna Bernays*, sua cunhada, com quem         estes podem penetrar no sonho".
ele se proibia de ter uma relao incestuosa.           A sobredeterminao, esclarecem Jean La-
Segundo Anzieu, esse sonho seria uma espcie        planche e Jean-Bertrand Pontalis, no implica
de prolongamento do "sonho da injeo de Ir-        que o sonho possa ser objeto de um nmero
ma*".                                               infinito de interpretaes, nem tampouco impli-
                                                         Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras        719

ca a independncia das significaes de que um              "horda selvagem" que Freud descreveria em
mesmo fenmeno pode revestir-se: "O fenme-                 Totem e tabu*, tomando emprestado esse tema
no a ser analisado  uma resultante; a sobrede-             de Charles Darwin (1809-1882). Sentados ao
terminao  um carter positivo, e no a sim-              redor de uma mesa oval, tinham a obrigao de
ples ausncia de uma significao nica e                   participar dos debates, sem ter direito de ler
exaustiva."                                                 papis preparados com antecedncia. A cada
                                                            reunio preparava-se uma urna contendo os
 Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),         nomes dos oradores. Uma vez realizado o sor-
ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
Paris, PUF, 1967  Jean Laplanche e Jean-Bertrand           teio, seguiam-se a conferncia e, depois, as
Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.      discusses.
Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.                             Ligados por uma insatisfao comum em
                                                            relao  cincia de sua poca, os homens das
                                                            quartas-feiras forneciam uma imagem bastante
Sociedade Psicolgica das                                   fiel da cultura da Mitteleuropa. Tal como o
Quartas-Feiras (Psychologische                              mundo em que viviam, eram dilacerados por
Mittwoch-Gesellschaft)                                      conflitos e, todas as vezes que se encontravam,
    Criada em 1902 por Sigmund Freud*, Al-                  ao falarem de seus casos clnicos, suas utopias
fred Adler*, Wilhelm Stekel*, Rudolf Reitler                ou sua aspirao a um novo mundo, e do incons-
(1865-1917) e Max Kahane (1866-1923), a So-                 ciente*, do sonho* ou da sexualidade*, estavam
ciedade Psicolgica das Quartas-Feiras foi o                tambm se referindo a seus prprios problemas,
primeiro crculo da histria do movimento psi-              a sua vida privada e a seus amores. O que os
canaltico. Existiu durante cinco anos, de 1902             impelia a compreender o semelhante era uma
a 1907, sendo ento substituda por uma verda-              curiosidade a respeito deles mesmos, de sua
deira instituio de tipo associativo, a Wiener             infncia, seus pais, sua identidade. Poucas mu-
Psychoanalytische Vereinigung (WPV), que                    lheres participariam das experincias desse ce-
serviu de modelo para todas as sociedades reu-              nculo masculino, que s vezes dava mostras de
nidas na International Psychoanalytical As-                 uma incrvel misoginia, em especial nas pes-
sociation* (IPA) a partir de 1910.                          soas de Isidor Sadger* e Fritz Wittels*.
    Verdadeiro banquete socrtico, banhado pe-                  Em 1902,  exceo de Freud, nenhum par-
lo esprito vienense do incio do sculo, a So-             ticipante era ainda psicanalista. Por volta de
ciedade das Quartas-Feiras foi um laboratrio               1904, Stekel e Paul Federn* comearam a exer-
de idias freudianas. Entre 1902 e 1907, ho-                cer a psicanlise e, quatro anos depois, uns bons
mens vindos de diversos horizontes reuniram-                50% dos membros da Sociedade haviam se
se em torno de um mestre, na casa dele na rua               transformado em psicanalistas, tendo todos si-
Berggasse, com o nico objetivo de ter suas                 do analisados por Freud ou Federn. As primei-
conscincias despertadas  luz da suprema in-               ras anlises no comportavam um curso nem
teligncia daquele que inventara uma nova dou-              um princpio didtico, e aqueles que as con-
trina: a psicanlise*.                                      duziram foram pioneiros de uma prtica ainda
    "No primeiro andar reunia-se uma dzia                  no codificada. Inventaram dia aps dia a tc-
deles", escreveu Michel Schneider, "todas as                nica da psicanlise, a clnica do tratamento, a
noites de quarta-feira do ano letivo, exatamente            exposio dos casos e a conceituao da doutri-
s nove horas. Todos j haviam jantado, mas                 na.
eram-lhes oferecidos charutos e caf (...). Quase               Em 1906, o jovem Otto Rank*, nomeado
todos eram judeus; a maioria compunha-se de                 secretrio, encarregou-se de estabelecer uma
mdicos, mas alguns eram filsofos, artistas                ata pormenorizada das sesses. Graas a ele, o
educadores, ou, vez por outra, simplesmente                 grupo teve acesso a um outro estatuto. O cen-
espritos eruditos e curiosos."                             culo transformou-se num lugar de memria. As
    O ritual era sempre o mesmo: formando um                famosas Minutas, primeiros arquivos da his-
cenculo em torno do "pai", os homens das                   tria do freudismo*, seriam cuidadosamente
quartas-feiras identificavam-se com a famosa                conservadas por Freud, que as salvaria do na-
720     Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras

zismo*, entregando-as a Federn, o qual, por sua    canlise j no passava de uma cidade fantasma,
vez, lhes confiaria a guarda a Hermann Nun-        perseguida pelo passado. Reduzida a pele de
berg*.  fascinante a leitura dessa transcrio    onagro pelos tratados de Versalhes, Trianon e
verbatim, nica nos anais da psicanlise, que      Saint-Germain, a ustria deixou de ser o centro
pe em cena o nascimento de um movimento,          nevrlgico da psicanlise e, no obstante as
a dialtica de um pensamento e a essncia de       esperanas que Freud depositava na Hungria*,
um dilogo.                                        foi o mundo ocidental anglfono que passou
    Em 1907, a Sociedade contava com 22            desde ento a dominar o movimento.
membros ativos, e Freud anunciou sua dissolu-          Assim, no foi por acaso que Freud confiou
o. No ano seguinte, ela se transformou numa      o precioso texto das atas a um vienense (Fe-
associao, a Wiener Psychoanalytische Verei-      dern), exilado como ele, que em seguida as
nigung (WPV), primeira instituio psicanalti-    transmitiria a outro vienense (Nunberg), trans-
ca do mundo. A febre dos primrdios dissipou-      formado em norte-americano. Essas Minutas
se ento em benefcio da razo institucional: a
                                                   so um testemunho da existncia daquele
Academia sucedeu ao banquete. Da a abolio
                                                   "mundo de outrora" to caro a Stefan Zweig*,
da regra que obrigava todos a usarem a palavra.
                                                   um mundo para sempre perdido: "Queramos",
A partir desse momento, apenas alguns partici-
                                                   escreveu Nunberg, "deixar que o prprio leitor
pantes figuraram como autoridades, falando na
                                                   visse como os participantes se influenciavam
presena de alunos transformados em ouvintes
silenciosos.                                       mutuamente, como aceitavam ou rejeitavam o
     horda ativa de 1902-1907 sucedeu-se,         que lhes era oferecido, e como, vez por outra,
pois, uma sociedade liberal moderna, regida        eram dominados por influncias, emoes e
pela regulamentao democrtica do direito        preconceitos alheios ao esprito da psicanlise.
fala e pela hierarquia de mestres e discpulos,    Queramos fazer do leitor uma testemunha das
embora as quartas-feiras fossem mantidas em        lutas que se desenrolaram na Sociedade vie-
respeito  tradio. Quando essa nova sociedade    nense e que permitiram a seus membros, ao
foi dissolvida, em 1910, no momento da criao     mesmo tempo, superar suas resistncias e se
da IPA, ela contava com 58 membros (dentre os      converter em psicanalistas competentes (...).
quais apenas uma mulher), sendo que somente        Dedico este estudo, portanto, ao velho crculo
27 deles eram mdicos. A maioria era formada       de amigos a que ele deve sua existncia, como
por judeus austracos, nascidos em diversas pro-   lembrana das horas estimulantes, consagradas
vncias do Imprio Austro-Hngaro: na Galcia      em comum  pesquisa intelectual."
(polonesa e russa), na Bukovina etc. Os outros
eram russos ou hngaros. Devemos ao paciente        Les Premiers psychanalystes, Minutes de la Socit
trabalho de Elke Mhlleitner o conhecimento        Psychanalytique de Vienne, 1906-1918, 4 vols. (N.
de seus nomes. Os que no tiveram oportuni-        York, 1962-1975), Paris, Gallimard, 1976-1983 com
                                                   uma "Introduo" de Hermann Numberg e uma "Apre-
dade de emigrar da ustria em 1938 pereceram       sentao" de Michel Schneider  Vincent Brome, Les
em campos de extermnio nazistas.                  Premiers disciples de Freud (Londres, 1967), Paris,
    Em 1910, uma nova WPV foi prontamente          PUF, 1978  lisabeth Roudinesco, Histria da psica-
reconstituda e integrada na IPA. As reunies      nlise na Frana, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro,
no mais se realizavam na residncia de Freud,     Jorge Zahar, 1989  Elke Mhlleitner, Biographisches
                                                   Lexikon der Psychoanalyse. Die Mitglieder der Psycho-
porm num salo chamado de colgio dos dou-
                                                   logischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener Psy-
tores. Nessa poca, nada mais restava da antiga    choanalytischer Vereinigung von 1902-1938, Tbin-
Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras. A        gen, Diskord, 1992  Edward Shorter, "The two medical
Academia havia se transformado numa ins-           worlds of Sigmund Freud", in Toby Gelfand e John Kerr
tituio, s voltas com disputas de escola. De-    (orgs.), Freud and the History of Psychoanalysis, Lon-
                                                   dres, The Analytic Press, 1992, 59-79  Ernst Falzeder
pois viriam as clivagens e as dissidncias, com
                                                   e Bernhard Handlbauer, "Freud, Adler et d'autres psy-
Stekel e Adler.                                    chanalystes. Des dbuts de la psychanalyse organise
    O relato das Minutas encerra-se em 1918,        la fondation de l'Association Psychanalytique Inter-
quando a Viena imperial que vira nascer a psi-     nationale", Psychothrapies, vol.XII, 4, 1992, 219-32.
                                                                         Sokolnicka, Eugnie           721

 CISO; COLE FREUDIENNE DE PARIS; HIST-          Paris. Apoiada por Ferenczi, realizou esse de-
RIA DA PSICANLISE; JUDEIDADE; TCNICA PSICA-      sejo com a concordncia de Freud, que entre-
NALTICA.                                          tanto no gostava dela e a tratava de "horrvel
                                                   pessoa". Mas decidiu-se a dar-lhe apoio at seu
                                                   encontro com Marie Bonaparte*.
s-depois
                                                       Sua passagem pelo Hospital Sainte-Anne
 A POSTERIORI.
                                                   foi de curta durao. No sendo mdica e tendo
                                                   um carter difcil, experimentou grandes difi-
Sokolnicka, Eugnie, ne Kutner                    culdades para se integrar aos meios psiquitri-
(1884-1934)                                        cos franceses, a despeito do apoio de Ren
psicanalista francesa                              Laforgue* e de douard Pichon*. Foi principal-
    Pioneira da psicanlise de crianas*, mem-     mente nos meios literrios que ela propiciou a
bro fundador da Sociedade Psicanaltica de Pa-     implantao das teses freudianas na Frana*.
ris (SPP), analista de Andr Gide (1869-1951)      No outono de 1921, o grupo da NRF a acolheu
e amiga dos escritores de La Nouvelle Revue        com entusiasmo e ela organizou em sua casa um
Franaise (NRF), essa polonesa, que teve um        grupo que foi apelidado de "Clube dos Recal-
destino trgico, nasceu em Varsvia em uma         cados", no qual se reuniam Jacques Rivire
famlia judia abastada e liberal. Sua me foi      (1886-1925), Roger Martin du Gard (1881-
militante na independncia polonesa, como          1958), Gaston Gallimard etc.
seus tios e seu av paternos. Educada por uma          Em seu romance Les Faux-monnayeurs, pu-
governanta francesa, foi para Paris com a idade    blicado em 1925, Gide lhe deu o nome de
de 20 anos e obteve uma licenciatura em cin-      Sophroniska e se inspirou no artigo que ela
cias na Sorbonne, assistindo tambm s aulas       publicou em 1920 no Internationale rztliche
de Pierre Janet* no Collge de France.             Zeitschrift fr Psychoanalyse* (IZP): "A an-
    Em 1911, orientou-se para a psiquiatria di-    lise de um caso de neurose obsessiva infantil".
nmica* e foi para a clnica do Hospital Burg-     Tratava-se do tratamento de um menino judeu
hlzli, onde seguiu os cursos de Carl Gustav       de 10 anos, originrio de Minsk. Eugnie o
Jung*. Em 1913, no momento da ruptura entre        analisara durante seis semanas, aplicando com
Viena* e Zurique, escolheu a via freudiana e       sucesso a tcnica da confisso e do tratamento
analisou-se com Sigmund Freud* durante um          curto. A histria desse caso, um dos primeiros
ano. Participou ento das reunies da Sociedade    do gnero depois do caso do Pequeno Hans
Psicolgica das Quartas-Feiras* e, em 1914, a      (Herbert Graf*) e de alguns artigos de Hermine
conselho do mestre, instalou-se em Munique,        von Hug-Hellmuth*, seria comentada por v-
onde no existia crculo freudiano. A guerra       rias vezes, primeiro pela escola inglesa e depois
obrigou-a a voltar para a Polnia e depois re-     na Frana, onde seria traduzida pela primeira
gressar a Zurique. Em 1918, estabeleceu-se em      vez em 1968 por Michel Gourevitch, com uma
Varsvia com a firme inteno de formar ali        apresentao de Daniel Widlcher.
uma sociedade psicanaltica, o que no conse-          Em 1934, marginalizada pela SPP e tendo
guiu.                                              apenas poucos clientes, Eugnie Sokolnicka se
    Em Budapeste, com o grande Sandor Fe-          suicidou, abrindo o gs na casa emprestada por
renczi*, retomou um tratamento cujos vestgios     douard Pichon, onde morava.
se encontram na correspondncia deste com
Freud. Eugnie se sentia perseguida e Ferenczi      Eugnie Sokolnicka "L'Analyse d'un cas de nvrose
identificou esses distrbios com traos parani-   obsessionnelle infantile" (1920), Revue de Neuropsy-
cos e erotomanacos. Ela tambm sofria de          chiatrie Infantile et d'Hygine Mentale de l'Enfance, 16,
depresso e de tendncia ao suicdio. Diante       maio-junho de 1968, 473-87  Andr Gide, Les Faux-
                                                   monnayeurs, Paris, Gallimard, 1925  lisabeth Rou-
dessa mulher difcil, Ferenczi, ao contrrio de
                                                   dinesco, Histria da psicanlise na Frana, 2 vols.
Freud, mostrou um talento clnico excepcional.     (Paris, 1982, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989,
    Sempre de partida para outro pas, em 1921     1988  Pascale Duhamel, Eugnie Sokolnicka (1884-
Sokolnicka expressou a vontade de voltar a         1934) entre l'oubli et le tragique, monografia para o
722      sonambulismo

certificado de estudos especiais de psiquiatria, Univer-   avam para explicar o sonho. Quando se lem-
sidade de Bordeaux-II, 1988.
                                                           bravam dele ao acordar, tomavam-no por uma
 FRANA; KLEIN, MELANIE; MORGENSTERN, SO-                  informao benevolente ou hostil de poderes
PHIE.                                                      superiores, deuses e demnios. Com a ecloso
                                                           do modo de pensar cientfico, toda essa mitolo-
                                                           gia, rica em mltiplos sentidos, transps-se para
sonambulismo                                               a psicologia e, atualmente, entre as pessoas
 BENEDIKT, MORIZ; BERNHEIM, HIPPOLYTE;                     cultas, resta apenas uma nfima minoria que
BREUER, JOSEF; CATARSE; CHARCOT, JEAN MAR-                 duvida que o sonho seja uma operao psquica
TIN; ESPIRITISMO; HIPNOSE; HISTERIA: JANET,                prpria do sonhador."
PIERRE; LIBEAULT, AUGUSTE; MESMER, FRANZ                      De fato, desde a mais remota Antigidade,
ANTON; PERSONALIDADE MLTIPLA; PSICOTERA-                  os textos corroboram o que Jean-Franois Lyo-
PIA; PSIQUIATRIA DINMICA; SUGESTO .
                                                           tard chamou de carter intrnseco e paradoxal
                                                           do sonho, a oposio entre a universalidade de
sonho                                                      sua experincia e sua singularidade intransmis-
al. Traum; esp. sueo; fr. rve; ing. dream
                                                           svel, contradio esta cuja resoluo retiraria
                                                           do sonho seu objeto. Se existe apenas um mun-
Fenmeno psquico que se produz durante o sono,
                                                           do para os homens despertos, constata Hercli-
o sonho  predominantemente constitudo por
imagens e representaes cujo aparecimento e
                                                           to, cada um deles encontra a singularidade no
ordenao escapam ao controle consciente do so-            sono, como atestam os sonhos. Para aquele que
nhador.                                                    Freud denomina, em seu "Suplemento metapsi-
    Por extenso, em especial a partir do sculo           colgico  teoria dos sonhos", de "o velho Aris-
XVIII, o termo designa tambm uma atividade cons-          tteles", o sonho  a atividade da alma do so-
ciente que consiste em imaginar situaes cujo             nhador, e Freud, no primeiro captulo de A
desenrolar desconhece as limitaes da realidade           interpretao dos sonhos, compraz-se em subli-
material e social. Nesse sentido, a palavra sonho         nhar que, para o autor da tica a Nicmaco, o
sinnima de viso, devaneio, idealizao ou fanta-         sonho j era um "objeto de investigao psico-
sia*, em suas acepes mais corriqueiras.
                                                           lgica".
    Sigmund Freud* foi o primeiro a conceber um
mtodo de interpretao* dos sonhos baseado no
                                                               Desde a Idade Mdia, a atitude dos filsofos
em referncias estranhas ao sonhador, mas nas              a respeito do sonho tem sido contraditria:
livres associaes que este pode fazer, uma vez            considerada falsa, absurda e to insensata quan-
desperto, a partir do relato de seu sonho.                 to as afirmaes dos dementes, a atividade on-
                                                           rica foi depreciada por Ren Descartes (1596-
    No campo psicanaltico, tamanho foi o im-
                                                           1650), que a mencionou para invalidar o depoi-
pacto do livro de Freud, A interpretao dos
                                                           mento dos sentidos em matria de estabeleci-
sonhos* (Die Traumdeutung), que a prpria
idia de sonho pareceu tornar-se indissocivel             mento da realidade. Ao contrrio, Baruch S-
da de interpretao: "Quando lemos a Traum-                pinoza (1632-1677) atribuiu ao sonho um lugar
deutung", escreveu Jean-Bertrand Pontalis,                 especfico. Na tica, negando que a suspenso
"tendemos a confundir o objeto da investigao             do juzo possa ser considerada um efeito de
-- o sonho -- com o mtodo e a teoria que ele              nossa livre vontade, Spinoza explica que temos
permitiu a seu autor constituir. (...) A Traum-            repetidamente a experincia desse limite em
deutung (...) no , para ns, o livro da anlise          nossos sonhos. "No creio que exista nenhum
dos sonhos, e menos ainda o livro do sonho, mas            homem", esclarece ele, "que, durante seu so-
o livro que, por intermdio das leis do logos do           nho, pense ter o livre poder de suspender seu
sonho, desvenda a lei de qualquer discurso e               juzo sobre aquilo com que est sonhando, e de
funda a psicanlise."                                      se fazer no sonhar com aquilo com que est
    "Em tempos que podemos chamar de pr-                  sonhando; e, no entanto, mesmo nos sonhos,
cientficos", escreveu Freud em seu opsculo               sucede-nos suspender nosso juzo quando so-
Sobre os sonhos*, "os homens no se embara-                nhamos que estamos sonhando."
                                                                                       sonho      723

    Se, para Georg Wilhelm Friedrich Hegel           interpretao. Ele se descobre o portador in-
(1770-1831), o sonho deve ser rejeitado, na          consciente dessa interpretao e, por conse-
condio de atividade que escapa  anlise dia-      guinte, esclarece Freud, no mais  objeto "do
ltica racional, ele se encontra, ao contrrio, no   bel-prazer do intrprete", como nos tempos da
cerne das preocupaes, sistemas e teorias da        Antigidade e como ainda acontece, diz ele,
maioria dos poetas e filsofos do romantismo         com "as estranhas explicaes de Wilhelm S-
alemo e de alguns de seus sucessores, desde         tekel*". A propsito disso, convm assinalar
Wilhelm von Schelling (1775-1854) at Frie-          que Freud, apesar de suas recomendaes de
drich Nietzsche (1844-1900), passando por Ar-        prudncia, tambm d um grande espao  sim-
thur Schopenhauer (1788-1860).                       bolizao, com isso abrindo caminho para in-
    Encontramos o mesmo interesse pelo sonho         terpretaes abusivas, bem como para a
entre os psiquiatras pioneiros da psiquiatria di-    concepo junguiana dos arqutipos, cuja inap-
nmica*, ancestrais remotos de Freud, em es-         tido para interpretar os sonhos  conhecida.
pecial na obra de Gothulf Heinrich von Schu-             O segundo legado da doutrina freudiana 
bert (1780-1860).                                    to subversivo quanto o mtodo de interpreta-
    Com o declnio do romantismo e o desen-          o baseado nas associaes do sonhador: com
volvimento de um pensamento positivista, que,        efeito, Freud considera o sonho como a realiza-
como mostrou Michel Foucault (1926-1984),            o de um desejo* inconsciente. O sonho como
inscreveu a desrazo na ordem da doena, o           exutrio, como via real de acesso ao reservat-
sonho foi relegado  categoria de puro produto       rio de paixes libidinais que  o inconsciente,
da atividade cerebral e, como tal, desprovido de     tal foi o mago dessa revoluo que seria reco-
sentido. Freud se empenharia em combater essa        nhecida pelos surrealistas, tendo  sua frente
concepo, nisso precedido pelos trabalhos de        Andr Breton (1896-1966). No entanto, e esse
Alfred Maury, Karl Albert Scherner ou do mar-         um fato confirmado, tal reconhecimento no
qus Hervey de Saint Denys (1823-1892), que          seria recproco, e Freud, to pronto a se queixar
se dedicaram  explorao do sonho como              do pretenso insucesso de sua Traumdeutung,
manifestao da atividade psquica.                  no chegou a apreciar nem a compreender
    A idia de interpretao do sonho foi            aqueles escritores e poetas para quem o sonho
contempornea, na histria, do reconhecimento        e sua interpretao constituam a grande aven-
da atividade onrica. Numa nota do segundo           tura do sculo.
captulo de sua Traumdeutung, Freud mencio-              Eufrico, no entanto, Andr Breton fez uma
nou obras de sua poca que haviam recenseado         visita a Freud em outubro de 1921. S que o
essa tradio nas culturas judaica, rabe, japo-     encontro se desenrolou num clima de perfeita
nesa, chinesa e hindu. Nas sociedades tradicio-      incompreenso. Breton fez dessa conversa um
nais, o sonho faz eco ao mito,  lenda e ao conto,   relato dadasta, no qual o humor e a ironia mal
e sua interpretao  obra do feiticeiro, do xam    chegaram a mascarar a decepo. Mesmo as-
ou do chefe, substitutos das potncias cosmo-        sim, os surrealistas continuaram a desenvolver
gnicas, cujo lugar, como mostraram os traba-        suas concepes psicanalticas, s quais Freud
lhos do etnlogo Pierre Clastres (1934-1977),        permaneceria decididamente fechado, mas cujo
freqentemente se distingue do lugar coercitivo      carter deliberadamente provocador alimenta-
do poder poltico.                                   ria as polmicas com a instituio psiquitrica
    O "passo  frente" que Freud anuncia ter         francesa, representada, em particular, por Pierre
dado, no segundo captulo de Die Traumdeut-          Janet* e Gatan Gatian de Clrambault*.
ung, concerne no  interpretao do sonho,              O sonho se manteve como a pedra de toque
mas  natureza da interpretao. A contribuio      desse dilogo impossvel. Em 1932, Breton
freudiana distingue-se, antes de mais nada, da       enviou a Freud um exemplar de seu livro Os
interpretao simblica e da decifrao por des-     vasos comunicantes, no qual foi o auto-intr-
locamento que esta efetua: o sonhador, atravs       prete, to sistemtico quanto possvel, de um de
das associaes mentais que realiza a partir do      seus sonhos. Essa remessa desencadeou uma
relato de seu sonho, passa a ficar na origem da      polmica entre os dois homens. Mas a discusso
724      Spaltung

referiu-se a aspectos superficiais, a questes de         Contribution  l'tude de la psychologie collective"
                                                          (1909), in Ouvres compltes, I, 1907-1914, Paris,
referncias ignoradas ou mal lidas, e no ao
                                                          Payot, 1965  Ludwig Binswanger, Rve et existence
essencial, ao reconhecimento ou no reco-                 (1930), Paris, Descle de Brouwer, 1954  Marguerite
nhecimento da infinitude da interpretao,               Bonnet, Andr Breton, Naissance de l'aventure sur-
questo designada por Octave Mannoni*, pos-               raliste, Paris, Jos Corti, 1975  Andr Breton, Entre-
teriormente, como sendo a do "umbigo do so-               tiens, Paris, Gallimard, col. "Ides", 1969; Les Vases
                                                          communicants (1932), Paris, Gallimard, col. "Ides",
nho". Freud no estava interessado nessas                 1977  Pierre Clastres, A sociedade contra o Estado:
discusses. No reconheceu na posio de Bre-             pesquisa de antropologia poltica (Paris, 1980), Rio de
ton sua concepo metapsicolgica do incon-               Janeiro, Francisco Alves, 1982, 2 ed.  Henri Deluy,
sciente, a compartimentao entre realidade               Anthologie arbitraire d'une nouvelle posie, Paris,
                                                          Flammarion, 1983. Henri F. Ellenberger, Histoire de la
psquica e realidade material, situada no extre-          dcouverte de l'inconscient (N. York, Londres, 1970,
mo oposto de qualquer idia de "vasos comuni-             Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994  Jean-Fran-
cantes".                                                  ois Lyotard, "Rve", Encyclopaedia universalis,
    Em dezembro de 1937, Breton voltou  car-             vol.XIV, 191-4; Discours Figure, Paris, Klincksieck,
                                                          1971  Octave Mannoni, Freud. Uma biografia ilustrada
ga, propondo a Freud que se associasse  publi-           (Paris, 1968), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994; "Le
cao de uma coletnea intitulada Trajetria do           Rve et le transfert" (1964), in Clefs pour l'imaginaire
sonho. Freud, sempre muito distante das                   ou l'Autre Scne, Paris, Seuil, 1969, 150-60  Jean-
concepes surrealistas, respondeu em tom                 Bertrand Pontalis, "La Pntration du rve" (1972), in
amvel, mas sem fazer a menor concesso:                  Entre le rve et la douleur, Paris, Gallimard, 1977 
                                                          lisabeth Roudinesco, Histria da psicanlise na Fran-
"Uma coletnea de sonhos", escreveu, "sem as              a, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
associaes que lhes so acrescentadas, sem o             1988  Marcel Scheidhauer, Le Rve freudien en
conhecimento das circunstncias em que o so-              France, Paris, Navarin, 1985  Baruch Spinoza, tica
nho teve lugar -- tal coletnea no significa             (1677), Rio de Janeiro, Ediouro, 1993  Jean S-
                                                          tarobinski, "Freud, Myers, Breton", L'Arc, 1968, 34,
nada para mim, e mal consigo imaginar o que               87-97.
possa querer dizer para outros."
    Por ironia da histria, a freqentao do              FRANA; HISTRIA DA PSICANLISE; MYERS,
movimento surrealista levaria o jovem Jacques             FREDERICK.
Lacan* a realizar, em meados da dcada de
1950, um "retorno a Freud" to provocador aos
olhos da esclerose pela qual o freudismo* co-
                                                          Spaltung
meava a ser atacado quanto tinham sido os
manifestos surrealistas para a psiquiatria fran-           CLIVAGEM (DO EU).
cesa dos anos vinte. Nesse sentido, Lacan ilus-
traria a afirmao de seu amigo Henri Ey*, que
reconhecia ter sido atravs do surrealismo, e             Spanudis, Theon (1915-1986)
no na literatura mdica, que, por sua parte, ele         escritor, mdico e psicanalista brasileiro
descobrira a importncia do freudismo. Apesar
disso, seria um erro, como sublinhou Jean Sta-                Nascido em Esmirna, Theon Spanudis emi-
robinski, num artigo intitulado "Freud, Myers,            grou para Viena*, onde, a partir de 1933, rece-
Breton", confundir as teses lacanianas sobre as           beu uma formao psicanaltica de August Ai-
relaes entre a linguagem e o inconsciente com           chhorn*. Depois de um segundo tratamento
a escrita automtica dos surrealistas.                    com Otto Fleischman, integrou-se  Sociedade
                                                          Brasileira de Psicanlise de So Paulo (SBPSP),
                                                          na qual exerceu uma atividade importante. Co-
 Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;     mo no escondia sua homossexualidade* e a
Paris, PUF, 1967; "Sobre os sonhos" (1901), ESB, V,       direo da International Psychoanalytical As-
671-751; GW, III, 643-700; SE, V, 629-86; Paris, Galli-   sociation* (IPA) no admitia homossexuais em
mard, 1988, com prefcio de Didier Anzieu; "Suplemen-     suas sociedades componentes, foi obrigado, no
to metapsicolgico  teoria dos sonhos" (1917), ESB,
XIV, 253-74; GW, X, 411-26; SE, XIV, 217-35; OC, XIII,
                                                          fim dos anos 1950, a deixar o grupo e renunciar
243-58  Sarane Alexandrian, Le Surralisme et le rve,    prtica da psicanlise*. Posteriormente, publi-
Paris, Gallimard, 1974  Karl Abraham, "Rve et mythe.    cou poemas e dedicou-se  crtica literria.
                                                             Spielrein, Sabina Nicolaievna       725

 Theon Spanudis, Skizzen und Klnge, Munique,      sobre os calcanhares, de modo a fechar o nus
ORA-Verlag, 1975; Novos poemas, S. Paulo, Kosmos,
                                                    e impedir a defecao at durante duas semanas
1978.
                                                    seguidas." Com a idade de 7 anos, renunciou a
 BRASIL.                                            essas prticas, mas entregou-se  masturbao.
                                                    Durante as refeies, pensava na defecao e
                                                    imaginava que todos  sua volta tambm pen-
Spielrein, Sabina Nicolaievna,                      savam nisso. Ao longo dos anos, a situao
esposa Scheftel (1885-1942)                         piorou. Com a idade de 18 anos, Sabina foi
psiquiatra e psicanalista russa
                                                    atingida por crises de depresso, alternando
                                                    lgrimas, risos e gritos convulsivos. Um ano
    Depois da publicao, em 1980, por Aldo
                                                    depois, teve um surto psictico. Seus pais deci-
Carotenuto e Carlo Trombetta, de um trabalho
                                                    diram ento trat-la na Sua*, na famosa clni-
sobre Sabina Spielrein, acompanhado de sua
                                                    ca do Hospital Burghlzli de Zurique. Entrou
correspondncia com Sigmund Freud* e Carl
                                                    em 17 de agosto de 1904 e permaneceu at 1
Gustav Jung*, de seu dirio e vrios de seus
                                                    de junho de 1905.
textos, essa psicanalista russa, esquecida pela
historiografia* oficial, foi objeto de muitos es-       Tratada por Jung, que experimentou com ela
tudos. Tornando-se um personagem romanes-           os princpios freudianos do tratamento psicana-
co, adquiriu uma celebridade to grande quanto      ltico, considerando-a como um caso de his-
a de Bertha Pappenheim* ou de Ida Bauer*.           teria*, ela se curou completamente de seus sin-
Deve-se dizer que sua histria  singular e         tomas. Fez ento estudos de medicina e orien-
reveladora de todos os mbeis transferenciais       tou-se para a psiquiatria. Entretanto, o trata-
do movimento psicanaltico.                         mento resultou em uma paixo incontrolvel
    Ao mesmo tempo paciente e estudante de          entre o terapeuta e a paciente. Como Sandor
psiquiatria, Sabina Spielrein participou, no co-    Ferenczi* e como muitos freudianos dessa po-
meo do sculo, do debate sobre a esquizofre-       ca pioneira, Jung no conseguia distinguir cla-
nia* em torno de Eugen Bleuler*. Depois, ex-        ramente amor e transferncia, ainda mais por-
perimentou o princpio da transferncia* e do       que tinha diante de si uma jovem de inteligncia
tratamento pelo amor, e tornou-se a testemunha      excepcional, que ele conseguira curar ao sedu-
privilegiada da ruptura entre Jung e Freud. Um      zi-la. Por sua idade e suas origens, ela poderia
foi seu amante e seu analista, outro seria seu      tornar-se sua esposa, caso ele j no fosse casa-
mestre. Mais tarde, inventou a noo de pulso*     do. Simultaneamente polgamo, sedutor e ob-
destrutiva e sdica, da qual nasceria a pulso de   cecado pelo pecado e a loucura*, Jung sempre
morte. Enfim, atravessou as duas grandes tra-       teve uma atrao particular pelo tipo de femini-
gdias que marcaram a histria do sculo XX:        lidade encarnado por Sabina, como mostra sua
o genocdio dos judeus na Europa e a transfor-      relao com sua prima Hlne Preiswerk*.
mao do comunismo* em stalinismo na Rs-               No sabendo como sair dessa situao, Jung
sia*.                                               confessou essa ligao a Freud, em uma carta
    Nascida em Rostov, Sabina Spielrein era de      de 7 de maro de 1909: "Ela fez um terrvel
uma famlia judia abastada e culta. Educada         escndalo, s porque recusei o prazer de conce-
segundo princpios tradicionais, manifestou         ber um filho com ela. Sempre me mantive, com
desde a infncia uma imaginao transbor-           ela, nos limites de um gentleman, mas apesar
dante, at o dia em que foi vtima de uma           de tudo no me sinto muito inocente aos olhos
alucinao: viu dois gatos ameaadores ins-         de minha conscincia, um pouco sensvel de-
talados sobre sua cmoda, o que a levou depois      mais, e  isso que mais me perturba, pois minhas
a ter angstias noturnas e uma fobia* por ani-      intenes sempre foram muito puras. Mas voc
mais e doenas. Por volta dos 4 anos, ocorreu       bem sabe que o diabo usa as melhores coisas
uma desordem mental em seu comportamento:           para produzir lama."
"Ela comeou a reter as fezes, escreveu Caro-           Inicialmente, Freud encarou o assunto com
tenuto, at o momento em que era obrigada a         bom humor. Zombou do estilo "teolgico" de
defecar. Depois, tomou o hbito de se sentar        Jung e de seu medo do diabo e do fogo do
726     Spielrein, Sabina Nicolaievna

inferno. Depois, quando recebeu em maio de           em Genebra. Integrada ao movimento psicana-
1909 uma carta de Sabina Spielrein solicitando       ltico, ensinou a doutrina freudiana. Seu aluno
uma entrevista, foi obrigado a intervir. Alm        e analisando mais clebre seria o psiclogo Jean
disso, seu delfim explicou que a jovem o perse-      Piaget (1896-1980). Seus ltimos artigos co-
guia.                                                nhecidos se referem  linguagem infantil,  afa-
    A interveno de Freud foi magistral. Ao         sia e  origem das palavras "papai" e "mame".
invs de se compadecer da vtima, aconselhou-a           Em 1923, com o apoio de Freud, decidiu
a resolver o problema sozinha, sem apelar para       voltar  Rssia. Props ento sua candidatura 
terceiros. No fundo, tentou persuadi-la o mais       Associao Psicanaltica Russa, que acabava de
racionalmente possvel a fazer o luto de uma         ser criada e que reunia o grupo de Moscou e o
relao passional sem futuro e a investir num        de Kazan. Instalando-se em Moscou no mo-
outro objeto de amor. Mas ento a mulher de          mento em que a situao se degradava para a
Jung enviou uma carta annima aos pais de            psicanlise*, participou da experincia educati-
Sabina, participando-lhes a ligao. Intimado a      va do Lar para Crianas, criado por Vera
se explicar, Jung se eximiu de qualquer res-         Schmidt*, ocupando ao mesmo tempo um lugar
ponsabilidade: ele no tinha, disse  me de         de chefe da seo de pedologia* na universi-
Sabina, o apangio da sexualidade* de sua filha      dade estatal. Foi durante esse perodo, crtico
e gostaria muito de se ver livre de suas pre-        para o regime sovitico, que ela afirmou a seus
tenses. De passagem por Zurique, o pai, como        prximos que "seria capaz de curar Lenin de sua
Freud, aconselhou Sabina a encontrar uma so-         doena."
luo sozinha. O que ela fez.                            Em 1924, voltou a Rostov, onde se encon-
    Diplomada em 1911 com uma tese sobre a           trou com o marido, o pai, e suas duas filhas,
esquizofrenia, trabalhou depois com intensi-         Renata e Eva. Oficialmente, exercia funes de
dade. A 25 de novembro, apresentou uma expo-         clnica geral mas, na verdade, sob a capa da
sio na Wiener Psychoanalytische Vereini-           pedologia, tratava de crianas delinqentes e
gung (WPV). Nela, expunha suas teses sobre a         problemticas pela psicanlise.
pulso de destruio, na qual Freud se inspiraria        A partir de 1935, foi apanhada, com toda a
em Mais-alm do princpio de prazer*, e que          sua famlia, pela engrenagem do sistema totali-
seriam publicadas em 1912, sob o ttulo "A           trio. Seu marido morreu de infarto em 1937 e
destruio como causa do devir". Nesse ano,          seus dois irmos, levados pelos expurgos, desa-
Sabina, completamente curada de seu episdio         pareceram no Gulag.
psictico, casou-se com um mdico judeu rus-             Em 1942, depois de muitos combates entre
so, Pavel Naoumovitch Scheftel. Freud ale-           o Exrcito Vermelho e as tropas alems, os
grou-se com esse casamento e com a gravidez          nazistas conseguiram ocupar a cidade de Ros-
de Sabina. Ele acabava de romper com Jung e          tov, onde fizeram reinar o terror. Comandos da
saiu de sua neutralidade para lhe expressar sua      morte executaram dezenas de milhares de habi-
feroz hostilidade contra o seu ex-delfim, o que      tantes e agruparam os judeus em colunas para
mostra que ele no estava mais preparado do          extermin-los. Em 27 de julho de 1942, Sabina
que a jovem para o sofrimento de um luto e de        Spielrein foi massacrada com suas duas filhas
uma amizade passional: "Da minha parte, como         na ravina de Viga da Serpente, em meio a cad-
voc sabe, escreveu ele, estou curado de qual-       veres cobertos de sangue.
quer seqela de predileo pelos arianos e quero         Depois da publicao da obra de Carotenuto,
crer que, se o seu filho for homem, ele se tornar   a historiografia* "revisionista" faria de Sabina
um inabalvel sionista. Ele tem que ser moreno,      Spielrein a vtima de uma manipulao "mas-
ou ento tornar-se moreno. Chega de cabeas          culina" sabiamente orquestrada por Jung e
louras [...]. Somos e continuamos a ser judeus."     Freud.
    Durante dez anos, Sabina Spielrein conti-
                                                      Sabina Spielrein, "ber den psychologischen Inhalt
nuou seus trabalhos e atividades clnicas na         eines Falles von Schizophrenie", Jahrbuch fr psy-
Alemanha*, na Sua e na ustria, principal-         choanalytische und psychologische Forschungen, 3,
mente no laboratrio de douard Claparde*           1911, 329-400; "La Destruction comme cause du de-
                                                                                     Strcke, August         727

venir" (1912), in Sabina Spielrein entre Freud et Jung,   de 1945, tornou-se um dos principais redatores
dossier descoberto por Aldo Carotenuto e Carlo Trom-
                                                          da revista The Psychoanalytic Study of the
betta (Roma, 1980), Michel Guibal e Jacques Nob-
court (org.), Paris, Aubier-Montaigne, 1981, 213-56;      Child, fundada por Anna Freud, Ernst Kris* e
"La Gense des mots enfantins papa et maman"              Heinz Hartmann*, sob a influncia da Ego Psy-
(1922), ibid., 337-42  Freud/Jung: correspondncia       chology*. Spitz reuniu muitos documentos ci-
completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1993      nematogrficos sobre os comportamentos da
John Kerr, "Beyond the pleasure principle and back
again", in Paul E. Stepansky (org.), Freud, Appraisals
                                                          primeira infncia, fez conferncias em muitos
and Reappraisals, N. Jersey, The Analytic Press, vol.3,   pases e formou alunos e colaboradores no seio
1988, 81-167  Jean Garrab, Histoire de la schizo-       da Denver Psychoanalytic Society (DPS), da
phrnie, Paris, Seghers, 1992  Victor Ivanovitch Ovt-    qual foi presidente em 1962-1963.
charenko, "Le Destin de Sabina Spielrein" (1992), L'-
volution Psychiatrique, t.60, janeiro-maro de 1995,       Ren Spitz, "Hospitalism", The Psychoanalytic Study
115-22.                                                   of the Child, I, 1945; "Infantile depression and the
                                                          general adaptation syndrome", in P.H. Hoch e J. Zubin,
 FREUDO-MARXISMO; JUDEIDADE; NAZISMO; RO-                 Depression, N. York, Grune and Stratton, 1954; O no
SENTHAL, TATIANA; WULFF, MOSCHE.                          e o sim (N. York, 1957), S. Paulo, Martins Fontes  Ren
                                                          Spitz e Godfrey Cobliner, O primeiro ano de vida (Paris,
                                                          1984), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 6 ed.

Spitz, Ren Arpad (1887-1974)                              ANNAFREUDISMO; AUBRY, JENNY; DOLTO,
mdico e psicanalista americano                           FRANOISE; PSICANLISE DE CRIANAS; WINNI-
                                                          COTT, DONALD WOODS.
    Clebre no mundo inteiro por seus trabalhos
sobre o hospitalismo* e sua psicologia, dita
"gentica", Ren Spitz nasceu em Viena* em
uma famlia hngara, tendo passado a infncia             Standard Edition of the Complete
em Budapeste, onde estudou medicina. Foi                  Psychological Works of Sigmund
Sandor Ferenczi* quem o enviou, em 1911, a                Freud (SE)
Sigmund Freud*, para fazer uma anlise did-               FREUD, SIGMUND; STRACHEY, JAMES; TRADU-
tica*. A partir de 1926, participou dos trabalhos         O (DAS OBRAS DE SIGMUND FREUD).
da Wiener Psychoanalytische Vereinigung
(WPV) e, em 1930, tornou-se membro da Deut-
sche Psychoanalytische Gesellschaft (DPG).                Strcke, August (1880-1954)
Depois de passar por Paris, emigrou para os               psiquiatra e psicanalista neerlands
Estados Unidos* em 1938. Inicialmente ins-                    Pioneiro do freudismo* nos Pases Baixos*,
talado em Nova York, fixou-se depois em Den-              August Strcke (ou Staercke) era de um meio
ver, no Colorado, onde desenvolveu suas pes-              de artesos e professores. Na famlia, foi seu
quisas, segundo os princpios de uma medicina             irmo mais novo, Johan Strcke (1882-1917),
preventiva inspirada nos trabalhos de Anna                morto prematuramente em 1917, o primeiro a
Freud* e Maria Montessori*. Ops-se  tese de             se interessar pela psicanlise, desde a publica-
Otto Rank* sobre o trauma do nascimento e                 o da Interpretao dos sonhos*.
tambm  idia kleiniana de posio depres-                   Membro da Wiener Psychoanalytische Ver-
siva*, para privilegiar o estudo da depresso             einigung (WPV) entre 1911 e 1917, August
anacltica*, do desmame e da formao do eu*.             Strcke comeou a traduzir para o neerlands a
    Foi nessa perspectiva de integrao da psi-           obra de Sigmund Freud*, publicando tambm
canlise*  psicologia gentica que se interes-           artigos seus sobre a abordagem psicanaltica
sou pelas primeiras relaes de objeto*, pelos            das psicoses*. Em 1921, no seu trabalho mais
estdios*, pelas carncias afetivas e pelos dis-          importante, "Psychoanalyse und Psychiatrie",
trbios da linguagem ligados  permanncia das            usou amplamente as teses de Sandor Ferenczi*
crianas pequenas em instituies hospitalares.           para desenvolver suas prprias posies sobre
Mostrou que cada idade era portadora de uma               o eu* e a repetio*. Alis, ao longo de sua
estruturao especfica, que resultava dos es-            correspondncia com Freud a respeito de Mais-
tdios precedentes e que sucedia a eles. A partir         alm do princpio de prazer*, expressou sua
728      Stekel, Wilhelm

discordncia sobre a questo da pulso* de                do inconsciente* e um verdadeiro talento de
morte.                                                    inventor e de agitador de idias novas.
   Como muitos freudianos de sua gerao*,                    A partir de 1902, esteve presente a todos os
Strcke no foi analisado. Hostil ao dogmatis-            grandes acontecimentos que marcaram a his-
mo, manifestou vivo interesse por todos os cam-           tria original do freudismo*. Em 1908, publi-
pos do saber -- entre os quais situava a psica-           cou uma obra prefaciada por Freud, Os estados
nlise. Foi notadamente um grande especialista            de angstia nervosa e seu tratamento, logo
em entomologia, e publicou uma centena de                 seguida de duas outras em 1911 e 1912: A
trabalhos sobre esse tema.                                linguagem do sonho e Os sonhos dos poetas. A
                                                          produo de Stekel era inesgotvel, sua ativi-
 August Strcke, "The reversal of the libido-sign in
delusions of persecution", IJP, 1, 1920, 231-4; "The      dade intensa e suas declaraes sempre exalta-
castration complex", IJP, 2, 1921, 179-201; "Psychoa-     das e at mesmo exibicionistas. Esse discpulo
nalyse und Psychiatrie", Beiheft IZP, 4, 1921  Franz     incmodo se interessava por todos os temas que
Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grotjahn            seriam teorizados por seu mestre, em especial
(orgs.), A histria da psicanlise atravs de seus pio-
neiros (N. York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981.
                                                          por Thanatos, do qual foi o primeiro a falar.
                                                          Interrogava-se tambm sobre a questo dos
                                                          "impulsos criminosos voltados contra si" e so-
Stekel, Wilhelm (1868-1940)                               bre o "recalque* na religio e na moral".
mdico e psicanalista austraco                               Freud admirava a imaginao de Stekel e sua
    Com Max Kahane (1866-1923), Rudolf                    capacidade inventiva. Mas logo se sentiu exas-
Reitler (1865-1917) e Alfred Adler*, esse m-             perado por sua falta de tato e sua indecncia.
dico foi o quarto membro do ncleo fundador               Em uma carta de 30 de dezembro de 1908,
da Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras*,             dirigida a Carl Gustav Jung*, chegou a trat-lo
que se tornaria, em 1908, a Wiener Psychoana-             de "porco total". Com efeito, Stekel teve que
lytische Vereinigung (WPV), modelo de todas               enfrentar os ataques de muitos discpulos do
as sociedades freudianas da International Psy-            primeiro crculo vienense, especialmente de
choanalytical Association* (IPA).                         Viktor Tausk*, que o acusou de inventar casos
    Nascido em Bojan, na provncia romena de              para justificar suas hipteses. O boato de mito-
Bucovina, Stekel era de uma famlia de comer-             mania foi depois retomado por Ernest Jones*.
ciantes judeus ortodoxos de lngua alem. De-                 Em julho de 1910, quando foi criado o Zen-
pois de estudar medicina em Viena*, instalou-se           tralblatt fr Psychoanalyse*, Stekel tornou-se
como clnico geral. Em 1895, publicou um ar-              seu co-redator, ao lado de Adler. Mas surgiu um
tigo sobre as experincias sexuais precoces               conflito a propsito de Tausk, e Freud decidiu
(coito) de crianas, que atraiu a ateno de              ento que ele deixaria a revista. A 6 de novem-
Freud e, ao ler A interpretao dos sonhos*,              bro de 1912, Stekel demitiu-se da WPV e um
sobre o qual redigiu um relatrio entusistico            ano depois, o Zentralblatt deixou de ser publi-
em 1902, tornou-se seu fervoroso discpulo:               cado.
"Eu era o apstolo de Freud, escreveu ele em                  Depois de Adler, Stekel foi portanto o segun-
sua Autobiografia, e ele era o meu Cristo."               do dissidente da histria da psicanlise* em
    Escritor prolixo, tinha um estilo enftico e          Viena. Na medida em que estava em jogo um
adotou as teses freudianas sobre a sexualidade*           caso de plgio, esse conflito tambm foi a repe-
com um sectarismo que certamente remetia a                tio daquele que ocorreu entre Sigmund Freud
seus prprios problemas neurticos. Efetiva-              e Wilhelm Fliess*. Em sua Autobiografia, S-
mente, foi para tratar de sua impotncia sexual           tekel declarou que Freud lhe roubara suas
e sua compulso patolgica  masturbao que              idias: "Ele usou minhas descobertas, escreveu,
consultou Freud. Fez uma anlise de algumas               sem mencionar meu nome. Em seus escritos
semanas, que pareceu alivi-lo sem eliminar os            posteriores, nem se refere  primeira edio do
seus sintomas. Obcecado pela questo do sexo              meu livro, no qual defini a angstia como uma
sob todas suas formas, tinha, alm disso, uma             reao do instinto de vida contra o ataque do
escuta muito intuitiva de todas as manifestaes          instinto de morte. Assim, muitos acreditam que
                                                                                 Sterba, Editha        729

o instinto de morte  uma das descobertas de         gangrena no p, suicidou-se em Londres, a 25
Freud."                                              de junho de 1940, em um quarto de hotel, com
    Depois da ruptura, Stekel tentou voltar ao       uma alta dose de insulina. A entrada dos nazis-
seio da Sociedade. Mas Freud se mostrou de           tas em Paris e a perspectiva de ver a peste negra
uma terrvel intransigncia, pois procurava, a       espalhar-se pela Europa inteira o tinham mergu-
partir de ento, livrar-se dos discpulos extrava-   lhado na melancolia*.
gantes da primeira hora, que, segundo ele, pre-
judicavam o trabalho cientfico. No fim de            Wilhelm Stekel, Nervse Angstzustnde und ihre
                                                     Behandlung, Viena e Berlim, Urban und Schwarzen-
1923, depois que Stekel lhe enviou uma carta         berg, 1908, com prefcio de Sigmund Freud, retomado
desejando-lhe um pronto restabelecimento,            in ESB, IX, 255-6; GW, VII, 467-8; SE, IX, 250-1;
aps a confirmao de seu cncer, Freud lhe          Technique de la psychothrapie analytique (Londres,
respondeu: "Quero desmentir sua afirmao,           1938), Paris, Payot, 1975; Autobiography. The Life
                                                     Story of a Pioneer Psychoanalyst, Emil A. Gutheil
tantas vezes repetida, de que me separei do sr.      (org.), N. York, Liveright Publishing Co., 1950  Les
em conseqncia de divergncias cientficas.         Premiers Psychanalystes. Minutes de la Socit Psy-
Isso causa um excelente efeito no pblico, mas       chanalytique de Vienne, 1906-1918, 4 vols. (1962-
no corresponde  verdade. So apenas e uni-         1975), Paris, Gallimard, 1976-1983  Elke Mhlleitner,
                                                     Biographisches Lexikon der Psychoanalyse. Die Mit-
camente suas qualidades pessoais -- o que se         glieder der Psychologischen Mittwoch-Gesellschaft
chama carter e comportamento -- que torna-          und der Wiener Psychoanalytischen Vereinigung von
ram, aos meus amigos e a mim, qualquer cola-         1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992  Vincent Brome,
borao com o sr. impossvel [...]. No sentirei     Les Premiers disciples de Freud (Londres, 1967), Pa-
                                                     ris, PUF, 1978  Henri F. Ellenberger, Histoire de la
nenhum despeito se ficar sabendo que suas            dcouverte de l'inconscient (N. York, Londres, 1970,
aes mdicas e literrias lhe granjearam o          Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994  Paul Roa-
sucesso. Reconheo que o sr. continuou fiel         zen, Freud e seus discpulos (N. York, 1976), S. Paulo,
psicanlise* e foi muito til a ela, mas tambm      Cultrix, 1978  Jean-Baptiste Fages, Histoire de la
                                                     psychanalyse aprs Freud (Toulouse, 1976), Paris,
muito a prejudicou."                                 Odile Jacob, 1996.
    Ao contrrio de Adler e de Jung, Stekel
continuou sendo, efetivamente, um adepto da           BISSEXUALIDADE; SEXUALIDADE; SUICDIO; TC-
psicanlise, ao mesmo tempo que prosseguia           NICA PSICANALTICA.
sua atividade literria, ora sob seu nome, ora
sob o pseudnimo de Serenus. Em suas peas
de teatro ou em suas narrativas, contava his-
                                                     Sterba, Editha,
trias de doentes que pareciam mais reais do         ne Radanowicz-Hartmann von
que suas observaes clnicas. Imitando Freud,       (1895-1986)
reuniu discpulos em torno de si e fundou uma
                                                     psicanalista americana
escola. Mas, principalmente, como Sandor Fe-
renczi* e os futuros fundadores da Escola de             Nascida em Budapeste, em uma famlia ca-
                                                     tlica, Editha Sterba fez seus estudos secun-
Chicago (de Franz Alexander* a Heinz Ko-
                                                     drios em Praga, onde seu pai tinha um alto
hut*), foi um dos primeiros clnicos a criticar as
                                                     posto no comando do exrcito austraco. Em
anlises interminveis dos freudianos e a pro-
                                                     Viena*, estudou filosofia e musicologia, antes
por um modelo de tratamento psicanaltico fun-
                                                     de se orientar para a psicanlise* e tornar-se
dado nos princpios da tcnica ativa.
                                                     secretria de Otto Rank* na Verlag. Trabalhou
    Quando os nazistas anexaram a ustria,
                                                     depois na realizao da primeira edio das
conseguiu fugir para a Sua*, e j em 1938
                                                     obras completas (Gesammelte Schriften) de
chegou  Inglaterra, onde fez uma brilhante
                                                     Sigmund Freud*, tratou de crianas, em contato
carreira. Quando Freud tambm emigrou, Ste-          com Anna Freud* e August Aichhorn*, e teve
kel enviou-lhe uma carta amistosa, evocando          o mesmo destino que seu marido Richard Ster-
com melancolia os primeiros momentos da psi-         ba*.
canlise vienense. Mais uma vez, reivindicou
seu status de ex-aluno do mestre venerado.            PSICANLISE DE CRIANAS; TRADUO (DAS
Sofrendo de diabete e sabendo-se atingido de         OBRAS DE SIGMUND FREUD).
730      Sterba, Richard

Sterba, Richard (1898-1989)                                Nachtragsband, 761; SE, XXII, 253; OC, XIX, 287-9 
                                                           Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psycho-
psiquiatra e psicanalista americano                        analyse. Die Mitglieder der Psychologischen Mittwoch-
    Nascido em Viena* em uma famlia catlica,             Gesellschaft und der Wiener Psychoanalytischen Ver-
Richard Sterba foi um dos raros membros da                 einigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992.
Wiener Psychoanalytische Vereinigung                        NAZISMO; SOCIEDADE PSICOLGICA DAS QUAR-
(WPV), no perodo entre as duas guerras, que               TAS-FEIRAS.
no era judeu. Depois de estudar medicina e de
seu casamento com Editha von Radanowicz-
Hartmann (Editha Sterba*), orientou-se para o              Stoller, Robert (1925-1991)
freudismo*, fez sua anlise didtica em 1924               psiquiatra e psicanalista americano
com Eduard Hitschmann* e exerceu ele prprio                   Nascido em Nova York, no Bronx, Robert
a psicanlise*, formando alunos.                           Stoller pertencia  terceira gerao* psicanal-
    Em 1931, a pedido do editor Albert Josef               tica americana. Estudou na Universidade de
Storfer, que realizou a primeira edio das obras          Columbia e depois instalou-se na costa oeste
completas de Sigmund Freud* (Gesammelte                    dos Estados Unidos*. Obteve seu doutorado em
Schriften), comeou a redao de um dicionrio             medicina em So Francisco, e foi nomeado em
de psicanlise (Handwrterbuch der Psychoa-                1954 professor de psiquiatria na Universidade
nalyse), que deveria ser publicado em 16 etapas.           da Califrnia de Los Angeles, onde criou a
O primeiro fascculo saiu no dia 6 de maio de              Gender Identity Research Clinic.
1936, por ocasio do octogsimo aniversrio de                 Apaixonado por histria, antropologia e li-
Freud, que redigiu uma carta-prefcio, dizendo             teratura, tornou-se, depois da Segunda Guerra
que o caminho da letra A  letra Z era muito               Mundial, o maior especialista americano em
longo. Quatro outros fascculos vieram depois,             perverses* sexuais, notadamente na questo
at o momento em que a ocupao da ustria                 do transexualismo*. Analisado por Hannah Fe-
pelos nazistas ps fim ao empreendimento.                  nichel, integrou-se  Los Angeles Psychoanaly-
    Em 1938, Sterba teve a coragem de recusar              tic Society (LAPS), e foi na costa californiana,
a poltica de "salvamento" da psicanlise, que             verdadeiro laboratrio hollywoodiano da
lhe props Ernest Jones*, como nico no-ju-               sexualidade humana, que ele inventou, para a
deu do conselho de administrao da WPV.                   psicanlise, a noo de gnero* (gender). Esta
Jones o aconselhou a se instalar em Johannes-              seria utilizada depois em muitas reas do saber.
burgo, na frica do Sul, a fim de ajudar Wulf              Stoller foi pois o pioneiro iconoclasta de uma
Sachs* a formar alunos. Este se mostrou                    renovao radical das interrogaes freudianas
interessado, encontrou-se com Sterba e sua mu-             sobre a identidade sexual, a diferena sexual*,
lher em Paris e tentou obter para eles um visto            o fetichismo* e a sexualidade* em geral. Con-
de emigrao. As autoridades de Pretria no o             testou a teoria clssica da sexualidade femini-
concederam.                                                na*, particularmente a noo de falocentris-
    Depois de um desvio pela Sua* e pela                 mo*, assim como a de perverso polimorfa,
Itlia*, os Sterba emigraram para os Estados               mostrando que, longe de serem simples
Unidos* no fim do ms de janeiro de 1939.                  fixaes em um estado infantil, as perverses
Instalaram-se primeiro em Chicago, e depois                sexuais so revanches ou tentativas de cura de
integraram-se  Sociedade Psicanaltica de De-             feridas antigas, recebidas na infncia.
troit. No fim de sua vida, Richard Sterba redigiu              Seu livro magistral, Sex and Gender, publi-
um belo depoimento sobre a prtica da psican-             cado em 1968, e traduzido para o francs sob o
lise em Viena, durante os anos 1920.                       ttulo Recherches sur l'identit sexuelle, o tor-
                                                           nou clebre no mundo inteiro e fez dele, com
 Richard Sterba, Handwrterbuch der Psychoana-            Michel Foucault (1926-1984), Thomas La-
lyse, 5 vols., Viena, Internationaler Psychoanalytischer   queur, lisabeth Badinter e muitos outros, um
Verlag, 1936-1938; Rminiscences d'un psychanalys-
te viennois (Detroit, 1982), Toulouse, Privat, 1986 
                                                           dos principais representantes da historiografia
Sigmund Freud, "Prefcio ao Dicionrio de psicanlise,     moderna em matria de estudos sobre a sexua-
de Richard Sterba (1936), ESB, XXIII, 309; GW,             lidade. Dedicou sua ltima obra a uma pesquisa
                                                                                    Strachey, Alix      731

sobre o sadomasoquismo*, praticado nas dife-              acidentalmente, algum tempo depois do nasci-
rentes saunas da comunidade gay de So Fran-              mento da filha.
cisco e nos pontos de encontro para heteros-                  Pintora e feminista, Mary Sargant estimulou
sexuais. Efetivamente, Stoller no foi apenas             sua filha, contra a vontade desta, a estudar artes
um clnico de consultrio, mas tambm um                  plsticas. Como seu irmo mais velho, Philip,
pesquisador de campo e um notvel antroplo-              Alix se interessava por antropologia*, filosofia
go das formas modernas da sexualidade huma-               e literatura. Em 1911, entrou para o Newnham
na. Nunca publicou seus casos sem a concor-               College de Cambridge, e durante seus estudos
dncia dos pacientes. Suas teses inovadoras               descobriu as obras de Sigmund Freud*. Desde
seriam contestadas por muitos psicanalistas.              a infncia, recusava-se a usar roupas femininas
   Morreu prematuramente em um acidente de                e, aos 20 anos de idade, aps um perodo de
carro, no famoso Sunset Boulevard.                        anorexia mental, teve sua primeira crise de
                                                          melancolia*. Depois de fazer uma longa via-
 Robert Stoller, Recherches sur l'identit sexuelle
(Londres, N. York, 1968), Paris, Gallimard, 1979; L'Ex-   gem, que a levou  Finlndia e  Rssia*, onde
citation sexuelle (N. York, 1979), Paris, Payot, 1984;    assistiu  irrupo da Primeira Guerra Mundial,
Pain and Passion: A Psychoanalyst explores the World      voltou a Londres e viveu com o irmo em um
of S & M, N. York, Plenum, 1991  Moustapha Safouan,      apartamento do bairro de Bloomsbury. Foi nes-
"Contribuio  psicanlise da transexualidade", in
Estudos sobre o dipo (Paris, 1974), Rio de Janeiro,      se grupo de intelectuais que encontrou James
Zahar  Agns Faure-Oppenheimer, Le Choix du sexe.        Strachey; j o conhecia de Cambridge e apaixo-
A propos des thories de Robert J. Stoller, Paris, PUF,   nou-se por ele. Seduzido por seu aspecto de
1980.                                                     rapaz melanclico, James, que era homos-
 HOMOSSEXUALIDADE; LIBIDO; SEXOLOGIA; TRS
                                                          sexual, achou-a encantadora, como confiden-
ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE.
                                                          ciou a seu irmo Lytton: "As mulheres so
                                                          detestveis, exceto uma deliciosa senhorita de
                                                          Bedales [...], um verdadeiro rapaz." Casaram-se
Strachey, Alix, ne Sargant-Florence                      em junho de 1920. Ambos apaixonados pelo
(1892-1973)                                               freudismo, foram a Viena*, onde James, levado
psicanalista inglesa                                      por Ernest Jones*, tinha uma hora marcada com
    O itinerrio de Alix Strachey  inseparvel           Freud para comear uma anlise.
do Grupo de Bloomsbury, formado por escri-                    Depois de uma crise de palpitaes, Alix pediu
tores ingleses do incio do sculo XX, que se             a opinio do "Professor". Freud no hesitou em
reuniram em torno de Lytton Strachey (1870-               analis-la tambm, e os dois tratamentos conti-
1932), Virginia Woolf (1882-1941), Dora Car-              nuaram simultaneamente at o inverno de 1921-
rington (1893-1932) e Roger Fry (1856-1934)               1922. Durante esse perodo, Alix e James come-
com o firme propsito de combater o esprito              aram a realizar a grande obra de suas vidas: a
vitoriano e afirmar uma nova concepo do                 traduo* completa da obra de Freud para o in-
amor, na qual pudessem expandir-se livremente             gls, a futura Standard Edition (SE).
as tendncias profundas do ser, principalmente                Em Berlim, junto a Karl Abraham*, Alix
a bissexualidade* e a homossexualidade*. To-              Strachey prosseguiu seu trabalho analtico em
dos consideravam o puritanismo a mais amea-               condies bem melhores do que em Viena. Ali,
adora forma de ditadura para a Gr-Bretanha*,            descobriu realmente o movimento psicanaltico
e foi no centro dessa contestao esttica e              em pleno desenvolvimento, encontrando no fa-
literria que surgiu a primeira escola inglesa de         moso Berliner Psychoanalytisches Institut*
psicanlise*, contempornea do nascimento da              (BPI) todos os astros da saga freudiana, sobre-
pintura ps-impressionista.                               tudo Melanie Klein*. Durante algum tempo,
    Nascida em Nutley, em New Jersey, Alix era            Alix levou uma vida trepidante: "O que ela
a segunda entre os filhos de Mary Sargant                 preferia acima de tudo, nessa poca, escreverem
(1857-1954) e de Harry Smyth (1864-1892),                 Perry Meisel e Walter Kendrick, era a dana, e
que adotara o nome de solteira de sua me                 isso durou por toda a vida; freqentava inme-
(Florence) quando se casou. Morreu afogado                ros bailes, sempre  procura, infelizmente v na
732      Strachey, James

maior parte do tempo, do parceiro adequado,                   A famlia Strachey se parecia com os perso-
que teria o seu porte e seus talentos. O es-              nagens que Lytton Strachey (1870-1932), irmo
petculo de Alix e Melanie, uma de camisola de            de James, descreveu em um livro intitulado
seda e com um cesto de vime servindo de cha-              Alguns vitorianos clebres.  noite, Sir Ri-
pu, outra fantasiada de Clepatra, evoluindo             chard, o pai, lia romances que lhe eram trazidos
na pista de dana s quatro da manh [...] teria          sobre uma bandeja de prata, e durante o dia
dado o que pensar aos analistas de hoje."                 absorvia-se em longos trabalhos cientficos. A
    Membro da British Psychoanalytical Socie-             me governava a casa.
ty (BPS) em 1922, comeou a praticar a psica-                 Entrando para o Trinity College de Cam-
nlise e, em 1926, retomou um tratamento com              bridge em 1905, James logo fez parte do Cen-
Edward Glover* e depois com Sylvia Payne                  culo dos Apstolos que combatiam a hegemo-
(1880-1976). Em 1950, fazia portanto 30 anos              nia de Oxford na formao do "gosto ingls", e
que estava em anlise. Ela prpria, como seu              depois da Sociedade da Meia-Noite, pequeno
marido, conservava seus pacientes indefinida-             crculo de intelectuais, que formariam poste-
mente. Durante as Grandes Controvrsias*, re-
                                                          riormente o Grupo de Bloomsbury, com Leo-
cusou-se, como James, a se filiar a um dos dois
                                                          nard Woolf, Lytton Strachey, Virginia Woolf
lados e aderiu ao terceiro grupo: os Indepen-
                                                          (1882-1941), Dora Carrington (1893-1932),
dentes*.
                                                          Roger Fry (1856-1934) e John Maynard Keynes
    Como James, permaneceu o que sempre fora
                                                          (1883-1946).
na juventude: uma no-conformista. Fiel ao
ideal Bloomsbury, que tanto contribuiu para o                 Homossexual como o irmo, James teve
desenvolvimento da psicanlise na Inglaterra,             uma paixo amorosa por um estudante, Rupert
levou assim uma vida contrria a todas as regras          Brooke, antes de encontrar Alix Sargant-Flo-
da BPS e no hesitou em exibir sua bissexuali-            rence*, que se tornaria sua mulher. Descobriu a
dade*. Se James gostava de homens amando                  obra de Freud pela leitura dos livros de Frede-
Alix ao mesmo tempo, Alix gostava de mulhe-               rick Myers*, e foi graas a Ernest Jones* que
res, continuando a ser a melhor companheira de            decidiu ir a Viena* com Alix para fazer uma
James.                                                    anlise com o "Professor". Esta comeou em
                                                          1920, e logo James iniciou a grande obra de sua
 Viviane Forrester, Virginia Woolf, Paris, L'quinoxe,   vida: traduzir Freud. Em Londres, retomou uma
1984  Perry Meisel e Walter Kendrick, Bloomsbu-          anlise com James Glover (1882-1926).
ry/Freud. James et Alix Strachey, Correspondance
1924-1925 (Londres, 1985), Paris, PUF, 1990.                  As primeiras tradues*, realizadas antes da
                                                          guerra por Abraham Arden Brill*, eram medo-
 ALEMANHA; KLEIN, MELANIE; MELANCOLIA.                    cres. No perodo entre as duas guerras, a fim de
                                                          contrabalanar os Estados Unidos* no seio da
                                                          International Psychoanalytical Association*
Strachey, James (1887-1967)                               (IPA), Jones teve a idia de realizar a traduo da
psicanalista ingls                                       obra completa, graas ao financiamento das socie-
    Tradutor da obra completa de Sigmund                  dades psicanalticas americanas, mas colocando o
Freud*, James Strachey no deveu ao acaso a               empreendimento sob a gide da Gr-Bretanha*,
realizao da famosa Standard Edition (SE),               fortaleza avanada do freudismo* na Europa. As-
mais lida no mundo inteiro, a partir dos anos             sim, baseou-se no talento de Strachey e no pblico
1970, do que o original alemo. Para ter sucesso          conquistado pelos Bloomsbury, depois da criao
em semelhante empreendimento, era preciso                 em 1917, por Leonard e Virginia Woolf, da pres-
ser capaz de assumir a obra de outro a ponto de           tigiosa Hogarth Press.
faz-la sua ao longo de toda uma vida. Foi                    Em setembro de 1939, Marie Bonaparte* se
atravs dessa exigncia de humildade e graas             disps a financiar o projeto, e Jones o confiou a
 colaborao de sua mulher e de Anna Freud*              Strachey, com a idia de publicar 24 volumes
que Strachey adquiriu uma verdadeira identi-              em 21 anos. Os primeiros foram publicados em
dade de escritor.                                         1953 e o vigsimo terceiro em 1966, um ano
                                                                  Strmme, Irgens Johannes              733

antes da morte do tradutor. O vigsimo quarto        teve grande repercusso, Freud e a alma huma-
saiu em 1974, depois da morte de Alix.               na, acusou-o de ter despojado o texto freudiano
    A Standard Edition  uma realizao admi-        de sua "alma alem" e de seu "esprito vie-
rvel, que nenhum tradutor no mundo conse-           nense". Mas, principalmente, atribuiu-lhe
guiu igualar. As notas e o aparato crtico so       injustamente a responsabilidade pela esclerose
retomados em numerosas edies estrangeiras          e pela medicalizao das sociedades da Interna-
da obra freudiana. Quanto  prpria traduo,        tional Psychoanalytical Association* (IPA).
nunca deixou de ser atacada.                         Como muitos autores, confundiu a problemti-
    Como todos os bons tradutores, James Stra-       ca da traduo com questes polticas e ideol-
chey no foi servil ao texto original. Seu traba-    gicas. Tambm cedia, alm disso,  idia muito
lho refletia suas prprias orientaes, sua          discutvel segundo a qual uma traduo pode
fantstica erudio, sua paixo pela lngua in-      ser a transcrio fiel da alma ou do esprito de
glesa e seu apego  tradio de Bloomsbury.          um povo ou uma nao. Em 1987, por ocasio
Tambm tinha a marca das transformaes que          do congresso da IPA em Montreal, Emmet Wil-
sofrera a escola inglesa de psicanlise depois da    son se ops a Bettelheim, solicitando ao mesmo
Segunda Guerra Mundial. Assim, ele tendia a          tempo o estabelecimento de uma nova edio
desprezar tudo o que ligava o texto freudiano        da obra completa de Freud em lngua alem.
ao romantismo alemo e  Naturphilosophie,
                                                      James Strachey, "Bibliography. List of english trans-
privilegiando seu aspecto mdico, cientfico e       lation of Freud's works", IJP, XXVI, 1-2, 1945, 67-76;
tcnico. Na verdade, Strachey obedecia  von-        "Editor's note", in The Standard Edition of the Complete
tade do prprio Freud de transformar a psican-      Psychological Works of Sigmund Freud, 24 vols., Lon-
lise em uma cincia, mesmo no fazendo justia       dres, The Hogarth Press, 1953-1974, t.III, 1962, 71-3;
                                                     "General preface", ibid., t.1, 1966, XIII-XXII  James
s qualidades literrias do mestre. Na lngua        Strachey e A.Tyson, "A chronological hand-list of
inglesa, essa vontade se expressava pela esco-       Freud's works", IJP, XXXVII, 1, 1956, 19-33  Viviane
lha de certas palavras latinas e gregas e por uma    Forrester, Virginia Woolf, Paris, L'quinoxe, 1984 
certa "anglicizao". Assim, para traduzir o         Perry Meisel e Walter Kendrick, Bloomsbury/Freud.
                                                     James et Alix Strachey, Correspondance 1924-1925
Isso* (Es), o Eu* (Ich) e o Supereu* (Uberich),      (Londres, 1985), Paris, PUF, 1990  Bruno Bettelheim,
Strachey utilizou os pronomes latinos Id, Ego,       Freud e a alma humana (N. York, 1982), S. Paulo,
Superego e, para investimento* (Besetzung) e         Cultrix, 1984  Emmet Wilson, "Did Strachey invent
ato falho* (Fehlleistung), recorreu a termos         Freud?", International Revue of Psycho-Analysis, 14,
                                                     1987, 299-315  Ilse Grubrich-Simitis, "Histoire de l'-
gregos: cathexis, parapraxis. Enfim, cometeu o       dition des oeuvres de Freud en langue allemande"
erro de traduzir pulso* por instinct, a pretexto    (1989), Revue Internationale d'Histoire de la Psycha-
de que o termo drive no existia em ingls.          nalyse, 4, 1991, 13-71  Riccardo Steiner, "Une marque
    Assim, Strachey contribuiu para acentuar o       internationale universelle d'authenticit. Quelques ob-
                                                     servations sur l'histoire de la traduction anglaise de
processo irreversvel de anglofonizao da dou-      l'oeuvre de Sigmund Freud, en particulier sur les
trina freudiana, processo ligado  situao po-      termes techniques", ibid., 71-188.
ltica: o nazismo* e, mais ainda, o Tratado de
Versalhes foram responsveis pela migrao            BISSEXUALIDADE; HOMOSSEXUALIDADE; ISSO;
para a Gr-Bretanha e os Estados Unidos da           NOVAS CONFERNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE
totalidade dos psicanalistas de lngua alem.        PSICANLISE; ORTEGA Y GASSET, JOS; PICHON,
Quanto aos russos e aos hngaros, estes j           DOUARD; RIVIERE, JOAN; WINNICOTT, DONALD
estavam germanizados por razes polticas por        WOODS.
volta dos anos 1920, e todos se tornaram angl-
fonos a partir de 1933. Por conseguinte,  difcil
acusar Strachey de ser o nico responsvel por       Strmme, Irgens Johannes
essa evoluo.                                       (1876-1961)
    Foi Bruno Bettelheim*, que tambm se tor-        psiquiatra e psicanalista noruegus
nou anglfono pela sua emigrao para os Es-             Analisado por Oskar Pfister*, formado na
tados Unidos, que se mostrou mais virulento em       clnica do hospital Burghlzli por Eugen Bleu-
relao a Strachey. Em 1982, em uma obra que         ler*, Johannes Strmme foi um dos pioneiros
734      Studienausgabe

da psicanlise* na Noruega. Durante algum                no sexual, investindo objetos socialmente valori-
tempo esteve prximo de Carl Gustav Jung* e              zados.
de Herbert Silberer*, e foi marcado pela pas-                Em vez de utilizar a noo hegeliana de
sagem de Wilhelm Reich* pelo seu pas. Como              Aufhebung (revezamento, substituio), que
muitos escandinavos, desviou-se da psicanlise           designa o prprio movimento da dialtica em
clssica, preferindo outras prticas psicotera-          sua capacidade de converter o negativo em ser,
puticas.                                                Sigmund Freud adotou o termo sublimao,
    Com Poul Bjerre* e Sigurd Naesgaard*,                mais nietzschiano, oriundo do romantismo ale-
participou, em dezembro de 1933, da criao do           mo, para definir um princpio de elevao
grupo Psykoanalytisk Samfund. Entrou em                  esttica comum a todos os homens, mas do qual,
conflito com Harald Schjelderup*, que conti-             a seu ver, s eram plenamente dotados os cria-
nuava a defender o freudismo*, e props uma              dores e os artistas.
tcnica de tratamento fundada em atos. Preco-                Sem dvida, Freud atribua  sublimao um
nizava, por exemplo, a masturbao como meio             lugar ainda maior, na medida em que ele mesmo
teraputico. Essas transgresses no o impedi-           declarou que, a partir dos 40 anos de idade, aps
ram de ser um bom terapeuta. Desenvolveu                 o nascimento de seu quinto filho, havia pratica-
teses sobre a doena mental que seriam retoma-           mente suspendido qualquer relao carnal e
das pelos artfices da antipsiquiatria*. Em 1927,        posto sua atividade pulsional a servio de sua
analisou durante um ano o escritor Knut Ham-             obra, assim se inscrevendo no panteo dos gran-
sun (1859-1952), que sofria de depresso e               des homens a quem admirava.
inibio. O trabalho foi benfico. Posteriormen-             Foi em 1905, em seus Trs ensaios sobre a
te, Marie Hamsun, esposa do escritor, tornou-se          teoria da sexualidade*, que ele deu sua primei-
sua paciente.                                            ra definio da sublimao. Depois disso, em
                                                         toda a sua obra, e especialmente nos textos
 ESCANDINVIA.
                                                         reunidos sob a categoria de psicanlise aplica-
                                                         da*, a sublimao serviu para compreender o
                                                         fenmeno da criao intelectual.
Studienausgabe
                                                             Com a introduo da noo de narcisismo*
 FREUD, SIGMUND; MITSCHERLICH, ALEXAN-                   e a elaborao de sua segunda tpica*, Freud
DER; TRADUO (DAS OBRAS DE SIGMUND
                                                         acrescentou  idia de sublimao a de des-
FREUD).
                                                         sexualizao. Assim, em O eu e o isso*, subli-
                                                         nhou que a energia do eu*, como libido* des-
                                                         sexualizada,  passvel de ser deslocada para
subconsciente
                                                         atividades no sexuais. Nesse sentido, a subli-
 INCONSCIENTE.                                           mao tornou-se dependente da dimenso nar-
                                                         csica do eu.
                                                             Entre os herdeiros de Freud, o conceito de
sublimao                                               sublimao quase no sofreu modificaes.
al. Sublimierung; esp. sublimacin; fr. sublimation;     No obstante, os partidrios de Anna Freud
ing. sublimation                                         consideram esse mecanismo como uma defesa*
Termo derivado das belas-artes (sublime), da qu-        que leva  resoluo dos conflitos infantis, ao
mica (sublimar) e da psicologia (subliminar), para       passo que os de Melanie Klein* vem nele uma
designar ora uma elevao do senso esttico, ora         tendncia a restaurar o objeto bom* destrudo
uma passagem do estado slido para o estado              pelas pulses agressivas.
gasoso, ora, ainda, um mais-alm da conscincia.             Em 1975, o psicanalista francs Cornelius
   Sigmund Freud* conceituou o termo em 1905             Castoriadis elaborou uma teoria original da su-
para dar conta de um tipo particular de atividade        blimao, transpondo o conceito para o campo
humana (criao literria, artstica, intelectual) que
                                                         do fato social.
no tem nenhuma relao aparente com a sexuali-
dade*, mas que extrai sua fora da pulso* sexual,        Anna Freud, O ego e os mecanismos de defesa
na medida em que esta se desloca para um alvo            (Londres, 1936), Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira,
                                                                                              sugesto       735

1982, 6 ed.  Melanie Klein, "Situaes de ansiedade        de que, atravs da fala, uma pessoa pode influen-
infantil refletida numa obra de arte e no impulso criador"   ciar outra e, com isso, modificar seu estado afetivo.
(1929), in Contribuies  psicanlise (Londres, 1948),
                                                                 Foi ao abandonar a sugesto em favor da ca-
S. Paulo, Mestre Jou, 1970  Baldine Saint-Girons,
"Sublimation", Encyclopaedia universalis, 15, 1968,          tarse* que Sigmund Freud inventou a psicanlise*.
468-71  Cornelius Castoriadis, L'Institution imaginaire
de la socit, Paris, Seuil, 1975.                               Aps sua temporada em Paris, no servio de
                                                             Jean Martin Charcot*, em 1885, Sigmund
 DELRIOS E SONHOS NA "GRADIVA" DE JENSEN;                   Freud comeou a tratar seus pacientes por meio
LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANA DE SUA                     das mais variadas tcnicas, dentre elas a suges-
INFNCIA .                                                   to hipntica. Em pouco tempo, ouviu falar dos
                                                             trabalhos da Escola de Nancy, fundada por
                                                             Auguste Libeault*, e dos avanos que lhe eram
Sucia                                                       trazidos por Hippolyte Bernheim*. Este sus-
 ESCANDINVIA.                                               tentava a idia de que a hipnose era um efeito
                                                             da sugesto: por isso se opunha a Charcot e 
                                                             concepo que ele tinha da hipnose como um
Sugar, Nikola (1897-1945)                                    estado patolgico prprio dos histricos.
psiquiatra e psicanalista iugoslavo                              Herdeiro da primeira psiquiatria dinmica,
    Nascido em Subotica, na Eslavnia, e oriun-              Bernheim inventou ento, "contrariando"
do de uma famlia judia, Nikola Sugar tentou,                Charcot, o princpio da psicoterapia*, passando
no perodo entre as duas guerras, com Stjepan                da sugesto hipntica para a sugesto verbal:
Betlheim*, implantar um movimento psicana-                   com efeito, mostrou que o olhar j no era
ltico na Iugoslvia. Analisou-se em Berlim                  necessrio para mergulhar o paciente num es-
com Felix Boehm*, futuro colaborador dos na-                 tado de sonambulismo e que, atravs da fala,
zistas, tornou-se membro da Wiener Psychoa-                  obtinham-se os mesmos resultados.
nalytische Vereinigung (WPV) em 1925 e tra-                      Em 1889, Freud traduziu o livro de Bern-
balhou com Paul Schilder*, antes de se integrar              heim sobre a sugesto e suas aplicaes tera-
 Sociedade Psicanaltica de Budapeste. Depor-               puticas. Em seguida, foi a Nancy e a Paris, para
tado em 1944, morreu no campo de extermnio                  assistir ao I Congresso Internacional de Hipno-
de Theresienstadt, a 15 de maio de 1945.                     tismo Experimental e Teraputico. At 1893,
                                                             hesitou entre trs orientaes teraputicas: a
 Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der Psy-
choanalyse. Die Mitglieder der Psychologischen Mitt-         hipnose de Charcot, a sugesto de Bernheim e
woch-Gesellschaft und der Wiener Psychoanalytis-             a catarse de Josef Breuer*. Por fim, afastou-se
chen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen, Diskord,           sucessivamente de todas trs e, no ltimo cap-
1992.                                                        tulo dos Estudos sobre a histeria*, exps sua
                                                             prpria concepo da psicoterapia, organizada
 HISTRIA DA PSICANLISE; HUNGRIA; VIENA.
                                                             em torno do mtodo das associaes livres (ou
                                                             livre associao*). No ano seguinte, esse mto-
sugesto                                                     do assumiria o nome de "psico-anlise" (psica-
                                                             nlise).
al. Suggestion; esp. sugestin; fr. suggestion; ing.
suggestion                                                       Para ilustrar o que distinguia esse mtodo de
                                                             todos os que se inspiravam na sugesto, Freud
Termo que designa um meio psicolgico de con-
                                                             apoiou-se, num artigo publicado em 1905,
vencer um indivduo de que suas crenas, suas
opinies ou suas sensaes so falsas, e de que,
                                                             "ber Psychotherapie", na diferena estabele-
inversamente, as que lhe so propostas so verda-            cida por Leonardo da Vinci (1452-1519) entre
deiras.                                                      a pintura e a escultura. A tcnica da sugesto,
   Na histria da psiquiatria dinmica*, d-se o             disse Freud, era comparvel  pintura, que pro-
nome de sugesto a uma tcnica psquica, inicial-            cede per via di porre, isto , por uma aplicao,
mente herdada do magnetismo de Franz Anton                   "sem se preocupar com a origem, a fora e a
Mesmer* e, mais tarde, do hipnotismo (hipnose*)              significao dos sintomas mrbidos". A suges-
de James Braid (1795-1860), que repousa na idia             to, portanto, era tida como suficientemente
736     sugesto

forte para poder "entravar as manifestaes pa-      conjunto das manifestaes sociais (ou mul-
tognicas".                                          tides): a sugesto recproca dos indivduos,
    Quanto ao mtodo analtico, Freud o com-         isoladamente considerados, e o prestgio dos
parou  escultura: ele procede per via di levare.    lderes: "Somos assim preparados para a afir-
Em outras palavras, visa "retirar, extirpar algu-    mao de que a sugesto (mais exatamente, a
ma coisa, e, para tanto, preocupa-se com a           sugestionabilidade)  de fato um fenmeno pri-
gnese dos sintomas mrbidos e das ligaes          mrio e irredutvel, um fato fundamental da
destes com a idia patognica que ele pretende       vida psquica do homem. Isso era o que tambm
suprimir". Freud esclarece ento: "Renunciei         pensava Bernheim, de cuja espantosa habili-
rapidamente  tcnica da sugesto e, com ela,       dade fui testemunha em 1889. Mas no perdi a
hipnose, porque no tinha esperana de tornar        lembrana da hostilidade surda que j ento eu
os efeitos da sugesto suficientemente eficazes      experimentava contra essa tirania da sugesto
e duradouros para levar uma cura definitiva."        (...). Minha resistncia orientou-se, pos-
    Essa renncia  sugesto como recurso tc-       teriormente, para a revolta contra o fato de a
nico no implicou o esquecimento da idia de         sugesto, que tudo explicaria, dever, por seu
sugesto como modalidade do funcionamento            turno, ser dispensada de explicao."
psquico, como demonstram estas afirmaes               Na Psicologia das massas, portanto, Freud
de Freud sobre a questo da transferncia:           preferiu abolir a fronteira entre os fenmenos
"Uma anlise sem transferncia  impossvel",        da psicologia individual e os do mbito da
escreveu; "No se deve supor que  a anlise         psicologia coletiva. Por isso formulou a hip-
que cria a transferncia e que esta s se encontra   tese de que "as relaes amorosas (ou, em ter-
nela." De fato, Freud preservou a idia do tra-      mos neutros, os laos sentimentais) constituem,
tamento pela fala e mostrou que sua fonte se         igualmente, a essncia da alma das multides",
encontrava na transferncia. Como fenmeno           e esclareceu que, em Gustave Le Bon ou em
geral da relao afetiva, induzindo uma cura         McDougall, "no se trata dessas relaes", pois
pelo amor ou pelo esprito, a transferncia tinha    "o que corresponderia a elas  manifestamente
que ser analisada, para no se reduzir  suges-      dissimulado por trs da tela, do anteparo da
to: "Com muita freqncia", disse ele, "a trans-    sugesto".
ferncia, por si s,  o bastante para suprimir os       Ali onde a explicao tautolgica da suges-
sintomas mrbidos, porm temporariamente e           to explicava a transformao psquica do in-
apenas enquanto dura. Em tais casos, o trata-        divduo na multido (fascinao pelo lder e
mento no pode ser qualificado de psicanlise,       conduta imitativa dos indivduos uns em rela-
tratando-se apenas de sugesto. O nome psica-        o aos outros), Freud estabeleceu que se trata-
nlise s se aplica aos processos em que a           va, na realidade, de uma limitao aceita do
intensidade da transferncia  utilizada contra      narcisismo*, gerada pela relao com o "lder".
as resistncias*."                                   Com efeito, para cada indivduo imerso na mul-
    Em 1920, Freud deparou pela segunda vez          tido, o lder ocupa o lugar do ideal do eu*, e
com a problemtica da sugesto, no momento           sua onipotncia  limitada pela instaurao de
em que, desejoso de abrir "o caminho que vai         um lao amoroso horizontal entre os membros
da anlise do indivduo  compreenso da so-         da massa.
ciedade", empreendeu a redao da Psicologia             A sugesto (como tcnica psquica) seria
das massas e anlise do eu*. Antes dele, Gus-        conservada, sob diversas formas, por numero-
tave Le Bon (1841-1931), William McDougall,          sas escolas de psicoterapia. Do mesmo modo, a
fundador da psicologia social norte-americana,       idia de sugesto seria periodicamente reatuali-
e Gabriel Tarde (1843-1904) haviam abordado          zada para explicar, em termos de engodo, fasc-
esse campo, explicando o comportamento cole-         nio ou simulao, os fenmenos transferenciais.
tivo atravs da sugesto.                                Era nesse impasse que se encontrava o his-
    Contrariando esses autores, Freud recusou-       toriador Marc Bloch (1886-1944) em 1924. To-
se a utilizar a "mgica" palavra sugesto e          talmente desconhecedor da reflexo freudiana,
sublinhou que Le Bon reduzia a dois fatores o        mas procurando compreender a natureza do
                                                                                              Sua      737

poder teraputico dos reis taumaturgos, aos                  incio do sculo, a Sua deve essa situao
quais a multido medieval atribua curas mila-               excepcional  sua estabilidade poltica, ao po-
grosas (e em especial a capacidade, atravs do               der de seu movimento psiquitrico descentrali-
toque, de tratar a escrfula), Bloch denunciou               zado,  sua tradio pedaggica e enfim  ori-
esse pretenso poder como pura tapeao e no                 ginalidade e ao talento de grandes personagens,
conseguiu captar a essncia da cura psquica                 freudianos como Oskar Pfister*, Hermann Ror-
induzida pela transferncia. Com efeito, dis-                schach*, Emil Oberholzer*, Philipp Sarasin*,
tinguiu dois tipos de doentes: os verdadeiros, os            Hans Zulliger*, Raymond de Saussure*, Made-
doentes "orgnicos" atacados de escrfula                    leine Rambert*, Henri Flournoy*, compa-
(adenite tuberculosa) e, portanto, incurveis pe-            nheiros de percurso como Eugen Bleuler*, Lud-
lo toque, e os falsos, os doentes "psquicos",               wig Binswanger* ou dissidentes, entre os quais
atacados, no dizer do historiador, por "doenas              o mais clebre, Carl Gustav Jung*. Graas a seu
falsas" e, portanto, simuladores ou histricos.              bilingismo, a Sua foi tambm um ponto de
Todos seriam vtimas de uma iluso coletiva, e               passagem privilegiado para a introduo das
o milagre do rei no teria passado de uma                    idias freudianas na Frana*.
gigantesca falsa notcia, nascida da sugesto.                   Convicto de ter encontrado uma "terra pro-
                                                             metida" capaz de provar que a psicanlise podia
 Hippolyte Bernheim, Hypnotisme, suggestion, psy-
chothrapie (1891), Paris, Fayard, col. "Corpus des          transformar a nosografia psiquitrica e aplicar-
oeuvres de philosophie en langue franaise", 1995           se ao tratamento das psicoses*, Freud pensava
Joseph Delboeuf, Le Sommeil et les rves (1885),             que o acolhimento entusistico dos protestantes
Paris, Fayard, col. "Corpus des oeuvres de philosophie       permitiria demonstrar que sua doutrina no era
en langue franaise", 1993  Marc Bloch, Les Rois
thaumaturges (1924), Paris, Gallimard, 1983  Michel         uma "cincia judia", limitada ao esprito vie-
de Certeau, Histoire et psychanalyse entre science et        nense.
fiction, Paris, Gallimard, col. "Folio", 1987  Lon Cher-       Como observou Henri F. Ellenberger*, a
tok e Raymond de Saussure, Naissance du psychana-            psiquiatria se desenvolveu na Sua com certo
lyste (1973), Paris, Synthlabo, col. "Les empcheurs
de penser en rond", 1997  Franois Duyckaerts,              atraso em relao aos outros pases ocidentais.
"Sigmund Freud: lecteur de Joseph Delboeuf", Frn-          Foi em meados do sculo XIX que foram cria-
sie, 8, 1989, 71-88  Henri F. Ellenberger, Histoire de la   dos asilos, chamados clnicas ou sanatrios,
dcouverte de l'inconscient (N. York, Londres, 1970,         distribudos por diferentes cantes, tendo  sua
Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994  Sigmund
Freud, "Sobre a psicoterapia", ESB, VII, 267-82; GW,         frente alienistas formados na tradio nosogr-
V, 13-26; SE, 7, 255-68; Paris, PUF, 1977; Correspon-        fica da escola alem, e principalmente na de
dance 1873-1939 (Londres, 1960), Paris, Gallimard,           Wilhelm Griesinger (1817-1868).
1966  Sigmund Freud e Karl Abraham, Correspon-                  No fim do sculo XIX, dois grandes pionei-
dance, 1907-1926 (Frankfurt, 1965), Paris, Gallimard,
1969  Gustave Le Bon, Psychologie des foules, Paris,        ros comearam a criticar o niilismo teraputico
Alcan, 1895  Serge Moscovici, L'ge des foules, Paris,      da escola alem: August Forel* e Eugen Bleu-
Fayard, 1981  Michel Plon, "`Au-del' et `en de' de       ler. Diretor da famosa clnica do Hospital Burg-
la suggestion", Frnsie, 8, 1989, 89-114  Gabriel          hlzli a partir de 1879, Forel abandonou as
Tarde, crits de psychologie sociale, selecionados e
apresentados por A.-M. Rocheblave-Spenl e Jean              classificaes rgidas e voltou-se para a hipno-
Milet, Toulouse, Privat, 1973.                               se* e para a psiquiatria dinmica*. Quanto a
                                                             Bleuler, seu sucessor, experimentou com Jung
 AB-REAO; ESTUDO AUTOBIOGRFICO, UM;                       a tcnica da psicanlise no tratamento da lou-
HISTERIA; MAIS-ALM DO PRINCPIO DE PRAZER;                  cura*.
RESISTNCIA; TRANSFERNCIA.                                      Em um primeiro tempo, o movimento freu-
                                                             diano se desenvolveu na Sua germnica com
                                                             a criao, por Jung, em 1907, da Sociedade
Sua                                                        Freud, que se tornaria a Associao Psicanalti-
   Por muitas vezes, Sigmund Freud* prestou                  ca de Zurique. Entre seus membros, estavam
homenagem  Sua, enfatizando seu papel es-                 Alfons Maeder*, Ludwig Binswanger, Frank
sencial na difuso da psicanlise*. Primeiro                 Riklin*, que organizaram o congresso da Inter-
pas a se abrir para as teses freudianas desde o             national Psychoanalytical Association* (IPA)
738     Sua

em Nuremberg, em 1910, durante o qual foi              Em Genebra, psiclogos, pedagogos e
criado o Jahrbuch fr psychoanalytische und        moralistas continuaram a tradio inaugurada
psychopathologische Forschungen*. "Em ne-          por Thodore Flournoy*. O movimento psica-
nhum outro lugar, escreveu Freud em 1914, os       naltico suo romnico se organizou ento em
partidrios da psicanlise formavam um grupo       torno de algumas grandes famlias de Genebra:
to compacto, embora pouco numeroso; em            os Flournoy, os Saussure, os Bovet.
nenhum outro lugar uma clnica oficial estava         Em setembro de 1919, constituiu-se, sob a
disposio da psicanlise e em nenhum outro        presidncia de douard Claparde*, o Crculo
lugar um professor de clnica teria a coragem de   Psicanaltico de Genebra, composto de mdicos
introduzir as teorias psicanalticas no programa   e analistas leigos, reunindo notadamente
do ensino psiquitrico [...]. A maioria dos meus   Charles Odier*, Raymond de Saussure*, Pierre
partidrios e colaboradores atuais veio a mim      Bovet (1878-1965) e Henri Flournoy*. Todos
passando por Zurique, at aqueles que, geogra-     tambm pertenciam  SSP, que agrupava assim
ficamente, estavam bem mais prximos de Vie-       os romnicos e os germnicos, como Charles
na do que a Sua."                                Baudouin*, prximo tanto de Jung quanto dos
    Depois da ruptura de 1913, os psicanalistas    freudianos. Em 1927, Saussure e Odier partici-
suos, j divididos em duas tendncias (Jung e    param da fundao da Sociedade Psicanaltica
Freud), enfrentaram uma situao ainda mais        de Paris (SPP).
difcil, pois a doutrina freudiana era violenta-       Analisado por Sabina Spielrein, Jean Piaget
mente atacada, como por toda a parte, por seu
                                                   (1896-1980) comeou a se interessar pela psi-
pansexualismo*. O movimento s pde renas-
                                                   canlise depois de seguir os cursos de Jung,
cer depois da Primeira Guerra Mundial.
                                                   Bleuler e Pfister. Em 1921, aderiu  SSP e no
    Em 24 de maio de 1919, em Zurique, Oskar
                                                   ano seguinte encontrou-se com Freud no
Pfister fundou a Sociedade Sua de Psicanlise
                                                   congresso da IPA em Berlim. Orientou-se de-
(SSP), composta de 11 membros, entre os quais
                                                   pois para a psicologia e para a epistemologia
Emil Oberholzer e sua mulher, Hermann Ror-
                                                   gentica.
schach e Hans Walser. Quando da sesso de
inaugurao, presidida por Ernest Jones* e San-        Em 1927, uma nova crise surgiu em torno da
dor Ferenczi*, a psicanlise foi apresentada       questo da anlise leiga*. Procurando afastar
como um "movimento espiritual". Ao fim de          Pfister, cujo no-conformismo os incomodava,
dois meses, Hanns Sachs*, encarregado de pa-       e com o objetivo de alijar os "pseudo-analistas",
trocinar o pedido de adeso do novo grupo         excessivamente prximos, em sua opinio, da
IPA, desencadeou um conflito. No confiando        religio e do tratamento de almas, os mdicos
em Pfister, acusava os membros da SSP por sua      anunciaram sua inteno de realizar uma ci-
tendncia  "junguizao" e pelo esquecimento      so*. Liderados por Oberholzer e Rudolph Brun
da teoria da sexualidade*. Pfister interveio en-   (1885-1969), fundaram uma Associao Mdi-
to junto a Freud, que se encarregou de arbitrar   ca de Psicanlise, que s aceitava mdicos co-
o debate insistindo para que os suos no         mo membros. Descontente com o ataque a seu
tomassem Sachs como "bode expiatrio da alta       amigo Pfister e decidido a apoiar a anlise leiga,
Inquisio, encarregado de zelar pela alta orto-   Freud interveio para que esse grupo no
doxia". "Em um movimento cientfico, escre-        obtivesse o reconhecimento da IPA. "Emil
veu em 27 de maio de 1919, seria melhor per-       Oberholzer  um velho imbecil cabeudo, es-
guntar se no haveria muito a aprender de um       creveu ele, que  melhor abandonar  sua pr-
homem instrudo pela experincia."                 pria sorte."
    A SSP logo teria entre os seus aderentes,          A executiva da IPA exigiu que os conflitos
alm de Binswanger, Gustav Bally (1893-            fossem resolvidos no interior do grupo, e a nova
1966), Maeder Boss, Heinrich Meng*, Ernst          Associao no conseguiu obter sua filiao.
Blum (1892-1981), Zulliger, Max Mller. Pos-       Favorvel aos mdicos, Saussure criticou dura-
teriormente, novos membros viriam de Berna e       mente Pfister, mas inclinou-se diante do apoio
Basilia.                                          de Freud. Depois da partida de 22 membros,
                                                                                        Sua      739

Philipp Sarasin* foi eleito presidente da SSP.       pelas teorias kleinianas. Georges Dubal (1909-
Conservaria suas funes durante 32 anos.            1993), analisado por Odier e prximo da revista
    Entre 1928 e 1937, a SSP beneficiou-se com       Esprit, foi o primeiro psicanalista a trabalhar em
a passagem dos exilados, que fugiam da Alema-        Lyon; instalou-se depois em Genebra.
nha* nazista (Hermann Nunberg*, Frieda                   Em 1968, a SSP enfrentou a grande onda de
Fromm-Reichmann*, Heinrich Meng). Quanto             contestao que atingiu o conjunto das socie-
 Associao Mdica, foi dissolvida depois da        dades da IPA, provocando cises e rupturas
partida de Oberholzer para os Estados Unidos*.       individuais. Foi assim que se fundou em 1970
Finalmente, seus membros aderiram  SSP.             o Psychoanalytisches Seminar de Zurique
    O conflito de 1927-1928 anunciava crises         (PSZ). Sob a orientao de trs antroplogos,
posteriores. Desde 1934, uma nova tempestade         Paul Parin, Goldy Parin e Fritz Morgenthaler,
se abateu sobre a SSP com a adeso de Gustav         especialistas em etnopsicanlise* na frica, o
Bally. Psiquiatra formado por Hanns Sachs* em        PSZ reuniu todos os que protestavam contra a
Berlim e amigo de Franz Alexander*, pregava,         esclerose da formao didtica e a viso apolo-
na pesquisa e na prtica, um olhar livre e crtico   gtica do passado, veiculadas pelas sociedades
sobre os dogmas estabelecidos. Recusando cer-        da IPA, sobretudo quanto ao que se referia ao
tos elementos da doutrina freudiana e se interes-    perodo do nazismo*. Os membros do semin-
sando, como Binswanger, pela anlise exis-           rio, que em geral aderiam  tradio da esquerda
tencial*, viu-se acusado de freqentar exces-        freudiana, do freudo-marxismo* e de Herbert
sivamente o "Clube Junguiano". A isso, ele           Marcuse*, deixariam finalmente a SSP. Em
respondeu que efetivamente conhecia bem os           1985, no Congresso da IPA em Hamburgo, eles
junguianos, o que no o impedira de publicar         organizaram um contra-congresso, a fim de
um artigo hostil s posies de Jung quanto ao       protestar contra o silncio da direo da IPA
nacional-socialismo. Maeder Boss tambm foi          sobre a antiga poltica de "salvamento", no
acusado de manter demasiada distncia do freu-       momento em que eram publicados livros
dismo e de se interessar pela ontologia heideg-      relatando a colaborao dos freudianos com
geriana.                                             Matthias Heinrich Gring*. Posteriormente,
    Depois da Segunda Guerra Mundial, a psi-         seminrios semelhantes foram criados em Ba-
quiatria dinmica*, na Sua e no mundo, vol-        silia e Berna.
tou-se para outros tratamentos: as sonoterapias          Foi nesse contexto "alternativo", aberto 
e os eletrochoques suplantaram a psicoterapia*.      dissidncia, que foram apresentadas as primei-
Entretanto, Manfred Bleuler, filho de Eugen          ras exposies do pensamento de Jacques La-
Bleuler, reintroduziu a psicanlise no Hospital      can*. Em 1986, Peter Widmer criou a revista
Burghlzli sob a forma no do freudismo* cls-       RISS, destinada a difundir a obra lacaniana na
sico, mas da anlise direta*, inspirada em John      Sua germnica, em ligao com grupos ale-
Rosen. Em 1948, chamou Bally e Boss, que se          mes. "O nome RISS, escreveu Widmer,
orientaram nitidamente para a fenomenologia.         contm as iniciais dos registros lacanianos: o
Mais tarde, ambos se desinteressaram da an-         real*, o imaginrio*, o simblico*, o sintoma
lise didtica* e se afastaram da SSP.                (ou escrita, Schrift, em alemo). Ao mesmo
    Em Zurique, alm da escola junguiana, to-        tempo, lembra Freud (Esboo de psicanlise*
das as correntes de psicoterapia se desenvolve-      ou Abriss der Psychoanalyse, em alemo) e
ram: gestalt-terapia*, terapia familiar*, mtodo     Marx (Grundrisse der politischen Oekono-
de Leopold Szondi*, psicodrama* etc.                 mie)."
    Em Genebra, foi Saussure quem reorgani-              Na Sua romnica, a SSP fechou-se em si
zou o grupo romnico ao voltar dos Estados           mesma, revelando um gosto pronunciado pelo
Unidos em 1952. Instituiu um conjunto de se-         academicismo. Todavia, a historiografia* freu-
minrios clnicos e tericos com a colaborao       diana se desenvolveu com o estmulo de Andr
de Germaine Guex (1904-1984), companheira            Haynal. Analisado por Saussure, membro da
de Odier, Michel Gressot (1918-1975) e Mar-          redao da revista Psychothrapies e respon-
celle Spira, que se interessava particularmente      svel pelos arquivos de Michael Balint*, Hay-
740      suicdio

nal logo manifestou interesse por todos os traba-          Widmer, "Situation de la psychanalyse en Suisse al-
                                                           manique", Le Bloc-notes de la Psychanalyse, 10, 1991,
lhos modernos em lnguas alem, francesa ou
                                                           69-81  Laurent Lethiais, Oskar Pfister et la cure d'me
inglesa.                                                   psychanalytique, monografia de DESS de psicologia
    Analisado por Georges Dubal em Genebra e               clnica e patolgica, Universidade de Paris X, junho de
por Jenny Aubry* em Paris, Mario Cifali come-              1995.
ou a ensinar a obra de Lacan na Sua romni-
                                                            BLGICA; COLE FREUDIENNE DE PARIS; FEDE-
ca, criando em 1975,  margem da SSP, um
                                                           RAO EUROPIA DE PSICANLISE; FENICHEL,
seminrio de estudos de textos e de formao,
                                                           OTTO; HISTRIA DA PSICANLISE; KLEINISMO; LA-
que tomou o nome de Crculo de Estudos Psi-                CANISMO; REICH, WILHELM; SECHEHAYE, MAR-
canalticos (CEP) em dezembro de 1982. Para-               GUERITE.
lelamente, publicou, com Mireille Cifali, uma
revista, Le Bloc-notes de la Psychanalyse, aber-
ta  historiografia e a todas as correntes do
freudismo.                                                 suicdio
    Quanto ao lacanismo de inspirao milleria-            al. Selbstmord; esp. suicidio; fr. suicide; ing. suicide
na, este  representado por duas filiais da Escola
                                                           Termo cunhado a partir do latim sui (si) e caedes
Europia de Psicanlise (EEP), uma em Gene-
                                                           (matana), introduzido na lngua inglesa em 1636 e
bra, outra em Lausanne, ambas membros da
                                                           na lngua francesa em 1734, para expressar o ato
Associao Mundial de Psicanlise* (AMP).
                                                           de matar a si mesmo, no sentido de uma doena
No fim do sculo XX, a SSP tem 126 membros,                ou uma patologia, em oposio  antiga formula-
ou seja 30 psicanalistas (IPA) por milho de               o "morte voluntria", sinnima de crime contra
habitantes, em uma populao global de sete                si mesmo.
milhes. A estes acrescentam-se muitos psico-
                                                               Se, a partir de meados do sculo XVII, a
terapeutas de todas as tendncias e cerca de 40
                                                           palavra suicdio substituiu progressivamente as
freudianos no-filiados  IPA.
                                                           outras denominaes empregadas para designar
                                                           a morte voluntria, foi preciso esperar pela
 Sigmund Freud, A histria do movimento psicanalti-
co (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV,        segunda metade do sculo XIX para que esse
7-66; Paris, Gallimard, 1991  Freud/Jung: correspon-      ato, considerado herico nas sociedades antigas
dncia completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago,      ou no Japo* feudal, fosse visto como uma
1993  Correspondance de Sigmund Freud avec le             patologia. Sob esse aspecto, o destino do suic-
pasteur Pfister, 1909-1939 (Frankfurt, 1963), Paris,
Gallimard, 1966  Henri F. Ellenberger, La Psychiatrie
                                                           dio nas sociedades ocidentais  comparvel ao
suisse, srie de artigos publicados de 1951 a 1953 em      da homossexualidade*, da loucura* ou da me-
L'volution Psychiatrique, Aurillac  Paul Parin, Fritz    lancolia*. Rejeitado pelo cristianismo como um
Morgenthaler e Goldy Parin-Matthey, Frchte deinen         pecado, um crime contra si mesmo e contra
Nchsten wie dich selbst, Frankfurt, Fischer, 1971 
Fritz Meerwein, "Rflexion sur l'histoire de la Socit
                                                           Deus, ou ento, como uma possesso demona-
suisse de Psychanalyse en Suisse almanique", Bul-         ca, o suicdio escapou  condenao moral no
letin de la Socit Suisse de Psychanalyse, 9, 1979,       fim do sculo XIX, transformando-se em sinto-
40-52  M. Roch, "A propos de l'histoire de la psycha-     ma no de uma necessidade tica, de uma revol-
nalyse en Suisse romande", ibid., 10, 1980, 17-30         ta ou de uma dor de viver, mas de uma doena
Mireille Cifali, Freud pdagogue, Paris, Interditions,
1982; "Le Fameux couteau de Lichtenberg", in Le            social ou psicolgica, estudada com a objetivi-
Bloc-notes de la Psychanalyse, 4, 171-85; "De quel-        dade de um olhar cientfico.
quer remous helvtiques autour de l'analyse profane",          O instigador dessa ruptura foi mile Durk-
Revue Internationale d'Histoire de la Psychanalyse, 3,     heim (1858-1917). Opondo-se aos adeptos da
1990, 145-59; "La Cure des enfants en Suisse: de
l'hypnotisme  la psychanalyse", tudes Freudiennes,       teoria da hereditariedade-degenerescncia*, ele
36, novembro de 1995, 170-88; "Les Dbuts de la            demonstrou, em seu magistral estudo de 1897,
psychanalyse en Suisse", Nervure, t.VIII, novembro de      que o suicdio  um fenmeno social que no
1995, 11-7  Andr Haynal, "'Les Suisses'- En psycha-      depende da "raa", nem da psicologia, nem da
nalyse", Le Bloc-notes de la Psychanalyse, 4, 1984,
163-70  Pier Cesare Bori, "Oskar Pfister, `pasteur 
                                                           hereditariedade, nem da insanidade nem da de-
Zurich', et analyse laque", Revue Internationale d'His-   generescncia moral. Nesse sentido, Durkheim
toire de la Psychanalyse, 3, 1990, 129-45  Peter          encarou o suicdio como fez Sigmund Freud*
                                                                                    suicdio     741

com a sexualidade*: fez dele um verdadeiro         que pende em todo o seu comprimento. A mu-
objeto de estudo.                                  lher conhece trs maneiras de se suicidar: saltar
    Entretanto, a comparao termina a. Com       de uma janela, atirar-se na gua ou se envene-
efeito, a abordagem sociolgica de Durkheim        nar. Pular da janela significa dar  luz, atirar-se
no d conta de uma dimenso essencial do sui-     na gua significa trazer ao mundo, e se envene-
cdio, presente em todas as formas de morte vo-    nar significa a gravidez (...). Assim, mesmo ao
luntria: o desejo* de morte, isto , o aspecto    morrer a mulher cumpre sua funo sexual."
psquico do ato suicida. Por isso  que o livro    Freud tambm atribuiu certos suicdios de
de Durkheim no se aplica aos grandes casos de     crianas ao medo do incesto*.
suicdio narrados pela literatura, como o de           Em seu artigo de 1917 intitulado "Luto e
Emma Bovary. Perfeitamente integrado em seu        melancolia", ele apresentou o suicdio como
meio,  primeira vista, esse personagem de mu-     uma forma de autopunio, um desejo de morte
lher constitui um exemplo contrrio  anlise      dirigido contra outrem que se vira contra o
durkheimiana. Para comp-lo, no entanto, Gus-      prprio sujeito. Assim, confirmou as trs ten-
tave Flaubert (1821-1880) entregou-se a uma        dncias suicidas definidas pelo discurso da psi-
pesquisa to dedicada quanto a do socilogo.       copatologia*: desejo de morrer, desejo de ser
    Na sociedade vienense do incio do sculo,     morto e desejo de matar. Nessa perspectiva, o
eram numerosos os suicdios entre os intelec-      suicdio  o ato de matar a si mesmo para no
tuais, particularmente entre os judeus, para       matar a outrem. O suicdio no  conseqncia
quem a morte voluntria era uma maneira de         de uma neurose* nem de uma psicose*, mas de
acabar com uma judeidade* vivenciada  ma-         uma melancolia ou de um distrbio narcsico
neira do "dio judeu de si mesmo". Freud tinha     grave: no um ato de loucura, mas a atualizao
perfeita conscincia disso, em especial com        da pulso de morte atravs de uma passagem ao
respeito a Otto Weininger*. Quanto ao suicdio     ato (acting out*).
de seu amigo Nathan Weiss (1851-1883), um              Freud e seus discpulos no chegaram pro-
jovem neurologista de grande futuro, que ps       priamente a inovar nessa matria. E o suicdio
fim  vida enforcando-se, Freud o atribuiu a       foi mais bem compreendido pelos escritores e
uma incapacidade de o rapaz aceitar o menor        filsofos, suicidas ou no, do que pelos psica-
ataque a seu narcisismo*, como explicou numa       nalistas ou socilogos. Isso decorre, em espe-
carta  sua noiva (Martha Freud*), datada de 16    cial, do incmodo que o movimento psicanalti-
de setembro de 1883: "Foi o conjunto de seus       co sempre experimentou diante dos suicdios de
traos de carter, de seu egocentrismo mrbido     alguns membros da comunidade freudiana: Viktor
e nefasto, aliado a suas aspiraes a objetivos    Tausk*, Herbert Silberer*, Tatiana Rosenthal*,
mais nobres, que ocasionou sua morte."             Clara Happel* e Eugnie Sokolnicka*.
    Muito antes de conceituar a noo de pulso        Na condio de mtodo teraputico, a psica-
de morte e de teorizar o narcisismo*, o luto e a   nlise* viu-se confrontada com a concepo
melancolia*, Freud interessou-se pela questo      psicopatolgica do suicdio, que o reduz a uma
do suicdio, abordada com muita freqncia na      doena, e no a uma tica da liberdade que o
Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras*. Foi     valorize como expresso de um herosmo su-
por iniciativa de Alfred Adler* que a Wiener       premo. Em outras palavras, a psicanlise foi
Psychoanalytische Vereinigung (WPV) organi-        forada a cuidar de pacientes suicidas conside-
zou, em 20 de abril de 1910, uma reunio muito     rados depressivos. Da a freqncia com que
terna, dedicada ao suicdio de crianas e ado-     teve de confessar sua impotncia para cur-los.
lescentes. Em seguida, Freud retornaria a essa     Com efeito, sabemos que, quando um sujeito
questo, numa tentativa de relacionar a forma      realmente quer tirar a prpria vida, nenhuma
do suicdio e a diferena sexual*: "A escolha de   terapia consegue impedir que o faa. Entretan-
uma forma de suicdio revela o simbolismo          to, numerosos depoimentos mostram que essa
sexual mais primitivo; o homem se mata com         questo  mais complexa e que a anlise permi-
um revlver, ou seja, joga com seu pnis, ou       tiu que alguns melanclicos evitassem o suic-
ento se enforca, isto , transforma-se em algo    dio.
742      sujeito

   Um dos livros mais "freudianos" sobre a                     Em filosofia, desde Ren Descartes (1596-
questo do suicdio foi escrito por Maurice                1650) e Immanuel Kant (1724-1804) at
Pinguet, em 1984. A partir do caso japons, ele            Edmund Husserl (1859-1938), o sujeito  defi-
mostrou como a extenso do saber psiquitrico,             nido como o prprio homem enquanto fun-
no fim do sculo XIX, acarretou a depreciao              damento de seus prprios pensamentos e atos.
de um ato sumamente valorizado na sociedade                , pois, a essncia da subjetividade humana, no
dos samurais.                                              que ela tem de universal e singular. Nessa acep-
   Diversos psicanalistas redigiram estudos                o, prpria da filosofia ocidental, o sujeito 
belssimos sobre casos de suicdio de natureza             definido como sujeito do conhecimento, do di-
psictica. Ernest Jones* escreveu relatos de               reito ou da conscincia*, seja essa conscincia
suicdios a dois, enquanto Georges Devereux*               emprica, transcendental ou fenomnica.
contou a histria de Clemenes, rei de Esparta,                Em psicanlise*, Sigmund Freud* empre-
cujo suicdio foi, acima de tudo, um ato de                gou o termo, mas somente Jacques Lacan*,
loucura: em vez de simplesmente se matar, ele              entre 1950 e 1965, conceituou a noo lgica e
se submeteu  tortura, rasgando com sua arma               filosfica do sujeito no mbito de sua teoria do
seu corpo e suas entranhas.                                significante*, transformando o sujeito da
                                                           conscincia num sujeito do inconsciente*, da
 Sigmund Freud, "Luto e melancolia" (1915-1917),          cincia e do desejo*. Foi em 1960, em "Subver-
ESB, XIV, 275-92; GW, X, 427-46; SE, XIV, 237-58;          so do sujeito e dialtica do desejo no inconsci-
OC, XIII, 259-78; Correspondance 1873-1939 (Lon-
dres, 1960), Paris, Gallimard, 1966  mile Durkheim,
                                                           ente freudiano", que Lacan, apoiando-se na teo-
O suicdio (1897), Rio de Janeiro, Zahar, 1982  Les       ria saussuriana do signo lingstico, enunciou
Premiers psychanalystes, Minutes de la Socit Psy-        sua concepo da relao do sujeito com o
chanalytique de Vienne, 1906-1918, 4 vols. (N. York,       significante: "Um significante  aquilo que re-
1962-1975), Paris, Gallimard, 1976-1983, com uma           presenta o sujeito para outro significante." Esse
"Introduo" de Hermann Nunberg  Ernest Jones,
Essais de psychanalyse applique, I, Essais divers         sujeito, segundo Lacan, est submetido ao
(Londres, 1964), Paris, Payot, 1973  Alfred Alvarez, Le   processo freudiano da clivagem* (do eu).
Dieu sauvage. Essai sur le suicide, Paris, Mercure de
France, 1972  William M. Johnston, L'Esprit viennois.      Jacques Lacan, "Subverso do sujeito e dialtica do
Une histoire intellectuelle et sociale 1848-1938 (N.       desejo no inconsciente freudiano" (1960), in Escritos
York, 1972), Paris, PUF, 1985  Maurice Pinguet, La        (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 807-
Mort volontaire au Japon, Paris, Gallimard, 1984          42  Bertrand Ogilvie, Lacan: a formao do conceito
Christian Baudelot e Roger Establet, Durkheim et le        de sujeito (Paris, 1987), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
suicide, Paris, PUF, 1984  Michel Braud, La Tentation     1988.
du suicide dans les crits autobiographiques, Paris,
PUF, 1992  Georges Minois, Histoire du suicide, Paris,     EGO PSYCHOLOGY; EU; HISTRIA DA PSICAN-
Fayard, 1995  Georges Devereux, Clomne, le roi          LISE; IDEAL DO EU; METAPSICOLOGIA; SELF PSY-
fou, Paris, Aubier, 1995.
                                                           CHOLOGY; SIGNIFICANTE; SUPEREU.

 ABERASTURY, ARMINDA; BENUSSI, VITTORIO;
BETTELHEIM, BRUNO; CRIMINOLOGIA; FEDERN,
                                                           Sullivan, Harry Stack (1892-1949)
PAUL; MORGENSTERN, SOPHIE; STEKEL, WIL-
HELM; ZWEIG, STEFAN.                                       psiquiatra americano
                                                               Como Horace Frink* e muitos outros de sua
                                                           gerao, Harry Stack Sullivan foi um dos per-
                                                           sonagens inusitados que enfrentaram os mes-
sujeito                                                    mos sofrimentos psquicos que os pacientes de
al. Subjekt; esp. sujeto; fr. sujet; ing. subject          quem tratavam, e por sua conduta "desviante"
Termo corrente em psicologia, filosofia e lgica.         foram marginalizados pelo movimento psica-
empregado para designar ora um indivduo, como             naltico e psiquitrico. Tornaram-se contes-
algum que  simultaneamente observador dos                tatrios do conjunto dos saberes ortodoxos pro-
outros e observado por eles, ora uma instncia             venientes da psicopatologia*, seja adotando os
com a qual  relacionado um predicado ou um                princpios da antipsiquiatria*, seja adotando o
atributo.                                                  culturalismo*.
                                                                     Sullivan, Harry Stack      743

    Entretanto, Sullivan tambm pertencia         doutrina pessoal,  qual deu o nome de self-sys-
longa linhagem de psicoterapeutas originais        tem. A partir da observao das tribos indgenas
que, como Poul Bjerre* e Erich Fromm*, sem         da Amrica do Norte, Sapir opunha as culturas
fundar verdadeiramente uma escola, recusaram       "autnticas" s culturas "falsificadas", para de-
as principais teses freudianas sobre o inconsci-   monstrar que uma cultura marginal podia ser
ente*, a libido*, a sexualidade* ou o dipo*.      superior, do ponto de vista da autenticidade, a
Querendo apresentar-se, como Sigmund               uma cultura supostamente evoluda e universal.
Freud*, como chefes de escola, desenvolveram       Da, deduzia que a lngua, a cultura, o incons-
sua prpria doutrina, seja oralmente, seja em      ciente e a personalidade formavam um "sistema
obras escritas.                                    imerso", que impunha aos membros de uma
    Nascido em Norwich, no estado de Nova          determinada sociedade categorias conceituais
York, Sullivan era de um meio rural e de uma       que modelavam, sem que eles soubessem, suas
famlia de imigrantes irlandeses. Aos 4 anos de    condutas e modos de relao com terceiros.
idade, depois da morte da me, que fora tratada        Inspirando-se nessa tese, Sullivan rejeitou
de depresso melanclica, desenvolveu uma          os conceitos freudianos de inconsciente e de
forte fobia* por aranhas, que identificaria pos-   sexualidade, para formular uma nova doutrina
teriormente com um terror s mulheres. Teve        psicoteraputica, a "psiquiatria interpessoal",
uma escolaridade difcil, o que no o impediu      que insistia no condicionamento. Segundo ele,
de entrar para a Escola de Medicina de Chicago     o self de cada indivduo era construdo pelos
e sair diplomado em 1917. J melanclico, foi,     reflexos que os julgamentos dos pais e dos
como disse, "salvo da depresso" ocupando no       prximos faziam sobre ele desde a sua infncia.
exrcito americano diferentes funes terapu-     Por conseguinte, a tcnica adequada de trata-
ticas, especialmente com veteranos. A partir de    mento consistia em fazer com que o paciente
1923, psiquiatra no Sheppard and Enoch Pratt       tomasse conscincia, de modo ativo e dinmi-
Hospital, em Maryland, e professor na univer-      co, dos modos de pensamento que pesavam
sidade, dedicou toda sua energia a tratar de       sobre ele, sem que ele soubesse. Como clnico
pacientes esquizofrnicos.                         do Sheppard and Enoch Pratt Hospital, e do
    Revoltado, alcolatra e homossexual, rela-     Saint Elizabeth Hospital de Nova York, como
cionou-se de um modo curioso com a psican-        fundador da Washington School of Psychiatry
lise*: afirmava ter feito um tratamento de "75     e como membro dissidente da Washington-Bal-
horas" com um desconhecido e estimulou sua         timore Psychoanalytic Society (WBPS), de-
amiga Clara Thompson (1893-1958), de ori-          sempenhou um papel importantssimo em uma
gem hngara, a fazer-se analisar "em seu lugar"    das quatro grandes cises* do movimento psi-
por Sandor Ferenczi*. A cada vero, esta ia a      canaltico americano. Sua principal aluna, Frie-
Budapeste para encontrar o grande discpulo de     da Fromm-Reichmann*, ex-esposa de Erich
Freud e, ao voltar, compartilhava sua experin-    Fromm, inventou um mtodo de tratamento dos
cia do tratamento com Sullivan, durante uma        psicticos, a psicoterapia intensiva, inspirado
relao transferencial de 300 horas, como ele      em seus trabalhos.
diria depois.                                          Recusando igualmente o div dos psicana-
    Inicialmente aluno de William Alanson          listas ortodoxos e a nosografia fossilizada da
White*, Sullivan freqentou o Zodiac Club, no      psiquiatria clssica, Sullivan foi, no campo do
qual, durante o perodo entre as duas guerras,     tratamento da loucura*, um dos artfices mais
muitos dissidentes do freudismo -- Erich           brilhantes da corrente social da psicoterapia*
Fromm e Karen Horney* entre outros -- se           dinmica, que se tornaria a origem da contes-
encontravam e faziam contato com os                tao antipsiquitrica. Inspirando-se no modelo
culturalistas: Margaret Mead* e Ruth Benedict      neojacksoniano, considerava a esquizofrenia*
(1887-1939). Entretanto, foi por influncia do     como uma regresso filogentica em estado
antroplogo Edward Sapir (1884-1948), de           "selvagem"; da seu culturalismo. Foi tambm
quem se tornou amigo em 1926, e inspirando-se      militante poltico, no hesitando em criticar
nas teses de Alfred Adler*, que elaborou uma       abertamente o puritanismo americano. Denun-
744       superego

ciou a barbrie atmica de Hiroshima, partici-               complexo de dipo*." Seria impossvel situar
pou da fundao da Organizao Mundial de                    melhor o conceito de supereu, que apareceu em
Sade, ao mesmo tempo em que se arruinava                    1923, em O eu e o isso*. Ele foi o produto de
em operaes financeiras extravagantes. Mor-                 uma longa elaborao, iniciada em 1914 no
reu em Paris, aos 57 anos, esgotado por uma                  artigo "Sobre o narcisismo: uma introduo".
vida turbulenta.                                             Freud construiu ento a noo de ideal, subs-
                                                             tituto do narcisismo* infantil e que seria, supos-
 Harry Stack Sullivan, Conceptions of Modern Psy-
chiatry, Washington, William Alanson White Psychiatric
                                                             tamente, o instrumento de medida utilizado pe-
Foundation, 1947; The Interpersonal Theory of Psy-           lo eu para observar a si mesmo.
chiatry, Londres, 1953; The Fusion of Psychiatry and             A transformao da concepo do eu, a partir
Social Sciences, 1964  George W. Goethals, "Sullivan,       do exame clnico da patologia do luto e da
Harry Stack (1892-1949)", in A Lexicon of Psychology,
Psychiatry and Psychoanalysis, Jessica Cooper (org.),
                                                             melancolia*, levou Freud a abandonar progres-
Londres, N. York, Routledge, 1988, 431-4  Edward            sivamente a idia de uma equivalncia entre o
Sapir, Le Langage (N. York, 1921), Paris, Payot, 1967        eu e a conscincia* em prol de um eu em grande
 Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcouverte de         parte inconsciente. Tratou-se, a partir da, de um
l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne,
1974), Paris, Fayard, 1994  Nathan G. Hale, Freud and
                                                             eu dividido, uma parte do qual parece separar-se
the Americans, The Rise and Crisis of Psychoanalysis         para observar e julgar a parte restante. Essa idia
in the United States, 1917-1985, t.II, N. York, Oxford,      de clivagem* foi substituda por Freud pela de
Oxford University Press, 1995  Helen S. Perry,              componente estrutural, transformando-se a ins-
Psychiatrist of America, the Life of Harry Stack Sullivan,
                                                             tncia da vigilncia e do julgamento no elemen-
Cambridge, Harvard University Press, 1982  S.P. Ful-
linwider, Technicians of the Finite. The Rise and Decline    to do eu cujas caractersticas e funes  preciso
of the Schizophrenic in American Thought 1840-1960,          estudar.
Westport e Londres, Greenwood Press, 1982  Leo-                 Em O eu e o isso, o supereu ainda  mal
nard Zusne, Names in the History of Psychology. A
                                                             diferenciado do ideal do eu*, mas  considerado
Biographical Sourcebook, N. York, Halsted Pressbook,
1975, 430-2  Philip Cushman, Constructing the Self,         inconsciente, a exemplo de grande parte do eu.
Constructing America. A Cultural History of Psychothe-       Em seguida, Freud  levado a esclarecer a natu-
rapy, Reading e N. York, Addison-Wesley Publishing           reza dessas relaes do supereu com o eu: "En-
Company, 1995  Thierry Vincent, "Pendant que Rome           quanto o eu  essencialmente o representante do
brle". La Clinique psychanalytique de la psychose de
Sullivan  Lacan, Estrasburgo, Arcanes, 1996.                mundo externo, da realidade, o supereu coloca-
                                                             se diante dele como mandatrio do mundo in-
 ANTROPOLOGIA; ESTADOS UNIDOS; JACKSON,                      terno, do isso. Os conflitos entre o eu e o ideal
HUGHLINGS; SELF PSYCHOLOGY.                                  refletiro, em ltima anlise, como agora es-
                                                             tamos mais dispostos a admitir, a oposio entre
                                                             o real e psquico, o mundo externo e o mundo
superego                                                     interno." Entretanto, na medida em que o super-
 SUPEREU.                                                    eu ainda  sinnimo do ideal do eu, suas funes
                                                             permanecem ambguas. Ora esto ligadas ao
                                                             ideal e  proibio, ora, noutros momentos, 
supereu                                                      funo repressora.
al. ber-Ich; esp. supery; fr. surmoi ou sur-moi;               Foi em 1933, na trigsima primeira confe-
ing. super-ego                                               rncia de introduo  psicanlise, que, depois
Conceito criado por Sigmund Freud* para designar             de haver apresentado a instncia do supereu
uma das trs instncias da segunda tpica*, junta-           (particularmente em O mal-estar na cultura*)
mente com o eu* e o isso*. O supereu mergulha                como um censor, por delegao das instncias
suas razes no isso e, de uma maneira implacvel,            sociais, junto ao eu, Freud forneceu o quadro
exerce as funes de juiz e censor em relao ao             exaustivo da formao do supereu e de suas
eu. No Brasil tambm se usa "superego".                      funes.
   Em seu texto de 1924 sobre a economia do                      Essa formao  correlata do apagamento da
masoquismo, Freud declarou: "O imperativo                    estrutura edipiana. Num primeiro tempo, o su-
categrico de Kant  (...) o herdeiro direto do              pereu  representado pela autoridade parental
                                                                                  supereu       745

que d ritmo  evoluo infantil, alternando as    supereus, de uma gerao para outra. O supereu
provas de amor com as punies, geradoras de        particularmente importante no exerccio das
angstia. Num segundo tempo, quando a crian-       funes educativas. Quanto a esse aspecto, por-
a renuncia  satisfao edipiana, as proibies   tanto, Freud censurou as "chamadas concep-
externas so internalizadas. Esse  o momento      es materialistas da histria" por ignorarem a
em que o supereu vem substituir a instncia        dimenso do supereu, veculo da cultura em
parental por intermdio de uma identificao*.     seus diversos aspectos, em prol de uma expli-
Se Freud distinguiu bem o processo de identi-      cao fundamentada unicamente na determina-
ficao do processo de escolha do objeto, ele se   o econmica.
revelou insatisfeito, entretanto, com sua expli-       Estava concluda a instaurao do conceito
cao, e manteve a idia de uma instituio do     de supereu: a nova instncia passou a ser, desse
supereu "como um caso bem-sucedido de iden-        momento em diante, a sede da auto-observao,
tificao com a instncia parental".               o depositrio da conscincia moral, tornando-
    Na medida em que o supereu  concebido         se, enfim, "o portador do ideal do eu, com o qual
como herdeiro da instncia parental e do dipo,    o eu se compara, ao qual ele aspira e do qual se
como o "representante das exigncias ticas do     esfora por atender a reivindicao de um aper-
homem", seu desenvolvimento  distinto no          feioamento cada vez mais avanado". Se o
menino e na menina. Enquanto, no menino, o         ideal do eu no foi completamente apagado do
supereu se reveste de um carter rigoroso, s      instrumental conceitual freudiano, tornou-se
vezes feroz, que resulta da ameaa de cas-         secundrio a ponto de s vezes se apagar em
trao* vivida durante o perodo edipiano, na      benefcio do supereu. Prova disso  a modifica-
menina o percurso  diferente: o complexo de
                                                   o, introduzida pelas Novas conferncias in-
castrao instala-se muito antes do dipo. O
                                                   trodutrias sobre psicanlise*, da concepo
supereu feminino, por conseguinte, seria menos
                                                   do processo de constituio das massas: en-
opressivo e menos implacvel.
                                                   quanto, em 1921, tratava-se de indivduos que
    Embora Freud recorra com freqncia s
                                                   haviam colocado "um nico e mesmo objeto no
metforas da herana e da descendncia para
                                                   lugar de seu ideal do eu", o texto de 1933 fala
caracterizar a formao do supereu -- desde O
                                                   de "uma reunio de indivduos que introduzi-
mal-estar na cultura at o Esboo de psican-
                                                   ram a mesma pessoa em seu supereu".
lise*, passando pelo texto de 1924 sobre a eco-
nomia do masoquismo* --, essa concepo e              A concepo freudiana do supereu no ob-
as representaes que ela pode induzir devem       teve unanimidade entre os psicanalistas. Em
ser temperadas por duas consideraes impor-       1925, Sandor Ferenczi* insistiu na internaliza-
tantes.                                            o de certas proibies muito antes da dis-
    A severidade e o carter repressivo do supe-   soluo do dipo, em particular aquelas que
reu no devem ser concebidos como pura e           dizem respeito  educao esfincteriana: "A
simples repetio* das caractersticas paren-      identificao anal e uretral com os pais, que j
tais. Essa severidade e essa tendncia repres-     apontamos antes, parece constituir uma espcie
sora manifestam-se com fora ainda maior, com      de precursora fisiolgica do Ideal do eu ou do
efeito, nos casos em que o sujeito recebe uma      Supereu no psiquismo da criana." Melanie
educao benevolente que exclua toda e qual-       Klein* situou as "primeiras fases do supereu"
quer forma de brutalidade; essas caractersticas   no momento das "primeiras identificaes da
so o produto do adestramento precoce das          criana", quando, muito pequena, ela "comea
pulses* sexuais e agressivas por um supereu       a introjetar seus objetos"; o medo que ela sente
colocado a servio das exigncias da cultura.      em decorrncia disso determina processos de
    Freud sublinhou tambm que o supereu no       rejeio e projeo* cuja interao parece ter
se constri segundo o modelo dos pais, mas         "uma importncia fundamental, no somente
segundo o que  constitudo pelo supereu deles.    para a formao do supereu, mas tambm para
A transmisso dos valores e das tradies per-     as relaes com as pessoas e a adaptao 
petua-se, dessa maneira, por intermdio dos        realidade".
746       superviso

    Na obra de Jacques Lacan*, o conceito de                  nalytical Association* (IPA), na condio de prtica
supereu  objeto de mltiplas elaboraes, rela-              obrigatria, para designar uma psicanlise* con-
cionadas com a teorizao do par supereu/ideal                duzida com um paciente por um psicanalista que,
do eu. Nessa perspectiva, o supereu continua                  por sua vez, encontra-se em anlise didtica*, e que
                                                              concorda em ser supervisionado ou controlado,
dominante, mas, diferentemente de Freud, La-
                                                              isto , em prestar contas dessa psicanlise a outro
can o concebe como a inscrio arcaica de uma
                                                              psicanalista (o supervisor). A superviso refere-se,
imagem materna onipotente, que marca o
                                                              de um lado,  anlise que o supervisor faz da
fracasso ou o limite do processo de simboliza-                contratransferncia* do supervisionando para seu
o. Nessas condies, o supereu encarna a                    paciente, e de outro,  maneira como se desenrola
falha da funo paterna e esta, por conseguinte,              a anlise do paciente.
 situada do lado do ideal do eu.                                 A palavra "controle" imps-se em alemo, ini-
 Sigmund Freud, "Sobre o narcisismo: uma introdu-            cialmente, e, mais tarde, em francs e em espanhol,
o" (1914), ESB, XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV,        sob a influncia de Jacques Lacan*, ao passo que
73-102; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 80-105;         o termo superviso se imps nos pases anglfo-
Psicologia das massas e anlise do eu (1921), ESB,            nos e nas sociedades psicanalticas pertencentes
XVIII, 91-184; GW, XIII, 73-161; SE, XVIII, 65-143; OC,        IPA, onde substituiu a palavra alem. No Brasil
XVI, 1-83; O eu e o isso (1923), ESB, XIX, 23-76; GW,         tambm se usam "controle" e "anlise de
XIII, 237-89; SE, XIX, 12-59; OC, XVI, 255-301; "Um
                                                              controle".
estudo autobiogrfico" (1925), ESB, XX, 17-88; GW,
XIV, 33-96; SE, XX, 7-70; OC, XVII, 51-122; "O proble-            O termo Kontrollanalyse foi empregado por
ma econmico do masoquismo" (1924), ESB, XIX,
199-216; GW, XIII, 371-83; SE, XIX, 139-45; OC, XVII,         Freud pela primeira vez num artigo redigido em
9-23; O mal-estar na cultura (1930), ESB, XXI, 81-178;        hngaro, em 1919, dedicado ao ensino da psi-
GW, XIV, 421-506; SE, XXI, 64-145; OC, XVIII, 245-            canlise nas universidades, e que indicava a
333; Novas conferncias introdutrias sobre psican-          necessidade de o futuro praticante assegurar-se
lise (1933), ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE, XXII,
5-182; OC, XIX, 83-268; Esboo de psicanlise (1938),
                                                              da orientao ou do controle de um psicanalista
ESB, XXIII, 168-246; GW, XVII, 67-138; SE, XXIII,             experiente a fim de poder conduzir, por sua vez,
139-207; Paris, PUF, 167  Sandor Ferenczi, "Psican-         as chamadas anlises teraputicas.
lise dos hbitos sexuais" (1925), in Psicanlise III,             A evoluo dessa prtica acompanhou o de-
Obras completas, 1919-1926 (Paris, 1974), S. Paulo,
Martins Fontes, 1993, 327-60  Melanie Klein, Psican-        senvolvimento, no movimento psicanaltico, de
lise da criana (Londres, 1932), S. Paulo, Mestre Jou,        uma reflexo sobre a contratransferncia e so-
1975, 2 ed.  Jacques Lacan, "A agressividade em             bre a chamada anlise didtica.
psicanlise" (1948), in Escritos (Paris, 1966), Rio de            Foi em 1925, no congresso de Bad-Hom-
Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 104-26; "Variantes do tra-
tamento-padro" (1953), in ibid., 325-64; "A coisa freu-      burg, que a anlise de controle foi tornada obri-
diana ou Sentido do retorno a Freud em psicanlise"           gatria por Max Eitingon*, juntamente com a
(1955), ibid., 402-37; "Observao sobre o relatrio de       anlise didtica, em todas as sociedades com-
Daniel Lagache: `Psicanlise e estrutura da personali-        ponentes da IPA. Sob a influncia progressiva
dade'" (1958), ibid., 653-91; O Seminrio, livro 7, A tica
da psicanlise (1959-1960) (Paris, 1986), Rio de Janei-
                                                              da poderosa American Psychoanalytical Asso-
ro, Jorge Zahar, 1988  Jean Laplanche e Jean-Bertran-        ciation (ApsaA), o termo superviso, por volta
d Pontalis, Vocabulrio da psicanlise (Paris, 1967), S.      de 1960, substituiu o vocbulo "controle", que
Paulo, Martins Fontes, 1991, 2 ed.  Bernard Penot,          foi resgatado na Frana* por Jacques Lacan e
"L'Instance du surmoi dans les crits de Jacques La-
                                                              adotado de um modo geral pelo movimento
can", in "Surmoi II. Les Dveloppements postfreu-
diens", sob a direo de Nadine Amar, Grard Le               lacaniano. Note-se que o termo ingls control,
Gous e Georges Pragier, monografias da Revue                 tal como os termos francs e alemo, coloca a
Franaise de Psychanalyse, Paris, PUF, 1995, 69-94.           nfase na idia de dirigir e dominar, ao passo
                                                              que a palavra supervision remete a uma atitude
                                                              no diretiva, inspirada nos mtodos da terapia
superviso                                                    de grupo. H, pois, uma diferena entre a termi-
al. Kontrollanalyse; esp. supervisin, anlisis de            nologia lacaniana (que reintegra na anlise de
control; fr. contrle; ing. supervision                       controle um certo dirigismo interpretativo, a
Termo introduzido por Sigmund Freud* em 1919 e                ponto de fazer dela uma espcie de segunda
sistematizado em 1925 pela International Psychoa-             anlise) e a terminologia adotada pela IPA (que
                                                                                       Szondi, Leopold           747

presume que a superviso no  da mesma na-                  Hermann Swoboda, Die Perioden des menschlichen
                                                            Organismus in ihrer psychologischen und biologischen
tureza da anlise pessoal ou da anlise didtica).
                                                            Bedeutung, Leipzig e Viena, Franz Deutike, 1904  Otto
   Todas as correntes do freudismo (annafreu-               Weininger, Sexe et caractre (Viena, 1903), Lausanne,
dismo*, kleinismo*, lacanismo*, Ego Psycho-                 L'ge d'homme, 1975  rik Porge, Vol d'ides, Paris,
logy*, Self Psychology*) admitem como norma                 Denol, 1994.
a necessidade de o futuro psicanalista comple-
mentar sua anlise didtica atravs de pelo me-              AUTO-ANLISE; JUDEIDADE.
nos uma superviso, em geral conduzida por
outro psicanalista que no o didata. Entretanto,
as modalidades desse processo so diferentes,               Szondi, Leopold (1893-1986)
conforme essas correntes pertenam ou no                  psiquiatra e psicanalista suo
IPA.                                                            Nascido em Nytria, na Eslovquia, Leopold
                                                            Szondi era de uma famlia judia ligada s tra-
 Sigmund Freud, "Sobre o ensino da psicanlise nas
universidades" (1919), ESB, XVII, 217-24; SE, XVII,         dies religiosas. Vivendo em Budapeste desde
169-73; in Rsultats, ides, problmes, Paris, PUF,         a infncia, participou com Michael Balint*,
1904, 239-43  On forme des psychanalystes. Rapport         Melanie Klein* e Imre Hermann* do desenvol-
original sur les dix ans de l'Institut Psychanalytique de   vimento da escola hngara de psicanlise*.
Berlin, apresentao de Fanny Colonomos, Paris, De-
nol, 1985  Max Eitingon, "Allocution au IXe Congrs       Com a chegada ao poder do almirante Horthy,
Psychanalytique" (1925), in Moustapha Safouan, Phi-         foi demitido de seu posto universitrio. Depor-
lippe Julien e Christian Hoffmann, Malaise dans la          tado pelos nazistas para o campo de concentra-
psychanalyse, Estrasburgo, Arcanes, 1995, 105-13.           o de Bergen-Belsen, conseguiu fugir para a
                                                            Sua* em 1944 e foi abrigado pelo filho de
 CISO; COLE FREUDIENNE DE PARIS; FILIA-
                                                            August Forel*, o que lhe permitiu depois ins-
O; PASSE; QUESTO DA ANLISE LEIGA, A; TC-
NICA PSICANALTICA; TRANSFERNCIA.
                                                            talar-se em Zurique e exercer a psicanlise.
                                                                Marcado pelo freudismo*, pela escola
                                                            alem de psiquiatria e pelos trabalhos da gen-
supresso                                                   tica, inventou o termo Schiksalsanalyse (an-
                                                            lise do destino), anlise das genealogias fun-
 REPRESSO.
                                                            dada no inconsciente*. Segundo ele, cada sujei-
                                                            to* teria um "genotropismo", uma espcie de
                                                            inconsciente familiar, que determinaria suas
Swoboda, Hermann (1873-1963)
                                                            escolhas no s no campo amoroso, onde estas
jurista austraco                                           se efetuariam em funo de semelhanas la-
    Doutor em direito e em filosofia, professor             tentes inscritas no cdigo gentico, mas tam-
de psicologia na Faculdade de Viena*, Her-                  bm no campo profissional, onde a escolha se
mann Swoboda era amigo de Otto Weininger*                   operaria a partir de afinidades pulsionais.
e analisando de Sigmund Freud* em 1900.                         Dessa concepo genealgica do destino,
Durante seu tratamento, Freud lhe exps sua                 elaborada entre 1937 e 1944, Szondi tirou, em
teoria da bissexualidade*, cujo cerne ele devia             1947, um teste projetivo que o tornou clebre
aos trabalhos de Fliess*. Swoboda transmitiu                no mundo inteiro. Constitudo de 48 fotografias
essas idias a Weininger, que com elas fez um               de doentes mentais, o teste devia revelar a per-
livro clebre, Sexo e carter, publicado em                 sonalidade profunda de um sujeito a partir de
1903. Depois do suicdio de Weininger, Swo-                 suas reaes de simpatia ou hostilidade.
boda, que o acusara de ter roubado as suas
hipteses, redigiu, por sua vez, uma obra que                Leopold Szondi, Schiksalanalyse, Basilia, Benno
provocou em 1904 um incrvel caso de plgios                Schwabe, 1944; Experimentelle Triebdiagnostik, Basi-
em srie. Estimulado por seu amigo Richard                  lia, Huber, 1947  Jacques Schotte (org.), Szondi avec
                                                            Freud. Sur la voie d'une psychiatrie pulsionnelle, Lou-
Pfennig, Fliess acusou Freud de ter "roubado                vain, ditions Universitaires, 1991  Pierre Morel (org.),
suas idias" sobre a bissexualidade por interm-            Dicionrio biogrfico psi (Paris, 1996), Rio de Janeiro,
dio de Swoboda e Weininger.                                 Jorge Zahar, 1997.
                                                   T
Tamm, Alfhild (1876-1959)                                        Judeu originrio da Morvia, Julius Tandler
psiquiatra e psicanalista sueca                               se estabeleceu em Viena* como mdico. Teve
    Primeira mulher sueca psiquiatra, Alfhild                 ocasio de se encontrar com Freud por vrias
Tamm se interessou inicialmente pelos distrbios              vezes, primeiro como perito em neuroses de
da linguagem, depois pelos problemas de pedago-               guerra*, quando era membro da comisso em
gia. Em 1914, criou em Estocolmo uma clnica                  que trabalhava Julius Wagner-Jauregg*, depois
para crianas afsicas, aproximando-se da Wiener              a respeito da anlise leiga*. Sempre muito re-
Psychoanalytische Vereinigung (WPV), da qual                  ceptivo  psicanlise*, interveio a seu favor
se tornou membro em 1926. Fez trs anlises                   como conselheiro da cidade de Viena.
muito curtas, com Paul Federn*, August Aich-
                                                               Karl Sablik, "Sigmund Freud et Julius Tandler: une
horn* e Helene Deutsch*, e abriu um consultrio               mystrieuse relation", Sigmund Freud House Bulletin,
particular em 1909. Mulher moderna e esclareci-               9, 2, inverno de 1985, Revue Internationale d'Histoire
da, foi pioneira da psicanlise* em seu pas. For-            de la Psychanalyse, 3, 1990, 89-103.
mou um casal com uma mulher na poca em que
o movimento psicanaltico no tolerava a homos-
sexualidade* entre seus membros.                              Tausk, Viktor (1879-1919)
    Em 1930, publicou um livro sobre a sexua-
                                                              advogado, psiquiatra e psicanalista austraco
lidade* que causou escndalo. Em agosto de
1931, ao lado de Harald Schjelderup* e Sigurd                     Certamente, foi Lou Andreas-Salom*, que
Naesgaard*, foi representante da Sucia em um                 foi sua amante, quem fez o retrato mais impres-
grupo de estudos que levaria, em 1934,  criao              sionante de Viktor (ou Victor) Tausk, em seu
da Sociedade Psicanaltica Fino-Sueca, da qual                Dirio de um ano. Ela percebeu nele a presena
seria presidente. Permaneceu membro at a                     de uma fora primitiva, o "animal de rapina",
morte, mantendo tambm uma atividade did-                    como dizia Sigmund Freud*, e era sensvel 
tica limitada. Dentro da orientao de seus pri-              maneira como ele se obrigava a pensar "anali-
meiros trabalhos, interessou-se pela gagueira,                ticamente": "Desde o incio, senti em Tausk
que considerava como uma neurose* ligada                     essa luta da criatura humana, e era isso que me
culpa e a uma incapacidade de sublimao*.                    tocava mais profundamente. Animal, meu ir-
                                                              mo, voc."
 Alfhild Tamm, Ett sexual problem, Estocolmo, Tidens             Nascido em Zsilina, na Eslovquia, em uma
Frlag, 1930  Elke Mhlleitner, Biographisches Lexi-         famlia judia de lngua alem, Tausk passou a
kon der Psychoanalyse. Die Mitglieder der Psycholo-
                                                              infncia na Crocia, educado por um pai tirni-
gischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener Psy-
choanalytischen Vereinigung von 1902-1938, Tbin-             co e uma me masoquista e perseguida. Tornan-
gen, Diskord, 1992.                                           do-se advogado e pai de dois filhos (Marius e
                                                              Victor-Hugo), separou-se da mulher, Martha
 ESCANDINVIA.                                                Frisch-Tausk (1881-1957), e instalou-se em
                                                              Berlim, onde tentou fazer carreira na literatura.
                                                              Atingido por uma doena pulmonar, permane-
Tandler, Julius (1869-1936)                                   ceu em uma clnica e mergulhou em profunda
mdico vienense                                               depresso. Quando se recuperou, reuniu-se a
                                                        748
                                                                                 Tausk, Viktor      749

Martha e aos filhos em Viena* para iniciar o         o de que fora vtima ao longo de sua relao
processo de divrcio.                                triangular com Freud e Deutsch.
    Como muitos pioneiros de sua gerao*,               Freud redigiu um necrolgio elogioso sobre
Tausk se voltou para a psicanlise* esperando        Tausk, e escreveu estas palavras a Lou-Andreas
que a nova cincia o ajudasse a superar os           Salom: "O pobre Tausk, que foi distinguido
fracassos de sua vida amorosa e intelectual.         por sua amizade durante algum tempo, se sui-
Cheio de entusiasmo, comeou em 1908 a fazer         cidou da maneira mais radical. Ele regressara
estudos de medicina, parcialmente financiados        exausto, minado pelos horrores da guerra, e
por membros da Sociedade Psicolgica das             sentira-se na obrigao de tentar recuperar-se
Quartas-Feiras*: Ludwig Jekels*, Paul Fe-            em Viena, nas circunstncias mais desfavor-
dern*, e Eduard Hitschmann*. Tausk tornou-se         veis de uma existncia arruinada pela entrada
ento um dos mais brilhantes freudianos da           das tropas; tentou introduzir uma nova mulher
primeira gerao. Obcecado pelo dio ao pai,         na sua vida, iria casar-se dentro de oito dias, no
adotou para com Freud uma atitude feita simul-       mximo -- mas tomou outra deciso. Suas
taneamente de rebelio, adorao e submisso.        cartas de adeus  sua noiva,  sua primeira
No turbilho dessa relao ambivalente, acabou       mulher e a mim so ternas, mostram sua perfeita
acusando-o de roubar suas idias.                    lucidez, no acusam ningum seno sua prpria
    Durante a Primeira Guerra Mundial, esteve        insuficincia e sua vida fracassada, e assim no
na frente srvia. Voltou depois a Viena, para        do nenhum esclarecimento sobre seu ato su-
assistir  derrocada do Imprio Austro-Hnga-        premo." Depois, acrescentou: "Confesso que
ro. Suas mltiplas ligaes amorosas termina-        no sinto realmente sua falta. H muito tempo,
vam muitas vezes em rupturas violentas, o que        eu o considerava intil e at uma ameaa para
o tornava cada vez mais infeliz. Assim, quando       o futuro."
a crise econmica o atingiu em cheio, viu-se             Em 1926, quando estudava medicina, Ma-
num impasse. Pediu ento a Freud que o anali-        rius Tausk encontrou-se com Federn, que o
sasse. Este recusou-se categoricamente. Entre-       acolheu calorosamente e lhe falou de seu pai
tanto, diante da obstinao e do sofrimento do       com emoo. Posteriormente, Victor-Hugo
discpulo, Freud armou uma dessas confuses          Tausk fez uma anlise gratuita com Hit-
transferenciais, que tinha o hbito de fazer nessa   schmann. Como acontecia freqentemente, a
poca: em janeiro de 1919, enviou Tausk, para        comunidade psicanaltica assumiu os filhos de
ser analisado, a Helene Deutsch, que estava, ela     seu infeliz companheiro. Desejando pagar as
mesma, em tratamento com Freud.                      dvidas do pai, Marius Tausk dirigiu-se a Freud,
    Pensava que poderia assim, "supervisio-          que lhe respondeu que no tinha nenhuma lem-
nar", atravs de Helene, o desenrolar da anlise     brana da soma emprestada e que isso no tinha
de Tausk. O caso terminou em desastre. Tausk         a menor importncia.
usou a maioria de suas sesses para despejar             Em 1938, quando os nazistas entraram em
agresses contra Freud, sabendo perfeitamente        Viena, Jelka, irm de Tausk, se suicidou com
que Helene Deutsche relataria tudo a este. Em        seu marido e o irmo deste.
maro de 1919, a conselho de Freud, ela inter-           As circunstncias do suicdio* de Tausk fo-
rompeu o tratamento no momento em que                ram cuidadosamente mascaradas pela his-
Tausk estava a ponto de se casar com Hilde           toriografia* oficial, e a ltima frase de Freud foi
Loewi, uma de suas ex-pacientes, que estava          censurada por Anna Freud* por ocasio da pu-
grvida dele.                                        blicao da correspondncia deste com Lou-
    Trs meses depois, em 3 de julho, Tausk se       Andreas Salom. Anna temia que Marius Tausk
suicidou, estrangulando-se com um cordo de          ficasse ofendido com a dureza de Freud para
cortina e dando um tiro na tmpora. Acabava de       com seu pai.
redigir um admirvel texto, que se tornaria um           Em 1969, Paul Roazen trouxe  tona essa
clssico, intitulado "Da gnese do aparelho de       terrvel histria em um livro contestvel, que
influenciar no curso da esquizofrenia". Nas          fazia de Tausk a vtima de um compl transfe-
entrelinhas, aparecia a trgica despersonaliza-      rencial, inteiramente fabricado por Freud. Dois
750       Tavistock Clinic

anos depois, em Talent and Genius, e depois em              como tcnicas. A durao das sesses, a durao
1983 em outra obra, Kurt Eissler lhe respondeu,             da prpria anlise, o nmero de sesses por sema-
glorificando a bondade de Freud e apresentando              na, o modo de interveno (ativo ou passivo) do
Tausk como um personagem odioso, sdico,                    analista, a posio do analisando (deitado ou frente
exibicionista e sobretudo inteiramente "res-                a frente), todas essas questes foram objeto de
ponsvel" por seu suicdio. Foi Marius Tausk                mltiplos debates, que sempre conduziram  defi-
                                                            nio de novas maneiras de conduzir as anlises
quem soube achar os melhores termos para falar
                                                            conforme se estivesse lidando com crianas, com
de seu pai e restabelecer a verdade.
                                                            neurticos ou psicticos e com psicanalistas em
   Esse caso mostra at que ponto Freud era
                                                            formao, ou conforme se pertencesse a uma das
ambivalente quando estava diante desse gnero
                                                            grandes correntes do freudismo*: annafreudismo*,
de rebelio contra o pai ou de situaes que lhe
                                                            Ego Psychology*, Self Psychology*, kleinismo* ou
lembravam os "roubos de idias" de Wilhelm
                                                            lacanismo*.
Fliess*. Ele tambm mostra a deficincia da
psicanlise diante do suicdio em geral.                        No que concerne a esse ponto, a histria da
                                                            psicanlise, no sentido clnico e teraputico do
 Victor Tausk, Oeuvres psychanalytiques, Paris,            termo,  sempre a histria das inovaes tcni-
Payot, 1975  Sigmund Freud, "Viktor Tausk" (1919),         cas introduzidas por seus grandes clnicos, te-
ESB, XVII, 339; GW, XII, 316-8; SE, XVII, 273-5; OC,
XV, 203-9  Freud/Lou Andreas-Salom: correspon-            nham eles sido ou no dissidentes da Internatio-
dncia completa (Frankfurt, 1966), Rio de Janeiro,          nal Psychoanalytical Association* (IPA).
Imago, 1975  Paul Roazen, Irmo animal (N. York,               A psicanlise nasceu da contestao ao nii-
1969), Rio de Janeiro, Imago, 1995  Kurt Eissler, Talent
                                                            lismo teraputico que dominava a psiquiatria
and Genius: The Fictitious Case of Tausk Contra Freud,
N. York, Quadrangle, 1971; Le Suicide de Victor Tausk.      alem do final do sculo XIX, atravs da noso-
Avec les commentaires du professeur Marius Tausk (N.        grafia de Emil Kraepelin*. A atitude niilista
York, 1983) Paris, PUF, 1988.                               levava a que se observasse o doente sem escu-
                                                            t-lo e a que se classificassem as doenas da
 ESQUIZOFRENIA; FRINK, HORACE; GROSS, OT-
TO; MACK-BRUNSWICK, RUTH; MELANCOLIA; SU-
                                                            alma sem procurar trat-las. Em conseqncia
PERVISO.
                                                            disso, Freud manifestou, desde seus primeiros
                                                            tempos como clnico, uma vontade indomvel
                                                            de curar os homens de seus sofrimentos psqui-
Tavistock Clinic                                            cos e, acima de tudo, de provar que seu mtodo
 BION, WILFRED RUPRECHT; GR-BRETANHA.                      era o mais eficaz por ser o mais cientfico e o
                                                            mais coerente. Em outras palavras, a psicanlise
                                                            teve, originalmente, a meta teraputica de curar
tcnica ativa                                               depressa e bem: da o nascimento de uma nova
 FERENCZI, SANDOR;           RANK, OTTO; TCNICA            utopia, correlata a uma nova doutrina.
PSICANALTICA.                                                  Em pouco tempo, entretanto, foi preciso per-
                                                            der as iluses: como todos os mtodos terapu-
                                                            ticos, como toda a medicina, a psicanlise no
tcnica psicanaltica                                       conseguiu definir os cnones do tratamento per-
al. psychoanalytische Technik; esp. tcnica psicoa-         feito. Houve fracassos, falhas e desastres pro-
naltica; fr. technique psychanalytique; ing. techni-
                                                            vocados pela rotina, pela lentido e pela escle-
que of psychoanalysis
                                                            rose da escuta. Da a idia de refletir sobre uma
Na histria do movimento freudiano, chama-se tc-
                                                            nova temporalidade da anlise e, por conse-
nica psicanaltica* aos procedimentos clnicos, te-
                                                            guinte, de organizar de outra maneira sua dura-
raputicos e interpretativos de interveno que
permitem definir o quadro do tratamento psicana-
                                                            o. Foi assim que nasceu a noo de "pressa
ltico. Ao lado da reflexo sobre a transferncia*, a       teraputica", que marcaria o conjunto das ino-
contratransferncia*, a regra fundamental* ou a             vaes tcnicas do freudismo durante cem anos:
abstinncia*, e no prprio interior das modalidades         "A tentao seria dupla", escreveu Jean-Baptis-
de aparecimento da anlise didtica* e da supervi-          te Fags: "encurtar o tratamento e precipit-lo,
so*, esse quadro  delimitado por regras tidas             a fim de obter uma eficcia tangvel."
                                                                          tcnica psicanaltica       751

    O primeiro a contestar o carter intermin-     atravs de etapas sucessivas, a experincia da
vel da anlise freudiana e a empregar um mto-      anlise, caso necessrio.
do chamado de "ativo" foi Wilhelm Stekel*. Ele          Entre os sucessores de Freud que eram adep-
props limitar as anlises a 50 a 150 sesses, ao   tos da "pressa teraputica", Jacques Lacan* foi
ritmo de trs a seis por semana. Depois dele, foi   o nico a empregar uma inovao tcnica que
Sandor Ferenczi*, o mais brilhante clnico de       consistiu em abreviar a durao das sesses em
toda a histria da psicanlise, quem inventou,      vez da durao da anlise. Ele invocou a neces-
em 1919, o princpio da "tcnica ativa", segun-     sidade de pontuar o discurso do analisando a
do o qual, em vez de se limitar a interpretaes,   partir do enunciado de um significante*. Essa
o analista deveria intervir durante as sesses      inovao levou a corrente lacaniana a um alon-
atravs de ordens e proibies. Mais tarde, Fe-     gamento considervel da durao das anlises
renczi levaria esse ativismo ao extremo de per-     e terminou, para o prprio Lacan, num desafio
mitir que alguns pacientes o abraassem ou          faustiano: a dissociao radical do tempo da
beijassem a fim de instaurar uma identificao      sesso.
com um genitor amoroso que houvesse faltado             Essas inovaes tcnicas trouxeram a prova
durante a infncia. Em 1932, ele foi ainda mais     de que a psicanlise, longe de permanecer cris-
longe, com a idia da anlise mtua, segundo a      talizada numa doutrina monoltica, soube mo-
                                                    dificar sua prtica ao longo dos anos, enfrentan-
qual o terapeuta podia inverter os papis: ir 
                                                    do tanto a concorrncia das outras psicotera-
casa do paciente, em vez de faz-lo vir a seu
                                                    pias* quanto as transformaes radicais decor-
consultrio; deixar que ele conduzisse a anlise
                                                    rentes da demanda e do desejo* dos analisan-
conforme sua vontade, ou, ainda, concordar em
                                                    dos.
se deitar no div em lugar dele, ou em lhe pagar
                                                        Uma das grandes revolues da psicanlise
honorrios. Em suma, tratava-se de instaurar
                                                    foi abolir a separao tradicional entre o mdico
uma reciprocidade maternalizadora, a fim de         e o paciente. Ao dar a palavra ao paciente, e no
obter resultados cada vez melhores. Freud de-        nosografia, e ao considerar que o prprio
nunciou o furor sanandi (loucura de curar) de       sujeito podia verbalizar seus sintomas, a doutri-
seu discpulo predileto.                            na freudiana permitiu que antigos pacientes se
    Por sua vez, Otto Rank* desenvolveu a idia     transformassem, por sua vez, em terapeutas. Ela
de uma "terapia ativa": as anlises deveriam ser    como que apagou a fronteira tradicional entre o
curtas (alguns meses) e limitadas de antemo.       saber e a verdade, entre a cincia e a dor, entre
Ele sustentou tambm que, em vez de conduzir        a razo e a loucura*. Portanto, o prprio estatuto
incessantemente o paciente  sua histria pas-      da cura psquica modificou-se consideravel-
sada e a seu inconsciente, interpretando os so-     mente no intervalo de um sculo. Mais do que
nhos e o complexo de dipo*, era prefervel         eliminar os sintomas ou pretender erradic-los,
apelar para a vontade consciente dele, para sua     a psicanlise apontou o caminho para uma certa
situao atual e seu desejo de cura, nica ma-      sabedoria: a cura equivale tanto a uma transfor-
neira de faz-lo sair de uma passividade maso-      mao quanto a uma aceitao de si mesmo.
quista. Em seguida vieram as inovaes de
Wilhelm Reich*, Franz Alexander* e da Escola         Sigmund Freud, "Anlise terminvel e interminvel"
                                                    (1937), ESB, XXIII, 247-90; GW, XVI, 59-99; SE, XXIII,
de Chicago, e por ltimo, de Michael Balint*,       209-53; in Rsultats, ides, problmes, vol.2, Paris,
amplamente inspiradas na filiao* ferenczia-       PUF, 1985, 231-69  Sandor Ferenczi, "A tcnica psi-
na.                                                 canaltica" (1919), in Psicanlise II, Obras completas,
    Freud levou em conta as modificaes intro-     1913-1919 (Paris, 1970), S. Paulo, Martins Fontes,
                                                    1992, 357-68; Dirio clnico, janeiro-outubro de 1932
duzidas por seus alunos e sublinhou, no fim de      (Paris, 1985), S. Paulo, Martins Fontes, 1990  Sandor
sua vida, o carter "interminvel" da psican-      Ferenczi e Otto Rank, Perspectives de la psychanalyse
lise. Renunciando a qualquer ideal de um trata-     (Viena, 1924), Paris, Payot, 1994; "Contra-indicaes
                                                    da tcnica ativa", in Psicanlise III, Obras completas,
mento perfeito ou uma cura completa, ele for-
                                                    1919-1926 (Paris, 1974), S. Paulo, Martins Fontes,
mulou a idia, tanto para os analistas quanto       1993, 365-76  Otto Rank, La Technique de la psycha-
para os pacientes, de renovar indefinidamente,      nalyse (1926), traduzido para o francs sob o ttulo La
752      Tegel, Sanatrio do Castelo de

Volont du bonheur, Paris, Stock, 1934  Jacques          brevivncia da personalidade aps a morte" e,
Lacan, "Funo e campo da fala e da linguagem em
                                                          acima de tudo, porque fazia questo de instaurar
psicanlise" (1953), in Escritos (Paris, 1966), Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, 1998, 238-324; O Seminrio,         uma linha demarcatria muito clara entre a
livro 1, Os escritos tcnicos de Freud (1953-1954)        psicanlise como cincia e "esse campo de co-
(Paris, 1975), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979         nhecimento ainda inexplorado", a fim de no
Jean-Baptiste Fags, Histoire de la psychanalyse
                                                          criar o menor mal-entendido a esse respeito.
aprs Freud (Toulouse, 1976), Paris, Odile Jacob, 1996
 Andr Haynal, La Technique en question. Contro-             O fato de Freud sempre haver querido man-
verses en psychanalyse, Paris, Payot, 1987  lisabeth    ter afastado de sua doutrina aquilo a que gostava
Roudinesco, Jacques Lacan. Esboo de uma vida,            de chamar de "mar negra do ocultismo" no o
histria de um sistema de pensamento (Paris, 1993),       impediu de se sentir fascinado por esse campo,
S. Paulo, Companhia das Letras, 1994  Ernst Falze-
der, "Filiations psychanalytiques: la psychanalyse        a ponto de se mostrar de uma extrema ambiva-
prend effet" (1994), in Andr Haynal (org.), La Psycha-   lncia a propsito do assunto. Esse fascnio
nalyse: cent ans dj (Londres, 1994), Genebra,           pelos fenmenos ligados ao estranho, ao ir-
Georg, 1996, 255-89.                                      racional ou ao inexplicvel confirma perfeita-
 ANLISE DIRETA; ANLISE EXISTENCIAL; COLE               mente que Freud pertence  linhagem dos des-
FREUDIENNE DE PARIS; ESPIRITISMO; FENICHEL,               cobridores do inconsciente e dos cientistas que
OTTO; FILIAO; GLOVER, EDWARD; KOHUT,                    foram herdeiros da "Aufklrung sombria", para
HEINZ; LACANISMO; PASSE; QUESTO DA ANLISE               retomarmos a expresso do filsofo israelense
LEIGA, A; TELEPATIA.                                      Yirmiyahu Yovel. Ele foi um cientista perpas-
                                                          sado pela diviso entre o cogito e a loucura,
                                                          caminhando atravs da dvida desde o erro at
Tegel, Sanatrio do Castelo de                            a verdade e abraando as teorias mais extrava-
 SIMMEL, ERNST.                                           gantes de sua poca (como as de Wilhelm
                                                          Fliess*, por exemplo), para depois transform-
                                                          las ou assimil-las. Quanto  psicanlise, que
telepatia                                                 ganhou impulso a partir de um mergulho inter-
al. Telepathie; esp. telepata; fr. tlpathie; ing.      pretativo no domnio do sonho*, ela foi, segun-
telepathy                                                 do a bela frmula de Thomas Mann*, um "ro-
                                                          mantismo que se tornou cientfico".
Termo criado por Frederick Myers*, em 1882, a
partir do grego tele (longe) e pathos (emoo), para
                                                               nesse movimento de hesitao perma-
designar uma comunicao  distncia atravs do
                                                          nente da doutrina psicanaltica entre a sombra e
pensamento (ou transmisso de pensamento) en-             a luz, entre a paixo e a razo, entre o irracional
tre duas pessoas reputadas como estando numa              e a cincia, bem como entre Sandor Ferenczi*
relao psquica. O fenmeno foi descrito por Sig-        e Ernest Jones*, que convm compreendermos
mund Freud*, em 1921, na categoria de uma trans-          a histria das relaes de Freud com a telepatia.
ferncia* de pensamento.                                      Essa "histria" de ocultismo comeou em
    Na histria da psicanlise* e de suas origens, a      1909, em Viena*, quando Carl Gustav Jung*
telepatia e o espiritismo* (ou comunicao com os         exps ante o olhar assombrado de Freud seus
mortos por intermdio de um mdium) so inclu-           talentos de ilusionista, fazendo tilintarem al-
dos na categoria de fenmenos do mbito do ocul-          guns objetos colocados sobre os mveis do
tismo*.                                                   apartamento da rua Berggasse 19. Depois de
    Em 1921, a uma carta do psiquiatra norte-             procurar imitar seu jovem discpulo, Freud es-
americano Hereward Carrigton, que lhe havia               queceu-se desse episdio, que tornou a vir 
pedido sua opinio sobre os fenmenos ocultos,            baila em 1910, quando Ferenczi comeou a
Sigmund Freud* respondeu com as seguintes                 caar videntes e profetisas pelos arredores de
palavras: "Se eu me encontrasse no incio de              Budapeste, a fim de provar a seu mestre a
minha carreira cientfica, e no em seu fim,              existncia da transmisso de pensamento.
talvez escolhesse outros campos de pesquisa."             Freud fez ento meia-volta e contou a seu dis-
Depois, pediu a seu destinatrio que no men-             cpulo a histria de um astrlogo de Munique
cionasse seu nome, pois no acreditava na "so-            que era capaz de prever o futuro a partir das
                                                                                   telepatia     753

datas de nascimento. Encantado, Ferenczi res-       rncia sobre o tema "Sonho e ocultismo", na
pondeu-lhe: "Quando estiver em Viena, vou me        qual integraria o material introduzido em 1921
apresentar como astrlogo da corte dos              e, em particular, o famoso caso de David For-
psicanalistas." Em 1913, nova meia-volta:           syth*, que deveria figurar em "Psicanlise e
Freud encerrou o debate, condenando implaca-        telepatia". Essa conferncia seria publicada em
velmente, em nome da cincia, as experincias       1933, no mbito das Novas conferncias intro-
telepticas de um certo professor Roth que Fe-      dutrias sobre psicanlise*.
renczi levara  Wiener Psychoanalytische Ver-           Logo no incio de "Psicanlise e telepatia",
einigung (WPV).                                     Freud explica seu interesse pelo assunto. O
    A partir de 1920 e at 1933, a questo do       ocultismo e a psicanlise tm, segundo ele, um
oculto tornou a surgir quando o movimento           ponto em comum: ambos sofreram, por parte da
psicanaltico, sob a direo de Max Eitingon*,      cincia oficial, um tratamento desdenhoso e
estabeleceu as grandes regras padronizadas da       arrogante. O progresso das cincias (descoberta
anlise didtica*, que fariam da International      do rdio e da relatividade) --  o que ele acres-
Psychoanalytical Association* (IPA) um movi-        centa, em sntese -- talvez tenha como duplo
mento organizado segundo os princpios do           efeito tornar pensvel aquilo que a cincia an-
racionalismo positivista. Nesse contexto, no        terior rejeitara no ocultismo e, ao mesmo tem-
qual o ideal de uma possvel cientificidade da      po, despertar novas foras obscurantistas. Da
psicanlise caminhava de mos dadas com a           o perigo: pessoas irresponsveis podem enfiar
progressiva institucionalizao dos princpios      na cabea a idia de manipular certas tcnicas
da anlise, Freud tomou a defesa da telepatia.      ligadas ao ocultismo, a fim de entorpecer a
Com sua filha Anna e com Ferenczi, "fez mesas       credulidade dos homens em proveito prprio.
girarem" e se entregou a experincias de trans-     Na seqncia do texto, Freud narra diversas
misso de pensamento, durante as quais desem-       pretensas experincias de telepatia, em especial
penhou o papel de mdium, analisando suas as-       as de um adivinho cujas profecias nunca se
sociaes verbais. Jones e Eitingon tentaram        cumpriram.
ento refrear-lhe o ardor, argumentando com o           Ele conta tambm a histria do rapaz que foi
fato de que a converso da psicanlise  telepa-    consultar uma profetisa, fornecendo-lhe a data
tia aumentaria as resistncias do mundo anglo-      de nascimento de seu cunhado. A mulher afir-
saxo  doutrina freudiana e a apresentaria co-     mou prontamente que o cunhado em questo
mo obra de um charlato. A fim de fazer a psi-      morreria de envenenamento por ostras e siris.
canlise ingressar na era da cincia e de marcar    Estarrecido, o rapaz constatou que o fato anun-
o trmino definitivo de sua ancoragem no velho      ciado j havia acontecido: grande amante de
mundo austro-hngaro, povoado de ciganos e          frutos do mar, o cunhado, de fato, por pouco no
magos, Jones props banir dos debates da IPA        morrera de envenenamento por ostras no ano
as investigaes sobre o ocultismo. Freud con-      anterior. Freud conclui disso que um fenmeno
cordou e impediu Ferenczi de apresentar, no         de telepatia entre o rapaz e a vidente esteve na
congresso de Bad-Homburg, uma comunicao           origem da previso: "Esse saber foi transferido
sobre suas experincias de telepatia.               para ela, a suposta profetisa, por vias desconhe-
    Entretanto, em 1921 ele voltou a mudar de       cidas, que excluem as modalidades de comuni-
idia, redigindo um artigo sem ttulo, o qual se    cao que conhecemos. Ou seja,  mister con-
props apresentar em 1922 no congresso de           cluirmos: existe transferncia de pensamento."
Berlim. Eitingon e Jones dissuadiram-no de              Assim, vemos que Freud abandonou o ter-
faz-lo. Freud retirou seu texto, que seria enfim   reno do oculto e da crena na telepatia pelo da
publicado em 1941, postumamente, com o ttu-        interpretao psicanaltica. Com isso, mostrou
lo de "Psicanlise e telepatia". Depois dessa       um dos aspectos mais fascinantes de seu talento
recusa, ele voltou  carga, no mesmo ano, com       clnico, que tanto encontramos em seu texto
um outro artigo, "Sonhos e telepatia", que tinha    sobre Leonardo da Vinci (1452-1519) quanto
o mesmo sentido. E mandou public-lo na Ima-        na anlise de Serguei Constantinovitch Panke-
go*. Dez anos depois, Freud faria uma confe-        jeff* ou de Marie Bonaparte*. Com efeito,
754     telepatia

Freud nunca hesitou em endossar, em nome da          convinha dar uma interpretao psicanaltica.
psicanlise e por encar-la como uma cincia,        Entretanto, fingindo aderir  telepatia, brincou
um verdadeiro papel de feiticeiro, xam ou           de retornar a uma viso como que "pr-freudia-
vidente. Tal como Fausto, ele brincava com o         na", pr-hipntica ou magntica da relao
diabo.                                               transferencial. Isso porque, se a transmisso de
    Mas, para Jones, essas histrias de vidncia     pensamento existia independentemente de uma
eram puras elucubraes que punham em peri-          situao analisvel em termos de transferncia,
go a poltica racional conduzida pela IPA: "O        ela s podia ser compreendida sob a categoria
senhor poderia ser bolchevista", escreveu ele a      de um "fluido" capaz de colocar os sujeitos em
Freud, "mas no favoreceria a aceitao da           estado de hipnose: um fluido virtual, sem dvi-
psicanlise se o anunciasse." Ao que Freud           da, e sem nenhum esteio fsico-qumico, mas
respondeu: " realmente difcil no ferir as         ainda assim um fluido, um fluido oculto, escon-
suscetibilidades inglesas. No se abre para mim      dido, espiritual, digno dos gurus e das seitas, e
nenhuma perspectiva de apaziguar a opinio           que agiria  revelia do prprio inconsciente,
pblica na Inglaterra, mas eu gostaria ao menos      numa espcie de anterioridade mtica.
de explicar a voc minha aparente inconseqn-           O jogo a que se entregou Freud, bem nas
cia no que concerne  telepatia (...). Quando        barbas de Jones, confirma que, em cada crise da
alegarem em sua presena que ca em pecado,          histria do movimento psicanaltico, a questo
responda calmamente que minha converso             da telepatia retornou juntamente com a da hip-
telepatia  assunto pessoal meu, tal como o fato     nose. Tratou-se sempre de reivindicar, em opo-
de eu ser judeu, de fumar apaixonadamente e          sio a uma primazia excessivamente racional,
muitas outras coisas, e que o tema da telepatia      excessivamente universalista, ou excessiva-
 essencialmente alheio  psicanlise."              mente dogmtica da cincia, um saber regional,
    Esses conflitos mostram que as incoerncias      mgico e sobretudo libertrio, um saber que
de Freud constituram menos um sintoma da re-        escapava s restries da ordem estabelecida.
jeio ou aceitao da telepatia em si do que um     Que Freud tenha querido a tal ponto brincar de
sinal de sua condio de cientista visionrio e      profetisa e de vidente do velho Imprio Austro-
de sua resistncia passiva  linha poltica preco-   Hngaro, divertindo-se em fazer de conta que
nizada por Jones. Esta consistia em apoiar os        acreditava na telepatia, muito embora a reduzis-
norte-americanos na defesa da anlise medica-        se a uma manifestao do inconsciente e da
lizada, em detrimento da anlise leiga*, e em fa-    transferncia, mostra claramente o estatuto par-
zer com que o conjunto da doutrina freudiana         ticular da psicanlise em sua relao violenta,
entrasse numa espcie de cientificismo de onde       contraditria e ambgua com a cincia, a loucu-
fossem expurgadas todas as escrias de seu "ir-      ra* e a medicina, assim como o carter reiterado
racionalismo" original: espiritismo, sonambu-        de sua interrogao sobre suas origens.
lismo, magnetismo etc. Sob esse aspecto, a crise         A melhor traduo* francesa de "Psicanlise
ocultista que perpassou o movimento psicanal-       e telepatia" foi publicada em 1983 por Wladi-
tico freudiano entre 1920 e 1930 remete ao grande    mir Granoff e Jean-Michel Rey, e foi Jacques
debate sobre o abandono da hipnose*, tambm          Derrida quem forneceu, em 1981, o comentrio
ele recorrente na histria da psicanlise*.          mais notvel sobre o texto: "A psicanlise, por-
    Freud abandonou a prtica do hipnotismo e        tanto", escreveu ele, "(...) assemelha-se a uma
da sugesto* para basear a psicanlise no mto-      aventura da racionalidade moderna para engolir
do da associao livre* e na anlise da transfe-     e rejeitar, ao mesmo tempo, o corpo estranho
rncia*, isto , numa concepo do sujeito           denominado Telepatia, para assimil-lo e vomi-
segundo a qual este aceita conscientemente a         t-lo, sem conseguir decidir-se por uma coisa
existncia de seu inconsciente. Da mesma ma-         nem por outra (...). A `converso' no  uma
neira, ele transformou a telepatia, fenmeno         resoluo nem uma soluo,  ainda a cicatriz
oculto que pressupe uma interveno do Alm         eloqente do corpo estranho. J meio sculo
(dos astros, da vidncia ou do demonaco), nu-       comemora a grande Virada (...) Telepatia, vinde
ma pura transferncia de pensamento,  qual          a ns (...)."
                                                                                                  tpica     755

 Sigmund Freud, "Psicanlise e telepatia" (1941           pologia* e da etnopsicanlise*. Sob esse pris-
[1921]), ESB, XVIII, 217-38; GW, XVII, 27-44; SE,
                                                           ma, ela est ligada  antipsiquiatria*, ao neo-
XVIII, 177-93; OC, XVI, 99-119; "Sonhos e telepatia"
(1922), ESB, XVIII, 239-70; GW, XIII, 165-91; SE, XVIII,   freudismo*, ao culturalismo*, s diversas psi-
197-220; OC, XVI, 119-45; "Sonho e ocultismo", in          coterapias de grupo e  psicoterapia ins-
Novas conferncias introdutrias sobre psicanlise         titucional*, sejam esses mtodos atravessados
(1933), ESB, XXII, 15-226; GW, XV; SE, XXII, 5-182;        ou no pelos princpios da psicanlise*.
OC, XIX, 83-268; Correspondance 1873-1939 (Lon-
dres, 1960), Paris, Gallimard, 1966  Sigmund Freud e
Sandor Ferenczi, Correspondncia, 1908-1914, vol.I,
2 tomos (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Imago, 1994,        terapia (ou psicoterapia) de grupo
1995  Thomas Mann, Freud et la pense moderne              BION, WILFRED RUPRECHT; BURROW, TRI-
(1929), Paris, Aubier-Flammarion, 1970  Ernest
                                                           GANT; PSICOTERAPIA.
Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3 vols. (N.
York, 1955), Rio de Janeiro, Imago, 1989  Jacques
Derrida, "Tlpathie" (1981), in Psych. Invention de
l'autre, Paris, Galile, 1987, 237-71  lisabeth Roudi-   tpica
nesco, Histria da psicanlise na Frana, vol.1 (Paris,    al. Topik; esp. tpica; fr. topique; ing. topic
1982), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989  Wladimir
Granoff e Jean-Michel Rey, L'Occulte, objet de la pen-     Termo derivado do grego topos (lugar) e que de-
se freudienne, Paris, PUF, 1983  Luisa de Urtubey,       signa, na filosofia, de Aristteles (385-322 a.C.) a
Freud et le diable, Paris, PUF, 1983  Yirmiyahu Yovel,    Immanuel Kant (1724-1804), a teoria dos lugares,
Spinoza et autres hrtiques, Paris, Seuil, col. "Libre    isto , das classes gerais em que podem ser inclu-
examen", 1991.
                                                           das todas as teses ou elaboraes.
                                                               Sigmund Freud* utilizou o termo como adjetivo
 LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANA DE SUA
                                                           e como substantivo, para definir o aparelho psqui-
INFNCIA .
                                                           co em duas etapas essenciais de sua elaborao
                                                           terica.

terapia ativa                                                  Na primeira concepo tpica, chamada de
 FERENCZI, SANDOR; RANK, OTTO; TCNICA                     primeira tpica freudiana (1900-1920), Freud
PSICANALTICA.                                             distinguiu o inconsciente*, o pr-consciente* e
                                                           o consciente*; na segunda concepo, ou
                                                           segunda tpica (1920-1939), fez intervirem trs
terapia de famlia                                         instncias ou trs lugares, o isso* o eu* e o
al. Familie Therapie; esp. terapia de familia; fr.
                                                           supereu*.
thrapie familiale; ing. family therapy                        A histria do movimento psicanaltico for-
                                                           neceu pelo menos duas leituras da segunda
    A terapia de famlia  um mtodo de psico-
                                                           tpica freudiana. Uma consiste em acentuar o
terapia* coletiva que visa cuidar da patologia
                                                           eu, em detrimento do isso, e deu origem  Ego
psquica de um sujeito* a partir de sua histria
                                                           Psychology*, enquanto a outra privilegia mais
familiar e da incluso dos membros da famlia
                                                           o isso, para repensar o estatuto do eu e lhe
no tratamento, entendendo-se que, conforme as
                                                           acrescentar um si mesmo (self) ou um sujeito*,
diferentes escolas, a famlia  considerada uma
                                                           como no kleinismo*, na Self Psychology* e no
estrutura normativa onde se elabora a identi-
                                                           lacanismo*.
dade do sujeito, ou um meio patognico domi-
                                                               Designa-se igualmente pelo nome de tpica
nado por um double bind (ou duplo vnculo*),
                                                           a trilogia lacaniana do simblico*, do imagin-
ou, ainda, um sistema (teoria sistmica) onde o
                                                           rio* e do real*. Essa tpica passou por duas
sujeito  visto como o produto biolgico, social
                                                           organizaes sucessivas: na primeira (1953-
e psquico de um conjunto de elementos intera-
                                                           1970), o simblico exerceu a primazia sobre as
tivos regidos por suas regras prprias.
                                                           outras duas instncias (S.I.R.) e, na segunda
    Na histria da psiquiatria dinmica*, a tera-
                                                           (1970-1978), o real  que foi colocado na posi-
pia de famlia nasceu da transformao do mo-
                                                           o dominante (R.S.I.).
delo da famlia patriarcal no fim do sculo XIX,
da generalizao do tratamento da esquizofre-               Andr Lalande, Vocabulrio tcnico e crtico da filo-
nia* e, por fim, do desenvolvimento da antro-              sofia (Paris, 1926), S. Paulo, Martins Fontes, 1993.
756      Trngren, Pehr Henrik

 MAIS-ALM DO PRINCPIO DE PRAZER; MATEMA;                Janklvitch, sob o ttulo Totem et tabou, e por
METAPSICOLOGIA; N BORROMEANO; PULSO; RE-                Marielne Weber, em 1993, com o ttulo Totem et
CALQUE.                                                   tabou. Quelques concordances entre la vie psychi-
                                                          que des sauvages et celle des nvross. Traduzido
                                                          para o ingls pela primeira vez em 1918, por Abra-
Trngren, Pehr Henrik (1908-1965)                         ham Arden Brill*, sob o ttulo Totem and Taboo, e
                                                          por James Strachey*, com o mesmo ttulo, primeiro
mdico e psicanalista sueco
                                                          em 1950 e, depois, em 1953, com algumas modifi-
    Filho de mdico, Pehr Henrik Trngren, que
                                                          caes.
fez parte do conselho de redao da revista
sueca Spektrum, logo se apaixonou pela psica-                 Ao lado de Leonardo da Vinci e uma lem-
nlise*. Formado no div de Ludwig Jekels*,               brana de sua infncia* e de Moiss e o mono-
quando este encontrava-se em Estocolmo, en-               tesmo*, Totem e tabu figura entre os livros mais
trou em conflito com ele.                                 criticados de Freud. Os trs encerram, com efei-
    Em 1936, publicou Striden om Freud (Que-              to, erros patentes e interpretaes equivocadas
rela a propsito de Freud), que constitui um dos          que no escaparam ao olhar vigilante dos es-
documentos mais antigos da histria da psica-             pecialistas em arte, antropologia* e histria das
nlise na Sucia. Nesse livro, respondeu aos              religies. Ainda assim, esses trs livros so
ataques clssicos dos adversrios da doutrina             verdadeiras obras-primas, tanto por sua reda-
vienense e mostrou de que modo o nacionalis-              o, digna da melhor literatura romanesca do
mo era utilizado contra o freudismo* na Escan-            sculo XIX, quanto pelo desafio que lanam ao
dinvia*. Como muitos freudianos do primeiro              raciocnio cientfico.
crculo vienense, interessou-se pela aplicao                 na correspondncia com Sandor Ferenc-
da psicanlise s questes sociais. Tornou-se             zi*, seu discpulo favorito, que melhor capta-
membro da Sociedade Fino-Sueca em 1938.                   mos a exaltao que se apoderou de Freud
Traduziu tambm Moiss e o monotesmo*.                   quando ele abordou o campo da antropologia,
    Nietzschiano de longa data, apaixonou-se              para ocup-lo  maneira de um general. Com
depois pela obra de Max Stirner (1806-1856),              essa histria de totem e tabu, ele julgou estar
criticou certos aspectos da doutrina freudiana e          produzindo seu melhor trabalho desde A inter-
voltou-se para a reflexologia. Esprito original          pretao dos sonhos*, e se regozijou com a
e independente, era mal considerado no seio de            idia de provocar uma nova tempestade de in-
sua sociedade, muito conformista, da qual, en-            dignao. E cabe dizer que esse era um desafio
tretanto, continuou sendo membro. Morreu em               de porte.
Estocolmo, s e esquecido.                                    Em 1911, um ano aps a criao da Interna-
                                                          tional Psychoanalytical Association* (IPA),
 Pehr Henrik Trngren, Striden om Freud, Estocolmo,
Albert Bonniers Frlag, 1936  Gsta Harding, "De la      Freud j no era o pai primevo de uma horda
psychanalyse  la rflexologie. Quelques mots sur         selvagem, mas o mestre reconhecido de uma
Pehr Henrik Trngren", Nordisk Medicin, t.73, 25, 1965,   doutrina que acabava de se prover de um apare-
615-7.                                                    lho poltico que escapava ao seu poder.
                                                          Descentrando-se de Viena*, o movimento psi-
 PSICANLISE APLICADA; RSSIA.
                                                          canaltico havia passado do estado de tribo pri-
                                                          mitiva para o de sociedade moderna. Da o
                                                          duplo distanciamento do pai em relao aos
Totem e tabu
                                                          filhos e destes em relao ao pai. O primeiro
Livro de Sigmund Freud*, publicado pela primeira
                                                          corria o risco do abandono, da infidelidade, da
vez em quatro partes, na revista Imago* (entre 1912
e 1913), sob o ttulo "ber einige bereinstimmun-
                                                          heresia, da humilhao e da derrota, ao passo
gen im Seelenleben des Wilden und der Neuroti-            que os outros poderiam um dia se sentir tentados
ker", e depois, em 1913, sob o ttulo Totem und           a se rebelar e a destronar o dspota. J Wilhelm
Tabu: Einige bereinstimmungen im Seelenleben             Stekel* e Alfred Adler* haviam abandonado o
des Wilden und der Neurotiker. Traduzido para o           navio, e em breve chegaria a vez de Carl Gustav
francs pela primeira vez em 1924, por Samuel             Jung*.
                                                                             Totem e tabu       757

    Como evitar esse tipo de dissidncia? Como     civilizao e se explicam, antes de mais nada,
promulgar leis que preservassem a liberdade de     pela tendncia, comum a vrios ramos da cin-
cada um, sem entravar a dos outros? Como           cia por volta do fim do sculo XIX, a constituir
inventar para a psicanlise* regras tcnicas e     em separado (...) fenmenos humanos que os
ticas que fossem vlidas em todos os pases,      estudiosos preferiam considerar externos a seu
mas respeitassem as diferenas culturais? Co-      universo moral (...)." O totemismo consistia em
mo, enfim, dar uma significao universal ao       estabelecer uma ligao entre uma espcie na-
complexo de dipo*, eixo conceitual do edif-      tural (um animal) e um cl exogmico, a fim de
cio freudiano? Tais eram, na ocasio, as ques-     explicar uma hipottica "unidade" original das
tes debatidas entre Freud e seus dois repre-      diversas realidades etnogrficas.
sentantes principais: Jung e Ferenczi.                 Proveniente da Polinsia e introduzida pelo
    Enquanto Jung afirmava que o pai  sempre      capito Cook em 1777, a palavra tabu (taboo
aquele que probe o incesto*, Ferenczi sus-        ou Tabu) tinha feito fortuna num duplo sentido:
tentava que o homem primitivo se desenvolve-       um, especfico das culturas de onde proviera,
ra, desde a noite dos tempos, em simbiose com      outro, expressando a proibio em sua genera-
o destino geolgico da terra-me. Freud, por sua   lidade. Quanto  palavra selvagem (Wilder),
parte, ansiava por dar uma explicao global da    utilizada por Freud, ela remetia  prpria his-
origem das sociedades e da religio a partir dos   tria da antropologia evolucionista e a um de
dados da psicanlise, ou, dito de outra maneira,   seus fundadores, Lewis Morgan (1818-1881),
dando um fundamento histrico ao mito de           que tinha dividido a histria da humanidade em
dipo e  proibio do incesto e mostrando que     trs estdios*: a Selvageria (a caa), a Barbrie
a histria individual de cada sujeito no  mais   (objetos de cermica e utenslios de ferro) e a
do que a repetio da histria da prpria huma-    Civilizao (a escrita). Em seus Trs ensaios
nidade.                                            sobre a teoria da sexualidade*, Freud j havia
    Os quatro ensaios que compem o livro          retomado a seu modo a noo de estdio, para
foram redigidos durante o segundo semestre de      descrever a evoluo do sujeito* em funo da
1911 e ao longo de 1912, no que concerne aos       libido*.
trs primeiros, e na primavera de 1913, no que         No prefcio de 1913, ele apresentou Totem
diz respeito ao ltimo. Saram publicados na       e tabu como uma aplicao da psicanlise a
revista Imago*, sendo posteriormente reunidos      "problemas no esclarecidos da psicologia dos
num livro composto de quatro partes: (1) O         povos", ao mesmo tempo pretendendo opor-se
horror ao incesto; (2) O tabu e a ambivalncia     a Wilhelm Wundt (1833-1920), de um lado, e a
dos sentimentos; (3) Animismo, magia e onipo-      Jung, de outro. O primeiro, disse ele, ps a
tncia dos pensamentos; (4) O retorno infantil     servio de uma "mesma meta as hipteses e os
do totemismo. Freud no lhes introduziu ne-        mtodos de trabalho da psicologia no analti-
nhuma modificao por ocasio das edies          ca", e o segundo, ao contrrio, "esfora-se por
posteriores.                                       lidar com problemas da psicologia individual
    O ttulo do livro deixou transparecer sua      recorrendo ao material da psicologia dos po-
ambio terica e o inscreveu na tradio da       vos". E acrescentou: "Reconheo de bom grado
antropologia evolucionista do fim do sculo        ter sido dessas duas vertentes que proveio a
XIX. Extrada da lngua algonquiana, falada        instigao mais imediata para meus prprios
nos Grandes Lagos norte-americanos, a palavra      trabalhos." De fato, Freud redigiu esse prefcio
totem fora introduzida em 1791. Em seguida,        em setembro de 1913, um ms depois do
atravs da obra de John Fergusson McLennan         congresso da IPA realizado em Munique, que
(1827-1881), dera origem  teoria do totemismo     assistira  partida definitiva de Jung do movi-
que havia apaixonado a primeira gerao dos        mento psicanaltico.
antroplogos, assim como a histeria* fascinava          primeira vista, o livro se apresenta, ao
os mdicos: "A moda da histeria e a do totemis-    mesmo tempo, como um devaneio darwiniano
mo foram contemporneas", escreveu Claude          sobre a origem da humanidade, uma digresso
Lvi-Strauss, "nasceram no mesmo meio de           sobre os mitos fundadores da religio monotes-
758     Totem e tabu

ta, uma reflexo sobre a tragdia do poder, de       constatou duas analogias com o totemismo: a
Sfocles at Shakespeare, e uma longa viagem         identificao completa com o animal-totem e a
inicitica ao interior da literatura etnolgica da   ambivalncia dos sentimentos em relao a ele.
virada do sculo.                                    E concluiu que, uma vez que as duas proibies
    Eis sua essncia. Num tempo primitivo, os        do totemismo (matar o totem e servir-se sexual-
homens viviam no seio de pequenas hordas,            mente de uma mulher pertencente ao cl do
cada qual submetida ao poder desptico de um         totem) coincidiam com os dois crimes de dipo
macho que se apropriava das fmeas. Um dia,          (que matou o pai e se casou com a me), o
os filhos da tribo, rebelando-se contra o pai,       complexo de dipo era a condio do totemis-
puseram fim ao reino da horda selvagem. Num          mo.
ato de violncia coletiva, mataram o pai e co-           Assim postulando a existncia primeva de
meram seu cadver. Todavia, depois do assas-         um complexo universal, prprio de todas as
sinato, sentiram remorso, renegaram sua m           sociedades humanas e na origem de todas as
ao e, em seguida, inventaram uma nova or-          religies, Freud pretendeu trazer, atravs da
dem social, instaurando simultaneamente a            psicanlise, uma soluo para a antropologia
exogamia (ou renncia  posse das mulheres do        evolucionista, que via na instaurao do totem
cl do totem) e o totemismo, baseado na proi-        a prefigurao da religio e, na do tabu, a pas-
bio do assassinato do substituto do pai (o         sagem da horda selvagem para a organizao
totem). Totemismo, exogamia, proibio do            em cls.
incesto: foi esse o modelo comum a todas as
                                                         Para construir essa fbula, Freud se apoiou
religies, em especial o monotesmo.
                                                     na literatura evolucionista. De Charles Darwin
    Sob essa perspectiva, o complexo de dipo,
                                                     ele extraiu, em primeiro lugar, a famosa histria
trazido  luz pela psicanlise*, nada mais ,
                                                     da horda selvagem, relatada em A descendncia
segundo Freud, do que a expresso dos dois
                                                     do homem, em segundo, a teoria da recapitula-
desejos* recalcados (desejo do incesto e desejo
                                                     o, no dizer da qual o indivduo repete as
de matar o pai) contidos nos dois tabus prprios
                                                     principais etapas da evoluo das espcies (a
do totemismo: a proibio do incesto e a proi-
                                                     ontognese repete a filognese), e, por ltimo,
bio de matar o pai-totem. Assim, ele  univer-
                                                     a tese da hereditariedade dos caracteres adqui-
sal, uma vez que traduz as duas grandes proi-
bies fundadoras de todas as sociedades huma-       ridos. Popularizada por Jean-Baptiste Lamarck
nas.                                                 (1744-1829) e retomada por Darwin e Ernst
    Para mostrar como se efetuara, na sociedade      Haeckel*, essa tese, chamada de "neolamar-
primitiva, a transferncia da representao do       ckiana", foi contestada a partir de 1883 por
pai morto para um animal (totem), Freud recor-       August Weismann (1834-1914), tendo sido de-
reu a sua teoria da sexualidade infantil,  his-     finitivamente abandonada em 1930.
tria de Herbert Graf* (o Pequeno Hans) e,               De James George Frazer (1854-1941) --
acima de tudo, a uma observao exemplar             autor da famosa epopia O ramo de ouro, his-
fornecida por Ferenczi: o caso de "Arpad, o          tria do rei homicida da Antigidade latina que
homenzinho-galo". Bicado no pnis aos dois           foi assassinado por seu sucessor, embora ele
anos e meio de idade, quando urinava num             mesmo houvesse obtido seu poder pelo assas-
galinheiro, Arpad havia renunciado  lingua-         sinato de seu predecessor -- Freud tomou
gem humana e se transformara num galo,               emprestada uma concepo do totemismo co-
cacarejando e soltando cocorocs. Aos cinco          mo modo de pensamento arcaico das chamadas
anos, tinha voltado a falar, mas s se interessava   sociedades "primitivas". De William Robertson
por histrias de aves. Ora assistia, deleitado,     Smith (1846-1894) retomou a tese do banquete
degolao dos frangos, e depois acariciava vo-       totmico e da substituio da horda pelo cl. Em
luptuosamente o corpo dos animais, ora afirma-       James Jasper Atkinson foi buscar a idia de que
va que seu pai era um galo e ele, um pintinho,       o sistema patriarcal chegara ao fim na revolta
que depois se transformaria numa galinha e,          dos filhos e na devorao do pai. E da obra de
mais tarde, num galo. Nesse exemplo, Freud           Edward Westermarck (1862-1939) extraiu
                                                                               Totem e tabu      759

consideraes sobre o horror ao incesto e a         simblico: a internalizao da proibio. Nessa
nocividade dos casamentos consangneos.            perspectiva, toda sociedade seria baseada no
    Do mesmo modo que, em 1905, havia utili-        regicdio, mas s sairia da anarquia homicida
zado os trabalhos da sexologia* para construir      ao ser esse regicdio acompanhado por uma
uma doutrina da sexualidade muito distante da       sano e uma reconciliao com a imagem do
dos sexlogos, em 1911-1913 Freud se inspirou       pai, a nica capaz de possibilitar a conscincia*.
na antropologia evolucionista, mas colocando-           Totem e tabu  mais um livro poltico de
a em contradio consigo mesma e, por fim,          inspirao kantiana do que um livro de antro-
fornecendo uma nova definio da universali-        pologia propriamente dito. Nessas condies,
dade da proibio do incesto e da gnese das        prope uma teoria do poder democrtico que
sociedades humanas.                                 est centrada em trs necessidades: a neces-
    Se fez do selvagem um equivalente da crian-     sidade de um ato fundador, a necessidade da lei
a e preservou os estdios da evoluo, Freud       e a necessidade da renncia ao despotismo. Sem
abandonou, em contrapartida, toda a teoria an-      dvida, nesse ponto Freud estava pensando em
tropolgica da "superioridade" da civilizao e     Cromwell, seu heri, na to admirada democra-
da "inferioridade" do estado primitivo, nisso se    cia inglesa e no Imprio Austro-Hngaro, a cujo
aproximando da etnologia moderna (de Bronis-        declnio vinha assistindo. Mesmo inspirando-se
law Malinowski* a Marcel Mauss), para a qual        no grande afresco de Johann Jakob Bachofen
no existe hierarquia entre as culturas. Por        (1815-1887) sobre o imprio materno, ele no
conseguinte, no fez do totemismo um modo de        ops o patriarcado* ao matriarcado nem valo-
pensamento mgico menos elaborado do que o          rizou um sistema em detrimento do outro. No
espiritualismo ou o monotesmo: considerou-o,       obstante, tal como em sua teoria da libido,
ao contrrio, como algo que sobrevivia no inte-     renunciou ao dualismo evolucionista, associan-
rior de todas as religies. E, pela mesma razo,    do a gnese da instituio social a um princpio
s comparou o selvagem  criana para provar        masculino: esse princpio era, de fato, a razo,
a adequao entre a neurose infantil e a con-       porm o "macho" j no era seu detentor, uma
dio humana em geral, assim erigindo o com-        vez que a instaurao da sociedade dos filhos
plexo de dipo num modelo universal.                havia permitido a abolio do despotismo do
    Por ltimo, no tocante  proibio do incesto   pai e sua revalorizao sob a forma da lei.
e  origem das sociedades, Freud trouxe um              Totem e tabu no foi acolhido como um livro
novo esclarecimento. Por um lado, renunciou        poltico, mas como o que pretendia ser: uma
prpria idia de origem, afirmando que a famo-      contribuio da psicanlise  antropologia,
sa horda no existira em parte alguma: o estado     procurando conferir a esta um fundamento psi-
original era, de fato, a forma internalizada em     canaltico. No provocou a indignao es-
cada sujeito (ontognese) de uma histria cole-     perada, mas suscitou severas crticas, muitas
tiva (filognese) que se repetia ao longo das       delas justificadas. Com efeito, no apenas
geraes; por outro lado, sublinhou que a proi-     Freud se mantivera apegado aos quadros do
bio do incesto no havia nascido, como supu-      evolucionismo dos quais a etnologia do comeo
nha Westermarck, de um sentimento natural de        do sculo vinha se emancipando, ao renunciar
repulsa dos homens por essa prtica, mas que,       s fbulas e aos mitos para estudar meticulosa-
ao contrrio, havia um desejo de incesto, e que     mente as sociedades reais, como, alm disso,
este tinha por corolrio a proibio instaurada     tinha a pretenso de dominar um campo do qual
sob a forma de uma lei e de um imperativo           no tinha nenhum conhecimento sem levar em
categrico. Com efeito, por que se haveria de       conta os trabalhos modernos. Tal como James
proibir um ato que causasse tamanho horror         Frazer, Freud passou ento por um estudioso de
coletividade?                                       outrora, encerrado em seu gabinete e dialogan-
    Em outras palavras, Freud introduziu dois       do com os adeptos do folclore totmico, num
temas na antropologia: a lei moral e a culpa. Em    momento em que os pesquisadores deixavam o
lugar da origem, um ato real: o assassinato         ambiente fechado das universidades e partiam
necessrio; em vez do horror ao incesto, um ato     para viagens pela Melansia.
760       traduo (das obras de Sigmund Freud)

    A crtica elaborada em 1920 pelo antroplo-               DEVEREUX, GEORGES; ETNOPSICANLISE;
go norte-americano Alfred Kroeber (1876-                     KARDINER, ABRAM; MEAD, MARGARET.
1960), especialista nos ndios da Amrica do
Norte, teve o mesmo sentido, que foi retomado
por inmeros representantes dessa disciplina.                traduo (das obras
Soou como um "golpe de misericrdia", embo-                  de Sigmund Freud)
ra Kroeber conferisse ao conjunto da obra freu-                  As obras de Sigmund Freud* foram traduzi-
diana uma importncia considervel no tocante                das em cerca de trinta lnguas, com variaes
 elucidao do psiquismo humano.                            importantes conforme seus ttulos (artigos ou
    Por fim, foi pelas resistncias que suscitou             livros). Foram traduzidas na ntegra para o
que Totem e tabu serviu de ponto de partida para             francs, em trs quartos para o russo e o sueco,
disputas entre Malinowski, Ernest Jones* e Ge-               e em metade para o romeno, o dinamarqus e o
za Roheim*, as quais deram origem a uma                      noruegus.
escola anglfona de antropologia psicanaltica.                  Todavia, o estabelecimento sistemtico de
                                                             uma obra integral, organizada de maneira coe-
 Sigmund Freud, Totem e tabu (1913), ESB, XIII,             rente e na ordem cronolgica, s foi efetuado
17-92; GW, IX; SE, XIII, 1-161; Paris, Gallimard, 1993,      para quatro lnguas -- ingls, espanhol, italiano
9-59  Edward Burnett Tylor, La Civilisation primitive 2     e japons --, sem que essas diferentes Obras
vols. (Londres, 1871), Paris, Reinwald, 1876-1878           completas incluam os 22 artigos de Freud cha-
William Robertson Smith, Lectures on the Religion of
                                                             mados de "pr-analticos" (sobre a cocana, as
the Semites: The Fundamental Institutions (1889), N.
York Macmillan, 1927  Edward Westermarck, Histoire          enguias, a sfilis etc.), publicados entre 1877 e
du mariage humain (Londres, 1891), Paris, Mercure de         1886, e sem que incluam seu primeiro livro,
France, 1934-1938; L'Origine et le dveloppement des         datado de 1891 e intitulado Contribuio para
ides morales (Londres, 1906-1908), Paris, Payot,            uma concepo das afasias*.
1928-1929  James Jasper Atkinson, "Primal Law", in
                                                                 Foi Jos Ortega y Gasset* quem esteve na
A. Lang (org.), Social Origins, Londres, 1903  Sandor
Ferenczi, "Um pequeno homem-galo" (1913), in Psica-          origem da primeira traduo de uma edio
nlise II, Obras completas, 1913-1919 (Paris, 1970),         integral da obra freudiana, antes mesmo que ela
S. Paulo, Martins Fontes, 1992, 61-8  James George          estivesse terminada. Em 1921, ele confiou sua
Frazer, O ramo de ouro (Londres, 1911-1916, Paris,           realizao a Luis Lopez Ballesteros e recebeu
1925-1935), ed. resumida, ilustrada e com prefcio de        prontamente a aprovao de Freud: 17 volumes
Darcy Ribeiro, Rio de Janeiro, Zahar/Crculo do Livro,
1982  Alfred L. Kroeber, "Totem and taboo. An ethno-
                                                             foram lanados at 1934.
logic psychoanalysis" (1920), American Anthropologist,           Essa iniciativa, nica no gnero em virtude
22, 1920, 48-55  Bronislaw Malinowski, Argonautas do        de suas qualidades literrias e sua precocidade,
Pacfico Ocidental (Londres, 1922), S. Paulo, Abril          nem por isso permitiu que o freudismo* se
Cultural, 1984; La Sexualit et sa rpression dans les       expandisse na Espanha*. A guerra civil, e so-
socits primitives (Londres, 1927), Paris, Payot, 1932
                                                             bretudo a vitria do franquismo, impuseram
 Ernest Jones, Essais de psychanalyse applique,
vol.II (Londres, 1951), Paris, Payot, 1973  Claude          uma suspenso a qualquer forma de implanta-
Lvi-Strauss, Le Totmisme aujourd'hui, Paris, PUF,          o da psicanlise naquele pas, e foi na Argen-
1962  Eugne Enriquez, De la horde  l'tat, Paris,         tina* que teve prosseguimento o trabalho ini-
Gallimard, 1983  Guy Rosolato, Le Sacrifice. Repres        ciado por Ortega y Gasset.
psychanalytiques, Paris, PUF, 1987  Norman Kiell,
                                                                 Em 1942, na poca da criao da Asociacin
Freud without Hindsight. Review of his Work 1893-
1939, Madison, International Universities Press, 1988
                                                             Psicoanaltica Argentina (APA), iniciou-se em
 Lucille B. Ritvo, A influncia de Darwin sobre Freud       Buenos Aires um novo projeto em 22 volumes,
(N. York, 1991), Rio de Janeiro, Imago, 1992  Pierre        que incluam os 17 de Ballesteros. Foi a Ludo-
Bonte e Michel Izard (orgs.), Dictionnaire de l'ethnolo-     vico Rosenthal que se confiou a traduo dos
gie e de l'anthropologie, Paris, PUF, 1991  George W.       cinco volumes novos. Nascido em Buenos
Stocking, "L'Anthropologie et la science de l'irrationnel.
                                                             Aires, filho de me alem, ele fora analisado em
La Rencontre de Malinowski avec la psychanalyse
freudienne" (1983), Revue Internationale d'Histoire de       Viena* por Heinz Hartmann*: saiu-se admira-
la Psychanalyse, 4, 1991, 449-91  Bertrand Pulman,          velmente bem em sua tarefa, realizando uma
"Ernest Jones et l'anthropologie", ibid. 493-521.            edio completa de alta qualidade. Introduziu
                                                   traduo (das obras de Sigmund Freud)        761

algumas modificaes na terminologia de             nazismo* (entre 1933 e 1939) a todas as inicia-
Ballesteros, inspirou-se em James Strachey*,        tivas editoriais psicanalticas germanfonas foi
sem imit-lo servilmente, e participou da pes-      bem-sucedida. Com efeito, foi em Londres,
quisa de textos perdidos ou esquecidos de           durante a segunda Guerra Mundial, que se pro-
Freud: "Ele estava projetando um volume su-         duziu a nova verso da obra completa de Freud
plementar", escreveu Hugo Vezzetti, "que nun-       em alemo. Ela continua a ser utilizada no fim
ca foi publicado e que deveria incluir um dicio-    do sculo XX: "Hoje em dia, 45 anos depois do
nrio de psicanlise e uma bibliografia sucinta,    fim da guerra", sublinhou Ilse Grubrich-Simitis
acrescida ao ndice temtico dos 22 volumes".       em 1991, " difcil imaginar a que ponto o
Essa traduo inacabada foi inicialmente "pla-      regime nazista conseguiu fazer desaparecer do
giada" por outros autores e, mais tarde, aban-      mercado livreiro alemo os textos de Freud e
donada em favor da Standard Edition, utilizada      banir da conscincia coletiva o universo concei-
pelos terapeutas kleinianos, que se haviam tor-     tual que sua esplndida prosa havia revelado."
nado majoritariamente anglfonos.                       Aps a segunda Guerra Mundial, graas ao
    Em 1975, Horacio Amorrortu tomou a ini-         impulso de Alexander Mitscherlich* e do Ins-
ciativa de produzir uma nova verso da obra         tituto Sigmund Freud, de Frankfurt, a obra de
completa, que confiou a Jos Etcheverry, auxi-      Freud em lngua original foi reintroduzida na
liado por Santiago Dubrovsky e Fernando Ul-         Alemanha e publicada pela Fischer Verlag. Mit-
loa. Embora conservando a organizao da            scherlich tambm produziu uma edio de tex-
Standard, os tradutores apoiaram-se no Voca-        tos seletos (os Studienausgabe), destinados a
bulrio da psicanlise de Jean Laplanche e          estudantes, a qual contou com a colaborao de
Jean-Bertrand Pontalis, que acabara de ser lan-     James Strachey, na poca o melhor especialista
ado em espanhol e permitia contrabalanar a        na obra freudiana em ingls e em alemo.
onipotncia da traduo de Strachey. Ao mes-            No incio da dcada de 1960, Ilse Grubrich-
mo tempo, eles reconheceram sua dvida para         Simitis comeou a cuidar, na Fischer, da atua-
com Ballesteros e Rosenthal. Fruto de uma           lizao dos Gesammelte Werke. Entregou-se
renovao e da aceitao de diversas heranas,      ento a um confronto minucioso da edio
essa traduo, parcialmente realizada durante a     alem (GW) com a Standard Edition, concluin-
ditadura militar, correspondeu bem s modali-       do que a edio de Strachey era imensamente
dades de transmisso e de filiao* da psican-     superior  alem. Da nasceu o projeto de lanar
lise na Argentina.                                  uma nova edio "crtica" das Obras completas
     a James Strachey que devemos a mais bela      de Freud em alemo. Ilse Grubrich-Simitis des-
traduo crtica integral, coerente e unificada:    ejava, justificadamente, incluir os artigos pr-
a Standard Edition. Sua principal falha reside      analticos e a correspondncia, mas os herdeiros
no apagamento do estilo literrio de Freud em       (Ernst Freud* e Anna Freud*) no consentiram,
prol de um vocabulrio tcnico e cientfico. Os     sob o pretexto de que Freud no havia prezado
conceitos foram latinizados: ego (eu*), super-      seus trabalhos neurolgicos nem seu talento de
ego (supereu*), id (isso*), parapraxia (ato fa-     missivista. Foi assim que no se produziu na
lho*) e cathexis (investimento*). Alguns erros      Alemanha nenhuma edio crtica completa.
flagrantes e j conhecidos foram cometidos:         No fim do sculo XX, existem em lngua alem
pulso* (Trieb) foi traduzida por instincto, re-    apenas uma edio crtica de textos seletos, os
calque* (Verdrngung), por repression (repres-      Studienausgabe, e uma edio integral, mas no
so*) etc.                                          crtica: os Gesammelte Werke, enriquecidos por
    Duas edies completas da obra freudiana        um ndice geral e um volume de suplementos
foram publicadas em lngua alem (entre 1924        (Nachtragsband), que contm um aparato crti-
e 1952), em duas cidades diferentes: as Gesam-      co. Este, alis, foi reintegrado na nova edio
melte Schriften, em Viena, entre 1924 e 1934        revista da Standard Edition.
(durante a vida de Freud), e os Gesammelte              Em razo de suas qualidades, do lugar
Werke, em Londres, entre 1940 e 1952. Essas         preponderante da lngua inglesa no movimento
datas mostram que a destruio imposta pelo         psicanaltico internacional a partir do fim da
762     traduo (das obras de Sigmund Freud)

dcada de 1930, e tambm da implantao do           muito pouco legveis em francs. Isso decorre,
movimento em diversos pases anglfonos (Ca-         ao mesmo tempo, da histria particularssima
nad*, Austrlia*, ndia* e Estados Unidos*), a      da Frana freudiana e do lugar soberano confe-
Standard Edition transformou-se, no mundo            rido ao estatuto da lngua nesse pas.
inteiro, na edio de referncia. E contribuiu,          Na Frana*, as iniciativas de traduo so
como seria inevitvel, para formar a viso que       quase sempre fruto de batalhas conceituais e
se tem do freudismo*.                                brigas de escola referentes  arte e  maneira de
    Assim, o aparato crtico de Strachey foi re-     traduzir.
tomado, em parte ou na ntegra, nas outras               Os primeiros tradutores de Freud, Samuel
edies das obras completas. Esse predomnio         Janklvitch, Ignace Meyerson (1888-1983),
da lngua inglesa levou a algumas aberraes.        Blanche Reverchon-Jouve (1897-1974), Paul
Assim, as Obras completas publicadas no Bra-         Jury (1878-1953) e, acima de tudo, Marie Bo-
sil* entre 1970 e 1977 foram diretamente tradu-      naparte*, despenderam muita energia e talento,
zidas do ingls, isto , da Standard. Da um certo   mas no tiveram a menor preocupao de uni-
nmero de divagaes lingsticas: "A verso         ficar os conceitos. Assim, os termos freudianos
brasileira de Freud", escreveu Marilene Carone,      foram traduzidos de maneira diferente confor-
" inteiramente carregada de termos extrava-         me os autores. Por seu lado, douard Pichon*
gantes, cuja escolha s se explica por sua proxi-    criou, no seio da Socit Psychanalytique de
midade do som dos termos correspondentes em          Paris (SPP), uma Comisso para a Unificao
ingls; embora figurem no dicionrio, esses          do Vocabulrio Psicanaltico Francs, que se
termos soam artificiais a nossos ouvidos.  o        reuniu quatro vezes, entre maio de 1927 e julho
caso, por exemplo, da substituio de relaes       de 1928. Seu objetivo era livrar a psicanlise de
recprocas por relaes mtuas (mutual rela-         seu pretenso carter germnico (Kultur), pas-
tionships), de posse por possesso (possession),     sando-a pelo filtro da civilizao francesa. Sem
ou de absurdo por absurdidade (absurdity)."          ser chauvinista, no entanto, e sem adotar a tese
    Na Itlia*, a edio das Opere de Freud foi      do genius loci, que fazia do freudismo a expres-
realizada, a partir de 1960, por Cesare Musatti*,    so de um pansexualismo* germnico, Pichon
com a colaborao de diversos tradutores, den-       considerava que a diferena das mentalidades
tre eles Elvio Fachinelli*. Embora retomando o       devia traduzir-se na lngua. Assim, inventou
aparato crtico de Strachey, essa edio corrigiu    toda uma terminologia: amncia [aimance] pa-
os erros evidentes deste ltimo e, acima de tudo,    ra libido*, actorium para Ich (eu*), pulsorium
resgatou o estilo literrio de Freud. Cuidadosa-     para Es (isso*) etc. Por fim, introduziu o pro-
mente realizada por finos conhecedores da ln-       nome neutro (a [isso]) para traduzir o conceito
gua alem, igualmente preocupados com a ln-         alemo. Da esta situao paradoxal no seio da
gua italiana e com a inutilidade de acrescentar      SPP: Pichon pensava uma verdadeira concei-
 conceituao freudiana um jargo especfico,       tuao e no traduzia nenhum texto, enquanto
ela se beneficiou do distanciamento temporal.        Marie Bonaparte traduzia textos sem propor
E  to bem-sucedida quanto as Obras de              qualquer reflexo conceitual.
Ballesteros-Rosenthal.                                   Durante a dcada de 1950, essa clivagem se
    A situao da Frana* (e, por extenso, dos      reproduziu. Com efeito, Jacques Lacan* incitou
pases francfonos)  nica no mundo. As obras       a terceira gerao* psicanaltica francesa a ler a
de Freud (livros e artigos) encontram-se dis-        obra freudiana em alemo, ao mesmo tempo
ponveis na ntegra e em diversas verses, mas       atualizando a traduo dos conceitos freudianos
os oito (dos vinte) volumes das Oeuvres com-         para a lngua francesa, trabalho esse cujos ves-
pltes (OC), produzidos em 1980 por uma              tgios encontramos no Vocabulrio da psican-
equipe de cerca de quinze pessoas, sob a direo     lise de Laplanche e Pontalis. Essa renovao
de Jean Laplanche, Pierre Cotet, Andr Bour-         terica quase no surtiu efeito nas atividades de
guignon (1920-1996) e Franois Robert, tm           traduo. Ao contrrio, entre 1945 e 1963, elas
como grande inconveniente, apesar da boa von-        foram menos importantes do que na poca dos
tade e da competncia da equipe, o fato de serem     pioneiros. Todavia, Daniel Lagache*, iniciador
                                                     traduo (das obras de Sigmund Freud)             763

do Vocabulrio, ps em andamento na Presses           lugar de mot d'esprit [chiste], ngation [nega-
Universitaires de France (PUF) um projeto de          o] para Verneinung, em vez de dngation
Opus magnum pelo qual Laplanche e Pontalis            [denegao*], souvenir-couverture [lembrana
deveriam ser os responsveis.                         cobertura] em vez de souvenir-cran [lembran-
    As duas cises* e, mais tarde, as discordn-      a encobridora*], e mise  mort du pre [exe-
cias entre esses trs protagonistas impediram a       cuo/ assassinato do pai] em vez de parricide
realizao do projeto. Instalado na editora Gal-      [parricdio]. A nova equipe tambm suprimiu
limard, Pontalis, ele mesmo um excelente tra-         lapsus [lapso* de linguagem] (Versprechen) em
dutor, renunciou a publicar as obras completas,       favor de dfaillance [falha], a pretexto de que
mas mandou retraduzir, traduzir ou revisar um         Freud no utiliza aquele termo; e, por ltimo,
grande nmero de textos de Freud, que foram           reativou ou fabricou alguns neologismos: dsi-
publicados em sua coleo "Connaissance de            rance [desejana] (em vez de dsir, desejo),
l'Inconscient": Trs ensaios sobre a teoria da        animique [o anmico] (em vez de me, a alma),
sexualidade*, Moiss e o monotesmo*, A ques-         frustran (em vez de vain, futile [vo, ftil]),
to da anlise leiga* etc. Todas essas tradues      dsaide [desassistncia] (em vez de dtresse,
so notveis, tendo sido feitas em geral por bons     desamparo), retirement [retirada, afastamento]
profissionais, conhecedores do alemo, da             (em vez de retrait, retraimento), vicarier [vica-
conceituao freudiana e da lngua francesa.          riar] (em lugar de remplacer, substituir), refu-
    Editadas na PUF por Bourguignon, La-              sement [recusamento] (em vez de frustration,
planche e Cotet, as Oeuvres compltes (OC)            frustrao*), surmontement [superamento] (co-
esto longe de ter a qualidade dos textos da          mo at o de surmonter, dpasser [superar,
Gallimard. Em completa contradio com o              ultrapassar]), ou ainda os termos rtrofantasier,
Vocabulrio da psicanlise (do qual Laplanche         fantaste e fantasier, referidos a todas as ativi-
foi co-autor), elas so fruto de um trabalho de       dades ligadas  fantasia.
equipe, o que tende a desumanizar o manejo das            Note-se que o adjetivo substantivado Un-
palavras e da escrita em prol de uma espcie de       heimlich (uncanny, em ingls), utilizado por
anonimato do lxico.                                  Freud num clebre artigo de 1919 (e que signi-
    Alm disso, os responsveis adotaram uma          fica, ao mesmo tempo, inquietante, familiar e
ideologia inversa  de Pichon, que consiste em        desconhecido), foi traduzido por "inquietante
retranscrever a pretensa germanidade original         estranheza" e, depois, por "o inquietante", em-
do texto freudiano. Por isso eles se deram o          bora Franois Roustang propusesse "o estra-
ttulo de "freudlogos", convencidos de que a         nhamente familiar". Alis, "inquietante estra-
                                                      nheza" acabou se impondo como um sintagma
lngua freudiana no  o alemo, mas o "freu-
                                                      freudiano na lngua francesa, a ponto de ser
diano", isto , uma "lngua freudiana", um "dia-
                                                      delicado ter-se a pretenso de modific-lo.
leto do alemo que no  o alemo", e sim uma
lngua "inventada" por Freud (no sentido em            Sigmund Freud, "O estranho" (1919), ESB, XVII,
que os espritas falavam da "lngua marciana"         275-314; GW, XII, 229-68; SE, XVII, 217-56; OC, XV,
no incio do sculo). Essa teoria os conduziu a       147-88; Gesammelte Schriften, 12 vols., Viena, Inter-
algumas aberraes e, acima de tudo, a inven-         nationaler Psychoanalytischer Verlag, 1924-1934; Ge-
                                                      sammelte Werke (GW), 17 vols., Imago Publishing Co.
tarem, eles prprios, uma lngua imaginria que       (Londres, 1940-1952), Frankfurt, Fischer, 1960-1988;
no  mais o francs, e sim um idioma de              Index, vol. XVIII, e Nachtragsband, volume de suple-
freudlogos que supostamente representa essa          mentos, realizado por A. Richards e Ilse Grubrich-Si-
"lngua freudiana".                                   mitis, Frankfurt, Fischer, 1987; Studienausgabe, 11
                                                      vols., Frankfurt, Fischer, 1969-1975; Obras completas,
    Da a eliminao de alguns termos que se          22 vols., B. Aires, Amorrortu, 1922-1978; The Standard
haviam imposto no vocabulrio francs h cin-         Edition of the Complete Psychological Works of
qenta anos, mas que foram agora substitudos:        Sigmund Freud (SE), org. James Strachey, 24 vols.,
souhait [anseio] para traduzir Wunsch, em lugar       Londres, Hogarth Press, 1953-1974; Opere di Sig-
                                                      mund Freud, 12 vols., Turim, Boringhieri, 1967-1980;
de dsir [desejo*], fantaisie para Phantasie, em      Edio standard brasileira das obras psicolgicas com-
vez de fantasme [fantasia*], trait d'esprit [tira-    pletas de Sigmund Freud (ESB), 24 vols., Rio de
da espirituosa, rasgo espirituoso] para Witz, em      Janeiro, Imago, 1970-1977; Oeuvres compltes (OC),
764       training autgeno

21 vols., org. Jean Laplanche, Pierre Cotet, Andr          como bem mostra a histria do abade Choisy
Bourguignon e Franois Robert, Paris, PUF, a partir de
1989 (8 vols. publicados)  James Strachey, "Bibliogra-
                                                            (1644-1734), que usava roupas de mulher e se
phy. List of English translation of Freud's works", IJP,    fazia chamar de condessa de Barres, ou ainda a
XXVI, 1-2, 1945, 67-76; "Editor's Note", SE, III, 71-3;     de Charles de Beaumont, cavaleiro d'on
"General preface", ibid., I, xiii-xxii  James Strachey e   (1728-1810), que serviu  diplomacia secreta de
A. Tyson, "A chronological hand list of Freud's works",
IJP, XXXVII, 1, 1956, 19-33  Alexander Grinstein,
                                                            Lus XV vestindo-se de homem ou de mulher
Sigmund Freud's Writings. A Comprehensive Bibliog-          conforme as circunstncias. A famosa doena
raphy, N. York, International Universities Press, 1977     dos citas, descrita por Herdoto, serviu igual-
Ingeborg Meyer-Palmedo e Gerhard Fichtner, Freud-           mente de ponto de partida para as reflexes da
Bibliographie und Werkkonkordanz, Frankfurt, Fischer,
1989  Bruno Bettelheim, Freud e a alma humana (N.          etnopsiquiatria (etnopsicanlise*).
York, 1982), S. Paulo, Cultrix, 1984  Antoine Berman,          Na mitologia grega, trs personagens do
L'preuve de l'tranger. Culture et traduction dans         conta desse fenmeno: Cibele, tis e Herma-
l'Allemagne romantique, Paris, Gallimard, 1984  Em-
                                                            frodito. Grande deusa-me da Frgia, Cibele era
met Wilson, "Did Strachey Invent Freud?", International
Revue of Psycho-Analysis, 14, 1987, 299-315  Andr         cultuada em todo o mundo antigo, a ponto de
Bourguignon, Pierre Cotet, Jean Laplanche e Franois        ser confundida com Demter, a me de todos os
Robert, Traduzir Freud (Paris, 1989), S. Paulo, Martins     deuses. Seu amante, tis, era ao mesmo tempo
Fontes, 1992  Ilse Grubrich-Simitis, "Histoire de l'di-
tion des oeuvres de Freud en langue allemande"
                                                            seu filho e guardio de seu templo. Quando quis
(1989), Revue Internationale d'Histoire de la Psycha-       se casar, ela o fez enlouquecer: tis ento se
nalyse, 4, 1991, 13-71; De volta aos textos de Freud        castrou e se matou. Essa lenda explica por que
(Frankfurt, 1993), Rio de Janeiro, Imago, 1995  Ric-       os sacerdotes da deusa eram eunucos. Foi em
cardo Steiner, "Une marque internationale universelle
d'authenticit. Quelques observations sur l'histoire de     homenagem ao ato de tis que os adeptos do
la traduction anglaise de l'oeuvre de Sigmund Freud,        culto dessa deusa-me adquiriram o hbito de
en particulier sur les termes techniques", Revue Inter-     se mutilar, em meio  embriaguez e ao xtase,
nationale d'Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991, 71-       durante os festejos ritualsticos. Quanto a Her-
188  Hugo Vezzetti, "Freud en langue espagnole",
ibid., 189-209  Alain de Mijolla, "L'dition en franais   mafrodito, filho de Hermes e Afrodite, foi ama-
des oeuvres de Freud jusqu'en 1940", ibid., 209-71         do por uma ninfa que rogou aos deuses que os
Michele Ranchetti, "Les Oeuvres compltes et l'dition      unissem num s corpo. O rapaz foi assim dotado
des Opere", ibid., 331-56  Marilene Carone, "Freud en
portugais", ibid., 361-9  Irina Manson, "Comment dit-on
                                                            de um pnis e dois seios.
psychanalyse en russe?", ibid., 407-27.                         O tema do hermafroditismo, a lenda de Ci-
                                                            bele e tis e o mito da androginia encontram-se
                                                            nas descries das diferentes patologias sexuais
training autgeno                                           recenseadas pela psiquiatria do fim do sculo
 NAZISMO; PSICOTERAPIA; SCHULTZ, JOHANNES.                  XIX. Entretanto, nos estudos clnicos, a dupla
                                                            anatomia (hermafroditismo) e a separao da
                                                            me ou do sexo originrio so vividos como
transacional, anlise                                       tragdias que desembocam na morte, na loucu-
 ANLISE TRANSACIONAL.                                      ra* ou no suicdio*, ao passo que a atividade
                                                            sexual dupla (bissexualidade*) parece ser mais
                                                            bem tolerada, na medida em que no pe em
transexualismo                                              jogo uma transformao do corpo.
al. Trans-Sexualismus; esp. transexualismo; fr.                 No sculo XIX coligiram-se inmeros casos
transsexualisme; ing. transsexualism                        de transformao da identidade sexual, aos
Termo introduzido em 1953, pelo psiquiatra norte-           quais se deu o nome de travestismo ou herma-
americano Harry Benjamin, para designar um dis-             froditismo (ou intersexualidade). Em geral,  ao
trbio puramente psquico da identidade sexual,             alienista francs Jean-tienne Esquirol (1772-
caracterizado pela convico inabalvel que tem             1840) que se atribui a primeira descrio de um
um sujeito* de pertencer ao sexo oposto.                    caso de transexualismo, e  a Richard von
   O desejo de mudar de sexo existia muito                  Krafft-Ebing* que devemos o estabelecimento
antes da criao do termo "transexualismo",                 de uma escala de inverses sexuais que vo do
                                                                           transexualismo       765

"hermafroditismo psicossexual" at a "meta-            Foi nos Estados Unidos*, na dcada de
morfose sexual paranica".                         1950, que esses casos comearam a ser es-
   Como sublinhou Michel Foucault em 1978,         tudados. O mdico Harry Benjamin criou o
em sua exposio da "vida paralela" da herma-      termo e props, para aliviar o sofrimento moral
frodita Herculine Barbin (1838-1868), houve        dos pacientes, um tratamento hormonal e uma
uma abundante bibliografia mdico-libertina        experincia de vida social, durante um prazo
sobre esse assunto no final do sculo XIX. O       mnimo de seis meses, nos moldes do sexo
caso de Herculine chamou a ateno de Am-          desejado. Somente na ltima etapa  que ele
broise Tardieu (1818-1879), que se es-             considerava a cirurgia, caso o desejo de mudan-
pecializara no estudo dos maus-tratos infligidos   a de sexo persistisse. Depois de Benjamin, o
s crianas. Herculine Barbin foi chamada de       psicanalista Robert Stoller* foi o primeiro, em
Alexina por seus pais e criada num convento de     seu livro Sex and Gender, publicado em 1968 e
moas, embora se sentisse um menino e seu          traduzido para o francs sob o ttulo de Re-
sexo fosse ao mesmo tempo masculino e femi-        cherches sur l'identit sexuelle, a propor uma
nino (um pnis pequeno, uma uretra com uma         classificao e um estudo sistemtico desse dis-
fenda e lbios). Depois de conseguir que seu       trbio, revisando a teoria freudiana da sexuali-
estado civil fosse transformado por um tribunal,   dade infantil* e da diferena sexual*. De incio,
no conseguiu suportar o novo estado e se          fez uma distino radical entre o transexualis-
suicidou, usando um aquecedor a carvo.            mo, o travestismo, a homossexualidade* e o
   Foi necessrio o advento dos progressos da      hermafroditismo. Depois, simultaneamente
cirurgia e da medicina, e sobretudo das ino-       marcado pela Self Psychology* e pelo kleinis-
vaes da gentica que permitiram, em 1956,        mo*, fez do transexualismo um distrbio da
identificar definitivamente a frmula cromos-      identidade (e no da sexualidade), diferente nos
smica do homem (XY) e da mulher (XX) --           homens e nas mulheres, e ligado  relao par-
ou o "sexo gentico" --, para que se es-           ticular e sempre idntica da criana com a me.
tabelecessem distines claras entre o herma-      Da a idia de diferenciar o gnero* (gender),
froditismo, o travestismo, as anomalias genti-    como sentimento social de identidade (mascu-
cas e o verdadeiro transexualismo, que surgiu      lina ou feminina), do sexo, como organizao
ento como um enigma fascinante, fazendo ree-      anatmica masculina ou feminina. (No transe-
mergirem todos os grandes mitos fundadores         xualismo, a dissimetria entre os dois  radical.)
das deusas-mes. Da a necessidade de inventar     A palavra gender seria posteriormente retoma-
uma palavra para designar um fenmeno que          da, nos Estados Unidos, em inmeros trabalhos
no decorria nem do desejo de se travestir nem     histricos e literrios.
da anomalia anatmica. Se o travestismo (ou            A partir do estudo de numerosos casos, Stol-
eonismo), muito bem descrito por Havelock          ler traou o retrato tpico e quase estrutural da
Ellis* e pelos representantes da sexologia*,      "me do transexual": uma mulher depressiva,
um disfarce que pode conduzir a uma perver-        passiva, bissexual ou sexualmente neutra, ou
so* ou a um fetichismo*, e se o hermafroditis-    ento sem um interesse verdadeiro pela sexua-
mo  um acidente das gnadas cujo tratamento       lidade nem um apego particular pelo pai da
depende de cirurgia, somente o transexualismo      criana. Essa me busca uma simbiose perfeita
leva o sujeito no apenas a mudar de estado        com o filho, que lhe serve ao mesmo tempo de
civil, mas tambm a transformar, atravs de        objeto transicional* e de substituto flico.
uma interveno cirrgica, seu rgo sexual        Quanto ao pai,  sempre ausente, mas sua ati-
normal num rgo artificial do sexo oposto.        tude difere conforme o filho seja menino ou
Assim, o transexual masculino tem a convico      menina. Tanto ele se mostra indiferente  mu-
de ser uma mulher, embora, anatomicamente,         dana de trajes exibida pelo filho, quando este
seja um homem normal. Do mesmo modo, a             se veste de mulher, quanto favorece as ativi-
mulher transexual est convencida de ser ho-       dades masculinas da filha, encontrando nela um
mem, muito embora seja mulher em termos            cmplice para sua solido. s vezes, quando
anatmicos.                                        tem dois filhos de sexos opostos, incita o meni-
766     transferncia

no a se feminizar e a menina a se masculinizar.     Barbin, eles tambm permitiram estabelecer um
Para Stoller, o transexualismo masculino, de        paralelismo entre os trabalhos da embriologia,
longe o mais freqente e paradigmtico, aproxi-     que provam a primazia do embrio feminino em
ma-se da psicose*. A mudana de sexo atravs        relao ao embrio masculino e fazem o segun-
da cirurgia, portanto, s tem efeitos benficos     do derivar do primeiro, e as teses kleinianas, que
na medida em que o transexual nunca aceita sua      vem no exerccio patolgico da onipotncia
anatomia real, que no corresponde ao gnero        materna a origem das psicoses e das formas
que ele sente como seu. O tratamento psicana-       mais destrutivas da relao de objeto*.
ltico s  possvel na infncia, em carter pre-       No obstante, a teoria freudiana da libido*
ventivo, ou depois da interveno cirrgica:        nica e do falocentrismo* conserva toda a sua
permite ento ao paciente enfrentar a tarefa        validade, uma vez que o estudo dos casos de
nunca resolvida de sua identidade impossvel.       transexualismo feminino mostra que as mu-
Isso porque o mais surpreendente  que o tran-      lheres suportam melhor do que os homens a
sexual varo, apesar de suas alegaes, suas        transformao anatmica que as torna vares.
denegaes* e suas renegaes*, nunca fica          Em suma, o transexualismo feminino parece
satisfeito com a mudana de sexo, ainda que lhe     decorrer de um distrbio da identidade, de na-
seja impossvel renunciar a ela.                    tureza histrica ou perversa, que evidencia a
    Com o desenvolvimento espetacular da ci-        maneira como toda mulher se serve de seu
rurgia plstica e a extraordinria publicidade      "protesto viril", ao passo que o transexualismo
dada pela televiso aos grandes casos de emas-      masculino atesta, antes, uma vontade in-
culao voluntria, de mudana de rgos e de       domvel de emasculao, que no passa da
estado civil, o transexualismo provocou um          traduo de uma opo de aniquilamento atra-
vasto debate a partir de 1970. Num livro ranco-     vs da qual toda a feminilidade  ridicularizada:
roso, a feminista norte-americana Janice            da a fetichizao, nos homens que se transfor-
Raymond acusou os homens de pretenderem,            mam em mulheres, dos smbolos mais mar-
atravs desse meio, sujeitar ainda mais as mu-      cantes da diferena sexual (roupas e sapatos
lheres, roubando-lhes seu sexo, sua identidade      espalhafatosos, perucas, maquiagem exagerada
e sua anatomia.                                     etc.).
    Na Frana*, foi Jean-Marc Alby quem intro-       Harry Benjamin, "Transvestism and transsexualism",
duziu o termo na nosografia psiquitrica, em        International Journal of Sexology, 7, I, 12-14  Jean-
1956. Depois disso, foram publicados diversos       Marc Alby, Contribution  l'tude du transsexualisme,
trabalhos que comentaram a obra magistral de        tese de medicina, Paris, 1956  Robert Stoller, Re-
                                                    cherches sur l'identit sexuelle (1968), Paris, Galli-
Stoller, em particular os de lisabeth Badinter.    mard, 1978  Herculine Barbin dite Alexina B., apresen-
Numa perspectiva lacaniana, Catherine Millot        tao de Michel Foucault, Paris, Gallimard, 1978 
deu o nome de "horsexe" [extra-sexo] ao tran-       Janice Raymond, L'Empire transsexuel (N. York, 1979),
sexualismo, mostrando que, na mulher, o desejo      Paris, Seuil, 1981  Catherine Millot, Horsexe. Essai sur
                                                    le transsexualisme, Paris, Point Hors Ligne, 1983 
de ser amada como "um" homem  mais decor-          lisabeth Badinter, Um e outro. As relaes entre
rente de um processo histrico, ao passo que, no    homens e mulheres (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Nova
homem, a vontade de erradicao do rgo            Fronteira, 1986; XY: sobre a identidade masculina
peniano consiste numa identificao psictica       (Paris, 1992), Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994, 2
                                                    ed.
com A Mulher, isto , com uma totalidade
impossvel. Essa tese confirmou o que todos os
casos observados j haviam mostrado, em es-
pecial nas histrias de incesto*: o distrbio da    transferncia
identidade sexual  simultaneamente mais fre-       al. bertragung; esp. transferencia; fr. transfert; ing.
qente e mais psicotizante no homem do que na       transference
mulher, na medida em que a simbiose original        Termo progressivamente introduzido por Sigmund
se deu com uma pessoa do sexo oposto: a me.        Freud* e Sandor Ferenczi* (entre 1900 e 1909), para
    Se os estudos sobre o transexualismo confir-    designar um processo constitutivo do tratamento
maram a lenda de tis e a tragdia de Herculine     psicanaltico mediante o qual os desejos* incons-
                                                                                 transferncia      767

cientes do analisando concernentes a objetos ex-      caso Anna O. (Bertha Pappenheim*) feito por
ternos passam a se repetir, no mbito da relao      Josef Breuer*, ainda que, examinando-o de per-
analtica, na pessoa do analista, colocado na posi-   to, o comentrio que acompanha esse relato
o desses diversos objetos.
                                                      ainda seja muito pouco terico.
    Historicamente, a noo de transferncia as-          Foi por ocasio da anlise de Dora (Ida
sumiu toda a sua significao com o abandono da
                                                      Bauer*), em 1905, que Freud teve realmente sua
hipnose*, da sugesto* e da catarse* pela psican-
                                                      primeira experincia, negativa, com a materiali-
lise*.
                                                      dade da transferncia. Ele atestou, a contragosto,
    O termo transferncia no  prprio do vo-        que o analista de fato desempenha um papel na
cabulrio psicanaltico. Utilizado em inmeros        transferncia do analisando. Ao se recusar a ser
campos, implica sempre uma idia de desloca-          objeto do arroubo amoroso de sua paciente, Freud
mento, de transporte, de substituio de um           ops uma resistncia* que, em contrapartida, de-
lugar por outro, sem que essa operao afete a        sencadeou uma transferncia negativa por parte
integridade do objeto.                                dela. Alguns anos depois, ele qualificaria esse
    Todas as correntes do freudismo* conside-         fenmeno de contratransferncia*.
ram a transferncia essencial para o processo             Desde 1909, Sandor Ferenczi observou que a
psicanaltico. Entretanto, conforme as escolas,       transferncia existia em todas as relaes huma-
as divergncias so mltiplas quanto a seu lugar      nas: professor e aluno, mdico e paciente etc. Mas
no tratamento, seu manejo pelo analista e o           ele notou que, na anlise, tal como na hipnose e
momento e os meios de sua dissociao. Um             na sugesto, o paciente colocava inconsciente-
sculo depois do nascimento da psicanlise, o         mente o terapeuta numa posio parental.
conceito de transferncia ainda  objeto de um            Na mesma poca, em sua exposio da an-
debate contraditrio, cuja origem se encontra         lise de um caso de neurose obsessiva* (Ernst
na histria de seu reconhecimento, de sua ava-        Lanzer*), Freud comeou a discernir o fato de
liao terica e de sua utilizao por Freud a        que os sentimentos inconscientes do paciente
partir do abandono da hipnose e da catarse.           para com o analista eram manifestaes de uma
    Primeiramente, seguindo Henri F. Ellenber-        relao recalcada com as imagos* parentais.
ger*, consideremos que a existncia da transfe-       Em 1912, em "A dinmica da transferncia",
rncia  atestada, antes de Freud, por uma ter-       primeiro texto exclusivamente dedicado a essa
minologia abundante: afinidade, influncia so-        questo, ele distinguiu a transferncia positiva,
namblica, necessidade de direo, trans-             feita de ternura e amor, da transferncia negati-
posio afetiva etc.                                  va, vetor de sentimentos hostis e agressivos. A
    Na verdade, a inovao freudiana consistiu        estas se acrescentariam transferncias mistas,
em reconhecer nesse fenmeno um compo-                que reproduzem os sentimentos ambivalentes
nente essencial da psicanlise, a ponto, alis, de    da criana em relao aos pais. Em 1920, em
esse novo mtodo se distinguir de todas as            Mais-alm do princpio de prazer*, Freud tor-
outras psicoterapias* por empregar a transfe-         nou a se surpreender com o carter repetitivo da
rncia como instrumento da cura no processo           transferncia. Constatando que essa repetio*
de tratamento. Todavia, esse reconhecimento           sempre se referia a fragmentos da vida sexual
no se deu espontaneamente e, at o fim da vida,      infantil, ele ligou a transferncia ao complexo
Freud continuaria impressionado com a recor-          de dipo* e concluiu que a neurose* original
rncia do fenmeno (Esboo de psicanlise*).          era substituda, na anlise, por uma neurose
    A princpio, nos Estudos sobre a histeria* e      artificial, ou "neurose de transferncia". No
em A interpretao dos sonhos*, ele apreendeu         processo analtico, esta devia conduzir o pa-
a transferncia sob o prisma de um deslocamen-        ciente a um reconhecimento da neurose infantil.
to do investimento no nvel das representaes            Segundo a teoria da seduo*, abandonada em
psquicas, mais do que como um componente             1897, mas cujos vestgios nunca seriam total-
da relao teraputica.                               mente apagados, a transferncia foi considerada
    Retrospectivamente, podemos reconhecer a          por Freud como um obstculo ao trabalho de
funo essencial da transferncia no relato do        rememorao e uma forma particularmente tenaz
768     transferncia

de resistncia, indcio da proximidade do retor-    (...). Durante anos, e, em certa medida, ainda
no dos elementos recalcados mais cruciais.          hoje, tem-se compreendido a transferncia em
    Com o desenvolvimento da teoria da fanta-       termos de uma referncia direta ao analista.
sia*, Freud afastou-se da idia de rememorao.     Minha concepo de uma transferncia enrai-
Embora continuasse a ligar a resistncia  trans-   zada nas fases [estdios*] mais precoces do
ferncia, colocou a nfase na importncia de sua    desenvolvimento e nas camadas profundas do
utilizao como via de acesso ao desejo* incon-     inconsciente  muito mais ampla, acarretando
sciente.                                            uma tcnica mediante a qual se deduzem da
    Em 1923, em "Dois verbetes de enciclop-        totalidade do material apresentado os elementos
dia: (A) Psicanlise, (B) Teoria da libido", a      inconscientes da transferncia. Por exemplo, os
transferncia foi concebida por Freud como um       ditos dos pacientes sobre sua vida cotidiana,
terreno no qual  preciso conseguir uma vitria.    seus relacionamentos e suas atividades no fa-
Utilizada pelo analista, ela , na verdade, "o      zem compreender unicamente o funcionamento
mais poderoso adjuvante do tratamento". A par-      do eu; revelam tambm, se explorarmos seu
tir da, foi o amor transferencial que passou a     contedo inconsciente, as defesas contra as
reter toda a ateno de Freud. Com esse termo       angstias despertadas na situao de transfern-
ele designou os casos em que o paciente -- em       cia."
geral, uma mulher -- declara estar apaixonado            Depois disso, kleinianos e ps-kleinianos,
por seu analista. Havendo observado que esse        em especial Wilfred Ruprecht Bion*, cons-
era realmente um processo transferencial, uma       truram um novo quadro da anlise, muito dife-
vez que a mudana de analista era acompanhada       rente daquele dos freudianos, com regras preci-
pela repetio do sentimento, Freud sublinhou       sas e, sobretudo, com um manejo da transfern-
a absoluta necessidade de o terapeuta respeitar     cia que tende a excluir da situao analtica
a regra da abstinncia*, no apenas por razes      qualquer forma de realidade material em prol
ticas, mas sobretudo para que o objetivo da        unicamente da realidade psquica*. Esta, por-
anlise pudesse ser perseguido. Nesses casos,       tanto,  conforme  imagem que o psictico tem
com efeito, a resistncia  anlise reveste-se da   do mundo e de si mesmo. Para os kleinianos,
forma de um amor: o trabalho passa a ter por        todo ato (gesto ou palavra) que se produz no
objetivo encontrar as origens inconscientes des-    tratamento deve ser interpretado como a prpria
sa manifestao que invade a transferncia.         essncia de uma manifestao contratransfe-
    Depois de Freud, uma multiplicidade de          rencial, sem ser relacionado com uma realidade
trabalhos foi dedicada  questo da transfern-     externa. Da a criao do termo acting in, ao
cia, cada qual se esforando por repensar esse      lado de acting out*. Se um paciente esfregar a
conceito em harmonia com as inflexes ou mo-        mo no div, se tiver dor de cabea, isso no
dificaes sucessivamente introduzidas na teo-      ser escutado somente em funo da possvel
ria original.                                       realidade somtica de sua irritao cutnea ou
    Em Melanie Klein*, a transferncia  conce-     de sua enxaqueca, mas relacionado, em primei-
bida como uma reencenao (reenactment), du-        ro lugar, atravs de uma interpretao*, com o
rante a sesso, de todas as fantasias* inconsci-    universo fantasstico do analista, persuadido de
entes (ou phantasias*) do paciente. Na pers-        haver "induzido" inadvertidamente esse ato.
pectiva kleiniana, com efeito, a fantasia no      Essa concepo kleiniana e ps-kleiniana da
somente a expresso de defesas* mentais contra      transferncia, que consiste em fazer pender para
a realidade, mas tambm a manifestao das          o lado do analista uma modalidade da relao
pulses*. Por conseguinte, o eu* se constitui de    de objeto* que  prpria da psicose*, a fim de
maneira mais complexa do que concebia Freud         compreender melhor a natureza da transfern-
e, acima de tudo, num perodo anterior: "Afir-      cia psictica, aproxima-se da sugesto e da
mo", escreveu Melanie Klein, "que a transfe-        telepatia*, ou, mais exatamente, como dizia
rncia tem origem nos mesmos processos [de          Freud, da "transferncia de pensamento".
amor e dio, agresso e culpa] que, nas fases             parte a orientao kleiniana, os desenvolvi-
mais precoces, determinam as relaes objetais      mentos da reflexo ps-freudiana caracterizam-se
                                                                                  transferncia       769

por uma considerao cada vez mais insistente       esclarecer a verdade do amor transferencial.
da eficincia e da participao inconsciente do     Para sua demonstrao, uma das mais lumino-
analista na instaurao da transferncia.           sas sobre o assunto, ele se apoiou no Banquete
    A partir do primado conferido  relao com     de Plato. Esse dilogo pe em cena, em torno
a me na evoluo do sujeito*, Donald Woods         de Scrates, seis personagens, cada um dos
Winnicott* desenvolveu uma concepo da             quais expressa uma concepo diferente do
transferncia como repetio do vnculo mater-      amor. Entre eles esto o poeta Agato, aluno de
no. Da o abandono da neutralidade rigorosa, o      Grgias, cujo triunfo  celebrado, e Alcibades,
qual no deixa de lembrar a tcnica ativa de        poltico de grande beleza, de quem Scrates
Ferenczi. O management (gesto, direo) win-       renunciou a ser amante por preferir a ele o amor
nicottiano consiste em deixar que o paciente        ao Bem Supremo e o desejo de imortalidade, ou
aproveite as falhas e deficincias do analista.    seja, a filosofia.
particularmente eficaz no caso dos pacientes             Desde a Antigidade, os comentadores sem-
frgeis em quem a subjetividade se manifesta        pre enfatizaram a maneira como Plato utilizou
por um falso self*.                                 a arte do dilogo para fazer com que esses
    Na dcada de 1970, Heinz Kohut*, desejoso       personagens enunciassem sobre o amor teses
de transformar o enquadre da anlise, que jul-      sempre decorrentes de um desejo consciente-
gava por demais ortodoxo, inventou uma noo        mente nomeado. Pois bem, a originalidade de
de transferncia narcsica ou "transferncia es-    Lacan consistiu em colocar Scrates no lugar
pecular". Na tica kohutiana, o analista  vivido   daquele que interpreta o desejo de seus discpu-
pelo paciente como um prolongamento dele            los. Transformado em psicanalista, Scrates
mesmo, cabendo-lhe aceitar essa relao trans-      no escolhe a abstinncia por amor  filosofia,
ferencial, na medida em que ela permita um          mas por deter o poder de expressar a Alcibades
resgate do self (ou "eu profundo" do paciente),     que o verdadeiro objeto do desejo deste no 
cuja ferida, verdadeira patologia narcsica,       ele, Scrates, mas Agato.  exatamente nisso
relacionada com as dificuldades encontradas na      que consiste a transferncia: ela  feita do mes-
relao arcaica com a me.                          mo estofo que o amor comum, mas  um artif-
    Jacques Lacan* discorreu inicialmente so-       cio, uma vez que se refere inconscientemente a
bre a transferncia em sua leitura do caso Dora     um objeto que reflete outro: Alcibades acredita
feita em 1951, "Interveno sobre a transfern-     desejar Scrates quando deseja Agato.
cia". Naquele ano, definiu a relao transferen-         Depois desse avano, Lacan introduziu em
cial como uma seqncia de inverses dialti-       seu seminrio do ano de 1961-1962, dedicado
cas, e sublinhou que os momentos "fortes" da         identificao, uma nova perspectiva. A trans-
transferncia inscreviam-se nos tempos "fra-        ferncia aparece ali como a materializao de
cos" do analista. A cada inverso, o analisando     uma operao que se relaciona com o engano e
avana na descoberta da verdade.                    que consiste em o analisando instalar o analista
    Posteriormente, em seu seminrio do ano de      no lugar do "sujeito suposto saber", isto , em
1954-1955, dedicado ao eu e aos escritos tcni-     lhe atribuir o saber absoluto.
cos de Freud, Lacan inscreveu a transferncia            Por fim, em seu seminrio do ano de 1964,
numa relao entre o eu do paciente e a posio     Lacan fez da transferncia um dos quatro con-
do grande outro* (Outro). Sua problemtica          ceitos fundamentais da psicanlise, ao lado do
ainda no estava em ruptura total com as leitu-     inconsciente, da repetio e da pulso. Definiu-a
ras psicologizantes do texto freudiano: o Outro     como a encenao, atravs da experincia ana-
continuava a ser concebido como sujeito e, se       ltica, da realidade do inconsciente*. Essa pers-
o analista podia criar obstculos ao estabeleci-    pectiva o levou a ligar a transferncia  pulso.
mento ou  consumao da transferncia, era
em virtude da ostentao laudatria de seu eu.       Sigmund Freud e Josef Breuer, Estudos sobre a
                                                    histeria (1893-1895), ESB, II; SE, II; Paris, PUF, 1956
    Foi no mbito de seu seminrio do ano de         Sigmund Freud, A interpretao dos sonhos (1900),
1960-1961, consagrado  transferncia, que La-      ESB, IV-V, 1-660; GW, II-III, 1-642; SE, IV-V, 1-621;
can introduziu o desejo do psicanalista para        Paris, PUF, 1967; Fragmento da anlise de um caso
770       transmisso (da psicanlise)

de histeria (1905), ESB, VII, 5-128; GW, V, 163-286;        trauma
SE, VII, 1-122; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,
1954, 1-91; "Notas sobre um caso de neurose obses-           HISTERIA; NEUROSE DE GUERRA; RANK, OTTO;
siva" (1909), ESB, X, 159-258; GW, VII, 381-463; SE,        SEDUO, TEORIA DA.
X, 151-249; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF, 1954,
199-261; "A dinmica da transferncia" (1912), ESB,
XII, 133-48; GW, VIII, 364-74; SE, XII, 97-108; in La       travestismo
Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953, 50-60;
"Observaes sobre o amor transferencial (Novas
                                                             FETICHISMO; PERVERSO; STOLLER, ROBERT;
recomendaes sobre a tcnica da psicanlise III)"          TRANSEXUALISMO.
(1915), ESB, XII, 208-21; GW, X, 306-21; SE, XII,
157-71; in La Technique psychanalytique, Paris, PUF,
1953, 116-30; Mais-alm do princpio de prazer (1920),      Trs ensaios sobre a teoria da
ESB, XVIII, 17-90; GW, XIII, 3-69; SE, XVIII, 1-64; in      sexualidade
Essais de psychanalyse, Paris, Payot, 1981, 41-115;
                                                            Livro de Sigmund Freud*, publicado pela primeira
"Dois verbetes de enciclopdia: (A) Psicanlise, (B)
Teoria da libido" (1923), ESB, XVIII, 287-307; GW, XIII,    vez em 1905, sob o ttulo Drei Abhandlungen zur
211-33; SE, XVIII, 235-59; OC, XVI, 181-208; Esboo         Sexualtheorie. Traduzido para o francs pela pri-
de psicanlise (1938), ESB, XXIII, 168-246; GW, XVII,       meira vez por Blanche Reverchon-Jouve (1897-
67-138; SE, XXIII, 139-207; Paris, PUF, 1949, 167          1974), em 1923, sob o ttulo Trois Essais sur la
Sigmund Freud e Sandor Ferenczi, Correspondncia,           thorie de la sexualit, e depois, em 1987, por
1908-1914, vol.I, 2 tomos (Paris, 1992), Rio de Janeiro,    Philippe Koeppel, sob o ttulo Trois Essais sur la
Imago, 1994-1995, 1914-1919, vol.II, Paris, Calmann-        thorie sexuelle. Traduzido para o ingls pela pri-
Lvy, 1996  Henri F. Ellenberger, Histoire de la dcou-
                                                            meira vez em 1910, por Abraham Arden Brill* e
verte de l'inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeur-
                                                            James Jackson Putnam*, sob o ttulo Three Contri-
banne, 1974), Paris, Fayard, 1994  Sandor Ferenczi,
"Transferncia e introjeo" (1909), in Psicanise I,       butions in the Sexual Theory, e depois em 1949, por
Obras completas, 1908-1912 (Paris, 1968), S. Paulo,         James Strachey*, sob o ttulo Three Essays on the
Martins Fontes, 1991, 77-108  E. Porge, "Transfern-       Theory of Sexuality. Retomado sem modificaes
cia", in Pierre Kaufmann (org.), Dicionrio enciclopdi-    em 1953.
co de psicanlise: o legado de Freud e Lacan (Paris,            Ao contrrio do que disse Sigmund Freud
1993), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996, 548-56 
                                                            em sua autobiografia de 1925 e da lenda pos-
Melanie Klein, Le Transfert et autres crits, Paris, PUF,
1995  Heinz Kohut, Anlise do self (N. York, 1971), Rio    teriormente forjada por Ernest Jones*, os Trs
de Janeiro, Imago, 1988  Jacques Lacan, Escritos           ensaios sobre a teoria da sexualidade no fo-
(Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998; O         ram acolhidos por uma chuva de improprios e
Seminrio, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais       no tornaram seu autor "universalmente impo-
da psicanlise (1964) (Paris, 1973), Rio de Janeiro,        pular". Publicado depois dos mltiplos traba-
Jorge Zahar, 1979; O Seminrio, livro 2, O eu na teoria
                                                            lhos dos sexlogos, nos quais, alis, se havia
de Freud e na tcnica da psicanlise (1954-1955)
(Paris, 1978), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985; O         inspirado, e depois do famoso Sexo e carter,
Seminrio, livro 8, A transferncia (1960-1961) (Paris,     de Otto Weininger*, o belo ensaio de Freud foi
1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992  Jean La-         elogiosamente recebido por todos os especialis-
planche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulrio da psi-       tas na questo sexual. Como estabeleceram
canlise (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991,     Henri F. Ellenberger* e, depois dele, Norman
2 ed.  lisabeth Roudinesco, Jacques Lacan. Esboo
de uma vida, histria de um sistema de pensamento
                                                            Kiell, o lanamento foi saudado por uma maio-
(Paris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994        ria de artigos favorveis, dentre eles os do cri-
Donald Woods Winnicott, O brincar e a realidade (Lon-       minologista Paul Naecke (1851-1913), da escri-
dres, 1971), Rio de Janeiro, Imago, 1979.                   tora feminista Rosa Mayreder (1858-1938), do
                                                            neurologista Albert Eulenberg (1840-1917), do
 CONTRATRANSFERNCIA; N BORROMEANO.                        jornalista Otto Soyka (1882-1945) e tambm os
                                                            de Magnus Hirschfeld* e Adolf Meyer*.
                                                                Freud e os adeptos da historiografia* oficial
                                                            falaram numa reao de rejeio porque o livro
transmisso (da psicanlise)                                do mestre no foi recebido, quando de sua pu-
 ANLISE DIDTICA; INTERNATIONAL PSYCHOA-                   blicao, como o livro inaugural de uma teoria
NALYTICAL ASSOCIATION; PASSE.                               inteiramente indita da sexualidade* humana.
                                                    Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade       771

Simplesmente, teve uma sada normal na poca            progresso atuante. Foi por isso que, retroativa-
-- mil exemplares vendidos no primeiro ano e            mente, os Trs ensaios foram considerados o
200 por ano nos quatro anos seguintes --, e foi         livro inaugural do "escndalo freudiano" da
considerado pelos especialistas como um livro           sexualidade, sobretudo em razo dos trechos
cientfico entre outros. Ora, desde 1886 vinha          sobre as teorias sexuais infantis e sobre a dis-
surgindo a cada ano, sobretudo na Alemanha*,            posio perverso-polimorfa. Em conseqncia
na ustria e na Inglaterra, uma multiplicidade          disso, esse texto no tem a mesma situao dos
de livros dedicados  sexualidade em geral e           demais livros de Freud:  como que determina-
sexualidade infantil em particular. Da a amar-         do pela histria de suas sucessivas acolhidas e
gura de Freud e seus discpulos, posto que o            pela histria dos comentrios, interpretaes e
mestre tinha conscincia, justificadamente, de          violncias que provocou.
haver produzido uma teoria revolucionria da                Essa histria, alis, acha-se inscrita no pr-
sexualidade.                                            prio cerne do livro, que se mostra em diversas
    A lenda fabricada por Jones implantou-se            verses. Com efeito, Freud nunca reescreveu,
to solidamente no meio psicanaltico que, em           corrigiu e retificou tanto um livro quanto fez
1987, o prefaciador da nova traduo francesa           com este, a ponto de no mais sabermos dis-
no hesitou em apresentar Freud como o heri            tinguir o original de suas verses sucessivas.
de uma cruzada da verdade contra o obscuran-            Entre 1905 e 1920, houve quatro edies dos
tismo, capaz, aos 49 anos, de sacrificar tudo --        Trs ensaios, havendo Freud introduzido em
a honra, a vida social, a clientela e a reputao       cada uma delas modificaes considerveis 
-- para lanar no rosto de uma comunidade               medida que ia aperfeioando sua teoria da libi-
cientfica ignorante e estpida o grande desafio        do em funo da evoluo geral de sua prpria
da "verdadeira" sexualidade.                            doutrina, organizando o "dualismo pulsional" e
    No foi o lanamento dos Trs ensaios sobre         desenvolvendo sua concepo do narcisismo*.
a teoria da sexualidade, portanto, que desenca-             O escndalo dos Trs ensaios reside no
deou a cruzada antifreudiana que procurou as-           abandono da concepo sexolgica da sexuali-
similar a psicanlise* a um pansexualismo*, e           dade (com sua infindvel descrio de anoma-
sim alguns acontecimentos posteriores. Primei-          lias e aberraes) em favor de uma abordagem
ro, foi preciso que sasse publicada a anlise do       psquica do sexual. Foi sua maneira de "sexua-
Pequeno Hans (Herbert Graf*), onde a teoria             lizar" a totalidade da vida individual e coletiva
freudiana foi diretamente aplicada a uma crian-         que provocou a perturbao e a acusao de
a, e, depois, a de Leonardo da Vinci e uma             pansexualismo. Ao arrancar a libido sexualis do
lembrana de sua infncia*, onde ela tocou na           gozo dos mdicos, Freud fez dela o determi-
infncia de um pintor universalmente sacraliza-         nante fundamental do psiquismo humano. Mas
do; em seguida, foi preciso que se desenvolves-         tambm a devolveu ao prprio homem (doente,
se o movimento psicanaltico, com a criao da          paciente, criana). Da o emprego do termo
International Psychoanalytical Association*             "teoria sexual" (Sexualtheorie) para designar,
(IPA) e a implantao progressiva da psican-           ao mesmo tempo, as hipteses do cientista e as
lise em numerosos pases; e por fim, foi preciso        "teorias" inventadas pelas crianas, ou mesmo
que se desse o rompimento com Carl Gustav               pelos adultos, para resolver o enigma da copu-
Jung* a propsito da libido*. Foi ento, entre          lao, do nascimento e da diferena sexual*.
1910 e 1913, que o freudismo comeou a ser                  A obra  dividida em trs partes. Na primei-
encarado, em todas as partes do mundo, como             ra, dedicada s aberraes sexuais, Freud intro-
uma "obscenidade", uma "pornografia", uma               duz pela primeira vez a palavra pulso*, a fim
"coisa sexual" ou at uma "cincia boche". A            de descrever os "desvios em relao ao objeto
rigor, foi no momento em que a doutrina freu-           sexual", entre os quais inclui a "inverso" e os
diana angariava o reconhecimento internacio-            "imaturos sexuais e animais tomados como ob-
nal que eclodiram contra ela as acusaes de            jetos sexuais". Atravs dessa terminologia, sa-
pansexualismo. A resistncia  teoria da sexua-         da do vocabulrio corrente, ele designa trs
lidade foi ento o sintoma evidente de seu              formas de comportamento sexual consideradas
772     Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade

"taras" pelos mdicos do fim do sculo: a                 A segunda parte do livro, a mais essencial,
homossexualidade*, a pedofilia (relao sexual       consiste numa exposio, a um tempo simples
entre um adulto e uma criana pr-pbere) e a        e divertida, das variaes da sexualidade infan-
zoofilia (relao sexual entre um ser humano e       til. Verdadeira matriz da teoria da libido, essa
um animal). A rejeio das palavras eruditas,        dissertao magistral,  qual seriam acrescenta-
derivadas do latim e do grego, reveste-se em sua     das diversas passagens, serve tambm para a
pena de uma significao precisa: para Freud,        elucidao do complexo de castrao*, da idia
trata-se de mostrar que essas "aberraes", por      de inveja do pnis e, por ltimo, da gnese da
mais diferentes que sejam umas das outras, no       noo de estdio* (oral, anal, flico e genital)
podem de maneira alguma ser vistas como a            retirada da biologia evolucionista. O compo-
expresso de uma degenerescncia, a homos-           nente central da organizao da sexualidade
sexualidade menos ainda que as outras.               infantil continua a ser o que Freud denomina de
    No apenas Freud diversifica as formas pos-      "disposio perverso-polimorfa".
sveis da homossexualidade, como tambm faz               Ao mostrar que as atividades infantis -- os
desta um componente "adquirido", e no "ina-         tipos de suco, a masturbao, as brincadeiras
to", da sexualidade humana. Assim, ela pode ser      com o corpo ou com as fezes, a alimentao, a
diferentemente encarada conforme as culturas         defecao etc. -- so fontes de prazer e de
e os estgios de civilizao. Para ampliar ainda     auto-erotismo*, Freud destri o velho mito do
mais sua definio, Freud faz da homos-              "paraso dos amores infantis". Antes dos quatro
sexualidade, no captulo seguinte, uma inclina-      anos, a criana  um ser de gozo*, cruel, inteli-
o inconsciente e universal presente em todos       gente e brbaro, que se entrega a toda sorte de
os neurticos, isto , em qualquer sujeito*. Da     experincias sexuais, s quais renunciar ao se
esta formulao clebre, na qual ele j havia        transformar num adulto. No que concerne a esse
pensado em 1896: "A neurose* , por assim            aspecto, a sexualidade infantil no conhece lei
dizer, o negativo da perverso." Alis,  a tal      nem proibio, e leva em conta, para se satisfa-
ponto o negativo dela que Freud sublinha, em         zer, todos os objetos e todos os alvos possveis.
sua recapitulao final, de que maneira, atravs     Testemunho disso, se necessrio, so as "teo-
do recalque*, uma mesma pessoa pode passar           rias" fabricadas pelas crianas a propsito de
de uma para a outra. Aps uma intensa atividade      sua origem: a teoria da cloaca, segundo a qual
sexual perversa na infncia, freqentemente se       os bebs vm ao mundo pelo reto e so equiva-
produz uma reviravolta, e a neurose substitui a      lentes s fezes, com sua variao, o parto atravs
perverso segundo o provrbio: "Moa dis-            do umbigo, e a teoria do carter sdico-anal do
soluta, velha beata."                                coito parental, que faz do parto um ato de sodo-
    Nessa mesma perspectiva, Freud faz da pedo-      mia, acompanhado de uma violncia originria
filia e da zoofilia comportamentos que se mas-       semelhante a um estupro. Em 1908, em "Sobre
caram sob uma aparncia de extrema "norma-           as teorias sexuais das crianas", Freud acres-
lidade". Essas duas aberraes no esto ligadas,    centaria diversas outras "teorias" a essas: por
a seu ver, a uma doena mental, mas a um estado      exemplo, a idia de que as crianas so conce-
infantil da prpria sexualidade. Da o fato de os    bidas pela urina ou pelo beijo, ou de que nascem
pedfilos e os zofilos aparecerem como in-          logo depois do coito, ou ainda de que os ho-
divduos covardes, mas perfeitamente adaptados       mens, tal como as mulheres, podem ter bebs.
 vida social burguesa ou camponesa.                 Nesse mesmo ano, em "Carter e erotismo
    A continuao dessa parte  dedicada a uma       anal", Freud associaria a atividade anal ao des-
vasta anlise das outras perverses* (fetichis-      envolvimento posterior das melhores quali-
mo* e sadomasoquismo*), bem como s formas           dades espirituais no sujeito.
particulares de prticas erticas ligadas  boca          O terceiro ensaio  dedicado a um estudo da
(felao, cunilngua). Todas so reintegradas        puberdade e, portanto, da passagem da sexuali-
por Freud no quadro geral de um funcionamen-         dade infantil para a sexualidade adulta, atravs
to pulsional organizado em torno de um conjun-       do complexo de dipo* e da instaurao de uma
to de zonas ergenas.                                escolha de objeto fundamentada, de um modo
                                                                                                   Trieb      773

geral, na diferena entre os sexos*. A isso se              scher's Medizinische Buchhandlung, H. Kornfeld,
                                                            1897; Das Sexualleben des Kindes, Berlim, H. Walter,
soma um captulo sobre a libido, redigido em
                                                            1908  Havelock Ellis, tudes de psychologie sexuelle,
diversas etapas entre 1904 e 1924.  nele que               vol.I (Londres, 1897), Paris, Mercure de France, 1904
Freud desenvolve sua tese do monismo sexual,                 Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 3
sublinhando que a libido  de natureza mascu-               vols. (N. York, 1953, 1955, 1957), Rio de Janeiro,
lina e, portanto, de essncia viril. Essa tese,             Imago, 1989  Henri F. Ellenberger, Histoire de la
                                                            dcouverte de l'inconscient (N. York, Londres, 1970,
proposta desde 1905 e desenvolvida sobretudo                Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994  Jean La-
em 1915, seria contestada pelos adeptos da                  planche, Vida e morte em psicanlise (Paris, 1970), P.
escola inglesa, no contexto do grande debate da             Alegre, Artes Mdicas, 1985  Frank J. Sulloway, Freud,
dcada de 1920 sobre a sexualidade feminina*.               Biologist of the Mind, N. York, Basic Books, 1979 
                                                            Norman Kiell, Freud without Hindsight. Review of his
A essas trs partes Freud acrescenta uma "reca-             Work, 1893-1939, Madison, International Universities
pitulao", na qual descreve os efeitos que o               Press, 1988.
recalque, a hereditariedade, a sublimao* e a
fixao surtem na sexualidade.                               CENA PRIMRIA; DOLTO, FRANOISE; ESTUDO
    Com esse livro fundamental, Freud abriu                 AUTOBIOGRFICO, UM; FANTASIA; FREUD, ANNA;
caminho para o desenvolvimento da psicanlise               HISTERIA; INVEJA; KLEIN, MELANIE; PAPPENHEIM,
de crianas e para a reflexo sobre a educao              BERTHA; ROMANCE FAMILIAR; SEDUO, TEORIA
                                                            DA; SOKOLNICKA, EUGNIE; WINNICOTT, DONALD
sexual: insistiu, por exemplo, em que os adultos
                                                            WOODS.
nunca mentissem para as crianas no que
concerne  origem delas e em que a sociedade
se mostrasse tolerante para com a sexualidade
em geral.                                                   Triandafilidis, Manolis (1883-1959)
                                                            pedagogo grego
 Sigmund Freud, Trs ensaios sobre a teoria da
sexualidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145;
                                                               Professor e gramtico, fundador, em 1910,
SE, VII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; "O esclareci-     de um Crculo Pedaggico que reunia mili-
mento sexual das crianas" (1907), ESB, IX, 137-48;         tantes favorveis  criao de uma lngua "de-
GW, VII, 19-27; SE, IX, 129-39; in La vie sexuelle,         mtica" (ou lngua do povo), e de uma nova
Paris, PUF, 1969, 7-13; "Sobre as teorias sexuais das
                                                            educao para as crianas, Manolis Trian-
crianas" (1908), ESB, IX, 213-32; GW, VII, 171-88;
SE, IX, 205-26; in La Vie sexuelle, Paris, PUF, 1969,       dafilidis foi o primeiro autor grego a publicar,
14-27; "Carter e erotismo anal" (1908), ESB, IX, 175-      em 1915, um artigo sobre a psicanlise* que
86; GW, VII, 203-9; SE, IX, 167-75; in Nvrose, psy-        teve grande repercusso: "O princpio da lngua
chose et perversion, Paris, PUF, 1973, 143-9; "Um tipo      e da psicologia freudiana". Expunha como a
especial de escolha de objeto feita pelos homens"
(Contribuies  psicologia do amor, I) (1910), ESB,
                                                            teoria do inconsciente*, ao esclarecer a alma e
XI, 149-62; GW, VIII, 66-77; SE, XI, 163-75; in La Vie      o psiquismo, podia contribuir para o desenvol-
sexuelle, Paris, PUF, 1969, 47-55; "Sobre o narcisismo:     vimento de uma nova pedagogia neo-helnica.
uma introduo" (1914), ESB, XIV, 89-122; GW, X,            Interessado tanto nas teorias socializantes de
138-70; SE, XIV, 73-102; in La Vie sexuelle, Paris, PUF,
1969, 80-105; "As transformaes da pulso exempli-
                                                            Alfred Adler* quanto nas de Sigmund Freud*,
ficadas no erotismo anal" (1917), ESB, XVII, 159-70;        teve com eles algum intercmbio epistolar.
GW, X, 402-10, SE, XVII, 125-133; in La vie sexuelle,
Paris, PUF, 1969, 106-12, "A organizao genital infan-      Eleni Atzina, "L'Introduction de la psychanalyse en
til da libido: uma interpolao na teoria da sexualidade"   Grce  travers ses relations avec les instituitions
(1923), ESB, XIX, 179-88; GW, XIII, 293-8; SE, XIX,         psychiatriques (1910-1950)", Monografia de DEA,
141-5; OC, XVI, 303-9; "A dissoluo do complexo de         GHSS, Universidade de Paris VII, 1996.
dipo" (1924), ESB, XIX, 217-28; GW, XIII, 395-402,
SE, XIX, 173-9; OC, XVII, 25-33; "Tipos libidinais"          EMBIRICOS, ANDREAS; FEDERAO EUROPIA
(1931), ESB, XXI, 251-8; GW, XIV, 509-513; SE, XXI,         DE PSICANLISE; HISTRIA DA PSICANLISE; KOU-
215-20; in La vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 156-9  S.
                                                            RETAS, DIMITRI.
Lindner, "Das Saugen an den Fingern, Lippen, bei der
Kindern (Ludeln)", in Jahrbuch fr Kinderheitkunde und
Physische Erziehung, Neue Folge, XIV, 1879  Richard
von Krafft-Ebing, Psychopathia Sexualis (Stuttgart,
1886, Paris, 1907), Paris, Payot, 1969  Albert Moll,
                                                            Trieb
Untersuchungen ber die Libido Sexualis, Berlim, Fi-         PULSO.
                                             U/V
Unheimlich                                                     Viena
 ESTRANHO, O.                                                      A idia de que a psicanlise* era apenas um
                                                               mero produto do esprito vienense -- e, alm
                                                               disso, do esprito "judeu vienense", -- fazia
Unterdrckung                                                  parte daqueles clichs que exasperavam Sig-
 REPRESSO.                                                    mund Freud* e o levaram a querer "desjudai-
                                                               zar" seu movimento e colocar um no-judeu
                                                               (Carl Gustav Jung*)  frente da International
Varendonck, Juliaan (1879-1924)                                Psychoanalytical Association* (IPA), a fim de
psicanalista belga                                             que ningum pudesse dizer que a psicanlise era
    Membro da Nederlandse Vereniging voor                      uma "cincia judia". A tese do genius loci ou do
Psychoanalyse (NVP), esse pioneiro da psica-                   Zeitgeist (gnio do lugar, esprito do tempo)
nlise* na Blgica* era doutor em filosofia,                   serviu primeiro para desqualificar a descoberta
letras e pedagogia. Analisado por Theodor                      freudiana e reduzi-la a um pansexualismo*, isto
Reik* em Viena* em 1922, Juliaan (ou Julien)                   , a uma doutrina "obscena" surgida num cre-
Varendonck participou do Congresso da Inter-                   bro degenerado no corao da cidade "artifi-
national Psychoanalytical Association* (IPA)                   cial" e obcecada pelos demnios do sexo. Po-
em Berlim. Morreu prematuramente durante                       pularizada por Adolf Albrecht Friedlnder
uma interveno cirrgica banal. Sigmund                       (1870-1949) por ocasio de um congresso in-
Freud* redigiu em ingls o prefcio de sua obra                ternacional de medicina realizado em Budapes-
The Psychology of Day-Dreams, publicada em                     te em 1909, e ingenuamente retomada por Pier-
1921, e Anna Freud* a traduziu para o alemo,                  re Janet*, ela reduzia a conceitualidade freudia-
                                                               na a uma moda, a uma epidemia psquica ou
 Juliaan Varendonck, The psychology of day-dreams,
Londres, George Allen and Unwin, 1921  "Introduo            ainda a um assunto cultural desprovido de ra-
a The psychology of day-dreams, de V. Varendonck";             cionalidade cientfica. A essas crticas Freud
ESB, XVIII, 271-328; GW, XIII, 439-40, SE, XVIII, 271-         respondia que o inconsciente* era universal,
2; OC, XVI, 151-2.                                             como a histeria* e outras entidades clnicas.
                                                                   Quanto  cidade de Viena, ele disse um dia
                                                               a Ernest Jones* que tinha por ela profunda
Verdrngung                                                    averso. "No comeo de minhas relaes com
 RECALQUE.                                                     ele, escreveu Jones, e antes de conhecer sua
                                                               averso, disse-lhe inocentemente um dia que,
                                                               em minha opinio, devia ser muito interessante
Verleugnung                                                    morar numa cidade transbordante de idias no-
 RENEGAO.                                                    vas. Para minha grande surpresa, ele se levantou
                                                               bruscamente e me disse em tom seco: `H cin-
                                                               qenta anos que estou aqui e nunca encontrei
Verwerfung                                                     uma idia nova!'" Essa observao prova que
 FORACLUSO.                                                   Freud no estava interessado em Art Nouveau,
                                                         774
                                                                                     Viena      775

e sabe-se que ele no manifestava nenhuma               Depois de Schorske, outros trabalhos, de
atrao pelos pintores e artistas da Sezession,     William Johnston a Jacques Le Rider, lanaram
por exemplo, preferindo ficar com os "cls-         um novo olhar sobre a modernidade vienense e
sicos": o sculo XIX, a Grcia antiga, os gran-     esclareceram um dos fundamentos da inveno
des autores, Goethe, Shakespeare, Cervantes.        psicanaltica: o sentimento do declnio da fun-
Assim, tambm ignorou a maneira com que os          o paterna e a preocupao em reavaliar sua
surrealistas apreciavam sua obra e sua teoria.      posio simblica. Em 1986, Jean Clair organi-
    S foi possvel superar essa problemtica e     zou em Paris uma exposio importante sobre
detectar quais foram as verdadeiras relaes de     o tema "Viena, o apocalipse alegre", que teve
Freud com a cultura vienense graas aos traba-      grande sucesso e reavivou o interesse pelos
lhos dos historiadores dos anos 1960. Carl          trabalhos histricos sobre a questo.
Schorske foi o primeiro, em um artigo de 1961           De fato, foi em Viena, capital do Imprio
e depois em um livro admirvel, Viena fin-de        Austro-Hngaro, e no na ustria, que se for-
sicle, publicado em 1981, a mostrar que as         mou o grupo freudiano das origens, a Sociedade
repercusses da desintegrao progressiva do        Psicolgica das Quartas-Feiras*, quase exclu-
Imprio Austro-Hngaro tinham feito da cidade       sivamente composta de judeus nascidos em
"uma das mais frteis matrizes da cultura a-his-    Viena, mas oriundos dos descendentes das co-
trica de nosso sculo. Os grandes criadores, na    munidades distribudas pelo vasto territrio da
msica, na filosofia, na economia, na arquitetu-    Mitteleuropa. Transformada em Wiener Psy-
ra e, evidentemente, na psicanlise romperam        choanalytische Vereinigung (WPV) em setem-
mais ou menos deliberadamente todos os laos        bro de 1908, a Sociedade perdeu sua posio
com a perspectiva histrica que estavam nos         central depois da Primeira Guerra Mundial,
                                                    quando Berlim se tornou a capital europia da
fundamentos da cultura liberal do sculo XIX e
                                                    psicanlise, com a criao do Berliner Psychoa-
na qual eles tinham sido educados."
                                                    nalytisches Institut* (BPI). Todavia, a presena
    Schorske constatou que, na sociedade vie-
                                                    de Freud e a autoridade dos grandes vienenses
nense dos anos 1880, o liberalismo era uma pro-
                                                    da primeira gerao (Paul Federn*, Siegfried
messa sem futuro, que afastava o povo do poder      Bernfeld*, August Aichhorn* etc.) lhe garanti-
e o abandonava aos demagogos anti-semitas.          ram durante ainda vinte anos um lugar impor-
Diante do niilismo social e da exploso de dio,    tante no seio da International Psychoanalytical
os filhos da burguesia rejeitavam as iluses de     Association* (IPA).
seus pais e expressavam outras aspiraes: fas-         Em maio de 1938, dois meses depois da
cnio pela morte e pela intemporalidade em          invaso da ustria pelas tropas alems, Carl
Freud, sonho de uma terra prometida (Estado         Mller-Braunschweig* dirigiu uma carta a Ri-
judeu) em Theodor Herzl (1860-1904), des-           chard Sterba* na qual lhe propunha colaborar
construo do eu* em Hugo von Hofmannsthal          com o Instituto Gring para "salvar" a psican-
(1874-1929), em sua famosa Carta a Lord             lise na ustria. Como todas as missivas oficiais
Chandos de 1902, suicdio*, negao ou con-         do Instituto, essa carta terminava com "Heil
verso entre os intelectuais habitados pelo         Hitler!". Freud e seus companheiros se reuni-
"dio de si judeu" (Karl Kraus*, Otto Weinin-       ram ento para pr fim  atividade da WPV, e
ger*), inveno de novas formas literrias em       Anna Freud* perguntou a Sterba quais eram
Joseph Roth (1894-1939) e Arthur Schnitzler*.       suas intenes. nico no-judeu do grupo, ele
Robert Musil (1880-1942) deu a Viena o nome         podia, como desejavam Ernest Jones* e Ml-
de Cacanie, palavra fabricada a partir de kaiser-   ler-Braunschweig, tomar a direo da poltica
lich-kniglich (imperial-real), e Hofmannsthal      de "salvamento" em questo. Ele se recusou. E
a via como a "monstruosa residncia de um rei       Freud pronunciou estas palavras: "Depois da
j morto e de um deus por nascer". Quanto           destruio por Tito do povo de Jerusalm, o
a Stefan Zweig*, ele a descreveria com nos-         rabino Hochanaan ben Sakkai pediu a Jav
talgia em O mundo de ontem, s vsperas de se       autorizao para abrir uma escola dedicada ao
suicidar.                                           estudo da Tor. Vamos fazer o mesmo. Pela
776     Viena

nossa histria, nossas tradies, estamos habi-         Em vida, Freud recusara a proposta do con-
tuados a ser perseguidos." Depois, voltando-se      selho municipal de Viena, de dar seu nome 
para Sterba, acrescentou: "Com uma exceo."        Berggasse. Depois da Segunda Guerra Mun-
    A 3 de junho de 1938, Freud deixou Viena        dial, o esquecimento de Freud em Viena foi tal
pelo Expresso do Oriente, para nunca mais vol-      que os guias tursticos nem mencionavam seu
tar. Deixou ali suas quatro irms, Rosa Graf*,      nome. "A indiferena do pblico e sua hostili-
Maria Freud*, Adolfine Freud*, Pauline Win-         dade latente do o que pensar, escreveu Peter
ternitz*, que desapareceriam nas trevas da "so-     Gay. Freud, que foi o primeiro a descrever os
luo final".                                       mecanismos da ambivalncia, certamente teria
    Freud levava consigo sua biblioteca, seus       encontrado nessa cidade, que ele detestava mas
objetos, mveis, cartas, seus manuscritos: ves-     no podia deixar, matria para estudar os senti-
tgios e lembranas de uma vida inteira. O apar-    mentos ambguos: parece que Viena recalcou
tamento de Berggasse 19 foi ento inteiramente      Freud."
esvaziado, e tudo o que continha foi transferido        Entretanto, a psicanlise continuou a viver
para Londres, para a nova casa de Maresfield        em Viena depois da Libertao graas a trs
Gardens 20. Dez dias antes da partida, a pedido     aristocratas: o conde Igor Caruso*, o baro
de Aichhorn, que desejava organizar, algum dia,     Alfred von Winterstein* e o conde Wilhelm
um museu no apartamento da Berggasse, Ed-           Solms-Rdelheim, ltimo mdico de Serguei
mund Engelman, jovem fotgrafo vienense, fez        Constantinovitch Pankejeff*. Com Aichhorn,
uma srie de fotos do local, ainda intacto. Tam-    reconstituram a WPV, que seria presidida por
bm obrigado a deixar Viena, confiou os negati-     Winterstein at 1958.
vos a Aichhorn, que os fez chegar a Londres:            Entretanto, j em 1947 Caruso se separou
"Voltei a Viena, escreveu Engelman, depois da       sem discusses da WPV, cuja orientao lhe
partida do ltimo locatrio. Vi como haviam         parecia excessivamente mdica, excessivamen-
estragado os cmodos. Subsistiam poucos si-         te materialista, excessivamente "americana",
nais de sua antiga dignidade; as belas estufas de   em resumo. Criou logo o primeiro Crculo de
porcelana tinham desaparecido para darem lu-        Trabalho Vienense sobre a psicologia das pro-
gar a horrorosos aparelhos de aquecimento."         fundezas, que seria o primeiro elo de uma inter-
Reunidas em um lbum intitulado A casa de           nacional: a Internationale Fderation der Ar-
Freud. Berggasse 19, as fotografias de Engel-       beitskreise fr Tiefenpsychologie* (IFAT).
man foram vendidas no mundo inteiro: elas da-       Mesmo continuando a ser freudiano, Caruso
vam o testemunho vivo de 47 anos (1891-1938)        no aceitava os padres de formao da IPA.
de vida dedicados  cincia,  arte,  cultura.         No fim do sculo XX, dominada pela forte
    Quando Henri F. Ellenberger* foi  Berggas-     personalidade de Harald Leupold-Lwenthal,
se em 24 de agosto de 1957, constatou que a         que encarna o antigo esprito vienense, a WPV
Federao Mundial de Sade Mental tinha             conta em suas fileiras com 60 membros, ou seja
mandado afixar uma placa em memria de              um ndice de sete e meio por milho de habi-
Freud. Mas a locatria lhe declarou: "De fato,     tantes. Os outros terapeutas freudianos esto em
aqui mesmo, mas no h nada para ver. Tudo foi      Viena e em vrias cidades da ustria (Linz,
mudado. No posso lhe mostrar nada. O tempo         Salzburgo, Innsbruck, Graz) e fazem parte dos
todo, as pessoas vm pedir para visitar o apar-     Crculos de Caruso, nos quais alguns se interes-
tamento.  muito irritante. J me queixei vrias    sam pela obra de Jacques Lacan*, como August
vezes s autoridades, pedi que comprassem o         Ruhs, por exemplo.
apartamento e me arrumassem outro. Mas eles          Hugo von Hofmannsthal, La Lettre de Lord Chandos
dizem que no tm dinheiro."                        et autres textes, Paris, Gallimard, 1992  Joseph Roth,
    Em 1969, foi fundada a Sigmund Freud            La Marche de Radetzky (Viena, 1932), Paris, Seuil,
Gesellschaft, com o objetivo de restaurar o         1982  Robert Musil, L'Homme sans qualits, 2 vols.
                                                    (1931-1933), Paris, Seuil, 1979  Ernest Jones, A vida
apartamento e criar nele um museu, que conte-       e a obra de Sigmund Freud, vol. 3 (N. York, 1957), Rio
ria apenas fotografias e os mveis da antiga sala   de Janeiro, Imago, 1990  Henri F. Ellenberger, "Une
de espera de Freud.                                 visite  la Berggasse" (1957), in Mdecines de l'me.
                                                                                   Vlad, Constantin       777

Essais d'histoire de la folie et des gurisons psychi-      BERTHA; PATRIARCADO; SADGER, ISIDOR; SEXO-
ques, Paris, Fayard, 1995, 91-4  Carl Schorske, Viena      LOGIA; SEXUALIDADE; WAGNER-JAUREGG, JU-
fin-de-sicle (N. York, 1981), S. Paulo, Companhia das
                                                            LIUS; WITTELS, FRITZ.
Letras, 1990  La Maison de Freud. Berggasse 19
Vienne, fotografias de Edmund Engelman e nota bio-
grfica de Peter Gay (N. York, 1976), Paris, Seuil, 1979
 Wolfgang Huber, Psychoanalyse in sterreich seit          vitalismo
1933, Viena, Geyer, 1977; "L'Histoire de la psychana-           Doutrina mdica proveniente de Paul Jo-
lyse en Autriche depuis l'exil de Sigmund Freud",
Vienne et la Psychanalyse, nmero especial da revista
                                                            seph Barthez e da escola de Montpellier, segun-
Austriaca, 21, novembro de 1985, 95-101  William M.        do a qual existe em cada indivduo um princpio
Johnston, L'Esprit viennois. Une histoire intellectuelle    vital, distinto tanto da alma quanto do pensa-
et sociale 1848-1938 (N. York, 1972), Paris, PUF, 1985      mento e das propriedades fsico-qumicas dos
 Allan Janik e Stephen Toulmin, Wittgenstein, Vienne
                                                            organismos vivos.
et la modernit (N. York, 1973), Paris, PUF, 1978 
Richard Sterba, Rminiscences d'un psychanalyste
viennois (Detroit, 1982), Toulouse, Privat, 1986  Mi-
chael Pollak, Vienne 1900, Paris, Gallimard, 1984          Vlad, Constantin (1892-1971)
Hans-Martin Lohman (org.), Psychoanalyse und Natio-         psiquiatra e psicanalista romeno
nal-sozialismus, Frankfurt, Fischer, 1984  Paul-Lau-
rent Assoun, "Freud et le lien viennois", in Vienne et la
                                                                Originrio de Bucovina, provncia oriental
psychanalyse, nmero especial da revista Aus-               do Imprio Austro-Hngaro, Constantin Vlad
triaca, 21, novembro de 1985, 11-21  Raoul Schindler,      foi o pioneiro da psicanlise* na Romnia*.
"L'dification de la personnalit par la psychanalyse.      Estudou medicina em Viena* e foi por suas
Igor Caruso et les cercles de travail sur la psycholo-      leituras pessoais que se iniciou na psicanlise*.
gie des profondeurs", ibid., 101-9  Vienne 1880-1938.
L'Apocalypse joyeuse, catlogo da exposio, sob a          Em 1923, defendeu uma tese de doutorado em
direo de Jean Clair, Paris, Centre Georges Pom-           Bucareste, na qual apresentou seis casos de
pidou, 1986  Clia Bertin, La Femme  Vienne au            anlise. Psiquiatra do servio sanitrio do exr-
temps de Freud, Paris, Stock/Laurence Pernoud, 1989         cito, melhorou o tratamento dos soldados com
 Jacques Le Rider, Modernit viennoise et crises de
l'identit (1990), Paris, PUF, 1994; Hugo von Hof-
                                                            a aplicao do mtodo freudiano.
mannsthal. Historicisme et modernit, Paris, PUF,               A partir de 1925, publicou vrias obras e,
1995  Elke Mhlleitner, Biographisches Lexikon der         especialmente em 1932, um clebre estudo psico-
Psychoanalyse. Die Mitglieder der Psychologischen           biogrfico sobre o poeta Mihail Eminescu (1850-
Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener Psychoanalytis-
                                                            1889). Criou em 1935 a Revista Romana de Psi-
chen Vereinigung von 1902-1938, Tbingen, Dis-
kord, 1992  Max Nordau, 1849-1923, Delphine Be-            hanaliza, que teve apenas um nmero. Em 1946,
chtel, Dominique Bourel e Jacques Le Rider (org.),          foi o primeiro presidente da Sociedade Romena
Paris, Cerf, 1996  Jean Clair, Malinconia. Motifs satur-   de Psicopatologia e Psicoterapia. Durante os pe-
niens dans l'art de l'entre-deux-guerres, Paris, Galli-     rodos de ditadura, nunca renegou a psicanlise.
mard, 1996.
                                                             Gheorghe Bratescu, Freud si psihanaliza in Roma-
 BAUER, IDA; BENEDIKT, MORIZ; BISSEXUALIDA-                 nia, Bucareste, Humanitas, 1994.
DE; BREUER, JOSEF; FREUD MUSEUM; HUG-HELL-
MUTH, HERMINE VON; JUDEIDADE; KRAFFT-EBING,                  COMUNISMO; HISTRIA DA PSICANLISE; POPES-
RICHARD VON; MAHLER, GUSTAV; PAPPENHEIM,                    CU-SIBIU, IOAN.
                                                    W
Wagner-Jauregg, Julius, n Wagner                                Watermann, August (1880-1944)
Ritter von Jauregg (1857-1940)                                   mdico e psicanalista alemo
psiquiatra austraco                                                 Depois de estudar medicina em Gttingen,
    Contemporneo e amigo de Sigmund                             August Watermann formou-se no Instituto de
Freud*, apesar de uma oposio radical  psi-                    Berlim e tornou-se membro da Deutsche Psy-
canlise* em nome de posies organicistas,                      choanalytische Gesellschaft (DPG) em 1927.
Julius Wagner-Jauregg foi todavia um reforma-                    Em 1930, com Clara Happel*, fundou em Ham-
dor do asilo em Viena*. Inventou a malariote-                    burgo um grupo de estudos psicanalticos. De-
rapia, que permitiu tratar da paralisia geral, o                 pois da tomada do poder pelos nazistas, emi-
que lhe valeu o Prmio Nobel de medicina em                      grou para os Pases Baixos*, onde teve dificul-
1927.                                                            dade para se integrar  Nederlandse Vereniging
                                                                 voor Psychoanalyse (NVP). Finalmente, ins-
    Atacado em 1920 e acusado de falta grave
                                                                 talou-se em Haia. Casou-se com uma neerlan-
por ter chamado de simuladores doentes neur-
                                                                 desa, Deena Vecht, com quem teve um filho.
ticos de guerra que submetera a tratamentos
                                                                 Depois da invaso da Holanda pelas tropas
com eletricidade, foi convocado por uma co-                      alems, tentou em vo emigrar para os Estados
misso de inqurito, da qual Freud participou                    Unidos*, mas foi detido e preso no campo de
como perito. Atravs desse debate, foi relana-                  trnsito de Wremdelingen, em Westerbork. Em
da a questo da neurose traumtica e da simu-                    18 de janeiro de 1944, foi deportado com sua
lao. Furioso por ser criticado (embora com                     famlia para o campo de concentrao de
muita moderao) por Freud, Wagner-Jauregg                       Theresienstadt, e depois para o de Auschwitz.
o acusou depois de ter-se aproveitado dessa                      Todos os trs foram exterminados.
ocasio para atac-lo e valorizar sua doutrina.
    Conservador e desesperado com a derrocada                     Ici la vie continue de manire surprenante. Contribu-
da monarquia josefista, abraou a causa do na-                   tion  l'histoire de la psychanalyse en Allemagne (Ham-
                                                                 burgo, 1985), seleo de textos traduzidos por Alain de
cionalismo alemo e, no fim da vida, aderiu ao                   Mijolla, Paris, Association Internationale d'Histoire de
Partido Nacional-Socialista, mesmo nunca ten-                    la Psychanalyse (AIHP), 1987.
do sido anti-semita.

 Julius Wagner-Jauregg, Lebenserinnerungen, L.
Schnbauer e M. Jantsch (org.), Viena, Springer, 1950
                                                                 Weininger, Otto (1880-1903)
 Magda Whitrow, Julius Wagner-Jauregg, Londres,                 escritor austraco
Smith Gordon and Company, 1993  Peter Berner,                       Como Wilhelm Fliess*, o nome de Otto Wei-
"Freud et Wagner-Jauregg: psychanalyse, neurologie,              ninger est ligado  construo, por Sigmund
psychiatrie", conferncia indita  Colquio internacio-
nal sobre o tema "Psycho-analyse, premier sicle",
                                                                 Freud*, da noo de bissexualidade*. Seu destino
organizado pelo Institut Franais de Vienne, junho de            foi sintomtico da ascenso de alguns dos grandes
1996.                                                            fanatismos do fim do sculo XIX: anti-semitismo,
                                                                 antifeminismo, culto  pureza racial.
 BABINSKI, JOSEPH; CHARCOT, JEAN MARTIN;                             Nascido em Viena*, era filho de um arteso
HISTERIA; NEUROSE; SEDUO, TEORIA DA.                           judeu, anti-semita e violento, que se casara com
                                                           778
                                                                                  Weiss, Edoardo        779

uma mulher deprimida, doente e submissa  sua              na*. Logo que chegou  capital austraca, soli-
tirania. Poliglota e aluno brilhante, mas tacitur-         citou uma consulta a Sigmund Freud*, com
no e melanclico, o jovem Otto admirava                    quem se encontrou pela primeira vez em 7 de
August Strindberg (1849-1912) e adotara as                 outubro de 1908. Nessa ocasio, encontrou na
teses anti-semitas de Houston Stewart Cham-                sala de espera uma criana de cinco anos, que
berlain (1855-1927), genro de Richard Wagner               mais tarde saberia tratar-se do Pequeno Hans
(1813-1883) e terico da superioridade da "raa            (Herbert Graf*), que fora visitar Freud algum
alem". Em 1902, por dio  sua judeidade*,                tempo depois de terminar seu tratamento. Freud
converteu-se ao protestantismo e, um ano de-               parece ter manifestado imediatamente grande
pois, publicou sua nica obra, Sexo e carter,             simpatia por esse jovem italiano, que lhe parti-
verdadeiro manifesto da bissexualidade e do                cipou o desejo de se dedicar  psicanlise*.
dio s mulheres e aos judeus. Em outubro do               Seria porque comparava, com bom humor, Wil-
mesmo ano, preparou seu suicdio*. Alugou um               ma Federn com Mussolini e o seu marido com
quarto na antiga casa de Ludwig van Beethoven              o rei da Itlia, Vtor Emanuel, que Freud enviou
(1770-1827), e ali deu um tiro no corao.                 o jovem Weiss a Paul Federn* para comear
Traduzido em dez lnguas, seu livro foi um                 logo uma anlise? A histria no diz... De todo
fantstico best-seller e teve 28 reimpresses at          modo, Weiss se tornaria amigo de Federn de-
1947, antes de cair no esquecimento.                       pois de ser analisado por ele e adotaria grande
    Freud foi envolvido na vida de Weininger               parte de suas concepes tericas, particular-
por causa de Hermann Swoboda*. Em uma nota                 mente a que se referia  psicologia do eu*.
de 1909 a respeito da anlise de Herbert Graf*                 Weiss comeara a se interessar pela psican-
(o Pequeno Hans), Freud fez uma crtica severa             lise muito cedo. Ainda no liceu, em Trieste, lera
de Weininger: "O complexo de castrao* est               A interpretao dos sonhos* e contou, em suas
na raiz inconsciente do anti-semitismo. O des-             "Lembranas de Sigmund Freud", publicadas
prezo pelas mulheres jovens tambm no tem                 com as cartas que Freud lhe enviou, que desde
outra raiz. Weininger, esse jovem filsofo emi-            essa poca estava informado da "inimizade que
nentemente dotado e sexualmente perturbado,                os dirigentes da psiquiatria e da neurologia
que se suicidou depois de escrever o curioso               alimentavam contra a psicanlise".
livro Sexo e carter, tratou, em um captulo que               Em 1913, antes mesmo de acabar o curso de
causou sensao, do judeu e da mulher com a                medicina, Weiss se tornou membro da Wiener
mesma hostilidade, lanando-lhes os mesmos                 Psychoanalytische Vereinigung (WPV). Quan-
insultos. Weininger era um neurtico inteira-
                                                           do a guerra estourou, foi mobilizado pelo exr-
mente dominado por complexos infantis; nele,
                                                           cito austraco como mdico militar. Isso no o
era o complexo de castrao que fazia a ligao
                                                           impediu de publicar seus primeiros trabalhos no
entre o judeu e a mulher."
                                                           Internationale rztlische Zeitschrift fr Psy-
 Otto Weininger, Sexe et caractre (Viena, 1903),         choanalyse* (IZP), nem de se casar, em 1917,
Lausanne, L'ge d'Homme, 1975  Jacques Le Rider,          com Wanda Shrenger, que conhecera quando
Le Cas Otto Weininger. Racines de l'antifminisme et       era estudante.
de l'antismitisme, Paris, PUF, 1982; Modernit vien-
noise et crises de l'identit (1990), Paris, PUF, 1994        Voltando a Trieste em 1919, Weiss foi admi-
rik Porge, Vol d'ides, Paris, Denol, 1994.              tido como mdico psiquiatra no hospital psi-
                                                           quitrico da provncia e comeou a analisar
                                                           pacientes, tornando-se assim o primeiro
Weiss, Edoardo (1889-1970)                                 psicanalista em exerccio na Itlia. Bem inseri-
psiquiatra e psicanalista americano                        do nos meios intelectuais de Trieste, muito
   Nascido em Trieste, Edoardo Weiss era filho             abertos  influncia austraca -- Giorgio Vo-
de um empresrio judeu da Bomia. Fez os                   ghera comparou a paixo da intelligentsia de
estudos secundrios em sua cidade natal, onde              Trieste pela psicanlise com um verdadeiro "ci-
tambm nascera sua me.                                    clone" -- Weiss entrou em contato com o escri-
   Em 1908, como muitos de seus contempo-                  tor Italo Svevo (1861-1928) e com o poeta
rneos, Weiss decidiu estudar medicina em Vie-             Umberto Saba (1883-1957). Criticou severa-
780      Weiss, Edoardo

mente o primeiro por seu uso incorreto da psi-         este confiasse ao mesmo Levi-Bianchini a edi-
canlise no clebre romance A conscincia de           o de sua traduo para o italiano das Confe-
Zeno e tornou-se analista do segundo em 1929.          rncias introdutrias sobre psicanlise*, coisa
    Mas a intensidade dessa vida intelectual no       que ele fez muito mal. Desses diversos inci-
deve esconder as dificuldades que Weiss encon-         dentes, das dificuldades manifestadas mais ou
trou em sua cidade e na Itlia inteira. No fim da      menos explicitamente por Freud quando estava
guerra, o pas se sentia humilhado e, longe de se      diante dos efeitos da transferncia dos seus
interessar pela doutrina freudiana, a classe diri-     alunos sobre a sua pessoa, Weiss seria um dos
gente italiana e os meios intelectuais se voltavam     poucos a falar posteriormente sem cair na adu-
para as ideologias nacionalistas e as concepes       lao nem no rancor.
positivistas da cincia. Weiss tentou fazer contatos       A partir de 1927, Weiss encontrou cada vez
com alguns raros defensores da psicanlise, em         mais obstculos. Recusando-se a italianizar seu
especial Marco Levi-Bianchini*.                        nome e a aderir ao partido fascista, foi obrigado
    Ao mesmo tempo, Enrico Morselli (1852-             a renunciar a seu posto no hospital. Pensou
1929), eminente representante da psiquiatria           ento em emigrar e abriu-se com Freud, que lhe
organicista em Trieste, lhe pediu que o iniciasse      respondeu, em 10 de abril de 1927, para desa-
na teoria freudiana. Gentilmente, Weiss respon-        conselh-lo a fazer isso: "Sei que h pocas
deu  sua solicitao e Morselli o convidou a          particularmente desfavorveis e outras em que
fazer uma comunicao no XVIII Congresso               tendemos ao desnimo, mas espero que elas
Nacional de Psiquiatria, que se realizou em            passem e que voc ainda se encontre bem na
Trieste em 1925. Mas a decepo de Weiss foi           Itlia, onde  o representante legtimo da psica-
grande: depois de uma recepo fria, sofreu os         nlise".
ataques to violentos quanto inesperados do                Em 1930, um certo Silvio Tissi, que Weiss
prprio Morselli.                                      em uma carta a Paul Federn de 16 de junho de
    Alguns meses depois, este publicou uma             1930 qualificou de "charlato", fez em Trieste
obra em dois volumes, intitulada La psicoana-          uma conferncia sobre a psicanlise, que teve
lisi, na qual a psicanlise e seu fundador eram        certa repercusso, a despeito de sua mediocri-
francamente caricaturados. Weiss sentiu uma            dade. Weiss foi ento solicitado, por uma socie-
grande amargura. A isso acrescentava-se a tris-        dade mdica local, a dar um curso de psican-
teza que lhe causava a atitude ambivalente de          lise, como resposta. Ministrou assim, para um
Freud em relao a seu pas. Com a esperana           pblico numeroso e apaixonado, cinco aulas,
de ver suas idias se implantarem na Itlia,           que seriam publicadas sob o ttulo Elementi di
Freud estava pronto a fazer concesses, a fingir       psicoanalisi, acompanhadas de um caloroso
que no via a agressividade ou a ignorncia de         prefcio de Freud. O livro teve logo um certo
certas pessoas, desde que estas manifestassem          sucesso. Tratava-se de uma apresentao rigo-
um mnimo de interesse pela psicanlise. A             rosa e exaustiva da doutrina freudiana,  qual se
propsito do livro de Morselli, Freud parecia          acrescentavam desenvolvimentos sobre os
compartilhar a indignao de Weiss. Efetiva-           trabalhos de Federn e algumas notas sobre as
mente, pediu-lhe que fizesse uma crtica impie-        pesquisas do prprio Weiss. Anexo, havia um
dosa dessa obra "miservel e maldosa", cujo            glossrio de termos psicanalticos, que durante
autor no passava de um "burro". Mas nem por           muito tempo foi o nico do gnero na Itlia.
isso deixou de escrever, no mesmo momento,                 Nesse mesmo ano de 1931, aceitando uma
uma carta a Morselli, cujo tom era dos mais            proposta do psiquiatra Sante De Sanctis (1862-
amveis. Por duas vezes, Freud adotaria a mes-         1935), Weiss deixou Trieste e foi para Roma,
ma atitude a respeito de Levi-Bianchini. s            onde logo fez amizade com Emilio Servadio* e
advertncias que Weiss lhe fizera, quanto ao           Nicola Perrotti*, que seriam, com ele, os pio-
turbulento fundador do Archivio de Neurologia,         neiros da psicanlise na Itlia. Cesare Musatti*
Psichiatria e Psicoanalisi, que considerava            se juntou a eles pouco depois.
pouco confivel, Freud respondeu de maneira                Em 1932, Weiss fundou novamente, sobre
benevolente, e at insistiu com Weiss para que         bases srias, a Societ Psicoanalitica Italiana
                                                                           Weiss, Edoardo        781

(SPI), inicialmente criada, em 1925, por Levi-          Comparando, a partir do alemo, a verdadei-
Bianchini. A sede da Sociedade foi transferida      ra dedicatria de Freud e a verso de Jones em
para Roma, no domiclio de Weiss, na Via dei        ingls, Paul-Laurent Assoun tentou interpretar
Gracchi, e a International Psychoanalytical As-     a inteno de Freud. Enfatizou que este esco-
sociation* (IPA) a reconheceria oficialmente        lhera deliberadamente esse livro sobre a guerra,
em 1936. Tambm em 1932, Weiss fundou a             escrevendo esta dedicatria: "A Benito Mus-
Rivista Italiana di Psicoanalisi, que publicou      solini, com a saudao respeitosa de um velho
artigos de Ernest Jones*, Marie Bonaparte*,         homem que reconhece, na pessoa do dirigente,
Paul Federn e tradues de Freud por Weiss e        um heri da cultura." Paul-Laurent Assoun evi-
Servadio, assim como os trechos fortes de uma       denciou que no havia como detectar nenhuma
violenta controvrsia com certos representantes     ambigidade nessa frase; no mximo uma certa
da nova gerao crociana (Benedetto Croce,          ingenuidade no desejo de que o "dirigente"
1866-1952).                                         (Machthaber) demonstrasse herosmo, pondo a
    Em 1933, produziu-se um acontecimento           fora de que dispunha a servio do direito, nica
cuja interpretao ainda hoje  problemtica.       arma capaz de assegurar o caminho da cultura
Nesse ano, Weiss, como fazia de vez em quan-        at a razo.
do, foi a Viena para apresentar a Freud uma pa-         Em 1936, por ocasio do octogsimo aniver-
ciente sua, cujo tratamento levantava alguns        srio de Freud, os psicanalistas italianos, sem-
problemas. Weiss e ela estavam acompanhados         pre sob a direo de Weiss, se manifestaram
do pai desta, Gioacchino Forzano, autor de co-      coletivamente, pela primeira e ltima vez antes
mdias e amigo de Benito Mussolini (1883-           do exlio, consagrando um nmero de sua revis-
1945). Ao fim da consulta, o pai pediu a Freud      ta proibida  obra do fundador. Freud respondeu
que dedicasse um de seus livros para o Duce.        agradecendo calorosamente, acrescentando es-
Em considerao a Weiss, Freud consentiu, es-       pecialmente para Weiss: "Os psicanalistas da
colhendo o texto "Por que a guerra?", escrito       Itlia, sob a sua direo, provaram nesta oca-
com Albert Einstein (1879-1955). Posterior-         sio, de modo particularmente impressionante,
mente, Weiss contou o ocorrido a Ernest Jo-         sua adeso  comunidade dos psicanalistas. O
nes*, pedindo-lhe expressamente que no o           nome de Edoardo Weiss  garantia de um rico
publicasse. Mas, no terceiro volume de sua          futuro." Mas, como sabemos, a histria logo se
biografia de Freud, Jones ignorou esse pedido       encarregaria de desmentir essa declarao. As
e deu uma verso do incidente que contribuiria      perseguies racistas se multiplicaram, at o
para obscurecer seu sentido. Traduziu para o        decreto de 1938, que proibiu aos judeus qual-
ingls a dedicatria de Freud e atribuiu a Weiss,   quer possibilidade de exercer uma profisso.
a quem acusou de manter contatos estreitos com      Weiss viu-se obrigado ao exlio. Em janeiro de
o ditador italiano, a indicao de uma interven-    1939, embarcou, em Npoles, para a Amrica.
o de Mussolini junto a Hitler para garantir a     Como escreveu Anna Maria Accerboni, "a cor-
proteo de Freud. Com moderao, Weiss re-         tina caiu definitivamente sobre o fim do primei-
tificou os fatos, lembrando sua oposio feroz      ro ato da histria da psicanlise na Itlia."
e precoce ao fascismo mussoliniano, a interdi-          Nos Estados Unidos*, Weiss comeou
o, em 1934, da Rivista Italiana di Psicoana-      trabalhando durante algum tempo na clnica de
lisi e as perseguies que o levariam, como         Karl Menninger*, em Topeka, no Kansas. Re-
muitos de seus amigos, a deixar o pas. Alis,      petiu os estudos de medicina, a fim de poder
ajudado por Kurt Eissler, ento secretrio dos      exercer oficialmente a psicanlise, e uniu-se 
Arquivos Freud, Weiss encontrou o exemplar          equipe de Franz Alexander* em Chicago, onde
do livro com a dedicatria de Freud e exps o       ficaria at a morte. Mas a guerra e o fascismo
carter aproximativo da traduo que Jones          estariam presentes em seu esprito e em seu
fizera dela. A sinceridade e a autenticidade dos    corao. Seu cunhado, sua irm e a famlia de
sentimentos antifascistas de Weiss eram indu-       sua mulher desapareceriam nos campos de ex-
bitveis e o pedido a Jones mostrava seu cons-      termnio nazistas. A Paul Federn, mais do que
trangimento por ocasio do encontro.                nunca seu amigo, que lhe expressava sua sim-
782       White, William Alanson

patia, Weiss respondeu em uma carta de 17 de                  "La Psychanalyse en Italie", in Roland Jaccard (org.),
novembro de 1942, mostrando simultanea-                       Histoire de la psychanalyse, vol.II, Paris, Hachette,
                                                              1982  Octave Mannoni, Fices freudianas (Paris,
mente seu dio, seu desejo de vingana e seu                  1978), Rio de Janeiro, Taurus, 1986  Jacques Nob-
abatimento.                                                   court, "Freud et le `Triskeles'", Critique, 435-6, agosto-
    Com mais de sessenta publicaes, livros e                setembro de 1983, 599-622; "La Transmission de la
artigos, Weiss deixou o esboo de uma obra                    psychanalyse freudienne en Italie via Trieste", Critique,
organizada em torno de uma concepo da teo-                  435-6, agosto-setembro de 1983, 623-7  Arnaldo No-
                                                              velletto, "Italy", in Peter Kutter (org.), Psychoanalysis
ria do eu, que tomou por emprstimo a Paul                    International. Guide to Psychoanalysis throughout the
Federn e desenvolveu a propsito de temas to                 World, Stuttgart-Bad Cannstatt, Frommann-Holzboog,
variados quanto a clnica da parania*, o amor                1992  Michele Ranchetti, "Un pioniere della psicoana-
heterossexual, a problemtica da identificao*               lisi", L'indice dei libri del mese, 1985, 10  Paul Roazen,
ou a agorafobia,  qual dedicou uma obra publi-               "Questions d'thique psychanalytique: Edoardo Weiss,
cada nos Estados Unidos em 1964. Depois da                    Freud et Mussolini", Revue Internationale d'Histoire de
                                                              la Psychanalyse, 1992, 5, 151-67  Silvia Vegetti Finzi,
morte de Federn, em 1950, que se afastara                     Storia della psicoanalisi, Milo, Mondador, 1986  Gior-
progressivamente das concepes freudianas                    gio Voghera, Gli anni della psicoanalisi, Pordenone,
originrias da segunda tpica, sem com isso                   Edizioni Studio Tesi, 1980.
aderir s teses da Ego Psychology*, ento do-
minantes alm-Atlntico, Weiss fez com que as                  BIBLIOTECA DO CONGRESSO; FOBIA.
idias do amigo no fossem esquecidas. Assim,
publicou sob o ttulo Ego Psychology and the
Psychoses, o conjunto de seus escritos e, depois,
                                                              White, William Alanson (1870-1937)
no mbito de uma obra coletiva dirigida princi-
palmente por Alexander, um captulo sobre a                   psiquiatra americano
teoria da psicose* segundo Federn.                                Em 1903, William Alanson White foi no-
    Em 1970, no sem se chocar com a frontal                  meado por Theodore Roosevelt (1858-1919)
oposio de Anna Freud*, Weiss publicou, com                  diretor do Government Hospital for the Insane
um cuidado especial, as cartas que Freud lhe                  de Washington. Logo se interessou pela psica-
dirigira, restituindo-os a seu contexto original,             nlise*, cujas principais teses introduziu no sa-
conferindo assim a esse pequeno livro um rigor                ber psiquitrico americano. Assim, desempe-
histrico exemplar.                                           nhou um papel considervel como formador de
                                                              opinio, tradutor, escritor e clnico junto aos
 Edoardo Weiss, Elementi di psicoanalisi (Milo,             jovens psiquiatras da gerao* seguinte,
1937), Pordenone, Edizioni Studio Tesi, 1995, com
prefcio de Sigmund Freud; Ego Psychology and the             interessados no freudismo* e em uma extenso
Psychoses, Edoardo Weiss (org.), N. York, Basic               social da psiquiatria ao campo da esquizofre-
Books, 1952; The Structure and Dynamics of the Hu-            nia*. Foi em especial o inspirador de Harry
man Mind, N. York, 1960; Agoraphobia in the Light of
Ego Psychology, N. York, Grune and Stratton, 1964;
                                                              Stack Sullivan*. Com Ely Smith Jelliffe*, criou
"Paul Federn, 1871-1950, A teoria da psicose", in Franz       a Psychoanalytic Review, primeira publicao
Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grotjahn                em lngua inglesa dedicada ao freudismo no
(orgs.), A histria da psicanlise atravs de seus pio-       solo americano. Durante toda a vida, manteve
neiros (N. York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981 
Sigmund Freud e Edoardo Weiss, Lettres sur la prati-          uma certa distncia em relao a Sigmund
que psychanalytique (N. York, 1970), Toulouse, Privat,        Freud* (que ele chamava "o papa de Viena") e
1975  Anna Maria Accerboni, "Psicanlise e fascismo.         fez uma curta anlise com Otto Rank*.
Duas abordagens incompatveis. O difcil papel de
Edoardo Weiss", Revista Internacional da Histria da
Psicanlise, 1 (1988), Rio de Janeiro, Imago, 1990,            L'Introduction de la psychanalyse aux tats-Unis.
199-216  Paul-Laurent Assoun, "Freud et la politique",       Autour de James Jackson Putnam (Londres, 1968),
Pouvoirs, 11, 1981, 155-81  Contardo Calligaris, "Pe-        Nathan G. Hale (org.), 1978, Paris, Gallimard, 17-86 
tite histoire de la psychanalyse en Italie", Critique, 333,   Nathan G. Hale, Freud and the Americans. The Begin-
fevereiro de 1975, 175-95  Marco Conci, "Psychoana-          nings of Psychoanalysis in the United States, 1876-
lysis in Italy: a reappraisal", Int. forum. Psychoanal., 3,   1917, t.I (1971), N. York, Oxford University Press, 1995
1994, 117-26  Michel David, La psicoanalisi nella             E. James Lieberman, La Volont en acte. La Vie et
cultura italiana (1966), Turim, Bollati Boringhieri, 1990;    l'oeuvre d'Otto Rank (N. York, 1985), Paris, PUF, 1991.
                                                                   Winnicott, Donald Woods        783

Winnicott, Donald Woods                              Mundial, foi designado como cirurgio es-
(1896-1971)                                          tagirio a bordo de um contratorpedeiro.
mdico e psicanalista ingls                             Em 1923, orientou-se para a pediatria e para
                                                     a psicanlise*. Nessa data, foi nomeado mdi-
    Dotado de um excepcional gnio clnico,
                                                     co-assistente no Padington Green Children's
esse grande pediatra, considerado por seus co-
                                                     Hospital, lugar que ocuparia durante 40 anos,
legas como um esprito independente, e muitas
                                                     tratando de mais de 60 mil casos. No mesmo
vezes comparado na Frana* a Franoise Dol-
                                                     ano, comeou, com James Strachey*, um trata-
to*, foi o fundador da psicanlise de crianas*
                                                     mento que se prolongou durante dez anos. Ca-
na Gr-Bretanha, antes da chegada a Londres
de Melanie Klein*. Posio paradoxal, pois em        sou-se com Alice Taylor, uma jovem artista que
geral eram as mulheres que ocupavam esse             obteve uma modesta reputao de ceramista. As
lugar na histria do freudismo*. Por sua obra e      cartas trocadas entre James e Alix Strachey*,
suas posies no seio do Grupo dos Indepen-          em 1924 e 1925, mostram claramente que
dentes*, diante dos kleinianos, por um lado, e       "Winnie" sofria de problemas sexuais, a ponto
dos annafreudianos, por outro, deixou uma he-        de no conseguir consumar seu casamento. O
rana conceitual fundamental, embora nunca           lugar de Alice Taylor na complicada vida de
tivesse fundado escola ou corrente.                  Winnicott foi apagado pela histria oficial, mas
    Donald Woods Winnicott nasceu em Ply-            sabe-se que a jovem foi internada vrias vezes
mouth, a 7 de abril de 1896, em um meio              em hospitais psiquitricos.
no-conformista da costa oeste da Inglaterra.            Em 1951, dois anos depois de seu divrcio,
Era o terceiro filho, o nico menino, de Sir         Winnicott casou-se com Clare Britton, uma
Frederick Winnicott, rico comerciante enobre-        assistente social que ele encontrara durante a
cido que ocupou por duas vezes as funes de         Segunda Guerra Mundial, tratando da instala-
prefeito de sua cidade. Criana bem tratada,         o, no campo, de crianas evacuadas das cida-
cercado dos cinco jovens primos que moravam          des. Ela prpria se tornaria psicanalista, com o
na casa vizinha  sua e foram seus melhores          nome de Clare Winnicott, continuando ao mes-
companheiros, cresceu num universo marcado           mo tempo uma brilhante carreira de professora
pela presena das mulheres. A me, a av, uma        na London School of Economics e no Minis-
bab, uma governanta e as duas irms tiveram         trio dos Negcios Estrangeiros. Winnicott no
um papel maior na sua educao, enquanto o           teve filhos.
lugar do pai permanecia vago. Absorvido por              No momento em que Winnicott comeou
seus negcios e suas diversas funes adminis-       sua formao psicanaltica, a British Psychoa-
trativas, Sir Frederick no tinha tempo para os      nalytical Society (BPS), fundada por Ernest
filhos: "Meu pai, contou Winnicott, tinha uma        Jones* em 1913, estava em crise. Violentos
f religiosa simples. Um dia, quando lhe fiz uma     conflitos opunham os partidrios de Anna
pergunta que poderia nos levar a uma discusso       Freud* aos de Melanie Klein a propsito da
sem fim, ele se limitou a dizer: `Leia a Bblia      psicanlise de crianas*. Em 1926, a pedido de
que voc encontrar a resposta certa.' Foi assim     Jones, Melanie se instalou em Londres. Contra
que ele deixou -- graas a Deus -- que eu me         Anna Freud, que continuava apegada a uma
virasse sozinho."                                    concepo pedaggica do tratamento de crian-
    Aos 13 anos de idade, o jovem Donald foi         as, ela desenvolveu um ensino centrado na
enviado a Cambridge para ser aluno interno da        tcnica dos jogos e na observao das psicoses*
Leys School. Em suas lembranas, ele evocou a        infantis. Por volta de 1930, o conflito terico
saudade que sentiu de sua cidade natal depois da     resultou em conflito institucional. Melanie
separao, mas tambm a despreocupao que lhe       Klein se tornou tirnica e sua prtica foi denun-
permitiu adaptar-se  sua nova vida. Logo se         ciada por sua prpria filha, Melitta Schmide-
apaixonou pela biologia darwiniana e decidiu,        berg*, analisada por Edward Glover*.
depois que fraturou a clavcula, estudar medicina.       No centro dessa terrvel confuso familiar,
Entrou para o Jesus College de Cambridge para        Winnicott afirmou sua independncia. Embora
formar-se em biologia. Durante a Primeira Guerra     admirasse Melanie Klein, com quem, a conselho
784     Winnicott, Donald Woods

de Strachey, fez uma superviso entre 1935 e        mentira, que so maneiras de reencontrar, por
1941, recusou-se a ceder s suas exigncias.        compensao, uma "me suficientemente boa".
Assim, quando ela quis obrig-lo a analisar seu         Todos os grandes conceitos winnicottianos
filho Erich, a fim de supervisionar o tratamento,   construdos a partir de 1945 fazem parte de um
ele o fez mas no aceitou nenhum tipo de super-     sistema de pensamento fundado na noo de rela-
viso*. Todavia, foi no grupo kleiniano que ele     o: a me devotada comum (ordinary devoted
continuou sua formao, fazendo outra anlise       mother), a me suficientemente boa (good enough
com Joan Riviere* entre 1933 e 1938. Por sua        mother), o jogo da esptula ou do rabisco (spatula
vez, Clare Winnicott seria analisada por Mela-      game, squiggle game) ou ainda o falso e o verda-
nie Klein.                                          deiro self* e o objeto transicional*.
    Durante o perodo das Grandes Controvr-            Pela importncia que atribui  me e  rela-
sias*, escolheu o Grupo dos Independentes, o        o de maternagem, Winnicott se inscreve na
que convinha muito bem  sua posio doutri-        lgica do freudismo no perodo entre as duas
nria, que consistia em tentar elaborar uma         guerras, quando o interesse pelo pai, pelo pa-
concepo pessoal e original da relao de ob-      triarcado* e pelo dipo* clssico foi abandona-
jeto*, do self (si) e do brincar.                   do, em benefcio de uma redefinio do materno
    Em sua obra Da pediatria  psicanlise,         e do feminino. Nessa perspectiva, a good en-
publicada em 1958, apresentou o conjunto de         ough mother era realmente uma me ideal: aten-
suas posies sobre o tema. Ao contrrio de         ta a todas as formas de dilogo e de brincar
Melanie Klein, interessava-se menos pelos fe-       criativo, ela devia se mostrar capaz de inspirar
nmenos de estruturao interna da subjetivi-        criana uma frustrao* necessria, a fim de
dade do que pela dependncia do sujeito* em         desenvolver seu desejo* e sua capacidade de
relao ao ambiente. No aceitava a explicao      individuao. Essa relao, que reduz o lugar
freudiana da agressividade em termos de pul-        do pai ao mnimo indispensvel, aparece como
so* de morte e definiu a psicose* como um          exclusiva e no-erotizada.
fracasso da relao materna. Da sua crena em          A partir de 1945, a obra winnicottiana tomou
uma certa normalidade fundada nos valores de        importncia no mundo anglfono, na medida
um humanismo criador. Segundo ele, era o            em que as mulheres foram estimuladas a voltar
"bom funcionamento" do lao com a me que           ao lar, depois do esforo de guerra e da volta dos
permitia  criana organizar o seu eu* de ma-       homens  vida civil. Quanto ao prprio Winni-
neira sadia e estvel. Vemos aqui que Winnicott     cott, tornou-se uma figura popular em seu pas,
era menos marcado pela tradio da psiquiatria      depois de fazer, entre 1939 e 1962, cerca de 50
do que pela da pediatria. Como Franoise Dolto      conferncias radiofnicas na BBC, quase todas
posteriormente, foi a medicina educativa, mais      dirigidas aos pais. O famoso doutor Benjamin
do que o fascnio pela loucura, que marcou o        Spock, renovador americano da ideologia
seu itinerrio.                                     familiarista, se diria adepto de suas teorias e
    Depois, foi o trabalho durante a guerra com     faria o prefcio de uma de suas obras pstumas.
crianas refugiadas e conseqentemente priva-           Winnicott tinha verdadeira paixo pela in-
das presena materna que levou Winnicott a          fncia, como mostra o relatrio do tratamento
desenvolver um conjunto de novas noes. Em         da "pequena Piggle", publicado depois de sua
sua opinio, a dependncia psquica e biolgica     morte. Esta tinha dois anos quando foi paciente
da criana em relao  me tem uma importn-       de Winnicott. Ele a viu durante trs anos, a
cia considervel. Da o clebre aforismo de         pedido, e fez com ela 16 sesses memorveis.
1964: "O beb no existe." Winnicott queria         Gostava de brincar com as crianas, com suas
dizer com isso que o lactente nunca existe por      palavras, com seus brinquedos de pelcia. Mas
si s, mas sempre e essencialmente como parte       no mostrava nenhuma complacncia para com
integrante de uma relao. Se a me estiver         a infncia. Comparava o beb a um "fardo
incapaz, ausente ou, pelo contrrio, demasiada-     carregado pelos pais", e quando abrigou em sua
mente intrusiva, a criana se arrisca  depresso   casa um menino de 9 anos que fugira de casa,
ou a condutas anti-sociais, como o roubo ou a       escreveu estas palavras: "Trs meses de inferno
                                                                     Winnicott, Donald Woods            785

[...]. O que importa, penso eu,  a maneira pela     servao das aparncias, salvaguarda de uma
qual a evoluo da personalidade do menino           posio "transicional", distanciamento crtico,
gerou o dio em mim e o que eu fiz com isso."        ceticismo apaixonado: essas foram as escolhas
     Sua tcnica psicanaltica* sempre esteve em     de Winnicott, que preferiu criticar a instituio
contradio com os padres da International          psicanaltica a partir de seu interior a separar-se
Psychoanalytical Association* (IPA). Winni-          dela. Diante de Ernest Jones, e muitas vezes
cott no respeitava nem a neutralidade nem a         contra ele, foi a prpria encarnao da situao
durao das sesses, e no hesitava, na li-          inglesa da psicanlise. Sua posio, nesse pon-
nhagem da herana ferencziana, em manter re-         to, est apenas em aparente oposio com a de
laes de amizade calorosa com seus pacientes,       Jacques Lacan*, que, por sua vez, no cessaria
reencontrando sempre a criana neles e em si         de colocar em ato, s vezes sem querer, uma
mesmo. Via na transferncia* uma rplica do          prtica de ruptura, de ciso* e de reformulao,
lao materno. Assim, oferecia a seus analisan-       como se a arte da revoluo permanente fosse,
dos um "ambiente" especial. s vezes, tomava-        na situao francesa, o nico caminho possvel.
os nos braos e prolongava a sesso durante trs         Ao contrrio da maioria dos psicanalistas
horas. Dedicou a sua ltima obra, O brincar e        ingleses, e como Masud Khan*, que foi seu
realidade, aos seus pacientes que "pagaram           aluno e amigo, Winnicott no ignorou a doutri-
para me ensinar". Esse no-conformismo, essa         na lacaniana. Teve com Lacan uma relao
ausncia de ortodoxia nunca lhe foram real-          epistolar assdua e inspirou-se na noo de es-
mente reprovados por seus colegas da BPS.            tdio do espelho* para escrever o seu artigo de
     Em suas Cartas vivas, publicadas depois de      1967 sobre "O papel de espelho da me e da
sua morte, descobre-se at que ponto ele soube       famlia no desenvolvimento da criana". Mas,
descrever a esclerose que atingia a BPS,  qual      no momento das cises do movimento francs,
pertencia. Ao longo de uma rica correspon-           permaneceu prudente, defendendo at por
dncia, Winnicott se mostrou capaz de comen-         vezes posies "ortodoxas", sobretudo a res-
tar os costumes e hbitos de seu pas e os           peito da prtica de Franoise Dolto, a quem
acontecimentos cotidianos da instituio freu-       acusou, em 1953, de uma atitude exces-
diana de que era membro, e que se encontrava         sivamente "carismtica", com o risco de favo-
submetida  tirania de duas mulheres: Anna           recer uma idolatria por parte dos alunos. In-
Freud e Melanie Klein. Impiedoso, ele descre-        dependente sem ser solitrio, no gostava de
veu com ferocidade os defeitos to caracters-       seitas, de discpulos, de imitadores. Foi por isso
ticos dos grupos psicanalticos (jargo, idolatria   que, mostrando-se ao mesmo tempo transgres-
etc.). Assim, em uma carta que se tornou cle-       sor em sua prtica e rigoroso em sua doutrina,
bre, datada de 3 de junho de 1954, denunciou a       no hesitou em apoiar os rebeldes e os dis-
                                                     sidentes -- principalmente Ronald Laing*, um
hipocrisia das duas "chefes" da escola inglesa:
                                                     dos artfices da antipsiquiatria*.
"Considero, escreveu ele, que  de importncia
vital para a Sociedade [a BPS], que ambas                Sofrendo de problemas cardacos desde
destruam seus grupos em seu aspecto oficial          1948, Winnicott morreu subitamente em 1971.
[...]. No tenho razes para pensar que viverei      Na Frana, a revista L'Arc e a Nouvelle Revue
mais tempo que as sras., mas ter que lidar com       de Psychanalyse lhe prestaram uma vibrante
agrupamentos rgidos, que com a sua morte se         homenagem: "Talvez no haja nenhum suces-
tornariam automaticamente instituies de Es-        sor, escreveu J.-B. Pontalis, ningum para se
                                                     dizer seu seguidor. E  melhor assim. Com
tado,  uma perspectiva que me apavora."
                                                     mestres, a psicanlise pode sobreviver durante
     A partir de sua experincia teraputica, Win-
                                                     algum tempo. Sem juzes nem mestres, ela tem
nicott transmitiu um ideal de "no-ruptura" que
                                                     a possibilidade de viver indefinidamente."
repercutiu em suas posies institucionais. Em
sua tica, nenhuma instituio era melhor ou
                                                      Donald Woods Winnicott, Clinical Notes on Disorders
pior do que outra, pois todas dependiam do           of Childhood, Londres, Heineman, 1931; L'Enfant et sa
fingimento e s a instaurao de um justo meio       famille. Les Premires relations (Londres, 1957), Paris,
podia favorecer a expresso do verdadeiro. Pre-      Payot, 1971; L'Enfant et le monde extrieur. Le Dve-
786      Winternitz, Pauline

loppement des relations (Londres, 1957), Paris, Payot,     cional da Histria da Psicanlise, 2 (1989), Rio de
1972; Da pediatria  psicanlise (Londres, 1958), Rio      Janeiro, Imago, 1992.
de Janeiro, Francisco Alves, 1988; O ambiente e os
processos de maturao (Londres, 1965), P. Alegre,          FREUD, JACOB; GRAF, ROSA; NAZISMO.
Artes Mdicas, 1983; O brincar e a realidade (Londres,
1971), Rio de Janeiro, Imago, 1979; Consultas tera-
puticas em psiquiatria infantil (Londres, 1971), Rio de
Janeiro, Imago, 1979; Fragment d'une analyse (Lon-         Winterstein, Alfred Freiherr, baro
dres, 1975), Paris, Payot, 1975; The Piggle. Relato do     von (1885-1958)
tratamento psicanaltico de uma menina (Londres,           psicanalista austraco
1977), Rio de Janeiro, Imago, 1979; Privao de delin-
                                                               Nascido em Viena*, Alfred von Winterstein
qncia (Londres, 1984), S. Paulo, Martins Fontes,
1995; Os bebs e suas mes (Londres, 1987), S.             era de uma antiga famlia da nobreza catlica.
Paulo, Martins Fontes, 1988; Lettres vives (Londres,       Estudou direito e filosofia e participou, a partir
1987), Paris, Gallimard, 1989; Conversando com os          de 1910, das reunies da Wiener Psychoanaly-
pais (Londres, 1993), S. Paulo, Martins Fontes, 1993      tische Vereinigung (WPV). No ano seguinte,
Madeleine Davis e David Wallbridge, Limite e espao.
Uma introduo  obra de Winnicott (N. York, 1981),        formou-se em medicina e psicologia em Leip-
Rio de Janeiro, Imago, 1982  Perry Meisel e Walter        zig, e posteriormente em Zurique, na clnica do
Kendrick, Bloomsbury/Freud, James et Alix Strachey,        Hospital Burghlzli, onde comeou uma an-
Correspondance, 1924-1925 (Londres, 1985), Paris,          lise com Carl Gustav Jung*. Voltando a Viena,
PUF, 1990  Nouvelle Revue de Psychanalyse, 4,
outono de 1971  L'Arc, 69, 1977.
                                                           foi mobilizado pelo exrcito imperial e, depois
                                                           da Primeira Guerra Mundial, continuou sua for-
 BORDERLINE; DIFERENA SEXUAL; ESTADOS                     mao didtica com Eduard Hitschmann*.
UNIDOS; GNERO; KOHUT, HEINZ; SELF PSYCHO-                     Em 1938, como Richard Sterba* e o conde
LOGY.                                                      Wilhelm Solms-Rdelheim, recusou a poltica
                                                           de "salvamento" da psicanlise* promovida na
                                                           Alemanha* por Ernest Jones*. Durante toda a
Winternitz, Pauline, dita Paula, ne                       guerra, permaneceu em Viena. Reduziu sua
Freud (1864-1942), irm de                                 clientela, mas foi molestado e vigiado pela Ges-
Sigmund Freud                                              tapo, que confiscou seus livros de psicanlise*.
    Nascida em Viena*, Paula era a stima entre                Com a Libertao, juntamente com August
os filhos de Jacob e Amalia Freud* e a quinta irm         Aichhorn*, reconstituiu a Wiener Psychoanaly-
de Sigmund Freud*. Casada com Valentin Win-                tische Vereinigung (WPV), da qual foi presi-
ternitz, com quem teve uma filha, Rose Beatrice,           dente at a morte.
apelidada Rosi, ficou viva muito cedo. Esquizo-
frnica desde a infncia, Rose se casaria, entretan-        Wolfgang J.A. Huber, "L'Histoire de la psychanalyse
                                                           en Autriche depuis l'exil de Sigmund Freud", Austriaca,
to, com um jovem poeta, Ernst Waldinger, com
                                                           21, novembro de 1985, 95-100  Elke Mhlleitner,
quem teria uma filha. Emigrou para Nova York e             Biographisches Lexikon der Psychoanalyse. Die Mit-
foi analisada por Paul Federn*.                            glieder der Psychologischen Mittwoch-Gesellschaft
    Em 29 de junho de 1942, Paula Winternitz               und der Wiener Psychoanalytischen Vereinigung von
foi deportada com suas irms Adolfine Freud*,              1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992.
chamada Dolfi, e Marie Freud*, chamada Mit-                 GRING, MATTHIAS HEINRICH; NAZISMO.
zi, para o campo de concentrao de Theresien-
stadt. Dali, foi transferida em 23 de setembro
para o campo de extermnio de Maly Trostinec,              Wittels, Fritz (1880-1950)
onde desapareceu, certamente morta na cmara               mdico e psicanalista americano
de gs, ao mesmo tempo que Mitzi.
                                                              Como seu tio Isidor Sadger*, esse mdico
 Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud,          vienense, oriundo de um meio de financistas
vols.1 e 3 (N. York, 1953 e 1957).  Peter Gay, Freud:     judeus, adotou as teorias freudianas com um
uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo,     fanatismo que exasperava o prprio Sigmund
Companhia das Letras, 1995  lisabeth Young-Bruehl,
Anna Freud: uma biografia (N. York, 1988), Rio de
                                                           Freud*. Em 1906, aderiu  Sociedade Psicol-
Janeiro, Imago, 1992  Harald Leupold-Lwenthal, "A        gica das Quartas-Feiras* e distinguiu-se pelas
emigrao da famlia Freud em 1938", Revista Interna-      vrias exposies nas quais "aplicava" os prin-
                                                                                     Wittels, Fritz      787

cpios da psicanlise* de qualquer maneira,            autor. Wittels fazia uma crtica feroz, e s vezes
vendo por toda a parte "causas sexuais".               exata, do funcionamento do crculo freudiano.
    Profundamente misgino, publicou em                Denunciava a tirania de seu fundador e o rid-
1907, na revista de Karl Kraus* Die Fackel, um         culo de seus epgonos, dos quais ele mesmo
artigo sob pseudnimo, no qual declarava que           fazia parte, alis, a partir de sua participao na
as mulheres que queriam se tornar mdicas, isto        Sociedade das Quartas-Feiras: "Freud, escre-
, exercer uma profisso, se desviavam de sua          veu ele, tornou-se um imperador, sobre o qual
verdadeira natureza. Em sua opinio, elas eram         j se forma uma lenda. Ele reina, reconhecido e
neurticas, histricas e at prostitutas, inca-        absoluto, sobre seu reino [...]. Tornou-se um
pazes, de qualquer forma, de assumir seu papel         tirano que no admite nenhum desvio em rela-
de mes. Wittels era obcecado pelo movimento           o ao que ensina, mantm as suas reunies
feminista e fascinado com as representaes da         secretas e quer conseguir, por uma espcie de
feminilidade provenientes das teorias de Otto          sano pragmtica, que as doutrinas da psica-
Weininger* sobre a inferioridade do sexo femi-         nlise continuem como um todo indivisvel."
nino e a bissexualidade*. No perdia uma oca-              Freud ficou muito irritado com esse livro,
sio de atacar aquelas que, como ele pensava,          que continha muitos erros e enviou ao autor
"queriam tornar-se homens". Freud o criticou           uma lista de retificaes. Era um modo de pro-
muitas vezes, mas aceitou algumas de suas teses        var que, em quaisquer circunstncias, ele se
e lhe pediu principalmente que se mostrasse            preocupava com a exatido dos fatos. A respeito
corts com as mulheres e prudente sobre o              da gnese do conceito de pulso* de morte, que
futuro da condio feminina.                           Wittels atribua ao desaparecimento de Sophie
    Adepto da patografia, Wittels tomou como           Halberstadt*, ele escreveu: "Certamente, em
objeto de estudo o prprio personagem que              um estudo analtico sobre outrem, eu teria
acolhera seu artigo na revista Die Fackel: Karl        defendido a correlao entre a morte de minha
Kraus. Dedicou-se a interpretaes* caricatu-          filha e a trajetria do pensamento em Mais-
rais sobre esse "caso". A 12 de janeiro de 1910,       alm. E no entanto, isso no  exato. Mais-alm
durante uma conferncia na Sociedade das               foi escrito em 1919, quando minha filha tinha
Quartas-Feiras, explicou que o famoso jornal           excelente sade. Ela morreu em janeiro de
vienense Neue Freie Press era o "rgo do pai",        1920. Foi em setembro de 1919 que confiei o
isto  o pnis paterno da comunidade judaica           manuscrito do pequeno livro a vrios amigos de
vienense. Da seu sucesso. A esse grande pnis         Berlim, para que o lessem. S faltava a parte
opunha-se, segundo ele, o "pequeno pnis" im-          sobre a mortalidade ou imortalidade dos proto-
                                                       zorios. Nem sempre o verossmil  verdade."
potente de Karl Kraus, representado pela revista
Die Fackel, que s servia para rivalizar de modo           Em 1925, Wittels foi reintegrado  WPV, com
neurtico com o "grande rgo" do pai.                 o apoio de Freud. Mas suas relaes com o grupo
                                                       vienense estavam terrivelmente deterioradas e,
    No mesmo ano, publicou um romance que
                                                       em 1928, ele emigrou para os Estados Unidos*,
tratava disfaradamente de Karl Kraus. A obra
                                                       onde continuou sua carreira na New York Psy-
causou escndalo e o escritor se aproveitou disso
                                                       choanalytic Society (NYPS). Antes de morrer,
para denunciar mais uma vez os perigos da psica-
                                                       dedicou um livro s mulheres americanas.
nlise. Com seu talento habitual, redigiu esta frase
terrvel, que se tornaria clebre em Viena: "A          Fritz Wittels, Ezechiel der Zugereiste, Berlim, 1910;
psicanlise  a doena do esprito que se considera    Freud, l'homme, la doctrine, l'cole (Viena, Leipzig,
a si mesma como o seu remdio." Descontente            Zurique, 1924), Paris, Alcan, 1929; Six Habits of the
                                                       American Women, N. York, 1951  Sigmund Freud,
com esse caso, Freud se indisps com Wittels, que      "Carta a Fritz Wittels", ESB, XIX, 359-61; GW,
se demitiu imediatamente da Wiener Psychoana-          Nachtragsband, 754-8; SE, XIX, 286-8; OC, XVI, 357-
lytische Vereinigung (WPV).                            63; Les Premiers psychanalystes. Minutes de la Soci-
    Em 1924, publicou a primeira biografia do          t Psychanalytique de Vienne, 1906-1918, 4 vols.
                                                       (1962-1975), Paris, Gallimard, 1976-1983  Elke Mhl-
mestre, que continuava a venerar de maneira            leitner, Biographisches Lexikon der Psychoanalyse.
ambivalente. Essa obra foi traduzida em vrias         Die Mitglieder der Psychologischen Mittwoch-Gesell-
lnguas e garantiu uma slida notoriedade a seu        schaft und der Wiener Psychoanalytischen Vereinig-
788       Witz

ung von 1902-1938, Tbingen, Diskord, 1992  Alain de       nunca o foi!) ou por ligar-se a uma seita, a uma
Mijolla, "Freud, la biographie, son autobiographie et ses
                                                            escola, mas seguiu seu prprio caminho livre-
biographes", Revue Internationale d'Histoire de la Psy-
chanalyse, 6, PUF, 1993, 81-108.                            mente, estudando os trabalhos dos outros, mas
                                                            conservando sempre sua independncia."
 ESTUDO AUTOBIOGRFICO, UM; HISTORIOGRA-                        Levando em considerao esse conselho e
FIA; JUDEIDADE; MAIS-ALM DO PRINCPIO DE PRA-              revoltado contra toda forma de submisso trans-
ZER; VIENA.                                                 ferencial, Wortis se analisou com Freud durante
                                                            quatro meses. A experincia se traduziu em um
                                                            corpo-a-corpo intelectual, durante o qual Freud
Witz                                                        se mostrou ora feroz com seus adversrios ou
 CHISTES E SUA RELAO COM O INCONSCIENTE,                  ex-discpulos (como Wilhelm Stekel*, por
OS.                                                         exemplo), ora exasperado com as resistncias
                                                            do jovem, com seu engajamento comunista,
                                                            com seu fanatismo, e tambm com o papel
Wo Es war                                                   insidioso que desempenhava, nesse caso, seu
 NOVAS CONFERNCIAS INTRODUTRIAS SOBRE                     velho cmplice Havelock Ellis. O tratamento
PSICANLISE.
                                                            resultou na deciso, tomada por Wortis, de se
                                                            desviar da psicanlise*. A partir de 1935, intro-
                                                            duziu nos Estados Unidos* o mtodo do "cho-
Wortis, Joseph (1906-1995)
                                                            que hipoglicmico", ou insulinoterapia, no tra-
psiquiatra americano
                                                            tamento da esquizofrenia*, mtodo que o m-
    Nascido em Nova York no bairro de Broo-                 dico austraco Manfred Sakel (1900-1957) aca-
klyn, Joseph Wortis era de um meio de intelec-              bava de elaborar e que seria utilizado durante
tuais judeus socialistas. Seu pai era um imi-               vinte anos, antes do aparecimento dos neurolp-
grante russo e sua me era de origem francesa.              ticos.
Muito cedo, engajou-se na esquerda e foi mem-                   Sempre engajado na extrema esquerda,
bro, durante algum tempo, do Partido Comunis-               Wortis colaborou com os republicanos durante
ta Americano. Em 1927, fez sua primeira via-                a guerra da Espanha* e, em seu pas, aderiu 
gem  Europa e visitou Havelock Ellis*, que                 Benjamin Rush Society, uma associao de psi-
teria um papel considervel em sua vida. Em                 quiatras marxistas criada em 1944. Assim, par-
1932, fascinado com a personalidade de Sig-                 ticipou da campanha antifreudiana organizada
mund Freud*, enviou-lhe uma carta para dizer                pelo conjunto dos partidos do movimento
que desejava muito encontr-lo, acrescentando               comunista internacional e denunciou a psican-
todavia que no queria abusar de seu tempo.                 lise como "cincia burguesa".
Com bom humor, o velho mestre respondeu:                        Em 1950, depois de uma viagem  Rssia*,
"Agradeo suas palavras amistosas e a boa von-              publicou o primeiro estudo srio e documenta-
tade que mostra em renunciar  sua visita."                 do sobre a psiquiatria dita "sovitica". Quatro
    Um ano depois, quando fazia um estgio                  anos depois, redigiu o relato de sua anlise com
como residente no Bellevue Psychiatric Hos-                 Freud, e a obra teve grande sucesso.
pital sob a direo de Paul Schilder*, recebeu                  Pouco antes de sua morte, em uma entrevista
uma carta de Ellis, que lhe oferecia uma bolsa              com Todd Dufresne, manifestou mais uma vez
de estudos para fazer uma pesquisa sobre a                  um antifreudismo fantico, o que mostrava que
homossexualidade*. O projeto foi apoiado por                o mestre de Viena fora uma figura obsessiva em
Adolf Meyer* e Wortis decidiu ir a Viena*. Ellis            sua longa existncia.
lhe desaconselhara a fazer anlise, recomen-
dando-lhe, caso decidisse o contrrio, que fizes-            Joseph Wortis, La Psychiatrie sovitique (Baltimore,
se essa experincia com o prprio Freud:                    1950), Paris, PUF, 1953; Psychanalyse  Vienne, 1934.
"Quanto a ser analisado, meu sentimento pes-                Notes sur mon analyse avec Freud (N. York, 1954),
                                                            Paris, Denol, 1974; "Entretien avec Todd Dufresne",
soal, decididamente,  que seria melhor seguir              indito  Benjamin Harris, "The Benjamin Rush Society
o seu exemplo [de Freud] do que seus preceitos.             and marxist psychiatry in the United States 1944-1951",
Ele no comeou por fazer-se psicanalisar (e                History of Psychiatry, VI, 1995, 309-31.
                                                                                  Wulff, Moshe         789

 COMUNISMO; FREUDO-MARXISMO; KARDINER,              a criao, em Moscou, de uma Associao Psi-
ABRAM.                                              canaltica Russa, reunindo todos os grupos
                                                    (Moscou, Kazan, Kiev, Rostov).
                                                        Em 1927, quando a radicalizao do regime
Wulff, Moshe (1878-1971)                            comunista levou  extino do movimento psica-
psiquiatra e psicanalista israelense
                                                    naltico, Moshe Wulff foi obrigado a emigrar,
    Nascido em Odessa, Moshe Wulff (ou              abandonando seus bens. Foi para Berlim, onde
Woolf) foi o primeiro mdico a praticar a psi-      ficou at 1933, quando o advento do nazismo* o
canlise* na Rssia*. Estudou psiquiatria em        obrigou a um novo exlio. Foi ento que decidiu
Berlim, sendo assistente, no Hospital da Cari-      instalar-se na Palestina, onde criou, em Jerusalm,
dade, de Theodor Ziehen (1862-1950), inventor
                                                    em 1934, com Max Eitingon*, tambm exilado,
da noo de complexo*. Orientou-se ento para
                                                    a primeira sociedade psicanaltica do futuro Es-
a psicanlise depois de se encantar com a leitura
                                                    tado de Israel. Ela se tornaria a Hachevra Hapsy-
dos Estudos sobre a histeria*, e entrou em
                                                    choanalytit Be-Israel (HHBI). Depois da morte de
contato com Otto Juliusburger* e com Karl
Abraham*, que foi seu iniciador mais do que         Eitingon, Wulff foi seu presidente e formou a
seu analista. Posteriormente, praticou a auto-      primeira gerao* psicanaltica israelense. Res-
anlise*. Entre 1911 e 1921, participou regular-    ponsvel pela traduo das obras de Freud para o
mente, em Viena*, dos trabalhos da Wiener           hebraico, professor na Universidade de Tel-Aviv
Psychoanalytische Vereinigung (WPV), da             e clnico especializado em fobia* e fetichismo*,
qual era membro, e em 1909 criou, com Nicolas       teve o destino tpico dos pioneiros judeus do
Vyrubov (1869-?) a revista Psychotherapia.          freudismo europeu, que se defrontaram, atravs
    Voltando  Rssia em 1911, comeou a in-        de emigraes sucessivas, com os grandes acon-
troduzir os princpios da psicanlise nos meios     tecimentos da histria do sculo: sionismo, comu-
psiquitricos, em Odessa e depois em Moscou.        nismo* e nazismo.
Paralelamente, comeou a traduo das obras
de Freud para o russo.                               Moshe Woolf, "Fetichism and object choice in early
                                                    childhood", Psychoanalytic Quarterly, 15, 1941, 450-
    Favorvel  Revoluo de Outubro, permane-      71; "Prohibitions against the simultaneous consump-
ceu em seu pas para continuar a desenvolver suas   tion of milk and flesh in Orthodox Jewish law", IJP, 26,
atividades, principalmente abrindo em Moscou,       1945, 169-77  Ruth Jaffe, "Moshe Woolf, 1878, Pio-
numa grande clnica psiquitrica, um departa-       neiro na Rssia e em Israel", in Franz Alexander,
mente especializado no tratamento de doentes        Samuel Eisenstein e Martin Grotjahn (orgs.), A histria
                                                    da psicanlise atravs de seus pioneiros (N. York,
pela psicanlise. Nomeado professor na universi-
                                                    1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981  Ruth Jaffe,
dade, fundou em 1921, com Otto Schmidt (1891-       "Moshe Woolf (1878-1971), Obituary", IJP, 1972, 330
1956) e Ivan Dimitrievitch Emarkov*, a As-           Alberto Angelini, La psicoanalisi in Russia, Npoles,
sociao Psicanaltica de Pesquisas sobre a Cria-   Liguori Editore, 1988  Elke Mhlleitner, Biogra-
o Artstica, que foi a primeira sociedade freu-   phisches Lexikon der Psychoanalyse. Die Mitglieder
diana russa. Tinha oito membros, dos quais trs     der Psychologischen Mittwoch-Gesellschaft und der
                                                    Wiener Psychoanalytischen Vereinigung von 1902-
eram mdicos psiquiatras.                           1938, Tbingen, Diskord, 1992  Megan Marshack, "Dr.
    No ano seguinte, Wulff participou da criao    Moshe Wulff and the Wolf Man", The American
da Sociedade Psicanaltica da Rssia, com sete      Psychoanalyst, vol.24, 1, 1990  Hans Lobner e Vladi-
membros suplementares, entre os quais Vera          mir Levitin, "Notes on the history of psychoanalysis in
Schmidt*, o psiclogo Pavel Petrovitch Blon-        the USSR", Sigmund Freud House Bulletin, vol.II, 1,
                                                    1978, 5-29  Sigmund Freud, Chronique la plus brve.
ski (1884-1941) e o psiquiatra Yuri Kannabikh.      Carnets intimes 1929-1939, anotado e apresentado
Posteriormente, o psiclogo Stanislas Theophi-      por Michael Molnar (Londres, 1992), Paris, Albin Mi-
lovitch Chatski (1878-1948) se juntou ao grupo.     chel, 1992.
Logo surgiram conflitos entre a Sociedade rus-
sa, instaurada em Moscou, e a de Kazan, fun-         COMUNISMO; OSSIPOV, NIKOLAI IEVGRAFO-
dada por Aleksandr Romanovitch Luria*. Fi-          VITCH; ROSENTHAL, TATIANA; SPIELREIN, SABINA;
nalmente, chegou-se a um acordo que permitiu        ZALKIND, ARON BORISSOVITCH.
                                                     Z
Zalkind, Aron Borissovitch                                      Erziehung der Jungpioniere", Das proletarische Kind,
                                                                12, 1/2, 1932  Wilhelm Reich, A revoluo sexual
(1888-1936)                                                     (Copenhague, 1936, Frankfurt, 1966), Rio de Janeiro,
mdico e psicanalista russo                                     Zahar, 1982  Alberto Angelini, La psicoanalisi in Rus-
                                                                sia, Npoles, Liguori Editore, 1988  Alexandre Etkind,
    Aluno do psiquiatra Vladimir Petrovitch                     Histoire de la psychanalyse en Russie (1993), Paris,
Serbski (1858-1917), reformador dos asilos rus-                 PUF, 1995.
sos, Aron Borissovitch Zalkind nasceu em
Kharkov, e antes da Primeira Guerra Mundial,                     COMUNISMO; ERMAKOV, IVAN DIMITRIEVITCH;
comeou a se interessar pelas teses de Alfred                   FREUDO-MARXISMO; OSSIPOV, NIKOLAI IEVGRA-
Adler*. Orientou-se depois para o freudismo*                    FOVITCH; ROSENTHAL, TATIANA; RSSIA.
e publicou artigos na revista Psychotherapia,
criada por Nicolas Vyrubov (1869-?) e Moshe
Wulff*. Exerceu a psicanlise* em Kiev no co-                   Zentralblatt fr Psychoanalyse.
                                                                Medizinische Monatschrift fr
meo dos anos 1920 e formou um pequeno
                                                                Seelenkunde (Folha Central de
grupo de psicoterapeutas. Depois da Revoluo                   Psicanlise. Revista Mdica
de Outubro, voltou-se para a reflexologia e para                Mensal de Psicologia)
a pedologia*. Posteriormente, no mbito do
                                                                    Criada por Sigmund Freud* em julho de
debate entre os freudo-marxistas e os antifreu-
                                                                1910, a Zentralblatt foi o primeiro rgo oficial
dianos, adotou as teses dos primeiros e se con-
                                                                da International Psychoanalytical Association*
venceu da idia de que a doutrina vienense era
                                                                (IPA), fundada em maro do mesmo ano. Na
compatvel com o marxismo, com a condio
                                                                chefia de sua redao contou com Carl Gustav
de ser amputada da teoria da sexualidade (ex-
                                                                Jung* e Wilhelm Stekel*. Depois que este lti-
cessivamente "bestial") e do conceito de pul-
                                                                mo deixou a Wiener Psychoanalytische Ver-
so* de morte (excessivamente "pessimista").
                                                                einigung (WPV) em 1912, o peridico teve
    Zalkind fez sua autocrtica em 1930, quando
                                                                apenas mais uma edio. Para substitu-lo,
de um congresso sobre o comportamento huma-
                                                                Freud criou em 1913 a Internationale rztlische
no, "confessando" ser "objetivamente" res-
                                                                Zeitschrift fr Psychoanalyse* (IZP), que de-
ponsvel pela difuso do freudismo em seu pas.
                                                                pois faria uma fuso com a revista Imago, dando
Mas isso no lhe serviu de nada: foi qualificado
                                                                origem  Internationale Zeitschrift fr Psycho-
por seus adversrios de "menchevique idealista
                                                                analyse und Imago* (IZP-IMAGO), que deixa-
e ecltico" e perdeu seu posto de diretor do
                                                                ria de ser publicada em 1941. Foi ento que o
Instituto de Psicologia, Pedologia e Psicotcni-
                                                                International Journal of Psycho-analysis*
ca. Em 1932, foi violentamente criticado por
                                                                (IJP), fundado por Ernest Jones* em 1920, tor-
Wilhelm Reich* por um artigo sobre a sexuali-
                                                                nou-se o rgo oficial da IPA.
dade infantil. Morreu de infarto, depois de re-
nunciar a toda atividade institucional.
                                                                Zilboorg, Gregory (1890-1959)
 Aron Borissovitch Zalkind, "Freudisme et marxisme",
                                                                psiquiatra e psicanalista americano
in Rouges Semailles, 4, Moscou, 1924; "Les Sciences
neuropsychologiques et l'dification socialiste", Pedo-            Gregory Zilboorg era de uma famlia judia
logija, 3, 1930, 309-22; "Einige Fragen der sexuellen           ortodoxa da Ucrnia. Estudou medicina em So
                                                          790
                                                                                    Zweig, Arnold         791

Petersburgo e foi marcado pelo ensino de Vla-             Nascido no canto de Berna, Zulliger per-
dimir Bekhterev (1856-1927), criador da pala-         tencia a um meio modesto de operrios relojoei-
vra "reflexologia". Socialista, mostrou-se favo-      ros. Para no depender por muito tempo dos
rvel ao governo de Aleksandr Kerenski (1881-         pais, renunciou a estudar medicina e pensou em
1970), mas violentamente hostil ao bolchevis-         se tornar professor. Na primavera de 1912, foi
mo. Em 1919, emigrou para os Estados Uni-             nomeado professor primrio no burgo de Ittin-
dos* e em 1930 instalou-se como psiquiatra e          gen, onde formou, durante cerca de 50 anos,
psicanalista em Nova York. Em 1941, publicou,         geraes de filhos de camponeses, com ajuda
em colaborao com George W. Henry, a pri-            de sua mulher, tambm professora.
meira grande obra consagrada  histria da                Foi na Escola Normal de Hofwil-Berne, di-
psiquiatria. Forjou a expresso "psiquiatria di-      rigida por Ernst Schneider (1878-1957), peda-
nmica"*, para definir uma rea da psiquiatria,       gogo de vanguarda analisado por Carl Gustav
dinmica ou dialtica, cujo objetivo era secula-      Jung* e Oskar Pfister, que Zulliger ouviu falar
rizar o fenmeno mental, arrancando-o  demo-         pela primeira vez da doutrina freudiana. O in-
nologia, por um lado, e ao organicismo, isto ,       teresse que dedicava a seus pequenos alunos o
 medicina, por outro. Esse termo seria retoma-       levou ento para a psicanlise*. Depois de um
do por Henri F. Ellenberger* com uma pers-            tratamento com Pfister, praticou as "pequenas
pectiva um pouco diferente.                           psicoterapias* de crianas", destinadas a curar
    Zilboorg se distinguiu por um comporta-           sintomas como gagueira, enurese, compulso
mento extravagante com certos pacientes,              ao roubo ou  masturbao.
levando-os a dar-lhe "presentes" e a pagar-lhe            Estimulado por Sigmund Freud*, a quem
somas astronmicas. Assim, foi desconsidera-          visitou duas vezes, Zulliger foi convidado em
do no interior da New York Psychoanalytic             1921 a prosseguir a sua atividade e a reunir-se
Society (NYPS).                                        Sociedade Sua de Psicanlise (SSP), que
                                                      acabava de ser fundada e da qual seria secret-
 Gregory Zilboorg e George W. Henry, History of
Medical Psychology, N. York, Norton, 1941  Susan
                                                      rio. Rorschach iniciou-o no mtodo do Psycho-
Quinn, A Mind of her Own. The Life of Karen Horney,   diagnostik e, na linhagem de Anna Freud*,
N. York, Summit Books, 1987.                          adotou a tcnica do desenho livre e da terapia
                                                      pelo brinquedo, mas divergiu da tcnica da
                                                      anlise de crianas, preferindo permanecer edu-
zona ergena                                          cador a tornar-se psicanalista, no sentido cls-
 LIBIDO; SEXOLOGIA; SEXUALIDADE; TRS EN-             sico. Publicou muitos livros, que foram tradu-
SAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE.                  zidos em vrias lnguas.

                                                       Hans Zulliger, La Psychanalyse  l'cole (Berna,
                                                      1921), Paris, Flammarion, 1930; Les Enfants difficiles
Zulliger, Hans (1893-1965)                            (Berna, 1935), Paris, L'Arche, 1959; Le Test Z in-
psicanalista suo                                    dividuel (Berna, 1948), Paris, PUF, 1959; Chapardeurs
                                                      et jeunes voleurs (Stuttgart, 1956), Paris, Bloud et Gay,
    Como muitos mdicos ou pedagogos suos           1969; L'Angoisse de nos enfants (Frankfurt, 1970),
marcados pela tica protestante e pela tradio       Paris, Salvator, 1975  Adolf Friedemann, "Hans Zulli-
do "tratamento de almas", Hans Zulliger se            ger, 1893, Psicanlise e educao", in Franz Alexan-
interessou pelo freudismo* com a inteno de          der, Samuel Eisenstein e Martin Grotjahn (orgs.), A
                                                      histria da psicanlise atravs de seus pioneiros (N.
reformar os mtodos educativos aplicados s
                                                      York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981.
crianas. Assim, ele se inscreve na linhagem
dos missionrios modernos do psiquismo hu-             PSICANLISE DE CRIANAS;           RAMBERT, MADE-
mano que, de Oskar Pfister* a Adolf Meyer*,           LEINE; SUA.
passando por Hermann Rorschach* at Eugen
Bleuler*, foram os iniciadores de uma renova-
o do tratamento dos desvios, da loucura* ou
simplesmente da normalidade, cujos efeitos se         Zweig, Arnold (1887-1968)
fizeram sentir at os anos 1970.                      escritor alemo
792     Zweig, Arnold

    Como Stefan Zweig* ou Romain Rolland*,          bora fosse inocente. Zweig abordava a grave
Arnold Zweig manteve com Sigmund Freud*,            questo dos "fuzilados para dar exemplo".
entre 1927 e 1939, uma rica correspondncia.            Depois da tomada do poder pelo nacional-
Nela, encontram-se muitas consideraes sobre       socialismo, emigrou para a Palestina. Ficou 14
os acontecimentos polticos, o comunismo*, a        anos em Haifa, fazendo muitas viagens, das
judeidade*, o nazismo*, a literatura. Alm dis-     quais uma a Nova York, ocasio em que encon-
so, ambos evocam livremente questes refe-          trou as grandes figuras da emigrao alem.
rentes ao incesto* e  homossexualidade*, as-       Essa permanncia no lhe trouxe a satisfao
sim como as dificuldades encontradas pelo es-       esperada, e logo sentiu saudades de Berlim e da
critor durante o tratamento psicanaltico que fez   nao alem, com a qual se identificara. Seu
em Berlim, por motivo de graves sintomas de         romance De Vriendt kehrt heim (De Vriendt est
depresso, com um certo doutor K.                   de volta) foi mal acolhido pelos meios intelec-
    Em 1968, no momento da publicao dessa         tuais sionistas, que o julgaram escandaloso.
correspondncia, Ernst Freud* e Adam Zweig,         Zweig relatava o assassinato em Jerusalm, por
filho de Arnold, decidiram suprimir 25 cartas,      um sionista radical, de Jacob Israel De Haan,
julgadas excessivamente confidenciais e pouco       escritor judeu holands, ao mesmo tempo incr-
"cientficas" para constarem dessa seleo. Es-     dulo, ortodoxo e homossexual, que mantinha
sa censura faz pensar na que atingiu duas outras
                                                    uma relao amorosa com um jovem rabe:
correspondncias de Freud: com Wilhelm
                                                    "Para mim, escreveu ele a Freud,  uma velha
Fliess* e com Oskar Pfister*. Como observou
                                                    histria. A figura desse ortodoxo que maldiz
Marthe Robert (1914-1996) no prefcio  edi-
                                                    `Deus em Jerusalm' em poemas secretos [...]
o francesa, tratava-se de uma censura feita por
                                                    essa figura importante e complicada me fasci-
dois filhos para "proteger" a vida dita "privada"
                                                    nou, porque era ainda atual [...]. As tendncias
de dois pais clebres: "Aqui, como sempre, o
objeto do escndalo  evidentemente a anlise       homossexuais desse livro, que estou ditando
-- certamente no a anlise como bem incorpo-       com um desprazer particular, [...] logo me leva-
rado h muito na cultura, mas como experincia      ram a fazer confisses. Eu era os dois persona-
pessoal, com tudo o que ela implica de efetiva-     gens ao mesmo tempo, o rapaz rabe (semita) e
mente indiscreto, e tudo o que ela pe em perigo    o amante, o escritor simultaneamente ortodoxo
quanto s convenincias e preconceitos."            e mpio. Temo que o surgimento dessas coisas
    Nascido em Glogau, na Silsia, Arnold           recalcadas seja a causa principal de minha
Zweig era de uma famlia judia. Seu pai, inicial-   depresso. Fui longe demais, no ?..."
mente seleiro, adquirira uma empresa de trans-          Em 1948, Zweig se instalou em Berlim
portes que levava carvo e forragem para o          Oriental, tornou-se deputado da jovem repbli-
exrcito. Em conseqncia de uma onda de            ca socialista e sucedeu a Heinrich Mann (1871-
anti-semitismo, sua vida ficou desorganizada e      1950) na presidncia da Academia de Artes.
teve que deixar a cidade, para retomar a antiga     Tornou-se ento um escritor oficial, seguidor do
profisso. Essa experincia marcou profunda-        Partido Comunista, e recebeu as mais altas dis-
mente o destino do jovem Arnold. Depois de          tines, entre elas o Prmio Lenin, esforando-
fazer estudos brilhantes, foi mobilizado e parti-   se, como Anna Seghers (1900-1983) e Bertolt
cipou das sangrentas batalhas da Grande Guer-       Brecht (1898-1956), para abrir caminho para
ra, voltando-se posteriormente para o sionismo      uma literatura especificamente alem.
e o pacifismo. A partir de 1925, consagrou-se 
literatura, tomando como modelo Thomas               Arnold Zweig, Le Cas du sergent Grischa (Berlim,
Mann* e os grandes autores realistas do sculo      1927), Paris, Albin Michel, 1930; De Vriendt kehrt heim,
XIX. Adquiriu notoriedade depois da publica-        Berlim, Kiepenheuer Verlag, 1932; L'ducation hro-
                                                    que devant Verdun (Amsterdam, 1935), Paris, Plon,
o, em 1927, do Caso do sargento Grischa,
                                                    1938; Freundschaft mit Freud, Berlim, Aufbau-Verlag,
romance em que narrava a histria de um sol-        1996  Arnold Zweig e Sigmund Freud, Correspon-
dado russo evadido e condenado  morte por          dance, 1927-1939 (Frankfurt, 1968), Paris, Gallimard,
espionagem pelo alto estado-maior alemo, em-       1973.
                                                                              Zweig, Stefan       793

Zweig, Stefan (1881-1942)                           rica Central, a costa leste dos Estados Unidos*
escritor austraco                                  e o Canad*.
                                                        Instalado numa bela casa em Salzburgo, re-
    Nascido em Viena*, em uma famlia da
                                                    cebeu ali praticamente todos os artistas e inte-
burguesia judaica liberal, de pai empresrio na
                                                    lectuais da Europa. Zweig era ento um escritor
indstria txtil, originrio da Morvia, e de me
descendente de judeus alemes, Stefan Zweig         clebre, conhecido por sua generosidade. En-
viveu a infncia e a adolescncia com bem-estar     tretanto, por trs desse sucesso brilhante, a fra-
material e despreocupao. Do pai, herdou a         gilidade psicolgica persistia.
discrio e o sentido das convenincias sociais.        Em 1908, pouco depois de fazer amizade
Da me, a sensibilidade e uma fragilidade psi-      com Arthur Schnitzler*, Zweig comeou a tro-
colgica que muitas vezes o deixaram desarma-       car cartas com Sigmund Freud*.
do diante da depresso quando teve que enfren-          Essa correspondncia e essa relao seriam
tar os trgicos acontecimentos que marcariam        at o fim marcadas pelo entusiasmo e pelo afeto
sua vida adulta.                                    filial, por parte de Zweig, e por uma mistura de
    De seus estudos secundrios no Maximilian       distncia, prudncia e s vezes at irritao, por
Gymnasium, Zweig guardou apenas o tdio e a         parte de Freud. Mas em 1920, quando Zweig se
opresso que depois inspirariam sua crtica aos     tornou clebre, Freud lhe dirigiu uma longa
mtodos de educao autoritrios, repressores       carta. Acabava de receber e ler Trs mestres,
e hipcritas adotados pela burguesia vienense.      obra que reunia trs ensaios biogrficos que
Desde essa poca, apaixonou-se pela msica,         Zweig dedicara a Honor de Balzac (1799-
especialmente a de Johannes Brahms (1833-           1850), Charles Dickens (1812-1870) e Fiodor
1897), pelo teatro e pela literatura. Comeou a     Mikhailovitch Dostoievski (1821-1881). De-
estudar filosofia na universidade, mas freqen-     pois de alguns elogios, Freud assumiu o tom do
tava com mais assiduidade ainda os cafs, as        professor que no est completamente satisfeito
salas de espetculo e outros lugares de encon-      com o trabalho do aluno brilhante: "Se eu pu-
tros intelectuais. Logo manifestou gosto pela       desse, escreveu Freud, avaliar a sua apresenta-
vanguarda, assistiu aos primeiros concertos de      o por critrios mais severos, diria que voc
Arnold Schnberg (1874-1951), tornou-se ad-         esgotou inteiramente Balzac e Dickens. Mas
mirador de Rainer Maria Rilke (1875-1926) e         isso no  to difcil, so tipos simples, planos.
mais ainda de Hugo von Hofmannsthal (1874-          Em contrapartida, com esse russo complicado,
1929), seu modelo. Em 1901, Zweig teve seu          no foi to satisfatrio. Sente-se que h lacunas,
primeiro sucesso com um livro de poemas, A          enigmas que no foram resolvidos. [...] Acho
corda de prata, saudado por toda a crtica de       que voc no deveria deixar Dostoievski com
lngua alem. Logo teria a consagrao, com a       sua pretensa epilepsia.  muito improvvel que
publicao de um dos seus textos na primeira        ele tenha sido epiltico. Os [...] grandes homens
pgina do prestigioso dirio Neue Freie Press,      que foram considerados epilticos eram sim-
com seu nome ao lado dos maiores escritores         plesmente histricos. Acho que voc poderia ter
europeus do momento, dos quais muitos se            construdo todo o Dostoievski sobre sua his-
tornariam seus amigos.                              teria." Oito anos depois, Freud redigiu a sua
    Temendo ficar seduzido por essa celebri-        prpria verso da histria de Dostoievski,
dade precoce, sentindo que Viena era pequena        comparando Os irmos Karamazov  tragdia
demais, Zweig permaneceu durante algum tem-         de dipo*.
po em Berlim, onde se ligou  intelligentsia da         Em 1931, Zweig publicou um ensaio muito
capital alem, descobrindo, ao acaso de seus        audacioso, A cura pelo esprito, no qual contava
encontros com jovens poetas e escritores, o         a histria das psicoterapias desde Franz Anton
outro lado da vida bomia, marcado pela fome,       Mesmer*, que considerava o ancestral da psi-
o alcoolismo e a misria. Certo tempo depois,       canlise*. O contraste entre sua abordagem e a
comeou a viajar. Percorreu primeiro a Europa,      de Freud  impressionante. Freud, em seu artigo
apaixonou-se pela Itlia* e pelas costas medi-      "Sobre a histria do movimento psicanaltico",
terrneas, partiu para a sia, descobriu a Am-     desprezou seus antecessores. Assim, resolveu re-
794     Zweig, Stefan

tificar o que lhe parecia errneo em seu retrato     de ontem. Nesse livro, carregado de uma sau-
e na apresentao de sua obra feitos por Zweig:      dade e de uma melancolia* que pressagiavam a
"Eu poderia contestar, escreveu ele, o modo          tragdia final, traou um dos mais belos retratos
como voc sublinha exclusivamente a correo         de Freud que jamais foram escritos: "Foi em
pequeno-burguesa do meu carter; apesar de           Viena, na poca em que ainda era qualificado
tudo, este cidado aqui  um pouco mais com-         de pensador caprichoso, obstinado e difcil, e
plicado."                                            por isso detestado, que conheci Sigmund Freud,
     Na verdade, Freud, que tivera conhecimento      esse grande e severo esprito, que, mais do que
desse texto antes de sua publicao, falara dele     ningum nestes tempos, aprofundou e ampliou
em termos pouco amveis com Arnold Zweig,            o conhecimento da alma humana. Fantico pela
em uma carta de 10 de setembro de 1930.              verdade, mas perfeitamente consciente dos li-
Evocando o lapso* que fizera com que ele             mites de toda verdade [...] ele se aventurou nas
atribusse a Arnold o ttulo de doutor que queria    zonas inexploradas e aterrorizantes do mundo
dar ironicamente a Stefan, escreveu: "A anlise      terreno e subterrneo das pulses, justamente na
imediata do ato falho* me levou naturalmente         esfera que aquele tempo declarara solenemente
para um terreno difcil: o elemento perturbador      como `tabu'[...]. Pela primeira vez, descobri um
era o outro Zweig, que sei que est se referindo     verdadeiro sbio, que se elevou acima de sua
a mim num ensaio, mostrando-me ao pblico            prpria situao, para quem at o sofrimento e
em companhia de Mesmer e de Mary Eddy                a morte no eram mais percebidos como uma
Baker. Durante os seis ltimos meses, ele me         experincia pessoal, mas como objetos de
deu uma sria razo de descontentamento."            considerao que iam alm de sua pessoa; sua
     Por duas vezes, Stefan lhe deu novamente        morte, como sua vida, foi um grande feito mo-
razes de insatisfao. Primeiro, trabalhando        ral."
para que atribussem a Freud o Prmio Nobel,             Em 22 de fevereiro de 1942, quando estava
depois quando mandou escrever, por engano,           instalado havia seis meses em Petrpolis, ci-
em um cartaz anunciando uma conferncia de           dade prxima do Rio de Janeiro, Stefan Zweig
Charles Emil Maylan (1886-?), o seu nome ao          se suicidou com sua jovem esposa, Lotte Alt-
lado do de Carl Gustav Jung*. Maylan era autor       mann, tomando comprimidos de veronal.
de um livro anti-semita sobre Freud e afirmava
                                                      Stefan Zweig, Le Monde d'hier. Souvenirs d'un euro-
que a psicanlise era a expresso de uma vin-        pen (Estocolmo, 1944), Paris, Belfond, 1993; La Gu-
gana dos judeus humilhados contra Roma e o          rison par l'esprit (1931), Paris, Belfond, 1982; Journaux
catolicismo...                                       1912-1940, Paris, Belfond, 1986; Trois matres (1920),
     Ao longo dos anos, a relao entre os dois      Paris, Belfond, 1988. Pays, villes, paysages, crits de
                                                     voyage (Londres, 1980), Paris, Belfond, 1996 
melhorou. Zweig continuou a manifestar a Freud       Sigmund Freud, "A histria do movimento psicanaltico"
sua admirao e sua fidelidade. Em 1938, acolheu-    (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV, 1-66;
o em Londres com um bilhete afetuoso e pouco         Paris, Gallimard, 1991; "Dostoievski e o parricdio"
tempo depois foi  sua casa acompanhado de           (1928), ESB, XXI, 205-24; GW, XIV, 399-418, SE, XXI,
                                                     177-94; OC, XVIII, 205-25  Sigmund Freud e Stefan
alguns amigos, entre os quais Salvador Dali
                                                     Zweig, Correspondance (1987), Paris, Rivages, 1991
(1904-1989). O pintor esboou ento dois retratos     Charles E. Maylan, Freuds tragischer Komplex: Eine
do mestre, que Stefan Zweig no teve a coragem       Analyse der Psychoanalyse, Munique, Ernst Rein-
de lhe mostrar, tal era neles a presena da morte.   hardt, 1929  Donald Prater, Stefan Zweig (Oxford,
Depois dessa visita, Freud escreveu a Zweig: "Na     1972), Paris, La Table Ronde, 1988  Serge Nimetz,
                                                     Stefan Zweig. Le Voyageur et ses mondes, Paris,
verdade,  preciso que eu lhe agradea por ter       Belfond, 1996  Dominique Bona, Stefan Zweig. L'Ami
trazido  minha casa os visitantes de ontem. Jus-    bless, Paris, Plon, 1996  Klaus Mann, Le Tournant
tamente, eu estava disposto a considerar os sur-     (1960), Paris, Solin, 1984  Jacques Le Rider, Moder-
realistas, que parece que me elegeram para santo     nit viennoise et crises de l'identit, Paris, PUF, 1990 
                                                     Carl E. Schorske, Viena fin-de-sicle (N. York, 1981),
padroeiro, como loucos absolutos (digamos, a         S. Paulo, Companhia das Letras, 1990.
95%, como o lcool)".
     Em 1940, exilado em Nova York, Zweig             FRANA; JUDEIDADE; NAZISMO;            ROLLAND, RO-
comeou a redao de suas memrias, O mundo          MAIN; SUICDIO.
                            CRONOLOGIA




                                     1856

6 de maio Nascimento de Sigmund Freud em Freiberg, na Morvia. Recebe o
nome de Schlomo Sigismund. Seu pai, Jacob Freud, nascido em Tysmenitz em 18
de dezembro de 1815, era comerciante de ls. Sua me, Amalia Nathanson, nascida
em Brody em 18 de agosto de 1835, era a terceira mulher de Jacob, com quem se
casou em 29 de julho de 1855. Do primeiro casamento, Jacob Freud teve dois
filhos: Emanuel, nascido em abril de 1833 e Philipp, nascido provavelmente em
outubro de 1834. Ambos viviam com os pais. Emanuel tinha dois filhos, nascidos
em 1855 e 1856. Do casamento de Jacob Freud com Amalia Nathanson nasceriam
mais sete filhos: Julius, em outubro de 1857, Anna, em 31 de dezembro de 1858,
Regine Debora (Rosa) em 21 de maro de 1860, Maria (Mitzi) em 22 de maro de
1861, Esther Adolfine (Dolfi) em 23 de julho de 1862, Pauline (Paula) em 3 de
maio de 1864 e Alexander em 19 de abril de 1866.


                                     1859

27 de fevereiro Nascimento de Bertha Pappenheim.


                                     1870

7 de fevereiro Nascimento de Alfred Adler.


                                     1871

maro Jean Martin Charcot interessa-se pela histeria no Hospital da Salptrire.
13 de outubro Nascimento de Paul Federn.
dezembro Incio da correspondncia entre Sigmund Freud e Eduard Silberstein.
A ltima carta  datada de 24 de janeiro de 1881. Ambos se apaixonam pelo
pensamento de Ludwig Feuerbach. Durante seus estudos no Gymnasium, Sigmund
Freud l o manual de psicologia emprica de Johann Friedrich Herbart.
                                      795
796    cronologia

                                            1872
      julho-setembro Sigmund Freud confidencia ao amigo Eduard Silberstein o seu
      amor por Gisela Fluss.


                                            1873
      26 de fevereiro Nascimento de Oskar Pfister em Zurique.
      maro Franz Brentano aceita dirigir a tese de Sigmund Freud. Este abandona a
      filosofia pela psicologia.
      7 de julho Nascimento de Sandor Ferenczi.
      outubro Sigmund Freud entra na Universidade de Viena, para estudar medicina.


                                            1874
      1 de outubro Nascimento de Abraham Arden Brill.


                                            1875
      26 de julho Nascimento de Carl Gustav Jung.
      Durante o outono de 1875, Sigmund Freud vai  Inglaterra, hospedando-se na casa
      de seu meio-irmo Emanuel.


                                            1876
      maro Sigmund Freud vai a Trieste fazer uma pesquisa sobre o hermafroditismo
      das enguias.  aluno do fisiologista empirista Ernst Brcke, herdeiro do pensamen-
      to de Hermann von Helmholtz.


                                            1877
      17 de maro Nascimento de Otto Gross.
      3 de maio Nascimento de Karl Abraham.


                                            1878
      Sigismund Freud decide mudar de prenome, adotando o de Sigmund. No labora-
      trio de Ernst Brcke, faz amizade com Ernst von Fleischl-Marxow.
      5 de outubro Nascimento de Moshe Wulff.
      Bourneville e Regnard publicam a Iconografia fotogrfica da Salptrire. So
      apresentadas nessa obra as histricas mais clebres examinadas por Jean Martin
      Charcot, notadamente Blanche Whittmann e a famosa Augustine. As fotografias
      foram feitas a partir de 1876. Vrios volumes so publicados at 1880.
                                                                     cronologia     797

                                     1879

1 de janeiro Nascimento de Ernest Jones.


                                     1880

janeiro Nascimento de Hanns Sachs.
novembro Josef Breuer inicia o tratamento de Bertha Pappenheim. Atribui-lhe a
inveno das expresses talking cure (tratamento pela palavra) e chimney sweeping
(limpeza de chamin).


                                     1881

maro Sigmund Freud forma-se em medicina.
26 de junho Nascimento de Max Eitingon.


                                     1882

2 de janeiro Criao, por iniciativa de Lon Gambetta, de uma ctedra de clnica
de doenas nervosas. Pela primeira vez no mundo, a neurologia  reconhecida
como uma disciplina autnoma. Jean Martin Charcot  nomeado titular dessa
cadeira.
13 de fevereiro Jean Martin Charcot apresenta na Academia de Cincias uma
conferncia sobre os estados nervosos determinados pelo hipnotismo.
30 de maro Nascimento de Melanie Klein.
abril Sigmund Freud  apresentado a Martha Bernays.
27 de junho Noivado de Martha Bernays e Sigmund Freud.
2 de julho Nascimento de Marie Bonaparte.
12 de julho Bertha Pappenheim  hospitalizada no Sanatrio Bellevue de Kreuz-
lingen, perto do lago de Constana, dirigido por Robert Binswanger, filho de
Ludwig Binswanger (snior) e pai de Ludwig Binswanger (jnior).
31 de julho Sigmund Freud entra para o Hospital Geral de Viena, no servio de
Hermann Nothnagel, professor de medicina interna na universidade.
Georg von Schoenerer comea sua carreira poltica em Viena, adotando as teses
do anti-semitismo e do nacionalismo alemo.


                                     1883

maio Sigmund Freud torna-se assistente de Theodor Meynert, professor de
psiquiatria na Universidade de Viena, grande expoente da anatomia cerebral
comparada.
798    cronologia

                                            1884

      janeiro Em Viena, Sigmund Freud comea a tratar de uma paciente atingida por
      uma doena nervosa.
      22 de abril Nascimento de Otto Rank.
      Sigmund Freud pesquisa as virtudes energticas e antidepressivas da cocana. Seu
      amigo Carl Koller descobrir as propriedades anestsicas da cocana sobre o olho.
      14 de junho Nascimento de Eugnie Sokolnicka.
      9 de outubro Nascimento de Helene Deutsch.
      novembro O jurista Daniel Paul Schreber  tratado de uma doena mental e
      nervosa em Leipzig pelo professor Paul Fleschig.


                                            1885

      janeiro Sigmund Freud trata seu amigo Ernst von Fleischl com injees de
      cocana. Provoca nele grave intoxicao.
      20 de junho Sigmund Freud obtm uma bolsa da Universidade de Viena para
      fazer um estgio em Paris.
      31 de agosto Sigmund Freud destri seus manuscritos.
      setembro Sigmund Freud  nomeado Privatdozent.
      13 de outubro Chegada de Sigmund Freud a Paris. Comea seu estgio no
      Hospital da Salptrire, no servio de Jean Martin Charcot. Mora em um hotel da
      rua Royer-Collard.
      7 de novembro Sigmund Freud assiste a uma representao de Thodora, de
      Victorien Sardou. O papel  interpretado por Sarah Bernhardt.


                                            1886

      28 de fevereiro Sigmund Freud deixa Paris e vai para Wandsbeck.
      maro Sigmund Freud vai a Berlim, para estudar.
      25 de abril Sigmund Freud volta a Viena e se estabelece como mdico particular
      na Rathausstrasse, 7. Dirige o departamento de neurologia da Steindglasse, primei-
      ro instituto pblico para crianas doentes, dirigido por Max Kassowitz.
      julho Sigmund Freud termina a traduo das Lies das teras-feiras, de Jean
      Martin Charcot (tomo II).
      14 de setembro Sigmund Freud se casa com Martha Bernays.
      15 de outubro Sigmund Freud faz uma conferncia sobre a histeria masculina na
      Sociedade dos Mdicos de Viena. A reao  hostil, pois ele atribui a Charcot a
      paternidade de noes que j eram conhecidas em Viena. Arthur Schnitzler faz um
      relatrio da conferncia. Esto presentes Heinrich von Bamberger e Theodor
      Meynert. Em 26 de novembro, Sigmund Freud faz a apresentao clnica de um
      caso de histeria masculina.
                                                                     cronologia     799

                                     1887

18 de maro Sigmund Freud  eleito membro da Sociedade Mdica de Viena.
julho Sigmund Freud passa frias em Semmering (Alpes austracos).
16 de outubro Nascimento de Mathilde Freud, filha mais velha de Sigmund
Freud e Martha Bernays-Freud. O nome da criana  uma homenagem  mulher
de Josef Breuer. Sigmund Freud ter ainda cinco filhos: Jean-Martin (prenome de
Charcot), nascido em 7 de dezembro de 1889, Oliver (prenome de Cromwell),
nascido em 19 de fevereiro de 1891, Ernst (prenome de Brcke), nascido em 6 de
abril de 1892, Sophie, nascida em 12 de abril de 1893, Anna (provavelmente em
homenagem a Anna Lichtheim, paciente de Freud e filha de seu professor de
hebraico), nascida em 3 de dezembro de 1895.
novembro Sigmund Freud conhece Wilhelm Fliess. O pintor Andr Brouillet
apresenta A lio de Charcot no Salo dos Independentes.


                                     1889

1 de maio Sigmund Freud inicia o tratamento de Fanny Moser (o caso Emmy
von N.).
julho Sigmund Freud vai a Nancy, para aperfeioar-se junto a Hippolyte Ber-
nheim e Ambroise Libeault na tcnica da sugesto hipntica.
agosto Sigmund Freud assiste ao I Congresso Internacional de Hipnotismo em
Paris. No Eldorado, ouve a cantora Yvette Guilbert.
novembro Incio do surgimento, em Viena, de um partido cristo-social, sob a
direo de Karl Lueger.


                                     1891

6 de maio Jacob Freud oferece ao filho a Bblia familiar, com uma dedicatria
em hebraico. Sigmund Freud publica o seu primeiro livro: Sobre a concepo das
afasias, dedicado a Josef Breuer.
20 de setembro Sigmund Freud se instala com a famlia na Berggasse, 19. Trata
dos pacientes pelo mtodo catrtico.


                                     1892

12 de maio Nascimento de Siegfried Bernfeld.
4 de julho Nascimento de Marguerite Pantaine (futuro "caso Aime" de Jacques
Lacan), que se casar com Ren Anzieu em 1917.
novembro Sigmund Freud trata, pelo mtodo catrtico, Elisabeth von R., Frau
Katharina e Miss Lucy. Progressivamente, elabora o mtodo das associaes livres.
Colabora com Josef Breuer e continua a se corresponder com Wilhelm Fliess.
800    cronologia

                                            1893

      abril Sigmund Freud vai a Berlim para se encontrar com Wilhelm Fliess. Dora-
      vante, os dois amigos se encontraro regularmente para realizar "congressos"
      particulares.
      30 de maio Sigmund Freud escreve a Wilhelm Fliess a propsito da seduo
      sexual cometida por adultos contra crianas pequenas. V nisso a causa principal
      e traumtica das neuroses posteriores: teoria dita "da seduo".
      16 de agosto Morte de Jean Martin Charcot em Quarr-les-Tombes, no Morvan.
      Sigmund Freud redige um necrolgio para a Wiener Medizinische Wochenschrift,
      no qual o compara a Philippe Pinel. Elogia suas qualidades visuais e cita Charcot:
      "Teoria  bom, mas isso no impede de existir."


                                            1894

      abril Sigmund Freud tem problemas cardacos e tenta parar de fumar.
      2 de agosto Nascimento de Raymond de Saussure.
      5 de novembro Nascimento de Ren Laforgue.
      25 de dezembro Wilhelm Fliess dispe-se a praticar uma operao de nariz em
      Emma Eckstein.


                                            1895

      maio Sigmund Freud e Josef Breuer publicam os Estudos sobre a histeria, em
      que so relatados os casos Anna O., Emmy von N., Miss Lucy etc. Sigmund Freud
      volta a fumar.
      julho Sigmund Freud se hospeda no castelo de Bellevue, perto de Viena. Na noite
      de 23 para 24 de julho, tem um sonho: "A injeo de Irma". Pela primeira vez,
      interpreta esse sonho, que de certa forma  a encenao de um romance familiar
      das origens e da histria da psicanlise.
      agosto Sigmund Freud viaja para o norte da Itlia com seu irmo Alexander e
      sua cunhada Minna Bernays (nascida em 1865).
      setembro Sigmund redige o Projeto de uma psicologia cientfica.
      20 de outubro Sigmund Freud envia a Wilhelm Fliess o seu esquema da sexua-
      lidade.
      dezembro Adeso de Sigmund Freud  associao judaica B'nai B'rith. Pierre
      Janet  eleito para o Collge de France, para a ctedra de Thodule Ribot.
      Karl Lueger  eleito burgomestre da cidade de Viena. O imperador Francisco-Jos
      recusa-se a emposs-lo em virtude de suas opinies antiliberais e anti-semitas.
      Gustave Le Bon: Psicologia das multides. A obra ser reeditada trinta vezes, at
      1925.
                                                                    cronologia     801

                                     1896

20 de maro Sigmund Freud emprega pela primeira vez o termo "psicoanlise"
em um artigo redigido em francs: "L'hrdit et l'tiologie des nvroses".
21 de abril Sigmund Freud faz uma conferncia sobre a etiologia da histeria na
Associao pela Neurologia e pela Psiquiatria em Viena. Enuncia a sua "teoria da
seduo" (que abandonar no ano seguinte). Richard von Krafft-Ebing a qualifica
de "conto de fadas cientfico".
23 de outubro Morte de Jacob Freud.
Minna Bernays decide morar em Viena com a famlia Freud.
6 de dezembro Nascimento de Michael Balint.
Em uma carta a Wilhelm Fliess, Sigmund Freud utiliza pela primeira vez a
expresso "aparelho psquico" e designa os seus trs componentes: o consciente,
o pr-consciente, o inconsciente.


                                     1897

abril O imperador Francisco-Jos aceita, a contragosto, a investidura de Karl
Lueger na prefeitura de Viena.
junho Sigmund Freud comea a sua "auto-anlise" atravs de sua correspon-
dncia com Wilhelm Fliess: "O doente que me preocupa mais sou eu mesmo."
setembro Em uma carta a Wilhelm Fliess, datada do dia 21, Sigmund Freud
explica por que renunciou  sua teoria da seduo.
outubro Em uma carta a Wilhelm Fliess, Sigmund Freud faz a sua primeira
interpretao da tragdia dipo Rei, de Sfocles: "Cada ouvinte foi um dia, em
germe, em imaginao, um dipo."
dezembro Em uma carta a Wilhelm Fliess, Sigmund Freud evoca pela primeira
vez o seu amor por Roma e a sua admirao por Anbal, o general semita.


                                     1898

26 de agosto Em uma carta a Wilhelm Fliess, Sigmund Freud analisa pela
primeira vez o esquecimento de um nome prprio. Trata-se do poeta Julius Moser.


                                     1899

3 de janeiro Sigmund Freud recebe o livro de Havelock Ellis Hysteria in Rela-
tion to the Sexual Emotions.
julho-agosto Sigmund Freud redige Die Traumdeutung (A interpretao dos
sonhos) em uma fazenda de Berchtesgaden. A obra ser publicada em 4 de
novembro, porm datada do ano de 1900.
802    cronologia

                                            1900
      26 de abril Nascimento de Ernst Kris.
      12 de junho Em uma carta a Wilhelm Fliess, Sigmund Freud declara que um dia
      uma placa seria afixada na casa de Bellevue com a inscrio: "Foi nesta casa, a 24
      de julho de 1895, que o mistrio do sonho foi revelado a Freud."
      agosto ltimo encontro entre Wilhelm Fliess e Sigmund Freud, no Tirol.
      outubro Ida Bauer comea uma anlise com Sigmund Freud (caso Dora). O
      tratamento cessa no fim do ms de dezembro.
      Hermann Swoboda comea uma anlise com Sigmund Freud. Wilhelm Fliess
      acusa Freud de roubar as suas idias sobre a bissexualidade e transmiti-las a
      Hermann Swoboda, para o livro de Otto Weininger. O caso desse "roubo de idias"
      terminar nos tribunais, em 1906.


                                            1901
      13 de abril Nascimento de Jacques Marie mile Lacan.
      julho Sigmund Freud publica A psicopatologia da vida cotidiana.
      setembro Sigmund Freud faz sua primeira viagem a Roma.


                                            1902
      5 de maro Sigmund Freud  nomeado professor-extraordinrio. O ato  as-
      sinado pelo imperador Francisco-Jos.
      agosto Sigmund Freud viaja para o sul da Itlia com seu irmo Alexander e sua
      cunhada Minna Bernays. Descobre Pompia.
      setembro Fim da correspondncia entre Sigmund Freud e Wilhelm Fliess.
      outubro Criao, em Viena, da Psychologische Mittwoch Gesellschaft (Socie-
      dade Psicolgica das Quartas-Feiras), primeira sociedade psicanaltica do mundo.


                                            1903
      abril Nascimento de Herbert Graf (apelidado "Pequeno Hans"). Filho de Max
      Graf, ser analisado com a idade de 5 anos por seu pai, sob a direo de Sigmund
      Freud. Ser a primeira psicanlise de crianas.
      4 de junho Suicdio de Otto Weininger em Viena.


                                            1904
      17 de agosto Sabina Spielrein, estudante russa nascida em Odessa em 1895, 
      hospitalizada na Clnica do Hospital Burghlzli em Zurique, para tratar-se e
      estudar. Ficar at 1 de junho de 1905. Carl Gustav Jung, assistente de Eugen
      Bleuler, assume o seu tratamento e torna-se seu amante.
                                                                     cronologia     803

25 de agosto Viagem a Atenas de Sigmund Freud com seu irmo Alexander.
Trinta anos depois, em uma carta a Romain Rolland, Freud analisar seu "distrbio
de memria na Acrpole".
outubro Sigmund Freud fica sabendo, atravs de Eugen Bleuler, que a psican-
lise  praticada na Clnica do Burghlzli por Carl Gustav Jung. Sigmund Freud 
apresentado a Otto Gross.


                                     1905

dezembro Sigmund Freud publica Os chistes e sua relao com o inconsciente
e Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade.


                                     1906

abril Incio da correspondncia entre Sigmund Freud e Carl Gustav Jung.
Sandor Ferenczi apresenta  Associao dos Mdicos de Budapeste um texto sobre
"Os estados sexuais intermedirios". Defende os homossexuais, chamados "ura-
nianos".
maio Para celebrar o aniversrio de Sigmund Freud, seus discpulos vienenses
lhe oferecem uma medalha tendo no anverso o perfil de Freud, no reverso dipo,
e a inscrio em grego do verso de Sfocles: "Que resolveu o enigma e foi um
homem de grande poder".


                                     1907

30 de janeiro Max Eitingon  o primeiro estrangeiro a participar das reunies da
Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras.
27 de fevereiro Carl Gustav Jung visita Sigmund Freud. Comea a assistir s
reunies da Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras em companhia de Ludwig
Binswanger Jr.
Sigmund Freud publica Delrios e sonhos na "Gradiva" de Jensen.
1-7 de setembro Primeiro congresso de psiquiatria, neurologia e assistncia aos
alienados em Amsterdam. Ernest Jones encontra-se com Carl Gustav Jung.
22 de setembro Sigmund Freud prope, em uma carta circular, a dissoluo da
Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras.
Carl Gustav Jung cria em Zurique a Sociedade Freud, que se tornar a Associao
Psicanaltica de Zurique.
1 de outubro Ernst Lanzer (apelidado "Homem dos Ratos") comea uma an-
lise com Sigmund Freud.
15 de dezembro Karl Abraham visita Sigmund Freud.
804    cronologia

                                             1908
      2 de fevereiro Primeiro encontro, em Viena, entre Sigmund Freud e Sandor
      Ferenczi. Incio de uma longa amizade e de uma magnfica correspondncia.
      abril I Congresso Internacional de Psicanlise em Salzburgo. Ttulo do congres-
      so: "Encontro dos psiclogos freudianos". Quarenta e dois membros de seis pases
      (Estados Unidos, ustria, Inglaterra, Alemanha, Hungria e Sua) participam.
      Sigmund Freud apresenta as "Observaes sobre um caso de neurose de compulso
      (o Homem dos Ratos)" e fala durante vrias horas diante de um pblico silencioso
      e estupefato. Nessa ocasio,  criado por Eugen Bleuler e Carl Gustav Jung o
      Jahrbuch fr psychoanalytische und psychopathologische Forschungen (abrevia-
      o: Jahrbuch). Debates entre os profissionais de Zurique e os de Berlim sobre a
      etiologia da demncia precoce. Primeiro encontro entre Freud e Ernest Jones.
      maio Abraham Arden Brill e Ernest Jones vm dos Estados Unidos para visitar
      Sigmund Freud.
      21 de agosto Criao, por Karl Abraham, da Associao Psicanaltica de Berlim.
      13 de setembro Nascimento de Georges Devereux.
      26 de setembro Ernest Jones instala-se em Toronto.
      A Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras torna-se a Wiener Psychoanalytische
      Vereinigung (WPV).
      6 de novembro Nascimento de Franoise Dolto.
      Em Viena, Hermine von Hug-Hellmuth comea uma anlise com Isidor Sadger,
      que a apresenta a Sigmund Freud. Torna-se, depois dele, a primeira psicanalista de
      crianas.

                                             1909
      6 de janeiro Joseph Babinski pronuncia em Paris uma conferncia sobre o pitia-
      tismo e o desmembramento da histeria segundo Charcot.
      25 de abril O pastor Oskar Pfister visita Sigmund Freud em Viena.
      agosto-setembro Sigmund Freud vai aos Estados Unidos em companhia de Carl
      Gustav Jung e Sandor Ferenczi.
      Criao em Moscou da revista Psychoterapia, em torno de Nicolas Vyrubov e
      Moshe Wulff. O primeiro nmero ser publicado em janeiro de 1910. Criao, por
      Nicolas Ossipov, de uma "ambulncia teraputica" em Moscou.

                                             1910
      janeiro Incio da anlise de Serguei Constantinovitch Pankejeff (1887-1979),
      apelidado Homem dos Lobos, com Sigmund Freud.
      30-31 de maro II Congresso Internacional de Psicanlise em Nuremberg, orga-
      nizado por Carl Gustav Jung. Sandor Ferenczi prope, com a concordncia de
      Sigmund Freud, fundar uma organizao internacional que reunisse sociedades de
      diferentes pases. Ser a International Psychoanalytical Association (IPA). Progres-
                                                                     cronologia     805

sivamente, essa sigla se impor em todos os pases, exceto na Frana. O hbito de
numerar os congressos da IPA ser adotado a partir do ano de 1908. A fundao da
IPA  acompanhada da criao de dois peridicos, o Correspondenzblatt e o
Zentralblatt fr Psychoanalyse, que se uniro em setembro de 1911. Carl Gustav
Jung  eleito primeiro presidente da IPA. Filiao da Associao Psicanaltica de
Zurique.
junho Sigmund Freud publica Leonardo da Vinci e uma lembrana de sua
infncia.
julho-agosto Enquanto passa frias na Holanda, Sigmund Freud atende a um
apelo de Gustav Mahler. Analisa-o por algumas horas, percorrendo com ele as ruas
de Leiden. Viaja depois para a Siclia, passando por Paris, Roma e Npoles, em
companhia de Sandor Ferenczi.
Em Buenos Aires, German Greve, mdico chileno, expe pela primeira vez na
Amrica Latina as teses freudianas em um congresso de medicina.

                                     1911
fevereiro Abraham Arden Brill funda a New York Psychoanalytic Society
(NYPS).
Wilhelm Stekel e Alfred Adler deixam suas funes de direo na WPV.
14 de abril Morte de Daniel Paul Schreber. Sigmund Freud analisar o caso,
atravs das Memrias de um doente dos nervos.
maio Ernest Jones e James Jackson Putnam fundam a American Psychoanalytic
Association (APsaA).
21-23 de setembro III Congresso da IPA em Weimar (presidente: Carl Gustav
Jung). A IPA conta com 106 membros. Lou Andreas-Salom participa do congresso
e o mdico sueco Poul Bjerre faz uma interveno.
25 de novembro Sabina Spielrein expe, na WPV, suas teses sobre o instinto de
morte. Primeira formulao dessa noo, que ser retomada depois por Sigmund
Freud.
Pierre Ernest Morichau-Beauchant: "A relao afetiva no tratamento das neu-
roses". Primeiro artigo de psicanlise publicado na Frana e reconhecido por
Sigmund Freud.
Eugen Bleuler publica Dementia praecox ou Grupo das esquizofrenias.

                                     1912
janeiro Publicao da revista Imago, consagrada  psicanlise aplicada, sob a
direo de Sigmund Freud, Otto Rank e Hanns Sachs.
junho Com a concordncia de Sigmund Freud, Ernest Jones funda em torno deste
um Comit Secreto, composto de seus discpulos mais prximos e encarregado de
zelar pela difuso da causa psicanaltica. Rene Sandor Ferenczi, Otto Rank, Karl
Abraham, Hanns Sachs, Sigmund Freud e Ernest Jones. Este passa dois meses em
Budapeste, para analisar-se com Ferenczi.
806    cronologia

      setembro Sigmund Freud faz uma viagem a Roma.
      Ernest Jones instala-se em Londres.
      25 de outubro Lou Andreas-Salom chega a Viena.  apresentada a Freud por
      Poul Bjerre. Participar das sesses da WPV at abril de 1913. Wilhelm Stekel
      deixa definitivamente a WPV. Hermine von Hug-Hellmuth  consagrada como
      especialista em psicanlise de crianas em Viena, por Sigmund Freud.
      dezembro Publicao nos Estados Unidos do primeiro livro dedicado  psican-
      lise.


                                            1913
      janeiro Incio do conflito entre Sigmund Freud e Carl Gustav Jung.
      1 de maio Criao, por Sandor Ferenczi, da Sociedade Psicanaltica de Buda-
      peste. Em torno dele: Sandor Rado, Istvan Hollos e Ignotus. A partir de 1919, viro
      Imre Hermann, Melanie Klein, Geza Roheim, Ren Spitz e Eugnie Sokolnicka.
      25 de maio Primeira reunio do Comit Secreto. Sigmund Freud oferece a seus
      discpulos um anel com uma pedra grega de sua coleo.
      7 de agosto Congresso Internacional de Medicina em Londres. Pierre Janet
      apresenta uma exposio, "A psicanlise", em que ataca as teorias de Freud, na
      presena, notadamente, de Ernest Jones e Carl Gustav Jung.
      7 de setembro IV Congresso da IPA em Munique (presidente: Carl Gustav Jung).
      Os partidrios de Freud obrigam Carl Gustav Jung a se demitir de suas funes de
      redator-chefe do Jahrbuch. Incio da segunda dissidncia no movimento freudiano.
      A Associao Psicanaltica de Zurique ser dissolvida.
      Sigmund Freud comea a escrever Sobre o narcisismo: uma introduo, e redige
      um prefcio para Totem e tabu, publicado no ano anterior.
      30 de outubro Ernest Jones funda a London Psychoanalytic Society, com Dou-
      glas Bryan, David Eder, David Forsyth, Bernard Hart e Owen Berkeley-Hill.
      Havelock Ellis se recusa a tornar-se membro.
      Ruptura definitiva entre Sigmund Freud e Carl Gustav Jung.
      Criao da Internationale rztliche Zeitschrift fr Psychoanalyse, novo rgo da
      IPA. A partir de 1939, ela se fundir com Imago, e deixar de ser publicada em
      1941.
      Criao, nos Estados Unidos, da Psychoanalytic Review.
      Sigmund Freud publica O interesse cientfico da psicanlise.
      Primeira traduo de um texto de Sigmund Freud para o francs, escrito para a
      revista Scientia de Bolonha.
      No Peru, Honorio Delgado difunde as idias freudianas.


                                            1914
      janeiro Sigmund Freud publica o primeiro estudo dedicado  histria do movi-
      mento que fundou: "A histria do movimento psicanaltico".
                                                                   cronologia     807

setembro Bronislaw Malinowski vai  Nova Guin, visita os Mailu, e depois s
ilhas Trobriand.
novembro Sigmund Freud publica na revista Imago "O Moiss de Michelange-
lo", sem nome de autor.
Emmanuel Rgis e Angelo Hesnard publicam A psicanlise das neuroses e das
psicoses.

                                    1917
24 de maro Criao, nos Pases Baixos, da Nederlandse Vereniging voor Psy-
choanalyse (NVP).
maio Georg Groddeck adere  WPV.
Sigmund Freud projeta escrever um ensaio sobre as repercusses das teorias de
Jean-Baptiste Lamarck sobre a psicanlise.

                                    1918
28-29 de setembro V Congresso da IPA em Budapeste (presidente: Karl Abra-
ham). O congresso se realiza na Academia de Cincias, na presena dos repre-
sentantes dos governos alemo, austraco e hngaro. Sigmund Freud considera que
o centro da psicanlise se encontra na Hungria. Durante o congresso, Hermann
Nunberg prope pela primeira vez que uma das condies exigidas para tornar-se
psicanalista seja ter feito uma anlise. Otto Rank e Sandor Ferenczi se opem a
que essa moo seja votada.

                                    1919
janeiro Criao da Internationaler Psychoanalytischer Verlag.
Viktor Tausk comea uma anlise com Helene Deutsch, esta tambm em anlise
com Sigmund Freud. Ele pensa que Freud "rouba as suas idias".
20 de fevereiro Ernest Jones dissolve a Sociedade Psicanaltica de Londres e
funda a British Psychoanalytical Society (BPS), stimo componente da IPA.
28 de fevereiro Publicao, no jornal vienense Der freie Soldat, de um artigo
acusando os psiquiatras e os neurologistas, sobretudo Julius Wagner-Jauregg, de
utilizar o tratamento eltrico como terapia das neuroses de guerra. Uma inves-
tigao ser pedida a Sigmund Freud em 11 de fevereiro de 1920.
20 de maro Insurreio na Hungria. Bela Kun proclama a repblica dos conse-
lhos. Sandor Ferenczi obtm na universidade a primeira ctedra de ensino da
psicanlise.
24 de maro Oskar Pfister funda a Sociedade Sua de Psicanlise (SSP). Entre
seus onze fundadores: Emil Oberholzer, Hermann Rorschach e Hans Walser.
maio Philippe Soupault e Andr Breton redigem Os campos magnticos, com o
auxlio da tcnica de escrita automtica de Pierre Janet.
3 de julho Suicdio de Viktor Tausk.
808    cronologia

                                            1920

      20 de janeiro Morte de Anton von Freund, amigo de Sigmund Freud, que dedi-
      cara parte de sua fortuna  Verlag.
      25 de janeiro Morte de Sophie Halberstadt, em Hamburgo, de uma pneumonia
      gripal.
      Criao do International Journal of Psycho-Analysis.
      25 de fevereiro Sigmund Freud entrega s autoridades mdicas vienenses o
      resultado de sua investigao sobre o tratamento eltrico das neuroses de guerra.
      Condena o tratamento em nome da necessidade de reconhecer uma causa psquica
      para essas neuroses.
      Criao da Policlnica de Berlim e do Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI),
      por Max Eitingon e Ernst Simmel. Berlim se torna ento o centro da psicanlise e
      o lugar de passagem e formao de todos os pioneiros do freudismo no mundo.
      Entre estes: Melanie Klein, Wilhelm Reich, Karen Horney, Helene Deutsch, James
      e Alix Strachey, Sandor Rado, Franz Alexander, Michael Balint, Hanns Sachs, Otto
      Fenichel, Rudolph Loewenstein, Clara Happel, Siegfried Bernfeld.
      maio Sigmund Freud termina de redigir Mais-alm do princpio de prazer.
      8-11 de setembro VI Congresso da IPA em Haia (presidente: Ernest Jones). Incio
      dos grandes debates sobre a terapia, sua tcnica e seus mtodos. Sandor Ferenczi
      apresenta uma exposio sobre a "terapia ativa". Georg Groddeck, depois da
      publicao de sua obra O investigador de almas, se qualifica como "psicanalista
      selvagem".
      dezembro Sigmund Freud termina a redao de Psicologia das massas e anlise
      do eu.
      No Brasil, em So Paulo, Durval Marcondes comea a orientar-se para a psican-
      lise.


                                            1921

      janeiro Melanie Klein se instala em Berlim.
      21 de maro Chegada de Eugnie Sokolnicka a Paris. No outono, ser acolhida
      pelos escritores da Nouvelle Revue Franaise. Analisar Andr Gide, Sophie
      Morgenstern, Blanche Reverchon, Ren Laforgue e douard Pichon.
      Criao, em Moscou, da Associao Psicanaltica de Pesquisas sobre a Criao
      Artstica, com Otto Schmidt, Ermakov e Moshe Wulff.
      Muitos americanos vo a Viena para analisar-se com Freud: Horace Frink, Cla-
      rence Oberndorf, Monroe Meyer, Abram Kardiner.
      agosto Criao em Moscou, por Vera Schmidt, do Lar Experimental para Crian-
      as, onde so aplicados mtodos de educao baseados na psicanlise e no
      marxismo. A experincia terminar em 1927.
      Sigmund Freud termina a redao de "Psicanlise e telepatia". Com Sandor
      Ferenczi, e contra a opinio de Ernest Jones, interessa-se pelos fenmenos ocultos.
                                                                     cronologia     809

11 de dezembro Discusso entre os membros do Comit sobre a admisso dos
homossexuais nas sociedades psicanalticas. Otto Rank e Sigmund Freud no se
opem e defendem que a deciso seja tomada em funo da competncia de cada
um. Ernest Jones se ope e enfatiza que a homossexualidade  um "crime
repugnante". Sandor Ferenczi acha que os homossexuais so "demasiado anor-
mais" para serem admitidos nas sociedades freudianas.
Criao, na Bulgria, da Sociedade Psicolgica de Sfia. Entre seus membros est
Ivan Kinkel, professor de direito na Universidade e membro da IPA.


                                     1922
11 de janeiro Representao, em Genebra, de uma pea de teatro de Henri
Lenormand, dedicada  psicanlise: O comedor de sonhos.
Incio em Paris, da "temporada Freud". Os meios literrios pem a psicanlise na
moda.
maro Criao, em Kazan, de uma sociedade psicanaltica, sob a direo de
Aleksandr Romanovitch Luria, reunindo uma maioria de mdicos.
Publicao, em Paris, do primeiro nmero da revista Littrature, contendo a
entrevista com Sigmund Freud por Andr Breton, depois do encontro do outono
de 1921.
14 de maio Sigmund Freud escreve a Arthur Schnitzler para confessar-lhe que o
evitou, temendo encontrar-se com o seu duplo.
Criao, em Moscou, da Sociedade Psicanaltica da Rssia por Moshe Wulff e Ivan
Dimitrievitch Ermakov (15 membros).
22 de setembro Andr Breton, Ren Crevel e Robert Desnos fazem experincias
com o espiritismo na rua Fontaine.
25-27 de setembro VII Congresso da IPA em Berlim (presidente: Ernest Jones).
Incio do grande debate sobre a sexualidade feminina.
Filiao da Sociedade Indiana de Psicanlise, criada por Girndrashekhar Bose,
em Calcut.
Sigmund Freud defende a adeso  IPA da Sociedade Psicanaltica de Moscou.
Ernest Jones  contrrio. Defende Kazan contra Moscou, os mdicos contra os
leigos, e desconfia dos marxistas.


                                     1923
fevereiro Incio da correspondncia entre Sigmund Freud e Romain Rolland.
Primeira manifestao do cncer de mandbula, do qual Freud morrer 16 anos
depois.
20 de abril Sigmund Freud sofre uma interveno cirrgica para retirar um tumor
da mandbula superior direita e do palato. Felix Deutsch, seu mdico, lhe esconde
a natureza da doena.
junho Morte de Heinerle, neto favorito de Sigmund Freud.
810    cronologia

      4 de setembro Publicao, no jornal La Presse, de um artigo intitulado "Sobre o
      freudismo: as teorias de um sbio boche". Essa campanha germanfoba se sucede
       que acaba de ser feita contra Albert Einstein em 1922.
      27 de setembro Lon Trotski escreve a Ivan Pavlov sobre as relaes entre a
      doutrina freudiana e a dos reflexos condicionados. Segundo ele, a doutrina freu-
      diana  materialista e um caso particular da teoria dos reflexos.
      Criao, em Moscou, da Associao Psicanaltica Russa, que rene o grupo de
      Moscou e o grupo de Kazan.
      4-11 de outubro Sigmund Freud  operado por Hans Pichler. Doravante, ter que
      usar uma enorme prtese, chamada "o monstro". Sofrer ainda trinta e uma
      operaes.
      25 de outubro Incio da correspondncia entre Sigmund Freud e Ren Laforgue,
      que continuar at 1937.
      28 de outubro Primeiro encontro entre Max Eitingon e Ren Laforgue, para criar
      uma sociedade psicanaltica em Paris.
      Geza Roheim vai  Austrlia central e  ilha Normanby. Defender as teorias de
      Freud contra Bronislaw Malinowski.
      Otto Rank publica O trauma do nascimento.
      Primeira difuso das obras de Sigmund Freud traduzidas para o espanhol no
      continente latino-americano.


                                           1924

      abril VIII Congresso da IPA em Salzburgo (presidente: Ernest Jones). Filiao
      da Associao Psicanaltica Russa.
      junho Publicao em Bruxelas de um nmero especial da revista Le Disque Vert,
      dedicada  psicanlise.
      8 de setembro Hermine von Hug-Hellmuth  assassinada em Viena por seu
      sobrinho Rolf Hug.
      novembro Criao por Otto Fenichel, no quadro da DPG, de um "seminrio de
      crianas", no qual so abordados simultaneamente os problemas da psicanlise de
      crianas e a questo das ligaes entre a poltica e a psicanlise.
      Ruptura entre Sigmund Freud e Otto Rank. Este vem despedir-se em Viena.
      1 de dezembro Publicao do primeiro nmero de La Rvolution Surraliste.
      17 de dezembro Melanie Klein apresenta uma exposio sobre a psicanlise de
      crianas na WPV. Incio do grande debate que a opor a Anna Freud.


                                           1925

      fevereiro Samuel Goldwyn prope a Sigmund Freud colaborar em um filme
      sobre os amores clebres. Freud se recusa.
      Sigmund Freud publica sua autobiografia: Selbsdarstellung.
                                                                       cronologia     811

Incio das discusses, na URSS, entre freudo-marxistas, marxistas e pavlovianos
sobre o estatuto materialista da psicanlise. Fim dos debates em 1929. Extino da
psicanlise em 1930.
Theodor Reik, membro da WPV,  acusado de charlatanismo porque pratica a
psicanlise sem ser mdico. Sigmund Freud reage vivamente publicando A questo
da anlise leiga.
2-5 de setembro IX Congresso da IPA em Bad-Hombourg (presidente: Karl
Abraham). Max Eitingon instaura as regras da psicanlise didtica aplicveis a
todas as sociedades componentes da IPA, atravs de uma International Training
Commission (ITC). Incio da burocratizao da IPA.
30 de setembro Marie Bonaparte vai a Viena para se analisar com Freud.
25 de dezembro Morte de Karl Abraham.
Criao da primeira sociedade psicanaltica italiana, em torno de Edoardo Weiss
e Marco Levi-Bianchini.
No Chile, Fernando Allende Navarro, analisado na Sua por Emil Oberholzer,
comea a formar psicanalistas.


                                      1926
24 de maro Projeo, em Berlim, do filme de Wilhelm Pabst Os mistrios da
alma, realizado com a assessoria de Hanns Sachs.
4 de novembro Criao da Sociedade Psicanaltica de Paris (SPP).

                                      1927
25 de junho Publicao do primeiro nmero da Revue Franaise de Psychana-
lyse (RFP).
27 de setembro X Congresso da IPA em Innsbruck (presidente: Max Eitingon).
O comit  dissolvido e reforma-se como comit administrativo, composto de
Sandor Ferenczi, Ernest Jones, Anna Freud, Johan Van Ophuijsen. Melanie Klein
apresenta sua comunicao sobre "Os estdios precoces do conflito edipiano", em
que responde s teses de Anna Freud. Ernest Jones apresenta a sua comunicao
sobre "A fase precoce do desenvolvimento da sexualidade feminina". Debate sobre
a questo do dualismo e do monismo sexual, que ope os vienenses e os ingleses.
Incio dos conflitos entre os europeus e os americanos sobre o estatuto da psican-
lise leiga e a admisso de no-mdicos na IPA.
Criao em So Paulo, por Durval Marcondes e Franco da Rocha, da Sociedade
Brasileira de Psicanlise, primeira sociedade freudiana do continente latino-ame-
ricano.


                                      1928
10 de janeiro Conflito na SSP sobre a questo da psicanlise leiga. Emil Ober-
holzer pede demisso, junto com 22 membros, e funda a Associao Mdica de
812    cronologia

      Psicanlise, reservada aos mdicos. Esta nunca se filiar  IPA. Philipp Sarasin
      torna-se presidente da SSP.
      28 de maro Andr Breton e Louis Aragon celebram o cinqentenrio da his-
      teria, "a maior descoberta poltica do fim do sculo".
      Criao, por Durval Marcondes, da Revista Brasileira de Psicanlise, primeira
      revista freudiana do continente latino-americano.
      Criao em Tquio, por Yackichi Yabe e Kenji Otsuki, de um Instituto Psicanaltico
      Japons.


                                            1929

      10 de fevereiro Criao do Instituto Psicanaltico de Frankfurt, sob a direo de
      Karl Landauer e Erich Fromm.
      maro Max Schur se torna mdico particular de Sigmund Freud.
      julho XI Congresso da IPA em Oxford (presidente: Max Eitingon). A NYPS
      aceita a filiao de psicanalistas no-mdicos, mas aprova uma clusula que
      permite s sociedades psicanalticas americanas recusar a filiao de psicanalistas
      formados na Europa. Filiao da Sociedade Brasileira de Psicanlise.
      setembro Wilhelm Reich, membro do Partido Comunista Austraco desde 1928,
      vai a Moscou. L, encontra-se com Vera Schmidt. Ao voltar, deixa Viena e vai para
      Berlim, encontra-se com a esquerda psicanaltica e adere ao Partido Comunista
      Alemo.


                                            1930

      17 de outubro William Bullit, embaixador dos Estados Unidos em Berlim, leva
      a Sigmund Freud 1.500 pginas de anotaes sobre Thomas Woodrow Wilson. O
      texto ser concludo em 4 de dezembro. Freud escrever o prefcio. A obra ser
      publicada em 1967.


                                            1931

      22 de agosto Reunio entre Alfhild Tamm, Harald Schjelderup e Sigurd Naes-
      gaard para fundar um grupo psicanaltico escandinavo.


                                            1932

      janeiro Criao, por Edoardo Weiss, em Roma, da Societ Psicoanalitica Italiana
      (SPI), com Niccola Perrotti e Emilio Servadio.
      4 de setembro XII Congresso da IPA em Wiesbaden (presidente: Max Eitingon).
      Organizado por Karl Landauer,  o ltimo congresso da IPA a reunir-se na
      Alemanha. Filiao do Instituto Psicanaltico Japons de Tquio.
                                                                      cronologia     813

7 de setembro Jacques Lacan termina a redao da sua tese de medicina sobre o
caso Aime, publicada sob o ttulo Da psicose paranica em suas relaes com a
personalidade. Envia um exemplar a Freud.


                                      1933
fevereiro Max Eitingon e Sigmund Freud defendem a existncia do Instituto
Psicanaltico de Berlim. Edith Jacobson, membro da DPG, entra para a Resistncia
antinazista.
Ernst Kretschmer pede demisso da Allgemeine rztliche Gesellschaft fr Psycho-
terapie (AGP), sociedade composta de psiquiatras e psicoterapeutas.  subs-
titudo por Carl Gustav Jung, que declarar em dezembro que o inconsciente da
"raa judia no pode ser comparado ao inconsciente ariano".
abril A terminologia freudiana comea a ser banida do vocabulrio da psiquiatria
e da psicologia na Alemanha. A psicanlise  qualificada de "cincia judaica".
1 de maio Wilhelm Reich chega a Copenhague. Em novembro, instala-se em
Malm, na Sucia. Publica Psicologia de massas do fascismo.
22 de maio Morte de Sandor Ferenczi.
setembro Max Eitingon pede demisso de todas as suas funes e deixa a Europa,
indo para a Palestina, onde cria uma sociedade psicanaltica. Moshe Wulff rene-se
a ele. Incio da emigrao macia dos psicanalistas alemes para a Argentina, a
Inglaterra, os Estados Unidos. Sero seguidos pelos austracos e pelos hngaros.
Crise na NVP por causa da chegada dos imigrantes  Holanda. Johan Van
Ophuijsen pede demisso para criar a Vereniging voor Psychoanalyse in Nederland
(VPN), que se fundir com a NVP em 1938.
Os livros de Sigmund Freud so queimados na Alemanha.
Criao em Sendai, por Heisaku Kosawa, de um grupo de estudos psicanalticos.


                                      1934
janeiro Jacques Lacan faz o curso de Alexandre Kojve sobre a Fenomenologia
do esprito na cole Pratique des Hautes tudes.
fevereiro Gustav Bally denuncia o papel de Carl Gustav Jung na presidncia da
AGP, que tem como misso excluir os judeus de suas fileiras. Incio da polmica
sobre a adeso de Jung ao nazismo.
abril Ludwig Jekels se instala em Estocolmo para favorecer o desenvolvimento
da psicanlise na Sucia.
5 de maio Criao em Jerusalm, por Max Eitingon, da Sociedade Psicanaltica
da Palestina, que se tornar a Hachevra Hapsychoanalytit Be-Israel (HHBI).
19 de maio Suicdio de Eugnie Sokolnicka.
26-31 de agosto XIII Congresso da IPA em Lucerna (presidente: Ernest Jones).
Nessa data, 24 dos 36 membros do Instituto Psicanaltico de Berlim j deixaram a
Alemanha. Wilhelm Reich  excludo da IPA. A lngua inglesa comea a impor-se
814    cronologia

      nos congressos internacionais. A clusula aprovada no congresso de Oxford de
      1929  anulada. Filiao de duas sociedades escandinavas: uma fino-sueca, outra
      dano-norueguesa. A primeira ser a origem de duas sociedades separadas, uma
      sueca, em 1943, outra finlandesa, em 1969; a segunda ser a origem de duas outras
      sociedades, uma dinamarquesa, em 1957, outra norueguesa, em 1975.


                                            1935
      dezembro Em uma sesso da DPG, presidida por Ernest Jones, que defende uma
      poltica de "salvamento da psicanlise na Alemanha", os titulares judeus so
      obrigados a pedir demisso. Bernardt Kamm, que no  judeu, se solidariza com
      eles. John Rittmeister, membro da rede Orquestra Vermelha, ser executado pelos
      nazistas. Karl Landauer ser deportado. Marie Langer, membro do Partido Comu-
      nista Austraco, emigra para a Espanha a fim de lutar contra o fascismo; dali, ir
      para a Amrica Latina.


                                            1936
      julho Negociaes, em Basilia, entre Ernest Jones, Abraham A. Brill, Felix
      Boehm e Carl Mller-Braunschweig, para ligar a DPG ao instituto de Matthias
      Gring. O Instituto Psicanaltico de Berlim ser convertido em instituto "arianiza-
      do".
      2-8 agosto XIV Congresso da IPA em Marienbad (presidente: Ernest Jones).
      Filiao de um Grupo de Estudos tchecoslovaco, criado por Theodor Dosuzkov e
      de um Grupo de Estudos helnico criado por Andreas Embiricos.
      Violentos conflitos entre os vienenses (partidrios de Anna Freud) e os membros
      da BPS (que defendem as teses de Melanie Klein). Conflitos entre esta e sua filha
      Melitta Schmideberg, defendida por Edward Glover. Jacques Lacan faz a sua
      exposio sobre o estdio do espelho. Ernest Jones lhe corta a palavra ao fim de
      dez minutos. Jacques Lacan vai depois s Olimpadas de Berlim. Voltando a
      Noirmoutier, redige "Mais-alm do princpio de realidade".
      outubro Chegada a So Paulo de Adelheid Koch.
      Roland Dalbiez publica O mtodo psicanaltico e a doutrina freudiana, primeira
      tese de mestrado de filosofia, na Frana, sobre Freud.
      Thomas Mann publica Freud e o pensamento moderno.


                                            1937
      5 de fevereiro Morte de Lou Andreas-Salom.
      Sigmund Freud publica Anlise terminvel e interminvel.
      Jacques Lacan redige para a Enciclopdia francesa um texto sobre a famlia, que
      ser corrigido por Lucien Febvre.
      julho Ludwig Jekels volta a Viena, sem ter conseguido organizar a psicanlise
      na Sucia. Instala-se em Nova York, depois de passar pela Austrlia.
                                                                     cronologia     815

setembro Na Noruega, comea uma vasta campanha de difamao contra Wil-
helm Reich, que  qualificado de "psicopata", "charlato" e "porngrafo judeu".


                                     1938
31 de maro A WPV decide dissolver-se e transferir-se "para onde Freud for
morar".
3 de junho Graas  interveno de William Bullitt e ao pagamento de um
resgate por Marie Bonaparte, Sigmund Freud consegue deixar Viena com sua
mulher e sua filha. Minna Bernays e dois dos filhos de Freud j esto em Londres.
5 de junho Sigmund Freud chega a Paris de manh.  noite, h uma recepo
em sua homenagem na rua Adolphe-Yvon, na casa de Marie Bonaparte, e na
presena dos psicanalistas franceses. Jacques Lacan no est presente.
6 de junho Partida de Sigmund Freud para Londres. Instala-se em Maresfield
Gardens, 20.
19 de julho Salvador Dali visita Sigmund Freud e faz o seu retrato. Freud rev
o seu conceito sobre o surrealismo.
29 de julho XV Congresso da IPA em Paris (presidente: Ernest Jones). No
discurso de encerramento, Jones anuncia o triunfo da sua poltica de "salvamento"
na Alemanha e se alegra com a "autonomia" da nova DPG.  noite, uma festa 
organizada em homenagem a todos os participantes (cuja maioria  de exilados
vienenses) em Saint-Cloud, na casa de Marie Bonaparte. Yvette Guilbert canta
Dites-moi que je suis belle.
Na Itlia, so promulgadas leis anti-semitas de exceo. Os psicanalistas judeus
emigram.


                                     1939
janeiro Chegada de Michael e Alice Balint a Manchester.
Edoardo Weiss deixa a Itlia para ir a Topeka, no Kansas,  Menninger Clinic
(fundada por Karl Menninger). Rene-se depois a Franz Alexander em Chicago.
abril Matthias Gring vai a Oslo para criar um instituto arianizado, de acordo
com o modelo de Berlim. Vrios psicanalistas noruegueses entram para a resis-
tncia antinazista. Harald Schjelderup  internado em um campo de concentrao.
Paul Bernstein  deportado e morre na Alemanha, em um campo.
23 de setembro Morte de Sigmund Freud, s trs horas da manh, em sua casa
de Londres. A seu pedido, e com o consentimento de Anna Freud, Max Schur lhe
injeta uma dose de trs centigramas de morfina, por trs vezes.


                                     1940
janeiro Vindo da Espanha, Franois Tosquelles aceita um cargo no Hospital
Psiquitrico de Saint-Alban en Lozre, dirigido por Paul Balvet. Incio do movi-
mento de psicoterapia institucional.
816    cronologia

      dezembro Ren Laforgue encontra-se em Paris com funcionrios nazistas. Geor-
      ges Parcheminey reorganiza o servio psiquitrico do Hospital Sainte-Anne, sob
      a direo do professor Laignel-Lavastine, e depois de Jean Delay.


                                           1941

      Em Nova York, ciso na NYPS, em torno de Karen Horney, que funda a Association
      for the Advancement of Psychoanalysis (AAP).


                                           1942

      janeiro Fases preparatrias das Grandes Controvrsias que oporo Melanie
      Klein e Anna Freud no seio da BPS.
      fevereiro O psicanalista Georges Mauco, colaborador de Georges Montandon,
      publica em L'Ethnie Franaise um artigo racista e anti-semita sobre a "imigrao
      estrangeira" na Frana.
      29 de junho Maria Freud, Adolfine Freud e Paula Winternitz so deportadas para
      o campo de concentrao de Theresienstadt. Em 23 de setembro, Maria e Paula
      sero transferidas para o campo de Maly Trostinec.
      27 de julho Morte de Sabina Spielrein, executada pelos alemes em Rostov.
      28 de agosto Rosa Graf, quarta irm de Sigmund Freud,  deportada para o
      campo de Theresienstadt.
      21 de outubro Incio das Grandes Controvrsias na BPS. Edward Glover levanta
      a questo da validade das teses kleinianas.
      dezembro Criao da Associacin Psicoanaltica Argentina (APA), por Celes
      Ernesto Crcamo, Angel Garma, Enrique Pichon-Rivire, Marie Langer, Arnaldo
      Rascovsky, Guillermo Ferrari Hardoy.


                                           1943

      janeiro Ren Laforgue recebe a ltima carta de Matthias Gring. No sul da
      Frana, conseguiu ajudar Oliver Freud e sua mulher a escapar pela fronteira
      espanhola. Ele  ento analista de Eva Freud, filha de Oliver Freud, neta de
      Sigmund Freud.
      5 de fevereiro Morte de Adolfine Freud no campo de Theresienstadt.
      No Mxico, formao de um Grupo de Estudos sobre a Psicanlise, dirigido por
      Santiago Ramirez, Jos Luiz Gonzales, Ramon Parres.
      No Chile, Ignacio Matte-Blanco consolida o Grupo Psicanaltico de Santiago.
      Dissoluo da Sociedade Psicanaltica Fino-Sueca e criao da Svenska Psykoa-
      nalytisk Freningen (SPF, Sucia).
                                                                      cronologia     817

                                      1944
5 de junho Criao do Grupo Psicanaltico de So Paulo, por Adelheid Koch,
Durval Marcondes, Flvio Dias, Virgnia Bicudo, Darcy de Mendona Uchoa e
Frank Philips. Ser filiado, como sociedade componente, no Congresso da IPA em
Amsterdam, em 1951.

                                      1945
14 de julho Otto Fenichel tenta convencer James Strachey a publicar a Standard
Edition nos Estados Unidos.
Ernest Jones se torna bigrafo de Sigmund Freud. Constituio, pelos herdeiros
diretos de Freud, de uma histria oficial baseada nos arquivos.
outubro Instalao de Michael Balint em Londres.
dezembro Reconstituio da WPV sob a direo de August Aichhorn, com
Wilhelm Solms e Alfred von Winterstein.

                                      1946
janeiro Criao, por Maryse Choisy, da revista Psych.
Primeiro congresso para a reconstituio da Societ Psicoanalitica Italiana, em
torno de Cesare Musatti, Niccola Perrotti e Alessandra Tomasi (princesa de
Lampedusa, esposa do autor do Leopardo).
26 de junho Fim das Grandes Controvrsias. A BPS se divide em trs grupos: os
annafreudianos, os kleinianos e os independentes.
julho Criao, em Bucareste, da Sociedade Romena de Psicopatologia e Psico-
terapia.
No Rio de Janeiro, realiza-se o I Congresso Latino-Americano de Psicanlise.
Efetua-se uma fuso entre a APA e o Grupo Psicanaltico de So Paulo.
Formado na Argentina, Valentin Prez Pastorini volta a Montevidu, no Uruguai,
para formar psicanalistas.

                                      1947
20 de janeiro Criao, por Maurice Dugautiez e Fernand Lechat, da Associao
dos Psicanalistas da Blgica. Ser filiada  IPA durante o Congresso Internacional
de Zurique em julho de 1949, e se tornar a Sociedade Belga de Psicanlise (SBP).
dezembro Criao da revista Psyche por Alexander Mitscherlich, para promover
um humanismo psicanaltico. Incio da reflexo sobre o nazismo e a psicanlise na
Alemanha.
Ciso na Washington-Baltimore Psychoanalytic Society e criao de duas socie-
dades distintas: a Washington Psychoanalytic Society (WPS) e a Baltimore Psy-
choanalytic Society (BaPS).
Criao da revista Samiska, por Girndrashekhar Bose.
818    cronologia

                                            1948
      Retorno a Bogot, na Colmbia, de Arturo Lizararo, analisado no Chile por
      Fernando Allende Navarro. Forma um grupo de psicanalistas que ser reconhecido
      pela IPA como Grupo de Estudos no Congresso de Paris, em 1957.
      Ciso na Philadelphia Psychoanalytic Society (PPS) e criao, um ano depois, da
      Philadelphia Association for Psychoanalysis (PAP).


                                            1949
      27 de janeiro O jornal L'Humanit publica, assinado por Guy Leclerc, um artigo
      intitulado "A psicanlise, ideologia de baixa civilizao e de espionagem". Por
      iniciativa da URSS, lanamento da campanha jdanoviana contra a psicanlise no
      PCF.
      maro Criao da Deutsche Gesellschaft fr Psychoterapie und Tiefen-psycho-
      logie, composta de vrias tendncias: Carl Mller-Braunschweig (freudianos),
      Harald Schultz-Hencke (neopsicanlise), aos quais se renem independentes como
      Alexander Mitscherlich.
      junho Publicao, em La Nouvelle Critique, de "A psicanlise, uma ideologia
      reacionria", artigo condenando a psicanlise, assinado por Serge Lebovici, Lucien
      Bonnaf, Sven Follin, Jean e Evelyne Kestemberg, Louis Le Gaillant, Jules
      Monnerot e Salem Shentoub.
      15 de agosto XVI Congresso da IPA em Zurique (presidente: Ernest Jones).
      Admite-se o princpio da reconstituio da DPG (Alemanha), composta de dois
      grupos rivais. Filiao da Asociacin Psicoanaltica de Argentina (APA), da
      Asociacin Psicoanaltica Chilena (APC) e da Sociedade Belga de Psicanlise
      (SBP). Nessa data, doze sociedades, distribudas por dez cidades, se filiam 
      American Psychoanalytic Association (APA): Nova York, Washington, Baltimore,
      Chicago, Boston, Filadlfia, Topeka, Detroit, So Francisco e Los Angeles. Jacques
      Lacan: "O estdio do espelho como formador da funo do Eu".


                                            1950
      18-27 de setembro I Congresso da Associao Mundial de Psiquiatria, organiza-
      do por Henri Ey, em Paris.
      Primeira publicao em alemo da correspondncia (1887-1902) de Sigmund
      Freud com Wilhelm Fliess, sob o ttulo Aus den Anfngen der Psychoanalyse.
      (Verso expurgada. Traduo inglesa, 1954. Traduo francesa, 1956.)
      Criao, por Werner Kemper, de um Centro de Estudos Psicanalticos, que se
      tornar a Sociedade Psicanaltica do Rio de Janeiro (SPRJ), filiada  IPA em 1955.
      Criao, pelos alunos de Otto Fenichel e de Ernst Simmel, de um grupo califor-
      niano da IPA favorvel  anlise leiga: Southern California Psychoanalytic Society
      (SCPS).
      Dissoluo do Grupo de Estudos Helnico.
                                                                      cronologia     819

                                      1951

7 de agosto XVII Congresso da IPA em Amsterdam (presidente: Leo Barte-
meier). Depois de uma ciso no seio da DPG, uma nova sociedade alem, a
Deutsche Psychoanalitische Vereinigung (DPV), se filia  IPA, sob a direo de
Carl Mller-Braunschweig. A DPG, sob a direo de Harald Schultz-Hencke, fica
fora da IPA. Filiao da Sociedade Brasileira de Psicanlise de So Paulo (SBPSP).
10 de novembro Conferncia de Siegfried Bernfeld sobre a formao dos
psicanalistas no Instituto de Psicanlise de So Francisco.


                                      1952

15 de abril Discurso de Pio XII no Congresso Internacional de Psicoterapia e de
Psicologia Clnica: evocao dos "perigos" da psicanlise.
17 de junho Criao do Instituto de Psicanlise. Na SPP, incio da crise que
levar  primeira ciso da histria do movimento psicanaltico francs. Episdio
da "Discrdia dos mestres", com a eleio do grupo de Sacha Nacht para o comit
diretor do Instituto.


                                      1953
4 de abril Morte de Siegfried Bernfeld.
16 de junho Demisso da SPP de Juliette Favez-Boutonier, Daniel Lagache,
Franoise Dolto, Jacques Lacan e Blanche Reverchon-Jouve. Fim da primeira
ciso na Frana.
18 de junho Anncio oficial da criao, por Daniel Lagache, da Sociedade
Francesa de Psicanlise (SFP).
8 de julho Conferncia de Jacques Lacan na SFP: "O Simblico, o Imaginrio e
o Real".
26 de julho XVIII Congresso Internacional da IPA em Londres (presidente:
Heinz Hartmann). Este recusa a filiao dos demissionrios da SPP e confia o
exame de sua candidatura a uma comisso de investigao composta por Donald
W. Winnicott, Jeanne Lampl-De Groot, Phyllis Greenacre, Willi Hoffer. Exposio
de Ernest Jones sobre as primeiras viagens de Freud.
agosto Jacques Lacan redige o "Discurso de Roma": "Funo e campo da fala e
da linguagem na psicanlise".
outubro Criao da Canadian Psychoanalytic Society (CPS), que ser filiada 
IPA em 1957.


                                      1955
26 de julho XIX Congresso da IPA em Genebra (presidente: Heinz Hartmann).
Recusa oficial de reconhecer a SFP. Relatrio da comisso presidida por Donald
820    cronologia

      W. Winnicott. Filiao da Sociedade Psicanaltica do Rio de Janeiro (SPRJ). Criada
      por Heisaku Kosawa, a Sociedade Japonesa de Psicanlise se filia  IPA.
      setembro Criao, por Willy Baranger, da Asociacin Psicoanaltica del Uruguay
      (APU). Ser filiada  IPA em 1961.
      7 de novembro Conferncia de Jacques Lacan em Viena: "A coisa freudiana ou
      Sentido do retorno a Freud em psicanlise". Anuncia que, segundo uma informao
      transmitida por Carl Gustav Jung, Sigmund Freud teria dito ao chegar a Nova York:
      "Eles no sabem que lhes trazemos a peste". Incio do mito francs da peste na
      histria da psicanlise.
      dezembro A Congregao do Santo Ofcio inclui no Index obras de Angelo
      Hesnard: Moral sem pecado (1954), O universo mrbido do pecado (1959),
      Manual de sexologia normal e patolgica (1951).


                                            1956

      maro Publicao do primeiro nmero de La Psychanalyse, revista da SFP, sobre
      o tema: "Do uso da fala e das estruturas de linguagem na conduo do tratamento
      e no campo da psicanlise". Com mile Benveniste, Jean Hyppolite, Daniel
      Lagache e Jacques Lacan.
      5-6 de maio Celebrao, em Londres, do centsimo aniversrio do nascimento
      de Sigmund Freud.


                                            1957

      janeiro A revista La Raison, dirigida por Henri Wallon e Lucien Bonnaf,
      anuncia que a publicao de A psicanlise de hoje marca um momento importante
      na evoluo da psicanlise. Essa declarao coincide com o fim da campanha do
      PCF contra a psicanlise.
      28 de julho XX Congresso da IPA em Paris (presidente: Heinz Hartmann).
      Filiao da Canadian Psychoanalytic Society (CPS) e da Dansk Psykoanalytisk
      Selskat (DPS, Dinamarca). Reconhecimento, como grupo de estudos, da Socie-
      dade Psicanaltica Luso-Ibrica, patrocinada pela Sociedade Sua de Psicanlise
      (SSP).
      3 de novembro Morte de Wilhelm Reich.


                                            1959

      16-30 de julho XXI Congresso da IPA em Copenhague (presidente: William H.
      Gillespie). A executiva central pede a criao de um novo comit consultivo para
      examinar a candidatura francesa. Filiao da Sociedade Brasileira de Psicanlise
      do Rio de Janeiro (SBPRJ), fundada por alunos de Mark Burke e por Danilo e
      Marialzira Perestrello e Alcyon Baer Bahia.
                                                                     cronologia     821

                                     1960

21 de maro Carta de William Gillespie, presidente da IPA, a Angelo Hesnard,
para anunciar a ida a Paris de um novo comit consultivo, composto por Paula
Heimann, Ilse Hellman, P.J. Van der Leeuw, e presidido por Pierre Turquet.
abril Serge Leclaire inicia uma longa correspondncia com Pierre Turquet.
Comeo do "grande jogo", que levar  segunda ciso do movimento psicanaltico
francs. Constituio da trica: Serge Leclaire, Wladimir Granoff e Franois
Perrier.
5-9 de setembro Colquio internacional em Amsterdam sobre a sexualidade
feminina, com Jacques Lacan, Daniel Lagache, Franoise Dolto, Franois Perrier,
Wladimir Granoff e Franz Alexander.
22 de setembro Morte de Melanie Klein.
Criao de um Conselho Coordenador das Organizaes Psicanalticas da Amrica
Latina (COPAL), destinado a defender os interesses das sociedades psicanalticas
latino-americanas filiadas  IPA.



                                     1961

21 de maio Defesa de tese de Michel Foucault sobre a Histria da loucura na
idade clssica.
2 de agosto XXII Congresso da IPA em Edimburgo (presidente: William Gilles-
pie). A SFP  obrigada a retirar sua candidatura  filiao como sociedade
componente, para aceitar o estatuto de grupo de estudos patrocinado por um comit
ad hoc. Dezenove recomendaes so emitidas pela executiva central, entre as
quais um pedido de afastamento de Jacques Lacan, Franoise Dolto e Angelo
Hesnard das anlises didticas. Serge Leclaire  admitido como membro da IPA a
ttulo pessoal. Filiao da Sociedad Colombiana de Psicoanalisis e da Asociacin
Psicoanaltica del Uruguay (APU).
outubro Ola Andersson publica Studies in the Prehistory of Psychoanalysis,
primeira pesquisa de histria erudita sobre as origens do freudismo por um autor
sueco membro da IPA.



                                     1962

5 de agosto Suicdio de Marilyn Monroe: a conselho de Marianne Kris, sua
analista, ela se recusara a interpretar o papel de Cecily no filme de John Huston
Freud, alm da alma, segundo o roteiro de Jean-Paul Sartre.
novembro No mosteiro beneditino de Cuernavaca, no Mxico, o padre Grgoire
Lemercier realiza uma experincia de tratamento psicanaltico com diversos
monges. No conclio, enfatiza a necessidade de submeter os religiosos  anlise.
822    cronologia

                                             1963
      31 de julho XXIII Congresso da IPA em Estocolmo (presidente: Maxwell Gitel-
      son). A SFP conserva o seu estatuto de grupo de estudos. Wladimir Granoff 
      admitido como membro da IPA a ttulo pessoal. Filiao da Sociedade Psicanaltica
      de Porto Alegre, oriunda de um grupo original formado por Mrio Martins, David
      Zimmermann e Zaira Bittencourt Martins.
      2 de agosto Deciso da executiva central da IPA, conhecida sob o nome de
      "Diretiva de Estocolmo": pedido de supresso do nome de Jacques Lacan da lista
      de didatas da SFP. A supresso deve se efetivar antes de 31 de outubro. Uma anlise
      suplementar ser exigida dos candidatos ainda em formao com ele.
      19 de novembro Fim da segunda ciso da histria do movimento psicanaltico
      francs. A terceira gerao ser doravante dividida em trs grupos psicanalticos:
      dois pertencentes  IPA e outro, sempre freudiano mas de orientao lacaniana,
      fora da legitimidade da IPA.
      20 de novembro ltima conferncia de Jacques Lacan no Hospital Sainte-Anne:
      "Os nomes do pai". Graas a Louis Althusser, Lacan instala-se na cole Normale
      Suprieure. Aceita a proposta de Franois Wahl de publicar uma obra nas ditions
      du Seuil.

                                             1964
      janeiro Muriel Gardiner: "A velhice do Homem dos Lobos". (Primeira etapa de
      um trabalho sobre a histria e a identificao de um grande caso de Freud.)
      3 de abril Criao da coleo "O Campo Freudiano", dirigida por Jacques Lacan,
      nas ditions du Seuil.
      26 de maio Criao da Associao Psicanaltica da Frana (APF). Principais
      membros: Daniel Lagache, Georges Favez, Juliette Favez-Boutonier, Jean-Ber-
      trand Pontalis, Jean Laplanche, Didier Anzieu e Wladimir Granoff.
      21 de junho Criao, por Jacques Lacan, da cole Franaise de Psychanalyse,
      que se tornar cole Freudienne de Paris (EFP) em setembro. O discurso "Eu
      fundo..."  gravado.
      John Huston realiza o filme Freud, alm da alma. Jean-Paul Sartre retirou seu nome
      dos crditos. Seu roteiro ser publicado em 1984, depois de sua morte.

                                             1965
      28 de julho XXIV Congresso da IPA em Amsterdam (presidente: William Gilles-
      pie). Filiao da APF. Nessa data, existem na Frana trs sociedades psicanalticas:
      a SPP (83 membros), a APF (26 membros), a EFP (134 membros). S as duas
      primeiras so filiadas  IPA, ou seja, 109 psicanalistas. O freudismo francs de
      inspirao lacaniana  majoritrio e encontra-se fora da IPA. Com o fim da segunda
      ciso do movimento psicanaltico francs, comea a expanso do movimento
      lacaniano. Em uma conferncia no congresso, Ola Andersson revela a verdadeira
      identidade de Emmy von N., primeira paciente de Freud tratada pela psicanlise.
                                                                      cronologia     823

Ao mesmo tempo que Muriel Gardiner, ele abre caminho para o estudo histrico
dos grandes casos de Freud. Sua conferncia ser publicada em 1979.


                                      1966
Publicao em Paris do primeiro nmero da revista Cahiers pour l'Analyse, pelo
crculo de epistemologia da cole Normale Suprieure.
18-21 de outubro Simpsio sobre o estruturalismo na Universidade Johns Hop-
kins em Baltimore. Entre os convidados franceses, Jacques Derrida, Jean-Pierre
Vernant, Tzvetan Todorov e Jacques Lacan.
15 de novembro Publicao dos crits de Jacques Lacan.


                                      1967
25 de julho XXV Congresso da IPA em Copenhague (presidente: P.J. Van der
Leeuw). Depois de uma ciso na Sociedade Luso-Espanhola, trs sociedades so
filiadas: a Sociedade Portuguesa de Psicanlise, a Sociedad Espaola de Psicoa-
nalisis (Barcelona), a Asociacin Psicoanaltica de Madri.
9 de outubro Discurso de Jacques Lacan na EFP para propor o passe, isto , um
novo modo de acesso ao estatuto de psicanalista didata. Haver duas verses dessa
proposta. Incio da crise que levar a EFP  ciso.
Publicao do Vocabulrio da psicanlise, redigido por Jean Laplanche e Jean-
Bertrand Pontalis. A obra ser traduzida no mundo inteiro (22 lnguas).


                                      1969
17 de maro Criao, pelos demissionrios da EFP, da Organizao Psicanaltica
de Lngua Francesa (OPLF), tambm chamada Quarto Grupo. Fim da terceira ciso
da histria do movimento psicanaltico francs. Nessa data, duas sociedades de
inspirao freudiana esto fora da IPA.
Andr Stphane: O universo contestatrio. Esse  o pseudnimo de Janine Chas-
seguet-Smirgel e Bela Grunberger, psicanalistas conservadores da SPP. Os contes-
tatrios de maio so qualificados de "cristos novos" e Daniel Cohn-Bendit de
"mau judeu", de tendncia "anal". Anne-Lise Stern, membro da EFP, protesta no
Le Nouvel Observateur, assinando com seu nmero de deportada.
8 de julho Criao da Escola Belga de Psicanlise (EBP) por Antoine Vergote,
Jacques Schotte, Paul Duquenne e Jean-Claude Quintart. Presidente de honra:
Alphonse de Waelhens.
25 de julho XXVI Congresso da IPA em Roma (presidente: P.J. Van der Leeuw).
Filiao da Societ Psicanalitica Italiana (SPI). Grande movimento de contestao
no seio das sociedades europias filiadas  IPA visando uma reforma dos currculos
e da formao.  margem do congresso, rene-se um grupo de psicanalistas
contestatrios, em torno de Elvio Fachinelli. Formao do grupo Plataforma por
psicanalistas argentinos, entre os quais Marie Langer.  destinado a estender a
824    cronologia

      revolta a todas as sociedades psicanalticas. Filiao da Suomen Psykoanallyytinen
      Yhdistys (SPY, Finlndia) e da Asociacin Venezolana de Psicoanlisis (AVP).
      Criao da Federao Europia de Psicanlise (FEP), destinada a controlar a
      contestao.
      12 de setembro Criao, por Maud Mannoni e Robert Lefort, da Escola Experi-
      mental de Bonneuil-sur-Marne. Ser reconhecida como hospital-dia em 17 de
      maro de 1975.


                                            1970

      fevereiro Henri F. Ellenberger publica The Discovery of the Unconscious. The
      History and Evolution of Dynamic Psychiatry, primeiro livro extenso de histria
      escrito por um autor no-pertencente  IPA. O modelo biogrfico da historiografia
      oficial  efetivamente questionado.


                                            1971

      27 de julho XXVII Congresso da IPA em Viena (presidente: Leo Rangell).
      Primeiro congresso na ustria desde 1927. Os membros do grupo Plataforma
      deixam a APA. Outro grupo assume o nome de Documento para continuar a
      contestao no interior da APA. No fim do ano, trinta psicanalistas pedem demisso
      da APA, alm de vinte candidatos. Primeira ruptura na APA.


                                            1973

      26 de julho XXVIII Congresso da IPA em Paris (presidente: Leo Rangell).
      Eleio para a presidncia de Serge Lebovici, primeiro francs a ocupar essa
      funo. Unificao das duas sociedades componentes francesas da IPA, a APF e a
      SPP.
      Filiao da Australian Psychoanalytical Society (APS).
      outubro Marie Langer revela publicamente que Amlcar Lobo, psicanalista em
      formao no Rio de Janeiro e analisado por Leo Cabernite,  um torturador a
      servio da ditadura. Leo Cabernite, presidente da SPRJ, foi analisado por Werner
      Kemper, ex-nazista colaborador de Matthias Gring. Informado do caso por
      Helena Besserman Vianna, Serge Lebovici, presidente da IPA, escreve a Cabernite.
      16-19 de dezembro Armando Verdiglione, criador do grupo Semitica e Psica-
      nlise e analisado por Jacques Lacan, organiza o seu primeiro colquio internacio-
      nal em Milo, sobre o tema "Psicanlise e poltica". Presena de muitos psicanalis-
      tas e intelectuais franceses.
      Incio das reunies de confrontao, animadas por Ren Major e Dominique
      Geahchan em Paris. Dissidncia na SPP. O grupo assumir em seguida o nome de
      Confrontao e suas atividades tero fim em 1982.
                                                                      cronologia     825

                                      1974
28 de junho Fundao, por dezenove psicanalistas, entre os quais Oscar Masotta
e Isidoro Vegh, da Escuela Freudiana de Buenos Aires (EFBA), a partir do modelo
da EFP. Incio da expanso do movimento lacaniano na Argentina.


                                      1975
20 de janeiro Um grupo separatista no interior da APA toma o nome de Ateneo
Psicoanaltico, com a inteno de propor uma reforma da formao didtica. Incio
de um processo de ciso.
25 de julho XXIX Congresso da IPA em Londres (presidente: Serge Lebovici).
Filiao da Norsk Psykoanalytisk Forening (NPF, Noruega).


                                      1977
11 de fevereiro Criao, por Oscar Masotta, da Biblioteca Freudiana de Barce-
lona.
27 de julho XXX Congresso da IPA em Jerusalm (presidente: Serge Lebovici).
A direo da IPA apresenta um projeto de nova constituio e define a nova diviso
do mundo psicanaltico em trs zonas:
  1) tudo o que se acha ao norte da fronteira mexicana;
  2) tudo o que se acha ao sul da mesma fronteira;
  3) o resto do mundo.
Anna Freud dirige ao congresso um texto no qual declara que o qualificativo de
"cincia judaica" para a psicanlise representa, na ocasio, um ttulo de glria.
O grupo Ateneo Psicoanaltico torna-se sociedade provisria, sob o nome de
Asociacin Psicoanaltica de Buenos Aires (ABdeBA). Fim da ciso na Argentina.
Criao de um instituto de psicanlise no Peru.


                                      1978
13 de novembro Por recomendao de Kurt Eissler, diretor dos Arquivos Freud,
Anna Freud d consentimento a Jeffrey Moussaev Masson para tratar da publica-
o da correspondncia entre Sigmund Freud e Wilhelm Fliess. Incio de uma
grande turbulncia nos Arquivos Freud, que inaugura a "reviso" da historiografia
freudiana.


                                      1979
27 de julho XXXI Congresso da IPA em Nova York (presidente: Edward Jo-
seph). A pedido de um membro da APS (Austrlia), a IPA condena, em votao
aberta, a violao dos direitos humanos na Argentina e a utilizao dos mtodos
psiquitricos e psicoterpicos para fins de privao da liberdade.
826    cronologia

      Dissoluo da COPAL, que ser substituda um ano depois pela Federacin
      Psicoanaltica de America Latina (FEPAL).
      30 de setembro Incio do Simpsio Internacional sobre o Inconsciente em Tbilis-
      si, na Gergia, organizado por Lon Chertok e Philippe Bassine. Assemblia geral
      da EFP assinalando o comeo do processo de dissoluo. Jacques Lacan no fala
      mais.


                                            1980
      5 de janeiro Em Paris, difuso de uma carta de dissoluo da EFP, com a
      assinatura de Jacques Lacan. Ser publicada no jornal Le Monde.
      8 de janeiro Jacques Lacan l essa carta em seu Seminrio e acrescenta: "Foi o
      que assinei com meu nome, Jacques Lacan, em Guitrancourt, no dia 5 de janeiro
      de 1980."
      setembro Colquio no Rio de Janeiro sobre o tema "Psicanlise e fascismo". Um
      prisioneiro poltico testemunha que viu Amlcar Lobo participar da tortura. Debates
      na imprensa brasileira. Helena Besserman Vianna  reabilitada.


                                            1981
      3 de janeiro Em Paris, a Causa Freudiana anuncia, por correspondncia, a cria-
      o de uma Escola da Causa Freudiana (ECF). Seus dirigentes pertencem majori-
      tariamente  quinta gerao psicanaltica francesa.
      fevereiro Encontro franco-latino-americano em Paris, organizado por Ren Ma-
      jor, para criticar a poltica da IPA quanto aos regimes ditatoriais. Conferncia de
      Jacques Derrida denunciando o terror, as concesses da IPA e a diviso em "zonas".
      25 de julho XXXII Congresso da IPA em Helsinki (presidente: Edward Joseph).
      A nova constituio  adotada. A psicanlise  definida como uma terapia e sua
      teoria como emanando das descobertas de Sigmund Freud. A diviso do mundo
      em trs zonas (Amrica do Norte, Amrica do Sul, Europa)  confirmada.
      18-25 de agosto Publicao, no New York Times, de dois artigos de Ralph Blu-
      menthal sobre a publicao da correspondncia entre Sigmund Freud e Wilhelm
      Fliess, e sobre as declaraes de Jeffrey Moussaev Masson a respeito da renncia
       teoria da seduo. Escndalo nos Arquivos Freud. Masson ser demitido de suas
      funes em novembro.
      9 de setembro Morte de Jacques Lacan.


                                            1982
      26 de junho Criao em Paris, por Charles Melman, da Associao Freudiana
      (AF), que se tornar internacional em 1992.
      9 de julho Criao por Octave Mannoni, Maud Mannoni e Patrick Guyomard do
      Centre de Formation et de Recherches Psychanalytiques (CFRP).
                                                                      cronologia     827

9 de outubro Morte de Anna Freud em Londres. Sua casa, em Maresfield Gar-
dens, 20, se tornar o Freud Museum.

                                      1983
26 de julho XXXIII Congresso da IPA em Madri (presidente: Adam Limentani).
Filiao da Asociacin Psicoanaltica de Mendoza (APM) e de um novo grupo de
estudos helnico.

                                      1984
abril Simpsio da IPA em Taunton (Inglaterra) sobre o tema "As mudanas
ocorridas nos analistas e em sua formao". Nessa ocasio, Adam Limentani,
presidente da IPA, declara a propsito de Jacques-Alain Miller: "O genro de Lacan
 extremamente ativo e tem a inteno de apoderar-se de uma boa parte da Europa,
inclusive Londres e especialmente a Tavistock Clinic".

                                      1985
janeiro Os membros do Psychoanalytisches Seminr de Zurique planejam a
formao de um contra-congresso em julho, em Hamburgo, para criticar a linha
oficial da IPA e a ocultao do passado no caso do "salvamento" da psicanlise
sob o nazismo.
30 de maio Morte de Georges Devereux.
26 de julho XXXIV Congresso da IPA em Hamburgo (presidente: Adam Limen-
tani). Primeiro congresso na Alemanha desde 1932. A direo da IPA decidiu no
falar da poltica de Ernest Jones, mas organizou-se uma exposio sobre o perodo
nazista, com a publicao de um catlogo.

                                      1987
27 de julho XXXV Congresso da IPA em Montral (presidente: Robert S. Wal-
lerstein). Nessa data, a IPA compreende 6.300 membros, 23 sociedades compo-
nentes, 4 grupos de estudos. A progresso  de 500 membros por ano.  decidido
que o XXXVII Congresso se realizar em uma cidade da Amrica Latina. Filiao
da Sociedad Peruana de Psicoanalisis. Incio da reconstruo da psicanlise nos
antigos pases comunistas, sob a influncia da poltica de Mikhail Gorbachev. Essa
reconstruo se far essencialmente sob a gide da IPA, e pela difuso das teorias
da escola inglesa, principalmente a kleiniana.

                                      1988
27 de agosto Morte de Franoise Dolto.
1 de novembro Primeiro colquio da Associao dos Psicanalistas de Praga
sobre a sexualidade feminina, organizado com a SPP (Paris). Integrao dessa
828    cronologia

      associao como componente do ramo "psicoterapia" da seo psiquitrica da
      Sociedade Mdica Tcheca.


                                            1989
      27 de julho XXXVI Congresso da IPA em Roma (presidente: Robert S. Wallers-
      tein). Toma-se a deciso de realizar o prximo congresso em Buenos Aires, na
      Argentina.
      23 de setembro Qinquagsimo aniversrio da morte de Sigmund Freud. Uma
      celebrao oficial  organizada em Maresfield Gardens, 20, que se tornou o Freud
      Museum desde 1986, graas  Fundao New-Land, criada por Muriel Gardiner.
      Nessa data, a IPA est implantada em 15 pases da Europa. A Hungria  o nico
      pas comunista em que se manteve um grupo freudiano. Na Frana, a IPA rene
      duas sociedades componentes: a SPP (431 membros) e a APF (52 membros). As
      associaes psicanalticas oriundas da dissoluo da EFP so dezessete, s quais
      se acrescentam dois outros grupos: a OPLF (1969) e o Colgio dos Psicanalistas
      (1980). Dos vinte grupos franceses, nove funcionam por simples cooptao,
      enquanto os onze outros realizam uma formao didtica. Duas sociedades de
      histria da psicanlise foram criadas: a SIHPP e a AIHP. Nessa data, 36 peridicos
      atuam no campo do freudismo francs.


                                            1990
      fevereiro Criao, em Bucareste, da Societatii Romane de Psihanaliza (SRP).
      Criao em Moscou, por Aron Belkin, de uma Associao Psicanaltica da Unio
      Sovitica, que se tornar a Associao Psicanaltica Russa.
      24-27 de maio Colquio internacional (tema: "Lacan com os filsofos") na
      Unesco, em Paris. O colquio  organizado por Ren Major, no mbito do Collge
      International de Philosophie, com a colaborao de Philippe Lacoue-Labarthe e
      Patrick Guyomard. Rene muitos pesquisadores franceses e estrangeiros que
      trabalham a partir da obra de Jacques Lacan.
      22-23 de setembro Criao em Barcelona, por Jacques-Alain Miller, de uma
      Escola Europia de Psicanlise, primeiro passo do legitimismo lacaniano em
      direo a uma mundializao de seu movimento. A crise institucional da ECF
      resulta assim na consolidao da corrente dogmtica em escala internacional.


                                            1991
      28 de julho XXXVII Congresso da IPA em Buenos Aires (presidente: Joseph
      Sandler). Pela primeira vez desde a sua criao, a IPA realiza o seu colquio anual
      na Amrica Latina, e pela segunda vez fora da Europa (depois de Nova York em
      1979). Nessa ocasio,  eleito presidente da IPA Horacio Etchegoyen, primeiro
      presidente de lngua espanhola e de nacionalidade latino-americana. Durante esse
      congresso, o conselho executivo da IPA reafirma que todas as sociedades compo-
      nentes devem aplicar os padres em vigor: as supervises e as anlises didticas
                                                                        cronologia      829

devem ter quatro sesses por semana, de 45 minutos cada uma, em dias diferentes.
Uma nova categoria de grupo de estudos  criada, os "Convidados". Esse estatuto
permite convidar grupos recentemente criados em pases onde a psicanlise no
existia. Trata-se, doravante, de integrar os grupos que se formam nos pases
liberados do comunismo.
6 de setembro Criao em Varsvia da Sociedade Polonesa para o Desenvolvi-
mento da Psicanlise,  qual se reunir um Instituto de Psicanlise e de Psicotera-
pia.


                                       1992
1 de fevereiro Criao, por Jacques-Alain Miller, da Associao Mundial de
Psicanlise (AMP). Essa associao rene a Escuela del Campo Freudiano de
Caracas (ECF, Caracas, 1985), a Escola Europia de Psicanlise (EEP, Barcelona-
Paris, 1990), a ECF (Frana, 1981) e a Escuela de la Orientacin Lacaniana del
Campo Freudiano (Buenos Aires, Argentina, 1992). O texto legislativo pelo qual
 fundada essa primeira internacional lacaniana toma o nome de "pacto de Paris".
A lngua dominante  o espanhol.
27 de julho XXXVIII Congresso da IPA em Amsterdam (presidente: Horacio
Etchegoyen). Filiao do Grupo de Estudos Tcheco.
Criao da Sociedade Psicanaltica da Bulgria.


                                    1993-1996
Criao da Sociedad Psicoanaltica de Caracas, filiada  IPA (SPC, 1994).
Criao em Paris, por Maud Mannoni, do grupo Espao Analtico (EA, outubro de
1994) e, por Patrick Guyomard, da Sociedade de Psicanlise Freudiana (SPF,
1994), oriundos de uma ciso do CFRP.
Em julho de 1995, 42 pesquisadores enviam uma petio  Biblioteca do Congres-
so de Washington, contestando a realizao da exposio sobre o centenrio da
psicanlise, prevista para outubro de 1996, sobre o tema "Freud, conflito e cultura".
Exigem o reconhecimento de seus prprios trabalhos. A exposio  ento adiada
para o ano de 1998.
Em maro de 1996, uma petio internacional  lanada na Frana, para aprovar
a realizao da exposio e exigir a abertura de todos os arquivos a todos os
pesquisadores de todas as tendncias.  assinada por 400 pessoas.
Em outubro, o Conselho Executivo da IPA recusa-se a excluir Leo Cabernite, mas
reconhece a sua cumplicidade com a tortura no Brasil. O caso se reacende e divide
as sociedades filiadas  IPA.


                                       1997
Cem anos depois do nascimento da psicanlise, o freudismo est implantado em
41 pases do mundo, e a IPA em 32 pases, com 45 sociedades psicanalticas, uma
830    cronologia

      associao regional e nove grupos de estudos. Esses pases esto, na maioria,
      situados em dois continentes: a Europa e a Amrica.
      O freudismo (incluindo-se todas as tendncias: annafreudismo, kleinismo, Ego
      Psychology, Self Psychology, lacanismo)  adotado por cerca de 25 mil profis-
      sionais no mundo, dos quais 10 mil fazem parte da IPA. A Frana  o pas que
      possui o maior nmero de psicanalistas por habitante, seguido pela Argentina, a
      Sua, os Estados Unidos e o Brasil.
      A obra de Sigmund Freud  lida majoritariamente em ingls. Est traduzida em
      cerca de trinta lnguas. Os grandes tericos da escola inglesa de psicanlise deram
      origem  corrente mais importante no interior da IPA, enquanto o lacanismo  a
      corrente dominante fora da IPA. Esta continua sendo a internacional freudiana mais
      poderosa do mundo, mas no representa mais a legitimidade do freudismo no
      mundo. Essa situao mostra que a psicanlise est dividida em mltiplas ten-
      dncias, e que sua fora reside no abandono total de qualquer forma de monolitismo
      doutrinrio ou institucional. Continua sendo o mtodo mais eficaz, de longo prazo,
      para o tratamento de todas as afeces psquicas.
      A psicanlise sofre a concorrncia de 500 escolas de psicoterapia, distribudas em
      quase todos os pases do mundo.  violentamente atacada pelos partidrios do
      organicismo e do tratamento farmacolgico das doenas mentais e psquicas, que
      nunca puderam apresentar, como desejariam, a menor prova consistente da infe-
      rioridade da psicanlise em relao s outras terapias.
                                  NDICE ONOMSTICO



A                                                           AICHHORN, August, 9, 60, 138, 179, 229, 258,
                                                               283, 299, 435, 483, 547, 567, 609, 724, 729,
ABERASTURY, Arminda, 1, 34, 89, 463, 501,                      748, 775, 776, 786
   592, 609, 644                                            Aime, caso. Ver ANZIEU, Marguerite
                                                            Ajase, 9, 381, 411, 412, 439
ABERASTURY, Frederico, 1, 592
                                                            ALBERONI, Francesco, 247
ABERASTURY, Maximiliano, 1
                                                            ALBU-EICHHOLTZ, Enid. Ver BALINT, Enid
ABOU, Slim, 420                                            ALBY, Jean-Marc, 655, 766
ABRAO, 520                                                 ALCIBADES, 769
ABRAHAM, Karl, 1-2, 10, 11, 14, 57, 60, 67, 80,             ALDINGTON, Richard, 161
   95, 115, 117, 122, 126, 130, 151, 168, 172, 190,         ALEXANDER, Franz, 14-5, 61, 95, 138, 140, 152,
   193, 194, 211, 234, 238, 239, 240, 256, 272,                169, 179, 195, 198, 199, 230, 269, 281, 283,
   276, 293, 295, 353, 355, 356, 379, 385, 401,                297, 318, 341, 356, 359, 414, 436, 443, 508,
   405, 419, 420, 422, 431, 432, 433, 434, 441,                555, 623, 624, 640, 643, 655, 679, 685, 687,
   469, 470, 479, 507, 508, 513, 521, 526, 531,                716, 717, 728, 729, 739, 751, 781, 782, 789, 791
   533, 551, 552, 553, 554, 555, 556, 594, 595,             ALEXANDRE, O Grande, 255, 269
   607, 608, 615, 616, 622, 623, 630, 632, 635,             ALEXANDRE II, czar, 673
   639, 642, 643, 655, 678, 690, 694, 716, 717,             ALEXANDRIAN, Sarane, 396, 724
   731, 737, 789                                            ALLAIRE, Jean-Paul, 582
ABRAHAM, Nicolas, 2-3, 103, 253, 567                        ALLAIS, Claude, 295
ABRAHAM, Hilda, 2                                           ALLEN, David, 192
ABRAHAMSEN, Karla, 178                                      ALLENDY, Ren, 15-6, 81, 84, 111, 251, 454, 643
ABRAMS, Samuel, 226, 324, 699                               ALLOUCH, Jean, 31
ACCERBONI, Anna Maria, 405, 673, 781, 782                   ALMEIDA PRADO, Mario Pacheco de, 88
ACTON, Lord, 65                                             ALNAES, Randolf, 185, 641, 688
ADLER, Alfred, 6-8, 23, 73, 76, 118, 122, 176,              ALTHUSSER, Louis, 124, 125, 165, 253, 445,
   223, 276, 281, 282, 293, 297, 317, 327, 335,                449, 451, 457, 501, 580
   345, 352, 385, 400, 410, 423, 440, 470, 472,             ALTMAN, Lotte, 794
   534, 547, 574, 592, 594, 616, 618, 625, 630,             ALTOUNIAN, Janine, 467, 484, 543, 613, 635
   631, 641, 642, 670, 674, 675, 694, 704, 719,             AMADOU, Robert, 509
   720, 728, 729, 741, 743, 756, 773, 790                   AMAR, Nadine, 746
ADLER, Ernest, 53                                           AMBROISE, Claude, 248
ADLER, Gisela, 463, 465                                     AMENFIS IV, 520, 521, 522. Ver AQUENATON
ADLER, Ida (caso Dora). Ver BAUER, Ida; Dora.               AMIEL, Henri, 375
ADLER, Viktor, 7, 52, 289                                   AMLCAR, 255, 264
                                                            AMORRORTU, Horacio, 761
ADLER, Sigmund, 7
                                                            AMS, 519
ADORNO, Theodor, 11, 14, 284, 499, 500, 534,
                                                            ANCONA, Leonardo, 247, 403, 701
   615, 616
                                                            ANDERSSON, Carl, 21
ADY, Endre, 359                                             ANDERSSON, Ola, 21-2, 45, 185, 186, 205,
AENIGMATIS (pseudnimo de Franz                                272, 293, 331, 346, 347, 525
   BRENTANO), 92-3                                          ANDRADE, Mrio de, 579
Afrodite, 208, 764                                          ANDRASSY, Gyula, 359
AGATO, 769                                                 ANDREAS, Friedrich-Carl, 23
AGOSTINHO, santo, 662                                       ANDREAS-SALOM, Lou, 22-5, 76, 77, 82, 104,
AHRENFELD, R.H., 661                                           126, 130, 181, 257, 258, 272, 358, 470, 484,

                                                      831
832     ndice onomstico

   485, 489, 499, 512, 513, 519, 521, 525, 533,   B
   618, 651, 666, 748, 749, 750
ANGELINI, Alberto, 180, 480, 538, 677,            BABINSKI, Joseph, 40, 41, 47, 110, 249, 251,
   690, 789, 790                                     341, 442, 701
ANBAL, 242, 255, 264, 269, 391, 467              BABITS, Mihaly, 359
Anna O., caso. Ver PAPPENHEIM, Bertha             BACHELARD, Gaston, 224, 226
Anto, santo, 655                                 BACHOFEN, Johann Jakob, 72, 284, 578, 579
                                                  BACON, Francis, 261
ANTONESCU, Ion, 670
                                                  BADINTER, lisabeth, 156, 292, 355,
ANZIEU, Didier, 30-1, 45, 46, 69, 71, 107, 133,
                                                     609, 611, 705, 708, 730, 766
   168, 169, 226, 252, 390, 391, 396, 398, 405,
                                                  BAER BAHIA, Alcyon, 88
   449, 456, 457, 504, 621, 718
                                                  BAGINSKY, Adolf, 274
ANZIEU, Marguerite (caso Aime), 30-1, 120,       BAHR, Hermann, 56
   139, 205, 341, 445, 446, 458, 486, 572, 574    BAIR, Deirdre, 16, 71, 643, 644
ANZIEU, Ren, 30                                  BAK, Robert C., 238
APPIGNANESI, Lisa, 54, 207, 476, 556, 664, 708    BAKER, Grace, 100
APULEIO, 703                                      BAKER, Mary Eddy, 794
AQUENATON, 520                                    BAKHTINE, Mikhail, 675, 677
ARAGON, Louis, 41                                 BAKKAN, David, 420, 521
ARENDT, Hannah, 201, 534                          BALADIER, Charles, 540, 684
ARHEX, Paule, 143                                 BALN, Jorge, 1, 37, 291, 644
                                                  BALINT, Alice, 47-8, 235
ARIS, Philippe, 177, 355, 609, 611, 703, 705
                                                  BALINT, Enid, 48, 49, 379
ARISTTELES, 38, 107, 108, 393, 505, 507,
                                                  BALINT, Michael, 18, 42, 47-9, 134, 170, 185,
   722, 755
                                                     195, 232, 235, 238, 239, 301, 304, 359, 360,
ARLT, Roberto, 501, 502, 592                         379, 512, 517, 553, 739, 747, 751
ARNAL, Mlanie, 370                               BALITEAU, Catherine, 213
ARNIM, Bettina von, 92                            BALL, Benjamin, 333
ARON, Raymond, 456                                BALLESTEROS, Luis Lopez, 557, 760, 762
Arpad, caso, 243, 758                             BALLY, Charles, 684, 686, 696
ARTAUD, Antonin, 16, 191, 250, 479                BALLY, Gustav, 55, 423, 424, 738, 739
ASSAGIOLI, Roberto, 401, 623                      BALMARY, Marie, 271
ASSOUN, Paul-Laurent, 227, 238, 324, 330, 331,    Balsamo, Joseph (personagem de Alexandre
   362, 363, 460, 513, 561, 556, 563, 616, 659,      DUMAS), 509
   660, 777, 781                                  BALSEINTE, Anne, 287
                                                  BALVET, Paul, 626
tis, 764, 766
                                                  BALZAC, Honor de, 58, 189, 204, 278, 793
ATKINSON, James Jasper, 758, 760                  BAMBERGER, Heinrich von, 515
Aton, 2, 520, 521                                 BANFI, Antonio, 527
ATZINA, Eleni, 177, 773                           BANGAR DALY, Claud, 380, 381
AUBRY, Pierre, 40                                 BANUS, Jos Sanchis, 186
AUBRY, Jenny, 40-1, 48, 252, 310, 357, 449,       BARANGER, Willy, 36, 49
   610, 740                                       BARBIN, Herculine, 765, 766
AUG, Marc, 209                                   BARCHILLON, Jose, 98
AUGUSTINE, 41, 109, 204, 458                      BRMARK, Jan, 77
AULAGNIER, Piera, 41, 66, 164, 165, 253,          BARNAY, Paul, 150
   450, 548, 577, 582, 586, 587, 590              BARNES, Mary, 26
AULARD, Alphonse, 175                             BARONCINI, Luigi, 401
                                                  BARRAUD, Henri-Jean, 108, 409
AVAREZ, Alfred, 742
                                                  BARRS, Maurice, 667
AVENARIUS, Richard, 492                           BARTHEZ, Paul Joseph, 777
VILA DE CARVALHO, Cntia, 92                     BARTHES, Roland, 185, 253, 580
AVRANE, Patrick, 589                              BASAGLIA, Franco, 25, 49, 404, 462
AZEVEDO, Roberto, 88                              BASS, Alan, 477
AZOURI, Chawki, 575, 693                          BASSINE, Philippe, 676, 677
                                                                         ndice onomstico           833

BASTIDE, Roger, 209                                BERGERET, Jean, 310, 312
BATAILLE, Georges, 28, 84, 102, 156, 221, 250,     BERGHOFF, Ludwig, 670
   300, 301, 354, 370, 447, 448, 479, 542, 576,    BERGLER, Edmund, 114, 414
   586, 645, 646, 684                              BERGSON, Henri, 33, 68, 407, 640
BATAILLE, Laurence, 447                            BERHEIMER, Charles, 54
BATAILLE, Sylvia, 447-8, 542                       BERKE, Joseph, 26
BATESON, Gregory, 26, 49-50, 136, 162,             BERKELEY-HILL, Owen, 84, 303, 380, 381
   190, 209, 504, 564, 625, 628                    BERMAN, Anne, 204, 518, 543, 546
BAUDELAIRE, Charles, 249, 456                      BERMAN, Antoine, 764
BAUDELOT, Christian, 742                           BERNARD, Claude, 109
BAUDOUIN, Charles, 50, 738                         BERNAYS, Anna, 57-8, 257, 263, 265, 267,
BAUDRY, milie. Ver LACAN, milie                     270, 313
BAUER, Ida (caso Dora), vii, 6, 50-4, 150, 161,    BERNAYS, Berman, 265
   272, 273, 275, 302, 340, 364, 376, 392, 396,    BERNAYS, Eli, 58, 265, 267
   445, 460, 463, 472, 525, 564, 569, 604, 617,    BERNAYS, Isaac, 265
   621, 691, 704, 718, 725, 767, 769               BERNAYS, Jacob, 107, 265, 267
BAUER, Otto, 52, 289                               BERNAYS, Martha. Ver FREUD, Martha
BAUER, Philipp, 51, 52                             BERNAYS, Michael, 265
BAUER, Wilma. Ver FEDERN, Wilma                    BERNAYS, Minna, 58-9, 257, 265, 266, 274,
BEARD, George, 534                                    348, 374, 525, 718
BEAUFRET, Jean, 448                                BERNE, Eric, 21
BEAUNIS, Henri, 62, 250                            BERNER, Peter, 60, 778
BEAUVOIR, Simone de, 82, 151, 154, 155,            BERNFELD, Manfred, 60
   156, 193, 707                                   BERNFELD, Rosemarie, 60
BECHTEL, Delphine, 332, 777                        BERNFELD, Ruth, 60
BECK, Marie-Christine, 153                         BERNFELD, Siegfried, 9, 18, 60-1, 65, 96, 98,
BECKER, Y., 695                                       149, 170, 183, 198, 229, 231, 242, 243, 255,
BECKETT, Samuel, 69, 70, 71                           258, 261, 263, 264, 270, 272, 293, 329, 331,
BEETHOVEN, Ludwig van, 666, 779                       345, 438, 716, 775
BEIGBDER, Isabeau, 160                             BERNHARDT, Ernst, 403, 405
BEIRNAERT, Louis, 54, 368, 369, 656                BERNHARDT, Sarah, 274
BJIN, Andr. Ver ARIS, Philippe                  BERNHEIM, Hippolyte, 22, 33, 61-2, 79, 109,
BEKHTEREV, Vladimir, 480, 564, 673, 791               110, 131, 164, 181, 245, 247, 249, 275, 327,
BEL, Dominique, 159                                   335, 336, 339, 340, 375, 407, 475, 476, 482,
BELBEY, Jos, 104                                     515, 522, 601, 603, 613, 624, 625, 673, 691,
Belerofonte, 505                                      701, 722, 735, 736, 737
BELKIN, Aron, 676                                  BERNINI, 300, 443, 560
BELLEMIN-NOL, Jean, 143                           BERTGANG, Zo, 144
BELTRN, Juan, 33                                  BERTHELSEN, Detlef, 267, 268
BENDER, Lauretta, 686                              BERTILLON, Alphonse, 137
BENEDICT, Ruth, 27, 140, 154, 412, 425, 504, 743   BERTIN, Clia, 81, 83, 254, 268, 680, 777
BENEDIKT, Moriz (ou Moritz), 56, 95, 422, 471,     BESOUCHET, Ins, 91
   482, 669, 722                                   BESSERMAN VIANNA, Helena, 90, 92, 97,
BENJAMIN, Harry, 764, 765, 766                        335, 427, 429, 580
BENKERT, Karoly Maria, 350                         BETLHEIM, Stjepan, 62-3, 218, 735
BENNANI, Jalil, 456                                BETTELHEIM, Bruno, 43, 44, 63-5, 186, 230,
BENUSSI, Vittorio, 56-7, 526                          610, 733, 764
BENVENISTE, mile, 449                             BETTELHEIM, Charles, 616
BENVENUTO, Bice, 453                               BEZZOLA, Doumeng, 623
BENVENUTO, Sergio, 220, 405, 527, 708              BIBRING, Edward, 66, 101, 457
BENZ, Sophie, 320                                  BIBRING-LEHNER, Grete, 66, 483
BERCHERIE, Paul, 120, 441, 442, 623                BICK, Esther, 306
BERENY, Robert, 359                                BICK, Robert, 279
BERGE, Andr, 504                                  BICUDO, Virginia Leone, 88, 90, 435
BERGER, Denise, 390                                BIGRAS, lisabeth, 67
834      ndice onomstico

BIGRAS, Julien, 66-7, 102                            BOLK, Louis, 194, 195
BIJUR, Anjelika, 283                                 BOLLACK, Jean, 169
BILLINSKY, John M., 59                               BOLTRAFFIO, Giovanni, 618, 671
BINET, Alfred, 62, 235, 250, 238, 530, 583           BONA, Dominique, 794
BINION, Rudolph, 25                                  BONAPARTE, Lucien, 81
BINSWANGER, Ludwig, 19, 57, 67-9, 93, 133,           BONAPARTE, Marie, 22, 55, 81-3, 111, 114, 123,
   134, 146, 172, 190, 192, 203, 302, 422, 485,         138, 140, 143, 151, 162, 163, 201, 230, 237,
   489, 507, 516, 570, 588, 606, 608, 622, 623,         240, 251, 252, 254, 257, 266, 267, 268, 278,
   626, 627, 695, 700, 724, 737, 738, 739               286, 343, 345, 373-4, 398, 402, 409, 443, 448,
BINSWANGER, Ludwig Senior, 67                           454, 456, 457, 459, 464, 466, 467, 477, 481,
BINSWANGER, Otto, 67, 695                               569, 570, 572, 590, 599, 600, 601, 608, 635,
BINSWANGER, Robert, 67                                  655, 665, 680, 695, 706, 716, 721, 732, 753,
BION, Wilfred Ruprecht, 15, 19, 42, 48, 69-71, 85,      762, 781
   88, 90, 118, 190, 247, 293, 301, 303, 305, 306,   BONAPARTE, Napoleo. Ver NAPOLEO I
   381, 411, 434, 435, 516, 537, 553, 616, 625,      BONAPARTE, Roland, 45, 81
   750, 755, 768                                     BONDUELLE, Michel, 110
BIRMAN, Joel, 92, 580                                BONDY, Ida, 239, 240, 398, 443
BIRRAUX, Annie, 244                                  BONDY, Margarethe. Ver NUNBERG, Margarethe
BISMARCK, Otto, prncipe von, 316                    BONDY, Melanie. Ver RIE, Marianne
BITTENCOURT, Zaira, 88                               BONNAF, Lucien, 626
BJERRE, Andreas, 75                                  BONNET, Grard, 587
BJERRE, Poul, 17, 23, 74-7, 181, 182, 184,           BONNET, Marguerite, 724
   185, 623, 625,694, 734, 743                       BONTE, Pierre, 29, 760
BLANDONU, Grard, 71, 595                           BORCH-JACOBSEN, Mikkel, 337, 451, 571, 572
BLEGER, Leopoldo, 78                                 BOREL, Adrien, 81, 84, 119, 251, 333
BLEGER, Jos, 77-8, 501                              BORI, Pier Cesare, 589, 740
BLEULER, Eugen, 2, 10, 17, 26, 38, 43, 44, 67,       BORIE, Jean, 332
   78-80, 94, 98, 120, 122, 135, 143, 172, 192,      BORINGHIERI, Paolo, 527
   189, 190, 191, 197, 218, 247, 302, 319, 333,      BOROSSA, Julia, 307, 379, 430
   360, 407, 415, 421, 441, 454, 473, 478, 509,      BORROMEU, famlia, 541
   514, 516, 524, 536, 549, 557, 572, 573, 575,      BOSCH, Hieronymus, 243, 318, 479
   595, 622, 623, 626, 630, 671, 692, 733, 737,      BOSE, Girndrashekhar, 84-5, 342, 380-1, 679
   738, 739, 791                                     BOSS, Maeder. 55, 318, 738, 739
BLEULER, Manfred, 79, 80, 737, 739                   BOSS, Claude, 582
BLOCH, Albert, 213                                   BOSWELL, John, 351, 354, 705
BLOCH, Ivan, 2, 11, 337, 420, 702                    BOTHOREL, Jean, 334
BLOCH, Marc, 175, 250, 457, 736                      BOTTICELLI, Sandro, 618
BLOCH, Olivier, 119                                  BOUCHEREAU, Herv, 582
BLONDEL, Charles, 33, 250, 402, 457                  BOUKOVSKY, Vladimir, 677
BLONDIN, Marie-Louise. Ver LACAN,                    BOULANGER, Jean Baptiste, 66, 101, 103, 119
   Marie-Louise                                      BOUREL, Dominique, 332, 777
BLONDIN, Sylvain, 446                                BOURGERON, Jean-Pierre, 83, 254, 456
BLONSKY, Pavel Petrovitch, 578, 674, 879             BOURGUIGNON, Andr, 114, 145, 147, 148, 174,
BLOOMAH, Matilda, 270                                   246, 279, 358, 456, 467, 484, 543, 590, 613,
BLOS, Peter, 178, 259                                   635, 762, 763, 764
BLOY, Lon, 111                                      BOURGUIGNON, Odile, 467, 635
BLUM, Antoinette, 668                                BOURNEVILLE, Dsir-Magloire, 41, 109, 110
BLUM, Ernst, 738                                     BOUTROUX, mile, 407
BLUM, Harold P., 266, 438, 477                       BOUVET, Maurice, 85, 111, 456, 457, 529,
BLUMGART, Hermann, 481                                  554, 582
BLUMGART, Leonard, 481, 198, 283                     Bovary, Emma (personagem de Gustave
BOADELLA, David, 654                                    FLAUBERT), 741
BOAS, Franz, 28, 29, 504, 633                        BVEDA, Xavier, 33
BOEHM, Felix, 12, 13, 80-1, 173, 297, 298, 384,      BOVET, Pierre, 738
   403, 406, 417, 526, 661, 662, 694, 735            BOWIE, Malcolm, 451
                                                                         ndice onomstico       835

BOWLBY, John, 40, 85-6, 301, 303, 306, 315,         BRUNIUS, Jacques-Bernard, 447
  379, 609, 642                                     BRUNO, Giordano, 653
BRAATOY, Trygve, 183                                BRUNO, Pierre, 125
BRABANT-GER, Eva, 235, 332, 350, 361               BRUNO DE JSUS-MARIE, 459
BRAHMS, Johannes, 93, 348, 793                      BRUNSWICK, Mark, 481
BRAID, James, 335, 339, 475, 509, 624, 735          BRUNSWICK, Mathilde, 481
BRANCO, Castello, 89                                BRUSSET, Bernard, 384
BRANDELL, Gunnar, 185                               BRYAN, Douglas, 303
BRANDES, Georg, 181                                 BRYANT, Louise, 598
BRASCH, Lucie. Ver FREUD, Lucie                     BRYHER, Winifred, 689
BRATESCU, Gheorghe, 524, 594, 671                   BUBER, Martin, 60, 68, 508
BRAUD, Michel, 742                                  BUCHERBERGER, Hertha, 67
BRAUDEL, Fernand, 87                                BUCHMAN, Frank, 482
BRAULT, Jacques, 66                                 BUJHOF, L., 563
BRAUN, Heinrich, 273                                BULHOF, Ilse, 460, 556
BRAUNSTEIN VIEYRA, Rosita, 713                      BULLIT, William, ix, 203, 272, 278, 598-601, 608
BRA, Clotilde, 667                                 BUNKER, H.A., 381
BRECHT, Bertolt, 447, 497, 777, 792                 BUUEL, Luis, 186
BRECHT, Karen, 81, 299, 406-7, 429, 526, 663        BRGNER, Hedwig, 2
BREDIN, Jean-Denis, 410                             BURGOS, lisabeth, 153
BRENTANO, Clemens, 92                               BURKE, Mark, 88, 96-7, 428
BRENTANO, Franz, 92-3, 96, 107, 273, 323,           BURLINGHAM, Bob (Robert), 97, 258, 260
  330, 713                                          BURLINGHAM, Dorothy, 97, 178, 258, 260,
BRESSON, Robert, 84                                   305, 354, 460, 716
BRETEAU, J.-L., 330                                 BURLINGHAM, Mabbie (Mary), 258, 260
BRETON, Andr, 41, 139, 177, 188, 250, 396,         BURLINGHAM, Mickey (Michael), 97, 258
  528, 543, 593, 723, 724                           BURLINGHAM, Robert, 97
BREUER, Bertha, 718, 569                            BURLINGHAM, Tinky (Katrina), 258, 260
BREUER, Dora, 570                                   BURNESS, E., viii, 148, 281
BREUER, Josef, ix, 3, 4, 22, 56, 92, 93-4, 96,      BURNHAM, Donald, 199
  107-8, 116, 121, 131, 133, 141, 142, 181,         BURROW, Trigant, 97-8, 625
  204-7, 213, 224, 239, 265, 272, 274, 275, 328,    BURT, Cyril, 358
  337, 340, 341, 348, 375, 378, 390, 398, 408,      BURTON, Robert, 506
  409, 443, 476, 486, 524, 568-72, 601, 603, 604,   BUSONI, Ferruccio, 666
  621, 649, 656, 658, 660, 704, 705, 716, 718,      BUSSCHER, Jacques De, 54
  735, 767, 769, 777                                BUSSIRES, Raymond, 447
BREUER, Mathilde, 348, 569, 570                     BUTLER, Judith, 292, 293, 355
BREUER, Robert, 94                                  BUTTINGER, Joseph, 289, 290
BRIERLEY, Marjorie, 303, 315                        BYCHOWSKI, Gustav, 98
BRILL, Abraham Arden, 20, 94-5, 112, 113, 197,      BYCHOWSKI, Sigmund, 98
  198, 204, 276, 283, 385, 390, 398, 414, 417,
  467, 549, 550, 617, 634, 636, 640, 643, 686,
  698, 732, 756, 770                                C
BRIQUET, Pierre, 339
BRITTON, Clare. Ver WINNICOTT, Clare                CABERNITE, Leo, 90, 428, 429, 579
BRJNKGREVE, C., 523, 563                            CABRED, Domingo, 33
BROCA, Paul, 27, 28, 137                            Ccilie M., caso. Ver LIEBEN, Anna von
BROD, Max, 320                                      CAGLIOSTRO, Giuseppe BALSAMO (dito
BROME, Vincent, 177, 418, 420, 720, 729                Alexandre; conde de) 509
BROMLEY, Alexander, 297                             Caliban (personagem de William
BROOKE, Rupert, 732                                    SHAKESPEARE), 497, 498
BROUILLET, Andr, 41, 47, 110                       Caligari (papel cinematogrfico), 678
BRCKE, Ernst Wilhelm von, 93, 95-6, 239,           CALLAS, Maria, 312
  274, 323, 515, 713                                CALLIGARIS, Contardo, 57, 91, 220, 248,
BRUN, Rudolf, 550, 589, 738                            405, 527, 583, 701, 782
836     ndice onomstico

CAMBON, Fernand, 201                          CHAPSAL, Madeleine, 160
CAMERON, Donald, 42                           CHARCOT, Jean Martin, 22, 33, 41, 47, 56, 72, 79,
CAMPO, Emiliano del, 502                         109-10, 119, 131, 176, 181, 204, 205, 249, 267,
Campuzano (pseudnimo de CERVANTES), 713         274, 321, 327, 333, 336, 337, 339-41, 375, 407,
CANETTI, Elias, 616                              409, 414, 472, 475, 476, 507, 513, 514, 515,
CANGUILHEM, Georges, 4, 165, 224, 236,           522, 535, 537, 538, 601, 621, 670, 673, 701,
   238, 294, 329, 456, 457, 626, 627             704, 705, 718, 735
CANTOR, Georg, 502                            CHARRAUD, Nathalie, 503
CARASSO, Franoise, 324, 638                  CHASE, H.W., 114
CRCAMO, Celes Ernesto, 1, 34, 89, 103-4,     CHASLIN, Philippe, 121, 122
   291, 461, 592                              CHASSEGUET-SMIRGEL, Janine, 82
CARLSON, Eric T., 201                         CHASTEL, Andr, 470
CARMICHAEL, Hugh, 100                         CHATEL, Marie-Magdeleine, 577
CARMICHAEL, Stockeley, 136                    CHATSKI, Stanislas Theophilovitch, 578, 674, 789
CARO HOLLANDER, Nancy, 34, 37, 462            CHATTEMER, Lotte, 319
CAROL II (rei da Romnia), 670                CHAUMON, Frank, 49
CARONE, Marilene, 762, 764                    CHAVAFAMBIRA, John, 680
CAROTENUTO, Aldo, 420, 725, 726               CHAZAUD, Jacques, 77, 174, 319, 344, 405,
CARPINACCI, Jorge, 501                           482, 558
CARRIGTON, Hereward, 752                      CHEBABI, Wilson de Lyra, 579
CARRINGTON, Dora, 303, 731, 732               CHEMOUNI, Jacquy, 43, 318
CARROY, Jacqueline, 62, 410, 583              CHENTRIER, Thodore, 101, 110-1
CARSTENS, Erik, 182, 183, 530                 CHERTOK, Lon, 62, 111, 336, 475, 625, 678,
CARTY, Michel, 140                               685, 737
CARUS, Carl Gustav, 375                       CHIANTARETTO, Jean-Franois, 49
CARUSO, Igor, 19, 90, 104-5, 118, 146, 284,   CHODOROW, Nancy, 292
   293, 384, 386, 387, 426, 700, 776          CHOISY, Franois Timolon (abade de), 764
CASSEL, Solange, 40                           CHOISY, Maryse, 77, 111, 368, 369, 582
CASSIRER, Ernst, 68                           CHROBACK, Rudolf, 328, 340
CASSIRER-BERNFELD, Suzanne, 60, 61, 96,       Cibele, 71, 105, 764-5
   255, 261, 263, 264                         CIFALI, Mario, 696, 740
CASSIRER-PARET, Peter, 60                     CIFALI, Mireille, 50, 589, 605, 686, 740
CASSIRER-PARET, Renate, 60, 136               Cipio (personagem de CERVANTES), 713
CASTEL, Franoise, 201                        CIXOUS, Hlne, 54
CASTEL, Robert, 200, 201, 254, 626            CLAIR, Jean, 262, 775, 777
CASTEX, Mariano, 103                          CLAPARDE, douard, 119, 241, 696, 726, 738
CASTILLO, Jos Ruiz, 557                      CLARK-WILLIAMS, Margaret, 638
CASTORIADIS, Cornelius, 253, 734              CLARKE, Charles Kirk, 99, 119, 514
CASTRO, Fidel, 462                            CLARKE, L. Pierce, 381
Catarina (me de Leonardo da Vinci), 469      CLASTRES, Pierre, 723, 724
CEAUCESCU, Constantin, 670                    CLAUDE, Henri, 16, 104, 119-20, 218, 446, 454
Cfiso, 530                                   CLAUS, Carl, 79, 96, 120, 274, 323
CENACS, Michel, 140                           CLAUZEL, Delia, 455
CENDRARS, Blaise, 320                         CLAV, Antoni, 186
CERTEAU, Michel de, 204, 236, 301, 325,       CLAVREUL, Jean, 253, 548, 586, 587
   370, 459, 737                              CLEMENCEAU, Georges, 599
CERVANTES, Miguel de, 112, 317, 713, 775      CLMENT, Catherine, 125
CSAIRE, Aim, 222, 223, 498                  CLEMENTE XIV, papa, 105
CHABROL, Claude, 446                          Clemenes, 742
CHALIAND, Grard, 344                         CLRAMBAULT, Gatan GATIAN DE, 120-1,
CHAMBERLAIN, Houston Stewart, 418, 779           139, 237, 252, 408, 446, 456, 572, 574, 723
CHAMPARNAUD, F., 125, 677                     CLERK, Gabrielle, 100
CHANDOS, Lord (personagem de                  CLIFT, Montgomery, 444
   HOFMANNSTHAL), 775, 776                    CLYNE, Eric, 431. Ver KLEIN, Erich
CHAPLIN, Charlie, 200                         COBLINER, Godfrey, 727
                                                                          ndice onomstico      837

COCKS, Geoffrey, 9, 14, 81, 297, 298, 406,            D
   429, 438, 534, 663, 695
CODET, Henri, 251, 333                                DACHET, Franois, 312, 313
CODREANU, Corneliu, 670                               DADOUN, Roger, 666, 668
COHEN, Yechezkiel, 671                                DALBIEZ, Roland, 75, 77
COIMBRA, Ceclia, 92                                  DALI, Salvador, 186, 278, 446, 794
COLLOMB, Henri, 27, 122, 209                          DAMOURETTE, Jacques, 145, 245, 246, 591, 592
COLOMBO, Cristvo, 255, 269                          DARMON, Marc, 503
                                                      DARNTON, Robert, 510
COLONOMOS, Fanny, 14, 18, 57, 534, 747
                                                      DARWIN, Charles, 27, 44, 72, 86, 96, 120, 179,
COMTE, Auguste, 86, 236, 238
                                                        322, 324, 414, 416, 521, 659, 719, 758
CONCI, Marco, 405, 782                                DAUDET, Lon, 111
CONDORCET, Antoine de DARITAT                         DAUMEZON, Georges, 626, 627
   (marqus de), 707                                  DAUTREY, Charles, 361
CONRY, Yvette, 324, 332                               DAVID, Michel, 57, 220, 248, 370, 405, 471,
CONTI, Leonardo, 13                                     527, 583, 701, 783
CONTRI, Giacomo, 404, 577                             DAVID, tenente, 464
COOK, James, 757                                      DAVID-MNARD, Monique, 148
COOPER, David, 25, 26, 49, 135-6, 159, 191,           DAVIDSON, Andrew, 42
   209, 301, 458                                      DAVIDSON, Frederic, 303
COOPER, Jessica, 744                                  DAVIS, Madeleine, 786
COOPER, Judy, 430                                     DAVIS, Natalie Zemon, 292
COPRNICO, Nicolau, 659                               DE BROSSES, Charles, 236, 237
CORBIN, Henry, 423                                    DECKER, Hannah S., 14, 54
CORIAT, Isador, 136, 197, 302                         DECOBERT, Simone, 383, 580
CORNUBERT, Colette, 668                               DEFFAND, Marie (marquesa de), 506
CORREA, Ivan, 91                                      DE GREEFF, tienne, 138, 140
                                                      DE HANN, Jacob Israel, 792
CORREAS, Carlos, 501, 502
                                                      DJERINE, Jules, 407
COTET, Pierre, 114, 146, 147, 148, 174, 201, 279,
                                                      DEKKER, Edward Douwes, 561
   484, 490, 543, 613, 635, 467, 590, 762, 763, 764
                                                      DELACAMPAGNE, Christian, 180, 186
COTTET, Serge, 134                                    DELARBRE, Jean-Gilbert, 287
COU, mile, 50                                       DELAY, Jean, 142-3, 449, 608
COURBET, Gustave, 448                                 DELBOEUF, Joseph, 336, 737
COUTHON, Georges, 249                                 DELCOURT, Marie, 169
COUVREUR, Catherine, 384                              DELEUZE, Gilles, 26, 136, 169, 191, 192,
COWLES, Edward, 196                                     320, 450, 580, 683
Creonte, 166                                          DELGADO, Honorio, 33, 37, 202, 271
CREVEL, Ren, 16, 250, 446                            DELRIEU, Alain, 279
CRICHTON-MILLER, Hugh, 303                            DELUMEAU, Jean, 244
CRISSTOMO, irmo, 324. Ver HAITZMANN,                DELUY, Henri, 724
   Christopher                                        DELUZ, Ariane, 153
CRISTO, 614, 728. Ver JESUS CRISTO                    Demter, 764
CROCE, Benedetto, 400, 781                            DEMMLER, Pierre, 157
CROMWELL, Oliver, 269, 759                            DEMCRITO, 505
                                                      DERRIDA, Jacques, 3, 36, 37, 102, 156, 222,
Cronos, 351, 506
                                                        253, 292, 445, 450, 479, 489, 707, 711, 754
CUCURULLO, Antonio, 1, 104, 593
                                                      DERRIDA, Marguerite, 431
CULLEN, William, 339, 534                             DE SANCTIS, Sante, 56, 401, 780
CURCIO, Renato, 247                                   DESCARTES, Ren, 130, 375, 389, 478, 479,
CURIE, Marie, 152                                       707, 722, 742
CUSHMAN, Philip, 74, 201, 438, 700                    DESNOS, Robert, 191
CUVIER, Georges, 109                                  DESOILLE, Jacques, 336
CUVIER, Georges (baro), 472                          DESPINE, Dr., 583
CZINNER, Alice, 332                                   DESSUANT, Pierre, 533
838      ndice onomstico

DETIENNE, Marcel, 140                                DROUIN, Michel, 420, 668
DEUTICKE, Franz, 694                                 DROZNES, Leonid, 564
DEUTSCH, Adolf Abraham, 149                          DRUCKER, Ernestine (dita Esti). Ver FREUD,
DEUTSCH, Felix, 53, 149-50, 277, 639, 695              Ernestine (dita Esti)
DEUTSCH, Helene, 1, 74, 149, 150-1,167, 193,         DUBAL, Georges, 739, 740
   230, 348, 357, 442, 457, 483, 546, 639, 640,      DUBOIS, Cora, 140, 425, 426
   643, 670, 706, 708, 748, 749                      DUBOIS, Rosalie, 109
DEUTSCH, Martin, 150                                 DU BOIS-REYMOND, Emil Heinrich, 95,
DEVEREUX, Georges, 26, 29, 151-3, 201, 207,            330, 673
   209, 414, 425, 505, 509, 584, 622, 664, 742       DUBOW, Saul, 681
DEVINE, Dr., 303                                     DUBROVSKY, Santiago, 761
DEVREESE, D., 693                                    DUESS, Luisa (caso Rene), 696
DE WAELHENS, Alphonse, 55, 479                       DUFLOS, Huguette, 30
DIAS, Flvio Rodrigues, 435                          DUFRESNE, Roger, 101, 272, 279
DIATKINE, Ren, 610
                                                     DUFRESNE, Todd, 788
Dick, caso, 153, 433
                                                     DUGAUTIEZ, Maurice, 54, 55, 162, 466, 498
DICKENS, Charles, 793
                                                     DUHAMEL, Pascale, 721
DICKS, H.V., 306
                                                     DUKES, Geza, 361
DIDEROT, Denis, 708
                                                     DUMAS, Alexandre, 58, 335, 509
DIDI-HUBERMAN, Georges, 110, 341
DIX, Dorothe, 196                                   DUMAS, Georges, 28, 87, 250, 408, 446, 456
DOLLFUSS, Engelbert, 289, 461                        DUMRY, H., 192
DOLTO, Boris, 158                                    DUMITRESCU, Alfred, 670
DOLTO, Franoise, 41, 82, 85, 157-60, 195, 249,      Dupin, cavaleiro Auguste (personagem de
   251, 252, 254, 301, 334, 369, 370, 371, 448,        Edgar POE), 710
   449, 454, 456, 466, 504, 524, 529, 532, 580,      DUPONT, Judith, 48, 235
   591, 610, 783, 784, 785                           DUPUIS, Gilles, 582
Dom Quixote, 601                                     DURANT DE BOUSINGEN, R., 695
Dominique, caso, 159, 161                            DURAS, Marguerite, 155
DONATO, Eugenio, 450                                 DRER, Albrecht, 179
DONN, Linda, 424                                     DURING, Arnold, 635
DONNET, Jean-Luc, 218, 650                           DURKHEIM, mile, 29, 236, 373, 493, 741
DOOLITTLE, Hilda, 161, 689                           DURRELL, Lawrence, 318
DOR, Jol, 114, 226, 246, 286, 301, 365, 375, 378,   DUYCKAERTS, Franois, 737
   445, 451, 587, 703, 711, 715                      DZIAK, John J., 173
Dora, caso. Ver BAUER, Ida
DORER, Maria, 135, 351, 515, 516
DORMANDI, Olga, 48                                   E
DORON, Jol, 381
DORON, Roland, 381
DOSTOIEVSKI, Fedor Mikhailovitch, 139, 167,          EARMAN, J., 201
   169, 557, 564, 667, 673, 793                      EBNER-ESCHENBACH, Marie von, 93
DOSUZKOV, Theodor, 161, 322, 557                     ECKSTEIN, Emma (injeo de Irma), 45, 72-3,
DOWLING, A. Scott, 226, 324, 699                        110, 163-4, 240, 275, 346, 349, 391, 392, 398,
DOWNEY, H.M., 143                                       645, 661, 718
DOYLE, Iracy, 90, 161-2, 384, 579                    ECKSTEIN, Rudolf, 61
DOYLE, sir Arthur Conan, 137                         Eco, 530
DRACOULIDIS, Nicolas, 177                            EDELMAN, Nicole, 188, 583
Drcula, 243                                         EDER, David, 165-6, 248, 302, 303
DRAZIEN, Muriel, 577                                 EDINGER, Dora, 570
DREYFUS, Alfred (e caso), 245, 249, 332,             dipo: mito, 166-7; complexo de --, 166-9 passim
   407, 420, 667                                     EGEA, Francisco Carles, 186, 188, 453, 557
DREYFUS, Mathieu, 407                                EIDELBERG, Ludwig, viii, 6, 148, 281, 613, 616
DROIT, Roger-Pol, 381                                EINSTEIN, Albert, 250, 278, 645, 653, 716, 781
DRONES, Leonid, 674, 675                             EISENHOWER, Dwight David, 64
                                                                              ndice onomstico        839

EISENSTEIN, Samuel, 15, 18, 61, 95, 230, 281,           ERICKSON, Milton H., 336
    283, 297, 414, 508, 640, 679, 687, 717, 728,        ERIKSON, Paulette, 454, 455
    782, 789, 791                                       ERLICH, Michel, 107, 587
EISENSTEIN, Serguei Mikhailovitch, 675                  ERMAKOV, Ivan Dimitrievitch, 179-80, 480,
EISLER, Josef, 361                                         557, 674, 675, 689, 789
EISSLER, Kurt R., 9, 59, 65, 66, 163, 272, 313,         SQUILO, 572
    345, 346, 347, 417, 435, 461, 469, 470, 537,        ESQUIROL, Jean-tienne, 33, 249, 506, 764
    538, 564, 566, 654, 658, 698, 750, 781              ESTABLET, Roger, 742
EISSLER-SELKE, Ruth, 435, 438                           Estella (caso de personalidade mltipla), 583
EITINGON, Cham, 171                                    ESTERHAZY, Marie Charles, 245
EITINGON, Esther, 171                                   ESTERSON, Aaron, 136
EITINGON, Fanny, 171                                    ETCHEGOYEN, Horacio, 37, 387, 587, 639
EITINGON, Leonid, 173, 174, 640                         ETCHEVERRY, Jos, 761
EITINGON, Max, 2, 10, 11, 12, 15, 18, 47, 57, 60,       ETCHEVERY, Justine, 109
    67, 80, 122, 171-4, 182, 183, 202, 234, 258,        ETKIND, Alexandre, 174, 180, 558, 677, 690, 790
    269, 276, 278, 282, 293, 297, 326, 342, 415,        EULENBERG, Albert, 770
    432, 508, 544, 575, 594, 626, 635, 636, 637,        EURPIDES, 572
    640, 642, 651, 688, 689, 698, 716, 746, 753, 789    EVANS, Dylan, 148, 226, 301, 371, 451, 453, 552
EITINGON, Vladimir, 171                                 EVANS, Elida, 414
EKMAN, Tore, 184                                        EVANS, Richard, 424
ELIACHEFF, Caroline, 384                                EVARD, Jean-Luc, 14, 81, 298, 429, 460, 526,
ELIADE, Mircea, 423                                        534, 663, 695
LISABETH DE WITTELSBACH (imperatriz                    EXNER, Franz, 330
    da ustria), 359                                    EY, Henry, 15, 119, 142, 218-9, 251, 252, 378, 406,
Elisabeth von R., caso, 174, 205, 206, 524                 409, 446, 455, 456, 467, 479, 516, 724
ELLENBERGER, Henri F., 8, 17, 19, 21, 22, 38,
    45, 53, 56, 62, 69, 74, 78, 80, 93, 94, 108, 112,
    117, 142, 152, 175-6, 188, 205, 207, 208, 209,
    210, 213, 226, 242, 247, 264, 272, 279, 293,        F
    312, 324, 332, 336, 338, 341, 346, 347, 375,
    378, 390, 392, 396, 424, 459, 475, 509, 510,        FACHINELLI, Elvio, 34, 220, 404, 762
    516, 525, 570, 571, 583, 598, 602, 603, 625,        FAGES, Jean-Baptiste, 19, 69, 105, 285, 337,
    627, 633, 644, 658, 672, 685, 724, 737, 740,           729, 752
    744, 767, 770, 773, 776, 791                        FAGIOLI, Massimo, 404
ELLIS, Henry Havelock, 42, 43, 46, 80, 176-7,           FAIMBERG, Hayde. Ver CUCURULLO, Antonio
    302, 303, 337, 351, 353, 373, 469, 472, 473,        FAIRBAIRN, Ronald, 42, 78, 220, 307, 379,
    475, 522, 530, 586, 682, 702, 703, 765, 773, 788       553, 595
LUARD, Paul, 626                                       FALCK, Erling, 182
EMBIRICOS, Andreas, 177                                 FALCONER, Sir Robert Alexander, 99
EMDEN, Jan Van, 177, 556, 561                           FALLEND, Karl, 61
EMERSON, Louville Eugene, 177                           FALRET, Jean-Pierre, 506, 623
EMINESCU, Mihail, 777                                   FALRET, Jules, 538
Emmy von N. caso. Ver MOSER, Fanny                      FALZEDER, Ernst, 2, 18, 238, 273, 279, 416, 418,
ENCKELL, Mikael, 185                                       640, 644, 720, 752
ENCKELL, Robbe, 185                                     FANON, Frantz, 27, 209, 222-3, 498
ENGELMAN, Edmund, 59, 776, 777                          Faria, abade (personagem de Alexandre DUMAS),
ENGELS, Friedrich, 123, 284, 578, 651                      335
ENRIQUEZ, Eugne, 760                                   FARIA, Jos Custdio de, 335, 475
ON, Charles de BEAUMONT (cavaleiro de), 764            FARROW, E. Pickworth, 44, 46
PINAY, Louise TARDIEU D'ESCLAVELLES                    FASS, Paula S., 95
    (marquesa de), 708                                  FAULKNER, William, 501
EPSTEIN, Rassa, 7                                      Fausto, 509, 754
ERASMO, 479, 496                                        FAVEZ-BOUTONIER, Juliette, 111, 140, 226, 250
ERIBON, Didier, 30, 69, 443, 711                        FAVRET-SAADA, Jeanne, 479
ERIKSON, Erik, 169, 178-9, 259, 600, 601, 609           FEBVRE, Lucien, 175, 179, 447, 591
840      ndice onomstico

FECHNER, Gustav Theodor, 175, 227, 375,               FLEM, Lydia, 58
   485, 512                                           FLESCHER, Joachim, 483, 527, 582
FEDERN, Ernst, 61, 64, 229, 230, 696                  FLESCHSIG, Paul, 691, 692
FEDERN, Paul, 9, 64, 163, 190, 228-30, 231, 276,      FLEURY, Mireille, 524
   293, 304, 347, 349, 357, 402, 410, 439, 444,       FLIESS, Charles, 240
   461, 508, 549, 622, 670, 686, 693, 719, 720,       FLIESS, Jacob, 239
   742, 748, 749, 775, 779, 780, 782, 786             FLIESS, Pauline, 203
FEDERN, Walter, 229, 230                              FLIESS, Robert, 239, 398, 481
FEDERN, Wilma, 229, 230, 779                          FLIESS, Wilhelm, 10, 44, 45, 46, 56, 60, 65, 72,
FELIX-HESNARD, dith, 334                                73, 74, 93, 94, 105, 107, 108, 131, 132, 135,
FELLINI, Federico, 405                                   141, 142, 143, 148, 163, 167, 169, 203, 211,
FENICHEL, Hannah, 730                                    212, 224, 226, 239, 239-40, 260, 263, 264, 266,
FENICHEL, Otto, 10, 11, 63, 83, 100, 123, 170,           270, 271, 272, 274, 275, 276, 277, 279, 315,
   183, 199, 229-30, 230-2, 277, 281, 282, 284,          319, 324, 345, 347, 363, 365, 370, 373, 376,
   290, 293, 295, 297, 320, 427, 435, 457, 557,          378, 390, 391, 392, 396, 398, 443, 467, 470,
   639, 640, 651, 653, 654, 716                          472, 481, 507, 511, 513, 527, 539, 541, 546,
FERENCZI, Bernat, 232                                    573, 574, 584, 596, 606, 612, 617, 619, 628,
FERENCZI, Sandor, 5, 18, 45, 46, 47, 48, 68, 69,         647, 648, 649, 651, 656, 657, 658, 660, 697,
   75, 90, 115, 117, 122, 133, 134, 134, 138, 139,       698, 704, 717, 728, 747, 750, 752, 778, 792
   165, 173, 182, 190, 193, 194, 197, 213, 232-5,     FLOURNOY, Ariane, 242, 684
   238, 243, 244, 251, 256, 257, 257, 262, 268,       FLOURNOY, Henri, 50, 119, 241, 242, 685,
   270, 272, 273, 276, 278, 293, 318, 324, 325,          737, 738
   326, 332, 333, 334, 345, 349, 350, 352, 353,       FLOURNOY, Olivier, 242
   358, 360, 366, 379, 384, 385, 387, 397, 415,       FLOURNOY, Thodore, 119, 188, 196, 241-2, 407,
   416, 418, 419, 420, 422, 426, 430, 431, 433,          421, 528, 583, 598, 601, 602, 684, 705, 738
   436, 454, 470, 471, 483, 512, 513, 544, 549,       FLUGEL, John Carl, 303, 399
   565, 574, 588, 604, 607, 609, 610, 615, 618,
                                                      FLUSS, Eleonora, 242
   621, 622, 633, 637, 639, 641, 643, 644, 650,
                                                      FLUSS, Emil, 242
   652, 660, 664, 674, 686, 689, 690, 698, 706,
                                                      FLUSS, Gisela, 242-3, 266, 270, 273, 713
   707, 716, 721, 725, 727, 729, 738, 743, 745,
   751, 752, 755, 756, 758, 760, 766, 767, 769, 770   FLUSS, Ignaz, 242
FERNANDES, Claudia, 1                                 Fobos, 243
FERRARI HARDOY, Guillermo, 34, 104, 592, 644          FODOR, Nandor, 281
FERRER, Elfriede, 1                                   FONDA, Jane, 289
FEUCHTERSLEBEN, Ernst von, 621                        FOREL, August, 78, 246-7, 407, 508, 513,
FEUERBACH, Ludwig, 92, 713                               514, 737, 747
FIASCHE, Dora e Angel, 185                            FOREST, Jean, 582
FICHTE, Johann Gottlieb, 210, 330                     FOREST, Philippe, 254
FICHTL, Paula, 268                                    FORNARI, Franco, 247-8, 405, 701
FICHTNER, Gerhard, 69, 272, 279, 556, 764             FORRESTER, John, 207, 54, 476, 556, 569,
FIGUEIRA, Srvulo, 92                                    572, 664, 708
FILIPE II (rei da Macednia), 255                     FORSBERG, Signhild, 77
FINCK, Jean, 496, 497                                 FORSTER, Elisabeth, 24
FINE, Bernard D., viii, 148, 281                      FORSYTH, David, 248, 302, 303, 545, 753
FINK, Bruce, 453                                      FORZANO, Gioacchino, 781
FINZI, Sergio e Virginia, 404                         FOUCAULT, Michel, 19, 26, 44, 46, 68, 136, 139,
FISCHER, Edwin, 68                                       140, 185, 191, 219, 253, 292, 325, 331, 339,
FISCHER, Eugenia, 161, 322                               341, 351, 354, 450, 479, 507, 580, 622, 705,
FLAMMARION, Camille, 241                                 707, 709, 730, 765
FLANDRIN, Jean-Louis, 705                             FOUCH, Joseph, 345
FLAUBERT, Gustave, 204, 655, 667, 741                 FOUCHER, Michel, 344
FLEISCHL-MARXOW, Ernst von, 96, 239,                  FOUTRIER, Bernard, 254
   274, 398, 438                                      FRAENKEL, Baruch. Ver FERENCZI, Bernat
FLEISCHMAN, Otto, 724                                 FRAENKEL, Ernest, 381
FLEISCHNER, Karoline, 641                             FRANCE, Anatole, 667
                                                                            ndice onomstico        841

FRANCISCO-FERDINANDO DE                               FREUD, Lucian, 261
   HABSBURGO, 564                                     FREUD, Lucie, 261, 262, 265, 279, 281
FRANCISCO-JOS I, 275, 359, 367                       FREUD, Maria (dita Mitzi), 254, 265, 273,
FRANCO BAHAMONDE, Francisco, 187                         776, 786
FRANOIS, Charles, 55                                 FREUD, Martha, 58, 107, 202, 257, 261, 263,
FRANKEL, Bianca, 447                                     265-7, 268, 269, 274, 325, 348, 390, 398, 419,
FRANKEL, Theodor, 447                                    438, 569, 741
Frankenstein (personagem de Mary SHELLEY),            FREUD, Martha Gertrud, 265
   653                                                FREUD, Martin, 112, 149, 256, 261, 262, 267-8,
FRANKL, Viktor, 19                                       269, 274, 326, 349, 459, 471, 565
FRANKLIN, Benjamin, 510                               FREUD, Mathilde, 268. Ver HOLLITSCHER,
FRANZ, Kurt, 314                                         Mathilde
Franziska (personagem do caso Katharina), 555         FREUD, Moritz, 265
FRAZER, James George, 27, 493, 758, 759, 760          FREUD, Morris, 271
FREEMAN, Lucy, 571, 572                               FREUD, Oliver, 14, 261, 262, 267, 268,
FREIRE COSTA, Jurandir, 92, 580                          269-70, 274, 349, 455
FREUD, Abae, 263                                      FREUD, Pauline, 260, 261, 270
FREUD, Adolfine (dita Dolfi), 254-5, 265, 273,        FREUD, Pauline (dita Paula), 270, 273.
   776, 786                                              Ver WINTERNITZ, Pauline
FREUD, Alexander, 255, 267, 273                       FREUD, Pauline (dita Polly). Ver HARTWIG,
FREUD, Amalia, 57-8, 242, 255-7, 262, 264, 265,          Pauline
   266, 271, 273, 313, 349, 374, 707, 786             FREUD, Philipp, 255, 260, 263, 264, 269,
FREUD, Anna, 9, 12, 24, 25, 40, 60, 61, 65, 66, 97,      270-1, 272, 273
   104, 126, 142, 150, 163, 178, 179, 182, 183,       FREUD, Rebekka, 264, 271, 412
   212, 213, 231, 239, 240, 244, 255, 257-60, 261,    FREUD, Regina Debora (dita Rosa), 272, 273.
   266, 267, 268, 269, 272, 274, 277, 278, 279,          Ver GRAF, Rosa
   282, 290, 296, 297, 304, 305, 306, 310, 312,       FREUD, Sally, 260, 263, 270, 272, 273
   314, 315, 321, 326, 328, 346, 348, 353, 354,       FREUD, Samuel, 271
   357, 374, 379, 398, 411, 416, 425, 429, 432,       FREUD, Sigmund, 272-9
   433, 434, 437, 443, 444, 459, 460, 481, 483,       FREUD, Sophie, 267, 268
   522, 523, 526, 547, 554, 563, 588, 600, 610,       FREUD, Sophie (filha de S. Freud), 274, 349.
   640, 651, 654, 660, 663, 695, 696, 698, 706,          Ver HALBERSTADT, Sophie
   713, 717, 727, 729, 732, 734, 749, 753, 761,       FREUD, Stefan, 261
   774, 775, 782, 783, 785, 791                       FREUD, Walter, 267, 268
FREUD, Anna (irm de S. Freud), 260, 273.             FREUND, Anton von, 122, 172, 248, 282,
   Ver BERNAYS, Anna                                     325, 485, 543
FREUD, Bertha, 260                                    FREYRE, Gilberto, 87, 92
FREUD, Emanuel, 260-1, 263, 269, 270, 271,            FRIEDEMANN, Adolf, 508, 791
   272, 273, 314                                      FRIEDLNDER, Adolf Albrecht, 408, 409,
FREUD, Ernestine (dita Esti), 267, 268                   567, 568, 774
FREUD, Ernst, 2, 11, 57, 172, 261-2, 265, 267,        FRIEDLNDER, Kate, 230, 282-3, 304
   268, 272, 274, 279, 281, 298, 349, 588, 654,       FRIEDMANN, Malvine, 52
   716, 761                                           FRIEDRICH, Volker, 327
FREUD, Ernst W., 326. Ver HALBERSTADT,                FRINK, Horace W., 95, 197, 283-4, 425, 742
   Ernstl                                             FRISCH-TAUSK, Martha, 748
FREUD, Eva, 262, 269, 455                             FRITH, C.D., 192
FREUD, Harry, 255                                     FROMM, Erich, 10, 11, 18, 123, 182, 195, 284-5,
FREUD, Henny, 262, 269                                   297, 356, 384, 413, 500, 534, 625, 685, 743
FREUD, Jacob, 57, 242, 254, 255, 256, 260, 261,       FROMM-REICHMAN, Frieda, 66, 83, 190, 284,
   262, 263-5, 270, 271, 273, 313, 349, 391, 412,        285, 739, 743
   419, 696, 786                                      FRUTOS SALVADOR, Angel de, 445, 451
FREUD, Johann (dito John), 260, 261, 271              FRY, Roger, 303, 731, 732
FREUD, Josef, 65, 262, 263                            FUCHS, Henny. Ver FREUD, Henny
FREUD, Julius, 58, 263, 273                           FULLINWIDER, S.P., 744
FREUD, Sir Klemens, 261                               FURER, Manuel, 483, 484
842      ndice onomstico

FURTMULLER, Carl, 8                                GEMELLI, Agostino, 367, 368, 402-3, 701
FURTWNGLER, Wilhelm, 68                           GENET, Jean, 446
                                                   GENTILE, Giovanni, 400, 402
                                                   GEORGE, Davis Lloyd, 599
G                                                  GEORGE, Stefan, 319
                                                   GEORGIN, Robert, 445
GABEL, Marceline, 699                              GERBER-BAUER, Katharina, 51
GADDINI, Eugenio, 289                              GER, Georg, 183, 230
GADELIUS, Bror, 182, 185                           GRONIMI, Charles, 223
GADET, Franoise, 685, 711                         GICKLHORN, Rene, 261, 263, 265, 271
GALENO, 292, 706                                   GIDE, Andr, 74, 143, 250, 608, 667
GALILEU, 44                                        GILBERT, Dr., 407
GALL, Franz Josef, 137                             GILLESPIE, Sadie, 681
GALLIMARD, Gaston, 254, 721                        GILLESPIE, William, 238, 303, 587
GALLOP, Jane, 156                                  GILLOT, Hendrik, 22
GALSWORTHY, John, 248                              GILMAN, Sander L., 293, 705
GALTON, Francis, 38                                GILTELSON, Frances H., 119
GALUPPI, Baldassare, 666                           GIMES, Miklos, 361
GAMBETTA, Lon, 109                                GINESTE, Thierry, 611
GAMBIER ALVAREZ DE TOLEDO, Luisa,                  GIOCONDO, Francesco del, 467
  34, 592, 644                                     GIORDANO, Ral, 37, 104, 291, 502, 593, 644
GAMWELL, Lynn, 269                                 GIRARD, Claude, 306, 418
GANDHI, Mohandias Karamchand
                                                   GIRARD, Ren, 450
  (dito Mahatma), 179, 667
                                                   GISSELBRECHT, Andr, 497
GANSER, Sigbert, 189
                                                   GLAS, Marie. Ver LANGER, Marie
GANTHERET, Franois, 760
                                                   GLASSCO, Gerald Stinson, 99, 295
GARATE, Ignacio, 122, 148, 441, 451, 453
                                                   GLOVER, Edward, 1, 235, 259, 282, 295-7, 303,
GARCIA, Germn Leopold, 36, 502
                                                      304, 305, 314, 389, 390, 410, 433, 457, 535,
GARDINER, Julian, 289
                                                      536, 637, 660, 688, 692, 717, 732, 783
GARDINER, Muriel, 3, 138, 269, 289-90, 481,
                                                   GLOVER, James, 295, 303, 708, 732
  564, 566, 567
                                                   GLUCKER, John, 267
GARDNER, D.E.M., 399
                                                   GOBETTI, Piero, 57
GARMA, Angel, 1, 34, 104, 186, 187, 290-1,
  461, 592, 639, 644                               GODIN, J., 337
GARNIER, F., 318                                   GOETHALS, George W., 744
GAROFALO, Rafaele, 137                             GOETHE, Johann Wolfgang von, 256, 263,
GARRAB, Jean, 80, 189, 192, 623, 727                 347, 421, 655, 755
GASSNER, Johann Josef, 338, 510                    GOETZ, Christopher G., 110
GAUCHET, Marcel, 4, 337, 479                       GOGOL, Nicolau, 179, 557
GAULLE, Charles de, 504, 600                       GOLDBERG, Arnold, 438, 700
GAULTIER, Jules de, 341                            GOLDMANN, Emma, 116
GAUPP, Robert, 290                                 GOLDSTEIN, Jan, 627
GAY, Peter, 58, 59, 96, 114, 130, 174, 180, 218,   GOLDSTEIN, Kurt, 68, 135, 294
  255, 257, 262, 264, 268, 269, 279, 288, 314,     GOLTZ-NEUMANN, Else, 316
  326, 346, 347, 348, 349, 392, 396, 420, 465,     GOMBOS, Zsuza, 359
  469, 470, 485, 490, 492, 608, 617, 621, 638,     GOMBRICH, Ernst, 442, 443
  695, 776, 777, 786                               GOMPERZ, Theodor, 92, 274
GAYNOR, Frank, 281                                 GOODMAN, P., 294
GAYTHIER CANO, Mona, 582                           GORBATCHEV, Mikhail, 676
GEBER, Marcelle, 41                                GORDON, Emma Leila, 99
GEBSATTEL, Viktor Emil Freiherr, 104               GORDON, Lewis R., 223
GEETS, Claude, 699                                 GRGIAS, 769
GEIJERSTAM, Emanuel af, 181                        GRING, Erna, 298, 662
GEISSMANN, Claudine e Pierre, 484                  GRING, Ernst, 298
GELFAND, Toby, 110, 720                            GRING, Hermann, 297, 662
                                                                            ndice onomstico        843

GRING, Matthias Heinrich, 9, 12, 35, 57, 77, 80,     GROSS, Otto, 10, 56, 137, 302, 319-20, 422, 651
   88, 96, 184, 252, 278, 297-9, 356, 417, 423,       GROSSKURTH, Phyllis, 103, 123, 174, 177, 297,
   426, 428, 442, 455, 456, 526, 533, 537, 661,          329, 355, 306, 379, 399, 398, 418, 431, 433,
   662, 687, 694, 739                                    434, 435, 551, 661, 664, 677, 679, 688, 689, 717
GSCHL, Barbara, 555                                  GROSSMAN, Carl e Sylvia, 318
GOSLING, E., 49                                       GROTE, Dr. L.R., 201
GOTTWALD, Klement, 322                                GROTJAHN, Martin, 15, 61, 95, 230, 281, 283,
GOULART, Joo, 89                                        297, 414, 508, 640, 679, 687, 717, 728, 782,
GOUREVITCH, Michel, 721                                  789, 791
GOUX, Jean-Joseph, 169                                Grouscha (governanta de Serguei Constantinovitch
GOYA Y LUCIENTES, Francisco de, 479                      PANKEJEFF), 564, 565, 566
Gradiva, 143-5, 203, 237, 276, 393, 607, 694          GRUBRICH-SIMITIS, Ilse, 14, 207, 225, 226,
GRAF, Caecilia (dita Mausi), 314                         261, 262, 265, 272, 281, 310, 323, 324, 512,
GRAF, Heinrich, 314                                      518, 521, 600, 635, 699, 733, 761, 763, 764
GRAF, Herbert (caso Pequeno Hans), 105, 106,          GRNBAUM, Adolf, 200
   243, 244, 259, 269, 272, 273, 286, 307-12, 313,    GRUNBERGER, Bela, 3, 102, 532, 533
   445, 463, 468, 604, 609, 631, 702, 704, 721,       GUATTARI, Flix, 26, 136, 169, 191, 192, 320-1,
   758, 771, 779                                         626
GRAF, Hermann, 314                                    GUDDEN, Bernhard von, 440
GRAF, Joseph, 312                                     GUERLAIN, Jean-Claude. Ver DAUTREY, Charles
GRAF, Max, 145, 307, 310, 311, 312-3, 347,            GUEX, Germaine, 535, 536, 739
   463, 604, 606, 609, 694                            GUIBAL, Michel, 420, 727
GRAF, Regina Debora (dita Rosa), 260, 271,            GUILBAULT, Georges Th., 541
   313-4, 776                                         GUILBERT, Yvette, 259, 321
GRAF-NOLD, Angela, 358                                GUILHERME II, 438
GRAHAM, Dr., 303                                      GUILLAIN, Georges, 110
GRAHAM, F.W., 43                                      GUILLAUME, Paul, 457
GRAMSCI, Antonio, 403                                 GUILLERAULT, Grard, 370
GRANOFF, Wladimir, 82, 145, 156, 158, 164, 204,       GUINSBERG, Enrique, 462
   235, 237, 238, 239, 248, 252, 300, 301, 449,       GUTHEIL, Emil, 729
   451, 456, 466, 548, 582, 586, 587, 708, 754, 755   GUTTMAN, Samuel, 279, 290
GRASSET, Bernard, 334                                 GUYOMARD, Patrick, 301, 451
GREEN, Andr, 69, 83, 107, 169, 253, 397,             Gynt, Peer, 651
   532, 533
GREEN, Julien, 366
GREEN, Martin, 320                                    H
GREENLAND, Cyril, 103
GRESSOT, Michel, 739                                  HAAGER, Juta, 283
GREVE, Germn, 32                                     HAAS, Ladislav, 161, 322
GRIAULE, Marcel, 209                                  HADDAD, Antonietta e Grard, 405
GRIBINSKI, Michel, 773                                HAECKEL, Ernst Heinrich, 120, 225, 322-4,
GRIESINGER, Wilhelm, 210, 514, 572, 574, 737            512, 659, 758
GRINBERG, Leon, 36, 37, 187, 587                      HAED, Henry, 370
GRINBERG, Rebecca, 187, 188                           HAIM, Ella, 269
GRINKER, Roy, 15, 198                                 HAITZMANN, Christopher, 324-5, 367
GRINSTEIN, Alexander, 397, 764                        HALBERSTADT, Ernst (dito Ernstl), 97, 325,
GRODDECK, Carl Theodor, 316                             326, 486
GRODDECK, Caroline, 316                               HALBERSTADT, Heinz (dito Heinerle), 262, 325,
GRODDECK, Georg, 10, 11, 47, 181, 213, 214,             326, 349
   218, 315-8, 399, 414, 624                          HALBERSTADT, Max, 325
GRODDECK, Lina, 316                                   HALBERSTADT, Sophie, 257, 258, 262, 268, 282,
GROEN-PRAKKEN, H., 523, 562, 563                        325-6, 349, 485, 486, 615, 787
GROS, Martine, 122                                    HALE, Nathan G., 61, 95, 103, 195, 200, 201, 232,
GROSRICHARD, Alain, 165                                 327, 348, 414, 509, 514, 633, 634
GROSS, Hans, 137, 319                                 HALE, William Bayard, 601
844      ndice onomstico

HALL, Stanley Grandville, 115, 116, 126, 197,       HELLER, Hugo, 324, 329, 367, 561, 606, 693
   276, 326-7, 410, 513, 633                        HELLER, Peter, 259, 260
HALLE, Morris, 710                                  HELLMAN, Lillian, 289
HALMOS, Claude, 160                                 HELMHOLTZ, Hermann Ludwig Ferdinand von,
HALSMANN, processo, 139                                93, 95, 175, 227, 239, 274, 329-30, 375, 673
HAMBURGER, Tony, 681                                HEMECKER, Wilhelm W., 331
Hamlet (personagem de SHAKESPEARE), 167,            HENRION, Jean-Louis, 453, 552
   169, 275, 389, 418, 437, 439, 506, 560, 605,     HENRY, George W., 627, 791
   680, 708                                         HENRY, Victor, 242
HAMMERSCHLAG, Emil, 325                             Hera, 351
HAMMERSCHLAG, Samuel, 398                           HERCLITO, 722
HAMMETT, Dashiell, 289, 501                         HERBART, Johann Friedrich, 22, 92, 175, 330-1,
HAMON, Marie-Christine, 548, 556, 664, 708             375, 515, 647, 713
HAMSUN, Knut, 183, 348, 734                         HERBELOT (pseudnimo de Paul Schiff), 104
HAMSUN, Marie, 734                                  HERING, Ewald, 93
HANDLBAUER, Bernhard, 720                           HRITIER, Franoise, 156, 374
Hanold, Norbert (personagem de JENSEN),             Hermafrodito, 71, 764-5
   143, 144                                         HERMANN, Imre, 227, 234, 332, 350, 359,
Hans, Pequeno (caso). Ver GRAF Herbert                 360, 361, 664, 747
HANSEN, Finn, 185                                   HERMANNS, Ludger M., 61, 81, 299, 406,
HAPPEL, Clara, 327, 741, 778                           429, 526, 663, 716
HARARI, Roland, 269                                 Hermes, 764
HARDING, Gsta, 756                                 HERMES TRISMEGISTO, 15
HARGREAVES, Ronald, 305                             HERDOTO, 27, 208, 764
HARNIK, Jen, 182, 183, 290, 670                    HERZL, Theodor, 149, 419, 686, 775
HARRIS, Benjamin, 788                               HERZLICH, C., 210
HART, Bernard, 303                                  HESNARD, Angelo, 41, 119, 213, 250, 251, 332-4,
HARTMANN, Daniel, 287                                  368, 409, 455, 484, 590, 613, 615, 685
HARTMANN, Eduard von, 376, 596                      HESNARD, Oswald, 333
HARTMANN, Heinz, 169, 198, 212, 260, 293,           HEUYER, Georges, 40, 158, 226, 446, 524
   327-8, 411, 442, 454, 457, 461, 478, 529, 639,   HIDAS, Gyorgy, 361
   685, 699, 727, 760                               HIGGINS, Mary, 654
HARTNACK, Christiane, 381                           Hilda. Ver ABRAHAM, Hilda
HARTWIG, Frederick, 270, 271                        HILDEBRAND, R. e P., 49
HARTWIG, Pauline, 271                               HILFERDING, Margarethe, 334-5
HASSOUN, Jacques, 254                               HILFERDING, Rudolf, 335
HUTLER, Adolf, 606                                 HILL, Carl Fredrik, 181
HAWTHORNE, Nathaniel, 137, 633                      HILLER, Eric, 303
HAYNAL, Andr, 4, 18, 46, 48, 49, 93, 235,          HIMMLER, Heinrich, 497
   312, 344, 361, 589, 640, 691, 739, 752           HINSHELWOOD, R.D., 6, 71, 119, 220, 306, 329,
HAZAN, Marie, 582                                      366, 399, 431, 434, 435, 551, 554, 587, 596
Hcuba, 669                                         HIPCRATES, 208, 210, 338, 505, 572, 624
HEENEN-WOLFF, Susann, 638                           Hirsch-Hyancinth (personagem de Heinrich
HEFFERLINE, R., 294                                    HEINE), 113
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich, 146, 147, 236,      HIRSCHFELD, Magnus, 2, 11, 72, 74, 337, 351,
   237, 559, 645, 723                                  420, 472, 702, 770
HEIDEGGER, Martin, 19, 55, 68, 383, 448, 449,       HIRSCHMANN, Eduard, 357
   476, 477, 499                                    HIRSCHMLLER, Albrecht, 59, 60, 93, 94, 107,
HEIM, Cornelius, 115, 518, 714, 717                    108, 205, 207, 341, 515, 516, 555, 570, 571, 572
HEIMANN, Paula, 91, 134-5, 304, 328-9, 433,         HIRST, Albert, 163
   517, 639                                         HITCHCOCK, Alfred, 200, 509
HEINE, Heinrich, 112, 113                           HITLER, Adolf, vii, 12, 52, 77, 179, 198, 261, 278,
HEINROTH, Johann Christian, 572                        298, 360, 437, 533, 534, 569, 652, 662, 781
Helena de Tria, 150                                HITSCHMANN, Eduard, 347-8, 618, 687
HELLENS, Franz, 55                                  HOBBES, Thomas, 491
                                                                          ndice onomstico        845

HOBMAN, J.B., 166                                   HUSSERL, Edmund, 3, 10, 14, 19, 55, 68, 92,
HOCH, August, 348                                     130, 138, 499, 516, 742
HOCH, P.H., 727                                     HUSTON, John, 200, 444
HOEL, Nic. Ver WAAL, Nic                            HUXLEY, Thomas Henry, 416
HOESLI, Henri, 145                                  HUYSMANS, Karl, 331
HOFFER, Hedwig, 61, 304                             HYPPOLITE, Jean, 145, 213, 246, 449, 559
HOFFER, Wilhelm (dito Willi), 9, 60, 229, 258,
   304, 326
HOFFMANN, Christian. Ver SAFOUAN,                   I
   Moustapha
                                                    IBOR, Lopez, 186
HOFFMANN, Ernst Paul, 54, 162, 348, 466
                                                    IBSEN, Henrik, 51, 181, 497, 546, 642, 651
HOFMANNSTHAL, Hugo von, 613, 691, 775,
                                                    IDELER, Karl Wilhelm, 628
   776, 793
                                                    IGNOTUS, Hugo (Hugo Vegelsberg), 234, 349,
HLDERLIN, Friedrich, 191, 192                         359, 366-7
HOLLIER, Denis, 646                                 IGOIN, Laurence, 384
HOLLITSCHER, Mathilde, 257, 258, 267, 274,          IHANUS, Juhani, 185
   325, 348-9, 374, 481                             ILIAN, Matyas, 669
HOLLITSCHER, Robert, 349                            INGENIEROS, Jos, 33
HOLLOS, Isvan, 234, 332, 349-50, 359, 360, 621      INOCNCIO VIII, papa, 367
Holmes, Sherlock (personagem de Conan               IOFFE, Adolf Abramovitch, 7
   DOYLE), 137                                      IRIGARAY, Luce, 156, 222, 301, 311, 312,
HOLMES, Jeremy, 86                                     548, 580
HOLSTIJN, Westerman, 460, 562                       Irma. Ver ECKSTEIN, Emma
HOMANS, Peter, 424, 605                             ISAACS, Susan, 224, 303, 306, 226, 399, 590
HOMBURGER, Erik. Ver ERIKSON, Erik                  ISAAS, 519
HOMBURGER, Theodor, 178                             ISRAEL, Han, 693
Homem dos Lobos, caso. Ver PANKEJEFF,               ISRAEL, Lucien, 91, 253
   Serguei Constantinovitch                         ITARD, Jean-Marc-Gaspard, 609
Homem dos Ratos, caso. Ver LANZER, Ernst            IZARD, Michel. Ver BONTE, Pierre
HOMERO, 505
HORKHEIMER, Max, 11, 12, 14, 232, 281, 284,
   460, 499, 500, 578, 615, 616                     J
HORNEY, Karen, 1, 10, 18, 62, 167, 169, 185,
   193, 195, 199, 230, 284, 290, 293, 294, 355-6,   JACCARD, Roland, 1, 14, 57, 104, 188, 248, 306,
   377, 432, 500, 534, 625, 639, 640, 688, 706,        361, 405, 497, 518, 549, 583, 593, 677, 701, 782
   707-8, 743                                       JACKSON, Edith, 259, 523
HORNEY, Marianne, 356                               JACKSON, John Hughlings, 135, 196, 219, 275,
HORNEY, Oskar, 355                                     302, 406, 415, 513, 633
                                                    JACOBSON, Edith, 100, 230, 231, 406, 483
HORTHY DE NAGYBNYA, Miklos, 11, 14,
                                                    JACOBY, Russel, 230, 231, 232, 285, 407, 655
   57, 234, 350, 360, 747
                                                    JACQUOT, Benot, 445
HUBBACK, C.J.M., 484
                                                    JAFF, Edgar, 319
HUBER, Winfried, 55
                                                    JAFFE, Ruth, 789
HUBER, Wolfgang J.A., 358, 777, 786                 JAKOBSON, Roman, 29, 149, 448, 676, 685, 711
HUG, Rolf, 357                                      JALLEY, mile, 195
HUG-HELLMUTH, Hermine von, 17, 258, 310,            JAMBET, Christian, 445, 451
   346, 357-8, 432, 472, 609, 636, 681, 694, 721    JAMES, William, 197, 327, 408, 513-4, 601, 633,
HUG VON HUGENSTEIN, Antonia, 357, 358                  673
HUGHES, Judith, 220                                 JAMIN, Jean, 29
HUGO, Victor, 50, 188, 506, 666, 748                JANET, Hlne, 591
HUGUES, Athol, 611, 664                             JANET, Jules, 407
HUNT, Lynn, 292, 293, 705                           JANET, Pierre, 28, 33, 42, 50, 107, 108, 110, 121,
HUNTER, Daniel, 238, 575                               131, 138, 142, 176, 181, 196, 197, 202, 226,
HUNTER, Richard A., 325, 574, 623, 692                 241, 248, 249, 250, 302, 306, 332, 333, 336,
HURWITZ, Emmanuel, 320                                 341, 400, 402, 407-10, 410, 421, 456, 457, 458,
846      ndice onomstico

   535, 536, 567, 569, 571, 582, 583, 590, 601,          JONES, Herbert (dito Jones II), 416
   611, 612, 701, 705, 721, 723, 774                     JONES, Katherine, 417, 518
JANIK, Allan, 347, 420, 442, 483, 777                    JONES, Lewis, 417
JANKLVITCH, Samuel, 126, 213, 612, 615,                JONES, Maxwell, 49, 70, 626
   617, 756, 762                                         JONES, Mervyn, 417
JANTSCH, M., 778                                         JONES, Nesta, 417
JARDINE, Betty, 70                                       JORGE V, 302, 415
JASPERS, Karl, 10, 57, 68, 191, 192, 456, 517, 622       JORGE DA GRCIA, 81
JAVAL, mile, 40                                         JOS II (imperador germnico), 263
JAY, Martin, 14, 285, 500, 578                           JOSEF, Albert, 730
JDANOV, Andre, 124, 125, 675, 677                       JOSEFSSON, Ernst, 181
JEKELES, Louis. Ver JEKELS, Ludwig                       JOSEPH, B., 434
JEKELS, Ludwig, 98, 178, 184, 413-4, 549,                JOSEPH, Edward D., 18, 35, 119
   749, 756                                              JOUANNA, Jacques, 210
JELGERSMA, Gerbrandus, 177, 459, 556, 561                JOUVE, Pierre Jean, 250, 667
JELLIFFE, Ely Smith, 197, 229, 414-5, 634, 686,          JOYCE, James, 70, 429, 446, 541, 542, 543
   782                                                   JOYCE, Lucia, 70
JENSEN, Reimer, 185, 530                                 JOZSEF, Attila, 359
JENSEN, Wilhelm, 143-5, 203, 237, 276, 393,              JULIEN, Philippe, 451. Ver SAFOUAN,
   607, 694                                                 Moustapha
JERVIS, Giovanni, 404                                    JLIO II, papa, 519
JESUS CRISTO, 179, 520, 668, 669                         JULIUSBURGER, Otto, 2, 11, 337, 420, 789
JOO XXIII, papa, 367, 369                               JUNG, Agathe, 421
JOO DA CRUZ, 560                                        JUNG, Anna, 421
Jocasta, 166, 167, 169                                   JUNG, Carl Gustav, 2, 6, 10, 13, 17, 38, 42, 43, 44,
JOHACHIMSEN, Paul, 517                                      50, 54, 58, 67, 70, 76, 79, 80, 94, 95, 115, 117,
JOHANSSON, Per Magnus, 186, 523                             118, 119, 122, 123, 133, 134, 143, 144, 145,
JOHNSON, Virginia E., 702, 703                              165, 172, 174, 176, 188, 197, 223, 233, 234,
JOHNSTON, William M., 52, 54, 93, 94, 96, 114,              241, 242, 250, 267, 272, 276, 293, 297, 298,
   279, 331, 346, 347, 360, 361, 420, 483, 516,             302, 303, 312, 313, 319, 333, 345, 357, 371,
   678, 679, 691, 742, 775, 777                             385, 388, 397, 400, 407, 412, 415, 419, 420,
JOINVILLE, Jean de, 346                                     421-4, 442, 454, 465, 467, 472, 474, 482, 490,
JOLK, Katherine. Ver JONES, Katherine                       499, 508, 514, 519, 536, 540, 547, 549, 557,
JONES, Ernest, 8, 10, 11, 12, 13, 16, 22, 27, 30, 42,       561, 562, 573, 575, 587, 588, 592, 594, 597-8,
   45, 46, 51, 53, 57, 59, 61, 74, 80, 84, 88, 95, 96,      602, 604, 607, 608, 618, 622, 624, 626, 633,
   97, 99, 100, 102, 103, 104, 112, 119, 121, 122,          634, 641, 649, 651, 661, 662, 670, 671, 681,
   123, 125, 126, 130, 144, 151, 154, 165, 167,             692, 694, 695, 704, 712, 721, 725, 726, 727,
   169, 174, 175, 180, 182, 183, 195, 197, 201,             728, 729, 734, 737, 738, 740, 752, 756, 757,
   203, 204, 205, 207, 221, 222, 230, 231 234,              771, 774, 776, 786, 790, 791, 794
   235, 243, 248, 251, 255, 256, 257, 258, 262,          JUNG, Carl Gustav (dito Snior), 421, 598
   264, 265, 267, 270, 272, 276, 278, 279, 281,          JUNG, Franz, 421
   282, 293, 295, 297, 298, 302-4, 306, 312, 315,        JUNG, Franz Ignaz, 421
   319, 323, 328, 331, 345, 346, 347, 353, 355,          JUNG, Marianne, 421
   359, 374, 380, 383, 385, 387, 388, 389, 396,          JUNG, Paul, 598
   397, 401, 402, 406, 407, 409, 410, 411, 415-8,        JNGER, Ernst, 517
   419, 420, 422, 427, 430, 432, 433, 447, 457,          JURANVILLE, Alain, 451
   463, 467, 469, 470, 475, 494, 499, 508, 515,          JURGENSEN, Genevive, 65
   516, 525, 526, 543, 544, 548, 562, 569-72, 581,       JURY, Paul, 111, 381, 762
   588, 600, 601, 608, 615, 617, 618, 621, 633,
   635, 636, 637-8, 642, 643, 644, 651, 652, 660,
   662, 663, 665, 674, 679, 680, 686, 688, 689,          K
   690, 694, 695, 698, 730, 731, 732, 738, 742,
   753-4, 760, 770, 771, 773, 774, 775, 777, 781,        K., Sr. Ver ZELLENKA, Hans
   783, 785, 786, 790                                    K., Sra. Ver ZELLENKA, Giuseppina
JONES, Gwenith, 417                                      KAFKA, Franz, 243, 244, 320
                                                                          ndice onomstico         847

KAHANE, Claire, 54                                 KIERKEGAARD, Sren, 19, 181, 383
KAHANE, Max, 276, 719, 728                         KILBORNE, Benjamin, 153
KAHN, Pierre, 160                                  KILLINGMO, Bjrn, 185
KAKAR, Sudhir, 85, 381                             KINBERG, Olof, 182
KAMES, Henry Home, 375                             KING, Pearl, 86, 119, 297, 303, 306,
KAMM, Bernhard, 12                                    315, 329, 379, 399, 434, 661
KANN, Loe, 100, 258, 416-7                         KINSEY, Albert, 702, 703
KANNABIKH, Youri, 674, 675, 789                    KIPLING, Rudyard, 678
KANNER, Leo, 43, 44, 162                           KLAGES, Ludwig, 319
KANNER, Sally. Ver FREUD, Sally                    KLAJN, Hugo, 430
KANT, Immanuel, 130, 300, 301, 330, 586,           KLEIN, Arthur, 431
   684, 742, 755                                   KLEIN, Erich, 431, 784
KARDINER, Abram, 27, 140, 150, 152, 169,           KLEIN, Hans, 431, 595
   198, 284, 356, 425-6, 550, 625, 640, 665        KLEIN, Melanie, viii, 1, 17, 69, 70, 71, 74, 78, 82,
Karin, caso, 75                                       85, 88, 91, 100, 103, 121, 134, 142, 147, 151,
KARLIN, Daniel, 63                                    154, 155, 158, 168-9, 174, 185, 190, 193, 194,
KAROLYI, Mihaly, 360                                  212, 221, 222, 230, 232, 234, 244, 247, 257,
KARPINSKA, Luise von, 330, 331                        258, 273, 277, 293, 295, 296, 304, 305, 306,
KARUSH, Aaron, 640                                    310, 314, 315, 328, 329, 332, 342, 354, 355,
KASSOWITZ, Max, 274                                   357, 359, 360, 366, 377, 379, 397, 398, 399,
KATAN, Maurits, 562                                   411, 413, 417, 426, 429, 430-4, 434, 457, 481,
Katharina, caso. Ver HM, Aurelia                     484, 522, 532, 550, 551, 552, 553, 554, 566,
KATZ, Chaim Samuel, 14, 81, 89, 92, 298, 426,         572, 590, 592, 594-5, 610, 622, 623, 632, 642,
   526, 534, 663, 695                                 646, 660, 663, 664, 671, 672, 688, 696, 704,
KAUDERS, Walter, 537                                  706, 707, 717, 731, 734, 735, 745, 747, 768,
KAUFMANN, Pierre, 142, 148, 169, 281, 286,            770, 783, 784, 785
   301, 365, 370, 384, 453, 533, 575, 587, 597,    KLEIN, Melitta S, 431, 783. Ver
   658, 684, 770                                      SCHMIDEBERG, Melitta
KAWA, H., 412                                     KLEX (apelido de Hermann RORSCHACH), 671
KAZAN, Elia, 200, 509                              KLIBANSKY, Raymond. Ver PANOFSKY, Erwin
KELLER, Else, 564                                  KLOTZ, H.P., 41
KELLER, Teresa, 564, 565, 566                      KNIEPER, Eva, 662
KEMPER, Ana Katrin, 90, 426-7, 428, 579            KOBERSTEIN, August, 316
KEMPER, Christian, 426, 428                        KOCH, Adelheid Lucy, 88, 96, 435, 499
KEMPER, Jochen, 426, 429                           KOENIGSBERG, Harold W., 83
KEMPER, Mathias, 42, 428                           KOEPPEL, Philippe, 770
KEMPER, Werner, 12, 13, 80, 81, 88, 89, 96, 296,   KOFMAN, Sarah, 145, 204, 548
   297, 298, 426, 427-9, 526, 661, 662, 694-5      KOGON, Eugen, 14, 534
KEMPNER, Salomea, 13, 429, 435                     KOHUT, Heinz, viii, 66, 83, 97, 118, 156, 168,
KENDRICK, Walter, 731, 732, 733, 786                  170, 171, 190, 199, 212, 273, 293, 328, 389,
KENNEDY, Hansi, 260                                   435-8, 516, 532, 533, 536, 700, 704, 729, 752,
KENNEDY, Roger, 453                                   769, 770, 786
KERENSKI, Aleksandr, 76, 791                       KOJVE, Alexandre, 147, 194, 370, 412, 447,
KERNBERG, Otto, 83                                    559, 645, 709
KERNER, Justinius, 597, 671                        KOKOSCHKA, Oskar, 311
KERR, John, 720, 727                               KOLLER, Carl, 239, 274, 438
KERSHAW, Ian, 534                                  KOLLONTA, Alexandra, 673
KESTEMBERG, Jean e Evelyne, 383                    KNIG-GRAF, Olga, 310, 312-3
KEY, Ellen, 76                                     KNIGSTEIN, Leopold, 438
KEYNES, John Maynard, 303, 732                     KRBER, Heinrich, 2, 11, 337, 420
KHAN, Masud, 18, 134, 135, 235, 306, 379,          KORNILOV, M., 480
   381, 429-30, 785                                KORSAKOV, Serguei, 674
KHOURY, Grard D., 285                             KOSAWA, Heisaku, 9, 84, 381, 411, 412,
KIELL, Norman, 114, 117, 130, 202, 204, 207,          413, 438-40, 622
   396, 470, 521, 548, 621, 718, 763, 770, 773     KOSMA, Joseph, 447
848      ndice onomstico

KOSSUTH, Lajos, 359                                        55, 66, 69, 70, 71, 74, 82, 83, 85, 90, 91, 104,
KOUPSKAA, Nadejda, 690                                    106, 111, 113, 114, 115, 117, 118, 119, 120,
KOURETAS, Dimitri, 177, 440                                121, 123, 126, 134, 139, 142, 144, 145, 147,
KOVACS, Frederic, 47                                       148, 149, 155, 156, 157, 158, 159, 160, 164,
KOVACS, Wilma, 47, 48, 184, 332, 664                       165, 168, 169, 170, 171, 185, 187, 193, 194-5,
KOYR, Alexandre, 45, 224, 370, 447, 709                   196, 197, 205, 212, 213, 218, 220, 221, 223,
KRAEPELIN, Emil, 10, 38, 79, 80, 99, 115, 119,             225, 226, 228, 237, 238, 244, 245, 246, 247,
   150, 152, 180, 189, 207-8, 290, 297, 319, 331,          249, 251, 252, 254, 273, 286, 290, 293,
   342, 368, 401, 402, 410, 440-1, 442, 506, 523,          299-301, 305, 310-1, 312, 318, 320, 328, 334,
   550, 564, 572, 573, 574, 595, 596, 622, 623,            341, 344, 354, 356, 363, 365, 369, 370, 371,
   630, 750                                                372, 377, 378, 381, 383, 387, 389, 390, 394,
KRAFFT-EBING, Richard von, 52, 56, 72, 150,                397, 413, 435, 436, 442, 445-50, 451, 453, 456,
   176, 235, 238, 275, 331, 337, 340, 350, 441,            457, 465, 466, 477, 479, 490, 491, 492, 498,
   471, 475, 501, 522, 538, 681, 682, 684, 702,            500, 501, 502-3, 512, 513, 516, 518, 527, 529,
   703, 764, 773                                           532, 541-2, 546, 547, 548, 551-2, 553, 554,
KRAMMER, Heinrich. Ver SPRENGER, Jacob                     558-60, 563, 567, 572, 574, 575-7, 578, 581,
KRAUS, Karl, 7, 72, 112, 312, 350, 419, 441-2,             582, 586, 587, 591, 592, 593, 604, 608, 610,
   775, 787                                                614, 616, 617, 621, 622, 632, 644-6, 650,
KRESS-ROSEN, Nicolle, 575                                  657-8, 661, 676, 684, 685, 692-3, 701, 703,
KRETSCHMER, Ernst, 13, 190, 298, 423, 442                  704-6, 707, 714, 715, 724, 740, 742, 746, 751,
KRIS, Anna, 661                                            752, 762, 769, 770, 776, 785
KRIS, Ernst, 45, 163, 169, 171, 230, 240, 260,          LACAN, Judith, 447
   293, 323, 328, 398, 442-3, 661, 727                  LACAN, Madeleine, 446
KRIS, Marianne, 239, 240, 260, 398, 442, 443, 460       LACAN, Marc-Franois, 446
KRISTEVA, Julia, 155, 156, 253, 301, 507, 548           LACAN, Marie-Louise (dita Malou), 446, 447
KROEBER, Alfred, 152, 760                               LACAN, Raymond, 446
Krokovski, Edhin (personagem de T. MANN), 375           LACAN, Sibylle, 447
KRONICH, Julius, 555                                    LACAN, Thibaut, 447
KRLL, Marianne, 261, 262-3, 264, 265, 270,             LACASSAGNE, Alexandre, 137
   271, 257, 412, 420                                   LACOSTE, Patrick, 679
KUBIE, Lawrence, 686                                    LACOUE-LABARTHE, Philippe, 711
KUBITSCHEK DE OLIVEIRA, Juscelino, 89                   LAFON, J., 140
KUBO, Yoshihide, 410, 413                               LAFORA, Gonzalo Rodriguez, 33, 186, 453-4
KUCERA, Otakar, 161, 322                                LAFORGUE, Ren, 16, 60, 81, 84, 111, 119, 145,
KUHN, Roland, 135                                          157, 159, 173, 177, 190, 226, 245, 246, 251,
KULOVESI, Yrj. 182, 184, 444, 529, 687                    262, 270, 288, 334, 368, 449, 454-6, 477, 504,
KUN, Bela, 274, 360, 432                                   535, 585, 608, 657, 721
KURELLA, Hans, 717                                      LAFORTUNE, Mireille, 66, 67
KURTZ, Stanley, 381
                                                        LAGACHE, Daniel, vii, 10, 30, 85, 111, 138, 140,
KURZ, Otto, 442, 443
                                                           158, 213, 226, 250, 251, 252, 363, 370, 448,
KURZWEILL, dith, 281, 344                                 449, 456-7, 466, 477, 504, 529, 608, 612, 762
KUTTER, Peter, 188, 228, 248, 289, 322, 344,
                                                        LA GRANGE, Henri-Louis de, 312, 313, 483
   387, 583, 671, 782
                                                        LAIN, Ren, 115, 201, 490
                                                        LAIN, Tony. Ver KARLIN, Daniel
L                                                       LAINER, Grete, 358
                                                        LAING, Ronald, 19, 25, 49, 135, 136, 159, 191,
LABERGE, Jacques, 91                                       209, 301, 305, 458, 785
LABICA, Georges, 125                                    Laio, 166, 351
LACAN, Alfred, 30, 446, 542                             LAIR LAMOTTE, Pauline (caso Madeleine
LACAN, Caroline, 447                                       Lebouc), 408, 458-9
LACAN, mile, 446, 542                                  LAKS, Andr, 267
LACAN, milie, 446                                      LALANDE, Andr, 568, 755
LACAN, Jacques, viii, 5, 6, 9, 10, 14, 18, 19, 29,      LALIVE D'EPINAY, Michel, 318
  30, 32, 36, 37, 39, 40, 41, 45, 46, 49, 51, 53, 54,   LAMARCK, Jean-Baptiste, 512, 758
                                                                          ndice onomstico        849

Lambert, Louis (personagem de Honor de             LEBOVICI, Serge, 18, 35, 90, 125, 252, 387,
   BALZAC), 189                                        429, 610
LAMBOTTE, Marie-Claude, 384, 507, 533               LECHAT, Camille, 54
LAMPL, Hans, 258, 314, 459, 563                     LECHAT, Fernand, 54, 55, 162, 466
LAMPL-DE GROOT, Jeanne, 74, 151, 257,               LECLAIRE, Serge, 36, 164, 252, 378, 449,
   459-60, 461, 481, 563, 599, 639, 678, 706           450, 466-7, 501, 567, 580, 582
LANDAUER, Karl, 11, 13, 284, 297, 460, 508,         LECOURT, Dominique, 125, 324, 677
   556, 562                                         LECUYER, Roger, 605
LANG, A., 760                                       LEDEBOURG, Georg, 23
LANGBEIN, Hermann. Ver KOGON, Eugen                 LEDERER, Regina, 312
LANGER, Ana, 461                                    LEDOUX, Michel H, 160
LANGER, Marie, 1, 18, 34, 35, 78, 90, 91, 104,      LEES, Edith, 176
   118, 281, 293, 426, 435, 460-3, 501, 516, 592,   LEFEBVRE, Marie-Flicit (caso), 82, 83, 140
   639, 652                                         LEFKOWITZ, Mary R., 341
LANGER, Martin, 461                                 LEFORT, Robert, 626, 627
LANGER, Max, 461                                    LEGENDRE, Pierre, 139, 140
LANGER, Tomas, 461                                  LGER, Christian, 541
LANGER, Veronica, 461                               LEGROS, Hlne, 717
LANGSNER, Maximilien, 87                            LE GOUES, Grard, 226, 746
LANTRI-LAURA, Georges, 37, 104, 122, 291,          LEIRIS, Michel, 28, 84, 209, 250
   502, 536, 587, 593, 623, 626, 627, 644           LEJEUNE, Philippe, 204
LANTOS, Barbara, 230, 282, 304                      LE LAY, Yves, 115, 119
LANZER, Ernst (caso Homem dos Ratos), 50, 244,      LEMA, Zito, 593
   273, 307, 463-5, 472, 539, 540, 542, 564, 604,   LEMAIRE, Anika, 451, 715
   621, 691, 704, 767                               LE MALFAN, Pascal, 188, 641
LANZER, Heinrich, 463, 464, 465                     LEMERCIER, Grgoire, 369, 370
LA PAYONNE LIDBOM, A. de, 77                        LEMPRIRE, Thrse, 341
LAPLANCHE, Jean, viii, 4, 5, 32, 66, 74, 106,       LENIN, 52, 323, 508, 598, 675, 690, 726
   107, 108, 114, 117, 126, 133, 142, 145, 147,     LENNMALM, Frithiof, 181
   148, 149, 164, 174, 191, 192, 195, 213, 224,     LENORMAND, Henri, 529
   226, 244, 246, 252, 273, 279, 281, 286, 299,     LEONARDO DA VINCI, 203, 237, 266, 276, 353,
   301, 318, 341, 358, 363, 366, 378, 383, 388,        389, 400, 467-70, 473, 517, 531, 532, 574, 599,
   390, 449, 456, 457, 466, 470, 475, 484, 485,        608, 609, 671, 735, 753, 756, 771
   490, 532, 533, 536, 553, 554, 575, 590, 590,     Lonie, caso, 407
   595, 597, 603, 605, 616, 623, 630, 632, 644,     LE PICHON, Yann, 269
   647, 649, 650, 658, 660, 682, 684, 699, 715,     LEPOIS, Charles, 338, 339
   719, 761, 762, 763, 764, 770, 773                LE RIDER, Jacques, 10, 14, 23, 318, 320, 332,
LAPLANTINE, Franois, 210                              358, 344, 418, 420, 442, 517, 518, 522, 533,
LAQUEUR, Thomas, 292, 293, 705, 730                    616, 775, 777, 779
LARDREAU, Guy, 451                                  LEROUX, Rosalie, 41
LATIF, Israil, 381                                  LEROY, Maxime, 389, 390
LA TOURETTE, Georges Gilles de, 525                 LESCHE, Carl, 185
LAUBSCHER, B.J.F., 679                              LESKY, Erna, 56, 94, 96
LAURIN, Camille, 101                                LESSING, Gottlob Ephraim, 107, 497
LAUTRAMONT, Isidor DUCASSE                         LETHIAIS, Laurent, 589, 740
   (dito conde de), 593                             LEUBA, John, 85, 162, 455, 466
LAVOISIER, Antoine de, 510                          LEUPOLD-LWENTHAL, Harald, 265,
LAWRENCE, David Herbert, 319                           314, 638, 776, 786
LAZAR-GEROE, Clara, 42, 43                          LVESQUE, Claude, 102, 103, 646
LEO I, papa, 105                                   LEVI-BIANCHINI, Marco, 401, 470, 582, 780,
LEO XIII, papa, 367                                   781
LE BON, Gustave, 316, 331, 608, 613, 653, 736,      LEVILLAIN, Philippe, 107, 370, 470
   737                                              LEVIN, D.C., 700
LEBOUC, Madeleine (caso). Ver LAIR                  LVI-STRAUSS, Claude, 28-9, 87, 152, 153, 154,
   LAMOTTE, Pauline                                    156, 169, 185, 209, 373, 374, 448, 465, 501,
850      ndice onomstico

    542, 559, 575, 578, 685, 709, 710, 714, 715,     LOMBROSO, Cesare, 137, 139, 331, 400,
    757, 760                                            402, 419, 606
LEVITIN, Vladimir, 789                               LONDON, Jack, 633
LVY, Danile, 254                                   LONG, Constance, 303
LVY, Franois, 114                                  LOPEZ REGA, Jos, 35
LEVY, Jacob. Ver MORENO, Jacob Levy                  LORAND, Sandor, 100
LEVY, Moreno Nissim, 523                             LORIN, Claude, 235, 354
LVY-BRUHL, Lucien, 28, 152, 493                     LORTIE, cabo, 139, 140
LVY-FRIESACHER, Christine, 516                      LOTHANE, Zvi, 693
LEWES, Kenneth, 355                                  LOTI, Pierre, 333
LEWIN, Bertram D., 549                               LOVELL, Anne, 201
LEWIN, Kurt, 173, 328                                LOW, Barbara, 165, 303, 489, 602
LEWINTER, Roger, 318                                 LWENFELD, Leopold, 717
LEWIS, N.D.C., 414                                   LOWENTHAL, Leo, 12, 499, 578
LIBERMAN, David, 36, 78                              LOWENTHAL, Uri, 671
LICHTENBERG, Georg Christoph von, 112, 114           LOWIE, R., 30
LICHTHEIM, Anna, 398                                 LOYOLA, Incio de, 54, 110
LIBEAULT, Ambroise Auguste, 61, 62, 75, 335,        Lucy, Miss (caso), 205, 206, 275, 479, 524
    339, 475, 735                                    LUEGER, Karl, 418
LIEBEN, Anna von (caso Ccilie M.), 62, 92, 205,     LUS DA BAVIERA, 265
    275, 476, 524                                    LUKACS, Georg, 359, 360
LIEBEN, Ida von, 92                                  LUQUET, Andr, 66
LIEBERMANN, E. James, 98, 123, 146, 355, 383,        LURIA, Aleksandr Romanovitch, 480, 674,
    384, 418, 641, 644, 782                             675, 789
LIEBERMANN, Herman, 150                              LUSSIER, Andr, 101
LIEBSCHTUZ, Serge. Ver LECLAIRE, Serge               LUTERO, Martinho, 179, 517
LIGEOIS, Jules, 62                                  LUTTENBERGER, Franz, 185
LIENDO, Cesar, 36                                    LUXEMBURGO, Rosa, 150
LIMENTANI, Adam, 430                                 LYOTARD, Jean-Franois, 722, 724
LINDENBERG, Elsa, 653                                LYSSENKO, Trofim, 675
LINDNER, Gustav Adolf, 330
LINDNER, S., 773
LINDROTH, Sten, 185                                  M
LINTON, Ralph, 140, 425
LIPPS, Theodor, 112, 114, 132, 376-7                 MACALPINE, Ida, 325, 574, 575, 623, 692
LIPTON, Samuel D., 465                               Macbeth, Lady (personagem de William
Lirope, 530                                           SHAKESPEARE), 136, 462
Lisa, caso, 688                                      MACCIOCCHI, Maria-Antonietta, 450
LISZT, Franz, 666                                    MACCULLOGH, Jock, 223
LITTLE, Margaret, 135, 639                           MACH, Ernst, 492
LITVO, Lucille B., 120                               MACHADO DIAS, Magno (dito MDMagno), 91
LOBNER, Hans, 789                                    MACHEREY, Pierre, 246
LOBO MOREIRA DA SILVA, Amlcar, 90, 428,             MACK-BRUNSWICK, Ruth, 18, 74, 151, 198,
    579                                                239, 257, 289, 290, 346, 459, 481-2, 508, 522,
LOCKOT, Regine, 12, 14, 81, 297, 298, 406,             564, 566, 567, 695, 706, 716
    526, 534, 695                                    MACKENZIE, Leslie, 303
LODGE, R. Anthony, 254                               MACLEAN, George, 358
LOEWALD, Hans, 476-7                                 MACLENNAN, John Fergusson, 757
LOEWENSTEIN, Paul, 268                               MACLEOD, Alastair, 101
LOEWENSTEIN, Rudolph, 81, 104, 111, 169, 171,        MACMILLAN, Malcolm, 337
    230, 252, 293, 328, 373, 442, 454, 457, 477-8,   MACPHEDRAN, Marie-Lou, 102
    529, 679, 685, 686                               MAEDER, Alphonse, 76, 482
LOEWI, Hilde, 749                                    MAERKER-BRANDEN, A.P., 635
Lohengrin, 439, 668, 669                             MAGNAN, Valentin, 79, 333, 350
LOHMAN, Hans Martin, 518, 777                        MAHLER, Alma-Maria, 483
                                                                        ndice onomstico          851

MAHLER, Gustav, 311, 312, 313, 482-3, 655          MARTI, Jean, 180, 480, 557, 673, 677, 690
MAHLER, Margaret, 43, 483-4, 610                   MARTIN, Reginald T., 43
MAHLER, Maria-Ana (dita Putzi), 483                MARTIN DU GARD, Roger, 666, 721
MAHLER, Paul, 483                                  MARTINO, Richard de, 413
MAHONY, Patrick J., 45, 46, 50, 54, 65, 102,       MARTINS, Mario, 37, 88
  279, 312, 463, 465, 540, 565, 567, 582           MARTY, Pierre, 624
MAILLET, Chantal, 159, 160                         MARUI, Kiyoyasu, 410, 411, 439, 440
MAILLOUX, Nol, 100, 102, 111                      MARX, Karl, 123, 176, 284, 461, 462, 651, 739
MAINE, Henry, 575                                  MASARIK, Thomas, 92
MATRE, Jacques, 459                               MASCARENHAS, Eduardo, 579
MAJOR, Ren, 3, 36, 66, 102, 238, 253, 290,        MASKIN, Meyer, 162
  297, 390, 420, 429, 521, 616, 663                MASOTTA, Oscar, 36, 42, 187, 501-2, 593
MALAMOUD, Charles, 370                             MASSIN, Brigitte e Jean, 312
MALAREWICZ, Jacques-Antoine, 337                   MASSON, Andr, 447, 448
MALCOLM, Janet, 59, 65, 699                        MASSON, Jeffrey Moussaeff, 45, 65, 163,
MALINOWSKI, Bronislaw, 28, 29, 42, 167, 209,         239, 241, 347, 698
  222, 373, 412, 425, 492-4, 664, 665, 759, 760    MASSON, Rosa, 447
MALRAUX, Clara, 358                                MASSUCCO, Angiola, 677
MAN, Hendrik (Henri) De, 54                        MASTERS, William H., 702, 703
MANASSEIN, Michel de, 708                          Mathilde H., caso, 503
MANN, Carla, 495                                   Matrona (personagem do caso de Serguei
MANN, Elisabeth, 495                                 Constantinovitch PANKEJEFF), 564
MANN, Erika, 495, 497                              MATTE-BLANCO, Ignacio, 503
MANN, Golo, 495                                    Matthias, Pr. (papel cinematogrfico), 678
MANN, Heinrich, 495, 792                           MAUCO, Georges, 28, 226, 252, 334, 456,
MANN, Klaus, 152, 495, 497, 794                      503-4, 638
MANN, Michael, 495                                 MAUGER, Jacques, 102, 582
MANN, Monika, 495                                  MAURRAS, Charles, 111, 157, 446, 590
MANN, Thomas, 10, 152, 239, 275, 315,              MAURY, Alfred, 723
  494-7, 546, 549, 752, 755, 792                   MAURY, Liliane, 324
MANNHEIMER, Isaac Noah, 255                        MAUSS, Marcel, 28, 29, 152, 209, 236, 238,
MANNONI, Maud, 26, 36, 136, 159, 252, 449,           714, 715, 759
  498, 501, 610, 693                               MAYER, Hans, 350, 354
MANNONI, Octave, 27, 36, 46, 136, 209, 222,        MAYLAN, Charles Emil, 794
  252, 392, 394, 449, 497-9, 510, 619, 621, 656,   MAYREDER, Rosa, 770
  693, 724                                         MAZARS, Guy, 380
MANSON, Irina, 690, 764                            MCDOUGALL, Joyce, 253, 292, 587, 708
MANTEGAZZA, Paolo, 52                              MCDOUGALL, William, 613, 736
MAPELLI, James, 103                                MCLEOD, Fiona (pseudnimo de Morton
MAQUIAVEL, Nicolau, 601                              PRINCE), 602
MARAON, Gregorio, 290                             MEAD, Margaret, 27, 50, 140, 152, 154, 356,
MARCINOWSKI, Jaroslaw, 499                           425, 504-5, 665, 743
MARCONDES, Durval, 37, 87, 88, 428, 435,           Medusa, 645
  499, 523, 594, 664                               MEDVEDEV, Roy, 677
MARCOU, Lilly, 125                                 MEERWEIN, Fritz, 740
MARCUSE, Herbert, 11, 123, 136, 220, 281,          MEIJI, era, 410, 411
  284, 499-500, 534, 739                           MEISEL, Perry, 731, 732, 733, 786
MARETTE, Philippe, 157                             MEISL, Alfred, 606
MARETTE, Suzanne, 157                              MEKKING, R.U., 563
MARIE-JSUS, Bruno de, 368                         MELENDEZ, Lucio, 32
MARINAS, Jos Miguel, 122, 148, 445, 451, 453      MELLO, Roberto, 580
MARINEAU, Ren, 524, 611                           MELO CARVALHO, Maria Teresa de, 230
MARINESCU, Gheorghe, 670, 671                      MELSHON, Isaias, 88
MARINI, Marcelle, 169, 451, 621                    MELTZER, Donald, 305
MARSHACK, Megan, 789                               MENG, Heinrich, 11, 230, 507-8, 738, 739
852     ndice onomstico

MENNINGER, Karl, 12, 152, 175, 183, 412,            MINELLI, Vincente, 200
   481, 508-9, 544, 781                             MINKOWSKA, Franoise, 516
MENNINGER, William, 508                             MINKOWSKI, Eugne, 10, 19, 68, 190, 192,
MERCADER, Ramon, 174                                   251, 516, 524
MEREJKOVSKI, Dmitri Sergueevitch, 468, 671         MINOIS, Georges, 742
MERLEAU-PONTY, Maurice, 55, 246, 294, 448,          MIQUIAS, 519
   501, 616                                         MIRA Y LOPEZ, Emilio, 186
Merope, 166                                         Miss Lucy, caso. Ver Lucy, Miss
MERZBACHER, Luis, 33                                MITCHELL, John Kearsley, 583
MESMER, Franz Anton, 176, 208, 335, 338, 345,       MITCHELL, Juliet, 135, 156, 222
   375, 509-10, 624, 627, 685, 737, 794             MITSCHERLICH, Alexander, 10, 13, 272,
MESSERSCHMIDT, Franz Xaver, 443                        318, 341, 516-8, 624, 761
MESSIER, Denis, 111, 114                            MITSCHERLICH, Eilhard, 516
MEUER-PALMEDO, Ingeborg, 279, 764                   MITSCHERLICH, Harbord, 516
MEYER, Adolf, 137, 162, 192, 194, 197, 241, 247,    MITSCHERLICH, Margarete, 517, 518
   283, 302, 326, 342, 410, 414, 439, 513-4, 606,   MODENA, Gustavo, 401
   633, 673, 686, 770, 788, 791, 793                MOEBIUS, Paul Julius, 337, 541
MEYER, Conrad Ferdinand, 143, 605                   MOELLENHOFF, Fritz, 679
MEYER, Michael, 185                                 Moiss, 2, 225, 226, 255, 275, 278, 367, 368, 370,
MEYER, Monroe, 198, 199, 283                           389, 420, 439, 467, 512, 513, 518-21, 607, 608,
MEYER, Robert, 227                                     666, 668, 669, 756, 763
MEYERHOLD, Vsevolod, 675                            MOLIRE (Jean-Baptiste POQUELIN), 112
MEYERS, Donald Campbell, 99, 514                    MOLL, Albert, 167, 471, 475, 522, 702, 773
MEYERSON, mile, 645, 646
                                                    MOLNAR, Michael, 255, 257, 261, 265, 267, 268,
MEYERSON, Ignace, 390, 762                             269, 270, 278, 279, 326, 350, 414, 440, 459,
MEYNERT, Theodor, 92, 131, 210, 247, 274, 323,         558, 601, 679, 717, 789
   327, 331, 340, 441, 476, 514-6, 633, 647, 674,   MOLONEY, James Clark, 413
   691
                                                    Mona Lisa, 467, 469
MEYSENBUG, Malvida von, 22, 666
                                                    MONCHY, Ren De, 21, 184, 522-3, 460, 556, 562
MICHAELIS, Edgar, 203
                                                    MONETTE, Lise, 102
MICHAUD, E., 337
                                                    MONEY KYRLE, R.E., 434
MICHEL, Andr, 313
                                                    MONIZ, Egas, 192
MICHELANGELO, 400, 519, 521, 607, 666
                                                    MONNIER, Adrienne, 446
MICHELET, Jules, 338
MIGUEL I (rei da Romnia), 670                      MONOD-HERZEN, douard, 667
MIJOLLA, Alain de, 14, 81, 204, 254, 262, 298,      MONROE, Marilyn, 200, 444
   406, 429, 456, 460, 526, 534, 611, 663, 695,     MONTANDON, Georges, 28, 504
   717, 764, 778, 788                               MONTESSORI, Maria, 60, 63, 178, 259, 459,
MIJOLLA-MELLOR, Sophie de, 611                         523, 727
MIKHALEVITCH, Alexandre, 677                        Montiela (personagem de CERVANTES), 713
Milady de Winter (personagem de Alexandre           MONTRELAY, Michle, 155, 156, 301,
   DUMAS), 137                                         533, 549, 580
MILAN, Betty, 91                                    MOOIJ, A.W.N., 563
MILET, Jean, 737                                    MOORE, M.D. viii, 148
MILL, John Stuart, 274                              MOORE, Nigel, 185, 523
MILLER, Alice, 697, 699                             MORAVIA, Alberto, 247
MILLER, general, 173                                MORDIER, Jean-Pierre, 254, 482
MILLER, Grard, 301                                 MOREAU, Pierre-Franois, 281, 295, 378, 568
MILLER, Jacques-Alain, 37, 38, 39, 91, 165, 188,    MOREAU-RICAUD, Michelle, 174, 361, 498
   254, 413, 445, 448, 450, 451, 453, 503, 577      MOREIRA, Juliano, 86, 87, 523, 594, 641
MILLER, Judith, 39, 165, 447, 450, 451, 453, 542    MOREL, Bndict-Augustin, 189, 350
MILLOT, Catherine, 766                              MOREL, Pierre, 44, 62, 69, 80, 96, 174, 219,
MILNER, Jean-Claude, 165, 301, 445, 451,               247, 320, 337, 441, 475, 677, 747
   453, 503, 541, 646                               MORENO, Jacob Levy, 294, 523-4, 611, 625
MINCER, Beata (dita Tola). Ver RANK, Tola           MORGAN, Lewis Henry, 373, 575, 578, 757
                                                                          ndice onomstico      853

MORGENSTERN, Sophie, 1, 40, 158, 251,                Nania (governanta de Serguei Constantinovitch
  252, 524, 609, 610                                    PANKEJEFF), 564, 565
MORGENTHALER, Fritz, 739, 740                        NAPOLEO I, 52, 81, 255, 414
MORICHAUT-BEAUCHANT, Pierre Ernest, 250              NAPOLEO III, 109
MORPURGO, Enzo, 220, 404                             NAPOLITANI, Diego, 220, 404
MORSELLI, Enrico, 33, 57, 402, 419, 701, 780         Narciso, 168, 436, 530, 533
MOSCOVICI, Marie, 324                                NARJANI, A.E. (pseudnimo de Marie
MOSCOVICI, Serge, 125, 254, 737                         BONAPARTE), 81, 83
MOSER, Fanny (caso Emmy von N.), 21, 107,            NASIO, Juan-David, 501
  131, 178, 205, 275, 524-5                          NASSIF, Jacques, 62, 135, 337, 378, 406
MOSER, Fanny (filha), 525                            NATHAN, Marcel, 111
MOSER, Mentona, 525                                  NATHAN, Tobie, 153
MOUCHET, Enrique, 33
                                                     NATHANSON, Amalia. Ver FREUD, Amalia
MOUSSEAU, Jacques, 281, 295, 378, 568
                                                     NAVARRO, Allende, 503
MOZART, Wolfgang Amadeus, 509
                                                     NEIDISCH, Sara, 673
MUCCHIELLI, Laurent, 140
                                                     NEL DUMOUCHEL, Yvonne, 16
MUENSTERBERGER, Werner, 30
MHLLEITNER, Elke, viii, 63, 66, 98, 230, 282,       NEMECZEK, capito, 463
  313, 329, 348, 414, 429, 444, 459, 484, 499,       NEMES, Livia, 361
  661, 679, 687, 720, 729, 730, 735, 748, 777,       Nmesis, 530
  786, 787, 789                                      NEUBAUER, Peter B., 226, 324, 699
MLLER, Catherine lise, 188, 241-2, 583, 684        NEUMAN, Justin, 670
MLLER, Fritz, 323                                   NEUMANN, lisabeth, 60
MLLER, Johannes Peter, 95, 322, 323, 329, 330       NEUMANN, Heinrich Wilhelm, 628
MLLER, John P., 451, 711                            NEWTON, Isaac, 509, 227
MLLER, Josine, 151, 706                             NICOLL, Maurice, 303
MLLER, Karl Alexander von, 517                      NIEKISCH, Ernst, 517
MLLER, Max, 738                                     NIELSEN, Margarete, 517. Ver MITSCHERLICH,
MLLER-BRAUNSCHWEIG, Carl, 12, 13, 80,                  Margarete
  81, 183, 187, 297, 298, 406, 417, 427, 526, 661,   NIEMETZ, Serge, 794
  694, 695, 775                                      NIETZSCHE, Friedrich, 22, 23, 24, 67, 76, 175,
MULTATULI (pseudnimo de Edward Douwes                  221, 317, 348, 375, 488, 495, 496, 628, 642,
  DEKKER), 561                                          643, 647, 666, 723
MUNCH, Edvard, 181                                   NILSSON, Ingemar, 77
MUNOZ, Maria Luisa, 188                              NIN, Anas, 16, 643
MURRAY, A., 602                                      NIN, Joaquin, 16, 643
MUSATTI, Cesare, 57, 247, 402, 403, 526-7,           NITZSCHKE, Bernd, 712
  582, 701, 762, 780
                                                     NIZAN, Paul, 446, 456
MUSATTI DE MARCHI, Silvia, 57
                                                     NOBCOURT, Jacques, 405, 420, 727
MUSIL, Robert, 775, 776
                                                     NOBLE, Douglas, 100
MUSSOLINI, Benito, 229, 360, 779, 781
                                                     NOGUEIRA, Luiz Carlos, 91
MUTHMANN, Arthur, 10
M'UZAN, Michel de, 6, 253, 467, 490, 624, 683        NOLIN, Bertil, 185
MYERS, Frederick, 188, 241, 302, 407, 528, 724,      NORA, Pierre, 204
  732, 752                                           NORDAU, Max, 331, 332
                                                     NOTHNAGEL, Hermann, 229, 274, 275, 514, 543
                                                     NOVALIS, Friedrich, 488, 496
N                                                    NOVELLETTO, Arnaldo, 289, 405, 583, 701, 782
                                                     NUMANTIUS, Numa (pseudnimo de Carl
NACHT, Sacha, 40, 85, 251, 252, 448, 456,               Heinrich ULRICHS), 351, 354
  457, 477, 529, 638                                 NUNBERG, Hermann, 7, 18, 66, 229, 240, 241,
NCKE, Paul, 530, 770                                   293, 398, 482, 549, 642, 644, 654, 661, 693,
NADEAU, Maurice, 125, 254                               720, 739, 742
NAESGAARD, Sigurd, 181, 184, 529-30, 734, 748        NUNBERG, Margarethe, 239, 240, 398, 549, 661
NANCY, Jean-Luc, 337, 711                            NUNEZ, Molina, 187
854     ndice onomstico

O                                               PALOS, Magda, 233
                                                PANKEJEFF, Anna, 564
OAKESHOTT, Edna, 48                             PANKEJEFF, Nicolau, 564
OBERHOLZER, Emil, 550, 589, 671, 685,           PANKEJEFF, Pedro, 564
   737, 738, 739                                PANKEJEFF, Serguei Constantinovitch (caso
OBERHOLZER-GINGBURG, Mira, 550                     Homem dos Lobos), 50, 108, 151, 244, 246,
OBERNDORF, Clarence Paul, 95, 198, 201,            273, 289, 389, 445, 463, 464, 472, 481, 564-7,
   229, 283, 383, 550                              604, 621, 674, 691, 704, 776
OBHOLZER, Karin, 567                            PANOFF, Michel, 494
ODIER, Charles, 14, 50, 104, 251, 368, 477,     PANOFSKY, Erwin, 505, 507
   490, 555, 685, 739                           PAPADIMA, Eugen, 670
Oesterline (paciente de Franz Anton MESMER),    PAPAFAVA, Novello, 57
   509                                          PAPIN, as irms, 139, 140, 446, 574
OGILVIE, Bertrand, 195, 371, 451, 742
                                                PAPPENHEIM, Bertha (caso Anna O.), 26, 30, 50,
HM, Aurelia (caso Katharina), 204, 205, 206,
                                                   93, 94, 108, 116, 200, 204, 205, 224, 275, 341,
   207, 275, 426, 524, 555-6
                                                   444, 524, 525, 568-72, 603, 725, 767
OKONOGI, Keigo, 412, 413, 440, 558
                                                PAQUET, Alfons, 12
OLIVEIRA LIMA, Denise de, 641
                                                PARADIS, Maria-Theresia, 510
OLLENDORF-REICH, Ilse, 653, 654
                                                PARCHEMINEY, Georges, 85, 251, 524
ONGANIA, general, 501
OPHUIJSEN, Johan H.W. VAN, 177, 241,            PARIN, Paul, 739
   460, 522, 556, 561-3                         PARIN-MATTHEY, Goldy, 739, 740
OPPENHEIMER, Agns, 213, 436, 438, 700, 731     Pris, 668, 669
OPPENHEIMER, David Ernst, 8                     PARKIN, Alan, 103, 119, 295, 514, 717
OPPENHEIMER, Franz, 454                         Parsifal, 669
OPPENHEIMER, Hermann, 10, 302, 537              PASCAL, Blaise, 375, 560
OPPOLZER, Johann, 93                            PASKAUSKAS, Andrew R., 103, 306, 418
ORAISON, Marc, 368-9, 370                       PASSOS, A., 52, 523
ORLANDO, Vittorio Emanuele, 590                 PATAI, Raphael, 665
ORTEGA Y GASSET, Jos, 33, 186, 556-7, 760      PAULO, so, 520
ORTIGUES, Edmond e Cecile, 209                  PAULO VI, papa, 367, 369
ORTLIEB, Gilles, 177                            PAVLOV, Ivan Petrovitch, 124, 673, 675, 679
OSIAS, 519                                     PAYNE, Sylvia, 303, 315, 661, 732
O'SHAUGHNESSY, E., 434                          PEDRO I (imperador do Brasil), 86
OSSIPOV, Nikolai Ievgrafovitch, 161, 557-8,     PEDRO II (imperador do Brasil), 86
   674, 675                                     PEDRO DA GRCIA, 373
OTSUKI, Kenji, 410, 411, 558                    PGUY, Charles, 667, 668
OURY, Jean. 320, 626                            PELLEGRINO, Hlio, 162, 426, 428, 579-80
OURY-PULLIERO, Yannick, 321                     PENOT, Bernard, 746
OUTUBRO (Grupo), 447                            Pequeno Hans, caso. Ver GRAF, Herbert
OVDIO, 530                                     PERALDI, Franois, 66, 102, 111, 159, 160,
OVTCHARENKO, Victor Ivanovitch, 727                355, 580-2
OWEN, Miss (governanta de Serguei
                                                PERCHEMINIER, Colette, 160
   Constantinovitch PANKEJEFF), 564, 565
                                                PERESTRELLO, Marialzira, 88, 92, 523, 594,
OWEN, Morfydd, 417
                                                   641, 653, 664
                                                PERLS, Frederick, 294, 462
P                                               PERN, Eva Duarte, 34, 462
                                                PERN, Isabelita, 35
PABST, Wilhelm, 678                             PERN, Juan, 34, 35, 462
PAIKIN, Henning, 185, 530                       PERRAULT, Gilles, 661, 663
PALACIO, Jaime del, 462                         PERRIER, Franois, 41, 82, 158, 164, 165, 237,
PALMIER, Jean-Michel, 361, 497, 677                238, 252, 253, 300, 301, 449, 450, 466, 577,
PALMSTIERNA, Vera, 184, 522                        582, 586, 587
PALOS, Elma, 233                                PERRON, Roger, 226
PALOS, Gizella, 233                             PERROT, Michelle, 609, 611
                                                                          ndice onomstico       855

PERROTTI, Nicola, 402, 403, 527, 548,               PL, Albert, 368, 369
   582-3, 701, 780                                  PLEVITSKAIA, Nadezhda, 172, 173, 174
PERRY, Helen S., 744                                PLON, Michel, 160, 281, 332, 420, 605, 616,
PTAIN, Philippe, 222                                   711, 737
PETER, H.F., 25                                     PLOTKIN, Mariano Ben, 37
PETERS, H.G., 22, 23, 24, 76                        POE, Edgar, 82, 83, 608, 658, 710, 711
PETO, Andrew, 42                                    POIRIER, Jean, 30
PETOFI, Sandor, 359                                 POIZAT, Michel, 107
PETRARCA, 496                                       Polbio, 166
PEWZNER, Evelyne, 540                               POLITZER, Georges, 78, 125, 250, 501
PFEIFER, Zsigmond, 360, 361                         POLLAK, Michael, 77
PFENNIG, Richard, 747                               POLLOCK, Georges, 571, 572
PFISTER, Oskar, 76, 115, 175, 183, 272, 278, 287,   POLON, Albert, 283
   288, 317, 326, 369, 485, 489, 514, 550, 588-9,   PONCE, Annibal, 33
   607, 609, 671, 685, 687, 733, 737, 738, 740,     PONTALIS, Jean-Bertrand, 31, 145, 164, 114, 116,
   791, 792                                             213, 252, 273, 383, 397, 430, 449, 456, 469,
PHILIPP, Emilie, 265                                    582, 590, 595, 605, 615, 616, 632, 636, 638,
PHILIPPSOHN, Ludwig, 263, 271                           722, 724. Ver LAPLANCHE, Jean
PHILIPS, Frank Julien, 88                           POPESCU-SIBIU, Ioan, 593-4, 670
PIAGET, Jean, 551, 641, 726, 738                    POPPER, Emil, 242
PICHLER, Hans, 277                                  POPPER, Gisela, 242
PICHON, douard, 81, 145, 158, 245, 246, 249,       POPPER, Karl, 390, 605
   251, 328, 333, 334, 409, 446, 454, 455, 477,     PORGE, Erik, 74, 204, 241, 699, 747
   590-2, 721, 762, 763                             PORTILLO, Ramn del, 187
PICHON, tienne, 591                                PORTILLO, Ronald, 232
PICHON-RIVIRE, Enrique, 1, 33, 34, 36, 78,         PORTO-CARRERO, Jlio Pires, 86, 594
   104, 291, 461, 501, 592-3, 644                   POSSE, Frederick, 75
PICHOT, Pierre, 142                                 POSSE, Gunhild, 75
PICHT, Carl, 50                                     POSTEL, Jacques, 44, 80, 192, 306, 337, 441, 442,
PIEL, Jean, 447                                         479, 514, 516, 536, 575, 602, 623, 627
PIEL, Simone, 447                                   PTZL, Otto, 523
PIGEAUD, Jackie, 479, 507, 623                      POUILLON, Jean, 238
Piggle, a Pequena (caso), 784. Ver WINNICOTT,       POULAIN DE LA BARRE, Franois, 707
   Donald Woods                                     POUND, Ezra, 161
PIGNARRE, Philippe, 627                             PRADO DE OLIVEIRA, Luis Eduardo, 315,
PINE, Fred, 484                                         693, 575
PINEL, Philippe, 32, 78, 80, 86, 110, 180, 196,     PRADOS, Miguel, 67, 100, 101, 103, 111, 596
   208, 249, 301, 339, 535, 609, 624, 627, 674      PRAGIER, Georges, 746
PINEL, Scipion, 249                                 PRANGISHVILI, A.S., 677
PINELES, Friedrich, 23                              PRAPER, Theodor, 174
PINES, Malcolm, 98, 119                             PRATER, Donald, 794
PINGSHEIM, Katja, 495                               PREDA, Gheorghe, 669
PINGUET, Maurice, 411, 413, 742                     PREISWERK, Emilie, 421, 598
PINHEIRO, Teresa, 335                               PREISWERK, Hlne (caso S.W.), 188, 242, 421,
PINK, Annie. Ver REICH-RUBINSTEIN, Annie                597-8, 725
PINOCHET UGARTE, Augusto, 35                        PREISWERK, Louise, 598
PIO IX, papa, 92                                    PREISWERK, Rudolf, 598
PIO XII, papa, 367, 368, 369, 403                   PREISWERK, Samuel, 421, 598
PIRON, Herman, 55                                   PRESTRELLO, Danilo, 88
PISCATOR, Erwin, 60, 447                            PRVERT, Jacques, 447
PITRES, Albert, 333                                 PRVERT, Pierre, 447
PIZARRO CRESPO, Emilio, 36                          PRVOST, Claude M., 409
PLATO, 71, 134, 164, 338, 341, 353,                Pramo, 669
   453, 552, 769                                    PRINCE, Morton, 136, 196, 197, 241, 601-2, 673
PLAUT, Fred, 424                                    PRINZHORN, Hans, 191, 192
856     ndice onomstico

PROCTER-GREGG, Nancy, 354, 635                      RASCOVSKY, Arnaldo, 1, 33-4, 104, 291, 592, 644
PROSNITZ, Wilma. Ver KOVACS, Wilma                  RASCOVSKY, Luis, 33, 592, 644
Prspero (personagem de SHAKESPEARE), 497,          RAUSCHENBACH-JUNG, Emma, 67, 421
   498                                              RAUZY, Alain, 467, 484, 543, 613, 635
PROUST, Marcel, 51, 350                             RAY, Nicholas, 200
PUCHKIN, Alexandre Sergueievitch, 179, 557          RAYER, Pierre, 109
PULMAN, Bertrand, 30, 494, 760                      RAYMOND, Fulgence, 119
PUMPIAN-MINDLIN, Eugne, 179                        RAYMOND, Janice, 766
PUSKAS, Daniel, 582                                 RAYNER, Eric, 86, 220, 297, 306, 379, 554, 661
PUTNAM, James Jackson, 95, 99, 100, 103, 197,       REDGRAVE, Vanessa, 289
   201, 276, 327, 360, 385, 414, 513, 601, 602,     RE, Paul, 22, 23, 24
   633-4, 673, 770, 782                             REED, Gail S., 201
PUYSGUR, Armand de, 62, 335, 336, 475, 624         REED, John, 598
                                                    REES, John, 304, 305
                                                    REETH, Claude van, 135
Q                                                   REGER, Max, 666
                                                    RGIS, Emmanuel, 334, 335
QUALCKELBEEN, J., 693                               REGNARD, Paul. Ver BOURNEVILLE,
QUEN, Jacques M., 201                                  Dsir-Magloire
QUENEAU, Raymond, 250, 447
                                                    REGNAULT, Franois, 165
QUTEL, Claude, 80, 306, 514, 623
                                                    REICH, Eva, 653
QUINN, Susan, 356, 791
                                                    REICH, Lon, 651
QUINTAVALLE, Giorgio, 248
                                                    REICH, Lore, 653
                                                    REICH, Peter, 653
R                                                   REICH, Wilhelm, 10, 11, 12, 118, 123, 181, 182,
                                                       183, 185, 191, 195, 220, 231, 251, 277, 278,
RABAIN, Jean-Franois, 611                             281, 284, 293, 294, 315, 320, 322, 345, 356,
RACE, Victor, 335                                      415, 428, 462, 474, 530, 535, 639, 640, 650-4,
RACKER, Heinrich, 37, 639                              687, 688, 690, 697, 702, 734, 751, 790
RADANOWICZ-HARTMANN, Editha von.                    REICHMANN, Frieda. Ver FROMM-
  Ver STERBA, Editha                                   REICHMANN, Frieda
RADO, Emmy, 639                                     REICHMAYER, Johannes, 61
RADO, Sandor, 1, 62, 151, 173, 199, 231, 234,       REICH-RUBINSTEIN, Annie, 135, 161, 230,
  327, 332, 356, 359, 426, 639-40, 643, 652, 694       231, 653, 654-5
RAGEAU, Jean-Pierre, 344                            REIK, Theodor, 97, 114, 198, 278, 284, 290, 293,
RAGLAND-SULLIVAN, Ellie, 634                           328, 435, 556, 562, 618, 635, 636, 637, 638,
RAIGORODSKY, Mirra Jacovleina, 172                     655, 667, 679, 774
RAIMBAULT, Ginette, 41, 48, 49, 253, 383,           REINHOLD, Josef, 150
  483, 611                                          REITLER, Rudolf, 276, 719, 728
RAKNES, Ola, 183, 640-1                             REITMAN, Ben, 116
RAMANA, C.V., 85, 381                               REIZES, Emmanuel, 431
RAMBERT, Madeleine, 641, 737                        REIZES, Libussa, 431, 433
RAMNOUX, Clmence, 169                              REIZES, Melanie. Ver KLEIN, Melanie
RAMOS DE ARAJO PEREIRA, Arthur, 86, 641            RELANDER, Konrad, 181
RANCHETTI, Michele, 405, 528, 764, 782              RENARD, lizabeth, 121
RAND, Nicolas, 145, 263, 397, 608                   Rene, caso. Ver DUESS, Luisa
RANK, Otto, 2, 7, 16, 18, 97, 106, 107, 118, 122,   RENOIR, Jean, 447, 591
  172, 195, 213, 234, 235, 242, 251, 259, 276,      REUCHLIN, Maurice, 612
  277, 282, 292, 293, 345, 353, 355, 372, 382,      REVAULT D'ALLONNES, Myriam, 616
  383, 399, 414, 415, 418, 422, 436, 439, 547,      REVERCHON-JOUVE, Blanche, 250, 762, 770
  549, 606, 607, 618, 641-4, 647, 664, 668, 669,    REVESZ, Erzsebet, 332, 360, 639
  674, 694, 719, 727, 754, 782                      REY, Jean-Michel, 204, 248, 548, 754, 755
RANK, Tola, 642, 644                                REY, Pierre, 451
RAPAPORT, David, 169                                REY DE CASTRO, Alvaro, 37, 272
RAPPEN, Ulrich, 358                                 REYNAUD, Paul, 600
                                                                        ndice onomstico       857

REYNOLDS, Mary (caso de personalidade             ROGOW, Arnold, 53
   mltipla), 583                                 ROHEIM, Geza, 26, 27, 42, 151, 152, 167, 200,
RIBOT, Thodule, 28, 250, 406, 583, 602, 612         207, 209, 222, 232, 234, 324-5, 359, 360, 373,
RICHARD, Lionel, 497                                 425, 494, 500, 504, 584, 664-6, 679, 760
RICHARD, Robert, 582                              ROHEIM, Llonka, 664
RICHARDS, Angela, 272, 279, 763                   ROKACH, Maria, 260
RICHARDSON, William, 451, 581, 711                ROKITANSKY, Karl, 93, 514, 543
RICHELIEU, Armand Jean DU PLESSIS                 ROLLAND, Romain, 203, 250, 255, 272, 287,
   (cardeal de), 345                                 288, 312, 490, 492, 613, 666-8, 792
RICHER, Paul, 110                                 ROMAINS, Jules, 666
RICHET, Charles, 188, 407                         ROMM, May E., 95
RICHTOFEN, Else, 319                              Rmulo, 668
RICHTOFEN, Frieda, 319                            RONDEAU, Joseph-Marie, 213
RICKMAN, John, 13, 48, 70, 81, 296, 301, 303,     ROOSEVELT, Theodore, 600, 782
   315, 427, 429, 526, 537, 637, 660-1            RORSCHACH, Hermann, 221, 236, 516, 550,
RICOEUR, Paul, 68, 390                               589, 671-2, 685, 737, 738, 791
RIE, Margarethe, 398. Ver NUNBERG, Margarethe     RORSCHACH, Olga, 671
RIE, Marianne, 398. Ver KRIS, Marianne            Rosalie H., caso, 205, 206, 275, 672
RIE, Melanie, 493                                 ROSE, Jacqueline, 156, 681
RIE, Oskar, 240, 398, 413, 443, 481, 549, 661     ROSEN, John, 700, 739
RIEGER, Conrad, 105                               ROSENBACH, Emil, 150
RIFFLET-LEMAIRE, Anika, 378                       ROSENBACH, Gizela, 150
RIKLIN, Franz, 661, 694                           ROSENBACH, Regina, 150
RILKE, Rainer Maria, 22, 23, 24, 104, 793         ROSENBERG, Hans, 718
RIMBAUD, Arthur, 26, 177, 249, 458, 593           ROSENBERG-KATAN, Anny, 564
RITTMEISTER, John, 13, 298, 407, 428, 661-3       ROSENBLUM, Eva, 457
RITVO, Lucille B., 96, 323, 324, 516, 760         ROSENFELD, Eva, 178, 259, 321
RITZ, Jean-Jacques, 114                           ROSENFELD, Herbert, 89, 190, 306, 672
RIVERS, Williams, 27, 30, 493                     ROSENFELD, Otto. Ver RANK, Otto
RIVET, Paul, 28                                   ROSENFELD, Simon, 641
RIVIRE, Jacques, 250, 667, 721                   ROSENTHAL, Ludovico, 761, 762
RIVIERE, Joan, 85, 126, 213, 303, 304, 306,       ROSENTHAL, Tatiana, 609, 672-3, 674, 689, 741
   399, 434, 459, 490, 610, 663-4, 784            ROSOLATO, Guy, 2, 145, 148, 236, 238, 533, 548,
RIVIRE, Pierre, 139, 140                            577, 586, 587, 608, 693, 760
RIZZO, Francis, 307                               ROSS, Dorothy, 199, 327
ROAZEN, Paul, 95, 150, 151, 179, 267, 268,        ROTH, Joseph, 67, 69, 463, 775, 776
   270, 283, 346, 348, 349, 358, 482, 640, 687,   ROTH, Pr., 753
   712, 729, 749, 782                             ROTHSCHILD, baro de, 113
ROBERT-FLEURY, Tony, 110                          ROUDINESCO, Alexandre, 40
ROBERT, Franois, 146, 148, 174, 762, 764, 800    ROUDINESCO, lisabeth, 1, 3, 16, 18, 30, 31, 41,
ROBERT, Marthe, 420, 521, 792                        47, 59, 62, 65, 69, 83, 85, 110, 117, 119, 120,
ROBERT, Robert Coles, 179                            121, 125, 136, 146, 149, 160, 174, 195, 201,
ROBESPIERRE, Maximilien de, 249                      204, 213, 219, 226, 228, 246, 254, 265, 267,
ROBIN, Rgine, 581                                   281, 306, 321, 328, 332, 334, 337, 341, 344,
ROBINSON, Paul, 500                                  347, 366, 370, 371, 378, 387, 397, 398, 409,
ROBOZ, Vera, 42                                      413, 444, 445, 451, 453, 455, 456, 457, 462,
ROBSON-SCOTT, W.D., 287                              465, 467, 478, 479, 503, 504, 507, 513, 516,
ROCH, M., 740                                        524, 529, 541, 543, 555, 572, 575, 577, 582,
ROCHA, Francisco Franco da, 87, 435, 499, 664        588, 592, 593, 612, 616, 626, 638, 646, 654,
ROCHA, Gilberto S., 641                              668, 677, 685, 686, 690, 693, 696, 708, 711,
ROCHEBLAVE-SPENL, A.-M., 737                        720, 721, 724, 752, 755, 770
RODRIGU, Emilio, 1, 34, 91, 501                  ROUQUI, Alain, 37, 92
RODRIGUES, Nelson, 579                            ROUSSEAU-DUJARDIN, Jacqueline, 54
ROGER, Jacques, 324                               ROUSSEL, Raymond, 67, 408
ROGERS, Carl, 625                                 ROUSTANG, Franois, 318, 337, 451, 646, 763
858      ndice onomstico

ROYCE, Josiah, 197, 601, 633, 673                    SANDOR, Vera, 670
ROYER, Pierre, 41, 48                                Santana (da Vinci), 469, 470
RUBENS, Petrus Paulus, 110                           SANZ, Enrique Fernandez, 186
RUBINSTEIN, Arnold, 654                              SAPIR, Edward, 425, 743, 744
RUDDICK, Bruce, 101                                  SARASIN, Philipp, 641, 684-5, 737, 739
RUDNYTSKY, Peter L., 311, 312                        SARDAN, Olivier de, 426
RUHS, August, 776                                    SARDOU, Victorien, 274
RUKERL, Adalbert. Ver KOGON, Eugen                   SARGANT, Mary, 731
RUPP-EISENREICH, Britta, 324                         SARGANT, Philip, 731
RUSH, Benjamin, 196, 197, 249, 301, 627              SARGANT-FLORENCE, Alix.
RUTTER, M., 44                                          Ver STRACHEY, Alix
RYAN, Edward, 99, 514                                SARTRE, Jean-Paul. 19, 46, 200, 201, 240, 265,
RYCROFT, Charles, viii, 148, 244, 281, 305, 458         444, 456, 498, 501, 516, 699
                                                     SASAKI, Tagatsuku, 412, 413
                                                     Saturno, 506, 507
S                                                    SAUL, Lon J., 15
                                                     SAUSSURE, Ferdinand de, 29, 241, 684, 686,
SAADA, Denise, 529                                      696, 708, 709, 711, 714, 715
SABA, Umberto, 779                                   SAUSSURE, Henri de, 684
SABLIK, Karl, 748                                    SAUSSURE, Horace Bndict de, 684
SABORSKY, Rosa, 463                                  SAUSSURE, Raymond de, 14, 62, 81, 111, 241,
SACCO E VANZETTI, 289                                   242, 251, 328, 337, 477, 555, 589, 625, 684-6,
SACHER-MASOCH, Leopold, 501, 683, 703                   696, 716, 737, 738, 739
SACHER-MASOCH, Wanda, 684                            SAUVERZAC, Jean-Franois de, 160
SACHS, Anna, 713                                     SAXL, Fritz. Ver PANOFSKY, Erwin
SACHS, Hanns, 2, 11, 14, 40, 47, 57, 60, 122, 276,   SAYERS, Janet, 356, 640
   282, 284, 293, 327, 355, 459, 477, 508, 526,      SCHAPIRO, Meyer, 469, 470
   607, 618, 644, 678-9, 684, 688, 708, 716, 738,    SCHEFTEL, Pavel Naoumovitch, 726
   739                                               SCHEIDHAUER, Marcel, 482, 724
SACHS, Wulf, 27, 342, 679-81, 730                    SCHELLING, Wilhelm von, 210, 375, 723
SACRISTAN, Miguel, 290                               SCHERNER, Karl Albert, 723
SADE, Donatien Alphonse Franois (conde de;          SCHIFF, Paul, 104, 456, 516, 686
   dito marqus de), 221, 300, 301, 354, 441, 472,   SCHILDER, Paul, 70, 158, 294, 370, 430,
   586, 681, 684                                        686-7, 735, 788
SADGER, Isidor, 276, 352, 357, 472, 530, 531,        SCHILLER, Max, 321
   606, 681, 694, 719, 786                           SCHILLER-MARMOREK, Hilda, 52
SADOUL, G., 143                                      SCHINDLER, Alma-Maria. Ver MAHLER,
SAFO, 351                                               Alma-Maria
SAFOUAN, Moustapha, 18, 61, 91, 135, 169, 174,       SCHINDLER, Raoul, 105, 777
   252, 449, 571, 572, 577, 708, 731, 747            SCHJELDERUP, Harald, 182, 183, 184, 444,
SAHLEANU, Victor, 670                                   529, 640, 652, 687-8, 734, 748
SAINT DENYS, marqus Hervey de, 723                  SCHJELDERUP, Kristian, 181, 687
SAINT-GIRONS, Baldine, 735                           SCHLOFFER, Frieda, 319
SAINT-JARRE, Chantal, 582                            SCHLUMBERGER, Marc, 111, 152
SAINT-SIMON, Louis DE ROUVROY                        SCHMIDEBERG, Melitta, 170, 295, 304, 306,
   (duque de), 345                                      314, 315, 433, 434, 688-9, 708, 783
SAJNER, Josef, 263, 264, 271                         SCHMIDEBERG, Walter, 433, 689, 688
SAKEL, Manfred, 192, 788                             SCHMIDT, Jol, 533
SAKKA, Hochanaan, 775                               SCHMIDT, Otto, 179, 674, 675, 689, 690, 789
SALAN, Raoul, 222                                    SCHMIDT, Vera, 179, 557, 652, 673, 674, 675,
SALAZAR, Antonio de Oliveira, 187                       689-90, 726, 789
SALOMON, Anne, 60                                    SCHMIDT, Wilhelm, 28, 367, 368, 370, 402
SAMUELS, Andrew, 424                                 SCHNAIDERMAN, Regina, 88
SANCHEZ-GARNICA, J.M. Gomez, 291                     SCHNEIDER, Ernst, 791
SANDLER, Joseph, 25, 260, 366, 603                   SCHNEIDER, Michel, 320, 638, 719, 720
                                                                        ndice onomstico     859

SCHNITZLER, Arthur, 51, 613, 690-1, 775, 793       SELLIN, Ernst, 519, 521
SCHOENERER, Georg von, 418                         SELZER, Michael A., 83
SCHNBAUER, L., 778                                SEMI, Antonio Alberto, 289, 528
SCHNBERG, Arnold, 311, 793                        SEMMELWEIS, Philippe Ignace, 232
SCHNBERG, Ignaz, 58                               SENIK, Andr, 160
SCHOPENHAUER, Arthur, 175, 348, 375, 485,          SERBSKI, Wladimir Petrovitch, 179, 557,
   488, 495, 496, 497, 546, 547, 602, 642, 647,       674, 676, 790
   662, 723                                        SERENUS (pseudnimo de Wilhelm STEKEL),
SCHOPLER, E. Ver RUTTER, M.                           729
SCHOPP, Georges, 638                               SERSON, Joan Moivat, 178
SCHORSKE, Carl, 255, 265, 272, 279, 346,           SERVADIO, Emilio, 289, 402, 403, 527, 701, 781
   347, 420, 442, 616, 775, 777, 794               SETCHENOV, Ivan Mikhailovitch, 673
SCHOTTE, Jacques, 55, 747                          SEVE, Lucien, 125
SCHTTLER, Peter, 179                              SVRIN, Grard, 159
SCHREBER, Daniel Gottlieb Moritz, 691, 693         SHAKESPEARE, William, 136, 176, 275,
SCHREBER, Daniel Paul, 72, 190, 246, 273, 325,        497, 560, 666, 667, 708, 758
   445, 470, 559, 573, 574, 604, 621, 646, 691-3   SHAMDASANI, Sonu, 424
SCHREIBER, Sophie, 255                             SHARPE, Freeman Ella, 85, 303, 315, 379,
SCHREINER, Olive, 176                                 429, 688, 708
SCHRTER, Michael, 716                             SHARPLEY-WHITING, T. Denean, 223
SCHUBERT, Gothulf Heinrich von, 488, 723           SHELLEY, Mary, 289, 653
SCHUBERT, Franz, 348                               SHEROZIA, A.E., 677
SCHULT-VENRATH, Ulrich, 716                        SHEVRIN, Howard, 126
SCHULTZ, Johannes Heinrich, 13, 298, 336,          SHIELDS, Clarence, 97
   625, 695
                                                   SHORTER, Bani, 424
SCHULTZ-HENCKE, Harald, 12, 13, 80, 297,
                                                   SHORTER, Edward, 720
   298, 426, 428, 526, 625, 661, 662, 694-5
                                                   SHRENGER, Wanda, 779
SCHULZE-BOYSEN, Harro, 662
                                                   SICHERE, Bernard, 445, 451
SCHUR, Max, 59, 126, 150, 163, 164, 239, 263,
                                                   SIGNORELLI, Luca, 618, 619
   264, 272, 277, 278, 279, 326, 346, 347, 481,
   485, 490, 497, 600, 601, 695-6                  SILBERER, Herbert, 712, 734, 741
SCHWAG, Sophie, 325                                SILBERER, Viktor, 712
SCHWARZ, Paul, 670                                 SILBERSTEIN, Eduard, 92, 242, 272, 273,
SCHWARZWALD, Frau, 612                                290, 557, 712-4
SCHWENINGER, Ernst, 316                            SILBERSTEIN, Theodora, 713
SCOTT, Joan, 293                                   SMILE-FREUD (apelido de Theodor REIK), 655
SEARL, Nina, 85                                    SIMMEL, Ernst, 1, 10, 11, 57, 172, 199, 231,
SEARLE, John R., 293                                  297, 427, 508, 509, 598, 715-7
SEARLES, Harold, 83, 134, 135                      SIMMEL, Georg, 626
SEBEK, Michael, 161, 322                           SINHA, T.C., 85, 381
SEBRELI, Jos, 501                                 SIXTO IV, papa, 470
SECHEHAYE, Albert, 684, 696                        SKOBLINE, Nicolas, 173
SECHEHAYE, Marguerite, 190, 696                    SKODA, Josef, 93
SDAT, Jacques, 365                                SLIGHT, David, 100, 717
SEGAL, Hanna, 306, 398, 431, 434, 462,             SMITH, Harry, 731
   551, 595, 610, 672                              SMITH, Preserved, 179
SEGAL, Naomi, 103                                  SMITH, Watson, 303
SEGANTINI, Giovanni, 2                             SMITH, William Robertson, 27, 758, 760
SEGHERS, Anna, 792                                 SCRATES, 164, 769
SGLAS, Jules, 572, 574                            SFOCLES, 45, 168, 169, 275, 465, 605, 758
SEGOND, Pierre, 262, 270                           SOKOLNICKA, Eugnie, 80, 119, 234, 251-2,
SEGOVIA, Tomas, 502                                   454, 477, 524, 590, 609, 610, 721-2, 741
SEIDMANN, Jacob, 265                               SOLLERS, Philippe, 156, 253, 254, 301, 684
SELESNICK, S.T., 623                               SOLMI, Edmondo, 468
SELIGMAN, Charles, 27, 30, 493, 494                SOLMS, Hugo, 312
860      ndice onomstico

SOLMS-RDELHEIM, Wilhelm, 104, 564,                  STERNHELL, Zeev, 332
   567, 776, 786                                     STIRNER, Max, 756
SOLNIT, Albert J., 18, 226, 324, 699                 STOCKER, Bram, 243, 244
SOMVILLE, Pierre, 108                                STOCKING, George W., 494, 760
SOUBRENIE, Dominique, 358
                                                     STODDART, H.B., 303
SOUPAULT, Philippe, 251
                                                     STOLLER, Robert, 74, 237, 238, 291, 292,
SOURY, Pierre, 541
                                                        586, 587, 730-1, 765, 766
SOUSTELLE, Jacques, 104
SOUZA, Edson Luiz Andr de, 658                      STORFER, Adolf Josef, 694
SOYKA, Otto, 770                                     STRACHEY, Alix, 204, 303, 382, 432, 731-2, 783
SPANJAARD, J., 563                                   STRACHEY, James, 95, 96, 112, 114, 126, 135,
SPANUDIS, Theon, 724-5                                  143, 147, 170, 180, 201, 204, 206, 213, 272,
SPEER, Ernst, 77                                        275, 279, 287, 303, 305, 306, 315, 382, 390,
SPERBER, Mans, 7, 8, 275                               399, 415, 432, 484, 490, 518, 543, 546, 613,
SPIELMANN, Claude, 254                                  615, 628, 635, 659, 663, 717, 732-3, 756, 761,
SPIELREIN, Eva, 726                                     762, 764, 770, 783
SPIELREIN, Renata, 726                               STRACHEY, Lytton, 303, 731, 732
SPIELREIN, Sabina Nicolaievna, 18, 58, 172, 319,     STRACHEY, Richard, 732
   326, 420, 422, 488, 490, 673, 675, 725-7, 738     STRAUSS, Richard, 311
SPINOZA, Baruch, 118, 146, 375, 446, 666,            STRINDBERG, August, 72, 185, 181, 191,
   667, 722                                             561, 779
SPIRA, Marcelle, 739                                 STROEKEN, Harry, 54, 311, 312, 460, 556, 563
SPITTELER, Carl, 371, 372                            STRMME, Johannes, 181, 184, 733-4
SPITZ, Ren, 17, 40, 60, 88, 101, 234, 260, 328,
                                                     STROZIER, Charles B., 438
   357, 359, 457, 484, 609, 643, 696, 727
SPOCK, Benjamin, 784                                 STRMPELL, Adolf, 206
SPRENGER, Jacob, 367                                 STUTE-CADIOT, Johanna, 115, 490
SPROTT, W.J.H., 543                                  SUARS, Andr, 666
STALIN, 653                                          SUCHET, Emmanuel, 114
STRKE, August, 177, 556, 561, 727-8                 SUGAR, Nikola, 62, 735
STRKE, Johan, 727                                   SULLIVAN, Harry Stack, 83, 162, 190,
STAROBINSKI, Jean, 4, 167, 169, 507, 528, 724           197, 199, 234, 318, 356, 384, 458, 534, 625,
STAUB, Hugo, 138, 140                                   643, 742-4, 782
STEADMAN, Ralph, 113, 114                            SULLOWAY, Frank J., 45, 46, 74, 94, 177, 207,
STEIN, Conrad, 66, 253                                  238, 324, 475, 516, 522, 572, 703, 705, 773
STEIN, Fulop, 232                                    SUPLIGEAU, Marie-Odile, 136
STEINACH, Eugen, 460                                 SURNA, Guillaume, 223, 499
STEINBACH, Margarete, 187
                                                     SURYA, Michel, 84
STEINBECK, John, 581
STEINER, Riccardo, 103, 248, 297, 306, 315,          SUTHERLAND, Jock, 305
   329, 379, 399, 418, 434, 659, 661, 733, 764       SUTHERLAND, W.D., 303
STEKEL, Wilhelm, 7, 8, 17, 118, 122, 129, 243,       SUTTON, Nina, 63
   244, 276, 293, 319, 334, 382, 395, 594, 618,      SUZUKI, D.T., 413
   625, 641, 655, 670, 674, 712, 719, 720, 723,      SVEVO, Italo, 779
   728-9, 751, 756, 788, 790                         SWAIN, Gladys, 110, 338, 342, 479, 623, 625
STENGEL, E., 135                                     SWALES, Peter, 59, 205, 207, 240, 476, 556,
STEPANSKY, Paul E., 8, 207, 476, 556, 727               569, 571, 572
STEPHEN, Adrien, 303                                 SWEDENBORG, Emmanuel, 191, 348
STEPHEN, Karin, 303
                                                     SWOBODA, Hermann, 73, 240, 319, 747, 779
STERBA, Editha, 729
                                                     SZASZ, Thomas, 26
STERBA, Richard, vii, 63, 101, 260, 278, 348, 411,
   413, 439, 461, 680, 730, 775, 776, 777, 786       SZKELY, Lajos, 21, 184
STERN, Adolph, 198                                   SZKELY, Olga. Ver DORMANDI, Olga
STERN, Anne-Lise, 466                                SZKELY-KOVACS, Alice. Ver BALINT, Alice
STERN, Mikhail, 677                                  SZONDI, Leopold, 739, 747
                                                                   ndice onomstico         861

T                                             TRIANDAFILIDIS, Manolis, 773
                                              TRILLAT, tienne, 110, 207, 341, 510
TADI, M., 598                                TROMBETTA, Carlo, 420, 725, 727
TAFT, Jessie, 644                             TROTSKI, Lon, 7, 174, 675, 677
TAILLANDIER, Jrme, 221                      TROTTER, Wilfred Ballen Lewis, 302, 415
TAINE, Hippolyte, 331                         TRUFFAUT, Franois, 609
TAKEO, Doi, 412, 413                          TUKE, William, 196, 249, 301, 627
TALLEYRAND (Charles Maurice de                TURQUET, Pierre, 449, 334
   TALLEYRAND-PRIGORD), 456                  TUSTIN, Frances, 43
TAMM, Alfhild, 182, 184, 444, 529, 687, 748   TWAIN, Mark, 113, 260
TANDLER, Julius, 635, 748                     TYLOR, Edward Burnett, 760
TARDE, Gabriel, 736, 737                      TYSON, Alan, 467, 617, 733, 764
TARDIEU, Ambroise, 765                        TYSON, Phyllis, 44, 477
TARRAB, Gilbert, 31                           TYSON, Robert L., 44, 260, 477
TAUSK, Jelka, 749                             TYTELL, Pamela, 145, 178, 179, 290, 318, 484
TAUSK, Marius, 748, 749, 750                  TZARA, Tristan, 593
TAUSK, Victor-Hugo, 748, 749                  TZOULADZ, Serge, 676
TAUSK, Viktor, 23, 150, 165, 319, 346, 485,
   618, 712, 728, 741, 748-50
TAYLOR, Alice, 783                            U
TELEMANN, Georg Philipp, 666
TELLENBACH, Hubertus, 507                     UEXKLL, Jakob von, 371
TERESA DE VILA, santa, 300, 459, 560         ULLOA, Fernando, 34, 78, 462, 501, 761
THEILER, Pauline, 713                         ULRICHS, Carl Heinrich, 351, 354
THNON, Jorge, 33                             Urnia, 351
                                              Urano, 351, 506
THOMAS, A.L, 708
                                              URBAN, Suzan (caso), 68
THOM, Michel, 541
                                              URTUBAY, Luisa, 190, 192, 325, 755
THOMPSON, Clara, 234, 356, 743
THOMPSON, Nellie L., 119, 201
THOMSON, Geoffrey, 70                         V
THUILLIER, Pierre, 355
THURN, R. Payer, 324                          VACHER DE LAPOUGE, Georges, 331
TIFFANY, Charles, 97                          VALABREGA, Jean-Paul, 41, 165, 253, 450,
TIMMS, Edward, 103                              548, 577, 582, 587
TISSI, Silvio, 780                            VALENTIN-CHARASSON, Simone, 153
TITO, 775                                     VALLE Y ALDABALDE, Rafael, 186
TOCQUEVILLE, Alexis de, 201                   VAN DER CHJS, A., 177, 556, 561
TOKUGAWA (dinastia), 410                      VAN DER HOOP, J.H., 460, 562
TOLSTOI, Lon, 666                            VAN DER LEEUW, Pieter Jan, 563
TOMS, so, 541                               VAN DER SPOEL, Maud. Ver MANNONI, Maud
TOMASI, Alessandra, 403                       VAN GOGH, Vincent, 191, 479
TONE, Franchot, 524                           VANIER, Alain, 638
TONNESMANN, Margareet, 329                    VAN RENTERGHEM, Albert Willem, 177, 556,
TORNGREN, Pehr Henrik, 182, 756                 561
TOROK, Maria, 3, 145, 263, 397, 567, 608      VARENDONCK, Juliaan, 54, 774
TORT, Michel, 381                             VARGAS, Getlio, 87
TORT, Patrick, 324                            VARVIN, Sverre, 185
TOSCANINI, Arturo, 311                        VASARI, Giorgio, 468, 470
TOSQUELLES, Franois, 222, 498, 626           VASSE, Denis, 160
TOULMIN, Stephen, 347, 420, 442, 483, 777     VAUGHAN, Megan, 680
TOULOUSE-LAUTREC, Henri de, 321               VEBELSBERG, Hugo. Ver IGNOTUS, Hugo
TOURETTE, TURGIS, Catherine, 484              VECHT, Deena, 778
TOURNE, Yvette, 358                           VEGETTI FINZI, Silvia, 57, 220, 248, 528,
TOWER, Lucia, 135                               583, 701, 782
TREPPER, Leopold, 111, 662                    VEGH, Isidoro, 36, 502, 593
862     ndice onomstico

VERDEAUX, Jacqueline, 68                        WATERMANN, August, 13, 327, 556, 562, 778
VERDIGLIONE, Armando, 577                       WEBER, Marianne, 319
VERGS, Franoise, 223                          WEBER, Marielne, 756
VERGOTE, Antoine, 55                            WEBER, Max, 319, 328
VERMOREL, Henri e Madeleine, 288, 492,          WEEKLEY, Ernest, 319
    666, 668                                    WEIL, Patrick, 504
VERNANT, Jean-Pierre, 168, 169                  WEININGER, Otto, 7, 72, 73, 74, 240, 318, 350,
VERNE, Jules, 241                                 419, 441, 642, 741, 747, 770, 775, 778-9, 787
VERNY, Franoise, 370                           WEISMANN, August, 521, 758
VEZZETTI, Hugo, 37, 78, 454, 462, 502,          WEISS, Edoardo, 126, 230, 272, 401-3, 405, 471,
    557, 593, 761, 764                            527, 582, 607, 701, 779-82
VIANU, Ion, 670                                 WEISS, Ilona, 206, 207
Victor de l'Aveyron, 609, 611                   WEISS, Louise, 40
VIDELA, Jorge, 35, 36, 462                      WEISS, Nathan, 274, 741
VIKAR, Gyorgy, 361                              WEISZCKER, Viktor von, 517
Villenoix, Mlle. de, 189                        WELLS, H.G., 241
VILTARD, Mayette, 301, 312, 313, 502            WELLS, Richard, 269
VINCENT, Clovis, 40                             WENCELBLAT, Matilde, 34, 592, 644
VINCENT, Thierry, 623, 744                      WENCELBLAT, Simon, 34, 52, 644
VIREL, Andr, 424                               WENDER, Leonardo. Ver CUCURULLO,
VITAL BRAZIL, Horos, 162                          Antonio
VTOR-EMMANUEL III, 229, 779                    WERNICKE, Karl, 319
VLAD, Constantin, 590, 670, 777                 WEST, Ellen (caso), 190
VOGHERA, Giorgio, 405, 779, 782                 WESTERMARCK, Edward, 373, 493, 758,
VOGT, Ragnar, 181                                 759, 760
VOIGT, Emmy von, 316                            WESTPHAL, Carl, 351
VOLOCHINOV, Valentin, 675                       WETTERSTRAND, Otto, 75, 181
VOLTAIRE (Franois Marie AROUET), 496           WHITE, Rene, 223
VOS, George A. de, 413                          WHITE, William Alanson, 197, 199, 414, 524,
VOYER, Victorien, 66                              634, 743, 782
VULPIAN, Alfred, 109                            WHITROW, Magda, 778
VYGOTSKI, Lev Semenovitch, 480                  WHYTE, Lancelot, 331, 375, 378, 423
VYRUBOV, Nicolas, 557, 674, 789, 790            WIDLCHER, Daniel, 2, 18, 252, 449, 119,
                                                  513, 721
                                                WIDMER, Peter, 589, 739, 740
W                                               WIENE, Robert, 678
                                                WIER, Jean, 338
W., S. (caso). Ver PREISWERK, Hlne            WILDE, Oscar, 176, 350
WAAL, Nic, 183                                  WILL, H., 318
WAELDER, Robert, 199, 304, 306, 483             WILLIS, Thomas, 506, 623
Wagner, caso, 290                               WILSON, Emmet, 733, 764
WAGNER, Richard, 116, 312, 313, 666, 779        WILSON, Thomas Woodrow, ix, 203, 598-601, 608
WAGNER-JAUREGG, Julius, 150, 277, 328, 442,     WINN, Roy Coupland, 42, 202
   463, 523, 537, 555, 635, 686, 748, 778       WINNICOTT, Clare, 784
WAHL, Charles W., 297                           WINNICOTT, Donald Woods, viii, 18, 42, 48, 74,
WAHL, Franois, 445, 450                          118, 134, 135, 147, 155, 156, 159, 170, 171,
WLDER, Robert. Ver WAELDER, Robert               185, 190, 195, 247, 273, 289, 293, 303, 306,
WLDER-HALL, Jenny, 199                           310, 315, 342, 379, 399, 426, 429, 430, 433,
WALDINGER, Ernst, 786                             435, 441-2, 458, 477, 484, 533, 536, 551, 552,
WALD LASOWSKI, Patrick, 332                       553, 554, 594, 609, 610, 642, 670, 696, 699,
WALLBRIDGE, David, 786                            700, 704, 769, 783-6
WALLENBERG, Raoul, 350, 361                     WINNICOTT, sir Frederick, 783
WALLON, Henri, 194-5, 371, 447, 559, 591, 714   WINNIK, Heinrich, 670
WALSER, Hans, 550, 589, 738                     WINTERNITZ, Pauline (dita Paula), 265, 776, 786
WALTER, Bruno, 311, 483, 666                    WINTERNITZ, Rose Beatrice (dita Rosi), 786
                                                                       ndice onomstico       863

WINTERNITZ, Valentin, 786                         Z
WINTERSTEIN, Alfred von, 104, 567, 776, 786
WITMER, Lightner, 612
                                                  Z., Sr., 437, 438
WITTELS, Fritz, 202, 203, 204, 272, 276, 326,
                                                  ZAJIC, Monica (dita Nannie), 257, 271, 273
  345, 422, 424, 441, 472, 615, 681, 719, 786-8
WITTGENSTEIN, Ludwig, 442, 483, 502, 541          ZAK, E., 143
WITTKOVER, Eric, 101, 102                         ZALKIND, Aron Borissovitch, 578, 675, 790
WITTMANN, Blanche, 41, 47, 109, 110, 458          ZAMFIRESCU, Vasile, 670
WITTMAYER BARON, Salo, 518, 521                   ZANGWILL, Israel, 160
WOLFRAM, Sybil, 282                               ZAVITZIANOS, Georges, 101, 177
WOOLF, Leonard, 303, 732                          ZEITLIN, Rose-Marie, 143
WOOLF, Virginia, 303, 731, 732                    ZELLENKA, Giuseppina (ou Peppina = Sra.K),
WORTIS, Joseph, 198, 788                              51, 52, 53
WRIGHT, Elizabeth, 136, 156, 301, 435, 453        ZELLENKA, Hans (= Sr.K.), 51, 52, 53
WRIGHT, Maurice, 303                              ZETZEL, Elizabeth R., 465, 543
WULFF, Moshe, 173, 179, 342, 480, 557, 670,       ZIEGLER-JUNG, Sophie, 421
  674, 675, 789, 790                              ZIEHEN, Theodor, 10, 302, 564, 789
WUNDERLI, Erika, 588
                                                  ZILBOORG, Gregory, 61, 101, 198, 338, 627, 791
WUNDT, Wilhelm, 38, 241, 375, 400, 440,
                                                  ZIMMERMANN, David, 90
  492, 673, 757
WYRSCH, Jakob, 19                                 ZINNEMANN, Fred, 289
                                                  ZIZEK, Slavoj, 453
                                                  ZOLA, mile, 331, 667
Y                                                 ZUBIN, J., 727
                                                  ZULLIGER, Hans, 737, 738, 791
YABE, Yaekichi, 410, 411, 558                     ZUMSTEIN-PREISWERK, Stfanie, 598
YAMAMURA, Tooru, 413                              ZUPPINGER-URNER, Martha, 588
YERUSHALMI, Yosef Hayim, 65, 255, 265,            ZUSNE, L., 327, 744
  370, 420, 424                                   ZWEIG, Adam, 792
YOSHIDA, Kiyoschi, 439                            ZWEIG, Arnold, 8, 202, 204, 269, 272, 402, 405,
YOUNG, Thomas, 109                                    497, 543, 548, 599, 791-2, 794
YOUNG-BRUEHL, lisabeth, 97, 260, 262,            ZWEIG, Stefan, 63, 202, 204, 266, 267, 272, 273,
  266-7, 268, 270, 283, 326, 349, 355, 418,           277, 278, 279, 345, 347, 348, 349, 358, 496,
  444, 459, 786                                       510, 537, 569, 666, 667, 668, 675, 720, 775,
YOVEL, Yirmiyahu, 419, 420, 752, 755                  792, 793-4
                             NDICE DOS VERBETES



A                                                 Anzieu, Marguerite (caso Aime), 30-1
                                                  apoio, 31-2
Aberastury, Arminda, 1                            a posteriori, 32
Abraham, Karl, 1-2                                Argentina, 32-7
Abraham, Nicolas, 2-3                             Arpad, o homenzinho-galo, 37
abreao, 3-4                                     Arquivos Freud, 37
abstinncia, regra de, 4-5                        sia, 37
acting out, 5-6                                   Associao Brasileira de Psicanlise, 37-8
Adler, Alfred, 6-8                                associao livre, regra da, 38
Adler, Ida, 8                                     Associao Psicanaltica Internacional, 38
afnise, 8                                        associao verbal, teste de, 38
frica, 9                                         Association Mondiale de Psychanalyse, 38-9
Aichhorn, August, 9                               ateno flutuante, 39
Aime, caso, 9                                    ato falho, 40
Ajase, complexo de, 9                             atuao, 40
Alemanha, 10-4                                    Aubry, Jenny, 40-1
Alexander, Franz, 14-5                            Augustine, 41
alfa, funo, 15                                  Aulagnier, Piera, 41
Allendy, Ren, 15-6                               Austrlia, 41-3
Ambulatorium, 16                                  ustria, 43
Amrica, 16                                       autismo, 43-4
American Psychoanalytic Association, 16-7         auto-anlise, 44-6
amor de transferncia, 17                         auto-erotismo, 46
anacltica, depresso, 17                         automatismo mental (ou psicolgico), 46
anlise didtica, 17-9
anlise direta, 19
anlise existencial (Daseinanalyse), 19           B
anlise leiga, 20
anlise mtua, 20                                 Babinski, Joseph, 47
anlise originria, 20                            Balint, Michael, 47-9
anlise profana, 21                               Baranger, Willy, 49
anlise selvagem, 21                              Basaglia, Franco, 49
anlise transacional, 21                          Bateson, Gregory, 49-50
Andersson, Ola, 21-2                              Baudoin, Charles, 50
Andreas-Salom, Lou, 22-5                         Bauer, Ida (caso Dora), 50-4
androginia, 25                                    Beirnaert, Louis, 54
angstia, 25                                      Blgica, 54-6
annafreudismo, 25                                 Bellevue, Clnica Psiquitrica de, 56
Anna O., caso, 25                                 Benedikt, Moriz, 56
ansiedade, 25                                     Benussi, Vittorio, 56
antipsiquiatria, 25-6                             Berliner Psychoanalytisches Institut, 57
antropologia, 26-30                               Bernays, Anna, 57-8

                                            865
866     ndice dos verbetes

Bernays, Minna, 58-60                Chistes e sua relao com o inconsciente, Os,
Bernfeld, Siegfried, 60-1                111-4
Bernheim, Hippolyte, 61-2            Cinco lies de psicanlise, 114-7
Betlheim, Stjepan, 62-3              ciso, 117-9
Bettelheim, Bruno, 63-5              civilizao, 119
Biblioteca do Congresso, 65          Claparde, douard, 119
Bibring, Edward, 66                  Clarke, Charles Kirk, 119
Bigras, Julien, 66-7                 Claude, Henri, 119-20
Binswanger, Ludwig, 67-9             Claus, Carl, 120
Bion, Wilfred Ruprecht, 69-71        Clrambault, Gatan Gatian de, 120-1
bissexualidade, 71-4                 clivagem (do eu), 121-2
Bjerre, Poul, 74-7                   cocana, 122
Bleger, Jos, 77-8                   Collomb, Henri, 122
Bleuler, Eugen, 78-80                colonizao, 122
Bloomsbury, Grupo de, 80             Comit Secreto, 122-3
Boehm, Felix, 80-1                   complexo, 123
Bonaparte, Marie, 81-3               compulso, 123
borderline, 83-4                     comunismo, 123-5
Borel, Adrien, 84                    condensao, 125-6
Bose, Girndrashekhar, 84-5          Conferncias introdutrias sobre psicanlise,
Bouvet, Maurice, 85                      126-30
Bowlby, John, 85-6                   Congresso (da IPA), 130
Brasil, 86-92                        conscincia, 130-1
Brentano, Franz, 92-3                consciente, 131-3
                                     construo, 133
Breuer, Josef, 93-4
                                     contedo (latente e manifesto), 133
Brill, Abraham Arden, 94-5
                                     contratransferncia, 133-5
Brcke, Ernst Wilhelm von, 95-6
                                     Contribuio  concepo das afasias, 135
Burghlzli, Clnica do, 96
                                     controle, anlise de, 135
Burke, Mark, 96-7
                                     converso, 135
Burlingham, Dorothy, 97
                                     Cooper, David, 135-6
Burrow, Trigant, 97-8
                                     Coriat, Isador, 136-7
Bychowski, Gustav, 98
                                     criminologia, 137-40
                                     Cuernavaca, Mosteiro de, 140
C                                    culturalismo, 140

Ccilie M., caso, 99                 D
Canad, 99-103
Crcamo, Celes Ernesto, 103-4        Daseinanalyse, 141
Caruso, Igor, 104-5                  defesa, 141-2
castrao, complexo de, 105-7        Delay, Jean, 142-3
catarse, 107-8                       Delrios e sonhos na Gradiva de Jensen, 143-5
catexia, 108                         demanda, 145
cena primria (ou originria), 108   denegao, 145-6
censura, 108-9                       depresso, 146
Charcot, Jean Martin, 109-10         desejo, 146-8
Chentrier, Thodore, 110-11          deslocamento, 148-9
Chertok, Lon, 111                   desmentido, 149
Chestnut, Lodge Clinic, 111          des-ser, 149
chiste, 111                          destituio subjetiva, 149
                                                                    ndice dos verbetes 867

Deutsch, Adolf Abraham, 149                 Espanha, 186-8
Deutsch, Felix, 149-50                      espelho, estdio do, 188
Deutsch, Helene, 150-1                      espiritismo, 188-9
Devereux, Georges, 151-3                    esquizo-anlise, 189
Dick, caso, 153                             esquizofrenia, 189-93
didtica, 153                               esquizo-paranide, posio, 193
diferena sexual, 154-6                     estdio (oral, anal, flico, genital), 193-4
Dinamarca, 157                              estdio do espelho, 194-5
discordncia, 157                           estados fronteirios, 195
dissidncia, 157                            Estados Unidos, 195-201
dissociao, 157                            estranho, o, 201
diviso (do eu), 157                        Estudo autobiogrfio, Um, 201-4
Documento, 157                              Estudos sobre a histeria, 204-7
Dolto, Franoise, 157-60                    etnografia, 207
Dominique, caso, 161                        etnologia, 207
Doolittle, Hilda, 161                       etnopsicanlise, 207-10
Dora, caso, 161                             eu, 210-3
Dosuzkhov, Theodor, 161                     eu autnomo, 213
double bind, 161                            Eu e o isso, O, 213-8
Doyle, Iracy, 161-2                         eu ideal, 218
Dugautiez, Maurice, 162                     Europa, 218
duplo vnculo, 162                          excomunho, 218
                                            Ey, Henri, 218-9

E
                                            F
Eckstein, Emma, 163-4
cole de Nancy, 164                         Fachinelli, Elvio, 220
cole de la Salptrire, 164                Fairbairn, Ronald, 220-1
cole Freudienne de Paris, 164-5            falo, 221
Eder, David, 165-6                          falocentrismo, 221-2
dipo, complexo de, 166-9                   Fanon, Frantz, 222-3
ego, 169                                    fantasia, 223-6
Ego Psychology (psicologia do eu), 169-71   fantasma, 226
Eitingon, Max, 171-4                        Favez-Boutonier, Juliette, 226
elaborao, 174                             Fechner, Gustav Theodor, 227
Elisabeth von R., caso, 174                 Federao Europia de Psicanlise, 227-8
Ellenberger, Henri F., 175-6                Federao Psicanaltica da Amrica Latina, 228
Ellis, Henry Havelock, 176-7                Federn, Paul, 228-30
Embiricos, Andreas, 177                     feminismo, 230
Emden, Jan Van, 177                         Fenichel, Otto, 230-2
Emerson, Louville Eugne, 177               Ferenczi, Sandor, 232-5
Emmy von N., caso, 178                      fetichismo, 235-8
Erikson, Erik, 178                          filiao, 238-9
Ermakov, Ivan Dimitrievitch, 179-80         Finlndia, 239
eros, 180                                   Fleischl-Marxow, Ernst von, 239
Esboo de psicanlise, 180                  Fliess, Robert, 239
Escandinvia, 180-6                         Fliess, Wilhelm, 239-41
Escola Ortognica de Chicago, 186           Flournoy, Henri, 241
escotomizao, 186                          Flournoy, Thodore, 241-2
escrita automtica, 186                     Fluss, Gisela, 242-3
868     ndice dos verbetes

fobia, 243-5                              Gesammelte Schriften, 294
foracluso, 245-6                         Gesammelte Werke, 294
forcluso, 246                            gestalt-terapia, 294-5
Forel, August, 246-7                      Glassco, Gerald, 295
Fornari, Franco, 247-8                    Glover, Edward, 295-7
Forsyth, David, 248                       Gring-Institut, 297
fort/da, 248                              Gring, Matthias Heinrich, 297-9
Frana, 248-54                            gozo, 299-301
Freud, Adolfine, 254-5                    Gr-Bretanha, 301-7
Freud, Alexander, 255                     Graf, Herbert (caso Pequeno Hans), 307-12
Freud, Amalia, 256-7                      Graf, Max, 312-3
Freud, Anna (filha de Freud), 257-60      Graf, Rosa, 313-4
Freud, Anna (irm de Freud), 260          Grandes Controvrsias (Controversial
Freud, Emanuel, 260-1                        Discussions), 314
Freud, Ernst, 261-2                       gratido, 315
Freud, Eva, 262                           Groddeck, Georg, 315-9
Freud, Josef, 262-3                       Gross, Otto, 319-20
Freud, Julius, 263                        Guattari, Flix, 320-1
Freud, Kallamon Jacob, 263-5              Guilbert, Yvette, 321
Freud, Marie, 265
Freud, Martha, 265-7
Freud, Martin, 267-8                      H
Freud, Mathilde, 268
                                          Haas, Ladislav, 322
Freud Museum, 268-9
                                          Haeckel, Ernst, 322-4
Freud, Oliver, 269-70
                                          Haitzmann, Christopher, 324-5
Freud, Pauline (irm de Freud), 270
                                          Halberstadt, Sophie, 325-6
Freud, Pauline (sobrinha de Freud), 270
                                          Hall, Stanley Granville, 326-7
Freud, Philipp, 270-1
                                          Hampstead Child Therapy Clinic, 327
Freud, Rebekka, 271-2
                                          Hans, Pequeno (caso), 327
Freud, Regina Debora, 272
                                          Happel, Clara, 327
Freud, Sally, 272
                                          Hartmann, Heinz, 327-8
Freud, Sigmund, 272-9
                                          Heimann, Paula, 328-9
Freud, Sophie, 279
                                          Heller, Hugo, 329
freudismo, 280-1
                                          Helmholtz, Hermann Ludwig von, 329-30
freudo-marxismo, 281
                                          Herbart, Johann Friedrich, 330-1
Freund, Anton von, 282
                                          hereditariedade-degenerescncia, 331-2
Friedlnder, Kate, 282-3
                                          hermafroditismo, 332
Frink, Horace, 283-4
                                          Hermann, Imre, 332
Fromm, Erich, 284-5
                                          Hesnard, Angelo, 332-4
Fromm-Reichmann, Frieda, 285
                                          heterologia, 334
frustrao, 285-6
                                          Hilferding, Margarethe, 334-5
Futuro de uma iluso, O, 286-8
                                          hipnose, 335-7
                                          Hirschfeld, Magnus, 337
G                                         histeria, 337-42
                                          histeria de angstia, 342
Gaddini, Eugenio, 289                     histeria masculina, 342
Gardiner, Muriel, 289-90                  histria da psicanlise, 342-5
Garma, Angel, 290-1                       historiografia, 345-7
gnero (gender), 291-3                    Hitschmann, Eduard, 347-8
gerao, 293-4                            Hoch, August, 348
                                                                           ndice dos verbetes 869

Hoffmann, Ernst Paul, 348                          introjeo, 397
Hollitscher, Mathilde, 348-9                       introverso, 397
Hollos, Istvan, 349-50                             inveja, 397-8
Homem dos Lobos, caso, 350                         inveja do pnis, 398
Homem dos Ratos, caso, 350                         investimento, 398
homossexualidade, 350-5                            IPA, 398
horda primitiva, 355                               Irma, injeo de, 398
Horney, Karen, 355-6                               Isaacs, Susan, 399
hospitalismo, 356                                  isso, 399-400
Hug-Hellmuth, Hermine von, 357-8                   Itlia, 400-5
Hungria, 358-61

                                                   J
I
                                                   Jackson, Hughlings, 406
Ichspaltung, 362                                   Jacobson, Edith, 406-7
id, 362                                            Jahrbuch fr psychoanalytische und
ideal do eu, 362-3                                     psychopathologische Forschungen
identificao, 363-6                                   (Anais de pesquisas psicanalticas
identificao projetiva, 366                           e psicopatolgicas), 407
Ignotus, Hugo, 366-7                               Janet, Pierre, 407-10
Igreja, 367-70                                     Japo, 410-3
imagem do corpo, 370                               Jekels, Ludwig, 413-4
imaginrio, 371                                    Jelliffe, Smith Ely, 414-5
imago, 371-2                                       Jones, Ernest, 415-8
Imago (Revista sobre aplicao da psicanlise      judeidade, 418-20
    s cincias do esprito), 372                  Juliusburger, Otto, 420
incesto, 372-4                                     Jung, Carl Gustav, 421-4
inconsciente, 374-8
incorporao, 378-9
Independentes, Grupo dos, 379                      K
ndia, 380-1
Inglaterra, 381                                    Kardiner, Abram, 425-6
Inibies, sintomas e angstia, 381-4              Katharina, caso, 426
injeo de Irma, sonho da, 384                     Kemper, Ana Katrin, 426-7
instinto, 384                                      Kemper, Werner, 427-9
instituio (psicanaltica), 384                   Kempner, Salomea, 429
Instituto Psicanaltico de Berlim, 384             Khan, Masud, 429-30
International Federation of Psychoanalytic         Kingsley, Hall, 430
    Societies, 384                                 Klajn, Hugo, 430
International Journal of Psycho-Analysis, 384      Klein, Melanie, 430-4
International Psychoanalytical Association         kleinismo, 434-5
    (IPA), 384-7                                   Koch, Adelheid, 435
Internationale Fderation der Arbeitskreise fr    Kohut, Heinz, 435-8
    Tiefenpsychologie, 387                         Koller, Carl, 438
Internationale Zeitschrift fr Psychoanalyse und   Kosawa, Heisaku, 438-40
    Imago, 388                                     Kouretas, Dimitri, 440
Internationale Psychoanalytische Vereinigung,      Kraepelin, Emil, 440-1
    388                                            Krafft-Ebing, Richard von, 441
interpretao, 388-90                              Kraus, Karl, 441-2
Interpretao dos sonhos, A, 390-7                 Kretschmer, Ernst, 442
870     ndice dos verbetes

Kris, Ernst, 442-3                            Mann, Thomas, 494-7
Kris, Marianne, 443-4                         Mannoni, Octave, 497-9
Kulovesi, Yrj, 444                           Marcinowski, Jaroslaw, 499
                                              Marcondes, Durval, 499
                                              Marcuse, Herbert, 499-500
L                                             masoquismo, 500-1
                                              Masotta, Oscar, 501-2
Lacan, Jacques, 445-51                        matema, 502-3
lacanismo, 451-3                              Mathilde H., caso, 503
Lafora, Gonzalo Rodriguez, 453-4              Matte-Blanco, Ignacio, 503
Laforgue, Ren, 454-6                         Mauco, Georges 503-4
Lagache, Daniel, 456-8                        Mead, Margaret, 504-5
Laing, Ronald David, 458                      melancolia, 505-7
Lair, Lamotte Pauline (caso Madeleine         Meng, Heinrich, 507-8
    Lebouc), 458-9                            Menninger, Karl, 508-9
Lampl, Hans, 459                              Mesmer, Franz Anton, 509-10
Lampl-De Groot, Jeanne, 459-60                metfora, 510
Landauer, Karl, 460                           metapsicologia, 511-3
Langer, Marie, 460-3                          mtodo catrtico, 513
Lanzer, Ernst (caso Homem dos Ratos), 463-5   metonmia, 513
lapso, 465-6                                  Meyer, Adolf, 513-4
Lechat, Fernand, 466                          Meyers, Donald Campbell, 514
Leclaire, Serge, 466-7                        Meynert, Theodor, 514-6
lembrana encobridora, 467                    Middle Group, 516
Leonardo da Vinci e uma lembrana de sua      Minkowski, Eugne, 516
    infncia, 467-70                          Mitscherlich, Alexander, 516-8
Levi-Bianchini, Marco, 470-1                  Moiss e o monotesmo, 518-22
libido, 471-5                                 Moll, Albert, 522
Library of Congress, 475                      Monchy, Ren De, 522-3
Libeault, Ambroise, 475                      Monografias de Psicanlise Aplicada, 523
Lieben, Anna von (caso Ccilie M.), 476       Montessori, Maria, 523
Loewald, Hans, 476-7                          Moreira, Juliano, 523
Loewenstein, Rudolph, 477-8                   Moreno, Jacob Levy, 523-4
logoterapia, 478                              Morgenstern, Sophie, 524
loucura, 478-9                                Moser, Fanny (caso Emmy von N.), 524-5
Lucy, Miss (caso), 479                        mulheres, 525
Luria, Aleksandr Romanovitch, 480             Mller-Braunschweig, Carl, 526
luto, 480                                     Musatti, Cesare, 526-8
                                              Museu Freud, 528
                                              Myers, Frederick, 528
M

Mack-Brunswick, Ruth, 481-2                   N
Madeleine Lebouc, caso, 482
Maeder, Alphonse, 482                         Nacht, Sacha, 529
magnetismo, 482                               Naesgaard, Sigurd, 529-30
Mahler, Gustav, 482-3                         narcisismo, 530-3
Mahler, Margaret, 483-4                       narco-anlise, 533
Mais-alm do princpio de prazer, 484-90      nazismo, 533-4
Mal-estar na cultura, O, 490-2                necessidade, 534
Malinowski, Bronislaw, 492-4                  neofreudismo, 534
                                                               ndice dos verbetes 871

neopsicanlise, 534                      P
neurastenia, 534
neurose, 534-6                           Pases Baixos, 561-3
neurose atual, 536                       Palo Alto, Escola de, 563
neurose criadora, 536                    Pankejeff, Serguei Constantinovitch
neurose de abandono, 536                     (caso Homem dos Lobos), 564-7
neurose de angstia, 536                 pansexualismo, 567-8
neurose de carter, 537                  Pappenheim, Bertha (caso Anna O.), 568-72
neurose de defesa, 537                   parafrenia, 572
neurose de destino, 537                  parania, 572-5
neurose de fracasso, 537                 parentesco, 575
neurose de guerra, 537-8                 passagem ao ato, 575
neurose demonaca (ou diablica), 538    passe, 575-7
neurose de transferncia, 538            patriarcado, 577-8
                                         pavlovismo, 578
neurose fbica, 538
                                         pedofilia, 578
neurose narcsica, 538
                                         pedologia, 578-9
neurose obsessiva, 538-40
                                         Pellegrino, Hlio, 579-80
neurose traumtica, 540
                                         pnis, 580
n borromeano, 541
                                         pnis, inveja do (Penisneid), 580
Nome-do-Pai, 541-3
                                         Pequeno Hans, 580
Noruega, 543
                                         Peraldi, Franois, 580-2
Nothnagel, Hermann, 543
                                         perlaborao, 582
Novas conferncias introdutrias sobre
                                         Perrier, Franois, 582
   psicanlise, 543-9
                                         Perrotti, Nicola, 582-3
Nunberg, Hermann, 549
                                         personalidade mltipla, 583
                                         perverso, 583-7
                                         peste, 587-8
O
                                         Pfister, Oskar, 588-9
                                         phantasia, 590
Oberholzer, Emil, 550
                                         Pichon, douard, 590-2
Oberndorf, Clarence, 550                 Pichon-Rivire, Enrique, 592-3
objeto, 550                              Piggle, Pequena (caso), 593
objeto (bom e mau), 550-1                Plataforma, 593
objeto parcial, 551                      Popescu-Sibiu, Ioan, 593-4
objeto (pequeno) a, 551-2                Popper, Gisela, 594
objeto, relao de, 552-4                Porto-Carrero, Jlio Pires, 594
objeto transicional, 554                 posio depressiva/posio esquizo-paranide,
Oceania, 554                                 594-6
ocultismo, 555                           posterioridade, 596
Odier, Charles, 555                      Prados, Miguel, 596
hm, Aurelia (caso Katharina), 555-6     precluso, 596
Ophuijsen, Johan H.W. van, 556           pr-consciente, 596-7
oral, estdio, 556                       Preiswerk, Hlne, 597-8
organodinamicismo, 556                   Presidente Thomas Woodrow Wilson, O,
orgonoterapia (ou vegetoterapia), 556        598-601
Ortega y Gasset, Jos, 556-7             Prince, Morton, 601-2
Ossipov, Nikolai Ievgrafovitch, 557-8    princpio de constncia, 602
Otsuki, Kenji, 558                       princpio de Nirvana, 602
outro, 558-60                            princpio de prazer/princpio de realidade, 603
872      ndice dos verbetes

projeo, 603                                     realidade psquica, 646-7
psicanlise, 603-5                                recalque, 647-9
psicanlise aplicada, 605-8                       recusa (da realidade), 649
psicanlise de crianas, 608-11                   regra fundamental, 649-50
psicanlise selvagem, 611                         Reich, Wilhelm, 650-4
psicastenia, 611                                  Reich-Rubinstein, Annie, 654-5
psicobiografia, 611                               Reik, Theodor, 655
psicocrtica, 611                                 rejeio, 656
psicodrama, 611                                   religio, 656
psicognese, 611                                  renegao, 656
psico-histria, 611                               repetio, compulso , 656-8
psicologia, 611                                   represso, 658-9
psicologia analtica, escola de, 612              repdio, 659
psicologia clnica, 612                           resistncia, 659-60
Psicologia das massas e anlise do eu, 612-6      Rve veill Dirig, Groupe International du,
psicologia das profundezas, 616                       660
psicologia do self, 616                           Rickman, John, 660-1
psicologia individual, 616                        Rie, Oskar, 661
psicopatologia, 616-7                             Riklin, Franz, 661
Psicopatologia da vida cotidiana, A, 617-21       Rittmeister, John, 661-3
psicose, 621-3                                    Riviere, Joan, 663-4
psicose manaco-depressiva, 623                   Rocha, Francisco Franco da, 664
psicossntese, 623                                Roheim, Geza, 664-6
psicossomtica, medicina, 623-4                   Rolland, Romain, 666-8
psicoterapia, 624-6                               romance familiar, 668-9
psicoterapia existencial, 626                     Romnia, 669-71
psicoterapia institucional, 626-7                 Rorschach, Hermann, 671-2
psiquiatria, 627                                  Rosalie H., caso, 672
psiquiatria colonialista, 627                     Rosenfeld, Herbert, 672
psiquiatria dinmica, 627                         Rosenthal, Tatiana, 672-3
psiquiatria institucional, 627                    Royce, Josiah, 673
psiquiatria (ou psicanlise) transcultural, 628   Rssia (e Unio Sovitica), 673-7
pulso, 628-33
Putnam, James Jackson, 633-4
                                                  S

                                                  Sachs, Hanns, 678-9
Q
                                                  Sachs, Wulf, 679-81
Questo da anlise leiga, A, 635-8                Sadger, Isidor, 681
                                                  sadismo, 681
                                                  sadomasoquismo, 681-4
R                                                 Saint-Alban, Hospital de, 684
                                                  Salptrire, Hospital da, 684
Racker, Heinrich, 639                             Sarasin, Philipp, 684
Rado, Sandor, 639-40                              Saussure, Raymond de, 684-6
Raknes, Ola, 640-1                                Schiff, Paul, 686
Rambert, Madeleine, 641                           Schilder, Paul Ferdinand, 686-7
Ramos de Arajo Pereira, Arthur, 641              Schjelderup, Harald, 687-8
Rank, Otto, 641-4                                 Schloss Tegel, Sanatrio do, 688
Rascovsky, Arnaldo, 644                           Schmideberg, Melitta, 688-9
real, 644-6                                       Schmideberg, Walter, 689
                                                                      ndice dos verbetes 873

Schmidt, Vera, 689-90                            Stoller, Robert, 730-1
Schnitzler, Arthur, 690-1                        Strachey, Alix, 731-2
Schreber, Daniel Paul, 691-3                     Strachey, James, 732-3
Schriften zur Angewandten Seelenkunde            Strmme, Irgens Johannes, 733-4
    (Monografias de Psicanlise Aplicada),       Studienausgabe, 734
    693-4                                        subconsciente, 734
Schultz-Hencke, Harald, 694-5                    sublimao, 734-5
Schultz, Johannes, 695                           Sucia, 735
Schur, Max, 695-6                                Sugar, Nikola, 735
Sechehaye, Marguerite, 696                       sugesto, 735-7
seduo, teoria da, 696-9                        Sua, 737-40
self, 699                                        suicdio, 740-2
self falso e verdadeiro, 699                     sujeito, 742
self grandioso, 699                              Sullivan, Harry Stack, 742-4
Self Psychology, 699-700                         superego, 744
Servadio, Emilio, 701                            supereu, 744-6
sesso curta, 701                                superviso, 746-7
sexologia, 701-3                                 supresso, 747
sexuao, frmulas da, 703-4                     Swoboda, Hermann, 747
sexualidade, 704-5                               Szondi, Leopold, 747
sexualidade feminina, 705-8
sexualidade infantil, 708
sexualidade masculina, 708                       T
Sharpe, Ella Freeman, 708
Sigmund Freud Archives, 708                      Tamm, Alfhild, 748
significante, 708-12                             Tandler, Julius, 748
Silberer, Herbert, 712                           Tausk, Viktor, 748-50
Silberstein, Eduard, 712-4                       Tavistock Clinic, 750
simblico, 714-5                                 tcnica ativa, 750
simbolismo, 715                                  tcnica psicanaltica, 750-2
Simmel, Ernst, 715-7                             Tegel, Sanatrio do Castelo de, 752
Slight, David, 717                               telepatia, 752-5
Sobre os sonhos, 717-8                           terapia ativa, 755
sobredeterminao, 718-9                         terapia de famlia, 755
Sociedade Psicolgica das Quartas-Feiras,        terapia (ou psicoterapia) de grupo, 755
    719-21                                       tpica, 755-6
s-depois, 721                                   Trngren, Pehr Henrik, 756
Sokolnicka, Eugnie, 721-2                       Totem e tabu, 756-60
sonambulismo, 722                                traduo (das obras de Sigmund Freud), 760-4
sonho, 722-4                                     training autgeno, 764
Spaltung, 724                                    transacional, anlise, 764
Spanudis, Theon, 724-5                           transexualismo, 764-6
Spielrein, Sabina, 725-7                         transferncia, 766-70
Spitz, Ren Arpad, 727                           transmisso (da psicanlise), 770
Standard Edition of the Complete Psychological   trauma, 770
    Works of Sigmund Freud, The, 727             travestismo, 770
Strcke, August, 727-8                           Trs ensaios sobre a teoria da sexualidade,
Stekel, Wilhelm, 728-9                               770-3
Sterba, Editha, 729                              Triandafilidis, Manolis, 773
Sterba, Richard, 730                             Trieb, 773
874     ndice dos verbetes

U                             White, William Alanson, 782
                              Winnicott, Donald Woods, 783-6
Unheimlich, 774               Winternitz, Pauline, 786
Unterdrckung, 774            Winterstein, Alfred Freiherr von, 786
                              Wittels, Fritz, 786-8
V                             Witz, 788
                              Wo Es war, 788
Varendonck, Juliaan, 774      Wortis, Joseph, 788-9
Verdrngung, 774              Wulff, Moshe, 789
Verleugnung, 774
Verwerfung, 774
Viena, 774-7                  Z
vitalismo, 777
Vlad, Constantin, 777         Zalkind, Aron Borissovitch, 790
                              Zentralblatt fr Psychoanalyse (Folha Central
W                                de Psicanlise), 790
                              Zilboorg, Gregory, 790
Wagner-Jauregg, Julius, 778   zona ergena, 791
Watermann, August, 778        Zulliger, Hans, 791
Weininger, Otto, 778-9        Zweig, Arnold, 791-2
Weiss, Edoardo, 779-82        Zweig, Stefan, 793-4
